TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 08, 2017 10:48 am

O que encontra?
Ora, não sendo aluno regularmente matriculado, não terá os vales da cantina e vai ter que convencer algum aluno dali a lhe arranjar um sanduíche de qualquer maneira.
Geralmente, para convencer o aluno invigilante, promete-lhe recompensas que não poderá dar; tudo isso, escondendo-se, ambos, dos inspectores...
Fez breve pausa, para logo prosseguir:
— Sempre com promessas, o aluno da outra escola vai iludindo o do primário, que o atende, por cobiça.
Até que um dia, ou o inspector de alunos, ou a professora, ou os pais de um ou dos dois alunos, identificam aquele mau procedimento e repreendem a ambos.
O aluno do primário terá que ser mais cuidadoso na escolha de "colegas", senão acabará tendo mais problemas, podendo até, conforme a gravidade do que faça, ser expulso...
Quanto ao aluno clandestino, poderá se arrepender, não voltar mais ali, ou então ir procurar outro aluno descuidado, passando a atormentá-lo como fazia com o primeiro.
Poderá ter êxito ou não...
Assim, de tentativa em tentativa, prejudicando tantos alunos do primário, um belo dia as autoridades, cansadas de advertirem-no, convocarão a melhor de todas as professoras para ensiná-lo a ser obediente às regras...
— Quem seria essa professora, vovó?
— A dor.
— Vovó: tenho sido má aluna desse "curso primário"!
Quero continuar nele, mas cuidadosa na escolha dos "meus colegas"...
Naquele justo momento, olhando o Sol por uma fracção de segundo, como se estivesse olhando para Deus, prometeu solenemente:
— Por tudo o que há de mais sagrado, prometo jamais voltar a consumir drogas.
Pensou um pouco e confidenciou à avó:
— Tenho duas amigas que moram comigo, no meu apartamento.
Vou procurá-las e contar para elas tudo isso que a senhora me disse.
Estou até mesmo pensando em voltar a morar com meus pais, ainda mais agora com a doença do papai.
Voltou a fazer alguns instantes de reflexão e complementou:
— É isso mesmo!
Vou vender o apartamento para as duas de uma forma que elas possam pagar.
Angelina, comovida, abençoou-a:
— Deus te abençoe, querida!
Tenha sempre bom coração e só terá a ganhar.
Lágrimas discretas molharam o rosto da avó.
Diante de seus tutores, a maioria dos ouvintes invisíveis, agrilhoados às drogas, fez a mesma profissão de fé de Meire.
Para a jovem encarnada e para os espíritos infelizes, aquele instante representava uma nova alvorada moral em suas existências.
Aquela esplendorosa manhã teve assim dezenas de alvoradas, a partir da proporcionada pela natureza, pois ocorreram muitas outras dentro das sofridas criaturas que o vício vinha corrompendo, mas que a partir daquele instante inesquecível, graças a Deus, libertaram-se para sempre.
Os protectores, quase que a uma só voz, declamaram sinceros:
— Louvado seja Deus!
Obrigado, Jesus!
Incontáveis andorinhas ao Sol - sempre o Sol -, acomodadas nos fios de electricidade, como que se transformando em testemunhas da decisão de Meire e de dezenas, talvez centenas de arrependidos - todas as avezinhas, no mesmo instante -, alçaram voo intempestiva e alegremente.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 08, 2017 10:48 am

Invisível e imperceptível à visão terrena, tanto quanto inaudível também, um alegre coral irrompeu a cantar um exclamativo hino, louvando a Natureza e o Criador.
Em menos de uma hora Angelina repassara à neta e a ignorados ouvintes matéria filosófica de alto significado, capaz de mudar as rotas do destino de qualquer pessoa disposta a aliar razão à fé.
Como de facto, mudou!
Não existe um único toxicómano feliz nem alguém preso a qualquer vício que, no íntimo, não queira dele libertar-se.
Isso porque somos oriundos de Deus - a Perfeição absoluta -, contemplados com inexorável roteiro rumo ao progresso moral incessante.
Todos os equívocos dessa infinita caminhada resultam-nos em percalços, mas, graça divina, em aprendizado eterno.
Daí, que erramos, sim, em tempos de desvios morais.
Mas todos - todos nós, sem excepção - temos também em nosso acervo existencial muito mais tempos de reconstrução, iniciantes com o arrependimento sincero e conclusos depois de abençoadas dificuldades expiatórias ou provacionais.
Dessa forma, com visão na felicidade, podemos augurar rota espiritual feliz não muito distante de onde estamos agora, posto que temos no Evangelho de Jesus a estrada a percorrer, no Espiritismo o veículo que pode nos conduzir até lá e, como combustível, a prática da Caridade.
Meire sentiu um bem-estar e uma inefável doçura percorrerem-lhe o corpo todo e fixarem-se no coração.
Os espíritos bondosos foram se afastando, com discretas lagrimas, mas sorridentes, conduzindo equipes de espíritos viciados, muitos deles aos prantos, encantados, emocionados, arrependidos...
Assim como Jesus multiplicou os cinco pães e dois peixes nas cercanias de Betsaida (Lucas 9:10-17), para alimentar uma multidão calculada em cinco mil pessoas, havendo sobras ainda, ali também aquele encontro e o amor catalisaram o arrependimento e o feliz início da recuperação de tantos infelizes, que, famintos da Paz, foram saciados pelo alimento evangélico.
Não todos, é verdade, mas a maioria.
Antes de retornar a casa, Angelina brincou com a neta:
— Agora que você vai começar uma nova vida, fique sabendo que tem uma pessoa que ficará muito feliz, pois para essa pessoa você é especial...
— Ih, vovó, pare com isso.
Não sou especial para ninguém.
— É sim!
E essa pessoa é um jovem...
— Quem?
— Um médico, que está sempre por perto, quando sua família precisa.
— Ah, vovó, o Américo nem me liga...
— Será?...
Retornando a casa, encontraram Luiza novamente prostrada, lamentando-se:
— Meu Deus!
Como foi possível acontecer uma coisa dessas connosco?
Mil vezes preferia ter morrido...
Como poderei viver com o coração do meu filho no peito do meu marido?
Angelina endereçou um significativo olhar para Meire e, acto contínuo, as duas envolveram Luiza num fraternal abraço.
Há anos que Meire nem sequer encostava-se à mãe e, entretanto, em dois dias, vinha dispensando-lhe carinho pleno de magnetismo e amor filial.
Atónita pela forte reacção emocional causada, Luiza mal acreditava.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 08, 2017 10:49 am

Em sua vida, o instinto maternal só se dirigira, assim mesmo há tempos, para Anderson.
Agora, de forma inexplicável para ela, num átimo lhe visitou um pensamento que expressou em voz chorosa e pungente:
— Minha filha, pelo menos ainda tenho minha filha!
Meire explodiu em lágrimas, abraçando-a mais forte, cobrindo-a de incessantes beijos e afagos:
— Mãe, minha mãe, eu te amo!
Como se a Terra mudasse de repente de órbita, um raio luminoso do Sol (sempre ele...) atravessou a vidraça da sala e envolveu-as, compondo incomparável tela de amor que só mesmo o Divino Pintor poderia produzir.
Deus, Sol das almas!
Pai de Amor!
Eterno e Permanente!

2 - Resolução n9 1358/92 do Conselho Federal de Medicina, publicadas na D.O.U. de 19 de novembro de 1992.
(3) Em O Livro dos Médiuns, 2§ Parte, Cap. VIII, em "nota" ao nB 128, Kardec regista ensinamento de São Luís:
"Sobre os elementos materiais disseminados por todos os pontos do espaço, na vossa atmosfera, têm os Espíritos um poder que estais longe de suspeitar.
Podem, pois, eles concentrar à sua vontade esses elementos e dar-lhes a forma aparente que corresponda à dos objectos materiais".
* O Espiritismo esclarece que os Espíritos têm um revestimento permanente, subtil, que faz a ligação do Espírito com o corpo físico (N.E.).
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 08, 2017 10:49 am

12 – QUAL O PERFUME?
Dois dias após, numa das visitas a Ari, o doutor Renato convocou os familiares:
— Temos um probleminha: chamei vocês aqui pois a alta hospitalar do Ari não tardará e assim, juntos, precisamos resolver quando, como e onde vamos contar para ele...; quando, eu já sei:
só depois de, no mínimo, três semanas da cirurgia; como, não há outro jeito senão a verdade, a sós comigo ou na presença de vocês; onde, aqui ou na sua casa?
Respirando fundo, complementou:
— Sabendo que o paciente ainda não reúne condições de saúde para saber toda a verdade, isso só será possível quando ele estiver psicologicamente mais estabilizado.
A própria Polícia está mantendo o caso sem divulgação, pois há uma sindicância em andamento para averiguar como ocorreu o insólito caso de o filho ser doador do pai.
Se à polícia cabe investigar e apontar a falha, bem como os culpados, à medicina o que importa é a recuperação do paciente, principalmente como o ajudar, nessa sobrevida, a administrar emocionalmente tão inesperado acontecimento.
Como o nosso Ari é homem de destaque na sociedade, imaginem o barulho que a imprensa fará quando o julgamento se iniciar e a verdade for anunciada...
— Há um outro problema - atalhou Angelina - quem dirá a ele?
— Eu! - Quase gritou Luiza.
— E vamos dizer em casa - sugeriu Meire, também em tom decisivo.
— Muito bem, Luiza, então já sabemos que mais ou menos em três semanas, todos reunidos, em sua casa, você dirá ao Ari o que houve.
Vamos convidar o Américo para estar presente...
Dizendo isso, Angelina olhou significativamente para Meire e concluiu:
— Temos que convidar mais alguém...
Todos se entreolharam, sem entender.
Ela explicou:
— Indispensável convidar Jesus!
Decorridos três dias, Angelina e Meire haviam desenvolvido intensa camaradagem, logo evoluindo para sincera amizade, facto que os anos aguardavam...
Estando quase o tempo todo com a neta, Angelina percebeu os sinais exteriores da síndrome da abstinência, ou seja, a ansiedade provocada pela abstenção das drogas, que Meire apresentava em diversas ocasiões ao dia.
Convidou-a:
— Estou vendo que você está lutando valorosamente para combater o vício e que isso está trazendo-lhe angústias...
Somente com o espírito fortalecido conseguimos grandes vitórias, como essa na qual agora você está empenhada.
Contudo, nunca ninguém está sozinho, em nenhuma situação da vida, principalmente nas difíceis.
Assim, temos sempre amigos bondosos prontos a nos auxiliar nessas horas e uma forma de assimilarmos essa ajuda é pelo tratamento espiritual de fluido terapia, isto é, tomando passes.
— Como é que passes podem me tirar a lembrança e o desejo das drogas?
— Fazendo prevalecer a vontade, imanente em todos nós, desde que o Criador nos deu a inteligência.
Quando a vontade se manifesta, nenhum obstáculo consegue impedi-la de alcançar o objectivo.
— Mas, vó, como a vontade das drogas pode desaparecer?
— Não há "vontade das drogas", Meire.
Tanto nas drogas quanto em todos os demais vícios, o que há é invigilância e desrespeito quanto à conservação do maior bem material que Deus nos empresta para nossa vida física, que é o corpo.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 08, 2017 10:50 am

— A senhora acha mesmo que o corpo é um empréstimo?!
— E não é?
O que acontece com ele quando deixa de funcionar de forma natural ou por destruição voluntária?
O espírito leva o corpo?
Após dar um tempo para a neta reflectir, Angelina explanou:
— Do passe espírita só bem resulta, principalmente atraindo amigos espirituais e afastando eventuais sofredores viciados do além.
Mais para não magoar a avó com uma recusa do que propriamente por concordar, Meire aceitou o convite.
Assim, com a Avó e Ane, foi levada ao Centro Espírita que ambas frequentavam.
Meire admirou-se de como tudo ali era tão simples e acolhedor, a começar pelos médiuns passistas, em actividade diurna.
Todas as tardes um orador tecia comentários sobre várias passagens da vida de Jesus, após alguém ler trechos de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec.
Em menos de uma semana, recebendo passes diários, Meire conseguiu atravessar o seu Rubicão(4), isto é, ultrapassou a quase inexpugnável barreira que delimita a fronteira que separa o viciado do vício.
Nela, a atracção pelas drogas foi se esvaecendo aos poucos, até desaparecer por completo.
Continuou indo ao Centro e, em pouco tempo, já era uma das pessoas convidadas a proceder à leitura evangélica, o que fazia de bom grado.
Numa das vezes em que as três foram ao Centro Espírita, no retorno Angelina quis ir a uma perfumaria da qual era freguesa antiga para adquirir algum produto; contudo, Ane, dando uma desculpa, pediu para não ir com elas.
Estranhando um pouco tal atitude, mais intuitivamente do que por qualquer suspeita, Angelina brincou com ela:
— Não é porque seu amor está no plano espiritual que você deva deixar de usar um perfuminho...
— Ora, dona Angelina, nada disso... nada disso.
— Você sabia - perguntou-lhe Meire - que quase todo mundo gosta de perfume?
Até os espíritos gostam também, só que mais ao natural, vindo das flores...
Outro dia, lá no Centro Espírita, aquele homem que comenta as lições de Jesus disse que existem perfumados jardins no mundo dos espíritos onde é muito agradável fazer meditações e preces.
Emocionada e envolvida pela lembrança de Anderson, Ane confessou:
— Eu e o Anderson sempre nos perfumamos, um para o outro... acontece... que aquela loja que a dona Angelina quer ir é de minhas irmãs... e eu não falo com elas faz tempo.
Avó e neta respeitaram a recusa de Ane e foram a outra loja.
Durante mais alguns dias as três não voltaram ao assunto.
Foi quando Angelina, sob influxo mental do espírito Abdiel, tomou corajosa decisão:
foi à perfumaria das irmãs de Ane disposta a reatar a amizade entre elas.
Chegando, foi atendida por Alice.
— Dona Angelina, como tem passado?
— Bem, graças a Deus.
Onde está a Alva?
— Olhe ela chegando...
Prestando atenção no sotaque das irmãs, Angelina reparou como as gémeas lhe ofertavam a lembrança de alguém que se expressava daquele jeito: Ane!
— Hoje vim aqui buscar três coisas:
perfume, para mim; fraternidade, para três irmãs; e vida, para alguém que ainda não nasceu...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 09, 2017 11:59 am

Alice e Alva olharam-se, algo desconfiadas, pouco ou nada entendendo.
— O perfume, a senhora pode escolher...
— E quanto à fraternidade e à vida?
— Não sabemos o que a senhora quer dizer com isso...
— Quanto à fraternidade, refiro-me à Ane, sua irmã.
As irmãs não esconderam o semblante de aborrecimento.
Angelina explicou:
— Sua irmã está em meio às consequências de uma tragédia que a alcançou...
Agora, Alice adiantou-se, pegou nas mãos da freguesa e implorou:
— Pelo amor de Deus, o que aconteceu com Ane?
Ela...
Alva começou a soluçar.
Angelina, comovida, enlaçou-as num terno abraço e sem demora explicou:
— Ela está com saúde, não se preocupem.
Mas passou por rude golpe com a morte do companheiro...
— Anderson?! - Exclamaram as irmãs, a uma só voz.
Angelina então narrou os acontecimentos que culminaram com o transplante do coração de Anderson.
Notando a reacção de Alice e Alva, quase em estado de choque, intuiu que aquele era o ponto que desunira as irmãs.
Com cautela, inquiriu:
— Minhas filhas, digam-me com sinceridade:
foi por causa do Anderson que vocês brigaram com a Ane?
Alva adiantou-se:
— Sim, dona Angelina, a senhora acertou:
Anderson conheceu primeiro a Alice, namorando-a por pouco tempo, de modo fútil; logo, também a título de brincadeira, deixou Alice e passou a namorar-me; não demorou e, para ganhar uma aposta boba com amigos, deixou-me e foi namorar a Ane.
Nenhuma de nós ficou sabendo do namoro anterior dele com as outras.
Aí, aconteceu...
— O quê, minha filha?
O que aconteceu?
— Ele se apaixonou perdidamente pela Ane e não houve como esconder de nós duas...
Num momento de sinceridade, confessou para ela sobre a aposta...
— E o que fez Ane?
— Deixou-o, embora ela também estivesse apaixonada.
Só que eu e Alice também estávamos apaixonadas por ele...
— Que coisa!
Até nisso vocês são parecidas, pois a Ane fala com o mesmo sotaque de vocês duas...
— Eu e Alva somos gémeas, mas a Ane não é nossa irmã biológica.
Seus pais morreram quando ela nem havia completado um ano e nossos pais adoptaram-na, um facto interessante é que muitas pessoas comentam mesmo que nós três, pela convivência, quase poderíamos ser consideradas trigémeas.
— Realmente, "há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que a vã imaginação do homem pode conceber", não é mesmo?
Mas, quanto ao Anderson, o que aconteceu depois?
Contem-me logo...
Nunca ouvi um caso como esse!
— É incrível mesmo, mas nós três éramos tão unidas e estávamos tão envolvidas de amor por ele que fizemos um pacto e resolvemos que nenhuma de nós jamais sequer o olharia.
Foi aí que aconteceu nossa briga:
ele não se conformou em perder Ane e, num dia em que estávamos juntas as três, confirmou que o namoro com Alice e comigo havia sido de brincadeira e por causa da aposta, mas que com Ane fora diferente, eis que a amava de toda a alma e de todo o coração.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 09, 2017 11:59 am

Ane não resistiu a essa encantada declaração de amor e quebrou o pacto...
— Entendo... entendo...
Fazendo longa pausa, Angelina ousou:
— Deus pode reunir vocês quatro...
Alva e Alice entreolharam-se, certas de que a cliente delirava...
Angelina, com a maior calma possível, então propôs:
— Não sei se vocês sabem, mas sua irmã sofre de anovulação, isto é, seu organismo não tem ovulação regular... e o que ela mais quer é ter um filho... do Anderson...
Não restavam dúvidas:
a freguesa estava mesmo delirando, pois acabara de narrar que ele havia morrido...
Com bondade, contornaram o embaraço:
— Talvez uma outra hora nós possamos continuar conversando.
Agora a senhora nos dá licença?
— Mas, minhas filhas, não pensem que estou fora de juízo...
Só queria contar para vocês duas o problema da sua irmã...
Fazendo um olhar maroto, logo completou:
— Vocês podem ajudá-la a ser mãe!
Alice e Alva, delicadamente, desconversaram:
— Podemos sugerir um perfume que acaba de ser lançado?
— Podem. Agradeço.
Mas, antes, ouçam:
como o organismo da Ane não produz óvulos de forma regular, não poderá engravidar, a menos que se submeta à fecundação assistida, sendo utilizados óvulos doados por mulheres saudáveis.
Isso possibilitaria a ela realizar o sonho de ser mãe...
— Por favor, dona Angelina, o que isso tem a ver com nós duas?
— Tudo! Se doarem embriões para a clínica de fertilização, eles poderão ser utilizados em outras mulheres e Ane, em troca, receberá embriões de doadoras desconhecidas.
— A senhora está sugerindo que nós...
— Exactamente! Porque não?
Não são amigas de verdade?
— Mas ainda não entendemos essa história.
A senhora não acabou de contar que Anderson morreu?
— Posso assegurar a vocês que meu neto está mais vivo do que nunca!
As gémeas, agora, concluíram sem sombra de dúvida que a boa freguesa não andava bem da ideia.
Bondosas, tentaram encerrar o diálogo.
— Tudo bem, tudo bem, dona Angelina.
Agora precisamos fazer uma arrumação na vitrine.
A senhora nos dá licença?
Angelina não desanimou.
Captou a descrença delas, mas, confiante de que agia com espírito de caridade, "detonou" um esclarecimento e uma informação:
— Quando digo que o Anderson está vivo, tenho dois fortes motivos para afirmá-lo:
o primeiro é que ninguém morre, pois somos espíritos encarnados e a vida do espírito é imortal, logo, em verdade, ele está vivo; em segundo lugar, quando ainda estava revestido da roupagem terrena, o corpo físico, ele e a Ane descobriram a deficiência ovular dela quando tentaram e não conseguiram a paternidade-maternidade.
Aí, decidiram que o filho seria gerado por reprodução assistida, utilizando espermatozóide dele e óvulo doado, que, após ser fertilizado em laboratório, seria implantado no útero dela.
As irmãs ficaram atónitas.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 09, 2017 12:00 pm

Jamais poderiam imaginar tal desdobramento na vida de alguém.
E elas, de alguma forma, estavam capturadas pelas teias insondáveis do "destino".
Perplexas e quase sem acreditar naquilo tudo, ouviram Angelina concretizar a inédita e ao mesmo tempo heróica e surpreendente proposta:
— Na clínica médica que atendeu os dois está congelada a porção de esperma do Anderson que seria empregada nas tentativas da reprodução assistida.
Assim, como Ane quer perpetuar a memória física dele num filho, precisará de óvulos a serem artificialmente fecundados.
Minha ideia, caso vocês aceitem, é que façam doação de seus óvulos à clínica de reprodução assistida, os quais serão mantidos no "banco de óvulos" para futura utilização em pacientes que vocês jamais conhecerão, mas tal doação substituirá os que forem aplicados em Ane, também de doadoras desconhecidas.
Com isso, estarão dando passo definitivo para restabelecer a fraternidade entre a Ane e vocês.
Após um instante de silêncio, informou:
— Fiz umas perguntas a um médico ginecologista e ele me informou que o ideal será a fertilização de quatro óvulos, pois as chances de prosperar a gravidez são de vinte e cinco por cento.
Ante o espanto crescente das irmãs, desanuviou-lhes a apreensão:
— Antes de ser uma doação de óvulos, considero que tal acto seria uma suprema doação de amor!
Imaginem, meninas - brincou - quando a criança nascer, vocês serão mais que tias...
A mãe será mesmo Ane, não há dúvida, mas, perguntem ao seu coração o que sentirão pela criatura que indirectamente nasceu com essa linda participação de vocês...
Aturdidas, as duas mal conseguiam raciocinar.
Tantos eram os desdobramentos daquilo tudo que a mente se lhes embaralhava as consequências.
Havia um milhão de perguntas a serem respondidas, antes de uma tomada de decisão.
Solteiras, entendiam que participar tão activamente daquela experiência seria algo tão fantástico quanto maravilhoso.
Angelina, do alto da sua vivência e sob influxos do bem, sempre intuída por Abdiel, brincou:
— Até que seria engraçado vocês três ficarem grávidas ao mesmo tempo, sendo solteiras e sem que isso decorra de ato sexual...
As irmãs se descontraíram em parte e Alice questionou:
— Que história é essa de nós três engravidarmos?
— Brincadeira minha.
Grávida, fisicamente, só ficaria a Ane.
Quanto a vocês duas, seriam "grávidas morais".
— E quando o neném chegar - interferiu Alva - seremos também "mães morais"?
— Isso quem tem que responder, como já disse, é o coração de vocês.
Da minha parte devolvo com outra pergunta: porque não?
De facto, a proposição de Angelina era surpreendente.
Ante o olhar cada vez mais fulgurante de Angelina, promotora daquela ideia, e a lembrança de Ane, e ainda sabendo Anderson morto, as duas jovens, enternecidas, como se um cronómetro íntimo regulasse-lhes os sentimentos, abraçaram-se.
Lágrimas silenciosas e em queda pausada pelas faces testemunhavam a profunda emoção que lhes visitava a alma.
A concordância de ambas era eloquente, conquanto muda.
O olhar de Angelina, se possível fora, brilhou ainda mais.
Para emoldurar aquele instante maravilhoso, Angelina olhou para o céu e exclamou:
— Vocês acabam de assinar um contrato...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 09, 2017 12:00 pm

Quase já entendendo as sucessivas metáforas daquela simpática quão bondosa freguesa, as irmãs olharam-na com ternura, aguardando a decodificação da frase, que não tardou:
— ... com o amor!
A doação de vocês em favor da Ane constitui um dos mais sublimes gestos dos seres humanos uns para com os outros: transplante de amor!
Respirou fundamente, enchendo os pulmões de ar e suspirou, complementando:
— Se vidas são salvas nas doações de órgãos para transplantes, a doação de vocês irá além:
pois demandará o plano espiritual, de onde alguém virá se beneficiar da sagrada oportunidade da reencarnação.
Finalizou, emotiva e também às lágrimas, sempre com o olhar no céu:
— Jesus, o sublime Geneticista da Caridade, certamente comandará os passos de todos os envolvidos, "de cá e de lá".
Se esta for a vontade do Pai, vocês serão "tias-mães", ou "mães-tias", não sei...
Em simbiose fraternal, testemunhada por protectores celestiais, as três abraçaram-se demoradamente.
Quando Angelina contou a Ane seu encontro com as irmãs dela e especificou o que conversaram, a jovem perdeu o fôlego:
de um só lance entreviu a perspectiva de materializar seu sonho dourado, ao tempo que retornava à fraternal amizade com Alice e Alva.
Disse:
— Dona Angelina, nem sei como lhe agradecer...
No entanto, há coisas que precisam ser analisadas...
— Quais, minha filha?
— A primeira é que, em sinal de respeito à família do Anderson, mesmo que dona Luiza e Meire estivessem de acordo com isso, há o facto de o senhor Ari estar vivendo momentos delicados; na sua condição actual, como reagiria ante a verdade do transplante e, depois, o que pensaria sobre o nascimento de um neto ou neta, pela paternidade do Anderson?
Sinceramente, não sei se este é o momento certo nem se ele deve também ser consultado.
— Você tem outras preocupações?
— Sim: há o factor financeiro.
Sei que essas intervenções médicas custam caro...
Eu e o Anderson pesquisamos com os médicos e ficamos sabendo que nem sempre o objectivo é alcançado com apenas uma tentativa, havendo casos em que foram feitas várias tentativas e nem assim deu certo...
— Nessa parte do dinheiro, fique tranquila.
Deixe por minha conta, pois, como já disse, tenho condições de bancar as despesas.
Meu bisneto, ou bisneta, merece.
Agora, quanto ao momento delicado que vivenciamos por causa do Ari, concordo com você.
Sugiro que conversemos com a Luiza e a Meire.
E assim, quando Angelina, na presença de Ane, expôs a Luiza e Meire seu plano de ser bisavó e questionou a oportunidade de realizá-lo, deixou a filha e neta sem fala, mas exultantes.
Ante o que acabaram de ouvir, isto é, a possibilidade de Anderson, "agora no Céu", ser pai aqui na Terra, "de forma científica", foi uma dessas fantásticas surpresas da vida em que a realidade supera, em muito, a ficção.
Luiza e Meire, electrizadas, literalmente "voaram" em direcção a Ane, cobrindo-a de beijos.
Em ambas, falou alto o sublime instinto natural que a mulher traz consigo e, mergulhadas na lembrança do filho e irmão, em coro aplaudiram.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 09, 2017 12:01 pm

Luiza dirigiu-se a Ane:
— Até parece coisa do outro mundo, pois, se tudo der certo, teremos outro pedacinho do Anderson connosco!
Você precisa ficar morando connosco.
Aceite, por favor!
Sensibilizada e grata, Ane aceitou.
— Louvado seja Deus! - Exclamou Angelina, grata a Jesus.
Quanto a Ari, a futura chegada de um neto, ou neta, filho ou filha de Anderson, essa era uma segunda notícia forte que ele, inevitavelmente, teria que receber.
A dúvida era quando e como lhe repassar as duas extraordinárias informações:
uma tão triste e outra tão alvissareira.
Desemboca, a primeira, na morte do filho, salvando-lhe a vida pelo transplante do coração dele, e a segunda, na possibilidade de ele, mesmo estando na Pátria dos Espíritos, gerar um filho biológico.
Os avanços da biogenética têm mostrado à humanidade que Deus, infinitamente misericordioso, proporciona aos homens infindáveis maneiras de facilitar-lhes a áspera caminhada terrena.
Se a ciência irá bem ou mal empregar tais possibilidades, que fluem directamente sob orientação do Plano Maior, essa é uma questão que o livre-arbítrio do homem determinará, como vem determinando desde sempre.
O progresso científico não chega à Terra aleatoriamente. Não!
Em verdade, Espíritos Siderais, sob orientação do Mestre Jesus, nosso Governador planetário, em obediência às condições estabelecidas por Deus na Lei do Progresso e nas demais Leis Morais fazem aportar na superfície terrena, via missionários especiais, as descobertas que revolucionam o viver físico e moral na face do planeta.
Assim é que no campo da genética, em particular, o que se vê é a descoberta na frente da ética, isto é, o facto antecedendo a previsão social, a lei.
Outra não tem sido a causa da perplexidade do homem diante daquilo que pode ser manipulado num laboratório, quanto à vida.
Prudente será que a direcção de todos os procedimentos seja aquela indicada pelo Evangelho do Bom Pastor - a bússola cristã cuja agulha directriz invariavelmente está voltada para o pólo magnetizado pelo bem.
Jesus foi quem imantou a agulha dessa bússola, quando declarou que de dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas, na frase sublime e inesquecível:
"Amor a Deus, sobre todas as coisas, e ao próximo, como a si mesmo".

4 - "Atravessar o Rubicão": essa expressão significa tomar uma decisão audaciosa e irrevogável, qual a que César tomou, quando, então governador da Gália Cisalpina (janeiro de 49), atravessou o Rio Rubicão, para marchar com seu exército sobre Roma.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 09, 2017 12:01 pm

13 – BENDITA DOR
A recuperação e início da convalescença de Ari transcorreram segundo as previsões e, por isso, em três semanas, recebeu alta hospitalar, devendo, contudo, ter acompanhamento médico permanente por cerca de mais um mês.
Inúmeras reuniões antecederam a alta hospitalar.
O doutor Renato convocou Luiza, Meire, Angelina, Ane e sugeriu também a presença do doutor Américo para repassar-lhes algumas instruções a serem observadas no pós-operatório.
Bem-humorado, disse:
— Não pretendo dar-lhes aula sobre a convivência doméstica, contudo, nosso Ari exigirá de todos nós, principalmente dos familiares, alguns cuidados especiais.
— Por favor, doutor Renato - atalhou Luiza - diga-nos com toda a sinceridade o que deveremos fazer e como proceder daqui para frente de forma que o Ari fique totalmente bom.
— Bem, a medicina tem como verdadeiro e corrente que no pós-operatório próximo ao tempo da cirurgia muitas são as reacções possíveis de acometer o paciente, tanto de ordem psicológica quanto orgânica; ou, talvez, entrelaçadas ambas, dando origem as primeiras às segundas.
Vejamos algumas delas:
"No campo das ocorrências orgânicas prevalecem alterações gastrintestinais, anomalias funcionais dos rins, problemas respiratórios, sendo um quadro grave o relativo à possibilidade de infecção; mais graves ainda seriam a debilidade geral por imuno-supressão e, finalmente, a rejeição.”
Angelina, atenta, não conseguiu segurar um comentário:
— Nesse caso de rejeição, tenho razões fortes para crer que no Ari será mínima, pois traz em si mesmo o coração do filho.
E eles eram amigos, ou melhor, pouco antes de o Anderson morrer, tornou-se amigo do pai, ao vê-lo doente.
Primeiro sentiu compaixão, logo passando a sentir o amor filial, que estava encoberto pela dedicação paterna às empresas da família...
— Respeitando seu ponto de vista, até que vejo com bons olhos a hipótese.
Falando da rejeição, como as drogas usadas buscam inibir o sistema imunológico do transplantado, surge o problema do uso perpétuo.
Aí, como decorrência, o paciente estará sempre sujeito a contrair doenças infecciosas, pois aquelas drogas impedem a defesa natural.
Hoje, talvez esse seja o maior desafio para a medicina:
evitar a infecção dos pacientes portadores de órgãos estranhos sem destruir o maravilhoso sistema imunológico humano.
Como ninguém perguntasse nada, o doutor Renato continuou:
— Já quanto ao clima psíquico decorrente de tão importante ocorrência, um transplante cardíaco, não resta dúvidas de que é uma nova etapa existencial que se inaugura, quase um renascimento.
Ansiosos, todos aguardaram que Renato explicasse:
— Tão profundas são as emoções do indivíduo salvo pelo transplante, que o inter-relacionamento humano adquire novo formato:
primeiro, a super-valorização da vida que o paciente dá a si mesmo, já que a sua esteve no limiar da cessação anunciada; após, olhando o mundo dessa nova janela, até os desconhecidos transeuntes também são contemplados com mais respeito; há uma natural e grata exaltação da equipe cirúrgica que o atendeu; não que mereçamos, mas é o que acontece - registou Renato, humilde, logo prosseguindo: a seguir, optimiza a existência dos enfermeiros, que se desdobraram em cuidar dele, às vezes, dando-lhe a impressão de que o consideravam "a pessoa mais importante do mundo"; na verdade, naquele momento, de facto o era; por fim, vocês irão observar que até mesmo os serviçais, tanto do hospital quanto da sua própria rua, bem como os que atendem na residência, vão passar a ter um valor incomensurável para o Ari, pois lhe ocorre "que eles têm um coração sadio", e isso, ele bem o sabe, não tem preço...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 09, 2017 12:01 pm

Fazendo uma pausa, o doutor Renato prosseguiu:
— Na esfera das emoções advindas das actividades profissionais, sociais ou do convívio familiar, é certo que se amenizam, fortemente, possíveis tendências anteriores para o atrito:
vocês e os funcionários das empresas do Ari irão perceber que ele se tornou mais passivo, mais tolerante.
Embora sem deixar de ter a mesma personalidade, o facto é que sempre há acréscimo de saudável bom senso.
— Bendita dor! - Exclamou Angelina, sempre impulsiva.
— Do ponto de vista médico, isso é verdade, desde que a consideremos como mensageira de anomalia a requerer urgente socorro...
— Mas há outro ponto de vista, se o doutor me permite...
— Estou ouvindo-a, dona Angelina.
— Nós espíritas, longe de trilharmos pela senda masoquista, mas tão somente confiantes na Justiça de Deus, sabemos com fé plena que os sofrimentos são mecanismos de alerta, exigindo cuidados com nosso corpo, mas, mais importante que tudo, não deixam também de ser um acontecimento abençoado, pois, sabendo da Bondade do Pai, aquela dor que nos visita necessariamente tem origem em algum desvio de nós próprios.
E, se nada fizemos para merecê-la, aí a lógica e a razão gritarão que o erro foi cometido mais lá atrás... em outras vidas...
Mas penso como o senhor:
nesse caso do Anderson, o Ari não tem estrutura psicológica para assimilar, sem grave desequilíbrio espiritual, acrescento eu, tão pungente acontecimento...
Aliás, imagino que talvez pouquíssimos pais, no mundo todo, teriam tal estrutura.
— Incluir a lógica e a razão nesse contexto é algo muito interessante, dona Angelina.
Quando puder, gostaria de conversar mais um pouco sobre isso com a senhora...
— Estarei sempre às suas ordens.
A bênção que contempla os pacientes espíritas é justamente o entendimento da Lei de Acção e Reacção que expressa a Justiça Divina.
Sabendo que a doença, bem como seus transtornos, é consequência de sua própria invigilância, desaparece a revolta e surge a calma, factor decisivo para a cura.
Em todos, bailava silenciosamente a cruel expectativa de como informar Ari sobre o doador.
Considerando que seria impossível esconder-lhe a realidade, a família, com o aval do cirurgião e do doutor Américo, optou por contar para o Ari em duas etapas:
a primeira, informando-lhe sobre a morte do filho; a segunda, sobre o transplante, alguns dias após.
De facto, antes de deixar o hospital, acompanhado da esposa e da filha, que foram buscá-lo, Ari voltou a perguntar pelo filho e Luiza disse que ele continuava viajando...
Ao se ver no trânsito, Ari não conteve as lágrimas:
estava de volta ao mundo!
Nunca a vida lhe parecera tão querida, tão linda, tão amada, tão sublime!
O Sol, que no dizer de Leonardo da Vinci é "a sombra de Deus", namorando a manhã, com certeza - essa era a impressão de Ari - estava pessoalmente lhe dando as boas-vindas, inaugurando um novo viver para ele.
Prosseguiu reflectindo:
"Como é linda minha cidade.
Como é bom estar vivo!
Vou seguir os conselhos do doutor Renato e tomar cuidado.
Quero, sim, continuar as actividades empresariais, mas nunca mais as coisas serão as mesmas; se eu tiver uma serra inteira só de montanhas de mármore verde, ainda assim serei sempre mais pobre do que um mendigo que tem o coração saudável."
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 09, 2017 12:01 pm

Completou suas reflexões:
"Quanta gente tem o coração em perfeitas condições e nem sabe o que isso representa...
Sim: o valor de um coração sadio é maior do que montanhas e montanhas de mármore verde!"
Repetimos: bendita dor!
Professora eficiente, convocada pelo próprio aluno réprobo, lecciona-lhe aulas individuais e inesquecíveis, reconduzindo-o ao caminho do recto proceder, o balizado pela prática do bem, isto é, do amor ao próximo.
A dor, em si, não é uma criação nem divina nem humana:
em primeiro lugar, porque só "Deus é a Inteligência Suprema e o Criador de todas as coisas", na sábia resposta espiritual à questão primeira de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec; em segundo lugar, porque o homem não cria nada mesmo, sendo, contudo, como o é, coadjuvante da obra de Deus, não raro agindo, isto sim, como co-criador.
Feita essa consideração, há que se questionar:
"Se nem Deus nem o homem criaram a dor quem a criou?"
"Ninguém, porque ela não é uma criação.
É consequência.
O mecanismo de salvaguarda e alerta, este sim, engendrado pela Engenharia Divina com vistas a impedir ao homem a perpetuidade no mal, impulsionando-o ao progresso moral."
Por isso, quando alguém comete um ato falho, assume a responsabilidade da reacção, configurada em retorno, semelhante e proporcional ao dano causado a outrem.
"Há bênção maior para aquele que erra?"
Surge, contudo, a instigante questão da dor nos animais...
Mas aqui também a dor é amiga, agindo como salvaguarda da sobrevivência deles, depurando-lhes o instinto, na longa fieira evolutiva rumo à inteligência.
Supondo a inexistência da dor, aí sim, poderiam existir os "réprobos eternos", posto que o arrependimento talvez jamais os visitasse a alma ou a consciência.
E, no desdobramento da hipótese, esses réprobos, conquanto não "ardessem eternamente no inferno", também eternamente estariam distantes da felicidade, o que contraria o estatuto do Pai ao criar Seus filhos, "simples e ignorantes", mas pré-determinados à evolução moral e inexoravelmente fadados a serem felizes.
Graças a Deus!
Graças e graças a Deus!
Ari, naqueles instantes mágicos, vivenciando felicidade, mesmo que passageira, conquanto intensa, compreendeu o significado do "desprendimento dos bens terrenos" e o valor "dos tesouros acumulados no Céu", que Jesus tanto proclamava.
Em júbilo emocional por estar vivo, sentia o órgão sadio que ora pulsava forte em seu peito infundir nele uma vontade incoercível de mandar Marcelo parar o carro, para poder abraçar uma por uma das pessoas que andavam pelas ruas e gritar-lhes, em alto e bom som, que elas não sabiam o quanto vale um coração saudável.
Luiza e Meire estavam com ele, felizes também pelo seu retorno ao lar.
O doutor Américo foi convidado a acompanhá-los, mais por amizade do que por precaução, ante qualquer eventualidade com Ari.
Meire há alguns dias vinha observando Américo de modo a tentar surpreendê-lo demonstrando algum sentimento mais forte por ela...
Estava justamente pensando nisso quando, ao olhá-lo, sentiu uma agradabilíssima sensação percorrer-lhe o corpo todo, pois ele a olhava com olhar apaixonado.
Ao chegarem, Ari desceu do carro lentamente.
Olhou para as flores, que pareciam sorrir-lhe.
Entrou. Angelina abraçou-o, terna.
Viu Ane...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 09, 2017 12:02 pm

Pensou:
"Quem será essa bela criatura, que neste momento tão importante me fita com tanta intensidade?"
Antes que alguém a apresentasse, ela própria dirigiu-se a ele e, num gesto que a emoção e a espontaneidade comandaram, abraçou-o.
Soluços fortes denunciaram que sentimentos fortes envolviam-lhe a alma.
Ari, a princípio surpreso, logo retribuiu o abraço carinhoso; eis que o calor humano da bela jovem, indene à sensualidade, mas pleno de fraternidade, funcionou como reconfortante emulação que só a simpatia imediata entre duas pessoas pode proporcionar.
Em feliz simbiose espiritual, Ari e Ane sintonizaram o afecto puro que une as criaturas recém-advindas da dor, física ou moral.
— Sou Ane...
— A companheira de Anderson - houve por bem esclarecer Angelina.
— Meu filho: onde está ele?
Que viagem tão longa é essa e o que anda fazendo que nem sequer me telefonou?
Ainda viajando? Para onde?
— Meu Ari, quantas perguntas! - Repreendeu-o Angelina, logo aduzindo.
Vamos conversar e responder tudo, mas primeiro tenho um pedido para fazer...
— Sim... Qualquer coisa.
— Gostaria que todos me acompanhassem numa prece de agradecimento pela sua volta.
— Claro, claro! - Anuíram todos.
Pedindo aos presentes que se assentassem na ampla sala de visitas e tomando um exemplar de O Evangelho Segundo o Espiritismo, pediu que Ari abrisse o livro ao acaso.
Ari fez isso e devolveu o livro à sogra, que leu o Capítulo 8, no qual o Evangelista Mateus (5:8) assim reproduziu o sublime momento em que Jesus conclamava à felicidade os seus discípulos, no inolvidável Sermão do Monte, e, tendo já feito cinco exortações das bem-aventuranças, proclamou a sexta, com as palavras:
"Bem-aventurados os que têm puro o coração, porquanto verão a Deus."
Outra vez... Incrível!
Foram todos tomados de forte emoção pela "coincidência" de a lição evangélica enfocar justamente "coração", naqueles momentos expressivos do recém-transplantado cardíaco estar de volta ao lar.
Coincidência? Não!
Não há coincidência alguma nos planos da Vida, mormente quando esses planos dizem respeito a factos morais, ou mesmo actos físicos, mas de consequências espirituais.
É facto sabido entre os que buscam Jesus, pela leitura de O Evangelho Segundo o Espiritismo, que normalmente, nos momentos mais importantes, a lição que se oferece ante abertura aleatória das páginas é sempre a mais adequada a transmitir o ensinamento e o conforto de que se está precisando.
Olhos humanos não vinham registando, mas naquela casa, graças às benéficas vibrações e preces desde que ali fora estabelecido o Culto do Evangelho no Lar por Angelina e Ane, inúmeros espíritos bondosos passaram a frequentá-la.
Naquele dia, em particular, a convite de Abdiel, para ali haviam sido atraídos mais alguns, desde antes da chegada da família, reunindo-se, eles também, em preces.
Recepcionando os visitantes espirituais, destacava-se a figura iluminada do protector familiar.
Concluída a leitura do trecho evangélico, Ari, impaciente e algo inquieto, perguntou, dessa vez com mais energia:
— Muito bem: onde está meu filho?
Vão me dizer?
Não é possível que ele não estivesse aqui, ou que pelo menos não me telefonasse.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 09, 2017 12:02 pm

Será que aconteceu alguma coisa com ele e vocês não querem me contar?
Luiza, qual dique que sucumbe à irresistível pressão do acúmulo de águas, irrompeu em lágrimas aflitas, sendo presa de emoções que a impediam de olhar para o marido e mais ainda de falar.
Abdiel sopesou de instantâneo o momento crítico que se instalara, irreversível quanto à revelação da verdade.
Colocou a destra na fronte de Meire e induziu-a a tomar a rédea da situação.
Com inaudita calma, jamais suspeitada pelos familiares, a filha sussurrou, em tom sereno e pausado:
— Está nos braços de Jesus...
Ari não assimilou de pronto a amarga verdade que aquelas palavras traziam em seu bojo.
Como que visitado por súbita ausência mental, o cérebro, em defesa e sob comando do espírito, recusou-se a promulgar o entendimento.
Qual se saísse da órbita terrena, o pensamento de Ari deu um salto galáctico e perdeu-se nas profundezas abismais do espaço infinito.
O espírito Abdiel aproximou-se dele e, num gesto de impacto, espalmou a destra na região cardíaca e a outra mão no alto da cabeça.
Os centros vitais de Ari transbordaram da benéfica transfusão energética de fluidos vitalizantes e logo ele empreendeu o retorno daquela "fantástica viagem", que nem sequer durou um segundo, mas que projectou seu pensamento a incalculável distância, na tentativa de fugir da realidade presente ali naquela sala.
Olhou Luiza, que estava em pranto convulsivo, doloroso.
Angelina tinha o olhar cintilante, brilhando mais pelas lágrimas represadas que se acumulavam, prestes a despencar.
Ane, ainda comovida, começou também a soluçar e logo veio apoiar a cabeça no seu peito, com extrema delicadeza.
Meire, muda, tomou-lhe as mãos e beijou-as.
Américo, o único a sustentar o olhar de Ari, extremamente interrogativo, apenas fez um gesto fraternal abaixando lentamente a cabeça, por três vezes, como que respondendo à pergunta que ainda não tinha sido feita.
A que Ari desferiu:
— O Anderson...
Ele... Morreu?
Américo sentiu-se no dever de responder:
— Seja forte, meu amigo, como nunca antes foi.
Busque em Deus a força de que todos aqui precisam e que só você poderá lhes dar...
— Eu?! Eu?!
Mas como, Américo?!
— Aceitando os desígnios divinos.
Não há alternativa para todos prosseguirem vivendo em relativa paz se não sentirem que você aceitou como sendo justa a dolorosa realidade...
Naquele momento, Américo julgou por bem que era chegada a hora de Ari saber que o filho morrera, e de que forma.
Quanto ao transplante, ainda não...
O doutor Renato havia advertido a família de que prudência máxima teria que ser observada com a finalidade de ocultar a identidade do doador a Ari por algum tempo.
Mesmo sem tal recomendação, todos intuíam que seria por demais arriscado ele conhecer aquela verdade.
Advertira o doutor Renato:
— Qual pai, no mundo todo, tem estrutura psicológica ou suporte espiritual, como sabiamente refere dona Angelina, para conviver com tão fantástica realidade?
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 10:18 am

Ari olhou a esposa, como se não a conhecesse:
seu olhar trespassou-lhe o físico, o espírito e foi para longe, longe...
Olhos embaçados, sem piscar por prolongados e perigosos instantes, nada disse, nada fez...
A respiração quase foi suspensa, pois o cérebro, ante a dolorosa notícia, recusou-se a aceitá-la, contrapondo-se de forma vigorosa, do que resultou desaceleração dos comandos das acções orgânicas vegetativas.
Dir-se-ia, quem olhasse Ari naquele momento, que não tinha sangue, pois suas faces espelhavam lividez anormal, prenuncio evidente de choque físico geral.
A nenhum dos presentes escapou o temor de algo grave, prestes a suceder-lhe.
Agindo mais por impulso do que por qualquer outra circunstância, Meire envolveu-o por trás, num abraço, colando o rosto na face paterna.
A adrenalina que superlativamente a agitava naquele momento conferia-lhe calor à epiderme, que aqueceu o rosto gelado do pai, tanto quanto o amor filial, exacerbado, que lhe extravasava da aura, então radiante ao dobro, transferiu energia que reverberava na dele, reconfortando-o.
Sem que uma única palavra fosse dita, Meire pensou em Deus.
Aquela foi sincera prece, pedindo ajuda divina.
Com as portas da Caridade abertas largamente por Meire, no mesmo instante o plano espiritual acorreu e socorreu Ari, sob influxo do Amor que comandara o gesto da jovem, secundada por Luiza, Angelina, Ane e também o doutor Américo.
Foi instantâneo o atendimento.
O Espírito Abdiel, mais uma vez, auxiliando aquela família, colocou a destra no tórax de Ari e a outra mão no topo da cabeça de Meire, promovendo imediata conexão espiritual entre pai e filha.
Abdiel, assim, funcionou como veículo de transfusão dos fluidos de Meire para Ari, potencializando-os com os próprios.
Outras fossem as circunstâncias, Ari teria tido desarranjos cerebrais graves ou mesmo ido a óbito.
O Amor realiza maravilhas que a mente humana desconhece.
Num segundo, fruto porém de incontáveis acontecimentos que várias existências sobrepuseram uns aos outros, Meire quitou pesadíssimo débito - não com o pai, mas perante a consciência, pois muitos séculos atrás adicionara ao seu passivo moral factos negativos, prejudicando desafectos, resultando, em alguns deles, a demência e, em outros, a morte.
Após várias etapas existenciais nas quais pervagou com a loucura, na presente obtivera quitação parcial, predispondo-se, sob inescapável acção da consciência, à reconstrução do que havia destruído.
Quando os erros de alguém se acumulam, surge a escalada da dor, como bendita interrupção.
Facto esse que a Justiça Divina administra, sempre com amor e tolerância.
Se o reequilíbrio moral se instala após serem ouvidos os altos brados da consciência, antecedendo os sofrimentos que o réprobo atraiu para si mesmo, a quitação se dará da melhor maneira que há para o resgate:
em acções beneméritas, em benefício do próximo.
Ao contrário, se há recalcitrância diante da surdez sistemática e dos descaminhos morais, com prejuízo crescente ao próximo, mas principalmente a ele mesmo, aí não haverá alternativa àquele que teima no erro:
perderá temporariamente o livre-arbítrio, eis que entrará em vigor a sacrossanta lei da inexorabilidade.
Aparentemente abandonado aos próprios desatinos, não mais prejudicará alguém, estagiando por tempos às vezes demorados em ambientes de tanta hostilidade que, cedo ou tarde, mas inexoravelmente, ouvirá os conselhos da consciência.
Messes terríveis momentos em que a solidão já acumulou incrível património de reflexões, uma só emergirá desse mar de dores: o arrependimento sincero!
Mo mesmo instante, será reconduzido pelos jamais ausentes Benfeitores do Mais Alto ao melhor lugar para o preparo da retomada do progresso espiritual.
Dessa forma, a quitação das dívidas morais será sempre orientada por prepostos do Mestre Jesus - o intermediário entre nós e o Pai -, os quais, com sabedoria e tolerância, são os doadores permanentes do Amor de Deus para com Seus filhos.
Bendita dor!
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 10:19 am

14- O LAR E O NINHO
Ante o vigoroso "transplante espiritual" da filha para ele, invisível a todos os encarnados, Ari retomou consciência, pois, com o enfraquecimento do espírito, ao receber a notícia da morte do filho, esforçara-se em desligar-se da sua prisão orgânica, naquele momento também fragilizada.
Em outras palavras:
aquele lar tinha sido cenário da tentativa de suicídio por parte do chefe e de como a filha havia conseguido evitá-lo, desencadeando a sublime ajuda do Plano Maior, via Abdiel.
- Anderson... Anderson...
Mais Ari não conseguiu balbuciar; eis que lhe desabou uma torrente de lágrimas que vinha sendo há tempos represada por angústias e medos, desde a eclosão da doença que o acometera.
A tristeza de agora, muito maior do que qualquer emoção paterna encontrou no pranto a válvula de escape ante tamanha pressão.
Se as palavras expressam o que nos vai pela mente, o choro ou o sorriso são a voz da alma.
E, ali, a alma do pai falava do quanto amava o filho.
Meire, ao ver o pai reagir, imbuída de alegria ímpar, começou a rir e a chorar também, evidenciando que almas têm mesmo inexplicáveis formas de se manifestar, pois como é que o choro pode ser de felicidade?
Ane, com a simplicidade própria das pessoas que se conformam com a adversidade, fruto da fé na Justiça Divina, tomou a mão de Ari, beijou-a e murmurou:
— O Anderson só pode estar com Jesus, pois quem no mundo foi, é e será sempre tão amado?!
Com os olhos marejados, foi corajosa:
— Tão grande é meu amor por ele que só não me entrego ao desespero pela esperança de um dia retomar minha caminhada ao seu lado.
Num incontido impulso, anunciou:
— Se Deus quiser, essa retomada já vai começar...
Ari, agora algo refeito, mas pouco entendendo do que falava Ane, olhava-a extasiado.
E ela explicou:
— Se tudo der certo, quem sabe o senhor, daqui a uns nove meses, não se torne avô?
Ari olhou na hora para Meire, que brincou:
— Não olhe para mim... olhe para a Ane.
Ari não conseguiu evitar que seus olhos pousassem na barriga da jovem.
E ela, algo coquete:
— Não tem nada aqui, por enquanto...
Mas logo aduziu:
— O Anderson e eu planeávamos um filho, mas eu sou "meio defeituosa".
Então pensamos na reprodução assistida.
Ari abriu a boca, para entrar bastante ar nos pulmões.
Foi aí mesmo que chorou de felicidade.
Na hora lembrou-se de que pagara dívidas do filho, segundo ele contraídas em "negócios de genética"...
Então, esses eram os tais negócios: um neto!
Tanto quanto dos pântanos nascem flores lindas cujo expoente é o lírio, naquela paisagem nublada de tristeza infinda pela morte do filho surgia no horizonte um sol esplendoroso, divino...
Com o futuro acenando-lhes com a cor da felicidade.
No dia seguinte Ari pediu a Américo para irem ao jazigo da família.
Lá, depositou flores no túmulo do filho.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 10:19 am

Os dois oraram o Pai-Nosso e, depois de algum tempo, mudos, retornaram.
Por desconhecidos desígnios naquela família, duas partes vitais de Anderson continuavam com plena potencialidade física...
"Seriam mesmo desconhecidas as origens de tais factos?"
O Espiritismo, com as luzes esclarecedoras das vidas passadas vem desvendando aparentes mistérios, e esse é apenas mais um deles, no qual o esquecimento de como tudo se iniciou e se desenvolveu é bênção que contempla a reparação de más acções via outras existências terrenas - reencarnações sucessivas!
Quando Anderson foi atingido pelo tiro, pouca noção teve do que havia acontecido:
um grande e insuportável calor, a partir da cabeça, percorreu-lhe o corpo todo e em breve momento, menos de um minuto perdeu a consciência.
Olhos humanos não registaram uma cena produzida em nome da Caridade, mas creditada especialmente ao seu merecimento moral:
com efeito, emergindo do plano espiritual, dois socorristas acorreram de pronto, massagearam seu corpo com uma substância ao mesmo tempo diáfana e luminosa.
Por efeito dessa fluido terapia, o perispírito de Anderson foi, pouco a pouco, desprendendo-se do corpo físico, a ele sobrepairando, quando quase todos os liames que o prendiam haviam se desatado.
Só ficou um feixe de relativo teor luminoso ligando o local do ferimento, na face, ao corpo perispiritual.
Seriam necessárias algumas horas ainda para que o desligamento completo se operasse.
Messe espaço de tempo, Anderson, em espírito, permaneceu na maca, adormecido, em razão dos passes que recebera.
Os dois socorristas, em preces, ladeavam-no.
À volta da maçã, qual uma corrente eléctrica visível de cor azulada, faiscava uma fita iluminada em giros ininterruptos e velozes, proporcionando eficiente campo de defesa ao desfalecido.
Isso porque cobiçosas entidades desencarnadas, em atitude vampiresca, espreitavam nas cercanias à espera de sorver a abundante vitalidade que se evolava do corpo irremediavelmente danificado.
De facto, completadas poucas horas desde o início da tragédia até a chegada do corpo dele ao hospital para aproveitamento de órgãos, foi desligado o último fio perispiritual que ainda o prendia à matéria.
Daí foi levado por uma escolta espiritual até um posto de atendimento emergência devendo ali ficar em sono induzido e velado.
Anderson permaneceria em sonoterapia por tempo necessário à transferência para a esfera espiritual consentânea com seu progresso moral, para mais tarde se refazer por completo.
Lá, então, reiniciaria as actividades que deveria encetar, à conta de reconstruir sua vida rumo à continuidade do benfazejo progresso espiritual a que todas as criaturas estão destinadas, por decisão divina.
Socorristas espirituais, especializados em fluido terapia, devidamente autorizados pelas esferas superiores do Plano Maior, ministraram passes em Anderson, fazendo que nenhuma repercussão fosse sentida por ele, quando do aproveitamento, em transplantes, dos órgãos do corpo que lhe servira na existência terrena que findara.
E isso não era deferência, mas merecimento.
Apesar de seu corpo ter sido encontrado com o documento de identidade de outra pessoa, Anderson também era um doador voluntário, o que constava de seu próprio documento, que fora roubado.
E quando se é doador voluntário, as Leis de Deus, contemplando sempre a valorização da caridade, agem nessas e em todas as demais situações nas quais, em razão do desprendimento dos valores terrenos, resultam benefícios para o próximo.
Tal é o caso da doação declarada em vida, visando ao aproveitamento múltiplo de órgãos, quando do óbito: muitos serão os pacientes beneficiados.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 10:20 am

O mérito é indiscutível.
Contudo, no planeta Terra, as tradições e costumes das diferentes raças forjaram as diferentes civilizações.
Por milénios acumulados, quando da morte, a maioria delas vem devolvendo os despojos dos entes queridos à natureza, cujas sábias leis decompõem-no e reintegram-no à origem.
Por isso, não há como rotular de não-caridosa aquela pessoa que não é doadora nem em vida nem após.
É apenas alguém que, a bordo do seu direito de escolha, optou pela não-doação, não tendo, por isso, nenhuma crise de consciência.
Pouco a pouco as pessoas vão se acostumando com a ideia dos transplantes, os quais só há cerca de três décadas aportaram no mundo de forma científica, proporcionando sobrevida e, mais que tudo, esperança para doentes, muitos deles quase sempre terminais ou com diminuta chance de sobreviver.
Se hoje é ainda pequena a lista dos doadores, sendo grande a dos que deles dependem, talvez possamos imaginar que, com o tempo, isso não acontecerá.
O corpo físico, na verdade, é um empréstimo de Deus.
Se há esse entendimento, também pode haver outro:
o de que os transplantes, assim como todos os demais avanços da medicina, são possibilidades que a inteligência humana colocou na bandeja da vida, em benefício humano.
Sabendo, finalmente, que não há o acaso, é de supor que o transplante, visando a superar determinada patologia, tem o aval do bem.
Após o retorno de Ari ao lar, passaram-se alguns dias e naquela casa quatro eram os projectos de vida:
todos se dedicavam à convalescença de Ari, para o que lhe dispensavam carinhos e mimos permanentes; esse apoio psicodinâmico foi de capital importância para sua recuperação; aproximava-se a hora de Ari saber quem fora seu doador; por decisão unânime da família, aguardariam que ele se recuperasse um pouco mais da cirurgia, para então realizar a reprodução assistida que iria proporcionar a sonhada maternidade de Ane, bem como transformar Angelina em bisavó, Ari e Luiza em avós, Meire em tia, e Alice e Alva em "mães coadjuvantes" (parentesco não constante do Código Civil, mas que já pode existir na prática, graças à biogenética); aliás, no coração das seis mulheres, directa ou indirectamente envolvidas com a fecundação artificial, Anderson estava presente, "mais vivo do que nunca"...
E também, de forma directa ou indirecta, nas várias nuanças que o amor possibilita, era amado por todas; este oculto:
só de Ari.
Vingança! Desde que soubera da brutal morte do filho, nele crescia o desejo de vingá-lo.
Incontáveis planos mentais vivia traçando para efectivar a desforra que pretendia impor aos assassinos.
Debilitado fisicamente, sonhava com a hora em que, já restabelecido, consumaria o "justíssimo ajuste de contas", segundo pensava.
Quanto ao primeiro projecto, aos poucos foi concretizando-se, pois o operado não passou por alterações que pusessem o transplante em risco.
O segundo era qual um torniquete mental a apertar a alma dos familiares, que temiam o momento em que não mais seria possível esconder a verdade relativa à doação.
O terceiro de facto efectivou-se com êxito:
após testes realizados pelo laboratório de genética, quanto às características fenotípicas de Ane, ela teve implantados em seu útero quatro embriões cujos óvulos de doadoras desconhecidas foram fertilizados com espermatozóides de Anderson.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 10:20 am

Decorrido o tempo necessário, foi comprovado ter havido aderência ovular no útero dela.
Exames posteriores mostrariam quantos óvulos haviam feito a fertilização prosperar.
Relativamente às despesas, não poucas, quase houve briga, pois todos queriam pagar.
Até as gémeas se julgaram com esse "direito".
Mas a autoridade de Angelina, emanada do respeito devido à sua idade, falou mais alto, e foi ela quem custeou a sublime experiência.
Aliás, essa decisão foi aceite após a velha senhora ter "exigido" uma reunião familiar, para a qual foram convidados os doutores Renato, Américo e o ginecologista de Ane.
Nem foi preciso muito esforço para que soubessem o motivo daquela convocação:
em sentida prece dirigida a Jesus, Angelina agradeceu a bênção de a medicina terrena já dispor da tecnologia que ali possibilitava a presença física do neto, mesmo que parcial, da qual, Deus permitindo, logo o mundo teria mais um bebé e mais uma mãe, três factos felizes que, do contrário, não aconteceriam.
Quando Angelina concluiu a oração, olhos rasos de lágrimas, o mesmo se dando nos demais, Alva brincou:
— Vamos esclarecer desde já um ponto:
se eu e Alice nem podemos pagar as despesas da nossa irmã Ane, queremos ter o direito de ajudar o filho do Anderson e dela, não apenas como tias, mas sim como "tias quase mãe".
O ginecologista captou o clima fraternal, mas aconselhou:
— Esse direito, só espiritual, mas não legal, o coração de vocês duas terá, já que de forma indirecta participaram dessa nova vida que está a caminho.
A propósito, informo a vocês duas que os óvulos que doaram já foram utilizados em clientes que não conhecem nem conhecerão.
Agora foi Alice que pensou em voz alta:
— E quem tem "direitos cardíacos" o que mais pode querer?
Ari, do fundo de uma angústia que o atormentava, atalhou:
— Saber quem é o doador...
A tensão chegou quase a ficar insuportável.
O próprio Ari contemporizou, dirigindo-se a Alva e Alice:
— Por exemplo:
no caso de vocês, assim que meu neto tiver entendimento, eu faço questão de contar tudo para ele...
Quanto ao projecto oculto - o da vingança - Ari ainda aguardava ter condições físicas de realizá-lo.
Aliás, em menos de três semanas já dava mostras de interesse pelos negócios...
À medida que os dias transcorriam, Ari ia cada vez mais ficando intrigado com a inusitada demonstração de carinho que todos lhe dispensavam.
Perspicaz, refez de memória a forma como vinha sendo tratado desde que saíra do hospital:
"É. Na verdade, todos me querem bem, graças a Deus!
Tanto carinho só me tem feito bem.
Imagino que todo e qualquer paciente que seja recém-transplantado do coração deve mesmo receber tais cuidados.
Acontece que sempre que falo na identidade do doador noto que eles se entreolham... como se estivessem me escondendo alguma coisa...
Não é impressão, não:
quando dona Angelina fez a prece de agradecimento pelo êxito da fecundação assistida da Ane, por que as mulheres vieram até mim para encostar o rosto no tórax?
Luiza, então, meu Deus:
o que significaria o facto de ela beijar-me o peito e explodir em lágrimas?
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 10:20 am

Se eu estou bem, por que as lágrimas tão compungidas?"
Prosseguindo em suas reflexões, meditou:
"Meire, quando viu a mãe beijar-me o peito, olhou espantada para a avó, que também ficou espantada...
Porquê? O que teria levado minha filha logo em seguida a pôr a mão sobre meu coração novo e irromper em lágrimas doloridas?"
Pensou e pensou mais um pouco e lembrou-se:
"Notei que a Ane aproximou-se e acariciou-me ternamente o tórax, demorando-se com a mão sobre o coração.
Quando fui espontâneo e disse a elas que até parecia que amavam mais aquele coração do que a mim, percebi uma pressa danada delas em dizer que eu estava enganado..."
Aí, somando todos esses pensamentos, fez uma última e decisiva reflexão:
"Desde aquele dia todas fazem questão de nem mais olhar na direcção do meu coração...
Vou descobrir o mistério que estão me escondendo e já sei como..."
Convidou o doutor Américo para acompanhá-lo num passeio matinal, para irem a um florido jardim do bairro, aquele mesmo jardim no qual Meire tomara a acertada decisão de livrar-se das drogas...
— Américo - disse ao amigo, quando chegaram e pararam bem em frente a um canteiro de perfumadas rosas -, você sempre teve minha maior confiança e mesmo nos meus recentes momentos difíceis manteve-se fiel e merecedor da minha amizade, mas sobretudo da minha gratidão...
O médico intuiu o que estava por vir.
Mantendo o auto-controle, para o que a profissão o ajudava, aguardou sereno.
Aliás, tinha um hábito mental dos mais salutares:
diante de momentos difíceis ou críticos, de qualquer natureza, sempre mentalizava Jesus, quando dizia aos Apóstolos:
"Deixo-vos a paz, a minha Paz dou" (João 14:27).
Ma mente de Américo, Jesus estava ali e repetia as mesmas palavras para ele.
Dessa forma, sempre fora beneficiado, quando qualquer facto demandava equilíbrio e calma, nos actos e palavras.
Ari foi incisivo:
— Há algo transcendental cercando minha cirurgia, ou melhor, meu coração.
Não tenho dúvidas quanto a isso.
Chamei-o aqui porque quero que você me conte o que é, pois estou certo também de que você sabe a resposta.
Mais do que nunca Américo buscou ajuda no plano espiritual.
E a ajuda veio:
antes que o médico pudesse dizer uma palavra, o espírito Abdiel aproximou-se e, em vigorosa fluidificação que aplicou em Ari, fê-lo sentir incontrolável sonolência.
Américo amparou o amigo, vendo-o demonstrar tontura.
Sentaram-se num banco e, com Ari ainda meio zonzo, sob indução do Protector espiritual, iniciou breve explanação:
— Meu Ari, meu amigo:
nunca trairia sua confiança.
Para sua família e para mim, nossa maior preocupação, desde que soubemos de sua doença, foi tudo fazer para você ficar bom.
No seu caso, você esteve a poucas horas da morte, mas, por bondade de Deus, aquela não era a sua hora de realizar a grande viagem para a pátria dos espíritos.
Respirou fundo e prosseguiu:
— Você reconhece que nos planos da Vida sempre ocorre o melhor para cada um?
Você crê que isso ocorre aleatoriamente, ou acredita que tudo obedece às leis de Deus?
— Creio em Deus.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 10:20 am

Sou cristão. Mas não sei...
— Ser cristão, para você, é ir à igreja e assistir aos cultos?
Respondeu ele mesmo:
— Não, meu Ari, ser cristão é acreditar na Justiça Divina, amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
É não se rebelar diante das vicissitudes, é perdoar e até mesmo aos inimigos amar...
Ari como que despertou da sonolência:
— Perdoar a quem matou meu filho?!
Jamais!
— Então, Ari, não se diga cristão...
— Você perdoaria?
— Se colocado diante de tal situação, imploraria a Jesus forças para seguir Seu conselho, não o de perdoar "setenta vezes sete", mas ao menos uma vez.
Uma única vez.
Um perdão! Um só, pelo menos!
— Muito bem, Américo:
aonde você quer chegar?
O médico pressentiu que os factos haviam acumulado evidências e que Ari não se conformaria com explicações que não trouxessem a verdade à tona.
Ainda em ligação com as esferas espirituais superiores, intuiu, ou melhor, captou o conselho de Abdiel, também ele em preces a Jesus, para contar o que se passara.
Muitas vezes, diante de situações-limite, qual a vivenciada naquele instante por Ari e Américo, não se pode furtar-se a uma reflexão:
a verdade, inexoravelmente, sempre vence todos os obstáculos que se lhe tenham sido antepostos, inclusive - e principalmente - o pseudo-esquecimento.
É de raciocinar, ante as luzes do Espiritismo, que nem mesmo os pensamentos de milhares e milhares de anos atrás estão dissolvidos em algum lugar do passado.
Não: também se manifestam no presente, eternizados que foram, da origem aos milénios seguintes, ao ganhar abrigo no infinito arquivo que todos possuímos no espírito imortal, eterno.
E é desse arquivo imemorial, indestrutível, que, por vezes, quando há necessidade de rememoração, algum pensamento vem à tona da consciência, sob estrita supervisão espiritual.
Os sonhos, segundo os quais convivemos com "estranhos", mas que nos são conhecidos, estabelecendo ténue paradoxo, são um dos mecanismos mais ou menos rotineiros desse processo.
A intuição, outro...
Pensamento é dinamismo, é vida!
Assim, cedo ou tarde, o grande guardião - o Tempo - desentranha a lembrança, rememora o facto, reconstitui o ato e delega aos partícipes humanos o que fazer: em geral, em 99,9 por cento desses momentos difíceis, o perdão é o grande génio que a todos acode, socorre, levanta e sustenta nas caminhadas redentoras do porvir.
Perdoar, dessa forma, é ganhar a Terra e o Céu!
Todas essas digressões perpassaram velozes pela mente de Américo, que decidiu:
era chegada a hora!
A hora da Verdade para Ari!
Antes, formou um alicerce psicológico para a grande revelação:
— Sempre o considerei um forte, Ari.
Você demonstrou equilíbrio ao longo do tempo em que nos conhecemos e é em nome dessa feliz característica da sua personalidade que vou esclarecer suas dúvidas.
Tomou as mãos do paciente, apertou-as vigorosamente, suspirou fundo e disse, com extrema calma:
— O nosso Anderson era um homem maravilhoso, de muita bondade...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 10:21 am

Certa vez me procurou, pedindo conselhos sobre doação de órgãos...
Ari sentiu um passageiro mal-estar, porém, logo seguido de agradável calor que lhe percorreu o corpo todo, fruto da transfusão energética fluido-terápica que Abdiel lhe aplicava.
Américo continuou:
— Estranhei a pergunta de Anderson e, antes de lhe responder, fiz uma outra pergunta:
"Meu jovem, como é que alguém tão saudável como você se põe a pensar em doação de órgãos?"
Américo fez pesado silêncio e, olhando fixo nos olhos de Ari, continuou:
— Sabe o que ele me respondeu?
Ari nem sequer arriscou um palpite, aguardando o próprio Américo responder:
— Ele me contou um sonho estranho que vinha se repetindo, já tendo sonhado a mesma coisa por três vezes...
Nesse sonho, cujos personagens e factos para ele eram de impressionante realidade, via-se como um sultão e, sem consultar nenhum calendário, tinha noção plena de que tudo aquilo acontecera há séculos e séculos... com ele!
Aflitíssimo, Anderson pediu-me que o ajudasse a interpretar aquele sonho...
Ari sempre fora céptico quanto a factos sobrenaturais.
Pragmático, jamais aceitara a redução simplista do intercâmbio entre o plano espiritual e o material, por mediunidade, seja em Centros Espíritas ou fora deles, menos ainda por sonhos.
Agora, contudo, que conhecia algo tão profundo ligado ao filho, que já morrera, entrou numa espécie de ausência da realidade e quase sentia Anderson junto dele...
Mas não havia morrido?
Então, como poderia captar a presença do filho bem ali, pertinho deles?
Que estranhos mecanismos eram aqueles que o envolviam, conferindo-lhe certeza plena de que seu amado Anderson continuava vivo?
E por perto...
Como?! Como?!
Américo, talvez por intuição, talvez por telepatia - ou pelas duas coisas, que andam em paralelo -, procurou clarear as dúvidas do amigo, falando-lhe da visão que o Espiritismo tem dos sonhos:
— Disse ao seu filho que nós, espíritas, sabemos, por intermédio das informações que nos dão vários espíritos protectores, que, quando sonhamos, uma parte do nosso ser, denominada espírito, junto com seu corpo, o perispírito, que faz a ligação com o corpo físico, fica livre e quase sempre vai aos endereços do seu interesse no plano físico ou no plano espiritual, onde se encontra com afins.
É dessa forma que Deus nos oferece, todas as noites, a magnífica oportunidade de novos aprendizados, de reencontro com amigos queridos e saudosos, por vezes de muitas vidas passadas, o que explica como é que, embora estranhos, tais amigos "sejam nossos conhecidos".
Além disso, durante o sono, aqueles que têm a caridade no coração podem se juntar a equipes espirituais socorristas e ir visitar criaturas necessitadas e infelizes, encarnadas e desencarnadas...
Isso porque nós, encarnados, temos em nosso corpo físico uma sublime usina que produz uma energia de infinitos empregos, denominada "ectoplasma".
Uma das utilizações do ectoplasma é a reabilitação da vitalidade.
Ari ouvia atento ao amigo, que seguiu:
— Há mais doentes desencarnados do que encarnados e, assim como as transfusões sanguíneas têm salvado tantas pessoas, de forma idêntica as transfusões de ectoplasma têm reconfortado milhares de espíritos que desencarnaram com endurecido apego aos bens terrenos.
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 10:21 am

Esses infelizes irmãos, ao despertarem na Espiritualidade, mostram-se tão confusos que, a breve tempo, desentendendo tudo à sua volta, não raro são visitados pela demência.
Nesse triste apogeu da desorganização mental, por força da fixação nos perdidos interesses materiais - geralmente os vícios - e pelas consequências materiais da sua morte, em que familiares herdam e passam a usufruir os seus terrenos que aqui foram deixados, às vezes sob comando de tutores legais, os desencarnados atraem-se àqueles ou a estes inexoravelmente.
Aí, estabelecem-se logo laços resistentes de união, em atropelado clima de ódio da parte dele; e de usura, da parte dos herdeiros.
A essa atrelagem o Espiritismo denomina obsessão.
Fez uma pequena pausa e logo seguiu:
— Seu filho temia estar sendo vítima da obsessão, pois não conseguia tirar da cabeça uma ideia fixa:
a de que ele tinha mesmo sido o tal sultão...
Américo interrompeu as palavras, dando tempo ao amigo para reflectir e assimilar algo do que dissera.
Logo, continuou:
— Mas, voltando a falar do tal sonho recorrente do Anderson, sonhado várias vezes:
em seu harém tinha lindas mulheres, mas a nenhuma dedicava amor, nem sequer afecto...
Entediado daquilo tudo, sentindo-se qual dono de pomar que à vista de tantos saborosos frutos de nenhum se apetece, vivia procurando novas formas de prazer, "de vida", segundo julgava.
Então, por infelicidade, mas naquele tempo tendo considerado felicidade, ficou sabendo, por súbditos ocultamente interesseiros, que havia um homem viúvo pai de três filhas, todas solteiras:
uma já prometida a pretendente aprovado.
Curioso, mandou trazer em palácio aquelas irmãs e, ao vê-las, passou-lhe pela cabeça a ideia de divertir-se com elas:
tê-las em seu harém, para que, uma a uma, "distraíssem-no".
Depois... bem, depois faria que elas duelassem entre si, para saber qual se tornaria a favorita.
E assim fez.
Só não contava com dois factos:
o primeiro: o pai das jovens, ante tão grande maldade, não suportou os desgostos e, embora saudável, acabou por ser vitimado por um infarto cardíaco, que o matou;
o segundo: que as três engravidassem...
Contrariado, prometeu à mais jovem que a favoreceria, caso abortasse; promessa vã em que a jovem acreditou.
Abortou, submissa ao sultão, mas cometendo terrível desrespeito para com Alá - o Senhor da Vida.
Já as outras duas irmãs, que igualmente receberam idêntica e mentirosa promessa do sultão, recusaram-se terminantemente à providência abortiva, que, contudo, acabou acontecendo, com violência, sob ordem sultânica.
Ari ouvia boquiaberto aquela narração, mais parecida com um conto, não de fadas, mas de infelizes vítimas do destino, acontecido, também, não há "1001 noites", mas talvez há 1001 anos...
— Respondendo ao Anderson, naquela oportunidade, disse-lhe o que penso:
em primeiro lugar, que eu próprio sou doador de órgãos; quando eles não mais me servirem, que possam ser aproveitados por tantos e tantos doentes que aguardam um transplante; depois, quanto a ele ter sido sultão em outra vida, disse também que, por vezes, Deus permite que a cortina do passado seja entreaberta, por meio dos sonhos, para que o sonhador se conscientize de algo a reparar...
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Re: TRANSPLANTE DE AMOR - Roboels/Eurípedes Kühl

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 10:22 am

— Mas o que o meu filho poderia fazer, passados tantos séculos?!
— Pediu-me segredo, mas, como você é o pai e o que vou dizer não poderá comprometer a memória do nosso Anderson, imagino mesmo que ele, em espírito, até quer que eu conte para você...
— Meus Deus!
Que segredo pode ser esse?
— Contou-me que namorou três irmãs...
— Nossa Senhora!
— Isso mesmo:
também fiquei espantado.
Sabe quem são as três irmãs que ele namorou?
— ?!
— Alva, Alice e Ane...
— Nossa Senhora!
— Não é difícil, agora, montarmos o quebra-cabeça dos sonhos dele:
a gravidez artificial da Ane, com espermatozóides do Anderson e óvulos de doadoras desconhecidas, mas com apoio de Alva e Alice, que doaram óvulos seus em troca dos que foram utilizados na irmã adoptiva, parece sinalizar que parte da antiga demolição moral das três agora se reconstrói.
Parou um pouco, dando tempo a Ari para confrontar os factos.
Depois, reflectiu em voz alta:
— A gravidez artificial da Ane é facto tão marcante que me leva a imaginar que a irmã que fez aborto para agradar ao sultão pode ser ela, pois, agora, nasceu com a bênção da maternidade prejudicada.
As dificuldades que teve agora de enfrentar para obter sucesso em ser mãe parecem indicar que isso teve a finalidade de que ela passasse a valorizar a maternidade.
E mais:
como, superando as dificuldades, conseguiu engravidar, podemos inferir que tal se deve à atenuante de então ter sido ludibriada...
Ari, visivelmente perplexo, murmurou:
— E... o pai das três irmãs que foram vítimas do sultão?
O médico esperou alguns segundos e logo acrescentou:
- Antes de qualquer pensamento a respeito, raciocine comigo, ainda sobre a doação de órgãos, que era, mas deixou de ser, a dúvida do Anderson, e responda-me:
você mesmo, o que pensava, quando soube que só um outro coração lhe possibilitaria continuar vivendo?
Ari não piscava sequer, imóvel, presa de fortíssimas emoções.
Emoções que cresciam em intensidade...
Américo, muito seguro, aproximou-se do "grande momento":
— Apesar de estar com documentos que não eram dele, Anderson também era doador...
Por isso, quando morreu, os médicos colheram e transplantaram o coração, rins, fígado, córneas e até ossos, beneficiando, de imediato, seis pessoas desesperadas!
Tenho certeza de que isso terá sido levado em conta, por Deus, para que na pátria dos espíritos ele igualmente tenha sido socorrido e mantido em paz.
— Quem... quem... foram os receptores?
— Quando você estiver mais restabelecido, prometo levá-lo a visitar um por um...
— Américo, Américo:
pelo amor de Deus, diga-me quem recebeu... o coração dele?
Com a maior tranquilidade do mundo, Américo soltou as mãos de Ari e suavemente espalmou a destra sobre o lado esquerdo do peito dele, dizendo enlevado:
— Anderson vive dentro do seu peito!!!
Instintivamente, Ari levou as mãos àquele local e captou, num milésimo de segundo, se tanto, que a Vida que vivia, desde o transplante, era em sociedade com seu filho amado.
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