Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 9:28 am

Foi nossa sorte.
O fogo logo surgiu, um fogaréu, justamente onde nós estávamos e por pouco nós dois nos salvamos, já que aquele tambor explodiu...
- Ora, ora, Tom.
Você não teve culpa de nada.
Tudo não passou mesmo de fantasia da sua mente.
- Mamãe, a senhora está enganada... foi do jeito que ele contou - confirmou Angélica, que terminado o telefonema dirigiu-se à praia procurando-os e ao alcançá-los, sem ser notada, ouviu a parte final do diálogo.
- Filha, você estava nos ouvindo?
- Não, estava procurando-os.
Mas ouvi, sim, parte do que diziam.
- Essa história é muito fantástica, minha filha, não dá para ser verdade.
Quem acreditaria numa coisa dessas?
- Não se trata de fantasia, mamãe.
A senhora se lembra de que naquele dia eu fiquei com a palma da mão queimada?
Sabe onde me queimei?
Foi no tambor, quando o Tom me disse que estava se sentindo mal e que tinha a impressão que a mão dele estava pegando fogo, por dentro.
Não houve mais condições de nenhum passeio na praia.
Retornaram a casa e Cássia narrou tudo ao marido, na presença de Tom e Angélica, que apenas confirmaram.
No dia seguinte, bem cedinho, embora o dia estivesse esplêndido, para qualquer actividade, em particular para as delícias reconfortadoras de uma praia, Karl decidiu que retornariam, perdendo, assim, dois dias de folga junto ao mar.
A primeira providência de Karl, logo pela manhã da segunda-feira, foi despedir Mirênio, sumariamente, indemnizando-o com todos os direitos trabalhistas.
Foram dadas ordens severas para que o ex-gerente de RH sequer pudesse circular pela fábrica, devendo ser escoltado pela segurança até sair da “H&H”, onde, jamais, deveria pôr os pés.
Mirênio, em estado de choque, quis falar com o senhor Karl, mas a secretária não permitiu.
Num lance arrojado, que o desespero comandou, o demitido invadiu a sala do presidente, abrupta e inesperadamente, burlando pequena desatenção da segurança.
Karl sequer levantou os olhos da leitura que fazia.
A experiência ensinara-o que tais cenas são inevitáveis naquelas circunstâncias.
Mirênio ajoelhou-se no meio da sala e implorou:
- Doutor Karl, porquê?
Porquê? Por favor, não me mande embora!
Amo meu emprego, amo a “H&H”, amo os directores, amo os empregados... amo o senhor, mais que todo mundo!
- Que bom, tanto amor.
Karl, quando conheceu de que forma incrível a sua “H&H” fora tão prejudicada, devotou surdo ódio a Mirênio.
Na mente, algemou a inteligência com intolerância absoluta, construiu um muro de cinco metros de altura à volta da razão, de forma a impedir qualquer complacência para com o agora “famigerado gerente”.
Dessa forma e nesse patamar mental, apenas fez um gesto para o segurança, que bastante atrapalhado ante sua falha, sentia-se responsável por aquela cena, “ridícula cena”, como ele próprio a sentia.
Embora muda, a ordem que o gesto significava era: “enxote-o”.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 9:29 am

O segurança teve que arrastar Mirênio que, aos gritos e com pungentes lamentos, ofertava triste espectáculo de subserviência e de ausência integral de dignidade profissional.
Do lado de fora da fábrica, quem pudesse ver no plano espiritual denso, veria “F A” exultante, pois entre ela e Mirênio houvera grande paixão no passado, que se findou quando ele a abandonou, sem qualquer explicação, e pior, por outra paixão, não menos ilusória passageira, pois.
A grande humilhação que sofrera bem que equivalia àquela agora experimentada pelo ex-amante.
O passado entre ambos se constituía em testemunha do presente, e mais que isso, ante o enganoso sentimento de vitória que a vingança lhe ofertava, constituía pavimentação áspera para seus passos, no futuro.
Os seguidos erros de Mirênio, inclusive os atuais - bajulação e hipocrisia - tinham-lhe anestesiado o bom senso, e pior que isso, decretado a falência da moral.
Pequena dose de ética condenaria a razão do seu proceder, que era garantir o emprego.
O desemprego é sempre munição de alto teor para permanentes desavenças familiares.
Com assessoria invisível.
Tanto que Mirênio, ao chegar a casa, na companhia de “F A”, ponderou com alguma calma todos os últimos acontecimentos, chegando à conclusão de que Tom estava por trás da sua demissão.
Chamou o filho.
Ameaçando-o rudemente, extraiu dele a confissão do que se passara no agourado passeio à praia na casa do senhor Karl.
Esbofeteou-o várias vezes.
“F A” encheu-se de ódio por Mirênio, não era isso que queria.
Pela primeira vez, em séculos, sentiu dó... de Tom.
Em represália a Mirênio, agiu da forma como sabia, fogo.
Mirênio interrompeu a brutal agressão quando sentiu um cheiro forte, vindo do quarto do casal.
Assustado, viu fumaça saindo pela porta.
Acorreu e, com grande esforço, conseguiu apagar o incêndio que irrompera dentro do armário, queimando toda a roupa de cama, vários cobertores.
O próprio armário ficou inutilizado pelo fogo.
Nilce, que tinha ido à padaria, ao retornar acudiu o filho, em estado de choque, e a seguir ajudou Mirênio a apagar o fogo.
• • •
Evaldo foi convocado por Karl para uma reunião de emergência, tendo sido buscado de helicóptero.
Chegando à “H&H”, foi cientificado por Karl de todo o mistério dos incêndios, inclusive a demissão de Mirênio.
Karl mandara buscar Evaldo, com máxima urgência, pois lembrava-se da conversa que tivera com ele quando houve o grande incêndio na construção da fábrica de ônibus e caminhões da “H&H”.
À época, Evaldo tinha dito categoricamente a mesma coisa que Tom havia confessado.
Inclusive, nesse período de tempo, Evaldo se mostrara óptimo administrador de obra de grande porte, pois o cronograma havia se actualizado e não houvera qualquer problema desde que assumira o cargo, a título precário.
Cargo no qual, pelos bons resultados, tinha sido oficializado, a pedido de Karl junto à direcção da construtora encarregada da obra.
Karl solicitou melhores explicações “quanto àquela história de Espíritos perturbadores”.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 9:29 am

E Evaldo, intimamente convicto de que estava diante de um profundo e grave processo obsessivo, não titubeou e foi firme:
- Dr. Karl, adianto ao senhor que, reflectindo sobre tudo o que aconteceu aqui, como espírita que sou, tenho a forte impressão de ter sido acção espiritual negativa, não apenas de Espíritos desencarnados, mas também de encarnados.
Evaldo, espírita há vários anos, médium de consideráveis recursos intuitivos, muito dedicado ao estudo do Espiritismo, participava em sua cidade de um grupo mediúnico dedicado às reuniões de desobsessão, ao lado de outros onze médiuns.
Naquelas reuniões, nas quais não havia público assistente, aqueles abnegados tarefeiros recepcionavam visitantes espirituais, em estado de grande desequilíbrio psíquico e penúria moral.
Tais Espíritos, trazidos bondosamente por Socorristas Espirituais, ali recebiam conselhos sobre o Evangelho de Jesus, quase sempre sobre as bênçãos do perdão, pois a maioria era formada de entidades fixadas em vingança.
Vingança contra encarnados, aos quais se imantavam, em dolorosos processos de acoplamento mental, de dificílima disjunção.
Muitos desses obsessores agiam conscientemente, mas também não eram poucos que o faziam de forma inconsciente, sob comando hipnótico de algum líder escravizador, também desencarnado.
Tal como “F A”.
Karl convidou:
- Gostaria de receber sua visita hoje à noite, em casa, para que possamos conversar melhor.
Inclusive, gostaria que minha mulher ouvisse todas essas coisas que você me falou sobre os tais “Espíritos perturbadores”.
- Com todo prazer, doutor Karl, à noite irei à sua casa.
O diagnóstico espiritual de Evaldo estava correto, quanto à causa de todas aqueles tormentosos acontecimentos que haviam atingido a “H&H”.
Conforme havia prometido, após o jantar Evaldo visitou o casal Karl e Cássia.
Mas não estava só, com ele, assessorando-o mentalmente, estavam Jules e Madeleine.
Após ser apresentado a Cássia e Angélica, esta que fez questão de assistir às explicações que seriam dadas, Evaldo discorreu:
- O Espiritismo comprova que os encarnados dificilmente estão sozinhos em suas actividades diárias e em suas decisões.
Isso porque temos várias vidas e nelas vamos acumulando amizades e inimizades, méritos e débitos.
Aqueles que estão no plano espiritual, equivocadamente supostos mortos, na verdade têm até mais desenvoltura de acções do que os que permanecem nos laços carnais, isto é, nós, os encarnados.
Karl não se conteve e interrompeu:
- Você está nos dizendo que os mortos saem do túmulo e vêm participar da vida dos vivos?
- Não estou dizendo que saem do túmulo.
O que vai para o cemitério são os despojos carnais, que logo se decompõem, mas o Espírito que se serviu desse corpo, dando-lhe vida, na desencarnação abandona-o automaticamente e vai para outro plano, outra dimensão.
Ali será situado, pelas Leis Divinas, segundo sua evolução moral, determinante absoluta das companhias que irá encontrar e com as quais terá de conviver.
- Mas... é sempre assim? - indagou Cássia, tímida.
- Geralmente.
Contudo, há casos em que o Espírito é tão apegado à matéria que de forma inconsciente, mas por causa desse apego, não se desliga dos seus restos mortais, aqueles mesmos que um dia lhe serviram de moradia espiritual.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 9:29 am

Aí, então, sofrerá bastante, pois além de testemunhar a decomposição cadavérica, enche-se de revolta e de frustrações, já que não conseguirá entender os amargos quadros de horror que estará, mentalmente, vivenciando.
- Cruz credo!
Não quero nem pensar - exclamou Cássia.
- Não posso assegurar-lhes nada, mas algo me diz que seu pai passou por essa amarga experiência.
- Como assim?
Você está dizendo que meu pai não saiu do cemitério?
- Mais ou menos.
Pressinto que seu pai foi vítima do arraigado amor que tinha pela fortuna, pela mordomia, pelo poder, proporcionados pelos muitos bens materiais e quando a desencarnação convocou-o à mudança de vida, quis duelar com ela.
- Mas, então - assustou-se Angélica - a morte não existe?
Meus avós, por exemplo, estão... vivos?
- Morte é um conceito humano, para uma natural mudança de estado vital.
Quando com corpo, o Espírito fica sediado no plano material, este no qual ora nos encontramos; quando desencarna, mantém a individualidade, integralmente, passando apenas a conviver no plano espiritual, onde agora estão seus avós.
Ouvindo isso, Angélica emocionou-se:
- Tenho tantas saudades deles...
Madeleine, ao seu lado, enlaçou-a com indizível ternura.
Suaves lágrimas testemunharam que a neta registou o carinho, conquanto de forma inconsciente.
Evaldo prosseguiu:
- Se o que penso aconteceu mesmo com o senhor Helmuth, ele que detinha tanto poder quando encarnado, isso se deve ao facto da não aceitação dos desígnios divinos.
Nessas condições, aqueles que assim agem, imaginam que podem reverter a realidade, como faziam sempre no mundo dos negócios, mas cedo perceberão que na verdade estão mergulhando num pântano, criado por eles mesmos... não raro, são agredidos brutalmente por outros Espíritos que também perambulam nas adjacências, em condições similares.
Dessa forma, aquilo que já era grave, fica ainda mais agravado.
Evaldo fechou os olhos lentamente e acrescentou, intuído por Jules:
- Porém, nessas circunstâncias, a Bondade do Pai mais se manifesta, pois socorristas espirituais rodeiam esses infelizes e tentam, de todas as maneiras, explicar-lhes o que está acontecendo.
Seu trabalho é tremendamente dificultado pela falta de raciocínio dos socorridos, eis que, nessa situação a que de modo voluntário se entregaram, a lucidez e o entendimento logo abandonam quem elege a revolta e o ódio como companhias ideais.
Karl foi objectivo:
- O que podemos... ou melhor, o que você pode fazer para nos ajudar, isto é, ajudar à “H&H”?
- Eu, pouco.
Jesus, tudo!
A família desentendeu.
Evaldo elucidou:
- Como disse há pouco, quando o filho está em dificuldades, os bons pais sempre estarão querendo ampará-lo.
Como Deus é a Suprema Bondade e nosso Pai, sempre está nos auxiliando, protegendo, mesmo que ignoremos esse extremado amor.
Só é preciso que o coração do filho aceite esse amparo sublime, com sincero amor filial, indene ao ódio, vingança ou revolta.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Out 25, 2017 9:29 am

Apenas, com fé na Justiça Divina, que jamais erra, jamais mesmo.
Evaldo foi mais explícito:
- Se o senhor Helmuth passou por essa triste fase... e penso que sim, certamente já se livrou dessa voluntária algema ao caixão, pois a dor é professora eficientíssima que nos visitará sempre que a revolta lançar-nos no abismo sem fundo do desamor.
Funcionando como abençoada rede de anteparo, susta essa terrível queda e a pouco e pouco energiza a razão, anula a anestesia da consciência, induzindo aquele que assim cai ao arrependimento.
E quando o arrependimento tem guarida no coração, forças siderais de auxílio apresentam-se, infalivelmente.
- Então, como a paz voltou à “H&H”, talvez papai...
Já está melhorando...
- Sim, talvez ele esteja exactamente nesta fase benigna, por demais auspiciosa, ao ponto de Jesus assegurar que “há mais alegria nos Céus por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que lá estejam” .
- E quanto a nós, o que devemos fazer? - inquiriu Cássia.
- Ouvir a consciência...
- Mas nós não fizemos mal a ninguém - defendeu-se Karl.
- Refaçam na memória os acontecimentos que de alguma forma compuseram toda essa paisagem de aflições e peçam ao seu Anjo Guardião que os oriente, quanto às necessárias correcções.
- Anjo Guardião?
Correcções? - perguntou agora Angélica, curiosa.
- Sim, ou Anjo de Guarda, como é mais conhecido, o Espírito amigo e protector ao qual a Providência Divina delega a tarefa de nos ajudar, em cada um das nossas reencarnações.
Quanto às correcções, refiro-me a qualquer atitude ou pensamento que de alguma forma pode ter relação com tudo o que aconteceu.
Qualquer ideia negativa ou acção que prejudicou alguém tem que ser corrigida, de imediato.
E esse é o único modo para a nossa paz e a paz de todos os que se ligaram a nós.
Arrependimento, perdão e reconstrução constituem o trio áureo dos sentimentos que nos purificam.
Fazendo expressiva pausa, Evaldo conclamou a Karl:
- A fábrica é um maravilhoso meio do senhor produzir muito mais que automóveis.
- Será possível?
O quê, por exemplo?
- O bem dos milhares de empregados e das famílias deles.
O valor da indústria não chega aos pés da felicidade que ela pode proporcionar.
- Como assim?
- Todo património terreno não passa de um empréstimo de Deus, para que o detentor o administre com vistas a, sempre que possível, auxiliar ao próximo.
Evaldo julgou prudente encerrar a visita para não sobrecarregar a família com mais considerações.
- Amanhã terei que ir à minha cidade, pois é o dia da reunião mediúnica a que me referi e não devo faltar.
Se Deus permitir e os Espíritos amigos conseguirem sensibilizar os irmãos desencarnados envolvidos em toda essa trama, com certeza as coisas irão melhorar.
Confiem em Jesus!
À saída, presenteou o casal com um exemplar de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec.
Não sendo tarde, Evaldo julgou ser seu dever ir até a casa de Mirênio, para reconfortá-lo moralmente, explicando para a família o que sabia sobre tão insólitos acontecimentos - combustão espontânea, provocada por acção de desencarnados.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 26, 2017 9:03 am

Há pouco, no seu grupo de estudos espíritas, havia estudado esse mesmo assunto, isto é, alguém ser veículo de Espíritos atrasados, que unindo fluidos, conseguem iniciar incêndios.
- Vim aqui para hipotecar-lhes solidariedade.
Olhando para Mirênio e Tom, declarou, sincero:
- Fiquei sabendo a causa da sua demissão...
De facto, encontrou a família traumatizada, nenhum deles conseguindo sequer raciocinar.
Para acalmá-los, enfileirou as pesquisas e as conclusões dele e dos demais médiuns seus amigos, todos estudiosos do Espiritismo, sobre “incêndios que irrompem sozinhos”, como são conhecidos tais fenómenos, na verdade, mediúnicos.
Começou, dizendo:
- Factos idênticos foram objecto de estudos, por Camille Flammarion (1842-1925), segundo consta de sua obra “Les Maisons Hanteés” - “As Casas Mal Assombradas”, editada pela Federação Espírita Brasileira.
- Quem foi Camille Flammarion? - inquiriu Tom.
- Foi um erudito pesquisador francês, astrónomo de renome internacional.
Espírita, amigo de Allan Kardec, muito contribuiu para a consolidação terrena do Espiritismo.
Para surpresa de Tom, Evaldo nesse momento presenteou-o com um exemplar daquele livro.
Evaldo comentou:
- Sei que vocês irão ler esse livro, mas permito-me adiantar algumas considerações:
“Fenómenos de assombramento, tais como rumores, pancadas, algazarra, passos, gemidos, projecção de pedras, móveis derrubados, incêndios espontâneos (grifou a expressão), inexplicáveis, foram denominados de “Espíritos turbulentos”, estudados principalmente na Alemanha e lá designados Poltergeist de polter (fazer barulho) e geist (espírito).
E mais:
“Que há intervenção de Inteligências invisíveis nas manifestações de Poltergeist é incontestável”.
Foram estudados 532 casos de tais fenómenos, sendo sete deles, incêndios espontâneos.
Fez pausa e com olhar significativo a Tom prosseguiu:
- O autor cita que tais fenómenos estão associados ao organismo de um(a) adolescente e regista que iniciou esses estudos de parceria com Allan Kardec (1804-1869).
Além disso, informa o que pensava o emérito pesquisador espírita, o russo Alexander N. Aksakof (1857-1926), sobre os poltergeist:
“Poltergeist pode ocorrer por uma acção a distância produzida pela força psíquica dos vivos”.
Isso, sem contar o pensamento dos outros célebres pesquisadores desses acontecimentos, também citados neste livro.
Evaldo encorajou Tom:
- Leia o livro, Tom, e verá como esses fenómenos têm explicação racional pelo Espiritismo, bem como ficamos sabendo como podemos revertê-los, a benefício do próximo e, por extensão, em nosso próprio favor.
- Em que parte do Espiritismo esse assunto está tratado?
- Várias obras existem comentando tais fenómenos.
Mas sugiro que vá ao “O Livro dos Médiuns”, de Allan Kardec.
Ali encontraremos no Cap. V, item 90 e seguintes, amplas considerações sobre “Manifestações Físicas Espontâneas”.
Eis algumas delas:
são Espíritos mais levianos do que maus os que perturbam o repouso alheio; podem, também ser Espíritos vingativos; há intervenção voluntária ou involuntária de um médium.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 26, 2017 9:03 am

Evaldo enfatizou:
- Recomenda Kardec que a prece será sempre o melhor meio de ajudarmos a esses Espíritos, pois, sendo assistidos, se afastarão.
Quando terminou sua explanação, feita com bastante vagar e de forma pedagógica, Tom apresentava um brilho intenso no olhar.
Pela primeira vez, desde que aqueles tormentos haviam se incorporado ao seu dia a dia, encontrava respostas sensatas, embora surpreendentes, para as perguntas doloridas que sua mente fazia.
Evaldo ainda acrescentou muitos outros detalhes, particularmente sobre as Leis Divinas, que regulam todos os actos das criaturas humanas.
- Que Leis Divinas são essas - perguntou aflito Mirênio - que arrasam com um inocente e prejudicam tanto seus familiares?
Evaldo não escondeu o que pensava sobre a resposta:
- Principalmente a Lei de Justiça, aquela que anda de par em par com outra Lei de Deus - a Lei de Acção e Reacção - segundo a qual tudo aquilo que alguém faz, de bem ou de mal, para quem quer que seja, cedo ou tarde retornará ao agente.
Antes que a próxima pergunta fosse feita, adivinhando-a, adiantou-se:
- E se me perguntarem o que fizeram para que tanto sofrimento e desconforto os alcançasse, já que “nunca fizeram mal a nenhuma mosca”, como se costuma dizer, por favor, considerem a imortalidade do Espírito, a partir da sua criação.
No longo caminho rumo à evolução - graças a Deus outra Lei, inexorável, para todos os Seus filhos e para tudo que criou -, o ser humano acumula acções boas e más.
Enquanto o saldo for de acções negativas, terá que resgatá-lo, com acções contrárias, isto é, aquelas que proporcionem a paz, própria e dos semelhantes.
- Só uma pergunta - interrompeu-o Nilce, até então calada.
- Como é que nós vamos saber quanto devemos, para quem devemos e o que fazer?
Ouvi dizer que a terapia de vidas passadas mostra o passado de qualquer um...
- Buscar tal conhecimento na terapia de vidas passadas, denominada “TVP”, é arriscada decisão do homem.
Bem por isso que os Centros Espíritas que se aplicam em seguir as normas de Allan Kardec, não autorizam tal procedimento em suas dependências, já que essa é uma área da Medicina, adstrita à psicologia clínica.
Quanto e para quem devemos é conhecimento que, graças a Deus, o homem encarnado desconhece, ou melhor, dele não se lembra, para seu próprio bem, pois se conhecesse detalhes de vidas passadas, teríamos a instalação do caos social, muitos de nós procurando aos desafectos de ontem...
Aliás, é justamente por relembrar parcialmente desse passado que os Espíritos desencarnados, numa infeliz solução de continuidade, localizam aqueles que os prejudicaram, no pretérito, para deles se vingarem.
Esse é o quadro típico mais observado nas reuniões mediúnicas desobsessiva, das quais participo, juntamente com médiuns amigos.
Ressalvou:
- Alguns especialistas em psiquiatria têm indicado a “TVP” para a cura de fobias ou desajustes sociais.
Como simples opinião, considero que, mesmo aplicada por tais especialistas, deve ser ainda melhor analisada, pois o conhecimento do passado, por meios clínicos, pode revelar fatos que ao invés de equilibrar o paciente, irá provocar-lhe ainda maiores problemas no presente.
Julgando prudente também não mais se estender naquele lar, aduziu:
- Para nós, encarnados, basta-nos a fé na Justiça Divina, que jamais permite ónus a um inocente.
Assim, se sofremos hoje, é porque temos dívidas em nosso passivo, com certeza acumulado em várias existências físicas, isto é, em várias reencarnações.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 26, 2017 9:03 am

Despediu-se, após formar naquela família o clima da solidariedade humana, deixando o conforto do entendimento e o que é principal, a crença na Bondade do Criador.
Da mesma forma como havia procedido no lar de Karl.
Naquela noite, antes de dormir, Karl folheou ao acaso o livro dado por Evaldo.
Abriu-o:
Cap. XVI - “Não se pode servir a Deus e a Mamon”.
Meio atordoado, pela “coincidência” do que há pouco ouvira de Evaldo, fixou-se no item 7 “Utilidade providencial da riqueza”.
Impressionadíssimo, adormeceu.
Quando o dia amanheceu, tinha um firme propósito relativo à “H&H”.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 26, 2017 9:04 am

9. ALVORADA DO AMOR
Helmuth, mantido em recuperação por sonoterapia, mesmo assim mostrava-se bastante agitado, pois enquanto seu perispírito permanecia na enfermaria da colónia espiritual “Seara dos Espíritos”, para a qual tinha sido conduzido, sua ideia fixa na “H&H” para lá se projectava.
O perispírito de Helmuth ligava-se por subtilíssimos fios etéreos ao corpo mental, este de densidade invisível até mesmo em planos espirituais que não de grande elevação moral.
Cumpre destacar, com profunda cautela, que a pouquíssimos Espíritos é dado discorrer sobre o corpo mental, que todos temos.
Demonstrativo de sua existência, encontraremos num exemplo até certo ponto simples:
quando os Espíritos (desencarnados) dormem, e sabemos que tal ocorre, têm o perispírito estacionado no local do sono, contudo, agora, é pelo corpo mental que se deslocam, indo ao ponto de sintonia, ou fulcro de interesse.
Jules, consultado pelos enfermeiros que atendiam Helmuth, ponderou:
- Creio que nosso irmão deverá ser alcançado por uma enérgica advertência, que o faça mudar a tela mental.
Muitas têm sido as oportunidades que ele vem desprezando.
- Graças a Deus! - exclamou Madeleine, cheia de gratidão.
- Mas - advertiu Jules, algo apreensivo - receio que nosso querido Helmuth tenha nesta, a derradeira chance de despertamento para o bem, antes que dor maior do que as que vem sofrendo lhe ensine aquilo que até aqui desprezou, sobre o bem que retorna para aquele que ama ao semelhante; ajudado inúmeras vezes, inclusive no momento, nada o comoveu, fixando-se em lamentos e revolta, por apego às coisas da matéria e pelo infeliz sentimento de que foi lesado pelo filho.
Madeleine confirmou, entristecida:
- Temo que esta será mesmo sua derradeira oportunidade de corrigir os procedimentos, invertendo a rota infeliz na qual teima em se deslocar.
- Mas não percamos a fé em Jesus.
Oremos ao Mestre para que nosso Helmuth vislumbre as claridades do Seu Evangelho, eis que depois disso, se persistir, só mesmo multiplicados sofrimentos, compulsórios e mais graves, alavancarão seu progresso, retirando-o das trevas em que tenta se perenizar.
- Posso estar com ele, nesses momentos tão decisivos?
- Como não, Madeleine?
Você tem sido exemplar, amparando-o com paciência infinita, em tantas oportunidades que ele desperdiçou.
Vendo-a, inda agora preocupada com o seu Helmuth, convenço-me de que, por vezes, realmente o amor se veste com a túnica luminosa da paciência.
Vamos orar:
“Amigo Jesus, o Senhor nos abençoou a razão com as bem-aventuranças e nos indicou o amor ao próximo como constante geradora da nossa felicidade.
Ajude-nos, Sublime Pastor, a trazer para Seu rebanho, nossos queridos Helmuth e Karl, além de tantos outros irmãos que a eles se ligam por laços menos felizes.
Como eles, somos também ovelhas nem sempre dóceis ao Seu pastoreio de Amor, Caminho, Verdade e Vida.
Mas queremos dividir com eles as bênçãos que já alcançamos:
conhecer o Seu Evangelho”.
Ia alta a madrugada, quando Jules e Madeleine chegaram à sede da “H&H”.
Quase toda a cidade dormia.
No plano material, a grande fábrica parecia dormir também, depois do agitado dia de trabalho, pois as actividades já haviam se normalizado.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 26, 2017 9:04 am

Os homens responsáveis pela segurança nocturna, distraídos apenas com dezenas de pensamentos sobre eles mesmos, não se davam conta de que lá bem alto, milhares de estrelas os contemplavam, convidando-os a um diálogo, coração a coração.
A Lua, em crescente, com absoluta tranquilidade dividia com aquela metade da Terra a luz que naquele momento só ela ganhava do Sol.
Os dois bons Espíritos, em sentida prece a Jesus, mesmo assim ainda tiveram alguma dificuldade em localizar Helmuth, por ali vagueando mentalmente.
A seguir, atraíram-lhe o perispírito, para que melhor pudessem se comunicar.
Também Helmuth como seus ex-empregados, estes encarnados, não se davam conta que o cenário celeste era deslumbrante.
Já agora no corpo perispiritual, trôpego, o antigo dono daquele império automobilístico remoía lembranças, amargas todas, num irresponsável exercício de atrair para junto de si companhias espirituais, igualmente frustradas, angustiadas, revoltadas.
Salvava-o de tais agregações, que só mais infelicidades lhe acrescentariam, o facto da “H&H” estar temporariamente sob vigilância espiritual benéfica, que a envolvia qual vigoroso campo de defesa magnético, conforme Jules providenciara, com permissão de esferas mais altas da Espiritualidade.
Tal defesa da fábrica, visando o bem dos empregados e seus familiares e de quantos dela dependiam, tinha prazo estimado para terminar, após o que voltaria à normalidade, isto é, os que ali trabalhavam voltariam a ser os responsáveis pelo clima astral decorrente de seus pensamentos e acções.
O prazo fora requerido por Jules, para auxílio a Helmuth e aos Espíritos, encarnados e desencarnados, que a ele se ligavam, de forma infeliz.
Helmuth viu dois vultos.
Espantou-se e com elevado estupor, não se deu conta do que estava acontecendo.
De pronto, não reconheceu Madeleine, envolta em suave claridade, que o ofuscou.
- Helmuth, Helmuth...
A bênção de Jesus seja sua!
- Quem são vocês?
De onde vieram?
Como vão entrando assim, sem mais nem menos, na minha fábrica?
Ordeno que saiam, senão mando enxotá-los.
Madeleine não resistiu e começou a chorar.
Era muito doloroso para seu gentil coração de ex-esposa amorosa, ver a ruína moral em que ele se encontrava.
Suas lágrimas, de cristalina pureza, eram assim como uma prece, posto que eivadas de sincero amor, ali traduzindo e manifestando-se por uma das suas vertentes, a compaixão.
Helmuth vinha de longos períodos de dor, revolta, ódio e desejos de vingança.
Os sofrimentos, nele, haviam atingido o último grau suportável, tendo já sido visitado por crises de loucura, esta, agora, prestes a tomar conta da sua mente, em definitivo.
Assim, em períodos esparsos, não mais sabia o que fazia, gestos descontrolados, imprecações contra o vácuo, ofensas a nenhum ouvinte...
Tais crises, em recidivas mais ou menos constantes, só não o haviam tornado cativo da demência graças a algum merecimento, cujos créditos se deram em quase esquecidas vidas, no passado longínquo.
Mas, agora, graniticamente fixado na riqueza e no poder dela decorrente, estava mesmo na fronteira entre a liberdade espiritual, com gozo e usufruto do livre-arbítrio e a suspensão deste, com auto-escravidão mental, até que voltasse a merecê-lo.
Lágrimas de amor comovem todo o universo.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 26, 2017 9:04 am

Na barreira mental de Helmuth abriu-se pequena fresta e por ela uma onda de dulcíssima paz alcançou-lhe o coração.
Reconheceu Madeleine.
Abraçaram-se demoradamente, em silêncio.
Só depois, chorando qual criança, num turbilhão de lágrimas que os anos haviam estocado, balbuciou:
- Você?! Como é possível?
- Meu Helmuth, sim, sou eu, meu querido!
Deus concedeu-me a graça de estarmos juntos novamente.
Madeleine acariciava-o, com ternura, há tantos anos não experimentada por ele.
Saudosa ternura.
- Mas... você morreu.
- Ora, ora, ninguém morre.
Deixamos o corpo no mundo e continuamos vivos, na dimensão espiritual.
- Então... Penso que eu também morri.
No entanto, como é que estou aqui, onde tudo é meu, mas ninguém me vê, ninguém me ouve, ninguém me obedece?
- Sinto contrariá-lo, meu amor, mas desta vez você não está agindo como o grande homem que sempre foi... tão esperto na matemática...
Intuição feminina.
Sempre alcandorada bênção.
Madeleine, com efeito, de modo espontâneo, agora tinha aberto outra grande brecha na mente de Helmuth, ao despertar-lhe o amor-próprio, tão esmagado ultimamente.
- O que você quer dizer com isso?
- Duas coisas:
primeiro, que você sempre me encantou pela sua inteligência, sua praticidade; segundo, que jamais vi ingratidão em você, pois, embora enérgico, sempre soube reconhecer quando alguém lhe prestava um favor, por mínimo que fosse.
E agora...
- Eu, ingrato?
Perco tudo, sou enxovalhado, sou escravizado, apanho, vejo meu filho me desrespeitar e me agredir, querendo matar-me e não tenho nem o direito de defender-me?
Isso é ingratidão?
Madeleine abraçou-o, terna.
Alisando-lhe os cabelos, distribuiu-lhe delicados beijos.
Jules, que só agora se fez visível, pediu a palavra:
- Sou Jules.
Deixe-me também abraçá-lo, em nome de Deus.
A figura do benfeitor era tão serena, cujo brilho intenso no olhar garantia a mais absoluta sinceridade, irradiando tanto magnetismo, que Helmuth não se assustou, antes, sentiu irrecusável vontade de ser mesmo abraçado por ele.
Assim, ao se abraçarem, entrelaçando aura com aura, o sofrido industrial foi invadido por uma deslembrada sensação de segurança, de bem-estar, de paz.
Não conseguiu impedir que novas e insuspeitas lágrimas aflorassem-lhe, qual bendito escoadouro das tensões, nele multiplicadas, por tantos desencontros, decepções, mágoas e ideias infelizes.
Também lágrimas como aquelas reverberam no universo, pois nestas fracções de tempo, o que se manifesta é a centelha divina que todos trazemos na alma, desde nossa criação pelo Pai.
Um perdido meteorito, sabe Deus por qual estranha razão, naquele justo instante riscou o céu e durando menos que um segundo, foi embora, após desenhar a carmim uma electrizante curva na imensidão do céu.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 26, 2017 9:04 am

Todos viram o majestoso espectáculo, encarnados e desencarnados.
Os cinco homens da segurança nocturna, haviam se reunido para um cafezinho, quando foram surpreendidos pelo magnífico fenómeno natural.
Dois deles ajoelharam-se, persignaram-se fazendo o sinal da cruz e de mãos unidas, louvaram a Deus.
Diante de acontecimentos como aquele, também dizemos nós, que passamos aos leitores estas linhas, as mesmas palavras:
Sim: louvado seja Deus!
Os outros três seguranças, comovidíssimos, conquanto sem o mesmo sentimento religioso, com respeito disseram em coro:
- Para sempre seja louvado!
Perto deles, Jules, Madeleine e Helmuth, ficaram deslumbrados com aquele espectáculo.
Helmuth, mais que todos, ao ver a demonstração de fé dos seus ex-empregados.
Aproximou-se dos homens que ainda estavam ajoelhados e reconheceu-os.
Eram criaturas simplórias, que no passado sempre sorriam-lhe quando chegava à fábrica.
Nutria alguma simpatia por eles, pois dizia para si mesmo, então:
“todos os dias quando eu chego eles vão...”.
Helmuth aprendeu ali, em poucos instantes, sublime lição:
o valor da humildade e integração com Deus.
Magnífica lição, sem que palavra fosse dita, a ele.
Aliás, nem um milhão de palavras teriam lhe proporcionado com tanta propriedade aquele ensinamento, com perdão do trocadilho.
Sensibilizado ao extremo, sentiu as pernas cambalearem quando ouviu um dos homens, Mauro, orar:
“Meu Deus, meu Jesus, não quero ser abusado, mas era tão bom se o senhor Karl fizesse igual ao pai dele...”.
Jules e Madeleine sentiram-se igualmente invadidos por doce influxo espiritual, ao verem que, vindo das alturas, um filete de luz adentrava na cabeça do homem que orava.
“... desde que o patrão morreu”, continuava o homem a orar, “as coisas não andam boas para ninguém por aqui.
Ajuda, meu Pai, para as coisas melhorarem.
Assim seja!”.
Jules teve que amparar Helmuth.
Por algumas horas falou do Evangelho de Jesus a um Helmuth que aos poucos viu brotar na alma o desejo de se renovar.
O dia não demoraria a amanhecer.
Jules concluiu:
- A Sabedoria de Deus proporciona-nos multiplicadas vidas, durante as quais vamos progredindo sempre.
No relógio do Tempo, aquele que controla nossas vidas e nossa evolução moral, o pêndulo oscila ora no plano material, ora no espiritual, isto é, quando estamos encarnados e quando estamos desencarnados.
Nessa oscilação, segundo nossos méritos ou débitos, nós próprios nos situamos também em conforto ou desconforto.
Já riqueza e pobreza são provas pelas quais todos os Espíritos passam, aquela para desenvolverem defesas contra o apego aos bens terrenos, e esta, para cultivarem a humildade.
Você próprio é testemunha que dinheiro não faz ninguém feliz, tanto quanto a falta dele não pode ser considerada uma tragédia.
Esses homens pobres trazendo nos corações a ideia de Deus, de forma alguma poderiam ser considerados infelizes.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 26, 2017 9:05 am

Helmuth anuiu, apenas com um leve abaixar da cabeça.
Arrematando, Jules exortou-o:
- O perdão das ofensas foi sempre sugerido e exemplificado por Jesus.
Ao Apóstolo Pedro, o Cristo sugeriu que perdoasse não sete vezes, mas, sim, setenta vezes sete vezes.
Helmuth, mentalmente, na hora, calculou:
70 x 7 = 490...
Nada disse.
Jules prosseguiu:
- Assim, no sagrado instituto do lar, a família constituída é de concepção divina.
Numa casa onde pessoas residem, agrupando-se por força da consanguinidade ou do parentesco, próximo ou distante, quase sempre age a motivação celestial, para que os residentes aparem as arestas do passado.
Com eles tem que morar o perdão.
O parentesco corporal difere do espiritual, já que um nem sempre volta a se repetir, mas o outro, aquele que é consagrado pelo coração, sob influxo do amor, esse se perpetua.
Helmuth, livre de pensamentos negativos pelas abençoadas horas passadas na companhia de Jules e Madeleine, conseguiu apreender aquelas sublimes lições cristãs, até porque, na verdade, sempre fora um homem cuja agilidade mental e objectividade faziam-no admirado e respeitado.
- No momento - sentenciou Jules - a maior prova de reconhecimento a Jesus que você poderia dar, seria tratar seu filho da mesma forma como você está sendo tratado pelo Pai.
- Karl, aquele que é o filho mais ingrato na face da Terra?
- Digamos, antes, um filho em duras lutas para ser como o pai...
- Desculpe-me, Jules, mas não consigo ver as coisas desse jeito...
- Pois, então, raciocine, porque Karl sempre se mostrou tão passivo, enquanto tinha você ao lado dele, e hoje se mostra tão durão, tão auto-confiante, tão chefe?
- ?!
- É porque antes você o sufocava com sua autoridade exacerbada e agora a lembrança do pai nele é uma constante e de forma alguma quer deixar de seguir os seus passos.
Sim, Helmuth, seu filho tem-no como ídolo, mas o orgulho ainda fala mais alto e embora você seja-lhe modelo, o amor-próprio impede que admita estar se comportando como o pai.
No fundo, no fundo, o que ele mais almeja é que a “H&H” progrida e seja tida no mesmo elevado conceito de quando você a presidia.
- Não acredito!
- Pois então venha connosco.
Assim falando, Jules e Madeleine tomaram-no pelas mãos.
E foi de mãos dadas com eles que Helmuth, sem saber como, viu-se em poucos instantes dentro da casa que reconheceu logo, a do filho.
Emocionado por estar naquele ambiente, há tantos anos não visitado por ele, Helmuth foi conduzido à biblioteca.
Ali, para espanto maior, Helmuth avistou o filho que, desprendido do corpo físico pelo desdobramento que o sono proporciona, andava de um lado para outro, qual fera enjaulada.
Jules providenciou para que Helmuth, temporariamente, não fosse visto.
Karl não estava sozinho.
Acompanhando-o, dois Espíritos se compraziam em soprar-lhe ao ouvido frases imperativas.
Dizia um deles:
- Nada disso! Nada disso!
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 26, 2017 9:05 am

Seu pai não merece nem ser lembrado.
Ele quase arruinou a “H&H”.
O outro arrematava as ordens hipnóticas:
- Isso mesmo... seu pai não serve como referência para esse plano.
Tão absorvidos estavam os três que não notaram a chegada dos outros três:
Karl, sob hipnose, e os dois malfeitores, por baixa vibração espiritual.
Hipnotizado, Karl via uma pasta sobre sua mesa, ali deixada quando fora dormir e para perto da qual retornara, assim que adormeceu.
Algumas aranhas passeavam sobre a mesa, tentando subir na pasta, mas algo saído do interior do documento as repelia, como se um raio desintegrador as atingisse, dissolvendo-as, literalmente.
- De que se trata esse plano? - indagou Helmuth, aflito e curioso.
Jules aproximou-se da pasta e abriu-a, sem a menor dificuldade.
Convocou Helmuth para ler do que se tratava.
O pai de Karl leu:
“H & H”: PLANO DE REFORMULAÇÃO
Helmuth não acreditou naquilo que os olhos liam.
A pasta de documentos, com uma forte luz no interior, despejava centelhas luminosas que impediam aos insectos de se aproximarem.
O incrível daquilo tudo é que a cada insecto que desaparecia, fulminado pelas centelhas, os dois Espíritos perturbadores criavam outros, apenas passando as mãos sobre a mesa.
Diziam:
- Temos que destruir esses documentos, senão a chefe...
Eles, contudo, não conseguiam agarrar a pasta, para destruí-la, pois mal aproximavam as mãos da pasta, sentiam choques.
Jules explicou:
- Eles ainda não nos viram, porque conseguimos, graças a Deus, manter um padrão vibratório em escala acima à deles.
Jules convidou Helmuth a folhear o conteúdo da pasta.
Colocou a destra na fronte de Helmuth e foi com espanto crescente que ele conheceu o processo, de autoria de seu filho, segundo reconheceu pela letra, no qual era sugerido que a montadora, sem sair dali mesmo, assimilasse a indústria de auto-peças, em cujo local seria implantada outra montadora, essa de utilitários.
Na unidade de ônibus e caminhões, quase pronta, a filosofia seria a mesma:
autonomia de decisões, por conselho formado de directores, accionistas e empregados.
Cada uma das novas unidades se subdividiriam administrativamente em dois departamentos: industrial e comercial.
Cada departamento seria formado de micro-empresas, exercendo actividades específicas, com gerenciamento autónomo:
- o departamento industrial, por exemplo, seria composto de “pequenas células fabris”, cada uma produzindo um tipo de componente.
Os produtos seriam fabricados e entregues quase que à mão.
A economia de tempo, tendo cada sector o material que necessitava entregue na medida da montagem dos carros, possibilitaria incrementar a produção em pelo menos 20%.
Pelo plano, cada micro-empresa também teria chefia autónoma, responsável pela selecção do pessoal e nível da produção, com rígido controle de qualidade, estipulando-se para cada uma percentagem proporcional do facturamento global da “H&H”.
Uma comissão de “controle de qualidade”, composta dos próprios empregados, representaria os departamentos junto à directoria; - o departamento comercial seria encarregado da administração geral, das compras e das vendas.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Out 26, 2017 9:05 am

Na parte das vendas, cada concessionária deveria contar com no mínimo, dez empregados que houvessem feito estágio de seis meses na “H&H”, de forma que poderiam assim prestar mais eficiente assistência técnica aos clientes.
Cada micro-empresa, seria chefiada por dois anos, pelo empregado que os próprios colegas elegessem, em votação ostensiva.
Um anexo ao plano previa carreira profissional na “H&H”, com prémios, promoções, além de todas as garantias trabalhistas previstas em lei.
Quanto aos fornecedores externos, estes seriam incentivados à parceria:
incorporarem-se à “H&H” ou então instalarem-se nas vastas áreas da fábrica ou arredores.
Com isso, o cronograma de entregas, paralelo ao da montagem, estaria agilizado, livre de despachos, viagens, trânsito, mau tempo etc.
Prático por excelência, Helmuth exclamou:
- Meu Deus!
Preciso ajudar meu filho, com urgência, pois se o que ele planeou visa o progresso da “H&H”, ele não pode ser considerado tão ruim... nem meu inimigo.
Ajudem-me a enxotar esses bandidos que o atormentam.
- Graças a Deus! - disse baixinho Madeleine, vendo que Helmuth mudara a tela mental com relação ao filho.
Jules considerou:
- Para o equilíbrio do relacionamento entre encarnados e desencarnados, é fundamental o respeito ao livre-arbítrio, isto é, não podemos, nós que daqui temos ampliada a visão e maior facilidade de acção, obrigar a nos obedecer aqueles que deixamos ainda nos embates do corpo físico.
Referia-se a Karl.
Helmuth reflectiu e concordou com aquele raciocínio.
Jules acrescentou:
- A razão não precisa da força, pois ela própria já é mais forte, tanto quanto a verdade não precisa de palco, pois igualmente ela própria é o maior espectáculo da mente.
Finalizou, convidando-os a se retirarem:
- Seu filho terá que tomar a decisão por si próprio.
Ele está com receio de dar esse grande passo.
A mulher, Cássia, está contra, receando perdas financeiras vultosas.
Karl terá mesmo que abdicar da margem de lucro que vem tendo, pois o resultado financeiro do plano prevê divisão proporcional dos resultados, mas para todos os sectores.
Nesse ínterim, é nosso dever cristão orar a Jesus para que se cumpra a vontade do Pai, quanto às consequências da decisão que Karl tomar.
E nada nos impede, com muita humildade, confessando nossa ignorância diante da Sabedoria Divina, dar nosso parecer de que o plano de Karl produzirá coisas boas.
Jules adiantou que em breve se reencontrariam.
- Posso abraçá-lo? - pediu Helmuth a Jules, apontando Karl, que estava sendo atormentado pelos dois hipnotizadores do além.
- O que é isso, Helmuth?
Então alguém precisa de permissão para demonstrar amor?
Devidamente incentivado pelo novo e tão bondoso amigo, Helmuth aproximou-se do filho, seguido de perto por Madeleine.
A simples aproximação fez com que a luz que emanava de Madeleine afugentasse os dois infelizes auxiliares de “F A”, os únicos que ela conseguira recuperar sob seu comando, desde o inusitado “terremoto astral” que havia dispersado todo o bando.
Karl viu-os, de mãos dadas.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 27, 2017 8:58 am

Madeleine adiantou-se, alisou-lhe os cabelos, como há algumas horas fizera com Helmuth e beijou-o no rosto, mantendo a face unida à dele.
A seguir, a mãe pegou na mão de Helmuth e encostou na de Karl, que relutou, apenas por um momento.
No mesmo instante Karl acordou.
Jules, bastante apreensivo, informou a Helmuth:
- Meu caro amigo, meu irmão em Jesus.
Não ignora você que a Vida é dinâmica e a todos nós nos conduz, impulsionando-nos para o progresso.
No jargão popular se diz “que o Tempo tem tempo”, o que é uma verdade, contudo, não menos verdadeiro é o facto de que a evolução tem mecanismos próprios, funcionando em paralelo com os acontecimentos de cada um, em particular, e de toda a humanidade, no geral.
Sua quota de tempo para decidir está se esgotando e em breve será compulsado a optar que rumo dar à sua rota evolutiva.
Aproveite bem o período restante da autorização que lhe foi dada para poder circular pelas proximidades da “H&H” e do seu filho.
Em tom fraternal, advertiu:
- Outro jargão, se me permite, muito verdadeiro:
“o tempo não pára”.
Ausentaram-se os três, sem interferir no que se passava naquele lar.
Retornaram à “H&H”, estando Helmuth sob a protectora escolta de Jules e Madeleine.
Já raiava a aurora.
Cores róseas, lindíssimas, mesclavam-se com as claridades do dia que chegava, despedindo-se das últimas estrelas que lampejavam no “crepúsculo da noite” que se ausentava.
O horizonte, todo enfeitado para receber o Sol, em muito se assemelhava com a mente de Helmuth, que também despertava para a alvorada do amor.
- Porque - sugeriu-lhe Jules - não acompanha seu ex-empregado, aquele que fez a prece lembrando-se de você, até a casa dele?
Penso que seria muito útil verificar como vive, com a família.
- Eu? Sozinho?
- Sim. Algo me diz que você terá confirmadas minhas palavras e isso fará muito bem para todos.
Helmuth despediu-se de Jules, com um abraço demorado.
Beijou Madeleine, ambos com lágrimas se misturando.
Acompanhando o segurança, que deixava a fábrica, emocionou-se ao ouvi-lo brincar com o colega que tomava conta da guarita principal:
- O Sol já está acordando e eu é que vou para casa, para dormir.
Deus abençoe o seu dia e a minha “noite”.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 27, 2017 8:58 am

10. MEMORANDO A DEUS
Mantendo pequena distância do homem, que pedalava tranquilamente sua bicicleta, Helmuth ainda não conseguia entender como é que também ele conseguia deslocar-se, sem que fizesse qualquer esforço.
Quando o ciclista acelerava um pouco mais, nas descidas, a velocidade dele também aumentava.
O ex-ricaço não pôde deixar de reflectir na grande diferença daquela velha bicicleta, comparada à sua limusine, tão luxuosa, tão espaçosa.
Na hora teve a ideia de financiar um carro popular para cada empregado da “H&H”.
Logo porém, com tristeza, lembrou-se de que a fábrica não era mais dele, nem tinha sobre ela qualquer poder de decisão.
Contudo, as sementes evangélicas que Jules houvera semeado em seu coração, ali mesmo começaram a germinar, pois substituiu o pensamento por outro:
“Vou pedir ao meu filho que estude a possibilidade de financiar um carro popular para os seus empregados”.
Quando Mauro chegou a sua casa e entrou, Helmuth entrou também.
Tudo evidenciava pobreza extrema.
A casa tinha apenas dois cómodos, cozinha e quarto, sendo que o sanitário era no quintal, colectivo, já que naquela área, próximas, moravam outras famílias, agrupadas em minúsculas casas, como aquela.
- Oi, bem - disse o homem, beijando a esposa, que já estava nas lides domésticas.
E o Maurinho?
- Não está nada bem, precisamos levar ele ao médico.
- Mas como, meu Deus?
Não temos dinheiro.
- Nosso filho não pode mais ficar sem assistência médica.
Alguma coisa tem que ser feita para resolver o problema.
Cada dia que passa é uma esperança que se vai.
A mulher começou a chorar, sendo confortada pelo marido.
Juntos, foram até o quarto, onde uma criança de mais ou menos quatro anos dormia.
Mauro pegou o filho carinhosamente e abraçando-o, manteve-o junto ao peito, cobrindo-o de beijos.
A criança acordou.
Para espanto de Helmuth, fez força para falar, mas só saíam sons cavernosos.
O problema do Maurinho era dislalia, isto é, perturbação na emissão de palavras, com emissão errónea de fonemas.
Sabia que esse era o diagnóstico, porque seu filho Karl, com menos de dois anos tinha apresentado a mesma patologia, e foi curado, graças aos excelentes médicos consultados e aos recursos fonoaudiólogos que lhe foram dispensados, inclusive sendo examinado por especialistas internacionais, o que custou bem caro.
Na mesma hora Helmuth pensou:
“Vou pagar o mesmo tratamento para este menino”.
Um segundo depois de ter tido essa ideia, teve que repensá-la:
”Deus me ajude a dar um jeito do Karl ver esse menino e se eu puder, vou pedir que ele pague o tratamento”.
Para aumentar sua emoção, ouviu da mulher:
- Se ao menos o doutor Helmuth estivesse vivo...
Ele era tão bom para os empregados.
Quando alguém da família ficava doente ele mandava o médico vir atender.
- É verdade, desde que ele morreu que as coisas mudaram... para pior.
Todo mundo tem medo até de pedir alguma coisa ao doutor Karl, pois ele logo manda demitir.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 27, 2017 8:59 am

Helmuth, lacrimoso e emocionado, reflectiu:
“Não foi de graça nem por acaso que vi e ouvi tudo isso; tenho que fazer alguma coisa para resolver essa situação.
E se meu filho anda mesmo procedendo desse jeito, não podemos contar com ele”.
O verbo, no plural, dava notícias que no coração do ex-empresário o problema do Maurinho já não era só dos pais.
Saiu do humilde casebre e ao chegar ao portão vislumbrou à sua frente a rua pobre do bairro distante.
Sentiu-se perdido, sem saber o que fazer, onde e como ir buscar a ajuda para a criança.
Agoniado, não tinha a menor ideia de qual direcção deveria seguir, pois nem sabia como viera ter até aquele local.
Ia já se entregando ao desespero, próprio dos instantes difíceis em que alguém perde a noção de onde está, quando levou um traiçoeiro empurrão, que o lançou ao chão.
- Então, meu velho, está perdido? - inquiriu um dos dois auxiliares de “F A”, que a acompanhavam.
Caído, subjugado pela força de um dos dois malfeitores espirituais, que se preparava para desferir-lhe tremendo golpe, Helmuth pensou na única chance de ser ajudado:
o segurança que morava naquela casa.
Qual se tivesse ouvido tal pensamento, Mauro saiu da casa, para ir à padaria buscar pão e leite.
Quando chegou ao portão, lembrou-se do clarão que vira na madrugada, olhou para o céu, onde o Sol iniciava sua sublime rota doadora de luz, calor e vida.
Pensou no ex-patrão. Mentalmente, orou:
“Meu Jesus, protege o doutor Helmuth, onde quer que ele esteja”.
Helmuth estava a poucos centímetros dele.
Foi o suficiente.
Em resposta àquela humilde prece, faíscas invisíveis ao autor, vindas de uma altura de poucos metros, formaram um círculo luminoso envolvendo os três Espíritos maus, impedindo-os de qualquer movimento.
“F A”, mais uma vez, via frustrados seus planos contra Helmuth.
Vociferou contra o ex-ricaço:
- Sou a criatura mais infeliz do mundo, ou melhor, do inferno de chamas que é a minha alma, mas ainda arrasto você para as profundezas.
Ela e os capangas praguejaram, mas Helmuth fechou os olhos e pensou em Deus, em Jesus, em Jules e em Madeleine, nessa ordem.
Quando os abriu, só viu o dono da casa, que ia já há uns dez metros, rumo à padaria.
Aquele atendimento espiritual parece ter demonstrado que, em determinados casos, quando uma prece de auxílio urgente é deferida pelo Plano Maior, as equipes socorristas recebem a incumbência e se deslocam com a velocidade do pensamento, levando algum instrumento para a ajuda.
No caso, aquele que emitia raios luminosos, com a capacidade de imobilizar aos quais são dirigidos.
Helmuth compreendeu que aquele humilde homem havia-o salvo das garras daquela mulher horrível, além da surra que lhe estava destinada.
Seu senso prático possibilitou-lhe análise correta do que havia sucedido:
ele próprio havia pensado em Deus, em Jesus, em Jules e em Madeleine, e isso foi uma prece; Mauro olhou embevecido para o céu e de certo fez outra prece.
Assim, as duas preces, quase que simultâneas, lograram atendimento instantâneo.
Helmuth, naquele momento, qual se despertasse de um longo inverno na alma, que o deixara distante de Deus, ao Pai retornava.
Compenetrou-se, com fé inabalável, quanto ao maior recurso concedido pelo Criador a todos os homens: a prece.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 27, 2017 8:59 am

Dentro dessa postura mental, fechou os olhos e mentalizou a figura de Jesus, recebendo uma prece sua, na forma de memorando, mas levado pelas mãos de Jules, para ser entregue directamente a Deus.
Assim, ainda era o modus operandi daquele homem que há séculos só sabia fazer contas, só tinha treinamento para estabelecer hierarquia funcional, social e financeira.
Mas cujo pensamento, naquele instante, era de integral sintonia com os Planos Celestiais, posto que expressando a voz do coração, com sinceridade absoluta.
Eis o que dizia o memorando que mentalmente Helmuth enviou a Deus:
“Pai de Infinito Amor, como não tenho permissão de chegar até o Senhor, estou pedindo ao amigo Jules que leve até ao Mestre Jesus, que o entregará em mãos, este meu pedido, que parte do coração e é para ajudar a um pai aflito.
Nesta oportunidade, quero adiantar que não pretendo nada para mim, mas tão somente ajudar aos empregados da “H&H”.
Para tanto, peço ao Senhor homologar o plano do Karl, pois sinto que assim meu filho Karl estará sendo bom para os empregados e os seus familiares.
Se o Senhor me conceder essa graça, quero também declarar que o primeiro a ser atendido tem que ser, perdão, “tem que ser, não”, pode ser, a Seu critério, o Maurinho”.
Na mente de Helmuth, não faltou nem o fecho do seu memorando prece, “assinado: Helmuth Heinrich”.
Surpreso, viu passar por ali um veículo, não fabricado pela “H&H”, conforme analisou, com dois jovens que o convidaram:
- Estamos indo para a “H&H”.
O senhor quer uma carona?
Entrou rápido no veículo, meio atordoado e sem fala, pois atinou que tudo aquilo era “início do deferimento celestial ao seu memorando”.
No trajecto, não conseguia abrir a boca.
Só ia reflectindo:
“Esse jeito de conseguir as coisas é milhões de vezes mais eficiente do que toda a infra-estrutura lá da fábrica”.
Da sua mente não saía aquele número “490”.
Mais alguns instantes e raciocinou:
“É engraçado como é que estando morto, continuo vivo”.
Os dois jovens sorriram levemente, como que “ouvindo” seu pensamento e hipotecando-lhe simpatia.
Quando chegaram à fábrica, Helmuth desceu e agradeceu:
- Deus lhes pague essa abençoada carona.
Vocês devem ser motoristas de Jesus e eu nem tenho como agradecer a Ele.
- O merecimento é do senhor, pois sua prece, embora meio burocrática, na verdade, “começou a ser deferida” por Deus - brincou um deles.
- Meu memorando a Deus...
- Chame suas preces do nome que quiser, faça-as quando, onde e como quiser, mas jamais deixe de usar o mesmo envelope, o da marca “CASH”.
- Dinheiro?! - estranhou Helmuth que falava fluentemente o inglês e sabia que “cash” significava:
dinheiro vivo, em espécie.
- Dinheiro, não, senhor Helmuth, mas sim aquele envelope dentro do qual o senhor colocou o seu memorando.
- Mas... eu não coloquei o memorando em... espere um pouco, eu nem sequer escrevi o memorando, só pensei nos termos que deveria ter...
- No nosso plano, senhor Helmuth, o pensamento faz às vezes de lápis, de papel, de máquina de escrever, de computador, de carro, de avião, enfim, daquilo em que fixarmos nossa mente.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 27, 2017 8:59 am

Até de envelope...
- Começo a compreender.
De facto, quando penso forte, consigo!
Mas, por favor, digam-me o que o envelope “cash” tem a ver com isso?
- “CASH”, de caridade, amor, sinceridade e humildade.
Brincamos com o senhor, pois além de entender muito de dinheiro, ainda conhece o idioma inglês.
Procure conhecer a parábola da “viúva pobre” e o senhor verá que “cash” é a maior fortuna que todos devemos aspirar.
Helmuth, o empresário decidido, de personalidade marcante, sempre rigoroso nos gestos, mas justo nas decisões, ali desmontou de vez, abraçou os dois jovens, beijando-os paternal.
Suas indómitas lágrimas molharam as faces deles, que pegos de surpresa, não puderam ocultar o brilho no olhar que antecede à delicada queda das gotas de quem também chora de alegria.
Quando o carro ia se afastando, os jovens deram-lhe um afectuoso adeus e só então Helmuth se recordou que os conhecia:
eram aqueles padioleiros do Posto de Emergência vinculado à “Seara dos Espíritos”, que o haviam socorrido quando do incêndio no pavilhão de pintura da “H&H”.
Helmuth adentrou na fábrica.
Via, agora, de forma oposta, aquele imenso património, tudo fora seu, tivera poder absoluto sobre o fantástico complexo industrial, no entanto, perdera tudo aquilo em apenas um segundo.
Essa reflexão ultrapassou em profundidade todos os pensamentos, juntos, que até então conseguira formular, “um segundo”, esse foi o tempo que Deus empregou para tirar de suas mãos a imensa fortuna que várias gerações haviam acumulado e na qual ele próprio empregara toda a sua vida.
Um segundo.
Naquele dia, logo após iniciada a actividade fabril, Karl tinha chegado e convocado uma reunião de directoria, à qual Evaldo deveria assistir, como assessor especial do presidente.
Helmuth chegou a tempo de assistir à reunião, ficando no fundo da grande sala de conferências.
Pouco após, chegaram Jules e Madeleine, que também ficaram ao fundo.
- Fiquemos em preces - sugeriu Jules, acrescentando.
Não será prudente que seu filho nos veja, para que não haja interferência de nenhum de nós sobre as decisões que ele tomar.
Iniciada a reunião, Karl informou aos directores, que aliás eram os mesmos há vários anos, já que não houvera demissão alguma:
- Novos planos, senhores.
Novos planos!
Os directores entreolharam-se, silenciosos.
- Vamos agitar as coisas por aqui.
A seguir, sob o comando de Karl, Evaldo projectou imagens do plano de reformulação industrial da “H&H”, dividindo-a em dois departamentos, cada um com numerosos segmentos, os quais teriam supervisão dos empregados.
Com isso, muitas seriam as promoções.
Os directores, gerentes e chefes dos atuais departamentos, querendo, poderiam escolher entre participar de concessionárias ou então permanecer ali mesmo, nos sectores que melhor lhes fosse conveniente.
Karl, eufórico, confirmou:
- Como os senhores podem ver, vamos nos auto-terceirizar.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 27, 2017 8:59 am

Teremos muitas dificuldades de aceitação deste plano, mas conto com vocês, pois a partir da sua implantação a fábrica passará a ser de todos os que aqui trabalharem.
Aplausos vigorosos irromperam.
Helmuth deu um pulo de alegria, pensando:
“Imagino que Deus deferiu por completo meu memorando”.
Quando olhou para Jules e Madeleine, viu-os de olhos fechados.
“Estão em oração”, pensou, com acerto.
“Vou orar também”.
Karl, enlevado ante a boa acolhida ao seu plano, lembrou-se do pai:
“Se papai estivesse aqui, creio que ficaria feliz, pelo progresso da “H&H” e talvez sentiria um pouquinho de orgulho do seu filho...”.
Sob o influxo de Jules, que se aproximou favorecendo-o quanto à vidência, num relance fraccionário de tempo, Karl viu o pai e a mãe, juntinhos, com as mãos erguidas ao alto, como que bendizendo a Deus tudo aquilo.
O presidente da “H&H”, mais uma vez, duvidou da própria mediunidade, imaginando que tudo não passara de uma miragem, construída por seu pensamento no pai.
Julgando que estava tendo “fantasias mentais”, atribuiu-as ao desgaste mental exigido pelo plano de reformulação da “H&H”.
Num impulso, telefonou para Cássia, sabendo-a desalentada com o plano.
Convidou:
- Querida, vamos subir a serra para comemorarmos o êxito que o futuro reservou para a “H&H”.
Estarei aí em meia hora. De helicóptero.
De facto, antes do anoitecer, Karl e Cássia estavam na aconchegante mansão que tinham em Campos do Jordão, a hospitaleira e bela cidade paulista.
Angélica, com responsabilidades escolares, permaneceu no lar, com a companhia da governanta da casa, além da empregada doméstica.
Na verdade, a viagem dos pais seria breve.
- Graças a Deus! - exclamou Jules, ao término da reunião na “H&H”.
- Como estou feliz! - considerou Madeleine.
- Minha irmã, é chegada a hora do seu retorno junto aos necessitados que estão sob o manto protector da Colónia na qual você tem obrigações.
Por aqui, tendo a Caridade de Jesus permitido sua presença nestes últimos dias, as coisas agora terão seu curso, com perspectivas de bom andamento.
- Sou grata a Deus, a Jesus e a você.
Madeleine e Helmuth olharam-se, com tanta ternura, simbolizando juras de amor eterno, coração a coração.
Abraçaram-se por longo tempo.
Nenhum dos dois pronunciou qualquer palavra.
Desnecessárias, mesmo.
Helmuth, com o coração apertado ao ver Madeleine afastar-se, perguntou a Jules:
- E eu? Quando irei?
E para onde?
- Lembra-se do que lhe disse sobre o Tempo, sobre o dinamismo da Vida e sobre a autorização de Jesus para você ainda ficar algum período junto à “H&H”?
- Lembro-me bem.
Como agora a fábrica iniciará nova fase e meu filho, graças a Deus, já se tornou um menino bem comportado, inclusive pensando nos outros, imagino que não poderei mesmo continuar por perto.
- Na verdade, já é hora de seguir seu destino.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 27, 2017 9:00 am

Quando encarnado, você protegeu demasiadamente alguns funcionários, em detrimento de outros, fazendo com que fossem vítimas de muitas intrigas, muitas invejas.
Helmuth pensou um instante e exclamou:
- Meu Deus!
Ester... Campos... Mirênio...
- Isso mesmo, pensando favorecê-los, na verdade, você os prejudicou.
- E agora? Como ajudá-los?
- Com suas preces, dirigidas lá de onde você estagiará, talvez por uns dois anos, na “Seara dos Espíritos”, para refazimento e estudos do Evangelho de Jesus, e depois, para onde se transferir, em tarefas de auxílio a irmãos necessitados, de ambos os planos, encarnados e desencarnados.
No entanto, se houver necessidade, em algum instante do futuro, talvez você seja convocado, para prestar assistência.
- Acabo de me lembrar, o menino Maurinho...
Prometi a mim mesmo ajudá-lo...
Será que posso?
- No tempo certo, ele será ajudado.
Ou por você, ou por mim, ou por outros irmãos.
O certo, porém, é que está sob ajuda permanente de Deus.
Não só ele, como todos aqueles que sofrem ou que de alguma forma têm aflição.
Helmuth consultou Jules se poderia ficar alguns dias com o filho, para ajudá-lo na implantação das mudanças na “H&H”.
Justificou a consulta:
- Não fui um bom pai para ele e sinto que poderei recuperar o tempo perdido.
Deixe-me ficar com ele.
- É muito nobre sua atitude, querendo resgatar o tempo perdido e buscando uma aproximação amorosa com seu filho.
Mas, temos primeiro que respeitar os desígnios divinos, que sempre objectivam o bem de todas as criaturas.
- Só quero ajudá-lo nessa fase tão difícil de transição na fábrica.
- Não devemos jamais olvidar que Deus sabe o que é melhor para cada um dos Seus filhos.
No momento, sua presença junto a Karl nublaria todo o livre-arbítrio dele.
Além disso, tal se caracterizaria como acção indevida de um desencarnado sobre um encarnado, porque o objectivo visará prosperidade terrena da “H&H”, não é mesmo?
Helmuth, com sentida humildade, concordou, baixando a cabeça.
O amigo espiritual consolou-o:
- Suas preces alcançarão o coração dele, sendo essa a melhor ajuda.
- Você tem toda razão - capitulou Helmuth.
Jules abraçou-o e após um tempo de silêncio, incentivou-o:
- Karl está com boas intenções e certamente será ajudado pelo Mestre Jesus, através do retorno de toda obra que visa ajudar ao próximo.
- Não o verei mais?
- Como não?
O amor é obra de Deus, com a finalidade de aproximar as criaturas e dar-lhes felicidade, jamais infortúnios.
Quando há necessidade de separações, como, por exemplo, nas desencarnações, serão episódicas sempre, não só pela imortalidade da alma mas principalmente pela vida que segue pujante após a morte.
Aliás, é justamente pelas sucessivas reencarnações que são ensejados a maioria dos reencontros.
A saudade é o laço sublime que une os corações e mantém acesa a chama do amor durante o tempo que durarem tais separações.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 27, 2017 9:00 am

E não nos esqueçamos de que os que ficaram à retaguarda física, segundo Leis Divinas, no tempo certo para cada um também aportarão na pátria verdadeira e universal, a dos Espíritos, onde os afins se buscam.
- Um último pedido:
posso despedir-me dele?
Após um prolongado silêncio, Jules consultou as Esferas Superiores da Espiritualidade e respondeu, emocionado:
- Sim. Hoje mesmo, quando ele adormecer, vamos aguardar que Jesus nos conceda a bênção do seu encontro com Karl.
Logo mais, conduzido por Jules, Helmuth adentrou na casa, em cuja ampla sala de estar, o filho e a nora, junto à lareira, dialogavam:
- Sabe, Cássia, tenho pensado muito em papai.
- Cruz credo, Karl.
Deixe quietas as almas!
- Sim, não quero atormentar papai, onde quer que ele esteja, mas por várias vezes sinto a presença dele.
- Nada disso, bobinho, são apenas lembranças.
- Lembranças, sim, mas tem mais alguma coisa:
parece que ele quer me dizer algo.
- É nisso que dá você ficar escutando aquele engenheiro... o caipira...
Como é mesmo o nome dele?
- Evaldo.
- Ele mesmo.
Desde que começou a pôr essas ideias de Espiritismo na sua cabeça e você passou a frequentar centro espírita, veja quanta coisa mudou, você revirou a fábrica de pernas para o ar e ainda por cima começou a ler livros espíritas.
- Pois fique sabendo, amor, que são muito bons e só trazem bons conselhos.
- Só se forem para você! - encerrou Cássia, aquele tema, indiferente.
Conversaram sobre outras coisas e como o frio fosse convidativo, no admirável clima jordanense, recolheram-se ao leito, aconchegados um ao outro.
Antes de se entregarem ao sono, Karl sugeriu, de repente:
- Sabe, amor, tive um pensamento.
- Não me diga que é sobre mais mudanças na “H&H”...
- Não, dessa vez, mudanças na nossa vida.
O que você acha de adoptarmos um filho?
Cássia foi pega de surpresa.
Deu um pulo da cama, mas logo voltou, pois o frio não autorizava mesmo distância do cobertor.
- Filho... filho... até que não seria uma má ideia.
Angélica já é quase adulta, cedo ou tarde se casará, ou, mesmo que fique solteira, não ficará para sempre connosco, pois é tão “despachada”...
Um filho...
Quando adormeceram, Cássia, Espírito, dirigiu-se a paragens distantes, mas Karl, igualmente em Espírito, com perispírito ligado ao corpo físico pelo cordão fluídico, viu o pai:
- Pai!
- Filho!
Abraçaram-se com magistral e sublime afecto, acto que os séculos aguardavam.
- Perdão, filho! Perdão!
- Pai, pai... que bom ver você!
Perdão, do quê, pai?
Eu é que sempre fui um filho ruim.
- Nada disso, nada disso, meu filho.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 27, 2017 9:00 am

A vida deste lado de cá me mostrou, a duras penas, como é perda de tempo tanta vaidade, tanto orgulho, tudo por causa do dinheiro, do poder.
O único bem é o amor.
O amor, filho! E eu te amo!
- Eu também pai, eu também amo você!
Jules aproximou-se e, com delicadeza, conclamou-os:
- Irmãos queridos, aproveitemos a bênção do tempo e vamos, em primeiro lugar, agradecer a Jesus essa oportunidade de feliz reconciliação.
Sei que falo com homens que valorizam o tempo, por isso perdoem-me relembrar-lhes o conceito que dele fazem os árabes:
o minuto é jóia valiosa que não devemos perder.
- Tenho minhas obrigações, filho, muitas dívidas a resgatar... vou em busca de trabalho santificante e reparador, mas meu coração estará eternamente ligado ao seu.
Com os olhos borbulhando de lágrimas, despediu-se:
- Que Deus o proteja!
A você, minha bênção!
Novamente os séculos viram recompensada a espera.
Essa era a primeira vez que Helmuth assim se expressava, em repetidas existências nas quais Karl estivera sob sua responsabilidade paternal.
Karl acordou.
Na mente, nítida, apenas a lembrança de que sonhara com o pai e que ele o abençoava.
Adormeceu novamente.
Muito feliz.
Quando Jules abraçou Helmuth, este sentiu uma doce onda de paz invadir-lhe o coração.
O pai ensaiava ainda algumas palavras de despedida do filho.
Com a voz embargada recusava-se a obedecer ao protector que o conclamava a partir, quando viu surgir os dois “padioleiros”, naquele mesmo carro “não fabricado pela ”H&H”.
Desistiu de qualquer resistência.
Embarcou e com eles foi rumo à sua evolução espiritual.
• • •
Há algum tempo que Ester não mais se sentia à vontade nas reuniões mediúnicas que Campos realizava em casa.
Na verdade, nunca se sentira bem ali.
Não conseguia dormir e se dormia, tinha pesadelos, nos quais era maltratada por criaturas que se diziam “com crédito”, pelos serviços que prestavam a Campos.
Ao acordar, indisposta e mais cansada do que quando fora dormir, lembrava-se dos pesadelos.
Intuiu, logo, que os malvados que a perseguiam eram os mesmos Espíritos com os quais Campos confabulava.
Disse ao amante:
- Sabe, Campos, não vou mais assistir aos “trabalhos”, pois não estão me fazendo bem.
Até nossa vida íntima vem sendo prejudicada.
- Já notei.
Mas não culpe os “trabalhos”.
Parece que entre nós a graça acabou...
- O que você quer dizer com isso?
- O que você ouviu:
será melhor nos separarmos.
Ester foi pega de surpresa.
Sentiu uma forte pontada no estômago, como se lhe dessem um soco.
Empalidecendo e suando, sentou-se.
Por pouco, cairia, tamanha vertigem a assaltou.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Out 27, 2017 9:00 am

Apenas murmurou:
- Então... é isso que você quer?
- Será melhor para nós dois.
Campos notou que Ester estava “branca como uma vela” e transpirando exageradamente.
Teve um impulso de acarinhá-la, mas refreou.
Há tempos notara que ela estava mudada.
Já não trocavam carícias com o mesmo ardor e, ultimamente, nas vezes que tentara aproximação conjugal, fora repelido.
Entre eles, ao fulgor do sexo irrefreado dos primeiros tempos, não tardou suceder a apatia, resultante infalível das uniões sem a magia do amor.
Deixou-a sem dizer palavra, saindo indiferente ao manifesto mal-estar dela.
Quando Ester conseguiu recuperar-se, pegou suas coisas e mudou-se, foi morar num quarto de fundo de quintal, dividindo o aluguel com uma senhora idosa, aposentada.
Chegando atrasada ao serviço alguns dias seguidos, pois se levantava invariavelmente sentindo-se mal, e não suportando as repreensões e até desprezo do dono da firma em que arrumara emprego de faxineira, demitiu-se.
Por vários dias tentou conseguir outro emprego.
Campos não a procurou mais.
Por isso, achou-se impedida de voltar para ele, como estava sendo necessário, pois se sentia adoentada e não tinha mais dinheiro, nem emprego.
Abatida e extremamente desanimada pensou:
“Só Deus pode me ajudar”.
Seu Espírito protector, que tanto se esforçava por ampará-la, só agora, diante dessa postura mental conseguiu aproximar-se.
Velou pela noite de sono dela, que acordou com enjoo, tomou um remédio estomacal e mesmo sem fazer efeito, saiu para procurar um emprego num endereço que recortou do jornal.
O ônibus estava superlotado àquela hora, como de costume.
De pé, espremida por outros passageiros, sentiu piorar o enjoo.
Com enorme esforço, desceu assim que pôde, mas num ponto algo distante daquele a que se dirigia.
Sem conseguir dominar-se, regurgitou em plena calçada, quase atingindo alguns transeuntes, que a olharam com raiva.
Ao enjoo, acresceu-se tontura.
Sentindo a paisagem rodopiando, quase desfalecente, foi amparada por uma família, que a conduziu ao Pronto-Socorro Municipal, aquele mesmo no qual fora empregada.
O médico de plantão, após fazer ligeiro interrogatório, algo cauteloso, diagnosticou:
- A senhora deverá procurar seu ginecologista... está grávida.
Ester sentiu o mesmo efeito de alguém que está próximo a um rojão no momento que explode.
Colocou as mãos tapando os ouvidos, como que se com este gesto conseguiria reverter o tempo, deixando de ouvir o que ouvira e, mais que isso, mudar a realidade, isto é, nada de gravidez.
Deixou o PS o mais rápido possível, olhando em volta, como que à procura do antigo chefe, temendo inconscientemente que ele a repreendesse por estar grávida.
Intuída por seu protector espiritual, dali foi até ao Posto Médico que atendia pacientes pelo Sistema Previdenciário e encontrou-o lotado e já havia encerrado a distribuição de “senhas” para o atendimento naquele dia.
Informando estar grávida e sentindo-se mal, o recepcionista encaminhou-a para a “emergência”, onde outras mulheres já estavam também aguardando atendimento.
Precisou de enorme paciência para não desistir.
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Re: Almas em Chamas - Josué/Eurípedes Kühl

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