NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 09, 2017 8:17 pm

- Não precisa. Estou bem.
Ele pode ter algum trabalho para fazer e já perdeu muito tempo comigo.
- Se acha que está bem, vamos te deixar no ponto de ônibus.
Preciso voltar que tenho mesmo muito trabalho.
Entraram no carro e Telma ficou no ponto de ônibus.
Marieta, preocupada, voltou para o escritório.
Quando o ônibus chegou.
Telma subiu e sentou-se em um dos bancos.
Olhando pela janela, enquanto o ônibus rodava, ela criava coragem para o que tinha que fazer...
Vou chegar em casa e contar tudo para minha mãe.
Como Marieta disse, se eu estiver grávida, só ela, realmente, poderá me ajudar.
Ela vai saber o que fazer...
Segui os meus impulsos e agora estou com esse problema...
Mas ela vai saber me ajudar...
O ônibus continuou andando e ela, envolvida em seus pensamentos que iam e vinham, olhava pela janela.
Desceu no ponto de ônibus que ficava na esquina de sua casa.
Estava chegando quase uma hora antes do costume.
Assim que se aproximou de sua casa, viu Sueli e Marquinhos, que brincavam na rua e, ao vê-la, correram em sua direcção.
Ela se abaixou e os abraçou.
- Já chegaram da aula e não foram trocar o uniforme?
Sueli, você sabe que a mamãe não gosta que vocês fiquem brincando vestidos com o uniforme.
- Eu e o Marquinhos chegamos e entramos em casa, mas a mamãe estava dormindo.
A gente não quis acordar ela e veio brincar até que ela acorde.
- Dormindo até agora?
- Está sim.
Deixa-a dormir, Telma.
Ela esta muito cansada...
- Vou deixar, mas agora vamos entrar e trocar de roupa, depois, pode continuar brincando.
Já que cheguei mais cedo, vou preparar o jantar.
A mamãe precisa mesmo descansar. Vamos?
Entraram bem devagar em casa.
Telma os levou para o quarto e ajudou-os a trocar de roupa.
Sem fazer barulho, eles voltaram para a rua e só então ela foi até o quarto da mãe.
Olhou pela porta, sem entrar, e viu a mãe dormindo de lado.
Sorriu e foi para a cozinha.
Sabia que, assim que começasse a mexer com as panelas, a mãe acordaria.
Terminou o jantar.
Estranhou a mãe não ter acordado com o barulho e foi até o quarto dela.
Continuava na mesma posição que ela havia visto pela porta.
Estranhou, aproximou-se e, baixinho, chamou por Sara.
Vendo que ela não acordava, Telma tirou o cobertor que cobria uma parte da cabeça da mãe e notou que ela estava com os olhos fechados.
Tocou em sua cabeça e o desespero tomou conta dela:
- Mamãe, acorde!
O que a senhora tem?
Por favor, mamãe, acorde!
Chamou várias vezes e depois a chacoalhou.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 09, 2017 8:17 pm

A princípio devagar, depois com mais força, mas não adiantou:
Sara continuava com os olhos fechados e sem expressar reacção alguma.
Telma não sabia o que fazer e só a chamava e chorava.
Estava assim quando seu pai chegou acompanhado pelas crianças.
Ao ver Telma em todo aquele desespero, ele se aproximou, perguntando:
- Que aconteceu, Telma, por que está chorando assim?
- Não sei o que aconteceu, pensei que a mamãe estivesse dormindo, mas não consigo fazê-la acordar!
O pai se curvou e tocou no rosto e na testa da esposa.
Depois, já chorando, disse:
- Não adianta continuar chamando, minha filha.
Ela está morta, Telma!
- Morta?! Como morta?!
O senhor deve estar enganado!
Ela não pode morrer! - disse aos berros, arregalando os olhos.
E gritava, já sem articular palavra.
Mas, vendo o pai chorar, teve de acreditar, mamãe está morta, morta...
E saiu correndo para o quintal da casa e lá continuou chorando por muito tempo, sem conseguir parar.
E falava sozinha:
- Não consigo acreditar que isso aconteceu!
Minha mãe não pode morrer!
O que eu e meus irmãos vamos fazer sem ela?
Não pode ser!
Mamãe, por que fez isso!
Não podia ter abandonado a gente dessa maneira!
Ficou ali por muito tempo, até que seu pai saiu da casa e se aproximou, dizendo:
- Telma, vou até na esquina chamar a polícia.
Você precisa tirar as crianças lá do quarto.
Elas estão assustadas, não estão entendendo o que eu digo...
Você precisa conversar com elas.
- Polícia, por quê?
- Sua mãe morreu em casa e a gente não sabe qual foi o motivo.
Quando isso acontece, a polícia precisa ser chamada para que seja feita a autópsia, só assim poderão dizer o que aconteceu.
Precisa lembrar que nunca tive muito jeito para conversar com você ou com as crianças, por isso precisa ser forte e ficar ao lado delas.
Estou indo.
O pai saiu e Telma ficou olhando para a casa, como se, de uma hora para outra, ela tivesse ficado estranha, não fosse mais a sua casa.
Parecia estar em outro mundo ou sonhando, não podia aceitar aquilo.
Seus gritos tinham chamado a atenção dos vizinhos, que começaram a chegar.
Enquanto o pai de Telma saía às pressas, as pessoas perguntavam.
E ele, do seu jeito, em poucas palavras, dizia o que havia acontecido.
Uma das vizinhas, que era muito amiga de Sara sabia tudo o que se passava naquela casa, se aproximou de Telma e abraçou-a, dizendo:
- Telma, seu pai me contou o que aconteceu com sua mãe.
Sei que deve estar sofrendo muito, assim como eu, que era a melhor amiga dela.
Chore, mas lembre-se que tudo que nos acontece é sempre vontade de Deus...
Ao ouvir aquilo, Telma levantou a cabeça e, com os olhos faiscando de ódio, disse quase gritando:
- De Deus?
A senhora disse que a morte da minha mãe foi vontade de Deus?!
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 09, 2017 8:18 pm

- Disse, sei que neste momento não está entendendo e muito menos aceitando que isso aconteceu, mas Deus sabe o que faz.
Acredite nisso...
- Por favor, não venha com essa conversa de quem não sai da igreja!
Se Deus realmente existisse, isso não estaria acontecendo!
Minha mãe não tinha morrido e eu e meus irmãos não estaríamos sozinhos neste mundo!
A senhora conhece tudo o que se passa na minha casa e sabe como meu pai sempre foi violento!
Acha que Deus quer mesmo que a gente fique definitivamente nas mãos desse monstro?
Não vê que meus irmãos ainda são crianças e que eu não tenho como tirar eles desta casa!
Não vê que eu não tenho como criar e educar os dois?
Pergunte a esse Deus, de quem está falando, como vai ser a nossa vida daqui para frente!
Agora, por favor, me deixe sozinha!
Não quero conversar com ninguém, muito menos falar em Deus!
- Está bem, não vou mais falar sobre isso.
Sabe que a polícia vai vir aqui na sua casa.
Acho que as crianças não devem assistir.
Também devem estar assustadas e com fome.
Se quiser, pode levá-las lá para casa.
Eu posso cuidar delas e dar comida.
Telma, calada, afastou-se e entrou em casa novamente.
Seus irmãos choravam abraçados.
Ela se aproximou, dizendo:
- Vamos comigo lá para fora.
- Não quero sair daqui, Telma!
Estou esperando a mamãe acordar...
Por que ela não acorda?
- Não adianta esperar, Sueli.
Ela não vai acordar mais.
Estamos sozinhos, ela deixou a gente.
- Ela morreu Telma?
- Morreu Sueli... Ela morreu...
- Então, ela foi pro céu?
- Não sei... Deve ter ido...
- A mamãe sempre falava que, quando a gente morria, ia pro céu, então ela está lá no céu.
Por isso, ela não abandonou a gente...
Só foi pro céu e está junto de Deus...
Telma queria dizer que aquilo não era verdade, que Deus não existia, mas, diante do olhar da irmã, não teve coragem e falou:
- Acho que sim, Sueli...
- Ela sempre falava que, quando alguém morria, não era pra gente chorar, porque a pessoa estava em um lugar muito bonito.
Por isso, não vou mais chorar...
Você também, não é Telma?
- Eu vou sentir muita falta dela e, por isso, acho que vou chorar por muito tempo.
- Não chora não, Telma.
Se você chorar, ela vai ficar muito triste.
- Está bem, mas agora vamos lá para a casa da dona Laurinha.
Ela vai dar comida para vocês.
- É bom mesmo, eu estou com fome... - era Marquinhos quem falava.
Telma, diante do que Marquinhos disse, sem poder evitar, sorriu e disse:
- Deve estar mesmo.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 09, 2017 8:18 pm

Agora, vamos para a casa da dona Laurinha, nós três.
Telma pegou Marquinhos no colo e, acompanhada por Sueli, foi para a casa de Laurinha, que os recebeu de olhos molhados, forçando um sorriso.
- Crianças, que bom que vieram.
Preparei um jantar para vocês, entrem e venham para a cozinha.
O Zezinho e a Liana já estão comendo.
- Obrigada, dona Laurinha, muito obrigada.
As crianças vão comer, mas eu não estou com fome - Telma disse, enquanto acomodava as crianças junto à mesa.
- Sei que não está, por isso, enquanto as crianças comem, vamos lá para a sala.
Quero conversar com você.
- Está bem.
Depois de servir as crianças, Laurinha e Telma foram para a sala e sentaram em um sofá.
Laurinha, disse:
- Precisa se alimentar para ficar forte, Telma.
Sabe que, agora mais do que nunca, com a morte da sua mãe, mesmo sendo tão criança, sabe que precisa cuidar de seus irmãos.
Conhece seu pai, ele já era violento com a sua mãe presente, imagine como vai ser agora que ela não está mais aqui.
- Já pensei muito nisso e não sei se vou ter condições de evitar que ele judie e bata na gente.
Não sei o que fazer, dona Laurinha...
A senhora sabe quanto já sofremos nas mãos dele.
- Sei, sim, minha filha, mas não se desespere.
Deus está sempre ao nosso lado e encontrará uma maneira de defender você e as crianças.
- Desculpe, dona Laurinha, sei que a senhora acredita muito em Deus, mas eu, infelizmente, não tenho motivos para acreditar.
Nasci pobre, em uma casa onde sempre houve violência.
Durante minha vida, vi muitas vezes minha mãe ser espancada e, no dia em que quis ajudá-la, fui espancada também.
Agora estou trabalhando e estudando.
Quero terminar o colegial e prestar uma faculdade, mas, pelo visto, isso não vai ser mais possível, pois, além de ter que cuidar das crianças, já que minha mãe não pode mais fazer isso, estou com outro problema, muito grave, e não consigo imaginar como será minha vida sem ela para me ajudar.
Ela foi sempre especial e diferente das mães das minhas amigas.
Neste momento, estou muito triste, não só por ela ter morrido, mas por todas as vezes que a critiquei e a ofendi.
Por que disse tantas coisas horríveis para ela, dona Laurinha?
Eu nunca me conformei por ela, apesar de todas as surras, continuar vivendo ao lado do meu pai.
Hoje sinto que nem ele nem eu merecíamos o amor dela.
Depois de tudo isso, a senhora ainda acha que posso acreditar que Deus existe?
Se ele existisse realmente, teria levado o meu pai, que é um monstro e só sabe fazer o mal!
Ele, sim, deveria ter morrido, não ela!
- Deus existe sim, Telma, e está mais presente em nossas vidas do que podemos imaginar.
Ele ama a todos nós da mesma maneira.
Sei que, num momento como este, é difícil para você acreditar e aceitar, mas tenha certeza que tudo dará certo.
Quanto à sua mãe, é difícil uma pessoa que pode retornar para Deus, vitoriosa, mas ela, tenho certeza, retornou.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 09, 2017 8:18 pm

Ela, apesar de tudo, teve uma vida digna e educou vocês da melhor maneira.
Seu tempo aqui na Terra terminou, mas ela estará ao lado de vocês para sempre.
Às vezes, não entendemos por que as coisas acontecem de uma maneira que não esperamos e, quando é assim, quase sempre julgamos injustos os desígnios de Deus, mas Ele sabe os verdadeiros motivos e, a nós só nos resta aceitar e confiar Nele.
Quanto ao seu pai, não sei, mas ainda não deve ter chegado a sua hora.
Ele não deve ter cumprido o que prometeu, e Deus está dando mais uma chance para que ele cumpra.
Agora, precisa se esforçar para não chorar...
Precisa imaginar que sua mãe deixou de sofrer nas mãos de seu pai e que ela está nas mãos de Deus, que sempre a amou, e muito.
- Para a senhora é muito fácil dizer isso, mas para mim está sendo difícil demais.
Não consigo parar de chorar.
Ela não podia ter ido para as mãos de Deus, Ele não precisa dela, quem precisa é a gente!
Se o que está dizendo for à verdade, eu odeio Deus!
Ele não podia ter feito isso com a gente!
- Sei que, no momento, você está desesperada e, por isso não sabe o que está falando, mas com o tempo vai ver que Deus nunca abandona seus filhos e que sempre estará ao seu lado e de todos nós.
Mas agora precisa comer alguma coisa e cuidar das crianças.
Elas precisam dormir.
Amanhã será outro dia...
Além do mais, a polícia já deve estar chegando para levar sua mãe e não acho bom que as crianças vejam.
Elas ainda não se deram conta do que realmente aconteceu.
Se ficarmos conversando com elas, daremos tempo para que a polícia vá embora.
- Acho que a senhora tem razão, só não entendo porque a polícia tem que levar a minha mãe.
- Ela morreu de algo que ninguém sabe o que foi.
Por isso vai ser preciso fazer uma autópsia.
Só assim descobriremos o que realmente causou sua morte.
Não se preocupe, amanhã cedo ela deve estar de volta e você poderá vê-la.
- A senhora tem razão, mas não vou comer, não consigo...
- Está bem, mas leve alguma coisa, caso fique com fome mais tarde.
- Não precisa dona Laurinha.
Se eu ficar com fome, lá em casa tem comida.
Antes de descobrir que minha mãe tinha morrido, eu fiz o jantar.
Agora vou ficar com as crianças, como à senhora disse, preciso estar ao lado delas.
Boa noite, dona Laurinha.
- Boa noite, Telma, e não se esqueça de que, se um dia precisar de ajuda, farei o possível para ajudar.
Sabe o quanto fui amiga da sua mãe e como, muitas vezes, à socorri.
- Sei, sim, a senhora foi sempre uma grande amiga.
Agora vou levar as crianças.
Telma pegou as crianças e foi para casa.
Na sala estavam várias pessoas, todas conhecidas de Telma, que conversavam.
Telma passou por elas, mas não parou, levou as crianças para o quarto e fez com que se deitassem.
- Agora vamos dormir meus queridos...
- A mamãe não vai voltar nunca mais, Telma?
- Não, Marquinhos, mas eu vou ficar sempre com vocês.
- Quero a mamãe, Telma...
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 9:08 pm

O menino começou a chorar e Telma não soube o que dizer.
Um vulto de mulher, que estava o tempo todo ao lado deles, aproximou-se de Sueli e colocou as mãos abertas sobre sua cabeça.
A menina, parecendo ter levado um pequeno choque, disse:
- Não precisa chorar Marquinhos.
A mamãe só foi pra junto de Deus, mas ela não vai esquecer a gente, não.
Ela vai vir sempre visitar a gente.
Eu sei que ela está num lugar muito bonito e nunca mais, nunca mais mesmo, ninguém vai bater nela.
Agora, Telma, acho que a gente precisa rezar.
Você sabe que, todos os dias, antes da gente dormir, a mamãe rezava junto com a gente...
Telma fez um esforço enorme para não chorar na frente das crianças e, engolindo em seco, disse:
- Vamos dormir, sim, mas não precisa rezar.
Deus nunca ouve quando a gente reza...
- Não fala assim, Telma!
Deus ouve sim!
A mamãe falava que Ele estava sempre do lado da gente e via tudo que acontecia!
Vendo que a menina estava nervosa, Telma disse, forçando um sorriso:
- Está bem, se quiser, pode rezar, vou ficar ouvindo.
A menina fechou os olhinhos e começou a falar:
- Papai do céu, sei que o Senhor levou a mamãe pra junto do Senhor.
Não sei por que fez isso, a gente precisa tanto dela, mas sei que foi porque tem um motivo muito grande.
Cuida da mamãe, e cuida da gente também, amém.
Telma ouviu as palavras da menina, sentiu um grande afecto, mas muito ódio daquele Deus com quem ela falava.
A entidade, que continuava ali, sorriu e beijou todos no rosto, e só então se afastou.
Em seguida, as crianças adormeceram.
Telma, que não conseguia ficar calma em nenhum lugar, andava pela casa e passou pela porta fechada do quarto de Sara.
Quantas vezes me deitei na sua cama e nós ficamos conversando?
Quase sempre eu a criticava, mamãe, mas a senhora sempre me ouvia e dava os seus motivos, mesmo que eu nunca os aceitasse.
Como queria que estivesse aqui!
Juro que nunca mais eu ia criticar suas atitudes.
Perdão, mamãe, hoje sei que, ao invés dê criticar, eu devia ter dito que gostava muito da senhora.
Porque eu não disse, mamãe?
Chorando foi para a cozinha, onde sua mãe ficava a maior parte do tempo.
Olhou para o fogão e a pia.
Tentou ver a mãe, mas não conseguiu.
Não queria acreditar que aquilo realmente estava acontecendo, voltou a chorar muito.
Por que isso teve de acontecer?
Mamãe desculpe por ter sido muitas vezes agressiva com a senhora.
Mas a senhora sabe que eu a amo muito e que agora não era hora de ir embora, mamãe.
Minha vida está toda atrapalhada e não sei o que vou fazer com ela, me ajude mamãe...
O vulto havia voltado ao seu lado e jogou sobre ela um jacto de luz branca.
Sem saber o motivo, finalmente Telma se acalmou, sentiu muito sono, foi para o quarto, deitou-se e dormiu.
E continuou dormindo até que ouviu vozes conversando e, entre elas, a do pai.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 9:08 pm

Sentou-se na cama, com as pernas penduradas, e pensou:
Ele voltou.
Será que sabe quando vão trazer minha mãe de volta?
E do que ela morreu?
Levantou-se e foi até a sala, que era de onde vinham as vozes.
Assustou-se ao ver a mesa da sala forrada com um tecido preto e três homens que cobriam todas as paredes da casa com cortinas pretas do mesmo tecido.
Seu pai e alguns vizinhos acompanhavam o trabalho dos homens.
Ao ver Telma, seu pai se aproximou e, chorando muito, abraçou-a, dizendo:
- Minha filha, sua mãe foi embora e agora somos só nós quatro.
Prometo que vou ser um bom pai para vocês.
Telma o afastou.
Sentia revolta por ver que ele, justo ele, que tanto fizera a mãe chorar, agora chorava muito.
Olhou para ele e, secamente, perguntou:
- Onde ela está?
- Está sendo preparada e o corpo logo estará aqui.
O enterro foi marcado para amanhã às três horas da tarde.
- Como pode dizer o corpo?
Não é um corpo, é minha mãe! - disse nervosa e quase gritando.
- É assim que as pessoas falam dos mortos... - ele disse, desajeitado.
- Pois eu não quero isso!
Ela ainda é minha mãe!
Não é um corpo!
Descobriram do que ela morreu?
- Sim, o médico disse que ela tinha um problema muito sério no coração, que provavelmente era de nascença.
Ele me perguntou se ela nunca reclamou de dor ou de muito cansaço.
Eu respondi que sim, mas que sempre disse que era gripe e nunca quis ir ao médico.
Ele disse que, enquanto ela estava dormindo, sofreu um infarto fulminante e, mesmo que tivesse sido atendida prontamente, seria muito difícil evitar que morresse.
- Bem que eu pedi a ela várias vezes que fosse ao médico.
Hoje mesmo eu disse que a levaria ao pronto-socorro.
Por que ela nunca quis ir?
Será que ela sabia e queria morrer?
- Não, Telma!
Ela nunca deve ter imaginado que o que sentia era tão grave.
Telma ouvia o que ele dizia, entre soluços.
Aquela atitude a enfurecia ainda mais, mas estava muito cansada e abatida, não conseguia mais chorar.
Voltou para o quarto, deitou-se e ficou pensando nas conversas que teve com sua mãe:
Mamãe, isso não podia ter acontecido...
A senhora sempre foi uma mãe maravilhosa.
Sempre fez tudo para que a gente fosse feliz.
Será que a senhora sabia da doença que tinha e não quis se tratar, queria morrer?
Não, não pode ser.
Nunca ia querer abandonar a gente, sabia que, sem a senhora, a nossa vida se tornaria em um inferno pior do que já era.
Foi sempre tão carinhosa...
Estou me lembrando de tantas conversas que tivemos.
Como vai ser a nossa vida sem a senhora?
Ficou deitada até a hora em que a mãe chegou e foi colocada sobre a mesa forrada com o tecido preto.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 9:08 pm

Em cada lado da mesa havia velas brancas e grandes, que foram acesas.
As pessoas se aproximaram para ver o rosto daquela que, todos sabiam, havia sofrido muito em toda sua vida.
Alguns olhavam e saíam, outros faziam o sinal da cruz e rezavam um Pai Nosso e outros só olhavam de longe e se afastavam.
Telma se aproximou e, chorando baixinho, olhou para o rosto da mãe...
Mamãe, é verdade, a senhora está morta, mesmo.
Mas está tão bonita, até parece que está feliz...
Estava ali, olhando e pensando, quando Laurinha se aproximou.
Abraçou Telma e, olhando para o rosto daquela que havia sido sua amiga por tanto tempo, pensou:
Vai com Deus minha amiga.
Seu tempo aqui na Terra terminou e sei que neste momento está bem acompanhada e caminhando de volta para a casa do Pai.
Que seu caminho seja tranquilo e, quando acordar, consiga entender e aceitar a vontade do Pai.
Que todas as conversas que tivemos sobre a vida após a morte possam te ajudar neste momento.
Em seguida se afastou e foi para o quarto, onde as crianças ainda dormiam.
Aproximou-se, cobriu Marquinhos que estava descoberto e pediu:
Senhor, meu Deus.
Sei que não posso duvidar da Sua bondade e sabedoria, mas é muito triste ver essas crianças sem mãe e sozinhas, nas mãos desse homem que nunca soube amá-las.
Peço Senhor, que seus braços se estendam sobre elas e que as ajude, para que possam crescer e cumprir os compromissos que assumiram.
Laurinha saiu do quarto e foi para junto dos outros.
Telma ficou ao lado da mãe até que amanhecesse.
Quando deu a hora em que deveria ir para o trabalho, foi a um telefone público que havia na esquina de sua casa, telefonou para o escritório e avisou o que havia acontecido.
Seus colegas, assim como ela, também se assustaram.
Depois do almoço, quando chegou, Roberto foi avisado e ficou desolado:
- Pobre menina.
Que acontecerá agora com ela e seus irmãos?
Embora ela tenha negado, sei que o pai é violento.
Farei tudo que for possível para ajudá-la.
Marieta e mais dois colegas do escritório foram ao enterro, Roberto não quis ir, mas disse para Marieta falar a Telma que ela só precisava voltar ao escritório depois de uma semana.
Marieta deu o recado e ficou junto de Telma o tempo todo.
O enterro aconteceu e depois todos voltaram para suas casas.
Telma, sempre segurando nas mãos de seus irmãos, também voltou para casa, agora tão vazia, sem a mãe.
Preparou o jantar e deu para as crianças e para o pai, que parecia desolado e chorava muito.
Ela sentiu vontade de falar uma porção de coisas, mas ficou calada.
Precisava pensar em como seria sua vida dali para frente.
Depois do jantar, seu pai saiu, dizendo:
- Vou sair um pouco, preciso respirar ar puro.
Telma ficou calada, foi para o quarto e, depois de ter colocado as crianças para dormir, voltando a chorar, pensou...
Não sei como vai ser nossa vida sem a senhora, mamãe.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 9:09 pm

Estou muito triste, queria poder falar mais uma vez com a senhora nem que fosse só por um minuto, para dizer o quanto gostava da senhora e poder pedir perdão por todas as vezes que lhe disse tantas coisas horríveis, mas sei que agora é tarde.
Nunca mais poderei ver e conversar com a senhora, mamãe...
A entidade, que todo o tempo estivera com ela e com as crianças, aproximou-se e jogou luzes sobre eles.
Todos adormeceram em seguida.
Durante mais alguns instantes, a entidade ficou ali, e, quando dormiam sossegados, desapareceu.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 9:09 pm

A AJUDA SEMPRE VEM
Os dias foram passando.
No terceiro dia após o enterro, Telma acordou pela manhã, cuidou das crianças, levou-as para a escola e depois ficou pensando:
Preciso ir ao pronto-socorro para fazer os exames e saber se estou mesmo grávida para tomar uma providência apesar de me sentir completamente perdida e não saber o que fazer...
Os dias foram passando e ela ficava a maior parte do tempo chorando e não entendendo por que sua mãe havia morrido daquela maneira e sem ter dado tempo para ela se despedir e lhe dizer o quanto a amava.
A noite, só conseguia dormir quando o sono a dominava.
Tentava não chorar na presença das crianças.
Sabia que precisava mostrar a elas que tudo estava bem.
Cuidava da casa, dos irmãos e levava-os à escola, mas, cada vez que se aproximava a hora de o pai chegar em casa, Telma tremia de medo.
Sabia que, a qualquer momento, ele começaria a brigar por nada e, não tendo mais a mãe para bater, bateria nela e, talvez, nas crianças.
Todos aqueles que estavam no velório e no enterro desapareceram, só quem estava sempre presente e disposta a conversar era Laurinha.
Em uma das vezes, Laurinha entrou e encontrou Telma chorando.
Percebeu que ela, além de muito triste e chorando, estava vestida de qualquer jeito e a casa toda desarrumada.
Preocupada, perguntou:
- Você está bem, Telma?
- Não, não estou bem e nunca mais vou ficar...
- Precisa reagir, é ainda muito jovem, tem a vida toda pela frente...
- Que vida?
A senhora já parou para pensar como vai ser a minha vida?
- Acho que vai ser muito boa.
Vai se casar, ter muitos filhos...
- Não quero me casar!
Não acredito em casamento e muito menos nos homens! - disse isso se lembrando de Plínio.
- Como pode falar assim?
E ainda muito jovem, nem teve tempo para conhecer os homens e só está falando isso por causa de seu pai.
Saiba que nem todos são como ele...
Aliás, homens como ele são a minoria, graças a Deus!
- Não é só ele que não presta...
Sou jovem, mas já ouvi muitas histórias de outros tantos como ele.
Também, do que adianta a gente pensar no futuro se a qualquer momento a gente morre de uma maneira estúpida, como aconteceu com a minha mãe?
- A morte da sua mãe não foi estúpida.
Se pensar bem, verá que ela não ficou em uma cama de hospital, sofrendo com dores horríveis, como acontece com muitas pessoas.
Ela adormeceu e partiu.
Essa morte é abençoada...
- Não me importo com o que a senhora diz, não era hora dela morrer!
Tinha três filhos que precisavam muito dela!
Porque ela?
Porque não meu pai, que é tão ruim?
- Não sei te responder, só sei que tudo está sempre certo, e que sua mãe deve estar em um lugar muito bom e feliz...
- A senhora está louca!
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 9:09 pm

Como minha mãe pode estar feliz se sabe que ficamos sozinhos e nas mãos desse homem que ela conhece muito bem?
Não sei se ela está em um bom lugar, mas com certeza não está feliz!
- Conversei muito com sua mãe a respeito de uma doutrina que sigo e, nessa doutrina, aprendemos que Deus é nosso pai e que sempre está ao nosso lado, nada nos acontece sem Sua permissão.
Se sua mãe teve que ir agora e deixar vocês sozinhos, algum motivo houve, talvez você não descubra nesta vida, mas descobrirá em outra.
- Que outra?
A senhora vem com essa história de céu e inferno?
Minha mãe sempre viveu no inferno!
A nossa vida sempre foi um inferno e está ficando cada vez pior...
Cheia de dor, Telma chorava.
Laurinha se aproximou e abraçou-a, dizendo:
- Entendo a dor que está sentindo, mas a vida precisa continuar.
Acredite em Deus e entregue sua vida para Ele, verá que as coisas vão se ajeitando.
E não duvide, nunca, que ele te ama muito e aos seus irmãos também.
Telma se abraçou em Laurinha e ficou chorando, a dor vertia em suas lágrimas, e não conseguia se controlar.
Laurinha deixou-se abraçar em silêncio e ficou ao seu lado até que, com a voz entrecortada por soluços, Telma disse:
- Hoje vai ser a missa de sétimo dia, dona Laurinha.
Até agora meu pai não brigou.
Chega em casa, janta e vai dormir, mas tenho medo que, a qualquer momento, ele volte a ficar violento.
Se isso acontecer, não sei o que fazer nem como me defender e aos meus irmãos.
- Ele nunca agrediu você ou as crianças, Telma.
- A mim ele agrediu.
A senhora não sabe, mas fiquei muitos dias com o rosto roxo.
- Não sabia disso, mas, se acontecer novamente, você precisa ir à delegacia e dar parte.
- Não posso fazer isso, dona Laurinha!
- Não pode, por quê?
- Sem minha mãe, é ele o responsável pela gente.
Se a polícia achar que a gente não pode mais ficar com ele, vamos para onde?
Para um orfanato?
Não quero e nem posso me separar dos meus irmãos.
- Tem razão, mas ele não pode bater em vocês, e acredito que isso não vai acontecer.
- Espero que sim, mas, já que não posso ir até a delegacia, vou encontrar uma maneira de matar esse monstro!
- Nem pense nisso!
Aí sim, você irá presa e seus irmãos ficarão sem ninguém.
Como já te disse, entregue suas vidas nas mãos Dele e tudo se arranjará.
- Vou tentar fazer isso, embora não acredite muito nesse Deus malvado.
Mas, também, não sei o que vai acontecer com minha vida.
Como vou continuar trabalhando e frequentando o colégio?
Agora é impossível, preciso cuidar da casa e das crianças.
Por que isso aconteceu logo agora que tudo caminhava tão bem em minha vida?
Isso não é justo!
- Para tudo na vida sempre tem uma solução.
Precisa só acreditar na bondade e justiça de Deus.
- Lá vem a senhora com essa conversa novamente!
Que Deus?
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 9:09 pm

Aquele que, segundo a senhora, levou a minha mãe e deixou meu pai que não vale um tostão furado?
Como quer que eu acredite em um Deus maldoso como esse?
- Não sabemos por que, em nossa vida, acontecem certas coisas que sempre nos parecem injustas, mas posso te garantir que tudo está sempre certo e que, mais cedo ou mais tarde, sempre descobrimos o motivo.
Sempre que algo de ruim acontece, pensamos que tudo está perdido, mas quase sempre isso não é verdade.
Tem um ditado antigo que diz:
quando Deus fecha uma porta, abre um portão.
Por isso, tenha calma e aguarde que tudo se ajeitará e, tenha certeza, Deus não é malvado.
Ele nos ama a todos da mesma maneira e deixa que nós mesmos escolhamos o caminho que queremos seguir.
- Queria ter essa mesma fé que a senhora tem, mas não consigo dona Laurinha...
Sou ainda muito jovem para poder entender e aguentar o que está acontecendo.
Eu me preocupava só com o meu futuro, para isso comecei a trabalhar tão cedo e agora estou estudando.
Queria ter uma profissão, poder tirar minha mãe e meus irmãos desta casa, mas não consegui...
Seu Deus, como a senhora disse, já a tirou e, se Ele resolver tirar meus irmãos também ou a mim, como vai ser?
- Não conheço o futuro, mas acredito na bondade de Deus e sei que nunca nos deixa sozinhos e a ajuda sempre chega, através de alguém, ou de alguma coisa que acontece.
Sei que, neste momento, espíritos amigos estão ouvindo a nossa conversa e basta confiar, entregar nossas vidas nas mãos Dele, Telma...
- Não consigo aceitar isso que está dizendo...
- Como você disse, é ainda muito jovem, mas com o tempo, outras coisas acontecerão em sua vida e você entenderá o quanto Ele te ama...
Falando nisso, acho que não precisa deixar de trabalhar nem de estudar.
Não sei se vai aceitar, mas, quanto às crianças, não precisa se preocupar.
Posso cuidar delas e mandá-las para a escola.
Sabe que meus filhos estudam na mesma escola e no mesmo horário, não vai ser problema algum.
Posso ficar com eles até que você ou seu pai cheguem do trabalho.
Quanto ao trabalho, sua mãe me disse que o seu patrão gosta muito de você e quer te ajudar, fale com ele, quem sabe ele te ajuda a encontrar uma solução.
- A senhora faria isso?
Cuidaria dos meus irmãos?
- Claro que sim.
Gosto das crianças e meus filhos são amigos deles, estão sempre brincando juntos.
- Obrigada, dona Laurinha, não sei como agradecer...
- Não agradeça a mim, mas a Deus que te ama muito.
Agora que estou me lembrando, não te disse que a ajuda sempre chega através de alguém ou de alguma coisa?
Quando eu estava falando aquilo, não sabia que Deus ia me usar para te ajudar.
Ele não é mesmo maravilhoso?
Telma ficou sem saber o que responder e, depois de tanto tempo chorando, conseguiu sorrir.
- Sabe que pode contar sempre comigo, Telma.
Agora preciso ir embora para preparar o jantar.
Pense bem em tudo que te disse. Até mais.
Laurinha saiu e Telma pôs-se a pensar:
Ela me deu uma boa ideia, só não sei se meu pai vai aceitar.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 9:10 pm

Se ele aceitar, posso conversar com o doutor e, como ele só vem trabalhar à tarde, posso cuidar da casa pela manhã, dar almoço para as crianças e ir trabalhar.
Para eu poder ir à escola, à noite, meu pai tem que chegar cedo em casa para ficar com as crianças.
O problema vai ser só esse.
Ele nunca teve hora para chegar em casa.
Hoje, quando ele chegar, e tomara que não venha com vontade de brigar, vou conversar com ele...
Quem sabe ele aceita e, assim, posso trabalhar e estudar também.
Será que estou grávida?
Não quero nem pensar nisso!
Se for verdade, estou completamente perdida.
Mamãe, não tive coragem de ir fazer o exame, mas agora não tem mais jeito, preciso ir antes que passe muito tempo.
Não sei como se faz isso, mas se estiver mesmo grávida, preciso descobrir aonde ir para tirar essa criança.
Ela não pode nascer.
Sabe que meu pai me mataria, mamãe.
Por que a senhora me abandonou?
Foi para o quarto, vestiu as crianças e ficou esperando o pai para irem à missa.
Ele chegou e todos foram para a igreja.
Muitos amigos e conhecidos estavam lá.
Entre eles Marieta.
Assistiram a missa.
Telma chorou durante todo o tempo:
Não tem mesmo como continuar me enganando, mamãe.
A senhora não está mais ao nosso lado.
Queria tanto poder conversar com a senhora, mesmo que fosse só por um minuto...
Quando a missa terminou, as pessoas se aproximaram e Telma os cumprimentou.
A última que se a aproximou foi Marieta, que retribuiu o cumprimento e falou:
- Sinto muito por isso que te aconteceu, mas não esqueça que no escritório, todos gostamos muito de você.
O doutor não veio, mas pediu que eu te dissesse que ele está esperando que volte ao trabalho.
- Obrigada, Marieta.
Vou tentar voltar ao trabalho, mas sabe que agora preciso cuidar da casa e dos meus irmãos...
- Sei disso, a sua vida se complicou muito.
Mas, e aquele assunto, já resolveu?
- Ainda não fui fazer os exames.
- Esse sim é um grande problema, ainda mais agora, sem a sua mãe para te apoiar...
- Sei disso, já devia ter feito os exames, mas estou com medo do resultado...
- Não pode demorar muito.
Precisa ter certeza para ver o que vai fazer...
- Sei disso...
Mas parece que encontrei uma solução para voltar ao trabalho e poder continuar a estudar.
Vai depender do meu pai e do doutor.
Só preciso tomar coragem e conversar com ele.
Agora só preciso fazer os exames e saber do resultado...
- Tomara que consiga retomar sua vida.
Despediram-se e todos foram embora.
Naquela noite, Telma não teve coragem para conversar com o pai.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 9:10 pm

No dia seguinte também não teve coragem de ir fazer os exames.
Estava preparando o jantar e pensando em como falaria com seu pai, caso estivesse mesmo grávida, quando ele entrou em casa.
Como fazia desde que a mãe morreu, ele foi directo para o seu quarto.
Telma percebeu que ele não estava nervoso.
Caprichou no jantar, foi até o portão, chamou as crianças, que brincavam, e mandou que fossem tomar banho.
Enquanto elas tomavam banho, Telma foi até o quarto do pai, que estava deitado na cama, ouvindo rádio.
Aproximou-se, dizendo:
- Pai, a comida já está pronta.
- Onde estão as crianças?
- Estão tomando banho.
- Assim que elas terminarem, me chame.
Quero comer junto com vocês.
- Está bem, mas antes preciso conversar com o senhor.
Ele sentou-se na cama, olhou sério para ela e perguntou:
- O que quer falar?
Ela respondeu de uma vez:
- O senhor sabe como gosto de trabalhar e estudar...
- Sei, sim, mas infelizmente isso agora não vai ser possível, ao menos por enquanto.
Sem sua mãe, você precisa cuidar da casa e das crianças.
- Sei disso, mas estive conversando com dona Laurinha e ela me deu uma ideia...
- Que ideia?
Telma contou o que Laurinha havia proposto.
Assim que ela terminou de explicar, o pai pensou por algum tempo e, para surpresa dela, disse:
- Acho uma boa ideia, pode falar com seu patrão e, se conseguir que ele deixe você trabalhar só na parte da tarde, pode voltar ao trabalho.
Quanto às crianças, não se preocupe, chego cedo em casa para ficar com elas enquanto você vai para a escola.
Telma ouvia o pai falar aquilo e não conseguia acreditar.
Desde a morte da mãe, ela havia notado que ele estava diferente, mas pensou que logo voltaria a ser o mesmo monstro de sempre.
Mas não, ele havia mudado mesmo.
Feliz com a resposta, e sem perceber, jogou-se em sua direcção, abraçou-o e beijou seu rosto, dos dois lados.
O pai, também tomado pela surpresa, ficou sem saber o que fazer e a afastou carinhosamente.
Ela foi até o banheiro, tirou as crianças do banho, vestiu-as e deu o jantar.
Depois foi para o quarto e ficou pensando:
Ele mudou mesmo, nunca mais brigou e está sempre agradando as crianças.
Porque será que antes brigava tanto?
Mesmo assim, não consigo acreditar que isso seja verdade.
Sei que dentro de alguns dias ele voltará a ser como era antes.
O importante é que aceitou, e eu vou poder voltar ao trabalho.
E se trabalho, posso continuar a frequentar a escola.
Se conseguir terminar meus estudos, nunca mais vou ter que sentir medo...
Só me falta resolver o problema dessa criança, se é que estou realmente grávida.
Amanhã, pela manhã, vou fazer os exames e, se estiver mesmo grávida, encontro uma maneira de me livrar dessa criança.
De qualquer maneira, à tarde, vou conversar com o doutor e ver se ele aceita que eu trabalhe só meio período.
Agora preciso dormir, estou com muito sono...
Ajeitou o travesseiro, cobriu-se e adormeceu.
A entidade, que esteve o tempo todo ao seu lado, deu um beijo em sua testa e também na das crianças.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 9:10 pm

A ACUSAÇÃO
No dia seguinte acordou bem cedo e foi para o pronto-socorro.
Precisava ser naquele horário e ela tinha de voltar antes que o pai saísse para o trabalho.
Fez os exames e teria de aguardar ainda três dias para obter o resultado.
Voltou para casa e encontrou o pai coando o café.
Assim que a viu entrando, perguntou curioso:
- Onde foi tão cedo, Telma?
Pensou um pouco antes de responder.
Sabia que não poderia mentir, pois em seu braço, havia um pequeno esparadrapo e o pai saberia que alguma coisa tinha acontecido.
Um pouco desconcertada pensou rápido e respondeu:
- Fui até o pronto-socorro fazer exame de sangue...
- Exame de sangue?
Porquê? Está doente?
- Não, todos no escritório precisam fazer exame de saúde e o primeiro é o de sangue.
É norma do escritório.
Uma vez por ano, todos precisam fazer esse exame.
- Nunca vi isso...
- Não sei como é em outros lugares, mas o doutor quer ter certeza que todos os funcionários estão bem de saúde...
- Está bem, agora vou tomar meu café e vou trabalhar.
- Hoje à tarde vou lá ao escritório para conversar com o doutor e, se ele aceitar, amanhã volto ao escritório.
- Precisa me avisar qual foi a resposta dele para eu poder chegar cedo em casa e cuidar das crianças.
Ela não conseguia acreditar que aquele homem era o mesmo que ela sempre tinha tido como pai.
Ele estava totalmente diferente.
Ficou com vontade de perguntar por que ele havia mudado tanto, por que não tinha sido sempre assim, mas ficou calada.
A tarde, depois de levar as crianças até a escola, foi para o escritório.
Quando chegou, foi recebida com muito carinho por seus colegas.
O doutor não havia chegado, ela foi até sua sala para esperá-lo.
Ficou olhando alguns papéis.
Ele chegou meia hora depois e, assim que a viu, sorriu, dizendo:
- Que bom que você está aqui, Telma.
Como está se sentindo?
- Na medida do possível, estou bem, doutor, mas preciso conversar com o senhor.
- Está bem, venha até minha sala.
Telma o acompanhou e sentou-se na cadeira que ele lhe apontou.
Assim que sentou, disse:
- Doutor, desculpe por não ter vindo trabalhar todos esses dias, mas eu não estava bem.
Estou aqui para conversar com o senhor.
- Entendo, sei que foi muito difícil o que você passou.
Se sua mãe estivesse doente, você estaria esperando, mas, da maneira como aconteceu, é compreensível que você tenha ficado muito mal.
Ainda bem que você melhorou, estou contente em vê-la aqui.
Sobre o que quer conversar?
Se for sobre o seu trabalho, pode voltar agora mesmo, não imagina o quanto tenho sentido sua falta.
O trabalho está todo atrasado.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 9:11 pm

- É sobre isso mesmo que quero falar com o senhor.
Como sabe, tenho dois irmãos ainda pequenos e, sem minha mãe, eles precisam de alguém que cuide deles.
Meu pai trabalha o dia inteiro e eles precisam ir para a escola.
O senhor sabe o quanto gosto de trabalhar aqui e não gostaria de ter que sair.
Mas não sei o que vou fazer para dar conta de tudo.
Tenho uma vizinha que se comprometeu em levá-los para a escola.
Por isso, se o senhor concordar, posso continuar trabalhando, mas só à tarde.
Roberto ficou pensando por alguns segundos e, depois, disse:
- Sei que aqui tem muito trabalho, mas sei também que você conseguirá dar conta e por isso acredito que não haverá problema algum.
Sabe que investi em você e, até agora, não me arrependi.
Está tudo bem, mas vai continuar frequentando a escola?
- Vou, sim.
Meu pai disse que vai chegar cedo para ficar com as crianças.
- Então, está tudo bem.
Você já quer voltar a trabalhar agora?
- Se o senhor deixar gostaria muito.
- Então, vá!
Telma, sorrindo, saiu da sala de Roberto e foi para a sua.
Realmente o trabalho estava todo atrasado e ela começou a colocar as coisas em ordem.
Nos dias que se seguiram, tudo correu bem, ela trabalhou e foi à escola.
Laurinha cumpriu o que prometeu e cuidou das crianças na sua ausência.
Seu pai também chegou cedo e ficou com elas.
Ela ainda tinha de ir buscar o resultado do exame, já estava pronto, não podia passar daquele dia.
Acordou cedo, conversou com Laurinha e pediu que ela ficasse com as crianças por algumas horas, dizendo que precisava ir ao pronto-socorro, contando a mesma história que havia contado para o pai, sobre a necessidade dos exames para o escritório.
Laurinha concordou dizendo que era bom ela cuidar da saúde.
Ela foi até lá e pegou o resultado do exame.
Agora estava com o envelope na mão, mas sentia um medo imenso de abri-lo.
Saiu de lá e foi tomar o ônibus que a levaria até perto de sua casa.
No trajecto, olhou para o envelope e por várias vezes voltou a guardá-lo na bolsa, não conseguia achar coragem para saber o que ele lhe reservava.
Até que, finalmente, abriu-o e leu: Positivo.
Sentiu que seu coração quase parou.
É verdade, estou mesmo grávida...
E agora, o que vou fazer?
Se meu pai descobrir, não vai aceitar e, provavelmente, vai me dar uma surra e até me expulsar de casa.
Logo agora que ele está tão bom, que nunca mais brigou e nunca mais me maltratou nem às crianças.
Preciso descobrir uma maneira de encontrar Plínio.
Ele vai saber o que fazer.
Quem sabe, fique até feliz em saber que vai ser pai.
Ele sempre foi tão carinhoso, sei que da outra vez ele desapareceu...
E agora também...
Mas será que não foi o tio que novamente o obrigou?
Ele me ama, sei disso.
Só foi obrigado a se casar.
Hoje à tarde vou telefonar para ele, até lá não contarei a ninguém.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 9:11 pm

Chegou em casa, cuidou dela e fez o almoço.
Colocou o uniforme nas crianças e levou-as até a casa de Laurinha, que as recebeu com um sorriso.
- Pegou o resultado do exame, Telma?
- Peguei sim, mas não o abri.
Preciso levar para o médico que o doutor indicou.
Mas sei que está tudo bem.
Agora preciso ir, dona Laurinha.
- Vá com Deus, minha filha e não se esqueça que Ele está sempre ao seu lado.
- Obrigada, dona Laurinha, mas ele pode se preocupar com todo mundo, menos comigo - disse, lembrando-se do resultado do exame.
Dona Laurinha ficou calada e acenou com a mão.
Telma foi para o escritório.
Estava nervosa e no caminho foi pensando:
Mamãe, como eu preciso da senhora agora.
Por que me abandonou?
Estou perdida, sem saber o que fazer.
Dizem que, quando a gente morre, pode ajudar aqueles que estão aqui.
Mamãe me ajude...
Chegou ao escritório e viu que Roberto não havia chegado.
Entrou depressa em sua sala, abriu a agenda, anotou o número do telefone do escritório onde Plínio estava trabalhando e discou o número.
Do outro lado da linha ele atendeu:
- Alô...
- Plínio, sou eu, Telma.
- Telma? Como você está?
Soube sobre a sua mãe e sinto muito...
- Estou bem, mas preciso conversar com você.
- Meu tio está aí, na sala dele?
- Não, ele ainda não chegou.
- Então podemos conversar.
Sabe que ele não pode saber do grande amor que sinto por você.
- Não sei se você me ama realmente, mas eu te amo muito.
- Como pode duvidar isso?
Claro que te amo, estou morrendo de saudade.
Só não fui te ver porque voltei a trabalhar aqui e encontrei muitos problemas.
Mas, hoje mesmo, estava pensando em ir à noite te encontrar no lugar de sempre.
- Você vem mesmo?
- Não penso em outra coisa.
Sabe que te amo, menina...
- Também te amo e vou ficar te esperando.
Desligaram o telefone.
Telma quase não conseguia disfarçar a enorme felicidade que estava sentindo...
Eu sabia que ele me amava!
Tinha certeza disso!
Sei que vai ficar feliz quando souber que estou esperando um filho!
Não sei como vai fazer, mas sei que não vai me abandonar...
Obrigada, mamãe por ter me ajudado...
Eu sabia que podia contar com a senhora...
Esperou ansiosa que o expediente terminasse.
Assim que deu a hora, saiu correndo.
Precisava chegar logo no ponto do ônibus, sabia que Plínio chegaria logo.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 9:11 pm

Estava lá fazia mais ou menos uns quinze minutos quando o carro dele parou junto à calçada.
Sorrindo, ele abriu a porta e disse:
- Entre meu amor.
Telma, mais do que depressa, entrou no carro.
Ele a abraçou e beijou-a com paixão, no que foi correspondido.
Foram directo para o hotel.
Enquanto dirigia, Plínio fazia carinho em seu rosto e cabelos.
Ela ia ficando cada vez mais tranquila e com a certeza de que ele ficaria feliz com a notícia.
Chegaram ao apartamento e, assim que entraram, ele a abraçou com muita força, demonstrando a imensa saudade que sentia dela.
Beijaram-se com paixão.
Ele a encaminhava para a cama, quando ela se afastou, dizendo:
- Antes, precisamos conversar Plínio.
- Não pode deixar para depois?
Sabe que não temos muito tempo!
- Não, tem que ser agora.
É muito importante...
Ele, nervoso e ansioso, disse:
- O que pode ser tão importante que faz com que você adie este encontro que espero há tanto tempo?
Ela abriu a bolsa e, de dentro dela, tirou o envelope e entregou para ele que, surpreso, abriu e leu.
Ao terminar de ler, Plínio olhou para ela e perguntou muito nervoso:
- Que significa isto, Telma?
- Que estou grávida... - ela respondeu, com o olhar brilhante de felicidade.
- Grávida?! Grávida?
E o que eu tenho a ver com isso?
- Como, o que tem a ver com isso?
Estou grávida e não sei o que fazer...
- Se você não sabe como eu vou saber?
- Essa criança é minha e sua também...
Precisa me dizer o que devo fazer...
- Como posso saber se essa criança é minha mesmo?
- Claro que sabe...
Sabe muito bem que foi o primeiro homem da minha vida, que nunca tive outro... - ela disse, já quase chorando.
- Não tenho nada a ver com isso!
Está querendo me envolver em algo que eu não tenho nada a ver, mas isso não vai acontecer!
- Como pode dizer isso, Plínio?
Sempre disse que me amava e eu acreditei...
- Te amo! Claro que te amo!
Mas você sempre soube que eu era casado e se entregou a mim porque quis nunca te obriguei!
Hoje mesmo está aqui porque quer.
Pensando bem, está na hora de irmos embora!
- Você não pode fazer isso comigo, Plínio!
Meu pai é violento, vai me matar quando souber!
Além do mais, não tenho mais minha mãe para me ajudar...
Não sei o que fazer... - agora ela chorava copiosamente.
- Não tenho nada a ver com isso!
Vá falar com o pai da criança!
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 9:12 pm

- Que pai?!
Como pode duvidar de mim?
Você é o pai, por isso estou falando com você, precisa me ajudar, Plínio...
- Eu sou o pai?! Está louca!
Completamente louca!
Sabe muito bem que o pai da criança é o meu tio!
- O que está dizendo?!
Seu tio?! De onde tirou essa ideia?
- Você acha que eu nunca soube que você saía com meu tio?
- Não pode estar dizendo isso, Plínio!
Sabe que seu tio nunca se envolveria com uma funcionária, muito menos comigo!
Ele sempre me ajudou...
Ele é um homem muito bom...
- Ora, Telma...
Não se faça de ingénua...
Nem precisa mais continuar fingindo.
Você acha que eu acredito que, se não tivesse algo com você, meu tio teria te ajudado tanto?
Além de te dar um emprego...
Onde, por sinal, você não faz nada e não precisaria estar lá...
E ajudar você a se preparar para continuar seus estudos?
Claro que não!
Ele só faz isso porque você é sua amante!
Portanto essa criança é dele!
Vá falar com ele e me esqueça!
- Não pode fazer isso!
Também não quero essa criança!
Acha que estou feliz por isso ter acontecido? Não estou!
Logo agora que minha vida estava toda ajeitada, que ia poder continuar meus estudos e ser alguém!
Não estou, não!
Preciso me livrar dessa criança, só não sei como e não tenho dinheiro!
Precisa me ajudar, Plínio!
Ele pensou um pouco, e disse:
- Está bem, a única coisa que posso fazer é te dar dinheiro para que se livre dela, mas, depois disso...
Quero que me ouça muito bem!...nunca mais quero te ver na minha frente e, por favor, me esqueça!
Tenho mulher e um filho, não posso estragar a minha vida por alguém como você.
De quanto acha que precisa?
Telma chorava muito, não tanto por causa da criança, mas pela atitude dele.
Não acreditava que aquele homem que estava à sua frente, dizendo aquelas coisas horrorosas, era o mesmo que prometia amá-la tanto.
Enxugando as lágrimas com as mãos, respondeu:
- Não sei aonde ir, muito menos quanto custa...
- Descubra um lugar e, depois, me avise quanto custa e te dou o dinheiro!
Pensando bem, vou te dar uma quantia que acho ser suficiente.
Se precisar de mais, me avise, mas, por favor, me esqueça... e não se atreva a espalhar por aí que sou o pai desse filho...
Se você não contou para o meu tio, pode até ser que não seja dele...
E, se ainda não contou, não conte, sua mentirosa...
Se ele tomar conhecimento do que está acontecendo, eu dou um jeito em você!
Sabe que tenho dinheiro para contratar alguém para te matar!
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 10, 2017 9:12 pm

Se estragar a minha vida, eu te mato, Telma!
Ouviu bem?
Ela, tremendo de medo e ódio, respondeu:
- Está bem, vou me livrar desta criança e nunca mais quero ouvir falar de você, Plínio!
Eu te amava muito, mas neste momento estou te odiando, você é odioso... - e ela o odiava com toda a força que achou em seu coração.
Ele tirou da carteira algumas notas e entregou a ela, dizendo:
- Essa quantia deve ser mais que suficiente.
Use... e o que sobrar pode ficar com você.
Agora vou embora.
Ele estava se dirigindo à porta, quando ela perguntou:
- Vai me deixar aqui?
Sabe que é muito longe, como vou voltar para casa?
- Não sei, o problema é seu!
Preciso ir embora agora!
Porque, se ficar mais um minuto aqui ao seu lado, não sei o que serei capaz de fazer!
Estou com muito ódio de você por ter tentado me usar para se dar bem na vida!
Logo você, com essa cara de santa!
Até nunca mais!
Ele saiu batendo a porta.
Ela o seguiu, mas ele andou muito depressa, passou pela recepção do hotel, pagou e, sem olhar para trás, foi embora.
Telma, que corria logo atrás dele, tentou entrar no carro, mas ele não permitiu.
Ela ficou ali, pensando e chorando:
Não estou acreditando nisso que está acontecendo, como ele pôde agir dessa maneira?
Como ousou dizer aquelas coisas do doutor e de mim?
Ele sabe que foi o primeiro na minha vida, que foi o único, que eu nunca tive ninguém, mas o que vou fazer agora?
Não sei com quem conversar para me ajudar...
Mamãe, por que a senhora me abandonou logo agora?
Dona Lourinha disse que foi vontade de Deus, mas que Deus é esse?
Agora preciso ir embora.
Meu ônibus está vindo.
Vou para casa.
Hoje não vou para a aula.
Não tenho condições...
Deu sinal para o ônibus.
Assim que ele parou, ela entrou e sentou-se em um dos bancos.
Estava chorando e, por mais que tentasse, não conseguia conter as lágrimas e os soluços.
- Que está acontecendo com você, Telma?
Por que está chorando dessa maneira?
Ela levantou a cabeça e se voltou para o lado de onde vinha a voz e viu Rafael, seu vizinho de muitos anos.
Um pouco desconsertada, disse:
- Oi, Rafael, não vi que você estava sentado aí.
- Percebi que não viu, mas não respondeu a minha pergunta, por que está chorando dessa maneira?
- Não sei. Comecei a chorar e não consigo parar - mentiu.
- Entendo, você ainda deve estar abalada com o que aconteceu com sua mãe.
Foi muito triste, Telma.
Desculpe por não ter ido a sua casa.
Tive vontade, mas não tive coragem.
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Ave sem Ninho

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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 11, 2017 7:45 pm

Fiquei me lembrando da nossa infância e de como ela gostava de fazer bolo pra gente comer.
Ela era muito legal...
- Era sim, a melhor mãe do mundo.
Não consigo me conformar...
- Sei que é difícil, mas Deus sabe o que faz.
Você, como ninguém, sabe o quanto ela sofreu nas mãos do seu pai.
Embora ela tenha sempre tentado esconder, todos os vizinhos sabiam o que acontecia em sua casa e como seu pai é violento.
Agora, com isso que houve, ao menos ela vai se livrar de todo sofrimento e vai ficar melhor e feliz ao lado de Deus.
- Que conversa é essa?
Como ela pode estar melhor ao lado de Deus?
Não sei se existe, mesmo, uma alma e nem sei se, realmente, existe Deus.
Mas, se for verdade que existe uma alma e minha mãe estiver no céu, com certeza não estará bem nem feliz!
Como ela pode estar bem e feliz, sabendo que eu e meus irmãos continuamos nas mãos dele?
Não consigo aceitar isso!
Ele agora não está espancando ninguém, mas sei que logo vai recomeçar.
E as vítimas agora vão ser as crianças e eu!
- Tem razão em ficar tão desesperada, mas o melhor que pode fazer é pensar nela com saudade, sim, mas não com revolta.
Estou seguindo uma doutrina que ensina isso.
Diz que quando a gente morre não é o fim, porque o espírito não morre nunca e a gente recomeça a vida em outro lugar que, muitas vezes, é muito melhor que aqui.
- Isso tudo é conversa.
Ninguém voltou para dizer se é verdade mesmo!
A única coisa que sei é que minha mãe foi embora, que estou sozinha e nunca precisei tanto dela como agora!
Não é justo nem certo!
- Quem somos nós para julgarmos o que é justo e certo, Telma?
Muitas vezes não entendemos o que acontece na vida.
Olhe, o nosso ponto está chegando.
Telma olhou pela janela do ônibus e viu que realmente o ponto do ônibus onde deveria descer estava chegando.
Levantou-se e, acompanhada por Rafael, desceu e caminharam juntos.
Rafael morava na casa que ficava do lado esquerdo da casa de Telma, e Laurinha morava na do lado direito.
Chegaram a seus portões e Rafael disse:
- Boa noite, Telma.
Espero que reflicta sobre o que te falei e fique bem.
Nunca se esqueça que Deus é nosso Pai e nos ama muito, por isso nunca nos deixa abandonados e sempre nos envia uma ajuda, venha ela de onde vier.
- Boa noite, Rafael, e, apesar de eu não conseguir acreditar em tudo que me disse, agradeço por sua atenção.
Cada um abriu seu portão e entraram.
Enquanto andava em direcção à porta da casa, percebeu que tudo parecia estar bem, aliviada, pensou:
Ainda bem que meu pai não está mais violento...
Parece outro homem.
Por que será que ele agia daquela forma quando minha mãe estava viva?
Entrou em casa e viu que realmente tudo estava bem.
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Ave sem Ninho

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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 11, 2017 7:45 pm

As crianças brincavam no chão da sala, tentando montar um quebra-cabeça, e o pai, sentado em uma das cadeiras na mesa da sala, lia o jornal.
Assim que as crianças a viram, correram para ela, e Marquinhos disse:
- Olha Telma!
O papai trouxe este quebra-cabeça!
É muito difícil, mas eu e a Sueli vamos conseguir montar, você vai ver!
- Sei que vão conseguir - disse, abraçando os dois.
Em seguida olhou para o pai, que falou:
- Chegou cedo, Telma.
Hoje não teve aula?
- Teve, sim, papai, mas eu não estava me sentindo bem e resolvi vir para casa.
- O que está sentindo?
- Só um pouco de dor de cabeça, mas vou tomar um comprimido e logo vai passar.
- Acho melhor você ir ao médico, não quero que aconteça com você o mesmo que aconteceu com sua mãe.
Sabe que ela morreu porque não se cuidou.
- Não preciso ir ao médico, logo vai passar e amanhã vou estar bem.
- Está bem, mas não se descuide.
Se quiser, pode comer, terminei de fazer a comida agora há pouco.
As crianças já comeram.
- Vou comer mais tarde, agora não estou com fome.
Dizendo isso, afastou-se e entrou em seu quarto.
Realmente não conseguia entender e muito menos acreditar na mudança do pai.
Deitou-se pensando:
Gostaria muito de acreditar que ele mudou mesmo, mas sei que, a qualquer momento, ele vai se irritar por qualquer coisa e vai bater em mim e nas crianças.
Se eu tivesse certeza que ele mudou realmente, poderia contar sobre a criança que estou esperando, mas não posso... sei que seria um motivo para que ele se irritasse, me batesse e até me colocar para fora de casa.
Talvez eu até encontrasse um lugar para ficar, mas teria de abandonar as crianças e isso não posso fazer.
Sei que, se ele se descobrir e me expulsar de casa, não vou poder fazer muito, mas sei que preciso estar aqui ao lado das crianças...
Que vou fazer?
Como Plínio pôde agir daquela maneira, inventar aquelas coisas horríveis sobre mim e o doutor?
Ele não vale nada, mesmo!
Bem feito para mim, eu sabia que ele não prestava e me deixei iludir outra vez!
Antes foi ruim, mas não teve maiores consequências, diferente de agora, que estou com essa criança dentro de mim e não vou poder deixá-la nascer.
Não tenho com quem conversar, se minha mãe estivesse aqui, ela encontraria uma maneira de me ajudar, mas não está.
Acho que vou conversar com a Marieta.
Ela é mais velha, sabe o que está acontecendo e vai poder me ajudar.
É a única que pode fazer isso.
Mamãe, como gostaria de falar com a senhora, nem que fosse para lhe pedir perdão por todas as palavras ruins que lhe disse... mas agora é tarde, nunca mais vou poder fazer isso e estou sofrendo muito de remorso.
Perdão, mamãe, perdão...
Chorou baixinho por muito tempo.
Telma ouviu quando seu pai entrou no quarto e fechou a porta.
Chorou por mais algum tempo, depois adormeceu.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 11, 2017 7:46 pm

ENCONTRANDO UM CAMINHO
No dia seguinte, quando levantou, encontrou a mesa do café colocada.
Seu pai, antes de sair para o trabalho, comprou pão, ferveu o leite e coou o café.
Ele fazia isso desde a morte de Sara.
Mas, mesmo assim, Telma ainda não conseguia acreditar...
Será que ele mudou mesmo? Tomara!
Começou a arrumar a casa.
Precisava lavar as roupas e preparar o almoço.
As crianças acordaram logo depois.
Telma lhes serviu o café e continuou com seu trabalho.
Depois de tudo arrumado, saiu e foi até a casa de Laurinha.
Bateu e entrou.
Laurinha estava terminando de arrumar a casa.
- Bom dia, dona Laurinha.
- Bom dia, Telma, aconteceu alguma coisa com as crianças?
- Não, elas estão bem, só que hoje preciso pedir outro favor para a senhora.
Sei que já faz muito, mas preciso ir para o escritório.
É só hoje, prometo.
Tenho que estar lá na hora do almoço.
Preciso muito conversar com uma colega e isso só pode ser feito enquanto ela estiver almoçando.
Será que a senhora poderia dar a comida para as crianças, fazer elas tomarem banho e vestirem o uniforme?
A comida está pronta, em cima do fogão.
- Não se preocupe, farei isso.
Sabe o quanto gosto das crianças.
- Obrigada, dona Laurinha, a senhora não sabe como está ajudando a gente.
Nem sei como agradecer.
A Sueli já está com onze anos, me ajuda muito, mas tenho medo que ela mexa no fogão e se queime, é perigoso.
- Não precisa agradecer, faço porque quero e porque gosto muito de vocês.
Pode ir tranquila.
Cuidarei para que estejam prontos na hora de irem para a escola.
Telma sorriu e foi para o escritório.
Tinha pressa em chegar, pois precisava conversar com Marieta e ver se ela a ajudava a se livrar daquele problema.
Assim que chegou, foi até o refeitório, onde sabia que Marieta estava almoçando, e se aproximou.
Marieta, assim que a viu, se espantou:
- Que aconteceu, Telma?
- Porque está tão espantada?
- Você só chega depois do almoço.
Que está fazendo aqui há esta hora?
- Sei disso, mas estou desesperada e acho que você é a única pessoa que pode me ajudar.
- Que aconteceu? Está muito agitada!
Fale devagar, não estou entendendo!
- Precisamos conversar só que não pode ser aqui, nem agora.
Será que podemos conversar assim que você terminar de almoçar?
- Claro que sim, mas você não tem que dar almoço para as crianças?
- Hoje, não.
Conversei com minha vizinha e ela vai dar o almoço e preparar as crianças para irem à escola.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 11, 2017 7:47 pm

Estou apavorada e precisando muito da sua ajuda, Marieta.
- Está bem, estou terminando de almoçar e depois vamos sair para conversar.
- Enquanto isso vou para minha sala, não quero te apressar.
Coma devagar.
Telma foi para sua sala, mas não conseguia esquecer o rosto de Plínio quando lhe contou que estava grávida.
Nunca imaginou que a reacção dele seria aquela.
Fazendo força para não chorar, pensava:
Ele dizia que me amava...
Como pude ser tão burra?
Assim que Marieta terminou de almoçar, foi até a sala de Telma e saíram rapidamente.
Já na rua, Marieta perguntou aflita:
- Que aconteceu, Telma?
Porque todo esse mistério?
Telma tirou da bolsa o papel que continha o resultado do exame e deu para ela, que leu e perguntou:
- Você está grávida mesmo, Telma?
- Estou sim e isso é um horror.
Não sei o que fazer.
Preciso me livrar dessa criança e não tenho com quem conversar ou contar.
Será que você pode me ajudar?
- Quero ajudar, mas não sei como.
- Você não conhece alguém ou algum lugar onde eu possa ir para tirar essa criança?
- Espere um pouco, Telma.
As coisas não podem ser assim.
Você está falando em tirar uma vida...
- Que vida, Marieta?
Está bem no começo, ainda não está nem formado!
Não posso ter essa criança!
- Está no começo, mas já é uma vida, Telma!
Acho que deve pensar muito bem antes de tomar uma decisão como essa...
- Não tenho tempo para pensar.
Não posso ter essa criança! Não agora!
- Por que não?
- Sabe que estou estudando e que meu sonho é me formar.
Se essa criança nascer, não vou ter como continuar trabalhando e estudando.
Minha mãe morreu, meu pai é violento e, se souber que estou grávida, além de me bater, vai me colocar para fora de casa e eu não tenho para onde ir.
Além do mais, mesmo que tivesse, não posso abandonar meus irmãos que ainda são pequenos.
- Sei que tem muitos motivos, mas, por experiência própria, acho que deve pensar muito bem.
- Como... Experiência própria...
Você já fez isso?
- Sim, e nunca contei isso a ninguém, mas acho que devo contar a você.
Tirei uma criança e me arrependo muito.
Se minha criança tivesse nascido, hoje estaria com seis anos.
O que mais me dói é não saber se seria menina ou menino.
Não consigo esquecer.
Agora que estou namorando e vou me casar, tenho muito medo de não poder ter filhos.
- Onde está o pai da criança?
- Quando soube que eu estava grávida, me abandonou e, assim como você, não tive coragem de contar para meus pais.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 11, 2017 7:52 pm

Mas, Telma, não faça isso!
Se Deus te mandou essa criança, agora, é porque sabe que você vai ter condições de criar...
- Que Deus, Marieta?
O mesmo Deus que me fez nascer pobre, com um pai violento e que sempre maltratou minha mãe e bateu nela?
Não contente com isso, esse Deus a matou!
Se ele não quisesse que eu tirasse essa criança, não teria me mandado essa gravidez agora, e esperaria eu me casar, para meu filho ter um pai!
Não posso acreditar que realmente exista um Deus, Marieta!
Também, mesmo que existir, não posso me preocupar com Ele!
Já que você é contra, não quero te envolver mais do que o necessário.
Poderia me dar o endereço de onde foi, para que eu possa ir também...
- Parece que está mesmo decidida.
Sendo assim, vou te dar o endereço, pois sei que lá será bem atendida.
Só que custa muito caro, você tem dinheiro?
- Tenho, aquele safado me deu dinheiro para eu me livrar da criança e ele ficar com a consciência tranquila.
Engraçado, eu, só eu, sou responsável por essa criança? E ele?
Sei que talvez, como você disse, vá me arrepender e sofrer por essa atitude que estou tomando agora, mas e ele... não é responsável também?
- Perante os homens, infelizmente, ele não será responsabilizado, mas, perante Deus, acho que terá de responder.
Você tem razão, mas a mulher é mais responsabilizada, porque costuma ser dela a decisão de deixar uma criança nascer ou não.
- Não posso ser responsabilizada!
Se esta criança tivesse vindo quando eu tivesse um marido, vivesse uma vida normal como tantos casais que existem por aí, não teria problema algum, mas, da maneira como estou hoje, será impossível deixar que nasça.
Não tenho opção, vou mesmo ter que tirar essa criança.
- Está bem, fiz o que foi possível para que desistisse.
Como não consegui, vou escrever o endereço neste papel.
Vá até lá e converse com a dona Maria das Dores.
Telma pegou o papel e entraram novamente no escritório.
A hora do almoço estava terminando.
Precisavam voltar ao trabalho.
Quando terminou o expediente, ela saiu rapidamente.
Com o papel na mão foi até o ponto de ônibus.
Esperou por algum tempo e viu chegando o ônibus que precisava tomar.
Com o braço deu o sinal e, assim que ele parou, entrou.
Perguntou ao motorista onde ficava a rua que estava procurando.
Ele disse que avisaria.
Ela se sentou perto dele e ficou aguardando.
Mais ou menos meia hora depois, ele disse:
- Moça, a rua que está procurando fica perto do próximo ponto.
Pode descer e perguntar, todo mundo conhece.
Ela sorriu e, assim que o ônibus parou, desceu.
Perguntou em um bar onde ficava a rua.
Um senhor lhe mostrou.
Ela foi para lá e, olhando o número no papel, encontrou a casa.
Parou em frente ao portão e ficou olhando.
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