TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

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TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 12:23 pm

TRANSPLANTE DE AMOR
Eurípedes Kuhl

Romance do Espírito Roboels

Sumário
Introdução

1. Mármore Verde
2. Dois Centros
3. De Volta aos Descaminhos
4. Emoções Trincadas
5. Onde Estão os Doadores?
6. Caminhos da Vida, Estradas do Destino
7. Equipe Invisível
8. Linhas Tortas
9. Estrelas Falsas
10. Cama de Mármore Verde
11. As Várias Faces da Vida
12. Qual o Perfume?
13. Bendita Dor!
14. O Lar e o Ninho
15. Doação de Órgãos e Transplantes – Enfoques Científicos e Espirituais
16. Três Marias

INTRODUÇÃO
Prometendo não tomar muito tempo do leitor, para não lhe atrasar a leitura desta obra, nela compareço, a convite do Autor Espiritual, nosso irmão Roboels.
Somos amigos de há muito, e lembro-me de que o conheci, no Antigo Egipto, quando juntos passamos a lutar pela conquista do desprendimento dos bens terrenos, ou melhor, pela conquista de nós mesmos, com poucos resultados de minha parte.
Muito mais tarde, tive a felicidade de ser aluno e auxiliar de Roboels, então director da Instituição Espírita Seara dos Espíritos, situada na psicosfera de Marselha.
Chegada a hora de um novo mergulho seu na romagem terrena, antes de reencarnar, devidamente autorizado pelo Plano Maior, passou-me a direcção da Seara.
Estávamos na metade do século XIX.
Seus profundos conhecimentos de medicina (espiritual e física) credenciaram-no a integrar, actualmente, a equipe do inestimável "Médico dos pobres", cuja acção se desenvolve principalmente na Pátria Brasil.
Como sempre, com Roboels, agora aprendi mais.
Assim, amigo leitor, quando você chegar ao fim deste livro, talvez concorde comigo na reflexão, que não é minha, pobre que sou de memória e de poesia, mas que ouvi de alguém:
"Fortuna Juvat cor unum et animae unae, Dei gratia."
"A sorte contempla um só coração e duas almas, pela graça de Deus."

Claudinei, Espírito
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Ave sem Ninho

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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 12:23 pm

1- MÁRMORE VERDE
Quando a luxuosa limusine deixou-os à entrada da sua mansão, Ari e Luiza sentiram enorme angústia ao descer, pois, naquele momento, o lar era o inexorável fim da brilhante recepção da qual acabavam de vir.
Eleito por unanimidade "homem de negócios do ano", Ari tinha sido louvado por centenas de convidados, seleccionados pelo alto padrão social, isto é, todos muito ricos...
A festividade fora deslumbrante:
- Chegada triunfal, na mesma limusine que agora o demitia;
- espocar de flashes de várias empresas de jornalismo e propaganda;
- Repórteres de TV, nacionalmente conhecidos e especialistas em entrevistas com altas autoridades, vieram ao seu encontro, algo submissos;
- Amigos e clientes, às dezenas;
- Desconhecidos, às centenas, impedidos de transpor a barreira de segurança, olharam-no embevecidos, hipnotizados mesmo, por tão expressivo acontecimento, do qual jamais participariam, mas lá compareceram, a bordo de enganosa esperança, pois, quem sabe, "Deus daria um jeito de entrarem?"
Sim: a festa fora inesquecível! Mas agora terminara. Ao transporem a soleira e fecharem a porta, adentrando no aconchego do lar, mas despedindo-se do mundo de fantasias daquela noite, cresceu-lhes na alma a angústia pela ausência dos holofotes que tanto e tanto os evidenciara.
Mudos, ambos - marido e mulher.
O mordomo e os serviçais haviam sido dispensados do plantão naquela noite, pois tanto Ari quanto Luiza queriam privacidade para degustar as homenagens a eles prestadas:
"não ficava bem" os subalternos verem-lhes a felicidade.
Felicidade?
No coração deles reverberavam ainda os acordes da triunfal celebração.
Aliás, músicos competentes, da orquestra sinfónica local, brindaram a todos com peças de expressiva qualidade.
Logo à chegada do casal, encheu-se o ar dos acordes tanto sumptuosos quanto vibrantes, emoldurados por coral, da marcha Pompa e Circunstância, de Sir Edward Elgar, compositor inglês (1857-1934).
Se Ari era "o homem do ano", Luiza julgava-se "a mulher do século", pois sua inquestionável beleza era pedestal no qual se enquistara, desde jovem, provocando deslumbramento e franquias totais para o poder.
Tamanho era o magnetismo que irradiava daquele par que os circunstantes, de que classe social fossem, invejavam-no:
o homem, inteligente, dinâmico, riquíssimo; a mulher, dentre tantas qualidades a serem consideradas, só uma se destacava, de duvidoso valor: estonteante beleza, drapejando suspiros masculinos nas bordas do manto de etiqueta que os revestia e gerando crescente inveja nas outras mulheres, chegando muitas delas a sentirem-se humilhadas até.
Aliás, não fora essa a primeira e preponderante "virtude" que levara Ari, vinte e tantos anos atrás, a sentir-se irremediavelmente atraído por Luiza?
Já detentor então de considerável fortuna, por herança, com o diploma de geólogo, foi destacado para, em missão oficial, realizar prospecções numa região agreste do interior do país.
Realizadas as análises, emitiu o respectivo laudo, que foi arquivado no departamento competente.
Buscava-se à época, desesperadamente, petróleo, em face da crise mundial irrompida a partir do brutal aumento de preços.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 12:23 pm

Decidido de forma unilateral, pelo conglomerado dos países produtores, um ano após, varrida da memória aquela expedição patrocinada pelo Governo, Ari sentiu um inexplicável impulso para retornar àquelas paragens agrestes.
Qual bandeirante moderno formou por conta própria uma expedição, que logo seguiu rumo às distantes terras selvagens?
Com excelente infra-estrutura que sua fortuna propiciou, a aventura teve mesmo sabor de aventura.
Percorreu os sítios nos quais estivera havia um ano, realizou caçadas e pescarias.
Antes de retornar à capital do seu Estado, decidiu fazer um sobrevoo de helicóptero (que ele mesmo pilotava), ampliando as vistas na região, indo além dos pontos até então conhecidos.
Pois bem: foi aí que aconteceu...
Seus argutos olhos, de geólogo por vocação, deram-lhe a ver algo fantástico.
Mal acreditou no que via.
Estando a pouca altura, quase a ponto de tocar no cume da descomunal e deslumbrante montanha, extasiou-se. Verdes!
Nas fendas, eram verdes as rochas!
Nelas entreviu os fragmentos calcários, com listras brancas, mas a cor predominante era mesmo o verde - um verde fantástico, inesquecível!
O verde estava engastado em grandes áreas da montanha.
Com o coração exaltado, uma vez mais a mente sobrepujou a emoção e, disciplinado, norteou o que fazer.
Encontrando um ponto favorável para pouso, apeou da aeronave e qual o histórico pisar do homem na Lua, há poucos anos, também ele pisou ali no recôncavo virgem.
Seus pés foram, talvez, os do primeiro homem a contactar a fabulosa obra realizada pela natureza, ao longo dos milhões de milénios:
mármore verde!
Com os poucos recursos técnicos disponíveis, ainda assim conseguiu colher algumas amostras, de antemão sabendo que, sob seus pés, dormia incalculável fortuna.
Na sequência de providências, demarcou a área e por meio dos seus contactos, todos estrategicamente posicionados nos órgãos federais, obteve permissão de lavra mineral daquele sítio, cujas pedras calcárias, maciças, eram de um verde incomum, deslumbrante!
Nos anos seguintes, o dinheiro que acumulou em ganhos com o raro e por isso mesmo requisitadíssimo mármore verde, cujas amostras mandou para o mundo todo, recebendo encomendas sem parar, levou-o às culminâncias da riqueza.
Além do mármore daquela tonalidade de verde, a vida apresentou-lhe outra preciosidade: Luiza.
Conheceram-se e tamanhas e tantas eram coincidentes suas ideias, que, da simbiose mental, partiram para a física: casaram-se.
Verdade seja dita: se ele era "o homem do dinheiro", e ela, "a mulher mais linda", podem até ter sido outros os referenciais da atracção que os envolveu, mas, em ambos, havia algo mais, como factor de união:
a simbiose espiritual - aquela que acontece quando se aproximam dois seres que vibram em padrões intelectuais e morais uníssonos.
Muitos outros factores aproximam as criaturas, contudo, quando essa aproximação ocorre em momento vivencial específico, psicológico, de dois seres de sexos opostos, na maioria das vezes a resultante tem sido sua união, com ou sem casamento.
Tão forte é o impacto na alma do homem e da mulher, em ocasiões tais, que não há força no mundo capaz de impedir-lhes a aproximação e a fusão de ideais.
E de corpos...
Se impedidos fisicamente de se aproximarem, por factores vários, familiares ou sociais, em espírito se buscarão e se encontrarão.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 12:23 pm

E se unirão.
Anderson, 23 anos, e Meire, 21, os filhos de Ari e Luiza, já haviam deixado o lar e viviam desgarrados de quaisquer sentimentos que demonstrassem o menor amor filial.
O único ponto de contacto com os pais era a mesada que recebiam, creditada directamente em suas contas bancárias.
Ambos moravam em casa própria, presente de Ari.
Anderson, em união não-oficializada legalmente, morava com Ane, de sua idade.
Meire, com duas colegas, cobrando-lhes aluguel.
Embora convidados, os filhos não compareceram à grande cerimónia social de homenagens ao pai.
Ir lá fazer o quê?
Bater palmas para o "homem do ano"?
Não bastavam os longos anos que a isso os obrigaram?
Os sentimentos relativos aos pais, de uma certa forma, eram confusos, contraditórios: admiração e repulsão.
Admiração ao pai, pelo dinamismo, inteligência e arrojo; à mãe, pela beleza egoísta, que nem mesmo por "obrigação genética" fora repartida com eles, principalmente com Meire, já que sempre ouviam no lar a própria Luiza dizer que "mulher de verdade tem obrigação de ser bonita"...
Nesse quadro, tamanho e tanto era o desgaste familiar, que nenhum dos quatro era feliz.
Ao contrário.
O pai, envolvido com a administração comercial dos bens, requisitando-lhe constantes viagens internacionais, não tivera tempo para dedicar-se aos filhos, desde que nasceram.
Quando ocorria alguma vaga na sua agenda, era acometido de compulsão, tendente a manter-se atado aos negócios:
determinava aos directores reunião de emergência, elegendo algum lugar turístico.
Com isso, agradava às famílias dos convocados, que iam às expensas da empresa.
Mas, aos seus auxiliares, sugava-lhes ao máximo as energias físicas e intelectuais, transformando tais viagens em tormentos reais, pois nelas só se falava e tratava de um assunto: mármore.
Muitos cristãos, de forma sofistica, unilateral, buscando justificativa para aumentar suas fortunas, alegam que Jesus disse:
"Bem-aventurados os que são brandos porque possuirão a Terra" (Mateus 5:5).
Aqui, esquecendo-se da brandura, interpretam que "possuir a Terra" é ter muito dinheiro.
Acontece que esses ricos encontram azedos críticos dessa interpretação, os quais alegam, em contraposição, que Jesus também declarou:
"De que proveito será para um homem, se ele ganhar o mundo inteiro, mas pagar com a perda da sua alma?" (Mateus 16:26)
Desavisados, uns e outros não percebem que a sabedoria do Mestre recomenda que, enquanto encarnado, nada objecta ao homem usufruir dos bens terrenos, preparando-se para, quando desencarnar, gozar dos bens celestiais.
Desavisados porque Jesus faz da brandura a condição indispensável "à posse da Terra", e não da fortuna.
E brandura pressupõe amor ao próximo, entre ricos e pobres, reciprocamente.
Dessa forma, se alguém recebe do Criador o empréstimo da riqueza, não deverá renunciar a ela, mas sim administrá-la com brandura, beneficiando aos que não a têm, seja proporcionando-lhes trabalho com remuneração digna, seja edificando e mantendo obras assistenciais.
Nessa administração, jamais considerar os bens "da Terra" mais importantes do que os bens "do céu".
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 12:23 pm

No caso de Ari, por exemplo, a ponto de até renunciar aos cuidados com a família.
De facto, o lugar onde menos Ari ficava era o lar...
Os filhos não lhe perdoaram esse alheamento paterno: mal entrando na juventude, deram um jeito de se afastar, indo cada um "viver sua vida"...
Luiza, equipada com as duas mais poderosas armas do orgulho feminino - beleza e riqueza -, se auto-intitulara "primeira-dama", não de direito, mas de facto.
Não perdia um acontecimento social.
A exemplo do marido, se não havia nenhum evento, ela se incumbia de arrumar algum, sob qualquer pretexto.
Falava muito em "caridade", o que garantia presenças...
Perguntavam-lhe as colunistas sociais, nas constantes recepções das altas rodas:
— Então, como a nossa primeira-dama da beleza consegue ficar mais bonita a cada dia?
Qual o segredo?
Do alto desse equivocado pedestal, condescendia em revelar:
— Consciência tranquila...
Os filhos, testemunhas da realidade, revoltavam-se quando viam ou presenciavam tais entrevistas na TV, nas revistas ou nos jornais.
Ou em todos.
Perguntavam-se, cada um para si mesmo:
"Como mamãe pode ter consciência tranquila, se nem ao menos conversa com os filhos?
Que caridade é essa que ela faz?"
Na verdade, a grande preocupação de Luiza com relação aos filhos havia sido sempre os matricular em alguma escola.
De preferência, em duas, simultaneamente, de forma a lhes ocupar todo o dia.
Isso desde o pré, maternal, jardim-de-infância, primeiro e segundo graus, cursos de línguas, piano e quantos mais fossem possíveis.
Dessa forma, Anderson e Meire embaralhavam a tal ponto as ideias, que nenhum dos dois chegou a concluir o curso superior no qual se matricularam.
Falavam fluentemente inglês, italiano, espanhol e francês, pois, por decisão materna, juntos estudaram nos Estados unidos, na Itália, na Espanha e na França, um ano, mais ou menos, em cada país.
Foram tempos felizes para Luiza, que, sem "o fardo filial", mais alto planava na glorificação de si mesma.
Somados os anos que os filhos viveram no Brasil, deles subtraídos os estágios e as viagens internacionais, feitas duas ou três vezes ao ano, em grupos de turismo "só de jovens", na verdade tinham também passado mais tempo fora do que dentro do lar.
Nesse contexto, difícil mesmo o amor e a paz familiar...
Pouco antes de o dia raiar, um breve ruído de buzina à porta, seguido da campainha, que soou insistentemente, acordou-os.
Ari já ia xingar os serviçais, que não haviam cumprido sua tarefa de atender, quando se lembrou de que os havia dispensado.
Contrariado embora, não lhe restou alternativa:
levantou-se e foi atender os inoportunos, um rapaz bem-vestido estava próximo à casa e cumprimentou-o:
— Bom dia, doutor Ari, meu nome é Andrade, sou segurança do Havai.
Perdoe-me por perturbá-lo a essa hora, mas...
— Não perdoo, não; nada justifica essa desrespeitosa atitude sua.
Diga logo o que quer, mas já vou informando, para encurtar a conversa e economizar o meu tempo, que a resposta é não!
— Mas, doutor...
— Será possível?!
Andrade, segurança do famoso clube nocturno, o Havai, era treinado para manter a calma em situações desagradáveis como aquela.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 12:24 pm

Sem dizer palavra, num gesto psicológico, voltou o olhar lentamente para o interior do carro.
Ari, por imitação, acompanhou o olhar.
Sem entender exactamente o que se passava, pôde, entretanto, perceber que havia alguém no banco traseiro.
O motorista, que agora deixara também o veículo, deu a volta e abriu a porta, de forma que Ari pudesse ver melhor.
Meire! Era sua filha que estava estendida no banco, desmaiada.
Ari teve duas reacções simultâneas:
constrangimento e raiva, sentimentos esses provocados, o primeiro, pela humilhação a que ele, "todo-poderoso", estava sendo submetido diante de dois simples empregados de clube, e o segundo, por isso estar acontecendo pela irresponsabilidade da filha, a quem, agora, não poderia punir devidamente...
Não estando nenhum serviçal a postos e como os rapazes não se mostrassem de boa vontade, o jeito foi ele próprio e Luiza tirarem Meire do carro e levarem-na para dentro da casa.
Quando foram tirar a filha do carro, entenderam por que os rapazes se mostravam tão chateados:
Meire havia sujado os bancos, regurgitando.
O cheiro acre, característico de bebida alcoólica expulsa do estômago, denunciava que a jovem havia abusado.
— Essa menina está bêbada e toda suja - exclamou Ari, em grande desconforto, com nojo.
— Não foi só bebida... - aduziu Alípio, o outro segurança.
— Mas então, o que mais?
— Melhor o senhor levá-la ao médico...
Parece que andou se drogando.
E nesse estado, se foi overdose, pode ser fatal...
— Quem disse?
— Provas não temos, mas, pela experiência, é quase certo que misturou bebida com drogas, cocaína talvez...
— Tem certeza?
— Certeza, não, mas os sintomas...
Quando Meire foi deixada no sofá, Ari determinou à esposa:
— Chame o doutor Américo e peça uma ambulância.
Diga que é urgente.
Vou despachar aqueles dois.
Foi até seus pertences, apanhou várias notas de dinheiro e, ao entregá-las aos seguranças, que as receberam de bom grado, "aconselhou", ameaçador:
— Para o bem de todos, esqueçam tudo isso!
— Sim, senhor.
Aliás, viemos directo para cá, em vez de procurar um pronto-socorro, pois lá a moça seria fichada e a ocorrência teria que ser comunicada à Polícia.
— Só uma perguntinha:
o que vocês estavam fazendo na hora em que minha filha... digamos, se perturbou dessa forma?
— Já que o senhor perguntou, não se ofenda, mas saiba que ela chegou ao clube bastante alterada, em companhia de duas amigas.
Quando nós impedimos a entrada das três, armaram a maior confusão e voltaram para o carro.
Pensamos que tinham ido embora, mas cinco minutos depois as duas amigas, apavoradas, vieram nos chamar, pedindo socorro.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 12:24 pm

Disseram que o senhor era o pai dela e por isso, em respeito à sua família, trouxemos sua filha para cá, e não para o hospital.
— Essas duas amigas...
Qual o nome delas?
— Não sabemos, pois, assim que colocamos sua filha no carro, elas se retiraram, pedindo que nós a trouxéssemos para este endereço, dizendo que era a casa dos pais dela.
— Aguardem um minuto.
Ari foi até seu escritório e apanhou mais dinheiro, que, a seguir, entregou aos dois seguranças:
— Mandem lavar o carro e fiquem com o troco.
Quando o carro estiver limpo, tudo o que se passou deve também estar fora da memória de vocês.
— Sim, senhor; sim, senhor.
Mal os dois jovens se retiraram, chegou a ambulância.
Ari explicou aos atendentes que a filha se excedera "nas comemorações" e tivera uma forte indisposição.
Treinados, os enfermeiros logo acomodaram Meire na maca da ambulância e conduziram-na ao pronto-socorro.
Nem o pai nem a mãe acompanharam a filha...
— Eis aqui o meu telefone - disse Ari ao chefe da ambulância, entregando-lhe um cartão de visitas e, anexada a ele, uma boa quantia em dinheiro.
Telefone-me logo que puder.
E não deixe que falte nada para minha filha.
— O senhor ou sua esposa não querem acompanhá-la?
Na ambulância há lugar para um parente...
— Não, não queremos.
Estamos muito abalados e confiamos em sua competência.
Quando tudo isso passar, mostraremos melhor "nossa gratidão" a você e seus auxiliares.
Quando também a ambulância deixou a mansão, Ari e Luiza olharam-se, mudos, como que desacreditando os factos daqueles últimos minutos.
Finalmente, Ari explodiu:
— Droga por droga, Meire não vale nada, é uma ingrata.
Fazer uma coisa dessas com o pai, justamente neste dia glorioso...
— Dia glorioso?
Que glória maluca é essa que uma simples fedelha conseguiu emporcalhar?
Nem sei se é pecado, mas será que vale a pena ter filhos como os que nós temos?
— Não me interessa a vida desses dois ingratos, mas por que "tinham" que estragar meus momentos de felicidade?
— Anderson não estragou nada...
— Hoje! Mas, na verdade, ele também vem me atormentando, há tempos, fazendo dívidas.
Esta semana dei para ele uma camioneta importada, zero-quilómetro, tentando atraí-lo para trabalhar comigo.
Mas, demonstrando ingratidão sem limite, anunciou que está apaixonado e que estará melhor onde está, até mesmo que já tem "outra família"...
Uma falsa família, isto sim, deve ser essa na qual se enredou.
— Dívidas?
Que dívidas são essas a que você se referiu?
E a mesada que nós damos para ele?
— Andou fazendo uns negócios malfeitos na área de genética e, segundo declarou, teve prejuízos.
Nem teve a dignidade de me procurar para explicar-se pessoalmente e pedir ajuda.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 12:24 pm

Mandou a própria firma de investimentos que fez o empréstimo para ele me contactar.
Para evitar andanças com cobrança judicial, paguei o prejuízo.
— Você não tinha me contado isso...
— Para quê?
O que você poderia fazer para resolver o problema, senão pagar?
— Ao menos daria uns conselhos para nosso filho.
— Mas eu fiz isso:
mandei buscá-lo e, quando chegou à empresa, mal me cumprimentou.
Ao tentar mostrar-lhe o disparate em que se meteu, em menos de dois minutos começou a gritar como um louco, destratando-me na presença dos empregados.
— Mas não é possível!
Então você queria o quê?
Foi repreendê-lo lá na firma?
Eu não acredito!
Você deveria ter ido a algum lugar reservado, para conversarem a sós, sem testemunhas, num diálogo positivo de pai para filho.
— Vejam só quem está falando...
Você por acaso é especialista em educação filial?
Então, diga-me:
quando foi a última vez em que teve um diálogo "de mãe para filha" com Meire?
— Você está querendo me culpar pela má educação dos nossos filhos?
— E por que não, "senhora primeira-dama"?
Se eu cumpro minha obrigação de ganhar dinheiro para sustentar minha família, considero que seria justo a senhora, ao menos, educar os filhos, já que largou a casa também.
— O que você está insinuando?
— Isso que você ouviu.
E não é insinuação: é afirmação!
Você, preocupada com sua maldita beleza, esqueceu-se de ser mulher...
— Ó quê?! Quem é você para me criticar?
Ajudei-o a subir onde está, sabia?
— Ah, é? Indo a salões de beleza, querida?
Ou fazendo suas duas ou três plásticas todo ano?
— Não admito que você me fale nesse tom, muito menos que tente pôr a culpa nos meus ombros.
Filhos nascem de duas pessoas, sabia?
E devem viver num lar, com pai e mãe.
Se o nosso lar fracassou, não foi por minha culpa.
Mas eu concedo:
se tenho alguma culpa, é só meia culpa:
a minha beleza, sim.
E a outra metade, queridinho, sabe de quem é?
É sua! Sabia?
— Pare de me perguntar "sabia?" "sabia?" a toda hora.
Você não tem nada para me ensinar.
Nesse ponto, Ari avançou para Luiza.
Completamente transtornado pelas fortes emoções desencontradas, perdeu o tradicional sangue-frio e autocontrole.
Não pretendia ofendê-la fisicamente.
Apenas lhe dar algumas sacudidelas.
E foi o que fez: segurou Luiza pelos ombros e, sacudindo-a energicamente, gritou:
— Sua ingrata, mulher fútil, mãe relaxada!
Não venha me dar lições de moral.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 12:24 pm

Não admito!
No auge da indignação, eclodiu-lhe uma crise cardíaca, fruto de insuspeitada doença motivada pelos anos acumulados de descuidos com a saúde.
Na verdade, há alguns dias Ari vinha sentindo algumas tonturas passageiras por vezes seguidas de dor a irradiar-se levemente pelo braço esquerdo.
Mas, como sempre, ocultara isso de todos e não dera a menor atenção aos sintomas.
Trabalhando por vezes até dezasseis horas diárias, julgava-se indene ao comprometimento da boa saúde que sempre gozara.
Sábia, a natureza socorreu-o:
o infarto valeu por dez mil alertas, mas o cérebro, percebendo a insuficiência de oxigénio, decretou a interrupção de toda actividade muscular, desonerando, por conseguinte, o coração do abastecimento sanguíneo a todo o organismo.
Quando Ari estava agitando-a qual galho de árvore submetido a temporal, Luiza espantou-se com o olhar dele, injectado de sangue.
Em segundos, porém, o grito abafado dele, levando as mãos ao coração, noticiou a irrupção do colapso:
em gemidos, acusando dores, arqueou-se, cambaleou e por fim tombou pesadamente.
Em meio àquela acalorada discussão com Luiza, Ari sentiu a dor que lhe alcançou o braço esquerdo, com resposta ainda mais dolorosa no centro do peito.
Teve a sensação de que saíra do chão e, qual um foguete ensandecido, rumava para frente, para o alto, para baixo e para trás de onde estava - tudo ao mesmo tempo.
Quis gritar, para dar vazão ao supremo desconforto que sentia, mas o máximo que conseguiu foi gemer.
Braços e pernas cessaram a obediência e nem sequer pôde amparar-se em algo antes de se estatelar no tapete, que, pela espessura, amorteceu-lhe a queda.
Não conseguindo erguê-lo do chão, Luiza voltou a telefonar para o doutor Américo, implorando-lhe que viesse com urgência, quando soube que já estava a caminho.
Américo, já beirando os trinta anos, tendo prestado bons serviços nas empresas de Ari, tornara-se "o médico da família" dele.
Seguida de dor, sobreveio a Ari inusitada experiência:
não conseguia falar com a esposa, mas ouvia tudo - os gritos de angústia dela, ao vê-lo tombado.
Sabia-se atingido por misterioso e invisível impacto, mas não conseguiu atinar como é que surgiram, literalmente do ar, pessoas jamais vistas por ele.
Intuiu, de pronto, que com elas poderia conversar...
Maior era seu espanto ao verificar que, embora desconhecidas, aquelas pessoas "não lhe eram de todo estranhas"...
Pensou na palavra paradoxo, que sempre utilizava para expor aos seus clientes os efeitos decorativos dos contrastes, caprichosamente listrados pela natureza, nas peças que comercializava, extraídas dos blocos marmóreos de sua gigantesca lavra, onde o verde predominava.
Ademais, sempre que se apresentava uma situação de mistério ou de dois contrários, Ari sapecava a palavra paradoxo, para pôr ordem nas coisas...
Naquele momento, para ele, o que estava acontecendo era um paradoxo, o maior que já vivenciara:
estava vivo, mas com "acção zero", isto é, como um morto...
Outro paradoxo:
como é que aquelas pessoas vieram do ar se ninguém consegue voar, atravessar paredes e menos ainda ser invisível aos demais circunstantes (no caso, só Luiza)?
Mais um: se nunca os vira, sendo-lhe desconhecidos, pois, como é que teve a nítida impressão de que já convivera com eles?
De repente, desistiu de decifrar tantos mistérios:
"um paradoxo ainda vai, mas tantos assim...”
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 01, 2017 12:25 pm

Enquanto a esposa tentava erguê-lo para acomodá-lo no sofá, Ari percebeu que os "estranhos" formavam uma equipe socorrista, pois estavam vestidos de branco; certamente eram médicos e enfermeiros.
O chefe deles olhou-o com bondade e, sem abrir a boca, disse-lhe:
- Sim, Ari, somos socorristas.
Tenha fé em Deus e eleve o pensamento a Jesus, que, além de ser o Mestre dos mestres, é também o Médico dos médicos, o bálsamo para os sofredores e aflitos, enfim, o Amigo eterno!
Novos paradoxos...
Falar sem abrir a boca e o mais complicado: ele ouvir...
Abandonando esse rápido pensamento, Ari imaginou três vertentes simultâneas para explicar aquilo, em parte:
1- o homem chamou-me pelo nome, logo me conhece;
2- o que diz e ao que me convida conduzem à religião;
3- a presença deles me dá segurança e fez a dor cessar.
Tocado no mais íntimo de sua alma, elevou o pensamento "lá no alto, onde Jesus tem assento, ao lado de Deus", e rogou mentalmente:
"Se o Senhor puder deixar Seus afazeres por uns instantes, agradeceria de coração que viesse socorrer-me, sendo certo que saberei recompensá-Lo".
Percebeu, entre aflito e aliviado, que um suave torpor visitou-lhe o corpo todo e que dentro de instantes iria fechar os olhos e dormir.
Antes, o chefe da equipe, ainda telepaticamente, esclareceu-lhe:
— Ari, Ari; Jesus não é um grande industrial, ou o presidente de extensos conglomerados comerciais, mas sim o Bom Pastor, que está em permanente contacto com Seu rebanho.
— Se eu não abri a boca, como o senhor consegue adivinhar o que penso?!
— O pensamento tem linguagem infinitamente mais comunicativa que todas as palavras de todos os idiomas do universo, pois não tem barreiras de tempo e espaço.
Ari entendeu que esteve conversando "mente a mente", como raciocinou, com acerto.
Agradável perfume feriu-lhe as narinas.
Para si mesmo, "pela mente", disse:
Vou dormir... Dormiu.
Para Luiza, com Ari desmaiado, ouvir a campainha tocar naquele preciso momento, vendo chegar o doutor Américo, foi como se anjos estivessem pedindo para entrar.
Logo atendeu e, em estado de choque, não conseguiu falar, para dizer que Meire já tinha sido levada para o pronto-socorro e que o problema agora era com o marido, ou para manifestar sua alegria em ver o médico.
Apenas indicou Ari, caído.
Américo examinou-o presto e, pela cor dos lábios, além da quase ausência de pulsação, sobretudo o vendo com as mãos crispadas sobre o peito, como se quisesse arranhá-lo, diagnosticou de pronto e correctamente:
infarto do miocárdio!
Apanhou sua maleta de emergência e dela retirou um comprimido, que colocou sob a língua de Ari, mantendo-o ali até dissolver-se.
Factor fundamental de auxílio a Ari foi a rápida chegada do doutor Américo.
Levado ao hospital no carro do médico, acompanhado de Luiza, foi prontamente encaminhado à sala de emergências.
Medicado convenientemente, retomou parte da pulsação.
Monitorado por aparelhos de sobrevivência, assim deveria permanecer por algumas horas, quando a equipe de atendimento cardíaco estivesse toda a postos.
Vendo o marido socorrido, Luiza recobrou algum equilíbrio.
Contou sobre Meire para o doutor Américo, que se prontificou a ir em seguida acompanhar o que estava acontecendo com ela.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 02, 2017 11:21 am

Sugeriu:
— O melhor, no momento, é você ir para casa, tomar um banho quente e dormir algumas horas.
Eu irei visitar a Meire e em seguida voltarei para ficar ao lado do Ari.
Entregou um comprimido para Luiza, informando ser um calmante fraco, que a ajudaria a repousar.
Quando ela deixou o hospital, retornando ao lar, nem sequer percebeu no céu a magia das cores com as quais a madrugada saudava a chegada do amanhecer.
Mostrando que cada novo dia é mesmo uma grande festa, o Sol, actor principal desse acto de esplendor que se repete há biliões de dias, despachava emissários multicoloridos - seus raios -, para, em silêncio, mas com júbilo inaudito, despertar os seres da criação.
Chegará um dia em que os homens, a partir de então, imitando a maravilha de cada amanhecer, também conseguirão com seus actos e pensamentos iluminar os céus de claridades, quais rojões cheios de amizade e paz, e, talvez nesse dia, em vez dos estrondos, tais foguetes derramem melodias nos ares.
Quando Ari despertou, custou a reconhecer onde estava.
Perspicaz, contudo, passados alguns instantes e vendo o movimento ao seu redor, identificou o local:
estava num hospital, na unidade de Tratamento Intensivo (UTI).
Intenso pavor invadiu-o.
Nesse instante lembrou-se do que acontecera.
A dor! Oh, a dor! Voltou de repente...
Gemeu a princípio e logo conseguiu emitir um cavernoso ruído, noticiando grave desconforto físico.
Foi socorrido de pronto pelo jovem médico plantonista.
Delicadamente, colocou-lhe um minúsculo comprimido sob a língua. De efeito instantâneo, o remédio trouxe-lhe alívio à dor, mas não à angústia que o dominou.
Balbuciou:
— Onde?
Há quanto tempo? Luiza?
— Já, já, doutor Ari, vou providenciar.
Logo após ser convocado, o cirurgião-chefe do Departamento de Cardiologia adentrou na UTI e dirigiu-se a Ari:
— Ora, ora, meu amigo Ari.
Dormiu um bocado, hein?
— ?!
— Pois então, há muitas horas que está connosco...
Até parece que fazia uma semana que você não dormia...
Mil pensamentos cruzaram-lhe a mente, mas, de todos, o mais importante era saber seu real estado de saúde.
Como que lhe adivinhando a tormentosa dúvida, o cirurgião incutiu-lhe ânimo:
— Sou o doutor Renato e neste hospital chefio o departamento que cuida "dos apaixonados", isto é, daqueles que chegam aqui com o coração machucado.
Naquele momento de tão grave realidade, a maneira bondosa de se expressar do doutor Renato conseguiu algo dificílimo: fazer o paciente sorrir, diminuindo assim a tensão emocional ao confirmar o problema grave no coração...
"Doutor Cupido" pensou Ari.
— "Doutor Cupido" é como sou tratado pelos meus pacientes.
— Será que ultimamente todo mundo resolveu adivinhar meus pensamentos? - Indagou Ari.
— Não entendi...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 02, 2017 11:21 am

— É que...
Ari desistiu de contar o que se passara na sala de sua casa, quando o quase fulminante ataque cardíaco derrubou-o.
O médico não insistiu e, a seguir, esclareceu:
— Estamos concluindo uma bateria de exames clínicos e é provável que em dois dias tenhamos um diagnóstico preciso do seu estado.
Você está na UTI não só por precaução contra eventual nova crise que possa irromper sem aviso, bem como porque aqui pode permanecer em repouso absoluto, longe de ruídos e afastado de visitas, que, no seu caso, seriam prejudiciais.
— Luiza...
— Sim, ela e seus filhos poderão vê-lo, uma vez por dia, e assim mesmo por poucos minutos.
Silenciosas, mas carregadas de intensa emoção, lágrimas verteram dos olhos de Ari.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 02, 2017 11:22 am

2 – DOIS CENTROS
Voltando ao exacto momento em que eram acesas as fortes luzes dos cinegrafistas e repórteres de TV para documentar a chegada triunfal de Ari, o "homem do ano”, ao Centro da Indústria e Comércio da Capital, naquele exacto instante, - vinte horas -, eram apagadas fracas luzes de um outro Centro, nessa mesma capital.
Com efeito, distante, na periferia, mais de trinta quilómetros do luxuoso Centro da Indústria, no Centro Espírita Tarefeiros de Jesus, de singular humildade, as luzes principais se apagaram, pois se iniciavam os afazeres da noite:
reunião mediúnica de desobsessão.
Na pequena sala, apenas a luminosidade de duas lâmpadas coloridas abraçadas por arandelas ofertava clima de reflexão e paz.
Ali, todas as quintas-feiras abrigavam-se os médiuns que compunham o grupo de desobsessão, reunidos caridosamente para recepcionar espíritos necessitados.
A expressão "espíritos necessitados" poderá soar falsa a desavisados, religiosos ou analistas, sem estudo da Doutrina dos Espíritos - o Espiritismo.
Talvez perguntem eles:
"Necessitados de quê?"
Sem nos alongarmos, podemos afirmar, grosso modo, que todos os homens, na verdade, são necessitados:
de amor, de paz, de felicidade.
E naquele singelo ambiente espírita extravasava amor.
Protectores missionários, desencarnados, superando barreiras de toda monta, conduziam para ali espíritos também desencarnados, porém mergulhados no ódio e com ideia fixa de vingança, geralmente contra encarnados.
Estes, sofrendo tal assédio, invisível, poucas defesas podiam opor a tais verdugos.
Sabem os estudiosos da obsessão que ela não é de origem espontânea, mas resultado de relacionamento bilateral, em que uma das partes lesa a outra em bens físicos ou, o que é pior, em bens morais.
Como consequência, o aviltado, numa espécie de ruminação mental, afoga-se em pensamentos de revide por dias, semanas, meses, anos e décadas.
Assim procedendo, energiza de tal forma as cenas mentais criadas referentes à vingança que ardorosamente deseja, que tais cenas criem vida!
São as chamadas "formas-pensamento", criações astrais mantidas vivas pelo fluxo energético do qual se alimentam, que nada mais é do que o pensamento fixo e prolongado do candidato à desforra.
Têm vida própria e obedecem ao fim para o qual foram criadas.
Agravante do processo é a desencarnação daquele que almeja vingança:
se quando encarnado é-lhe impossível realizar a infeliz pretensão, por factores vários, geralmente sociais, incluindo-se aí o factor financeiro, ao desatrelar-se do corpo físico vê-se com maior amplitude de visão e de acção...
E mais:
depressa, acumplicia-se com auxiliares que voluntariamente dele se acercam pela sintonia do desejo de vingança, formando poderoso grupo obsessor - verdadeira quadrilha de malfeitores invisíveis!
Juntos, força triplicada, vão em grupo atingir uma vítima de cada vez, promovendo nelas estragos psíquicos, com danos físicos.
E assim que, sem nem conhecer o encarnado, a ele, sob orientação de um, atiram-se todos, em ataques sistemáticos e cruéis.
Triste corporativismo esse, celebrado no além...
Mas de incrível eficiência:
causa de terríveis danos ao alvo de seus dardos mentais, alvo esse quase sempre sem o escudo evangélico - o único eficiente.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 02, 2017 11:22 am

Essas "formas-pensamento", que podem durar até séculos (!), desaparecem no mesmo instante em que for interrompida a emissão do fluxo energético pela fonte que os supre.
E, de modo geral, justamente o fim desse aporte é o que acontece nas reuniões mediúnicas desobsessivas:
o visitante espiritual, recebido com respeito e carinho, facto que há muito tempo não vinha experimentando, confia no anfitrião (o médium, doutrinador) e relata seu drama.
Sente-se "justiceiro", e não algoz.
Está equivocado, mas está também sendo sincero...
É facto notório, avalizado até mesmo pela psicologia, que, se alguém com um problema têm oportunidade de narrá-lo, quando finaliza o desabafo já tem delineada a solução na mente.
É nesse preciso momento "espiritual", ou "psicológico", se quiserem, que o médium doutrinador faz ver ao espírito comunicante a excelência do perdão, relembrando o(s) exemplo(s) do Mestre Jesus.
Aí, a força do Evangelho desata o nó.
E isso é tão poderoso dissolvente de formações mentais pastosas negativas que, não raro, em tais momentos, o obsessor compenetra-se de que o melhor mesmo é seguir outro rumo:
ir em busca do seu progresso, confiando na Justiça Divina, não para punir aquele que ele julga ser culpado da sua desdita, mas para "dar a cada um segundo suas obras".
No caso dele, por exemplo, o melhor será olvidar a vingança e promover o bem possível.
“O que acontece então?”
O encarnado, há tempos atormentado, agora experimentando alívio, deverá ele também, ouvir do mesmo doutrinador, em outro momento (e não na referida reunião, pois, colocados frente a frente obsessor e obsedado, pode este se desequilibrar mais ainda do que já está), os mesmos conselhos de se auto-reformar:
construir seu porvir em bases evangélicas e orar pelos que o perseguem, ou perseguiam...
Infelizmente, não é o que amiúde ocorre:
ao se ver dispensado das aflições, o ser humano tem a tendência de procurar outras, de forma inconsciente.
Por isso, de fundamental importância no tratamento de qualquer processo obsessivo é que as duas partes têm de ser trabalhadas, tendo em vista o despertar de seu viver para as claridades evangélicas, que preconizam o perdão das ofensas, em primeiro lugar.
Outro não é o motivo pelo qual mais e mais os Centros Espíritas se vêem frequentados por pessoas aflitas e sofredoras, que ali comparecem, em "última instância", buscando reencontrar a paz e não raro a saúde, há muito perdidas, quando os exames médicos e tratamentos não conseguem diagnosticar alguma doença nem a cura dos sintomas.
Mas falávamos dos dois Centros:
o primeiro, a luxuosa sede de empresas industriais e comerciais; o segundo, local simples, palco de luzes espirituais, estas iridescentes, isto é, da cor do arco-íris.
Neste, uma hora após o atendimento fraterno aos desencarnados que para ali foram levados por Protectores do Plano Maior, um destes repassou:
"Irmãos em Jesus:
"No trato diário dos problemas humanos, um que vem ocupando saudável preocupação de pessoas propensas à caridade é a questão da doação de órgãos.
Sobre pairando os termos das leis terrenas, ajuizadas todas elas e candidatas sinceras ao bem, situam-se as Leis Divinas, dentre as quais pontifica a do Amor, como mãe das demais.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 02, 2017 11:22 am

"O assunto é delicado e, por isso mesmo, só o coração de cada pessoa poderá ser o conselheiro fiel para sugerir resposta à angustiante pergunta:
'Doar ou não doar?
"Encontraremos no Livro dos Espíritos, à questão nº 723, um ponto de reflexão, prestimoso auxiliar para mobiliar parte da buscada resposta:
'... dada a vossa constituição física, a carne alimenta a carne, do contrário o homem perece...
"Conquanto o tema central da pergunta se referisse à ingestão da carne, pensamos não cortejar sofismas, eufemismos, sequer trocadilhos, se apropriarmos o raciocínio, 'transplantando-o' para a questão ora sob nosso enfoque - a doação de órgãos.
Não para serem comidos...
Mas para salvar vidas!
"Senão, vejamos:
se por enquanto nos alimentamos de carne a vida toda, sem quaisquer remorsos, por que, em atitude que nos remete ao egoísmo, tememos doar alguns dos nossos órgãos, quando do encerramento do ciclo existencial terreno, que a medicina, algo ansiosa, consiga ocorrer já na falência cerebral, encerrando inapelavelmente a etapa reencarnatória?
"Não deveremos apelar para o contundente argumento de que, de uma forma ou de outra, o corpo será decomposto pelos vermes e pelas leis naturais.
Podemos antes raciocinar, sim, que aquela é a forma engendrada pelo Criador para a sequência da vida, fazendo retornar à origem a vestimenta orgânica.
Contudo... se a medicina-supervisionada esta por Espíritos Siderais, não temos dúvida - de progresso em progresso consegue aliviar sofrimentos, via transplantes, tal avanço decorre de autorização de Deus, o Senhor da Vida.
"E, nesse caso, se o Espírito retorna para o plano espiritual, onde continuará em pujante dinamismo vivencial, por que tentar manter o comando da posse daquela vestimenta que já não lhe será de qualquer utilidade e que apenas foi emprestada para a jornada na Terra?
"Pois corolário desse raciocínio é o facto, deslembrado, de que o corpo é um empréstimo feito pelo Supremo Arquitecto, pelo que, após o devido uso, penhorá-lo à decomposição, com ordens expressas a respeito, não seria 'apropriação indébita?
"Não haverá infracção à Lei Divina da Destruição (decomposição orgânica) no aproveitamento moral de parte(s) de um corpo que já cumpriu sua missão: a parte aproveitada, cedo ou tarde, terá o mesmo endereço da matriz.
Pensem nisso.
"Pensemos em Jesus."
A lição da noite fora de grave filosofia.
E fora dada porque várias pessoas vinham perguntando aos dirigentes qual a posição do espírita diante dos transplantes.
Humberto, o presidente do Centro Espírita, responsável encarnado pelas reuniões semanais de desobsessão, abriu breve diálogo:
— Meus irmãos, como vimos, em resposta espontânea a tantas indagações, o recado do amigo espiritual não deixa larga margem para debates, conquanto não tenha fechado questão, posicionando-se mais como simples comentarista.
Mas considero oportuno que, dentro desse clima de paz, opinemos também.
De minha parte, confesso que não sou, ou melhor, até aqui não era defensor das doações de órgãos post-mortem, e sim, em vida, seja de sangue, de um rim, de parte do fígado...
— Humberto – aparteou Rosa, médium vidente - sinto-me no dever de informar que o Espírito que nos deixou tal mensagem ainda se encontra aqui, em atitude de ouvinte e em preces.
Pelo seu traje, pude observar que é médico.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 02, 2017 11:23 am

Deus o ilumine cada vez mais.
Como dizia, vejo no facto da doação intervivos, indiscutivelmente, elevada expressão de amor.
Não são raros os transplantes de rim, parte do fígado (órgão que se regenera), medula, e porque não incluir aí a própria doação de sangue?
Contudo, o que não me dá segurança é a doação, feita espontaneamente em vida por alguém, referente ao aproveitamento de órgãos, quando da sua morte...
— Também eu, senhor Humberto - atalhou Marisa, jovem psicóloga, ali na função de médium doutrinadora - atrapalho-me com redobrada dúvida ante a seguinte pergunta, para mim ainda sem resposta:
o doador não sabe quem será herdeiro do seu órgão; sabemos que cada espírito, no caso encarnado, vibra em patamar fluídico individual; assim, como harmonizar um órgão estranho, quase que com certeza de teor vibratório diverso?
A rejeição física, na verdade, não seria reflexo da rejeição espiritual?
Ou, aprofundando o entendimento, a incompatibilidade não é de ordem perispiritual, considerando que a matriz (o perispírito) situa o órgão recebido como imprudente invasor, comprometendo a harmonia do conjunto?
Humberto sopesou a transcendência das colocações de Marisa e, após alguns instantes de reflexão, sugeriu:
— O tema é de elevada complexidade e não considero prudente que nos estendamos nesta noite nos seus desdobramentos e consequências.
Sugiro que estabeleçamos um outro horário, para publicamente discutirmos esse assunto, pois não o imagino de curto horizonte, mas sim de enorme repercussão na humanidade toda.
E como nossos frequentadores, de todas as actividades deste Centro Espírita, são na verdade a "nossa humanidade", por que não os convidar a participar desses estudos nos quais desde já devemos aprofundar nossas pesquisas e reflexões? Aliás, não são poucos os que têm dúvidas sobre o tema "transplantes".
— Apoiado! - Exclamou Mário, encantado ante a oportunidade de ver o assunto "doação de órgãos e transplantes" ser evidenciado por "muita gente".
E comentou:
- Sempre quis obter conhecimentos sobre isso, mas, para ser sincero, não tive coragem ainda.
Não tenho medo da morte, mas por outro lado é-me algo angustiosa a perspectiva de algum órgão meu vitalizar um desconhecido...
Ficou decidido que uma comissão agendaria uma noite de debates sobre tão fascinante tema.
Para optimizar tal encontro, seriam convidadas pessoas conhecedoras do assunto, nas suas várias implicações técnicas, sociais, legais e espirituais.
Em particular, seria convidado um cirurgião de equipa médica de transplantes, que ali viesse para explanar sobre os aspectos técnicos dessa especialidade.
Como todos os frequentadores do Centro Espírita estariam convidados a participar do evento, seriam alertados da conveniência de estudar a matéria.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 02, 2017 11:23 am

3 – DE VOLTA AOS DESCAMINHOS
Meire refez-se parcialmente, recebendo alta na tarde daquele mesmo dia, após visita e intercessão do doutor Américo.
Foi-lhe recomendado realizar urgente tratamento de "desintoxicação", eufemismo para, na verdade, deixar a toxicomania...
Cavalheiro, o médico da família nada disse à jovem durante o trajecto até a casa dela, embora quisesse aconselhá-la bastante.
Mas Meire, por suas atitudes, erguera uma barreira entre eles, desencorajando qualquer diálogo.
Pois sabia que, se palavras fossem ditas, necessariamente seriam ou de aconselhamento ou de repreensão.
E ela não estava disposta a ouvir nem umas nem outras.
Chegou em casa só pensando em dormir, mas a mãe, após agradecer ao doutor Américo, foi até o quarto da filha e ordenou-lhe que a acompanhasse, pois retornariam ao pronto-socorro para conversar com o médico que a atendera.
Atordoada ainda, Meire não teve como desobedecer.
Ao chegarem, procuraram aquele médico e dele ouviram, sem rebuços:
— Sua filha, dona Luiza, tem dois caminhos a seguir:
um, submeter-se a um tratamento médico especializado que promova remoção dos malefícios já causados pelas drogas e que elimine por inteiro o vício, hoje configurado por devastadora dependência física e psíquica...
— O outro caminho... - balbuciou Meire.
— Graves consequências, gravíssimas!
— A morte?
— Sim. Perdoem-me a contundência, mas não posso aplainar tamanho nódulo comportamental e acenar para procedimentos paliativos.
Seu caso repito, é grave.
Gravíssimo!
— O que o senhor sugere? - Inquiriu Luiza.
O médico indicou uma clínica especializada.
Luiza acatou a sugestão:
providenciou, em menos de duas horas, a internação da filha.
Para tanto, usou o pátrio poder, na circunstância de Ari estar impossibilitado de fazê-lo, até mesmo de participar de tão grave decisão.
Por incrível que pareça, Luiza não contou para a filha sobre Ari.
"Para quê? Para me dar mais problemas?
O que ela poderá fazer a não ser drogar-se ainda mais, para esquecer seus problemas, agravando os meus?" - pensou.
Aliás, Meire perturbou-se demais ao ouvir o médico do pronto-socorro.
Compenetrou-se, de repente, de que não passava de um corpo caindo num abismo sem fim.
Assim, em estado de choque emocional, não fez oposição à internação, que Luiza providenciou também rapidamente.
Logo uma equipa médica veio buscá-la em uma ambulância.
Completamente apática, foi conduzida à clínica sugerida pelo neurologista que a atendera no pronto-socorro, na qual adentrou olhando sistematicamente para o tecto.
O tormento de um toxicómano nessa fase crítica, em que não lhe resta opção, entre abandonar o vício ou cruzar a fronteira da vida, é-lhe punição atroz:
de um lado, o corpo, molécula a molécula, exigindo a droga para adentrar e estagiar no mundo de soberbas ilusões onde experimentará o falso esplendor do êxtase; de outro lado, cessado o efeito estupefaciente, o drogado assemelha-se ao mendigo que, para enfrentar a madrugada gélida, acende fogueira e por instantes se deita sobre ela.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 02, 2017 11:23 am

Referindo-nos ao "falso esplendor do êxtase" que a droga propícia reportamo-nos ao desencadeamento de processos descontrolados, fracturando impiedosamente a harmonia das energias fluídicas subtis que funcionam como liga entre o espírito e a mente.
O mundo mental, íntimo e individual, uma vez invadido e destrambelhado - e é isso que o tóxico faz -, deixa de ser o governador sensato dos nossos pensamentos e acções.
Daí advêm danos aos revestimentos espirituais:
perispírito, duplo etérico e corpo físico (estes dois, obviamente, quando se está encarnado).
A droga, alterando a justaposição dessas camadas energéticas, descontrola-as, por transferi-las de nível por algum tempo, situando-as em campos vibracionais "infra" ou "ultra", surgindo novidades:
êxtases fugidios, quais miragens de oásis nos desertos.
Existem emoções que se perpetuam, felizes, no ser humano:
uma delas, para não espaçarmos exemplos, é aquele notável primeiro encontro de alguém com o mar, cuja vastidão adentra-lhe na alma, via olhar, encantando-o.
Daí para frente, buscar o mar, estar nele, contemplá-lo, amá-lo, molhar-se nele será desejo salutar e permanente.
No drogado, no transe artificial, por vezes o perispírito é expulso abruptamente do ninho físico e, embora a ele jungido pelo cordão fluídico, é arremessado a alguma altura geográfica, além nuvens, onde vê "um mar de algodão" - na verdade, é outra dimensão, mas é assim que o drogado interpreta essa "viagem".
Compelido por irresistível desejo, mergulha nesse mar e de repente percebe que tudo não passa de vácuo, ilusão; sistematicamente, atrai outros mergulhadores, como ele, sintonizados na enganosa delícia "daquele mar".
Só que estes, desencarnados... Não se estranham.
A simbiose lhes é facilitada pela sintonia da mesma busca.
Unem interesses e vão à cata de "mais energia", não raro sorvendo-a de outros viciados encarnados, naquele momento se drogando.
Quadro muito triste esse, quando encarnados tornam-se sócios de outros encarnados, uns em fatídico desdobramento espiritual e outros encaminhando-se para idêntico destino.
Tudo sob indução de mais sócios, invisíveis...
Sim: uns e outros, ainda no fardo orgânico, eficientemente escoltados e incentivados por espíritos desencarnados, formando devastadora sintonia triangular, lançando fagulhas incendiárias na mente de uns e outros, estejam ou não se drogando - logo o vício ocupa-lhes o espaço integral do dia.
A esse consórcio o Espiritismo denomina "obsessão".
À trajectória a medicina denomina "dependência química".
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 02, 2017 11:27 am

4 – EMOÇÕES TRINCADAS
Somente no dia seguinte ao problema do pai foi que Anderson ficou sabendo que ele estava hospitalizado, apressando-se em procurar a mãe que, ao vê-lo, numa explosão de soluços, contou que a irmã estava internada numa clínica de recuperação de drogados.
— Mãe, embora não me sinta bem nesta casa, vim correndo para saber se a senhora quer que eu faça alguma coisa.
— Oh, meu filho, foi tudo tão de repente...
— Por isso estou aqui.
Cheguei de viagem e, quando soube, imaginei que a senhora estaria angustiada e isso mexe comigo, pois eu a amo, muito!
Abraçaram-se ternamente.
A doença de Ari e o destino de Meire os havia sensibilizado...
— Além do mais - prosseguiu -, não acho justo que a senhora, sozinha, administre esses dois problemas.
Quero ajudá-la a superar esses momentos difíceis.
Luiza, até então apenas abalada com a doença do marido e contrariada com o vício da filha pinçou das palavras do filho a expressão "não acho justo" e adequou-as ao que estava acontecendo:
sim, "não era justo" que isso tudo tivesse acontecido com ela.
A revolta apresentou-se em seu espírito, logo sendo acolhida, expressamente convocada que fora por essa negativa postura mental.
Assim, quem falou, agora, foi a mulher injustiçada:
— Sabe, Anderson, foi bom você ter vindo hipotecar-me solidariedade e carinho bem no meio dessa tempestade que se abateu sobre nossa família.
Só tenho você e o doutor Américo para me ajudarem a superar tantos problemas.
Aliás, o doutor Américo ficou de telefonar-me tão logo nós possamos visitar seu pai, pois ontem ele tinha ido para a ÜTI e não podia receber visitas.
Foi até o porta-revistas e apanhou um jornal, mostrando ao filho um destaque na coluna social.
— Infames!
Ouvi hoje de manhã, na TV, sobre o papai e Meire.
Por isso vim até aqui.
— Cruéis, esses repórteres - choramingou Luiza.
Após meditar um pouco, Anderson assumiu:
— A melhor maneira de acabarmos com essas fofocas é solicitar ao doutor Américo, que há tantos anos cuida de nós todos, que esclareça qual a doença do papai.
Quanto à Meire, não há mesmo nada a acrescentar ou modificar.
Infelizmente.
Ela é viciada e, por isso mesmo, que assuma as consequências.
— Meu filho, meu filho:
você tem razão quanto ao doutor Américo desfazer intrigas, mas, no que diz respeito à sua irmã, ela precisa do nosso apoio...
— Não o meu:
não concordo com o que ela faz e imagina quem vai pagar a conta?
— Quanto a isso não se preocupe:
temos condições de arcar com o tratamento da Meire, que nem sequer vai abalar a solidez da nossa fortuna.
O problema, na verdade, é o brilho da nossa família...
O mordomo, delicadamente, interrompeu-os:
— Perdão, senhora.
Com licença, senhor Anderson.
Está à porta um motociclista que quer falar com alguém da família.
— Veja o que ele quer.
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Ave sem Ninho

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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 02, 2017 11:27 am

— Cheguei até a forçar, senhora, mas ele insiste em ser atendido por algum familiar.
Diz que é sobre Meire...
— Vou ver de que se trata - adiantou-se Anderson.
Quando o motociclista viu-o, foi logo dizendo:
— Sua irmãzinha é uma boa freguesa, quando se trata de comprar e apreciar nossos produtos, mas, na hora de pagar, já não é a mesma...
— Olhe aqui, companheiro:
não sei quem você é nem o que pretende.
Aliás, não estou gostando do seu jeito, sabia?
Se a Meire comprou e não pagou, me dê a nota fiscal e eu pago.
— Irmão, você não entendeu:
ficou nervosinho depressa e isso não faz bem para a saúde.
A mana tem crédito aberto, mas agora que "entrou em recesso" precisa zerar a conta.
— Você está se tornando inconveniente.
Ou me dá o recibo da compra, seja lá quanto a Meire gastou, ou então vai dando o fora.
Não tenho tempo a perder, ainda mais com estranhos.
— No seu lugar eu dobrava a língua, antes de ofender quem não conhece.
Vou abrir o jogo com você, pois não costumamos conversar muito.
— Amigo, já não quero vê-lo mais aqui.
Sua conversa não me agrada e sua pessoa, menos ainda.
Caia fora! Já!
Ou prefere que eu chame a Polícia?
O motociclista sorriu com sarcasmo e retirou-se.
— Quem era?
— Um bobo, mamãe, cobrando despesas feitas pela Meire.
Despachei-o logo, pois não tinha a nota fiscal do que ela comprou.
Tanto era um golpe que foi embora depressinha quando falei em chamar a Polícia.
Eram quase dez horas quando Luiza atendeu o telefone:
— Sim, doutor Américo...
— ...
— Pelo amor de Deus, pode dizer.
Meu filho, inclusive, está aqui.
— ...
Luiza desligou lentamente após ouvir o que o médico tinha dito.
Anderson colocou a mão em seu ombro e aguardou.
— Seu pai... vai precisar fazer um transplante de coração...
E essa é a única esperança...
Cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar.
Anderson confortou-a como pôde.
Passados alguns instantes, indagou:
— Mãe, ele é tão forte, tão saudável, nunca ficou doente...
Não pode ser, deve haver algum equívoco.
Vou agora mesmo para lá, conversar com a equipa médica.
— Vou com você!
À saída, quando chegou à rua, o luxuoso automóvel foi interceptado por dois motociclistas, cada um com uma carona.
O motorista desviou das motos, que logo emparelharam com o carro, uma de cada lado.
Aí, os homens que estavam na "garupa" das motos, com os demais dedos encolhidos, quase encostaram o indicador no vidro das portas traseiras, no gesto clássico de atirar.
Embora sem armas nas mãos, o pavor da ameaça provocou pânico nas três pessoas que estavam no interior do veículo.
Por pouco, o motorista não perdeu a direcção, mas manobrou rápido e acelerou, fugindo deles.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 10:58 am

Olhando pelo vidro traseiro, Anderson identificou que um dos homens era aquele que há poucos instantes estivera na casa dos seus pais.
Os quatro sorriam, malignamente...
O doutor Américo esperava-os, à porta do hospital:
— Sinto muito, dona Luiza e meu caro Anderson, mas considerei inadiável dar a vocês a notícia sobre o Ari.
Após procederem a minuciosos exames, os médicos que o assistiam reuniram-se, em junta, para decidir qual o procedimento a ser realizado.
O doutor Renato, presidente da junta médica, ouviu um a um os diagnósticos apresentados por seus colegas.
Consideradas todas as condições do paciente e as possibilidades de tratamento, não restou senão um único caminho: transplante de coração.
Respirou fundo e continuou:
— Os vários exames específicos e os complementares, com equipamento de ponta conduziram à conclusão e ao diagnóstico preciso:
miocardiopatia dilatada, acrescida de células inflamatórias e necrose miocárdica parcial.
— O que quer dizer isso?
— Quadro grave.
Gravíssimo, aliás!
A miocardiopatia, por alguns denominada de cardiomiopatia (insuficiência cardíaca), é um estado em que o miocárdio, principal músculo do coração, apresenta-se muito enfraquecido e sem forças para as contracções normais, pelo que aumenta de tamanho.
Verificado o estado clínico geral do paciente, o doutor Renato indicou o transplante, enquadrando os procedimentos necessários na categoria de 'urgentes'."
— Vamos falar agora mesmo com o dono do hospital – atalhou Anderson.
— Não, meu amigo - acalmou-o o médico -, não é com o dono do hospital que temos que falar, e sim com o chefe da equipe médica do Departamento de Cardiologia.
— Muito bem: convoque-o!
— Anderson, talvez você desconheça a forma segundo a qual um grande hospital como este desenvolve suas actividades, ao longo das 24 horas, em todos os dias do ano:
não podemos, simplesmente, chegar aqui e convocar esse ou aquele médico, ainda mais os chefes de clínica.
O doutor Renato, chefe da cardiologia, neste momento está realizando uma cirurgia e só poderemos entrevistá-lo quando sua agenda permitir.
— Mas o caso do meu pai é grave...
— Todos os casos da cardiologia o são, uns mais, outros menos.
— O de papai...
— Está no "mais", porém os transplantes, embora inevitáveis, até poderem ser realizados, sempre possibilitam aos pacientes uma sobrevida, desde que sob controlo médico.
Luiza, até então só ouvindo, interveio:
— Vamos agendar uma entrevista com a secretária do doutor.
— Já providenciei isso, antes de vocês chegarem...
Com efeito, o doutor Renato atendeu-os à tarde:
— Dona Luiza, Anderson, Américo:
a melhor maneira de administrarmos esses momentos é conceder-nos o máximo de confiança, reciprocamente.
O tempo está contra nós no tratamento do nosso Ari.
Já concluímos vários exames complementares, confirmando que ele está com placas da substância gordurosa chamada colesterol, depositadas nas paredes das artérias coronárias, obstruindo-as.
Em consequência dessa obstrução, o miocárdio foi se enfraquecendo, não tendo força para se contrair normalmente, e enfartou, privando o coração de receber sangue.
— Doutor, meu marido nunca se queixou de nada...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 10:58 am

— É comum, dona Luiza, que pessoas atarefadas, como ele, produzam sobrecarga de adrenalina e de endorfina, num prejudicial processo de mascarar os sempre amigos sintomas:
com a endorfina, o indivíduo julga que aquela "pequena dorzinha" não era nada, só ligeiro mal-estar.
E isso porque a mente determina ao cérebro que ele acredite nisso e, daí, as glândulas supra-renais recebem ordem "do chefe" (o cérebro) para produzir a adrenalina, que é despejada na circulação sanguínea.
Fez pequena pausa e prosseguiu:
— Dessa forma, com esse equilíbrio artificial e enganoso, e também arriscado, o cidadão prossegue em sua faina, sempre acelerada.
É como quando alguém toma um anestésico local e logo se machuca naquele local, nada sentindo...
Olhou-os com serenidade e completou:
— Se me permitem uma outra comparação, é como se uma pessoa que tem uma bela conta bancária começasse a sacar sempre mais e mais, sem fazer depósitos.
Confiante no saldo, de início alto mesmo, vai sacando, sacando...
O gerente do banco, receoso de "ofender" tão ilustre correntista, mas também não sendo omisso, quando pode, com muito tato brinca com ele:
"Olá, doutor, faz tempo que o banco não tem a honra de recebê-lo".
Tal cliente nem sequer toma conhecimento do eufemismo embutido na frase...
E segue sacando...
Para silenciar o gerente, dá-lhe presentinhos.
Um dia, de forma sempre inesperada recebe um comunicado irreversível:
"Sua conta está encerrada, pois seu débito é vultoso".
O doutor Renato, gostando da própria historinha, fez-lhe o fecho:
— O saldo elevado é a saúde; o banco, o corpo; o gerente, o coração; os saques contínuos, sem reposição, os excessos de trabalho; os avisos e telefonemas do gerente, os sintomas; os presentinhos, a adrenalina e a endorfina; o encerramento da conta, sem aviso: infarto!
Anderson atalhou:
— E a reabertura da conta?
— Não há reabertura.
Só com um novo gerente, abrindo uma nova, desconsiderando a anterior, já irreversivelmente condenada...
— Não existe outro tratamento para o Ari além do transplante?
— Não, dona Luiza:
o caso do doutor Ari é grave e a mim me ocorreu noticiar-lhes isso de forma figurada, na historinha que contei.
Na verdade, a tal historinha é a realidade dele:
nos dias atuais, o homem não tem medidas nem para o trabalho, nem para o lazer, nem para o descanso, nem para uma alimentação saudável.
Arrisco-me a afirmar que é tão tumultuada a vida moderna que o lazer, longe de proporcionar um refazimento de energias físicas e mentais, na verdade provoca é um sobre esforço.
Viagens em excursões, de modo geral, são tiranizadores módulos de chegadas e partidas em total desrespeito ao relógio biológico do pobre turista, que, por um determinado número de dias, vê-se obrigado a alimentar-se em locais estranhos, em horários diferentes, com cardápios compulsórios.
Além disso, as noites calmas da sua residência inexistem, pois o tempo urge e é preciso bem o aproveitar.
Assim, o quadro é perverso:
refeições nocturnas, poucas horas para dormir (em camas estranhas) e alvoradas forçadas.
Tudo isso, ao retorno, dão o tom do passeio:
foi bonito, muitas novidades, mas descanso mesmo que é bom, nenhum.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 10:59 am

Ao contrário, só desgaste.
O cirurgião olhou-os longamente e, como ninguém dissesse nada, questionou:
— Como sei disso tudo?
Respondeu ele mesmo:
— Quase a metade dos meus clientes enquadra-se no que acabei de pintar dos nossos dias.
— Mas papai não faz turismo colectivo...
— Viaja a passeio por conta própria?
— Não: só viaja a negócios.
— Pois é: o desgaste é o mesmo, ou maior.
Tanto num quanto no outro caso, a consequência é o stress, a terrível epidemia que vem afectando "metade do mundo".
Quando não o é por excessos, é por escassez.
— Como assim, excessos ou escassez?
— Riqueza e pobreza:
estes, os dois maiores catalisadores do desastre mental a que hoje se vê submetida metade da população, em nível mundial.
Encerrando a entrevista, o doutor Renato foi bondoso:
— Não fiquem preocupados em excesso...
Eu os manterei informados de todos os passos.
Ari não é o primeiro paciente que apresentou esse quadro e, em todos eles, esses "super-homens", após o transplante, continuam vivendo e trabalhando, agora respeitando mais a saúde, dosando as horas trabalhadas e sendo felizes.
— Deus o ouça!
Podemos ir vê-lo?
— Claro! Só recomendo que, antes de cumprimentarem-no, preparem-se mentalmente para não deixar as ideias penderem para nenhuma preocupação.
Refiro-me aos negócios... e à Meire, pois o doutor Américo contou-me sobre o problema dela.
Ari estava na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), respirando com auxílio de aparelhos.
Quando viu a mulher e o filho, pela janela de vidro, olhando-o pesarosos, compreendeu em menos de um centésimo de segundo que sua vida até ali vinha sendo um enorme equívoco.
Não soube definir na hora, mas teve a sensação de ter dado umas sete ou oito voltas ao redor do mundo, como que a gritar que a Vida é pujante e bela.
Sim: queria viver!
Não queria morrer...
Captou, inteligentíssimo e observador que sempre fora, que a vida dele se esvaía.
Talvez logo morresse.
E, naquele momento, viu a morte assim: ele dando não as mesmas voltas ao redor do mundo, mas infinitas, e sem poder pôr os pés no chão...
Luiza e Anderson, acompanhados pelo doutor Américo, adentraram na UTI e, ao se aproximarem dele, o médico adiantou-se:
— Ari viemos vê-lo por um minutinho para dizer-lhe quão bem o queremos.
O doutor Renato está avaliando o seu quadro de saúde e dentro em breve decidirá qual o melhor procedimento.
A seguir, fez um gesto com a cabeça para Luiza e Anderson se aproximarem.
Luiza falou primeiro com Ari:
— Meu bem, meu amor...
— Pai... - balbuciou Anderson.
O paciente respondeu a ambos:
grossas lágrimas assomaram-lhe, escorrendo pelas faces, em substituição a palavras.
Em todos os anos de convivência familiar, nenhum momento teve a expressividade daquele instante.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 10:59 am

Na linguagem universal dos corações, ali os três conjugaram o verbo amar no tempo presente e no infinitivo impessoal, do tipo "estamos aqui para amar..."
Indeclinável, no contexto da evolução espiritual daquela família, deixar de entender como a dor lecciona mansuetude e traz progresso...
O doutor Américo, cuidadoso, encerrou a breve entrevista:
— Voltaremos em breve, Ari.
Por enquanto, procure não abrigar nenhum pensamento negativo.
Tenha confiança no doutor Renato e sua equipe.
Retiraram-se.
Quando Luiza e o filho se despediram do doutor Américo e adentraram no luxuoso automóvel, antes de ordenar ao motorista para onde queriam ir, assustaram-se com a palidez do empregado.
Anderson brincou com ele:
— Que é isso, Marcelo?
Parece que viu um fantasma...
— É que...
Os quatro rapazes das motocicletas passaram por aqui e deram três voltas no "nosso" carro...
— Mas o que é isso?!
Onde estamos?! - Exclamou Luiza.
— Mãe, não é hora para desespero.
Com certeza são chantagistas, aproveitando-se das maluquices da Meire.
Ainda com o carro parado, foram os três surpreendidos por um ensurdecedor ronco de motos, que pararam ao lado do carro.
Um dos rapazes, sem o menor cuidado de cobrir o rosto, passou um bilhete para Marcelo, cuja janela estava aberta.
Com um gesto expressivo, determinou que o bilhete fosse entregue à mulher.
Marcelo, aterrorizado, obedeceu.
Ao receber a folha de papel dobrada, Luiza teve ímpetos de jogá-la fora.
Contudo, receosa de abrir a janela, sufocou o gesto e determinou ao motorista que pusesse o veículo em movimento:
— Vamos embora, já!
Antes mesmo de Marcelo dar a partida, as motos se afastaram com grande estardalhaço.
O gesto do dedo indicador puxando um imaginário gatilho foi repetido pelos quatro rapazes.
Anderson, irritado com aquele atrevimento, mas temendo alguma violência, pegou o bilhete das mãos da mãe.
Com espanto, reconheceu a letra de Meire!
Tratava-se de uma cópia de Nota Promissória no valor de onze mil reais, cujo prazo de resgate já estava vencido.
No verso, havia ameaças:
“Quem deve tem que pagar:
sua filha está nos devendo R$ 11000,00 e já passou da hora de quitar; ela é boa freguesa e só teve crédito porque nos deu garantia de que a mãe pagaria a conta.
Vocês podem fazer duas coisas:
1ª- pagar a conta.
2a - ir à Polícia.
No primeiro caso, o assunto morre na hora.
No segundo, quem morrerá será a "freguesa", não na hora, mas assim que sair da "boa prisão" em que está agora”.
Anderson mostrou o documento a Luiza, que, ao lê-lo, xingou:
— Aquela desmiolada:
arruma encrenca e joga nas minhas costas.
— O que a senhora vai fazer?
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 10:59 am

— Nada! Não vou pagar dívidas malucas da sua irmã, como se ela fosse uma garotinha comprando um carrinho de chocolate no super mercado...
Marcelo, até então só ouvindo, não se conteve:
— Perdão, dona Luiza e senhor Anderson...
Luiza aborreceu-se com a intromissão do empregado, totalmente fora de hora, mas Anderson encorajou-o:
— Diga, Marcelo, o que você quer?
Sabe de alguma coisa da Meire e desses bandidos?
— Peço desculpas por dar opinião, mas o caso é muito mais sério do que se possa imaginar...
Com toda a certeza, aqueles quatro não passam de "aviões", ou melhor, de "funcionários" de algum traficante...
— Você está querendo dizer - cortou Luiza - que a dívida dos onze mil reais é porque eles forneceram drogas para minha filha?
— Perfeitamente - confirmou Marcelo, completando - essa gente não desiste jamais de receber o pagamento, inclusive...
— O quê? - Indagou, aflita, Luiza.
— Quando não recebem, matam o devedor, para servir de exemplo aos demais fregueses.
Assim procedendo, desencorajam futuros maus pagadores...
— Como é que você sabe disso? - Perguntou Anderson, desconfiado.
— Aconteceu com minha família:
meu sobrinho, de apenas dezassete anos, tornou-se viciado, começou a fumar maconha aos treze.
O pai, meu irmão, fez de tudo para tirar o filho do vício.
Mas não adiantou, ao contrário, passou a consumir cocaína.
Deixou os estudos e várias vezes dormia fora de casa, em local ignorado.
Como não tinha dinheiro para pagar a droga, chegou até a furtar o videocassete de sua casa e entregá-lo como amortização da dívida, pois os traficantes não deixaram de fornecer.
— Como sabem que foi ele que furtou?
— Porque meu irmão deu queixa na Polícia e dois dias após um informante disse aos investigadores onde estava o aparelho.
Os policiais foram até o endereço e de facto recuperaram o aparelho, devolvendo-o ao meu irmão.
Só que...
— Sim, o que aconteceu?
— Meu sobrinho parou de sair de casa, alegando que brigara com os fornecedores de tóxicos e que queria se libertar do vício.
Meu irmão e minha cunhada até choraram de alegria quando ouviram isso, dando graças a Deus.
— Mas e dai?
— Após um mês, tudo parecia resolvido e esquecido.
Até que, de repente, o rapaz começou a sair de casa, às vezes ficando dias e dias ausente.
Meu irmão se desesperou e novamente foi à Polícia, pedindo auxílio.
Aí...
— ?!
— A Polícia passou a investigar as actividades do rapaz e logo descobriu que ele se transformara em "avião" dos traficantes.
Preso com pequena quantidade de cocaína, alegou que era para uso próprio e, assim, na condição de menor de idade e "usuário", não de "traficante", pouco tempo passou no Instituto de Menores.
Quando saiu, voltou a procurar os traficantes, que o readmitiram.
Foi mandado fazer "uma entrega", num determinado endereço, sem saber que o "freguês", na verdade, era inimigo mortal dos seus chefes.
Não deu outra:
quando fez a entrega, foi identificado e, analisada a mercadoria que portava, o destinatário viu que era vidro moído, misturado com giz em pó.
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