Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 9:59 am

Comprovante de que a Bondade do Pai não descuida de nenhum dos Seus filhos, conversou com as outras gestantes e foi aconselhada por uma delas a inscrever-se num “curso de mãezinhas”, num Centro Espírita perto de sua casa.
Ficou sabendo que quando o curso acabava, cada gestante recebia um completo enxoval de bebé e em alguns casos, até ajuda com uma cesta básica.
Após longa espera, crescendo na alma espanto e a sensação desagradável de desamparo, foi finalmente atendida:
- Parabéns!
Sou o doutor Edson - sorriu-lhe o ginecologista, amistoso, que completou.
Você deve estar muito feliz.
- Feliz, eu?
Como posso estar feliz, doutor, com tantos problemas?
E agora, mais esse...
- A vida fala mais alto que todos os problemas, e o tempo, que trabalha para ela, encarrega-se de resolvê-los, a todos.
E, minha filha, filhos não são problemas, mas, sim, sublimes empréstimos que Deus concede.
Quando as últimas estruturas psíquicas de Ester desabaram e ela começou a chorar, o médico, sempre paternal, confortou-a:
- Eu e minha mulher queremos tanto um filho e não temos essa felicidade.
Se você quiser, quando seu bebé chegar, nós ficaremos com ele e seremos bons pais.
Com a condição de você nunca mais vê-lo.
No instante Ester arregalou os olhos, superou o enjoo e quase gritou:
- O filho é meu!
Ninguém me toma!
Serei a melhor mãe do mundo!
- Claro, minha filha, eu estava só motivando-a.
Cuide bem dele.
Sim, a vida fala mais alto que tudo, no plano existencial, pois ela é criação divina.
Com humildade, conjecturamos ser ela, a vida, a primeira de todas as criações de Deus.
Assim, a maternidade é o sublime energético que demanda de uma vida, gerando outra vida.
E tão poderoso é esse influxo que podemos também supor que sempre há um Anjo presente quando se fundem, numa só, as duas microscópicas células, feminina e masculina.
Ester vinha de sucessivas provações e privações, estando desnutrida e psiquicamente abalada, pois não dormia direito, tendo pesadelos constantes.
Nesses sonhos tormentosos, recentes, via-se frente a frente com uma mulher que expelia faíscas pelo corpo, olhando-a raivosa.
Reconheceu-a, desde o primeiro pesadelo:
era aquele Espírito inimigo natural dos Heinrich - pai e filho - e que pelos “trabalhos” que Campos realizava, havia aumentado tal inimizade.
Arrependeu-se de ter participado de tais reuniões.
O médico, vendo-a melhorar, dispensou-a, reiterando a necessidade de no mínimo uma vez por mês, retornar à consulta.
À saída do OS, Ester viu uma antiga companheira, que havia se transferido do PS Municipal para aquele Posto Médico.
- Oi, Marlene, quanto tempo...
- Ester! Como vai?
- Mais ou menos... Grávida...
- Que maravilha!
Deus abençoe você e seu filho!
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Ave sem Ninho

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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 9:59 am

- Obrigada, Marlene.
Veja você, como são as coisas:
eu não esperava esse filho e parece que “o meu marido” também não o queria, mas na hora que o doutor Edson pediu que eu desse o bebé para ele, aconteceu uma coisa que eu nem sei explicar:
uma força, dentro de mim, como se a própria criança me abraçasse, implorando para eu não a abandonar.
Quase passei uma descompostura no médico.
Marlene não conseguiu conter o riso.
Sem entender tal reacção, Ester, com algum constrangimento, repreendeu levemente a amiga:
- Não estou entendendo seu riso.
Qual a graça?
- O doutor Edson tem nove filhos, bobinha.
Ele sempre fala assim para as futuras mamães que se assustam com a notícia da gravidez.
- Mas... disse-me que a mulher dele não consegue engravidar...
- Hum... O décimo já vem vindo...
Agora, riram ambas.
Embora com amparo de seu protector espiritual, Ester, atraída mais pelo enxoval e pela eventual cesta básica, matriculou-se no “curso de mãezinhas”.
No decorrer do curso, num ambiente de muito carinho e compreensão, assim como as demais alunas, acabou por narrar à responsável e para que todas as colegas ouvissem, todos os seus problemas.
June, a responsável, incentivava todas aquelas sofridas mulheres, insuflando-lhes noções evangélicas, com muito tacto, fazendo-as compreender a essência da vida, dom supremo de Deus a cada ser humano.
Lamentando-se pela perda do fabuloso emprego na “H&H” e os subsequentes percalços pelos quais passara e estava passando, ouviu um dia:
- Todas as gestantes do mundo, ao cooperarem directamente com o plano divino da reencarnação, na verdade, tornam-se “secretárias do Pai”.
E não é só durante a gravidez, pois a criação de um filho é um permanente exercício de amor.
Vocês nunca tinham pensado nisso?
Não. Nenhuma daquelas mulheres tinha tal concepção da gravidez.
- Pois, é - complementou June.
Somos todos filhos de Deus e quando a mulher é mãe, transforma-se em sublime veículo pelo qual o Espírito retorna ao plano encarnado.
Esse “emprego” tem salário pago pelo Criador.
E não me perguntem qual é esse salário, apenas no seu coração está a resposta.
Como as mulheres demonstrassem grande interesse no tema, disse ainda:
- Não existe dinheiro no mundo que proporcione a felicidade de ser mãe.
Se alguma mulher não se sente feliz com a futura maternidade, podemos admitir que provavelmente ela está sob temporária perturbação espiritual.
- June - perguntou-lhe uma gestante - você é mãe?
- Sou. O doutor Edson é meu marido.
Aliás, é o actual presidente deste Centro Espírita.
- Por Jesus - espantou-se Ester - então você está...
- Sim, também estou grávida.
Será nosso décimo filho.
O encaminhamento de Ester, tanto àquele Posto Médico no qual foi atendida, quanto ao Centro Espírita, deveu-se à caridade de Jesus, pelo amparo do seu Espírito protector.
Acaso existe?
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 10:00 am

Decisivamente, não!
Allan Kardec, em O “Livro dos Espíritos”, à questão n° 8, isto é, logo no início, interrogou os Espíritos do Senhor sobre o acaso, num amplo contexto e obteve como resposta que o acaso não faz parte do Plano de Deus, nem no menor dos acontecimentos.
Assim, probante de que o acaso inexiste mesmo, foi o fato seguinte, com Campos.
O ex-motorista da “H&H” continuava realizando as equivocadas reuniões de mediunismo, já que o aprendizado da moral cristã, pelo estudo evangélico, e mais que isso, a prática da caridade, ali não eram o objectivo, e, sim, angariar o concurso de Espíritos para a solução de problemas materiais.
Desempregado há meses, não conseguia arranjar trabalho e cada vez mais culpava Karl pelos seus problemas.
Sobrevivia à custa de algum dinheiro recebido por pessoas que o procuravam solicitando sua intermediação junto aos Espíritos, para solução de problemas - triplo equívoco:
dos consulentes; dele, Campos e dos Espíritos que o atendiam.
Numa daquelas reuniões, novamente a Caridade de Jesus manifestou-se-lhe, só que dessa vez na derradeira oportunidade de modificar tão danosa tendência e iniciar, para já, a auto-reforma moral.
Na recusa, teria que realizar o mesmo roteiro de progresso, só que com a companhia de sofrimentos, de vez que teria se mostrado impenetrável aos inúmeros chamamentos ao dever.
Não podemos excluir Campos, Helmuth e outros Espíritos afins, aqui citados, de um mesmo grupo de seres comprometidos entre si e com o passado, na actualidade situados na tangente divisória entre o arrependimento e a compulsoriedade dos resgates.
A Jules, estava delegada a tarefa de promover tais reencontros para se reconciliarem.
Também, não por acaso.
Jules, por intermédio de um dos médiuns de psicofonia, vulgarmente chamada de “incorporação”, aproximou-se de Campos, numa das suas infelizes reuniões com Espíritos infelizes.
Esse médium, já há algum tempo estava descontente com sua participação ali, reflectindo que aquilo não era correto.
Essa postura facilitou a Jules utilizar-se dele, embora com enorme dificuldade para transpor a barreira fluídica que de há muito se formara naquele ambiente.
Ali estavam vários Espíritos fixados nos prazeres terrenos, sob comando directo de “F A”, ausente no momento.
Jules teve, inclusive, que fazer intenso esforço em modificar sua vibração espiritual, baixando-a a nível consentâneo com o do médium.
Quando conseguiu expressar-se, disse:
- Campos, meu irmão, demais amigos.
Sou humilde servidor de Jesus e venho em nome d’Ele, que ama a todos nós, para fazer-lhes um pedido.
Impaciente e agressivo, Campos atalhou:
- Aqui, quem faz os pedidos somos nós, ou melhor, damos ordens para vocês desse lado aí... aliás, me responda, como é que sabe meu nome, se eu nunca o vi ou ouvi falar de você?
- Nós já nos conhecemos, do passado...
- Como?
Nem sei quem é você.
Como é seu nome?
Campos estava desconcertado, com dúvidas e medo.
Jules, sempre humilde e conselheiro, prosseguiu:
- Sou Jules.
Meu pedido é para o bem de vocês.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 10:00 am

Estudem e analisem o “O Livro dos Médiuns”, de Allan Kardec, particularmente todo o Capítulo XXVI - “Perguntas que se podem fazer aos Espíritos” e complementem a leitura e estudos com a questão n° 304, do Capítulo XXVIII - “Médiuns interesseiros”, do mesmo livro.
- Para quê?
Para mudar nosso trabalho?
Você está pondo defeito nas nossas reuniões?
- De forma alguma eu viria aqui para julgar as actividades de vocês.
Cada ser é responsável pelos seus actos.
Quanto a mudanças, exigem sempre coragem, determinação.
Como disse, sou pequeno trabalhador, que vem pedir, jamais para impor, menos ainda condenar.
- Estou sentindo que você quer nos falar mais alguma coisa...
Pode falar para mim, que eu decidirei por todos, já que a casa é minha e nela mando eu.
- Na verdade, sim, tenho algo importante a dizer, mas não apenas para você, mas para todos que me ouvem.
Estão chegando os tempos em que vocês serão convocados a prestar contas do que estão fazendo.
- Espere um pouco, prestar contas para quem?
- À própria consciência.
- Ora, meu amigo, diga logo o que você quer e se retire depois, pois temos muito a fazer.
- Vou retirar-me.
Antes, peço a cada um que consulte o coração e responda, não para mim, mas para si próprio:
o que vem fazendo aqui há tanto tempo, trouxe-lhe felicidade?
Jules disse essas palavras com tanta humildade, sem qualquer conotação condenatória.
Tocados no íntimo, os médiuns reflectiram, mesmo, que não eram felizes.
Campos, o líder, teve a sensação de que um tribunal íntimo se instalara de repente e vozes interiores, vindas da alma, respondiam à simples pergunta daquele desconhecido:
“não sou feliz com o que faço aqui”.
Nesse momento, algo de impressionante beleza existencial aconteceu, a pequena sala fora iluminada por claridade emergente e suave perfume tresandou pelo ambiente, facto jamais sucedido ali.
Com a maior simplicidade, Jules solicitou permissão para orar e como Campos se mantivesse silente, recitou, com a voz do coração, a prece do “Pai Nosso”.
Aí, graças à Bondade de Jesus, Jules conseguiu transferir-lhe fluidos altamente energizados, que lhe possibilitaram, inclusive, a mediunidade da vidência, inda que episódica, mas por absoluta necessidade do auxílio em andamento.
E Campos viu com quem estava falando, com um Espírito de semblante amigo, em atitude de comovente humildade.
Reconheceu-o:
- O rei! O rei!
Ajoelhou-se e começou a chorar, compulsivamente, ao reconhecer o antigo monarca, tantas vidas passadas.
- Levante-se, Campos, não sou mais rei e, sim, um simples servo do Senhor.
- Jules, anjo bom - disse por fim Campos, conseguindo controlar-se em parte - sou um pobre sofredor, nada dá certo na minha vida.
Vivo doloridamente.
Minha vida nunca foi boa, mas nos últimos tempos está insuportável.
Que posso fazer?
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 10:00 am

- Seguir o mandamento de Jesus que recomenda que as bênçãos recebidas do Pai, jamais sejam comercializadas.
E, infelizmente meu filho, a maneira equivocada como vocês recepcionam visitantes espirituais já transformou essa casa numa loja de comércio espiritual.
Inclusive, há em torno da sua casa uma espécie de cerca de espinhos, havendo uma pequena abertura, por onde entram só os Espíritos que são atraídos para esse comércio.
- Oh! Quando eu permito que os médiuns conversem com as almas é para ajudar alguém...
- Faça um exame de consciência e diga-me o que tem feito da mediunidade que Deus lhe emprestou.
Deveria ser exercida a benefício do próximo, de maneira inteiramente desinteressada e, no entanto, o que mais se cuida neste grupo é do interesse próprio.
- Interesse próprio?
Isso é interesse próprio?
Nunca estive tão infeliz e o senhor me diz que eu deveria agir de modo diferente?
- Você e os demais só estão infelizes porque se afastaram do Evangelho de Jesus.
Aliás, estou aqui porque o Cristo, na sua incomensurável caridade, autorizou que vocês fossem lembrados dos deveres de todo médium.
Devo esclarecer-lhes que até aqui seu livre-arbítrio foi inteiramente respeitado e é por isso que vocês conseguem recepcionar os companheiros desencarnados com os quais estabelecem planos.
Mas, respondam-me com sinceridade:
até agora, qual o sucesso dos planos que vocês fizeram?
Como você próprio diz, Campos, como vem vivendo nos últimos tempos?
Campos caiu em si.
Com profundo mal-estar íntimo, não físico, mas algo assim como se de repente o peito encostasse num bloco de gelo.
Jules concluiu:
- Deus, de infinito amor, zela permanentemente por todos os Seus filhos.
As Leis Divinas que operam em nosso favor advertem que é chegada a hora de você, Campos e seu grupo de encarnados e desencarnados, despertarem para as responsabilidades do trabalho construtivo.
Não sou ninguém para julgá-los, apenas um irmão, igualmente com erros.
Dirigiu-se aos outros médiuns e aos Espíritos desencarnados:
- Imploro a vocês que pensem em Jesus, neste momento, ao menos por um segundo, pregando o Sermão das Bem-aventuranças, dizendo-nos “Vinde a mim todos vós que estais aflitos e sobrecarregados, que eu vos aliviarei” .
Grande paz, pela primeira vez, reinou naquele tosco ambiente, favorecendo aos médiuns e aos Espíritos desencarnados que ali viviam estacionários, quase que o tempo todo, e não apenas durante as perturbadas reuniões.
As palavras de Jules, referentes a Jesus e ao auto-exame, reverberaram em todos e sem grande dificuldade, concluíram que eram mesmo infelizes.
“F A”, mesmo distante, captou a mudança brusca da sintonia dos seus auxiliares e acorreu para verificar a causa daquela “anormalidade”.
Ao chegar, não conseguiu aproximar-se, desacreditando no que via.
De facto, quem, encarnado, se estivesse do lado de fora daquela casa e tivesse a condição de ver a sombria paisagem espiritual na qual vivia mergulhada, se espantaria com a metamorfose que se operou.
A casa, até então “embrulhada” em algo semelhante a grandes plásticos, dos usados para cobrir grãos ou mercadorias, estocadas em pátios, protegendo-os da chuva, começou a iluminar-se, de fora para dentro, por focos de luz, concentrados, que varavam aquelas paredes e a própria noite.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 10:00 am

O mais extraordinário do encantador fenómeno espiritual é que as luzes, após desintegrarem a infeliz barreira de espinhos, atravessavam as paredes e clareando o ambiente, como que acariciavam os presentes dos dois planos da vida.
A grande cobertura fluídica negativa sobre a casa, da cor do ébano, começou a dissolver-se, pouco a pouco e após alguns minutos, desapareceu por completo.
É notável o efeito da paz nos corações, mensageira da felicidade, quando chega, na maioria dos casos proporciona bem-estar tão grande às criaturas que muitas delas, no geral, vindas de demorados sofrimentos, choram.
Ali não foi diferente.
Fazendo um enorme esforço para “não desatar a chorar como mulher” os médiuns masculinos perderam essa batalha fazendo coro com as mulheres participantes da reunião, ninguém ficou sem chorar.
A emoção detonou a barreira que separa os dois planos da vida e as lágrimas, represadas desde há muito, por tantas decepções, frustrações, angústias e dores morais, jorraram face abaixo.
Campos, mola mestra do grupo dos encarnados, sentiu outra sensação vinda da alma, que parecia crescer dentro do peito, invadida por um sentimento tão doce como jamais experimentara em toda a vida.
Outro componente interessante da felicidade é que ela é contagiante e esse foi o motivo pelo qual os médiuns, vendo o “chefe” tão sensibilizado, sentindo que as palavras e o carinho de Jules eram também para eles próprios, desabaram mesmo em prantos convulsos.
Espíritos de há muito mergulhados em infelizes comportamentos e tarefas comandadas por “F A”, das quais sempre resultavam problemas para os encarnados aos quais assediavam, captaram que aquele se lhes apresentava como um instante crucial de decisão:
abandonar o que vinham fazendo e acompanhar Jules rumo a um novo porvir que lhes trouxesse ao menos um pouco daquela paz agora experimentada ou permanecer no que vinham fazendo.
A emoção que a todos envolveu e as lágrimas que igualmente lhes assomaram inesperadas, decidiram por eles:
acercaram-se de Jules e tentaram beijar-lhe as mãos, muitos deles ajoelhados e cabisbaixos como Campos ainda permanecia.
Jules retribuiu o gesto beijando as mãos e a face de um por um dos Espíritos.
Demonstrando grande senso de oportunidade, congratulou-se não só com os desencarnados mas também com os médiuns.
Aconselhou todos a buscarem ajuda divina sempre pela prece e jamais evocarem Espíritos para a solução de problemas materiais.
Exemplificando, proferiu uma prece deixando que o coração falasse mais que a própria mente:
-“Oh!, meu Jesus, quantas graças recebemos todos nós aqui, reunidos em Seu nome.
Somos os pecadores arrependidos que nesta noite de reflexão e de mudança de rota moral declaramos nossa vontade de caminhar na Sua direcção.
Rogamos que nos aceite como os mais humildes tarefeiros do Seu Evangelho, na sacro-santa cruzada redentora a que agora nos propomos.
Obrigado, Jesus!”.
Jules demonstrava ali rara humildade, em se comparando com os demais, postura essa absolutamente sincera, facto comprovado pelas luzes que agora se desprendiam do seu peito e alcançavam um a um dos que ali se encontravam.
Assim, já não era apenas a casa que brilhava dentro da noite, mas grande área adjacente, facto que atraiu muitos Espíritos bondosos que, em coro, começaram a entoar uma suave canção:
“Nossos corações se enchem desta paz e de luz
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 10:01 am

E da felicidade que estas almas solfejam
Ao Céu, na mensagem dos arrependidos, a Jesus
Dizendo: vamos para os justos que lá estejam”.
Estribilho:
“Noventa e nove justos alegres, com o Cristo
Esperam um arrependido, que ao Céu chega benquisto”.
Ao afastar-se, Jules viu “F A”, destilando tremendo ódio.
Olhou-a com ternura inexcedível, mas isso só fez aumentar mais ainda a ira dela:
- Um dia me vingarei dessa expulsão!
Desapareceu dentro da noite, repetindo que tinha sido expulsa, ciente de que ali jamais poderia realizar as actividades que até então comandava.
Ninguém testemunhou as lágrimas a se derramarem em Jules.
Aliás, apenas as estrelas.
A primeira coisa que Campos fez quando a reunião se encerrou foi rebuscar nas suas coisas para ver se encontrava o “O Livro dos Médiuns”.
No peito, ardia-lhe a curiosidade para ler o capítulo que o antigo rei, isto é, aquele Anjo, “viera do além para recomendá-lo”.
Comentou com os médiuns que iam saindo, cabisbaixos:
- Não tenho o livro que o Anjo recomendou que todos lêssemos...
- Eu tenho - atalhou Euzébio, seu vizinho, um homem idoso e que ali viera pela segunda vez, para assistir às reuniões, e que ofertou.
- Vou buscá-lo.
Quando Euzébio voltou com o livro, Campos já estava sozinho, no portão, aguardando, olhando para o céu, enlevado com as estrelas.
Os médiuns já tinham ido para suas casas.
- Sonhando acordado? - brincou Euzébio.
- Parece que sim, senhor Euzébio.
Gosto do céu estrelado e estava aqui namorando aquela estrela diferente, alguém me disse que se chama “Próxima Centauri”, quando parece que ouvi algum coral...
Nisso, vi um raio de fogo lamber o céu.
Parece que saiu lá da estrela.
- Que bom! Fenómenos celestes podem ser um sinal de Deus.
Os povos antigos diziam que um arco-íris era sinal de festa no céu.
Como o arco-íris dura alguns minutos, todos são convidados, mas como o “raio de fogo” dura só um segundo, é um telegrama, só para quem o vê.
- E como seriam essas festas no céu?
- Bem... Jesus disse que há mais alegria no Céu por um pecador que se arrependa do que por noventa e nove justos que lá estejam...
E eu considero que hoje, graças a Deus, muitos foram os arrependidos...
- O senhor tem razão.
Venho pensando há algum tempo, que não é bom nós nos unirmos a Espíritos para obrigá-los a fazer coisas em nosso favor.
Vou encerrar em definitivo essas reuniões.
- Encerrá-las aqui na sua casa, sim, mas em definitivo, nada disso, se me permite!
Vamos apenas transformá-las, de balcão de pedidos materiais em pronto-socorro espiritual.
Encontraremos um Centro Espírita que nos acolha e onde possamos estudar o Espiritismo e ao mesmo tempo exercer as nossas faculdades mediúnicas.
Assim, ao invés de pedir, vamos doar...
- ?!
- Isso mesmo.
Médiuns têm mais é que ajudar os Espíritos necessitados, doando-lhes seus fluidos salutares, de energia vital.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 10:01 am

E mais que tudo, junto com esclarecimentos evangélicos, a fraternidade.
Amor, enfim.
Deus, que tudo vê, sempre fará retornar bênçãos ao doador.
- Minha alma diz que o senhor tem razão.
- Sabe senhor Campos, é Jesus que o está esclarecendo e ajudando a entender os objectivos divinos da mediunidade.
Exercitá-la em benefício do próximo e sempre de forma desinteressada.
Peço que o senhor me desculpe a sinceridade, mas eu hoje vim disposto ou a conversar com o senhor ou abandonar essas reuniões.
- Mas... o que o senhor queria conversar?
Alguém aqui o ofendeu ou prometeu resolver algum problema seu e não cumpriu a promessa?
- Nada disso, pelo contrário, vocês são bons, o que acontece é que minha formação espírita impede de aceitar mediunidade associada à solução de problemas materiais.
Preces sinceras, dirigidas ao Plano Maior, sempre são atendidas por Jesus, que autoriza a Mensageiros Celestiais prestar o auxílio solicitado.
Naturalmente, o merecimento é determinante de como será essa ajuda, mas em qualquer caso, sempre ela ocorre:
integral ou em parte.
Sou seu vizinho há pouco tempo e pela primeira vez, na semana passada, compareci à sua reunião pensando que nela encontraria Kardec...
- O dono do Espiritismo?
- O Espiritismo não tem dono, sendo oriundo de Espíritos do Senhor, que assistiram Allan Kardec para que o codificasse, desse-lhe feição de códigos, isto é, que fosse formado por um sistema estabelecido em bases pedagógicas, fáceis de serem assimiladas por qualquer pessoa, independente do grau intelectual.
- Ele ficou rico?
- De forma alguma.
Era professor e viveu do seu salário como mestre.
Começou a vender grande quantidade dos livros que tinha escrito, após um facto marcante na história do Espiritismo:
no dia 9 de outubro de 1861, na cidade de Barcelona, Espanha, foram queimados em praça pública 300 volumes de obras e opúsculos espíritas, a maioria com a assinatura dele.
- Quais?
- Exemplares de “O Livro dos Espíritos”, “O Livro dos Médiuns”, alguns exemplares da “Revista Espírita” e de “O Que é o Espiritismo”, além dessas, algumas publicações francesas, em menor número, de outros autores, também sobre o Espiritismo.
Kardec ficou bastante preocupado e chegou a pensar em impetrar um processo jurídico internacional, sendo aconselhado pelos Espíritos que o arrimavam, que se mantivesse confiante em Deus e nada fizesse.
Bem, o tal auto de fé, como foi denominada a atitude inquisitorial, teve efeito oposto ao esperado por quem o tinha determinado, o Bispo de Barcelona.
Em toda parte, desde aquela cidade, no país e no mundo, a opinião pública comoveu-se com aquilo, mas ao mesmo tempo quis saber do que se tratava.
Resultado:
os pedidos para Allan Kardec “choveram” de todos os lados, levando-o a vender grande quantidade de exemplares.
- E daí, o que ele fazia com o dinheiro das vendas?
- Reverteu-o em novas edições, além de manter em pleno funcionamento a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que ele próprio fundara em 1858; manteve, ainda, a publicação da “Revista Espírita”, fundada naquele ano, até sua desencarnação, em 1869.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 10:01 am

- Mas, sendo autor dos livros, não pegava nem um pouquinho para ele?
- Absolutamente nada!
A todos os cristãos, Jesus fez uma recomendação séria quanto a dinheiro:
“dai de graça o que de graça recebestes”.
Aliás, Kardec sabia que se não fossem os Espíritos ajudarem-no, ele sozinho não teria condição de sistematizar o Espiritismo, elaborando o trabalho de trazer as luzes espirituais para o mundo, presente sublime que Jesus prometeu quando disse:
“Se me amais, guardai os meus mandamentos; e eu rogarei a meu Pai e ele vos enviará outro Consolador, a fim de que fique eternamente convosco!...
Vos ensinará todas as coisas e vos fará recordar tudo o que vos tenho dito”.
Euzébio fez uma grande pausa.
Passou o exemplar de “O Livro dos Médiuns” às mãos de Campos e ao se despedir, comentou:
- O capítulo que aquele Espírito amigo sugeriu responde a muitas perguntas que você não me fez.
Campos passou a noite lendo o livro.
De verdade, muita coisa que ele nem sequer suspeitava, aprendeu em pouco tempo, ressoando em seus ouvidos a frase do Mestre: “dai de graça...”.
Prometeu solenemente, a si mesmo, que jamais aceitaria quaisquer presentes, fossem em dinheiro, roupas, objectos, alimentos etc., ou sequer uma jabuticaba que ele tanto as apreciava e delas vivia “sugerindo” doações a todos que atendia, ou melhor, às pessoas que buscavam sua intermediação com Espíritos, para que eles resolvessem problemas.
No dia seguinte, cedinho, tendo dormido apenas duas horas, foi procurar Ester na firma em que ela trabalhava.
Surpreso, ficou sabendo que ela não mais trabalhava ali, tendo pedido demissão há três semanas.
Ninguém conseguiu dar-lhe a menor indicação do paradeiro dela.
Voltou para casa, desorientado.
Veio-lhe à mente que os Espíritos que sempre o obedeciam poderiam ajudá-lo a localizar Ester e fazê-la voltar para ele.
Mas, também em seguida, lembrou-se dos conselhos de Jules e de Euzébio, ambos recomendando que jamais se deve evocar Espíritos para solução de problemas materiais.
E aquele era um problema material, só dele.
Reflectiu demorado tempo sobre a Lei Divina de acção e reacção.
Fez um retrospecto mental da sua vida e logo uma certeza e uma dúvida vieram-lhe no pensamento.
A certeza de que Ester representava seu ideal, era a metade que faltava ao seu coração, com ela vivera os melhores momentos da existência.
Porque não descobrira isso antes?
Como a deixara ir-se?
Sem ao menos saber para onde.
A dúvida de que tantas e tantas vezes dardejara ódio contra o senhor Karl que talvez, por isso, seus problemas de agora nada mais seriam do que o retorno à origem, ele próprio, daqueles dardos mentais envenenados.
Estas simples reflexões atraíram Jules que passou a intuí-lo: a prece.
Lembrou-se, na sequência dos pensamentos, de que Jules lhe respondera ser a prece a melhor maneira de acalmar todos os sofrimentos, aliviar todas as dores, e mais que tudo, encontrar forças para resistir às tentações e conseguir ajuda divina.
Aliás, Jules, ali presente, ele próprio o recordara disso.
Arrependeu-se na hora de nem sequer ter pensado em voltar a evocar Espíritos.
Decidiu orar.
Por julgar que seria melhor atendido, ajoelhou-se no meio da pequena sala, aquela mesma onde antes realizava as infelizes reuniões.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 28, 2017 10:01 am

Cabisbaixo, orou:
“Meu Pai, não tenho sido bom filho, bom homem, bom médium...
Nada, nada!
Tenho errado em tudo, tudo!
Mas quero recomeçar e colocar ordem na bagunça que está minha vida.
Será que o Senhor não pode emprestar um Anjo para me orientar?
Só até eu sair do atoleiro em que me encontro...
Nem sei se estou orando do jeito certo, mas é de coração!
Estou pronto para pagar minhas dívidas, só peço ao Senhor para ter um pouquinho mais de paciência e me dar um tempinho.
Vou buscar a Ester e se ela me quiser de volta, vamos nos casar.
Já que estou me abrindo, preciso confessar que estou arrependido, muito arrependido de desejar coisas ruins para o senhor Karl.
Eu era um motorista muito folgado, mesmo.
Proteja-o, Senhor, sempre!”.
Definitivamente, aquela alma despertara para as claridades evangélicas.
Jules chorava, feliz.
Outros Espíritos bons foram atraídos e se comoveram com a rude sinceridade de Campos a extravasar-lhe do sofrido coração.
Campos ainda ia dizer mais coisas para Deus, pois julgava-se “confessando” da mesma forma como aprendera quando criança, com seus pais, aos quais abandonara há anos.
Batidas leves na porta interromperam aquele que era um sublime instante de comunhão da criatura com o Criador.
Com ingénua suavidade interrompeu a prece, murmurando:
“Deus-Pai:
ainda tenho muitas coisas para falar com o Senhor.
Vou ver quem me procura e volto logo”.
Abriu a porta.
Era ela: Ester.
O mundo pareceu girar vertiginosamente e ele, por uma fracção de segundo, sentiu-se qual astronauta em órbita.
A impressão foi rápida, mas forte.
E era verdade.
Ela estava ali, bem à sua frente.
Ester trazia no olhar duas expressões que Campos jamais vislumbrara nela:
humildade e fulgor.
A primeira, auto-explicativa, noticiava a decisão de reatar com ele.
Com efeito, Ester se dispusera a promover convivência pacífica com o ex-amante, para o que contava com a ajuda de Jesus.
Sim, em preces ao Cristo, vinha suplicando que Campos interrompesse “aquelas reuniões” com os Espíritos, pois hoje estava absolutamente convicta de que era por causa daquilo que ambos foram alcançados por tantos problemas.
A segunda expressão, o fulgor...
- Ester!
- Campos, voltei, para ficarmos juntos, se você ainda me quiser e se Deus permitir...
Abraçaram-se com grande ardor, por demorado tempo.
Rosto a rosto, olhando-se intensamente, logo trocaram um ardente beijo.
Ardente mesmo.
O amor, agora convidado especial dos seus corações, os visitava e eles o hospedaram em suas almas, para sempre.
- Preciso ser sincera com você.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 10:33 am

- Ora, Ester, você voltou para mim e isso é tudo quanto eu queria...
Aliás, quem vai ser sincero, serei eu:
agora mesmo estava fazendo uma prece, pedindo a Deus Pai para que você voltasse.
Não é sensacional?
Deus é demais, demais!
- É sobre minha volta que quero falar...
Não voltei sozinha...
- ?!
- Isso mesmo: não estou só.
Estou com meu filho...
- Filho? Desde quando?
Onde? Onde? Lá fora?
Ester respondeu passando a mão com delicadeza sobre a barriga.
Campos ouviu, então, a frase mais doce de toda a sua vida:
- É nosso filho!
Entendeu. Perdeu a voz.
Perdeu o fôlego.
Num gesto espontâneo, vindo do coração e não do cérebro, ajoelhou-se e com ternura colou o ouvido à barriga de Ester, assim ficando alguns instantes.
Intuiu, no mesmo instante, que o filho era seu, sim.
Mas quis ouvir confirmação:
- Meu filho?
- Sim. Seu! E meu! Nosso!
Comovidos, conversaram até a hora do almoço, um contando para o outro tudo o que tinha acontecido naquele breve espaço de tempo em que tinham ficado separados.
Ao final, duas decisões:
a primeira, iriam se casar e a segunda, a de que, juntos, passariam a frequentar o “Centro Espírita do doutor Edson”.
• • •
Na “H&H”, a ideia da co-gestão sugerida por Karl, de início, sofreu grande rejeição, não só por parte de muitos empregados, mas principalmente por parte das concessionárias que comercializavam os veículos da marca.
O presidente realizou repetidas e minuciosas reuniões com os directores e principalmente com o Conselho de Accionistas, contando sempre com apoio jurídico de renomados advogados trabalhistas e tributaristas.
Convocava sempre representantes dos sindicatos ligados à área automotiva, incentivando-os a opinar.
E, principalmente, convidou especialistas em “marketing”.
Tão forte foi o empenho de Karl, cuja sinceridade de propósitos a todos impressionara, que o plano acabou sendo aceite pela maioria, conquanto com modificações que não causaram prejuízo à ideia original, integração total dos empregados.
A seguir, uma bem orientada campanha publicitária despertou curiosidade em vários segmentos industriais e comerciais, muitos deles nem mesmo ligados ao ramo automobilístico.
Todos queriam saber como e por que aquela tradicional fábrica de automóveis mudara tão radicalmente seus métodos, fabris e administrativos.
Nos dias seguintes, enquanto Karl administrava a transformação na “H&H”, assessorado por Evaldo, Cássia foi em busca do Juizado de Menores para a adopção de um filho.
Passaram-se dois meses e a adopção não prosperava, pois nenhuma das crianças indicadas pelas Assistentes Sociais do Juizado de Menores sensibilizou o coração de Cássia.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 10:33 am

Surgiu outro feriado próximo ao fim de semana e mais uma vez o casal decidiu ir para as montanhas.
Dessa vez, convidaram Angélica para ir com eles.
Na véspera, Cássia perguntou à filha:
- Vou com seu pai amanhã para Campos do Jordão.
Imaginamos que talvez fosse bom você ir connosco, para descansar um pouco, pois os exames do vestibular estão deixando-a muito tensa, sem apetite...
- Não sei, mãe, talvez seja melhor eu ficar...
Não ando disposta...
- O clima de lá é tão salutar que só bem poderá fazer a você.
- Vou verificar quais as provas da semana que vem e logo mais à noite dou a resposta.
À noite, quando voltou da casa das colegas, onde foi estudar, Angélica procurou os pais:
- Decidi ir com vocês.
- Que bom!
Arrume sua mala e não se esqueça de que lá é muito frio.
De dia até podemos usar bermuda, mas à noite, só com um abrigo bem quentinho.
- Quero pedir uma coisa:
gostaria que o Tom fosse connosco.
- O quê?!
O incendiário, filho daquele gerente bajulador?
Nem pensar... nem pensar... - atalhou Cássia, irritada.
- Ex-gerente - corrigiu-a Karl, questionando.
O que tem aquele rapazinho a ver com você?
Será que vocês... estão de namoro?
- Mais ou menos, pai.
Mas nada sério.
Só que ele é meu melhor amigo e se não fosse ele eu nem conseguiria entender muitas matérias.
- Minha filha - ponderou Cássia - podendo ter os melhores professores do mundo, você vai procurar justamente aquele rapaz complicado?
Já se esqueceu dos delírios que ele tem?
Aquela gente é muito esquisita e o melhor para você é ficar longe dele.
- Não, mãe, ele não tem delírios.
É uma pessoa bondosa e é meu amigo.
Quanto ao pai dele, desde que papai o demitiu, vem passando por muitas humilhações, pois ninguém quer dar-lhe um emprego no nível do que tinha na “H&H”.
- O quê? - atalhou Karl - quem trabalha para mim é sempre cobiçado profissionalmente pelos concorrentes!
- Não sei disso, pois no caso dele andaram espalhando que foi ele que provocou aqueles dois incêndios, um em cada fábrica.
- Ele?! Porque faria uma coisa dessas?
- Por vingança, é o que dizem.
- Muito bem... vingança de quê?
- O primeiro incêndio, por causa do senhor afastá-lo da família e o segundo, por ter ido lá e tirar toda a autoridade dele, transferindo-a para o engenheiro Evaldo.
- Nunca havia pensado nisso, mas faz sentido.
Diga-me, como o filho dele, lá na praia, disse que foi ele que começou os incêndios?
De um jeito ou do outro, temos que ambos, pai e filho, são mentirosos, e o que é pior, bandidos.
- Pai, como o senhor pode pensar uma coisa dessas deles?
Eu não vou mais com vocês.
Vão sozinhos!
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 10:33 am

Soluçando convulsivamente, Angélica foi para seu quarto.
Resistiu a todos os apelos de Cássia para que abrisse a porta, para conversarem.
Nisso, tocou a campainha. Era Tom.
Cássia atendeu-o, sem convidá-lo para entrar:
- O que você quer aqui, a essas horas?
- Boa-noite, senhora.
Vim devolver um caderno para a Angélica.
- Pode me entregar!
O rapaz, meio sem jeito, entregou o caderno à dona da casa, quando Karl aproximou-se e ironizou:
- Ora, ora, então o “professor” veio ver a aluna?
- Boa noite, doutor Karl.
Não sou professor, na verdade, eu vim para contar a ela...
- Contar, o quê?
Embaraçado, Tom não respondeu.
Ante a agressividade com que foi recepcionado, sentia-se extremamente constrangido.
- Voltarei outra hora, para falar com ela.
Ia se retirando quando Angélica assomou à porta, vindo do seu quarto ao ouvir a voz de Tom.
- Tom! - exclamou Angélica, que passou pelos pais e ficou bem juntinho do colega, numa demonstração clara de que lado estava.
- Ele veio trazer um caderno para você... só que o caderno é dele - disse Cássia, entregando o caderno de volta a Tom.
- Você não tinha outro golpe mais inteligente para vir aqui nos perturbar? - fulminou-o Karl.
Cássia fez-lhe coro na agressão:
- Vamos ter que tomar sérias providências para lhe dar mais um pouquinho de educação.
Angélica, alheia às ameaças dos pais e demonstrando intenso nervosismo pegou na mão de Tom e perguntou-lhe, aflita:
- Tom, qual o resultado?
Corando intensamente, trémulo, envergonhado, Tom ia dizer algo quando um facto surpreendente assustou aos quatro, de forma espontânea, o caderno começou a fumegar e logo se incendiou.
Tom arremessou-o ao chão e pisou-o.
- Jesus Cristo, protegei-nos - balbuciou Cássia, apavorada.
Em resposta à rogativa, Jules apresentou-se, no mesmo instante.
Os restos de folhas chamuscadas, as cinzas, a fumaça e o cheiro de papel queimado comprovavam o incrível fenómeno de efeito físico que a mediunidade de Tom proporcionara.
O próprio Tom estava assustado, ele que de forma inconsciente emprestara seus fluidos específicos ao Espírito da mulher que era chamada de “Fogo Aceso” por infelizes auxiliares.
Ali, “F A” agia sozinha; de há muito, todos os auxiliares tinham a abandonado.
Muitos deles, com a motivação de reconstruir suas vidas, iam agora, com Campos, Ester e Euzébio ao Centro Espírita que eles passaram a frequentar, dirigido pelo doutor Edson.
A figura de “F A”, medonha, felizmente não foi vista por nenhum dos encarnados, pois a simples visão de tão sinistra entidade poderia desequilibrá-los.
Até mesmo Karl, cuja vidência vinha acentuando-se, naquele momento teve a protecção espiritual de não vê-la.
A chegada de Jules surpreendeu ao Espírito tão infeliz, no momento preciso que utilizara os fluidos de Tom para incendiar o caderno, na desesperada tentativa de desestabilizar a família de Karl, tendo induzido Tom a ir ali, àquela hora, para provocar mesmo confusão.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 10:34 am

Antes de Jules abrir a boca para dizer-lhe palavras fraternais, “F A” abandonou o local em desabalada carreira, desprendendo faíscas que caíam no seu rastro, na fantástica fuga noite adentro.
Desapareceu na escuridão, proferindo imprecações contra tudo e contra todos, em total desequilíbrio.
A simples presença de Jules acalmou o ambiente.
Karl protector, abraçou a esposa e pousou o braço com suavidade no ombro da filha, que não se separara de Tom.
Tremendo como um gatinho molhado e abandonado, Tom desculpou-se com sincera humildade:
- Perdoem-me...
E não queria que essas coisas voltassem a acontecer...
Ainda mais com vocês, a quem tanto estimo...
O sentimento nas palavras do jovem era tão comovente e seu olhar para Angélica tão terno, que sensibilizou os donos da casa.
Cássia adiantou-se:
- Vamos entrar... ao menos para tomar uma água com açúcar.
Acomodaram-se na ampla sala de visitas e quando Cássia ia à cozinha, ouviu Angélica repetir a pergunta a Tom:
- Pelo amor de Deus... qual foi o resultado?
- Deu positivo...
Angélica achegou-se a ele e beijou-o com suavidade.
Olhando firme para os donos da casa, Tom ia contar:
- Dona Cássia, doutor Karl, não vim aqui para tratar da escola.
Na verdade, vim para ter uma conversa sincera com vocês.
Sobre mim e Angélica.
Cássia e Karl entreolharam-se, espantados e ansiosos.
Angélica interrompeu-o e com um brilho nos olhos nunca visto pelos pais, com lágrimas discretas, participou-lhes:
- Vamos ter um filho!
Pego assim de supetão, o casal sentiu qual se uma bomba explodisse ali na sala, aliás, duas bombas:
uma, dentro do coração de Cássia e outra, na mente de Karl.
Cássia, até então de pé, ao lado do marido, não se sentou, desabou.
Angélica abraçou Tom e assim permaneceu, sufocando-o, aguardando o que estava por vir, mas demonstrando que o que viesse teria que vir “para os três”.
- Um filho? - tartamudeou Cássia.
- Um neto? - comentou Karl.
- Quando... vocês... - Cássia não conseguia completar a pergunta, de todo inócua.
- Naquela noite que vocês foram para Campos do Jordão - informou Angélica, com precisão, complementando - aliás, combinei com o Tom que se o resultado dos exames comprovassem gravidez, iríamos contar para vocês lá, por isso insisti para ele nos acompanhar.
- Não é isso que eu queria saber.
O que ia perguntar é quando vocês ficaram sabendo que iriam ser pais e quem, qual o médico que lhes disse isso?
- Hoje! - assumiu Tom, acrescentando.
Contei primeiro para papai e mamãe e eles me aconselharam a vir até aqui contar também para vocês.
- Seus pais ficaram sabendo antes de nós? - indignou-se Karl, acostumado a ter primazia em tudo.
- Foi papai que pagou a consulta no médico.
- Que médico?
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 10:34 am

- Um conhecido dele, o doutor Edson, que é ginecologista.
- E o que o seu pai tem a ver com médicos ginecologistas?
- Mamãe teve um pequeno problema e o doutor Edson atendeu-a, no Posto Médico, pois não temos dinheiro para pagar consulta em consultório particular.
- Mas, se não tinha dinheiro para sua mãe, como é que seu pai arranjou para a Angélica?
- Pediu emprestado.
Considerou que a Angélica ficaria em grande constrangimento num Posto Médico onde só são atendidas pessoas pobres.
- Hum... Seu pai agiu bem.
Depois, quando souberam o resultado, o que aconselharam seus pais?
- O mesmo que eu próprio já havia decidido:
vou assumir toda a responsabilidade e, se a Angélica aceitar, vamos nos casar.
Angélica pulou sobre Tom e beijou-o, entre carinhos delicados.
Disse:
- Alguma dúvida, “futuro papai”?
Quero, sim, e muito, ser a “senhora Tom”, brincou.
Karl coçou a cabeça e reflectiu por vários instantes.
Logo, sentenciou:
- É o melhor e o certo é vocês se casarem.
Quero meu neto com meu nome.
A ideia de adoptar um filho evaporou-se no acto.
Após breves instantes, Karl interpelou Tom:
- Diga-me, esse negócio do fogo aparecer... isso é comum?
Vem acontecendo sempre?
- Não, senhor.
Aconteceu na construção da nova fábrica, no pavilhão de pintura da “H&H”, uma vez em casa, queimando um armário, e hoje.
- Temos que saber o que é isso.
- Mais ou menos, eu já sei.
O doutor Evaldo me explicou que quando eu fico agitado, de forma inconsciente libero uns fluidos que algum Espírito utiliza para, juntando com os fluidos dele, provocar esses incêndios.
- E ele não disse como você pode se livrar dessa maldição? - atalhou Cássia.
- Não é maldição, dona Cássia.
É mediunidade.
O doutor Evaldo explicou-me sim, como evitar isso.
Eu é que não dei ouvidos a ele, mas agora vou fazer o que ele sugeriu.
- E o que foi?
- Sugeriu-me que educasse essa faculdade, frequentando um curso de médiuns, num Centro Espírita.
E que por preces atraísse bons Espíritos, pois os maus ou fúteis, que provocam essas coisas, se afastariam.
- E ele garante que com esse curso você vai sarar?
- Não se trata de doença, e sim de faculdade mediúnica.
O doutor Evaldo esclareceu-me que esses mesmos fluidos que põem fogo nas coisas podem ser direccionados para o bem, isto é, podem “queimar” fluidos ruins de pessoas doentes.
- Você não acha isso meio complicado?
- Reconheço que não é normal tudo isso, mas até hoje ninguém, a não ser o Espiritismo, conseguiu explicar esses fenómenos, com lógica e bom senso, preconizando sua administração em benefício do próximo.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 10:34 am

Muitos estudiosos da Parapsicologia enquadraram esses fenómenos na condição de paranormalidade, analisando-os quanto à especificidade, repetência, condições do meio onde eclodem, bem como quanto ao agente catalisador, isto é, a pessoa encarnada sem a qual ele não ocorre.
- E o que a pessoa que tem essa faculdade ganha usando-a para ajudar na cura de pessoas doentes?
- O doutor Evaldo disse que não há felicidade igual àquela que sentimos quando ajudamos alguém, pois nesses momentos nós nos tornamos co-participantes dos planos de Deus, eternamente a nos amparar.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 10:34 am

11. AMOR NA TEMPERATURA MÁXIMA
Evaldo, como de costume, antes de dormir, leu uma página de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”.
A seguir, orou. Adormeceu.
Sonhou com um Espírito bondoso que o convidou para, em breve saída, ir com ele a um local distante, conhecer o esconderijo de uma mulher sofrida e tentarem ajudá-la.
Aquiesceu.
Pela manhã, ao acordar, lembrou-se do sonho, mas não do atendimento.
Uma semana após, voltou a ter o mesmo sonho e a relembrar-se dele, ao acordar.
Aí, na noite seguinte, após a leitura da página evangélica, orou a Jesus, colocando-se como voluntário ao socorro da mulher necessitada que nem sequer conhecia e sobre a qual não fazia a menor ideia.
Adormeceu.
- Muita paz, Evaldo. Sou Jules.
Era o mensageiro espiritual dos sonhos, que vinha carinhosamente recepcioná-lo na estada de todas as noites, no chamado “reino de Morfeu”, o mitológico deus grego dos sonhos, filho da Noite e do Sono.
Teve leve impressão de já conhecê-lo há muito tempo.
- Como vai, Jules?
Sei que há uma mulher precisando de ajuda.
- Isso mesmo.
O caso da nossa irmã é grave.
Por enquanto, vamos chamá-la de Pérsia.
- Conte comigo.
- Graças a Deus!
Contamos com Jesus. Vamos.
Evaldo sentia tranquilidade ao lado de Jules, intuindo que com ele não corria o menor perigo.
Fossem aonde fossem.
Em passo regular adentraram numa região inóspita, pontilhada de arbustos ressecados, sobre os quais aves de aspecto sinistro volta e meia agitavam mui lentamente as asas sem saírem do lugar.
Uma ou outra ave que intentava voar caía estrepitosamente, emitindo pios lancinantes.
- Não se perturbe, Evaldo, Jesus está connosco!
Aliás, nossa missão é deveras importante.
Qualquer sensação física de desconforto poderá ser dissipada pela confiança no Amor do Pai.
Como você mesmo já disse, nesse momento estamos sendo co-participantes dos Planos de Deus, no caso, a Caridade. Confie!
- Foi bom você falar isso, Jules, pois estou sentindo um estranho calor, que está aumentando cada vez mais.
- É natural que você tenha essa impressão.
Mentalize Jesus e nada lhe acontecerá.
Se por outro lado, não houver possibilidade de sua participação nessa tarefa, você será recambiado ao corpo físico, sem nenhum dano.
Aliás, devo informá-lo de que foi trazido até perto daqui nos seus sonhos, como treinamento de adaptação a esse ambiente hostil.
Evaldo rememorou, sem cessar, passagens de Jesus, Seus ensinamentos, Seus exemplos, Sua caridade, Seu amor.
Prosseguiu. Aliás, prosseguiram.
Saía fumaça do chão.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 10:34 am

E esquentava cada vez mais.
Evaldo tinha consciência da elevação da temperatura, mas com o pensamento voltado para o Cristo, imaginava-se mero auxiliar d’Ele, o Bom Pastor, indo socorrer uma ovelha extraviada.
Não obstante seu esforço em não fraquejar, o calor crescente e os gases fizeram com que esmorecesse.
Jules segurou-lhe a mão e advertiu:
- “Tende bom ânimo, sou eu, não temais...”.
Lembra-se de quando Jesus disse essas palavras?
O Evangelista Mateus narra que Pedro e os outros discípulos do Mestre estavam num barco e que o instante era de grande perigo, com o vento forte açoitando o mar.
Avistando o Cristo andando sobre as águas, assustaram-se, quando Jesus os encorajou; logo Pedro também começou a andar sobre o mar a convite de Jesus, contudo, começou a afundar, sendo salvo pelo Mestre que repreendeu-o por ter vacilado na fé.
Evaldo, no mesmo instante, assimilou a advertência e entendeu porque Jules pegou sua mão, com isso lhe dando tanta segurança, estavam aproximando-se de uma cratera fumegante.
- Um vulcão!
- Sim, um vulcão.
Só que sob o solo.
- Como assim?
- Se você observar bem verá que estamos numa imensa caverna e essa cratera recebe calor e gases vindos do centro da Terra, os quais impossibilitam qualquer ser vivo de chegar até aqui.
- Mas...
- Já sei... nossa tarefa é tentar transferir daqui um Espírito cristalizado no mal, e com potencialidades mediúnicas transviadas, que se constituem em revestimento perispiritual capaz de possibilitar-lhe refugiar-se por estas bandas.
- Como assim Jules, “potencialidades mediúnicas transviadas”?
Você se refere à Pérsia?
Refugiar-se de quem? Ou de quê?
- O Espírito a que me refiro é ela sim.
Dotada de rara capacidade, conquistada após séculos de treinamento, quando se viu na posse plena, optou pela “porta larga da perdição”.
Encarnada, em não poucas existências, foi responsável directa por inúmeros incêndios, com vítimas fatais.
Desperdiçou todas as oportunidades que lhe foram concedidas pela caridade do Pai, no sentido de refazer tão infeliz roteiro.
Acumulou tantos débitos que a Providência Divina receitou-lhe caridosas existências físicas a bordo de uma das mais tristes patologias, o pênfigo foliáceo, mais comumente denominado de “fogo selvagem”.
Nem assim permitiu que o coração se pacificasse, ao contrário, mais ódio acumulou na alma, contra a vida, tendo cometido suicídio mais de uma vez.
- Você se referiu a várias existências com o “fogo selvagem”, a suicídio repetido...
Tantas eram assim suas dívidas morais?
- Ajuíze você mesmo.
Qual o incêndio mais tenebroso que a História regista?
- Santo Deus... Roma?!
- Infelizmente, sim...
No ano 64 da era cristã.
Não obstante desenfaixada do corpo físico, fazia parte de um grupo de obsessores responsáveis por aquele triste evento.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 10:35 am

Somente agora, passados tantos séculos, as últimas vítimas se reequilibraram o suficiente para nenhuma delas nutrir-lhe ódio ou ideias vingativas.
Mas ela continua se refugiando aqui, temerosa de ser atacada, como tantas vezes o foi, factor que lhe garantiu pequena atenuante em tantos crimes, já que em muitos deles agiu sob poderosa influência hipnótica dos vingadores do passado.
- Mas como conseguiu sobreviver, ou como consegue viver?
- Seu arcabouço astral permite-lhe estacionar por aqui, livrando-a dos ataques de novos vingadores que seus crimes angaria.
Há até encarnados que desejam massacrá-la.
Por algum tempo manteve sob seu poder um sítio, não distante daqui, associando-se com outros malfeitores desencarnados que lhe davam alguma segurança, de onde escolhiam vítimas encarnadas e planeavam incêndios, em suas propriedades.
- E o que aconteceu para agora estar só?
- Novamente Jesus, com infinita caridade, está ofertando-lhe chance de reparação, de refazimento.
Muitos ex-auxiliares de Pérsia aceitaram a doce oferta do Mestre e actualmente estão alistados na equipe de trabalhos caridosos junto a Espíritos altamente sofredores.
Outros se dispersaram.
Os que despertaram para as claridades do Evangelho reúnem-se semanalmente no Centro Espírita presidido pelo irmão Edson, com o qual sintonizam bem, pois são conhecidos há muito tempo.
- Como ajudar Pérsia?
- Essa a sua tarefa.
Evaldo silenciou.
Um grito horroroso, feminino, tirou-o da contemplação interior:
- Atrevidos!
Viram uma mulher, de cujos poros saíam minúsculas faíscas que logo desapareciam.
Evaldo intuiu quem era ela: Pérsia.
Jules, em prece silenciosa, suplicou a Jesus que Evaldo e Pérsia tivessem lembranças e a memória recuada.
Olhando-se frente a frente, Evaldo e Pérsia quedaram imobilizados por um enorme espanto, ao se reconhecerem.
Difícil quantificar, ali, há quantos séculos não se viam.
Os olhos de Pérsia adquiriram um instantâneo e intenso fulgor, de brilhante escarlate, como se fossem brasas assopradas.
- Oh! sua majestade...
O grande e único rei Shantezim!
- Xaril, Xaril... quanto tempo...
- Ó grande rei, nem tanto assim.
Da última vez que nos vimos, faz apenas dezanove séculos, lá no meio do fogaréu romano...
Mas desde que de princesa fui jogada por você na ralé, já se passaram vinte e um séculos.
O supremo rei não se lembra? - arrematou, mordaz e cruel.
Nele, uma centelha de luz arremessou-o a um cenário distante, há muito tempo.
À lembrança vivificaram-se-lhe, em rapidíssima sucessão, cenas familiares de quando eram irmãos gémeos, tendo ele a relegado, ao ser aclamado rei, por ocasião da morte do pai.
Por isso Jules dissera que “por enquanto” a chamaria de Pérsia.
Na verdade, era Xaril, sua irmã gémea.
Lembrou-se bem de como agiu então.
Xaril foi mandada tutelar um feudo distante de onde só poderia se afastar com permissão real que aliás, jamais concedeu, caracterizando o desterro que lhe impôs.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 29, 2017 10:35 am

Para fazer cumprir essa maldade, contou com a cumplicidade de um nobre, cujo filho boémio e irresponsável, vinha causando grandes transtornos ao pai.
Este, pediu ao rei que o ajudasse, designando tarefa qualquer para o filho, mas que o mandasse para bem distante dali.
O rei, aproveitando-se desse pedido, mandou o rapaz para acompanhar a princesa ao feudo longínquo, também ele só podendo retornar mediante deferimento real.
Que também jamais aconteceu.
Assim rei e nobre afastaram os objectos que ameaçavam sua paz.
Nas vezes que Xaril quis retornar, o filho do nobre impediu-a às vezes usando até violência.
Xaril iniciaria ali, o cultivo do ódio ao irmão, o rei, ao nobre e ao guardião, o qual também passou a odiar o pai e o rei, posto que ambos foram responsáveis pelo seu desterro.
No feudo, abusando do título de princesa, voltou seu ódio contra pobres inocentes, adquirindo estranha compulsão por incêndios, pois pessoalmente queimava-lhes as palhoças, a título de “purificação”.
Não contente, humilhada, carente, revoltada e vingativa, desde, então, Xaril desenvolveu poderes espirituais, empregando-os a benefício próprio, primeiro para concretizar vingança contra o irmão e depois, num equivocado gosto que adquiriu, o de ver ricos soçobrarem, de preferência, por causa de incêndios.
Que ela provocava.
O filho do nobre, de início julgando-se carcereiro da princesa, não tardou a descobrir que na verdade ambos eram prisioneiros da trama real, à qual se cumpliciara o próprio pai.
Passou a odiar o pai, a quem atribuiu toda culpa.
Evaldo teve vários momentos de vacilação espiritual.
Isso não lhe impediu recordar:
o nobre era Helmuth e Karl, o filho dele.
Todos esses factos vieram-lhe à lembrança numa desconhecida dimensão do tempo, pois estava consciente de que nem um segundo se passara.
O Tempo, guardião da vida, ignorando quantos séculos haviam se passado desde então, demonstrava ali a Sabedoria Suprema de Deus que, com bondade infinita, sempre oferta a todas as criaturas, oportunidades preciosas de reconstrução daquilo que tenham destruído.
E mais, ele, o Tempo, sempre se apresenta no instante exacto do despertamento, gerando sábio oportunismo espiritual, colocando culpados e vítimas frente a frente, na dimensão adequada ao perdão recíproco.
Jules, olhos semicerrados, em oração silenciosa, era a única testemunha daquele impressionante reencontro, de Espíritos enredados no passado longínquo e que dois milénios de separação física provavam que entre ambos jamais houvera separação espiritual.
Naquele ambiente da sub-crosta terrestre, de atmosfera sufocante e super-aquecida, o clima espiritual era igualmente adverso.
Da crosta até ali, concentrava-se grande quantidade de fluidos deletérios, pelo sucessivo acúmulo de maus pensamentos, não só de Xaril, mas de muitos outros malfeitores da espiritualidade, aos quais ela se associara por demorados tempos.
Não obstante, os olhos de Evaldo foram inevitavelmente invadidos por uma torrente de lágrimas, que abundantes, rolavam face abaixo, no mais absoluto silêncio.
Logo, num gesto que a humildade comandou, ajoelhou-se diante da irmã e implorou:
- Xaril, minha irmã, perdão!
Por Deus, suplico seu perdão!
- Perdão? Você tem coragem de me pedir perdão?
E o que eu passei?
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 10:13 am

Você imagina o que aconteceu comigo, quantas vezes morri, na miséria, doente, desamparada?
Como o irmão não retrucasse, prosseguiu, brutal:
- Você já sentiu a dor do seu corpo pegar fogo durante anos e você não ter a bênção da morte?... pois foi isso que sofri, com a doença do fogo.
- Sim, sim - balbuciou Evaldo - também sofri o fogo...
- A culpa foi sua.
Quem mandou se bandear para o lado daqueles fanáticos seguidores do Cordeiro Judeu?
Eu e meus companheiros não tivemos, mesmo, escolha, a não ser encaminhá-los para aquela fogueira... na igreja...
- Meu Deus! Frígia!
Então você estava lá?
Oh, Xaril, porque fez isso, matando tantos cristãos?
- Isso mesmo, minha vingança esperou quase quatro séculos.
Aproveitei que meus amigos reencontraram vários inimigos deles distantes de Roma, lá na Ásia Menor e me chamaram.
Com os inimigos nossos, vimos alguns traidores, reunidos na Igreja de Frígia, você inclusive.
Todos tinham se tornado “nos fiéis” “infiéis”, isto é, estavam convertidos à palavra do Messias.
Meus companheiros se vingaram da infidelidade e da traição, mas eu mais que eles, vinguei-me do seu desprezo real.
Arderam todos, queimando seus pecados.
- Quantos tormentos no seu coração!
Como você deve estar sofrendo.
Por Deus! Deixe-me ajudá-la, minha irmã.
Quero fazer tudo o que puder para fazê-la feliz.
Jesus há-de me dar forças para eu consertar meu grande erro.
Mas, ao menos uma vez, responda-me com a voz do coração, você é feliz?
O sofrido Espírito, pela primeira vez, sentiu fraquejar sua disposição.
A humildade de Evaldo conseguiu trincar aquele rochedo de desventuras.
Num auto-exame deduziu mesmo que jamais fora feliz.
Tal constatação reverberou-lhe célula a célula do corpo espiritual.
- É tarde.
Estou perdida para sempre!
Olhe para mim... só perto do fogo é que me sinto segura.
Vendo-o rastejar, estou vingada.
Por várias outras vezes quis destruí-lo, depois de Frígia, mas você ficou inatingível por mim e meus companheiros... sempre com pensamentos nisso que chama de Evangelho.
E ultimamente você voltou a prejudicar-me, livrando da minha acção também aquele pai e filho que lá atrás cumpriram suas ordens e me torturaram com o exílio.
Jules, até então, em preces mudas, ajoelhou-se também.
Olhando para o fumegante tecto da caverna exorou:
-“Jesus, Mestre amado, aceite nossa gratidão por esse reencontro, de almas envolvidas em desenganos, que somos nós três.
De todos, Jesus, sou o maior devedor, mas suplico Sua misericórdia para amainar a tempestade no coração da minha filha, cuja alma traz o fogo da vingança, que se alimenta de ódio.
Que o Seu amor nos redireccione para novos caminhos, num porvir de reconstrução e amor”.
Algo sublime aconteceu.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 10:13 am

Do tecto chamuscado e super-aquecido da gigantesca caverna, sobre aqueles três Espíritos, começaram a cair gotículas, qual serena neve.
Desconhecidos faróis acenderam-se e iluminaram aquele sítio subterrâneo, envolvido ora em labaredas, ora em brumas esfumaçadas de vapor tóxico, talvez por milhões de anos.
Até pareceu que o Sol rebrilhou ali.
O ambiente material, agressivo, deixou de sê-lo para eles.
Xaril e Shantezim, Pérsia e Evaldo, foram subitamente gratificados pela maior surpresa de toda a sua existência, até então:
Jules, rodeado de intensa claridade, teve seu perispírito lentamente modificado, até parecer outra pessoa.
Era-lhes o pai, o rei de então, que ao morrer foi sucedido no trono pelo filho Shantezim, o agora Evaldo.
Ambos exclamaram a uma só voz:
- Papai!
- Filhos queridos!
Estupefacta, diante da tremenda carga emotiva que aquilo despejava em sua mente, decorrente dos raríssimos e sublimes momentos nos quais vinte séculos evaporam-se numa fracção de segundo, Xaril ajoelhou-se diante do pai e beijou-lhe a fronte.
Jules, graças à sua evolução espiritual, utilizando a propriedade que tem o perispírito de plasmar a aparência que lhe convier, apresentava-se agora como o velho rei, ancião, pai de ambos, nos esquecidos tempos.
Para aquela abençoada missão junto aos filhos de tantos séculos atrás, com reflexos não apenas para eles, mas para muitos outros enredados naquela trama, Jules contava com sublime apoio do Plano Maior, dada a profundidade de sua tarefa ali.
O pai, diante dos filhos enlevados, em lágrimas, não conseguia falar, pois a transcendental emoção roubara-lhe a voz.
Mas seus olhos falavam e falavam alto a linguagem do amor.
Envolveu os dois num carinhoso abraço.
Foi inevitável.
Intermináveis lágrimas, represadas há séculos por Xaril, viram-se de repente libertas das amarras do ódio, e saltitantes, “felizes até”, vinham à tona e em profusão escorriam pela face, proporcionando-lhe o frescor da paz.
Esquecido frescor, por quase toda a humanidade.
Jules olhava-os com ternura indescritível.
Compreenderam o apelo.
À reconciliação. E que fosse total!
Os irmãos abraçaram-se com inaudita emoção, trocando fraternais carinhos, armazenados por séculos e séculos.
Seus corpos se amalgamaram na forma do perdão, conferindo-lhes, também a eles, inconfundível luminosidade.
Nesse preciso momento ouviram um suave estribilho que um invisível coral entoava:
“Noventa e nove justos alegres, com o Cristo
Esperam um arrependido, que ao Céu chega benquisto”.
Jules e Xaril trocaram significativo olhar.
Disse ela:
- Antes, ao ouvir esse coral, sofri a dor da expulsão.
Como é que agora, sinto tanto bem-estar?
- É porque filha do coração, naquela oportunidade, tudo o que ouvia se contaminava de ódio e agora você ouve a voz da consciência.
Depois de demorado período, os três, abraçados e chorosos ainda, deixaram aquele sítio.
Evaldo, em grande alegria, passava a mão afectuosamente na cabeça da irmã.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 10:13 am

À entrada da caverna viu dois enfermeiros espirituais, aguardando-os, com uma maca.
Jules instruiu os enfermeiros:
- Vamos levar minha filha, em nome de Deus!
Assim dizendo, interpôs a mão suavemente na fronte de Xaril que, em seguida, adormeceu, sendo carinhosamente colocada na maca.
Evaldo acordou.
Não se lembrava do sonho, apenas tinha vaga lembrança de que tinha dado um passe em alguém muito querido ao coração.
Indefinida, restou-lhe do sonho, a recordação de que assumira o compromisso de ajudar alguém unido a ele no passado distante.
Por sua vez, Jules e os enfermeiros conduziram Xaril à “Seara dos Espíritos”, onde ela permaneceria em prolongado refazimento.
Quando chegaram, Jules propôs:
- Agradeçamos a Jesus que nos permitiu caminhar rumo ao futuro, em justos resgates.
Após breve prece de gratidão a Jesus, reflectiu:
“Há séculos vinha tentando ajudá-la e agora a oportunidade chegou, trazendo-me alegrias ao coração.
Não mais nos separaremos, pois mesmo que estejamos em diferentes planos da vida, ou aqui mesmo em sítios distantes, nossos pensamentos serão o indestrutível elo daqueles que se unem por amor fraternal”.
Assim, ao cabo de três meses foi mantida por seu pai em recuperação sonoterápica, assistida em tempo quase que integral pelo bondoso mentor espiritual, que providenciou que, se essa fosse a Vontade de Jesus, ela só se encontrasse com Helmuth no momento mais adequado.
Considerando já alcançada parcial restauração, Jules despertou-a.
Xaril, a temível “F A” de outrora, abraçou o pai e por demorado tempo assim permaneceu.
O milenar estio de carinho, diante de tanto desvelo, transformou-a em criatura receptiva.
Nos dias seguintes, ouvindo e assimilando os bons conselhos que Jules lhe deu, foi por ele, informada, sempre com bastante ponderação e de forma indene a condenações sobre o roteiro futuro que ela teria que palmilhar, ressarcindo não poucas dívidas.
- Meu Deus! - exclamou Xaril, vendo alguns dos seus delitos, assim mesmo os de menor gravidade.
O que fiz? Quantos inocentes sofreram por minha causa...
- Minha filha, realmente, todos nós cometemos erros.
No caso das pessoas que foram prejudicadas pelos seus actos, cumpre relembrar que a Justiça Divina não permite que o mal atinja aos justos.
Aquelas pessoas tinham que passar pelas dores e provações que as alcançaram, mas Deus, na Sua Infinita Sabedoria, utiliza até mesmo do mal para gerar o bem.
É claro que o Pai não necessita da nossa ajuda, ainda mais pelo erro, para que se façam os reajustes.
A própria natureza tem mecanismos precisos de reequilibrar a balança do bem e do mal, existente em nossas almas, para o controle dos nossos méritos ou débitos.
Tempo virá no futuro a que a cada instante nos arremete a Evolução, em que só um prato existirá, o do bem, já então integralizado.
Xaril ouvia embevecida os conceitos evangélicos de Jules.
Inquiriu:
- Então quer dizer que, mesmo desconhecendo-o, indirectamente fui instrumento da Justiça Divina, quando agia criminosamente?
- Sem dúvida nenhuma.
Mas, dispensável instrumento.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 10:13 am

Consideremos um exemplo:
quando alguém sofre grave violência, sem ter dado causa, seja por parte de um assaltante ou mesmo de forma inteiramente acidental, digamos, um projéctil disparado e em rumo perdido, essa vítima trazia já previsto em seu roteiro reencarnatório tal desconforto.
Estar no local do assalto ou na trajectória do projéctil perdido, isso sim, pode ter sido providência dos Espíritos Siderais, que zelam pelo cumprimento da Justiça Divina.
Vemos a Sabedoria de Deus até mesmo nesses acontecimentos infelizes.
É claro que o atingido quita-se de um débito, não menor sendo a certeza de que aquele que fez o assalto ou o disparo acidental, endivida-se perante as Leis Morais.
A Lei de Acção e Reacção circula parelha com a consciência dos culpados, cedo ou tarde levando-os a querer resgatar as dívidas.
- Pai, quero pagar essa terrível dívida.
Inclusive, andei perturbando outra família que nada me fez de mal.
Refiro-me ao jovem Tom e sua mãe.
O rapaz tem com ele o poder do fogo e eu o obriguei a me obedecer.
Ajude-me, pai, o que devo fazer?
Já vivi algumas vezes com fogo nas carnes...
Será preciso repetir essas dolorosas experiências?
- Filha amada, aguarde o futuro com fé e jamais se esqueça da oração.
Deus não nos criou para a dor, mas, sim, para a felicidade.
O Pai não quer ver filhos sofrendo, chorando.
O que a vida sugere a todos nós para alcançarmos a felicidade é que nos amemos uns aos outros, da mesma forma como Jesus nos amou e ama.
Aliás, é literalmente d’Ele essa sugestão, a qual vem exemplificando desde que a vida se instalou na Terra.
- Mas não é somente pela dor que se paga o mal que fizemos?
- A Lei de Justiça divina, representada por acção e reacção, assim como a colheita será sempre consequência da plantação, não significa que “somente pela dor” o mal é resgatado.
Isso seria o mesmo que julgar ser a natureza um carrasco, matematicamente nivelador de contas, numa justiça onde a Misericórdia Divina estivesse com acesso proibido.
Na verdade, minha filha, Deus é Pai de infinito amor e leva em consideração o que vai no coração dos Seus filhos, quando réprobos e sinceramente arrependidos.
Fez pausa para ela assimilar o que dizia e continuou:
- Imaginemos alguém que venha se mantendo distante do amor ao próximo, em equivocadas existências, causando sérios prejuízos a muitos.
Esse alguém, ao despertar para o Evangelho de Jesus, reconhecendo seus desvios da rota do Bem, pedirá a Deus a bênção de muitas e muitas existências terrenas reparando os males praticados.
- Implorarei a Deus essa bênção e forças para conseguir reparar tantos erros, mesmo sabendo que não será fácil.
- Deus concederá tantas vidas terrenas quantas forem necessárias.
Sim, terá dificuldades, mas quem ajuda o próximo está sempre ao reconforto de Espíritos Protectores.
Assim, as expiações que vivenciar, com o entendimento de que são benéficas, como toda expiação o é, muito mais fácil será suportá-las.
Xaril compreendeu que o pai tomava-a como exemplo, mas, por caridade, utilizou-se da expressão “alguém”.
Jules meditou alguns instantes e complementou:
— Aquele rapaz, o que possui aquilo que você denomina “poder de fogo” é uma raríssima faculdade que Deus empresta a alguns dos Seus filhos para que a utilizem a benefício do próximo.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 30, 2017 10:14 am

Você aprenderá, logo, as maravilhas do Espiritismo e saberá que essas faculdades são ferramentas denominadas “mediunidades”, emprestadas para socorrer necessitados, a partir de quem as emprega.
No caso, o emprego correto é o de promover curas, justamente em pessoas que tenham fluidos muito viscosos, causando-lhes doenças e dores atrozes.
- Fluidos viscosos?
- Sim. Cada um de nós é Espírito, revestido de uma camada extra-física ou semi-material, denominada perispírito, por sua vez revestida do corpo físico.
Ao longo das várias reencarnações, vindo dos reinos inferiores da criação, rumamos inexoravelmente para o progresso moral.
Adentrando na humanidade, a inteligência nos dá condições de ajuizar o que é bom e o que é mau, com reflexos interiores de felicidade ou infelicidade, sob tutela da consciência.
Os fluidos viscosos a que me referi seriam os graves erros que pela repetência se acumulam no corpo perispiritual, danificando-o e criando moldes negativos que se reflectirão no físico.
Xaril retraiu-se de repente, imaginando-se repleta de tais fluidos.
Jules captou seu pensamento e confortou-a:
- Filha, repito, tenha fé na Justiça Divina e não vacile na caminhada futura.
Jesus, nosso Mestre, o modelo de comportamento moral que Deus oferta para todos nós, está sempre ao lado daquele cujo coração é despertado pelo arrependimento.
Você própria é testemunha da bondade divina, pois tão logo uma única centelha do bem aflorou em seu coração, brilhou mais que todo o fulgor das chamas da vingança que o envolviam.
- Pai, por diversas vezes ouvi falar de Jesus e jamais quis encontrá-lo.
Agora, compreendo meu grande equívoco.
E é justamente por isso que vacilo neste momento, pois de há muito venho me opondo a Ele, procurando exactamente o contrário de Suas obras.
O perdão é imanente, incondicional e infinito no coração de Jesus, minha filha...
- Feri pessoas...
Feri amores do passado...
- Não se atormente, apenas mantenha firme a decisão de reconstruir esse passado.
- Há alguém que neste momento está sofrendo muito por minha causa.
Numa existência distante deu-me todo o seu amor... e eu o destruí...
- Sei a quem você se refere, Mirênio.
Conheço a ligação afectiva entre vocês, mas considere que não será justo perturbá-lo com sua presença, que fatalmente despertará nele reminiscências que por enquanto devem permanecer ocultas, para o bem-estar de toda a família.
Seu afastamento já será factor de reequilíbrio para ele.
- Preciso confessar que tenho realmente o atormentado, com meu ciúme, desde que o reencontrei nessa existência física dele, quando conheci o filho, com “aquela” mediunidade.
Suspirando sofridamente continuou:
- Meu prazer permanente era humilhá-lo.
Conseguia, sem dificuldade, obrigá-lo a demonstrar exagerada submissão aos donos da fábrica, resultando disso cenas ridículas e desprezo dos colegas.
Quando ele se mudou para outra cidade, para gerenciar a construção daquela fábrica, consegui me vingar do seu abandono a mim, separando-o da mulher, a quem influenciei para não acompanhá-lo.
Depois, instiguei o dono da fábrica para demiti-lo - reflectiu, arrependida.
- E agora ele e a família estão em grandes provações por minha causa.
À época, fiquei contente com isso, mas há algum tempo o remorso vem doendo muito dentro do meu peito.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

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