NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Página 3 de 9 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 9:02 pm

- Não, ainda não chegou.
Você sabe que, em algumas noites durante a semana, ele fica com os amigos e chega tarde.
Mas o que aconteceu?
Vendo que o pai não estava em casa, ela contou tudo que havia acontecido e terminou dizendo:
- Não sei o que aconteceu.
Quando ele chegou, estava todo carinhoso, depois saiu sem me olhar e não voltou mais.
- Ele vai voltar e vai te contar o que houve.
Não se preocupe!
Afinal, ele trabalha ali e vai ter que voltar.
Agora, vamos jantar, deve estar com fome.
- Desculpe mamãe, mas não estou com fome, estou muito nervosa.
- Está bem, se mais tarde ficar com fome, vou deixar a comida sobre o fogão, basta esquentar.
Sara saiu da cozinha e Telma foi para o quarto.
Precisava se preparar para dormir e tinha que ser antes que o pai chegasse.
Não queria nem pensar em ter de conversar com ele.
Naquela noite não conseguiu dormir, e acordou muitas vezes, tentando entender o que havia acontecido, mas foi em vão.
No dia seguinte e nos outros, para desespero dela, Plínio não voltou.
Os funcionários começaram a se preocupar e a querer saber por que ele não aparecia mais no escritório.
Cada um dizia uma coisa, mas ninguém sabia ao certo.
Por várias vezes, Telma tentou perguntar para Roberto, mas não teve coragem.
Roberto percebeu o murmurinho, chamou Telma e, assim que ela entrou na sala, ele disse:
- Sei que estão preocupados com Plínio, por isso vou dizer a você o que houve e quero que transmita aos outros.
Telma, ansiosa como estava, perguntou:
- E o que foi que aconteceu, doutor?
Por que ele não veio mais trabalhar?
Roberto sabia do desespero dela.
Sabia que, diferente dos outros, o que ela sentia não era só preocupação de colega de trabalho.
Sabia que era algo mais e respondeu:
- Diga para todos que não precisam ficar preocupados.
Plínio vai se casar e me pediu que eu o mandasse para uma de nossas filiais, que fica perto da casa onde vai morar.
- Ele vai se casar? - ela perguntou gaguejando.
- Claro que vai. Você não sabia?
Não viu a noiva dele na festa do casamento de Nara?
- Vi, sim, doutor. Ela é muito bonita.
- Também acho.
E é uma boa moça, também, além de ser querida por toda a família.
Eles se gostam muito e, tenho certeza, serão felizes.
Portanto, foi só isso que aconteceu.
Ele está trabalhando em nossa filial, o que vai facilitar muito sua vida.
Agora, pode ir contar aos outros, e espero que os comentários terminem.
Ela não queria acreditar naquilo que ouvia, mas não restava dúvida.
Roberto não inventaria uma história como aquela.
Tremendo muito, foi para sua sala.
Precisava contar aos outros, mas naquele momento, não estava em condições.
Chorava muito, e não queria acreditar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 9:02 pm

Não pode ser verdade!
Ele não me enganaria dessa maneira!
Ele disse que tinha desmanchado o noivado!
Por que fez isso?
Por que fez isso comigo?
Ficou ali, chorando por um bom tempo.
Depois, secou as lágrimas, disfarçou os olhos inchados, e foi de sala em sala, contando o que Roberto tinha informado.
A maioria aceitou, só não entendia por que ele não tinha se despedido deles; mas, isso, Telma não sabia responder.
Voltou para sua sala e, escondendo a tristeza, recomeçou a trabalhar.
Roberto sabia que ela estava triste e intrigada.
Ele não podia deixar de pensar:
Ela deve estar sofrendo muito, e até chorando, mas é melhor que sofra hoje, porque sei que será bem menos do que sofreria mais tarde, caso Plínio levasse adiante aquela loucura.
Ela é jovem e, em pouco tempo, esquecerá dele, mas tenho dó da menina...
Telma continuou trabalhando e escondendo a tristeza, embora de vez em quando limpasse uma lágrima que insistia em cair.
Finalmente, deu seis horas e ela podia sair.
Queria muito ir embora, para poder chorar à vontade, sem o perigo de que alguém a visse e perguntasse qualquer coisa.
Como todo o dia arrumou-se, despediu-se dos companheiros e foi para a escola.
Já estava boa em várias sequências e sabia que, com mais algumas aulas, estaria pronta para escrever qualquer coisa que Roberto precisasse.
A repetição das sequências era um exercício bom para esvaziar a cabeça.
Acabou a aula, entristeceu-se mais ainda ao sair e lembrar-se das vezes em que Plínio esperava por ela na porta da escola.
Mas hoje ele não estava lá, e ela tomou o caminho de sua casa.
Enquanto caminhava, ia rezando para que seus pais não estivessem brigando novamente:
Se ele estiver brigando com minha mãe, não sei o faço, principalmente hoje.
Antes eu tinha a certeza que ia me casar e poder tirar todos nós das garras dele, mas agora, por enquanto, sei que isso é impossível.
Só mesmo quando me formar.
Mas me formar como?
Não posso nem pensar em ir para uma escola boa.
Não tenho como pagar!
E na escola pública, nem pensar!
Para pessoas pobres como eu, não existe jeito de estudar...
Assim que chegou ao portão de sua casa, já pôde ouvir os gritos.
Ela estava nervosa por causa do que Plínio havia feito.
Entrou correndo em casa, no exacto momento em que seu pai agredia sua mãe com violência.
Correu e se colocou entre os dois.
Seu pai, tomado pela fúria, deu uma bofetada em seu rosto.
A bofetada foi tão violenta, que Telma caiu no chão.
Também tomada de fúria, levantou-se e se atirou sobre ele, batendo com toda a força que tinha.
Sara, ao ver aquela situação, começou a gritar e a tentar separar os dois.
As crianças choravam apavoradas.
Com muito custo, conseguiu agarrar Telma e levá-la para longe do pai.
Mas ela, com muito ódio, olhava para o pai e gritava:
- O senhor é um monstro!
Eu o odeio com todas as forças do meu coração!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 9:02 pm

Vou ter muito dinheiro e tirar todos nós desta casa!
O senhor vai ficar sozinho!
Só vai ter é parede e porta pra bater! Eu juro!
- Cale essa boca!
Não sabe o que está dizendo!
Vai ter muito dinheiro?
Mas, enquanto isso não acontecer, vai ter que viver aqui, na minha casa!
Entendeu? Minha casa!
Vai comer da comida que eu trago para casa! Eu!
Por isso vai ter que viver da maneira que eu quero!
Entendeu? Se não estiver contente, pode sair agora mesmo e não volte nunca mais!
- Por favor, parem com isso!
Telma vá para o quarto.
Deixe que eu converso com seu pai! - gritou Sara, desesperada.
- Eu vou, mas sei que a senhora, como sempre, não vai conseguir nada!
Sabe que ele vai continuar sendo o monstro que sempre foi!
Olhe como as crianças estão!
Não é justo, mamãe!
- Vá para o quarto.
Depois vamos conversar.
Não posso permitir que o agrida!
Ele é seu pai e por isso tem que ser respeitado!
Ao ouvir aquilo, Telma não acreditou e disse muito nervosa:
- Não estou acreditando no que a senhora está dizendo!
Como quer que eu respeite esse homem?
Ele é um monstro.
Não vê como seu corpo está todo marcado?
Quantas vezes teve que ir ao hospital, por causa das agressões dele?
- Mesmo assim.
Ele é seu pai e você tem que respeitar!
Nunca mais quero ver você fazer o que fez hoje!
A briga sempre foi entre nós dois.
Nunca agrediu vocês.
Vá para o quarto!
- Mamãe, como pode continuar vivendo ao lado dele?
- Ela vive ao meu lado e continuará vivendo para sempre.
Sabe por quê?
Porque quem sustenta essa casa sou eu!
Quem ganha dinheiro sou eu!
Ela não serve para nada!
Só mesmo para cuidar da casa e de vocês, e isso não vale nada!
Telma estava muito nervosa, mas olhou para mãe e viu seu olhar suplicante para que parasse.
Virou-se, pegou as crianças pela mão e levou-as para o quarto.
Chegando lá, colocou-as na cama e sentou-se ao lado delas.
Sueli, chorando, disse:
- Telma, não fique assim.
Não disse que vai se casar com um homem rico e que ele vai tirar a gente desta casa?
Telma começou a chorar sem conseguir parar:
- Eu disse, mas isso não vai acontecer, ao menos por enquanto.
Aquele homem que falei não vale nada, é igual ao papai.
Nós temos que continuar aqui nas mãos desse monstro, porque ele tem razão, não temos como viver longe desta casa e dele...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 9:02 pm

Mas vou estudar e ter minha profissão e vou encontrar um homem rico para me casar.
Agora, vamos ver se a gente consegue dormir.
- Sabe o que estou pensando, Telma?
- Não, o quê?
- Que a gente devia rezar e pedir pra Deus fazer o papai ficar bonzinho e não brigar mais...
- Quê?! Rezar?!
Que Deus? Deus não existe, Sueli!
Se ele existisse não deixava a gente ter nascido nesta casa e ser filhos desse homem!
Ele não existe e, se existir, não tem tempo de olhar pra gente! - Telma falou furiosa.
- A minha professora disse que Deus é nosso pai e que cuida da gente a todo instante.
A mamãe também já falou isso muitas vezes...
- Só se Ele cuida da sua professora, porque da mamãe e da gente não cuida não!
Se cuidasse, matava esse homem ou tirava ele da vida da gente para sempre!
- Não fala assim, Telma. É pecado.
A gente não pode desejar a morte de ninguém e minha professora também disse isso...
- Ela não deve ter um pai como ele!
Quero que ele morra e, quando isso acontecer, vai ser o dia mais feliz da minha vida!
- Não sei, não, mas acho que você não devia falar assim.
Deus pode castigar...
- Que castigo ele pode me dar que seja pior do que esse que já me deu?
Não tenho medo desse Deus!
Eu, só eu, posso cuidar da minha vida!
Mas, agora, está na hora de você dormir.
O Marquinhos já está quase dormindo.
- Eu não estou com sono, Telma.
Será que eles pararam de brigar?
Telma prestou atenção, mas não ouvia mais barulho algum.
- Ele foi para o quarto.
Eu estava conversando com você e não percebi que tinham parado de brigar.
- Mas por que a mamãe não veio dar o beijo de boa noite que dá todos os dias, Telma?
- Não sei Sueli, deve estar pensando no que vai fazer.
Depois do que ela me disse hoje, nunca mais vou conversar com ela!
Ela merece o marido que tem!
- Você não pode falar assim, ela gosta muito da gente...
- Sei que gosta, mas não sabe lutar pela gente.
Agora vou me deitar e tentar dormir.
Amanhã preciso acordar cedo para ir trabalhar.
Abaixou-se para cobrir Sueli e dar-lhe um beijo, quando ela disse:
- Telma, você já viu como está o seu rosto?
- Não, o que tem ele?
- Vai olhar no espelho.
Está todo vermelho.
Acho que vai ficar preto, que nem o da mamãe fica.
Telma se levantou e foi até o espelho do guarda-roupa.
Ao se ver, quase gritou:
- Sueli, você tem razão!
Meu Deus do céu, amanhã vai estar tudo preto!
Não posso ir trabalhar dessa maneira, todos vão querer saber o que aconteceu e eu não vou poder contar que foi meu pai quem fez isso!
Não sei o que fazer, pois não posso faltar, tenho um trabalho importante para fazer amanhã!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 9:02 pm

Quando terminou de falar, estava chorando muito.
Sueli se aproximou, segurando sua mão e também olhando para o espelho, e disse:
- Não precisa chorar Telma.
Você tem que fazer igual à mamãe faz.
Sempre que o papai bate nela e ela fica com o rosto preto, ela diz pra todo mundo que escorregou e bateu com o rosto na cadeira.
- Ela faz isso?
- Sempre, e as pessoas acreditam.
- Não sei, mas acho que não vai dar certo.
- Vai dar, sim. Todos vão acreditar.
Estava ainda olhando no espelho, quando, por ele, viu Sara entrando no quarto, voltou-se para ela e gritou:
- Viu o que ele fez com meu rosto?
Como vou trabalhar amanhã?
- Meu Deus do céu!
Vamos fazer uma compressa para ver se não fica muito inchado e preto.
Acho que não vai poder ir trabalhar mesmo, Telma.
Se for, vai ter que dar muitas explicações.
- Já pensei nisso, mas não adianta.
Se ficar preto não vai ser só por um dia.
Não posso faltar, tenho muito trabalho para fazer!
Vou ter que inventar alguma coisa, ou melhor, vou seguir o conselho da Sueli e dizer que escorreguei e bati com o rosto em uma cadeira.
- Ela te disse isso?
- Eu disse mamãe.
Não é o que a senhora sempre fala quando o papai bate na senhora?
- Está vendo, mamãe!
A senhora sempre diz que eles são crianças, e que não sabem muito bem o que acontece nesta casa.
Mas não é verdade.
As brigas se tornaram tão frequentes, que eles já se acostumaram e acham que é normal!
Mas não é, mamãe! Não é!
Sara começou a chorar.
Sabia que os filhos sofriam com todas aquelas brigas, só não sabia que eles prestavam tanta atenção em tudo o que acontecia.
- Tem razão, Telma.
Mas, hoje, você e seu pai se excederam, e eu tive uma conversa muito séria com ele.
Enquanto a briga era comigo, estava tudo bem, mas, no momento em que houve agressão entre vocês, tudo tem que mudar.
- A senhora chamou minha atenção como se ele estivesse com a razão.
Eu não aceito isso!
- Chamei, porque, apesar de tudo, ele é seu pai e você não pode faltar com o respeito.
- Que pai? Que respeito, mamãe?
Um pai não age como ele, é amigo dos filhos, não bate nas suas mães!
Ele não é pai, é apenas um homem que não gosta da gente nem da senhora!
Eu odeio esse homem com todas as forças do meu coração e queria que ele morresse!
- Não fale assim.
A vida pertence a Deus e não temos o direito de desejar a nossa própria morte, muito menos a de outra pessoa.
- Lá vem à senhora com essa conversa de Deus!
Ele não existe e, se existir, não sabe que a gente existe!
Nunca mais vou à igreja ou a qualquer outro lugar que fale em Deus!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 9:03 pm

Não preciso Dele e nem de ninguém!
Só preciso esperar um pouco mais de tempo até fazer dezoito anos e, assim, poder ir embora desta casa para sempre e nunca mais a senhora vai ter notícias minhas!
- Não fale assim.
Ele está muito arrependido do que te fez e me prometeu que nunca mais vai brigar.
Que nesta casa, de hoje em diante, vai ter paz.
- A senhora acreditou?
Quantas vezes ele já disse isso, mamãe?
A senhora sabe que ele não vai cumprir a promessa!
Sabe que ele pode ficar dois ou três dias sem brigar, mas vai fazer tudo isso novamente!
Ele é um mentiroso!
A senhora sabe disso!
- Preciso acreditar que ele está falando a verdade.
Você sabe que não temos condições de sair desta casa, porque não temos para onde ir.
Seus irmãos são muito pequenos.
Precisamos ter paciência.
Ele foi um homem bom, aconteceu alguma coisa que fez com que ele mudasse dessa maneira.
Por mais que pense, não consigo entender o que foi.
Desta vez, ele vai cumprir a promessa, tenho certeza.
- A senhora é mesmo uma covarde, mamãe.
Por enquanto, não posso fazer nada, mas vou encontrar uma solução e vou sair dessa casa o mais rápido possível.
- Está bem, não posso te impedir.
Mas não se esqueça que, enquanto não completar dezoito anos, sou responsável por você e não pode viver sozinha.
Agora tente dormir.
Nada mais pode ser feito está noite.
Amanhã, se quiser, vá trabalhar, mas se não quiser ir nunca mais, está tudo bem, Telma.
- Nunca vou deixar de trabalhar, mamãe, nunca!
- Está bem, faça o que quiser. Boa noite.
Sara foi beijar seu rosto, mas Telma se afastou.
Sem ter mais o que fazer, a mãe saiu do quarto. Telma se deitou e ficou chorando...
Ela tem razão, também estou presa nesta casa.
Não tenho para onde ir, mas um dia isso tudo vai terminar.
Vou poder ter minha casa, meus filhos, e eles nunca vão ver uma briga com meu marido.
Como havia previsto, assim que Telma acordou e olhou no espelho, constatou que seu rosto, além de inchado, também estava preto do lado direito.
Ficou apavorada, pois estava pior do que havia imaginado que ficaria.
Como vou aparecer no escritório com este rosto?
Que vou dizer?
Meus colegas não podem saber que foi pai quem fez isto.
Eu vou morrer de vergonha se eles descobrirem.
Sara entrou e admirou-se ao ver que Telma já estava acordada.
Viu o seu rosto e disse nervosa:
- Está mesmo muito feio, Telma.
Acho melhor você não ir trabalhar hoje.
- Não posso fazer isso, mamãe!
Tenho que ir trabalhar.
Se não for e não tiver uma justificativa, vou ficar mal perante o doutor.
- Invente uma história, diga que estou doente e que você teve que ficar em casa para me levar ao médico.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 9:03 pm

- Isso não vai adiantar mamãe.
Pode servir como desculpa para hoje, mas, e para amanhã, o que vou inventar?
Por que esse preto do meu rosto não vai desaparecer em um ou dois dias.
A senhora sabe que vai levar vários.
- Tem razão.
Ontem, quando chegou, parecia que estava mais nervosa do que de costume.
Já presenciou muitas brigas e nunca teve uma reacção como aquela.
Que aconteceu?
Por que estava tão nervosa?
Embora Telma estivesse magoada com Sara, depois da atitude que ela teve defendendo o pai, sua mãe era também sua melhor amiga.
Precisava conversar com alguém e não existia ninguém no mundo em quem ela confiasse mais.
Contou o que havia acontecido, mas omitindo suas idas ao apartamento.
Contou, também, tudo que Roberto lhe disse e terminou dizendo:
- Ele me enganou, mamãe.
A senhora tinha razão, rico não se mistura com pobre, mesmo.
Esteve o tempo todo brincando comigo.
Sou uma burra, mesmo!
Acreditei em tudo o que ele me disse.
- Você não é burra, Telma.
Acho até que você é muito adulta para sua idade.
Na sua idade, as meninas estão só pensando em se arrumar e parecer bonitas.
Poucas são aquelas que se interessam em estudar, que se preocupam com o futuro.
Você é diferente, minha filha.
- Talvez eu seja diferente das outras garotas, porque elas não tiveram um pai como o meu.
Fui obrigada a crescer rapidamente e tenho que escolher o que quero para o futuro e, com certeza, não será como o que tenho hoje.
- Acho que tem razão, mas, por outro lado, foi bom ter descoberto quem era, antes que fosse tarde demais.
- O que está querendo dizer?
- Se não tivesse acontecido agora, você, da maneira como estava, teria se entregado a ele sem pensar, e hoje poderia estar sofrendo muito mais.
- Sabe que a senhora tem razão!
Iludida como estava, e com a vontade que tenho de sair desta casa, eu teria feito tudo o que ele quisesse.
- Mas não fez.
E só pode agradecer a Deus, por um anjo ter passado e estragado com os planos dele.
Sempre te disse que Deus existe.
Agora você pode ter certeza disso.
- Que Deus, que anjo nada, mamãe.
Foi só porque ele quer trabalhar perto da casa onde vai morar, nada mais.
Por isso eu estava tão nervosa e, ao chegar e ver papai daquela maneira, tive a confirmação de que nenhum homem presta mesmo.
Não quero mais homem, mamãe.
Daqui para frente vou me dedicar com afinco e aprender não só dactilografia, mas todo o trabalho daquele escritório.
Como à senhora disse, se eu quiser sair desta casa vai ser só as minhas custas.
Não posso mais pensar em um homem para fazer isso.
Vou morrer solteirona!
Sara começou a rir e disse:
- Não vai, não, Telma.
Esse foi o primeiro homem que apareceu em sua vida.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 9:03 pm

Muitos outros virão e muitos tentarão te enganar, mas, no dia em que menos estiver esperando, o seu verdadeiro amor vai aparecer e te fazer muito feliz.
- Pode até ser que a senhora esteja com a razão, mas não estou preocupada com isso.
Será difícil me interessar por outro.
O fim do ano está chegando, quem sabe eu consiga ir para o ginásio no ano que vem.
- Quem sabe, minha filha.
Mas agora está na hora de se vestir e ir enfrentar o seu dia, que hoje vai ser difícil.
Vai ter que dar muitas explicações sobre esse rosto.
Sinto muito, minha filha.
- Desculpe mamãe.
Sei que, se tivesse uma profissão, ou dinheiro, a senhora já o teria abandonado.
- Sabe Telma.
Às vezes penso que, mesmo que eu tivesse dinheiro, não faria isso, porque no fundo eu tenho muita pena dele.
- Não fale isso nem de brincadeira, mamãe!
A gente precisa sair dessa casa, senão as crianças vão crescer amedrontadas e infelizes, assim como eu sou.
- Você não tem medo de coisa alguma!
- Não tenho mesmo, mas sou infeliz, mamãe.
- Com o tempo, tudo isso vai passar.
Fico feliz em saber o quanto você gosta das crianças, porque sei que, se alguma coisa acontecer comigo, você tomará conta delas.
- Que conversa é essa mamãe?
- Conversa nenhuma, mas tudo pode acontecer.
A gente nunca sabe quando será à hora da nossa morte e eu, às vezes, fico preocupada com vocês todos, mas muito mais com elas, que são tão pequenas...
- Pode parar com essa conversa, mamãe!
A senhora vai viver muito tempo e vai ver a sua filha vencer na vida!
- É o que mais desejo, mas, se isso não acontecer, nunca se esqueça que eu deixo as crianças na sua responsabilidade.
Você conhece seu pai.
Ele não vai ter paciência para cuidar delas.
- Nada vai acontecer com a senhora.
É muito forte, querida e necessária.
Já pensou como a gente ia ficar sem a senhora?
Não quero nem pensar nisso...
- Nem eu, minha filha... Nem eu...
- Agora é que estou mesmo atrasada para o trabalho.
Vou me vestir, tomar meu café e sair correndo.
- Está bem.
Enquanto você se veste, vou esquentar seu café.
Conversamos tanto tempo que deve ter esfriado.
A mãe saiu e Telma voltou a olhar-se no espelho.
Puxou os cabelos para frente do rosto e quase o cobriu totalmente.
Olhou, olhou e resolveu:
Não adianta querer me enganar.
Embora meu cabelo seja comprido, não vai esconder o roxo e não vou conseguir trabalhar com ele assim.
Vou usar preso, como faço todos os dias e dizer o que Sueli falou.
Se convencer, tudo bem...
Mas, se não convencer, não tenho o que fazer.
Como havia previsto, assim que chegou e os colegas viram seu rosto, como não poderia deixar de ser, perguntaram assustados o que havia acontecido.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 9:03 pm

Ela contou a história da cadeira e pareceu que todos acreditaram.
Se não acreditaram, fingiram muito bem.
Ela foi para sua sala e começou a trabalhar.
Ainda pensava em Plínio, mas tentava de qualquer maneira esquecer:
Agora preciso começar uma nova vida.
Preciso me convencer que ele realmente me enganou, mas, como diz a minha mãe, não sou burra e sei que tenho de continuar minha vida, mas nunca mais vou confiar em um homem ou me apaixonar novamente.
Roberto, como quase todos os dias, chegou depois do almoço e, através da campainha, chamou Telma, que estremeceu, levantou-se imediatamente e, antes de sair da sala, pensou:
Com os meus colegas de trabalho, tudo bem, mas com ele é diferente.
Será que vai acreditar nessa história que inventei?
Espero que sim, mas não adianta ficar aqui esperando e tentando esconder o que aconteceu.
Vou até lá, conto a mesma história e espero que acredite.
Entrou na sala, perguntando:
- O senhor me chamou doutor?
Ele que estava com a cabeça baixa olhando um documento, levantou a cabeça, olhou bem para ela e respondeu:
- Sim, preciso que telefone para este cliente e peça que venha até aqui.
Estou precisando falar com ele.
Faça isso agora mesmo.
- Pois não, doutor - ela disse, pegando o documento que, sem tirar os olhos dela, ele lhe entregou.
Ia saindo, quando ele perguntou:
- Você está bem, Telma?
- Estou doutor.
- Em sua casa também está tudo bem?
- Está... Mas por que está me fazendo essa pergunta?
- Sinto que algo muito grave aconteceu.
Estou perguntando, mas não quero que fique constrangida por sua parte.
Mas gostaria de saber o que aconteceu.
- Ah, é por causa do meu rosto? - ela perguntou, sem saber o que responder.
- Sim. Por que seu rosto está roxo?
Que aconteceu?
- Bem, eu escorreguei e bati com o rosto em uma cadeira.
- Foi isso mesmo que aconteceu?
- Sim, doutor, mas, dentro de alguns dias, o roxo vai desaparecer...
- Ainda bem que foi isso.
Quando vi, lembrei-me da minha casa e da minha mãe, que, às vezes, também escorregava e batia com o rosto em uma cadeira ou, em outras vezes, era na porta...
Mas, se está falando a verdade, está tudo bem, se não...
- Se não... O que quer dizer, doutor?
- Se o motivo for outro, gostaria de saber, para assim poder ajudar você e a sua família.
Telma ficou olhando para ele e sentiu tanta sinceridade naquilo que ele dizia, que quase lhe contou a verdade, mas se controlou e disse:
- Foi isso mesmo que aconteceu, doutor.
Bati com o rosto na cadeira.
- Está bem, mas nem sei por que estou fazendo essas perguntas.
Não foi para isso que chamei você e nem tenho direito de me envolver com a vida particular dos meus funcionários, mas sou assim mesmo.
Se perguntar para seus colegas, verá que sempre quero saber se eles têm algum problema em casa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 06, 2017 9:03 pm

Quando vejo uma mulher com o rosto roxo, lembro-me de minha mãe, da minha infância e do meu pai, que era quem fazia com que o rosto dela e os nossos, meu e de meus irmãos, ficassem roxos também.
Isso me causava e ainda me causa um sofrimento e uma revolta que você não pode imaginar.
- Obrigada por se preocupar, doutor, mas está tudo bem lá em casa - mentiu.
- Está bem, mas, se precisar de ajuda, basta pedir.
Hoje sou adulto e sei que existe punição para a violência no lar, basta à pessoa que está sendo agredida dar queixa na polícia.
Agora pode ir.
Telma saiu imediatamente, entrou em sua sala e, respirando fundo, pensou:
Só podia esperar isso dele.
Sempre soube que era um cavalheiro e muito educado, mas nunca imaginei que fosse tanto.
Ele sabe o que aconteceu.
Nossa! Nunca podia imaginar que, em outras casas, acontecia o mesmo que na minha.
Por aquilo que ele falou, parece que existem outros monstros como o meu pai, mas não tenho o que fazer, só minha mãe poderia dar um basta nisso, mas sei que ela nunca vai reagir.
Vem com a desculpa que não pode abandonar aquele homem, porque não tem como sustentar a gente...
Mas eu preferia comer pão com banana a continuar ao lado dele.
Bem, agora que já conversei com o doutor, estou mais calma e, se meu pai voltar a me bater, eu peço ajuda a ele.
Agora vou continuar o meu trabalho.
Parece que tudo está bem, acreditaram na história da cadeira...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 9:10 pm

UMA ESTRANHA VISITA
O tempo passou e tudo continuou da mesma maneira.
O pai de Telma continuou brigando, mas ela, desde o dia em que sua mãe ficou ao lado do pai, preferiu nunca mais se envolver nas brigas deles.
Quando chegava em casa e eles estavam brigando, ela pegava as crianças, punha na cama e ia para o seu beliche.
Seu desejo no momento era aprender a escrever a máquina e, logo, quem sabe, poder fazer o ginásio.
Nunca mais ouviu falar de Plínio, embora todo o dia esperasse que, a qualquer momento, ele aparecesse e dissesse que tudo havia sido um engano e que era dela que ele gostava realmente, mesmo que ela tivesse certeza que isso seria mais uma mentira.
Esperava ansiosa por esse dia e sempre que esse pensamento surgia em sua mente, pensava:
Sei que esse dia vai chegar, que ele vai aparecer na minha frente e mentir novamente.
Quando isso acontecer, vou me vingar.
Ele não perde por esperar!
Era mais um dia de trabalho quando, na hora do almoço, ao sair, viu vários de seus companheiros diante do quadro de avisos.
Aproximou-se, perguntando:
- Que está acontecendo, Marieta?
- Olhe, é o convite de casamento do Plínio.
Ele vai se casar no fim do mês e está convidando a gente para ir.
Acho que vai ser uma festa muito grande, não vou perder por nada!
Telma olhou para o quadro e pôde ver que realmente o convite estava lá.
Começou a tremer e sentiu que todo o sangue desaparecia de seu rosto.
- Você vai também, não vai, Telma?
Ela ouviu a pergunta de Marieta como se viesse de muito longe.
Seu coração batia tão forte, que ela conseguia ouvir suas batidas.
Percebeu que ia chorar e, saindo para que os amigos não percebessem como ela estava, disse:
- Não sei Marieta.
Preciso conversar com meus pais.
Antes que Marieta continuasse com aquela conversa, ela saiu rapidamente.
Já na rua, deixou que as lágrimas caíssem por seu rosto:
Agora está tudo terminado.
Esperei tanto que ele voltasse, mas ele não apareceu.
Fui enganada, e ponto final.
Mas, um dia, ainda vou me vingar.
Ah se vou!
Chegou em casa.
- Que aconteceu, Telma, por que está chorando dessa maneira? - Sara perguntou, assustada.
Sem conseguir evitar as lágrimas, Telma contou o que havia acontecido.
Sara a ouviu e, quando ela terminou de contar, disse:
- Entendo que você esteja assim, mas ele foi embora, felizmente, antes que você perdesse todo o controle e se entregasse sem pensar.
Agora vai poder esquecer esse moço para sempre.
Já te disse várias vezes.
Você é muito jovem, tem uma vida toda pela frente.
Outros rapazes aparecerão, você vai se apaixonar outras vezes e, queira Deus, um dia você vai encontrar um homem que realmente te ame e te faça feliz.
Agora, venha almoçar.
- Não estou com fome, mamãe.
Só quero chorar - e, enquanto olhava para Sara, pensava
Preciso contar para ela que aconteceu algo mais, mas não tenho coragem.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 9:11 pm

Ela sempre conversou muito comigo a esse respeito, de como o corpo se transforma e como nasce uma criança.
Por que não a escutei?
Também, ela não precisa...
Nunca vai saber que me entreguei de corpo e alma para ele.
- Sei que não está com fome, mas, mesmo assim, precisa se esforçar e comer ao menos um pouco - Sara disse, não imaginando o drama que Telma estava vivendo.
- Sabe o que mais me magoa, mamãe?
- O quê?
- É ele ter desaparecido sem dizer coisa alguma.
Sem dizer qual foi o motivo.
Entrou na minha vida sem que eu pedisse e saiu da mesma maneira.
Por que não foi sincero assim como eu fui?
- A mulher é diferente do homem e muito mais corajosa, minha filha.
Os homens são covardes e não gostam de enfrentar as coisas de frente.
Dizem que, quando desaparecem sem dar satisfação, é porque têm medo de magoar.
Mas eles não imaginam, nem de perto, o quanto magoam a mulher quando fazem o que esse moço fez com você.
As mulheres se apaixonam realmente, enquanto os homens, muitas vezes, se aproximam somente por desejo sexual ou para conquistarem aquela que lhes parece difícil...
Mas eles quase nunca locam sentimento nessa história.
Na realidade, o homem não passa de um covarde, sem coragem de assumir o que realmente sente.
Quando eu te disse que muitos outros aparecerão, preciso dizer também que, quase todos eles, farão a mesma coisa.
Por isso, minha filha, tem de estar preparada para não sofrer tanto da próxima vez...
- Mamãe, eu gosto tanto da senhora!
Já conversei a esse respeito com muitas amigas e nenhuma delas tem uma mãe como a senhora, que conversa sobre tudo.
Ainda mais sobre namorado.
Como a senhora pode ser tão diferente das outras mães?
- Simplesmente porque já tive sua idade e já me apaixonei várias vezes até conhecer seu pai.
A vida sempre se repete, e todas as meninas passam por isso que você está passando hoje.
Sei que nem todas as mães pensam como eu e se recusam a conversar com os filhos sobre sua vida sentimental.
Faço isso porque, quando tinha a sua idade, não tinha com quem conversar e sofria muito.
O mundo está mudando.
Um dia, quem sabe, esta conversa que estamos tendo hoje, vai ser uma conversa normal em todas as famílias.
A mulher sempre foi deixada para trás na história e sempre foi controlada, pelo pai, pelo marido e pelos filhos.
Elas não podiam nem votar!
Os homens diziam que as mulheres eram incapazes de escolher os governantes.
Quando houve um movimento para que as mulheres pudessem votar, eu era jovem e nem pensava em me casar, e participei dele.
E, hoje, graças a Deus, ao menos isso conseguimos.
O resto virá com o tempo.
A mulher vai conseguir demonstrar que é tão capaz quanto o homem e que poderá trabalhar como ele.
Sinto que essa nova geração de mulheres que está se formando, assim como você, sabe o que quer da vida e vai lutar para conseguir seus direitos, e torço muito para que isso aconteça.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 9:11 pm

- Mamãe, em algumas coisas a senhora me parece tão inteligente e determinada.
Quando jovem até lutou por seus direitos!
Por que, quando se trata do papai e da sua vida, se conforma em viver apanhando dele?
- Quando eu era jovem, idealizava que minha vida seria boa, mas não tive a oportunidade de frequentar uma escola, de ter uma profissão e, como todas as moças da minha época, só fui preparada para casar e ter filhos.
E, como quase todas elas vivem na dependência do marido.
Além do mais, tenho vocês e não quero, nem por um minuto, que vocês cresçam sem pai.
- Eu não penso como à senhora.
Acho que é melhor pra todos nós a gente viver longe dele do que em uma casa com tanta violência como a nossa.
- A sociedade é cruel e discrimina mulheres que vivem sozinhas.
Os filhos, então, são mais discriminados ainda.
- Como sabe disso?
- Nunca te contei, mas meus pais se separaram quando eu era pequena.
Foi muito triste.
Eu não entendia muito bem o que tinha acontecido, mas, na escola, assim que minhas colegas ficaram sabendo e depois que conversaram com suas mães, elas mudaram de atitude comigo.
Não me convidavam mais para ir às suas casas e nem deixavam que eu participasse de suas brincadeiras.
Um dia, perguntei a uma delas o motivo disso.
Rindo muito, ela me respondeu que não podia brincar com elas porque eu não tinha pai.
E eu não entendi, pois, mesmo o meu pai tendo ido embora, eu continuava a mesma pessoa.
Não tinha mudado em nada.
Só chorei nos primeiros dias, mas, como você disse, vendo que não havia mais briga em casa, estava até feliz.
Minha mãe teve que ir trabalhar em uma fábrica para poder sustentar minha irmã e eu.
Aí, foi pior ainda, pois, assim como hoje, mulher que trabalha fora não presta perante a sociedade.
Ela também foi muito discriminada.
Havia mulheres que se diziam suas amigas.
Mas, quando ela ficou sozinha, elas a evitavam de todas as maneiras e lhe viravam as costas.
Uma delas disse que não queria que minha mãe fosse a sua casa, porque, já que ela não tinha mais um marido, poderia querer roubar o dela.
Lembro que minha mãe chorou muito naquele dia.
Daquele dia em diante, minha mãe se fechou em casa, só saía para ir ao trabalho.
Para nada mais.
Não visitava ninguém e nem era visitada.
Por tudo o que eu e minha irmã passávamos na escola, e por ver o quanto minha mãe sofria, jurei que meus filhos nunca ficariam sem pai e nem eu sem marido, acontecesse o que acontecesse.
- Por isso é que a senhora suporta tudo, até ser espancada quase todos os dias?
- Em parte sim...
Eu não quero que vocês passem o que passei e nem quero passar por aquilo que eu, minha irmã e minha mãe passamos.
- A senhora nunca falou muito sobre sua irmã, só que ela havia morrido.
Do que ela morreu?
- Quando minha mãe começou a trabalhar fora, eu tinha onze anos e minha irmã sete.
Como não tinha ninguém para tomar conta da casa enquanto minha mãe trabalhava, ela achou que eu, por ser mais velha, tinha condições de cuidar da casa e da minha irmã.
Minha mãe, antes de ir para o trabalho, preparava a comida, lavava a roupa e deixava a casa mais ou menos em ordem.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 9:11 pm

Eu tinha que fazer as camas, varrer a casa e lavar a louça do almoço, cuidar da minha irmã e preparar ela para ir à escola.
Como nós duas estudávamos no mesmo horário, à tarde, eu só tinha que almoçar e dar o almoço para ela.
Na hora do almoço, minha irmã quase não comia, mas eu não me importava com aquilo e, na maioria das vezes, eu comia a comida que ela não queria.
Minha mãe, que sempre chegava muito cansada em casa, não percebeu que ela estava ficando fraca.
Quando se deu conta e a levou para o médico, já era tarde.
Ela estava com uma anemia profunda e, por mais que os médicos e minha mãe tentassem, não conseguiram fazer com que a anemia desaparecesse e ela morreu.
Quando isso aconteceu, minha mãe me culpou por não ter visto que ela não comia, por não ter avisado.
Durante muito tempo, eu sofri me sentindo culpada da morte da minha irmã e também por ter ficado feliz quando ela não queria comer, pois assim sobrava mais comida e eu podia comer mais.
Carreguei esse remorso por muito tempo.
Faltavam dois meses para você nascer, e eu estava ansiosa para saber se seria menino ou menina.
Embora estivesse feliz, não conseguia me esquecer de minha irmã e nem me livrar da culpa que sentia.
Uma manhã, quando estava quase acordando... não sei se sonhei ou se já estava acordada...
Acho que estava sonhando...
Mas foi tão real, que parecia que minha irmã realmente, estava ali.
Ela estava muito bonita, vestida toda de branco e seu corpo inteiro brilhava.
Ela sorriu, se aproximou e me beijou no rosto.
Depois, olhou bem no fundo dos meus olhos e disse:
Tata - era assim que ela me chamava - "Você não teve culpa da minha morte.
Eu tinha um tempo certo para viver e esse tempo acabou.
Como pode ver, estou muito feliz e vivendo em um lugar muito bonito.
Sua filha vai nascer e será uma grande mulher.
Você só terá motivo para se orgulhar dela.
Seja feliz e me esqueça, para que eu possa seguir o meu caminho".
- Acordei e, naquele exacto momento, você mexeu em minha barriga.
Eu não sabia se chorava ou ria de felicidade e, então, queria dar o nome dela para você, mas seu pai não deixou, disse que nome de morto dá azar.
Por isso resolvi que te daria o nome de Telma.
O nome dela era Selma, ficaria quase igual.
Como ela me disse, você é especial e, até hoje, só me trouxe orgulho e felicidade.
- Mamãe, será que a senhora viu uma alma penada?
- Não sei se vi ou se sonhei, mas com certeza ela não era uma alma penada e, diria até, parecia um anjo.
- Por isso que a senhora fica sempre tão preocupada quando a gente não quer comer?
- Isso mesmo, embora, hoje, eu saiba que não foi minha culpa, isso nunca saiu da minha cabeça e o que mais me preocupa é a alimentação de vocês.
Falando nisso, vamos almoçar.
Seu pai, quando saiu de manhã, me avisou que não vinha para o almoço.
- Por que de vez em quando ele não vem almoçar?
- Você sabe que ele faz móvel e tem que entregar e montar.
Quando isso acontece, passa quase o dia todo fora da marcenaria.
- Está bem, vamos comer.
Sabe que, enquanto ouvia a senhora falar, sem perceber, parei de chorar e acho que não vou chorar nunca mais na minha vida.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 9:11 pm

- Vai, sim, minha filha.
Mas não precisa ser de tristeza, tomara que seja sempre de felicidade - disse a mãe, sorrindo.
Começaram a comer e Telma estava se sentindo muito bem.
Não viram, mas Selma, a irmã de Sara, sorriu, beijou as duas no rosto e desapareceu.
Telma almoçou e foi para o trabalho.
Enquanto caminhava, ia pensando em tudo que a mãe tinha dito:
Ela sempre falou sobre a mãe, mas muito pouco sobre a irmã.
Nunca imaginei que tivesse tido uma infância tão sofrida!
Não merecia ter um marido perverso como é o pai.
Por tudo que passou, deveria ser muito feliz, mas não é.
E aquele sonho que teve?
Será que existe espírito mesmo?
Será que, quando a gente morre vira espírito e pode vir visitar os que ainda não morreram?
Sei lá, mas seria muito bom se fosse verdade.
Aprendi que, quando a gente morre, fica sem fazer nada, no inferno, no céu, esperando a ressurreição...
Mas seria muito bom se, ao invés de ficar sem fazer nada, a gente pudesse voltar.
Embora mamãe diga que eu e as crianças fazemos a sua felicidade, não acredito.
Ela deve sofrer muito por não poder dar para a gente um lar feliz, diferente do que ela teve.
Mas eu, um dia, vou dar a ela tudo que ela não teve até hoje.
Tenho certeza que ainda vamos ser muito felizes.
Bom, já estou chegando ao escritório.
Espero que não estejam falando sobre o casamento.
Mamãe disse que todos os homens são iguais e que não costumam enfrentar uma situação difícil.
Será que Plínio desapareceu sem dar explicação por isso?
Ou será que houve outro motivo qualquer?
Como você é burra, Telma!
Claro que ele tinha um bom motivo...
Ia se casar e só queria te enganar.
Eu deveria contar para minha mãe tudo que aconteceu, mas sinto muita vergonha.
Ela sempre acreditou em mim, tanto, que acha que eu nunca faria nada de errado...
Nunca passou por sua cabeça que, um dia, eu seria tão burra...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 9:12 pm

A VIDA CONTINUA
Entrou no escritório e, como havia imaginado, todos comentavam sobre o casamento.
Ela passou por eles, sorriu e foi para sua sala.
Os colegas estavam tão envolvidos na conversa, que não perceberam que ela não estava entusiasmada como eles.
Entrou em sua sala e viu vários papéis sobre a mesa.
Que bom que tenho muito trabalho...
Isso vai fazer eu me esquecer de Plínio e do seu casamento...
Os dias foram passando.
Ela mentia para os colegas que estava feliz em poder ir ao casamento, que também estava preparando as roupas, mas sabia que não ia comparecer.
Depois do casamento, inventaria uma desculpa qualquer, sabia que não seria difícil, pois já tinha dito a todos que seus pais eram severos em relação a ela sair de casa.
Durante esse tempo, terminou o curso de dactilografia e recebeu seu diploma.
Com ele na mão, pensava satisfeita:
Agora já consigo escrever com os dez dedos.
Foi difícil e dependeu de muito treino, mas agora já posso ajudar muito mais o doutor Roberto.
Posso escrever todas as cartas e contractos.
Espere, talvez eu não possa fazer tudo isso, porque não conheço muito de português e de gramática.
Isso só poderia ser resolvido se eu pudesse frequentar o ginásio.
O fim de ano está chegando.
Vou tentar o exame de admissão no grupo escolar.
Quem sabe, talvez eu consiga.
Quanto ao Plínio, ainda penso nele, mas não mais com amor, e sim com raiva, e tenho a certeza que um dia ainda vou me vingar de tudo que ele me fez.
Faltava um dia para o casamento, e os funcionários do escritório estavam ansiosos, pois a festa seria na casa de Roberto e todos tinham curiosidade em conhecê-la.
Telma ouvia os comentários e se esforçava para demonstrar que, assim como eles, estava feliz.
Estava trabalhando quando ouviu a campainha.
Levantou-se e foi atender o doutor Roberto.
Assim que entrou, ele a olhou e perguntou:
- Está tudo bem com você, Telma?
- Está doutor, obrigada.
- Está animada com o casamento, amanhã?
Ela não esperava aquela pergunta e levou alguns segundos para responder.
- Estou doutor.
Aliás, todos estão.
Esse casamento vai ser um acontecimento - disse, sem olhar para ele.
- Será sim.
Espero que vá mesmo, quero que você e todos possam compartilhar da felicidade de Plínio e Luísa.
Eles namoram há muito tempo e se gostam muito.
Sei que serão felizes.
Esse casamento vai durar para sempre.
- Que bom doutor.
Desejo que sejam mesmo muito felizes.
- Eles serão.
Sei que Plínio gosta de ter algumas aventuras, mas sempre gostou muito de Luísa.
Aquelas palavras entravam nos ouvidos de Telma como lanças, mas, enquanto ele falava, ela conseguiu se controlar e tentou sorrir.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 9:12 pm

Ele se calou e ficou olhando para Telma.
Queria ver sua reacção.
Como ela continuava sorrindo e calada, ele disse:
- Está bem.
Esse assunto de casamento fica para os comentários na segunda-feira.
Chamei você aqui para dizer que estou muito feliz com o seu trabalho.
Aprendeu rápido e está cada dia melhor.
Conseguiu o diploma de dactilografia, mas precisa estudar mais.
Por isso resolvi que precisa continuar estudando e, depois que terminar o ginásio, se não quiser ser professora, como todas as moças sonham, pode fazer contabilidade para poder crescer mais aqui no escritório.
- Hoje mesmo decidi que vou prestar o exame de admissão e, quem sabe, eu consiga passar.
- Quando vai ser o exame?
- Na última semana de janeiro.
As aulas vão começar em fevereiro.
- Bem, faltam quase dois meses.
Para ter chance de passar, você precisa se preparar.
Vi hoje uma escola que prepara alunos para esse exame.
Fica perto da escola de dactilografia.
Se quiser, o escritório pode pagar para que você a frequente.
Assim, terá condições de igualdade com os outros concorrentes para prestar o exame.
Que acha?
- O senhor vai fazer isso, mesmo, doutor?
- Não sou eu.
Se você frequentar uma escola, posso descontar nos impostos que pago.
Nem tudo está errado no nosso governo.
Você quer? Acha que se preparando vai conseguir?
- Claro que quero, e claro que vou conseguir doutor!
Esse é o meu sonho!
Depois que terminar o ginásio, vou estudar contabilidade, sim, porque no primeiro dia, quando cheguei aqui e vi aquela placa lá fora, eu disse que um dia teria um escritório como este, com placa e tudo!
- Não duvido disso!
Você vai longe!
Mas espero que seja em outro lugar, porque, se for aqui perto, vai tirar todos os meus clientes! - disse rindo.
- Não se preocupe doutor, nunca vou fazer isso e, mesmo que quisesse, não conseguiria.
O senhor tem uma clientela fiel.
- Está bem!
Hoje, quando sair daqui, pode ir tratar da matrícula.
Veja o preço e amanhã eu dou o dinheiro.
- Obrigada, doutor, pode ter certeza que não vai se arrepender.
Vou estudar e passar todos os anos, com louvor.
- Sei disso.
Desde que a conheci, soube que podia investir em você.
- O senhor é tão bom, queria que fosse meu pai.
- E eu queria que você fosse minha filha...
Agora pode voltar para sua sala e terminar o trabalho que está fazendo.
Telma voltou para sua sala. Estava feliz.
Minha vida, mesmo sem Plínio, está seguindo em frente.
Vou estudar e conseguir tudo que sonhei.
O doutor não sabe, mas aquilo que falou sobre o casamento do Plínio me fez muito mal, mas agora não posso me preocupar com isso.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 9:12 pm

Preciso somente estudar e ser alguém.
Ele que seja feliz, porque sei que um dia vou me vingar de tudo que ele fez comigo.
Imagine se vou ao casamento!
Não ia suportar ver ele se casando!
Acho que não ia conseguir disfarçar e ia chorar na frente de todos.
Não vou mesmo...
Assim que terminou o expediente, ela foi correndo para a escola e pegou todas as informações.
Com o papel na mão, foi para casa.
Sara estava preocupada porque ela estava atrasada e, se o pai chegasse antes dela, seria motivo para outra briga.
Ela entrou correndo e mostrando o papel para a mãe.
- Olha aqui este papel, mamãe!
A senhora não vai acreditar!
A mãe pegou o papel, leu e perguntou:
- Que escola é essa, Telma?
Telma contou.
A mãe a ouviu e, depois, disse:
- Por que ele está fazendo tudo isso por você?
- Ele disse que é porque eu sou interessada e que tenho futuro na empresa.
- Só por isso, mesmo?
- Só por isso mesmo, mamãe!
Lá vem a senhora com maus pensamentos!
- Não sei, mas acho muito estranho um homem fazer qualquer coisa para uma mulher, que não seja por interesse.
- Pois com ele a senhora está errada.
Conversei com vários colegas do escritório, e muitos que trabalham lá estudaram e estão nos melhores cargos porque o doutor pagou a escola.
Ele disse que, pagando escola para os funcionários, pode descontar dos impostos que tem de pagar para o governo.
- Está bem.
E, se é só isso mesmo, fico contente por você.
Sei a vontade que tem de estudar e Deus está te dando uma boa chance.
- Que Deus, que nada, mamãe!
Quem está dando é o doutor!
- Não fale assim, minha filha.
Deus está sempre por trás de todas as coisas que acontecem com a gente...
- Então foi ele quem me fez nascer nesta casa e ter esse homem como pai?
Por falar nisso, ele ainda não chegou?
- Não, mas aquele homem é seu pai e foi, sim, por vontade de Deus.
- Acha que preciso agradecer?
Eu agradeceria se ele tivesse me feito nascer na casa do doutor.
Isso sim eu teria que agradecer...
Mas nascer nesta casa, pobre, e com um homem igual a esse como pai!
Não tenho nada a agradecer! Mas esquece...
Hoje estou feliz e não vou me preocupar com isso.
Só sei que vou estudar e conseguir tudo o que quero na vida e, enquanto o doutor estiver por perto, eu sei que vou conseguir.
A senhora vai ver, ainda vou ter o meu escritório, com placa e tudo!
- Está bem, acho que vai conseguir mesmo.
Não aguento mais ouvir você falando nisso.
Vai vencer pelo cansaço...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 9:12 pm

Até Deus já deve estar cansado de ouvir você repetindo isso! - disse rindo.
- Não posso parar de falar, mamãe!
Não posso esquecer o que quero para minha vida!
- Está bem, mas agora vamos jantar?
- O casamento vai ser amanhã, mamãe...
- Que é que você está sentindo?
Ainda está decidida a não ir?
- O doutor disse que queria que todos os funcionários fossem para ver a felicidade de Plínio e o quanto eles se amavam.
- Ele disse isso?
- Disse e, embora eu não goste mais do Plínio, fiquei sem saber o que dizer.
- Por que não vai e mostra para ele que está tudo bem, que você está feliz com a sua felicidade?
- Não posso mamãe!
Eu não estou feliz!
Estou com muita raiva!
- Está bem, sabe que, se quiser, pode ir.
Já comprei um vestido novo para o Natal, se quiser, pode ir com ele.
Ninguém conhece.
- Não vou, mamãe! Não vou!
- Tem tempo até amanhã para decidir.
Agora vamos jantar.
Vá até lá fora e chame as crianças.
Estão brincando na rua e devem estar com fome.
Enquanto a mãe ia para a cozinha, Telma foi até o portão.
Várias crianças brincavam de esconder, entre elas seus irmãos.
Chamou, mas eles não queriam entrar.
Ela insistiu e falou séria, que não deviam atrapalhar a mãe, e o jantar.
Diante disso, eles não conseguiram desobedecer e entraram.
Jantaram e, em seguida, Telma foi para o quarto.
Por mais que não quisesse, não conseguia esquecer Plínio e o casamento dele.
Ele pode se casar e até pensar que vai ser feliz, mas não vai!
É impossível que não tenha um sentimento de culpa por aquilo que me fez.
Mas o dia dele vai chegar!
E, nesse dia, vou ser a pessoa mais feliz deste mundo!
No dia seguinte, na hora em que o casamento de Plínio se realizava em outra paróquia longe dali, embora tivesse dito que nunca mais iria a uma igreja ou a qualquer outro lugar que falasse de Deus, Telma, como até então tinha feito todos os sábados para que Sara não ficasse triste com ela, foi até a igreja que a mãe frequentava, ali mesmo, em seu bairro.
E entrou.
Como em todas as igrejas aos sábados, naquele horário, lá também estava sendo realizado um casamento.
Sentou-se em um dos bancos e ficou olhando a noiva, que entrava com seu lindo vestido branco.
Não podia negar que era uma moça muito bonita e podia-se ver que seus olhos brilhavam de felicidade enquanto caminhava em direcção ao altar, onde seu noivo, visivelmente nervoso, a esperava.
Telma sentiu um aperto no coração e começou a chorar baixinho e a pensar:
Neste momento ele deve estar se casando e sua noiva, como esta que está aqui, deve estar muito feliz.
Eu, por mais que queira, não consigo esquecer-se de como ele foi sempre tão carinhoso, mas também não posso esquecer que ele me enganou.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 9:13 pm

Agora vou embora, não tenho o que falar com esse tal de Deus.
Só tenho muita tristeza e isso não vai ter importância alguma para Ele.
Vou para casa me preparar para, na segunda-feira, ouvir os comentários sobre o casamento.
Preciso encontrar alguma desculpa para não ter ido.
Durante todo o domingo ela passou triste e, a maior parte do tempo, em seu beliche.
Sara a observava sem nada dizer.
Entendia que Telma estava passando por uma situação muito difícil e que, naquele momento, ela se julgava a pessoa mais infeliz do mundo.
Sorriu enquanto pensava:
Tudo isso vai passar.
Ela é ainda muito criança, logo vai encontrar outro rapaz e se esquecer do Plínio.
Tomara que isso aconteça logo, ela é uma menina maravilhosa.
Na segunda-feira, Telma foi trabalhar e, como havia imaginado, seus colegas não parava de comentar o casamento.
Diziam como Plínio estava feliz e como Luísa, sua noiva, estava bonita.
Falavam da festa, como tinha sido luxuosa, e das comidas, e bebidas, em grande quantidade.
Cada palavra que diziam era, para ela, como uma flecha em seu coração.
Ela chegou a sentir dor física.
Marieta, ao ver que Telma não dizia nada, perguntou:
- Telma, por que você não foi ao casamento?
- Eu ia, mas fiquei com muita dor de cabeça.
Não sei qual foi o motivo.
Aliás, ainda não passou. Continua doendo.
- Você perdeu uma grande festa.
A noiva estava linda e o Plínio muito feliz.
- Foi uma pena mesmo, mas não tinha condições de ir.
Durante o dia tive que tomar vários comprimidos.
- Se continuar assim, precisa ir ao pronto-socorro.
- Se continuar, vou sim, mas agora preciso ir para minha sala.
- Todos nós precisamos.
Telma entrou em sua sala e, pensando em tudo que ouvira, deixou as lágrimas escorrerem por seu rosto...
Não tem jeito, não por mais que tente, não consigo parar de sofrer e de chorar, mas vou conseguir esquecer esse homem que me fez tanto mal...
E, bem ou mal, ela estava conseguindo cumprir o que tinha decidido.
Às vezes ainda chorava sozinha, pensando em como tinha sido enganada...
Mas o tempo foi passando, Telma começou a frequentar a escola e, estudando muito, conseguiu passar.
No dia em que soube, chegou feliz em casa:
- Mamãe, consegui passar no exame de admissão!
Nem acreditei quando vi o meu nome na lousa!
Finalmente vou começar a realizar o meu sonho de ter, primeiro, o diploma do ginásio e, depois, o de contabilidade!
- Sabia que você ia conseguir Telma!
Foi sempre muito inteligente e só faltava uma oportunidade.
- Essa oportunidade o doutor me deu e ele não vai se arrepender, mamãe!
Vou continuar a estudar como uma louca e não vou perder nenhum ano, a senhora vai ver!
- Sei disso, minha filha e que Deus te abençoe...
- Que Deus, que nada!
Quem me ajudou foi o doutor e, agora, se eu não estudar muito, não vai ter Deus para me dar o diploma.
- Não fale assim, Telma.
Tudo que conseguimos é sempre a vontade de Deus.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 9:13 pm

- Está bem, mamãe, não quero discutir isso com a senhora.
Estou muito feliz!
A senhora continua com seu Deus, que eu continuo com o doutor e com a minha vontade.
- Também não quero brigar com você e fico feliz em saber que quer estudar e ter uma vida diferente da minha.
Com um diploma, vai chegar a ter um bom salário e nunca vai depender de homem algum para viver e cuidar de seus filhos.
Mas, para que tudo isso aconteça, não basta só a sua vontade, precisa também da vontade de Deus.
A Laurinha me deu um livro para ler e estou gostando muito.
Ele ensina que temos várias vidas e que estamos aqui para resgatarmos alguns erros e, a cada vida, encontramos amigos e inimigos...
E que só assim, resgatando nossos erros, poderemos, realmente, ser felizes.
Ensina, também, que todos têm uma missão e que, em cada vida, temos todas as oportunidades para cumprir essa missão.
Para isto, devemos lutar constantemente para fazer sempre o bem e tirar toda a mágoa e o ódio do coração.
Não gostaria de ler também?
- Outras vidas!
Não estou interessada em outras vidas!
Quero viver esta e conseguir tudo o que quero!
Quanto à mágoa e ódio, isso sim, eu sinto com muita força, e nunca vou perdoar o que Plínio me fez!
Que missão?
Qual é a sua missão, mamãe?
Viver ao lado de um homem que não a ama e a maltrata quase todos os dias?
- Não, Telma, minha missão talvez seja ter dado a oportunidade para que você e seus irmãos nascessem e tivessem a oportunidade de, em mais uma vida, resgatar erros e serem felizes...
- A senhora quer muito pouco da vida e, por isso mesmo, não consegue alcançar nada, mamãe!
Segundo essa sua teoria, a gente ia nascer de novo de qualquer maneira, sendo filhos dele ou de qualquer outro!
Quer saber qual é minha missão?
Vou ficar rica para poder me vingar dele e do Plínio, e sei que vou conseguir.
- Está bem, minha filha.
Estou feliz por você conseguir estudar e torço para que seja feliz.
Quando chegar a hora, vai entender isso que estou te falando.
- Se chegar a hora, você me avisa...
Mas, por enquanto, só estou preocupada com o meu estudo e com o meu futuro, conseguir um diploma, ganhar muito dinheiro e tirar a senhora e as crianças dessa casa!
Esse é o meu desejo e, com Deus ou sem Ele, vou conseguir!
O tempo foi passando e em sua casa tudo continuava na mesma.
Três ou quatro vezes por semana Sílvio batia em Sara, que ficava toda marcada e, quase sempre, com o rosto e o corpo cheios de manchas roxas.
Telma ficava furiosa, mas sabia que nada podia fazer, pois sua mãe tinha muito medo, chorava muito, mas não reagia e nem queria ir até a delegacia para dar parte.
Uma noite, quando chegou da escola, viu Sara sentada em uma cadeira da sala e, chorando muito; aproximou-se e perguntou:
- Outra vez, mamãe?
Quando isso vai terminar.
Qual foi o motivo hoje?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 9:13 pm

Sara levantou o rosto e, horrorizada, Telma viu que o rosto da mãe estava vermelho e inchado, como nunca ficara antes, em algumas partes parecia haver cortes...
Vendo aquilo, disse furiosa:
- Isso não pode continuar mamãe!
Sei que a senhora tem muito medo dele, mas não adianta, qualquer dia ele vai matar a senhora!
Precisa ir à delegacia e dar parte dele!
Esse homem é um monstro!
Onde ele está?
- Depois que brigou, porque disse que a comida estava ruim, saiu e não sei para onde foi.
Não adianta a gente ir à polícia, Telma...
Depois vamos ter que voltar pra casa, porque a gente não tem pra onde ir, minha filha.
E, mesmo que houvesse um lugar para ir, ele diz que vai atrás, mata a gente e depois se mata...
Telma sabia que Sara tinha razão, mas, mesmo assim, dizia:
- A senhora acredita mesmo que ele teria coragem de matar a gente e depois se matar?
Ele é um covarde, mamãe!
Isso não pode continuar!
É preciso encontrar uma solução!
- Não tem solução e não adianta ir à delegacia...
Você conhece a Suzana?
O marido dela também bate nela e nos filhos.
Ela foi à delegacia e os guardas ficaram brincando, rindo na cara dela e dizendo que ela ia voltar para casa porque gostava de apanhar, que era mulher de malandro.
Ela saiu de lá chorando, mas sabia que não tinha outra opção, tinha mesmo que voltar para casa, não porque gostava de apanhar, mas porque não tinha para onde ir.
Como vê minha filha, ela, assim como a gente, também não pode fazer nada.
- Eles fazem isso porque são homens e, assim como esse monstro aqui de casa, também não dão valor para mulher!
Mas isso, um dia, vai ter que acabar, um dia vai existir uma delegacia onde a mulher poderá ir e ser atendida por outra mulher.
Só assim sei que vai ser possível castigar esses canalhas.
- Tomara que um dia isso aconteça, Telma!
Talvez essa seja a solução para terminar com o martírio de muitas mulheres e crianças.
- Mas, apesar de desejar uma solução, eu já acho que isso não passa de um sonho e que nunca vai acontecer!
Não no nosso país.
A mulher, para ser livre, para não sofrer com abuso e espancamento, tem que ter a sua profissão e ganhar um bom salário, para poder se sustentar e também aos filhos.
Por isso é que estou me esforçando tanto, mamãe.
A senhora sabe que é difícil trabalhar durante o dia e estudar à noite, mas não me importo, sei que um dia vou ser contadora e poderei ter um salário muito maior do que tenho hoje.
E, nesse dia, vou tirar a senhora e as crianças desta casa!
Sei que já disse isso muitas vezes, mas só vou parar de dizer quando conseguir!
- Com a ajuda de Deus, você vai conseguir tudo o que quiser minha filha.
- Sei que vou conseguir mamãe e, com ou sem a ajuda de Deus, a senhora ainda vai ser muito feliz...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 9:13 pm

ARMADILHAS DO DESTINO
Quatro anos se passaram.
Nesse tempo, Telma ouviu falar que Plínio estava bem e que tinha um filho maravilhoso.
Sempre que ouvia falar dele, ficava triste e com raiva, por saber que ele estava feliz, sem se preocupar com o que fez comigo, que na época era praticamente uma criança...
E continuava pensando:
Você não perde por esperar, Plínio, ainda vou ter a minha vingança.
Alguns rapazes tinham se aproximado dela, mas ela nunca quis saber de mais ninguém, só queria tirar o seu diploma e aprender todo o serviço do escritório.
E, quando aprendia alguma coisa nova, ela pensava:
preciso é aprender tudo, pois um dia vou ter o meu escritório, preciso saber para poder exigir dos meus funcionários.
Ela tinha estudado muito e, realmente, a recompensa estava sendo alcançada.
Chegou o dia em que ia receber seu diploma do ginásio.
Sua mãe, seus irmãos, e até o pai, estavam muito bem vestidos para acompanhar a entrega do diploma.
A directoria da escola preparou uma solenidade.
Telma, orgulhosa por ter conseguido, recebeu o diploma e, com ele na mão, foi em direcção à sua família que, ansiosa, a aguardava.
Ela se aproximou de Sara, dizendo:
- Consegui mamãe, consegui receber o diploma do ginásio, agora só falta o de contabilidade.
Esse vai ser mais fácil, em três anos vou ser uma contadora e, depois, quem sabe, vou conseguir fazer uma faculdade e, aí sim, vou alcançar tudo o que sempre sonhei.
Sara, chorando, abraçou-a, seus irmãos também, mas o pai só apertou sua mão, dizendo:
- Agora está na hora de ir embora.
Amanhã preciso acordar cedo.
Telma mais uma vez sentiu ódio dele e pensou:
Está com raiva porque sabe que a nossa liberdade esta perto de acontecer.
Só faltam três anos!
Foram embora e, naquela noite, seu pai foi dormir sem brigar.
No dia seguinte, ela orgulhosa, bateu na porta da sala de Roberto e pediu licença para entrar.
- Entre, Telma, o que deseja? - perguntou, levantando a cabeça, pois estava lendo um documento.
- Desculpe doutor, mas quero lhe mostrar o meu diploma.
Ele percebeu que ela estava emocionada e, também emocionado, pegou o canudo que ela lhe deu, abriu, tirou o diploma de dentro e leu o que estava escrito.
- Parabéns, Telma, você realmente conseguiu!
Estou muito orgulhoso!
E você parece feliz!
- Obrigada, doutor, mas, se hoje estou feliz, devo ao senhor, que me deu a oportunidade de estudar.
- O mérito é todo seu, pois, mesmo que eu tivesse dado oportunidade, se você não quisesse estudar, não adiantaria nada.
Mas, e agora, o que pensa fazer?
- Vou tentar entrar no colegial e fazer contabilidade.
- Sei... Você vai ter um escritório igual ao meu, e vai tirar todos meus clientes...
- Não, doutor, nunca vou fazer isso...
- Sei disso - disse ele, rindo - e o que mais desejo é que consiga realizar todos os seus sonhos e, no que depender de minha ajuda, conseguirá.
Agora, volte para o seu trabalho, não é conversando que se chega a ter um escritório...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 9:14 pm

- Está bem, doutor, e mais uma vez obrigada.
Ela saiu.
E Roberto deixou cair uma lágrima, que disfarçara com a risada e tinha conseguido segurar até ela sair...
Estou feliz em ver que essa menina correspondeu à minha expectativa e que realmente está levando a sério os estudos.
Tão diferente da Flávia, que sempre teve tudo e poderia ser alguém, mas não quis, preferiu trocar tudo por uma aventura.
O Magalhães descobriu onde ela está...
Vive em um bairro da periferia, continua ao lado daquele desocupado...
Tem dois filhos e trabalha como doméstica.
Como pôde escolher uma vida dessas?
E eu, que a criei com tanto carinho e nunca deixei de atender aos seus mínimos desejos...
Que fiz com que estudasse no melhor colégio, só para moças de famílias importantes...
Mas ela nunca deu valor, repetiu vários anos, e tudo ficou pior quando conheceu aquele desocupado...
No dia em que ela saiu de casa, eu disse que não era mais minha filha e que nunca mais queria vê-la na minha frente...
Mas hoje estou sentindo tanta saudade do tempo em que ela era criança!
Queria tanto que ela fosse igual à Telma, que trabalha durante o dia e estuda à noite.
Essa menina não tem tempo nem para dormir direito, mas a sua recompensa chegará.
Ela vai conseguir tudo o que quiser da vida...
Quanto à Flávia, quanta tristeza, mas não sei...
Telma prestou o exame e conseguiu entrar no curso de contabilidade.
Feliz com mais essa vitória, ela repetia para si mesma...
Sei que estou atrasada e que já deveria estar prestando vestibular para a faculdade, mas não tem importância, antes tarde do que nunca.
Vou conseguir!
Em uma tarde, Roberto já havia lhe dado todo o trabalho que tinha para resolver, quando ela pediu para passar na sala dele, queria uma explicação para resolver um caso em que a papelada estava incompleta.
Roberto também estava trabalhando, disse que a chamaria mais tarde.
Mas sentiu uma forte tontura.
Tentou se levantar, mas não conseguiu.
Sentiu uma vertigem e percebeu que as forças estavam lhe faltando.
Com muito custo, conseguiu tocar a campainha.
Telma, achando que agora ele podia atendê-la, foi até lá.
Assim que entrou na sala, assustou-se.
Roberto estava como que jogado na cadeira, com a cabeça apoiada sobre a mesa, o disse com a voz muito fraca:
- Telma, não estou me sentindo bem, chame uma ambulância.
Ela, tremendo muito, de início ficou parada, sem saber o que fazer, mas em seguida pegou uma agenda que estava sobre a mesa, abriu e procurou o telefone do pronto-socorro.
Nervosa, assim que achou o número, telefonou, depois saiu da sala e chamou por socorro, logo todos estavam na porta da sala de Roberto, que parecia desmaiado.
Marieta correu para junto dele e pegou no seu pulso, dizendo:
- O pulso está muito fraco e está com muita febre.
Telma telefone para o pronto-socorro!
- Já fiz isso, eles devem estar vindo!
- Está bem, agora quero que todos saiam, vou ficar com ele.
Só você fica, para me ajudar, Telma.
Vamos esfregar os pulsos até que a ambulância chegue.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 07, 2017 9:14 pm

Todos saíram e Telma, muito nervosa, fez o que Marieta pediu.
Estava apavorada, nunca tinha visto ninguém passar mal na sua frente.
Segurando o pulso de Roberto, percebeu que ele estava cada vez mais lento.
Começou a chorar.
Vinte minutos depois a ambulância chegou, levaram Roberto, e Marieta os acompanhou.
Antes de sair disse:
- Telma, telefone para a casa do doutor, conte o que aconteceu e diga que ele está no pronto-socorro.
- Vou fazer isso agora mesmo, Marieta...
Todos os funcionários estavam assustados, mas Telma muito mais.
Temia que algo de mais grave acontecesse com ele e pensava...
Não pode morrer, é um homem muito bom...
Aos poucos todos voltaram ao trabalho.
Telma telefonou para a casa de Roberto, uma empregada atendeu e Telma pediu que chamasse a esposa de Roberto.
Logo em seguida, a mulher atendeu:
- Pois não...
- Dona Nadir, é Telma, a secretária do doutor.
Ele sofreu um desmaio e foi levado para o pronto-socorro.
- Desmaio? Pronto-socorro?
Mas, o que aconteceu?
- Não sei, ele estava bem, me deu algumas ordens em seguida passou mal.
- Está bem, estou indo para o pronto-socorro e obrigada.
Telma desligou o telefone e tentou voltar ao trabalho, mas tanto ela como os colegas não tinham mais condições de trabalhar.
Nadir telefonou para Plínio e ficaram de se encontrar no pronto-socorro.
Vinte minutos depois, ela entrou procurando pelo marido e foi informada que ele havia recebido os primeiros socorros e depois tinha sido levado para um hospital próximo, que era mais bem equipado.
Ela pegou o endereço e foi para o hospital.
Quando chegou, foi informada que Roberto estava em uma das salas fazendo alguns exames.
A moça que estava atendendo não soube explicar o que havia acontecido e pediu que ela aguardasse na sala de espera do quinto andar.
Nadir, muito preocupada, pegou o elevador e foi para o quinto andar.
Quando chegou, viu que havia dois sofás e que, em um deles, estava Marieta.
- Como ele está Marieta?
Que aconteceu?
- Quando chegamos ao pronto-socorro, disseram que lá não tinham condições de atendê-lo, mas acharam que ele estava com pneumonia.
Aplicaram uma injecção e acharam melhor trazer ele para cá.
Disseram que aqui há mais recursos.
- Fizeram bem, além do mais, o Jonas, médico da família, trabalha neste hospital, por isso sei que meu marido vai ser bem atendido.
- Tenho certeza que ele vai ficar bom, dona Nadir...
Mas sente-se, a senhora está muito nervosa e não sabemos quanto tempo vão demorar os exames que está fazendo.
Nadir sentou-se e ficou esperando, sem conseguir tirar os olhos da sala onde Roberto estava.
Estavam lá há muito tempo, não conseguiam precisar o quanto, quando a porta do elevador se abriu e por ela saiu Plínio que, ao vê-la, perguntou preocupado:
- Que aconteceu, titia?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74981
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NEM TUDO ESTÁ PERDIDO / Elisa Masselli

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 3 de 9 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum