Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 10:28 am

Dizendo isso, Karl preencheu um cheque e passou-o às mãos do padre, que se rejubilou, pois com aquela quantia poderia mesmo atender muitos pobres.
À missa que padre Justino oficiou no canteiro de obras, às 16h30min, compareceram o prefeito e vários secretários municipais, além de outras autoridades locais.
Karl incumbiu Mirênio de divulgar que haveria aquela missa e também de fazer os convites.
O próprio governador mandou um representante, que chegou de helicóptero, em grande estilo.
Poucos peões assistiram à cerimónia religiosa, até porque poucos eram mesmo os que ainda permaneciam ali.
Na homilia, citando Mateus em 10:1, padre Justino lembrou aos presentes de quando Jesus deu aos doze discípulos autoridade sobre Espíritos impuros, para os expulsarem.
Informou que após a missa, haveria um breve intervalo, para um lanche e em seguida, realizaria uma cerimónia de exorcismo naquele local, para livrá-lo de “forças do mal”, pois ele expulsaria os demónios.
A notícia de que haveria cerimónia de esconjuro a Espíritos espalhou-se em instantes.
Até mesmo ex-empregados ficaram sabendo, de uma forma ou de outra e ali compareceram.
Todos queriam ver a expulsão dos demónios.
Após a missa foi servido um apetitoso lanche para os operários e para todos os visitantes convidados.
As autoridades foram contempladas com finíssimo coquetel.
Logo após o lanche e o coquetel, padre Justino realizou o exorcismo.
Terminada a esconjuração, houve um alívio geral no ambiente.
Karl agradeceu a presença de todos, deixando por último o padre, a quem solicitou:
- Padre Justino, a “H&H” agradece sua dedicação pastoral e eu, particularmente, gostaria de pedir-lhe mais um favor.
- O que você pedir, meu filho.
Estou aqui para ajudar, em nome da Santa Igreja.
- Gostaria de convidar o senhor para pernoitar hoje na obra.
- Mas...
- Sim, para nos certificarmos de que o mal foi mesmo embora... não é que duvidemos disso, mas sua presença aqui essa noite seria uma garantia de que nada mais há a temer.
Refazendo-se do espanto, Padre Justino repreendeu:
- Duvidando dos poderes do Céu, meu filho?
- Jamais, padre.
Considero que a presença de um ministro de Deus nesta noite consolidará o império do bem.
Aliás, o senhor não estará sozinho, eu e o Mirênio ficaremos com o senhor e connosco só permitiremos a presença de Deus.
O padre considerou que seria inútil tentar demover o poderoso industrial daquela ideia.
Poucos convidados assistiam ao diálogo e, assim, o amor-próprio entrou em acção e bem depressa ajudou o religioso a concordar.
- Meu filho, Deus não precisa da nossa permissão para estar em toda parte e nem da nossa ajuda para fazer qualquer coisa dos Seus desígnios.
- Eu sei, foi só maneira de falar.
Na verdade, quis dizer que apenas nós três pernoitaremos na obra.
Eram quase quatro horas da madrugada quando os três acordaram, ouvindo ruídos estranhos, no próprio alojamento que haviam improvisado.
Karl acendeu a luz e viu um padre e um gerente de RH lívidos, apavorados.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 10:29 am

Ele também sentia medo.
Instintivamente se agruparam.
Tudo estava em ordem.
- Vocês... ouviram?
- Ouvimos...
Karl verificando que tudo estava em ordem ia já dar por encerrado o episódio quando um novo barulho foi ouvido pelos três.
Vinha do guarda-roupa.
Trémulos, foram inspeccioná-lo. Juntos.
Quando abriram as portas, ficaram assombrados com o que viram, fumaça saindo de algumas peças de roupas.
Acudiram e logo verificaram que havia pequenas queimaduras em duas calças e na batina do padre Justino.
As calças eram as de Karl e Mirênio.
- Será que... - balbuciou Mirênio - nós vamos ficar... impotentes?
- Que bobagem é essa? - gritou Karl, irritado.
- Os peões foram embora quando as calças deles foram queimadas bem nesse lugar das nossas... temiam “não ser mais homens”...
- Deve haver algum defeito na electricidade - justificou padre Justino, aproveitando-se para ir embora, pois teria que consertar a batina para a Missa de logo mais, às 6h.
Antes de retirar-se, realizou mais duas ou três orações.
- Padre Justino - determinou Karl, antes do padre retirar-se - ninguém deverá saber o que acabamos de ver.
O senhor entendeu?
E como entendeu.
Para ele, que era padre, seria desconcertante espalhar a notícia de que seus esconjuros falharam.
Não conseguindo também mais conciliar no sono, pouco depois amanheceu e Karl mandou seu motorista buscar Evaldo em casa.
Antes dos peões chegarem, designou o engenheiro para se responsabilizar pela obra até novas ordens.
A seguir, retornou à capital, levando Mirênio com ele, no que acertou, pois tinha percebido que o gerente de RH não tinha tarimba para tratar com operários humildes.
Sobre aquela noite, nenhuma referência.
Evaldo aceitou e teve liberdade para contratar os auxiliares necessários para que, sem deixar suas funções na hidráulica da obra, supervisionasse as rotinas do pessoal.
O objectivo de Karl, quanto ao exorcismo - prosseguir na obra - foi alcançado.
Logo pela manhã grandes filas de candidatos a emprego se formaram à entrada da obra.
O facto de nenhum outro acontecimento sobrenatural ocorrer foi creditado ao exorcismo do padre Justino, mas na verdade, dois foram os factores que para isso contribuíram:
primeiro, o afastamento de Mirênio dali, já que ele era “a antena receptora” das más influências, vindas de “F A” e auxiliares; em segundo lugar, Evaldo, diariamente, no início do expediente, orava a sublime prece ensinada por Jesus, o “Pai Nosso”, no que em poucos dias, de forma espontânea, passou a ser acompanhado pelos peões.
A obra retomou ritmo acelerado, sem maiores complicações.
As notícias da construção - problemas sobrenaturais e o exorcismo - chegaram aos ouvidos de Campos e de Ester.
Ficaram felizes, muito felizes, com a primeira; chateados, com a segunda, pois souberam que depois do exorcismo os operários retornaram e a calma também.
Após três semanas, sempre realizando às sextas-feiras a equivocada reunião de mediunismo em sua casa, Campos ousou desafiar o Espírito que se dizia “interlocutor dos guias”.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 10:29 am

Aliás, tão grosseira e perigosa era a condição fluídica de “F A” que, desde que um médium adoecera gravemente após possibilitar-lhe o primeiro intercâmbio mediúnico, nenhum outro se atreveu a servir-lhe de instrumento de ligação entre os dois planos - o espiritual e o material.
Desafiou o interlocutor da chefe:
- Então, como é?
As coisas estão indo bem para o bandido...
- “Fogo Aceso” não gosta de infiéis...
- Sei, sei... mas eu também não gosto de ficar perdendo tempo...
- Hum... o moço está duvidando?
Campos percebeu que se excedera.
Desculpou-se:
- Não! Não estou duvidando!
Só quero que o bandido pague pelo mal que me fez...
- “F A” manda você ficar quieto.
Não está gostando do seu jeito.
Parece que quer desertar...
- Nunca! Peço perdão.
- É melhor assim.
Agora escute:
ela está dizendo que você só vê um pedaço da paisagem e só vive um pedaço da hora...
- ?!
- Pois é, o bandido vai ver só o que o espera.
Ele não pode ver as duas fábricas ao mesmo tempo e nós não vamos deixá-lo trabalhar a hora inteira.
- Acho que entendi.
Se não puder sei feito nada numa fábrica, será feito na outra... e se ele puder ser perturbado, não terá tempo para administrar o seu império.
- Acertou.
Só troque o “se puder ser perturbado” por “será”.
• • •
O termo “umbral”, pelo dicionário, significa limiar, entrada.
No Espiritismo, entretanto, “umbral” designa determinada região do Plano Espiritual que, na verdade, não se distancia muito do significado literal.
Assim, quando os espíritas mencionam umbral, estão referindo-se à região da espiritualidade, imensa, com funções de “posto de triagem”, pelo qual passam ou para o qual são conduzidos os Espíritos quando desencarnam.
É região de sombras.
Tem como fronteira inicial a crosta terrestre.
E, como final, regiões espirituais gradativamente mais iluminadas.
No umbral, os bons Espíritos, quando desencarnam, transitam por pouco tempo naquelas paragens, em períodos de curta duração, e às vezes, nem sequer nelas passam, transpõem-nas; já os maus Espíritos lá estacionam por espaços de tempo que variam bastante.
Tudo isso, regulado pelas Leis Divinas de Justiça e de Progresso, segundo o merecimento de cada um, isto é, seu grau evolutivo moral.
Sendo a Terra um planeta de provas e expiações, no dizer sábio do mestre lionês Allan Kardec, o umbral é pouso da maioria dos seus habitantes, nós, os seres humanos, quando libertos do corpo físico - mortos, no equivocado jargão popular.
Não obstante no umbral situarem-se tantos e tantos desencarnados, não é raro ali encontrarmos também Espíritos encarnados (emancipados do corpo físico, desdobrados pelo sono), onde permanecem por pouco tempo, para aprendizado, simples visita ou ajuda a amigos e parentes.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 10:29 am

Facto que ocorre por atracção fluídica, ou ainda por sintonia espiritual com seus habitantes.
Às vezes, devidamente amparados e acompanhando equipes socorristas, estas, de abnegados mensageiros do Plano Maior, que conduzem estes encarnados como convidados para que também colaborem no atendimento aos necessitados, ali residentes, principalmente, doando sua energia vital, emanada da situação de ainda estarem na carne.
Allan Kardec, sempre arrimado por Espíritos bondosos e de grande progresso moral, estabeleceu, por simples metodologia pedagógica, três “Ordens de Espíritos”, considerados os caracteres gerais de perfeição:
Espíritos puros, os intermediários e os imperfeitos.
Registou também que, na verdade, “são ilimitadas em número as ordens ou graus de perfeição dos Espíritos”.
Decorrente disso, talvez possamos supor que Kardec também estabeleceu, implicitamente - se nos permitem os leitores a comparação - as diversas faixas vibratórias da Espiritualidade onde cada Espírito, pelo seu grau de adiantamento moral, será automaticamente alocado, após a desencarnação.
Aliás, talvez nos seja permitido deduzir que, da multidão de Espíritos que constitui a humanidade - maioritariamente imperfeitos -, a maior parte é constituída de desencarnados, vivendo no plano espiritual, proporcionalmente, no umbral, desde Espíritos grosseiros a Espíritos medianos.
Ainda em termos de adiantamento espiritual, há Espíritos de tanta rudeza e cristalização no mal que nem no umbral estacionam, ficando chafurdados nos pântanos ou grotões do plano material, por vezes até sob a crosta terrena.
Temos assim, o umbral como uma segunda área de vida para os homens (após a desencarnação), desde zonas com alguma luminosidade até porções sombrias sendo que nestas a bênção do Sol inexiste, face barreiras mentais de rejeição erguidas pelos seus infelizes residentes.
Luz e sombra, pois, formam simultaneamente a paisagem umbralina.
Deve e precisa ser dito em alto e bom som que no umbral há movimentação permanente de Espíritos adiantados, os quais, quase sempre em caravanas, deixam a paz de onde se encontram e vão, quais bandeirantes da Caridade, nas zonas de sofrimento.
Sabem esses missionários que os Espíritos pouco evoluídos não conseguem jamais ultrapassar a fronteira vibratória que delimita o território umbralino que lhes é afim; não ascendem aos planos iluminados, pois não teriam mesmo condições de ali estacionarem, sendo quais peixes fora d’água.
Já os Espíritos adiantados, esses podem descer às regiões menos felizes, o que fazem por caridade, eis que têm a capacidade de diminuírem seu tónus vibratório.
Muitos deles quando vão às regiões sombrias, a que nos referimos, despem-se do seu conteúdo luminoso, fazendo-se por vezes passar por um dos habitantes daqueles espaços.
Isso fazem com a finalidade única de ajudar.
Sempre ajudar.
Não é raro, pois, que com esse procedimento, tomem conhecimento detalhado do que está sendo tramado, facto que é de fundamental valia para o auxílio incessante que é ofertado, em nome da Caridade de Jesus.
Tal socorro é directriz divina:
Deus, Pai Amoroso, jamais abandona nenhum dos Seus filhos, permitindo e mesmo incentivando àqueles que já usufruem da paz, ou da felicidade - relativa ou completa - repassem-nas aos irmãos que vêm à retaguarda do progresso moral, em duras provas.
Os socorristas têm, pois, por meta, imitando o “Bom Pastor”, salvar as “ovelhas desgarradas”.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 10:29 am

Assim como Jesus exortou Simão Pedro a tornar-se “pescador de almas”, vão esses abnegados protectores, voluntariamente, levar o bálsamo das claridades evangélicas nas zonas purgatoriais, onde a dor impera.
Não desanimam nunca.
Qualquer que seja o resultado.
Esse é um dos mais lindos ângulos da Caridade:
quando alguém abdica da luz e mergulha na sombra.
Exactamente como Jesus tanto exemplificou.
Qualquer espírito, encarnado ou desencarnado, desde que seja voluntário e que para tanto esteja devidamente preparado moralmente, pode acompanhá-los.
• • •
Na “Seara dos Espíritos”, o Espírito Jules, um dos seus residentes e responsável por um departamento assistencial, após terminar reunião que dirigira, atendeu Madeleine, que havia solicitado uma entrevista:
- Oh!, querida irmã Madeleine, que Jesus a abençoe.
- Jules, Jules...
Deus seja louvado!
- Que abençoados ares a trouxeram desta vez à “Seara dos Espíritos?
Imagino, se me permite adivinhá-lo, você, como sempre, vem ofertar trabalho em prol de irmãos necessitados.
- Na verdade, sim, só que desta vez é o coração de esposa e mãe que me impulsionou, pois Helmuth e Karl se envolveram em perigosíssima teia, tecida por ódio e vingança, como sabemos, fruto de longas desavenças.
Jules abraçou a servidora bondosa que, por incontáveis vezes, ali prestara a bênção do seu trabalho socorrista, aliviando Espíritos sofredores, desarvorados uns, dementados outros.
Madeleine tinha alto conceito e muitos créditos junto aos dirigentes daquela benemérita Instituição espiritual.
Lágrimas daqueles dois amigos eram luzes que lhes saíam dos olhos.
- Sim... sim... sabemos do envolvimento deles com forças negativas, terríveis... terríveis!
Levando um consolo inicial a Madeleine, adjuntou:
- Sua presença mostra bem a inexistência do acaso...
Nossa reunião de há pouco tratava justamente desse caso...
- De Helmuth?!
E de Karl?!
- Não apenas deles, mas de toda uma estranha movimentação que está ocorrendo em algumas áreas umbralinas, por sinal, áreas das mais tristes.
Seu marido e seu filho, de forma invigilante, se deixaram envolver por comando hipnótico cruel e estão sendo tristemente manipulados.
- É sobre isso mesmo que queria conversar com você, meu caro Jules.
Vim em busca de sua sempre ponderada orientação, mas meu coração grita alto que o socorro tem que ser imediato.
- É facto!
Acumpliciaram-se, de sua iniciativa, com Espíritos desencarnados arraigados aos mais terríveis objectivos da imperfeição humana: descontar, em culpados ou inocentes, não importa, todos os sofrimentos por que passaram, nisso comprazendo-se.
São dominadores, técnicos em hipnotismo e suas vítimas tornam-se, com facilidade, em dóceis servos, para execução de tarefas nada edificantes.
- O que podemos fazer para ajudá-los?
- Aquilo que Jesus ensinou, com repetidos exemplos:
confiar em Deus e agirmos no Bem, em favor deles.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 10:29 am

- Estou pronta para cumprir sua orientação, caso eu mereça a alegria de ser incluída na tarefa socorrista a Helmuth, Karl e seus tristes verdugos.
Penitenciou-se:
- Já devia tê-lo informado.
Pedi permissão à direcção da Colónia “A Paz de Maria”, onde resido, para poder acompanhar e se possível participar do atendimento a Helmuth e Karl.
Fui dispensada, podendo ficar aqui pelo tempo que for necessário.
- Graças a Deus!
Não podemos perder nem um minuto.
Devo acrescentar que temos recebido informações de outras Colónias Espirituais de que factos estranhos estão mesmo ocorrendo, em determinada área.
Factos, aliás que, por se repetirem, já nos possibilitam uma primeira rápida conclusão:
pequenos grupos de Espíritos que roubam a paz de incautos estão se ajuntando na formação de uma poderosa quadrilha.
- O que informaram as Colónias a que você se referiu?
- Ah, sim, como que submetidos a um comando único, Espíritos em tratamento, muitos já em franca recuperação, vêm desertando das respectivas enfermarias e nenhuma providência dos atendentes consegue impedi-los.
Pela quantidade de vezes que isso está acontecendo, e sempre da mesma forma, pudemos detectar para onde vão e quem chefia essa perigosa manobra.
Madeleine ouvia Jules, algo aflita.
Prosseguiu o atendente:
- Há pouco conhecemos o plano desse fantástico grupo.
De início, pretendem arrasar a “H&H”, incentivando a deflagração de uma greve geral, seguida de grandes perturbações, se possível até com homicídios, o que causaria comoção de grande amplitude.
- Que o Mestre Jesus nos autorize levar entendimento evangélico a esse grupo.
- Diz bem, Madeleine.
Falta-lhes, a todos esses infelizes irmãos, a luz do Evangelho do Cristo.
Sabemos que nossa tarefa será árdua, mas empregaremos até o nosso último alento para tentar restabelecer o equilíbrio àqueles companheiros.
Finalizou a visita, convidando Madeleine:
- Isso inclui, nossos Helmuth e Karl, necessariamente.
Dentro de três horas nos reuniremos com o grupo de socorro designado para essa missão.
A reunião será no “Salão da Prece” para distribuir as tarefas, individuais e colectivas, que serão levadas a efeito tanto no umbral como no plano terreno.
Por favor, venha à reunião.
Sejam nossas as bênçãos de Jesus.
Abraçaram-se ternamente, com novas lágrimas banhando-lhes as faces.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 10:30 am

7. OS CLARÕES E AS SOMBRAS
Quando Karl retornou à sua cidade, levou no espírito muitas dúvidas, perguntas sem resposta e um inexplicável sentimento de algo desconhecido, causando-lhe tremendo desconforto, com origem em declarado quanto invisível inimigo seu.
Cássia, a esposa, percebeu de imediato que as coisas não iam bem com a futura filial e tratou logo de reforçar a intenção de beneficiar os amigos políticos.
- Meu bem, sei que há problemas lá na filial, mas penso que isso é natural.
Nossa palavra foi dada e custe o que custar, a fábrica terá que ser inaugurada dentro do cronograma.
Você confirma, não é mesmo?
- Hum... você não sabe... existem mistérios naquela obra...
- O que é isso?!
Não existem mistérios para quem é poderoso.
E nós somos o maior grupo industrial deste Estado, você se esqueceu disso?
- Não se trata de poder industrial...
- Então, do quê?
- Não sei.
Na verdade, parece que as almas danadas se uniram para me prejudicar...
- Espere um pouco, amor: prejudicar você ou à “H&H”?
- Qual a diferença?
A mulher sentiu a falha e tentou consertá-la:
- Não se esqueça de que sou sua esposa.
Tudo o que o atingir estará me atingindo directamente.
Estive, estou e sempre estarei com você.
Agora me diga:
que problemas são esses que estão na sua cabeça?
- Não estão na minha cabeça, estão na obra.
Até fogo espontâneo já aconteceu por lá e antes do incêndio, os operários ouviram barulhos no almoxarifado que estava trancado por fora, sem ninguém no interior.
- Ora, ora, não me diga que você está acreditando em almas do outro mundo. Bobinho...
Essas coisas só podem ser de alma deste mundo mesmo.
Chamaram a Polícia?
- Claro.
Foi a primeira providência do Mirênio.
Mas ficou comprovado que realmente não havia ninguém dentro do almoxarifado.
E mais, os bombeiros analisaram cuidadosamente o incêndio e emitiram um laudo técnico atestando que o fogo irrompeu de modo espontâneo.
Só que tem uma coisa...
- E o que foi?
- O primeiro incêndio, de pequenas proporções, não poderia acontecer, primeiro porque era de madrugada, segundo porque a temperatura era baixa e terceiro, nenhum material comburente estava estocado lá, de forma a que incidentalmente se misturasse com outro para que, em reacção, o fogo iniciasse.
Já no segundo incêndio... era de dia, todos estavam trabalhando.
O Mirênio, com o filho, Tom, e alguns empregados estavam lá no almoxarifado número dois, na hora que o fogo começou.
Disseram todos que ouviram um estalo e logo o fogo se espalhou.
Tiveram que abandonar o local, pois era grande o risco de explosões, que acabaram mesmo acontecendo.
Vieram os bombeiros e mais tarde, após debelar o incêndio, consideraram a hipótese de uma faísca ter alcançado as tintas, mas ninguém soube explicar quem ou o que provocou essa faísca.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 10:30 am

- Deixa prá lá, vamos ao que interessa.
As obras estão dentro do cronograma?
- Mais ou menos.
Tirei o Mirênio do comando, pois os operários não gostam dele e para pacificá-los, provisoriamente nomeei outro encarregado geral, um engenheiro que já trabalhava com eles.
- Espere um pouco.
Será que... não foi o Mirênio que pôs o fogo?
Você já observou como ele gosta de andar riscando fósforos, a esmo?
- Evidente que não foi nem o Mirênio, nem o Tom, pois alguns peões estavam com eles e testemunharam que também ouviram o tal estalo.
De qualquer forma, ele já não estará mais naquela obra.
- Meu bem, vamos preparar nossa viagem a Paris, que será mais ou menos rápida.
Não podemos recusar o convite de expor nosso “Konkord” lá e será útil reconhecer o local daquela feira internacional, talvez a mais badalada de todo o mundo.
Nisso o telefone tocou.
Karl atendeu.
Cássia assustou-se ao ver o marido empalidecer de repente, apenas ouvindo, sem pronunciar uma única palavra.
Quando Karl desligou, ela também não disse nada.
Apenas aguardou, com angustiosa expectativa.
- A “H&H” está com um grande incêndio se alastrando... as brigadas de incêndio da fábrica não conseguiram dominar as chamas e os bombeiros ainda não chegaram.
- Meu Deus!
Temos que ir até lá, agora mesmo!
- Vou sozinho.
Vá até a escola e traga Angélica, pois logo essa notícia vai se espalhar e nossa filha pode sofrer algum trauma psicológico.
Voltou-se para Cássia e com os olhos arregalados balbuciou:
- Eu não disse?!...
Eu não disse?!...
Que havia mistérios?
- Bobagem. Não perca nem mais um minuto. Vá logo!
Antes mesmo de chegar à fábrica, Karl viu o grosso rolo de fumaça que subia ao céu.
De pronto, identificou de onde saía, do pavilhão de pintura dos carros.
Com o coração aos pulos, teve grande dificuldade em entrar, pois a polícia já estabelecera um cordão de isolamento.
Viu Mirênio correndo alucinado para lá e para cá, completamente sem controle.
Alcançou-o:
- Mirênio, como é que isso foi acontecer?!
O gerente de RH estava com os olhos vidrados, em estado de choque.
Não conseguia pronunciar sequer uma sílaba.
Descontrolando-se também, Karl esbofeteou-o.
O choque de ser agredido pelo patrão todo-poderoso agiu beneficamente sobre o cérebro de Mirênio e sua mente voltou a funcionar:
- Meu filho... estava lá... com sua filha...
- O quê?!!!
- Não tiveram aula e eu os trouxe para aqui...
- Imbecil, imbecil... com ordem de quem você trouxe minha filha para aqui?
- Ela e meu filho são amigos e me pediram para ver como é que os carros são pintados...
Karl aplicou-lhe um segundo safanão e saiu em disparada, indo directamente em direcção ao fogo.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 10:30 am

Mirênio seguiu-o, a distância, pois talvez pudesse agradá-lo, segundo pensava.
Karl, sendo identificado pelos bombeiros, deles mereceu as devidas respostas, as possíveis naquele instante:
- Não sabemos como o fogo começou, estamos isolando as áreas adjacentes para evitar que o incêndio se alastre.
- Minha filha está lá!
Minha filha está lá!
Tenho que salvá-la!
O bombeiro gritou também:
- Faremos o possível, estamos fazendo o possível.
O senhor não pode entrar lá, seria morte certa!
Sob impulso incontrolável, Karl pulou a corda e dirigiu-se em disparada rumo às chamas.
Uma formidável explosão interrompeu sua corrida, pois o deslocamento do ar alcançou-o, de leve, mas o suficiente para arremessá-lo a vários metros do ponto em que estava quando foi surpreendido.
Foi sua salvação.
Ao ser atirado de encontro ao muro, este o protegeu dos destroços que literalmente choveram naquela área.
Mas não impediu que um pedaço de viga metálica atingisse sua perna, que sofreu fractura exposta.
O mesmo bombeiro, que segundos antes dialogara com ele, foi atingido em cheio por um pedaço retorcido de lataria.
Mirênio, que se mantivera algo afastado, desde que o patrão transpassara a corda de isolamento, nada sofreu.
Sentindo-se zonzo e perdendo a consciência, Karl ainda viu Mirênio que se aproximou, esbaforido.
Vendo Karl com o ferimento grave, começou a chorar.
Karl fechou os olhos lentamente.
Mirênio acercou-se dele e sem ser ouvido, murmurou, em sentido pranto:
- Nossos filhos estão em segurança, assim que o fogo começou foram retirados do pavilhão da pintura.
Acabei de vê-los com os bombeiros.
Tão logo as pálpebras cerraram Karl viu outro cenário:
perambulando por ali, em meio a destroços fumegantes, estando ainda altas as chamas, dezenas de pessoas, mal-encaradas, todas mal vestidas e sem nenhuma dúvida de má índole.
Aí, ouviu estentóricas gargalhadas.
Sem acreditar nos olhos, viu seu pai ser puxado com truculência, como um cão danado, sendo arrastado à força por uma criatura meio-homem, meio-animal.
Helmuth gritava, ensandecido:
- Angélica, minha neta!
Tenho que salvá-la!
Angélica! Angélica!
Eu não sabia que ela estava por aqui.
Vocês me traíram.
Karl assistiu covarde agressão ao pai, como represália às suas palavras.
Não se contendo, também gritou, quase enlouquecendo:
- Minha filha... o que vocês fizeram com ela, seus miseráveis?
Esquecendo que estava com grave fractura na perna atirou-se sobre aquelas criaturas, esmurrando-as a esmo.
Tentou alcançar ao pai e à medonha criatura que o trazia cativo por uma corda.
Até mesmo aqueles Espíritos embrutecidos temeram-no, por instantes.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Out 23, 2017 10:30 am

Tamanha era sua agressividade que se afastaram ligeiramente do seu alcance.
Frente a frente com seu pai e “aquela coisa” que o subjugava, estertorou, ameaçador:
- Se Angélica se machucar vou matá-los!
Ouviu sonora e arrepiante gargalhada.
- Então o paizinho quer matar o paizão...
Que lindo!
Acho que vou chorar...
Era “Fogo Aceso”, trazendo no olhar o tom inconfundível da demência absoluta, sob domínio total da crueldade.
- Quem é você, demónio do mal?
- Do bem é que um demónio não poderia ser... - respondeu irónica, com gargalhadas que eram a moldura da sua tela mental, sob trevas.
- Minha filha... onde está?
- Não interessa.
Como você está faltando com a educação, precisa de uma lição de bons modos.
Vamos arrumar sua perna machucadinha...
Estalou os dedos e o ser brutamontes deixou Helmuth, que saiu correndo, gritando pela neta.
Karl foi atingido por um tremendo pontapé na perna e sentiu dor imensa, insuportável, pois se lembrou, instantaneamente, que fora atingido ali pela explosão.
“Fogo Aceso” encostou o rosto ao dele e advertiu:
- Seja bonzinho, fale bem educadinho com a “mamãe aqui” e será dispensado de novas lições, talvez mais “pedagógicas” que esta...
Embora aquele cenário fosse todo ele envolvido por grandes clarões, das chamas que se alastravam, nos corações dos responsáveis por aquela tragédia só havia sombras.
Deus extrai o Bem até mesmo do mal:
quando “F A” pronunciou a expressão “a mamãe aqui”, em tom jocoso, fez com que Karl se lembrasse de sua mãe.
Como a situação era-lhe de grande desespero, fez uma sincera prece mental, numa única palavra, carregada de Fé e Amor: Mamãe!
Madeleine socorreu-o.
Estava na fábrica, como participante de uma equipe espiritual socorrista designada por Jules para prestar auxílio àqueles que tivessem merecimento.
Por sua intensa vibração conseguira que o filho, naquela fracção de segundo, se posicionasse a salvo de danos físicos maiores que o sofrido na perna.
Contudo, a perturbação mental de Karl, efervescendo de ódio e revolta contra o pai, cuja triste figura divisou quando desmaiou, impediu o prosseguimento do inigualável amparo maternal.
Mas, a despeito de todas as dificuldades, Madeleine não se arredou de perto do filho.
Assim, pôde ajudá-lo, quando ele, com o coração pleno de amor filial invocou-a, no auge do sofrimento causado pelo suplício a que estava sendo submetido .
Sem que “F A” sequer pudesse intentar um único gesto, viu um grande cilindro luminoso envolver sua presa e arrebatá-la aos ares, estacionando a média altura.
O Espírito Karl, cujo perispírito ligava-se ao corpo físico pelo cordão prateado, ficou abrigado no interior daquele cilindro suspenso, por alguns instantes, recebendo transfusões fluídicas.
Logo, retornou ao organismo material, que naquele momento, mesmo gravemente ferido, era um refúgio mil vezes mais seguro do que o ambiente onde o perispírito se encontrava, sob domínio da nefanda mulher que fazia do fogo dos seus olhos a infelicidade de tantas criaturas.
Desconhecia aquela triste agente do mal que, cedo ou tarde, teria que resgatar todas aquelas tristes promissórias que há tempos vinha assinando, com aval da paz interior, no cartório da consciência, diante da imortalidade.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 9:09 am

Gemendo muito, Karl identificou-se de pronto dentro de uma ambulância, em deslocamento, facto que a estridente sirene anunciava, além do médico que o massageava no peito.
- Graças a Deus! - exclamou Jeremias, o enfermeiro que auxiliava o médico.
- Minha filha... Angélica...
- Não se preocupe, doutor, ela e o colega não se feriram, só ficaram bastante assustados e já estão em casa.
- Graças a Deus! - exclamou agora o paciente, fechando os olhos, em suave torpor diante da paz que tal notícia lhe causou.
- Jesus! Será que ele...
- Não, Jeremias - disse o médico ao enfermeiro, esclarecendo aquela reacção, ele está apenas em descontracção, pois a notícia sobre a filha tranquilizou-o, afastando a grande tensão a que estava submetido.
- Mas parece que ele recobrou os sentidos por uns dez segundos apenas para ouvir a boa notícia sobre a filha.
Estava certo o enfermeiro.
Quando Karl, submetido a torturas por “F A” e seu infeliz bando, orou com extremado fervor pedindo o amparo materno, sua fé abriu de imediato as portas da Espiritualidade Protectora.
Sua mãe, com efeito, não o havia deixado um segundo sequer, mas até, então, como já dissemos, estava impossibilitada de ajudá-lo pela fixação mental negativa na qual o filho estava mergulhado, oriunda do ódio, com alevantados ímpetos de vingança contra o pai.
Contudo, a sublimidade da voz do coração, quando a criatura dirige-se à Bondade Infinita do Criador, mesmo que de forma indirecta, como ali, é música alcandorada que reverbera em todo o universo.
Mesmo que, o universo, no caso, seja apenas aquele espaço físico e psíquico no qual se movem Espíritos enredados nas tramas de perdidas e insondáveis noites de séculos sobre séculos, que o passado esconde.
O fulgor da fé é inigualável.
Karl, extraindo da essência divina que todos trazemos desde nossa criação, um minúsculo ponto do “tamanho de um grão de mostarda”, propiciou que luz de muito maior fulgor fosse vista pelos Espíritos infelizes que o maltratavam.
Após saber a notícia sobre Angélica, pela segunda vez o envoltório cilíndrico, também extremamente luminoso abrigou-o, em Espírito, alçando voo, qual suave decolagem de um balão, levando-o para longe, muito longe.
Jules providenciou para que Karl ficasse amparado até ter alta do hospital.
Assim, na ambulância, ia seu corpo físico para o hospital, abençoadamente ligado pelo cordão fluídico ao perispírito, este no envoltório cilíndrico espiritual.
Aquele foi o expediente usado pela equipe socorrista espiritual que, atenta, sob as ordens de Jules, ali estava estabelecida.
Aliás, num veículo semelhante mesmo a um balão, pairando sobre as dependências fabris da “H&H”, muito antes do incêndio devastador, cuja probabilidade houvera sido prevista por aqueles missionários.
Essa equipa que preciosos atendimentos executava em tais sinistros, tinha se autodenominado “Águas Calmas”.
Com efeito, sob o corpo daquele “balão”, havia três pingentes:
a cesta, onde ficavam os Espíritos socorristas; o cilindro de abrigo emergencial a Espíritos e um reservatório de material fluídico mais ou menos condensado que, despejado sobre os incêndios maldosos, auxiliava sua extinção, anulando-lhes o componente de fluidificação negativa.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 9:09 am

Esse material, na verdade, era uma porção de água colectada nos reservatórios da “Seara dos Espíritos”, na qual eram acrescentados fluidos de vários Espíritos que impunham as mãos no recipiente do extintor, adicionando matéria astral concentrada, anti-combustão.
Karl entrou em coma considerado “espontâneo” pelos médicos, mas, na verdade sob indução dos Protectores espirituais.
Com os sinais vitais mantidos por controle médico, foi operado, ficando por três dias na “UTI” - unidade de recuperação intensiva.
Não corria risco de vida, mas mesmo assim os médicos julgaram prudente que ficasse na “UTI”, em observação.
No terceiro dia após a cirurgia, retornou do coma.
Quando Karl foi socorrido espiritualmente, entre lágrimas de felicidade, Madeleine agradeceu a Jules e aos auxiliares a pronta intervenção, que salvara o filho dos tormentos que lhe estavam sendo infligidos.
- Oh! Jules, Deus lhe pague e aos seus amigos.
Como estou grata a vocês!
Só a eternidade será testemunha de quanto este coração materno agradece o amparo ao meu filho.
- Que é isso, minha irmã?
Temos que agradecer a Jesus, pois sabemos que a bondade do Mestre jamais é negada àquele que está em aflição.
- Sim, sim, sei que Jesus é o Bom Pastor, mas foi por seu intermédio que Ele socorreu meu pobre Karl...
- Nossa participação é sempre pequena.
É óbvio que Karl congrega méritos para ter sido socorrido, os quais nenhum de nós conhece, ou pode quantificar.
O que sabemos é que a Divina Providência contabiliza méritos e débitos, com precisão absoluta, desde que o Espírito adentra no reino da razão.
Mas, nossa tarefa não está concluída:
Helmuth corre sério perigo.
- Não me esqueci dele.
Agora que meu filho está amparado, penso abusar da sua bondade, pedindo-lhe que fôssemos buscar Helmuth, onde quer que esteja.
- Acompanhe-nos.
No telhado do pavilhão central da “H&H”, “Fogo Aceso” estava furiosa, absolutamente fora de controle.
- Seus pamonhas - gritava com os auxiliares - como é que deixaram o “grande homem” fugir?
Os subordinados não se atreviam sequer a erguer os olhos, temendo as terríveis represálias que a cada fracasso lhes impunha a chefe, que vociferou:
- Ninguém diz nada?
- Eu digo!
Era Helmuth...
Sob o impacto do fogo, em paradoxal reacção, voltou-lhe parte da consciência, até então subjugada pela demência.
Mesmo subjugado pelo homem-animal, desabafou com grande destemor:
- Vocês vão arder no inferno, pelo fogo que puseram na minha fábrica.
Levou terrível safanão.
- Deixe “essa coisa” falar - ordenou “F A”.
- Isso mesmo... vocês podem fazer o que quiserem comigo, mas cedo ou tarde eu os destruirei.
Não se esqueçam que nem a morte me venceu, pois vi meu corpo desmantelado pelos vermes e, no entanto, não sei por qual sortilégio, eis-me aqui.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 9:09 am

- O discurso foi bonito.
Aplausos para ele! - ironizou “F A”, estalando os dedos e acrescentando, com uma terrível gargalhada, que fez saltarem faíscas dos olhos.
Está na hora da aula.
Foi o suficiente:
três Espíritos, com inaudita brutalidade, a título mais de agradar à chefe, para acalmá-la, arrastaram Helmuth para o telhado do pavilhão de tintas e atiraram-no no meio das chamas que ainda estrepitavam.
O lancinante grito de Helmuth ecoou por toda a fábrica, chegando a ser ouvido por alguns poucos empregados, mesmo em meio ao terrível tumulto.
Nenhum dos que ouviram puderam explicar de onde vinha, julgando que alguém estava preso nas chamas.
É que naquele ambiente de grande aflição, angústia e medo, havia grande liberação de fluidos por parte das pessoas, o que facilitou para algumas, altamente sensibilizadas naqueles momentos e a outras, médiuns audientes, inconscientes, ouvirem o grito de Helmuth.
Com as chamas crepitando e ameaçando alcançar outros pavilhões da fábrica, “F A” traçou um plano de acção para acabar com a “H&H”:
- Vocês - ordenou aos três auxiliares que haviam arremessado Helmuth ao fogo - fiquem aqui e não parem de azucrinar o “chefão”.
Ele deverá permanecer neste pavilhão e só de vez em quando deixem ele sair, levando-o para perto de algum empregado que tenha condições de vê-lo.
Tentem aproximá-lo dos empregados, até que seja visto por algum deles.
A tentativa junto aos encarnados seria para que localizassem alguém com a faculdade mediúnica da vidência, consciente ou inconscientemente.
Fazendo um sinal aos demais auxiliares, abandonaram o local.
O terror que invadiu Helmuth não o deixou perceber que, mesmo em meio às chamas, após a queda de grande altura, “continuava vivo”, sem fracturas, sem que o fogo o consumisse.
A insuportável sensação de calor, contudo, levou-o ao paroxismo, submetendo-o a pânico extremo, voltando a implodir-lhe a razão.
A equipe socorrista “Águas Calmas”, que há pouco havia retirado Karl do jugo daqueles malfeitores do além, retornou agora para junto de Helmuth, sob ordem telepática de Jules.
Os socorristas agiram prontamente, vendo o infeliz Espírito aos gritos, envolvido por furiosas chamas que, contudo, não o consumiam, um deles aproximou-se de dois bombeiros que dirigiam um forte jacto d’água para as chamas. Concentrando-se, com elevada fé, ideoplasmou à frente dos dois valorosos soldados do fogo o quadro pungente, alguém envolto em chamas.
Com efeito, sem que registassem no consciente a terrível cena, os bombeiros dirigiram o jacto para o ponto onde estava Helmuth, só que alterando o fluxo d’água, de jacto, para uma nuvem aspersora.
Nesse preciso momento, quando a água foi em direcção a Helmuth, qual benfazeja chuva, o manobrista do singular balão das “Águas Calmas” accionou a abertura do recipiente contendo material anti-chamas, que se uniu à água dos bombeiros. Helmuth foi alcançado em cheio por aquela insólita, quanto abençoada chuva, que o isolou do inferno crepitante.
O ex-proprietário daquela grande indústria não entendeu como é que, de repente, desapareceu o fogo que o chamuscava.
Saiu daquele local proferindo blasfémias, desconhecendo por completo a bênção que o livrara de ainda maiores provações.
Trôpego, xingando todos os céus, começou a perambular pela fábrica.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 9:09 am

Em meio ao grande tumulto, foi visto por dois empregados, os quais, por sua vez, entraram em grande descontrole:
- Gente, gente - gritavam, apavoradíssimos - a alma do senhor Helmuth voltou e pôs fogo na fábrica!
Atendidos pelos médicos, foram sedados, atribuindo-se-lhes comportamento anormal pelas reacções psíquicas contraditórias que o fogo sempre causa.
Muito depois, o incêndio foi completamente dominado.
Grande atraso foi contabilizado no cronograma de entrega de carros, pelo tempo que demandaria a reconstrução do pavilhão de pintura.
O seguro cobriria os prejuízos, até mesmo aqueles sob a rubrica de “lucros cessantes”.
Mas, era inevitável, prejuízo muito maior estava por vir, tomando vulto nos dias seguintes.
Com efeito, vários factores contribuíram para que a “H&H”, uma semana após o incêndio, se visse mergulhada numa monumental crise, de proporções desastrosas incalculáveis.
Nos dias subsequentes ao incêndio, os poucos empregados da segurança interna, que continuavam em seus postos, e mais alguns que auxiliavam os bombeiros a removerem os destroços causados pelo incêndio, passaram a ouvir estranhos ruídos na fábrica sempre à noite, e vinham do pavilhão incendiado.
Segundo planeara “F A”, um dos “seguranças” viu Helmuth, completamente transtornado, no dia seguinte pediu demissão, não sem antes espalhar a notícia, que logo alcançou os que ficaram, deixando-os atemorizados.
Por dez dias os empregados vinham até a fábrica, mas não eram autorizados a entrar, até porque não poderiam mesmo fazer nada.
Quando o trabalho retornou, parcialmente prejudicado pelas obras no pavilhão de pintura, “F A” e seu bando também retornaram ao local.
De dois em dois, foram os Espíritos malfeitores em cada sector, num trabalho intenso e ininterrupto, insuflar nos empregados a ideia de greve geral, aproveitando-se do clima emocional provocado pelo grande incêndio e pelos vários feridos, alguns com gravidade.
Não houve a menor dificuldade para que os Espíritos obsessores lograssem êxito, valendo-se da invigilância da maioria; durante uma semana, praticamente todos os operários foram “acessados”, melhor, talvez, “contaminados”.
De pasmar, “F A” e seus auxiliares não encontraram um único operário em preces, ou, ao menos, em vigilância moral.
Se os encarnados pudessem ver a intensa movimentação dos obsessores, cessariam de reclamar e exclamar que a fábrica estava parada.
Na verdade, nunca houvera ali tamanha agitação.
A greve geral foi decretada.
A “H&H”, na verdade, compreendia três unidades fabris, cada uma numa cidade:
uma só para motores, outra para autopeças e a terceira, a montadora propriamente dita, no distrito industrial da capital.
Nesta última, situava-se a sede, ali estando instalados todos os directores e os vários departamentos técnicos:
pessoal, compras, financeiro, fiscal, de publicidade e de vendas.
O incêndio provocou paralisação da unidade central, a montadora, por uma semana e, em consequência, também as outras duas unidades foram parcialmente afectadas.
Valendo-se dessa parada, grupos de empregados descontentes, em contactos individuais com as lideranças dos operários, insuflaram a ideia de uma greve geral, por melhores salários e pela redução semanal da carga horária de trabalho. Estando a “H&H” paralisada, não foi difícil que tal ideia se propagasse, ganhando aprovação da maioria.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 9:09 am

Quando o Corpo de Bombeiros terminou os exames periciais e encaminhou à Justiça o laudo técnico, ao qual foi anexado o resultado das investigações policiais, paralelas, a fábrica recebeu autorização judicial para recuperar as dependências afectadas e reiniciar a produção de autos.
Mas os operários, em atitude surpreendente, negaram-se a voltar aos seus postos, a menos que seus salários fossem aumentados.
Sem a presença de Karl para decidir as providências a serem tomadas, a fábrica continuou parada.
Mesmo hospitalizado, Karl acompanhava todos os acontecimentos na sua empresa, pois o noticiário era farto.
Sua recuperação, que vinha se processando normalmente, com as notícias da greve geral ficou prejudicada, preocupando os médicos, pois o paciente, até então sob controle, manifestou grande agitação emocional.
Deixou de alimentar-se, recusando-se inclusive a ingerir os medicamentos preconizados, logo apresentando febre e convulsões.
Pior de tudo, passou a ter delírios, geralmente em meio às madrugadas:
- Socorro! Socorro!
Foi essa quadrilha que pôs fogo na minha fábrica e agora quer me incendiar também. Socorro!
Tamanha era a preocupação de Karl, temendo a perda da fábrica e da fortuna, que impediu continuidade ao amparo espiritual que recebia.
Foi requerida participação psiquiátrica quando os delírios se repetiram e por causa, principalmente, dos ferimentos causados pela fractura na perna que começaram a apresentar sintomas preocupantes, atribuídos a estresse pós-operatório.
O agravamento do quadro clínico de Karl foi debitado pelos médicos que o operaram ao seu comportamento rebelde, recusando alimentação e remédios, além de se locomover no apartamento, desobedecendo prescrições de repouso absoluto.
Assim, tais crises fizeram com que fosse entregue a cuidados psiquiátricos, pelo que passaram a lhe ser administrados potentes sedativos.
Três semanas após o incêndio, Karl obrigou os médicos a darem-lhe alta hospitalar, sendo autorizado a ir para a residência, onde se comprometeu a guardar o receitado repouso absoluto.
Chegando em casa, determinou a Cássia:
- Chame toda a directoria para uma reunião, após o almoço.
- Reunião, amor?
Onde? Para quê?
- Aqui. Por favor, faça isso agora!
Cássia percebeu que não conseguiria impedi-lo.
Nem tentou.
Quando os directores chegaram e vieram juntos, o próprio Karl recepcionou-os.
Notando-lhes no olhar, surpresa e medo, usou tal clima, aproveitando-o para seus objectivos:
- Parece que vieram para um velório...
Os olhares agora ficaram ainda mais tensos.
Criada tal atmosfera, Karl disparou:
- Quem quiser continuar no cargo, apresente-me, até amanhã, um plano para a retomada da produção.
Os homens entreolharam-se, desentendidos.
Karl fulminou:
- Sem perguntas.
Está terminada a reunião.
Esta, talvez, tenha sido uma das mais breves reuniões de directoria de todos os tempos, em todas as empresas, de todo o mundo.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 9:10 am

Tão logo os directores se retiraram, Karl determinou que seu helicóptero viesse buscá-lo e foi assim que, amparado por uma enfermeira e em cadeira de rodas, equipada com um par de muletas, chegou à fábrica antes deles.
Quando desceu do helicóptero, sentiu um dos maiores desconfortos de sua vida, ao ver o triste cenário que dominava a sua empresa, com tanto abandono, tanta sujeira, tanta solidão - ninguém veio recepcioná-lo.
Antes do desastre, quando ele chegava, todos os dias era acolhido como um herói que volta vitorioso de um grande combate.
Mirênio, em particular, incumbia-se de providenciar sempre um séquito de pessoas para darem-lhe as boas-vindas, diárias.
Mesmo após tantos dias, o cheiro de queimado ainda estava impregnado em tudo por ali.
Foi directo ao pavilhão de pintura, o único que mostrava movimento, pelos operários da construtora contratada para repará-lo.
Determinou à enfermeira que retornasse ao heliporto e que o aguardasse lá.
Queria ficar sozinho.
Aproximou-se do pavilhão danificado, para avaliar a extensão do desastre.
Perambulou daqui para ali.
A duras penas, ficou por quase uma hora naquele ambiente, o mesmo que há três semanas havia sediado o inferno, com todas as chamas possíveis.
Exausto, deu a volta no pavilhão, para dar uma olhada nos fundos do pavilhão.
Vendo uma viga de aço, retorcida, em meio aos destroços, reconheceu-a, era aquela mesma que o atingira, após a explosão.
Apanhou as muletas, ergueu-se com dificuldade e tocou na viga.
Ao lado, dezenas de tonéis carbonizados.
Encostou-se num deles.
Assim que Karl chegara à “H&H”, um dos dois auxiliares de “F A” que ali estavam estacionados, com o propósito de informá-la sobre qualquer novidade, deslocou-se rápido ao encontro da chefe.
Em menos de meia hora, a infeliz entidade espiritual adentrava, sozinha, no pavilhão de pintura.
Num canto, Helmuth estava encolhido, vigiado por carcereiros a mando dela, os quais, ao vê-la, simplesmente ao vê-la, para agradá-la, aplicaram seguidos bofetões no prisioneiro.
“F A” aprovou tal atitude.
Perguntou a Helmuth:
- Então, grande chefe, vamos trabalhar?
- O que querem de mim, seus demónios?
- Hum... Não quer ver o chefinho?
- ?!
- Seu filho, boboca.
Mais boboca que você...
- Onde está aquele infeliz, que me roubou a fábrica?
Vou matá-lo.
“F A” determinou aos capangas que trouxessem Karl para dentro do pavilhão.
Os Espíritos aproximaram-se de Karl e incutiram nele a ideia de adentrar no prédio.
Sem dificuldade, obtiveram êxito.
“F A” tinha em mente um terrível desfecho para a contenda entre os Heinrich:
provocar novo incêndio, dessa vez causando a morte de Karl.
Chegaria ele ao plano espiritual tão perturbado e enfraquecido, com tanto ódio do pai, que com a maior facilidade seria escravizado.
Seria mais um na extensa fieira de homens ricos cuja desencarnação ela abreviara, utilizando a própria usura deles, que quase sempre acabava por roubar-lhes a saúde.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 9:10 am

Para dar início ao fogo, trazia um pacote, com estoque de substância extrafísica, capaz de funcionar como verdadeira escorva.
Algumas convulsões geológicas, por vezes, são inexplicáveis:
terrenos que afundam, engolindo casas; trombas d’água que atingem apenas poucas residências; enchentes que levam de roldão apenas um prédio; ventos que derrubam muros sobre veículos ou pessoas; desbarrancamentos, causadores de mortes.
- Qual seria a causa?
Aos Espíritos da natureza , nem sempre é possível dominar o tremendo potencial energético que se desprende de graves comportamentos humanos e desestabilizam áreas, pequenas ou grandes.
Desencontros psíquicos, de várias mentes engajadas em conquistas individuais, absolutamente antagónicas mas edificadas nos traiçoeiros patamares do crime, da ganância, do egoísmo, do orgulho, do ódio ou da vingança - todos eles - geram ondas de choque que se deslocam avassaladoras, a partir do epicentro e em várias direcções radiais.
E que só podem ser interrompidas quando colidem com algum sítio cuja emanação mental seja-lhes oposta, isto é, com grande equilíbrio astral reinante.
Nesses sítios, que assim se transformam em potente anteparo a tais vagas destruidoras de tudo o que esteja na sua rota, via de regra, agrupam-se benfeitores desencarnados, encarregados do equilíbrio natural daquela região, zelando pelo bem-estar dos encarnados das proximidades a serem poupados de danos, disso merecedores.
Facto similar aconteceu ali na “H&H”, quando novamente pai e filho, conquanto em dimensões diferentes, fixado cada qual em deletério teor mental, foram colocados frente a frente.
Sim, emitiam, simultaneamente, perniciosos pensamentos.
Agravante de tal quadro, de per si já bastante grave, o facto de “F A” e seus asseclas há tempos fermentarem poderosamente os dois, fazendo-lhes recrudescer a ideia de um destruir o outro.
Também nas dependências da fábrica, invisíveis a olhos humanos, centenas de Espíritos desocupados tinham acantonado.
Eram eles os Espíritos das várias quadrilhas que haviam se agrupado sob ordens de “F A”.
A instrução, para todos esses infelizes Espíritos, era uma só:
perturbar o máximo possível, até que a fábrica falisse.
Para tanto, não deveriam poupar um único operário, assoprando-lhes no ouvido, sem cessar, a ideia de queimar o resto da fábrica.
Para convencerem os operários, os obsessores recitavam frases tais como:
“esta fábrica só dá lucro aos donos”; “quem trabalha aqui não terá dificuldade de arranjar outro emprego”; “mau patrão não merece perdão”; “nem com aumento do salário este é um bom lugar para se trabalhar, pois o diabo anda por aqui”.
Assim, tremenda e negativa onda mental de choque se formou causando uma como que explosão na já abalada psicosfera daquele ambiente.
Em Karl eclodiu, abrupta, a mediunidade de vidência, inscrita na sua bagagem carnal, desde o nascimento.
Em várias oportunidades dos últimos tempos vinha tendo visões rápidas de vultos, de sombras, de luzes.
Sistematicamente, repelia esses sinais - verdadeiros telegramas da Espiritualidade, de advertência, para o despertamento quanto à responsabilidade à sua frente.
Viu o pai.
Helmuth trazia as vestes rotas e chamuscadas, mas mesmo assim Karl reconheceu naqueles trapos imundos a sofisticada mortalha do pai.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 9:10 am

Embora com a perna engessada, ergueu-se da cadeira de rodas, brandindo as muletas e praguejou:
- Porque saiu do inferno e veio pôr fogo na minha fábrica?
Helmuth, trôpego em razão de tantas e intermináveis agressões de que era vítima, reconheceu o filho e uma súbita onda de revolta e ódio conferiu-lhe forças para retrucar:
- Sua fábrica?!
O que você fez para merecê-la?
Avançando para o filho, repetiu, alucinado:
- E o fogo? E o fogo?
Logo, ele mesmo respondeu, apontando para “F A”:
- Não fui eu, seu idiota!
Foi ela! E com sua ajuda...
- O quê? Você está louco!
Nisso, Karl viu-a também:
“F A”, cujas gargalhadas eram de enlouquecer qualquer um.
Mantendo-se parcamente equilibrado, em uma perna só, quase caiu de susto ao ver aquela jovem, cujo olhar, fixando-se nele, deu-lhe a impressão de que dos olhos dela vieram brasas para os seus.
Neste momento, o pavilhão sofreu um abalo, como se sacudido por um terremoto, localizado apenas ali.
Karl viu uma bola de luz, linda, azul, com incrível velocidade, percorrer as paredes danificadas do prédio.
Espíritos amigos, com Jules à frente e Madeleine entre eles, conseguiram dissolver o grande teor energético ali desprendido e acumulado por aqueles Espíritos em tão ímpia atitude, cada um a seu turno.
No conglomerado mental negativo, estava incluída uma imensa colaboração dos encarnados, desde os directores aos operários, todos descontentes com Karl.
Condensando fluidos de grande força magnética, os socorristas do além provocaram abrupto escoamento da perigosa matéria astral que envolvera toda a fábrica, de forma a dar a impressão - apenas aos desencarnados - de que estavam em meio a um terremoto.
Os Espíritos infelizes, apavorados, tentaram fugir.
“F A”, vendo os auxiliares se acovardarem, gritou, histérica:
- Ainda acerto contas com todos vocês... todos vocês...
Seu ódio agora era dirigido não apenas a Helmuth e Karl, também passou a odiar os companheiros de tão pequena fibra.
Karl não acreditava no que via, o vácuo que se formou sugou os Espíritos infelizes que estavam na “H&H”, funcionando como enorme aspirador, engolindo-os num formidável vórtice que os arremessou a desconhecida distância.
“F A”, inclusive, foi catapultada para longe, com os demais Espíritos que tantos danos já haviam causado à fábrica.
Apenas Helmuth foi poupado pelo vórtice.
Socorrido por dois padioleiros foi conduzido por eles a destino que Karl ignorava.
Os amigos da Espiritualidade Maior assim agiram, porque os operários, como que hipnotizados pelas ideias dos obsessores, estavam negligenciando o bem-estar das próprias famílias.
Considerando que não deveriam tais familiares sofrer com a invigilância deles, houve a providencial intervenção espiritual.
Além disso, em torno de toda indústria de grande porte, como são as montadoras de automóveis, orbitam empresas menores, às dezenas, fornecendo-lhes componentes, os mais diversos.
Por causa da greve geral na “H&H”, também essas fornecedoras estavam com vendas paralisadas, com stoques altos, o que em breve as obrigaria a dispensar empregados se em curto prazo aquela greve não findasse.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 9:10 am

E isso, acarretaria mais dificuldades a centenas de lares.
Presa de intenso medo por causa do terremoto, atónito com o que viu, ou que imaginou ter visto, segundo pensava, Karl deu-se conta de que a enfermeira, desobedecendo-o, gritava com ele, tentando ajudá-lo a retornar à cadeira de rodas:
- Senhor Karl, senhor Karl... vamos voltar para casa!
Recobrando o raciocínio pleno, perguntou, aflito:
- Você viu?
Você viu?!
- O quê, senhor Karl? O quê?
Karl olhou em todo o pavilhão.
Os homens encarregados dos reparos trabalhavam normalmente.
Tudo estava na maior calma.
Ninguém sentira o mais leve tremor de terra.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Out 24, 2017 9:11 am

8. GANÂNCIA A DOMICÍLIO
Karl chegou em casa transtornado, falando coisas desconexas, tais como “terremotos na fábrica”, “bolas de luz rodopiando”, “o pai escravizado” etc.
Cássia, ouvindo-o, passou a considerar a hipótese de afastá-lo do comando da “H&H”, por algum tempo, durante o qual ela própria o assumiria.
Por trás dessa ideia, estava “F A”, que percebendo que perdera Helmuth, como elemento de ligação com Karl, não desanimou de persegui-lo.
Reflectiu que a única forma de atingi-lo, seria utilizando sua esposa.
Vaidosa, Cássia não opôs qualquer resistência à perniciosa aproximação da inimiga de Karl, desapercebendo que qualquer dano que o atingisse, necessariamente a atingiria também.
Tal, a consequência do afastamento do Evangelho, opção da maioria das pessoas egoístas ou gananciosas, de forma inconsciente.
O Espírito obsessor, altamente treinado em subjugar mentes enfraquecidas pela ganância, sugeriu a Cássia que ela era muito mais competente que o marido para gerir os negócios da “H&H”.
Nem precisou repetir a sugestão.
Cássia assimilou a ideia.
Propôs:
- Meu bem, por que você não tira umas férias, até sarar?
- Férias? Você enlouqueceu?
Justamente agora que a “H&H” está com tantos problemas?
- Mas é justamente nisso que estive pensando, querido.
Seu afastamento temporário seria uma excelente solução.
- Não estou entendendo.
De que forma minha ausência poderia ser “excelente solução”?
Além de não estar entendendo, também não estou gostando.
Será que até dentro da minha casa “tem gente” contra mim?
Cássia fez-lhe uma carícia e sussurrou:
- Bobinho.
Você sabe que eu só quero seu bem.
E sabendo quanto você ama a “H&H”, quem não gostar desse amor, não gosta de você.
A fábrica é nossa e o que pretendo é que ela cresça ainda mais.
Essa greve já foi longe demais.
Imaginei que com você ausente desta cidade, estarão esvaziadas todas as intrigas de tantos arruaceiros, até porque a mídia não estará nos incomodando, toda hora, como está acontecendo.
Além disso e, inclusive, ninguém desconfiaria desta “nossa” intenção já que há parecer dos médicos aconselhando uma estada sua de uns quinze dias na praia, pois junto do mar a recuperação será muito maior.
Bastante dengosa, acrescentou:
- Vou com você e no dia seguinte retorno.
Irei para a fábrica, onde passarei o dia todo, resolvendo todos os problemas, segundo orientação que pedirei a você.
O que não puder ser resolvido, ou que seja prejudicial a nós, direi apenas que “não conheço tal assunto” deixando para você resolvê-lo.
Alicerçou seus argumentos:
- Não se esqueça de que estive com você em todas as reuniões junto aos nossos aliados na Europa e Estados Unidos.
Sei exactamente o que você pensa e o que é melhor para a “H&H”.
Assim, penso que estarei à altura de responder por você.
- De hoje para amanhã resolveremos isso.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 9:27 am

No ar, ficava a dúvida do que a realidade decidiria.
No dia seguinte, três directores visitaram Karl e entregaram-lhe o plano solicitado na véspera.
Karl esperava um processo com análises comerciais e várias alternativas tendentes a pôr fim à greve.
Bastante contrariado, recebeu apenas um simples parecer, assinado por todos os directores presentes no país, declarando:
“Somos de opinião que a “H&H” deve atender aos empregados, entre os quais nos incluímos”.
Os directores que se encontravam no exterior, contactados, declararam concordância com os colegas.
Karl olhou com ódio os emissários.
Foi taxativo:
- Isso é um pedido de demissão?
Ante a impassividade dos homens, respondeu ele próprio:
- Aceito! Estão todos demitidos!
Os homens empalideceram.
Esperavam contrapropostas, alguma ajeitação, conciliações, margens menores de reajustes salariais, até reprimendas.
Mas demissão, jamais.
E ainda por cima, colectiva, de toda a directoria.
Na hora, um deles reconsiderou:
- Estou satisfeito com meu salário - e começou a chorar.
Outro repetiu o gesto. Recuou:
- Eu também.
O terceiro director olhou com desprezo aos dois colegas acovardados e retirou-se.
Mas teria decepção maior:
apenas dois outros directores, mesmo assim titubeantes, posicionaram-se solidários com ele.
Todos os outros correram à residência de Karl, hipotecando-lhe dedicação e fidelidade eternas.
Estocada final na directoria da “H&H” seria desferida naquela mesma tarde, quando, no julgamento da greve, no Tribunal Regional do Trabalho, houve acordo entre as partes, sendo concedido aumento salarial, menor do que o pleiteado, sem redução das horas trabalhadas.
Como a partir daí a greve seria considerada ilegal, os operários retornaram no dia seguinte ao trabalho.
Todos receando demissão.
A “H&H” requereu e obteve deferimento, no sentido de que os percentuais de elevação no custeio da fabricação e montagem dos automóveis, decorrente da decisão trabalhista, fossem repassados para o preço de venda.
A dúvida de Karl, do que fazer, deu seu último suspiro quando ele recepcionou em sua casa um grupo de trabalhadores, que foram desejar-lhe “saúde”.
Num golpe bem urdido, a fim de captar a simpatia deles, prometeu-lhes compensar, com horas extras, a todos os grevistas, os descontos autorizados pela Justiça dos dias não trabalhados.
Dessa forma, a produção recuperaria o atraso e ninguém sofreria diminuição salarial nos contra-cheques.
E assim, dentro de poucos dias, a “H&H” voltou à produção, já que o pavilhão de pintura havia sido rapidamente reconstruído.
“F A” perdia mais um “round” na sua obsessiva luta contra Karl.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 9:28 am

Com a esposa e a filha, o presidente da “H&H” decidiu passar o fim de semana prolongado na praia, valendo-se de um feriado na sexta-feira.
Tom, dezoito anos de idade, filho de Mirênio, acompanhou-os, pois Angélica insistiu na sua companhia.
À noite, faltou luz por alguns minutos.
Os quatro estavam reunidos na ampla frente da mansão situada na orla, apreciando a paisagem nocturna, ouvindo o barulho das ondas que se esparramavam na praia, formando alva espuma, onde o luar se reflectia.
A conversa ia solta e descompromissada quando Angélica pediu ao amigo e colega escolar de vários anos:
- Tom, conta para o papai aquelas coisas...
Assustado, ante o inesperado convite, Tom disfarçou:
- É tudo bobagem, só brincadeira...
Karl nem sequer interessou-se em saber do que se tratava.
Seus pensamentos estavam inteiramente voltados para a retomada da produção da “H&H”.
Cássia, porém, a bordo da quase sempre infalível sensibilidade feminina, pressentiu algo.
Disfarçou a curiosidade, mas sugeriu, brincando:
- Segredos?
Podemos saber quais são?
Agiu de caso pensado, intimamente, captando que alguma coisa importante os jovens sabiam, decidiu testá-los, fazendo as perguntas e prestando o máximo de atenção à reacção de ambos.
Não se equivocou.
Tom não conseguiu disfarçar um enorme constrangimento.
Nesse ponto, vendo a esposa assumir a tal postura de submissão das leoas, que ficam bem abaixadas quando prestes a atacarem a presa, Karl também intuiu que havia mesmo alguma coisa a ser revelada.
De longe, conhecia aquela reacção de Cássia, quando algo despertava o interesse da sua mulher.
De repente, em menos de dois minutos, o ar ficou pesado.
As luzes acenderam-se, com o retorno da energia eléctrica.
Cássia, com os sensores psíquicos todos em alerta, agindo como se estivesse desligada da realidade, artista da dissimulação que era, agora tinha certeza que Angélica e Tom referiam-se a algum mistério ligado à “H&H”.
E como a fábrica, nos últimos tempos, só vinha enfrentando problemas, felizmente resolvidos, ou com solução encaminhada, tal mistério talvez explicasse qual a origem de tantos dissabores.
Lembrou-se, inclusive, que Angélica e Tom estavam no pavilhão de pintura de autos quando o incêndio irrompeu.
Teriam visto algo?
Saberiam quem foi o responsável, se é que aquilo foi provocado?
Espantosa é a percepção da mulher quando concentra suas forças mentais num objectivo específico, seja de que natureza for.
Cássia, com efeito, há muito vinha reflectindo, sem pisar um único instante na fábrica, que nela estavam acontecendo factos anormais, de origem misteriosa.
E acontecimentos não faltaram como o grande incêndio, cuja causa nem os bombeiros conseguiram explicar; após o incêndio, segundo a polícia apurou, os seguranças nocturnos tinham ouvido gritos lá no pavilhão de pintura, onde não havia ninguém; houve operário que afirmou ter visto a alma do “doutor” Helmuth perambulando por lá; Karl, há dias, quando lá esteve, sozinho, antes das actividades fabris serem retomadas, disse que houve um terremoto só no pavilhão de pintura, viu “bolas de luz”, viu o pai, viu Espíritos.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 9:28 am

Cássia aproximou-se de Tom, descansou carinhosamente o braço nos ombros do jovem e quase encostando rosto no rosto, disparou um primeiro torpedo psicológico, para enredá-lo:
- Tom, nós gostamos muito de você.
Você sabe disso, não é mesmo?
Tanto que o trouxemos connosco.
- Sim, dona Cássia.
Amedrontado e absolutamente envolvido pela mulher, que tirou proveito da situação, que ela mesma forjara, Tom, “sendo lembrado” de que era gratuita a luxuosa hospedagem que lhe estava sendo ofertada, não se livrou da patética figura do pobre que se torna refém da atenção de um rico.
- Vocês bem que deveriam - incentivou os jovens - aproveitar que a luz retornou e dar um passeio pela praia, mas sem se afastarem muito.
Tom imaginou ter ouvido sinos celestiais, anunciando sua liberdade da perigosa situação a que a indiscrição de Angélica o havia arremessado.
Nisso, o telefone tocou.
Angélica foi atender e sinalizou que era uma amiga.
Num gesto felino, aproveitando a inesperada oportunidade, Cássia delicadamente induziu Tom a acompanhá-la até o mar, “só para molhar os pés”.
- Depois, vocês irão passear...
Sem suspeitar de nada, Tom aquiesceu.
Karl ficou apenas observando.
Quando as espumas lhes acariciavam os pés, tendo certeza absoluta de que ninguém os ouvia, Cássia disparou o segundo torpedo:
- Então?
Se você gosta de nós e confia em mim, conte qual o segredo que a Angélica sabe.
Arrematou, “genialmente”, com um terceiro míssil psíquico:
- Se você não contar, minha filha nos contará.
Nunca guardou segredo nem para o pai, nem para mim.
Contudo, prefiro ouvi-lo de você.
E esteja certo de uma coisa, serei sempre sua aliada, não se esqueça disso!
Não houve como resistir.
Tom falou, bem baixinho, como se até do mar quisesse ocultar o que dizia:
- Eu tenho um problema...
Ninguém pode saber...
Angélica descobriu lá no pavilhão da pintura...
Cássia, com maestria, disfarçou a aceleração cardíaca que súbito a assaltou.
Aguardou o resto, passando lentamente os pés nas espumas.
- Eu... eu... - gaguejou Tom - imagino que ponho fogo nas coisas.
- O quê?! Você?! Como?
Tom começou a chorar.
Cássia, prudente, para conhecer toda a verdade, afastou-se das vistas do marido e da filha.
Acalmou Tom.
Maternal, convidou-o a desabafar, contando-lhe todos os detalhes.
O jovem, não conseguindo mais conter no peito a angústia que a cada dia mais o atormentava, viu em Cássia a bóia salvadora para livrá-lo do naufrágio íntimo que havia afogado sua paz:
- Minha vida tem sido um terrível drama, a ponto que já pensei até em me matar.
Há menos de um ano, por várias vezes, com minha participação indirecta, vêm irrompendo incêndios espontâneos.
Cássia estava apavorada.
Jamais ouvira algo semelhante.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 9:28 am

Tom seguiu:
- Não consigo explicar, mas tenho brigado muito com meus pais.
E toda vez que isso acontece alguma coisa pega fogo.
Cássia não conseguia ordenar as ideias.
O jovem prosseguiu:
- Sei que é por minha causa porque uma vez sonhei que uma mulher, que eu nunca vi, mas que me conhece, disse-me, no sonho, que nós dois, juntos, iríamos incendiar a firma onde meu pai trabalha.
- A “H&H”?
Que mulher é essa?
- Na sua fábrica, sim.
Da mulher só sei que tem fogo nos olhos, ou pelo menos, parece que os olhos estão em brasas...
- Santo Deus!
Explique-me como aconteceram... os incêndios... que você “indirectamente” provocou.
- O primeiro, lá na construção da nova fábrica, porque meu pai, para agradar ao doutor Karl, apresentou-se como voluntário para ir supervisionar a obra.
Lá em casa a briga foi feia, pois eu e a mamãe nos negamos a acompanhá-lo.
Aí, ele foi sozinho.
Mas, ainda para agradar ao patrão, desculpe, ao senhor Karl, exigia que eu e mamãe fôssemos visitá-lo, ao invés de ele vir a nossa casa.
Sem a menor vontade de ir até lá, concordei em acompanhar mamãe, inclusive para não deixá-la viajar sozinha.
Fomos na sexta-feira, depois do almoço, com retorno previsto para domingo de manhã.
Assim que chegamos, papai levou-nos a visitar a obra e quando entrei no almoxarifado, só de raiva, desejei ardentemente ver todos aqueles materiais quebrados, bagunçados.
- E o que aconteceu?
- No dia seguinte, papai estava apavorado, pois misteriosamente muitos materiais tinham sido inutilizados e um pequeno incêndio pôde ser apagado, antes de se propagar, graças a um cachorro que deu o alarme.
- Mas... e o grande incêndio, aquele que espantou os operários?
- Pois é, no fim de semana seguinte, papai novamente forçou nova visita nossa.
E eu tinha o “maior programa” com uns amigos.
- Vocês foram?
- Mamãe obrigou-me a acompanhá-la, pois papai ameaçou de não mandar dinheiro.
Ela teria que ir buscá-lo.
Tivemos que ir.
Fiquei furioso com papai e quando eu visitei as obras, entrei no almoxarifado e veio-me à lembrança daquela mulher do sonho.
- E daí?
- Sei que errei, mas dessa vez não quis ver coisas quebradas, e, sim, que aquilo tudo pegasse fogo.
- Mas me diga uma coisa, com toda sinceridade, não escondendo nada:
você fez alguma coisa, deixou alguma peça acesa, uma vela talvez, para de alguma forma provocar o incêndio?
- Não, senhora, juro que não!
Fiquei com mamãe e papai no hotel, inclusive fui dormir mais cedo.
No meio da noite acordei, assustado, pois estava tendo um terrível pesadelo.
- Qual?
- Sonhava que estava lá no almoxarifado, com aquela mulher e muitas outras pessoas, todas maldosas.
No sonho, a mulher dos olhos acesos pegou na minha mão e mandou que eu a pusesse sobre uma lata de tinta.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 9:28 am

Em pouco tempo vi uma pequenina chama sair da minha mão e o fogo começou.
Aí, acordei assustado.
Poucos minutos depois, bateram à porta do nosso apartamento, lá no hotel, avisando que a obra estava pegando fogo.
Papai foi até lá e quando voltou, veio arrasado, pois o fogo consumira quase tudo.
E como a senhora sabe, o laudo dos bombeiros disse que o fogo foi espontâneo... e também inexplicável, pois estava fazendo frio e não foi encontrado o menor indício de que houvesse sido criminoso.
- Ora, Tom, então é isso?
Bobinho, ninguém põe fogo nas coisas por sonho... são fantasias da sua cabeça.
- Mas como a senhora explica o incêndio no pavilhão de pintura?
Cássia não deu a menor importância para a aflição de Tom. Brincou:
- Na hora em que o fogo começou, você não estava sonhando... ou estava?
- Como poderia estar sonhando se era dia e a Angélica estava comigo e viu tudo?
Pela primeira vez, Cássia vacilou.
O diálogo, no mesmo instante, atingiu ponto máximo de ebulição nas suas ideias.
Sem conseguir impedir o tremor que dela apossou-se, “quase implorou”:
- Explique-me o que aconteceu...
- Novamente eu estava zangado com papai.
Quando ele soube, naquele dia, que não haveria aula, obrigou-me a ir à fábrica, pois há tempos ele queria me forçar a arranjar um emprego lá...
Meus colegas ficaram na escola jogando futebol, e eu sou justamente o capitão do time...
A senhora imagina minha raiva?
Para tentar agradar ao doutor Karl, meu pai convidou Angélica a nos acompanhar, ofertando-lhe uma carona.
Fiquei mais irritado quando ele murmurou no meu ouvido:
“Quando o pessoal nos ver chegando com a filha do dono, vão nos respeitar mais.
E o seu emprego estará garantido, pois vamos desfilar com Angélica ao nosso lado e dificilmente algum director vai se negar a empregá-lo”.
Disfarçando a grande raiva que agora passou a nutrir por Mirênio, Cássia incentivou Tom a continuar a fantástica narrativa:
- Ora, Tom, não seja tão severo.
Seu pai só queria o bem do filho.
- Mas não é assim que se vence na vida, dona Cássia, usando os outros como trampolim.
- Mas, voltemos ao fogo:
o que aconteceu?
- Não sei se a senhora vai acreditar.
- Vou, sim.
Você é um bom rapaz e jamais teria coragem de mentir para mim, quem tanto o admira e estima.
- Eu estava fervendo de raiva do meu pai e quando vi toda aquela enorme movimentação no pavilhão de pintura, lembrei-me do sonho... aí... pensei outra vez naquela mulher esquisita.
Pensei tão firmemente que quase não percebi que havia colocado a mão num tambor de tinta, como fizera no sonho relativo ao almoxarifado da obra.
- Não vai me dizer que saiu fogo da sua mão...
- Eu desejei, com veemência, que tudo aquilo pegasse fogo.
Quase desmaiei quando percebi que onde eu encostei a mão... o tambor começou a esquentar muito e depressa...
- Viu algum fogo?
- Não. Mas alguma coisa me dizia que logo ia acontecer um incêndio ali.
Peguei Angélica e retirei-a rapidamente do pavilhão.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

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