O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 21, 2017 10:34 am

Capítulo 26
A tela do celular de Ítalo acusava um total de dezanove ligações não atendidas, quase todas, da mãe.
Priscila havia ligado quatro vezes.
O resto era de Roberta.
Ia ligar para a mulher primeiro, mas o aparelho vibrou, exibindo o número da mãe.
- Oi, mãe - atendeu ele, em tom neutro.
O que foi que houve?
- Você não viu as minhas ligações? — reclamou ela.
Liguei uma porção de vezes.
- A senhora sabe que, a essa hora, estou jogando futebol.
Como é que eu ia atender de dentro do campo, no meio da partida?
- Deixe isso para lá.
Preciso muito falar com você. É importante.
- Já estou indo para casa.
- Não dá para esperar.
Vou falar pelo celular mesmo.
A Priscila saiu daqui com seu vizinho.
Foram levar a Larissa ao pronto-socorro.
- O quê? Porquê?
Ela se machucou? É grave?
Ele falava de forma atropelada, devido à preocupação.
- Creio que não - respondeu Roberta.
Foi só um machucadinho à toa.
- O que foi que aconteceu?
Ela fez uma pausa dramática antes de prosseguir:
- Vou lhe contar antes que a Priscila conte do jeito dela.
Sabe como são as mulheres, gostam de parecer inocentes diante dos maridos.
- O que foi que a senhora fez, mãe?
- Nada que não estivesse no meu direito.
Aquela menina é uma mal-educada.
Ela me faltou com o respeito.
- Como assim?
Está se referindo a Larissa?
- E quem mais haveria de ser?
Você sabe que o seu vizinho favorito achou um cachorro na rua e deu para o filho, não sabe?
Um bicho maldito, uma praga.
Pois essa besta-fera quase me mordeu.
Por sorte, a dentada pegou na bengala, em lugar da minha perna, se não, quem estaria agora no hospital seria eu, provavelmente, com a carne dilacerada por aqueles dentes medonhos.
Ele contou até dez e só então retrucou:
- Seja mais objectiva, por favor.
Quero saber o que foi que aconteceu para a Larissa ir parar no hospital.
Conte essa história direito.
- Calma. Vou chegar lá.
Não satisfeita de o cão quase ter me mordido, sua querida enteadinha pôs-se a rir e incitou o cachorro contra mim.
Veja só, Ítalo, que absurdo!
O maldito veio com gana para cima de mim, mas acho que ficou com medo, sei lá.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 21, 2017 10:34 am

Só sei que ele soltou a bengala, que eu consegui apanhar antes que ele abocanhasse a minha perna.
E sabe o que aquela menina horrorosa fez?
- O quê?
- Gritou: Pega! Pega!
Todo mundo ficou rindo, e eu, para me defender, usei a única arma que tinha.
- Que arma, mamãe?
- A bengala, oras!
Varei uma bengalada na perna daquela malvada, para ela parar de atiçar o cão contra mim.
É claro que fez um vergão na perna dela, mas não foi minha culpa.
Eu só quis me defender.
Ítalo não sabia se ria ou se chorava.
É claro que aquela história estava muito mal contada.
Nada nela fazia sentido, mas ele não podia simplesmente dizer para a mãe que não acreditava nela.
Não conseguia visualizar Larissa dando ordens a um cão feroz para que mordesse alguém, ainda que fosse sua mãe.
Sem contar que Bruce era um cão dócil, não a fera que a mãe descrevia.
- Tem certeza de que ela estava atiçando o cachorro? - questionou ele, tentando não demonstrar incredulidade.
- É claro que tenho!
- E o cachorro obedeceu?
Quero dizer, ele entendeu o que ela disse?
- Imagine se aquele animal feroz não ia entender!
Ele tem o gosto de sangue impregnado nas presas.
Parece até um lobo, se é que não é.
Não sei, Ítalo, essa gente é doida.
Vai ver, ele foi jogado fora justamente por causa disso.
Acho que é uma espécie de lobo, e lobos não podem ser domesticados.
É perigoso.
- Que lobo o quê, mãe!
É um border collie!
- Que seja. É feroz.
Ele soltou um suspiro prolongado e afastou o celular do ouvido por uns instantes.
A voz da mãe chegou até ele, estridente e distante, falando sem parar, sem tomar fôlego.
- Está bem, mãe - arrematou ele.
Tenha calma. Estou indo para casa.
Seria um dia difícil, ele já podia prever.
Tentou ligar para Priscila, contudo, ela não atendeu, provavelmente ocupada com o médico e Larissa.
Arriscou o celular de Wilson.
Para seu alívio, ele atendeu logo no primeiro toque.
- Wilson! Graças a Deus!
Soube agora do que aconteceu com Larissa.
Onde vocês estão?
- Fique tranquilo, Ítalo.
Ela já foi atendida e está passando bem.
- Vocês estão na emergência de que hospital?
Quero ir até aí.
- Não precisa.
Já estamos voltando.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 21, 2017 10:34 am

- Tem certeza?
- Sim. Estamos saindo agora.
- Priscila pode atender?
Wilson repetiu a pergunta para Priscila, falando com Ítalo logo em seguida:
- Ela perguntou se você está em casa.
- Ainda não.
O jogo acabou agora.
Mais uma vez, ele falou com Priscila, passando o recado ao amigo:
- Ela pediu para você esperá-la em casa.
- Certo. Estou indo para lá.
O campo de futebol ficava mais perto da casa de Ítalo do que o hospital.
Em poucos minutos, Ítalo chegou.
A mãe, sentada na varanda, não se levantou, mas olhou-o com ar aborrecido.
- Até que enfim! - bufou ela.
Pensei que não fosse chegar nunca.
- Sem exageros, mãe.
Acabamos de nos falar.
E, eu tinha que saber notícias de Larissa.
- Como ela está?
- Bem, segundo Wilson, já foi liberada para vir para casa.
- Viu só? Não disse que não foi nada?
- A senhora é quem está dizendo.
Só vou sossegar quando a vir pessoalmente.
- Elas estão voltando com Wilson?
- Lógico. Não foi ele quem as levou?
- Foi. Imagine se seria outra pessoa.
- Por favor, mãe, não vou tolerar suas insinuações! - zangou ele, para frustração de Roberta.
Obrigada a engolir o próprio veneno, Roberta o fuzilou com o olhar.
Queria insistir na intriga, contudo, ele não lhe deu a menor chance.
Vencida, o cenho fechado revelando o azedume, levantou--se para entrar.
Ítalo reparou, então, nas ranhuras por toda bengala.
Pareciam mesmo mordidas de cachorro.
O carro de Wilson estacionou em frente à casa dele poucos minutos depois.
Ítalo abriu a porta de trás, onde a menina estava sentada, a perna direita esticada sobre o banco.
Gentilmente, ele a pegou no colo, levando-a para o quarto.
- O médico recomendou repouso absoluto - avisou Priscila.
Foi uma contusão feia, mas não atingiu nenhum músculo.
Ela só tem que tomar analgésicos e repousar.
- Isso não se faz — queixou-se ela.
Como vou fazer para brincar com André e o Bruce?
- Você não vai — ponderou Ítalo.
Vai fazer direitinho o que o médico mandou.
- É isso mesmo, minha filha.
E o André pode vir aqui visitá-la.
- O Bruce também?
- Depende - falou Ítalo.
Vamos ver.
Embora, a Priscila, não agradasse a forma como o marido falou, ela não quis contradizê-lo na frente da filha.
Cuidando de dar o máximo de conforto a ela, ligou a pequenina televisão que ela ganhara de presente de aniversário havia alguns anos e deixou o controle remoto na mesinha, para que ela não precisasse se levantar.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 21, 2017 10:34 am

- Está confortável? - indagou.
- Estou sim, mamãe.
- Então descanse.
Qualquer coisa, estaremos aí fora.
É só chamar.
- Tá bem.
Depois de a beijarem, os dois saíram em silêncio, encostando a porta ao passar.
- Que história é essa de depende? — disparou Priscila, tão logo se viram a sós, no quarto.
É claro que André pode trazer o Bruce.
- Não sei se seria aconselhável, Priscila.
Não depois do que aconteceu.
- O que aconteceu?
- Você sabe.
Ela sentiu a raiva subindo pelo pescoço, aquecendo suas faces, nublando seus olhos.
Chegou ao cérebro, que não fez o mínimo esforço para controlar os nervos, permitindo-os vibrar à vontade.
- O que é que eu sei, Ítalo? — vociferou.
Ou melhor, o que é que você não sabe?
Sim, porque eu vi o que aconteceu.
Agora você, pelo visto, andou dando ouvidos a intrigas.
O que foi que sua mãe inventou dessa vez?
- Ela disse que Larissa atiçou o cachorro contra ela e que só lhe deu uma bengalada para se defender.
- E você acreditou?
- Não... - ele hesitou.
Acreditar, não acreditei.
Acho que minha mãe exagerou, mas que houve alguma coisa, houve.
- Houve, sim.
Quer saber o que houve?
Estávamos nos divertindo com o Bruce quando sua mãe chegou, reclamando.
O cachorro é brincalhão, levado.
Apanhou a bengala dela, que quase levou um tombo, é verdade, mas não aconteceu nada, porque eu a segurei.
Todo mundo riu, inclusive, eu.
André mandava o cachorro devolver a bengala, mas Larissa, sabe como ela é, mandou o cachorro correr.
Era só uma brincadeira sem maldade.
Até que André conseguiu segurá-lo e tirou a bengala dele, entregando-a para Roberta.
Aí, sucedeu algo surpreendente.
Sem que ninguém esperasse, sua mãe levantou a bengala e desceu-a nas pernas de Larissa.
Foi horrível.
A menina chorava de dor, e sua mãe achando que estava certa, que Larissa era mal-educada, que eu não a criava direito.
Fiquei furiosa, discuti com ela, mas tinha que cuidar da minha filha.
André chamou os pais, e Wilson se ofereceu para nos levar de carro.
Foi isso que aconteceu de verdade.
Foi essa a versão que ela lhe contou?
— Não exactamente.
Ela acha que o cachorro é uma fera, um lobo, sei lá.
Mesmo diante da gargalhada de Priscila, Ítalo repetiu a história que sua mãe lhe contara.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 21, 2017 10:35 am

— Por que será que isso não me surpreende? - ironizou ela.
Ela torceu tudo a favor dela.
Você não vê?
— Pode ter sido...
Mas por favor, Priscila, tente compreender.
Minha mãe é velha, não está acostumada com certas coisas.
— Eu é que não estou acostumada com intrigas, porque foi isso que ela fez.
Não sei como não fez nenhuma insinuação maldosa do Wilson, já que foi ele quem nos levou...
Ante o olhar transtornado do marido, ela se exaltou:
— Ela fez, não foi?
Pela sua cara, estou vendo que ela despejou um pouquinho mais do veneno dela em você.
— Minha mãe é uma pessoa difícil — ele tentou justificar.
A velhice a faz dar asas à imaginação.
Ela vê fantasmas onde não tem.
— Sua mãe quer você só para ela.
Ela é egoísta, mesquinha, ciumenta, manipuladora e má.
— Vá com calma, Priscila.
Ela está velha...
— Velhice não é desculpa para falta de carácter.
Sei que ela é sua mãe e que você deve se sentir dividido.
Mas você sempre a defende.
E eu, como é que fico?
— Não a estou defendendo.
Estou apenas tentando conciliar as coisas.
— Não dá para conciliar nada com a sua mãe. Ela não quer.
Quer dar ordens, mandar, submeter todo mundo à vontade dela.
Ela não tem esse direito.
Muito menos o direito de bater em Larissa.
Ou será que você acha que ela agiu correctamente?
- É claro que não.
Ela exagerou, reconheço.
- Se reconhece, ouça o que lhe digo e preste atenção nas atitudes dela.
Ela não vai sossegar enquanto não conseguir o que quer.
- E o que ela quer?
- Jura que você não sabe?
Ou prefere não acreditar?
- Meu Deus, Priscila, não sei mais o que fazer.
- Dê um jeito nela - ela arrematou, decidida.
E tem mais uma coisa:
André pode trazer o Bruce quantas vezes quiser.
A casa é minha, quem manda aqui sou eu.
O que Priscila queria não era, exactamente, excluir Ítalo do comando da casa que, afinal, era dele também.
Pretendia deixar claro que Roberta não dava ordens ali.
Ao menos era nisso que ela acreditava quando mostrara a ele quem realmente dava as ordens.
Entre uma intenção e outra, Wilson leu nas entrelinhas o que, lá no fundo, ela pensava, embora jamais ousasse admitir.
Palavras mal ditas quase sempre são fruto da raiva.
Precipitadas, inverídicas, mas também portadoras de avisos ocultos.
Uma vez pronunciadas, podem até ser desmentidas.
E a intenção por detrás delas é algo que se pode até camuflar, nunca alterar.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 21, 2017 10:35 am

Capítulo 27
Desde que Rodrigo teve a primeira consulta, havia mais de dois meses, elas não pararam mais, repetindo-se quase que diariamente.
Quanto mais seu estado se agravava, mais ele perdia a vivacidade.
Pouco falava. Menos ainda, sorria.
Não queria sair nem brincar, tinha medo até de ir à escola.
A cada nova convulsão, sentia como se um pequeno sopro da vida escorregasse de seu corpo.
Só pensava no cachorro.
Todos os dias, quando Vítor voltava do trabalho, era com ansiedade que lhe perguntava se havia encontrado Billy, apesar de ver o pai chegar sempre sozinho.
Ninguém o vira.
Os cartazes que ele espalhara pelo bairro todo não surtiram efeito.
Algumas vezes, Rodrigo apenas chorava.
Em outras, rendia-se à convulsão.
Seguindo o conselho de Danilo, Lizandra levou o menino à médica por ele recomendada.
Os exames descartaram a hipótese de tumor cerebral, apostando numa epilepsia aparente.
Ela receitou remédios fortíssimos, que nem sempre faziam efeito.
Diminuíam a excitação dos neurónios, contendo o disparo dos impulsos eléctricos no cérebro, mas não resolviam o problema.
Com medicação ou sem medicação, as crises se sucediam, cada vez mais violentas.
Esgotados os recursos terapêuticos, a médica aventou a possibilidade de submeter Rodrigo a uma cirurgia para retirada da área do cérebro responsável pelas convulsões.
Segundo ela, era o único caminho, já que Rodrigo se demonstrava refractário aos medicamentos conhecidos para tratamento da epilepsia.
- Estou tão cansada, Vítor — queixou-se Lizandra, atirando-se no sofá ao lado dele.
Não de ficar para cima e para baixo com o Rodrigo, mas de ouvir sempre a mesma coisa.
Parece que não tem solução.
Não sei mais o que fazer.
- Cirurgia está fora de cogitação! - objectou ele.
Não vou permitir que tirem um pedaço do cérebro do meu filho.
- Ah, meu Deus, por que será que nosso filho foi ter essa doença maldita?
- Você não sabe? - rebateu ele, em tom acusador.
Não faz mesmo a menor ideia?
- Isso não é justo, Vítor.
Jamais desejaria uma coisa dessas para o meu filho.
- Não estou dizendo que você desejou.
Só que foi o seu egoísmo que detonou todo esse processo.
- Por favor, não me acuse mais do que me acuso por mim mesma.
Se pudesse, daria a própria vida para voltar atrás e desfazer o que fiz.
As lágrimas dela eram tão dolorosas, tão carregadas de arrependimento, que ele se comoveu.
Como não fazia há muito tempo, puxou-a gentilmente, para envolvê-la num abraço reconfortante.
- Não fique assim.
Vamos encontrar um jeito.
- Será que ninguém viu o Billy por aí? — tornou ela, aliviada pelo inesperado gesto de carinho e compreensão.
- Se viu, ficou com ele.
É um cão de raça, vale muito dinheiro.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 21, 2017 10:35 am

- Rodrigo nunca vai me perdoar... ele mal fala comigo.
- Rodrigo está doente.
- Você já me perdoou?
Ele não respondeu.
Não sabia se ela se referia ao abandono do cachorro ou ao fracasso do casamento.
- Não sou eu que tenho que perdoar você - afirmou, por fim.
- Mas Rodrigo...
- Não me refiro a Rodrigo - cortou, com uma frieza que ele mesmo não previra.
Estou falando de você mesma.
De olhos baixos, Lizandra chorou em silêncio, sentindo o eco daquelas palavras reverberando em cada pedacinho de seu coração.
Não era apenas no que se referia a Rodrigo que ela precisava de perdão.
Sua culpa ia muito além da negligência com o filho.
Envolvia todos os aspectos de sua vida.
No final, tudo se resumia ao abandono.
Abandonara o filho, depois abandonara o cão.
Ao trair o marido, abandonara o casamento, e, agora, abandonava a esperança.
Com ela, ia-se a vontade de lutar.
- Estou mudada, Vítor - murmurou, como se estivesse se desculpando consigo mesma.
A doença de Rodrigo me fez ver o quanto eu era egoísta.
Quero consertar as coisas.
- Consertar o quê?
- Nosso casamento.
- Quer mesmo? - indagou ele, em tom de desafio.
Então, responda-me uma coisa, com sinceridade.
- O quê?
- Você está me traindo?
Ela esperava qualquer pergunta, menos aquela.
Apanhada de surpresa, seu primeiro impulso foi mentir.
Mas não foi capaz.
Não diante de tudo que estavam atravessando.
Mesmo assim, tentou desviar-se do assunto:
- Porque está me perguntando isso?
- O que você acha?
Vamos, Lizandra, é uma pergunta simples, que demanda uma resposta mais simples ainda.
É sim ou não.
- Não - tornou ela, os lábios trémulos denunciando hesitação.
- O.k. Acredito, mas vou reformular a pergunta.
Você já me traiu?
Dessa vez, ela não conseguiu sequer olhar para ele.
A traição havia ficado no passado, por isso, ainda que se tratasse de uma meia verdade, pôde responder não à primeira pergunta.
Mas simplesmente negar que o havia feito durante quase dois anos inteiros não condizia com a consciência da nova Lizandra.
Ela tentou dizer que fora uma aventura inconsequente, que estava acabada, que nunca mais se repetiria.
Mas não conseguiu.
As palavras se desconectaram da voz, levando os lábios a tremular novamente, ensaiando a resposta muda.
A boca se abriu em vão, permanecendo entreaberta apenas para confirmar, com sua indecisão, a resposta que ele já conhecia.
Constrangida pela vergonha, Lizandra abaixou a cabeça.
Se fosse possível, nunca mais tornaria a levantá-la, só para não ter que encarar a decepção realçada nos olhos do marido.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 21, 2017 10:35 am

Foi assim, fitando seus pés, tão próximos aos de Vítor, que ela assentiu de forma quase imperceptível, e apenas uma vez.
Impossível, para Vítor, descrever o que sentiu.
À onda de revolta sobrepôs-se outra, de frustração, seguida por mais uma, de ódio, e por outra, de tristeza, e por várias outras, indefiníveis, de forma que ele se viu quase afogado num oceano de desilusão.
Também não conseguiu encará-la.
O corpo esfriou, como se o sangue houvesse sido lavado pela enxurrada do desencanto, transformando em gelo o sentimento que antes aquecia seu coração.
Sem reacção, as lágrimas agrilhoadas aos olhos por imposição do orgulho, Vítor se afastou, procurando apoio no filho.
Rodrigo lia um livro de aventuras, ao qual não prestava a menor atenção.
Vendo o pai, abaixou o volume e esboçou um sorriso tímido.
- Quer que eu leia para você? - perguntou Vítor, sentando-se ao lado dele.
- Se você quiser...
- Eu quero.
Ele reabriu o livro, dando continuidade à leitura, com a qual seguia sem prestar atenção, escravizado pela dor da certeza.
Pronunciando frases que lhe pareciam vazias, experimentou uma sensação de paz ao sentir a cabecinha do filho encostar em seu ombro.
Por pouco, não soltou o livro e o abraçou, só não o fazendo por medo de accionar uma nova crise que, naquele momento, talvez não tivesse condições de controlar.
- Eu te amo, papai - sussurrou o menino, apertando a mão dele.
- Também te amo, meu filho - respondeu ele, em seu esforço máximo de parecer coerente.
- Vai ficar tudo bem.
- Por que diz isso?
A estranheza funcionou como uma injecção de coragem em seu espírito.
Vítor abaixou o livro e olhou para ele, sem saber o significado exacto daquela afirmação.
- Eu vou ficar bom.
E mamãe vai voltar para a gente.
- Como assim?
Ele não respondeu.
Nem sabia por que dizia aquelas coisas.
Desconhecia a interferência subtil de Lucélia, que fora ali à procura de Moisés.
Não o encontrou mas, deparando-se com a aura de tristeza disseminada por todo o apartamento, auxiliou do jeito que pôde.
Promoveu uma limpeza energética que, tal como uma esponja de luz, diluíria, aos poucos, parte das crostas de energia escura ali atiradas pelos pensamentos e sentimentos deletérios dos encarnados.
Depois, aproveitando-se da sensibilidade extrema de Rodrigo, soprou em seu ouvido a mensagem de esperança, que ele transmitiu ao pai sem nenhum questionamento.
Em seguida, adormeceu o menino e partiu, deixando Vítor entregue à reflexão, pensando sobre o significado da única palavra que ela iluminou em sua mente: perdão.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 21, 2017 10:36 am

Capítulo 28
Dentro do apartamento vazio, o espírito de Moisés suspirava, consultando o relógio da parede a todo instante.
Fazia tempo que não aparecia por ali.
De vez em quando, sentia um certo alvoroço no coração, como um chamado que o atraía para perto de Rodrigo.
Devia ser saudade, pensou.
Afinal de contas, afeiçoara-se também ao menino, embora desse graças a Deus por não precisar mais conviver com as malvadezas de Lizandra.
De qualquer forma, seria bom dar uma passada por lá para ver como o garoto reagia ao sumiço de Billy, agora Bruce.
Sem sombra de dúvida, o cachorro estava melhor com a nova família, já que Lizandra conseguira estragar aquela.
Rodrigo e Vítor eram boas pessoas, mas aquela mulher era insuportável.
O menino devia estar sofrendo.
Mais do que qualquer outra pessoa, Moisés conhecia a dor de perder um cão amigo.
Era por isso que estava ali.
Se encontrasse um jeito de confortar Rodrigo, ele o faria.
Ouviu barulho na fechadura e fixou os olhos na porta, ansioso pela entrada do menino.
Para espanto seu, quem primeiro entrou não foi quem ele esperava, mas uma mulher toda perua, vestida de vermelho berrante, lábios cor de cereja, cabelos presos no alto, com fios encaracolados caindo displicentemente sobre os olhos exageradamente pintados.
Ela não entrou propriamente, atravessou a porta.
Logo após, pelas vias físicas normais, Rodrigo entrou em companhia dos pais.
Moisés, contudo, intrigado com a presença da mulher, esqueceu-se de que fora até ali para visitar o menino.
Ela caminhava pela sala escura com uma intimidade desconcertante.
Até então, parecia não ter se dado conta da presença dele, pois perambulava agitando a saia, cantarolando uma canção desconhecida.
Quando a luz se acendeu, ela foi atrás das pessoas, passando por Moisés como se ele não existisse.
Seria possível que não o tivesse visto?
Melhor segui-la.
Ele deu dois passos na direcção dela e estacou.
Subitamente, a mulher parou e se virou para ele, apontando-lhe um dedo ameaçador.
- Quem é você e o que está fazendo aqui? — perguntou de chofre, intimidando-o com sua aparência de periguete ensandecida.
Com o susto, ele soltou um grito agudo e pensou em correr para se esconder atrás da cortina, até que se deu conta de que seria uma bobagem inútil.
Preferiu sustentar o olhar furioso dela e tentar uma abordagem amistosa.
- Você é um espírito - afirmou, calmamente.
- Nota-se.
- O que está fazendo aqui?
Isso é, não que seja da minha conta, mas é que estou curioso.
Ela olhava para ele com total desconfiança.
Talvez fosse melhor fugir e retornar depois, mas o caso é que fazia pouco tempo que estava de volta.
- Você também é um espírito - tornou ela, sem muita emoção.
- Sou.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 21, 2017 10:36 am

- Mas não é perigoso, é?
- Como assim, perigoso?
- Sabe como é, tipo sentinela ou vigilante.
Daqueles que pegam a gente e levam embora.
- Não sei do que você está falando.
Nunca vi nenhum desses.
- Sorte a sua.
E agora me diga:
o que você está fazendo aqui?
Também tem contas a acertar com essa gente?
- Não. Eu só queria encontrar o meu cachorro...
- Cachorro?
Ah, deixa pra lá.
Não me interessa.
- E você?
Tem contas a acertar com quem?
- Com ela, principalmente.
Detesto a mulher do açougueiro.
- Mulher do açougueiro?
Que eu saiba, o marido dela é dono de uma rede de postos de gasolina.
Ainda o encarando, ela se perguntava se podia confiar nele.
- Tem certeza de que você não está aqui para me levar?
- Absoluta.
Na verdade, nem saberia para onde levá-la.
- E de onde você veio?
- De lugar nenhum.
Fico zanzando por aí.
- Ninguém veio recolher você?
Nada de parentes, amigos, espíritos iluminados tentando convencê-lo a seguir com eles?
- Bom, isso teve, mas eu recusei.
- Porquê? - interessou-se.
- Sei lá. - Ele deu de ombros.
Acho que não tenho o que fazer com eles.
— Agora sim, você é dos meus!
Sinto que posso confiar na sua pessoa.
- É claro que pode.
Mas você falava na mulher do açougueiro...
- Verdade. No passado, o marido dela era outro cara - disse, apontando com o polegar na direcção que Lizandra havia tomado - e ele tinha um abatedouro, vendia carne. Terrível!
- Não sei nada sobre isso.
- Essa mulher sempre detestou animais.
Tinha prazer na hora do abate.
Era ela quem segurava o cutelo no momento de degolar as reses.
- Esse assunto está me deixando enjoado - reclamou Moisés.
- Pois é. Eu também ficava.
Agora, já me acostumei.
- O que foi que ela lhe fez?
Matou seu porquinho de estimação?
- Ah, ah, ah... - ironizou.
Engraçadinho. Ela roubou meu marido.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 22, 2017 11:08 am

- Seu marido? - repetiu, desconfiado.
- Quer ouvir a minha história?
Ele ergueu os braços, acomodando-se em uma poltrona e fazendo sinal para que ela se sentasse ao lado dele.
- Sou todo ouvidos.
- O que vou lhe contar aconteceu em outro tempo.
Na verdade, estou por aqui há tantos anos que nem sei mais direito quando foi.
Algo em torno do início do século XIX.
Acho que estamos no XXI, não é?
Adoro este século e sua linguagem descompromissada.
- Você está esse tempo todo vagando por aí, atrás dela?
- Mais ou menos.
No começo, ficamos nos engalfinhando por aqui mesmo, até que ela fugiu para reencarnar.
Mas isso é outra história.
- Então, vamos lá.
Conte-me a história que interessa.
- Como eu disse, ela e o marido tinham uma criação de gado, que abastecia a cidade em que viviam, aqui mesmo, no estado do Rio.
- Onde está o marido dela?
- Reencarnado.
É um médico chamado Danilo.
Conhece?
- Já ouvi falar.
- Mas essa também é outra história.
Bom, como eu ia dizendo, eles tinham essa propriedade horrorosa.
Imagine só como eram criados os animais de abate naquela época.
Sem qualquer higiene, sem inspecção, sem cuidado com os bichos, que sofriam à beça nas mãos dos carniceiros.
- Essa parte, você pode pular.
Não gosto de ouvir sobre crueldade animal.
- Deixe de ser frouxo e escute.
Num lugar em que rola muito sangue, não é possível que espíritos iluminados se sintam bem, não é?
- Não sei, na verdade.
- Alguns lá de cima vão aos matadouros para ajudar os animais a desencarnar, mas os outros não os vêem.
São puros demais, subtis demais para o padrão vibratório do lugar.
Rom, o facto é que o abatedouro estava cheio de espíritos sedentos de sangue, que ficavam circulando por ali, à espera da carnificina.
- Não me leve a mal, dona... — fez uma pausa, com ar questionador.
Você ainda não me disse o seu nome.
- Camélia, sem o dona.
E o seu é...?
- Moisés.
- Muito prazer, Moisés.
Agora somos amigos.
Quer saber como o pessoal daqui se chamava na outra vida?
- Não precisa.
Vai complicar muito as coisas.
Acho melhor chamá-los pelos seus nomes atuais.
- Também acho.
Bom, como eu ia dizendo...
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 22, 2017 11:08 am

- Na verdade, eu é que ia dizendo - interrompeu Moisés.
Você divaga demais.
Por que é importante falar de tudo isso?
Estou mesmo ficando enjoado.
- Foi você quem pediu.
- Tem razão. Continue.
Vou tentar segurar o estômago.
- Você não tem mais estômago!
Quer dizer, não físico.
Então, seu enjoo é só impressão dos seus sentidos ainda presos à matéria.
- Como é que você sabe de tudo isso?
- Tantos anos no astral devem ter me valido de alguma coisa, concorda?
- Concordo. Mas não divague.
Vá adiante, por favor.
- Tudo bem.
A história que Camélia estava prestes a narrar não era nada agradável.
Em outras circunstâncias, teria se recusado a falar.
Mas havia em Moisés uma cumplicidade que a atraía, despertando sua confiança.
E o silêncio prolongado dos anos estimulava sua vontade de conversar.
Ela pigarreou algumas vezes, fez gestos teatrais e só então começou.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 22, 2017 11:08 am

Capítulo 29
Com ar de quem sabe de tudo, Camélia deu início ao que ela mesma considerava uma narrativa macabra:
- Para que um animal seja abatido, ele precisa ser sangrado.
Isso quer dizer que voa sangue para todo lado.
Nessa hora, espíritos mais empedernidos, ainda muito apegados ao universo denso, se jogam sobre a carcaça, para sugar o sangue que se derrama da vítima.
São como vampiros, ávidos pelo fluxo de vida que o bicho, ainda cheio de vitalidade, expele.
Isso acontecia naquela época e ainda acontece até hoje, apesar dos cuidados e das modernas técnicas de abate e insensibilização do animal.
O sangue continua fluindo para fora das veias, e os espíritos continuam se alimentando dele.
- Já sei, já sei. E aí...
- E aí, com esse fluxo de vida, ou fluido de vida, ou energia de vida penetrando no corpo fluídico de espíritos embrutecidos, eles se sentem como se estivessem vivos, embora saibam que não estão.
São espíritos que não queriam estar mortos, mas não tem jeito, né?
Morreu, morreu.
Vida física, só na outra encarnação.
Mas eles não querem reencarnar, com medo dos ajustes da consciência.
Daí surgem alguns horrores e aberrações, como pessoas defeituosas, com mutilações horríveis, retardadas...
- Camélia, você está divagando de novo.
Dá para se ater ao que interessa?
- Ah, tudo bem, desculpe.
É que faz muito tempo que não converso com alguém e acabo me empolgando.
Se um dia eu for embora desse mundo, acho que vou ser professora...
- Camélia!
- Ah, desculpe.
É que ninguém nunca me ensinou nada.
Aprendi tudo sozinha, só observando e tirando minhas conclusões.
- Sei, mas...
- Já sei, estou divagando.
E você está se repetindo.
Muito bem, vamos continuar - apressou-se ela a dizer, antes que ele reclamasse outra vez.
Na hora do abate, a porção da matéria densa, que são o sangue e a carne, fica para esses espíritos que, de tão espessos e opacos, não alcançam elevação vibratória suficiente para perceber os espíritos de luz que atuam na outra porção, acolhendo os corpos subtis dos animais.
Essa parte, realmente, é linda de se ver.
Nos dias de hoje, por causa da insensibilização, eles partem adormecidos, não sei para onde, carregados de forma carinhosa pelos iluminados.
Os espíritos são delgados, delicados, mas conseguem levantar um boi com a maior facilidade.
E com que ternura eles levam os animais!
Você tem que ver!
- Posso imaginar.
Mas continue.
- Antigamente, levava um bom tempo até o animal morrer.
Ele ficava se debatendo, gritando, estrebuchando.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 22, 2017 11:08 am

Os sanguessugas adoravam.
Riam, se compraziam, faziam até apostas entre eles para ver quem acertava o tempo que levariam para morrer.
O vencedor tinha direito a um quinhão maior da essência do sangue.
Os iluminados faziam o que podiam.
Davam passes, espargiam energias anestésicas para diminuir a dor dos pobres imolados.
Uniam-se para desligar o espírito do animal, o mais rápido que podiam, de seu corpo físico.
Quando a vítima finalmente morria, seu corpo astral era arremessado, literalmente, no mundo invisível.
Os animais ficavam feito doidos, não entendiam nada.
Viam seus corpos mutilados, sem saber que lhes pertenciam.
O animal não tem consciência dele mesmo, sabe?
Mas rapidinho aprende o que é sofrer, e a memória da dor e de quem as causou permanece por muito tempo.
Por causa disso, não eram poucos os que fugiam dos espíritos de luz, pois a forma humana sempre lhes causou horror.
Se eles aprendem o que é sofrer, aprendem também quem é a causa do sofrimento.
O homem é uma ameaça, sempre foi e sempre continuará sendo...
Quero dizer, até que as consciências mudem, muitos animais ainda sofrerão nas mãos de pessoas, não digo más, porém, insensíveis.
Moisés estava chorando.
Só de imaginar aquela câmara de horrores, aquele calabouço sanguinolento, sentiu o coração dilacerado.
- Por favor, Camélia - suplicou ele.
Pare de divagar.
Estou ficando deprimido agora.
- Não era essa minha intenção, Moisés.
Mas como eu disse, não falo sobre isso com ninguém há muito tempo.
E eu também fico condoída, toda vez que vejo um assado sobre a mesa de jantar.
Você não sabe os horrores que eu já presenciei.
- Não compreendo sua intenção com tudo isso.
Você me parece uma boa pessoa, esclarecida, equilibrada.
Porque não vai embora e deixa essa gente para lá?
Ela sorriu amargamente, levantando-se do sofá para apreciar a Lua, que se derramava pela janela.
- Eu não consigo perdoar - confessou, com angústia.
Não guardo raiva de ninguém, não desejo o mal a ninguém.
Procuro ajudar, quando posso, principalmente os animais.
Mas tudo é diferente quando se trata de Lizandra.
Ela tirou de mim a única pessoa que eu amei na vida.
- Sinto muito - murmurou ele, condoído, lembrando-se que lhe fizeram o mesmo ao retirar-lhe Tostão.
- Olhando para mim agora, ninguém diz que eu já fui deficiente.
- Você foi?
- Fui. De olho no meu marido, ela quis me matar.
Afrouxou a roda da minha carroça, que se soltou e virou sobre minhas pernas.
Fiquei paralítica, desde esse dia.
- Como é que você sabe que foi ela?
- Depois que morre, a gente acaba sabendo de tudo.
Mesmo antes, eu já desconfiava.
Era a conclusão lógica, já que ela e Rodrigo eram amantes.
- Rodrigo?!
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 22, 2017 11:09 am

Esse Rodrigo?
- O próprio.
- Mas como... - balbuciou confuso.
- Meu marido trabalhava para eles - prosseguiu Camélia, sem dar atenção ao embaraço dele.
O marido dela, o açougueiro, era um banana.
Matava bicho, mas tinha medo da mulher.
Era bem mais velho do que ela, que só se casou com ele por dinheiro.
Mas como o traste não a satisfazia, ela acabou se engraçando pelo meu marido.
Depois que sofri o acidente, ele praticamente me abandonou.
Estava de cabeça virada, enrabichado pela piranha...
Ainda assim, era melhor do que ela, não permitiu que ela tentasse me matar novamente.
Levou-me para a cidade, para a casa de meus pais.
Fiquei lá até morrer de desgosto, ainda jovem.
- Que história mais triste.
- Pois é.
Mas quem não tem uma história triste para contar, não é mesmo?
Todos nós vivemos e morremos sob a lei de causa e efeito.
- Não entendi.
- Lei de causa e efeito.
Não sabe o que é?
- Mais ou menos.
- Diz que a gente recebe aquilo que dá.
Antes, eu achava que a gente pagava pelo mal que fazia, até que entendi que não é um pagamento, mas uma compensação.
A gente compensa a vida pelo desequilíbrio que lhe causou.
Simples assim.
- Compensa como?
- Com sofrimento ou sem sofrimento.
Depende de cada um.
Quem é burro, como a maioria de nós, escolhe sofrer.
Quem não é encontra meios melhores.
- Desculpe, Camélia, mas continuo sem entender muito bem.
- Eu, hein!
Vai ser tapado assim na China!
- Não precisa ofender! — Moisés irritou-se, fazendo menção de se levantar.
- Fique calmo, me desculpe.
Tenho um jeito meio tresloucado mesmo, mas não quis ofender.
Quando falo na lei de causa e efeito, quero dizer que, num passado ainda mais remoto, anterior a esse que lhe contei, fiz alguma coisa de ruim a ela, que a deixou com raiva, e ela acabou fazendo algo semelhante comigo.
- Ou seja, ela se vingou de algo que você lhe havia feito antes.
Ela assentiu.
- E agora você quer se vingar dela, para depois ela querer se vingar de novo.
Aí, você se vinga outra vez, e depois ela, e depois você...
E por aí vai.
Quando é que esse ciclo de vinganças vai acabar?
O olhar dela exprimia compreensão.
Concordava com o que ele dizia, entendia aquele ciclo mesquinho de vinganças, só que não tinha forças para lutar contra seus sentimentos.
Ela desviou os olhos para as próprias mãos, temendo encarar o interlocutor, até que conseguiu rebater:
- Não quero me vingar dela.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 22, 2017 11:09 am

Só não consigo perdoá-la.
Esse sentimento de ódio é o que me mantém presa ao campo vibracional de Lizandra.
Se Rodrigo ainda não fosse filho dela, talvez eu conseguisse, mas ele está aqui, um prémio para a mulher que o tirou de mim.
- Já passou pela sua cabeça que ele pode gostar dela?
- Isso não importa — objectou ela, enraivecida.
Ele me traiu porque ela o seduziu.
Foi ela quem o tirou de mim.
- Porque está se enganando?
Não sabe que ninguém perde o que nunca teve?
- O que quer dizer com isso?
- Quero dizer que as pessoas não pertencem a ninguém.
Cada um é livre para escolher com quem quer ficar, e não há nada que se possa fazer.
- Mas ela não precisava tentar me matar!
- Não estou justificando o que ela fez.
Eu mesmo não gosto de Lizandra e só fiquei por aqui para defender o cachorro.
Agora que ele se foi, não tenho mais motivos para permanecer.
Ainda tenho esperanças de encontrar o Tostão.
- Que Tostão?
- O meu cachorro.
Desencarnou junto comigo, mas alguém deu sumiço nele.
Minha mãe disse que ele voltou para a alma colectiva dos cães.
Não quero acreditar, mas, no fundo, acho que é isso mesmo.
Que outra explicação haveria para justificar o sumiço dele?
- Não sei. Essa gente de lá é fogo.
Procure esquecer.
Se ele retornou à alma-grupo dele, você nunca mais irá encontrá-lo.
Melhor se conformar logo e sofrer menos.
- É o que estou tentando fazer, mas não é nada fácil.
- Não, não é. Eu que o diga.
- Desculpe, mas não me parece que você esteja tentando alguma coisa.
- É porque não posso.
Quando Rodrigo me deixou, jurei que ele não seria dela.
"Não pude impedir em vida, mas agora, tenho meus métodos.
- Não tem, não.
Você só vai prejudicar o menino.
Se é que já não o está prejudicando.
- Isso não é da sua conta!
Quer saber?
Estou arrependida de ter dado conversa a você. Enxerido!
- Não fique zangada.
Quero apenas que você reflicta.
Vingança não leva a nada.
E acho que a lei de causa e efeito não é bem assim.
Entendo pouco de questões espirituais, mas o que sei é que tudo deve atender à lei do amor.
Não creio que Deus exija sofrimento das pessoas.
São as próprias pessoas, nós, inclusive, que buscamos nosso sofrimento, ao fazer escolhas que não condizem com a lei do amor.
Mas acredito que podemos mudar isso.
Basta querer.
O inevitável só se estabelece quando a gente lhe dá forças com a nossa crença.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 22, 2017 11:09 am

- Belas palavras - ironizou ela, batendo palmas.
Parece até coisa de filósofo.
Só que não preciso de filosofia na minha vida.
Já basta a lavagem cerebral que os outros tentam fazer em mim.
- Que outros?
- Os espíritos que vêm do alto para tentar me levar.
Às vezes, uma sentinela mais experiente consegue me laçar e me leva para a cidade deles.
Cuidam de mim, tentam me convencer a ficar.
Não vou dizer que não me sinta tentada.
O lugar é bom, bonito; as pessoas são amáveis, atenciosas.
Mas não dá.
Não saio do lado de Rodrigo por nada desse mundo.
Como não sou boba, dou um jeito de me concentrar e fujo para cá.
- Você é esperta, não nego.
Mas devia ser mais inteligente.
- Vai começar? E você?
Se é tão inteligente assim, porque não vai embora?
O que o prende aqui?
- Nada me prende aqui.
- Então vai. O que está esperando?
Pode ir. Desapareça!
- Ei! Calma!
Por que tanta agressividade?
Acabamos de nos conhecer, e você já quer se livrar de mim?
Depois de me contar sua história?
- Desculpe. Eu me excedi.
É que saio do sério quando alguém sugere que eu deixe o Rodrigo.
- Não se preocupe, não vou mais falar isso.
Não é problema meu.
- Até que você é um cara legal.
Sabe que parece que o conheço de algum lugar?
- Será?
- Vai ver, você frequentava o matadouro.
- Eu?! Deus me livre!
- Engraçado... nunca o havia visto antes...
Mas espere... você tem mesmo algo familiar.
Estranho...
Tem certeza de que nunca participou da carnificina animal, de um lado ou de outro?
Nesse momento, Moisés sentiu uma pontada no coração.
A imagem de um lugar sujo e pegajoso, do cheiro de sangue, dos despojos, dos fragmentos de ossos e da atmosfera lúgubre invadiu sua mente como um ciclone inesperado, embaralhando memórias e pensamentos.
Sentiu-se mal, confuso, atordoado.
A sala ao redor ganhou vida, girando como um relógio em que, a cada hora, sucedia-se um episódio macabro.
Aturdido, levou a mão à cabeça, tentando silenciar os gritos e apagar as imagens.
- Não pode ser! — esbracejou, o rosto se avermelhando com o calor da raiva súbita.
É minha imaginação.
Devo ter ficado impressionado com a história macabra que você me contou.
Eu não participaria daquele holocausto animal.
Nunca! Pelo meu Tostão, eu não faria isso!
Que eu arda na fogueira, se estou mentindo!
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 22, 2017 11:09 am

Surpreendida pela reacção violenta e inesperada de Moisés, Camélia recuou para o canto da parede, o cérebro evocando reminiscências há muito esquecidas na poeira do tempo.
Um rosto, uma voz, uma gargalhada... algo sinistro que rastejava pelas sombras como um espectro medonho, de proporções imensas, corpo disforme.
Como um caleidoscópio funesto, cenas do antigo matadouro se revezavam e se transformavam na lembrança que, simultaneamente, era revivida nas mentes de Camélia e Moisés.
Beirando a escuridão, uma presença maligna serpenteava pelos arredores da sala sangrenta.
Oculta pelo manto das trevas, comandava a malta de sanguessugas, que atacava e recuava sob suas ordens.
Aberta a garganta do boi, ele deu um passo à frente.
Era um homem, mas tinha algo de fera.
O olhar flamejante, sanguíneo, dardejava ondas de um desejo diabólico e lúbrico.
Cornos pequenos e pontudos encimavam sua cabeça de bode.
As mãos deformadas apresentavam garras taurinas, e, em lugar de pés, cascos, que estalavam nas pedras quando ele coxeava.
A aparência era uma mistura de boi e bode, assustadora mas, ao mesmo tempo, dotada de uma certa comicidade.
Parecia um ser exótico feito às pressas para um filme de terror da década de 1950.
Mesmo assim, impunha respeito, facilmente constatado pelo ar de reverência com que os demais o recebiam.
Quem se atrevesse a observá-lo com mais acuidade, logo desvendaria a farsa em suas atitudes.
O medo, contudo, impedia os outros de enxergarem o homem acuado por debaixo da tenebrosa capa.
Bastava mirar-lhe bem os olhos para perceber que as chamas que ali ondulavam vinham do espelho que reflectia seus desejos, mas que se apagariam ao primeiro sinal de reconhecimento.
O corpo, que ele transformara num colosso animalesco, era o resultado da modificação plasmática, por ele manipulada com uma certa destreza.
Nada nele era real, salvo, talvez, o intelecto, a esperteza, a argúcia.
Sabia imprimir terror porque dominava as técnicas de modelagem do plasma e conhecia os medos ocultos no coração de cada ser que o servia.
Era, merecidamente, o líder.
Soltando uma gargalhada infernal, a coisa olhou ao redor, satisfeita com o respeito de seus comandados.
Por alguns segundos mais, manteve o teatro ensaiado, a fim de impressionar a mente fraca dos que lhe deviam obediência.
Em seguida, deu um urro estrondoso e, com a fúria própria do predador, atirou-se, famélico, sobre a presa ainda viva.
Os demais espíritos aguardavam, inquietos, sua vez de saciar a fome de vida.
Mas o mestre custava a se fartar daquele sangue quente e pulsante.
Quando outro animal foi cortado, a súcia olhou para ele, ávida, pronta para avançar sobre o boi que se debatia.
Olhando-os com ar malicioso, o líder assentiu.
Na mesma hora, dezenas de espíritos lançaram-se sobre o animal, sugando o sangue com sofreguidão vampiresca.
Não se podia negar que a cena era horrenda.
O líder, um embuste, mas a situação era real.
Ele e seus asseclas comportavam-se feito lobos selvagens, mordendo, rasgando, sugando sangue, até que a energia vital por eles roubada lhes desse a sensação de saciedade e os fizesse descartar os restos inertes da pobre presa.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 22, 2017 11:10 am

Perceber que tudo não passava de encenação não era fácil.
Apenas os espíritos de maior esclarecimento tinham condições de identificar os sinais da artimanha.
Mas a malta que o seguia era por demais estúpida para questionar qualquer coisa.
Atemorizados diante do ardil bem montado, os espíritos se entregavam à sanha do maioral, sem saber que era com a sua covardia que alimentavam o poder do mestre.
Após séculos, a hierarquia se consolidou, o chefe se estabeleceu e o medo só fez aumentar.
A inesperada visão, saída das reminiscências ocultas, tanto de Camélia quanto de Moisés, se desfez tão logo os dois reassumiram o controle sobre a própria mente.
Não foi uma lembrança agradável.
Na verdade, foi surpreendente, ainda mais porque partilhada por ambos.
Uma lembrança partilhada é uma história repartida, de forma que os dois espíritos compreenderam que, juntos, haviam presenciado aquele episódio.
Uma vez liberta da atrofia das pernas, a jovem Camélia desencarnada partiu em busca do marido, passando a acompanhar seus encontros furtivos com a mulher do açougueiro, que geralmente aconteciam no próprio matadouro, após o abate.
Ali, presenciou os horrores da matança, seguida da voracidade sanguinária dos macabros espíritos que espreitavam das sombras.
Sob a forte impressão causada pela lembrança funesta, Camélia, olhos arregalados, apontou o dedo na direcção de Moisés e gritou, aterrorizada:
- É o diabo!
Sem compreender bem de onde havia partido aquela cena grotesca, Moisés se concentrou na própria vida, puxando de volta a memória para o presente.
Os olhos ardiam, como duas gemas ígneas de onde irrompiam lágrimas escaldantes.
Aturdido, buscou Camélia com o olhar e tentou aproximar-se, quando percebeu que ela tremia de medo.
Ela se esquivou, ocultando-se atrás da cortina, de onde o olhava com desconfiança e pavor.
Foi então que ele se deu conta.
Olhou para ela, depois para ele, para ela de novo.
Levantou as mãos na altura dos olhos, virando-as de um lado a outro, tentando identificar qualquer resquício do passado.
Resquícios não havia.
Só a certeza de quem ele realmente havia sido.
A revelação da consciência fez dobrar seus joelhos.
Lentamente, Moisés tombou no chão.
Ofereceu a Camélia seu olhar de maior horror e exclamou aterrorizado:
— Sou eu! O diabo sou eu!
Sem mais resistir, como num passe de mágica, fechou os olhos e sumiu.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 22, 2017 11:10 am

Capítulo 30
Cães não são simplesmente coisas inanimadas.
São seres vivos.
E, como não são dotados de autonomia para cuidar de si mesmos, recebem protecção legal, cabendo ao homem promover medidas eficazes contra a extinção de espécies e os abusos que os submetam a tratamento cruel1.
Abusos de toda natureza são considerados crimes por lei, estendendo-se a todo tipo de animais, domésticos ou não2.
Essa protecção, todavia, atende, primeiramente, ao direito que todo ser humano tem a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, donde se conclui que visa, primordialmente, ao bem-estar das pessoas, figurando o animal como elemento essencial à manutenção desse equilíbrio.
Ainda sob a óptica egoística do homem, o animal é uma coisa que possui valor económico.
É um bem móvel3, que pode ser reivindicado, cedido ou alienado, de acordo com a vontade de seu proprietário.
Em suma, o animal é protegido para assegurar o direito de propriedade, que é um dos direitos fundamentais da pessoa4, a quem cabe a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, mas sempre atendendo à limitação que a preservação da fauna requer5.
Não se trata, porém, de uma injustiça.
Da protecção legal conferida aos animais resulta, de forma indirecta, o reconhecimento de seus direitos, sobretudo à vida e à integridade, tanto física quanto psíquica.
E, embora ainda sejam vistos como fonte de alimento, trabalho e até diversão, não podem ser submetidos a maus-tratos nem a técnicas que lhes inflijam sofrimento.
Pode não ser o ideal, mas já é um avanço, ainda mais levando-se em conta a natureza ainda um tanto primitiva do planeta.
Falar em direito não significa estender aos animais todos os atributos contidos na lei, pois apenas as pessoas podem adquirir direitos e contrair obrigações.
Sob a óptica jurídica, pessoas naturais são apenas os seres humanos, que adquirem personalidade jurídica após o nascimento com vida1.
Seguindo o desenvolvimento normal, a criança cresce, ganha maturidade e se torna um ser independente, capaz de cuidar da própria vida2.
Abstraindo-se do campo jurídico, a ciência física e, sobretudo, a espiritual, vão muito além do valor económico do animal.
Sendo ambos, animal e humano, iguais na concepção divina, priorizar um ou outro irá depender da adequação do momento às necessidades da natureza.
Na luta entre o homem e a fera, sairá vencedor aquele que, no instante do confronto, merecer ganhar da vida a chance de sobrevivência.
Todas essas questões pesavam na consciência de Wilson.
Havia escolhido não telefonar para o número de celular que, contra sua vontade, ficara registrado em sua mente.
Por mais que fizesse, não conseguia esquecê-lo.
A todo instante, lá vinham aqueles algarismos tingidos de vermelho se organizando até formar o número que marretava em seus pensamentos.
E se outra criança estivesse sofrendo com a falta do cachorro?
Faça a coisa certa, Wilson!, era o que dizia a si mesmo.
Estava enlouquecendo.
Queria dividir o fardo com a mulher, mas Isabela evitava o assunto, saindo de perto dele sempre que ele o iniciava.
Já que a esposa não o auxiliava, talvez fosse melhor consultar a pessoa mais interessada no problema: o próprio filho.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 22, 2017 11:10 am

André ainda era uma criança, mas tinha capacidade para compreender e decidir.
Nada mais justo do que fazê-lo participar daquela difícil resolução.
Ainda era cedo, André devia estar acordado.
Wilson se levantou do sofá, onde Isabela cochilava, em frente à televisão.
Evitando fazer barulho, seguiu na ponta dos pés, até chegar ao topo da escada.
Olhou para baixo, para ver se ela havia percebido alguma coisa, mas apenas o silêncio o acompanhou.
- Posso entrar, meu filho? — indagou ele, pondo a cabeça pela porta entreaberta.
- Pode, claro.
- O Bruce está dormindo?
- Está. Também pudera, brincou o dia inteiro.
-E você? Por que ainda está acordado?
- Estou terminando essa partida.
O menino voltou os olhos para a televisão, concentrando-se novamente no jogo de futebol.
Pacientemente, Wilson esperou, fazendo comentários elogiosos a cada vez que ele concluía um lance inteligente.
Quando, por fim, ele venceu, desligou o videogame e a televisão, preparando-se para dormir.
- Já escovou os dentes?
- Já.
Wilson ajudou-o a se acomodar, cobrindo-o com o edredom, para protegê-lo do frio do ar-condicionado.
A sensibilidade do garoto levou-o a perceber que havia algo errado.
O pai evitava encará-lo, virando e desvirando a borda das cobertas, como se ainda não estivesse bom.
Ele notou o ar ansioso do filho, porque retirou a mão, que uniu à outra para posicioná-las sobre o queixo, acentuando o ar de gravidade.
- Preciso ter uma conversa com você — disse ele, pausada e claramente.
- O que foi? É sobre o Bruce?
Ele fez algo errado?
- Ele não fez nada.
Mas o que tenho a dizer tem a ver com ele, sim.
André esperou, ansioso, que Wilson prosseguisse - Você sabe que encontrei o Bruce na rua, não sabe?
Ele assentiu vagarosamente, coração disparado, imaginando mil coisas ao mesmo tempo.
O pai ainda não havia dito, mas ele já se via diante do momento que mais temia, desde que Bruce chegara.
- O dono do Bruce apareceu? — redarguiu, quase chorando.
- Não exactamente.
Mas sei o telefone dele.
Com cautela, Wilson contou ao filho os detalhes de como havia descoberto o paradeiro dos verdadeiros donos de Bruce, inclusive, que ele se chamava Billy.
Quando concluiu, o filho chorava baixinho, abraçado ao cachorro, que puxara para junto de si.
- Não é justo, pai - rumorejou.
O Bruce agora é meu.
- Tem certeza?
Será que podemos fingir que não sabemos que os donos estão atrás dele?
- Não quero me separar dele.
Nem ele de mim.
- Sei que não.
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Ave sem Ninho

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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 22, 2017 11:11 am

Tampouco eu gostaria disso.
Mas precisamos pensar no que é certo fazer.
- Eu não sei o que é certo.
Só sei que Bruce e eu nos amamos...
Será que ele estaria pondo nas costas do filho um julgamento por demais complexo para ele fazer sozinho?
Não estaria exigindo demais de uma criança, que não tinha ainda maturidade para colocar a razão acima da emoção e escolher a decisão certa, que só lhe traria sofrimento?
As lágrimas de André, a forma como se apegava ao animal, seu olhar de incompreensão diante do que ele considerava uma injustiça, tudo isso levou Wilson a questionar se tinha mesmo o direito de envolvê-lo naquela escolha.
- Sinto muito, André.
Não queria fazer você sofrer.
As lágrimas desaguaram no pranto, que acabou despertando Isabela, cujos ouvidos de mãe estavam preparados para perceber qualquer alteração na tranquilidade do filho.
Chegou ao quarto dele ainda a tempo de ouvir as últimas palavras de Wilson.
- O que está acontecendo aqui? — questionou ela, dirigindo ao marido um olhar severo.
Porque você faria André sofrer?
- Acalme-se, Isabela.
André e eu só estamos conversando.
- Conversando? Sobre o quê?
Veja o estado dele, Wilson!
O menino está desesperado!
Ela abraçou o filho, movida pelo instinto de protecção.
André agarrou-se à mãe, como se ela fosse capaz de transformar em pesadelo a realidade trazida pelo pai.
- Isabela, por favor... - pediu Wilson.
- O que você fez, Wilson?
Você contou a ele, não foi?
É por isso que o menino está assim.
- Achei que era o melhor.
- Nós tínhamos combinado que não contaríamos!
Você não tinha o direito de falar com ele sem me consultar.
- Você não teria permitido.
- É claro que não!
Não foi isso que decidimos? Juntos?
- Mas não é certo.
Não podemos fingir que o cachorro é nosso.
- Mas é!
- De verdade, você sabe que não.
- O que você fez foi uma covardia!
Mas não vou permitir que você tire o Bruce daqui!
- Deixe, mãe - a vozinha miúda de André interrompeu a fluência de indignação de Isabela.
Está tudo bem.
Papai tem razão.
Agora que sei, não dá para fingir que não sei.
- Você não sabe o que está falando - objectou ela.
Ainda é muito criança, não tem noção das coisas.
- Sei o que é certo e o que é errado.
Você e papai me ensinaram.
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Ave sem Ninho

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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 22, 2017 11:11 am

E acho que ficar com um cão que não me pertence não é certo.
Os dois o fitaram ao mesmo tempo, impressionados com a lucidez de suas palavras.
- Tem certeza, meu filho? - Wilson quis saber.
- Tenho.
- Pense bem, André - interveio Isabela.
Vai ser difícil separar-se dele.
- Eu sei. Mas é o certo...
A decisão estava tomada.
Mesmo diante dos alertas de sofrimento, André a sustentou.
Os pais permaneceram junto a ele, confortando--o até que pegasse no sono, quando, então, saíram.
André, contudo, estava acordado.
Fingiu dormir para que o deixassem sozinho.
Bruce dormia a seu lado, ocupando quase toda a cama.
Nem foi preciso puxá-lo para sentir o corpo quente do animal junto ao dele.
André afundou o rosto no pelo macio do pescoço de Bruce.
Em meio à sonolência, o cachorro entreabriu os olhos.
Percebendo que era André deitado sobre ele, virou a cabeça o suficiente para lamber o rosto dele, como se pudesse prever a nova ameaça do destino.
Nem bem o dia amanheceu, Wilson apanhou o telefone.
Queria ligar antes que André acordasse.
Queria poupá-lo daquela conversa.
Demorou um pouco até que alguém atendesse.
- Alô - soou uma voz masculina, seca, apressada.
- Bom dia... - gaguejou ele, sem saber ao certo como iniciar o assunto.
O senhor não me conhece.
Estou ligando por causa do cartaz do cachorro.
Após um breve silêncio, a voz do outro ressurgiu, agora mais relaxada:
- O senhor está se referindo ao border collie?
- Esse mesmo. É seu?
- Meu Deus! - exclamou, aparentemente sem poder acreditar.
Nem tínhamos mais esperanças de encontrá-lo.
É o cachorro do meu filho.
- O senhor o quer de volta?
- Se o quero de volta?
O senhor nem imagina o quanto!
Foi Deus quem o trouxe até nós, justo neste momento.
A perda do cachorro foi um choque terrível para Rodrigo, que até adoeceu.
- Lamento muito ouvir isso.
- Como é mesmo o seu nome?
- Wilson.
- O meu é Vítor.
Quando e onde podemos buscá-lo?
- Espere um momento.
Não é tão simples.
- Por que não?
- Ele está com meu filho agora.
Vai ser uma separação traumática.
- Entendo sua preocupação, Wilson, mas minha mulher e eu estamos desesperados.
Meu filho está doente desde que Billy se foi.
- Mais uma vez, sinto muito.
- Não é que eu queira parecer insensível.
Sei como as crianças se afeiçoam aos animais.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 22, 2017 11:11 am

- Devolvê-lo foi ideia de André, meu filho.
Mesmo assim, sei que ele vai sofrer, principalmente porque faz pouco tempo que seu outro cãozinho morreu.
Vítor silenciou, pensando.
Sabia o que era o sofrimento de uma criança e, se pudesse, faria tudo para evitá-lo ou, ao menos, diminuí-lo.
- E se eu levar o Rodrigo para ver o cachorro e conhecer o seu filho?
Eles podem se tornar amigos.
Quem sabe, assim, não descobrimos uma maneira de resolver as coisas sem machucar ninguém?
- Parece uma boa ideia.
- Pode me passar o endereço?
- Vou mandar por WhatsApp.
- Óptimo. Iremos o mais rápido possível.
Ainda hoje, sem falta.
- Tudo bem.
Estaremos esperando.
O telefone emudeceu quando Vítor desligou.
Parado, com o fone na mão, Wilson perguntou-se se havia, realmente, tomado a decisão certa.

1. Art. 125, § 1º, VII, da Constituição da República.
2. Art. 32 da Lei 9.605/98.
3. Art. 82 do Código Civil.
4. Art. 5°, XXII, da Constituição da República.
5. Art. 1.228, caput e § 1º, do Código Civil.
1. Arts. 1º e 2º do Código Civil.
2. Art. 5º do Código Civil.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 22, 2017 11:11 am

Capítulo 31
André acordou com o pai avisando-o de que os verdadeiros donos de Bruce chegariam a qualquer momento.
De banho tomado, roupa limpa e perfumado, sentou-se na cama para esperar a mãe chamar para o café da manhã.
Não tinha fome.
Sentia que, se algo descesse pelo seu estômago, faria o caminho de volta em segundos.
Estirado sobre a cama, Bruce abriu os olhos, cumprimentando-o com sua usual lambida.
- Bom dia para você também, Bruce - falou André, tentando desenvencilhar-se das lambidas do animal.
Hoje é o dia.
Você se lembra do que lhe falei, não se lembra?
A resposta foi uma generosa lambida na boca, o que provocou uma careta em André, que o afastou e correu para o banheiro, esfregando os lábios com sabão.
- Você sabe que não gosto disso, seu danado - ralhou ele, em tom carinhoso.
Não é porque o seu verdadeiro dono vem aqui hoje que você pode fazer o que quer.
Bruce respondeu com um latido.
Sentou-se diante dele no banheiro, ainda abanando o rabo, que parecia varrer o chão.
- Nada disso.
Não podemos brincar.
Totalmente alheio ao monólogo do garoto, Bruce correu para a porta, arranhando-a para que ele a abrisse.
- Eu sei que você está com fome - continuou André, abaixando-se junto a ele.
Mas eu não estou.
Uma lágrima silenciosa escapuliu de seus olhos, seguida por muitas outras, que pareciam apenas à espera de que a primeira se decidisse.
André não as tentou conter.
Permitiu que elas escorregassem aos borbotões e despencassem sobre os pelos de Bruce que, num primeiro momento, nada percebeu.
Mas quando o menino o apertou de encontro ao peito, afogando em seu pescoço os soluços que se desprendiam do pranto, ele deu uma espécie de pinote para trás e olhou fundo em seus olhos.
Embora Bruce não tivesse consciência alguma do que acontecia, o facto é que os corpos emocionais de ambos, misturados na sintonia do amor, eram capazes de transmitir e receber ondas de sentimento puro, que a sensibilidade impoluta do cão traduziu como tristeza.
O olhar dele demonstrava preocupação, amor, amizade.
A sensação foi tão forte, e os dois estavam tão estreitamente ligados, que André também captou o sentido daquele olhar, percebendo que ele o cão se amariam para sempre.
O instinto, factor invariável do comportamento animal, determina reacções automáticas aos vários estímulos que se apresentam ao longo da vida.
No momento em que os estímulos provocam reacções mentais, que se convertem em sensações perceptíveis no mundo exterior, surge a emoção.
A emoção é uma reacção química ou orgânica, manifestada por meio de respostas impulsivas intensas, automáticas, irracionais e instantâneas a um estímulo específico.
Uma vez tocada pela compreensão espiritual, a emoção faz nascer o sentimento, que é leve e subtil.
As acções que decorrem do sentimento não são accionadas por impulsos.
São equilibradas, ponderadas e avaliadas, decorrentes da percepção do próprio corpo e do pensamento.
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