NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

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NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 8:16 pm

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO
ELISA MASSELLI

SINOPSE

Em todos os momentos passamos por experiências que nos fazem aprender e entender o que acontece em nossas vidas.
Deus nos deu o livre arbítrio para que possamos decidir o caminho que queremos seguir e a vida que desejamos ter.
Telma, Plínio e Germano tiveram seus momentos de escolha e, se escolheram bem ou mal, não importa.
O que realmente importa é que, mesmo sem saber, sempre tiveram ao seu lado amigos, encarnados e desencarnados, que os ajudaram em todos os momentos.
No final entenderam que, apesar de tudo, Nem Tudo Está Perdido, pois Deus, independente de classe social, raça ou credo, estará sempre disposto a receber Seus filhos em Seus braços.

SUMÁRIO
IDEALIZANDO O FUTURO
CONHECENDO O TRABALHO
SURGE O AMOR
SURPRESA
A FESTA
A PROPOSTA
DESMASCARANDO
UMA ESTRANHA VISITA
A VIDA CONTINUA
ARMADILHAS DO DESTINO
REPENSANDO A VIDA
PRESENÇA INDESEJADA
CONSEGUINDO A PAZ
FATALIDADE
A AJUDA SEMPRE VEM
A ACUSAÇÃO
ENCONTRANDO UM CAMINHO
DECISÃO TOMADA
RELEMBRANDO
COLOCANDO O PLANO EM ACÇÃO
ENCONTRO COM A VERDADE
DEPRESSÃO
MOTIVO DA OBSESSÃO
CONSTATANDO A VERDADE
DECISÃO DO MAL
A FORÇA DO AMOR
A VERDADE A DEUS PERTENCE
GANÂNCIA
EPÍLOGO
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Ave sem Ninho

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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 8:16 pm

IDEALIZANDO O FUTURO
Telma entrou em casa correndo, gritando e trazendo em suas mãos um papel.
Estava feliz e, ao encontrar a mãe, disse de uma só vez:
— Mamãe! Mamãe! Eu consegui!
O juiz me deu este papel e com ele posso começar a trabalhar!
E, quando eu fizer quatorze anos, vou poder tirar a minha carteira profissional.
Não disse que tudo ia ficar bem?
— Que bom, minha filha!
Mas você é tão novinha para começar a trabalhar...
— Novinha nada, mamãe.
Já fiz treze anos e está mais do que na hora!
Só vou ganhar meio salário mínimo, mas vai ajudar!
A senhora não acha?
— Claro que vai.
Além do mais, pensando bem, embora seja muito novinha, o que ia ficar fazendo em casa?
Acho muito bom que comece a trabalhar e a aprender uma profissão.
Vou ficar mais tranquila sabendo que está trabalhando ao invés de ficar saindo com as amigas.
Ainda bem que você entende que a nossa situação não é muito boa.
Estamos passando por um período muito ruim.
O que seu pai recebe de salário não é quase nada.
— E ainda gasta uma boa parte com os amigos e a bebida, não é, mamãe?
— E sim, mas, tirando isso, ele sempre foi um bom pai.
Comprou esta casa, temos onde morar.
— Tá bem que ele comprou a casa.
Mas chega bêbado quase todos os dias.
E, quando isso acontece, briga sem motivo e bate na senhora.
Quantas vezes ele já bateu na senhora, mamãe?
Não entendo por que continuou... e continua ao lado dele...
— É que apesar de tudo eu sempre gostei muito dele, e o pior é que não tenho profissão.
Se me separasse dele, como a gente ia sobreviver?
Já pensou nisso?
— Como pode gostar de um homem que bate na senhora?
Não entendo mesmo.
Eu nunca vou ser igual à senhora, vou me casar com um homem muito rico e que possa me dar uma boa vida.
Se ele me maltratar, eu o abandono!
Nunca vou ser judiada, mas não vou mesmo, mamãe!
— Deus te ajude, Telma.
Desejo de coração que sua vida seja bem melhor que a minha, mas você é ainda muito criança, não entende nada da vida.
— A minha vida vai ser muito boa e rica, mamãe!
A senhora vai ver.
Posso ser criança, mas de uma coisa tenho certeza:
a minha vida será muito diferente da sua!
Mas isso agora não tem mais importância, vou arrumar um emprego e tudo vai mudar.
Pelo menos a Sueli e o Marquinhos vão ter um pouco mais de conforto.
Até já trouxe um jornal, vou ver se tem alguma coisa aqui por perto.
E, também, agora já são três horas da tarde... não vai adiantar nada eu sair para procurar emprego.
Mas amanhã saio bem cedo e sei que vou encontrar.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 8:17 pm

— Faça isso e que Deus te abençoe.
Telma foi para a sala.
O rádio estava ligado, mas ela não prestou atenção.
Estava querendo arrumar um emprego e, tinha certeza, arrumaria.
Abriu o jornal na página dos classificados e começou a procurar.
Depois de ler alguns anúncios, encontrou um que lhe pareceu ser bom, foi para a cozinha com o jornal na mão.
— Acho que encontrei, mamãe!
Este aqui é perto de casa, estão pedindo uma moça para aprendiz.
Amanhã bem cedo eu vou até lá!
Pensando bem, não vou esperar até amanhã, vou agora mesmo!
— Não seria melhor deixar para amanhã?
— Não sei nem do que se trata, vou até lá só para ver.
Se me atenderem hoje, tudo bem, se não, volto amanhã.
— Está bem, minha filha.
Vá e que Deus te ajude a conseguir o emprego.
Telma estava feliz; sentia que dali para a frente poderia se tornar independente.
Foi para seu quarto e, enquanto se arrumava, pensava...
não precisarei mais aturar as implicâncias do meu pai, pois sim, que ele é muito implicante, principalmente comigo.
Não entendo por que faz isso, mas aprendi a conviver com a situação e, sempre que ele implica, não me importo porque tenho certeza que vai ser por pouco tempo, só até eu arrumar um homem rico que me tire desta casa.
Terminou de se arrumar e olhou no espelho que havia em uma das portas do guarda-roupa...
Preciso me arrumar muito bem, quero me apresentar bem para causar boa impressão e conseguir o emprego.
Depois de pronta, foi para a cozinha, onde sua mãe preparava o lanche da tarde.
Ao entrar, sorriu e perguntou:
— Estou bem, mamãe?
— Está linda, minha filha! — a mãe se voltou e respondeu, também com um sorriso.
— Vou até lá e tento ser entrevistada hoje mesmo.
Se não conseguir, volto amanhã.
— Vá com Deus e que Ele te abençoe.
Ela saiu radiante.
Sentia que conseguiria aquele emprego, precisava dele, mas, também, se não conseguisse, não tinha importância, tentaria no dia seguinte e em todos os dias, até conseguir.
O mais importante já tinha, que era o papel do juiz autorizando-a a trabalhar.
Pelo anúncio do jornal, a rua ficava no seu bairro, mas ela não sabia onde.
Perguntou para algumas pessoas e descobriu qual era.
Encaminhou-se para lá.
Ao chegar no endereço, encontrou uma casa com um letreiro que dizia:
Escritório de contabilidade.
Ela não sabia o que aquilo significava.
Nunca havia visto ou ouvido aquele nome, mas, mesmo assim, tocou a campainha.
Uma porta se abriu e surgiu um rapaz, que perguntou secamente:
— Pois não?
— Estou aqui por causa do anúncio — ela respondeu com a voz trémula.
— Você tem carteira profissional?
— Não, só o papel do juiz. Peguei hoje.
— Pode abrir o portão e vir até aqui.
Ela obedeceu. Suas pernas tremiam muito, estava nervosa, pois aquela era a primeira vez que se candidatava a um emprego.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 8:17 pm

Lentamente subiu alguns degraus que a levariam até a porta.
O rapaz olhava sério para ela, sem mover um músculo do rosto e parecendo ser muito brabo, mas ela não se importou, aproximou-se e levantou os olhos para ele ao ouvi-lo dizer:
— Deixe-me ver o papel.
Telma abriu a bolsa, tirou o papel e entregou para aquele rapaz mal-humorado.
Ele, olhando para o papel e afastando-se para que ela entrasse, disse com cara de poucos amigos:
— Pode entrar.
Sente-se e espere um pouco.
Doutor Roberto vai atendê-la.
Ela, ainda tremendo, sentou-se na primeira cadeira que encontrou e, enquanto ele saía da sala, acompanhou-o com os olhos.
Notou que, embora sua atitude fosse ríspida, ele era um rapaz bem bonito...
Ele já é velho, deve ter quase trinta anos, mas é muito bonito...
Ficou ali, sentada, olhando os belos quadros que decoravam a sala.
Olhou também para uma porta, que devia dar para um corredor, de onde vinha muito barulho de máquina de escrever.
Sentiu vontade de sair correndo, mas pensou:
Já que estou aqui, só me resta esperar.
Vamos ver o que vai acontecer.
Tomara que eu consiga esse emprego.
Na parede à sua frente viu um relógio.
E foi olhando tudo à sua volta.
Mas os olhos voltavam-se sempre para o relógio, que parecia parado.
Ela começou a ficar aflita.
Está demorando muito.
Tinham passado apenas cinco minutos quando a porta em que o rapaz entrou foi novamente aberta e, por ela, saiu uma moça que disse:
— Queira me acompanhar.
O doutor Roberto vai te atender.
Telma levantou-se e, tremendo muito, acompanhou-a.
Como ela havia imaginado, por detrás da porta havia realmente um grande corredor com muitas outras portas.
Caminhou, acompanhando a moça, e percebeu que, em cada uma daquelas salas, muitas pessoas trabalhavam.
Nunca havia entrado em qualquer tipo de escritório, por isso tudo lhe encantava.
A moça parou diante de uma das portas, bateu levemente e entrou.
— Doutor, essa é a moça que veio para a entrevista.
— Obrigado, Nara, pode se retirar.
Nara saiu e ele, ainda olhando para o papel em suas mãos, em que o juiz autorizava Telma a trabalhar, perguntou:
— Seu nome é Telma, não é?
— Sim, senhor.
— Sente-se e vamos conversar.
Já trabalhou em um escritório?
— Não, senhor, só hoje conseguiu o papel do juiz — respondeu timidamente, sentando-se em uma cadeira que ele lhe apontou.
— Quer dizer que não tem prática em escritório de administração e contabilidade?
— Não, senhor, para ser sincera é a primeira vez que entro em um escritório.
— Você estuda?
— Não, só tenho o diploma do primário. Terminei quando tinha onze anos, mas até agora não consegui ir para o ginásio.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 8:17 pm

— Devia continuar os estudos, pois é muito importante.
— Sei disso, fiz prova de admissão para poder entrar no ginásio, mas não consegui.
Não sei se o senhor sabe, mas é muito difícil se entrar em um ginásio do Estado, além do mais, mesmo que passasse, teria que estudar durante o dia e não posso fazer isso, preciso trabalhar para poder levar dinheiro para casa.
— Isso é terrível.
Uma menina como você não precisaria ter uma preocupação como essa e a escola pública deveria atender a todos, mas infelizmente isso não acontece.
Quem sabe, um dia, haverá escola para todas as crianças...
— Também espero por isso, estudei até ao quarto ano em um colégio de freiras, no Círculo Operário, porque foi de graça.
Depois que recebi meu diploma do primário, não consegui passar na prova de admissão do grupo escolar.
— É uma pena, esperamos que um dia isso mude.
Mas, por outro lado, já que não tem escola, é melhor que, para jovens assim como você, exista essa autorização do juiz para trabalharem, pois, além de aprender uma profissão, vão ter dinheiro para levar para casa e não vai sobrar muito tempo livre para fazer bobagem.
O trabalho nunca fez mal a ninguém.
— Também penso assim, doutor.
Eu não tenho nada para fazer em casa e, com o meu dinheiro, posso ajudar com as despesas em casa ou, ao menos, comprar alguma coisa que goste, e para meus irmãos também.
— Bem, sendo assim, poderá começar como aprendiz.
Terá toda a oportunidade de aprender e poderá, se quiser, subir de cargo.
Tenho por formação dar oportunidade para todos aqueles que desejam aprender.
Muitos dos meus funcionários começaram assim, como aprendizes, e hoje exercem cargo de confiança, que é o que mais me interessa: poder confiar em todos eles.
Também comecei, assim como você, sendo apenas um aprendiz.
Hoje, tenho não só este escritório, mas outros três.
Já que nunca trabalhou, não temos mais o que conversar.
Venha amanhã às oito horas e traga este papel do juiz.
Terá trinta dias de experiência.
É o suficiente para ver se continua trabalhando, ou não.
Após terminar de falar, levantou-se, entregou o papel do juiz para Telma e estendeu a mão, despedindo-se.
Ela, timidamente, pegou na mão dele bem devagar, desviando os olhos.
Ele, sorrindo, disse:
— Primeira lição, nunca desvie os olhos quando alguém a cumprimentar ou estender a mão para você, aperte com vontade.
É desagradável apertar uma mão trémula.
Demonstra insegurança, e isso não é bom.
Telma não sabia o que dizer.
Ela estava realmente insegura, aquele homem que estava à sua frente era o seu futuro patrão, dono daquele imenso escritório, e devia ter muito dinheiro, portanto era um homem poderoso.
Ele percebeu que ela estava sem acção.
Sorrindo, estendeu a mão novamente e desta vez ela, olhando em seus olhos, apertou com vontade, dizendo:
— Obrigada, doutor.
Amanhã vou estar aqui na hora marcada e fazer tudo para aprender.
— Está bem.
A primeira lição parece que aprendeu.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 8:17 pm

Agora pode ir.
Telma levantou-se e abriu a porta para sair.
Assim que a porta se abriu, encontrou Nara, que a esperava e a acompanhou até a porta de saída.
Já na porta, perguntou:
— Deu tudo certo?
Você vai trabalhar com a gente?
— Vou, sim. Amanhã estarei aqui às oito horas.
— Que bom, sei que vai gostar.
— Obrigada.
Telma saiu e, já na rua, levantou os olhos, olhou novamente para a placa.
Riu sozinha, pensando:
Não sei nada do que se faz em um escritório de contabilidade, muito menos num de administração, só sei que vou aprender o que me ensinarem e que um dia terei um igual a esse, com placa e tudo!
Começou a andar rápido, precisava chegar logo em casa e contar tudo para a mãe.
Estava realmente feliz.
Assim que chegou no portão de sua casa, parou.
Começou a ouvir gritos que vinham de dentro de sua casa e pensou, nervosa:
estão brigando novamente.
Ele deve ter chegado bêbado outra vez e está dizendo todas aquelas barbaridades.
Meu Deus, quando isso vai terminar?
Por que minha mãe não o abandona?
Devagar abriu o portão, caminhou pelo quintal e, entrando pela porta da sala, que estava aberta, viu sua mãe chorando, sentada em uma das cadeiras que ficavam ao redor da mesa da sala.
Mal sentados em outra, Sueli e Marquinhos choravam abraçados.
Ela correu para onde eles estavam e os abraçou.
Ficou olhando para sua mãe, que continuava chorando, e para seu pai, que andava de um lado para outro.
Com muita raiva, não disse nada, mas pensou:
Não sei, neste momento, qual dos dois eu odeio mais.
Ele, por estar bêbado, ou ela, que, além de aturar tudo isso, ainda fica chorando.
Eu nunca vou permitir uma coisa dessas!
Se meu marido for bêbado dessa maneira, eu o abandono, e ele não vai ter nem o meu endereço!
Mas não adianta eu dizer nada, já estou acostumada com essas brigas.
Daqui a pouco ele vai dormir e amanhã acorda como se nada tivesse acontecido.
Não vai beber por dois ou três dias, mas depois começa tudo de novo!
Não suporto mais esta vida!
Ainda bem que consegui o emprego.
Sei que daqui a alguns anos vou ter condições de sair desta casa levando minha mãe e meus irmãos.
Como ela havia previsto, o pai se encaminhou para o quarto.
Após algum tempo, Sara, sua mãe, levantou-se da cadeira, enxugou os olhos e foi até a porta do quarto, olhou e constatou que ele estava dormindo.
Voltou para a sala.
— Agora ele adormeceu, Telma, e amanhã tudo será diferente.
Ele vai pensar no que fez e não vai beber mais...
Telma não aguentou mais, levantou-se e disse nervosa:
— O que a senhora está dizendo?
Ele não vai beber nunca mais?
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 8:18 pm

Claro que vai!
A senhora sabe disso!
Foi sempre assim, desde que eu era criança!
Fui criada no meio de brigas!
As crianças estão aí, assustadas e chorando!
A senhora não vê o mal que nos fez e continua fazendo?
— Sei disso, mas nunca pude fazer nada!
Nunca tive para onde ir, ao menos ele nunca deixou que nada faltasse para vocês.
Se eu saísse do lado dele, como criaria vocês?
— Não sei, poderia arrumar um trabalho!
— Trabalhar no quê?
Não tenho uma profissão, só aprendi a ser dona de casa!
Não sei o que fazer... — Sara recomeçou a chorar.
— Não adianta a senhora ficar chorando.
Precisa é encontrar uma maneira de sairmos desta casa!
Não suporto mais esta vida! — Telma gritou, indignada.
— Não temos para onde ir.
Além do mais, existem homens que, além de bater na mulher, batem também nos filhos... e isso ele não faz.
— Era só o que faltava!
Se ele se atrever a bater em mim ou nas crianças, juro que eu mato ele! Eu juro!
— Não fale assim, Telma!
Ele, apesar de tudo, é o seu pai.
Você tem que respeitar.
— Respeitar?!
Não acredito que a senhora pense realmente isso!
Não pode ser!
— Claro que pode ser, sim!
Os pais, sejam como forem, merecem respeito.
Você não pode se esquecer que mora na casa dele e que foi ele quem, além de ter te dado vida, te criou até hoje.
Telma não aceitava o que sua mãe falava, mas sabia que ela tinha razão.
Realmente ele a criara, e ela morava na sua casa...
Saiu da sala e foi para o quarto em que dormia com os irmãos.
Ao deitar-se já estava chorando... não queria que fosse assim, queria um pai carinhoso.
Ele nunca deixou faltar casa e comida, mas nunca nos deu carinho.
Quando não está bêbado, não conversa, chega do trabalho, janta e vai dormir.
Quando está bêbado, briga por qualquer coisa e bate muito na mãe.
Ainda bem que arrumei emprego, sinto que tudo vai mudar...
Depois de chorar muito, adormeceu.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 8:18 pm

CONHECENDO O TRABALHO
Na manhã seguinte, ainda não eram seis horas quando ela acordou e olhou várias vezes para o relógio.
Não havia dormido muito bem.
As horas pareciam não passar.
Por um instante, sentou-se em sua cama, na parte de cima do beliche onde ela e seus dois irmãozinhos dormiam, mas em seguida, cuidando para não fazer barulho e acordá-los, desceu de lá.
Abriu a porta do guarda-roupa e ficou olhando.
Não tinha muita roupa.
Sua mãe só lhe comprava um ou dois revestidos por ano.
A sorte é que era fim de janeiro e ela tinha ganhado um vestido no Natal.
Sabia que o outro, talvez, só viria na Páscoa.
Havia outros, dos anos anteriores, mas estavam gastos e tinham perdido a cor original por causa das muitas vezes que foram lavados.
Pegou aquele que era o mais novo e olhou para ver se não estava amassado.
Era todo branco, com bolinhas vermelhas, com cintura baixa, decote princesa e muito rodado.
Era a última moda.
Ela havia visto em uma revista, copiou o modelo e Dona Zica costurou.
Dona Zica costurava toda a roupa da casa, pois comprar pronto, em loja, era muito caro e sua mãe, ela sabia, não tinha como pagar.
Foi o que aconteceu quando ela viu aquele vestido verde que estava na vitrine daquela loja, mas sabia que nunca teria dinheiro para comprá-lo.
Por isso, ficou feliz com aquele que Dona Zica lhe fez.
Ao lado do vestido, no guarda-roupa, havia várias anáguas que sua mãe tinha engomado.
Olhou para o par de sapatos brancos, que ela ganhou junto com o vestido.
Sabia que, assim como o vestido, sapatos, só no próximo ano.
Aquele vestido ela só usava quando saía com sua amiga Hortênsia, acompanhada por Sueli, e somente durante o dia.
Com o vestido nas mãos, pensou:
Está tudo em ordem.
Hoje é o meu primeiro dia de trabalho, preciso causar boa impressão e tenho de aprender tudo o que me ensinarem.
Não posso perder esse emprego.
Doutor Roberto foi muito gentil e Nara também.
Só aquele rapaz parece que não gostou.
Quem será ele?
Ele é estranho, mas muito bonito.
Hoje vou saber.
Agora vou tomar um banho e me vestir.
Tomou banho depressa e, quando terminou de se vestir, olhou para o espelho que ficava na porta do guarda-roupa.
Embora só tivesse treze anos, seu corpo estava formado.
Alta, com cabelos longos e negros, que deslizavam por suas costas.
A única coisa que a entristecia era eles serem lisos, e todas as suas amigas tinham cabelos crespos, facilitava colocarem fitas ou presilhas, o que, nos dela, era impossível.
Seus olhos eram grandes, castanhos claros.
Era realmente bonita e sabia disso.
Vários rapazes tentaram namorá-la, mas nunca quis.
Todos eram pobres, e ela queria um que fosse rico, para poder sair daquela casa o mais rápido possível.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 8:18 pm

Se não encontrasse um rapaz rico, ficaria solteira.
Não queria ter a mesma vida que a mãe.
Após se olhar no espelho, sorriu e foi para a cozinha.
Sua mãe estava terminando de coar o café.
Seu pai e as crianças continuavam dormindo.
- Bom dia, mamãe.
- Bom dia, minha filha.
Chegou o dia, tomara que tudo dê certo e que você goste do trabalho...
- Vai dar tudo certo e vou gostar do trabalho, mamãe!
Não precisa se preocupar.
O doutor Roberto foi muito gentil, disse que vai me dar oportunidade de aprender tudo e que só dependerá da minha vontade.
Por isso, sei que vou ficar com esse emprego.
Vou aprender e crescer naquele escritório!
- Deus te ajude, mas agora tome o seu café.
Precisa ir bem alimentada.
Como vai ser o almoço?
Não temos dinheiro para você poder comer fora.
- O escritório é aqui perto e vai dar para eu vir almoçar em casa.
Isso vai ser bom, porque poderei contar para a senhora como foi à parte da manhã.
Agora, diz como estou.
A mãe achou-a linda, só o cabelo ainda precisava de um jeito.
A mãe disse isso a ela e, enquanto Telma voltava para o quarto, ainda falou:
- Enquanto isso vou esquentar, na frigideira, este pão de ontem.
Logo Telma voltou com o cabelo, agora sim, bem penteado.
Sentou-se para tomar café.
Estava radiante.
Terminou de tomar o café, beijou a mãe e saiu.
Caminhou lentamente, era muito cedo.
Foi olhando o céu, as árvores, e os pássaros que rodopiavam entre elas.
O dia estava lindo.
O sol já nascera e demonstrava que seria um dia típico de verão.
Enquanto caminhava, pensava em como seria o trabalho:
Ouvi muitas máquinas de escrever e nelas sei que não vou poder trabalhar, pois não estudei dactilografia, mas é só questão de tempo, logo poderei me matricular em uma escola e aprender.
Com o trabalho, vou ter dinheiro para isso.
Chegou diante da casa onde era o escritório.
Desta vez olhou com mais atenção:
Olhando aqui do lado de fora, não se pode imaginar o quanto ela é grande por dentro.
Essa placa é linda!
Um dia vou ter uma igual.
Estava olhando, quando Nara se aproximou:
- Bom dia, Telma, chegou cedo.
- Bom dia Nara, parece que cheguei mesmo, estou muito ansiosa e quero começar logo.
- Entendo.
Também estava assim no meu primeiro dia e aqui, também, foi o meu primeiro emprego.
É ainda um pouco cedo, mas...
Vamos entrar?
Nara abriu o portão e entrou e Telma a acompanhou.
Nara tocou a campainha e um porteiro abriu a porta:
- Bom dia, Nara.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 8:18 pm

- Bom dia, Raul.
Esta é a Telma e vai começar a trabalhar com a gente.
- Bom dia, Telma, sei que vai gostar de trabalhar aqui.
- Bom dia, Raul.
Tenho certeza que sim.
Entraram. Nara fez com que Telma a acompanhasse por aquele corredor que ela já conhecia.
Entrou em uma sala que ficava em frente à sala do doutor Roberto.
Sentou-se em uma cadeira atrás de uma mesa e mostrou outra à sua frente para que Telma se sentasse também.
Telma obedeceu.
Assim que se sentou, Nara disse:
- Vou me casar no mês que vem e vou sair da empresa.
Meu noivo não quer que eu trabalhe mais.
Por isso o doutor Roberto está te contratando.
Eu trabalho directamente com ele e vou te ensinar todo o meu trabalho.
- Será que vou conseguir?
- Claro que sim!
Não é complicado.
Está vendo esta agenda?
Nela terá que marcar todos os compromissos do doutor e, no dia marcado, avisá-lo para que não perca nenhum.
Ali está o arquivo, vou te ensinar como arquivar documentos, para que, quando ele te pedir algum, você saiba onde encontrar.
Você tem dactilografia?
- Não, meu pai não tem dinheiro para pagar, você sabe como é caro...
- Sei, sim, mas acho bom que, assim que puder, você faça um curso.
No início acho que o doutor não vai exigir, mas com o tempo você vai precisar dactilografar alguns documentos.
Estavam conversando, quando o rapaz mal-humorado apareceu na porta.
- Bom dia.
- Bom dia, Plínio.
Esta aqui é a Telma.
Ela está começando hoje e estou lhe ensinando a rotina do trabalho.
- Faça isso, espero que você se dê bem, Telma.
- Pretendo me esforçar - ela respondeu, tremendo por dentro.
Aquele rapaz lhe causava mal-estar e ela não sabia explicar o porquê.
Ele se afastou, ela olhou para Nara e perguntou:
- Quem é ele?
Parece que está sempre mal-humorado...
- É o Plínio, sobrinho do doutor Roberto.
Está fazendo a Faculdade de Administração.
Por isso só fica aqui no escritório na parte da tarde ou quando está em férias, como agora.
Ele ajuda o tio, que não tem filhos, e também está aprendendo, para um dia ocupar o lugar dele.
Ele parece mal-humorado, mas, na realidade, não é.
Com o tempo você vai conhecê-lo melhor e verá que é um óptimo rapaz.
- Será mesmo?
Não sei se me enganei, mas pareceu tão estranho...
Mesmo assim é muito bonito...
- Bonito?!
Coloca bonito nisso!
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 8:19 pm

Todas as moças do escritório estão apaixonadas por ele, mas ele não dá bola para nenhuma delas.
Parece que está namorando uma moça muito rica.
Alguém aqui do escritório já os viu no cinema.
Dizem que ela é muito bonita!
- É mesmo?
Como será que ela o aguenta, sempre com essa cara...
- Não sei, mas ele não é mal-humorado, não.
Foi impressão sua.
Ele é até engraçado e, assim que o conhecer melhor verá que ele é diferente do que você está pensando.
Eu já o conheço há muito tempo.
- Você trabalha aqui há muito tempo?
- Trabalho já há sete anos.
Comecei novinha, como você.
Só vou sair porque o meu noivo não quer que eu trabalhe mais.
Vou te confessar que, quando comecei a trabalhar, também me impressionei com o Plínio.
Ele tinha só dezassete anos e estava terminando o colegial.
Mas, com o tempo, vi que ele não estava interessado nem em mim nem outra qualquer.
Só pensava nos estudos.
Desisti e hoje ele é um bom amigo.
Convenceu o tio a me dar algum dinheiro para o meu enxoval.
Telma ouvia o que Nara lhe contava.
Não entendia o motivo, mas não se sentia à vontade na presença de Plínio, diferente de como se sentira na presença do doutor Roberto.
O dia foi passando e o doutor não chegou.
Nara foi ensinando o serviço e Telma se esforçando para aprender.
Ela não estava achando difícil, bastava só prestar atenção e isso ela fazia.
Em dado momento, perguntou:
- O doutor não vem hoje, Nara?
- Não pela parte da manhã, mas à tarde estará aqui.
Era quase onze horas, quando Nara disse:
- O nosso almoço é das onze horas até o meio-dia. Você vai almoçar aqui?
- Não, minha casa é aqui perto, vou almoçar lá.
- Está bem, eu moro longe, por isso trago marmita.
Quando for onze horas, pode ir.
Assim que o ponteiro do relógio marcou onze horas, Telma se levantou e foi para casa.
Saiu correndo, queria chegar logo para contar a mãe como havia sido sua primeira manhã de trabalho.
Estava eufórica, havia gostado muito.
Só conhecera Nara e Plínio e tinha visto alguns dos outros funcionários, mas não teve contacto com eles.
Sentia, porém, que se daria bem com todos.
Quando chegou em casa, sua mãe já estava com o almoço pronto e ansiosa esperando por ela.
- Então, Telma, como foi o trabalho?
- Por enquanto estou gostando.
Ainda não conheci todas as pessoas que trabalham lá, mas as que conheci foram muito gentis.
Nara está me ensinando.
Não parece difícil, mas ela acha que eu vou ter que aprender a escrever a máquina.
- Você sabe que não temos como pagar, mas, se o emprego der certo, com uma parte do seu salário, poderá pagar a escola.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 8:19 pm

- Também já pensei isso, mas agora preciso comer rápido, tenho que estar de volta ao meio-dia.
- Que bom que está feliz, minha filha.
Também estou por você.
Agora, almoce.
Telma começou a comer, mas não comeu muito, estava alegre e agitada, queria voltar logo para o escritório.
Assim que terminou de comer, saiu imediatamente, não queria chegar atrasada.
Quando chegou de volta ao escritório ainda faltavam dez minutos para o meio-dia.
Foi até o refeitório, onde algumas pessoas conversavam e outras ainda comiam.
Entrou devagar.
Nara, assim que a viu, disse:
- Esta é a Telma, pessoal, começou a trabalhar hoje.
Todos se levantaram e a cumprimentaram dizendo seus nomes.
Ela foi apertando a mão deles da maneira como o doutor Roberto havia lhe ensinado, mas não conseguia guardar seus nomes.
Em seguida, todos foram se encaminhando para o local de trabalho.
Ela acompanhou Nara, que continuou lhe ensinando o trabalho e, em dado momento, disse:
- Assim que você ouvir uma campainha é sinal que o doutor está precisando de você.
Deve ir até a sua sala imediatamente.
Ele não gosta de esperar.
Fica furioso!
- Está bem, não vou me esquecer disso.
Eram quase duas horas, quando ele chegou e foi directamente para sua sala.
Em seguida, Nara e Telma ouviram a campainha.
Levantaram-se e foram até a sala dele que, ao vê-las, disse, olhando para Telma:
- Então você veio trabalhar, mesmo?
- Sim, senhor...
- Como ela está se saindo, Nara?
- Está um pouco nervosa, mas sinto que tem capacidade.
Estou ensinando e ela parece estar aprendendo.
- Isso é bom.
Você sabe que vou sentir muito a sua falta, Nara.
Tente convencer seu noivo a deixar que você continue trabalhando.
O trabalho é muito importante.
Principalmente para a mulher.
- Já tentei doutor, mas foi inútil.
Argumentei que, com o meu dinheiro, poderíamos ter uma vida melhor, mas ele não aceitou.
Disse que tem capacidade de cuidar de mim e das despesas da casa.
O senhor sabe como é...
- Sei sim, embora não aceite.
Um dia, isso vai mudar.
A mulher tem a mesma capacidade do homem e é igual a ele.
Tem o direito de ter seu próprio trabalho, crescer profissionalmente e ter seu dinheiro.
Só assim ela não ficará na dependência do marido.
Mas, enfim, se você aceita, que assim seja.
E você, Telma, pretende se casar logo?
- Tenho só treze anos, doutor!
Não estou pensando em namorado, muito menos em me casar.
Tenho muito que aprender.
Quero me tornar uma óptima profissional, ter o meu próprio dinheiro e cuidar da minha vida...
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 8:19 pm

- Ainda bem, ao menos, se der certo, você ficará trabalhando aqui por pelo menos uns sete anos, até encontrar o homem da sua vida e se casar.
Não é, Nara?
Nara não respondeu, apenas sorriu.
- Agora vocês podem sair.
Devem ter muito trabalho.
Elas saíram, Nara continuou ensinando Telma e ela se esforçando para aprender.
Sentia que conseguiria.
Por uma ou duas vezes, Plínio entrou na sala procurando por algum papel.
Telma fingiu não notar.
Não entendia bem o motivo, mas seus olhos insistiam em olhar para ele.
Quando deu a hora de sair, ela não queria ir embora.
Estava feliz pois sentia que ali estava o seu futuro.
Saiu acompanhada pelos colegas de trabalho.
Assim que eles se afastaram, ela continuou caminhando lentamente.
Enquanto caminhava de volta para casa, foi pensando:
Ele é um homem maravilhoso!
Pena que é muito velho.
Deve ter uns cinquenta anos.
Se não tiver, falta pouco, mas aqueles cabelos grisalhos e os olhos verdes... é mesmo um homem muito bonito.
Parece que entende e respeita as mulheres.
Está sempre com um sorriso no rosto.
Diferente do sobrinho, que parece estar sempre mal-humorado.
Como eu gostaria que o Dr. Roberto fosse o meu pai...
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 8:19 pm

SURGE O AMOR
Quase trinta dias se passaram.
Telma estava feliz.
Sabia que havia feito um bom trabalho.
Ao menos, aprendeu tudo o que Nara lhe ensinou.
Nos últimos dez dias, a pedido do Dr. Roberto, Nara deixou todo o trabalho com ela:
queria ver se realmente havia aprendido.
Telma sabia que sim, pois Nara não precisou lhe ajudar uma vez sequer.
Naquele dia, uma sexta-feira, seria o último dia de trabalho de Nara.
E ela se aproximou de Telma:
- Telma, como você sabe, hoje é o meu último dia de trabalho.
Vou me casar no próximo sábado e espero que você compareça.
Meu pai faz questão de dar uma grande festa.
Sabe como é, sou sua única filha.
- É claro que entendo o desejo de seu pai, e, quando eu me casar, também quero uma grande festa.
Vou comparecer, sim, mas terei de levar a minha irmãzinha.
Tem algum problema?
Meus pais não me deixam sair sozinha.
- Problema algum.
Só quero sua presença.
Nós nos conhecemos há pouco tempo, mas parece que faz uma eternidade.
Gosto muito de você, Telma.
- E eu também de você, Nara.
Quero te agradecer pelo muito que me ensinou.
- Nem pense nisso.
Eu só fiz a minha parte, você foi quem se interessou e aprendeu tudo.
O Dr. Roberto está muito contente.
Ele está torcendo por você.
- Que bom!
Eu realmente me esforcei e vou continuar me esforçando para sempre fazer o melhor.
- Garanto que não vai se arrepender.
Aqui terá todas as chances para aprender e crescer profissionalmente.
Estou triste por ter que sair, mas não tem outro jeito, meu noivo insiste nisso, e eu não quero começar a brigar antes de casar.
- Entendo, só preciso falar mais uma coisa.
- O que é? Está com alguma dúvida quanto ao trabalho?
- Não, você me ensinou tudo.
Só preciso pedir desculpas, pois não vou poder te dar um presente de casamento.
Gostaria muito, mas, como você sabe, a minha família não tem dinheiro e eu também não.
- O que é isso?
Não preciso de presente!
Tenho tudo o que preciso para começar a minha vida.
Não se preocupe, só prometa que vai comparecer.
- Claro que vou!
Não perderia, por nada, esse dia tão feliz e desejo que essa felicidade dure para sempre.
- Obrigada e, se depender do amor que sinto por ele, sei que vai durar.
Abraçaram-se e voltaram ao trabalho.
Faltava meia hora para o término do expediente.
Plínio entrou na sala onde Telma e Nara trabalhava e, com a voz nervosa, disse:
- Nara, alguma coisa aconteceu com a Marieta.
Ela está no refeitório e parece que não está muito bem.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 03, 2017 8:20 pm

Ninguém sabe o que fazer.
Pediram que eu viesse te chamar para ver se pode fazer alguma coisa!
- Meu Deus do céu!
O que aconteceu com ela?
- Não sei e ninguém sabe, vamos logo, Nara!
Pegou na mão dela e saiu arrastando-a.
Telma se levantou e foi atrás deles.
Assim que chegaram ao refeitório, Nara parou na porta e ficou sem coragem de entrar.
Uma das mesas estava toda enfeitada com flores brancas e sobre ela, sanduíches e refrigerantes.
Os colegas de trabalho, juntamente com doutor Roberto, começaram a bater palmas.
Nara ficou parada sem saber o que fazer ou dizer.
Telma abraçou-a por trás e empurrou-a para dentro.
Os colegas começaram a abraçá-la e cumprimentá-la pelo casamento.
Telma foi até um armário, abriu e, de dentro dele, tirou uma caixa embrulhada em de presente e entregou para Nara:
- Você sabe que temos pouco dinheiro e, por isso, cada um deu um pouco e compramos este presente.
Esperamos que goste.
Fui eu que escolhi.
Nara, chorando, pegou o pacote, colocou-o sobre outra mesa e o abriu.
Dentro da caixa havia um aparelho de jantar, de uma porcelana muito bonita.
Ela, não acreditando que eles tinham feito aquilo, disse emocionada:
- Obrigada a todos, sei que custou muito caro, e é lindo!
Jamais imaginei que teria um igual.
Doutor Roberto se aproximou e lhe deu um envelope, dizendo:
- Aí dentro tem dinheiro para que você possa passar sua lua-de-mel em Poços de Caldas.
Sei que o sonho de toda moça é passar a lua-de-mel naquela cidade. Aproveite.
- Obrigada, doutor, esse era o meu sonho, mas não tinha condições.
- Não tem o que agradecer, sempre foi uma boa funcionária e gostamos muito de você.
- Espero que todos compareçam ao meu casamento.
Ficarei muito feliz.
- Agora, acho melhor começarmos a comer.
Estou com fome - disse Plínio, já pegando um sanduíche e um copo de refrigerante.
Telma estranhou aquela atitude partindo dele.
Nunca havia visto um sorriso naquele rosto.
Parecia uma outra pessoa.
Antes que ela dissesse qualquer coisa, ele se voltou para ela e sorrindo, disse:
- Telma, coma um destes sanduíches, está muito bom.
Ainda não acreditando que ele, pela primeira vez, tinha se dirigido a ela, seu coração bateu forte.
Estava sentindo algo que não conhecia.
Pegou um sanduíche.
Os outros, sem nada perceber, também comeram.
Ficaram ali comendo e bebendo até mais de seis horas.
Depois, um a um, foram embora.
Após todos saírem, inclusive Roberto, Nara, Telma e Plínio saíram também.
- Bem, agora preciso ir embora, meu noivo deve estar preocupado.
Está me esperando no ponto de ônibus que fica perto da minha casa.
Até sábado, espero vocês dois.
- Eu irei - Plínio disse, enquanto a beijava na testa.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:20 pm

- Também irei Nara.
Pode esperar. Agora vá.
- Boa sorte para você, Telma, e que um dia possa estar tão feliz como estou hoje.
Telma ficou calada, não tinha o que dizer, somente a abraçou e a beijou.
Assim que Nara se afastou, Plínio disse:
- Também preciso ir.
Até segunda, Telma.
- Até segunda, Plínio.
Ele se afastou e ela seguiu para o outro lado.
Seu coração continuava batendo.
Não sabia dizer o que era aquilo, mas sentia-se muito bem.
Chegou em casa.
Como sempre, seu pai e sua mãe, estavam novamente brigando.
Ela chorava, ele gritava.
As crianças não estavam em casa.
Telma se irritou, só que, desta vez, ficou calada.
Estava impressionada com a atitude de Plínio.
Não sabia dizer o que havia acontecido, mas sentia que ele a olhara de um jeito diferente.
Foi para o quarto.
Queria ficar longe daquela confusão, para pensar em tudo que havia acontecido.
O que será que houve?
Por que ele agiu daquela maneira?
Nunca me deu atenção.
No princípio me interessei por ele, mas, vendo que não me olhava, desisti.
Ele tem uma boca linda.
Seus olhos, então.
Não sei, mas acho que estou gostando dele de verdade.
Será que ele também está sentindo o mesmo?
Não sei, mas espero que sim... - pensou enquanto se deitava.
Perdida em seus pensamentos, nem percebeu que os gritos haviam parado e que seu pai, como sempre fazia após uma briga, tinha ido dormir.
Só se deu conta quando a porta do quarto foi aberta e por ela entrou sua mãe, com as crianças, que se aproximou, dizendo:
- Que aconteceu, Telma?
- Nada, mamãe, mas por que está perguntando isso?
- Você entrou em casa e veio directo para o quarto.
Não se incomodou com a nossa briga, como sempre faz.
- Tem razão, mas o meu problema é maior.
As brigas de vocês acontecem quase todos os dias, porém o que me aconteceu hoje está me deixando confusa.
- E o que foi minha filha?
Telma contou tudo.
A atitude de Plínio e o que ela estava sentindo.
- Acho que estou amando...
Sua mãe a abraçou e disse:
- Isso que está sentindo se chama descoberta, e você pensa que é amor.
Você é muito criança e está sentindo isso pela primeira vez, mas acontecerá outras vezes.
Está despertando para esse sentimento.
Espero que encontre o seu verdadeiro amor e que ele te faça feliz.
- Não sei se é amor, mamãe, mas estou me sentindo muito bem.
Acho que vou gostar dele para o resto da minha vida.
Ele é bonito, educado e, ainda, para ajudar, tem muito dinheiro.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:20 pm

Sempre achei que me casaria com um homem rico, nem que não gostasse dele, mas com Plínio é diferente.
Eu gosto dele e, mesmo que não fosse rico, não teria a menor importância.
- Melhor assim, minha filha.
Viver ao lado de uma pessoa de quem não se gosta é muito triste, acho que nem todo o dinheiro do mundo vale o sacrifício.
- A senhora tem razão.
Estou preocupada com outra coisa.
- Com o quê?
- Eu não devia ter usado o meu vestido e os sapatos novos no primeiro dia de trabalho.
- Por quê?
- Não tenho outro para ir ao casamento da Nara.
O meu vestido, todos já conhecem.
- O que tem isso?
- É uma festa, mamãe!
Queria tanto ter um vestido e sapatos novos...
- Sei que queria, mas sabe que não temos dinheiro.
Ainda não terminei de pagar as roupas e os sapatos que comprei para vocês no Natal.
Não posso comprar outro.
- Pensei que, com o meu salário, eu poderia ter mais coisas.
- O teu salário é pouco.
Usei para pagar o seu Joaquim, lá da venda.
Sinto muito, minha filha, mas você vai ter que ir ao casamento com o vestido e os sapatos que te dei no Natal.
Nara e os outros são seus amigos e não vão se importar com isso.
Além do mais, você vai ver que muitas outras colegas de trabalho estarão vestindo roupas conhecidas.
A vida está difícil para todos.
- Está bem, mamãe, mas eu queria muito uma roupa nova.
Ainda mais agora...
- Agora por quê?
- Plínio está me notando, não queria que ele pensasse que só tenho um vestido...
- Ora, Telma, se ele gostar de você, isso não terá a menor importância.
Não se preocupe com isso.
Agora durma, amanhã é sábado e você precisa ir à igreja para se confessar e poder comungar na missa de domingo.
- Não sei, mas acho que não tenho pecado...
- Todos sempre têm algum tipo de pecado.
Pense um pouco, vai ver que se lembrará.
A mãe beijou sua testa, olhou os meninos dormindo e saiu do quarto dizendo:
- Agora vou me deitar.
Preciso entrar no quarto bem devagar.
Se seu pai acordar, vai começar a brigar novamente.
Em outros tempos, Telma ficaria furiosa com a mãe por ser tão submissa, mas naquela noite estava feliz e não queria se aborrecer.
Ficou calada, desceu do beliche e trocou a roupa que estava vestindo por um pijama.
Voltou a deitar-se e os pensamentos de novo tomaram conta de sua mente...
Minha mãe tem razão, mas eu queria tanto um vestido novo...
Se meu pai não gastasse quase todo o seu salário com bebida e farra, poderia me comprar um vestido novo.
Ele diz que só casa e comida já bastam, que não é preciso ter roupa nova, mas eu não concordo com ele.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:21 pm

Por que tem que ser assim?
Por que não posso ter um vestido novo?
Bem, não adianta ficar pensando naquilo que não posso ter.
Vou dormir e me conformar que preciso ir com o meu vestido, mesmo.
Como minha mãe disse, acho que muitas das minhas colegas de trabalho vão com vestidos que já conheço.
Fechou os olhos e em pouco tempo estava dormindo.
No sábado ela foi se confessar e no domingo foi à missa.
Durante todo o fim de semana ficou em casa.
Seu pai bebia quase todos os dias, mas não nos sábados e domingos.
Ficava andando de um lado para outro e só parava para ouvir futebol no rádio.
Telma não via a hora em que a segunda-feira chegasse.
Queria ir para o escritório, encontrar com Plínio e ver se ele a olharia novamente com aquele mesmo olhar.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:21 pm

SURPRESA
Na segunda-feira, assim que sua mãe a chamou, ela desceu do beliche, vestiu-se rapidamente e saiu para o trabalho.
Enquanto caminhava, não parava de pensar...
Será que Plínio vai falar comigo de novo?
Talvez ele só venha à tarde, preciso trabalhar muito para que o dia passe depressa.
Foi o que fez.
Atendeu Roberto e, quando não teve o que fazer, foi até as outras salas para ajudar algum colega.
Além de ajudar, sabia que aprenderia outro tipo de trabalho.
Queria entender de todo serviço do escritório, pois desejava crescer profissionalmente.
A manhã passou.
Ela foi almoçar e voltou antes da hora.
Foi até o banheiro, passou um pó no rosto e batom.
Sabia que era bonita, mas queria ficar mais ainda.
Estava distraída, trabalhando, quando ouviu uma voz que já conhecia:
- Boa tarde, Telma.
Tudo bem com você?
Ela levantou os olhos do papel que estava lendo e, com a voz trémula, respondeu:
- Tudo bem, e com você, Plínio?
- Estou bem.
A festa surpresa foi muito boa, não?
- Foi sim, a Nara ficou muito contente.
- Ela merece, é uma boa moça e sempre foi muito dedicada com o trabalho.
Tomara que seja muito feliz.
- Tomara mesmo.
Parece que eles se gostam muito.
- Isso é muito bom.
Bem, agora preciso ir falar com meu tio.
Até mais.
- Até mais, Plínio.
Ele saiu, ela engoliu em seco e todo seu corpo tremia.
Sabia que ele viria trabalhar à tarde, mas nunca pensou que viria até a sua sala.
Ele mal a olhava e só a cumprimentava quando se encontravam por acaso no corredor ou em uma das salas.
Seu coração batia forte.
Estava abismada, muito feliz, não conseguia deixar de pensar...
Ele está mesmo interessado...
Aquela tarde, por várias vezes, ele foi até sua sala.
Telma estava eufórica, sentia que a qualquer momento ele conversaria a sério, mas isso não aconteceu.
Antes do término do expediente, ele foi até sua sala, despediu-se e foi embora.
Ela ficou um pouco decepcionada, mas mesmo assim estava feliz:
Ele vai me pedir em namoro, sinto isso...
A quarta-feira chegou, o dia do casamento estava perto.
Telma estava feliz porque Plínio continuou atencioso e vindo várias vezes até a sua sala.
A única coisa que a preocupava era o vestido que usaria no dia do casamento.
Nesse ponto estava triste e uma lágrima desceu de seus olhos.
Estava enxugando o rosto, quando Roberto entrou:
- Olá, Telma, o que você tem?
Está chorando?
- Não, senhor, estou bem.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:22 pm

- Como está bem?
Ninguém chora sem motivo.
Que está acontecendo?
- Eu sou uma boba, só isso.
- Boba, por quê?
- Não tenho um vestido, nem sapatos novos para ir ao casamento da Nara.
- Só por causa disso está triste e chorando?
- Eu disse para o senhor que era uma boba...
- Não deve chorar por isso.
A pessoa deve valer por aquilo que é não pela roupa que usa.
- Minha mãe também diz isso, mas eu acho que na realidade não é bem assim.
Gostaria muito de ir ao casamento com um vestido novo.
- Nem tudo pode ser como se deseja, mas, da maneira que está fazendo seu trabalho e no interesse que está demonstrando em aprender, sei que logo estará recebendo um salário bem maior e poderá comprar todos os vestidos que quiser.
Enquanto isso não acontece, não deve se preocupar.
Por tudo que conheço da Nara, sei que ela ficará feliz em te ver no casamento e nem notará com que roupa você vai estar.
Agora preciso que encontre, e leve até a minha sala, o contrato da empresa do senhor Soares.
- Está bem, doutor, vou levar agora mesmo.
Ele saiu da sala, ela procurou e achou o documento que ele tinha pedido e foi até a sua sala.
Quando entrou, ele levantou os olhos do papel que estava lendo e disse:
- Encontrou o contrato?
- Sim, senhor, está aqui.
- Sente-se, precisamos conversar.
Ela estranhou, mas obedeceu.
- Estou contente com seu trabalho.
Você é esforçada, inteligente e aprendeu tudo rapidamente, acho que precisa aprender dactilografia.
Por isso vou matriculá-la em uma escola, mas, para isso, preciso saber se tem tempo disponível.
- Tenho, sim, pode ser à noite, depois que saio daqui.
- Está bem.
Assim que a matrícula for feita, aviso você.
Espero que aproveite mais essa oportunidade.
- Vou aproveitar!
Vou aprender!
Obrigada, doutor.
Ela ia se levantar quando ele disse:
- Tem mais uma coisa.
Pegue este dinheiro e compre o vestido que quer e os sapatos também.
Ela arregalou os olhos, não acreditando.
- Como? - perguntou, levantando-se.
- É isso mesmo, estou te dando o dinheiro que precisa para comprar a sua roupa.
Amanhã à tarde não precisa trabalhar.
Vá comprar o vestido e os sapatos que quiser.
Se esse dinheiro não der, basta me avisar.
- Doutor...
Eu não posso aceitar...
- Por que não?
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:22 pm

- Não tenho como pagar e não posso ser descontada no meu salário, ele é muito importante para ajudar a minha família, por isso não posso aceitar.
- Se continuar aprendendo como tem feito até agora, quando terminar o seu tempo de experiência receberá um aumento de salário e poderá pagar um pouco por mês.
- Estou aqui há pouco mais de um mês, o senhor acha que eu vou continuar aqui na empresa?
- Durante esse pouco tempo, percebi como é esforçada.
Portanto continuará trabalhando aqui, sim.
Não tenho filhos.
Tive uma filha e gostaria de poder dar esse dinheiro a ela e vê-la tão feliz como estou vendo você.
Mas não posso, ela se foi.
E por isso, fico feliz em poder dar a você um vestido que vai fazê-la feliz.
Não se preocupe.
Só peço uma coisa, não comente com nenhum dos funcionários...
Se souberem, poderão se sentir no direito de querer também, e seria impossível atender a todos.
Quando terminou de falar, estendeu o dinheiro.
Telma, tremendo muito, pegou e viu a quantidade de notas.
- É muito, doutor!
Não vou precisar de tanto!
- Você não disse que sua família está passando por um momento difícil?
A quantia que sobrar pode usar com ela.
Agora, volte ao trabalho.
Ela saiu da sala sem entender muito bem o que havia acontecido.
Já em sua sala voltou a olhar para o dinheiro.
A quantia era muito alta!
Ao mesmo tempo, estava atónita e feliz, pois, com aquele dinheiro, poderia comprar o vestido que havia visto naquela vitrine e namorado por tanto tempo.
Poderia comprar um par de sapatos novos e até uma bolsa combinando.
Nada mais lhe interessava.
Para ela, tudo era fruto do seu empenho no trabalho.
Queria que o dia seguinte chegasse logo.
Compraria o vestido e poderia ir com ele ao casamento.
Plínio vai me achar mais bonita ainda!
Na festa do casamento, sei que ele vai se declarar.
Guardou o dinheiro e continuou trabalhando.
Assim que terminou o expediente, saiu apressada, precisava chegar em casa e contar para sua mãe o que havia acontecido.
Entrou correndo e ofegante em casa.
Tanto, que sua mãe se assustou:
- Que aconteceu, Telma?
Por que está assim?
- Olhe aqui, mamãe! - disse quase gritando e mostrando o dinheiro.
- O que é isso? - a mãe perguntou abismada.
- É dinheiro, mamãe!
- Estou vendo que é dinheiro, mas o que significa?
- Significa que vou poder comprar um vestido para poder ir ao casamento da Nara!
- O que está dizendo? - a mãe perguntou gritando.
- O doutor Roberto me deu, disse que é para eu comprar o vestido.
- Deu? Você sabe que não pode ser descontada no salário.
Precisamos do seu dinheiro.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:22 pm

- Disse que, assim que passar a experiência vou receber um aumento de salário e vou poder pagar um pouco por mês.
- É uma quantia muito grande!
- Ele disse que, como não tem mais sua filha, quer me ver feliz.
- Não estou entendendo, por que faria isso?
- Não sei, mamãe, também não me importo!
Vou poder ir à festa com um vestido novo.
Ele também vai me matricular na escola de dactilografia.
Disse que está muito contente com o meu trabalho e que eu sou inteligente e esperta, por isso está me dando todas as chances para eu aprender sempre mais.
- Tem certeza que é só isso?
- Claro que tenho!
- Ele não te fez nenhuma proposta?
Não está interessado em você?
- Não, mamãe!
Ele não fez proposta alguma!
Ele me julga como se fosse sua filha!
- Não estou entendendo e estou preocupada...
- Preocupada por quê?
Por ele estar fazendo aquilo que o meu pai deveria fazer e que não faz porque não tem responsabilidade?
Não se preocupa com seus filhos, só pensa na bebida, na farra!
E a senhora aceita sem reclamar!
O doutor me deu esse dinheiro e vou usar, vou comprar o meu vestido tão sonhado!
- Espere aí! Você é uma criança, não sabe o que está fazendo!
Esse homem pode estar te enganando!
Vou falar com ele!
- Não vai, não, mamãe!
A senhora é que está com maus pensamentos!
Ele é um bom homem, estou trabalhando.
Ele só está me dando toda chance para que eu aprenda mais e me torne uma profissional!
Deveria ficar contente com isso e não ver maldade onde não existe!
Além do mais, quero ficar mais bonita para poder impressionar o Plínio!
Só ele me interessa!
A senhora acha que sou uma criança?
Que não sei o que faço? Pois está enganada!
Sei muito bem o que quero da minha vida e, pode ter certeza, ela não será igual a sua!
Meus filhos não serão criados como os seus foram, pobres, no meio de brigas e bebedeiras!
Nunca vou permitir isso!
Telma tocou no assunto que mais doía para sua mãe que, sem argumento, se calou.
Sabia que a filha tinha razão.
Sabia que sempre fora fraca e, por isso, tinha permitido que seu marido a subjugasse.
Começou a chorar e foi para o seu quarto.
Telma também se sentiu mal e pensou:
Ela é a culpada por minha infância infeliz, mas não queria magoá-la.
Gosto muito dela e, no fundo, sinto pena.
Não devia ter falado aquilo, sei como ela se magoa, mas por que ela fica julgando as pessoas?
Dr. Roberto é um homem muito bom.
Em seguida foi para o quarto.
Subiu no beliche, deitou-se e ficou chorando baixinho.
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Ave sem Ninho

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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:22 pm

A FESTA
No dia seguinte acordou cedo.
Levantou-se, vestiu-se e foi para a cozinha, onde sua mãe preparava o café.
Entrou, notou que a mãe estava com os olhos vermelhos e que tinha chorado muito.
- Bom dia, mamãe... - disse com a voz baixa.
- Bom dia, minha filha.
- Desculpe por aquelas coisas que disse e por ter feito à senhora chorar.
Eu estava nervosa...
- Não tenho o que desculpar, você tem razão.
Eu deveria ter abandonado seu pai há muito tempo, mas não tive coragem.
O que mais me dói é saber que você fará qualquer coisa para poder sair desta casa.
Tenho medo que cometa o mesmo erro que eu.
- Não se preocupe mamãe.
Isso não vai acontecer.
Não penso em me casar, sei que ainda sou muito nova e, quando me casar, será com um homem que, além de rico, será bom.
Fiquei nervosa porque a senhora estava julgando o doutor Roberto sem o conhecer.
Ele é bom com todos os funcionários.
Eu não contei que ele deu a viagem de lua-de-mel para a Nara?
- Talvez você tenha razão, mas fiquei com medo.
Você é jovem e pode se deixar envolver por um homem experiente.
- Não se preocupe nada de mal vai me acontecer.
Sei muito bem o que quero da minha vida.
- Se ele te fizer alguma proposta, vai me contar?
- Claro que sim, mas pode ficar tranquila, ele não vai fazer.
É casado e me disseram que sua mulher, apesar de ter a mesma idade que ele, é uma mulher muito bonita.
- Está bem, mas tome o café, senão vai se atrasar.
Telma tomou o café, beijou a mãe e foi para o trabalho.
Na hora do almoço, saiu e avisou que não voltaria à tarde.
Nem foi para casa, queria chegar logo na loja e comprar o seu vestido.
Abriu a bolsa, olhou o dinheiro que estava nela e pensou:
É muito dinheiro!
Nunca vi tanto assim!
Foi correndo para a loja onde havia visto aquele vestido verde.
Quando chegou em frente à vitrine, parou e ficou olhando.
Ele é lindo! Como sonhei com ele...
Não acredito que vou entrar nessa loja e comprar esse vestido tão lindo...
Entrou na loja.
A balconista veio ao seu encontro.
- Pois não, posso lhe ajudar?
- Pode, sim. Quero aquele vestido que está na vitrine.
A balconista a olhou de cima a baixo e perguntou desconfiada.
- Aquele?
- Sim, aquele! - Telma respondeu, sem perceber o olhar desconfiado da moça.
- Ele é muito caro...
- Quero comprar!
Pode, por favor, pegar.
- Está bem, será que vai servir?
- Vai, tenho certeza.
- Está bem, vou pegar.
A balconista, um pouco descrente, foi até a vitrine e trouxe o vestido.
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Ave sem Ninho

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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:23 pm

Telma seguiu-a com os olhos.
A balconista entregou o vestido para Telma, que o pegou e levou-o até o rosto, encostando-o na pele, passando bem devagar e sentindo o seu cheiro.
Nem a balconista nem ninguém entenderiam o que ela estava fazendo.
E, olhando para ela com jeito mesmo de quem não entendeu nada, a moça apontou o provador e Telma se encaminhou para ele levando o vestido.
Vestiu-o e parecia que ele havia sido feito para ela, que ficou se olhando no espelho, virando de um lado para outro.
Ficou de costas e, sobre os ombros, olhou para trás:
Está perfeito! Eu sabia que ia ficar muito bom!
É realmente muito lindo!
Não acredito que estou vestida com ele e que vai ser meu!
Ficou se olhando por um bom tempo, até que a balconista, preocupada, perguntou:
- Está tudo bem aí?
O vestido serviu?
Telma voltou à realidade, sorriu e abriu a cortina do provador.
A balconista não conteve o espanto:
- Ficou muito bom!
Parece que foi feito para você!
- Também achei.
Agora vou tirar e saber o preço.
Voltou ao provador, trocou de vestido e saiu com ele no braço.
A balconista a encaminhou até o balcão.
Disse o preço, acreditando que ela não teria como pagar.
Telma tirou da bolsa o dinheiro e pagou.
A moça embrulhou-o e deu o pacote para ela que, feliz, saiu levando o seu tesouro.
A moça acompanhou-a com os olhos.
Ainda aturdida, pensou:
E eu que, quando ela entrou na loja, pensei que com aquele jeito de pobre nunca poderia ter um vestido como aquele.
Ainda bem, a minha comissão vai ser grande, mas de uma próxima vez preciso tomar mais cuidado, as aparências enganam.
Eu poderia ter perdido essa cliente.
Saindo dali, Telma foi até uma loja de sapatos.
Entrou e pediu para experimentar um que já havia visto e que tinha gostado muito.
Serviu como uma luva, e ia ficar lindo com o vestido.
Aproveitou e comprou, também, uma bolsa que combinava com os sapatos.
Contou o dinheiro que sobrou.
Ainda tinha muito.
Voltou à loja onde havia comprado o vestido.
A balconista, ao vê-la, perguntou assustada:
- Voltou para devolver o vestido?
- Não, vim comprar aquela gargantilha com pedrinhas brilhantes e os brincos também.
A balconista respirou aliviada.
Pegou na vitrine do balcão a gargantilha apontada por Telma e ajudou-a a colocá-la no pescoço.
Telma experimentou também os brincos e, outra vez, olhou-se no espelho e sorriu... sei que não são jóias verdadeiras, mas não tem importância, são lindas!
Depois que colocar o vestido, os sapatos, a gargantilha e estes brincos, vou ficar muito bonita!
Tenho certeza que Plínio vai se declarar!
Ele não vai resistir...
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 04, 2017 9:23 pm

Saiu dali levando vários pacotes.
Estava feliz, precisava chegar logo em casa para mostrar tudo à sua mãe.
Chegou em casa.
Ainda era muito cedo e seu pai não havia chegado.
Passou correndo pela mãe, dizendo:
- Espere um pouco, mamãe, já volto!
Correu para o quarto, colocou os pacotes sobre a cama de baixo.
Tirou toda a roupa e colocou o vestido novo.
Com o vestido, os sapatos, a gargantilha e os brincos voltou para a sala.
Sua mãe não se conteve:
- Filha, você está linda!
- Estou mesmo, não é?
- Parece uma princesa!
- Que bom que a senhora gostou!
Agora sim, vou poder ir ao casamento sem me preocupar.
Estou muito feliz!
- Que bom, minha filha!
Que Deus te abençoe!
- Quem me abençoou foi o doutor Roberto, mamãe!
Deus não teve nada a ver com isso!
- Não fale assim!
Deus sempre está ao nosso lado e ajudando a gente.
- Se a senhora quiser acreditar nisso, está bem.
Andou pela sala de um lado para outro.
Seus irmãos entraram correndo.
Sueli, ao vê-la, disse espantada:
- Telma, como você está bonita!
Telma não resistiu, pegou a menina no colo e começou a chorar.
A menina não entendeu por que ela chorava e, com a voz trémula, perguntou:
- Por que você está chorando?
Você está tão bonita!
Telma começou a rir e, entre lágrimas e risos, disse:
- É de felicidade, Sueli!
Muita felicidade!
Depois voltou para o quarto e tornou a tirar vestido.
Pegou o dinheiro que havia sobrado e foi ter com a mãe, que estava sentada, esperando por ela.
Entrou com o dinheiro na mão e disse, sorrindo:
- Este dinheiro sobrou, mamãe, é para a senhora.
- Esse dinheiro é seu!
- Comprei tudo que queria e não preciso de mais nada.
Pode usar como quiser.
Acho que a senhora também precisa de um vestido novo.
Sempre usa todo o dinheiro que tem para comprar coisas para nós e nunca pensa na senhora.
- Obrigada, minha filha.
Que Deus continue te abençoando.
Desta vez Telma não respondeu.
Na realidade não acreditava muito em Deus.
Ela via tanta desigualdade no mundo.
Pessoas ricas e saudáveis, enquanto outras eram pobres e doentes.
Suas amigas tinham pais carinhosos e nenhum deles bebia ou batia em suas esposas, enquanto o dela era pura violência.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

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