NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 11, 2017 7:53 pm

Sentiu uma enorme vontade de ir embora, mas resistiu e tocou a campainha.
Uma senhora aparentando cinquenta anos saiu de uma porta e, ao vê-la, perguntou:
- Pois não?
- Uma amiga me deu o seu endereço e disse que a senhora pode me ajudar.
- Qual é o nome da sua amiga?
- Marieta, ela esteve aqui há alguns anos e disse que a senhora a ajudou.
Estou desesperada e preciso muito da sua ajuda.
- Está bem, pode entrar.
O portão não está trancado.
Telma abriu o portão, entrou e caminhou até a porta da casa onde a senhora a esperava.
Assim que chegou, entrou na sala e sentou-se em uma cadeira que a senhora lhe mostrou.
Ela estava muito nervosa e sentia que não queria estar naquele lugar, que lhe pareceu assustador, mas ficou firme.
A senhora, sorrindo, perguntou:
- Bem, já que está aqui é porque tomou uma decisão, mas preciso perguntar.
Tem certeza que quer fazer isso, mesmo?
- Não queria, mas sou obrigada.
Agora, não posso ter uma criança.
- Por que não?
- Minha vida está muito complicada.
Estou estudando, trabalhando, minha mãe morreu e meu pai é muito violento.
Tenho dois irmãos que dependem de mim para defendê-los das agressões do meu pai.
Se meu pai souber que estou esperando uma criança, vai ficar furioso, me bater e me colocar para fora de casa.
Não tenho para onde ir, e meus irmãos ficariam sozinhos com ele...
E isso eu não quero... - Telma disse, chorando muito.
- Parece que está, mesmo, em uma situação complicada.
Mas tem certeza que quer fazer isso?
Preciso lhe dizer que é o meu trabalho.
Muitas moças assim como você passaram por aqui.
Algumas delas não sentiram nada e até voltaram outras vezes, mas outras não conseguiram esquecer e sofrem muito a cada ano que passa.
Elas sentem remorso por ter tirado uma vida.
- Sei que não vou sentir remorso, porque não tenho outra coisa para fazer.
A culpa não é minha, é do homem que me fez isso.
Ele se aproveitou e, na hora de assumir, me abandonou.
Esse é o único caminho que tenho para seguir.
- Sendo assim, vou te ajudar, mas sabe que tem um preço.
- Sei, Marieta me avisou e eu trouxe o dinheiro.
Pode ser agora?
- Não, disse que trabalha e estuda.
Depois que eu te ajudar, vai sentir alguma dor e precisa de repouso ao menos por dois dias.
Hoje é terça-feira.
Se fizermos hoje, não poderá trabalhar nem ir à escola.
Por isso acho melhor que venha na sexta-feira, nesta mesma hora.
Assim terá o fim de semana para se recuperar.
Está bem assim?
- Preferia que fosse agora, mas tem razão, não posso faltar ao trabalho nem à escola.
Volto na sexta-feira, nesta mesma hora.
- Está marcado.
Estarei te esperando, assim terá mais alguns dias para pensar.
- Eu não tenho opção, preciso fazer isso.
Estarei aqui. Boa noite.
Telma saiu dali, não sabia por que, mas sentia o coração apertado.
Ao seu lado caminhava aquela entidade que esteve ao seu lado e dos irmãos durante o tempo todo.
Foi para casa.
Quando chegou, tudo parecia bem, seu pai já havia dado o jantar para as crianças.
Elas continuavam sentadas no chão da sala, montando o quebra-cabeça, enquanto ele lia o jornal.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 11, 2017 7:54 pm

DECISÃO TOMADA
No dia seguinte preparou tudo como sempre fazia e foi para o escritório.
Contou para Marieta como havia sido sua visita à dona Maria das Dores e terminou dizendo:
- Está tudo certo.
Na sexta-feira, quando sair do escritório, vou para lá, e assim poderei ficar em casa todo o fim de semana me recuperando.
Só estou com um problema, Marieta.
- Que problema, Telma?
- Estou com medo de ir sozinha.
Sei que é pedir muito, mas não dá para você ir comigo?
- Está certa que é isso mesmo que quer fazer?
- Estou, sabe que não tem outra solução.
- Ela te disse dos riscos que está correndo, sabe que pode ser perigoso?
- Ela disse tudo, sei dos riscos, mas é a única coisa que posso fazer.
Não posso ter essa criança, Marieta.
Se pudesse, não estaria pensando nisso!
- Está bem, sendo assim, vou com você.
Ainda faltam alguns dias, quem sabe aconteça alguma coisa que faça com que mude de ideia.
- Nada vai acontecer e muito obrigada por ir comigo.
Os dias passaram e Telma não sabia, mas não ficou sozinha nem por um minuto.
A entidade, que se apresentava como uma senhora ficou ao seu lado o tempo todo e lhe dizia baixinho no ouvido:
Não faça isso, minha filha.
Você prometeu.
Germano está tentando renascer, você sabe como ele precisa disso e, se não permitir, continuará levando com você, por mais uma encarnação, a culpa de só tê-lo prejudicado.
Ele te ama e sempre te amou e precisa muito renascer.
A vida dele está em suas mãos.
Nesses momentos, Telma sentia-se mal.
Sabia que era muito cedo, que a criança estava ainda muito pequena, mas parecia sentir o movimento dela em sua barriga.
Por várias vezes pensou em desistir, mas logo o pensamento de seu pai violento e da morte de sua mãe fazia com que voltasse a pensar firmemente.
Não posso mudar de ideia.
Se fosse em outra situação, se tivesse um marido, sei que estaria muito feliz com a vinda dessa criança, mas, na situação em que estou, não tem como.
Essa é a única solução.
A sexta-feira chegou.
Na noite anterior não conseguiu dormir.
Estava ansiosa e muito nervosa.
Acordou muitas vezes e pensou:
Tomara que chegue logo a hora.
Preciso ficar livre para poder continuar a minha vida sem problemas.
Não posso abandonar meus sonhos.
Tenho que terminar meus estudos para poder ganhar mais e tirar meus irmãos desta casa.
Meu pai está bem, nunca mais brigou ou ficou nervoso, mas sei que é por pouco tempo, que a qualquer momento voltará a brigar e baterá em todos nós.
Foi para o escritório e, na medida do possível, conseguiu trabalhar, mas não se esquecia do que ia fazer.
Quando faltavam dez minutos para o término do expediente, foi até a sala de Marieta que, assim como ela, estava muito nervosa.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 11, 2017 7:54 pm

Assim que entrou, Telma perguntou:
- Você vai comigo, não vai, Marieta?
- Para ser sincera, não gostaria, mas, como te prometi, vou sim, embora saiba que você vai se arrepender dessa sua decisão, Telma.
- Obrigada por me acompanhar, Marieta.
Não vou me arrepender, porque não existe outra opção.
- Está bem, assim que terminar o expediente nós vamos.
Assim foi feito.
Foram para o ponto do ônibus.
Quando chegaram, Maria das Dores já estava esperando por Telma.
Ao ver Marieta, perguntou, sorrindo:
- Como vai Marieta?
Faz tempo que esteve aqui.
Está tudo bem com você?
- Sim, embora eu não consiga me esquecer do dia em que estive aqui.
Esse pensamento me acompanha em todos os momentos da minha vida.
- Sei que é assim com quase todas as mulheres que vêm aqui.
Mas, se pensar bem e voltar no tempo, vai ver que, na época, não havia outra solução.
- Talvez a senhora tenha razão, mas, mesmo assim, não consigo esquecer.
Minha criança teria, hoje, seis anos...
- Com o tempo vai esquecer.
Assim que tiver outros filhos, não se lembrará desse que não nasceu.
Agora você, moça, está mesmo disposta?
Está vendo, pela Marieta, que poderá se arrepender.
Por isso, pense bem, estou aqui para te ajudar, não para complicar sua vida - disse, voltando-se para Telma.
- Estou certa do que quero dona Maria das Dores.
Sei que não vou me arrepender, porque não tenho, mesmo, outra solução.
Não posso ter essa criança, não agora.
- Sabe que essa é a minha profissão.
Trouxe o dinheiro?
- Sim, está aqui.
Telma tirou da bolsa um maço de notas e entregou para ela que, depois de contar, guardou no bolso do avental que estava usando e disse:
- Sendo assim, vamos lá para o meu consultório.
Caminhou na frente e foi acompanhada por elas.
Entraram em um quarto que existia nos fundos do quintal.
Telma olhou e percebeu que tudo parecia muito limpo.
No centro do quarto, havia uma maca forrada com lençóis brancos e, ao seu lado, alguns instrumentos que Telma não tinha a mínima ideia para que servissem.
Maria das Dores disse:
- Pode se deitar nesta maca...
E fique calma, não vai sentir dor.
Quando sair daqui, vai estar livre do seu problema.
Telma obedeceu.
Em uma última tentativa, o vulto da senhora que a acompanhava falou:
Telma, ainda está em tempo.
Essa sua atitude vai trazer muito sofrimento, não só para você, mas principalmente para Germano.
Você prometeu...
Telma, por um momento, sentiu que não podia fazer aquilo, mas a imagem do pai violento, e a de ter que abandonar seus sonhos, fez com que ficasse calada.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 11, 2017 7:54 pm

Deitou-se, fechou os olhos e esperou.
A entidade, que agora estava acompanhada por outra mais jovem, percebendo que nada mais poderia ser feito para evitar que Telma fosse até o fim, fez um sinal com a mão e as duas colocaram-se uma de cada lado de Telma e começaram a jogar muita luz branca sobre a criança, que se debatia, tentando evitar ser atingida por aquele aparelho que não sabia o que era.
Com as luzes, aos poucos, ela foi se acalmando e adormeceu.
Alguns minutos depois, a senhora, carinhosamente, recebeu seu espírito que se desprendeu do corpo de Telma.
Com a criança nos braços, foram embora.
Nada mais poderiam fazer.
Telma havia tomado a decisão e sabiam que ela podia fazer isso, tinha seu livre-arbítrio.
Quando tudo estava terminado, Maria das Dores, disse:
- Está feito.
Agora vá para casa, tome esse remédio e se deite.
Procure não fazer esforço e, na segunda-feira, vai estar bem e poderá ir trabalhar.
Procure esquecer o que aconteceu hoje.
É muito jovem e tem a vida toda pela frente.
Sentindo um pouco de dor e com dificuldade, Telma desceu da maca.
Acompanhada por Marieta, saiu dali.
Estava triste, sentia um vazio muito grande.
Marieta entendeu aquele momento da amiga e ficou calada.
Telma chegou em casa na hora de costume, por já ser tarde, as crianças e seu pai estavam dormindo.
Foi para seu quarto, subiu com dificuldade no beliche, deitou-se e tentou dormir, mas não conseguiu.
Sentia dor e um aperto no coração que não sabia explicar.
Por várias vezes se virou na cama, até que, finalmente, adormeceu.
Sonhou que estava em um lugar onde havia muitas crianças.
Aproximou-se lentamente e viu que todas choravam muito.
Tentou pegar uma em seu colo, mas a criança fugiu chorando.
Acordou com o corpo todo molhado.
Olhou para a janela e viu que já era dia.
A casa estava em silêncio, as crianças ainda dormiam.
Tentou se levantar, mas não conseguiu, sentiu uma dor muito forte.
Levantou as cobertas e viu, apavorada, que a cama estava toda ensanguentada.
Assustada, mais uma vez tentou se levantar para descer do beliche, mas sentiu tontura e foi obrigada a se deitar novamente.
A dor era muito forte.
Com dificuldade, chamou bem alto:
- Sueli, Sueli! Acorde!
A menina acordou assustada, esfregando as mãos nos olhos.
Olhando para cima, pôs a cabeça para fora da cama e, não vendo o rosto da irmã, perguntou:
- Que foi Telma?
- Vai chamar o papai... - Telma respondeu, quase sem forças para falar.
A menina, percebendo que alguma coisa ruim estava acontecendo, saiu correndo e, nervosa, voltou logo em seguida, dizendo:
- O papai não está em casa, Telma.
Acho que ele já saiu para trabalhar.
Telma, sentindo muita dor e assustada, quase gritou:
- Vai chamar a dona Laurinha.
Peça para ela vir depressa!
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 11, 2017 7:55 pm

A menina, muito assustada, saiu correndo e voltou depois de alguns minutos acompanhada por Laurinha que, assim que entrou no quarto e viu Telma deitada e muito pálida, perguntou:
- Que aconteceu, Telma?
- Estou passando muito mal, dona Laurinha.
Acho que preciso ir para o hospital... - Telma respondeu quase sem voz.
- Vou te ajudar a descer daí.
Sueli vá até a casa do Rui e vê se o táxi dele está lá.
Se estiver, peça para ele esperar e vem me dizer.
A menina, tremendo muito, saiu correndo.
Laurinha, adivinhando o que havia acontecido, perguntou:
- Quando fez isso, Telma?
- Ontem à noite, mas não pensei que seria assim.
Estou com muita dor e perdendo muito sangue.
Acho que vou morrer dona Laurinha.
- Precisamos ir depressa para o hospital.
Tomara que cheguemos a tempo.
- Por que fui fazer isso, dona Laurinha?
Não pensei que fosse assim!
Estou com muito medo!
Não quero morrer!
- Agora não podemos conversar.
Você precisa trocar de roupa.
Ainda é muito cedo e o Rui não deve ter saído para trabalhar.
Ainda bem que é nosso vizinho.
Assim que ele chegar aqui, vamos para o hospital, e é bom rezar para chegarmos a tempo.
Telma estava quase desmaiando.
Com muita dificuldade, Laurinha conseguiu tirar seu pijama e colocar um vestido que pegou no guarda-roupa.
Sueli voltou, acompanhada por Rui, que, ao ver Telma naquele estado, também se assustou, mas ficou calado Laurinha, disse:
- Rui me ajude, ela precisa ir para o hospital.
Ele, calado, vendo que Telma não conseguiria andar, pegou-a nos braços e a carregou até o carro.
Depois de acomodá-la, saíram rapidamente.
Antes de saírem, Laurinha olhou para Sueli, que chorava muito, e disse:
- Sueli, não precisa ficar nervosa.
Ela vai ficar bem, cuide do seu irmão.
Sueli, ainda chorando assustada, respondeu:
- Está bem, mas eu queria ir também...
- Sabe que hospital não é lugar para criança, além do mais, seu pai não está em casa e você precisa cuidar do Marquinhos.
Ainda bem que ele não acordou.
Depois que formos embora, vá até a minha casa, acorde o João, diga para ele que Telma teve de ir com urgência para o hospital e peça que ele vá até a marcenaria para avisar seu pai.
- Está bem, dona Laurinha.
O carro saiu rapidamente.
Assim que chegou à emergência do hospital, Telma foi levada em uma maca para dentro e logo foi atendida.
Embora não quisesse e sentisse vergonha, não teve como esconder e teve que dizer a verdade.
O médico e a enfermeira ficaram calados.
Depois de examiná-la, ele disse:
- Entre hoje e amanhã, vamos tentar estancar a hemorragia com medicamentos e, depois, preciso fazer uma curetagem.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 11, 2017 7:55 pm

Vou mandar aplicar uma injecção para acalmar a dor que está sentindo.
- O que é curetagem, doutor?
- É uma espécie de cirurgia.
É preciso que seja feita uma limpeza e a isso se dá o nome de curetagem.
Depois disso, será necessário ficar aqui por mais alguns dias.
- Não posso ficar internada, doutor.
Preciso cuidar dos meus irmãos, tenho escola e trabalho.
- Sinto muito, mas devia ter pensado nisso antes de tomar uma decisão dessas.
Não existe outra maneira, é preciso ficar internada.
E tomara que consigamos estancar a hemorragia e que não tenha complicações - o médico disse com a voz firme e, parecendo nervoso, retirou-se.
Telma baixou os olhos.
Sentia vergonha por estar ali e naquela situação.
Seu ódio por Plínio aumentou e pensou:
Não é justo eu estar passando por tudo isso enquanto ele está tranquilo, sem ser responsabilizado por nada!
Tive culpa, sim, mas ele também teve!
Laurinha, que esteve o tempo todo ao lado de Telma, assim que o médico saiu, disse:
- Bem, Telma, agora que está entregue nas mãos do médico e vai ser internada, não tenho mais nada para fazer aqui.
Vou embora e, na hora da visita, volto para ver como você está.
- Obrigada, dona Laurinha, depois que a minha mãe morreu, a senhora tem me ajudado muito e sido uma óptima amiga.
Só preciso pedir mais uma coisa.
Por favor, aí na minha bolsa tem um cartão com o telefone do meu trabalho.
Hoje é sábado, mas, pelo o que o doutor disse, vou ficar internada por alguns dias.
Por favor, telefone para o escritório e avise que estou internada, mas não diga o motivo, não quero que meus colegas de trabalho saibam, muito menos o doutor, sei que ele ficaria decepcionado e isso eu não quero.
Meu pai também não pode saber o que aconteceu.
A senhora o conhece e sabe como é violento.
Se ele souber, vai me matar, dona Laurinha...
- Não tem o que agradecer e, se estou tentando te ajudar, é porque gosto muito de você e de seus irmãos, pena que você não conversou comigo antes de fazer uma loucura como essa, mas agora está feito e não há como corrigir.
Não se preocupe, na segunda-feira, vou telefonar para o escritório e não vou contar ao seu pai.
Ele só ficará sabendo se o médico contar.
Que Deus te abençoe.
Agora preciso ir embora, até mais tarde.
- Até mais tarde, dona Laurinha, e obrigada mais uma vez.
Laurinha foi embora com o coração apertado.
Já na rua e depois de entrar no táxi de Rui, pensou:
Não tenho o que fazer a não ser enviar muita luz para essa criança que não conseguiu nascer e pedir, de coração, que ela perdoe a Telma, porque ela não tem noção do que acabou de fazer.
Laurinha chegou em casa.
Estava descendo do táxi quando viu o pai de Telma chegando.
Ele parecia tranquilo e, assim que a viu, disse:
- Bom dia, dona Laurinha, saindo logo cedo?
- Bom dia, seu Sílvio, o senhor não foi para a mercearia?
- Não, mas por que está perguntando isso?
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 11, 2017 7:55 pm

- A Telma passou mal e fui levá-la ao hospital.
Ela ficou internada.
- Internada?! Que aconteceu?
- Não sei, ela precisou ser internada, a hora da visita vai ser às três horas da tarde.
- Não posso esperar até a hora da visita, vou para lá agora mesmo! - ele disse desesperado.
- Não adianta o senhor ir lá, eles não deixarão vê-la.
- Como ela está?
- Agora está bem, mas parece que vai ter que ser operada.
- Operada? Que aconteceu com aquela menina?
Será que é apendicite?
Só pode ser, só apendicite surge de repente, do nada...
- Pode ser, não sei.
Suas crianças devem estar lá em casa.
Vou entrar e avisar que o senhor chegou.
Laurinha entrou em casa, Sílvio ficou esperando pelos filhos.
Logo depois, Sueli e Marquinhos chegaram.
Sílvio percebeu que eles estavam assustados e tentavam disfarçar o nervosismo, perguntou:
- Vocês estão bem?
- Estamos papai, mas o senhor não foi trabalhar?
O seu João foi até a marcenaria para avisar o que tinha acontecido com a Telma, mas o senhor não estava lá.
- Tive que ver outro negócio, mas o que aconteceu com a Telma?
Sueli contou tudo que havia acontecido.
Sílvio ficou intrigado quando ela lhe disse que a cama estava suja com muito sangue, mas pegou as crianças pela mão e entrou em casa.
Precisava preparar o almoço e, depois, ir para o hospital.
Só mesmo quando encontrasse com Telma poderia saber o que realmente havia acontecido.
Na hora da visita e antes de entrar no quarto em que Telma estava, Sílvio foi informado que o médico queria falar com ele.
Entrou no consultório e o médico lhe contou o que Telma havia feito e a gravidade de sua situação.
Sílvio ficou desesperado e, chorando, disse:
- Não poder ser, doutor.
Ela é ainda uma menina, como pôde lazer isso?
Por que ela não me contou antes de fazer uma coisa como essa?
- Não sei, quem pode responder é o senhor.
Mas ela fez e, agora, precisamos tentar fazer todo o possível para conseguirmos estancar a hemorragia.
Desde a hora em que chegou está sendo medicada, mas a hemorragia, embora tenha diminuído, não estancou.
Vou mandar prepará-la para poder ser operada amanhã pela manhã.
- Vai ser mesmo preciso?
- Sim, e preciso que o senhor assine um documento autorizando a cirurgia.
Por isso mandei chamá-lo.
- Está bem, doutor. Vou assinar.
Agora posso ver minha filha?
- Pode, sim, mas, por favor, não a deixe nervosa.
Ela perdeu e ainda está perdendo muito sangue, está muito fraca, por isso precisa ficar em paz para a cirurgia.
Se tiver que falar com ela, deixe para quando voltar para casa e estiver fora de perigo.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 11, 2017 7:56 pm

- Está bem, doutor, e obrigado.
Sílvio saiu do consultório e foi para o quarto onde Telma estava.
No quarto havia mais quatro senhoras.
Ele, impressionado com a palidez do rosto de Telma, se aproximou, perguntando:
- Como você está Telma?
- Estou muito fraca, papai, e com muito medo.
O médico disse que vai me operar.
- Não precisa ficar com medo, ele me garantiu que você vai ficar boa e que logo vai voltar para casa.
- A Sueli ficou muito assustada. Ela está bem?
- Está sim, a dona Laurinha conversou com ela.
Só ficou triste porque não pôde vir comigo.
Foi um custo convencer que ela não podia entrar.
- Obrigada por vir, papai.
Pensei que o senhor não ia vir.
- Como pôde pensar isso?
Sou seu pai e gosto muito de você.
Talvez eu não saiba demonstrar, mas você é minha filha...
Telma começou a chorar.
Aquele homem que estava ali não lembrava nem de longe o homem que ela havia conhecido desde criança, mas ficou calada e somente sorriu.
Sílvio ficou ali por meia hora, depois beijou Telma na testa e foi embora.
Assim que ele saiu, Telma pensou:
Esse não é o homem que conheci como meu pai.
Ele está mudado, mesmo!
Que bom que é para melhor.
Esse, sim, foi sempre o pai que sonhei em ter.
Por que só depois que mamãe morreu, ele mudou assim?
Será que ele está com remorso por ter tratado ela tão mal?
Parece que ele não sabe por que estou aqui.
Dona Laurinha cumpriu a promessa e não contou...
Estava pensando e nem percebeu que uma enfermeira entrou no quarto, aplicou-lhe uma injecção e saiu.
Em poucos minutos, ela estava dormindo.
Telma ficou internada por três dias.
No dia em que o médico lhe deu alta, disse:
- Estou te dando alta, você está bem e poderá voltar às suas actividades normais.
Antes de ir embora, por favor, passe no meu consultório, precisamos conversar.
Telma, embora estivesse se sentindo bem, sentia um pouco de fraqueza, mas estava feliz por poder voltar para casa e para sua vida.
Pegou tudo que era seu, sabia que, na hora da visita, seu pai ou Laurinha viriam e a levariam para casa.
Meia hora antes foi até o consultório do médico.
Ele era um senhor com mais ou menos cinquenta anos que, ao vê-la parada na porta, pediu que entrasse e sentasse.
Ela entrou e sentou-se.
Ele, com o semblante grave, disse:
- Pedi que viesse até aqui porque precisamos conversar.
Não sei qual foi o motivo que te levou a tomar uma atitude como essa.
Só quero te dizer que é muito jovem e que, graças a Deus, conseguiu ser salva, mas poderia ter morrido ou ter seus órgãos de reprodução comprometidos e talvez nunca mais pudesse ter um filho.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 11, 2017 7:56 pm

Telma arregalou os olhos, não estava entendendo muito bem o que ele dizia.
Ele percebeu e continuou:
- Quem te atendeu cometeu uma agressão que, se não tivesse sido atendida a tempo, poderia ter te levado à morte...
E quase inutilizou teu útero para sempre.
Por enquanto está tudo bem.
A sorte foi muita, pois, a maioria desconhece, muitas mulheres morrem todos os dias no mundo todo por fazerem aborto.
Preste atenção antes de ter envolvimento com um homem conversa com tua mãe, ela poderá te orientar na maneira de prevenir uma gravidez não desejada.
Estou te falando apenas como médico, mas existem outras implicações religiosas.
Não permitir que uma criança nasça isso por si só é um crime.
Estou somente preocupado com o teu futuro e com a tua saúde.
- Minha mãe morreu e nunca conversei com ninguém sobre isso, doutor...
- Sinto muito por tua mãe, mas deve haver alguém com quem possa conversar.
Teu pai, uma amiga...
Não importa, procure se informar e, se acontecer novamente, não toma essa atitude.
Pega este cartão, nele está o endereço do meu consultório e pode me procurar que te atenderei.
Telma ficou sem saber o que dizer, apenas deixou as lágrimas caírem sobre seu rosto.
O médico estendeu a mão e, sorrindo, disse:
- Agora pode ir, espero que seja feliz e que este episódio não seja um empecilho para que possa conseguir realizar todos seus sonhos.
Telma apertou a mão do médico, olhando em seus olhos, como Roberto a havia ensinado, e expressou um breve sorriso.
Levantou-se, saiu do consultório e foi para o quarto, esperar por seu pai, ou Laurinha, que viria buscá-la.
Logo depois, seu pai chegou.
Ficou feliz ao ver que Telma estava com alta e que poderia ir para casa.
Ela se despediu das colegas do quarto e saiu com ele.
Tomaram um ônibus que os levaria até perto de casa.
Durante a ida para casa, ela ficou esperando que ele fosse perguntar a qualquer momento, o que havia acontecido, mas ele ficou calado o tempo todo.
O ônibus parou na esquina da sua casa.
Com dificuldade, ela desceu.
Sueli e Marquinhos estavam no portão da casa com outras crianças.
Assim que viram Telma e o pai, correram para encontrá-los.
Telma sorriu ao vê-los e, após abraçá-los, entrou em casa.
Por detrás do muro, ouviu a voz de Laurinha:
- Olá, Telma, que bom que voltou para casa!
- Olá, dona Laurinha!
Que bom mesmo e, mais uma vez, obrigada!
Continuou andando e, quando estava chegando à porta da sala, ela se abriu e apareceu uma senhora que, ao vê-la, disse sorrindo:
- Olá, Telma, que bom que está bem e que voltou para casa.
Telma estranhou aquela mulher que falava com ela como se já a conhecesse.
Intrigada, olhou para o pai, que disse:
- Vamos entrar Telma, precisamos conversar.
Ela, intrigada, entrou.
Sueli disse:
- Essa é a dona Dirce, Telma.
Está morando aqui.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 11, 2017 7:56 pm

O papai disse que ela é quem vai cuidar da gente.
Telma, espantada, ouviu o que Sueli disse.
Estava tonta, sem entender o que estava acontecendo em casa.
No chão, um menino com mais ou menos a mesma idade de Marquinhos estava brincando com uns brinquedos de montar.
Ela olhou para o pai, que disse:
- O nome desse menino é Sílvio, ele é meu filho.
Telma não se conteve, sentou-se em uma cadeira que estava junto à mesa de jantar e ficou olhando, ora para o pai, ora para a mulher.
Começou a entender o que acontecia, mas não conseguia acreditar.
Lembrou-se de sua mãe, quando dizia seu pai mudou logo depois que Marquinhos nasceu.
Continuou olhando para todos.
Agora entendia a razão das brigas e de toda a violência, cheia de ódio e raiva, gritou:
- O senhor tem essa criança quase da idade do Marquinhos?
O senhor está com essa mulher durante todo esse tempo?
Sílvio sabia o que ela estava pensando e tentou argumentar.
- Sim, mas isso não prejudicou em nada a nossa família.
- Como não?
O senhor passou esse tempo todo espancando e humilhando minha mãe!
O senhor transformou a nossa vida em um inferno!
- O motivo nunca foi a Dirce ou o Silvinho, sua mãe sempre fez por merecer.
- Ela fez por merecer?
Não! O único erro dela foi ter continuado ao seu lado!
Acha que vou aceitar isso? Pois não vou!
Por isso é que, desde que minha mãe morreu o senhor não brigou mais?
Para poder trazer para a nossa casa essa mulher e esse filho?
- Já está decidido e não vou aceitar que venha querer mandar na minha casa!
Sou seu pai e você tem que respeitar a minha vontade!
Eu ia demorar mais um tempo, mas a sua doença me obrigou a tomar essa atitude.
Com você ausente alguém precisava cuidar da casa e das crianças e, como a qualquer momento a Dirce a o Silvinho teria de vir para cá, resolvi que o momento era este.
Está feito e, se isso aconteceu agora, a culpa é toda sua.
Por que foi tirar o filho que estava esperando?
Por que não assumiu o seu erro?
Telma ouviu aquilo como se fosse uma bofetada.
Pensou que o pai não sabia o motivo de ter sido internada.
Começou a chorar e disse:
- Por sua culpa!
Fiquei com medo da sua reacção!
O senhor sempre foi violento!
O senhor, só o senhor foi culpado do que fiz e, se minha criança não nasceu à culpa é só sua!
Não vou aceitar essa mulher nesta casa!
- Se não aceitar, a porta da rua é serventia da casa!
Pode ir embora agora mesmo!
Vá, vá procurar o homem que te engravidou!
Telma estava furiosa, não conseguia perdoar o pai por ter feito sua mãe, ela e os irmãos sofrerem por causa daquela mulher que, agora, queria ser a dona da casa.
Irritada e nervosa, gritou:
- Pois vou embora mesmo!
Não sei para onde, mas não fico mais nesta casa!
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 12, 2017 9:03 pm

- Não vai embora, Telma, a gente não pode ficar sem você.
Sueli chorava ao dizer isso.
Ela e Marquinhos agarravam-se com força em sua perna.
- Não posso ficar aqui, Sueli.
Não posso aceitar essa mulher!
Ela foi a causadora de todo nosso sofrimento!
- Ela não é ruim, Telma.
Deixou que eu dormisse em sua cama, que agora o Marquinhos e o Silvinho estão dormindo na de baixo.
Faz a nossa comida, cuida da nossa casa e ainda conversa com a gente.
E ela também faz bolo, não é dona Dirce?
Dirce, que durante todo o tempo tinha ficado calada, aproveitou para falar:
- Telma, sei que não me conhece e que a minha presença aqui, sem te avisar, foi uma surpresa desagradável.
Eu não sabia que seu pai espancava sua mãe.
Ele sempre me disse que ela era doente.
Quando descobri que era casado, meu filho já estava para nascer e continuei com ele.
Agora estou repensando a minha vida.
Fique na sua casa, seus irmãos precisam da sua presença e só posso te pedir perdão se, de alguma forma, prejudiquei vocês.
Esta casa é de vocês.
Sou eu quem tem de ir embora.
Telma ouviu aquela mulher e sentiu que estava sendo sincera.
Olhou para o pai e disse:
- A senhora não precisa ir embora.
Foi enganada por esse homem que, para nós, foi sempre um monstro.
Não pode imaginar como tem sido a nossa vida.
Ele só deixou de brigar depois que minha mãe morreu.
Eu não entendia por quê!
Mas agora já sei... ele queria trazer a senhora para cá.
Ele me mandou embora porque, assim como sabia que minha mãe não tinha para onde ir, sabe que também não tenho.
Por enquanto não tenho como me sustentar e não posso abandonar meus irmãos.
Pode ficar aqui.
Vou ficar também, por mais algum tempo, até que encontre um lugar para onde possa ir.
Agora vou sair, preciso pensar...
Saiu da casa e começou a caminhar em direcção ao portão.
Ainda estava um pouco fraca e com dificuldade para andar.
Olhou para o lado em que ficava a casa de Laurinha... ela é a única pessoa que tenho para conversar, sabe tudo que sempre aconteceu na nossa casa, de como ele sempre foi violento e cruel e ela vai poder me dizer o que posso fazer.
Preciso fazer alguma coisa, não posso continuar vivendo nesta casa ao lado dessa mulher que foi a causa de tanto sofrimento.
Ela pode até não ser má, mas eu a odeio, e muito mais ao meu pai.
Por que minha mãe não deixou esta casa e esse homem?
Mãe, por que abandonou a gente?
Queria tanto poder falar com a senhora, para me dizer o que posso fazer...
Quando estava na calçada da rua, resolveu entrar na casa de Laurinha, que estava preparando o lanche da tarde.
Assim que viu Telma, disse sorrindo:
- Entre, Telma, achei que você viria até aqui e estou preparando um lanche.
Sente-se nessa cadeira que já vou servir.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 12, 2017 9:03 pm

- Obrigada, dona Laurinha.
A senhora foi a única amiga que minha mãe teve e sempre esteve ao lado dela em todos os momentos.
Por isso sabe tudo o que aconteceu na nossa vida.
Como posso aceitar essa mulher tomando o lugar da minha mãe, ainda mais sabendo que ela foi o motivo de toda a violência do meu pai?
- Tem razão, eu era amiga da sua mãe e gostava muito dela, mas, agora, ela não está mais aqui e tenho a certeza de que está em um lugar muito bom e torcendo para que você e seus irmãos sigam a vida, sempre juntos, nem que, para isso, você tenha que aceitar essa situação.
- Também penso nos meus irmãos, mas mesmo assim não consigo engolir mais essa atitude do meu pai.
Ele sempre foi um monstro, sempre fez da nossa vida um inferno, enquanto isso, vivia com essa mulher, tinha um filho com ela!
- Telma, não entendemos por que muitas coisas acontecem na nossa vida, mas pode ter certeza de que sempre há um motivo e que, mais cedo ou mais tarde, saberemos que motivo é esse.
- Qual pode ser o motivo de minha mãe ter apanhado de um covarde como ele, de ter morrido e deixado a gente sozinha?
Não existe motivo algum!
- Não posso te dar essa resposta, porque não sei, mas esse motivo existe e nós, talvez, nunca vamos saber, mas, em algum lugar, existe essa resposta.
Deus é nosso Pai e nos ama muito.
Ele nunca nos deixa sozinhos no abandono.
- Sei que a senhora segue essa religião que prega o conformismo, mas não posso aceitar isso!
A vida não é assim!
Existe muita injustiça neste mundo, dona Laurinha!
Não dá para se conformar e simplesmente continuar vivendo!
- Você está enganada.
Não sigo uma religião, mas, sim, uma doutrina e, nela, aprendi que o espírito é livre e, por essa liberdade, não pode ser escravizado.
Aprendi que todos nascemos para ser felizes e que, se isso não acontece, não é por culpa de Deus, mas por nossa mesmo.
O espírito é livre e para isso tem a livre escolha de fazer o que quiser, sem que ninguém possa interferir.
Aprendi também que, assim como temos a liberdade de fazer o que queremos, também temos a responsabilidade de só fazer o bem e perdoar sempre, levando em conta uma das leis maiores de Deus, a acção e reacção.
Por ela, sempre que fizermos mal a alguém, devemos saber que o retorno virá, nesta ou em outra vida.
Deus é um Pai amoroso e está sempre esperando que, um dia, todos nós voltemos, vitoriosos, para a sua casa.
Você pode não acreditar, mas está no lugar em que devia estar e na casa que você mesma escolheu para nascer.
Tudo é, sempre, nossa escolha.
- Tudo o que a senhora disse é muito bonito, mas a realidade não é bem assim.
Nem sempre podemos escolher o melhor para nós.
Às vezes a gente é obrigada a fazer coisas que não gostaria ou a não fazer coisas que gostaria.
Deus nunca me deu muita escolha.
Nasci em uma casa que, além de pobre, também é violenta.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 12, 2017 9:04 pm

Vi minha mãe ser espancada muitas vezes, sem nada poder fazer.
Agora está me dizendo que escolhi essa vida?
Não, dona Laurinha, eu não posso ter feito isso.
Quando tudo parecia correr bem, minha mãe morre e, como a senhora sabe, tive que fazer aquilo que quase custou a minha vida.
Agora volto para casa e descubro que, durante todo o tempo em que fomos maltratados na nossa casa, meu pai tinha outra família.
Como posso acreditar nesse Deus que a senhora está falando?
- Você escolheu, sim, e algum motivo deve ter.
Eu disse que existe a lei da acção e reacção e, por ela, todas as nossas acções, boas ou más, terão sua reacção.
Não sei o que você fez para ter uma vida como essa que está tendo.
Mas teve a oportunidade de renascer e resgatar possíveis erros que tenha praticado em encarnações passadas.
Mas, infelizmente, desta vez, por sua escolha, cometeu uma outra acção que exigirá uma reacção por parte de Deus.
- A senhora sabe que eu não tinha outra opção.
Não podia dizer ao meu pai que estava esperando uma criança, ele não me perdoaria nunca!
- Como você pode ter certeza disso?
Ele comentou com você sobre isso?
- Só hoje, quando briguei por causa daquela mulher.
Eu pensei que ele não sabia.
A senhora contou, dona Laurinha?
- Não, quem contou foi o médico, porque seu pai precisava assinar autorização para poderem te operar.
- Por que ele não comentou antes?
- Ele falou comigo e eu lhe disse que você é muito jovem e não tinha com quem conversar, por isso cometeu essa loucura.
- A senhora pode considerar uma loucura, mas eu não.
Não tinha outra opção.
Além de não poder contar para meu pai, não podia abandonar meu trabalho e minha escola para cuidar de uma criança.
A senhora sabe que meu sonho é receber meu diploma para poder ter um salário melhor e, assim, poder tirar meus irmãos desta casa.
Não matei uma criança.
Estava só no começo, não era ainda uma criança...
- Se não tivesse feito o que fez, o que aconteceria?
Telma pensou por um tempo, depois disse:
- A criança ia nascer...
- Está vendo?
Então... já era uma criança...
- Tem razão, não pensei a esse respeito, mas mesmo assim eu não tinha alternativa, dona Laurinha, não podia ter essa criança agora, não neste momento.
- Fazendo o que fez você deixou de cumprir um compromisso assumido antes de nascer.
- Que compromisso?
- Você deve ter prometido a alguém que o receberia como mãe, dando assim a esse alguém a oportunidade de nascer.
- Se fiz isso, não me lembro, portanto não posso ser culpada!
Se fosse em outras circunstâncias, se tivesse uma casa, um marido, essa criança seria muito bem-vinda, mas na situação em que me encontro isso é impossível!
- Infelizmente as coisas para Deus não são assim.
Você é, sim, responsável... e, se Ele te mandou essa criança agora, é porque sabia que você teria condições de aceitá-la e criá-la, mas agora já foi feito.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 12, 2017 9:04 pm

Você teve sua escolha, praticou uma acção e vai ter que se conformar com a reacção.
- Está dizendo que vou ser castigada?
- Não existe castigo, o que existe é a justiça.
Ela terá de ser feita de alguma maneira.
- Isso que está me dizendo é que não é justo! - Telma respondeu furiosa.
- Por que está dizendo isso, Telma?
- Só tomei essa atitude por causa de um homem que me enganou, iludiu e mentiu!
Não é justo que somente eu tenha de pagar por isso!
Se ele tivesse me aceite, com minha criança, eu não teria motivo para fazer o que fiz!
Ele sim é o maior culpado!
E a senhora vem me dizer que eu vou ter que responder sozinha?
- Não, o compromisso com esse espírito foi feito por vocês dois.
Ele também deixou de cumprir e também terá de responder por isso.
Mas a recusa em cumprir o prometido de um, não libera o outro.
- O que eu poderia ter feito?
- Poderia ter tentado conversar comigo ou com seu pai e, como pode ver, ele agora teria aceitado, pois precisava te contar que sempre teve outra mulher.
- Mas eu não sabia disso!
Só sabia que ele era violento, que não me deixava sair sozinha e muito menos com amigas!
- Bem, Telma, agora não adianta mais, já foi feito.
Você é jovem, tem uma longa vida pela frente.
Terá, com certeza, outra oportunidade para receber esse espírito, não se esqueça que Deus é um pai amoroso e que está sempre disposto a nos perdoar e a nos dar novas oportunidades.
O que precisa fazer agora é encontrar uma solução para o momento em que está vivendo e seguir em frente.
Pense nessa criança com amor e, com sinceridade, peça perdão.
Se for alguém que te amou, com certeza, te perdoará e saberá esperar uma nova chance de renascer para cumprir sua missão.
Se for alguém que foi seu inimigo e a quem você prometeu a vida, será um pouco mais difícil, por isso precisa pedir, sim, muito perdão e prometer que, em uma próxima oportunidade, não se recusará a ser sua mãe.
Precisa também pedir perdão e ajuda para os espíritos amigos, que todos nós temos, para que o convençam a te perdoar.
Eles também estão sempre ao nosso lado, nos ajudando nos bons e maus momentos.
Quando nascemos, alguns ficam lá, torcendo muito por nós e nos ajudando, só não podem interferir no nosso livre-arbítrio, ou melhor, nas nossas escolhas.
Essas são responsabilidades somente nossas.
Toda vida deve sempre ser bem-vinda, Telma, seja de um ser humano, de um animal ou mesmo de uma flor, um fruto, qualquer vegetal.
- A senhora me deixou preocupada.
Não sei se acredito em tudo que disse, mas, se for verdade, sinto que não mereço perdão.
- Diz isso porque não acredita no perdão de Deus e no enorme amor que sente por todos nós.
Deve entregar sua vida a Deus e, confiando Nele, seguir em frente.
- Não sei como fazer isso, dona Laurinha.
Não posso voltar para casa, nem tenho para onde ir...
- Não pode voltar para casa? Por quê?
- Eu odeio meu pai, aquela mulher e aquele menino!
Nunca vou perdoar!
Meu pai, por causa deles, sempre maltratou a gente, e maltratou muito mais a minha mãe.
- Sabe Telma, somos engraçados.
Agora mesmo conversamos a respeito do perdão.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 12, 2017 9:04 pm

Você entendeu que precisa ser perdoada por algo que, hoje sabe, foi um erro, mas não pára um minuto para pensar que, também, precisa perdoar.
- Mas é diferente!
Meu pai foi sempre muito cruel!
- Não existe diferença, Telma.
Sempre precisamos pedir perdão e principalmente perdoar.
Disse o certo. Não tem para onde ir.
E, tendo de ficar na casa de seu pai, talvez a convivência com essa mulher seja importante para o seu crescimento espiritual.
Talvez você tenha que aprender a conhecê-la e ver que ela pode ser uma grande amiga sua.
- Isso nunca vai acontecer, dona Laurinha!
Ela nunca vai ser minha amiga!
Ela destruiu a nossa vida!
- Não foi ela, Telma.
Foi seu pai, e, não pode deixar de reconhecer, muito a mais sua mãe, que permitiu que ele agisse daquela maneira.
Como te disse, o espírito é livre e, por isso, não pode ser aprisionado, seja por amarras ou por atitudes.
Sua mãe teve o direito da escolha, mas por conveniência, medo, ou seja, sei lá por qual motivo, achou melhor continuar vivendo ao lado dele.
- Ela dizia que tinha medo e, também, que não tinha uma profissão...
E, assim, não tinha como cuidar da gente.
- Nós sempre arranjamos uma desculpa para não tomar uma atitude, pois, quando resolvemos agir, sabemos que haverá problemas que teremos de superar.
Sei que nem sempre é fácil, mas sempre devemos tentar.
- Para a senhora é muito fácil dizer isso e julgar!
A senhora fala assim porque tem um bom marido.
Duvido que dissesse a mesma coisa se tivesse um igual ao meu pai e estivesse na situação da minha mãe!
Muitas vezes também a critiquei, mas hoje, na situação em que me encontro, sei que ela não tinha mesmo como tomar uma atitude.
Não tinha como sustentar a gente nem pagar aluguel.
- Talvez você tenha razão.
A teoria é sempre bem mais fácil que a prática.
Tenho mesmo um bom marido, filhos maravilhosos e agradeço a Deus todos os dias por isso.
Na realidade, se estivesse na sua situação ou na situação de sua mãe, não sei como agiria, mas acho que, sabendo, como sei que o espírito é livre, não teria ficado ao lado de um marido assim.
Por tudo isso que disse, acho que deve voltar para casa e continuar vivendo lá.
Termine seus estudos, torne-se uma profissional para poder receber um óptimo salário e, quando se casar, poderá ter a opção de ficar ao lado do seu marido, se ele for bom, gostar de você e de seus filhos, não porque depende dele financeiramente para sobreviver.
Se fizer isso, sei que terá uma vida feliz.
Sei que, aqui, só os homens têm direito a uma educação que os prepara para vencer na vida.
A mulher não é preparada para o trabalho, somente para ser dona de casa, esposa e mãe...
Mas as coisas estão mudando e, logo, ela será uma parte importante na sociedade e poderá competir com o homem, no trabalho de igual para igual.
Será livre para escolher seu próprio caminho.
- A senhora está sonhando!
Mas, no que depender de mim, vou ter a minha profissão e ser dona do meu nariz.
- Vê como não estou sonhando?
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 12, 2017 9:04 pm

Você mesma nunca aceitou essa situação, por isso, diferente das moças da sua idade, sempre quis estudar e trabalhar.
Portanto, pode ver que não estou sonhando, que isso vai realmente acontecer.
Agora volte para sua casa e procure conviver bem com a mulher que seu pai escolheu.
Estude, trabalhe e, principalmente, fique perto dos seus irmãos.
Você ainda é muito jovem, mas teve de crescer antes do tempo e, acredite, terá sempre ajuda dos céus e conseguirá tudo que deseja na vida.
- Nossa dona Laurinha, a senhora me deixou cheia de esperança!
- A vida é feita de esperança e, aconteça o que acontecer, por mais que errarmos na vida, Deus estará sempre nos esperando e enviando ajuda em todos os momentos, e a esperança só deixará de existir quando estiver tudo acabado.
Agora vá e faça sua parte, deixe o resto por conta de Deus.
- E quanto ao homem que me enganou?
Sinto que não posso perdoar ele.
- Com o tempo, tudo estará esquecido.
Sua vida vai continuar e, se Deus quiser, para melhor!
Mas, se levar com você mágoa e ressentimento, dificilmente alcançará a felicidade que sonha e deseja.
A mágoa e o ódio só nos trazem sofrimento.
Procure esquecer, Telma, caminhe sabendo que Deus não te abandona nunca.
- Vou tentar, mas sei que não vai ser fácil.
- Pode não ser fácil, mas não é impossível.
Agora vá. Seu pai deve estar preocupado.
Telma fez uma careta e saiu sorrindo.
Entrou em casa e viu uma cena que jamais em sua vida imaginou que poderia ver.
Seu pai estava sentado no chão ajudando as crianças a montarem um brinquedo.
Na cozinha havia barulho de torneira aberta e panelas.
Desolada, sem poder expressar o que sentia, pensava:
Não acredito no que estou vendo!
Como posso aceitar que meu pai tenha mudado tanto?
Que aquela mulher está lá na cozinha fazendo o trabalho que era da minha mãe?
Dona Laurinha que me perdoe, mas, apesar de tudo que me falou, não consigo aceitar nem perdoar...
Que situação a minha...
Calada, passou pela sala, entrou em seu quarto e deitou-se.
Baixinho, começou a chorar, sentia-se impotente e tendo que aceitar uma situação que não queria.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 12, 2017 9:05 pm

RELEMBRANDO
Naquele mesmo momento, em algum lugar, Sara abriu os olhos e estranhou:
Que lugar é este?
Não conheço este quarto...
Tentou se levantar, mas não conseguiu.
Seu corpo estava pesado e parecia preso à cama.
Com medo, pensou:
Que me aconteceu?
Meu Deus do céu, que lugar é este?
Estava muito assustada e nervosa, olhou para a porta do quarto que estava aberta.
Tentou se levantar novamente e desta vez conseguiu.
Com dificuldade, desceu da cama e se encaminhou para a porta.
Saiu do quarto, olhou e viu um longo corredor com outras portas que estavam abertas.
Começou a andar, quando uma jovem se aproximou dela, perguntando:
- Sara, já acordou?
Desculpe, estava ao seu lado até agora, mas tive de sair por um momento.
Vamos entrar, precisa voltar para a cama.
Sara ficou sensibilizada com o carinho que havia na voz e nos olhos daquela moça e, sem resistir, acompanhou-a de volta para a cama.
A moça a ajudou a se deitar novamente, dizendo:
- Logo ficará bem, suas energias ainda são diferentes das daqui, mas logo se acostumará com a energia daqui.
- Energia? Não estou entendendo o que está dizendo!
Que me aconteceu?
Que lugar é este?
- Fique calma, sei que está assustada, mas não tem motivo para isso, logo tudo será esclarecido.
Você acordou um pouco antes da hora, não sei qual é o motivo, mas deve existir algum.
Logo saberemos.
- Não me respondeu...
Que lugar é este e o que estou fazendo aqui?
- Já disse que logo terá respostas para todas as suas perguntas, mas fique calma, está no melhor lugar que poderia estar.
- Como posso estar em um bom lugar que não sei qual é?
Parece um hospital...
Mas o que me aconteceu?
Eu não estava doente!
- Estava muito doente, só que não sabia, mas agora está bem e logo se acostumará com as energias daqui e assim poderá ver que este lugar é realmente muito bom.
- Como... Doente?
Descansar? Não posso descansar!
Preciso estar ao lado das minhas crianças!
Não sei se sabe, mas meu marido é muito violento, não sei o que vai fazer com elas se eu não estiver lá!
- Suas crianças estão bem, e não precisa se preocupar.
- Não estou entendendo, ou melhor, estou com medo de entender.
Espere, parece que te conheço...
- Conhece, sim.
Com o tempo vai se lembrar de quem sou.
- Você se parece com a Selma, minha irmãzinha que morreu há muito tempo, mas não pode ser, ela era uma criança...
Sara olhava para a moça que estava ali e, intrigada, tentava se lembrar de onde a conhecia, quando a porta se abriu e por ela entrou uma senhora que, sorrindo, se aproximou.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 12, 2017 9:05 pm

Sara, ao vê-la, estremeceu.
- Mamãe, não pode ser a senhora!
A senhora morreu!
Já sei que aconteceu.
Eu não estava me sentindo bem, adormeci e estou sonhando.
Mesmo sendo um sonho, fico feliz em ver a senhora.
- Não é um sonho, minha filha, é realidade, estou mesmo aqui.
- Se não é um sonho, o que é então?
- Você retornou para a casa do Pai.
- Está dizendo que morri?
- Não, essa palavra não existe aqui, porque se traduz em muita dor e, se prestar atenção, verá que está mais viva do que nunca.
Somente retornou para o seu verdadeiro lar.
- Não! Isso não pode ter acontecido!
Minhas crianças não podem ficar sozinhas nas mãos do Sílvio!
Ele é violento e pode machucar elas!
Preciso voltar mamãe!
Não faça essa maldade comigo e com meus filhos!
Telma está sozinha, ela é ainda muito jovem e não poderá defender os irmãos do pai!
Isso não está certo!
Meu lugar é junto deles! - Sara, disse, chorando e gritando.
- Seu tempo ao lado delas terminou.
Terão de continuar sozinhas para poder escolher seus próprios caminhos.
Você fez a sua parte, permitiu que elas nascessem, ensinou as primeiras palavras, a andar e deu a elas as noções do certo e do errado...
- Não, isso não está acontecendo!
Diz que estou sonhando, por favor, mamãe!
Sílvio é violento e vai machucar as crianças!
Principalmente Telma, que não o suporta!
- Você cumpriu bem a sua parte, só não teve forças, mais uma vez, de conseguir evitar que ele fosse violento.
Voltaram juntos para a Terra para mutuamente se ajudarem a ser menos violentos.
Você, de certa maneira, conseguiu; ele, ao contrário, não.
E você, infelizmente, não conseguiu fazer com que entendesse que estava errado e que deveria mudar de atitude.
Deixou-se intimidar pelo medo e não reagiu.
Deveria ter colocado um ponto final, desde a primeira vez em que ele te bateu, mas foi relevando até as coisas chegarem ao ponto que chegaram.
Nisso, minha filha, você falhou.
- O que eu poderia fazer?
Ele é meu marido e como ficariam minhas crianças se eu o abandonasse?
Eu não tinha como sustentá-las!
- Ele era seu marido, mas não o seu dono.
O espírito é livre e ninguém pode prendê-lo ou obrigá-lo a fazer o que não quer.
Por várias encarnações você voltou para poder fazer com que Sílvio mudasse, mas, na maioria das vezes, se omitiu ou se deixou dominar pelo medo de reagir, enfrentar a vida sozinha e seguir adiante.
Não confiou na bondade de Deus e nem acreditou que nunca estaria sozinha, que outras portas se abririam.
Talvez ele, ficando sozinho, sem você e sem as crianças, reflectisse em tudo que fazia e pudesse mudar.
Mas ele ainda terá uma chance, e tomara que aproveite!
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 12, 2017 9:05 pm

Foi permitido que você acordasse, porque precisamos da sua ajuda.
- Minha ajuda?
Que posso fazer?
- Lembra-se do Germano?
- Não, não me lembro e nem quero me lembrar!
Será que a senhora não entende que preciso voltar!
Não posso ficar conversando ou tentando ajudar, se eu mesma preciso de ajuda!
Não vê que meus filhos estão abandonados!
Preciso voltar, mamãe...
- Sinto muito, minha filha, mas não pode ser.
Seu tempo terminou e seus filhos não estão e nunca ficarão abandonados.
Como todos nós, são filhos de Deus, e um pai nunca abandona seus filhos.
Fez a sua parte e, se quiser, poderá ajudar Telma...
E ela está precisando muito da sua ajuda.
- Sabia que ela não podia ficar sozinha com o Sílvio!
Quero ajudar minha filha.
Que preciso fazer?
- Sílvio, depois que você partiu, nunca mais brigou.
Você pode nos ajudar a ajudar Telma, mas, antes, precisa se lembrar de como tudo se passou.
- Lembrar do quê?
Sei como tudo se passou e como foi a minha vida!
- Pensa que sabe, mas não é verdade.
Neste momento está esquecida de como foi o seu passado, aliás, o nosso.
- Do que está falando, mamãe!
Claro que me lembro de como foi o nosso passado.
A senhora foi uma óptima mãe.
Só que morreu muito cedo, me abandonou...
Por que, mamãe?
Não sabe como senti sua falta...
- Estive sempre ao seu lado, torcendo para que reagisse e fizesse com que Sílvio mudasse, mas isso não aconteceu e eu, embora estivesse ao seu lado, não podia interferir.
Como está acontecendo com você, também aconteceu comigo.
Você precisava continuar sua vida sozinha sem a minha companhia.
Precisava fazer suas escolhas, não porque eu quisesse, mas porque precisava.
- Isso não é justo, mamãe!
Assim como Telma, eu era muito jovem quando a senhora morreu.
Estava casada com o Sílvio há pouco tempo.
Depois que a senhora morreu, fiquei muito triste, perdida, sem saber o que fazer da minha vida.
A sua presença me fez muita falta...
- Mas foi preciso que fosse assim.
Seus filhos nasceram e você deu a eles as primeiras noções do que é certo e errado e a educação que julgou ser a certa e que conhecia.
Não deu mais porque não estava ao seu alcance.
Agora terão de continuar sozinhos.
- Não entendo por que tem de ser assim, mamãe!
Não é certo uma mãe morrer antes de ver seus filhos crescidos.
- Sei que não entende, mas tudo está sempre certo.
E mesmo sendo nós mesmos que sempre escolhemos o nosso destino, quase sempre não aceitamos e nos revoltamos.
Agora precisamos ir ter com o Germano.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 12, 2017 9:05 pm

Ele está precisando muito da nossa ajuda.
Tomara que consigamos fazer com que entenda e perdoe o que aconteceu.
- O que aconteceu que tem a ver comigo, mamãe?
- Não tem a ver com você, mas sim com Telma.
- O que a Telma fez?
Quem é Germano?
- Assim que o vir, você se lembrará de tudo e entenderá que Telma deixou de cumprir um compromisso que havia feito com ele.
Segure em uma das mãos de sua irmã.
Vou segurar na outra e, juntas, fecharemos os olhos e iremos até ele.
Agora vamos.
Sara, assustada, segurou a mão da irmã.
Esta, sorrindo, acolheu-a com força, transmitindo-lhe confiança, e fechou os olhos.
Rita, a mãe de Sara, segurou na outra mão e, em poucos instantes, estavam em um grande quarto, onde um rapaz estava deitado em uma cama tendo ao seu lado uma senhora.
Aproximaram-se da cama e Rita, perguntou:
- Como ele está Albertina?
- Acordou muitas vezes, mas fizemos com que dormisse novamente.
Ele não está em boas condições e vai precisar muito da nossa ajuda.
- Sei disso e é por isso, também, que estamos aqui.
- Que bom que vieram!
Como está, Sara?
Sara estranhou aquela pergunta, pois não conhecia aquela mulher que lhe falou com tanta intimidade, mesmo assim, respondeu:
- Não estou bem, pois estou longe da minha casa e dos meus filhos.
Estou preocupada com eles e não sei o que estou fazendo aqui.
- Olhe bem para esse rapaz, minha filha.
Tem certeza que não o conhece?
Sara, ouviu a mãe.
Aproximou-se ainda mais da cama e olhou atentamente.
Depois de alguns segundos, falou alto:
- É o Germano, mamãe!
Estou me lembrando!
Por que ele está aqui, está doente?
- Não o corpo, mas seu espírito está muito doente.
Com uma das piores doenças do espírito, encarnado ou desencarnado.
- Que doença?
- O ódio e o desejo de vingança.
- Está com ódio de quem?
- Da Telma.
- Da Telma?! Por quê?!
- Sente-se aí nessa poltrona e feche os olhos.
Precisa lembrar-se de tudo, para entender e poder ajudar não só o Germano, mas a Telma também.
Sara, preocupada, sentou-se e fechou os olhos.
Imediatamente viu caminhando por um corredor muito grande.
Parou diante de uma porta e entrou.
Lá dentro encontrou Sílvio que, ao vê-la, sorriu e disse:
- Olá, meu amor, que bom que chegou.
Estava preocupado com a sua demora.
- Tentei chegar antes, mas não consegui.
Tive um problema para resolver.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 12, 2017 9:06 pm

Uma das crianças está com febre.
- Acha que devemos chamar o médico, Sara?
- Está louco?
Não vamos gastar dinheiro com médicos.
Além do mais, o doutor Roberto está viajando e, se vier outro médico, poderá notar as marcas de espancamento.
Já te disse mais de mil vezes para não espancar as crianças desse jeito, Sílvio.
Algum dia, alguém poderá descobrir e isso não seria bom.
Poderíamos perder este orfanato e, se isso acontecer, não sei do que viveríamos.
- Ninguém vai descobrir, Sara.
As crianças estão muito bem doutrinadas e nunca contarão a ninguém.
Sabe que, se fizerem isso, o castigo será maior.
- Mesmo assim, é melhor tomar cuidado.
Pode castigar as crianças, elas merecem, mas sem deixar marcas.
Existem outras formas de castigo, podemos deixá-las no quarto escuro.
Acho que já é o suficiente.
- Tem razão, Sara.
Embora o doutor Roberto esteja connosco há muito tempo, notei que ele não quer que as surras continuem.
Ele tem medo de que as autoridades descubram que está nos acobertando durante esse tempo todo.
Mas essa tua ideia do quarto escuro me parece uma boa solução!
O que não podemos é deixar que as crianças percam o respeito.
- Fico pensando como era na época em que mamãe resolveu fundar este orfanato, Sílvio.
Gastou uma fortuna para poder ajudar as crianças que ficaram sem pais durante a guerra do Paraguai.
Nunca entendi por que fazer tudo isso.
Sei que a nossa fortuna era imensa e o que ela gastou não representou nada.
Mesmo assim, não devia ter gasto tanto.
Poderia ter feito como fizemos depois que ela morreu, pedir ajuda para o governo e para a sociedade, que sempre está disposta a ajudar, principalmente às crianças.
- Tem razão, Sara.
Nossas famílias tinham muito dinheiro, mas esse dinheiro está terminando.
Os quadros e as obras de arte foram vendidos e substituídos por cópias perfeitas.
Da fortuna que nossos pais deixaram, não resta quase mais nada.
- Por isso precisamos tomar cuidado para que aquilo que acontece aqui não caia nos ouvidos do público.
E, ao mesmo tempo, precisamos encontrar uma maneira de conseguirmos mais dinheiro, pois, se alguma coisa acontecer, se alguém vier a descobrir que gastamos o mínimo com a alimentação das crianças e que quase todo dinheiro que arrecadamos gastamos connosco, com as nossas viagens e roupas boas, poderemos perder tudo e ficarmos na rua da amargura, sem um tostão sequer.
E aí, você sabe, além de nossos amigos nos condenarem, vão se afastar de nós para sempre.
- Isso não me incomoda nem um pouco, porque precisamos e merecemos ter uma boa vida, Sílvio.
Mas, se algo acontecer, precisamos estar preparados para poderemos fugir deste país e recomeçar a vida com todo luxo que sempre tivemos - Sara disse rindo com desdém.
- Tem razão, mas não consigo encontrar uma maneira para impedir que descubram o que fazemos.
- Está bem, mas precisamos pensar numa saída.
Este orfanato precisa de dinheiro.
Bom, não é bem o orfanato que precisa, mas nós, não é meu amor? - ela disse, piscando um olho num sinal de cumplicidade.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 12, 2017 9:06 pm

Estavam conversando quando a porta se abriu e, por ela, entraram Telma, Plínio e um rapazinho de mais ou menos doze anos.
Assim que os viram, Sara disse:
- Olá, minha irmã, está tudo bem com vocês?
- Está, mas o que tinham de tão urgente para conversar?
- Germano, como você está? - Sara perguntou com um sorriso.
- Estou bem, tia Sara.
Mamãe, preciso ficar aqui?
Gostaria de ir conversar com as crianças.
Sara olhou para Telma, que disse:
- Pode ir Germano.
O menino estava saindo quando Sara disse:
- Vá se encontrar com as crianças, mas não dê muita atenção se elas disserem que estão com fome.
Elas gostam de mentir...
Por mais que comam, nunca ficam satisfeitas.
O menino voltou o olhar para Telma que, com as mãos e os olhos, fez um sinal para que saísse.
Ele saiu correndo.
Assim que o menino saiu, Sílvio disse:
- Bem, pedi que viessem porque estive fazendo um balanço das nossas finanças e a situação não está boa.
Resta muito pouco da nossa fortuna, e o dinheiro que temos recebido como doação não dará para que continuemos tendo a mesma vida de antes.
- Não pode ser!
Como o dinheiro terminou?
- Ora, Telma, sabe que mamãe, quando morreu, deixou um testamento repartindo em partes iguais uma boa quantidade de dinheiro que nos deixaria bem para o resto da nossa vida, desde que não gastássemos além do que podíamos.
Mas sabe muito bem que isso não aconteceu.
Gastamos muito além e ainda usamos o dinheiro que ela destinou ao orfanato.
Mamãe sempre se preocupou muito com este orfanato e nunca permitiu que as crianças daqui passassem algum tipo de necessidade.
Agora o nosso dinheiro, isto é, o do orfanato - disse isso com ironia - está terminando.
Por isso precisamos pensar em como conseguir mais.
- Precisamos pensar mesmo, Sara!
Não me imagino pobre, sem poder possuir tudo que desejo e sem ser recebida na alta sociedade.
Eu não suportaria!
Plínio e Sílvio, calados, ouviam as duas conversando.
Telma se voltou para Plínio e disse:
- Precisamos encontrar uma solução, Plínio.
Já imaginou como seria a nossa vida sem dinheiro?
- Enquanto vocês estão conversando, estou pensando e acredito que tenho uma solução.
- Que solução?
- Sabem que o Germano tem uma grande fortuna para receber...
- Sei disso, mas ele só receberá quando fizer dezoito anos e isso vai demorar muito.
Além do mais, esse dinheiro é do Germano e não nosso Plínio.
- Sim, o dinheiro é dele e falta mesmo muito tempo.
Mas, se ele morrer antes disso, o seu dinheiro, por não ter família e, como sabem, por ele ter sido registado em meu nome, virá todo para mim.
Esse foi o preço que a mãe dele pagou para que eu o registasse e ela não passasse a vergonha de ter um filho sem pai.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 12, 2017 9:06 pm

- Não estou entendendo o que está dizendo, Plínio.
Ele é muito jovem e saudável, não vai morrer.
- Se esperarmos que morra de morte natural, isso não acontecerá logo...
Mas podemos pensar em uma maneira de abreviarmos sua vida...
- Está falando em matar? - Sara perguntou, assustada.
- Sim, Sara, e com sua morte todos os nossos problemas estariam resolvidos.
Eu receberia a sua fortuna e voltaríamos a ter a nossa vida de sempre, sem nos preocupar com dinheiro nem...
- Mas, Plínio, ele é nosso filho... - Telma interrompeu-o.
- Ele não é nosso filho, Telma.
Ele é filho da minha primeira esposa.
Eu somente o registei como meu filho.
Sabe que, quando a conheci, ela já estava grávida.
Casei-me com ela e, quando seu filho nasceu, registei-o como se fosse meu.
Ela ficou doente três anos depois e, sabendo que ia morrer, deixou em testamento que ele receberia a sua herança e, caso ele morresse, o beneficiário seria eu.
- Sei de tudo isso, Plínio, quando nos casamos aceitei recebê-lo como filho.
Ele está comigo desde os cinco anos.
Não posso nem pensar em fazer isso que está insinuando, Plínio!
- Então, minha querida, acostume-se a viver na pobreza.
Ele é a nossa única solução.
- Espere aí, Telma.
Plínio tem razão.
Essa é mesmo uma solução, posso até dizer que é a única.
Só que existe um problema...
Como vamos fazer isso?
Se o menino morrer, a polícia vai investigar e, fatalmente, chegará a nós.
- Não se fizermos bem feito, Sara.
Precisamos pensar em uma maneira que não levante suspeita quanto à morte dele.
- Como pode ser isso, Sílvio?
- Não sei, mas deve existir uma maneira, Sara.
Venho pensando nesse assunto há muito tempo e acho que sei como fazer tudo sem que haja suspeita alguma.
A morte dele será natural.
- Como seria isso, Plínio?
- Vai depender de você, Telma...
- Eu?! Como?!
- Existe um tipo de veneno que, administrado aos poucos levará Germano à morte e ninguém desconfiará.
- Levará quanto tempo, Plínio?
- Não posso dizer, Sara, mas sei que é eficiente.
Mesmo assim, se demorar um pouco mais ou não, não tem importância, ao menos saberemos que um dia acontecerá e, com a morte dele, estaremos salvos.
Telma pensou por um instante, depois disse:
- Eu nunca pensei em fazer uma coisa como essa, mas também não consigo me imaginar sem dinheiro, por isso acho que vale a pena.
O que preciso fazer?
- Terá de administrar todos os dias certa quantia do veneno no suco, no leite ou na comida que ele for comer.
Com o tempo, o veneno começará a fazer efeito e, fatalmente, ele morrerá.
- Só isso?
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 12, 2017 9:06 pm

- Sim, pode parecer simples, mas não sei quais serão os sintomas, por isso tem de estar preparada para fingir que não sabe o que está acontecendo.
Isso se estende a todos nós, provavelmente ele terá que ser atendido pelo doutor Roberto...
É importante que ele acompanhe todo o processo para, assim, poder dar o atestado de óbito sem que haja suspeita alguma.
Estão dispostos?
- Será que o doutor não vai desconfiar?
- Não, mas mesmo que desconfie, nada que algum dinheiro não resolva...
Um olhou para o outro e depois acenaram com a cabeça, confirmando.
Estavam conversando quando ouviram uma batida na porta.
Telma foi até lá e abriu-a.
Por ela, entrou Laurinha, uma das meninas mais velhas da casa.
Estava nervosa e, aflita, disse:
- Com licença, desculpem por interromper, mas a Maria do Carmo não está bem, ela parece que vai morrer.
Todos se levantaram. Sara perguntou:
- Que está dizendo, Laurinha?
Onde ela está?
Eu mandei que ela fosse para a cama!
- Ela se escondeu lá na adega.
Ela está deitada e não consegue se levantar.
- Essa menina é um estorvo!
Vou até lá para ver o que está acontecendo.
Dizendo isso, Sílvio se levantou e saiu da sala.
Laurinha quis acompanhá-lo, mas ele não deixou, dizendo:
- Fique aqui, Laurinha.
Preciso conversar com essa menina!
Não se preocupe, ela ficará bem.
Saiu da sala e foi para a adega.
Lá encontrou encolhida, deitada em um dos cantos da sala, uma menina com mais ou menos seis anos.
Ele se aproximou e a chacoalhou dizendo:
- Que está fazendo aí, menina?
- A dona Sara disse para eu ficar aqui e, se saísse, ela me bateria...
- Por que ela fez isso?
- Por que eu estava com fome e fui na cozinha pegar um pedaço de pão.
Ela me pegou mexendo no armário da comida...
- Sabe muito bem, que tem hora para comer.
Se ela te castigou, foi porque não esperou a hora certa para se alimentar.
- Eu estava com fome e ainda estou.
Minha barriga está doendo muito...
- Levante-se daí e vá para seu quarto! - ele gritou.
A menina tentou, mas não conseguiu, com muita fraqueza, caiu novamente.
Ele a pegou pelo braço e a levou empurrando.
As outras crianças viram aquela cena e choravam.
Nervoso, Sílvio gritou:
- Fiquem quietos!
Sabem o que vou fazer com cada um se continuarem chorando!
Estou muito nervoso, por isso é melhor irem para seus quartos e dormir!
Hoje, por castigo, não terão jantar!
As crianças, apavoradas e sabendo o que ele era capaz de fazer, foram para seus quartos e, chorando muito, se deitaram.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 12, 2017 9:07 pm

Sílvio, depois de largar Maria do Carmo na cama, voltou para a sala.
- Que aconteceu, Sílvio?
Ele olhou para os outros, que pareciam assustados.
- Agora está tudo bem, Sara.
Não lhes disse que era só para incomodar?
Dei-lhe um correctivo e agora está deitada em sua cama.
Logo ficará bem.
- Ainda bem que está tudo bem, agora precisamos ir.
Amanha voltaremos para dizer se consegui o veneno.
Os dois concordaram e, assim que saíram, Sara perguntou:
- Sílvio, o que você acha do plano do Plínio?
- Apesar de não se saber se vai demorar muito, acho que pode dar certo, aliás, tem que dar certo!
Como ele disse, é a nossa única solução e salvação.
Sara e Sílvio tinham optado por morar no orfanato.
Na verdade, precisaram fazer isso.
Assim, quando alguém viesse visitar o orfanato podia ver que as crianças não ficavam sozinhas.
Mas, com o tempo, para economizar dinheiro, foram mandando embora os funcionários que havia lá.
Agora, quem cuidava da limpeza eram as crianças.
A arrumação da casa, que era muito grande, também eram elas que faziam.
As maiores foram encarregadas de preparar a comida.
Sara e Sílvio foram para a cozinha para ver o que havia para o jantar.
Laurinha, uma jovem com dezasseis anos, era a encarregada e responsável pela alimentação.
Sara se aproximou, já ordenando:
- Laurinha, prepare uma sopa para as crianças, e não use carne!
A carne que tem aí é só para mim e o Sílvio.
Vá até a horta e pegue alguns legumes, e não use muito, precisamos economizar.
Com os olhos baixos, Laurinha respondeu:
- Está bem, senhora.
Laurinha preparou o jantar e, como fazia todos os dias, preparou uma bandeja com a comida especial preparada para Sara e Sílvio e levou-a para o quarto deles.
Em seguida, chamou as crianças e serviu a sopa rala.
As crianças, com fome, comeram e agradeceram.
Em sua casa, Telma, Plínio e Germano também jantavam.
Após terminarem o jantar, Telma disse:
- Germano, já que terminou o jantar, se quiser, pode ir para o seu quarto.
O rapaz, acostumado com a rigidez da casa e sem protestar, obedeceu, saiu da mesa e foi para seu quarto.
Quando perceberam que estavam sozinhos, e Laurinha tirava a mesa, Plínio disse:
- Vamos para a sala de estar, Telma?
Precisamos conversar.
Telma sorriu, levantou-se e caminharam juntos para a sala ao lado.
Plínio, disse:
- Amanhã vou providenciar aquele remédio do qual falamos, precisamos começar o tratamento o mais rápido possível.
- Eu não queria, mas não tendo outra opção, também acho que deve ser o mais breve possível.
Agora, vamos tratar de tomar nosso café e, depois, dormir?
- Vamos, sim.
Amanhã será um longo dia.
Ficaram ali até Laurinha servir o café, que eles tomaram; depois foram para seu quarto e se prepararam para dormir.
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Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

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