O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Página 5 de 11 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6 ... 9, 10, 11  Seguinte

Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 19, 2017 11:12 am

Dessa vez, Billy não resistiu.
De uma forma incompreensível para o ser humano, sabia que Wilson o levara até ali para cuidar dele.
Billy subiu no banco com lentidão, embora sem se arrastar.
Sentou-se em uma posição que permitia a Wilson olhá-lo pelo retrovisor.
Os dois podiam se ver.
O cachorro não estava propriamente feliz.
Talvez sentisse alívio e gratidão, mas havia sido marcado pelo trauma do abandono, da traição.
Demonstrava uma tristeza inconfundível no olhar, um quê de amargura que transformava a docilidade em submissão.
O que teria acontecido com ele, era impossível dizer.
Contudo, Wilson podia imaginar.
- Aquele que mais devia amá-lo deve ter sido o seu algoz — afirmou ele, encarando o cão pelo espelho.
Não foi?
- Foi isso mesmo - concordou Moisés, debulhando-se em lágrimas, agradecido pelo tratamento que Wilson dispensava a Billy.
O cão é o melhor amigo do homem.
Mas o homem pode ser o maior inimigo do cão.
Billy não compreendeu nem o comentário do espírito nem a pergunta do encarnado, mas achou que tamanha bondade merecia uma resposta.
Devolvendo o olhar de Wilson através do espelho, pela primeira vez, conseguiu latir.
Permaneceu com a boca entreaberta, a língua meio de fora, esboçando uma careta que, do jeito dele, era o mesmo que sorrir.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 19, 2017 11:13 am

Capítulo 21
De banho tomado, curativo feito e medicado, Billy foi conduzido até a cozinha da casa de Wilson, onde recebeu ração e água.
Num primeiro momento, o cão hesitou, na dúvida entre a fome e a sede.
Preferiu a água, que bebeu sofregamente, quase esvaziando a bacia.
Em seguida, praticamente devorou a ração, deixando apenas alguns poucos grãozinhos no fundo do prato.
— E agora? — Isabela quis saber.
O que fazemos com ele?
Onde vamos colocá-lo?
- No quarto de André, é claro.
Vou pôr a cama dele lá.
Ele deve estar exausto, talvez ainda sinta um pouco de dor.
Melhor deixá-lo dormir um pouco.
Acomodado na cama, Billy logo adormeceu.
Ainda teve tempo de endereçar a Wilson um olhar que parecia de gratidão, antes de as pálpebras, portadoras do sono reparador, pesarem sobre seus olhos.
- Coitadinho - apiedou-se Isabela.
Tomara que fique bom logo.
— Vai ficar. A veterinária disse que a infecção não é grave.
Se tomar o remédio direitinho, em breve estará correndo por aí.
- Como vamos dar a ele essas gotinhas? - questionou ela, avaliando o vidro da medicação homeopática.
Normalmente, esses vidrinhos vêm com aquela tampa doseadora.
— Esse vem com conta-gotas.
Foi feito na farmácia da própria clínica, que só atende os animais da veterinária.
- Ainda bem - fez uma pausa, observando bem o cachorro, e perguntou em seguida:
Ele é de raça?
- É um border collie.
- Nunca ouvi falar.
- Parece que não era muito comum por aqui.
Disseram-me que é uma raça recente, criada na Inglaterra, para servir de cão de pastoreio.
- E virou cão doméstico?
- Creio que sim.
- Será que tem alguém procurando por ele?
- Duvido muito.
Acho que ele foi abandonado porque estava doente.
Sendo assim, ninguém deve estar procurando por ele.
- Tomara.
- E o André?
Está na casa da Larissa?
- Onde mais poderia estar?
- Vou buscá-lo agora mesmo.
Vai ser uma surpresa e tanto.
Ao se aproximar da casa de Larissa, Wilson viu, com desgosto, a figura desagradável de Roberta sentada na varanda.
Pensou em dar meia-volta e passar pela cerca dos fundos, mas era tarde demais.
Ela já o havia visto e o agraciava com seu sorriso mais dissimulado.
- Boa tarde, dona Roberta - cumprimentou ele, tentando parecer simpático.
- Se veio buscar seu filho, ele está lá atrás com a Larissa, trancado naquela casa da árvore.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 19, 2017 11:13 am

- Obrigado.
Ele contornou a casa, seguindo directo para o quintal.
Em outras circunstâncias, teria entrado para cumprimentar Priscila, mas queria evitar o contacto com Roberta.
Mesmo assim, ao se aproximar da árvore, ouviu um barulho de máquina de costura vindo da garagem.
Pela porta aberta, viu Priscila costurando.
- Oi, Priscila! - disse ele, acenando com naturalidade.
- Oi, Wilson! - ela respondeu, de forma inocente.
André está lá em cima, com a Larissa.
- Eu sei.
Não foi preciso chamá-lo.
Ouvindo a voz de Wilson, o menino apareceu na janela.
- Oi, pai. Tá cedo ainda.
- Preciso que você vá em casa um instante.
Quero lhe mostrar uma coisa.
- O que é?
- Você vai ver.
- É coisa boa ou ruim?
- Deixa de história, André, e venha logo.
Pode trazer a Larissa, se quiser.
- A Nina também pode ir? - gritou Larissa, lá de dentro.
Já que ele não sabia a forma como o cachorro reagiria a gatos, achou mais prudente mantê-la em casa.
- Melhor não.
Ela pode fugir.
Vamos, André. Rápido.
- Tô indo, tô indo.
As crianças desceram correndo, deixando Nina na janela.
Durante o trajecto até sua casa, Wilson não falou nada.
André insistia em tentar adivinhar, mas só podia pensar em um novo forno, mesinhas mais modernas, toalhas mais alegres ou qualquer coisa legal relacionada à nova pizzaria.
Larissa apostou num aparelho de som ou numa televisão para pôr na parede.
- Nada disso - negou Wilson.
Parem de tentar adivinhar.
Passaram pelo corredor lateral da garagem, sem entrar na pizzaria, para estranheza das crianças, que começavam a se divertir com o que parecia um enigma.
- Não tem ninguém tomando conta da pizzaria? - André surpreendeu-se.
- Sua mãe fechou só um instantinho.
- Quanto mistério! - exclamou Larissa.
- Aposto que não é nada de mais...
- Fique quieto - Wilson fingiu ralhar.
Entraram na sala, onde tudo permanecia igual.
Tirando a excitação quase infantil da mãe, nada havia que fosse digno de nota.
Sem dizer nada, ela correu na frente, subindo as escadas antes que o filho pisasse no primeiro degrau.
Cada vez mais curioso, André não estranhou quando Isabela parou diante da porta do quarto dele, bloqueando a entrada, com a mão na maçaneta.
É claro que André deduziu que a surpresa era um presente para ele.
Chegou a imaginar um novo cachorro, mas logo afastou a ideia, um sonho por demais distante da realidade.
- Pronto? - perguntou a mãe, já começando a rodar a maçaneta.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 19, 2017 11:13 am

Ela contou até três e abriu a porta.
Sob a luz mortiça do fim de tarde, André nada viu além do quarto arrumado, cada uma das suas coisas no devido lugar.
Quem primeiro avistou o cachorro foi Larissa.
Ao invés do amigo, que procurava, nas prateleiras, qualquer indício de surpresa, ela foi atraída por um movimento quase imperceptível, bem ao lado da cama.
Levou a mão à boca, para sufocar um grito de surpresa.
O grito morreu na garganta, mas a expressão de assombro traduziu a descoberta.
Seguindo seu olhar espantado, André deu de cara com o cão, agora acordado, apesar de bastante sonolento.
A primeira coisa que ele pensou era que se tratava de um bichinho de pelúcia.
Permaneceu mudo, olhando para o suposto boneco, com medo de dar vazão à alegria e depois ter que assumir a frustração.
Depois, achou que poderia ser um sonho ou miragem.
Só que não...
Estava na cara que o ser que se mexia logo abaixo dele não era brinquedo nem miragem, mas um cachorro de verdade.
- Mamãe! - exclamou, finalmente acreditando em seus olhos.
É um border collie!
É o cão mais inteligente do mundo!
- Pronto, viu? - gracejou Wilson.
Aí está, o esperto conhece a raça.
Por que não tivemos a ideia de perguntar logo a ele?
- É meu? - prosseguiu ele, cada vez mais atónito.
- O que você acha, André? — tornou Larissa, impaciente com a pergunta óbvia.
- É claro que é seu - confirmou Wilson.
Sentindo a celeuma que sua presença havia causado, Billy arregalou os olhos castanhos, fitando cada um dos presentes, na esperança de que seu dono estivesse ali.
Mas nada de Rodrigo nem de Lizandra, a quem não sabia que devia atribuir todo seu infortúnio.
Um breve pesar o deixou paralisado, como se, aos poucos, fosse se dando conta de que estava no meio de estranhos.
Admirado, André chegou mais perto.
Ajoelhou-se ao lado da cama do cachorro e experimentou esticar as mãos, que ele recebeu com uma lambidinha sem muito entusiasmo.
- O que é que ele tem? - questionou André.
Acho que não gostou de mim.
- Ele está doente - informou o pai.
Pegou uma infecção urinária, mas já está sendo tratado com homeopatia.
- Deve estar sentindo um pouco de dor — acrescentou Isabela.
- Ele é lindo, André! — elogiou Larissa.
Não importa que esteja doente.
Vai ficar logo bom, você vai ver.
- É claro que vai - concordou Wilson.
Mas por enquanto, ele precisa descansar.
Bem devagarinho, André foi passando a mão pelo cachorro, acariciando sua cabeça, seu pescoço, suas costas.
Ele respondeu com uma virada de bruços, estendendo as patas para cima e exibindo a barriga, onde gostava de receber carinho.
Percebendo o que ele queria, André dirigiu para lá a mão, mas foi obrigado a retirá-la quando ele ganiu baixinho e puxou a perna, encolhendo-se na borda macia da cama.
- Está doendo muito, garoto? - indagou ele, a voz naturalmente amistosa.
Não fique triste. Vai passar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 19, 2017 11:14 am

Eu vou cuidar de você.
Eu e minha amiga Larissa.
Não é, Larissa?
- É claro - ela respondeu, também se aproximando.
Espero que você goste de gatos.
- Onde você o encontrou, pai?
- Como sabe que eu o encontrei?
Ele deu de ombros:
- É um cachorro caro...
- Pois você tem razão.
Nem sonhando, eu teria dinheiro para comprar um animal desses.
Encontrei-o perdido na rua, doente e machucado.
Pode ser que tenha fugido, mas o mais provável é que tenha sido abandonado.
- Por que você diz isso?
- Foi o que me disseram na veterinária.
O border collie é um cachorro agitado, impossível, destruidor.
Deve ter feito uma bobagem muito grande na casa de onde veio, e aí, o puseram fora.
- Que maldade! — indignou-se Larissa.
- Infelizmente, as pessoas compram cachorros de raça porque são bonitinhos, sem atentar para o trabalho que dão.
Alguns crescem muito e não cabem nos apartamentos, são dispendiosos, fazem sujeira, destroem, bagunçam.
As pessoas não têm paciência.
Querem um bichinho de verdade, mas que se comporte como um de pelúcia.
- Todo mundo deveria pensar bem antes de pegar um cão ou gato — observou Isabela.
Ninguém é obrigado a gostar de animais nem a ter um de estimação, mas se o faz, torna-se responsável por ele.
É como a raposa diz para o Pequeno Príncipe:
- Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
Lembram dessa passagem?
As duas crianças assentiram.
- Pois é assim mesmo.
Ninguém precisa se escravizar ao animal, nem a outra pessoa, na verdade.
Mas é responsável na medida em que assume para si o seu cuidado, e pelo tempo em que ele precisa de cuidado.
Uma criança cresce, se torna adulta e pode cuidar de si mesma.
Um idoso, nem tanto.
Um animal necessita de cuidados para sempre.
Abandonar um animal é um atentado contra as leis da natureza.
- Sua mãe está coberta de razão.
Ainda bem que, aqui em casa, não fazemos essas coisas.
- Nem na minha! — completou Larissa, apressadamente.
- Sei disso, Larissa - observou Isabela.
Sua mãe e Ítalo são pessoas do bem.
E é por isso que temos crianças igualmente boas.
- É por isso, também, que você precisa cuidar bem dele - lembrou Wilson.
Ele agora é responsabilidade sua.
- Eu vou cuidar.
Ele vai ser muito feliz aqui.
Não vai, cãozinho? - Billy abanou o rabo de leve, erguendo os olhos sem mexer a cabeça.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 20, 2017 11:19 am

- Ei, pai! Tem alguma coisa esquisita no olho dele.
Wilson se aproximou para examinar a vista do cachorro, mas não viu nada além de uma pequenina mancha preta.
- Isso não é nada - tranquilizou.
É só uma manchinha.
Ele tem os olhos muito bonitos.
Parecem bolas de gude de fundo sépia.
- Sépia?
- É tipo cor de fotografia antiga, meio amarelada, meio marrom.
- Ele tem cara de bonzinho - considerou Larissa.
Aposto como vai gostar da Nina.
- A gente dá um jeito de acostumar os dois.
- Como vai chamá-lo? - perguntou Isabela.
- Toby não pode mais - falou André, pensativo.
Que tal... Bruce?
- Bruce? - tornou o pai.
Tipo Bruce Lee ou Bruce Willis?
- Não, pai. Tipo Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden.
Você sabe o quanto eu gosto de Iron Maiden.
- Se é esse o nome que você escolheu, então, é esse o nome que vai ser - concordou a mãe.
- É isso aí, meu filho.
O cão é seu.
- Bruce - sussurrou ele, envolvendo o pescoço do cachorro.
Você vai ser muito feliz aqui.
Bruce não sabia falar, mas algo em seu íntimo compreendeu que, daquele dia em diante, sua nova família estava ali.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 20, 2017 11:20 am

Capítulo 22
Vítor levou um susto quando a presença de Lizandra foi anunciada em seu escritório.
Em todos aqueles anos de casados, era a primeira vez que ela ia procurá-lo no trabalho.
A primeira coisa que pensou foi em desgraça.
Um medo atroz de que algo houvesse acontecido ao filho levou-o a disparar pelo corredor, sem nem mesmo responder à secretária.
- Lizandra! - exclamou apavorado.
O que foi que houve?
Devia ser algo muito sério, para ela se apresentar vestida como se tivesse acabado de chegar da academia.
- Fiz uma coisa horrível, Danilo! - ela desabafou, atirando-se nos braços dele, aos prantos.
- O que foi que você fez? — indagou ele, cada vez mais angustiado.
Foi algo com o Rodrigo?
Atropelou alguém?
Pelo amor de Deus, Lizandra, me fale!
Ele a conduziu até sua sala.
Pediu água à secretária, sentou-a no sofá, procurou acalmá-la, acariciando seus cabelos.
Ela bebeu devagar, tentando conter os soluços, para que a voz não fosse impedida de sair.
- Você nunca vai me perdoar - divagou ela, olhar a esmo, ainda soluçando.
- Não me diga que foi com o Billy — adivinhou ele, pressentindo uma calamidade.
Foi? Responda, Lizandra.
Você fez alguma coisa com o Billy?
O olhar dela era de súplica, de medo, de agonia.
Queria nunca ter tido aquela ideia maldita.
Se pudesse virar o relógio alguns minutos atrás, tudo seria diferente.
Billy teria levado uma bronca, ficado de castigo, qualquer coisa, menos ter sido abandonado.
Vítor a encarava, sério, aguardando uma resposta.
Ela queria falar, mas não conseguia.
A língua havia travado, contaminada pelo medo.
- Vou perguntar de novo, Lizandra.
A voz dele agora soou áspera, reverberando em sua cabeça e potencializando a dor.
- Você fez alguma coisa com o Billy?
- Ele... - balbuciou, procurando coragem em algum lugar de seu íntimo.
Ele sumiu...
- Como assim, sumiu?
Ele fugiu de novo?
Soltou-se da coleira, disparou pela rua e não voltou mais?
E você não conseguiu encontrá-lo?
Fale, Lizandra!
- Não foi isso. — Ela meneou a cabeça não apenas para negar, mas para afastar a última imagem que guardara dele, sozinho, abandonado, sem entender o que acontecia.
Eu... ele... ele fez xixi na minha cama... e no meu carro...
Eu ia levá-lo ao veterinário, já estava a caminho.
Mas aí, não sei o que me deu...
- O que isso quer dizer?
O que você fez com ele?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 20, 2017 11:20 am

- Eu subi a serra de Grumari e o deixei lá...
- Você o quê?
- Eu voltei para buscá-lo, juro que voltei...!
Mas ele não estava mais lá...
Vítor tentava raciocinar.
Tinha que encontrar um jeito de desfazer a burrada de Lizandra antes que o filho descobrisse, se é que já não havia descoberto.
- Lizandra, estou tentando manter a calma — tornou ele, realmente se esforçando para sustentar o autocontrole.
Você sabe, exactamente, o lugar onde o deixou?
- Sei. Voltei lá, mas ele não estava.
No caminho, entrei na contramão e quase bati em outro carro.
Tive a impressão de ter visto um cachorro igualzinho ao Billy no banco da frente, mas acho que me enganei, porque ele desapareceu de repente.
- Não sei como você pôde fazer isso, Lizandra — censurou ele, passando as mãos pela testa, amargurado.
Ainda mais depois do que aconteceu com a Suzy.
- Eu estava fora de mim...
E ele... acho que estava doente...
- Doente?
- Ele estava gemendo, se urinando todo.
Fiquei apavorada.
Como é que eu ia cuidar de um cachorro doente?
- Não acredito!
Você deu sumiço no cachorro porque pensou que ele estivesse doente e não queria ter trabalho?
Foi isso, Lizandra?
Será possível que você é mesquinha a esse ponto?
Não pensou no animal?
Não pensou no seu filho?
- Não pensei em nada...
- Claro que não.
Na hora, só pensou em você, não foi?
- Por favor, Vítor, me perdoe.
Foi uma idiotice, um ato impensado, mas logo me arrependi.
Ajude-me a encontrá-lo, antes que tenhamos que contar ao Rodrigo.
- Agora você quer a minha ajuda? — rebateu, sarcástico.
Por que não pediu a minha ajuda quando pensou em abandoná-lo?
Eu teria ido até você, levado Billy ao veterinário, cuidado dele, junto com Rodrigo e Anita.
Você não teria trabalho algum.
- Eu não estava raciocinando direito!
Pelo amor de Deus, Vítor, me ajude!
Enquanto estamos aqui discutindo, ele pode estar indo, cada vez mais, para longe.
- Muito bem.
Vamos procurá-lo juntos.
Mas faço isso por Rodrigo, não por você.
Não quero que meu filho passe por outro trauma.
Vítor sentou-se ao volante do carro dela, dirigindo o mais rápido que era possível sem infringir as leis de trânsito.
Demorou um pouco até começarem a subir a serra, onde ele reduziu a velocidade.
- Não foi aqui que o deixei.
Foi mais para cima.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 20, 2017 11:20 am

- Ele pode ter caminhado para qualquer lado.
Fique de olho na estrada.
Se vir algum movimento, me avise.
Ela prestava atenção, torcendo para encontrar o animal.
A questão agora era de sobrevivência.
Sem Billy, Vítor pediria o divórcio e talvez conseguisse a guarda de Rodrigo.
- Não estou vendo nada — constatou, beirando o desespero.
- Está muito quente.
Ele pode estar escondido embaixo de alguma árvore.
Continuaram procurando, olhando, revirando todos os cantos e recantos da estrada.
Quando chegaram ao local onde ela o havia abandonado, Vítor estacionou exactamente no lugar em que ela estacionara algumas horas antes.
— Foi aqui — avisou ela.
Deixei-o bem ali, perto da beira.
— Você o deixou à beira de um precipício?
Ela assentiu.
Era só o que me faltava.
Tomara que ele não tenha caído.
— Quando eu saí, ele estava ali, deitadinho no chão.
— E você não se condoeu?
Não doeu em seu coração ver os olhinhos assustados dele?
— Não...
- Ah, claro, eu me esqueci - cortou, com rispidez.
Você não tem coração.
— Não era isso que eu ia dizer! - replicou ela, uma cascata de lágrimas irrompendo dos olhos.
Eu me condoí, mas não vi os olhos dele.
Parecia que estava dormindo.
— Dormindo - repetiu ele, incrédulo.
Por acaso, não achou estranho o cão ser abandonado e, ao invés de tentar seguir você, simplesmente, se deitar e dormir?
Hein? Não achou?
— Ele estava doente - ela repetiu, a voz um sopro sem vida.
— E você deduziu que ele estava morto, não foi? - Ela assentiu, dolorosamente.
Só que não estava.
Do contrário, não teria saído daqui.
— O que será que houve com ele?
— Muito simples.
Ou ele se mandou ou alguém o pegou.
— E agora?
— Vamos continuar procurando.
Procuraram a tarde inteira.
Vítor desceu a serra, foi até Barra de Guaratiba, circulou pelas redondezas, vasculhou, indagou, prometeu recompensas.
Nada. Ninguém havia visto o cachorro.
Desanimados, com fome, viram-se forçados a desistir.
— Não é possível — considerou ela.
O cachorro evaporou.
— Cachorros não evaporam.
O mais provável é que alguém o tenha encontrado.
É um cachorro lindo, de raça, muito bem tratado.
Se alguém o encontrou, vai ficar com ele ou vendê-lo.
- Porque alguém iria vendê-lo?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 20, 2017 11:20 am

- Porque ele ainda é filhote e custa uma nota.
Só por isso.
Ela escondeu o rosto entre as mãos, chorando mais uma vez.
Desde que se desfizera de Billy, parecia que não fazia nada além de chorar.
- O que vamos fazer agora?
- Eu não vou fazer nada.
Você vai contar tudo ao Rodrigo.
- Ele vai me odiar.
- Pensasse nisso antes de fazer o que fez.
- Por favor, Vítor, me ajude.
Podemos inventar uma história qualquer.
Dizer que ele ficou doente e morreu.
- Não vou mentir para acobertar a sua maldade.
O máximo que posso fazer é pregar uns cartazes com a foto do Billy, oferecendo uma recompensa para quem o encontrar.
- Você está sendo cruel.
Não sente piedade de mim?
- E você? Por acaso sente piedade de alguém além de si mesma?
- Não é justo, Vítor, eu errei.
Quem não erra?
- Todo mundo erra e aprende com seus erros.
Só você repete os mesmos erros.
Será possível que nunca vai aprender?
- Eu aprendi...
- Mesmo? Pois se aprendeu, comece a demonstrar agora.
Assuma seu erro, coisa que você nunca faz.
De volta ao carro, Vítor deu partida no motor, seguindo directo para casa.
Mais tarde, mandaria alguém levar seu carro até ele.
No momento, o mais importante era estar presente para assegurar-se de que Lizandra contaria a verdade a Rodrigo.
Mais importante ainda seria o apoio de que o filho iria precisar.
- Onde é que vocês estavam? - Rodrigo praticamente saltou em cima deles, mal a porta se abriu.
Porque não atenderam o celular?
- Onde estávamos não tinha sinal — justificou Vítor, que só agora via as ligações do filho.
- Cadê o Billy?
Porque não está com vocês?
Mãe, ele fugiu de novo?
Lizandra não se atrevia a olhar para ele.
Daria tudo para sumir, virar uma poeirinha e desaparecer.
Mas não podia. Vítor tinha razão.
Ela precisava encarar o filho.
- Venha cá, Rodrigo — Vítor o chamou.
Sente-se aqui. Sua mãe tem algo a lhe dizer.
Seria impossível não prever algum tipo de desgraça.
Corpo trémulo, Rodrigo sentou-se ao lado do pai, evitando contacto com a mãe.
- O que foi? — perguntou ele, mesmo sabendo que a resposta seria difícil e dolorosa.
As lágrimas nos olhos dele foram o que mais doeu em Lizandra.
Por sua culpa, o filho teria que passar por todo aquele sofrimento outra vez.
Talvez ele nunca mais a perdoasse.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 20, 2017 11:21 am

E, ainda que o fizesse, ela mesma não se perdoaria.
- O menino está esperando - avisou Vítor, estreitando o filho nos braços.
- A primeira coisa que quero que saiba, Rodrigo, é que não fiz por querer... - iniciou ela, mais uma desculpa do que uma explicação.
- Não fez por querer? — repetiu Rodrigo.
Quer dizer então que é verdade?
Billy fugiu outra vez?
- Mais ou menos...
Quero dizer, não foi bem assim...
Ela olhou para Vítor, pedindo socorro, mas o que obteve foi um olhar frio, impassível, no qual desfilava a sombra da hostilidade.
- Mãe, você está me assustando!
Quer me dizer, de uma vez, o que foi que aconteceu com o Billy?
- Ele... ele urinou na minha cama, e eu... fiquei com raiva, e... você sabe como eu sou impulsiva...
- O que você fez com ele, mãe?
- Varei o secador de cabelos na cabeça dele e...
- Você machucou o Billy? — horrorizou-se.
Ele está no veterinário agora?
Ela não conseguia falar.
O nó na garganta tornava impossível a voz de sair.
- Vamos, Lizandra, conte o resto - ordenou Vítor.
- Tem mais? — surpreendeu-se o menino.
Mais o quê, mãe?
Fala logo!
- Eu... - ela hesitou, apertando os lábios para evitar o tremor provocado pela proximidade do pranto.
Eu o coloquei no carro... ia levá-lo ao veterinário, mas aí... não sei o que me deu, fiquei fora de mim.
Mudei o caminho e deixei-o lá...
- Lá onde? - ele agora gritava, agitando-se sob os braços do pai.
- Num lugar distante...
Voltei, pedi ajuda a seu pai, mas a verdade é que ele sumiu.
Não conseguimos encontrá-lo.
Difícil seria definir qual dos três estava mais emocionado.
Lizandra parecia uma condenada a caminho da forca.
Vítor, a testemunha silenciosa, ouvindo a confissão do criminoso.
Rodrigo, por sua vez, não assumiu a posição de vítima.
Estava mais para alguém que recebe a cruel notícia da morte de um filho.
Não disse nada.
Apenas levantou-se para encarar a mãe com olhos vítreos, lívido feito um espectro de órbitas vazias.
O corpo dele foi cedendo à gravidade, tombando lentamente, feito uma folha de papel que cai da mesa, sem poder ir muito longe.
Seu mutismo foi interrompido por um grito gutural, um som de dor misturado com morte, a agonia da ausência de palavras em face do inevitável.
Além disso, nada.
Rodrigo cambaleou, tentou dar um passo para a frente, estendeu os braços, buscando apoio, e, finalmente, desabou.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 20, 2017 11:21 am

Capítulo 23
Depois de submetido aos exames de praxe, Rodrigo voltou para casa.
O médico não constatou nada de anormal em sua saúde física, atribuindo o desmaio a forte trauma emocional.
Apesar do diagnóstico, o menino entregou-se a um silêncio preocupante.
Não falava porque não tinha o que dizer.
Se não podia mais pronunciar o nome do cachorro, nada mais lhe interessava falar.
No dia seguinte, ele mal tocou na comida.
Anita se esmerou no preparo dos pratos mais saborosos, mas não adiantou.
Não sentia fome.
Se forçasse, acabaria vomitando.
Não foi à escola, não quis brincar nem ver televisão.
Entregou-se a uma apatia alarmante, como se vivesse porque tinha que viver.
— Você não pode continuar assim, meu filho - Lizandra preocupava-se.
Vai acabar ficando doente de verdade.
Vamos, coma só um pouquinho.
Ele não comia.
Olhava para ela e se levantava da mesa, sem nada dizer, deixando a mãe em lágrimas, arrasada.
— Isso passa - Anita procurava tranquilizar, embora duvidasse do que dizia.
Ainda está muito recente.
Dê tempo ao tempo.
A noite, parecia que o mesmo se repetiria, desta vez, com Vítor.
No entanto, para surpresa de ambos, Rodrigo aceitou a comida que o pai colocou no prato dele.
Não comeu muito, mas o suficiente para deixar os pais um pouco mais tranquilos.
Quando ele foi para a cama, os dois o acompanharam.
Vítor beijou-o, leu uma história, na qual ele mal prestou atenção.
Mantinha os olhos abertos, embora distantes dali.
Via o pai, sabia que ele sofria, queria confortá-lo, mas não conseguia.
A presença da mãe é que o deixava assim.
Queria que ela fosse embora.
A cadência das palavras acabou em sonolência, mergulhando Rodrigo no esquecimento do sono.
Vítor fechou o livro, pousando-o de leve sobre a mesinha.
Admirou o filho por alguns minutos, beijou-o na testa e saiu sem falar com a mulher.
Lizandra engoliu o pranto.
Por dedicação ao filho, ou para fugir do confronto com o marido, permaneceu um pouco mais, segurando a mão de Rodrigo.
Depois, quando achou que Vítor estaria dormindo, voltou para o quarto.
Encontrou-o recostado na cama, lendo um livro, ou fingindo que o lia.
Tentou não lhe prestar atenção e passou directo por ele, sem dizer nada.
Foi para o banheiro, trancou a porta, ligou o chuveiro.
Saiu cinquenta minutos mais tarde, na esperança de que ele tivesse adormecido.
Vítor, porém, continuava onde estava, lendo o livro com aparente tranquilidade.
Só faltava estar com o livro de cabeça para baixo, pensou ela, certa de que ele não lia nada.
Ignorando-o propositadamente, vestiu a camisola, escovou os cabelos e, disfarçadamente, procurou o reflexo do marido através do espelho.
Vítor ainda estava lá, recostado na cama, na mesma posição, sem virar sequer uma página do livro.
Ela largou a escova e foi para a cama.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 20, 2017 11:21 am

Quando se deitou, finalmente, Vítor anunciou o que mantinha atravessado na garganta há um bom tempo:
- Quero o divórcio.
E vou pedir a guarda de Rodrigo.
Mesmo esperadas, as palavras doeram mais do que cem agulhadas.
- Pense mais um pouco — pediu ela, súplice.
- Não há mais o que pensar.
Já está decidido.
- Por favor, Vítor, eu amo você.
Construímos uma vida, temos um filho.
Quer jogar tudo isso para o alto?
- Quem jogou tudo para o alto foi você.
- Você não pode tirar o Rodrigo de mim.
- Quer ver como posso?
- Isso não é justo.
Sou mãe, tenho meus direitos.
- Sou pai, também tenho os meus.
E Rodrigo, mais ainda, tem o direito de ser cuidado por alguém que se preocupe com ele, que lhe dê carinho, apoio, segurança.
- E eu não dou nada disso?
- Responda você mesma.
-Nunca dei motivos que pudessem me fazer perder a guarda dele.
- Nunca? Tem certeza?
Talvez o juiz não pense assim.
- Ou talvez pense - calou-se, reflectindo nas próprias palavras, até que continuou:
— Não sou eu quem quer o divórcio.
Se você quer, tudo bem, não posso obrigá-lo a continuar casado comigo.
Mas, o meu filho, você não vai tirar de mim.
Ele não retrucou.
Ao olhar para ela, levou um susto com a feição selvagem que encontrou.
Os olhos dela soltavam faíscas, transbordando de uma raiva escaldante, o rosto reflectindo o fogo que lhe consumia as entranhas.
A respiração se tornou ofegante, suas mãos se fecharam, seu corpo tremia.
Vítor não queria brigar.
Procurando manter a calma, levantou-se, puxando o travesseiro com ele.
Carregando o livro debaixo do braço, foi dormir no quarto de hóspedes, deixando-a sozinha, para remoer sua fúria.
Foi uma noite perdida.
Alguns poucos passarinhos iniciaram sua cantoria matinal, dando bom-dia à vida que recomeçava.
Uma claridade suave se insinuava pelas frestas da persiana, colocando o quarto numa penumbra macia, acariciando os olhos de Lizandra, que começaram a ceder ao convite do sono.
Ela piscou algumas vezes, sentindo uma sonolência confortadora relaxando seus músculos e nervos, levando para longe a tensão dos problemas.
Quando seu corpo cedeu ao chamado da quietude atemporal, ela, por fim, adormeceu.
Uma vozinha miúda ressoou em seus ouvidos, choramingando à distância.
Parecia que Rodrigo chorava, chamando por ela de algum lugar perdido na imensidão do mundo dos sonhos.
Era uma ilusão.
Ela projectava no sonho o medo de perder o filho.
Gradativamente, o pranto dele foi aumentando de intensidade, como se alguém apertasse a tecla do volume ininterruptamente, elevando-o até o ponto de os tímpanos não mais suportarem.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 20, 2017 11:21 am

Lizandra se mexeu na cama, procurando atenuar o incómodo que perturbava seu sono.
Virou-se para um lado, para outro, esticou-se, deitou-se de bruços, fez de tudo para silenciar aquele lamento insuportável.
Até que abriu os olhos.
O quarto continuava rodopiando em seu crepúsculo particular, acompanhado de um gotejar que, a princípio, ela pensou tratar-se de chuva, mas que era apenas o barulho do chuveiro.
Vítor, provavelmente, tomava banho para trabalhar.
Totalmente desperta, tornou-se consciente de que o som daquele lamento não se propagava nas ondas do sono.
Vinha dali mesmo, daquele mundo tão inconstante e, ao mesmo tempo, tão petrificado nas artimanhas da matéria.
Rodrigo.
Foi seu único pensamento.
De um salto, disparou para o quarto dele.
Encontrou-o revirando-se na cama, balbuciando frases desconexas.
Tentou segurá-lo, mas ele se debateu, os olhos cerrados, os lábios desenhando palavras que ela não compreendia.
Temendo que ele se machucasse, segurou sua cabeça, sentindo-lhe a pele em chamas.
Gotas abundantes de suor brotavam de sua testa, uma fervura levantada pelo calor da febre.
- Meu Deus! - ela exclamou, apavorada.
Vítor! Vítor, venha cá, pelo amor de Deus!
Me ajude!
Saindo do banheiro, a toalha enrolada na cintura, Vítor ouviu os gritos alarmados de Lizandra, partindo do quarto do filho.
Chegou esbaforido, sufocando um grito de terror ao ver a mulher debruçada sobre o menino, tentando contê-lo na agitação do sono.
Imediatamente percebeu a umidade da testa, o rubor das faces, a fala engrolada por uma inquietação invisível.
— O que está acontecendo, Lizandra?
O que ele tem?
— Não sei - ela respondeu, em lágrimas.
— Ouvi que ele estava chorando e, quando cheguei, encontrei-o assim.
- Ele está ardendo em febre! - constatou Vítor, a mão pousada sobre sua fronte.
Subitamente, Rodrigo começou a se sacudir, atingido por espasmos musculares que percorreram seu corpo inteiro.
Revirando os olhos, a boca retorcida numa contracção que dificultava a fala, pôs-se a emitir grunhidos indistintos, acompanhados de uma espuma branca que saía de sua boca.
— Ele está tendo uma convulsão! — gritou Lizandra, aterrada.
Os dois ficaram atarantados feito duas baratas tontas.
Nenhum deles sabia o que fazer.
Vítor segurou a cabeça do filho e tentou puxar sua língua para fora, mas os dentes trincados não lhe permitiram.
- O que fazemos, Lizandra?
Não dá tempo de levá-lo ao médico.
Desesperada, Lizandra fez a única coisa que seu coração de mãe imaginou.
Pelo que ela sabia, convulsões eram problemas neurológicos, e ela conhecia um neurologista muito competente.
De posse do telefone, discou o número da casa de Danilo, já que ele, dificilmente, atenderia o celular.
Esperou infindáveis segundos, até ouvir uma voz feminina, ainda sonolenta:
- Alô...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 20, 2017 11:22 am

- O Dr. Danilo, por favor! - ela gritou, revelando seu estado de desespero.
É uma emergência!
Meu filho está tendo uma convulsão!
Na mesma hora, Marília passou o fone ao marido, que atendeu com uma indagação no olhar.
— Parece grave — foi só o que ela disse.
Ele segurou o fone e atendeu, cauteloso:
- Alô?
— Por Deus, Danilo, me ajude! - Lizandra disparou, sem nem se perguntar se ele reconheceria sua voz.
Meu filho está tendo uma convulsão!
Evitando falar o nome dela, Danilo retrucou aborrecido:
- Se isso for alguma brincadeira...
- Acha que eu ia brincar com a vida do meu filho? - ela contestou, apavorada.
Me ajude, Danilo, ou ele vai morrer!
Totalmente descontrolada, Lizandra chorava ante a visão do filho, todo retorcido na cama, babando, se debatendo.
Um cheiro ácido, familiar, subiu às suas narinas, evocando lembranças que ela procurava esquecer.
- Dona Lizandra, está me ouvindo? - perguntou Danilo, do outro lado da linha, agora convencido da gravidade da situação.
Por favor, dona Lizandra, preste atenção.
- Meu filho, meu filho!
Pensando que ele morria, Lizandra soltou o telefone e empurrou Vítor para o lado, tomando a cabeça do menino entre suas mãos.
- Dona Lizandra! - vinha o som, quase indiscernível, partindo do fone.
Dona Lizandra, apanhe o telefone!
Ao ouvir a voz abafada saindo do aparelho, Vítor conseguiu se reequilibrar e pegar o fone.
- Fala Vítor, marido de Lizandra.
- Muito bem, Vítor, aqui quem fala é o Dr. Danilo.
Sou o neurologista da sua mulher. Ouça bem.
É muito importante que você mantenha a calma e faça exactamente o que eu mandar.
Compreendeu?
- Sim.
- Muito bem.
Onde o menino está?
- Na cama.
- Óptimo. Tire de perto dele qualquer coisa que possa feri-lo e vire-o de lado, com a boca para baixo, para ele não sufocar.
Mas se ele resistir, não force.
- Vire-o de lado, com a boca para baixo — ele repetiu para Lizandra, que obedeceu.
- Pronto - avisou a Danilo.
Ela conseguiu.
- Proteja a cabeça dele, mas não tente segurá-la.
Deixe que ele a agite o quanto quiser.
- Solte a cabeça dele, Lizandra - ordenou, e ela soltou.
Pronto.
- Agora, veja se consegue abrir-lhe a boca.
- Ele está com os dentes trincados.
- Então, não force.
Ele está salivando?
- Sim.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 20, 2017 11:22 am

- Urinou ou defecou?
- Urinou.
- Parece que ele vai engasgar! - Lizandra apavorou-se.
Está sufocando!
Em vez de sufocar, Rodrigo vomitou.
- Tudo bem, fiquem calmos - tranquilizou Danilo.
Ele não vai sufocar.
Foi por isso que mandei virá-lo de lado.
- E agora, doutor?
O que fazemos?
- Agora é só aguardar a crise passar.
- Só isso?
- No momento, sim.
Quando ele acordar, provavelmente, vai estar confuso.
Expliquem-lhe o que aconteceu, de uma forma que ele consiga entender.
Deixem-no descansar e, quando ele estiver melhor, procurem um médico.
- Que tipo de médico?
Um neurologista?
- Exactamente.
- O que o senhor acha que é isso?
- Não posso diagnosticar por telefone.
Pode ter sido um episódio isolado ou o sintoma de alguma doença que precisa ser investigada.
- Ele estava com muita febre.
- É uma das causas.
Quantos anos ele tem?
- Nove.
- Ele já teve isso antes?
- Não, nunca.
- Então, pode ter sido pontual, decorrente da febre.
Ele está doente?
- Não exactamente, mas está sob forte emoção.
- Se não for indiscrição, posso perguntar porquê?
- A mãe dele... se desfez do cachorro.
O senhor acha que pode ter sido isso?
- Tem uma grande chance, mas não dá para ter certeza.
Somente um exame mais acurado poderá detectar a verdadeira causa.
- Certo, doutor.
Assim que ele melhorar, vou levá-lo a um neurologista.
Pode ser o senhor?
- Um neuro pediatra seria mais aconselhável.
- Pode indicar algum?
- Certamente.
Aguarde um minuto, que vou lhe passar o telefone de uma médica excelente, em quem confio muito.
Ele saiu por alguns instantes, passando o número da médica em seguida.
— Não deixe de procurá-la.
Pode não ser nada de mais, mas pode ser muitas coisas.
- Tipo o quê?
- Converse com a médica primeiro.
Não vejo motivo para alarme.
Podemos estar nos precipitando.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 20, 2017 11:22 am

- Doutor, se o senhor não me disser alguma coisa, vou para a internet pesquisar.
Não seria melhor ouvir isso de uma pessoa abalizada?
- Muito bem, se é o que quer.
Só não conte à sua esposa.
Ela está muito nervosa.
- Eu nem sonharia em fazer uma coisa dessas.
- Ela está nos ouvindo?
- Não. Está ocupada com Rodrigo.
- Certo. Os casos mais graves são de epilepsia ou tumor cerebral.
A primeira tem tratamento.
O segundo já é um pouco mais complicado.
- Entendi.
Bom, não vou tomar mais o seu tempo.
Muito obrigado, doutor.
Pode nos mandar o valor dos seus honorários por e-mail?
- De jeito nenhum!
Fiz o que tinha que fazer por amor à profissão e à vida.
Nem pense em querer me pagar.
E depois, sua esposa já é minha paciente.
- Muito bem, doutor.
Não tenho palavras para agradecer o que o senhor fez por meu filho e por nós.
Deixe-me, ao menos, lhe dar um vale de abastecimento perpétuo para o seu carro.
- Um vale de quê?
Não entendi.
- É que tenho uns postos de gasolina — esclareceu ele, com humildade.
Gostaria de presenteá-lo com um vale de abastecimento gratuito em toda a minha rede de postos.
E por favor, não diga que não precisa.
Seria um prazer e uma honra para mim.
- Veremos isso depois.
No momento, concentre-se no menino.
E não se esqueça de me dar notícias.
- Darei. Novamente, muito obrigado.
- Não foi nada. Um abraço.
- Outro - desligou, aproximando-se da cama do filho.
Como ele está?
- Parece que melhorando.
- Gostei muito do seu médico.
Pena que ele não quer cuidar do caso de Rodrigo.
Era uma ironia.
Seu marido simpatizara justamente com o amante da mulher.
Naquela hora, gostaria de nunca ter se envolvido com Danilo.
Tinha certeza de que era esse o motivo que o levara a recusar-se a cuidar de Rodrigo.
Uma pena. Danilo era bom médico, competente, de confiança.
- Será que você não consegue convencê-lo a aceitar o caso de Rodrigo?
Era a mesma pergunta que ela gostaria de fazer.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 20, 2017 11:22 am

Capítulo 24
Atarefados com a nova pizzaria, Wilson e Isabela faziam o que podiam para deixar tudo em ordem.
Os negócios cresciam, a freguesia aumentava dia a dia.
O sucesso das receitas de Isabela começava a correr a vizinhança, e vinha gente até de bairros próximos para experimentar suas delícias.
- Acho que, daqui a pouco, teremos que contratar mais gente — observou Wilson.
- Pena que Priscila não aceitou vir trabalhar com a gente.
- Ela tem os afazeres dela.
E acho que ficou com medo de dona Roberta.
- É possível... — concordou ela, olhando em dúvida para os ingredientes que estava guardando.
- O que foi?
- São esses potes.
Há algo errado com essas tampas.
Olhe só.
Wilson pegou um dos potes e tentou encaixar-lhe a tampa, mas ela não servia.
Parecia menor do que a abertura do recipiente.
- Que coisa! — reclamou ele.
Não cabe.
- Você não conferiu as tampas na fábrica?
- Não. Elas vêm embaladas embaixo dos frascos.
Nem imaginei que podiam ser diferentes.
Ela desistiu de fechar os potes, olhou para Wilson e anunciou, categórica:
- Você vai ter que dar uma corrida lá para trocar esses frascos.
- Agora?!
- Não vejo outro jeito.
Preciso acondicionar esses queijos e frios.
Quer que tudo se estrague?
- Não dá para pôr no freezer do jeito que está?
- Já fatiei e etiquetei tudo com as datas de validade.
Não dá para deixar isso destampado no freezer.
Vai ficar tudo ressecado.
- Ai, Isabela, põe um plástico por cima.
Ou um papel alumínio.
- Pelo amor de Deus, Wilson!
O que é que custa você ir lá correndo trocar as tampas?
- É longe...
- E daí? Quem anda é o carro, não você.
Vai logo.
Daqui a pouco, teremos que abrir a pizzaria, e não vai dar mais tempo.
Sem contar que a fábrica fecha, né?
- Tá bem, tá bem - falou ele, resignado.
Já estou indo.
Sem argumentos para contrapor à mulher, apanhou o carro e foi, muito contrariado.
Por sorte, não teve nenhum problema.
O gerente efectuou a troca sem maiores discussões, pedindo desculpas pelo incómodo.
Na volta, Wilson acedeu ao forte desejo de passar novamente pelo local onde Bruce fora encontrado.
O que esperava ver lá, não sabia.
Talvez só quisesse se certificar de que não havia ninguém procurando por ele.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 20, 2017 11:23 am

O cão já estava com eles havia alguns dias.
O tratamento homeopático surtira efeito rapidamente, e Bruce agora corria solto pelo quintal.
Habituara-se ao ambiente e às pessoas sem dificuldade, embora, em alguns momentos, vagueasse o olhar pela rua, sempre à procura de algo ou de alguém. Inteligente, aprendia depressa, dando mostras de que havia sido adestrado.
Ao passar perto do local onde apanhara Bruce, seus olhos foram atraídos para um cartaz colado em um poste, na beira da estrada, onde se via a foto de um cachorro.
Coração aos pulos, pisou no freio, engatando a ré com rapidez.
Ligou o alerta e saltou ao lado do poste.
Durante alguns minutos, permaneceu olhando o cartaz esmaecido, tentando desmentir o reconhecimento.
Os dizeres simples, em vermelho desbotado, anunciavam a procura de um cão perdido, que atendia pelo nome de Billy.
Abaixo, um número de celular.
Na foto, um filhote de border collie olhava para a câmara com ar inteligente, a língua pendurada da boca, pronto para saltar.
Era igualzinho ao Bruce.
Aquele olhar era inconfundível.
Lá estava a manchinha preta circundada pela tonalidade castanho sépia da íris direita.
- Não pode ser — ele falou em voz alta, arrancando o cartaz.
Não é que é o Bruce?
O arrependimento chegou num ímpeto quase destruidor.
Que diabo estava pensando quando resolvera voltar ali?
Se não tivesse visto o cartaz, tudo continuaria como estava.
Mas acontece que ele vira.
Vendo, não podia ignorar.
Voltou para casa debatendo-se com a própria consciência, evitando olhar para a foto que o encarava do banco ao lado.
Quando chegou, o filho veio correndo, seguido pelo cachorro, que pulou na porta do carro, saudando-o com latidos brincalhões.
- Não, Bruce, você não pode pular - o menino ralhou gentilmente.
Ainda não está totalmente curado.
Bruce deixou-se abraçar por André, virando o focinho de vez em quando para lamber-lhe o rosto.
Foi terrível, para Wilson, ver os dois assim.
Lentamente, ele saltou do carro, recebendo o abraço do filho e sentindo o rabo de Bruce batendo em suas pernas.
- Como está, filhão? - indagou, aproveitando para afagar a cabeça do cachorro.
- Bem. Sabia que tia Priscila fez um lanche para a gente comer lá na casa da árvore?
O Bruce adorou, não foi, Bruce?
Ele comeu toda a parte dele.
Só não comeu a da Nina porque ela lhe deu uma arranhada no focinho.
- Foi mesmo?
E o Bruce não fez nada?
- O Bruce é muito bonzinho.
Abaixou a cabeça, abanou o rabo e deu uma lambida na cara dela.
- E o que ela fez?
- Sabe que a danada até que gostou?
Não fez nada.
Ficou lá, olhando para ele com aqueles olhos azuis vesguinhos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 20, 2017 11:23 am

- Você gosta muito do Bruce, não é, meu filho?
- É claro! E ele também gosta de mim.
De mim, da Larissa e da Nina.
Somos uma equipe, pai.
— Que bom.
— Vou avisar a mamãe que você chegou.
— Tudo bem. Vá, filho.
- Vamos, Bruce! Mãe!
Mãe! Papai chegou!
Wilson não pôde deixar de rir.
Isabela surgiu na porta dos fundos, enxugando as mãos num pano de pratos.
Soltou o pano em algum lugar e foi em sua direcção.
— Tudo bem? — ela indagou, recebendo o beijo que ele lhe deu no rosto.
Conseguiu trocar?
— Consegui.
— Algum problema?
Antes de pegar a sacola com as tampas trocadas, Wilson se esticou e apanhou o cartaz no banco do carona, hesitando um pouco antes de mostrá-lo a Isabela.
Assim que viu do que se tratava, ela levou a mão à boca, silenciando um grito de medo.
— Não diga nada, por enquanto — pediu ele, quase sem ser ouvido.
— Meu Deus, Wilson, ele vai sofrer muito.
— Eu sei. Foi por isso que ainda não mostrei o cartaz a ele.
— Não podemos fazer isso.
Ele é só uma criança!
Não vai entender.
— Entender, ele vai.
Não sei é se vai aceitar.
— E agora?
— Não sei. Sinceramente, não sei.
Acho melhor pensarmos bem a respeito antes de tomarmos qualquer atitude.
— Rasgue isso - pediu ela, quase implorando.
Ninguém sabe que você viu esse cartaz.
— Mas eu vi, Isabela!
Não posso fingir que não vi.
Não ficaria em paz com a minha consciência.
— E eu não ficaria em paz com a minha se causássemos um outro trauma a André.
— Que situação!
Parado, com o cartaz na mão, Wilson não sabia o que fazer.
A mulher tinha razão, mas ele era uma pessoa honesta.
Ambos eram.
Por outro lado, o filho já sofrera muito.
Seria justo impor-lhe outra decepção, forçando-o a conviver com nova e dolorosa perda?
Pensando nisso, decidiu-se.
Segurando o cartaz com força, rasgou-o em pedaços pequenininhos, observando o papel ressecado se despedaçar e escapulir por entre seus dedos.
— Pronto — sussurrou ele.
Está acabado.
Deus me perdoe pelo que fiz, mas André é nossa prioridade.
Ela não disse nada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 21, 2017 10:32 am

Deu-lhe um abraço apertado e enxugou os olhos.
Não queria que o filho a visse chorando.
Voltou para a pizzaria em silêncio, evitando questionar a consciência sobre o que haviam feito.
Sozinho no quintal, Wilson deixou que o vento espalhasse os pedacinhos da cartolina destroçada.
Aqui e ali, restos da foto esvoaçavam, irreconhecíveis.
As letras vermelhas rodopiavam num pequeno redemoinho, fragmentos de símbolos indiscerníveis.
Olhando aquela execução mal ensaiada de dança ao vento, Wilson percebeu que nada restara que pudesse tornar reconhecível ou legível o cartaz que ele acabara de destruir.
Deu um suspiro de alívio, dizendo a si mesmo que tinha sido o melhor.
Ninguém precisava saber que ele sabia e, provavelmente, nunca mais veria aquele cartaz outra vez.
Até porque pretendia não passar mais pela serra de Grumari.
Aparentemente convencido, apanhou a sacola no banco de trás, bateu a porta e seguiu sorridente para a pizzaria.
Nem bem pisou a soleira da porta, algo em seu cérebro ribombou como numa explosão, reagrupando os fragmentos do que ele pensou que poderia esquecer.
Assim como se foram, os algarismos voltaram, agora trazidos pelos ventos que agitam a consciência.
Foi então que ele soube.
Não adiantava mentir para si mesmo, tentando apagar o que era indelével.
Naquele momento, o que surgiu em sua mente foi o número do celular, que ele havia decorado sem querer.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 21, 2017 10:33 am

Capítulo 25
Com o passar dos dias, as lembranças de Bruce esmaeciam, substituídas pela carinhosa companhia de André.
Ainda se lembrava do antigo dono, contudo, sem entender por que não o via mais, direccionou seu afecto para André, junto de quem se sentia seguro, confiante, alegre.
Tinha medo de carro, era verdade.
Quando Wilson precisou levá-lo novamente ao veterinário, ele teve uma reacção inesperada.
Deu um pinote, soltou-se da coleira e disparou pela cerca do quintal.
Voltou pouco depois, trazido por Priscila.
A muito custo, conseguiram, finalmente, fazer com que ele entrasse no carro e, assim mesmo, só depois que ele se convenceu de que André iria junto.
O tempo trouxe o esquecimento.
Agora inteiramente recuperado, Bruce não saía do lado de André.
Quanto mais via crescer a amizade entre os dois, mais Wilson se convencia de que havia feito a coisa certa.
Só o que o incomodava era a lembrança daquele maldito celular que, por mais que ele fizesse, não conseguia apagar de sua mente.
O término do ano lectivo era sempre comemorado pelas crianças.
Findas as aulas, a vida era só brincadeira.
Fazia uma linda manhã de sol quando Larissa, postada embaixo da janela de André, pôs-se a berrar pelo amigo:
- André! Já acordou?
Vamos logo!
É o primeiro dia das nossas férias!
Mamãe preparou um café da manhã para a gente comemorar.
- Já estou indo! - gritou ele em resposta, aparecendo rapidamente na janela.
Depois de um rápido bom-dia aos pais, saiu apressado, com Bruce correndo atrás dele.
Rapidamente, alcançaram a árvore onde Ítalo construíra a casa para Larissa.
- Você sobe com ele e me espera - orientou a menina.
Deixei a Nina no quarto, para ela não comer nossa comida.
- Tudo bem.
- E não comecem sem mim!
Ela saiu correndo, em busca de Nina.
André subiu os degraus de par em par, enquanto Bruce ia de um em um, farejando o ar impregnado de aromas gostosos.
- Não, senhor — censurou André carinhosamente, tão logo abriram a porta.
Não seja mal-educado.
Temos que esperar a Larissa e a Nina.
Larissa passou pela cozinha como uma bala.
A mãe lavava a louça do café da manhã dos adultos, enquanto Roberta tomava sol na varanda.
Larissa deu graças a Deus por ela não estar por perto.
- Vamos, Nina - chamou ela, pegando a gatinha no colo.
Está na hora do café da manhã.
Nossos amigos já estão esperando.
Quando saiu do quarto, quase deu um encontrão em Roberta, que seguia em direcção ao banheiro.
- Tome cuidado, menina! — zangou.
Isso são modos de andar dentro de casa?
- Desculpe, dona Roberta! - ela gritou, sem parar.
Estou com pressa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 21, 2017 10:33 am

Passou novamente pela mãe, carregando Nina no colo, aos sacolejos.
Subiu às pressas, entrando pela porta aberta.
Como sempre fazia ao se ver diante de outro animal, Bruce esticou o focinho para a frente.
Queria cheirá-la, para fazer um reconhecimento.
A gata, porém, levou um susto e bufou, desferindo uma unhada no focinho dele, que gritou e foi se esconder atrás das costas de André.
- Ai, ai, ai, Nina! — ralhou ela.
Isso foi muito feio.
Vocês já se conhecem.
Têm que ser amigos.
Faça o favor de se comportar.
Vamos comer agora.
Havia leite, achocolatado, pão com manteiga, queijo, presunto e bolo, que as crianças repartiram com os animais.
Nada aproxima tanto as criaturas como partilhar refeições.
Faz com que todos se sintam parte do mesmo momento, da mesma alegria, do mesmo grupo.
Pouco depois, Priscila chamou lá de baixo.
— Tudo bem aí em cima?
— Tudo, mãe.
Está tudo uma delícia!
— O Bruce também está gostando.
Não é, Bruce?
— Nós já vamos descer.
Quando a porta se abriu, Bruce foi o primeiro a saltar.
Desceu correndo, latindo, abanando o rabo.
Conquistara Priscila desde que ela o vira pela primeira vez.
- Você é muito lindo, sabia? - elogiou.
E simpático também.
Ele já se acostumou com o carro?
— Ainda não - disse André.
— Que trabalheira danada naquele dia, hein?
Não foi nada fácil fazer com que ele entrasse...
— Mas que balbúrdia é essa aqui?
A voz desagradável que os interrompeu, sempre em tom de reprovação, só podia ser de Roberta.
Priscila suspirou, olhando para a filha como quem pedia, pelo amor de Deus, que não dissesse nada.
— Balbúrdia nenhuma, dona Roberta — ponderou Priscila, escondendo a irritação.
Foi o Bruce que desceu para nos cumprimentar.
Ao ver aquela senhora chegando, apoiada numa bengala preta, Bruce achou o máximo.
Só podia ser brincadeira.
Na certa, ela atiraria aquele pedaço de pau para que ele fosse buscar, como se faz com gravetos.
Talvez tenha sido nisso que ele pensou quando resolveu abocanhar a bengala e correr com ela na boca.
Ou, o que é mais provável, não pensou em nada.
Apenas agiu seguindo o instinto da novidade, da diversão.
Privada de seu apoio, Roberta quase foi ao chão.
Não fosse o reflexo rápido de Priscila, teria sido um tombo feio.
— Cachorro maldito, devolva minha bengala! - ela gritou, o rosto roxo de raiva.
E Bruce lá sabia o que era devolver?
Divertia-se, correndo pelo quintal arrastando a bengala, incentivado pelas gargalhadas das crianças.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 21, 2017 10:33 am

Até Priscila achou engraçado, sufocando o riso para não despertar ainda mais a ira da sogra.
- Vem cá, Bruce! - chamava André, entre uma risada e outra.
Devolve a bengala!
- Não devolve, não, Bruce! - contrapôs Larissa, sem nenhuma outra intenção senão a de se divertir.
Corre!
Mesmo sem vontade, André interveio.
Sabia que Roberta estava furiosa.
Por mais que estivesse se divertindo à beça, o pai não aprovaria aquela atitude, e ele tinha que disciplinar o cachorro.
Aproveitou um momento em que Bruce soltou a bengala no chão, pisando sobre ela, e puxou-a de debaixo de suas patas.
Ele correu atrás de André, tentando alcançar o objecto, que ele segurava no alto.
- Não, Bruce, acabou.
Entregou a bengala à dona, que a apanhou, furiosa.
- Aqui está, d. Roberta. Desculpe.
O Bruce não fez por mal.
Um agradecimento podia não ser esperado, mas ninguém estava preparado para o que veio a seguir.
Completamente transtornada pelo ódio, Roberta agarrou a bengala e desferiu uma bengalada nas pernas de Larissa, que gritou de dor, caindo no chão.
- Larissa! - exclamou a mãe, correndo para ela.
O que deu na senhora, dona Roberta?
Isso não se faz!
- Se você não dá educação a essa menina, então, sou eu quem vou dar.
- Não admito que a senhora bata na minha filha! - rugiu, irada.
Eu sou a mãe dela.
Se ela fez algo de que a senhora não gostou, fale comigo!
- E adianta alguma coisa?
Essa menina faz o que quer, e você nem liga.
Parece até que é ela quem manda na casa.
Larissa chorava, e foi só por isso que Priscila não respondeu.
Apanhou-a no colo desajeitadamente e levou-a para dentro.
Atrás dela, André seguia cabisbaixo, tentando guiar Bruce pelo mesmo caminho.
- Está doendo, mãe — choramingou Larissa.
Dói muito.
Um vergão vermelho já se alastrava pela pele da menina, no formato exacto de uma vara, terminando em uma das coxas e seguindo pela outra.
- Filha da mãe! — esbracejou Priscila.
Essa velha me paga!
Fique com ela um minuto, André.
André segurou a mão de Larissa, enquanto a mãe ia à cozinha fazer uma compressa de gelo, que colocou sobre as coxas da filha.
- Ai, ai! - gritou ela, redobrando o choro.
As lágrimas desciam em abundância pelo rosto de Larissa, misturando preocupação e ódio no coração de Priscila.
Era sábado, Ítalo estava no futebol, ela não sabia o que fazer.
Não tinham carro, mas ela precisava levar Larissa sozinha ao hospital.
- Vá chamar sua mãe, André - pediu, com gravidade.
Veja se ela pode vir me ajudar.
- Está bem.
Pouco depois, André voltou em companhia dos pais.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 21, 2017 10:33 am

Mesmo sabendo do ocorrido, não fizeram nenhum comentário, para não perturbar Priscila ainda mais.
- Não acha melhor ligar para o Ítalo? - sugeriu Isabela.
- Ele está jogando futebol.
Não vai nem ouvir o telefone.
- Acho melhor levá-la ao hospital - aconselhou Wilson.
Vou buscar o carro agora mesmo.
- Nem sei como agradecer a vocês - falou Priscila, comovida.
- Não precisa — retrucou Isabela.
Wilson leva você, e eu fico de olho no Ítalo.
Assim que ele chegar, aviso a ele para ir ao hospital.
- Óptimo.
- Não se preocupe, Priscila, ela vai ficar bem.
- Obrigada.
Isabela ajudou Priscila a acomodar Larissa no banco de trás do carro.
Depois, sentou-se ao lado de Wilson, dando mais espaço à menina para acomodar as pernas feridas.
O carro partiu apressado, e Isabela voltou para casa com André, recomendando-lhe que prestasse atenção e fosse avisá-la assim que Ítalo chegasse.
Toda essa movimentação foi acompanhada pelos olhos argutos de Roberta, que espiava por detrás da cortina da sala.
Por alguns instantes, viu-se presa do remorso, com medo de haver exagerado na bengalada.
Sua intenção era educar, não ferir.
Procurou não pensar mais em Larissa, dizendo a si mesma que não era nada grave, apesar de não ter tido a oportunidade de examinar a lesão.
Larissa era criança, e as crianças eram dotadas de uma excepcional capacidade de regeneração.
Importante era que, daquele incidente, poderia sair uma boa oportunidade para minar a confiança do filho na mulher.
Precisava falar com Ítalo antes que a nora ou a vizinha o fizessem.
Para isso, tinha todo o tempo de que precisava.
Sentou-se na cama e apanhou o celular.
Dali em diante, discou o número do filho a cada cinco minutos.
Ligou dezenas de vezes, até que, finalmente, ele atendeu.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 80450
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 5 de 11 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6 ... 9, 10, 11  Seguinte

Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum