Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 20, 2017 10:11 am

4. A FORÇA DA OBSESSÃO
Tudo na natureza é vibração, é dinamismo.
A obsessão não foge a essa regra, pois seus efeitos espraiam-se pelos circuitos individuais dos envolvidos, não raro atingindo perifericamente outros seres que nada têm a ver com o processo negativo.
Nada têm a ver, directamente.
Indirectamente, sim, esclarece-nos o Espiritismo.
Não existe injustiça nos acontecimentos infelizes que independem da acção dos que por eles são alcançados.
Apenas como conjectura, citemos um exemplo de ónus moral, adquirido indirectamente, isto é, sem acção do devedor.
É muito comum observarmos pessoas ociosas, em horários nos quais milhões de outras estão labutando pela conquista do pão de cada dia.
Muitas dessas pessoas, inactivas, entre aposentados, ou desocupados por vocação, certamente poderiam prestar pequenos serviços à comunidade, voluntários e gratuitos.
Quanto a desempregados, não se espera, naturalmente, que trabalhem de graça, mas o facto de se dedicarem a alguma entidade assistencial, por exemplo, atrairia para junto deles vibrações positivas.
Não tem sido raro que na sequência dos acontecimentos, passando a conhecer pessoas e empresas, não tarde a surgir a vaga profissional, remunerada.
Não se imagine, jamais, que só os Espíritos infelizes têm poder de influenciar determinados factos dos encarnados.
Não! Ao contrário, a Espiritualidade Amiga acompanha a trajectória encarnada das pessoas, muitas delas sob sua protecção, por ligações afectuosas do passado ou por atendimento a preces, deles, ou de outrem que lhes queira bem.
E esse acompanhamento, perimetrado por inteiro dentro do perfeito equilíbrio estabelecido pelas Leis Divinas, muitas vezes, confere-lhes autoridade e capacidade para auxiliar àqueles que detenham merecimento.
No exemplo que citamos, mas não apenas nele, factor inexorável de atendimento à necessidade será o merecimento individual.
Jesus recomendou oração e vigilância permanentes e esse alerta hoje, 1999, tem seu significado integral decodificado pelo Espiritismo:
a Terra é um planeta onde o mal prepondera sobre o bem; no plano espiritual que a circunscreve habitam e circulam cinco ou seis vezes mais Espíritos desencarnados do que os 5,7 biliões de encarnados, pelo que têm eles a responsabilidade de não se deixarem influenciar pelo negativismo.
Um obsessor, encarnado ou desencarnado, extremamente imbuído de ódio, é cem vezes mais destruidor do que um animal predador, do que uma serpente venenosa ou do que um insecto pestilento.
Tem ele a capacidade letal do vírus, pois que também, assim como este, a obsessão é invisível e de acção sorrateira, quão insistente.
Dissemos, acima, que tudo na natureza é vibração, dinamismo.
Acrescentamos, agora, que todas as associações espirituais, entre encarnados ou desencarnados, são regidas pela sintonia vibratória.
Quando no plano espiritual, havendo semelhança de pensamento e de influxo mental, não há a menor dificuldade para os Espíritos se identificarem e se reunirem uns com os outros.
Diferentemente, quando no plano encarnado, as almas se agrupam por sintonia, mas também, por condições sociais.
Lembrassem disso e não poucas pessoas já brindadas pelas luzes espíritas policiariam seus pensamentos e acções, quais se fossem equilibristas permanentemente na corda bamba, a grande altura.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 20, 2017 10:11 am

Quanto aos que ainda desconhecem o Espiritismo, talvez essa seja outra providência que deve acometer aos espíritas:
informá-las sobre isso.
Ester e Campos, trabalhando na empresa de táxis, pouco se falavam.
Entre ambos havia como que um campo de defesa impeditivo de se aproximarem.
Contudo, a cada dia que passava, em suas almas crescia o ódio contra Karl e, decorrente desse ódio, um enorme desejo de vingança.
Nem demorou e os dois, com a alma parcialmente emancipada pelo desdobramento que o sono proporciona, reuniam-se no plano espiritual, ali mesmo no local que residiam.
Não podemos deixar de assinalar como é assombroso o facto de pessoas encarnadas tramarem algo, quando espiritualmente libertas em parte pelo sono, mas ligadas ao corpo físico, pelo cordão fluídico.
Assombroso, mas real.
Havia algo tenebroso no ambiente.
Sombras que se moviam, gemidos, gritarias distantes.
Ester alegrou-se ao ver Campos aproximar-se:
- Oi, Campos, que bom você chegar, pois estou com medo e com frio.
A culpa é dele... não vejo a hora de arrasar com aquele bandido...
- Oi, Ester, também eu não penso em outra coisa.
Mas vamos falar baixo... sinto que somos espreitados.
- Ele é poderoso, talvez sejam empregados deles.
- Acharemos um meio de nos vingarmos... não vamos ter medo de nada.
- Se ao menos o pai dele nos ajudasse...
- O senhor Helmuth sumiu nas sombras da morte e não adianta esperar por ele... se tivesse que fazer alguma coisa, já teria feito.
No entanto, o que vemos?
O miserável do filho progredindo cada vez mais...
- Quem falou para você que ele “sumiu” nas sombras da morte?
- Ora, então você não percebe?
Cadê ele?
Esses encontros passaram a repetir-se quase todas as noites.
Tanto Ester quanto Campos, ao acordarem, não se lembravam.
Mas em suas mentes, o ódio por Karl cada vez mais cristalizava.
Numa noite, estavam ambos no plano espiritual, como sempre destilando ódio e sob terrível sensação de estarem sendo vigiados.
De repente, apareceram dois homens, jovens, que foram se aproximando.
Tinham aspecto sombrio, olhar vidrado, gestos lentos.
Ester quis fugir.
Campos acalmou-a:
- Então vocês apareceram, finalmente?
- Você os conhece?! - perguntou Ester, trémula de pavor.
- Claro, pois então não ganharam um montão de presentes que eu lhes dava, às sextas-feiras, lá nas nossas reuniões?
E dirigindo-se aos dois:
- Onde estavam?
Por que sumiram?
Não gostei da sua ingratidão.
Vocês estão me devendo favores e vão ter que pagar.
Embora de robusta complexão, temiam a Campos.
Submissos:
- Nós... - balbuciou um deles - fomos obrigados a trabalhar para uma quadrilha que furta residências luxuosas.
- Como assim?
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 20, 2017 10:12 am

- Nossa tarefa era fazer a família brigar, na hora de dormir...
- Para quê?!
- Quanto mais feias as brigas, mais perturbadas ficavam as pessoas das famílias e, com isso, quando dormiam, chegavam aqui desorientadas, sendo fácil a outros de nós (Espíritos) prenderem um a um e só soltarem quando o furto se consumava.
- Mas - interveio Ester, não contendo o espanto - o que vocês, isto é, a quadrilha, ganhava com esses furtos?
O próprio Campos explicou:
- Os encarnados furtam valores materiais e em troca, oferecem “coisas” que os desencarnados precisam... uns ajudam aos outros... e vice-versa...
- Não entendi nada!
Que “coisas”?
- Depois explico.
Agora quero acertar umas contas com esses dois ingratos.
Os dois rapazes encolheram-se, receosos.
Campos inquiriu-os:
- Então? O que ganharam com a quadrilha que eu já não lhes houvesse dado?
Hein? Hein? Respondam!
- Eles nos prenderam e bateram muito...
Não havia como desobedecer.
- E onde estão agora?
Quero falar com o chefe deles.
Ele vai ter que me dar explicações.
- Juntaram-se a mais umas quatro ou cinco quadrilhas e nos abandonaram dizendo que não prestamos para o golpe que iriam dar...
- Golpe? Que golpe?
Que história é essa de juntar quadrilhas?
- É isso mesmo.
Vão dar um grande golpe.
Expulsaram nós dois e mais outros porque fomos reprovados em alguns testes.
- Quero saber agora mesmo qual o grande golpe e que testes foram esses que reprovaram vocês para actuarem nele.
Vamos! Falem logo!
- Os testes foram muito ruins.
Tínhamos que bater, um no outro, até não aguentar mais.
E isso, nós dois, nos recusamos e mais alguns também se recusaram a fazer.
- Mas, como bater um no outro?! Para quê?
- Para provar que não respeitamos nem os amigos...
Ester não acreditava no que ouvia.
Sem ao menos conhecer as quadrilhas, passou a temê-las.
Assustou-se mais ao ouvir Campos:
- Mais tarde vocês me levem até essas quadrilhas.
Agora tenho um trabalho e não vou admitir que falhem.
- Sim, senhor.
- É o seguinte:
compareçam no “meu escritório” no dia de sempre e na mesma hora.
Não faltem.
Acordaram.
Ester, ao abrir os olhos, deparou com o olhar fixo de Campos, dirigido a ela.
Seus olhares imantaram-se e por momentos, nem mil frases teriam produzido idêntica simbiose mental de suas fixações mentais com os seus silêncios somados.
Ao café, ainda como sempre sem se recordarem do que sonharam, Ester comentou:
- Como estará a alma do senhor Helmuth?
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 20, 2017 10:12 am

- Engraçado... estava pensando nele...
- Coincidência!
Que pena que ele morreu...
Penso que, assim como ele, também morri... pelo menos um pouco.
Não tenho mais graça de viver... se é que se pode chamar de vida o que estou passando.
- Minha casa e minha companhia são tão ruins assim?
- Você é a única coisa boa que me restou... sem você eu já não estaria mais neste mundo... nunca poderia ser ingrata, depois de ser acolhida na sua casa e nos seus braços.
- Então, que negócio é esse de “não ter mais graça de viver”?
- É isso mesmo.
Só espero uma coisa do mundo.
Arrasar aquele canalha.
- Interessante.
Estava pensando a mesma coisa.
Fazendo longa pausa, Campos retomou:
- Não sei se você acredita numas coisas... com as almas.
Elas nos ouvem, nos ajudam ou nos atrapalham...
- Cruz credo!
Não gosto desse assunto.
- Mas, escute.
Eu e você jamais poderemos chegar perto do senhor Karl, não é verdade?
Mas há quem pode...
- Quem?
- Amigos meus, invisíveis.
- Almas do outro mundo?
É isso? Tenho pavor!
- Sei como conversar com as almas e como fazê-las nos ajudarem.
Basta dar com a direita e receber com a esquerda... tanto nesse mundo como no outro, a lei é uma só:
favor trocado deixa de ser favor, é negócio!
- Mas... o que dar às almas se elas não podem pegar?
- Aí é que está.
As almas com as quais eu negocio gostam de sentir prazeres e isso podemos ofertar, criando ou dividindo ocasiões nas quais o prazer jorra igual ao petróleo.
- Não estou entendendo...
- Preste atenção.
Conheço dois companheiros que andam nas drogas... de vez em quando eu os convido para assistirem a meu “trabalho”, pois, assim, ao se drogarem depois, já não estarão sozinhos, uma ou outra alma que também gosta das drogas gruda neles.
- Mas, Campos, por que uma alma ficaria com eles se as almas já morreram?
- Morreram, nada, estão mais vivas, até!
Como a droga dá sensações fortes, essas almas sintonizam o drogado e roubam parte dessas sensações.
Assim, os vivos, sem saber, são fornecedores indirectos dos mortos... entendeu?
- Estou com medo!
- Na próxima sexta-feira, se você quiser assistir, verá que não precisa temer.
Eu mando nas almas.
Decidi, agora mesmo, que voltarei a realizar reuniões com meus amigos “do lado de lá”.
Aliás, minha decisão é porque acordei com a impressão de que eles estão com saudades de mim e precisando de presentes...
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 20, 2017 10:12 am

- Mas... por que na sexta-feira?
- Não sei, direito.
Talvez porque, pelas tradições, foi numa sexta-feira que o mundo cometeu o maior mal da história contra o Cordeiro de Deus.
Assim, para resgatar aquele erro, o resultado dessas reuniões é um ato de justiça com cobrança para os malvados do mundo.
Sim, porque quem é bom nada tem a temer...
Reagrupando os Espíritos conhecidos, Campos comandou, na sexta-feira seguinte, uma equivocada reunião mediúnica, como sempre fizera.
Evocou “Espíritos fortes”, pois pretendia que realizassem “um trabalho pesado”.
Se ele soubesse, nem se teria dado ao trabalho de ficar quase uma hora requerendo a presença “das almas”, como repetiu exaustivamente.
Antes mesmo de o grupo estar completo, já pululavam Espíritos na sua casa.
Dialogavam esses Espíritos:
- Oba! O amigão voltou à activa.
E trouxe munição para nós.
De caso pensado, Campos convidara toxicómanos que aceitaram o convite.
Esses infelizes irmãos eram a “munição”.
- Que bom! Voltaremos à vida mansa.
- Pois é, ele está com raiva do ex-patrão que o demitiu de forma humilhante.
Só de pensar no homem, nosso amigo ferve.
- Quem é o ex-patrão?
- É um ricaço, dono de uma fábrica de automóveis.
E eu já estou com raiva dele também.
- O que ele fez para você não gostar dele, se não o prejudicou?
- Nada. Mas se o Campos não gosta dele, eu também já não estou gostando.
Inimigo dos meus amigos são meus inimigos...
- E a mulher que está com o Campos, quem é?
- É amiguinha dele, que também foi demitida.
Juntaram-se na vida e na raiva contra o tal ricaço.
- Olha aqui, uma coisa... já não gosto também desse que anda por aí demitindo seus empregados.
Se precisar de mim, vamos lá dar uma lição nele.
Vários outros Espíritos fizeram a mesma profissão de apoio, todos já odiando Karl.
Sem sequer conhecê-lo.
Dispensando-nos dos detalhes, o facto é que após o infeliz ato de mediunismo, Campos e Ester já não estavam sozinhos no ódio contra Karl.
Muitos Espíritos infelizes se acumpliciaram a eles num sinistro plano de prejudicarem o poderoso herdeiro do formidável império industrial.
Aos dois Espíritos que Campos conhecia, foi atribuída a tarefa de localizar onde estava Helmuth e trazê-lo para o grupo, já que seria útil ao plano de vingança contra o próprio filho, face sugestão de Ester.
Naquela mesma noite, os momentos de intimidade de Campos e Ester já passaram a ser testemunhados por estranhos co-participantes do além, que a eles se ligaram, roubando-lhes parte das sensações.
Ali, mais uma vez a lei de acção e reacção se manifestava - tanto quanto os viciados em drogas, também eles passaram a ser “municiadores” de sensações promíscuas para usurpadores do além.
Ambos não souberam explicar por que a partir daquela semana exacerbaram seus impulsos sexuais.
É que o êxtase resultante era dividido por mais de dois.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 10:03 am

Quando o filho o enfrentara, pela primeira vez, discordando frontalmente quanto ao local da nova fábrica, Helmuth teve a sensação de que um tijolo atingira sua cabeça, na nuca.
Seu primeiro impulso fora o de demiti-lo no ato, promovendo cenas de grande humilhação àquele “moleque atrevido”.
Na sequência da agressão verbal de Karl, incensada esta pela sua não-reacção, imaginou que um segundo tijolo atingiu-lhe a boca do estômago.
E como o “moleque” açoitasse ainda mais sua autoridade, chegando ao cúmulo de culpá-lo pela desencarnação de sua venerada Madeleine, decidiu, no ato, mesmo em meio a inesperadas e fortíssimas dores, na cabeça, braço esquerdo, peito e no estômago, que a punição teria que ser muito mais forte.
Só demissão seria pouco.
Campos seria encarregado de providenciar-lhe um correctivo físico, que o amansasse no hospital para o qual teria que ser conduzido para recuperar-se da surra que lhe seria aplicada.
“Pedagógica surra”, pensava.
Aí, veio um terceiro tijolo.
Esse, bem no meio do peito.
“Engraçado”, imaginou, “vou sair daqui...”.
E, com efeito, sem que fizesse o mínimo esforço ou movimento, percebeu-se em duplicata, metade no ar, fora do corpo, com a outra metade dentro, mas saindo...
- Quem são vocês?! - indagou nervoso e autoritário para três indivíduos mal-encarados que entraram no gabinete presidencial, sem bater.
Ameaçou-os:
- Quem são? O que querem?
Saiam já! Não vêem que estou ocupado?
Atrevidos!
Logo que der uma lição nesse outro infeliz, meu filho, cuidarei para que a polícia os distraia.
Não entendeu porque não foi obedecido.
Pela primeira vez na vida.
Os três intrusos dirigiram-se para onde estava “sua duplicata”, com a cabeça tombada sobre a mesa.
Sem o menor respeito ou pudor, começaram a se agarrar a ele, bem entendido, à duplicata inerte.
Quase desmaiou ante a visão infernal dos homens colando a boca em várias partes do seu corpo inanimado, sugando.
Mas, sugando o quê?
Helmuth sentiu-se presa de pavor.
E o pavor, às vezes, confere desconhecidas forças.
Helmuth-espírito atirou-se intempestivamente sobre os malfeitores que vampirizavam-lhe a “duplicata”:
- Animais, hienas, chacais... vou mandar matar vocês!
Os homens simplesmente o ignoraram e prosseguiram na acção sinistra.
Perturbado por ter se transformado em dois; com ódio do filho malcriado e daqueles invasores que de forma vampiresca se agarravam ao “outro ele mesmo” e aturdido diante daquela cena de horror, onde ele era objecto, Helmuth sofreu um curto-circuito cerebral e desmaiou.
O que lhe foi suprema bênção.
Quando recobrou os sentidos, já não raciocinava bem e no mesmo instante veio-lhe à mente: vingança!
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 10:03 am

Olhou em volta e só a escuridão lhe era companhia.
Por inúmeras vezes tentou desesperadamente se mexer, mas não conseguia.
Começou a gritar, ou melhor, esforçou-se por gritar, mas a voz não o obedecia.
Revolta e mais ódio o envolveram.
Tamanho esforço logo levou-o à perda da consciência novamente.
Mais tarde, voltou a “acordar”.
Mesma coisa, imobilidade física total e sem voz.
Novas tentativas, mesmo fracasso.
Perdeu a noção do tempo e do espaço, pois além de nada ver, não conseguia movimentar-se e nem mesmo emitir uma única palavra.
Todas as tentativas que fazia redundavam em sono irresistível.
Pior, faltava-lhe o ar.
Numa das vezes que se imaginou desperto, ajudou-o o cérebro altamente adestrado para análises, fruto de mais de quarenta anos sempre em posição de mando.
Embora só voltadas para o dinheiro, nesses anos todos, as suas decisões eram sempre resultantes de demoradas reflexões.
Assim, raciocinou precariamente, com dois ou três centésimos da capacidade cerebral:
“acordo e durmo, acordo e durmo; tento movimentar-me e não consigo; não vejo nem ouço nada; isso não existe e devo estar num pesadelo; só se alguém me ajudar poderei sair daqui... mas, quem?”.
Subitamente, sentiu um calor no peito.
Voltou a reflectir:
“se eu me desesperar, volto a dormir... o negócio é usar meu dinheiro, meu cargo, meu poder.
Mas o ar... quero ar...”.
Teve um estalo:
“onde estará aquele ingrato do Campos que nem sequer vem me dar uma ajuda?”.
Campos captou o apelo, pela forte sintonia existente entre ele e o ex-patrão, exactamente quando, embriagado, dizia que o senhor Helmuth o chamava.
Isso aconteceu no preciso instante em que Helmuth, preso aos despojos mortais, pensara no “ingrato motorista”, que não vinha socorrê-lo.
Como se vê, é poderosíssima a atracção que algema espírito a espírito, mente a mente, cérebro a cérebro, pessoa a pessoa.
É pela sintonia vibratória que tal ligação se processa, e é mil vezes mais forte do que a algema feita do melhor aço.
Isso porque a algema material é vista e a simbiose espiritual negativa se disfarça em sentimentos contraditórios.
Oculta-se em equivocadas justificativas que concedem “todo o direito do mundo” para os cativos fazerem o que for preciso para se libertarem, pois convence-os que são inocentes.
Para ambos, configura-se a alegórica advertência de Jesus:
“Guias cegos, que coais o mosquito, mas engolis o camelo!”
Algo inacreditável aconteceu:
o ar começou a apresentar uma leve claridade e pela primeira vez, desde o início daquele já demorado tormento, Helmuth conseguiu mover-se.
Logo avistou dois vultos que o olhavam curiosos.
Eram dois rapazes, robustos.
Estavam de pé e ele deitado.
Deram-lhe a mão ao mesmo tempo e ajudaram-no a erguer-se.
Quando ficou de pé olhou para sua cama e diante do que viu emitiu um grito pavoroso:
era um caixão, apodrecido, e dentro dele, despojos cadavéricos. Seus despojos.
Cambaleou, foi amparado pelos dois “salvadores” e vislumbrou o cenário à sua volta: um cemitério.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 10:03 am

Forte demais, a comoção roubou-lhe a consciência.
E assim permaneceu por período mais ou menos longo.
• • •
- Você não pediu ajuda ao Campos? - um daqueles rapazes aduziu.
Foi ele que nos contratou para ajudá-lo.
Olhou em volta.
O ambiente era outro.
- E... o cemitério?
- Ficou para trás.
Aqui é onde passamos o tempo.
Nós dois trouxemos você há dias, desmaiado.
Olhou em volta e novo choque, estava em seu gabinete.
- Mas... isso aqui é meu!
- Era! Agora é do seu filho.
- Ah! Aquele moleque me paga.
Quando eu pegá-lo... vai ver só.
- Sim, você vai acertar contas com ele.
- “Você”, não... senhor - corrigiu Helmuth.
- Mais uma gracinha dessas e volta para lá - ameaçou um deles.
O poderoso Helmuth captou que falavam sério.
Sabia, ou melhor, entendeu para onde ameaçavam levá-lo.
De alguma forma, no momento, sentiu-se inferior.
Julgou prudente não reagir agora.
Mais tarde, colocaria as coisas em ordem e aqueles dois serviçais também teriam sua lição de bons modos.
- O Campos - ordenou um dos rapazes - mandou-nos tirá-lo da sua toca e como pagamento você vai fazer um servicinho para ele.
- Toca? Qual toca?
Não sou fera para ficar em toca.
E que servicinho?
E mais... desde quando um subalterno dá ordens ao chefe?
- Não tem jeito - resmungou o outro jovem — ele ainda precisa completar o estágio de obediência...
Precisa ficar mais uns tempos lá... parece que cinco ou seis meses não amansaram a “fera”.
Agarraram-no à força e sem que entendesse o que se passava levaram-no de volta ao cemitério.
Com violência aproximaram-no de onde o haviam tirado e informaram que iriam deixá-lo ali, “do lado de fora da toca”, preso.
Sem entender como aquilo era possível, Helmuth sentiu-se inexoravelmente atraído para seus despojos.
Relutando como fera, o máximo que conseguiu foi ficar do lado de fora da sepultura, mas impedido de afastar-se.
Sombrio ambiente envolvia aquelas paragens, com vultos deslocando-se sorrateiros, alguns deles vindo para perto dele e logo se afastando.
Tanto ele quanto os “colegas” espantavam-se quando se olhavam, pois suas fisionomias denunciavam as alterações da decomposição física.
Dessa vez não desmaiou.
E também, agora, conseguia gritar.
Quanto mais imprecações dizia, mais lhe doía o peito.
Quanto tempo ficou ali?
Dias? Semanas?
Não saberia dizer.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 10:03 am

5. TEMPERATURA ELEVANDO-SE...
Três reuniões de mediunismo após Campos determinar aos dois auxiliares do plano espiritual que fossem localizar o senhor Helmuth, ainda não tinha recebido qualquer notícia do cumprimento da missão.
Assim, antes de adormecer, comentou com Ester, certa noite:
- Aqueles malandros estão demorando a me obedecer.
Porque será que não me dão notícias do senhor Helmuth?
- Sinto arrepios quando você fala dessas “almas penadas”, contudo, seria tão bom se o senhor Helmuth ainda estivesse vivo...
Foi o suficiente.
Ao adormecer, tão logo se viram parcialmente desdobrados pelo sono, ambos se encontraram com os dois Espíritos a que se referiram.
Encontros tais no plano espiritual, entre encarnados desdobrados e Espíritos afins são plenamente explicados no Espiritismo pela sintonia vibratória entre eles, funcionando como fortíssimo ímã que os atrai.
Outro não é o motivo pelo qual os Protectores Espirituais sempre recomendam que antes de adormecer, será de grande utilidade para a paz interior, a leitura de uma página do Evangelho de Jesus, seguida de prece em favor dos inimigos, ocultos ou não.
- E aí, por que não me procuraram?
O que já fizeram? E o bandido?
- Fomos readmitidos pelos antigos companheiros.
Quanto ao pai, está em estágio pedagógico... agora, para o bandido do filho, está sendo armada uma grande confusão, que vai dar-lhe muita dor de cabeça e prejuízo.
- Muito bom, muito bom.
Para quando, tudo isso?
- É sobre isso que “Fogo Aceso” quer falar com vocês dois.
- “Fogo Aceso?!
Quem é? Onde está?
- Acompanhem-nos.
Um tanto quanto desconfiados, Campos e Ester seguiram os dois jovens, por uma trilha.
Após caminharem bastante, vencendo vários obstáculos, tais como lama, lodo e arbustos espinhosos, chegaram ao pé de um pequeno monte, em volta do qual várias barracas estavam armadas.
O local era muito quente.
Estranhamente quente.
Os visitantes foram levados à barraca maior, de cujo interior vinham estranhos ruídos e clarões esparsos, fantasmagóricos, iluminando a lona, que se via, estava rota.
Dali escapavam estranhos odores.
Um animal medonho, metade orangotango, metade rinoceronte, farejou os quatro.
Ester arrependeu-se amargamente de ter ido ali.
Campos, embora mais afoito, também não disfarçava o medo.
Ester agarrou-se a ele.
Pressentiam que algo terrível poderia acontecer a qualquer momento.
O animal deu um rouco grunhido.
Ato contínuo, uma mulher, vindo do interior da barraca, assomou à porta.
Não teria mais que vinte anos.
- São eles? - dirigiu-se aos dois jovens.
- Sim, senhora, são os dois que encomendaram o serviço.
- Entrem!
Campos e Ester mal acreditavam no que viam.
Uma jovem, tão jovem, comandando tudo ali.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 10:04 am

Só de olhar para ela já brotava medo em suas almas, aliás, perceberam, medo em todos.
Sim, porque na barraca, havia mais cinco pessoas, ou melhor, cinco Espíritos.
- Então, vocês querem “aprontar” com o famoso Karl?
Como ela sabia o nome dele?
E por que os convidara a vir até ali?
O que os aguardava?
Tais eram os pensamentos de Campos e Ester.
- Vamos - insistiu a mulher.
Respondam. Querem ou não acabar com ele?
Naquele ambiente, onde o tom feminino dava o ar de comando, Ester adiantou-se e confirmou:
- É isso mesmo!
Ele tem de nos pagar.
- É também o que você pensa? - dirigiu-se a Campos.
- Sim... sim... - tartamudeou o ex-motorista, ainda sob impacto e presa de medo.
- Muito bem.
Só terão que me obedecer.
Eu cuido de tudo. Positivo?
- O que... - gaguejou Ester - teremos que fazer?
- No momento certo eu avisarei.
Estão dispensados.
Antes, prestem bem atenção:
quem manda sou eu.
Daqui para frente, não mais se dirijam àqueles dois idiotas.
Somente a mim.
Para serem readmitidos no meu grupo eles trouxeram-me a notícia das suas pretensões.
Sumariamente, Campos e Ester foram catapultados.
Um homenzarrão estava ali, no mesmo local onde estivera o monstro.
- Ele?! - exclamou Ester, não se contendo.
- Isso mesmo.
Quando chega algum convidado ele se transforma no monstro, por alguns instantes...
Já deixando o local escoltados pelos dois rapazes, a jovem surgiu à porta e alertou ao casal de encarnados:
- Obedeçam e tudo vai dar certo.
O fogo fará justiça.
- Fogo?
- Sem perguntas.
Quando chegar a hora, vocês verão.
No caminho de volta, Ester insistiu com os rapazes:
- Que história é essa de fogo fazer justiça?
- Eu não disse para vocês que o nome dela é “Fogo Aceso”?
- Disse. E daí?
- Ela tem uma técnica esquisita, pois descobre alguém, do lado de vocês, que tem essa mesma técnica e juntos conseguem pôr fogo nas coisas ou nas casas...
- Não acredito!
Como pode alguma alma penada causar incêndios?
E o que querem dizer com “alguém do lado de vocês”?
- Como ela faz isso, não sabemos, mas já vimos acontecer, muitas vezes.
Primeiro, ela pesquisa até achar a pessoa do lado de vocês, isto é, encarnada, para descobrir se tem os mesmos fluidos dela.
Aí, com uma técnica de misturar os fluidos dela com os dessa pessoa, o fogo irrompe, espontâneo.
- Mas... como ela ou a pessoa “do nosso lado” acende o fogo?
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 10:04 am

- Como é que vamos saber?
Umas quatro pessoas, essas do nosso lado, levam a mistura dos fluidos e passam sobre o objecto ou o lugar que ela manda e em poucos minutos, após várias massagens deles, o fogo começa, bem naquele ponto.
- Massageando?!
- É. Depositam fluidos deles para ajudar o início do fogo, inspirados nas fogueiras que os índios sabem fazer, através de atritos permanentes de gravetos, ao Sol.
Na civilização, para se acender um fogo qualquer, muitos colocam algum material de combustão rápida, numa pilha de lenha, para acender... daí, é só acender um fósforo.
- Então, é isso o que ela faz?
“Risca um fósforo”?
- É.
- E qual é o fósforo que ela usa, se vocês não têm?
- Ora bolas, por que pensam que ela se chama “Fogo Aceso”?
- Não sei...
- É porque tem fogo dentro dela, que sai da ponta dos dedos...
Dali, Campos e Ester foram levados pelos jovens a outro sítio.
Novamente foram invadidos por pavor, ao identificarem onde estavam: num cemitério.
E era noite alta...
Conduzidos por entre dezenas de criaturas angustiadas que por ali perambulavam, logo a surpresa maior causou-lhes terrível choque:
Helmuth, o poderosíssimo Helmuth, estava roto, sujo, escavando a terra com as mãos.
- Senhor Helmuth!!!
Naquele ambiente lúgubre, onde a angústia dava o tom, desequilibrando mentes menos vigilantes, houve um momento de estupor que se sobrepôs a tudo.
Não se poderia dizer de quem era a surpresa maior:
do desencarnado cativo aos restos mortais ou dos dois ex-empregados.
Na verdade, nenhum dos três deveria estar ali, o que lhes roubava o entendimento do tremendo equívoco que o ódio lhes armara e mesmo incentivava.
- Imprestáveis! - bradou Helmuth.
A voz traía-lhe o tom autoritário, pois não passava de um rouco e sinistro som gutural, qual grunhido.
- Senhor Helmuth... o que está fazendo aqui?
- Então não vê, seu inútil?
Estou tentando arrebentar essa corda que me prende lá no fundo.
Referia-se o infeliz espírito ao seu cordão fluídico, já arrebentado pelo infarto, mas ainda submetendo-lhe o perispírito a forte atracção magnética aos despojos físicos, já putrefactos.
- Posso ajudar?
- Idiotas: o que estão esperando?
Os dois jovens nem se mexeram.
E quando Campos e Ester tentaram puxar aquela espécie de corda fracamente iluminada, viscosa, de dentro da terra, sentiram um tremendo choque, como se tivessem segurado um fio eléctrico energizado e sem capa de isolamento.
- Inúteis, inúteis - bradava-lhes Helmuth, sem cessar.
Nisso, chegou “Fogo Aceso”.
Havia os seguido, sem se deixar notar.
Com ela vinham mais de trinta desencarnados, sob seu comando.
Determinou:
- Óptimo! Vocês cumpriram minhas ordens direitinho, trazendo-me até esse velho bobo.
Agora é connosco. Podem se retirar.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 10:04 am

Não havia como discutir.
Campos e Ester, sobressaltados, ante os olhares irados dos Espíritos que ali estavam, tiveram que se afastar, e bem rápido.
Iam já se distanciando quando olharam para trás e viram que “Fogo Aceso” parecia mesmo estar incendiada, pois abraçou Helmuth.
Em seguida, seis auxiliares, com as mãos dadas e em círculo em volta do sinistro casal abraçado, começaram a rodar, rodar, rodar...
Campos e Ester não acreditavam no que estavam vendo:
do interior da terra subiam pequenas labaredas, que logo se incorporavam nas que se desprendiam de “Fogo Aceso”.
Algum tempo depois, Helmuth estava livre daquele laço infernal que o prendia à terra.
Triste ilusão:
o cordão prateado é de uma engenhosidade sublime, agindo como poderosa protecção aos encarnados, possibilitando-lhes a bênção do deslocamento espiritual a grandes distâncias, rotineiramente, pelo sono.
Por terrível engano, com tanto afinco muitos homens entregam-se aos prazeres sensuais ou a outros enganosos êxtases do mundo, particularmente às mordomias do dinheiro ou do poder.
Para logo, precipitam seu retorno ao plano espiritual, onde chegam tão jungidos à materialidade que não conseguem desligar-se do corpo físico, face o desmesurado apego às posses e posição social.
Nesse momento, agravando o facto, obsessores especialistas em escravização apresentam-se e num fatídico paradoxo, dão a liberdade a quem assim está cativo.
Só que essa liberdade é simplesmente troca de grilhões:
se antes o asco era constante, naquela enganosa liberdade, a tortura e inclemência de atitudes mantêm pavor nos escravos.
O que, em breve, precipita-os na loucura.
“Fogo Aceso” e sua estranha comitiva deixaram o chamado “campo santo”, levando Helmuth.
Após tormentosa caminhada, chegaram ao sítio no qual tinham sede.
Helmuth vinha de susto em susto, já com a mente destrambelhada, mas com o instinto de conservação activo.
Quando foi farejado pela monstruosa sentinela-animal, deu um salto para o lado, com tamanha desenvoltura, que causou admiração.
“Fogo Aceso” debochou:
- O quê, hein?
Então nosso ex-poderoso amigo é atleta...
Todos gargalharam, irónicos.
Menos Helmuth.
Ele próprio estava admirado de sua insuspeitada elasticidade, há tantos anos perdida, junto com a juventude...
Entraram.
“Fogo Aceso” foi contundente:
- A partir de agora você me pertence!
- De forma alguma - cortou Helmuth, empinando o queixo - tudo o que quero posso fazer.
Os outros é que me obedecem, pois sempre sou eu quem dá as ordens.
- Muito bem.
Como você ainda pensa que é o patrão, olhe em volta e veja meus auxiliares.
Aqui somos uma comunidade, de mais ou menos cem elementos.
Mande qualquer um obedecê-lo.
Vamos, mande!
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 10:05 am

Helmuth vacilou, mas logo assumiu:
- Venha até aqui! - ordenou a um rapaz franzino, que lhe pareceu totalmente indefeso.
O espírito olhou para “Fogo Aceso”, que não disse palavra, apenas levantou levemente o dedo mínimo esquerdo.
Foi o suficiente.
O rapaz aproximou-se lentamente de Helmuth.
Este, encheu o peito, todo orgulhoso, em ver-se obedecido.
Mas, o que aconteceu, não pode e nem mesmo deve ser descrito, em respeito às sagradas tradições às leis da Vida e à Lei do Amor.
A gratidão à sublime bênção divina da palavra, falada ou escrita, o impede.
Cedo, Helmuth se compenetrou que saíra do purgatório e caíra no inferno.
Num inferno muito pior do que aquele que se supunha anteriormente.
Sem condições de conciliar um único pensamento a outro, ante o desencontro de ideias e o império maiúsculo do mal que o subjugava, incensando-lhe rancor e desejo exacerbado de vingança, perdeu mesmo a razão.
Uma semana após assim viram-no Ester e Campos, que no desdobramento do sono, foram conduzidos à presença de “Fogo Aceso”, que ao vê-los, sentenciou:
- Chegou a hora!
- ?!
- Não queriam arrasar quem os despediu?
Pois, então, chegou a hora.
O pai vai se mudar para a casa do filho e só isso já vai causar bastante desconforto.
Enquanto isso, nós iremos fazer umas visitinhas ao filho, lá no serviço dele.
- Podemos ajudar? - perguntou Ester, tímida.
- “Podem”, não. Devem!
Tratem de arrumar um pouco de distracção para “meu povo”.
- Distracção, como? - inquiriu Campos.
- A mesma de sempre:
reúna seus amigos e façam as festas com as mesmas alegrias...
- “Alegrias”? — perguntou Ester.
- É, sim, bobinha.
Tudo o que dá prazer para vocês dá também para nós. Entendeu?
Sim, tinha entendido mais pelo olhar e gestos do que por palavras.
Ester entendeu que “Fogo Aceso” referia-se a tabagismo, álcool, sexo desvairado.
Então, era isso o que Campos certa vez lhe dissera, quando quisera saber sobre o que os encarnados podem dar “de bom” aos desencarnados...
Embora Campos já houvesse dado algumas explicações, o entendimento de Ester agora foi integral.
- Não se esqueçam de convidar a “turma da pesada”.
- Os viciados em tóxicos - adiantou-se Campos, explicando a uma apavorada Ester o impressionante intercâmbio entre Espíritos distanciados do Evangelho, mas atados entre si pelos fortes laços das tendências inferiores.
Campos, mesmo ali no plano espiritual, mostrava-se um fiel descodificador de murmúrios e palavras soltas, como no tempo em que servia ao ex-poderoso senhor Helmuth, que a tudo ouvia, encorujado num canto da barraca.
Já à saída, como havia acontecido quando chegaram, a sentinela-animal não lhes causou o menor temor, pois nem mesmo quis farejá-los.
Aliás, sem causar qualquer surpresa a ninguém, ali, não tardou em reassumir sua aparência real, de um homenzarrão mal-encarado.
Entre os dois encarnados e aqueles Espíritos todos já havia o triste laço de união, equalizando-lhes as vibrações, pela lei de sintonia.
• • •
Quase um ano após a desencarnação de Helmuth, Karl e Cássia retornaram da Europa e Estados Unidos, onde haviam passado um mês, visitando a matriz da fábrica que se associara à “H&H’, fornecendo tecnologia para a sua nova fábrica de caminhões e ônibus.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 10:05 am

Em troca dessa tecnologia, as fábricas da Europa e dos EUA teriam a exclusividade na importação e comercialização daqueles veículos pesados.
No Brasil, além da área da nova fábrica, com toda a infra-estrutura, incluindo até escolas para os filhos dos funcionários, foram ofertados vários incentivos fiscais à “H&H-Caminhões e Ônibus”.
O local escolhido foi mesmo aquele que Cássia “sugerira” a Karl.
Recompensando as concessões, as indicações de preenchimento dos principais cargos, no nível de gerência, naquela cidade, foram ofertadas “gentilmente” por Karl às autoridades locais.
Mirênio, para suma alegria, foi designado o administrador geral da construção, que logo iniciou.
Quando pronta a obra, seria mantido na mesma, porém sendo promovido a director de recursos humanos.
Sua família ficou na Capital e quando podia ia visitá-lo.
Nilce, a esposa, argumentou com ele que se mudarem para o interior naquela época do ano seria prejudicial a Tom, o filho, preparando-se para ingressar na faculdade.
Mirênio, zeloso até demais, trocou o conforto do hotel em que se hospedara, pela rusticidade do canteiro de obras, onde improvisara um tosco gabinete, inclusive com cama para pernoite.
Com isso, visava manter a ordem dos trabalhadores da construção e simultaneamente evitar furtos de material.
Andava sempre com muitas caixas de fósforos.
Várias vezes levantava-se, no meio da noite, e sorrateiro, fazia ronda pelo acampamento.
Numa dessas incertas, como denominava suas inopinadas caminhadas em meio às madrugadas, o Lalau, um cão vira-lata que se instalara inarredavelmente por ali, rosnou de forma invulgar.
Esse cão, dócil e muito esperto, elegera o acampamento como lar e adoptara Mirênio como seu dono.
“Se o cão está percebendo alguma anormalidade, é bom acautelar-me”, pensou Mirênio, ficando à espreita.
Lalau começou a uivar e isso acordou muitos trabalhadores.
- Hoje é sexta-feira.
Será que esse bicho viu alma do outro mundo? - comentavam alguns homens, irritados com o animal.
Como o cão se aquietasse, foram todos dormir.
Uma semana após, estando já esquecido aquele episódio, ele repetiu-se.
Só que agora sem Mirênio estar de pé.
Outra vez alguns homens se levantaram, chateados com o cão, lanternas acesas:
- Esse animal só fica inquieto nas sextas-feiras...
Mirênio também levantou-se e ao chegar perto do cachorro assustou-se de ver como ele estava com os pelos em pé, arrepiadíssimo e rangendo as poderosas mandíbulas.
- Lá, Lá - como o chamava - o que está acontecendo?
O cão, todo arrepiado, dirigiu-se à porta do almoxarifado número um.
Alguns homens entenderam na hora.
Pegaram um pedaço de pau pelo chão e seguiram o animal, imaginando que um ladrão talvez estivesse no interior do almoxarifado.
Mirênio, o único que tinha a chave da porta daquela dependência, foi até seu aposento e apanhou-a.
Veio até a entrada e quando ia abri-la ouviu-se ruídos de materiais sendo quebrados.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Out 21, 2017 10:05 am

Mirênio, cautelosamente, abriu o almoxarifado, sob protecção de alguns peões.
Assustaram-se todos ante o que os focos das lanternas iluminaram e que logo que a luz foi acesa pode ser constatado melhor:
várias caixas com material hidráulico estavam jogadas pelo chão, vários sacos de cal tinham sido rasgados e muitas lâmpadas estavam quebradas.
Um pequeno foco de incêndio numa prateleira foi logo debelado.
Evidente que alguém tinha feito aquele estrago.
Mas quem? Como esse vândalo entrara, estando a porta sem sinais de arrombamento e só Mirênio detinha a chave?
Devia estar ainda lá.
Uma rigorosa busca resultou infrutífera, pois ninguém foi encontrado.
Fosse porque era madrugada, e fria, fosse porque ninguém quis se aprofundar em descobrir o autor daquilo, os homens voltaram ao leito e logo adormeceram.
Só Mirênio não conseguiu mais pegar no sono.
Com a mente fervilhando de perguntas não respondidas, viu o dia amanhecer e a natureza, ofertando outra bênção, acender a mais poderosa lâmpada, para iluminar e aquecer metade do planeta: o Sol.
No dia seguinte, um sábado, ninguém sequer quis comentar sobre o mistério da noite passada.
O meio expediente transcorreu normalmente.
Na madrugada de sábado para domingo, porém, um grave acontecimento voltou a agitar aquele canteiro de obras:
um incêndio irrompeu no almoxarifado número dois, no sector de tintas.
Mirênio não estava na construção, pois a esposa e o filho tinham vindo passar o fim de semana com ele, estando a família hospedada num hotel.
Quando os poucos peões que dormiam na obra tentaram fazer algo para debelar o fogo, algumas explosões impediram-lhes a acção.
Em pouco tempo as labaredas dominaram todo o almoxarifado.
Nada pode ser feito para apagar as chamas, cada vez mais intensas.
Quando os bombeiros chegaram, só restou-lhes impedir que o incêndio se propagasse pelo resto da construção, pois os dois almoxarifados haviam sido rapidamente consumidos pelas chamas.
Embora o seguro cobrisse os prejuízos, grande foi a perda de tempo, atrasando o cronograma das obras.
Mirênio fez questão absoluta de acompanhar as investigações oficiais que buscaram identificar a causa do incêndio e que ao fim de exaustivas análises, proclamaram que fora espontâneo.
Inquiriu energicamente aos bombeiros:
- Mas, como espontâneo?
- Temos registo de que em situações especiais, onde várias circunstâncias ocorrem ao mesmo tempo, pode mesmo irromper combustão espontânea.
- Então - disse ao oficial encarregado do inquérito - que o senhor nos diga quais são essas “situações especiais” para que, de futuro, possamos evitar novos incêndios.
Ao militar não passou despercebido o tom irónico e de incredulidade do administrador daquela obra.
Respondeu com a serenidade de quem já enfrentou situações muito mais adversas.
- Pois, não.
Quando um composto se une ao oxigénio, liberando calor, temos a combustão; se a reacção for muito rápida, a ponto do calor levar o combustível à incandescência, teremos a combustão viva, isto é, o fogo.
No caso que analisamos, temos como certo que talvez a queda de alguma peça de metal ao solo, tenha provocado uma faísca que levou o calor ao material inflamável estocado, no caso, as tintas.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 10:44 am

Como essa peça caiu não sabemos, mas pode-se conjecturar que algum animal, talvez um rato, tenha sido o responsável.
Karl ficou furioso quando soube do incêndio.
Visitou o acampamento na segunda-feira e quando concluiu uma rápida sindicância, retornou aos seus duplicados afazeres de presidente da “H&H”.
Mirênio, embora antecipando uma promoção, não estava nada feliz com a função de encarregado geral das obras, na futura filial da “H&H”.
Principalmente, pela solidão que sentia, sem a família.
Para acrescentar contrariedade à sua vida, não era consultado nem mesmo pelos trabalhadores mais simples da obra, pois, na verdade, não entendia nada de construção.
Assim, no ridículo papel de “grande chefe”, não perdia uma oportunidade, por menor que fosse, para impor autoridade.
No entanto, só para autorizar horas-extras e nos momentos de novas contratações era accionado.
Não tardou e descobriu um jeito de aparecer: demissões.
Como a época era de desemprego, em que a oferta de mão-de-obra suplantava a demanda, começou a demitir empregados sem justa causa, pois as despesas com tais dispensas não eram consideráveis, já que os demitidos tinham pouco tempo de serviço.
Quando ocorreram factos estranhos no almoxarifado, com grande desarranjo de material, seguido do misterioso incêndio, Mirênio aventou junto à polícia a hipótese de vingança, por parte de alguma pessoa que houvesse perdido o emprego ali.
Investigações policiais não conseguiram comprovar tal hipótese, mas, sim, desencadear uma onda de revolta, por parte dos investigados, todos inocentes.
Enquanto isso, “Fogo Aceso” rejubilava-se, referindo-se a Mirênio:
- Nosso estafeta está dando o recado direitinho.
Com efeito, sem o saber, o gerente de RH vinha sendo presa fácil de más influências espirituais, despejadas sobre ele pelos Espíritos malvados.
Valendo-se da compulsão de Mirênio em provocar minúsculos incêndios, não houve a menor dificuldade para os obsessores, sob o comando de “Fogo Aceso”, a quem chamavam de “F A”, aproximarem-se de sua família, particularmente de Tom - médium de “efeitos físicos”, inconsciente - de quem colectavam estranha matéria mental.
Depois, misturavam essa matéria aos fluidos deletérios deles próprios - principalmente os dela - obtendo a propriedade de desencadear combustão espontânea .
“F A”, após provocar danos na construção da filial da “H&H” convocou seu grupo e passou-lhes minuciosas instruções:
- De dois em dois vocês deverão infundir nos operários a “certeza” de que aquele lugar é assombrado.
Para tanto, a cada dois ou três dias, providenciarei novas “manifestações misteriosas”.
O facto é que decorridas três semanas, a construção da fábrica teve que parar, por falta de mão-de-obra.
Os operários, em pânico total, desertaram daquele lugar, invadido pelas assombrações, pois “as almas penadas tinham fixado residência ali”, segundo acreditavam.
Na construção ficaram apenas dois engenheiros, o mestre-de-obras, alguns poucos pedreiros e carpinteiros.
Nenhum deles pousava ali. Só Mirênio.
Mas, a este, os Espíritos perturbadores não molestaram, pois de que adiantaria?
Segundo instruções de “FA”, ele deveria ser poupado, pois fazia parte dos planos a permanência dele por ali.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 10:45 am

Diante de tão insólita crise, a de não se conseguirem empregados numa fase geral de desemprego, Karl resolveu fazer uma inspecção, para certificar-se daquela estranha situação, paradoxal, sob todos os pontos de vista.
Assim que chegou, de surpresa, no local das obras, determinou a um “apavorado” Mirênio:
- Quero entrevistar, agora, alguns operários que se demitiram.
Quando mais tarde Mirênio apresentou três dos operários que haviam se demitido, Karl dispensou-o, fechou a porta e disse-lhes:
- Então, me digam a verdade, sem nenhum receio:
porque vocês abandonaram o emprego?
Silêncio, dos três.
- Foi por causa do salário?
Silêncio, ainda.
- Alguém maltratou vocês?
O Mirênio? Os engenheiros?
Os chefes de sector?
O mestre-de-obras?
Nenhuma resposta.
- Dou cem reais a cada um, pela verdade - arriscou Karl, valendo-se do argumento que julgava invencível: o dinheiro.
Pegou três notas e colocou-as em frente aos homens.
Para sua surpresa, os operários se levantaram e fizeram menção de se retirar, sequer olhando para as três notas sobre a mesa.
Raramente, em toda a sua vida, Karl estivera em igual situação:
ele, presidente da poderosa “H&H”, vencido por simples operários.
Desconcertado, sem conseguir compor o raciocínio, emergiu no grande executivo o primitivo instinto de sobrevivência.
Captou que algo terrível ocultava-se sobre a construção, a ponto de imunizar pobres contra o dinheiro (as notas, novinhas, ainda sobre a mesa, eram testemunhas mudas daquela sombria ameaça-realidade).
Percebendo que ali estava em inapelável inferioridade, de súbito temeu que seu sonho da grande filial explodisse em fracasso.
Aí, então, só aí, despontou nele o maravilhoso recurso da comunicação humana, espírito a espírito, sem quaisquer molduras ou peias sociais.
Não conseguindo impedir grossas lágrimas, de existência jamais suspeitada, colocou a mão no ombro de um operário:
- Pelo amor de Deus, contem-me o que está acontecendo!
Os homens entreolharam-se, atónitos.
Rudes, mas sinceros em suas concepções existenciais, não tiveram a menor dificuldade em dar a palavra aos seus corações.
Palavras, aliás, desobedientes à ortografia, ou melhor, à ortofonia, mas emolduradas cem por cento de sinceridade - que rogamos aos leitores perdoar a reprodução no original:
- O senhor não repara, seu dotô - disse Ananias - mas nóis não temo nada contra o senhor, não senhor.
Nem contra ninguém, daqui da obra.
O pobrema é que... - gaguejou.
António, outro pedreiro, tomou coragem:
- Nóis não queria deixar o emprego, nóis tem mulher e filhos, precisamo do salário, mas não dá prá lutar contra o capeta...
- ?!
Altamiro, o terceiro homem, complementou:
- Aquela obra tá empenhada prá umas almas do purgatório e outras do inferno!
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 10:45 am

Karl estava perplexo, sem entender.
- É isso mesmo - aduziu Ananias, agora desenvolto, mas antes fazendo o sinal da cruz:
então o senhor não ficou sabendo as coisa que se assucederam aqui?
- Mais ou menos - mentiu Karl, incentivando-os:
contem-me, por favor, que coisas foram essas?
Quero saber se o que sei é a verdade.
- Primeiro, os materiá do almoxarifado caiu sozinho das prateleiras, depois um incêndio também pegou fogo sozinho, lá drento.
E tudo isso sem ninguém lá. Era de madrugada...
- Isso eu fiquei sabendo.
Vocês até sabem que vim aqui, no dia seguinte, para examinar o que tinha acontecido e o Mirênio me disse que suspeitava de gente que tinha sido demitida.
- Prá ele é fácil acusar os outros...
- Mas, depois daquilo, o que mais aconteceu?
- É isso aí:
as roupa dos operários que dorme lá amanheciam com uma rodela de fogo.
- Como assim, rodela de fogo?
- Pois é:
o fogo não chegava a furar a calça, mas a mancha era igual aquelas do ferro de passar roupa, quando fica parado mais do que deve.
- E onde estão essas roupas?
- Todo mundo queimou, com medo das má influência.
O senhor sabe:
as roupa queimada era sempre calça... e sempre na barguia...
- Na barguilha?
Em todas as calças?
- Então! Que nem feitiço prá os home não sê mais home...
Realmente, aqueles factos eram fantásticos.
Karl não sabia o que dizer.
- Uns três peão evangélicos leram a Bíblia lá, mas não adiantou nada.
Até parece que irritaram mais as almas, pois as manchas de queimadura passaram a surgir nas parede, no chão, nas cama...
Não restando quaisquer outras perguntas, Karl cumprimentou um a um dos ex-empregados, agradeceu-lhes a colaboração e dispensou-os.
Nenhum dos três, supersticiosos, quis levar a nota de cem reais que lhes foi ofertada.
Karl entendeu que estava diante de algo insólito, desconhecido, extremamente poderoso.
E contra ele. Pessoalmente contra ele!
Tão logo teve esse pensamento, pensou no pai.
Um súbito frio percorreu-lhe o corpo, e sem conseguir explicá-lo, sentiu ali, quase palpável, a presença paterna.
No resto do dia nada mais conseguiu averiguar.
À noite, antes de dormir, ruminava mentalmente tudo o que ouvira dos operários.
Da mente não saía a figura paterna.
“Sim”, pensava, “se meu pai não tivesse morrido diria que ele é que está querendo me arrasar, pois não queria a fábrica nesta cidade; ainda bem que morreu e tantos eram seus pecados que deve estar no inferno.
Bem feito, quem mandou ser tão ruim comigo?”.
Demorou a adormecer e a um instante de entregar-se ao sono ainda olhou no relógio: 23h 57min.
Tão logo dormiu viu o pai.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 10:45 am

De facto, Helmuth houvera sido instantaneamente trazido por “F A” à sua presença, pois ele próprio, Karl, involuntariamente, o convocara, ou melhor, o invocara.
A lei de atracção é infalível:
pai e filho, mesmo em dimensões diferentes, mantinham vivo o forte antagonismo, por pensamentos recíprocos de ódio.
“F A”, que trouxera Helmuth, determinou-lhe:
- Você não queria dar uma lição no seu filho?
Pois aí está o moleque.
Hipnotizado pelos obsessores e subjugado pelo desamor que nutria por Karl, o triste Espírito aproximou-se do encarnado, carne de sua carne...
De forma inesperada e selvagem, agarrou-o pelo pescoço, para enforcá-lo.
Desguarnecido em sua postura moral, equalizada esta com a do pai, que naquele momento agredia-o brutalmente, Karl registou o ataque, sentindo súbita pontada na cabeça, inexplicável.
A carga energético-fluídica, altamente potencializada e lotada de miasmas pestilentos, atravessou-lhe a aura, provocando pequena ruptura no corpo vital e imantou-se-lhe na região cardíaca.
Com o perispírito recém-desprendido do corpo físico e ali mesmo no quarto, sob terrível estupor, misto de espanto e raiva, ainda sendo esganado, viu que o pai era incentivado por uma jovem, pavorosamente envolta em pequenos raios, com chamas a lhe saírem pelas pontas dos dedos, de instante a instante, crepitando no ar por fracção de segundo, logo desaparecendo.
Saindo do torpor momentâneo que a brutal investida paterna lhe provocava, Karl, mais uma vez, agiu puramente guiado pelo instinto animal que reside nos seres vivos todos: agredido, defendeu-se, logo passando a agressor.
Era patética a cena:
pai e filho engalfinhados, aquele, desencarnado, completamente desvairado, e este, ainda sob a roupagem da carne, dela momentaneamente emancipado pelo sono, protagonizando ambos um formidável, quanto insólito duelo.
Sem que abrissem a boca, suas ideias ofensivas eram trocadas, pela sintonia mental em que se fixaram:
- Você me matou para ficar com a fábrica, mas não pense que ficarei quieto.
É tudo meu. Tudo meu!
Vou matá-lo também...
- De que inferno você saiu?!
Eu não o matei, mas agora é isso mesmo que vou fazer.
Ninguém me toma a fábrica.
Ela é minha, por direito!
- Direito?! Direito?!
Que fez você para merecê-la?
- Aguentei você como pai...
As entidades que os rodeavam, deliciavam-se com o grotesco espectáculo, sendo essa atitude uma forma de incensar mais o negativismo dos agentes.
De repente, para espanto geral, uma pequena claridade envolveu a ambos os contendores.
Sem que qualquer motivo o justificasse, começaram a agir como se fossem bonecos cuja corda estava no fim.
Sem conseguirem sequer erguer os braços, seus olhos se fecharam lentamente e também em movimentos lerdos se deitaram, um ao lado do outro.
Dir-se-ia que súbita anestesia os havia alcançado.
O socorro espiritual tivera origem na prece que o Espírito Madeleine fazia a Jesus em benefício dos contendores.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 10:46 am

Tinha sido fortemente atraída para junto de Helmuth e Karl, aos quais amava, um como ex-cônjuge e ao outro como filho querido.
Vendo-os digladiarem, seu coração encheu-se de tristeza e compaixão.
As lágrimas que dos olhos de Madeleine saltavam, transformaram-se em jactos de luz que os alcançaram e tiveram a propriedade de os acalmar.
Quando Karl contestou Helmuth, momentos antes deste desencarnar, Madeleine também foi atraída para perto deles, pois havia prometido a si mesma sempre ajudá-los, na medida do possível.
Ali nada pudera fazer porque a discussão revestia-se de desamor, facto que era decorrente do livre-arbítrio de pai e filho, sem necessidade do influxo de Espíritos infelizes.
O que faziam era responsabilidade exclusiva deles e assim não cabia interferência directa, a não ser pela oração, cujos efeitos, no caso, impediram.
Aliás, Madeleine, mesmo antes de reencarnar, compromissara-se a unir-se conjugalmente com Helmuth, sendo pré-estabelecido um programa reencarnatório para o casal, no qual ela seria a âncora de equilíbrio para ele e o filho - Karl -, que de longa data vinham se odiando.
De Helmuth seria a conselheira sensata, induzindo-o a bem empregar a fortuna que lhe seria emprestada por Deus; já a Karl, pacificaria-lhe a alma, sendo anteparo às agressões do pai, com isso substituindo as investidas do ódio recíproco, por uma união fraternal entre eles.
E isso fizera, durante toda a duração do seu convívio familiar com eles:
implorava a Helmuth que fosse caridoso, que repartisse a tremenda fortuna que detinha; também pedia-lhe que tratasse ao filho com mais amor, com mais tolerância, pois Karl, na verdade, era mais valioso ao seu coração que todo o dinheiro que possuíam.
Quanto a Karl, constantemente aconselhava-o a respeitar o pai, evidenciando as virtudes paternas que, infelizmente, eram mesmo poucas.
Ambos, Helmuth e Karl, desperdiçaram tão sublime oportunidade.
Não tardou e os Espíritos infelizes entenderam o que estava acontecendo:
novamente aqueles “focos de luz”, vindos não sabiam de onde, contrapunham-se às pequenas chamas que evolavam de “F A”, impedindo-lhes de usufruir os lucros espúrios de suas nefastas actividades obsessoras.
Não era a primeira nem a décima vez que isso acontecia, frustrando o grupo de “F A”, que se dedicava, há muito, em aproximar-se de desencarnados, necessariamente riquíssimos quando tinham corpo físico, agora incentivando-lhes guerra de ódios, contra os sucessores.
Os Espíritos que compunham aquele grupo eram de pessoas que quando encarnadas igualmente tinham possuído imensas fortunas, algumas dilapidadas por parentes ou sócios desonestos e outras, como herança, causado dissensões terríveis e até crimes, entre os herdeiros.
Assim, o objectivo daquele grupo era um só: subjugar aos desencarnados, ex-milionários.
Tão logo lhes impunha domínio hipnótico-espiritual, escravizando-os inapelavelmente, obrigava-os a executar tarefas de grandes perturbações junto aos herdeiros, quase sempre invigilantes também. Como resultado, vendo sólidos impérios financeiros ruírem, os componentes do grupo sentiam-se realizados.
Essa actividade era tremendamente facilitada ao grupo de “F A”, pois poucos ricos empregam a benefício do próximo o empréstimo que vem de Deus.
A quantos, ainda na carne, almejam fortuna, deveria ecoar a advertência de Jesus, registrda por Mateus (19-24):
“É mais fácil passar um camelo pelo fundo duma agulha do que entrar um rico no reino de Deus”.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 10:46 am

Sabe-se que “muito dinheiro” dá muito poder, muita autoridade, coloca o rico num pedestal social quanto mais alto quanto sejam suas posses materiais.
E o Espiritismo demonstra, com solidez lógica que em contrapartida, porém, acrescenta-lhe “toneladas de responsabilidade” quanto ao emprego que faça do ouro.
Não que o dinheiro seja ruim.
Pelo contrário:
quando se movimenta, gerando empregos e benfeitorias, tem sublime destinação.
O equívoco é amontoá-lo, ou empregá-lo como factor multiplicador, para uso próprio, individual.
Quem quiser saber quanto dinheiro é a quantidade ideal para se ter, imagine quanto uma das mãos pode segurar.
A mão vazia é para pegar algum dinheiro da que está cheia e doá-lo.
Essa, mais ou menos, será a quantia ideal.
Lembrando, sempre, que a idosa senhora observada por Jesus à entrada do Templo, ali chegou com algumas moedinhas e quando saiu, já não tinha mais nenhuma.
Dera tudo o que tinha
Em troca, contudo, ganhou o aval do Mestre Jesus.
Pensando bem, quanto vale esse aval?
Naquele momento, os malfeitores do além mais uma vez tiveram frustrados seus planos, pois Karl, envolto pelos “focos de luz”, surgidos do nada, retornou ao corpo físico, despertando.
E Helmuth, adormeceu profundamente.
- Nossa Senhora! - exclamou Karl, para ele próprio.
Que pesadelo! Por quanto tempo dormi, meu Deus?
Olhou o relógio.
Quase 23h58min.
Lembrou-se do terrível “sonho”:
“papai queria me matar.
Estava com uma quadrilha... não, não pode ser... ele está morto.
Parece que vi mamãe rezando.
Mas ela está morta também...
Certamente que foi impressão, pois acabei de olhar as horas e não se passaram nem cinquenta segundos” .
Bem mais tarde, adormeceu.
Sem sobressaltos.
Na manhã seguinte, prosseguiu nas investigações.
Convocou os dois engenheiros que prestavam serviços na construção.
De início, entrevistou Marcos:
- Diga-me, Marcos, o que você sabe sobre o que anda acontecendo?
- Pouco, Dr. Karl.
A ignorância desse povo não tem limites.
Veja só... imaginam que almas do outro mundo se mudaram para o canteiro de obras.
- E você, o que pensa disso tudo?
- Para falar a verdade, não acredito nessas baboseiras.
Imagino que algum peão da obra aprontou essas maldades.
- Mas a Polícia investigou tudo e não encontrou nenhum suspeito.
- Não há crime perfeito, Dr. Karl, o que há é investigação mal feita - brincou Marcos, parafraseando o folclórico detective Sherlock Holmes, criação imortal de Sir Arthur Conan Doyle, o famoso romancista inglês.
- “Elementar, meu caro Watson” - retrucou Karl, complementando o bordão do legendário detective amador.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 10:46 am

Ambos, assim, deixavam claro que acreditavam em vandalismo.
Dispensando Marcos, Karl convocou Evaldo, o engenheiro hidráulico:
- Diga-me, o que você pensa desses problemas na obra?
- Vou ser directo:
embora não seja fácil comprovar, esses problemas têm a característica de acontecimentos provocados por Espíritos perturbadores.
- Claro que são Espíritos perturbadores, mas quem são eles?
- Aí está a dificuldade a que me referi:
não será fácil identificá-los, pois agem sempre em bando...
- Então, você acha que estamos sendo vítimas de uma quadrilha?
Antes de Evaldo responder Karl deu um murro na mesa e exclamou:
- É isso! Deve ser isso!
Algum concorrente está por trás disso, para prejudicar à “H&H”...
Deu outra pancada na mesa e reconsiderou:
- Ou, quem sabe, talvez seja alguém interessado em tirar a fábrica daqui e levá-la para sua cidade, ou Estado...
Vamos accionar a Polícia.
Usando a pausa que se fez, Evaldo explicou:
- Não me refiro a encarnados...
- Como assim?!
- Quando citei bando, referia-me a agrupamentos de Espíritos infelizes, já sem o corpo físico... mortos, como se diz, empenhados em prejudicar alguém.
- Quadrilha de mortos?
Você... está brincando?
- Não, senhor... mortos, para o plano material, mas vivos, em espírito, já que Deus nos criou para a eternidade.
- Espere um pouquinho, deixe-me ver se estou entendendo o que você está dizendo:
um grupo de mortos, todos bandidos, isto é, mal-intencionados, se juntaram para me prejudicar?
- Literalmente, sim.
- E o que o levou a imaginar esse disparate?
- Não é disparate.
Factos não podem ser desmentidos apenas com argumentos e, sim, com explicações lógicas.
Vários acontecimentos, interligados, levaram-me a deduzir que é muito provável que o senhor esteja na mira de algum inimigo desencarnado.
- Eu?! Eu?!
Ora, faça-me o favor, Evaldo.
Como é que você, um homem de nível cultural superior, me vem com tal fantasia?
Nesse preciso momento Karl recordou-se do brevíssimo sonho da noite anterior.
Sentiu como se dois petardos explodissem dentro dele, um na cabeça e outro no peito.
Faltou-lhe o ar por momentos.
Evaldo captou que algo muito forte estava acontecendo com Karl, abalando suas estruturas psíquicas, pois, lívido, começou a tremer.
- Perdoe-me, Dr. Karl.
Não quis impressioná-lo, apenas levantei suposições.
Peço novamente que me perdoe, se o assustei, pois essa não foi minha intenção.
- Não... não... você não me assustou.
É que... lembro-me vagamente que esta noite sonhei... vi-me em luta com meu pai... alguém rezava... parecia com minha mãe ... muita gente olhando e se deliciando com essa luta... tinha uma jovem que estava pegando fogo...
Logo se refez:
- Bobagens. Não pode ser.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 10:46 am

Ambos estão mortos.
- Não tenho o direito de intrometer-me em sua vida íntima, mas peço licença para fazer uma única pergunta.
E o senhor não precisa me responder.
Como era o relacionamento do senhor com seu pai? Amigável?
- Não... era o pior possível. Inclusive, papai morreu na minha frente, em plena discussão comigo.
- E sobre o que discutiam, se posso saber?
- Meu Deus... justamente onde seria a nova fábrica... esta fábrica.
- Agradeçamos a Jesus todos esses esclarecimentos e vamos orar por seu pai, não é mesmo?
- Orar por ele?!
Você está louco?
Não vê que ele quer me destruir?
E eu ainda vou rezar por ele?
Quero mais é que ele se queime no fogo eterno!
- Por favor, Dr. Karl... afaste essas ideias, pois do contrário, o senhor poderá ser prejudicado ainda mais.
O tratamento passou a ser formal:
- Como afastar o asco que sinto por meu pai, ou melhor, pela lembrança dele?
Se for verdade que ele anda por aí, o que absolutamente não creio, se for verdade, repito, não vê que está me atacando?
E o senhor me diz para não reagir?
Tenho responsabilidade imensa, doutor Evaldo.
Não posso entregar-me a fraquezas psicológicas, impróprias a pessoas com tanto poder nas mãos.
Vou prosseguir com o empreendimento industrial e nada me impedirá.
A “H&H” é muito superior às crendices, adequadas a religiosos fanáticos, não a homens do topo social, assim como eu.
O patrão agora falava ao empregado, não mais como um ser humano dialogando fraternalmente com um semelhante.
Evaldo percebeu a mudança do tom naquela conversa, mas manteve a mesma postura:
- Com todo o respeito, falei com o senhor como amigo, como cristão, não como “religioso fanático”.
No caso do senhor, iguais a tantos outros pelo mundo, só há uma solução: o perdão.
- Muito bem: perdoo todo mundo.
Mas vou defender o que é meu.
O tom era de superioridade.
Encerrou a entrevista.
- O senhor está liberado.
Pode voltar à obra.
Não havia o que contestar.
Evaldo despediu-se e retirou-se.
O resto do dia Karl passou-o fervendo de ódio, contra inimigos, “deste ou do outro mundo, ou de onde for”, conforme remoía no pensamento.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 10:46 am

6. DA LUZ À SOMBRA
No plano material muitas são as formas pelas quais se obtém energia:
o calor, por exemplo, resultante do fogo, alimentado por uma infinidade de materiais combustíveis.
Da mesma forma, muitas são as condições que levam as criaturas a perturbações psíquicas.
O desequilíbrio emocional profundo - energia desencontrada - causado por situação de grave dificuldade, assemelha-se à abertura das comportas de uma represa, prestes a romper-se; as águas liberadas levam de roldão o que encontram pela frente, às vezes, até vidas humanas.
A invigilância, no caso, não é de quem já morava à jusante da futura represa, mas sim de quem a projectou e construiu-a onde tal desaguadouro era potencial, numa emergência.
Tal é a invigilância daquele que se entrega ao ódio, acumulando na alma as forças geradoras de negativismo, para escoá-las, terá que liberá-las, abrindo as comportas da vingança, causando devastadoras inundações nos remansos íntimos da harmonia e do equilíbrio, provocando desastres imediatos.
Para si e para outrem.
Agravante certa desse erro será também os atingidos rebaterem-no.
Porém, muito mais grave, é quando além de vingador e vítima, outros elementos neutros a eles se juntam, passando a ser figuras actuantes dessa empreitada, às vezes como agentes catalisadores do processo litigioso.
Todos esses elementos reunidos formam a triste paisagem a que o Espiritismo denomina obsessão.
Pensando nas palavras de Evaldo e no seu pesadelo, Karl julgou prudente procurar o pároco daquela cidade.
Chegando à igreja, encontrando-a com as portas abertas, entrou.
Ninguém ali, àquela hora.
Dirigiu-se à sala ao lado do altar, em busca do padre.
Da porta de entrada ao altar, caminhando solitário no silêncio acolhedor da grande nave, sentiu-se estranhamente empolgado.
Lembrou-se do seu casamento com Cássia e isso lhe despertou gratas recordações.
Sobre todas, sobressaía-se a da figura materna, Madeleine, olhando-o com imenso amor, enquanto aguardava a entrada triunfal da noiva.
Ante essa lembrança, parou em meio à nave.
Fechou os olhos e fez o tempo recuar.
Sim, lá no altar estava sua mãe, olhando ternamente, com duas teimosas lágrimas prestes a rolarem.
Despertou-o alguém do devaneio:
- Bom dia, meu filho.
Posso ajudá-lo?
Era o padre, que indo ajeitar algo no altar viu aquele homem estacado no meio da igreja e cumprimentou-o, amigável.
- Oh, desculpe-me.
Sim, padre, preciso de sua ajuda.
- Venha, meu filho, vamos até a sala paroquial.
“Meu filho”.
Karl sentiu um arrepio, pois há tanto tempo não ouvia essas carinhosas palavras.
A última vez que as ouvira, lembrava-se bem, foi quando sua querida mãe, um segundo antes de desencarnar, vendo-o em prantos, exclamou:
“Meu filho, meu filho.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Out 22, 2017 10:47 am

Deus sabe o que faz.
Se tenho que partir, não o deixarei órfão do meu amor, que é eterno...”.
Agora, intempestivas, lágrimas assomaram-lhe e obrigaram-no a sentar-se.
O padre aproximou-se mais e, protector, colocou-lhe a mão no ombro, convidando:
- Vamos conversar aqui mesmo, se você quiser.
- Emocionei-me - desculpou-se Karl, refazendo-se e aduzindo.
Tem tanta paz aqui, tanto silêncio...
Na verdade, o que o havia emocionado foi ser chamado de “filho”.
- Vou confessar-lhe uma coisa:
eu também, meu filho, prefiro rezar quando a igreja está nesta santa quietude.
Não é que não aprecie ver a igreja com muitos fiéis, mas é que esse recolhimento me facilita as preces.
- O senhor...
- Padre Justino, meu filho, seu servidor.
Outra vez o “meu filho”.
- Padre Justino, estou trazendo uma fábrica para aqui e gostaria que o senhor fosse levar uma bênção nas obras.
- Oh! então você é o querido benfeitor dessa cidade... bem que eu o estava reconhecendo, apenas não me lembrava de onde.
Foi lá no local da nova fábrica, quando dei a bênção à primeira pedra da obra.
Agora você é que está trazendo bênçãos para esta cidade e este Estado.
- O senhor sabe que a fábrica vai gerar muitos empregos, impostos para a Prefeitura e para o Estado...
Mas, primeiro, ela precisa ser construída e começar a produzir...
Acontece que há pessoas dizendo que Espíritos do mal estão perturbando a obra.
Por isso, pensei em vir aqui pedir ao senhor que vá até lá, repetir a bênção e...
- E...
- Se necessário, exorcizar o mal.
- Oh, sim, claro!
Iremos lá, com toda a alegria no coração.
Quando você quer nossa presença para nossas orações e novas bênçãos?
- Amanhã cedo, o mais cedo possível.
- Nossa Senhora nos abençoe!
Quanta pressa!
- Não é pressa, é necessidade.
Estão acontecendo umas coisas estranhas na construção e os operários acham que é alma do outro mundo.
- Que “coisas estranhas” são essas?
- Barulhos, desarrumação de material, incêndios.
Tudo de forma espontânea, segundo afirmam.
E de madrugada...
A Polícia investigou a possibilidade de tais factos serem criminosos, mas nada descobriu.
- Percebo...
- O senhor vai lá, então?
- Sim, por volta das 16h irei até lá.
Karl agradeceu e fez menção de retirar-se.
Padre Justino, sem muita cerimónia, convidou:
- Gostaria que você visitasse também nossas obras assistenciais...
Estamos com tantas dificuldades...
- Perdão, padre Justino.
Irei com o maior prazer, em outra oportunidade, não neste período turbulento.
Assim que puder, terei que retornar à capital.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

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