O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

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O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 13, 2017 11:03 am

O melhor amigo do inimigo
Mónica de Castro

Pelo espírito Leonel

Para Alcides, que sempre acreditou em mim, e cuja amizade os anos não foram capazes de apagar.
Ser amigo é estar presente a vida toda.
Este livro não seria o que é, não fosse a inestimável colaboração de meu amigo Luiz António, a quem devo todos os esclarecimentos sobre homeopatia.
A ele, minha eterna gratidão.

Prefácio
Todos aqueles que amam os animais provavelmente se identificarão com as palavras contidas nesta obra.
Alguns, por desconhecimento, talvez se surpreendam ou duvidem de algumas questões aqui abordadas.
Outros rejeitarão tudo de cara, porque não acreditam ou não querem acreditar na importância dos animais e de sua indispensável participação no mundo, neste mundo que pertence, igualmente, a tudo que vive.
O mundo já não suporta mais tantas agressões.
É chegada a hora de pararmos de violentar a natureza e de exaurir todas as coisas boas que somente ela é capaz de nos dar.
Depois que tudo se for, o que restará para nós será um imenso vazio, uma aridez inesgotável transformando em pó a beleza das lembranças, um abismo de treva a nos separar do brilho que renova nossos dias.
E, embora a escuridão também possua seu particular encanto, nossos olhos insistirão no apego às coisas visíveis e deixarão escoar, pelo ralo da ignorância, todas as chances de descobrir, nas sombras, nosso próprio rastro de luz.
A hora de mudar é agora.
O tempo já se esgotou para nós.
Essa não é uma visão pessimista das coisas, mas um alerta.
Nada passa impune, muito menos a violência com que tratamos nossos semelhantes, porque este é um dos maiores desequilíbrios que podemos causar na natureza.
É hora de erguermos as mãos e dizermos para nós mesmos: basta.
Este livro tenta nos alertar para a realidade do que se passa na natureza, da qual fazem parte todos os animais.
O mundo também é deles.
E eles são tão simples, tão fáceis de se contentar.
Só querem comida, água, uma caminha gostosa e o principal: muito amor.
Procure amá-los como ama a si mesmo.
Não é difícil, porque eles correspondem aos nossos sentimentos da mesma forma como sentimos.
Se não for possível amá-los, não os maltrate.
Ignore-os, deixe-os ficar onde estão.
Não compre nem adopte.
Não se deixe convencer, não se permita levar pela curiosidade ou pela vaidade.
Sobretudo, não os abandone.
Se você desistir do seu animal, procure alguém que cuide bem dele.
E se não encontrar quem o queira, pare e pense.
Nada cai de para-quedas na nossa vida.
Não existem acasos nem coincidências.
Tudo segue uma ordem preestabelecida pela divindade.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 13, 2017 11:03 am

Se ninguém quiser seu animalzinho, é porque ele tem que ser seu.
Pondere bem sobre isso e, em último caso, aceite o que Deus enviou para você.
Com certeza, esse animal será um bem na sua vida.
Basta você se permitir descobrir as coisas boas que ele pode lhe oferecer.
E não duvide.
Talvez você se surpreenda não apenas com ele, mas com você mesmo.
Leia o livro, pense, acredite na igualdade de todos os seres diante do amor de Deus.
Reflicta na sabedoria da vida e faça a escolha certa.
Siga o seu coração e faça a coisa certa.
Aja com respeito à sua vontade e você não terá do que se arrepender, pois o que vem do mais profundo da alma é inspiração da consciência, que só encontra palavras para o que é preciso ouvir.
Você só tem que silenciar o pensamento, libertar-se do medo, da culpa e deixar a intuição fluir.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 13, 2017 11:03 am

Prólogo
Era como um sonho em que predominava o sentido da audição.
Em meio à confusão, o que sobressaía era o barulho, muito barulho. Buzinas, apitos, gritos, estrondos...
Teria o céu vindo abaixo, fazendo despencar sobre a Terra fragmentos da Lua?
A visão, meio turva, não conseguia conciliar as luzes brilhantes com a dissonância dos ruídos estridentes, a única coisa que ele captava em meio àquela balbúrdia.
O que estaria acontecendo, meu Deus?
O mundo só podia ter disparado para fora do eixo, fugido da realidade e se atirado de cabeça num turbilhão de desordem.
Ou seria de tragédia?
Aos poucos, a vista foi retornando ao foco, embora se divertisse pregando-lhe peças.
Alguém poderia explicar-lhe como é que o chão, uma coisa inanimada, sem vida, de repente ganhara movimentos sinuosos, contorcendo-se num bailado de horror e agonia?
De onde, afinal, surgira aquele fantasma escarlate, todo animadinho, que serpenteava pelo chão com tamanha intimidade...?
Com vagar, os sons se reencontraram, estabelecendo uma certa harmonia na orquestra do terror.
Os fantasmas desfocados se reuniram em coisas únicas, dando forma a pessoas atarantadas e veículos enfileirados num tráfego lento.
Gente que corria de lá para cá, imprimindo pegadas vermelhas e viscosas no negrume do asfalto, ignorando que ele estava ali.
Moisés não entendia.
Por que ninguém notava sua presença naquele mundo desgovernado?
E que mundo era aquele, afinal?
Como fora parar ali sozinho e onde estava seu amigo?
Aturdido, olhou para os lados, à procura...
No meio daquela multidão, era difícil encontrar.
Será que alguém o havia levado?
Vagueando de um lado a outro, o que encontrou foi o assombro, estampado nas feições que se desfiguravam em caretas horrendas diante dele.
A princípio, pensou que aqueles olhares perplexos se dirigiam a ele.
Aborrecido, torceu o nariz e gesticulou com os punhos, mandando a turba se danar.
O que pensavam que ele era?
Alguma atracção bizarra?
Podia não ser nada agora, mas, um dia, ele fora alguém.
Aos poucos, notou que os olhos das pessoas não se detinham nele, mas num ponto além.
Seguindo a direcção para onde elas olhavam, o que viu foram mais e mais pessoas, algumas se movimentando freneticamente, outras, lutando para conter a multidão.
Tudo muito estranho.
Parecia até um acidente.
Mas quem teria se acidentado?
Um corpo jazia no chão, a poucos metros de onde ele se achava.
Sabia que era um corpo porque estava coberto por um plástico preto.
Uma mulher com cara de enfermeira passou rente a ele.
Quase o pisou.
Ele puxou os pés rapidamente, pronto para reclamar de sua falta de atenção.
Foi quando, inesperadamente, o encontrou.
Ao lado da mulher, um homem de luvas levantava o corpo de um animal morto.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 13, 2017 11:04 am

Havia sangue espalhado por todo o seu lindo pelo preto e branco, algumas gotas respingando no chão.
O homem agiu com perícia.
Apanhou o saco preto que a mulher lhe estendia e lá enfiou o cachorro, sem nem ao menos verificar se ele estava em agonia.
Não estava.
Mesmo sem o ver, Moisés sabia que o cão estava morto.
Lágrimas lhe subiram aos olhos, descendo pelo rosto sem dificuldade.
Não tinha receio nem vergonha de chorar.
Era o seu amigo que ia ali.
Quando o homem passou por ele, Moisés decidiu segui-lo.
Precisava saber aonde ele estava levando o seu cachorro.
Não se lembrava de como o cão havia morrido, mas, já que acontecera, caberia a ele o privilégio de enterrar seu corpo.
Fora o único e verdadeiro amigo que tivera por toda a vida.
Tentando segurar o pranto, levantou-se de um salto, correndo atrás do sujeito, aos berros:
- Ei, moço!
Pera aí! O cachorro é meu.
Moço! Dá um tempo!
Nada. O homem não ligou a mínima para seus apelos.
Mesmo assim, Moisés continuou atrás dele.
Precisava recuperar o corpo de seu amigo.
Queria despedir-se, beijar seu focinho gelado, como tantas vezes fizera ao longo da vida.
E prantear a sua dor.
Porque não dizer o seu luto?
Já ia abrindo a boca para chamar novamente o camarada quando uma nova "embalagem” captou seu olhar.
Um outro corpo entrava no saco preto, seguindo o mesmo destino do cão.
Que coisa mais triste, ser relegado a um pacote sem nome no meio de uma estrada desconhecida.
Um pouco hesitante, aproximou-se.
Estranhamente, ninguém tentou impedi-lo.
Mas também não lhe franqueou a passagem.
Muito menos o chamou para perguntar o que ele fazia ali.
As pessoas simplesmente agiam como se ele não existisse.
Por acaso, ele era invisível?
Com a ideia da invisibilidade, veio uma dor aguda na lateral do corpo.
Ele se curvou até quase tocar o chão, apertando as costelas para conter as pontadas agudas.
De cabeça abaixada, espiou por um buraco que se abria entre as pernas dos profissionais que trabalhavam ali e, com assombro, constatou a verdade da qual já desconfiava.
Uma mão enluvada puxava para cima o zíper do saco, encerrando para sempre, nas sombras da morte, o seu rosto magro que nunca mais abriria os olhos para aquele mundo.
De repente, a memória voltou, reproduzindo o inesperado infortúnio:
Tostão correra para o meio da rua seguindo um gato.
Nunca fizera isso.
Sempre caminhara ao seu lado, sem necessidade de ser amarrado na coleira.
Ele empurrava a velha carroça que os mais antigos conheciam como "burrinho sem rabo”, cheia de latas de alumínio e garrafas, que recolhia na praia para vender às cooperativas de reciclagem.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 13, 2017 11:04 am

- Tostão! - gritara - Volta aqui!
Deixa de ser bobo!
Tostão não deu a mínima.
Saiu correndo atrás do gato, que disparou pela avenida movimentada.
Com sua agilidade natural, o gato se desenvencilhou dos veículos que corriam em alta velocidade, chegando ao outro lado ofegante, porém, em segurança.
Tostão, contudo, não teve a mesma sorte.
Assim que avistou o ônibus correndo pela pista do BRT, Moisés soltou a carroça e praticamente se lançou no meio do tráfego.
Sons estrídulos de buzinas o deixaram tonto, mas ele não se deteve.
Correndo feito louco, atravessou a avenida, alcançando o cachorro ao mesmo tempo que o colectivo.
O motorista ainda tentou frear, mas a velocidade não deu aos freios a chance de travar apropriadamente as rodas, e o veículo se chocou contra os dois com violência fenomenal.
Moisés foi atirado longe e Tostão pareceu flutuar.
Sangue espirrou por todo lado, encharcando carne e vísceras.
Ossos fracturados, veias dilaceradas, a morte de ambos foi imediata.
Não deu nem tempo de sofrer.
A certeza da morte não foi tão rápida.
Moisés sabia, mas preferiu não acreditar que havia morrido, apesar de sempre acreditar em vida após a morte.
Desde que a mãe partira, quase vinte anos antes, sabia que existia algo além daquela vida.
Vira-a, por diversas vezes, circulando pela casa, assim como ouvira seus conselhos, em sonhos, quando a mulher o deixara.
Por causa da traição da esposa, Moisés caíra na mendicância.
Tamanho o desespero, deu para beber, foi despedido do escritório de contabilidade, vendeu o que tinha e o que não tinha para afogar as mágoas na bebida.
Cheio de dívidas, perdeu tudo o que a mulher não levou, até a dignidade.
Sem dinheiro, largou o álcool.
Não gostava mesmo de beber.
Só o fazia porque era uma forma eficaz e rápida de não pensar na esposa.
A vida nas ruas lhe acenou como a única possibilidade de sobrevivência.
Moisés ainda tentou evitar aquele destino cruel, mas faltavam-lhe forças.
Vendido o apartamento, sua parte na meação, a princípio, deu para pagar um quartinho fétido numa pensão de quinta.
Mas até isso ele perdeu, no dia em que o cheque foi devolvido por falta de fundos.
A dívida do cheque especial se avolumara de tal forma, que nem o acordo que o banco lhe propusera permitiria quitá-la.
Podia entrar na Justiça para tentar diminuir os juros, mas de que adiantaria?
Ainda que tivesse que pagar apenas o valor histórico do débito, sem juros nem nada, o dinheiro não chegaria.
Apelou para alguns parentes, mas todas as portas se fecharam diante dele.
Sua única irmã lhe virou as costas, horrorizada com o flagelo em que ele se tornara.
Tinha alguns primos distantes, com os quais nunca se relacionara, que o receberam pela porta dos fundos, alegando dificuldades financeiras.
Amigos... sumiram assim que ele decaiu.
Só lhe restou mesmo o abandono das ruas.
Por esse motivo, ele se apegou tanto a Tostão.
Encontrara-o num saco de lixo jogado no rio Trapicheiros.
A descida até as águas não foi difícil, e ele conseguiu resgatar o animal com vida, um filhotinho de cão vira-lata preto e branco.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 13, 2017 11:04 am

A afeição mútua foi rápida e recíproca, tornando-os amigos inseparáveis.
Tostão era a única criatura no mundo que realmente o amava.
E agora se fora.
A morte foi uma surpresa, mas não propriamente um choque.
No fundo, Moisés se questionava se aquele destino não teria sido melhor.
Talvez fosse, desde que ele não se separasse de sua mascote.
Aonde Tostão fosse, ele iria também.
Por isso, não hesitou em seguir o agente do centro de controlo de zoonoses.
Entrou no carro e sentou-se junto ao corpo do cão, chorando sem parar.
- Onde está você, meu amigo? - indagou, angustiado por não ver o espírito do animal junto ao corpo.
Os cães não têm alma?
A partir desse ponto, não se lembrou de mais nada.
Simplesmente apagou.
Quando acordou, viu-se num lugar estranho, porém, muito confortável.
Era um quarto pequeno, reluzente de tão branco.
Uma cama perfumada e macia.
Um jarro de água cristalina e convidativa, pousado na mesinha ao lado.
Sedento, apanhou o copo e encheu-o, sorvendo o líquido rapidamente.
Estalou a língua, olhando ao redor.
Era bem parecido com o que vira em alguns filmes e novelas.
- Oi! — chamou.
Não tem ninguém aqui?
Em resposta, a porta se abriu, dando passagem a uma figura diáfana e brilhante.
Moisés sentiu um arrepio, mas não foi de susto.
Sabia estar diante de um espírito do bem, embora o achasse um tanto parecido com um fantasma.
- Estou aqui - foi a voz doce, que se aproximou para alisar seus cabelos.
Moisés soltou o copo em cima da mesa e abraçou-se a ela.
Reconheceu-a pela voz, em primeiro lugar.
Depois, quando o espírito adquiriu uma aparência um pouco mais “sólida”, distinguiu, nitidamente, o semblante de sua mãe.
— Mãe... - balbuciou ele, emocionado.
Não acredito...
Como é bom ver você novamente!
Lucélia o envolveu com ternura.
Fazia alguns anos que desencarnara, um tanto jovem ainda, vítima do câncer de mama.
Fora muito bem recebida, recuperara-se maravilhosamente e agora auxiliava na recepção dos recém-desencarnados.
Sentia muitas saudades de Moisés e nenhuma do marido, que a abandonara por uma mulher mais jovem, com quem vivia até hoje.
— Não está triste porque desencarnou? — ela perguntou, ainda afagando os cabelos dele, tal qual fazia quando ele era criança.
— Não — foi a resposta firme.
O que tinha a vida a me oferecer além de desgraça?
Minha mulher me deixou, perdi emprego, casa, tudo.
Nem dignidade possuo mais.
— Engano seu.
Você é uma pessoa muito digna.
Aceitou sua nova condição sem se revoltar e seguiu vivendo honestamente.
— Ninguém quis me ajudar, mãe - ele choramingou, lembrando--se de todos os que lhe viraram as costas.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 13, 2017 11:04 am

— Não guarde raiva nem ressentimento.
Cada um agiu da forma que pôde.
E depois, se você reencarnasse em meio a parentes que lhe estenderiam a mão, como faria para cumprir seu destino?
— Destino?
— Não se lembra? - Ele meneou a cabeça.
Foi você que quis virar mendigo.
A vida apenas colocou no seu caminho pessoas que o ajudaram a realizar esse desejo.
— Mas por que diabos eu desejaria ser mendigo? — indignou-se, um tanto quanto incrédulo.
— Isso não importa agora.
Pense apenas no que de mais importante você aprendeu.
— A passar fome?
- Acha mesmo que isso é o mais importante?
— Não propriamente.
O mais difícil foi engolir o orgulho.
— É por aí mesmo.
Você foi lapidar o seu orgulho.
E o fez dignamente, devo reconhecer.
Nós aqui ficamos muito satisfeitos com você.
- Nós quem?
- Eu e todos aqueles que o conhecemos e torcemos por você.
Seus amigos.
— Amigos... não tenho nenhum, a não ser... — Ele levantou os olhos, esperançoso.
Cadê o Tostão? Estava indo atrás dele quando apaguei...
- Você foi adormecido para ser trazido para cá.
Eu, pessoalmente, cuidei de seus ferimentos, para que seu corpo fluídico não guarde sequelas do acidente.
Sente-se bem?
- Muito bem - afirmou, apalpando as costelas, que não doíam mais.
Mas você não respondeu a minha pergunta.
Onde está o Tostão?
Tem alguém cuidando dele?
- Tem, claro.
Só que ele não está aqui.
- Onde está? Quero vê-lo.
- Ele já foi levado.
- Para onde?
- Para um lugar onde cuidam de animais.
Será tratado e, posteriormente, encaminhado de volta à sua essência colectiva.
- Essência colectiva?
Como assim? O que é isso?
- Os animais possuem uma espécie de alma-grupo, para onde retornam após desencarnar, carregando com eles as experiências que adquiriram em sua última existência.
É o que lhes dá o instinto, que é inato em todo ser vivo.
- Que coisa mais fria, mãe! - indignou-se.
E injusta, e insensível também!
Os animais não são como gotas de água, que se atira num balde e fica tudo misturado!
Eles têm sentimentos!
- Essa é a analogia mais utilizada para explicar o fenómeno...
- O quê?
Agua no balde?
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 13, 2017 11:05 am

Não me interessa nada esse tal fenómeno.
Quero o meu cachorro de volta!
Ele se agitava freneticamente, caminhando pela sala como um louco acometido por incontrolável fúria.
- Acalme-se, meu filho.
Tudo é feito com amor, dentro da mais perfeita harmonia.
Não há sofrimento, nem dor, nem tristeza.
- Mas se fizerem isso com o Tostão, ele vai deixar de ser o meu Tostão, não vai?
- Infelizmente, sim - respondeu ela, espantada com a rapidez com que Moisés compreendera o processo.
Ele integrará a essência como um todo.
- Ou seja, ele vai perder a identidade dele.
- Vai... — ela afirmou, hesitante.
- Isso não está certo!
Não podem fazer isso com o Tostão, ainda mais sem o meu consentimento.
Ele é o meu cachorro!
- Tenha calma, Moisés.
É para o bem dele.
- Não é, não.
Tostão ficará bem se ficar comigo.
Você tem que me ajudar a recuperá-lo.
- Não posso interferir nesses assuntos.
Não é atribuição minha.
- E de quem é? - ele perguntou, levantando-se bruscamente da cama.
Quero falar com essa pessoa.
Tostão não pode sumir, não pode.
Moisés chorava, descontrolado.
Achava que morrer seria um bem, mas agora parecia um pesadelo.
Podia aceitar qualquer coisa, até mesmo parar no inferno, menos separar-se de Tostão.
- Ele não sofrerá nenhum mal — ponderou Lucélia.
É a lei natural da vida.
- Lei natural? Todos os cães passam por isso?
- Não exactamente — admitiu.
Alguns auxiliam na recuperação dos espíritos, outros estão prontos para reencarnar como pessoas e ficam aguardando.
- O que faz um cão virar gente? — interessou-se, acalmando-se um pouco.
- A proximidade com o ser humano, que lhe transmite uma grande porção de amor ou de ódio.
São sentimentos tão poderosos que, vividos com intensidade, imprimem naquele ser experiências que se tornam únicas e que acabam por despertar nele uma consciência ainda rudimentar, mas uma consciência verdadeira, uma noção de sua própria existência, de que é um indivíduo capaz de sentir e pensar por conta própria, ainda que o faça de uma forma precária e inconsciente.
Essas experiências se transformam em memórias individuais, que são arquivadas no corpo mental, gerando emoções e pensamentos específicos, que fazem com que ele sinta e pense com algum discernimento.
Ele sabe que é único e sua mente não aceita mais qualquer associação que possa desfragmentá-la.
Perde, então, os ligamentos energéticos responsáveis por reintegrá-lo ao grupo.
É como a matéria bruta que, depois de beneficiada, não pode mais retornar a seu estado primitivo.
Ou como a inteligência artificial que, ao ganhar a capacidade de pensar e sentir, afasta-se de sua natureza tecnológica para aproximar-se da essência humana.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 13, 2017 11:05 am

- E o que acontece?
- Ele se destaca e retorna ao plano astral, onde é recolhido e cuidado.
- E o Tostão não pode ser um desses?
- Sinceramente, meu filho, não sei.
Na verdade, não sei muito sobre esse assunto.
Conheço o processo em geral, mas não o que acontece caso a caso.
- Pois eu digo que pode. Tem que poder.
Não vou permitir que meu Tostão vire água no balde, não vou.
O grau de perturbação dele tornou-se preocupante.
Tanto que Lucélia pediu ajuda aos enfermeiros, que tentaram segurá-lo.
- Vocês não podem me prender! - gritou, exasperado.
Sou um homem livre!
- Não queremos prendê-lo - Lucélia tentou tranquilizar.
Só queremos que você se acalme.
- Quero sair daqui!
Quero ir embora!
Onde está o Tostão?
Aposto como ele está perdido naquela avenida, me procurando.
Quero o meu cão!
Vou encontrá-lo.
Preciso encontrá-lo!
O pensamento ligado ao cachorro formou uma ponte energética com a Terra, e Moisés, inesperada e inexplicavelmente, se viu de volta ao local do acidente.
Não imaginava como fora parar ali, mas não importava.
Não sairia dali sem o Tostão.
A mãe dissera que ele estava sendo cuidado, mas onde?
Não fazia a menor ideia.
Talvez não fosse nada disso e ele tivesse simplesmente fugido.
Sim, era possível.
Tostão era esperto e, muito provavelmente, ao perceber a maldade que iam fazer com ele, arranjou um jeito de escapulir e voltar para a Terra, assim como ele havia feito.
Só o que tinha era que procurar.
Os carros passavam, alheios à sua presença.
Moisés achou engraçado não ser atropelado por nenhum veículo.
Podia sentir-se poderoso, mas não se sentiu.
Ao contrário, lutava contra a sensação de impotência, do medo de nunca mais encontrar Tostão.
Com esse pensamento, levantou a cabeça e olhou para os lados, tentando imaginar por onde começaria sua busca.
Foi quando avistou uma pet shop do outro lado da rua.
Era o lugar perfeito para Tostão se refugiar e esperar por ele.
- Já estou indo, meu amigo.
Com essas palavras, Moisés cruzou a avenida movimentada e, sem abrir a porta da pet, entrou.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 13, 2017 11:05 am

Capítulo 1
- Anda logo, Rodrigo! - Lizandra reclamou.
Vai ficar o dia todo aí?
— Espera, mãe - ele pediu, olhando com cuidado cada gaiolinha da loja.
Dá vontade de levar todos.
Olha só... Coitadinhos!
— É, mas não pode.
Escolhe um e vamos embora.
Rodrigo não conseguia se decidir.
Todos os cãezinhos pareciam lindos, amáveis, ansiosos por encontrar um lar.
Ele pediu à vendedora para retirá-los um a um e segurou-os no colo, mudando de ideia cada vez que sentia uma lambida no rosto.
Rabinhos abanando, todos queriam ir embora com ele.
Pena que só podia levar um.
Passado muito tempo, conseguiu, enfim, se decidir.
— Quero esse aqui - disse, apontando para um filhotinho de border collie que não sossegava dentro da gaiolinha.
— Nem pensar! — esbracejou Lizandra, após uma breve análise do animal.
Veja só o tamanho da pata desse bicho.
Ele vai ficar enorme!
- Ah, mãe, mas ele é tão bonitinho.
Olha só os olhinhos dele.
Tem uma manchinha nesse aqui.
— Nós moramos em apartamento.
Esse cachorro precisa de espaço.
- A gente mora na cobertura.
Tem um terraço inteiro só para ele.
— Esse não.
E ele não pára quieto.
Deve ser muito levado.
— Na verdade, não é, não — intercedeu a vendedora, que acompanhava o episódio, à espera do momento certo para se envolver.
O border é a raça de cão mais inteligente do mundo.
— Pode ser, mas é muito grande e agitado.
— É um cão de porte médio.
— E o que isso quer dizer?
- Quer dizer que ele deve ficar do tamanho de um cocker spaniel, aproximadamente.
Lizandra olhou-o em dúvida.
Não era o que parecia.
- E essa pata? - questionou.
Por aí já dá para imaginar como ele vai ser grande.
- É só impressão.
Ele não vai passar muito do tamanho em que está agora.
- Quantos meses ele tem? — Rodrigo quis saber.
- Três.
- Se aos três já está assim, imagine só quando tiver um ano.
- Ele não vai crescer muito, pode acreditar — a moça insistiu.
Cães de porte médio vão até uns vinte quilos, mais ou menos.
- E isso é pouco? - ironizou Lizandra.
- Leva esse, mãe, leva! - Rodrigo quase implorou.
Ele já gosta de mim.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 13, 2017 11:05 am

O cachorro, agarrado ao pescoço do menino, balançava o rabo e lambia-lhe o rosto, numa alegria peculiar.
Era mesmo uma graça, mas Lizandra tinha um certo receio.
- Ele é destruidor?
- Imagina!
É um cão inteligente, aprende tudo rápido.
- Tá, mas não destrói nem rói nada?
- Um filhote, a senhora sabe como é.
Gosta de brincar.
Mas, como é muito inteligente, logo vai saber distinguir o que pode e o que não pode fazer.
- E a agitação?
- Ele é tranquilinho.
- Tem certeza?
- Tenho.
- Leva, mãe, leva - teimava Rodrigo, dando pulinhos em frente a ela.
- Pelo visto, ele já adoptou o seu filho.
Lizandra consultou o relógio.
Estava atrasada para o salão.
Não podia perder a hora na manicure.
Sem contar que já estava de saco cheio daquela pet.
- Então está bem - decidiu.
Vou confiar em você.
É esse mesmo que você quer, Rodrigo?
- É, mãe.
- Certo. Vamos logo com isso, que estou com pressa.
- É só preencher o contrato — esclareceu a vendedora, retirando o documento de uma gaveta embaixo do balcão.
O pedigree chega em mais ou menos um mês.
E seria bom a senhora levá-lo ao veterinário da loja, que fica aqui ao lado.
Para a garantia, sabe?
- Que garantia?
- Para a senhora ter certeza de que ele não está doente.
- E posso devolvê-lo?
- Só em caso de doença.
Teve uma mulher aqui, uma vez, que quis devolver o cachorro porque ele latia e incomodava os vizinhos.
Infelizmente, não pudemos aceitar.
- Tudo bem - aquiesceu ela, após alguns poucos segundos de hesitação.
Só espero que eu não me arrependa.
- Não vai se arrepender, eu garanto.
Depois que o veterinário constatou a perfeita saúde do animal, Rodrigo saiu levando no colo seu mais novo amiguinho.
A mãe carregava uma sacola com cama, ração, tigelas e coleira, além de um ossinho para ele roer.
Abriu a porta do carro com impaciência, jogando tudo no banco de trás.
Rodrigo empurrou a sacola para o lado e acomodou-se com o cachorro, feliz da vida.
- Billy — disse Rodrigo.
Vai ser o nome dele.
- Tudo bem. Você é quem sabe.
Billy rapidamente se ambientou.
Não estranhou o apartamento e, sem cerimónia, pôs-se à vontade.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 13, 2017 11:06 am

Tão à vontade que sua primeira providência foi se agachar e fazer xixi bem no meio da sala de visitas.
- Essa não! - gritou Lizandra, dando um tapa na cabeça dele.
Não vou tolerar cachorro fazendo porcaria pela casa.
- Tadinho, mãe! - censurou Rodrigo, pegando Billy no colo.
Ele ainda não sabe.
Acabou de chegar.
- Pois então trate de ensiná-lo.
Vou mandar a Anita botar um jornal na área de serviço para ele.
Acho bom ele ficar preso lá até aprender.
- Não precisa.
Ele vai aprender depressa, você vai ver.
- É bom mesmo, ou ele vai apanhar.
- Você nunca ouviu falar que cachorro não aprende apanhando?
- No meu tempo, aprendia, sim.
Agora é que estão com essas frescuras.
Uns bons tapas, e ele não esquece mais.
- Com isso, você só vai fazer com que ele tenha medo de você.
- Deixe ter medo. É bom.
Assim ele vai me respeitar.
- Não é assim que se ensina cachorro.
- E como é que se ensina, hein, sabichão?
- Na base da recompensa.
A gente repete a acção e, quando ele acerta, ganha uma recompensa, tipo um petisco, um brinquedo ou um carinho.
É isso o que ele mais quer: carinho.
- Quanta frescura...
Cachorro não é gente, não precisa de nada disso.
Basta comida e água, que ele fica feliz. - Rodrigo silenciou.
Não adiantava discutir com a mãe.
Ela sempre achava que tinha razão.
— Bom, e agora que você já está em casa com seu cachorro, vou correr para o salão.
Ainda dá tempo de fazer a unha.
Rodrigo amava a mãe, mas certas coisas que ela fazia o deixavam muito triste.
Lizandra não escondia que não gostava de animais.
Fora um custo convencê-la a comprar ou adoptar um cachorro, principalmente depois da Suzy, uma gata que ele encontrara na rua.
Toda branquinha e peluda, um filhotinho abandonado.
Estava com o pai na ocasião.
O pai, mais sensível e compreensivo, não relutou quando Rodrigo quis levar a gata para casa.
Com Lizandra, porém, a história foi bem outra.
Ela, literalmente, deu um ataque.
Não gostava de bicho e, especialmente, detestava gatos.
Davam alergia, eram preguiçosos e traiçoeiros.
- Você tem até amanhã para tirar esse gato daqui - sentenciou.
Só a muito custo Rodrigo conseguiu convencê-la.
Não que ela estivesse propriamente convencida, mas acabou cedendo por insistência do marido.
O casamento já não andava lá muito bem, e fazer a vontade do filho, naquele momento, podia servir para impressionar Vítor.
O resultado, contudo, não foi o esperado.
Como todo gato, Suzy era teimosa.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 13, 2017 11:06 am

Subia na cama, nas poltronas e no sofá, amassava as plantas no terraço, comia as flores e afiava as unhas em qualquer lugar.
Mesmo assim, Lizandra a tolerava porque, pelo menos, era muito limpinha.
Até o dia em que ela percebeu que Suzy havia elegido o encosto do sofá como seu afiador de unhas particular.
Quando se deu conta do estrago, Lizandra fez um escândalo.
- Esse animal não fica aqui nem mais um minuto! — rugiu, colérica, segurando a gata pelo cangote.
Imobilizado, o bicho não reagiu quando ela saiu, carregando-o pela porta que nem uma bala.
Atrás dela, Rodrigo esperneava, pulando na cintura da mãe para alcançá-la.
- Não, mamãe, não! - gritava ele.
Me dá ela aqui!
- De jeito nenhum. Chega!
Anita, segure o Rodrigo para mim.
Vou dar um sumiço nesse gato.
Muito contrariada, Anita abraçou o menino, que chorava em desespero, lutando para se soltar.
- Mamãe, me dá a Suzy! — berrava.
Não faz isso, mamãe, não faz!
- Deixe de frescura, Rodrigo!
A porta do elevador se abriu, e ela entrou com a gata.
Suzy não fez nada.
Deu a Rodrigo um olhar triste, como se entendesse o que ia acontecer e lhe dissesse que tudo ia ficar bem.
Não era culpa dele.
— Suzy... — soluçava o menino.
uzynha...
-Deixe estar, Rodrigo - Anita tentou confortar.
Deus é bom.
Vai arrumar uma família boa para a Suzy.
Muito cedo, Rodrigo se deu conta de sua impotência diante da tirania da mãe.
Tinha sete anos quando ela se desfizera de Suzy.
Lizandra amava o filho.
Nunca lhe encostara a mão e, dentro de suas limitações, procurava fazer tudo por ele.
Só que tinha aquele jeito autoritário e nada carinhoso.
Era uma mulher fria, insensível, egoísta.
Quando se casou com Vítor, pensou que estivesse apaixonada por ele.
Depois, com a convivência, percebeu que tudo não passara de empolgação.
Vítor, por outro lado, distanciava-se dela a cada dia, irritado com seu mau génio e suas futilidades.
No princípio, tentou argumentar, mas Lizandra era impossível.
Não aceitava opinião de ninguém e rejeitava ser tachada de pessoa difícil.
Preferia acreditar que era determinada, auto-suficiente e não dependia de ninguém.
Mesmo assim, sentira um certo medo da reacção do marido quando descobrisse que ela havia se livrado da gata.
Por pouco aquilo não foi o fim do casamento.
Vítor ficou indignado com a atitude da mulher.
Como Lizandra podia ser tão fria e cruel?
- Não sente nada pelo seu filho? - perguntou, colérico.
Não tem coração?
- A gata destruiu o sofá - justificou-se.
Tive que me livrar dela antes que destruísse a casa toda.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 13, 2017 11:06 am

- Por acaso você pensou no Rodrigo?
Na infelicidade que causou a ele?
- Bobagem. Ele é criança, daqui a pouco esquece.
Rodrigo não esqueceu.
Saiu pelas ruas com o pai, procurando a gatinha, mas não a encontrou.
Depois soube, por Anita, que ela fora resgatada por um porteiro da vizinhança, que voltou para o Norte, levando Suzy com ele.
Era isto que lhe dava algum conforto:
saber que ela estava bem, como Anita dissera.
Rodrigo nunca mais a viu.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 13, 2017 11:06 am

Capítulo 2
Enquanto esperava, Lizandra andava de um lado a outro, causando nervosismo na secretária do Dr. Danilo.
Sílvia olhava para ela de soslaio, pensando na melhor forma de acalmar a mulher.
— A senhora quer um café? — indagou, solícita.
— Não, querida, obrigada - respondeu ela, com uma educação forçada, que mal ocultava a impaciência.
Será que ele ainda vai demorar muito?
Sílvia deu de ombros e encarou o paciente do horário seguinte, que já se preocupava com a possibilidade de aquela mulher desequilibrada querer passar na sua frente.
Não era à toa que ela estava no consultório de um neurologista.
Tinha os nervos à flor da pele.
Quando, quinze minutos depois, a porta se abriu, Lizandra irrompeu consultório adentro, esbarrando no paciente que saía e ignorando o outro, que se preparava para se levantar.
Sílvia não disse nada.
Estava acostumada às interrupções abruptas de Lizandra, sempre agitada e nervosa.
— Um minuto só, seu Joaquim - disse o médico, dirigindo-se ao homem, que tornou a se sentar com ar emburrado.
Não vou me demorar aqui.
— Meu caso é urgente — anunciou Lizandra.
Mal ele fechou a porta, Lizandra se atirou em seus braços, beijando-o pelo rosto, pelo pescoço, tocando suas partes íntimas para deixá-lo excitado.
— Lizandra, por favor - censurou ele, afastando gentilmente a mão dela.
Estou trabalhando.
Tem um paciente à minha espera.
— Que se dane!
Não vê como estou nervosa?
- Posso lhe receitar um calmante da homeopatia, se você quiser.
- Não é disso que preciso!
Ainda mais de gotinha de homeopatia.
Não serve para nada!
- Se é o que diz...
- Você não me ama mais - interrompeu ela, fazendo beicinho.
Agora, só sabe me evitar.
- Tenho trabalhado demais - ele justificou, sem olhar nos olhos dela.
Vá para casa, depois a gente conversa.
- Depois quando? — tornou a aborrecer-se.
Quando Vítor estiver dormindo?
Ou no banho?
- Eu ligo para você assim que o último paciente sair, lá pelas cinco horas.
Vítor ainda não terá voltado do trabalho e poderemos conversar um pouco.
- Eu quero você, preciso de você! - suplicou, angustiada.
Não aguento mais tanta frieza.
Ela tentou abraçá-lo novamente, mas ele se esquivou.
Segurando os punhos dela, deu-lhe um beijo rápido nos lábios e soltou-a, abrindo a porta em seguida.
- Não se preocupe, dona Lizandra — disse, em tom profissional.
Tome os comprimidos correctamente, que a senhora vai melhorar.
Ela saiu espumando, sem dizer uma palavra.
O paciente entrou emburrado, mas Danilo fingiu não perceber.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 14, 2017 9:58 am

Atendeu-o normalmente, procurando não pensar em Lizandra.
Aquela relação não tinha mais futuro, contudo, ela insistia em prosseguir.
Por diversas vezes, Danilo tentou romper com ela, mas Lizandra não aceitava, ameaçando contar tudo à esposa dele.
Como se ela também não fosse casada!
De qualquer forma, estava decidido.
Quem ele amava mesmo era Marília.
Ele e a mulher haviam enfrentado uma crise no casamento que agora, finalmente, estava se resolvendo.
Ele andara entediado, queria viver coisas novas, diferentes, ao passo que Marília era uma mulher sossegada, caseira, acomodada à rotina.
Trabalhava, cuidava da casa, dos filhos, não tinha ambições.
Ao menos, era isso o que ele pensava.
Até o dia em que ela, preocupada com o desinteresse dele, chamara-o para uma conversa.
- Não entendo por que você está tão distante — começara.
Foi alguma coisa que eu fiz?
- Não estou distante - desconversou.
Estou só cansado.
- Isso é desculpa, você sabe.
Assim como eu também sei.
Ele não disse nada, e ela prosseguiu:
- Você pensa que sou boba, mas a verdade é que não sou.
Sou apenas diferente de você, o que não faz de mim uma mulher estúpida.
- Eu nunca disse isso! — objectou, com veemência.
- Nem precisa.
Basta ver o modo como você age.
- Como assim?
- Pensa que não tenho notado seu comportamento?
Você tem me evitado, parece ter perdido o interesse por mim.
Porque será? É porque já estamos casados há dezassete anos?
Porque já não sou mais jovem nem tenho o corpo durinho como essas meninas saradas que vivem na academia?
Ou porque não gosto de farras nem de bebida?
- Não é nada disso - ele rebateu, angustiado.
- Então, o que é?
- Nada.
- Nada, não.
Você está diferente, e não é impressão minha.
Até as crianças notaram.
Mais uma vez, silêncio.
- Você tem uma amante?
A pergunta directa causou um tremor que arrepiou todos os pelos de seu corpo.
Agora era o momento de admitir a verdade, mas Danilo tinha medo da reacção de Marília.
Não estava preparado para ficar sem a esposa.
A voz da mulher tornou a percorrer seus ouvidos, exigindo uma resposta:
- Tem ou não tem?
- Não - mentiu, da forma mais natural que conseguiu.
Durante alguns minutos, ela permaneceu encarando-o, perscrutando, com olhos enigmáticos, seu semblante de pedra.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 14, 2017 9:58 am

Era como se soubesse que ele não estava sendo sincero.
- Se você diz, vou acreditar - afirmou ela, embora ele soubesse que era ela quem agora mentia.
Mas você tem que me dizer o que está acontecendo.
Eu mereço a sua sinceridade.
Ela tinha razão.
Ele andava esquisito, distante, evitava-a de todas as formas, alegando cansaço ou dor de cabeça.
Marília não era burra.
É claro que já havia percebido.
Diante dessa certeza, Danilo achou melhor embarcar numa meia verdade:
- Para ser franco, Marília, estou mesmo um pouco cansado do nosso casamento.
Ele parou de falar, experimentando o efeito de suas primeiras palavras.
- Estamos casados há tanto tempo, e tudo continua igual.
- Igual a quê?
- Ao começo.
Não fazemos nada de diferente, não nos divertimos.
Quando viajamos, não vamos além de Búzios.
Construímos um património sólido e não usufruímos de nada.
Você é uma mulher maravilhosa, mas não tem entusiasmo.
Conforma-se em ser uma mera secretária, vive para cuidar da casa...
Calou-se, envergonhado por atirar nela a culpa pela sua traição.
Marília o fitava com olhos brilhantes, que anunciavam a proximidade das lágrimas.
Mesmo assim, ela não chorou.
- Antigamente, os homens reclamavam porque as mulheres queriam trabalhar fora e negligenciavam o serviço doméstico - divagou ela.
O meu marido reclama porque sou óptima mãe, esposa e dona de casa.
Havia desprezo no tom de voz dela, o que deixou Danilo ainda mais constrangido.
- Não se trata disso.
Você é óptima, eu reconheço.
Mas eu queria uma mulher que fosse minha companheira, que gostasse das mesmas coisas de que eu gosto.
— As pessoas são diferentes, Danilo.
Cada uma tem suas preferências, o que não significa que estejam certas ou erradas.
- Não se trata de certo e errado.
Trata-se de... de chegar junto.
- Chegar junto onde?
No bar da esquina?
No papo furado com os amigos de copo?
Ou no show de pagode, que eu, com todo respeito, detesto?
Ele a encarou, contrariado.
Nunca a ouvira falar daquele jeito.
- Você está sendo agressiva — reclamou ele.
- Não. Estou apenas tentando ser sincera.
E acho bom mesmo você ter introduzido esse assunto.
Assim poderemos esclarecer as coisas, de uma vez por todas — ele a encarou, em silêncio.
Em primeiro lugar, eu não gosto de bebida nem de conversa de bêbado.
Logo, o que vou fazer num bar?
- Companhia...
- Isso! Do mesmo jeito que você me faz companhia quando quero ir ao teatro.
- Isso não é justo, Marília.
Você sabe que eu não tenho paciência para teatro.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 14, 2017 9:58 am

- É, eu respeito.
Mas por que você acha que sou obrigada a gostar de bebida e aturar papo de botequim?
— Não é a mesma coisa...
— Onde está a diferença, posso saber? - Ele não respondeu.
A diferença é que, quando se trata de você, tenho que fazer a sua vontade.
Mas, quando se trata de mim, você não quer nem saber.
— Não é bem assim.
— Será que não?
A verdade, Danilo, é que gosto de cuidar da casa e dos filhos.
Sou uma boa dona de casa porque tenho amor à família e ao lar.
Me agrada ver tudo bem cuidado, perfumado, bonito.
Apesar de termos empregada, gosto de cozinhar, de preparar pratos especiais para você e as crianças.
Isso me faz bem, mas não faz de mim uma idiota.
Eu não me anulo para fazer essas coisas, porque elas me dão prazer.
Agora, nada disso me impede de investir também no meu lado profissional.
— De secretária?
— Secretária, sim, qual o problema?
Tenho diploma universitário em secretariado executivo, coisa que você não desconhece, e sou também formada em direito.
Falo inglês, francês e espanhol, além de estar estudando mandarim.
Somando tudo, tenho duas faculdades e três cursos completos de línguas.
Isso me tornou uma profissional altamente qualificada e requisitada.
Tenho emprego garantido aonde quer que eu vá.
Sou uma secretária de alto nível, uma assessora, na verdade.
Fui promovida e você nem se lembra.
Exerço uma função da mais alta confiança na empresa e ganho um salário condizente com as responsabilidades do meu cargo.
Gosto do que faço.
— Eu nunca soube quanto você ganha.
- Porque nunca se interessou em saber.
Mas será que não repara como eu ando bem-vestida, bem cuidada?
Como as crianças vivem arrumadinhas, como há sempre uma coisinha nova na casa?
Onde é que você acha que eu arranjo dinheiro para tudo isso?
Com você é que não é, pois não lhe peço nada.
Eu trabalho, e trabalho muito.
Ele pensou em interromper, mas ela não lhe deu chance.
— À noite e nos fins de semana, quero ficar com a minha família, ler um bom livro, assistir a um filme interessante.
E não viajamos, é verdade, mas porque você não quer se afastar de seus pacientes, o que respeito.
Sim, sou caseira e não tenho vergonha de assumir isso.
É o meu jeito, que você deveria respeitar, da mesma forma como respeito seu gosto por bares e botequins.
Isso não me converte num bicho do mato.
Eu não me isolo em casa.
Gosto de sair, só que para outros programas, como praia, cinema e shows.
Só que você nunca se interessou em acompanhar a mim e as crianças a esses lugares, apesar de nossos insistentes convites.
Então, Danilo, quem não chega junto é você.
Danilo estava perplexo.
Seria possível que a mulher fosse aquilo tudo e ele nunca houvesse percebido?
Para falar a verdade, ele não se preocupava com nada que não fosse seu próprio umbigo.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 14, 2017 9:59 am

Reclamava que ela não o acompanhava, quando, na verdade, era ele que não queria a companhia dela.
Ela gostava de cuidar da casa e da família, administrava tudo muito bem.
Todavia, o que mais o impressionou foi a qualificação profissional dela.
Nunca havia se dado conta do quão preparada e inteligente ela era.
Ela estava quieta, fitando-o com uma certa frieza.
Danilo levantou os olhos e viu o seu rosto.
Era um rosto bonito, elegante, sereno, ao qual os óculos de aros finos conferiam um ar de intelectualidade desprovido de arrogância.
Seu coração se enterneceu, como da primeira vez em que a vira, sentada numa cadeira de praia em Cabo Frio, a cara enfiada num livro.
A partir daquele momento, passou a vê-la de outra maneira.
Era como se, de uma hora para outra, um véu se descortinasse e fizesse ressurgir a verdadeira Marília, que ele não enxergava desde que se permitira cegar pelo egoísmo.
— Marília, eu... sinto muito... - balbuciou, envergonhado.
Eu não havia me tocado que você é uma mulher e tanto...
- Não sei se sou uma mulher e tanto.
Sou apenas eu mesma.
- Você está certa em cada palavra do que disse.
Eu é que fui e sou um verdadeiro idiota, para não dizer, desprezível.
- Você é egoísta, Danilo.
Não é que seja um mau marido. Não.
Você é bom marido e bom pai.
Nunca deixou faltar nada em casa, é carinhoso com as crianças e sempre me tratou bem.
Não é grosseiro nem violento.
Ao contrário, é educado, gentil, responsável.
O problema é que nunca parou para pensar que os outros também têm vontades, opiniões e suas próprias características.
O mundo não gira em torno de você.
- Não quero mais ser assim - assumiu, muito sinceramente.
Você pode me ajudar a mudar.
- Não posso.
É você quem tem que mudar a si mesmo, se achar mesmo que deve.
- Vou mudar, Marília — afirmou ele, depois de reflectir por breves instantes.
De hoje em diante, quero me envolver mais com os assuntos da família.
Eu amo você e as crianças.
Quero que sejamos felizes juntos.
Quando ele a beijou, sentiu um amor verdadeiro passando do seu coração para o dela, e do dela para o dele.
Com ela em seus braços, arrependia-se de tê-la traído com Lizandra.
O que vivera com ela fora apenas uma aventura insana.
Ele não a amava.
Gostava dela, mas não a amava, e precisava dizer-lhe isso.
Após um prolongado suspiro de arrependimento, Danilo voltou ao presente e olhou o relógio.
Passava das cinco e meia.
O último cliente já havia ido embora, bem como Sílvia.
A lembrança daquela conversa o levara a um outro mundo, onde predominavam o bom senso e a razão. Lizandra devia estar furiosa com sua demora.
Que ficasse. Faria bem a ela esperar.
Antes de encontrá-la, precisava fazer uma coisa importante.
Com um sorriso nos lábios, apanhou o celular e ligou para Marília, apenas para dizer o quanto a amava.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 14, 2017 9:59 am

Capítulo 3
Mal podendo disfarçar a consternação, Wilson colocou o fone no gancho e encarou a mulher.
Isabela esfregava as mãos, ansiosa, apesar do medo de perguntar e lamentar a resposta.
O olhar do marido, porém, já dizia tudo.
- Era da veterinária? - acabou indagando.
- Era. O Toby morreu há poucos minutos.
- Ai, meu Deus!
O André vai ficar arrasado.
- Vamos ter que lhe contar logo.
Ficou decidido que, assim que André chegasse da escola, contariam a ele sobre a morte de Toby.
Era um cachorrinho da raça shih-tzu, bem bonitinho, que uma vizinha dera de presente a André quando sua cadela teve filhotinhos.
Não demorou muito até que o ônibus escolar encostasse em frente à padaria, de propriedade de Wilson.
André saltou e entrou correndo no estabelecimento, por onde atravessaria até chegar ao quintal, nos fundos, onde ficava também a casa da família.
- Oi, pai! Oi, mãe! — cumprimentou, às pressas.
O Toby já voltou?
- Espere um pouco, meu filho - pediu Wilson.
Para que tanta pressa?
- Quero ver o Toby.
- Ele não está aí - disse pausadamente, olhando para a mulher pelo canto do olho.
- Não? Mas você disse que ele voltaria hoje!
- Eu não disse isso.
Disse que, se tudo corresse bem, a veterinária o mandaria para casa hoje.
Mas acontece que... - Calou-se, temendo as próprias palavras.
- O quê?
O quê, pai, fala logo!
- Lamento, filho, mas ele não resistiu.
- Como assim, não resistiu?
O Toby morreu?
- Infelizmente.
A veterinária disse que a transfusão de sangue não adiantou.
Ele estava muito anémico...
André já não escutava.
Soltou a mochila no chão e saiu correndo porta afora, em prantos.
- André, espere! - chamou a mãe, preocupada.
Aonde você vai?
- Deixe — aconselhou Wilson.
Na certa, ele vai procurar a Larissa.
Larissa e André eram amigos desde quando se lembravam.
Inseparáveis, não tinham segredos um para o outro.
Eram almas gémeas e diziam que iam se casar quando alcançassem idade suficiente.
Por enquanto, como tinham apenas nove anos, contentavam-se em ser melhores amigos.
Sendo assim tão próximos, era natural que a primeira reacção de André fosse procurar a amiga para desabafar.
Larissa estava na casa da árvore, que o padrasto construíra para ela, lugar que servia de refúgio às crianças quando queriam brincar, ler ou ficar sozinhas.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 14, 2017 9:59 am

A casa fora construída entre galhos grossos de um carvalho frondoso no quintal, com uma escada de madeira que ia até o chão.
No topo, chegava-se a uma pequena varanda, para a qual se abriam uma janelinha e a porta.
Dentro, um ambiente confortável, com almofadas espalhadas pelo chão de madeira e apenas uma mesinha.
Era ali que os dois passavam a maior parte do tempo juntos.
André galgou os degraus de par em par, logo alcançando a varandinha de tábuas.
Escancarou a portinhola e entrou ofegante, dizendo sem rodeios:
- O Toby morreu!
Larissa soltou Nina, sua gatinha de estimação, e olhou para André, já com os olhos transbordando de lágrimas.
- Sério?
- Meu pai acabou de me contar.
- Puxa, André, que coisa triste.
- Carrapato maldito! - praguejou, com raiva.
Levou o meu Tobynho.
- Não fica assim.
Eu empresto a Nina.
Emocionado, André aproximou-se de Larissa, que o abraçou com ternura, recolhendo, em seu ombro, as lágrimas que caíam dos olhos dele.
- Nunca mais vou ter outro cachorro na vida - afirmou ele, afastando-se dela um pouquinho.
- Você não pode dizer isso.
Você não sabe.
- Sei, sim!
Cachorro nenhum vai ser igual ao Toby.
- Nada é igual - comentou ela, com ar de sabedoria.
Mas pode ser bom do mesmo jeito.
- Do que é que você tá falando?
- Quando meu pai morreu, fiquei numa tristeza só.
Não queria mais saber de ninguém nem de nada.
Lembra que eu só conversava com você?
- Mais ou menos.
- A gente vai esquecendo as coisas, né?
Mas ainda me lembro quando minha mãe começou a namorar o Ítalo.
Fiquei furiosa, achei um absurdo, porque ninguém nunca ia tomar o lugar do meu pai.
Ela parou de falar, buscando a lembrança já esmaecida.
- E aí? — estimulou ele, curioso.
- E aí, que ele não tomou mesmo.
O Ítalo é bem diferente do meu pai, mas descobri que ele é bom também.
Lembra quando fui passar uns dias na casa da minha avó, lá em Vassouras? - Ele assentiu.
Quando voltei, ele tinha construído essa casa na árvore para mim.
Foi aí que vi que ele era legal, que gostava de mim e que eu podia gostar dele também.
E isso não ia mudar em nada o que eu sentia pelo meu pai.
- Você nunca me contou isso.
- Estou contando agora.
- Acha que vai ser igual comigo?
- Acho que sim.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 14, 2017 10:00 am

Nenhum cachorro vai ser igual ao Toby, mas vai que você arranja um outro bonzinho também.
- Eu não gostava do Toby porque ele era bonzinho, mas porque era meu amigo.
- Dá no mesmo.
- Não dá, não.
- Tudo bem, não vamos discutir.
- Não quero discutir.
Você é minha única amiga.
- Acho que não é verdade.
Seus pais são seus amigos também.
- É diferente.
Você entendeu o que eu quis dizer.
- Entendi, sim.
Estou apenas querendo animar você.
- E conseguiu.
Só de estar aqui, com você e a Nina, já me sinto melhor.
- Que bom.
Ela sorriu, e, naquele sorriso, ele percebeu o quanto ela gostava dele.
- Eu amo você, Larissa - confessou ele, baixinho, apertando a mão dela.
- Para com isso, bobo — contrapôs ela, enrubescendo, mas sem puxar a mão.
- É verdade. Você sabe que é.
- A gente não pode... somos crianças...
- E daí? Criança não tem sentimento?
- Tem.
- Quando crescer, vou me casar com você.
Você quer?
- Quero - foi a resposta decidida, sem hesitação.
- Porque você me ama?
- Porque eu te amo.
Encerraram a conversa trocando olhares de pura emoção.
Eram crianças, sim, ligadas, porém, por muitas vidas.
- André! - a voz da mãe de Larissa interrompeu o fluxo de energia entre os corações das duas crianças.
André!
Sua mãe está chamando para almoçar.
- Já vou, tia Priscila.
O menino desceu.
Sentia-se melhor depois da conversa e do apoio de Larissa.
- Sinto muito pelo que aconteceu ao Toby - falou Priscila, alisando seus cabelos.
- Obrigado, tia.
- Você volta? - Larissa quis saber.
- Depois que terminar o trabalho de casa.
Tenho um monte de exercícios para fazer.
- Tudo bem.
A gente se vê depois.
- Tchau, Larissa.
Priscila ficou olhando-o se afastar.
Depois que ele se foi, ela se virou para a filha.
Tinha algo a dizer, mas lhe faltava coragem.
- Preciso conversar com você, Larissa.
- Quer subir, mãe?
- É, vou até aí.
Ela subiu e se sentou no último degrau, com a filha espremida ao lado dela.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 14, 2017 10:00 am

- O que foi?
- Tenho uma notícia para lhe dar, mas não sei se você vai ficar muito feliz.
Larissa arregalou os olhos.
Ainda bem que Nina estava dormindo na almofada, dentro da casinha.
Não era nada com ela.
- Morreu alguém? - ela perguntou, receosa.
- Não.
- O que foi então?
- Você gosta do Ítalo, não gosta?
- Muito.
- Ele também gosta muito de você.
Sempre a tratou como filha, não foi?
- Foi.
- Na verdade, ele tem sido muito bom para nós duas.
- Também somos boas para ele...
Não somos?
- Somos. E é porque somos boas, que não podemos negar-lhe um grande favor.
Você não acha?
- Acho - afirmou ela, sem muita convicção, já que não entendia bem o que aquilo queria dizer.
- Você sabe que o pai do Ítalo morreu há alguns meses, não sabe?
- Sei.
O que ela não sabia era porque a mãe lhe fazia perguntas cujas respostas já conhecia.
- Depois que ele morreu, dona Roberta ficou muito sozinha.
Ela tem se sentido deprimida.
- Ela não tem um monte de filhos?
- Tem quatro, mas somente dois moram aqui no Rio.
Ítalo e uma irmã, com quem ele mal fala.
- Tá, mas e daí?
Mãe, o que você está querendo dizer?
- O que quero dizer, minha filha, é que dona Roberta pediu para vir morar connosco.
- Como é que é? — surpreendeu-se a menina, dando um salto que quase a derrubou da escada.
A dona Surtada quer vir morar com a gente?
- Não a chame assim.
É falta de respeito.
- Falta de respeito é aquela velha maluca implicar comigo do jeito que ela faz.
Ela não gosta de mim. Nem da Nina.
Da última vez em que esteve aqui, ela deu uma bengalada na Nina.
Eu vi! Mas ela teve a coragem de dizer, na minha cara, que não tinha feito nada!
Como se a Nina fosse gritar à toa.
Ela odeia gatos.
- Sei que ela é um pouco implicante, mas é porque é velha.
Tenha paciência.
- Eu tenho paciência com ela.
Ela é que não tem paciência comigo.
- Você sabia que ela já foi enfermeira?
- Grande coisa.
Deve ter matado um monte de doentes, igual àquelas enfermeiras que matam os doentes para não ter trabalho ou para ganhar dinheiro das funerárias.
- Dona Roberta pode ser chata, mas nunca foi assassina.
Na sua época, foi uma boa enfermeira.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 14, 2017 10:00 am

Cuidou de muitos doentes.
- Isso não muda nada.
Ela é má e deve ter sido uma enfermeira muito má também.
Que tipo de gente gosta de dar bengaladas em gatinhos? — Priscila não respondeu.
Não sabia o que dizer.
- E, ainda por cima, é fofoqueira!
É mentirosa, inventa coisas sobre mim e o André.
- Sabia que você não ia gostar da ideia, mas não posso fazer nada - lamentou a mãe, consternada por não encontrar uma solução melhor.
Ítalo insistiu, e não tive como negar.
— Ah, mãe, por favor!
Dona Surtada aqui com a gente, não.
Converse com ele.
Ítalo tem que entender.
— Acho que ele até entende, mas também não tem como dizer não.
Afinal, é a mãe dele.
— E onde ela vai dormir?
No meu quarto é que não é.
— Vou ajeitar o quarto dos fundos para ela.
— Mas é ali que você faz suas costuras!
Onde você vai pôr a máquina?
— Ítalo está ajeitando a garagem.
Não temos carro mesmo.
— Não acredito!
Você vai dar seu ateliê para ela e trabalhar na garagem?
— Que exagero, Larissa.
Até parece que tenho um ateliê.
É só um quartinho bem espremido, que quase nem tenho usado.
— Não interessa.
É seu lugar de trabalho.
— Infelizmente, não tem jeito.
Ela chega no sábado.
— Mas já? Falta menos de uma semana!
— É isso ou mandá-la para o asilo.
Você não quer isso, quer?
— Não é problema meu...
— Não, não é.
Mas sei que você tem bom coração e não deseja esse destino triste para ninguém, nem que seja a dona Roberta.
A vontade de Larissa era de gritar, xingar e morder.
Não suportava a mãe de Ítalo, que ela e André apelidaram de dona Surtada, devido aos chiliques que dava a troco de nada.
Reclamava de tudo, implicava com a casa, a comida, a gata, o cachorro e até com André.
Achava um absurdo ela e André passarem tanto tempo juntos, na casa da árvore.
“Um menino e uma menina sozinhos!
Onde já se viu?”
Era o que ela costumava dizer.
A mãe, porém, usara um argumento poderoso.
Larissa sentia pena de velhinhos abandonados em asilo, ainda que fossem chatos feito a dona Surtada.
— Não tem outro jeito?
Priscila balançou a cabeça.
A vinda de Roberta já estava decidida.
Mais do que isso, já fora acertada.
Era só o tempo de esvaziar o quarto de costura e passar uma pintura nas paredes.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 14, 2017 10:00 am

Capítulo 4
Naquele momento, Larissa quis chamar André de volta, mas ele já ia longe.
Na verdade, em casa, sentava-se para almoçar com a mãe.
O pai almoçara primeiro, para não deixar a padaria sozinha, já que não tinham outros empregados.
— Você parece melhor — comentou Isabela.
Foi a Larissa?
— Foi.
— Que bom que você tem a Larissa.
— Eu disse a ela que nunca mais teria um cachorro.
— Não fale assim.
Você não sabe.
— Foi o que ela disse.
— Você está querendo outro cachorro?
— Não.
— Sabe, André, nós estamos em uma situação difícil.
Seu pai teve que despedir o Paulinho porque, com o salário que pagava a ele, pôde pagar a prestação de fornos mais modernos.
Agora, estamos só nos dois na padaria.
— Posso ajudar, se você quiser.
— Você é criança.
Não pode trabalhar.
— O que posso fazer, então?
— Pode nos ajudar a economizar.
— Como? Vão cortar a minha mesada?
Ela sorriu levemente e balançou a cabeça.
— Não chega a tanto.
Mas tivemos que tomar algumas medidas.
— Tipo o quê?
— Para começar, teremos que tirar você do transporte escolar.
- Tudo bem.
Posso ir sozinho para a escola.
- Não vai ser preciso.
- Porquê? Vou parar de estudar?
- Óbvio que não, né, André?
Que ideia! Só que sua escola é muito cara.
Vamos colocá-lo em outra, mais próxima de casa.
- O quê? Mas mãe, estamos no meio do semestre!
- Eu sei, sinto muito.
- Para onde vão me mandar?
Para a escola pública?
- Pensei no colégio da Larissa.
É mais barato e mais perto.
Vocês podem ir juntos e a pé.
- Está falando sério? — seu rosto subitamente se iluminou.
- Estou.
- Vamos ficar na mesma sala?
- Posso pedir para colocarem você com ela.
- Oba! Se é assim, mãe, tudo bem.
Não tem problema mudar de escola.
Vou até gostar.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

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