TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 10:37 am

Quando ela chegou à Delegacia, em menos de meia hora, o delegado Lopes cautelosamente anunciou:
— Dentre as várias ocorrências da noite, houve uma nas proximidades do estádio de futebol que talvez se enquadre na nossa busca...
— O que aconteceu?
— Não temos certeza... são apenas suspeitas...
Mas a senhora compreende:
nós, da Polícia, não podemos desprezar nenhuma pista...
— Sim, sim, por favor: diga logo!
— Houve um crime ontem à noite...
Assassinato de um jovem de mais ou menos vinte e um anos.
Junto da vítima foi encontrada a cédula de identidade:
Wenelau Paul Sáenz...
— Mas o que meu filho tem a ver com isso?
O delegado fez terrível silêncio.
Com o tino altamente desenvolvido pela longa experiência profissional, juntando o que sabia com o que precisava saber, fez uma melindrosa sugestão:
— Não quero constrangê-la e menos ainda assustá-la, mas é preciso que sejam averiguadas todas as hipóteses, mesmo as mais terríveis, do contrário não conseguiremos avançar nas investigações.
Tenho uma levíssima suspeita de que só a senhora poderá desvendar tudo de pronto.
Do contrário, sem sua ajuda poderei diligenciar por chegar às mesmas conclusões, só que de forma muito mais demorada.
— O que o senhor quer que eu faça?
— O reconhecimento do jovem que morreu assassinado...
— Meu Deus!
Será possível?
— Só saberemos se a senhora puder eliminar qualquer suspeita de que não se trata do seu filho.
Aí, prosseguiremos nas buscas.
— Mas... por que o senhor pensa que o jovem que morreu, de nome Wenelau Paul Sáenz, pode ser o Anderson?
— Na verdade, não estou pensando isso.
Acontece que a vítima levou um tiro no rosto que lhe desfigurou parte da fisionomia.
Mas minha suspeita prende-se, principalmente, ao facto de que o jovem que morreu teve todos os seus bens roubados, menos a identidade.
Porquê?
Localizamos a ficha policial dele e ficamos sabendo que era viciado.
Parece que o criminoso, ou criminosos, propositadamente deixaram o documento, para logo a Polícia descobrir que se tratava de um toxicómano...
Assim, o crime provavelmente seria tido como acerto de conta entre traficantes e viciados, sendo muitos os suspeitos, dificultando a acção investigadora da Polícia.
— Quando o senhor quer que eu...
— Agora mesmo!
Vamos ao IML?
— Por favor:
siga à frente em seu carro que irei no meu, pois estou com motorista.
Antes, vou pedir ao nosso médico da família que me encontre lá no Instituto, está bem?
— Nenhum problema.
Imagino até que será de utilidade...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 10:37 am

9 - ESTRELAS FALSAS
Luiza, nos últimos dias, vinha passando por sucessivas experiências dolorosas, tal como se caísse de uma alta escada, dessas cavadas na pedra, com dezenas de degraus.
A cada degrau, novo baque...
Dirigindo-se ao IML, pensava, com revolta:
"Eu, 'a mulher mais bela dentre todas', como bem comprovam os colunistas sociais, eu, que até então vivi para expor-me como jóia raríssima, nos ambientes sofisticados que me abrem as portas, eu, a mulher que deslumbra os homens, como é que estou capturada nesse cruel redemoinho existencial?"
Com a mente nublada, não se dava conta de que, na verdade, era mesmo uma mulher belíssima, mas até ali pouco fora esposa, menos ainda mãe.
Sim: o marido, que nunca fora sua razão de ser, mas apenas o sustentáculo financeiro dos actos que sua vaidade exagerada comandava, agora estava internado e em estado delicado; quanto aos filhos, Anderson, a única criatura à qual vez por outra dispensava sentimentos de amor - maternal, no caso -, estava desaparecido; e Meire, finalmente, a filha rebelde e desmiolada, ainda por cima toxicómana, evadira-se da clínica de recuperação e nem sequer dava sinais de qualquer arrependimento; a demonstração de carinho de há pouco, com certeza, era mais à conta da culpa pelo transtorno causado ao irmão... pois até seu cartão do banco a filha surripiara e sacara algum dinheiro.
Sem reflectir nessas nuanças de seu equivocado viver, seguia pensando, antes de chegar ao IML:
"Triste sina esta que abruptamente me enrodilhou em acontecimentos funestos.
Mal posso acreditar que eu, a rainha das passarelas sociais, vejo-me neste instante obrigada a tamanho desplante:
reconhecer cadáveres..."
Não se lembrou de Deus em nenhum momento dessa tormentosa escalada de más surpresas e piores momentos, ou melhor, dessas quedas sucessivas.
O seu céu era o somatório dos ambientes sofisticados nos quais os flashes dos cinegrafistas e as baboseiras dos comentaristas sociais eram as estrelas.
Equivocado céu...
Mas em tal céu só havia um sol: ela!
Sol esse que, paradoxalmente, brilhava mais nas noites sumptuosas e de deslumbrantes ajuntamentos de frivolidades, em que as multiplicadas horas que se escoavam multiplicavam também as iniquidades que aumentavam a dimensão do vazio existencial de quantos ali se reuniam.
Nessas oportunidades, em se aproximando o alvorecer, o "Sol Luiza" se retirava, talvez como se estivesse inconscientemente concedendo espaço à sublime, incomparável e maravilhosa bênção divina: o Sol!
Agora, tendo que suportar o calor escaldante da tarde que já ia terminando, a mente fervilhava, pois não encontrava onde apoiar a razão para descansar a mente das ideias em tumulto.
Seus pensamentos, fundamentados em revolta, não lhe concediam mesmo alívio espiritual naquele vendaval de hipóteses cruéis que a realidade escancarava à sua frente.
Se o passado fora de glória e luzes, o presente estava sendo amargo e o futuro só projectava sombras e incertezas.
E imaginar que um único pensamento dirigido a Deus, com sinceridade de alma lhe daria o oásis espiritual da paz...
Aguardando na sala de espera do IML, enquanto o delegado providenciava o reconhecimento, Luiza mal conseguia acreditar que sua beleza estivesse naquela lúgubre e fantasmagórica repartição pública, tão diferente das passarelas da vida nas quais desfilava...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 10:38 am

O doutor Américo, que já chegara, procurava incutir-lhe ânimo.
Foi com alívio que recebeu a informação de que ali não havia nenhum corpo com as características do Anderson.
Durou pouco, porém, sua alegria, quando Lopes aduziu:
— Se o jovem assassinado ontem à noite era doador de órgãos, o corpo dele deve ter sido levado para a Central de Transplantes, para que as diversas equipes médicas o examinassem e decidissem pelo aproveitamento dos órgãos em vários transplantes.
Luiza olhava o delegado, imobilizada.
Não conseguia pronunciar palavra.
— O doutor Américo precisou ir atender a um chamado de um cliente.
- Se a senhora quiser - sugeriu Lopes -, poderemos ir até a Central de Transplantes para colher mais informações...
Luiza só conseguiu mover a cabeça, concordando.
No deslocamento para a Central, agora que a noite chegara e com ela o céu se enfeitara de estrelas, nem a suave brisa que a afagava conseguia despertar-lhe na alma sentimentos outros que não os de desespero, alimentando revolta crescente contra o destino e a vida...
Seus pensamentos:
"Que mal fiz ao mundo para ele me tratar assim?
Se existe justiça na Terra, ninguém vê meu sofrimento?
Tenho direito a tantas alegrias...
Porque o destino só me oferta frutos amargos?"
Chegando à Central de Transplantes do Estado, Luiza teve que aguardar por uma hora.
Ligou para sua casa e ficou sabendo que até aquele momento não havia nenhuma notícia do filho.
Pelo telefone celular pediu ao doutor Américo que fosse naquela hora mesmo para a Central de Transplantes, para auxiliá-la em tão pungente situação.
Por esse telefonema, o doutor Américo informou-a de que há pouco soubera que Ari ainda estava inconsciente, por efeito da anestesia, mas que os aparelhos monitoradores da CTI indicavam quadro estável, isto é, o transplante não apresentara nenhuma complicação.
Poucos instantes após, o doutor Américo chegou.
Lopes havia ido procurar a equipe responsável pelo aproveitamento dos órgãos do corpo do doador Wenelau Paul Sáenz, sendo então informado de que o corpo só poderia ser liberado bem mais tarde, pois os patologistas ainda precisavam concluir alguns procedimentos.
Insistindo e justificando seu pedido, conseguiu que a equipe médica liberasse o exame visual de reconhecimento, por parte de Luiza.
Os médicos deram a autorização por estarem cientes de que o doador se chamava Wenelau Paul Sáenz...
Imaginaram que logo seria desfeita a suspeita da mulher que buscava o filho desaparecido, chamado Anderson.
Enquanto aguardava Lopes retornar das dependências interiores, Luiza falou ao doutor Américo:
— Peço ao senhor que vá fazer o exame do tal cadáver, pois não me sinto disposta a passar por tão constrangedora situação.
— Mas, dona Luiza, acho melhor irmos juntos...
— Para quê? Para ver um defunto?
Não estou gostando desse delegado me obrigar a tais despropósitos...
— Acontece que o caso é gravíssimo... seu filho está desaparecido e a Polícia só está tentando ajudar.
Nesse momento o delegado aproximou-se e convidou:
— A senhora está pronta para me acompanhar?
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 10:38 am

Se quiser e puder, "vamos" agora mesmo proceder ao reconhecimento...
Não houve como Luiza recusar.
Quando Meire era atacada pelos dois marginais e Anderson interveio, estabelecendo-se a briga, ao ser atingido pelo tiro, este foi fatal.
Os criminosos não pensaram em mais nada:
retiraram o anel e o relógio de Anderson, abandonando-o.
Antes, deixaram no bolso da camisa dele um documento de identidade com o nome de Wenelau Paul Sáenz, que tinham tomado de um jovem viciado, devedor de muito dinheiro, para devolvê-lo só quando recebessem a dívida.
Wenelau Paul Sáenz, segundo sua identidade, era doador voluntário de todos os órgãos...
Após localizarem a camioneta, colocaram Meire e as motos na carroceria e foram para a praça, onde deixaram a jovem, ainda desmaiada e sangrando.
Levaram o veículo para uma oficina distante da praça e de onde houve a briga com Anderson.
Dispostos a obter algum lucro, venderam o carro a preço vil para um comprador de veículos usados, que, na verdade, praticamente só comprava carros roubados por valores ínfimos.
Tais veículos logo eram desmontados e as peças revendidas para oficinas conhecidas, sem registo oficial.
Não tardou para Anderson ser achado, pois naquele local muitos eram os casais que namoravam.
Quem o encontrou avisou à polícia num telefonema anónimo.
Antes que transcorresse uma hora do momento da briga, o homem ferido era levado directamente para o atendimento de emergência do Hospital Municipal.
O investigador policial de plantão no hospital anotou os dados fornecidos pela equipe médica da ambulância.
O Boletim de Ocorrência só seria lavrado na Delegacia no dia seguinte, no início do expediente matinal.
O médico plantonista que atendeu Anderson verificou que ele praticamente já estava no estágio terminal, tecnicamente denominado "paciente com morte encefálica" ou "com morte cerebral".
Isso significava que não mais se recuperaria e que o desenlace integral poderia ocorrer dentro de alguns instantes ou em poucas horas.
Baseando-se apenas na informação policial, quanto aos documentos de identidade do paciente, o médico solicitou à chefe da enfermaria que informasse o Centro de Captação de Órgãos quanto à existência ali de um doador em potencial de múltiplos órgãos.
De facto, esse médico era amigo do doutor Renato, que lhe telefonara durante o dia solicitando empenho de encaminhamento, caso surgisse algum doador, para atender Ari, cujo quadro entrara na fase crítica de sobrevida.
A partir daí, Anderson foi transferido para o Centro de Captação, onde foi examinado por junta legal, composta de um neurologista e mais dois médicos, com a finalidade de comprovar a morte cerebral.
Confirmado tal diagnóstico, após o prazo legal de seis horas e ciente de que ali estava um doador voluntário, enquanto convocava as diversas equipes médicas para aproveitamento dos órgãos, cada uma dentro da sua especialidade, a junta médica, mais por ética do que por conduta legal, solicitou apoio policial para contacto urgente com familiares, pois, sendo doador declarado, pela lei dos transplantes não havia essa exigência legal.
Contudo, àquela hora da madrugada - perto das três horas -, o máximo que os policiais conseguiram foi localizar um tio da vítima, internado num hospital com cirrose hepática.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 10:38 am

Diante dos policiais, esse tio, ao ser acordado e à vista da identidade que lhe foi exibida, sem demonstrar a mínima emoção ante o falecimento do sobrinho, aborrecido até, informou que o morto era órfão de pai e mãe e que, como responsável por ele, já desistira de colocá-lo no bom caminho.
Declarando que o sobrinho "era um perdido", consolou-se dizendo que agora, "pelo menos na morte, talvez servisse para alguma coisa".
A concordância, assim, era tácita.
Então assinou termo de concordância com o eventual aproveitamento de órgãos do sobrinho.
Cumpridas as demais formalidades da lei, ao fim da madrugada alguns dos órgãos aproveitáveis do jovem Wenelau Paul Sáenz já estavam sendo conduzidos aos centros cirúrgicos nos quais angustiados receptores aguardavam a vez de serem contemplados com tal bênção.
Em nenhum momento os profissionais da saúde das equipes receptoras duvidaram da identidade do doador, até porque, diante das informações policiais, a ninguém também passou a ideia de que ali houvesse qualquer engano, menos ainda fraude.
Culminando os factores coincidentes que levaram todos os que participaram do atendimento a Anderson a se sentirem seguros dos procedimentos, a identidade trocada exibia foto de um jovem cujo biótipo, sinais característicos, tipo sanguíneo e factor RH eram os mesmos...
Quanto aos traços fisionómicos, o tiro na face inviabilizara em parte a identificação.
Naturalmente, o coração foi o primeiro órgão a ser aproveitado para o transplante.
Após rigorosos exames e testes, sendo comprovada a excelente adequação e compatibilidade, foi destinado a Ari...
Não que ele fosse o primeiro paciente da lista de espera, mas sim aquele doente cuja ficha médica apresentava maior compatibilidade.
Contudo, para tal decisão, dois foram os factores determinantes:
1º - seu estado gravíssimo;
2º - a proximidade (mesma cidade) entre doador e receptor, pois os doentes que encabeçavam a lista eram de cidades distantes, tornando impraticável que, àquela hora da noite, houvesse a possibilidade de serem atendidos, não só pela falta de equipa cirúrgica especializada onde se encontravam, como também pelo prazo máximo viável para utilização do órgão:
seis horas; aliás, chegou a ser feito contacto com dois desses pacientes, mas as respectivas equipas médicas que poderiam atendê-los só teriam condições de se reunir na tarde daquele dia, inviabilizando assim o transplante cardíaco.
Determinante da decisão de destinar o coração para Ari foi o facto, definitivo, de que todas as condições de peso, altura, idade, tipo de sangue e factor RH indicavam-no como o receptor mais compatível.
A ninguém escapem os meandros percorridos pela Justiça Divina, em todos os acontecimentos, humanos ou espirituais, às vezes julgados os mais díspares, mais estranhos, mais inconcebíveis.
Para Deus - Omnipotente, Omnisciente, Omnipresente, Justiça Infalível, Amor Integral e Inteligência Suprema -, não existe o "acaso".
Acaso é uma palavra que Espíritos tutelares, racional e logicamente, eliminaram por completo do vocabulário cristão, quando consubstanciaram os informes sublimes que possibilitaram a Allan Kardec codificar o Espiritismo - o Cristianismo Redivivo!
Demonstrando e exemplificando caridade, tais Instrutores Siderais subtraíram do dia-a-dia o "acaso" e, por extensão, "sorte" ou "azar", em seu lugar implantaram o entendimento da irrevogável, justíssima e perfeita Lei Divina de Acção e Reacção. Jesus, Mestre dos mestres, leccionou:
"A cada um segundo suas obras".
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 10:38 am

De tempos imemoriais visita algumas almas a sugestiva e veraz concepção do carma, traduzida, ampliada e explicitada pelo Espiritismo sob a noção de "causa e efeito", por vezes cognominada de "choque de retorno" (o que, em substância, sem alterar o princípio filosófico de tal concepção, apenas amplia seu conteúdo).
Traduzindo, em termos espirituais, podemos apreciar que tudo aquilo que é produzido por um Espírito - desde pensamentos a acções físicas -, bem como por todos os Espíritos no universo todo, torna-se geratriz de consequências...
Aliás, ao tratarmos de acção e reacção, encontramos na própria física fundamento similar, pela "lei do atrito", presente em todos os movimentos de corpos sólidos, em maior ou menor grau, sendo praticamente inexistente o grau zero.
Assim, se a primeira proposição é de ordem moral, a segunda é de ordem terrena.
Mas, em essência, não diferem entre si:
toda acção gera uma reacção.
"Acção e reacção!"
Nada mais justo!
Todas as mazelas:
dores, angústias, aflições e dúvidas, quando iluminadas pelas luzes dessa Lei universal, agasalham-se na lógica, que gera entendimento, que gera resignação.
Por isso, não pergunte aos céus "por que" você sofre.
Pergunte ao seu guardião espiritual qual a melhor forma de administrar o abençoado sofrimento de agora.
Deixe que a resposta daquele sempre presente amigo tutelar seja ouvida pelos ouvidos infalíveis da sua consciência.
Ele certamente o amparará, falando à sua alma do Amor do Pai, falando de Jesus, o Bom Pastor, ajudando-o a robustecer a fé, bendito analgésico, o mais eficiente para os sofrimentos físicos e, máxime, morais.
Mente a mente, ele (seu anjo guardião) lhe dirá da infinita misericórdia divina, que, ao engendrar a Vida, abençoou-nos com a inteligência, a consciência e a liberdade de agir.
Dirá mais:
que fomos criados perfeitos por Deus e, partindo do nadir da "simplicidade e da ignorância", rumaríamos de forma inexorável para o zénite da evolução espiritual - a luz da alma, qual Sol a iluminar nossos espaços, repartindo tais claridades com caminheiros que venham atrás.
E mais: se esse caminhar demandar tempos sobre tempos, outra bênção Deus nos deu: a eternidade!
Diante dela, todos os factos, acontecimentos e projectos, bons ou maus, ocorridos sob nossa custódia, a nós retornarão em forma de consequência.
No deambular dos séculos - filhos decimais dos milénios - a grande peneira das reencarnações irá expondo à claridade solar o Bem, que sobrevive, e o mal, que se esvai, em cada um de nós, no fluxo depurativo das vidas sucessivas...
Cada minuto de sofrimento é um grão que essa bateia deixa passar, tanto quanto cada boa acção é um brilhante que fica exposto na superfície para sempre.
Quando cada um dos minúsculos vãos dessa bateia estiverem ocupados, aí não caberá mais sofrimento e será tempo de passar para outra peneira, ainda mais rigorosa, de brilhantes também ainda mais brilhantes.
Por tudo isso, difícil, mas proveitoso, abençoe a dor.
Ela não é sua inimiga.
E, simplesmente, a credora compassiva, que o visita quando seu saldo moral pode quitar antigos débitos, muitos deles contraídos em longínquas vidas, mas no presente acumulados na ganga dos nossos descaminhos.
E se você define com certeza plena que em sua trilha de angustias só encontra o "destino cruel e inexorável", travestido de cobrador implacável, ainda assim eleve o pensamento a Deus, isento de revolta.
E que, por vezes, somos tão endurecidos de alma, tão embrutecidos no pensar e agir, que nem sequer percebemos os descaminhos que palmilhamos, conducentes ao abismo profundo que seria infinito se, em boa hora, a dor, inevitável e abrupta, não interrompesse nossa queda livre, qual providencial rede de segurança para afoitos, quão infelizes acrobatas.
Ainda aí, a Caridade de Deus!
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 10:39 am

10 – CAMA DE MÁRMORE VERDE
Acompanhada do doutor Américo e do delegado Lopes, Luiza transpôs a porta que dava acesso ao interior da sala de patologia.
Sem que olhos humanos atestassem, ela, ignorando-o, foi envolvida por uma capa de luz vinda do plano espiritual, qual se fosse agasalhada de forma conveniente para adentrar numa câmara frigorífica, com temperatura negativa.
Ninguém viu essa protecção.
Mas Luiza sentiu um fortíssimo arrepio percorrer-lhe de alto a baixo.
Atribuiu tão estranha sensação à lugubridade do ambiente em que se achava, o que lhe causava enorme desconforto.
Vários médicos cruzaram com os três, expondo faina intensa.
Lopes, à frente, indicou-lhes uma outra porta, que abriu e manteve aberta, até Luiza e Américo adentrarem.
Luiza, com o que viu, sentiu-se mal:
sobre uma mesa de mármore, coberto com lençol azul-claro, jazia alguém...
Uma etiqueta, presa ao dedo do pé, indicava:
"Wenelau Paul Sáenz".
Lopes, cauteloso, olhou-a demoradamente, como se estivesse dialogando com ela, assim como se perguntasse se queria continuar ou desistir...
O delegado, em gestos seguros, agora desviou o olhar para o doutor Américo, fazendo mentalmente idêntica interrogação.
Com leve aceno, Américo confirmou: prosseguir...
Lopes voltou a olhar para Luiza, esta, já agora perdendo por completo a capacidade de decidir, trazendo vidrados os olhos, qual se estivessem sob hipnose.
Ele levantou a ponta do lençol, descobrindo o rosto do lado contrário ao do ferimento.
Teve o cuidado extremo de não expor o restante do corpo sobre o mármore.
Luiza, na menor fracção de tempo que seja possível imaginar, talvez um milhão de vezes mais rápida do que um segundo, reconheceu-o:
ali jazia seu filho.
— Anderson... Anderson... Anderson!
Imobilizando os gestos e o próprio tempo, murmurou:
— Que lindo está meu filho, ainda bem que no nosso mármore verde.
De facto, a mesa sobre a qual estava o corpo era de mármore...
Estática, olhos empedrados num brilho estranho, mente em absoluta incapacidade de raciocinar, nem sequer conseguia respirar.
O coração, em defesa, acelerou os batimentos, imprimindo pressão no trajecto da circulação sanguínea, pois a oxigenação cerebral mostrou-se em risco de acidente.
Nela, a sobrecarga geral de adrenalina evitou colapso.
Não tivesse protecção espiritual, teria enlouquecido no acto.
Impossível qualquer raciocínio.
Américo, qual pai, amparou-a.
Compreendeu que Luiza mergulhara nas profundezas do nada, agasalhando-se numa verdadeira síndrome psicológica de fuga da realidade.
Lopes, de pronto, captou a extensão daquele drama.
Auxiliado pelo delegado, Américo conduziu Luiza à residência, onde ela chegou em prostração total.
Após receber cuidados médicos do doutor Américo, permaneceria por várias horas sedada, de forma que o organismo reagisse à brutal realidade.
Quando Meire soube que Anderson estava morto, ela, sim, viu-se tomada de crise convulsiva, com desarranjo mental, incapaz de coordenar as ideias.
Ora gritando, alucinada, ora proferindo sinistros sons cavernosos, ora gesticulando qual ave de rapina em combate contra inimigos invisíveis, arranhava agressivamente o vazio.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 10:39 am

Não era o vazio...
Ali estavam espíritos infelizes que, embora não fossem vistos por ela, de alguma forma tinham a presença registrada, inconveniente.
Eram infelizes, sim, mas não tão infelizes como mãe e filha, ambas à beira da insanidade mental.
Tais espíritos, de qualquer forma, eram partícipes daquele desarranjo moral, prontos para usufruírem, vampirescamente, das energias destrambelhadas que se soltavam da aura de ambas.
O doutor Américo, cujo coração batia mais forte sempre que se aproximava de Meire, ao vê-la naquele triste estado, acercou-se dela e de forma amiga, carinhosa mesmo, buscou ampará-la.
Dizendo-lhe palavras de encorajamento, medicou-a igualmente com soníferos.
A seguir, junto com Lopes, retirou-se.
Do lado de fora da residência, olhavam-se, mudos.
Lopes quebrou o silêncio:
— Você captou a extensão dessa tragédia?
— Sim. Sim...
— Porque a dona Luiza não atinou com o facto?
— Entrou em vazio existencial no mesmo instante em que viu o corpo do filho.
E isso foi bom, pois, do contrário, poderia sofrer um choque fatal.
Mas amanhã, quando despertar, nem quero pensar no que poderá suceder à sua saúde física e mental.
De lá foram à presença do doutor Renato, a quem participaram o ocorrido.
Homem acostumado a emoções fortes, tanto provenientes de seus pacientes, muitos deles terminais, quanto dos familiares, o cirurgião abalou-se:
— Meu Deus!
Como é que isso foi acontecer?
Refazendo-se, recomendou que Ari não fosse informado de que trazia no peito o coração do filho.
Pelo menos por enquanto, essa notícia teria que lhe ser ocultada.
Certo, teria que saber, mas não agora.
Procedendo a interrogatórios seguidos, primeiro junto com o doutor Américo, a seguir com os serviçais da casa de Ari, e principalmente junto com Marcelo, o motorista, não foi difícil ao delegado Lopes levantar um esboço dos acontecimentos.
Como ponto fundamental de partida para as investigações, apoiou-se no facto de Meire ser toxicómana.
Sabendo que criminosos, em geral, não praticam o crime só uma vez, repetindo-o e, quase sempre, empregando o mesmo modus operandi (maneira de proceder), foi verificar os arquivos policiais na parte dos usuários eventuais - aqueles pilhados em flagrante consumindo drogas.
De forma específica, procurou algum depoimento citando "dois fornecedores, de motocicleta".
Não demorou e de facto, logo encontrou vários boletins de ocorrência policiais em que essa característica era citada.
Sabendo também que traficantes agem em "territórios próprios", sem dificuldade localizou a região na qual "dois motociclistas forneciam drogas a clientes".
Ao assinalar no mapa da cidade essa região, com certeza crescente de estar agindo no rumo certo, verificou que ali se localizava a praça onde Meire fora encontrada...
Foi até lá.
Prometendo sigilo absoluto, logo foi informado por pessoas dali de que realmente aquele logradouro público vinha sendo utilizado por viciados e, por consequência, volta e meia ali circulavam seus fornecedores.
— Duas motocicletas juntas, entregando pequenos volumes para alguém, talvez envelopes, você nunca viu por aqui?
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 10:39 am

Muitos responderam negativamente.
Até que um vigilante nocturno, com destemer, ajudou:
— Vi sim, doutor:
são dois rapazes, um muito forte.
Sempre estão com blusão, imagino que para ocultar alguma arma...
— E quando é que eles vêm aqui?
— Não tem hora marcada, mas, geralmente, quando escurece...
— Quem compra a mercadoria deles?
— São sempre os mesmos...
— Só homens, ou mulheres também?
— Mulheres, menos.
— Você conhece esta jovem?
Ao ver a foto de Meire, que Lopes exibiu-lhe, o vigilante vacilou:
— Pode ser... pode ser...
— Vamos fazer o seguinte:
você me ajuda e eu lhe arranjo um emprego longe daqui, pois não será bom permanecer nessa área, depois que eu os prender.
Desconfiarão de todos e mais de você...
Aí, todo cuidado talvez seja insuficiente para evitar vingança.
— O doutor tem razão:
se estou contando essas coisas é porque tenho um filho que se perdeu na maldita droga...
— Sinto muito...
Quando terminar essa investigação, prometo que vou tentar ajudar seu filho...
— O senhor pode ajudar desde agora...
— ?!
— Reze por ele.
Está morto. De overdose.
Lágrimas sentidas, ardentes, falaram alto da dor daquele pai.
Lopes abraçou-o, comovido.
Ofertou:
— Vou ajudar seu filho, sim:
em minhas preces diárias, vou pedir a Jesus que o oriente e encaminhe para a paz.
Com os olhos marejados, o vigilante anuiu:
— Obrigado, doutor.
A moça da foto há tempos, pega droga com os dois.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Esteve uns tempos desaparecida, mas recentemente voltou a frequentar esta praça.
— Então você sabe que ela foi encontrada aqui mesmo com um ferimento na cabeça...
— Sei. Todo mundo por aqui sabe.
Mas ninguém irá dizer nada, com medo de represálias.
Eu até que compreendo...
Fazendo pausa, durante a qual olhou firme para o delegado, o vigilante parecia que estava testando a sinceridade do policial.
Deve ter intuído positivamente, pois forneceu a mais importante de todas as informações:
— Tem uma coisa que o senhor não perguntou, mas creio que é importante:
quando ela foi deixada aqui, num canto escuro, de facto ninguém viu quem foi, mas...
— Não tenha receio:
pode me contar.
— Não tenho certeza... o facto é que, naquela noite, pouco antes de a moça ser encontrada, os tais dois motociclistas passaram por mim numa camioneta de luxo, com duas motos na carroceria.
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Ave sem Ninho

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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 10:39 am

Achei muito estranho aquilo...
Eles sempre andaram de moto...
— Obrigado! Você ajudou bastante.
Aqui está meu cartão pessoal e espero-o na Delegacia, para tratarmos da sua transferência para outro bairro bem distante deste.
Grato, mais uma vez.
Na manhã seguinte, voltando à casa de Luiza, o delegado soube que Luiza e Meire ainda dormiam.
Pediu aos empregados domésticos que fossem chamar a patroa.
Meia hora depois, Luiza apresentou-se, em total desalento, muda.
Todas as tentativas de um diálogo não prosperaram.
Lopes, então, apelou:
— Dona Luiza compreendo sua dor, mas meu dever de policial obriga-me a agir de forma nem sempre simpática.
Preciso de sua colaboração, pois estamos diante de um crime gravíssimo: assassinato!
Do seu filho!
Luiza ficou olhando, apática.
Lopes prosseguiu:
— O Anderson, dona Luiza: o Anderson!
Foi assassinado!
E, com sua ajuda, estou quase certo de que poderei prender os assassinos dele...
Qual leoa ferida em combate, Luiza arregalou os olhos e, contraindo o corpo todo numa postura de atenção máxima que tanto poderia significar defesa quanto ataque iminente, proferiu em tom rouco, quase inaudível:
— Vou matá-los!
— Perdão, dona Luiza, mas a Justiça se encarregará de puni-los.
— Vou matá-los!
— Serão presos, julgados e, se provada a culpa, condenados.
Só preciso de sua ajuda...
— Onde estão?
— E justamente sobre isso que quero falar com a senhora.
Por isso estou aqui.
Há algumas pistas, apenas suspeitas, por enquanto...
— E o que nessa casa poderia haver que o pudesse levar aos bandidos?
A resposta de Luiza mudava o rumo do diálogo, contendo repreensão explícita ao trabalho policial.
Lopes assimilou e, sem perder a calma, mas também usando de sinceridade, foi enfático:
— Os suspeitos são os traficantes que...
Agora Luiza reagiu mesmo qual felino atacado e gritou a plenos pulmões:
— Meire... Meire está envolvida...
Ela é a culpada pela morte do irmão!
É ou não é?
Vamos, responda-me, delegado!
Imperturbável, Lopes manteve as rédeas da situação:
— De forma alguma posso confirmar.
Nem desmentir.
A seguir, com calma e prudência, sintetizou o resultado de suas investigações, tendo o cuidado de não informar o ponto de tráfico na praça.
Quando concluiu, solicitou:
— Gostaria que a senhora chamasse sua filha, agora mesmo, para conversar comigo...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 10:02 am

Imagino que ela realmente poderá ajudar a esclarecer muitas coisas...
— Se ela está envolvida, nada lhe dirá.
Aliás, está sedada desde ontem.
— Óptimo, então a senhora pode trazer-me os pertences dela e permitir que eu dê uma olhada, principalmente se houver agenda.
Luiza aquiesceu e, quando Lopes examinou a bolsa de Meire, nada encontrou que o ajudasse.
Sem desanimar, num lance intuitivo, fruto de sua perspicácia e longos anos de prática, verificou alguns números de telefone na agenda dela.
Lopes anotou alguns dos números e, após agradecer a colaboração, despediu-se.
Já à porta, saindo, encontrou-se com o doutor Américo, que chegava.
— Bom dia, doutor Américo.
— Bom dia, delegado Lopes.
Vejo que o senhor está de saída, mas gostaria que ficasse mais alguns instantes...
— Sim, se puder ser útil em algo.
Quando entraram, sentados frente a frente, Américo disse à Luiza:
— Vejo que você está mais conformada e me alegro com isso.
Contudo, há uma coisa de grande importância e você precisa ser mais forte do que nunca para compreender.
— Nada mais me importa... meu filho morreu...
— Nem Ari?
— Já nem sei o que pensar:
de repente, parece que toda a minha família vai morrer... meu filho, assassinado; meu marido, doente grave; minha filha, logo morrerá pelas drogas; e eu, por desgosto.
— Nada disso: todos estão vivos!
Anderson vive, Luiza!
— Como?!
— O coração que agora bate no peito do Ari é o do Anderson!!!
Nesse preciso momento, o cérebro de Luiza coordenou todos os antecedentes e a inacreditável realidade escancarou-se em sua mente, dando conta de que de uma forma extraordinária sua vida e a vida de seus familiares haviam transposto a fronteira do inimaginável.
O energético psíquico a derramar-se sobre a razão, em níveis muito acima dos normais, encontrou válvula de escape e novamente a livrou da loucura instantânea com novo torpor que a alcançou sob o influxo espiritual de Protectores Invisíveis.
Jamais duvidemos de que Espíritos amigos estão postados ao nosso lado desde alguns instantes que antecedem à eclosão daqueles fortes acontecimentos, transcendentais, do programa reencarnatório de todos nós.
Como tais acontecimentos são previstos com grande antecedência e com precisão absoluta dos detalhes determinantes, não fica difícil para nós, desde que confiantes na Justiça Divina, compreender e aceitar que nos momentos difíceis nunca estamos sós:
amparando-nos, confortando-nos e fazendo-nos piedosa companhia, equipes espirituais socorristas connosco estarão.
Não há como duvidar!
E assim que nossos débitos antigos, acumulados por nossa incúria moral, têm quitação; eis que, pela dor - abençoada mensageira que nunca deixou de nos alertar -, sobra-nos para a eternidade o inalienável aprendizado de que o amor é tudo.
Luiza, incapaz de administrar a duríssima realidade, superior a qualquer devaneio ou ficção, teve o juízo salvo por nova manobra cerebral, vegetativa, desviando-lhe o raciocínio.
Com efeito, espantosamente serena balbuciou em tom suave:
— Que bom que o Anderson estava dormindo sobre o nosso mármore...
Atónitos, Lopes e Américo entreolharam-se, deduzindo que aquela era uma recidiva da crise do dia anterior.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 10:02 am

— Vocês notaram - prosseguiu Luiza - como a cama do Anderson era de mármore verde?
Américo, em diagnóstico breve, explicou a Lopes:
— Luiza está, neste momento, sob acção daquela mesma síndrome de ontem, em alheamento que desencadeia colapso mental de duração indeterminada, comum quando alguém sofre grande impacto emocional.
Ela, no caso, vem de sofrer dois impactos em menos de vinte e quatro horas, além do que, já anteriormente, estava abalada...
Comentou:
— Em psicologia se poderá dizer que Luiza está sob protecção mental inconsciente, vivenciando atitudes catalogadas de "mecanismos psíquicos de fuga".
— Tais mecanismos... são prejudiciais, ou melhor, podem durar... para sempre? - perguntou o delegado.
— Nessa última hipótese, temos o que se configura como alienação mental permanente.
Mas não creio que seja o caso de Luiza.
Assim como ela já estava superando a primeira crise, imagino que igualmente superará esta - esclareceu Américo.
— Se não...
— Nem é bom pensar...
— O que podemos fazer para ajudá-la?
— No momento, com toda a certeza, só orar por ela, eis que o tempo, apenas o tempo, recolocará suas ideias em ordem e, aí sim, vou ter que a medicar, pois as reacções físicas serão imprevisíveis...
— Como assim?
— Saindo dessa fase de defesa inconsciente, não é raro que a pessoa decida martirizar-se, ora deixando de se alimentar, ora atribuindo-se insónia prolongada, ora se deixando invadir por sucessivas e intermináveis crises de choro, tudo isso desembocando num perigoso processo de auto-destruição.
Nesse contexto, depressão primeiro e stress agudo a seguir constituem duas perigosas vertentes que, se não forem dissipadas, poderão remeter o paciente à morte.
— Suicídio indirecto?
— Exactamente.
Peço licença para acrescentar apenas mais uma consideração, esta de cunho espiritual. Posso?
— Por favor!
— Sou espírita.
E, nas circunstâncias que envolvem Luiza, além das nuanças médicas que enunciei, considero muito provável a possibilidade de que ela, fragilizada pela tragédia que a alcançou, seja presa fácil para espíritos desencarnados, estabelecendo-se o sempre prejudicial processo obsessivo.
— Respeito profundamente o Espiritismo, Américo.
Não sei muito, mas o que sei leva-me a concordar com você.
Nunca me esqueço de uma palestra espírita a que assisti, certa vez, a convite de um amigo:
o palestrante, enriquecendo o que dizia com inúmeros exemplos, demonstrou como Deus sempre tira um bem de qualquer mal.
— Que bom que você disse isso.
O conceito de "mal", com o tempo, quase sempre se modifica e demonstra mesmo que, na verdade, aquilo que parecia tão ruim resultou num bem.
Américo, sem nada dizer, pensou:
"No caso de Luiza, imagino que no futuro dificilmente ela voltará a render o exagerado e egoísta culto à própria beleza, como vinha fazendo até aqui; aí, esse terá sido um primeiro bem resultante do actual mal..."
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 10:02 am

Enquanto Luiza murmurava frases ternas, como se estivesse conversando com o filho, o médico aduziu:
— Temos outra preocupação: Meire.
No momento está sedada, mas, quando souber desse fantástico desfecho não imagino qual será sua reacção...
— Conte comigo, se puder ajudar.
Agora, preciso ir.
— Ficarei aqui até Meire despertar e também cuidando de Luiza.
— Estarei a seu dispor para qualquer emergência.
Nesse momento, seguindo seu conselho, peço a Deus que ajude essa triste família.
Lopes expressou o que ia no coração:
um profundo sentimento de compaixão por aquelas pessoas.
Américo sentia o mesmo:
abraçou-o fortemente e, também envolvido por sentimentos fraternais, pensou em Jesus, com intenso fervor.
No mesmo instante, como se viesse directamente do céu, atravessando o telhado e o tecto da casa, uma luz brilhante, qual um infinito fio de cristal ao Sol, alcançou a cabeça de Luiza, iluminando-lhe o centro vital coronário.
Esse centro vital, gerenciador das energias dos demais centros vitais, inflando-se de fluidos celestiais, derramou-os por todo o organismo da combalida mulher.
Impressionante e sublime o poder da prece!
O mesmo fio brilhante, obediente ao pensamento de Américo e Lopes, em perfeita simbiose mental de caridade ambos, após energizar Luiza deslocou-se em direcção a Meire, que, prostrada em seu quarto, no mesmo instante sentiu-se reanimar.
Testemunho inabalável da bondade de Deus, quando Lopes ia saindo, Angelina vinha chegando, acompanhada de uma jovem.
Américo saudou a mãe de Luiza:
— Dona Angelina!
Que bom que a senhora veio!
— Essa é Ane - apresentou a jovem aos dois, aduzindo - ela é a companheira do Anderson...
Lopes desistiu de ir embora.
Adentrou a casa com os demais e surpreenderam-se todos, vendo Luiza adormecida no sofá.
Américo propôs que fossem à biblioteca, onde poderiam conversar mais à vontade sem despertar Luiza, deixando-a no sono repentino, restaurador com certeza, consequência da prece de há pouco.
Quando se acomodaram, os quatro, Américo narrou às duas mulheres os últimos acontecimentos.
Com vitorioso sobre esforço, ambas conseguiram administrar tão pungentes revelações que lhes causaram profunda dor e comedido pranto.
Deixando os dois homens boquiabertos, Angelina, em tom resignado, confidenciou:
— Somos espíritas, eu e Ane.
Frequentamos o mesmo Centro Espírita e nos conhecemos há tempos.
O Anderson também frequentava o lugar.
Graças a Deus, compreendemos que esses acontecimentos, tão dolorosos, são reflexo de equívocos cometidos por nós mesmos em vidas passadas.
Sabemos, com fé robusta, por ser escorada inteiramente na razão, que o nosso Anderson quitou pesadas dívidas...
Ante o espanto e mutismo de ambos, Ane em lágrimas ainda, como que avalizando as palavras de Angelina, fez que eles ainda mais se espantassem:
— Temos que orar em favor de quem cometeu o crime...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 10:03 am

Pesados débitos essa pessoa, ou quem mais estiver envolvido, terá contraído perante a própria consciência...
Cedo ou tarde, terá que os resgatar.
Abraçadas, choraram suas dores por mais alguns instantes, até que, como que despertando de um pesadelo, Ane exclamou:
— Deus é tão bom que me deixou duas heranças do Anderson...
A própria Angelina espantou-se, aliando-se aos olhares interrogativos dos dois homens.
A jovem, agora substituindo as lágrimas por um doce sorriso, esclareceu, acariciando o abdómen:
— Sim, Anderson não mais estará fisicamente comigo, por inteiro, mas o filho dele está chegando...
Graças a Deus.
E, enquanto espero, vou ficar o quanto puder por perto do senhor Ari, pois assim, quase de forma directa, estarei junto do coração do meu grande amor.
Angelina abraçou-a, repreendendo-a, grácil:
— Bela maneira de me dizer que serei bisavó...
Por que você não me contou que está grávida?
— Porque... ainda não estou...
— ?!
Médico, advogado e Angelina imaginaram, de pronto, que Ane estava algo abalada com as notícias e julgaram melhor não aprofundar aquela crise momentânea na razão dela.
Ane assimilou essa postura dos três, mas sorrindo matreiramente, julgou por bem silenciar, pelo menos por enquanto...
Prático, o doutor Américo solicitou às duas que por alguns dias ficassem ali para ajudar na recuperação de Luiza e Meire.
Concordaram.
Quando falou de Meire, Américo quase se traiu, expondo o que sentia por ela:
— A Meire é... muito especial... ao meu coração, isto é, como paciente, tenho muito carinho por ela... quero dizer, muita consideração...
Ante o sorriso maroto de Angelina, Américo remendou:
— O que quero dizer é que ela é minha... paciente.
Os homens se despediram e se retiraram.
Procedendo diligências com interesse e competência, delegado Lopes não tardou a capturar os dois entregadores de droga, Zeca e Miro.
Com eles encontrou alguns documentos pertencentes a Anderson, o anel e o relógio dele.
Em bem orientados interrogatórios e em prosseguimento às investigações, descobriu sobre a venda que eles fizeram da camioneta.
Com relação à venda clandestina do veículo de Anderson, Lopes apurou que Zeca e Miro, receosos das consequências da briga, imaginando-o morto, com o dinheiro que apuraram quitaram a dívida acumulada de Meire, no valor de onze mil reais, com o fornecedor de droga.
Indo ao endereço da oficina, o delegado nada encontrou.
Levado o facto ao conhecimento de Luiza, ela houve por bem não apresentar queixa do roubo do carro, para não trazer à tona a toxicomania da filha.
O facto de a dívida estar quitada foi até mesmo motivo de algum alívio quanto às ameaçadoras cobranças.
Como não houve queixa, o roubo diluiu-se, até porque não havia provas.
As provas materiais quanto à morte de Anderson, essas sim eram robustas, permitindo indiciar e incriminar a ambos por homicídio desqualificado, caso em que o criminoso não o planeou e aconteceu num momento inesperado de uma briga.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 10:03 am

Como o facto era grave, deveria o julgamento ir a júri popular, o que demoraria alguns meses.
O delegado e o cirurgião mantiveram longo diálogo, decidindo comparecer, juntos, à presença do juiz sob responsabilidade do qual estava o processo.
Lopes requereu à Justiça que o caso, por envolver a família da vítima, fosse mantido em sigilo, visando a salvaguardar a paz e o equilíbrio dos familiares, um dos quais - Ari - achava-se em delicadíssimo processo de convalescença.
Pedindo a palavra, o cirurgião usou de toda a sua respeitabilidade, fruto da competência profissional, para conseguir do juiz que o insólito acontecimento médico permanecesse restrito ao âmbito dos poucos profissionais dele encarregados.
A autoridade judiciária da Vara competente, ao ser notificada dos detalhes, naquela rápida audiência com o policial e o doutor Renato, autorizou a manutenção sigilosa do facto sob o amparo legal denominado segredo de Justiça1.
Considerando justas as razões apresentadas, o requerimento foi deferido.
O juiz que deferiu o pedido policial agendou o prazo de noventa dias como suficiente para que a família se refizesse.
Tomadas todas essas providências, de que foram informadas todas as pessoas que sabiam a identidade do doador, em uníssono e em simbiose mental elas pactuaram não revelar o segredo até que surgisse a oportunidade, sendo certo que quanto mais à frente, melhor.
Quanto à identidade do doador, para todos os efeitos era ele Wenelau Paul Sáenz...
Quando alguns repórteres procuraram identificar quem era tal pessoa, foram encaminhados pelo delegado Lopes ao tio, só que este havia morrido um dia antes...
O funeral de Anderson foi o mais discreto possível.
Todas as tentativas da imprensa de captar mais informações foram despistadas pela família, com ajuda do delegado Lopes e do doutor Américo.

1 - "Segredo de Justiça": previsto no Art. 155 do Código de Processo Civil, durante a Instrução de um processo, do qual somente o juiz, os advogados das partes, as autoridades policiais e o escrivão podem tomar conhecimento.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 10:03 am

11 - AS VÁRIAS FACES DA VIDA
Vendo Luiza e Meire adormecidas, Angelina, sem conseguir entender por que ela dissera aquilo sobre "um filho do Anderson", não conteve a curiosidade, sob leve intuição de que Ane não mentira:
— Minha filha, que história é essa de "um filho chegando", sem você estar grávida?
Será que entendi direito?
— Sabe, dona Angelina, eu e o Anderson planeamos ter um filho, mas por um problema meu, anovulação, que é a ausência de ovulação regular, não consegui engravidar.
Nos exames médicos a que nós dois nos submetemos para identificar a causa do problema, foi colhido material de mim e dele.
Assim, lá no laboratório, há uma colecta de esperma do Anderson, que pretendíamos utilizar para realização de uma fecundação assistida, em óvulo a ser doado por alguém.
Esse óvulo, após ser fecundado artificialmente, com espermatozóide dele, seria implantado no meu útero.
Respirando sentidamente, exclamou:
— É o que vou fazer, se Deus quiser!
— Mas, Ane, onde você vai arranjar esse óvulo?
— Um, não, mas pelo menos quatro!
— Como assim?
— Na fecundação assistida, segundo o ginecologista que nos atendeu, são processadas, em laboratório, as fecundações de cerca de quatro óvulos, que são transferidos para o útero da futura mãe, pois há sempre o risco médio de setenta e cinco por cento da tentativa não prosperar por rejeição desses óvulos.
— Como assim, rejeição?
— Algum tipo de incompatibilidade orgânica.
— Volto a perguntar:
onde você pensa conseguir os óvulos?
— Em primeiro lugar, terei que resolver dois problemas:
o primeiro é quanto ao preço dessas experiências...
— Quanto a isso, não se preocupe, pois tenho dinheiro suficiente e com a maior alegria a custearei.
Qual o segundo problema?
— Não sei se a senhora sabe, mas, quando mamãe deu-me à luz, éramos gémeas...
— Oh, meu Deus, que lindo!
Então você tem uma irmã!
— Isso mesmo!
Só que... estamos brigadas há mais de um ano...
Relembrando, raciocinou em voz alta:
— Creio que com a ajuda dela poderia conseguir meu filho, isso se ela também não tiver o mesmo problema que eu...
— Caso não tenha esse problema e concorde com a doação, o que aconteceria?!
— Não poderia receber, em mim, embriões com óvulos dela, pois isso, especificamente, as normas atuais de reprodução assistida observadas pelos médicos não permitem.
Imagino, contudo, que se ela doar embriões para a clínica de fertilização, eles poderão ser utilizados em outras mulheres e, dessa forma, poderei receber, em troca, embriões já armazenados lá, de óvulos de doadoras desconhecidas.
Na verdade, seria uma troca...
— Porque você não vai procurá-la para fazer as pazes, explicar o acontecido e pedir a ela que a ajude a ter seu filho?
— Não é tão fácil assim...
Tenho quase certeza de que ela não vai querer participar dessa experiência, pois isso talvez a deixe ainda mais magoada com tudo o que aconteceu entre nós e o Anderson...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 10:03 am

— Espere um pouquinho:
agora mesmo é que não estou entendendo nada do que você está dizendo.
Ane ia explicar quando Luiza assomou à porta da biblioteca.
No lar de Luiza, sua mãe, que sempre fora tratada a distância, com manifesta frieza, agora foi recebida com alguma alegria.
Porém não demorou e a filha mergulhou em profunda apatia, não reagindo aos multiplicados estímulos que Angelina e Ane lhe dispensavam.
Meire, que logo despertou, por sua vez não gostou de ver sua casa "invadida" pela avó, menos ainda estando acompanhada pela intrusa que, ao lhe ser apresentada, se dizia "ex-companheira" do irmão.
Quando Meire soube que Anderson fora o doador do coração para o pai, cambaleou e tombou ao chão, querendo gritar, mas a voz não lhe obedecia.
A avó confortou-a quanto pôde, mas ela ficou inconsolável, chorando sem parar.
Do fundo da alma, havia o sentimento de amor que gritava pelo irmão.
Mas a consciência, falando ainda mais alto, gritava-lhe que ela era a culpada da morte dele.
Só agora percebia o quanto o amava!
Por dois dias a avó tentou acalmá-la, fazendo-a ver que existem desígnios dos quais não fugimos.
Meire só conseguiu equilibrar-se quando Angelina disse-lhe, com firmeza:
— Deus não erra jamais!
E, amando por igual aos Seus filhos, não podemos nem devemos nos revoltar contra os acontecimentos que alcançaram seu irmão e seu pai.
Não sabemos os motivos de tudo o que acontece com todos, mas a Justiça Divina nos dá a certeza de que as causas, por vezes desconhecidas, são sempre justas.
Colocou a mão no ombro da neta e continuou:
— Se o Anderson deveria, nesta vida, ajudar o pai dessa forma tão profunda, mesmo que você não fosse o agente do processo que desencadeou tudo o que aconteceu, de uma forma ou de outra o transplante aconteceria.
Talvez ele desencarnasse por um acidente, em que sua identidade fosse da mesma maneira confundida...
Ou talvez isso se tornasse um facto potencial, para uma próxima existência terrena...
— Mas, vovó, sinto-me quase como a assassina dele!
— Todos os nossos erros começam a ser reparados quando nos arrependemos sinceramente de tê-los cometido e nos esforçamos em repará-los.
— Como reparar o que fiz?
— De início, ore pelo espírito do seu irmão e seja uma filha amiga dos pais, nestes momentos em que os dois sofrem com a doença, com a perda do filho e... com a filha que não lhes dá nenhum carinho há tanto tempo... depois... bem, depois, Deus colocará à sua frente incontáveis oportunidades de reconstrução.
— Com vou saber o que Deus quer de mim?
— Ouça apenas seu coração...
Somente no terceiro dia após o transplante cardíaco, visitas a Ari foram permitidas, sob severas recomendações médicas:
não contar nenhum facto que levasse o paciente a emocionar-se, muito especialmente sobre a identidade do doador; não tratar de negócios; evitar expressões de angustia, substituindo-as por optimismo quanto à recuperação do doente; não lhe levar nenhum objecto, jornal, alimento etc.; em todas as circunstâncias, sempre responder com tranquilidade a quaisquer perguntas; permanecer pouco tempo.
A notícia da visita ao marido animou Luiza, em parte.
O médico-cirurgião sugeriu que o horário fosse o das vinte horas, quando haveria mais calma na rotina hospitalar.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 10:04 am

Uma hora antes de Luiza e Meire irem à visita, Angelina, após confabular com Ane, propôs que, juntas, fizessem uma prece pela alma do Anderson e pela recuperação do chefe da casa e ainda em favor dos necessitados.
Convidaram Luiza e Meire a participar, as quais, indiferentes, aquiesceram; só se animaram, em parte, quando Ane informou que Anderson era espírita e que com ela realizava semanalmente essa reunião de preces, denominada "Culto do Evangelho no Lar".
Reunidas as quatro à mesa, Ane tirou de sua bolsa o livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, que sempre trazia consigo, abriu-o aleatoriamente e com voz embargada iniciou a leitura do Capítulo 8:
"Bem-aventurados os que têm puro o coração, porque verão a Deus"...
Coincidência? Como, se a página aberta era justamente aquela em que Jesus falava, moralmente, de coração?
E ali, naquele lar, o coração de Anderson, transplantado para o pai, dava o tom do clima psíquico...
Luiza irrompeu em pranto incontido:
— Meu filho... tinha puro o coração...
Meire, acometida de profunda saudade do irmão, a quem sempre mantivera afastado de seus pensamentos, convívio e fraternidade, numa crise sincera, de integral arrependimento, também foi sufocada pelas lágrimas:
— Anderson... meu irmão... só agora vejo como eu o amava... meu Deus!
Perdoe-me, meu Pai!
Jorrando das alturas, em cascatas luminosas, flocos astrais trespassavam o tecto e inundavam o ambiente e logo a casa toda de cores luminosas, iridescentes, qual se não um, mas vários arco-íris transformassem a mansão e logo todo o quarteirão num verdadeiro festival de inigualável beleza, portadora da paz.
Angelina, comovida, não se contendo, levantou-se e abraçou a neta demoradamente.
Luiza, em lágrimas infinitas, ergueu-se também e abraçou a mãe, como há muito tempo não o fazia, ou melhor, como nunca o fizera.
Ane, sensibilizada em grau superlativo, sentiu-se parte inarredável daquele contexto familiar; também com as lágrimas rolando-lhe abundantes pelas faces, abraçou Luiza.
Meire abraçou a cunhada num gesto que a fraternidade pura comandou.
A amizade entre as quatro, para sempre, estava selada.
Dessa forma, abraçadas e soluçantes de alegria, formavam uma roda espiritual que encheu de luz todo o ambiente formado pelas quatro paredes da sala.
Até se poderia dizer, numa imaginária "licença poética espiritual", que ali a mente em festa das mulheres formava a redução do círculo luminoso a um quadrado equivalente, tendo, sem o saber, encontrado assim a solução do insolúvel problema da "quadratura do círculo", que tanto abala a mente daqueles que buscam a perfeição geométrica.
Abraçadas, de corpo e alma, as mulheres formavam um círculo, qual aquele que os atletas formam antes de iniciar uma partida importante.
Por estarem numa sala cujas paredes formavam um quadrado, a luz espiritual, do ponto de vista astral, partindo daquele círculo, iluminou o recinto por inteiro.
Assim, a "luz do círculo" tornou-se "a luz do quadrado".
A paz que lhes invadiu a alma deu-lhes energia para que, a uma só voz, orassem o Pai-Nosso, após o que trocaram suaves beijos entre si.
Ali, o Amor colocava na vitrine mental das quatro mulheres o significado exacto das expressões proferidas pelos apóstolos João e Pedro:
"Quem não amar, não chegou a conhecer a Deus, porque Deus é Amor" (l João 4:8) e "Acima de tudo, tende intenso amor uns pelos outros, porque o Amor cobre uma multidão de pecados" (l Pedro 4:8).
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 10:04 am

Quando Ari viu o doutor Renato adentrar no apartamento acompanhado da esposa, filha e sogra, não se conteve, facto que grossas lágrimas atestaram.
Luiza prodigalizou-lhe carinhos há tempos ausentes, deslembrados...
Meire beijou-o delicada e demoradamente.
Angelina, com um fulgurante olhar vindo das profundezas da alma colocou a destra sobre os olhos do genro e em gestos levíssimos enxugou-lhe as lágrimas, que teimavam em emergir, vindas igualmente do fundo da alma.
Energizado por tanto amor, Ari olhou interrogativamente para as três.
Com voz enfraquecida, inquiriu:
— Onde ele está?
Porque não veio?
— Viajou, mas logo retornará - atalhou Angelina, com preparada calma.
Dirigiu-se a Luiza:
— Meu bem, nossa empresa...
— Nem pensar nisso agora.
Anderson está cuidando de tudo - mentiu a esposa, também com mentira previamente treinada.
O doutor Renato, captando o clima que se formava, recomendou:
— Lindas senhoras e jovem, nosso Ari neste momento é como um recém-nascido, pelo que não convém que nos demoremos na visita.
Como ele vai viver mais uns quarenta ou cinquenta anos, teremos muito tempo para confraternizar.
Por hoje chega!
Ordem do doutor - sentenciou de bom humor, mas enérgico o suficiente para ser obedecido.
A partir do dia seguinte as visitas estariam autorizadas, mas prudentemente limitadas a um pequeno número de pessoas e, assim mesmo, com duração estipulada em poucos minutos.
Tudo por ordem do doutor Renato.
As mulheres retornaram à residência e ninguém teve coragem de dizer nada.
Na manhã seguinte, antes de o Sol chegar, Angelina, como de costume, levantou-se para realizar uma caminhada.
Sempre ia de encontro à nascente e, quando o Sol despontava, retornava, um pensamento intuitivo fez-lhe ir ver a neta.
Meire, sentada na cama, olhava para o tecto.
Não dormira a noite toda.
Angelina, com apurado senso psicológico, convenceu a neta a acompanhá-la no passeio.
Foram em direcção a uma praça onde um florido jardim era propício a reflexões.
Enquanto caminhavam, questionou:
— Você viu, Meire, como Deus é bom?
Mesmo de uma tragédia, como a do nosso Anderson, quantos benefícios resultaram...
— A senhora se refere às pessoas que receberam transplante de órgãos dele?
— Sim, sim.
Mas, muito mais importante, refiro-me aos benefícios morais.
— Como assim, vovó?
— É claro que, de todos, o maior bem foi a restituição da vida ao seu pai.
Mas há outras resultantes, além da vida, ou melhoria da vida dos outros receptores:
refiro-me à recomposição familiar de vocês.
Graças a Deus!
Seu pai nunca mais será o mesmo, com toda aquela ganância em querer ganhar mais dinheiro; sua mãe, que fez do culto à beleza própria o seu projecto de vida, não terá mais condições de continuar em tão efémera ilusão; e você, minha querida, tem pela frente todo um futuro de reconstrução...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 10:04 am

Meire ouvia, silenciosa, reflectindo sobre cada frase da avó, que, em sua mente, tinha o poder mágico de formar um quadro vivo do futuro.
— De todos - prosseguiu Angelina - restou para você a maior responsabilidade...
— Porque para mim?!
— Porque sua mãe, daqui para frente, vai ter que cuidar do Ari vinte e quatro horas por dia.
— Papai vai ficar incapaz para o trabalho?
— Incapaz não, mas estará sujeito a um rígido esquema de diminuição das actividades, com permanente acompanhamento médico, incapacitando-o parcialmente, aí sim, para a dedicação que sua empresa exige.
Completou, abraçando a neta:
— E aí, minha netinha do coração, a dona Meire terá que assumir a direcção dos negócios...
Isso se vocês não decidirem vender a empresa.
Mas, pense bem, a empresa é o sonho realizado do seu pai, além de gerar bons lucros.
Se ele não a tiver mais, além da morte do Anderson, essas duas perdas não seriam um grande choque emocional para ele, talvez fatal?
— Não tinha pensado nisso, vovó...
— Então é bom ir pensando, pois a mim me parece que estou passeando com uma grande futura empresária...
Agora foi Meire quem a abraçou e a cobriu de beijos.
Quando a avó convidou-a para a caminhada, Meire imaginou que era para dirigir-lhe duras reprimendas relativas à sua dependência com as drogas.
Mas não, a avó não lhe dissera uma única palavra sobre isso.
Foi ela própria quem resolveu tocar no assunto:
— Sei que a senhora sabe sobre meu vício, mas vou ser sincera e abrir meu coração:
muitas vezes quero deixar as drogas e consigo por algum tempo; mas logo um chamamento que surge nem sei de onde, invisível, mas real, mudo, mas que me enlouquece com ordens de retornar, é mais forte e acabo sempre voltando.
Desse jeito, eu mesma me recuso a assumir compromissos profissionais, ainda mais o de gerenciar ou dirigir a firma do papai...
Estive a noite toda sem conseguir dormir, só pensando no futuro...
O que me aguarda, vovó?
O que será de todos nós?
— Já que você tocou nesse ponto, eu também vou abrir minha alma para você e contar-lhe umas coisas bem interessantes, que têm muito a ver com o que você acabou de me dizer.
E sabe de uma coisa?
Jamais falei disso para ninguém, nem mesmo para sua mãe.
Assim, você será a única pessoa a conhecer um segredo que guardo dentro da minha memória.
Só vou revelá-lo agora, e para você, porque estou certa de que poderá ajudá-la bastante nessa fase de sua vida...
— Nossa, vovó, a senhora me assusta...
— Não é essa minha intenção.
Vamos até aquele banco e, sentadas, eu vou contar.
Mentalmente, Angelina dirigiu uma prece a Jesus, implorando inspiração para transmitir ensinamentos adequados à neta, capazes de motivá-la à libertação da toxicomania.
Abdiel, o espírito protector daquela família, instantaneamente recebeu os influxos espirituais de Angelina, acercando-se dela.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 08, 2017 10:46 am

Colocou a mão sobre o centro vital, no alto da cabeça da senhora, e também ele orou a Jesus.
Três outros espíritos, irradiando intensa claridade, aproximaram-se em igual atitude de preces.
Fantástico fenómeno se produziu num raio de cem metros, em todas as direcções; a partir de Angelina e Meire, agora sentadas, uma luz imperceptível a olhos humanos brilhou naquela praça antes de a manhã ser inaugurada.
Os espíritos infelizes que comumente acompanhavam Meire, insuflando nela a ida cada vez mais ao vício, mantinham-se a distância, inquietos e preocupados com aquele passeio, já que declararam Angelina uma inimiga em potencial das suas necessidades de drogas.
Meire, a "sócia", quando consumia drogas, na verdade lhes alimentava também o vício, pois lhe aspiravam o energético que se evolava do seu hálito, bem como dividiam as sensações registradas pelo sistema nervoso central dela, qual a transferência de electricidade quando uma pessoa é vítima de um choque contínuo e alguém a socorre, recebendo o mesmo choque.
Vendo os espíritos luminosos, intentaram fugir.
Debalde a tentativa de fuga.
Algo assim como um visgo chumbou-lhes os pés no chão.
Para seu bem...
Mais impressionante de tudo era o facto de que foram chegando dezenas de outros espíritos, escoltados por lanceiros uns, e amparados por enfermeiros outros, estes em macas.
De forma interessante, o cenário daquela praça, visto do plano espiritual, era o de um grande auditório.
É que vários outros espíritos protectores ali compareceram e, juntando suas vibrações conseguiram, em algum tempo, edificar aquele anfiteatro natural, simples, confortável e de excelente acústica(3).
Bancos dispostos em círculo formavam ao centro uma espécie de arena, na qual estavam Angelina e Meire.
Mesmo a distância, os agora mais de cem espíritos necessitados - todos toxicómanos - podiam ouvir com clareza o que Angelina, em tom baixinho, começou a narrar para a neta, com grande mansuetude:
— Quando eu era criança, de tanto ouvir falar num jovem, resolvi pesquisar o possível para tentar encontrá-lo...
— O vovô?
— Não, querida... esse jovem, pelo que dele diziam os adultos, estava por perto, mas para encontrá-lo, havia necessidade de alguns cuidados...
— Porquê?
— Porque ele era muito procurado, muitas vezes estando com quem o buscava sem que fosse percebido.
Sendo muito bom, a todos atendia, mas nem sempre o socorrido identificava a origem do auxílio.
— Ele era rico?
— Muito...
— E a senhora o encontrou?
— Demorou, mas consegui:
depois de o procurar por toda a infância, já adentrando na adolescência, comecei a sofrer amarguras infindáveis, pois meu pai, indo à ruína financeira, buscou na bebida a compensação pelo fracasso comercial.
De amável, carinhoso e paciente, tornou-se em pouco tempo colérico, chegando à violência física com mamãe e comigo.
Nosso sofrimento, naquela fase, foi inenarrável...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 08, 2017 10:46 am

— E como foi o encontro da senhora com o tal jovem?
— Aconteceu num momento inesquecível, no auge de uma crise violenta de papai:
ensandecido, armado de uma faca, avançou para cima de mamãe; provavelmente provocaria uma tragédia, destruindo três vidas:
a de mamãe, a dele e a minha...
— Vovó!
O jovem apareceu nesse momento?!
Salvou-as?!
— Sim, Meire, foi ele quem nos salvou... aos três.
— Seu pai também?! Como?
Pelo amor de Deus, conte-me como foi.
— Há coisas estranhas na vida e algumas dessas coisas aconteceram naqueles dramáticos momentos...
Quando vi mamãe em perigo, interpus-me entre ela e papai...
Olhei bem nos olhos dele e creia-me querida, ele não era ele...
— Santo Deus!
Como pode? Quem era?!
— Jamais poderei explicar como é que, vendo-o e não o identificando como o pai carinhoso que sempre fora, lembrei-me do "jovem rico", a quem pedi socorro...
— Mas ele estava ali?
Surgiu de repente?
— Estava por perto, pois quando pressenti o desastre chamei-o e ele me atendeu...
— Ah, vovó, por favor, diga-me logo o nome dele...
— Jesus!
Meire abriu a boca e ia dizer alguma coisa, mas a voz humedeceu.
Num segundo, captou de quem a avó falava:
do Mestre Jesus, o Amigo incomparável, o mais rico de Amor, o Irmão maior...
Sim, aprendera, no catecismo, que Jesus sempre atendia às preces feitas de coração, principalmente nas emergências...
Acto que ela jamais sequer tentara comprovar, embora tantas dificuldades a visitassem...
Angelina, após dar tempo a Meire para reflexões, aduziu:
— Papai, ao me ouvir exclamar “Jesus!", interrompeu o gesto infeliz, quedando-se imóvel, largando a faca...
Para a eternidade levarei a lembrança da transfiguração do seu rosto, a começar pelo olhar, que se suavizou aos poucos, logo sendo invadido por uma torrente de lágrimas...
Mamãe e eu também não nos movíamos...
Uma grande paz nos visitou e logo os três abraçamo-nos, comovidamente, chorando sem parar; mamãe, então, ajoelhou-se e, de mãos postas, apenas balbuciou:
"Obrigado, meu Jesus!"
— Vovó, que lindo!
— E isso não foi tudo, Meire...
Naqueles momentos terríveis, aconteceu uma coisa extraordinária:
sem que eu pudesse explicar, comecei a ver "pessoas que não existiam"...
— O que era isso?
— Pois é:
comecei a ver almas do outro mundo, gente que já tinha morrido... e tinha invadido nosso lar, aos gritos.
Logo percebi isso porque, no meio dos intrusos, estava um amigo de papai que morrera há tempos, de cirrose hepática, causada por bebida alcoólica...
Esse amigo era quem mais gritava para papai beber sem parar; um outro gritava também, mas mandando ele matar mamãe, pois ela estava atrapalhando...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 08, 2017 10:47 am

— Como assim, atrapalhando?
— Sim, com as preces de mamãe, impedindo papai de beber mais e dar o quinhão deles...
— Por favor, vovó:
como "o quinhão deles", se estavam mortos?
O que eles, isto é, essas almas penadas ganhavam com vovô bebendo?
— Essa já é outra história, que vou resumir:
quando alguém morre, leva para o mundo dos espíritos todas as tendências, virtudes e defeitos que tem.
Mo nosso mundo, sofrido, de provas e expiações, muitos de nós desencarnam mantendo activas as necessidades físicas às quais tenhamos nos apegado em demasia.
Refiro-me aos vícios:
alcoolismo, glutonaria, hipocondria, sexo irresponsável e desvairado.
Também acompanham aos chamados "mortos" suas compulsões mentais, como a de trabalhar sem parar para aumentar a fortuna, resultando isso na avareza; outras vezes, entregamo-nos na vida física à mentira contumaz, à cólera, à intriga, à inveja, ao ciúme e, quando vamos para a vida espiritual, vemo-nos algemados a invisíveis grilhões, torturantes, porque reverberantes na consciência, exigindo correcção...
— Isso é o que algumas religiões chamam de...
— Sim, minha neta: de inferno.
Contudo, graças ao Espiritismo, raciocinamos que o inferno, na verdade, é algo dentro da alma, e não fora dela...
— Nossa, vovó:
a senhora está me deixando com medo...
— Meire, Meire:
o jovem rico, Jesus, é rico sim, mas de amor e luz e está sempre pronto a auxiliar a todo aquele que ouvir seus conselhos e procurar seguir seus exemplos.
Com ele no coração, nas palavras e principalmente nos actos, não há o menor risco de qualquer desconforto ou perigo.
— Mas essa questão das almas... e a senhora não falou de um vício ruim... esse que eu tenho...
— Não falei por respeito a você, a quem amo demais.
Mas falaria em breve, caso você própria não tocasse nele...
— E como ficam as almas que gostam de tóxicos, depois da...?
— Todas essas viciações físicas se mantêm depois da morte, como você está com medo de dizer.
E, como no plano espiritual não há nem botecos, nem motéis, nem tabacarias, nem pontos de venda de drogas, os infelizes espíritos que se algemaram a essas necessidades desesperadamente buscam satisfazê-las, daí fazendo com que a "roupa da alma" se mantenha como a "roupa do corpo físico", para poderem alcançá-las.
— Não entendi direito isso de “roupa da alma” e ”roupa do corpo físico”...
— Já explico:
nosso espírito é uma sublime chama, nascida de Deus, qual se fosse um raio do Sol, transformado em individualidade; essa chama é tão brilhante que cegaria quem a visse directamente, por isso se reveste de uma camada de matéria subtil, para amortizar tanta luz; essa camada chama-se perispírito e é a forma para o corpo físico, quando o espírito vem para o plano material; assim, minha neta, nosso corpo é o resultado da matriz, que é o perispírito; e quem é bom tem o perispírito subtil, irradiando claridade; já quem tem problemas de comportamento (e quem não os tem?) apresenta perispírito mais ou menos grosseiro, com pouca ou quase nula claridade.
Entendeu?
Ante o olhar meditativo da neta, Angelina prosseguiu:
— Vou tentar explicar de outro modo, por um pequeno exemplo figurativo:
numa laranja encontramos várias camadas, desde a casca, a pele, os gomos e as sementes; há laranjas com casca brilhante e há as com casca rugosa, atacadas de doenças cítricas.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 08, 2017 10:47 am

Pois bem:
imagine agora que somos, cada um, uma espécie de fruta com apenas uma semente de luz no mais íntimo, revestida de uma primeira camada, seguindo-se os gomos, mais uma camada e por fim a casca, reflectindo, esta, o estado que vai pelo interior...
A semente de luz é o nosso espírito e é imortal; o primeiro revestimento da semente é nosso corpo mental, ou a mente, e cada vez mais vai ficando subtil; os conjuntos da outra pele e dos gomos formam o perispírito, que modelará o organismo das várias vidas nossas; por fim, a casca, com seu contorno e aparência externa, nosso corpo, que será sempre outro, em cada vida.*
— Começo a entender...
É como se tivéssemos um molde permanente da vida, direccionando o futuro... muitas vidas... muitos corpos, mas um só espírito...
— Isso mesmo:
a cada nova existência terrena, vamos melhorando; à medida que nosso molde se aperfeiçoa, como consequência a réplica orgânica também...
Nesse preciso momento o Sol iluminou toda a linha do horizonte, "proporcionando o maior espectáculo da Terra, diário e gratuito", como disse um pensador e poeta, que lamentou "que metade da plateia estivesse dormindo..."
Ali, pelo menos, havia uma plateia atenta, ouvindo palavra por palavra do diálogo entre a avó e a neta.
Muitos instrutores espirituais olharam para o ponto mais brilhante da alvorada colorida e, em prece muda, saudaram o grande astro e louvaram a Deus, agradecendo a bênção solar.
Tão expressivo e sincero era esse gesto dos benfeitores, que muitos dos seus tutelados, imantados positivamente de energias reconfortantes, num gesto que a simplicidade comandou-lhes, ajoelharam-se, juntando e erguendo as mãos para o alto.
— Vó... tem uma coisa que gostaria de saber...
— Pois então pergunte.
— Espiritismo... hum... a senhora gosta?
— Como não agradecer a Jesus a felicidade de conhecer o porquê de todos os nossos problemas, nossas angústias, que, afinal, têm origem em nós mesmos, por meio dos actos praticados nas várias vidas passadas, mas tendo várias vidas futuras para nos reerguermos?!
— E o Espiritismo explica isso?
— Sim. Ao recomendar que antes de mais nada usemos a razão, esclarece que essas várias existências que Deus nos concede para nossa evolução espiritual são enquadradas pela Lei Divina de Acção e Reacção, expressão fiel da justiça divina, que dá a cada um segundo seu merecimento.
Nós, espíritas, somos muito felizes em aceitar o processo das vidas sucessivas, denominado reencarnação, pois ele é pleno de lógica, respondendo com a clareza do Sol a todas as dúvidas humanas do "porquê dos sofrimentos e das aparentes injustiças terrenas".
Após uma pequena pausa Angelina completou:
— Desde que vi almas do outro mundo, os espíritos desencarnados, passei a interessar-me pelo fenómeno e só por meio do Espiritismo encontrei respostas para todas as minhas perguntas e pesquisas, que não eram poucas.
Os espíritos que acompanhavam papai decretaram guerra a mamãe e eram eles que o induziam a maltratá-la.
Meire abaixou a cabeça e perguntou, tímida:
— Será que eu também estou com espíritos que me induzem as drogas?
— Vamos esclarecer uma coisa, sem o que seremos hipócritas:
os espíritos se aproximam de nós a todo instante, os bons e os maus, mas só conseguem nos induzir às práticas que nós mesmos elegemos.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 08, 2017 10:47 am

Desse modo, não podemos nem devemos culpá-los de nossos equívocos.
Ao contrário:
se, por exemplo, um espírito mentiroso se aproximar de mim e testemunhar várias mentiras minhas, não mais me deixará; contudo, se eu não mentir jamais, ele se afastará, indo procurar alguém mentiroso, ou então cairá em si e, pelo meu exemplo, se corrigirá!
Da mesma forma quanto às drogas...
— Sabe, vovó, tenho pesadelos horríveis, todas as noites:
um grupo de pessoas que não conheço, mas que não me larga, insiste para que eu use drogas cada vez mais.
Uns me pedem cocaína; outros, heroína; outros, que eu misture uísque com uma ou outra droga.
Há duas noites vivem repetindo que eu devo me afastar da senhora...
Meire começou a soluçar e, apertando a cabeça com as mãos, exclamou:
— Acho que estou ficando louca... a senhora é a única pessoa que gosta de mim e... eu já pensei até em...
Não conseguiu concluir a confissão.
Abraçando-a forte, Angelina consolou-a:
— Nunca mais diga uma coisa dessas!
Você é muito inteligente e já deve ter compreendido que as drogas têm clientes "de cá e de lá", isto é, entre vivos-mortos, de corpo e alma, e mortos-vivos, só de alma, sem corpo.
— O que a senhora quer dizer com isso de vivos-mortos e mortos-vivos?
— Quando uso essas expressões, quero dizer que o drogado é alguém que, estando nesta existência, perdeu todos os referenciais da vida e, para ele, a morte, que não tarda a transferi-lo de plano se persistir no uso da droga, de forma alguma será solução; antes, pelo contrário, agravará os sofrimentos de sua dependência.
— Credo, vovó: estou com medo...
— De quê? Dos mortos?
Pare com isso, menina:
não existem mortos, pois o espírito é imortal.
O que existe são espíritos que, com o corpo físico (quando encarnado) ou sem esse corpo (quando desencarnado), estão com os pensamentos no Evangelho de Jesus mortos por uns tempos.
E a esses equivocados espíritos podem se associar outros espíritos nas mesmas condições.
Mas, graças a Deus, também existem espíritos bons, que ajudam àqueles.
— Vovó... a senhora fala como se não existisse morte...
— E não existe mesmo!
Ou melhor, vamos situar a questão num exemplo, para você entender a que me refiro quando falo da vida daqueles que já morreram, mas "vivem" a atormentar os vivos:
suponhamos que nós, encarnados, somos alunos que estamos no curso primário aqui na Terra, e aqueles que já morreram são alunos que, saindo do primário, foram transferidos para uma outra escola no plano espiritual a fim de prosseguirem com estudos diferentes, já que os alunos dessa nova escola têm outras actividades.
Agora reflicta, no primário há sempre muitos alunos saindo, mas também há muitos entrando, porque essa escola primária, que é a própria vida física, continua existindo.
Imagine, porém, que o aluno da outra escola (a do plano espiritual), em vez de aproveitar as aulas, resolve voltar para o primário (a vida física), porque sente saudade, por exemplo, dos lanches de lá.
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