TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 11:00 am

Meu sobrinho recebeu o pagamento e retirou-se, sem desconfiar de nada.
Naquela mesma noite, ao chegar à porta da sua casa, para dormir, foi fuzilado por um homem que, da garupa de uma motocicleta, passou lentamente por ali, atirando várias vezes...
— Como a família ficou sabendo de tantos detalhes?
— Porque os traficantes para os quais ele trabalhava e aos quais devia telefonaram para meu irmão e contaram tudo.
Jogando com a revolta do meu irmão, imaginaram que ele, por vingança, iria eliminar o responsável pela morte do seu filho.
Mas meu irmão, cristão praticante, não se vingou.
— E depois?
Não foi procurado?
— Antes disso se mudou para outro Estado.
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Ave sem Ninho

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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 11:00 am

5 ONDE ESTÃO OS DADORES?
No dia seguinte, saindo da CTI, Luiza, Anderson e Américo foram convidados a comparecer à sala do cirurgião-chefe, que cautelosamente explanou:
— Meus amigos, convoquei-os para esta reunião tendo em vista que o estado clínico do nosso Ari é grave, mas não desesperador.
Luiza exclamou algo, muito de surpresa e angústia.
— Nosso caro Ari - continuou o doutor Renato - como já expliquei há pouco, após examinadas todas as possibilidades de ajudá-lo, meus colegas e eu, em conjunto e por unanimidade, decidimos por indicar o transplante como hipótese mais indicada...
— Então - interveio Anderson, aflito -, haveria outra forma de tratamento?
— Chegamos a pensar numa cirurgia reparadora, para retirada de parte do coração, segundo técnica recente desenvolvida por um brilhante colega nosso, brasileiro.
Esse procedimento vem sendo indicado para os casos em que o coração está com volume aumenta do em demasia, incompatível com a caixa torácica, como, aliás, ocorre com o Ari.
Mas, infelizmente, há outros danos no coração de Ari, comprometendo o órgão por inteiro e tal cirurgia não resolveria o problema.
— Mas, doutor Renato, estive pensando e pergunto ao senhor: se meu marido não se submeter a esse transplante, o que pode acontecer?
— Estará connosco por algum tempo, difícil de ser dito quanto, e, assim mesmo, desde que mantido sob estreitos cuidados médicos, isto é, praticamente permanecendo internado com monitoração e vigilância médica permanentes.
Luiza não conseguiu impedir o choro.
— Doutor Renato - falou-lhe o doutor Américo, até então só ouvindo -, com sua permissão, pergunto e gostaria que o senhor nos informasse qual a chance de o transplante ser efectuado.
O tratamento extremamente respeitoso demonstrava quanto o cirurgião era conceituado entre seus pares.
— Esse é o maior obstáculo: doadores!
Por isso os convoquei.
Como sabe, há lei federal regulando o assunto, estabelecendo normas rígidas em todos os passos dos transplantes, a começar pela retirada do órgão do doador em potencial.
— Sim, sim, conheço a lei.
O que peço ao senhor, por gentileza, é uma estimativa de espera na fila.
— Nada posso adiantar.
Os receptores são muito mais numerosos do que os doadores.
A fila de receptores é estritamente fiscalizada pelas autoridades, contudo, muitas são as nuances de atendimento, a começar por duas, não excludentes:
a urgência do paciente em receber o órgão e a compatibilidade com o órgão disponível.
Há casos de pacientes que, infelizmente, mesmo nos primeiros lugares da lista, vêm a óbito pela ausência de órgão compatível; entretanto, outros, recém-ingressados, são logo atendidos, somadas as características da necessidade e da disponibilidade.
Anderson interrompeu:
— Doutor Renato, não sei se o senhor pode nos informar, mas gostaríamos de saber quanto tempo de sobrevida meu pai terá, se realizado o transplante...
— Estimativamente, em média, pelos dados estatísticos actuais, a medicina considera possível um período de dez a quinze anos.
Recompondo-se, Luiza murmurou:
— O Ari precisa ser operado...
Com urgência...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 11:01 am

- Devo acrescentar - disse o doutor Renato - que a cirurgia de transplante é sempre de alto risco, pois o novo coração é considerado pelo organismo do receptor como um invasor.
Assim, os procedimentos para conter a rejeição, tentada permanentemente pelo sistema imunológico do organismo, têm também que ser permanentes.
Em outras palavras, desencadeia-se um combate entre a defesa natural do paciente e os efeitos imunossupressores das drogas, tendentes a causar algumas sequelas.
Sopesando a reacção de cada um dos três ouvintes, aduziu:
— Graças a Deus, contudo, com as técnicas actualmente desenvolvidas, têm sido raríssimos os casos de óbito, durante ou logo após a operação.
Chamando a secretária, o doutor Renato passou-lhe instruções e, enquanto era servido um cafezinho, logo retornou com um documento que a auxiliar preparou. Dirigiu-se a Luiza e explicou:
— Esse é o outro motivo pelo qual os convoquei a Retornarem a minha presença, pois temos aqui uma “declaração" para apreciando da senhora.
Luiza apanhou o papel e leu.
Assinando-o, declarava estar ciente do estado clínico do marido, bem como ter sido informada, com detalhes, das possibilidades de tratamento e cura.
Com relação ao procedimento médico concordava com a indicação da junta médica, isto é, com a realização do transplante cardíaco.
Deveria ainda declarar a opção de manter o marido no hospital, ou no lar, sob supervisão da junta médica, até a realização da cirurgia.
Luiza leu por três vezes aquela declaração.
Passou-a a Anderson, que também se demorou em lê-la.
Finalmente, foi entregue ao doutor Américo, que a leu de um golpe.
Quando os três se entreolhavam, o doutor Renato adiantou:
— Não decidam sem antes pensar bastante.
Embora dona Luiza seja a responsável e a única a assinar, sugiro que troquem reflexões.
Vou sair por uma hora e logo retornarei, para saber a decisão de vocês.
Aos três não passou despercebido que o médico cercava-se de amparo legal, contra surpresas desagradáveis, expondo que a operação trazia riscos nem sempre possíveis de serem evitados, conquanto reconhecida competência de toda a equipe.
Desacostumada a tomar decisões cruciais, Luiza não conseguiu controlar-se e, tão logo se viu a sós com o filho e com o médico, ela entrou em pranto convulsivo.
Anderson vinha fazendo tremendo esforço para manter a calma, mas, colocado diante de tão terrível quadro, igualmente se entregou ao desespero:
— O que foi que fizemos para merecer isso?!
O doutor Américo, solidário, mas controlado, sugeriu:
— Vamos fazer uma prece, pedindo a Jesus que ampare o Ari e nos assista também?
O silêncio de Luiza e Anderson funcionou como concordância.
O sagrado nome do Mestre Jesus, pelos lábios de Luiza e de Anderson, há meses não era pronunciado, demonstrando que não visitava suas almas nem mesmo em pensamento.
Américo, em sentida oração, suplicou:
"Mestre amado, permita que sejamos abençoados pelas tuas luzes e pelo teu amor.
Em primeiro lugar, pedimos pelo nosso irmão Ari, ora atravessando dura expiação, mas abençoe-nos também, inspirando-nos em nossos passos, nessa difícil quadra de nossas vidas."
A prece de Américo evidenciava, com clareza solar, que ele se irmanava aos momentos críticos de toda a família.
Comovidos, Luiza e Anderson abraçaram-no em lágrimas.
Uma grande paz, agora sim, visitou todos, em especial Luiza e o filho, reconfortados por energias espirituais que lhes foram dispensadas por protectores espirituais, em atendimento à prece.
Bem que Jesus recomendou que, quando estivéssemos aflitos, fôssemos até ele, pois nos consolaria.
Pena que quase sempre nos esquecemos dessa bênção.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 11:01 am

6 – CAMINHOS DA VIDA, ESTRADAS DO DESTINO
Oh, vaidade, vaidade... que te esforças para alcançar o vento:
por que não ouves o Eclesiastes ("O Pregador"), que no seu livro sapiencial, conforme relata o Antigo Testamento, nos ensina a filosofia de vida, cujo tema é "Tudo é vaidade", mas tudo vem da mão de Deus?
Três dias após, a situação clínica de Ari apresentou séria recaída, pois os remédios não conseguiram proporcionar o efeito desejado.
Sendo ele paciente de UTI, com permanente monitoramento do seu estado físico, ao primeiro sinal de alerta o doutor Renato foi convocado pelo plantonista.
Ao chegar, avaliou as condições do paciente, diagnosticando a necessidade urgentíssima do transplante cardíaco.
Luiza e Anderson foram também chamados e acorreram ao cardiologista, que sem quaisquer delongas informou:
O quadro clínico do ‘nosso’ Ari se agravou de ontem para hoje, demonstrando que os remédios não estão agindo como esperávamos...
Aflita, Luiza interrompeu-o:
— Mas, doutor Renato, não existem outros remédios?
— Sim, sim, tanto que mudamos a receita e com outros medicamentos e doses mais elevadas, mas nem assim houve reacção...
— O que o senhor sugere? - Indagou Anderson.
— No patamar que está, não há reversão.
Respirou fundo e complementou:
- Só um transplante, no máximo em setenta e duas horas, poderá salvá-lo.
— Ah, meu Deus! — Gritou Luiza, já aos prantos.
Anderson amparou-a, acercando-se dela e envolvendo-a num abraço carinhoso.
Também o doutor Renato consolou-a:
— Por sorte, este hospital está aparelhado e credenciado pelo Ministério da Saúde e pela Central de Transplantes para realizar esse tipo de procedimento.
Agora, é esperar que surja um doador.
— Onde... Onde... - soluçava Luiza, clamando.
Onde vamos encontrar um coração para meu marido?
— Não há motivo para desespero, dona Luiza.
Embora a medicina já esteja apta a salvar vidas pelos transplantes, nem por isso a maioria das pessoas se dá conta de como é importante ser doador de órgãos.
No caso dos transplantes de coração, a dificuldade maior reside justamente nesse ponto: doadores.
Há uma fila de espera, rigidamente controlada pelos órgãos federais e estaduais.
Pela gravidade da situação em que está o Ari, vou consultar se há possibilidade legal de que ele passe na frente dessa lista.
O que não se pode, de forma alguma, é perder a esperança...
— Então... O senhor está nos dizendo que o Ari está numa fila de espera?
Mas... O Ari jamais precisou enfrentar filas...
— Sim. Só que agora a fila é pela continuidade da vida!
"Oh, vaidade, vaidade..." orgulho, poder, tudo desabou no mundo interior de Luiza.
Pela primeira vez, talvez na vida toda entendeu como são frágeis e temporais os bens terrenos.
Não conseguiu impedir que pela mente perpassasse revolta:
"Como é que tanta gente pobre tem o coração sadio e agora o Ari precisa de um e não acha?"
Seu pranto impediu que a entrevista prosseguisse.
Foi conduzida para casa sob orientação do doutor Renato, que se prontificou a notificar qualquer novidade sobre a situação de Ari.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 11:01 am

À porta da residência, Luiza e Anderson tiveram desagradável surpresa:
uma ambulância estacionada...
O acompanhante do motorista desceu do veículo e dirigiu-se a Luiza:
— Senhora, sou o relações públicas da Clínica de Recuperação Santa Ângela, na qual sua filha Meire foi internada há alguns dias...
— Sim, sim, o que fazem aqui?
— Infelizmente, não tenho boas noticias.
Sua filha deixou-nos, sem permissão...
O eufemismo significava que Meire tinha fugido.
— O quê? - atalhou Anderson, completando -, vocês a deixaram sair?
E o tratamento pelo qual já pagamos a metade?!
— Por isso estou aqui, senhor Anderson.
"Não deixamos" sua irmã sair, ela se evadiu!
— Mas como isso foi possível?
Não tem vigilância?
— Como explicamos antes da internação dela, como de resto explicamos para todos os demais candidatos, a Santa Ângela não é um presídio, e sim um local aprazível, devidamente equipado com pessoal e material, para proporcionar aos pacientes desassimilação física dos efeitos nocivos de drogas, bem como, em paralelo, ministrar aconselhamento psicoterapêutico.
A repreensão velada mudou o tom do diálogo.
Controlando-se, Anderson inquiriu:
— Minha irmã...
Vocês sabem para onde ela foi?
— Estou aqui, maninho...
Era Meire, que, assomando à cena, vinda do interior da casa com a maior tranquilidade, andando "em câmara lenta" e com voz sussurrante, sentenciou:
— Esta é minha casa, vocês são minha família e não é justo que me atirem numa clínica qualquer só porque eu cometi um ou outro excesso...
Aliás, vejo que fiz bem em retornar ao ninho, pois fiquei sabendo pelos serviçais que papai está doente, internado.
E é incrível como vocês não tenham me contado isso...
Evidenciando a ausência de sintonia espiritual entre os três, Luiza e Anderson se entreolharam, indecisos quanto ao que fazer.
O relações públicas da Santa Ângela, no estrito cumprimento do seu dever profissional, adiantou-se:
— Como mãe e responsável pela paciente, solicito que a senhora providencie, agora mesmo, o retorno dela à clínica para continuidade do tratamento.
Meire, apeando da frágil postura de equilíbrio, gritou:
— Ninguém é responsável por mim:
sou maior de idade e dona do meu nariz.
O que quer que eu faça, o problema é só meu.
Assim, meu prezado "carcereiro", pode retornar ao seu empreguinho e nos deixar em paz, pois, com papai entre a vida e a morte, há muito que discutir, decidir e fazer por aqui...
O relações públicas olhou para Luiza e Anderson, aguardando-lhes o parecer...
Mãe e filho, atónitos, não sabiam o que decidir.
Meire, da soleira, firme e impassível, olhava-os, a todos, com manifesto desprezo, qual se fosse uma imperatriz diante dos súbditos.
— No caso de a paciente não retornar, sob estrita responsabilidade da família, trago comigo uma declaração para ser assinada pela senhora, isentando a Santa Ângela de qualquer consequência, bem como a família abrindo mão de reclamar devolução da quantia já paga.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:52 am

Anderson interveio:
— Você deve estar brincando.
Pagamos pelo tratamento de três meses e agora, em tão pouco tempo, vocês já querem nos dar esse golpe baixo?
— Perdão, senhor, mas ninguém quer dar golpe em ninguém.
Se o senhor se der ao cuidado de verificar o contrato assinado pelas partes no ato da internação, cuja via original está com a família constatará que todas essas eventualidades são previstas.
Agora, inclusive, peço-lhe moderar os termos, pois, além de uma queixa-crime por ofensas morais, a Santa Ângela poderá, no futuro, negar-se a acolher sua irmã, numa outra eventual crise...
E, apenas para seu conhecimento, convém esclarecer que se a "minha" clínica recusar a internação, dificilmente outra a aceitará.
Bailaram no ar duas hipóteses, ambas ruins: indemnização por ofensas morais e dificuldades futuras para tratar da toxicomania da Meire, que com certeza não iria deixar o vício de uma hora para outra.
Anderson moderou:
— Pedimos-lhes quarenta e oito horas para decidir o que fazer.
— Pois não.
Vou retirar-me agora, mas peço à senhora Luiza que telefone imediatamente para a direcção da clínica, informando que a paciente estará por dois dias sob responsabilidade materna, após o que será decidido se retornará ou não ao tratamento.
Ao despedir-se, esclareceu, com propriedade e segurança:
— Apenas para esclarecimentos futuros, julgo prudente informar que seu telefonema será gravado.
Logo após, na grande sala de visitas, os três olhavam-se alternadamente, como se nunca tivessem se visto.
Pensamentos desencontrados borbulhavam-lhes na mente.
Havia no ar insuportável tensão pela proximidade física dos três.
Qualquer um que dissesse palavra - uma única palavra - por certo provocaria algo assim como a rebentação das comportas de uma represa de emoções e sentimentos, já acima do nível e começando a derramar pelas bordas.
Ninguém poderia prever como acabaria aquela reunião familiar que nem sequer fora inaugurada, menos ainda convocada.
Naquele lar, há tempos, Meire só conseguia dialogar, e assim mesmo raramente, com o pai.
E Ari não estava agora ali.
Seu retorno era dolorosa incógnita, esta comum aos três:
esposa e filhos.
Anderson, de há muito, nem via o pai.
Só agora, no hospital.
Luiza, de repente, estava com os dois filhos à frente, mas sem a menor chance de dirigir-lhes a palavra, expondo triste falta de autoridade materna.
Ou, ao menos, de carinho materno...
O energético emocional da mãe e dos dois irmãos, tresandando frustrações, revolta e críticas recíprocas, formou ambiente espiritual deletério no lar.
É comum que, por força de sintonia fluídica afastada do equilíbrio, estejamos mesmo sempre rodeados por invisíveis "nuvens de testemunhas", as quais, julgando-se nossas convidadas de honra, passam a nos acompanhar os passos nos caminhos da vida.
Quase sempre, afastando-nos da boa estrada do destino.
Não são culpadas.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:52 am

Nós as convidamos, inconscientemente!
Tais companhias - espíritos desencarnados de pouca evolução, assim como nós próprios - sentem-se bem à vontade connosco, repartindo os resultados dos nossos empreendimentos morais.
Somos nós quem lhes damos guarida na mente, num entrelaçamento que nada tem de subjectivo, pelo contrário, tudo é entretecido nas linhas das ideias definidas.
Não é cambiante tal associação:
é ingénuo concluio.
Da mesma forma que uma simples moeda atirada num lago espelhado em qualquer área da lâmina da água provoca ondas concêntricas que irão alargando-se rumo às margens, também nossos pensamentos se espraiam rumo à nossa atmosfera mental.
Só que, se no lago as margens interrompem o fluxo da irradiação das ondas, no vastíssimo "lago" da psicosfera que nos envolve o que pensamos é absorvido por Espíritos que comungam connosco dos mesmos ideais, ou dos mesmos propósitos - positivos ou negativos -, e com isso vivificam ainda mais o que ainda não passava de simples cogitação...
Daí à efectiva materialização do projecto, um passo.
E sempre alcançando o fim buscado, porque conta com assessoria ímpar de congéneres.
Invisíveis, mas activos.
Eficientes nos seus interesses e nos fins buscados.
Sem dizer palavra, os filhos dirigiram-se cada um ao seu antigo quarto, mantidos como sempre foram.
Luiza sentiu-se só. Extremamente só.
Acabou recolhendo-se.
Percebendo que o irmão e a mãe estavam em seus quartos com a porta fechada, Meire, meia hora depois, solicitou ao motorista que a conduzisse ao hospital, pois queria ver seu pai.
Somente no trajecto é que ficou sabendo pelo motorista o grave estado do pai, que só um transplante cardíaco salvaria.
Chegando, não foi autorizada a falar com Ari, sendo informada de que estava sedado e quando despertasse não seria aconselhável emocionar-se.
Dispensou o motorista e andou a esmo.
Com a mente fervendo, frustrada por não ter sequer dado um alô ao pai, a jovem só entreviu uma forma de aliviar a tensão, já se tornando insuportável:
"fazer uma viagem", isto é, drogar-se...
Assim como um extracto de perfume recende no ambiente quando o frasco é destampado, também da aura de Meire escaparam fragrâncias astrais, deletérias.
Em menos de um segundo, três Espíritos aproximaram-se, como que literalmente vindos do ar.
Os três, formando um grupo infeliz que havia desencarnado pelo uso excessivo de drogas captaram, de pronto, que a jovem era toxicómana e que a "irmãzinha" estava carente.
Confabularam:
— Até que enfim vamos sair do sufoco...
— E, sim! Mas não podemos esperar que tudo venha de bandeja:
temos mais é que ajudar a "irmãzinha" aqui "a viajar"...
— E quanto mais longa for a "viagem", melhor para nós!
Das reflexões, passaram à acção:
quase colados a Meire, iniciaram o sempre equivocado, triste e infeliz processo obsessivo de indução mental.
Disse um deles:
— Linda garota, com essa tristeza toda você não vai longe...
É preciso ver o céu, ficar nas nuvens, longe de tantas coisas ruins que a atormentam.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:52 am

Logo um segundo Espírito incentivou:
— Você sabe, querida, e sabe melhor que todo mundo, que só há um meio de sufocar as mágoas:
relaxar, mandar a tensão embora, flutuar num longo êxtase...
O terceiro, conclusivo:
— Só dessa vez, só mais uma vez!
Isso mesmo: só uma vez!
Você sabe onde mora a felicidade...
É só ir lá buscar sua parte...
Mas vá logo, que o relógio não pára e as mágoas esticam as horas!
Impressionante fenómeno espiritual aquele:
absolutamente sem ver e sem ouvir quem lhe falava, Meire assimilou palavra por palavra, pensamento por pensamento, de tudo quanto lhe fora sugerido.
Nos trâmites invariáveis da lei de sintonia, que tanto são percorridos pelos bons quanto pelos maus propósitos, a jovem, sem pronunciar uma única palavra, também falou com os visitantes do além, os quais não conhecia:
— Sim, sim, é preciso fugir dessa triste realidade.
No mesmo instante, dirigiu-se a um telefone público, fez uma ligação e em menos de uma hora dois motociclistas se apresentaram, trazendo-lhe uma "encomenda".
Ávida, Meire foi ao encontro dos dois:
— Que bom que vocês vieram.
Trouxeram?
— Sim, mas...
— O que estão esperando para me entregar?
— O chefe quer que você, primeiro, pague o que ficou devendo, onze mil...
— Oh, não! Agora, não!
Não façam isso comigo!
Estou no meio de uma crise e, se não "zoar" logo, fico doente, vou ao desespero...
Sei lá... Faço alguma bobagem...
Ou me levam de volta para a clínica...
— Nada disso, mocinha:
pegue seu cartão e vamos ao banco sacar "algum".
Depois, veremos o que se pode fazer...
Foram à agência bancária e Meire, com alegria, viu que sua mesada fora depositada automaticamente.
Sacou o limite máximo possível e entregou aos motociclistas, que, só então, lhe entregaram três envelopes, contendo cocaína em pó.
— Levem-me para casa, por favor!
Estou sem condução.
— Não será prudente:
seu irmão é muito chato e não colabora.
Se formos vistos juntos, vai complicar.
Ao deixar Meire, advertiram:
— Você está devendo e, se não pagar, não será mais atendida.
E é bom ficar sabendo que não vai adiantar procurar outra "fonte", pois estaremos vigiando-a dia e noite.
Como sabe, a paciência e a assistência social não fazem parte das nossas qualidades e, por isso, você tem uma semana de prazo para saldar seu débitos.
— Mas eu não conseguirei esse dinheiro todo de uma vez...
Sempre paguei o que pude...
Agora papai está doente e minha mãe não me ajuda, nem meu irmão...
Se vocês me negarem, vou ficar desesperada e aí será ruim para todo mundo...
Antes de vocês me prejudicarem, apronto "uma boa"...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:52 am

Não duvidem!
— Você é quem sabe, querida.
Adoramos suas ameaças.
Os três Espíritos, que não a haviam deixado, assopraram-lhe uma ideia:
— Não discuta com quem a ajuda.
Se o seu problema é com sua mãe e seu irmão, é lá que você deve buscar a solução.
Meire "ouviu" o conselho.
Abrandou junto aos dois rapazes:
— Estou nervosa com tanta coisa ruim à minha volta.
Darei um jeito!
— Assim é que se fala, doçura.
Uma semana, hein?
Sem poder resistir à urgência, Meire entrou num restaurante e, pedindo algo para disfarçar, ali mesmo se drogou com uma dose.
Algo vaga das ideias, foi até seu apartamento, trancou-se e, com o restante da droga, pensando que era para si, consumiu-o.
Na verdade, não se poderá afirmar que Meire não passou de agente passiva; eis que seus acompanhantes invisíveis, em ânsia incontida, quase arrancavam de seu hálito, por aspiração boca a boca, uma nuvem invisível para encarnados, mas para eles esfumaçada, quase pastosa, quente, que dali se evolava, sorvendo-a com sofreguidão vampiresca.
Nos seus desdobramentos espirituais, perambulando pelas trevosas regiões umbralinas, Dante Alighieri (1265-1321) entreviu cenas terríveis de espíritos sofredores em desvairo, registrando as na visão que teve ao atravessar os "nove círculos do inferno", no imortal clássico da literatura A Divina Comédia.
Mas ali, a cena vista do plano espiritual - inacreditável consórcio da jovem a dividir o corrosivo fulgor energético da droga com personagens viciados, desencarnados - poderia perfeitamente se enquadrar no texto do imortal poeta e escritor italiano, talvez com os personagens de agora exibindo algo ainda mais espantoso, terrivelmente infeliz.
Dormiu algum tempo e depois retornou à casa dos pais, procurando manter-se estabilizada, de forma a não dar a perceber que havia se drogado há poucas horas.
Luiza, ao telefone, falava com Angelina, avó de Meire:
— Mãe, a senhora não precisa vir morar aqui, é só até nós conseguirmos resolver essa questão...
A interlocutora por certo concordou, pois Luiza despediu-se:
— Vou pedir para o Marcelo ir buscá-la amanhã cedo.
Arrume algumas coisas suas, pois até o Ari sair do hospital, a senhora "precisa" ficar aqui.
Até amanhã.
— Vovó vem morar aqui?
— Foi bom você voltar, querida, pois precisamos ter uma conversa muito séria.
— Ih, mãe, não me venha com sermões, pois não aguento mais suas ideias "quadradas"...
Meu mundo é outro...
Mais redondo, mais feliz, sem as suas caretices.
— Meire, não quero saber do seu mundo.
No momento estamos no meio de uma tempestade, com seu pai em perigo de vida, não é ajuizado falar em mundo redondo ou quadrado.
Há uma realidade da qual você não pode fugir:
tornou-se escrava das drogas e só conseguirá libertar-se com ajuda especializada.
Respirou fundo e sentenciou:
— O que quero dizer é que você precisa voltar para a clínica, e quanto antes melhor!
— Nem morta!
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:53 am

O que a senhora pensa que eu senti quando a senhora me levou para lá, aproveitando que eu estava meio desacordada?
Quando despertei, senti-me uma prisioneira, julgada e condenada.
E qual foi o meu crime?
Exasperando-se e dando vazão à revolta que súbito a visitou pelas lembranças do passado, explodiu de vez:
— Odeio aquela clínica, esta casa, odeio você e sua beleza!
Correu para o quarto, onde se trancou.
Nem seriam necessários profundos conhecimentos de psicologia para se depreender daquele desabafo que, na raiz das infelicidades, do desajuste familiar, das frustrações todas de Meire - tudo desaguando na toxicomania -, estava a inveja, orquestrando os desencontros da personalidade.
À simples menção da palavra "beleza", Luiza deixou-se envolver pela imagem que o espelho lhe ofertava, no mínimo, a cada dez minutos, pois esse era o tempo máximo que conseguia ficar sem se mirar.
Sim, sabia-se bela!
Esplendorosamente bela!
E esse seu património não o dividia com ninguém.
Aliás, nem era preciso pensar em divisão ou subtracção, "pois se Deus assim a fizera, ladrão algum lhe roubaria o que a natureza lhe doara com tanta generosidade".
Luiza só vivia o momento presente:
passado e futuro jamais fizeram parte de suas reflexões.
O "agora" era seu senhor absoluto, exigindo-lhe prolongados estágios no salão de beleza que instalara no próprio lar.
Era ali que, diariamente, passava a maior parte do tempo, metade com esteticistas contratadas e a outra metade sozinha, mirando-se, embevecida ante a própria imagem, de corpo inteiro, que reproduziam os vários espelhos ali instalados.
A sós na grande sala, remoendo o frio tratamento da filha, veio-lhe à lembrança sua momentaneamente esquecida beleza invulgar.
Correu para os espelhos que na sua casa havia por toda parte...
Mirando-se, percebeu alguns ligeiros, muito ligeiros traços, diferentes, fruto das preocupações dos últimos dias.
Preocupada com a chegada do novo tom à sua face, olhou a penteadeira e viu uma Bíblia.
Num gesto deslembrado por anos, abriu-a ao acaso e leu:
"Aonde foi teu querido, ó mais bela entre as mulheres?"
O trecho referido consta de "O Cântico dos Cânticos", 6-1.
Intensa vaidade veio se somar ao culto à sua beleza, que Luiza permanentemente vivia a celebrar.
Esqueceu-se das ofensas de Meire.
De todas as provas por que passa o Espírito, quando enfeixado de vestes físicas femininas, podemos afirmar que a beleza constitui aquela que mais vem reprovando criaturas submetidas aos testes morais que dela decorrem.
Três Marias interpretam, melhor com a própria vida, aquilo que queremos expor.
Foram belas e a História consagrou-as não pela beleza, mas pelo muito que souberam amar:
— Maria, Espírito puríssimo, o passaporte sublime de que se valeu o Mestre Jesus para nos visitar, aqui nos deixando o Evangelho qual mapa da felicidade - o Reino dos Céus -, alcançável quando estivermos a bordo do veículo que faz esse transporte - o Amor -, sendo a Caridade a chave da porta de entrada daquele Reino;
- Maria Madalena, a pecadora, cuja auto-reforma (renúncia ao passado libertino), após o apoio pessoal de Jesus, livrando-a de "sete demónios" (espíritos obsessores), passou a segui-Lo, juntamente com os doze Apóstolos.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:53 am

Maria Madalena, então, trocou a vida de seduções e sedições pelo amor ao próximo.
Seu exemplo de arrependimento e conversão à caridade, que até os últimos dias de sua existência passou a praticar, dificilmente encontrará paralelo mais eloquente em toda a história do Cristianismo.
Estando com Jesus, suas lágrimas molharam os pés do Mestre, aos quais ela perfumou com o caríssimo óleo de nardo genuíno (planta aromatizante).
Após derramar o óleo nos pés de Jesus, passou a beijá-los ternamente e a seguir os enxugou com o próprio cabelo.
- Maria, de Betânia, irmã de Marta e de Lázaro (que fora curado pelo Mestre e "ressuscitou", quando já era julgado morto), que se punha aos pés de Jesus para ouvir Seus ensinamentos, com enlevo inexcedível.
Três Marias:
Maria - Espírito Puríssimo, Mãe de Jesus!
Maria - aquela que, no dizer do Cristo, teve "os pecados perdoados pelo muito que soube amar"!
- Maria, a irmã de Lázaro e de Marta - é de imaginar quanto amava ao Cristo e com que pureza!
A ponto de Jesus dizer a Marta que Maria (a irmã dela) "fizera a escolha da boa porção" (o alimento da vida eterna).
Marias, Marias...
Todas belas, todas excelsas! "Três Marias"!
Três estrelas, da Constelação de Órion, que na harmonia e quietude do céu estrelado pontificam, simbolizando:
a primeira, o incomparável amor de todas as mães; a segunda, a beleza de Madalena, advinda do reencontro da paz interior, e a terceira, a felicidade, pelo entendimento da Boa Nova.
"Três Marias"!
Sóis de eterno deslumbramento!
Maria! Dulcíssimo nome da mulher sublime que, dentre tantas, foi escolhida pela Divina Providência para ser a Mãe de Jesus e Mãe Celestial da humanidade.
Reverberam pelos séculos exemplos de a quantos arrastamentos a beleza conduz.
A poeira da História não apagou as letras que registaram, "no livro da vaidade", as infelicidades geradas pela beleza feminina, quando administrada pelo espelho.
Nesse triste livro, de tantas e tantas autoras, mais uma triste página vinha sendo escrita por Luiza...
Horas depois, voltando a remoer-se pelas últimas palavras de Meire, empinou o queixo em gesto lento e alisou as sobrancelhas.
Foi ao quarto da filha e, com ares de rainha das rainhas, condescendeu:
— Minha filha, minha filha, você também é bonita...
— Deixe de hipocrisia, dona Luiza, poupe-me da sua piedade, aliás, se veio aqui é porque quer ser minha amiga, então vamos falar de dinheiro.
Quando Meire chamou a mãe de "dona Luiza", como que luzes de advertência acenderam-se no cérebro da dona da casa, pois captou que entre ela e a filha mantinha-se profundo o abismo que há tempos as separara e que, a seu ver, só o dinheiro poderia se constituir em ponte.
Enganosa ponte...
— Muito bem, mocinha.
Falemos de dinheiro.
Estou ouvindo.
Ser chamada de "mocinha" também sinalizava, à jovem, que a mãe estava do lado de lá do extenso vale que havia entre ambas, de que a separação e o abandono do lar eram bem o símbolo.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:53 am

Deu-se conta de que sem dinheiro não poderia ser feliz.
E ser feliz, para ela, era drogar-se.
Drogas... Drogas...
Tão logo pensou nisso, dois grupos de espíritos desencarnados surgiram do nada, atraídos compulsoriamente, que foram para junto dela.
Um dos grupos era formado pelos três que há poucas horas haviam se tornado "sócios" da sua entrega ao vício.
Olharam-se raivosos os dois grupos de desencarnados.
Iminente combate próximo.
O chefe do segundo grupo (de cinco espíritos) advertiu ao trio, tão intruso como ele próprio e seus companheiros:
— A "irmã" aqui é nossa fonte há muito tempo.
Não há vagas para novatos, pois nós a treinamos bem, para nos atender.
E só a nós...
Estamos sabendo que hoje vocês estiveram "nos roubando", enquanto estávamos empenhados numa outra "festinha".
— Ah, é? Pois fiquem sabendo que ela se deu muito bem connosco.
— Foi por isso que essa idiota chegou aqui "sem apetite"...
Já tinha se fartado, traindo-nos...
O líder dos cinco olhou para os três "invasores" e, a um gesto seu, os outros companheiros os agrediram com brutalidade.
Os agredidos, desencarnados ainda jovens e participantes de árduos treinamentos em lutas marciais, considerados mestres, julgaram que para eles a luta ia ser fácil, pois, com sua técnica, seus golpes mortais dariam uma lição exemplar naqueles cinco "alunos" atrevidos.
Mas triste ilusão:
ali, de forma inexplicável, seus golpes pouco valiam diante do ódio que envolvia e servia de "munição" ao outro grupo.
Não por ser maioria, mas por inacreditáveis projécteis mentais que, partindo do peito deles, atingiam os "mestres"; estes, em questão de segundos, jaziam inermes, desfalecidos, mas conscientes...
Os tombados não entendiam o que se passara:
como surgiram aqueles mini-torpedos?
O chefe dos vitoriosos, com soberba, como que lhes adivinhando a perplexidade, esclareceu-lhes:
— Bobos! Vocês se julgam os tais, só porque viviam dando murros e pancadas em mais fracos, depois desses cursos em que o controle e o equilíbrio estiveram ausentes da sua cabeça.
Devem ter sido mandados para cá por causa das sucessivas brigas que arrumavam...
O líder do trio, ainda sem entender, perguntou:
— Vocês mais se parecem com aqueles lutadores dos jogos electrónicos...
O que é isso que sai do peito e nos derrubou?
— Onde vocês pensam que estão?
— Pouco importa.
Se aqui é seu território, vamos para outro local, apenas queremos saber como é que vocês arranjaram essas armas.
— Vocês não me responderam:
onde estamos agora?
Pensando um pouco, um dos caídos adiantou-se:
— Numa casa de luxo, onde a "irmãzinha" mora...
Aliás, foi ela quem nos convidou para sermos seus sócios.
— Vejo que vocês não sabem de nada...
Digam-me apenas:
onde estavam, antes de conhecê-la?
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:53 am

Após meditar bastante, o líder questionou:
— Na verdade, não sabemos direito...
Há algum tempo nos metemos numa briga, à saída de um bailinho...
Eram muitos, mas com nossa técnica derrubamos todos que se atreveram a nos desafiar...
Só que... Depois fomos embora...
E logo de manhãzinha...
Alguém arrombou nosso quarto e entrou atirando...
Não me lembro de mais nada...
— É isso:
vocês estão na dimensão onde a vida não é vida...
— Mortos?!!!
— Isso mesmo.
Agora já falamos demais e é hora de acção.
Levantem-se e sumam.
Os três, cambaleantes, ergueram-se e com dificuldade afastaram-se, ganhando a rua e indo em busca do nada,..
Os que ficaram, acercando-se de Meire, determinaram-lhe mentalmente que agradasse à mãe e que ficasse esperta, à espreita, para arrumar dinheiro.
Ordenavam:
"Drogas exigem dinheiro!
Use o expediente que for necessário, finja obediência e humildade; depois, use o cartão do banco dela".
A jovem captou a ordem e meditou:
"Preciso dar a impressão à mamãe de que estou arrependida, para depois...
Como é que não pensei nisso antes?
Vou pegar seu cartão do banco e transferir dinheiro para minha conta".
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:54 am

7 – EQUIPA INVISIVEL
Em meio à madrugada Ari acordou.
No mesmo instante viu aquela equipa de socorristas que surgiu à sua frente, outra vez vinda do céu, isto é, de cima, do tecto da UTI...
— Vocês...
Dessa vez Ari conseguiu falar.
Tanto que o médico plantonista acorreu, pressuroso:
— O que o senhor está sentindo?
Precisa de algo?
— Não, não, estou bem...
Apenas estava pensando em voz alta...
Ari captou claramente que o médico não via os visitantes...
Quando ele se afastou, a equipa invisível acercou-se.
Aliás, para ele - só para ele (!) - de invisível aquele grupo não tinha nada, mas foi assim que passou a denominar os estranhos visitantes.
O chefe deles dessa vez o instruiu:
— Sou Abdiel, seu amigo.
Agora vamos conversar de outra forma:
você vai nos ver e falar, mas não responda por palavras, e sim apenas por pensamentos.
— Mas como isso é possível?!
Novamente o médico plantonista atendeu-o, presto:
— Posso ajudá-lo?
— Oh, desculpe-me.
Estou meio bobo, falando sozinho...
Ari aguardou o médico afastar-se, notando que ele ficara bastante apreensivo.
Contudo, foi inspeccionar o estado de outro paciente.
O chefe da equipa invisível, Abdiel, brincou com ele:
— Viu só o que você está aprontando?
Eu não lhe pedi para só falar connosco pelo pensamento?
Tente fazer isso.
Ari pensou:
"Está bem, vou falar só pelo pensamento..."
— Assim está melhor - anuiu Abdiel, prosseguindo naquela fantástica forma de conversar.
Estamos no limiar de um acontecimento que mudará "nossa" vida.
Mais do que em qualquer outra ocasião, "nosso" pensamento deverá direccionar-se para o alto, em busca de Jesus, o Médico das almas...
Ari, assustando-se bruscamente, ia interromper, falando, mas conteve-se a tempo e apenas pensou:
"Das almas?!"
Os aparelhos que monitoravam Ari acusaram alteração.
O plantonista, que de soslaio observava o paciente, acorreu.
— Estou bem - disse-lhe Ari, tranquilizando-o, o que de facto conseguiu, pois os indicadores retornaram ao normal.
Ari deixou passar alguns minutos e, como Abdiel permanecia ali, apenas olhando-o, dirigiu-se a ele em pensamento, como ele pedira:
"Vou morrer?!
Vocês... são mortos?!"
— A calma é a mais fácil das virtudes, quando tudo está tranquilo, não é mesmo?
Entretanto, no momento de agitação, física ou mental, o que acontece?
Nós a expulsamos, concorda?
E aí, o desequilíbrio, nem sempre a maldade, assume o comando dos nossos actos.
Porque o homem age assim?
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:54 am

Ari foi pego de surpresa, pois Abdiel, em vez de responder às suas ardentes perguntas, promovera guinada na conversa.
Aliás, foi o próprio perguntador quem respondeu:
— É porque, agindo pelo instinto, não o instinto natural que garante a sobrevivência, mas o instinto distorcido – porque acoplado de mau uso da inteligência, num deplorável retrocesso espiritual -, o homem despreza a sabedoria, de forma integral, cedendo-lhe espaço para o melindre e a vaidade, gémeos filiais do orgulho.
Aí a maldade aflora no homem, coisa que nos animais não existe.
Assim, nessas horas, não se compare o homem ao animal, pois este não tem inteligência abstracta, formadora de ideais e planos, no caso, de vingança...
Animais têm, sim, integral, o instinto na sua expressão mais genuína.
Não têm melindres nem sentimentos de vingança.
Novamente Ari se complicou para entender o que Abdiel dizia.
O Espírito amigo, não obstante, prosseguiu:
— O homem que conseguir avançar um centímetro no cumprimento da Lei do Amor, recta divina e de extensão infinita, não cederá espaço aos impulsos da réplica, a qual lhe oferta veículos de discórdia, quais a postura agressiva, o tom de voz mais alto, imperativo, arrogante, tudo isso a bordo de argumentos "de certeza definitiva".
E, nessas horas, convenhamos, resposta ou réplica logo se transformam, uma ou outra, em ideias de vingança...
Abdiel interrompeu o que dizia por instantes e logo seguiu:
— Não! Esse homem que avançou no bem ampara-se na mansuetude, sem que isso configure covardia física, tanto quanto jamais oculta a verdade, o que, do contrário, seria outro tipo de covardia, mais danosa do que aquela: a hipocrisia.
E o que faz?
Disciplinado mental, não se permite arroubos de gladiador, mas transforma o palco do encontro de correntes antagónicas - a dele e a de outrem - em palco de correntes congruentes, isto é, busca um dos inesquecíveis exemplos de Jesus, o modelo de comportamento fraterno ofertado por Deus aos homens.
Abdiel colocou a destra sobre a fronte de Ari e volveu o olhar para cima, pronunciando uma única palavra:
'Jesus!"
Ari, olhos arregalados a princípio, sentiu-se invadir por jamais experimentada paz, que subtil, mas constante, envolveu-o, como se fosse uma agradável nuvem, silenciosa e quase imperceptível. Abdiel disse-lhe brandamente:
— Como você pode observar, ao falarmos de Jesus todas as dores se acalmam, a paz nos visita célula a célula e a Vida adquire sua verdadeira expressão, deixando atrás tudo o mais...
Ari surpreendeu-se reflectindo sobre o que ele próprio sentiu:
"Se morresse agora, morreria tão feliz...
Sim, sim, sei do que fala Abdiel:
ele fala de mim, de como sempre tenho me conduzido.
Até com minha família tenho agido com dureza.
Meus filhos... nem quiseram mais morar comigo e com a mãe.
Luiza... será que estive sempre ao seu lado, como o companheiro que reparte todas as alegrias e as tristezas com a amada?
Meu Deus!
Sei agora o que é a calma e o seu grande poder.
É precisamente o que experimento neste momento. Jesus... era tão calmo!"
Abdiel, já se despedindo, ainda proclamou:
— E Jesus não é uma miragem de fanáticos, como temerariamente alguns imaginam...
Não brigou com ninguém, foi uma das pessoas mais ofendidas e, longe de se vingar, com todo o poder que detinha, perdoou a seus ofensores; jamais impôs suas ideias, nunca escreveu uma única palavra dos seus ensinamentos, entretanto suas lições, alicerçadas no exemplo, sobreviveram porque a Razão lhes dá vida eterna...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 05, 2017 12:13 pm

Viu Abdiel afastar-se com seus amigos até desaparecerem.
"Vou morrer...
Esse perfume... tão agradável... lembro-me dele.”
Dormiu. Horas mais tarde, os aparelhos acoplados ao paciente acusaram, por discreta sonoridade e pelos painéis electrónicos, crise grave.
O médico plantonista, que mantinha permanente observação nos pacientes, aplicou de imediato um medicamento sublingual e, em seguida, ligou para o doutor Renato.
Quando, pouco depois, o cirurgião-chefe da cardiologia chegou, avaliou o quadro clínico de Ari e, franzindo a testa, diagnosticou:
— Nosso paciente precisa de um milagre...
Na manhã esplendorosa, pujante de sol - de vida, pois -, Luiza e os filhos foram autorizados a conversar alguns instantes com Ari, devendo aguardar que ele despertasse.
Disse-lhes o doutor Renato:
— Nosso Ari não resistirá por muito tempo...
— O transplante...
— É sua única chance!
Só que ainda não recebi resposta da minha solicitação à Central de Transplantes do Estado, para que o Ari seja atendido em carácter urgentíssimo...
Só por volta das onze horas Ari despertou.
A família foi admitida junto ao leito, para breve diálogo.
Ao vê-los, o semblante incapaz de disfarçar o que lhes ia na alma, Ari compreendeu que ainda não tinha morrido!
Luiza não podia falar:
as lágrimas impediam-na.
Meire beijou-o ternamente, como há muito não fazia:
— Paizinho, o que o senhor aprontou dessa vez?
— É urna incógnita - murmurou Ari -, saber que Deus é tão bom e uma coisa dessas me atingir...
— Atingir-nos - emendou Anderson, tomando a mão paterna.
— Há algo de inexplicável na vida, tão cheia de surpresas, de coisas boas, mas também de coisas ruins...
— Só pense nas boas, paizinho.
O senhor vai sair dessa, o senhor é forte, é valente, nunca ninguém o venceu...
— Será, minha filha?
Nem o coração?
E você, como está aqui?
Alguém me disse que havia sido internada para desintoxicação...
Interrompeu o tratamento?
— Ah, meu pai, interrompi, sim.
Algumas doenças, como essa que inventaram para mim, existem apenas para dar emprego aos médicos.
— Meire, Meire, não é bem assim.
Você me chama de valente, vitorioso sempre, mas sua visão, do ângulo em que estou agora, perde toda a substância...
Imagine se eu morrer nos próximos dias...
Do que terá valido toda a minha fortaleza e o império que construí?
Se me acabei de tanto ajuntar poder e fortuna, terá valido a pena?
— Não fale assim - interrompeu Luiza -, você não pode nos deixar!
O que será das nossas empresas?
O que será de nós?
— Vocês vão administrar tudo, com dificuldades no início, mas com o tempo aprenderão.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 05, 2017 12:14 pm

Olhou para o tecto, como se estivesse alguém lá o ouvindo, e sentenciou:
— Só que... um dia, assim como eu, vão se dar conta de que tudo, talvez, não valeu a pena.
Luiza atalhou:
— Como não valeu a pena?!
Então a nossa vida não tem sido tão confortável?
Não somos estimados pela sociedade?
E o respeito que nossa fortuna nos confere?
— Sociedade... Respeito... Fortuna...
Só queria que meu coração estivesse bem, até trocaria tudo, tudo mesmo, por um coração saudável.
Às vezes, quantas pessoas se julgam pobres e nem sequer avaliam o quanto vale um coração sadio:
nem nossa fortuna toda pode me comprar um agora...
E o meu lar? O nosso lar?
Estamos separados...
Se eu conseguir sobreviver, vocês vão se enjoar de tanto amor que tenho para lhes dar...
Dirigiu-se ao filho:
— Se não... cuide delas, principalmente de sua irmã...
Meire começou a soluçar descontroladamente.
Ali mesmo Anderson começou a obedecer ao pedido do pai, pois amparou-a, estreitando-a num abraço.
Anos e anos de isolamento fraternal entre ambos foram ali interrompidos.
Luiza literalmente se atirou ao peito de Ari e também o abraçou.
Prova irrefutável de que até do mal Deus tira um bem, a doença de Ari estava servindo-lhe de novas lentes para ver o mundo, pois acabara de testemunhar a fatuidade do dinheiro e do poder, quando empregados apenas em benefício próprio.
Mas, sobretudo, os quatro reencontraram o sentido da fraternidade na convivência familiar.
O plantonista, sempre tão controlado, dessa vez sensibilizado e algo envolvido, delicadamente pediu à família que se retirasse, pois mesmo aquelas felizes emoções poderiam deixar o paciente alterado.
Antes de os três se afastarem, Ari olhou-os profunda e demoradamente.
Apenas conseguiu falar baixinho:
— Adeus!
Sempre os amarei...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 05, 2017 12:14 pm

8 – LINHAS TORTAS
Saindo, mudos, em direcção ao estacionamento, os três nem sequer se olhavam.
A angústia que lhes ia na alma falava mais alto, compungindo-os, levando-os a reflexões, dolorosas, todas.
Anderson e Meire pensavam nas palavras do pai...
Meire, fragilizada psicologicamente, foi acercada pelos espíritos obsessores que a comandavam.
Obediente à indução que captou deles, deixou a mãe e o irmão sem dar-lhes nenhuma explicação, praticamente se evadindo da companhia deles, caminhando para outra direcção.
Anderson ainda intentou alcançá-la, mas Luiza lamentou:
— Deixe que ela se vá... já é maior de idade e não quer dividir connosco seus sentimentos; ao contrário, neste momento tão triste, sua atitude demonstra que pouco se importa com a família.
E completou, amargurada:
— Em vez de unir-se a nós, o que vai fazer, sabemos, é atolar-se ainda mais na lama das drogas, acrescentando dissabores às nossas vidas.
De facto:
Meire foi em busca de drogas.
Era urgente refugiar-se no tóxico, atenuando de forma tão equivocada a crise que a envolveu, ante a iminente perda do pai.
Para sua segurança, e também segundo instruções dos traficantes, teve que esperar pela chegada do crepúsculo, o que alterou cada vez mais seu estado emocional.
Nas longas horas de espera do escurecer, naquela praça onde sabidamente encontraria "seus fornecedores", nem sequer olhou para as flores, nem lhes sentiu o delicado perfume, graciosamente ofertado.
Quando o Sol despediu o dia, eles chegaram.
Eram os dois motociclistas.
Viram-na. Zombaram:
— Então, mocinha rica, esperando o namorado?
— Por favor, não brinquem...
Meu pai está mal...
Eu estou pior...
Preciso logo de uma dose forte...
Aqui está o que consegui...
Entregou aos marginais o saque possível que fizera do cartão do banco da mãe.
— Ah, é? Só isso? É pouco!
Já se esqueceu da dívida?
Nós não lhe avisamos que só após pagar o que deve teria novo crédito?
— Mas... eu vou arrumar mais dinheiro, sim, só preciso de tempo.
— Qual é, agora?
Está esperando a morte do seu pai?
— Não sei... Não sei...
Preciso me acalmar para poder pensar.
Se vocês me negarem ajuda agora, quando eu pegar na grana vou simplesmente os ignorar.
— Hum, ameaças...
Não gostamos disso, sabia?
E, quando não gostamos, sempre damos uma aula de boas maneiras...
Assim falando, o jovem desceu da moto e, aproximando-se de Meire, com absoluta calma abraçou-a e forçou um beijo, constrangendo-a pela força muscular dobrada em relação à dela.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 05, 2017 12:14 pm

Meire tentou livrar-se daquela infame agressão, mas quanto mais se esforçava, mais se via imobilizada pela brutalidade do rapaz.
O outro jovem, até então passivo, considerou desmedida a atitude do colega e descendo também da moto colocou a mão no ombro dele e determinou:
— Pare com isso!
O agressor, de facto, soltou Meire.
Fuzilando com o olhar o companheiro, desafiou-o:
— Você não sabe o que está perdendo...
Essa pombinha está pedindo carinhos, tão desamparada, tão lindinha...
— Nem pensar, nem pensar!
Se o chefe souber disso, será o nosso fim.
Você está louco?
Não misture as coisas, negócios com prazer, pois essa é a maneira mais rápida de irmos morar para sempre no "campo santo".
E essa era uma dura realidade do mundo dos tóxicos:
de um lado, os "clientes" e, do outro, toda uma corrente de fornecedores cujos elos, se rompidos em qualquer parte, sempre acarretam enorme prejuízos à criminosa contabilidade dos lucros.
Nesse contexto, ser o elo rompido é o mesmo que ser condenado à morte.
O jovem agressor sabia de tudo isso, mas naquele momento, altamente energizado pelo erotismo que abruptamente o invadira, não media consequências para atender aos imperiosos reclamos sexuais dominantes.
Propôs ao colega:
— Vamos juntos, os três, passar bons momentos.
Nós damos a ela o que quer, e ela, em gratidão, nos empresta seus carinhos.
Voltou-se para Meire e sugeriu:
— Daremos o que você quer, mas em gratidão pelo crédito você também nos atende.
Quando puder, paga a mercadoria. Topa?
Aglomeraram-se em torno dos três mais companhias invisíveis, normalmente estacionadas naquele triste palco de desvarios, ávidas umas de sorver as exalações toxicómanas, sensualizadas, outras, aguardando sua quota-parte das emanações dos prazeres carnais, fugidios e irresponsáveis que ali, de rotina, se desenrolavam noite adentro.
Ao grupo obsessor que acompanhava Meire não houve como se livrar de "mais sócios".
Desde que saiu do hospital, Anderson ouvia sem parar o pungente pedido do pai:
"Cuide delas, principalmente de sua irmã..."
Em seu carro conduziu a mãe à residência e depois, a pedido dela, foi à sede da empresa do pai para inteirar-se do andamento dos negócios.
Reuniu-se com os directores presentes e, após os informar do estado de saúde de Ari, por sua vez foi informado das actividades da firma, a qual, à boca pequena, já se dizia, breve herdaria...
Ao escurecer, voltando para casa, teve que enfrentar um "casual" congestionamento de trânsito.
Para livrar-se dele, mudou o itinerário.
Afastando-se do caminho rotineiro, acabou por transitar por ruas poucos utilizadas.
Qual não foi sua surpresa quando passaram por ele duas motocicletas, numa das quais Meire ia de carona.
Reconheceu, de pronto, os traficantes que vinham fazendo ameaças.
Não pensou: seguiu-os.
Após se dirigirem a uma região quase sem residências, as duas motos estacionaram.
Tão agitados estavam os dois rapazes e a própria Meire, que não perceberam estarem sendo seguidos.
Anderson deixou seu carro e, ainda sem ser notado, foi se aproximando.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 05, 2017 12:14 pm

O que viu, então, causou-lhe terrível choque:
a irmã introduzindo algo nas narinas, permitindo que os dois homens a tocassem, com indignidade sem limites.
Num gesto tresloucado, ouvindo na mente em tom ensurdecedor o pedido do pai, atirou-se sobre aqueles bandidos.
Forte e bem preparado fisicamente, além de ter a seu lado a "força da razão", com golpes bem aplicados impediu a consumação de maior infâmia contra a irmã.
Praticamente nocauteados, sangrando muito, os dois traficantes pouco poderiam fazer para se defender.
Foi aí que um deles, o que idealizara aquele sórdido enredo a três, sacou uma arma e atirou em Anderson.
O tiro acertou-o no rosto.
Meire, atarantada pelo efeito da droga, mas bruscamente trazida à terrível realidade, no entrechoque de emoções e sensações conflituantes em sua alma sentiu falar mais alto o amor fraternal.
Atirou-se como leoa sobre o atirador, contudo, recebendo forte coronhada na nuca, perdeu os sentidos.
Desacordada pela coronhada na cabeça, a irmã não viu os agressores discutirem entre si, após verificarem que Anderson tinha sido atingido gravemente:
— O que você fez, Miro?!
Matou-o!
— Era ele ou eu...
— Você ficou louco?
E agora? O que faremos?
— Ora, Zeca, não podemos perder a cabeça.
Temos que disfarçar o cenário para a Polícia não descobrir nada que nos complique.
— Miro, estou falando de assassinato.
De jeito nenhum você deveria ter feito isso.
— Agora não adianta me condenar...
Você está envolvido nisso tanto quanto eu...
Acho melhor parar de me acusar e ajudar para que ninguém suspeite de nós...
— O que você quer dizer?
Ela... Você não está pensando em eliminá-la?!
— Claro que não.
Vamos fazer o seguinte:
levamos a moça para a praça onde a encontramos e a deixamos com as vestes rasgadas; assim vão pensar que foi vítima de algum tarado...
— E ele? E ele?!
— Vamos revistá-lo.
Ao fazerem isso, encontraram dinheiro, o RG e outros documentos, as chaves da camioneta, da casa do pai e da própria casa.
Miro afastou-se um pouco, procurando nas proximidades, e logo encontrou o que buscava:
o veículo de Anderson.
Tentou dar partida e conseguiu, confirmando ser o carro do irmão de Meire.
Os dois marginais, em tormento mental absoluto, só pensaram numa coisa: fugir dali!
Antes, para dificultar qualquer investigação policial, simularam um assalto:
furtaram os documentos de Anderson, que trocaram por outros, relógio, dinheiro e o anel que usava.
Colocaram as motos na carroceria, junto com Meire, desmaiada.
Foram à praça onde costumavam se encontrar e lá ela foi deixada, ainda inconsciente.
Propositadamente rasgaram suas roupas, simulando algum tipo de violência sexual - que, aliás, não tinha acontecido.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 05, 2017 12:15 pm

Deixaram o relógio dela no pulso e um valioso anel de brilhante.
Esqueceram-se, também, de que Meire estava ainda com um envelope de cocaína em pó.
Não a revistaram.
Esse foi o primeiro erro que os enredaria.
O segundo:
nem sequer buscaram saber o estado de Anderson, abandonando-o caído, inerte...
O roubo da camioneta e a posterior venda a um "desmanche" foi seu terceiro erro.
Um casal de namorados, num canto pouco iluminado, presenciou os dois rapazes abandonarem Meire e logo chamou a Polícia, tendo o cuidado de informar onde ela estava caída, mas afastando-se das proximidades, para evitar envolvimento ou testemunho.
Quando os policiais chegaram e viram Meire semi-desfalecida, com as vestes rasgadas, com manchas de sangue na nuca, convocaram uma ambulância, que logo chegou e conduziu-a ao pronto-socorro.
Lá, recuperando-se em parte, mas mostrando-se em extrema agitação, foi sedada.
Meire despertou na manhã seguinte, a cabeça doía muito pela coronhada que a atingira, mas principalmente pelo mal-estar em consequência da droga consumida, em reacção com os remédios que lhe foram ministrados.
Pensou em ir embora, mas foi impedida:
em seus pertences foi encontrada a dose de cocaína e por isso teve que prestar depoimento ao investigador de plantão no pronto-socorro.
Após, foi conduzida à Delegacia de Entorpecentes, onde teve que aguardar por várias horas, até ser entrevistada pelo Delegado.
Ao seu lado, inúmeros toxicómanos, a maioria jovem, devidamente escoltados por policiais fardados, diziam impropérios a toda hora, não raro recebendo admoestações, traduzidas, às vezes, por safanões "pedagógicos" de boas maneiras...
Na mente de Meire só havia uma ideia fixa:
sair dali, o mais depressa possível.
A seu favor, após ser qualificada, sendo identificada a filiação paterna do ilustre industrial, a autoridade policial aplicou o dispositivo legal que comina "pena leve" ao usuário eventual.
Já passava da hora do almoço quando Meire chegou à sua casa, conduzida por um táxi, em péssimo estado físico e psicológico e com as vestes rasgadas.
Sabia, de antemão, que enfrentaria uma saraivada de perguntas por parte da mãe e do irmão.
Assim, procurou engendrar uma desculpa plausível.
Estava lucubrando sobre o que diria quando subitamente explodiu na mente a lembrança do irmão.
— Anderson! - exclamou em pânico crescente.
Como pudera esquecer-se dele?
Também, com tanta confusão à sua volta, nas ideias, com dores, médicos e doentes no pronto-socorro, policiais, viciados e ela no meio deles, na delegacia...
Como se concentrar?
Assim, justificando-se intimamente, chegou em casa e lá apenas encontrou dois serviçais, que se assustaram ao vê-la em tamanho desalinho.
— Onde estão minha mãe e meu irmão?
— Então a senhora não sabe?!
— O quê? Digam-me logo!
— Antes de o dia amanhecer o doutor Américo veio aqui e levou sua mãe, para ver seu pai...
— Oh, não!
Papai... morreu?
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 05, 2017 12:15 pm

— Não, não, dona Meire.
O doutor Américo disse que seu pai ia passar por uma cirurgia e por isso os médicos convocaram-no, por ser médico da família, sugerindo que a dona Luiza também estivesse no hospital, antes de iniciar o transplante...
— Transplante?! Então...
O silêncio dos empregados homologou o que quer que Meire estivesse pensando.
Após tomar banho com cuidado para não molhar o curativo na cabeça, colocou uma touca e dirigiu-se célere ao hospital.
Levou um susto quando, ao chegar, viu sua mãe amparada pelo doutor Américo.
Luiza, ao ver a filha, quase gritou:
— Onde está seu irmão?
— Mas... eu pensei que ele estava aqui com a senhora...
— Não, não está, como você pode ver.
Será que você consegue ver e pensar em alguma coisa que não seja a maldita droga?
— Anderson esteve comigo... ontem à noite...
— Pois é, deve ter ido para a casa dele, pois passou a tarde toda na nossa empresa, segundo me informei.
Ele precisa saber que o pai está sendo operado!
— Então... o papai... o que os médicos estão fazendo?
— Seu pai – adiantou o doutor Américo – ganhou a sorte grande, pois surgiu um doador ideal!
— Então ele está recebendo um outro coração?
— Isso mesmo. Graças a Deus!
— Quem foi o doador?
Luiza retomou:
— Um rapaz que morreu ontem e, por ser doador voluntário, segundo seu documento de identidade, acabou beneficiando mais pessoas, pois os médicos aproveitaram também os rins, pulmões e fígado.
— Pobre rapaz, que Deus o abençoe!
Nesse momento, o doutor Renato veio até eles e, sorridente, tranquilizou-os:
— Nosso Ari está de coração novo e logo estará tão activo quanto antes, ou talvez até mais...
Luiza e Meire começaram a chorar, sendo carinhosamente abraçadas pelo cirurgião.
Américo congratulou-o:
— Parabéns, doutor Renato!
Admiro-o cada vez mais.
Incapaz de disfarçar o sempre presente zelo médico dos dedicados profissionais da medicina, questionou, com respeito:
— Como foi a cirurgia?
Também com zelo profissional, Renato foi pragmático:
— Tudo transcorreu dentro do programado.
Sugiro que os familiares descansem um pouco, pois só mesmo amanhã é que poderão fazer uma rápida visitinha ao Ari, que deverá permanecer algum tempo na CTI.
Chegando em casa, Luiza ficou sabendo que Anderson não havia se comunicado e ninguém em sua casa atendia às chamadas telefónicas.
Marcelo, o motorista, foi até lá e encontrou a casa fechada.
Foi procurar a companheira de Anderson, mas ficou sabendo que viajara, há dias, desde que o pai dele fora hospitalizado.
Meire, constrangida e abalada pelas desencontradas e violentas emoções das últimas vinte e quatro horas, acrescidas do desespero que havia tomado conta da mãe, não conseguiu esconder mais o que sabia e desabafou:
— Mãe, não quero que você me condene, mas preciso contar-lhe uma coisa...
— E o que é que está esperando?
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 05, 2017 12:15 pm

Eu chegar aos noventa anos?
— E por isso que quase não converso com você:
procuro me comunicar numa boa, em paz, mas logo vem uma pedrada... desse jeito não dá...
— O que é isso agora?
Virou santa?
Desde quando sou obrigada a aturar seus despautérios, nessa coisa horrível das drogas?
— Está vendo? Está vendo só?
Quero contar uma coisa importante, mas imagino que, se pudesse, você até mandaria me enforcar...
Com ar zombeteiro repreendeu a mãe:
— E desde quando a senhora se julga grande dama para ficar usando palavras difíceis, como esse tal de despautérios, que imagino deva significar desequilíbrios?
Deixe disso, mãe: sou sua filha...
Você não está numa daquelas horríveis reuniões programadas por você mesma, cheia de fãs e vazia de...
— Cale a boca! Não admito esse tom!
— Tudo bem...
Depois não se queixe de que eu não falei...
Luiza agarrou a filha, agora dando vazão à sobrecarga emocional que vinha acumulando.
Sacudindo Meire com força, intuindo que algo grave havia a ser narrado, exigiu:
— Ou você fala agora o que queria me contar ou então vai embora dessa casa... e não volta nunca mais.
É sempre gravíssimo o instante num lar em que um pai ou uma mãe, ou os dois, expulsam um filho ou ameaçam-no de expulsão.
Não há como excluir do contexto forte assessoria espiritual negativa, provocando, não raro, germinação de tristes processos obsessivos, de graves consequências futuras.
No caso da família de Ari, há tempos sem união fraternal, aqueles poderiam ser os momentos de refazimento, de reconstrução, ou então de esboroamento completo, praticamente perdendo, os quatro, a sublime chance que a presente existência e a providencial doença de Ari lhes ofertava para eliminar arestas.
O Espírito Abdiel, guardião daquele lar, por voluntária missão que o Plano Maior autorizara, podendo prever muitas das infelicidades que um rompimento naquele momento traria para todos, agiu com fé:
do fundo da alma suplicou a Jesus que intercedesse, não permitindo que influências destrutivas imperassem.
Em instantes, atendendo à sentida prece do fiel servidor, acorreu àquele lar uma equipe de espíritos socorristas, aureolados de luzes que pareciam despejar fragrâncias luminosas.
Com calma e gratidão, Abdiel viu que inúmeros malfeitores do plano invisível saíram em desorientada carreira.
Os mensageiros rodearam Luiza e Meire e, também em preces, conseguiram transferir para ambas vibrações luminosas que lhes sensibilizaram a alma.
Com efeito, mãe e filha, de início se olhando com espanto, tal como se nunca se houvessem visto, mas logo abrandando a dureza da fisionomia, atiraram-se uma à outra, num abraço reconciliador.
Meire balbuciou:
— É sobre o Anderson...
— Pelo amor de Deus, minha filha, diga logo!
— Estive com ele ontem à noite...
Nos encontramos por acaso, lá nas proximidades do estádio municipal de futebol.
— O que vocês faziam lá?
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 05, 2017 12:15 pm

Mentiu:
— Eu tinha um encontro com um namorado, na praça em frente ao estádio de futebol...
Quando estava na Praça do Jardim Botânico, aguardando condução, o Anderson me viu e me deu uma carona, levando-me até lá...
— E daí? E dai?
— Assim que chegamos e eu desci do carro dele e fomos assaltados...
— Como?! O que aconteceu?!
— O Anderson me defendeu, pois os bandidos tentaram me injuriar...
Aí, os malvados atiraram nele e eu briguei com eles, mas me bateram na cabeça e eu desmaiei.
Acordei no Pronto-Socorro Municipal, onde passei a noite.
Tirou a touca e mostrou o curativo.
Luiza nem sequer quis saber disso:
— O meu filho... onde está?
Feriu-se muito?
Diga-me, pelo amor de Deus!
— Não sei, mãe... não sei...
— Mas onde você o deixou?
— Semi-inconsciente, pude ver que os bandidos me levaram para uma praça, longe do local do assalto, e me jogaram lá.
Comecei a gemer o mais alto que podia e alguém me achou, chamou a Polícia e fui levada para ser socorrida.
— E o seu irmão:
o que fizeram com ele?
Ninguém o socorreu?
— Não sei... não sei...
Sobressaltada e em desespero, Luiza telefonou para a Polícia e após se identificar narrou o acontecido com seus filhos.
O policial que a atendeu prometeu verificar os arquivos das últimas horas e informar-lhe, tão logo averiguasse, o paradeiro de Anderson.
Poucos minutos transcorreram e o telefone tocou. Luiza atendeu de um salto:
— Dona Luiza?
Aqui é o delegado Lopes.
Nenhuma ocorrência foi registada nas últimas vinte e quatro horas com seu filho.
— Mas como é que ele não veio nem aqui em casa, nem onde mora?
Minha filha disse que ele levou um tiro...
— A senhora poderia adiantar-me mais alguma informação sobre a ocorrência?
— Que tipo de informação?
Minha filha estava com ele...
— Por favor, precisamos saber a que horas eles foram atacados e o local exacto.
— Minha filha está aqui ao lado e vou perguntar para ela.
Trémula, em desespero crescente, Luiza indagou à filha:
— A polícia quer saber o endereço exacto onde vocês foram atacados e que horas eram...
— Deixe-me falar.
Tomando o telefone da mãe, Meire identificou-se e disse:
— Aqui quem fala é Meire, a filha.
Eu e meu irmão fomos atacados ontem lá para os lados do Estádio Municipal de futebol, longe da praça onde fui socorrida, isso por volta das sete e meia da noite.
Levei uma coronhada na cabeça, praticamente desmaiei e passei a noite no pronto-socorro.
Por isso não posso precisar o que aconteceu depois.
— E os assaltantes?
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 05, 2017 12:16 pm

Como eram? Como foram até lá?
— Ambos jovens, de motocicleta.
— Responda-me, por favor:
o que a senhorita fazia lá nas proximidades do estádio de futebol, àquela hora, e como chegou até aquele local?
— Meu irmão levou-me, pois me viu num ponto de táxi, e eu disse a ele que tinha um encontro...
— Com quem a senhorita ia se encontrar?
— Com um namorado...
— Diga-me agora mesmo o nome dele e onde o poderei encontrar, para confirmar sua informação, pois é muito estranho que em vez do namorado a senhorita tenha encontrado dois assaltantes...
Meire atrapalhou-se, depois se lembrou de que fora socorrida, que havia sido lavrado um B.O. e que não adiantava querer mentir.
Respondeu:
— Os dois assaltantes me prometeram que, quando chegássemos lá no estádio de futebol, me dariam uma pequena dose...
— Então a senhorita já os conhecia e foram eles que a levaram, não é mesmo?
Impossível desmentir.
— Sim... de longe em longe eles me fornecem uma dose fraca...
— Poderia os identificar?
— Nem pensar!
Se fizer isso, logo estarei morta, pois eles sempre me ameaçam quanto a qualquer palavra que eu diga para comprometê-los...
— Mas nem mesmo em se tratando do seu irmão a senhorita não está disposta a colaborar com a polícia?
— Estou confusa... é melhor o senhor trabalhar sozinho.
— Nenhum outro detalhe?
— Mais um:
meu irmão chegou de surpresa e viu-os querendo abusar de mim.
Aliás, não sei o que deu na cabeça deles, nunca tinham procedido assim.
Aí, a briga começou e, quando o Anderson estava batendo nos dois, um deles deu um tiro nele...
— Qual dos dois?
— Miro...
— Uma última pergunta:
onde a senhorita e os dois homens se encontraram, antes de irem para as proximidades do estádio?
— Na Praça do Jardim Botânico.
Dessa vez me levaram até o estádio, com certeza porque já tinham premeditado abusar de mim.
— E... Conseguiram abusar?
— Não. Meu irmão não deixou.
— Obrigado pela colaboração.
Diga à dona Luiza que vou proceder a novas diligências e que aguarde notícias a qualquer momento.
Até logo.
Duas horas depois, Lopes retornou ao telefone:
— Dona Luiza, gostaria que a senhora viesse até aqui...
— Por quê? Por quê?
Meu filho?
— Aqui conversaremos.
Estou aguardando-a.
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