O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 24, 2017 10:53 am

Capítulo 37
Ítalo permaneceu divagando o olhar pelo quintal, agora vazio.
Apenas Nina imprimiu algum movimento ao cenário quieto, espreguiçando-se com uma corcova de pelos e saltando para a escada.
De rabo erguido como um periscópio, bamboleou pelo terreiro, deu patadas no que deveria ser um insecto e deslizou para dentro, atendendo ao chamado de Larissa.
- Você viu, não viu? - provocou Roberta.
Viu a intimidade com que eles se trataram.
- Essa conversa já está me cansando - queixou-se ele.
- Se você prefere fingir que não vê, problema seu.
Mas depois não reclame, quando todo mundo começar a chamá-lo de corno.
- Mamãe! - censurou ele.
Entenda de uma vez por todas:
não existe nada entre Wilson e Priscila.
São apenas amigos.
- É o que eles querem que todos pensem.
Alimenta o disfarce deles.
- Quanta imaginação!
- Imaginação, é?
Você viu tão bem quanto eu quando ela pôs a mão no braço dele.
Depois, ele agarrou as mãos dela.
E bem na frente da mulher!
Isso não foi imaginação.
- Não. Foi malícia.
- Você é muito ingénuo.
Confia cegamente na sua mulher.
- Priscila não faria isso comigo.
Ela me ama.
- Ama tanto que exclui você das decisões da vida dela.
- Isso não é verdade!
- Ah, não?
E que nome você dá ao que ela disse há pouco?
Você não apita nada aqui dentro, ela deixou isso bem claro.
Se isso não é excluir das decisões, então o que é?
Ele não respondeu.
No fundo, nem ele entendia por que Priscila insistia tanto em afirmar que era ela quem mandava ali.
- A casa é dela... - ele tentou justificar.
- E daí? Você não mora aqui?
Não contribui com as despesas?
Não cuida de tudo, inclusive da filha dela?
Ele assentiu.
- Pois então, você deveria mandar tanto ou mais do que ela.
Afinal, é você o homem da casa.
- Essa história de homem da casa é bobagem.
Hoje em dia, as coisas não são mais assim.
- Não são quando convém que não sejam.
Ele já ia retrucar quando batidas leves soaram na porta.
- Pode entrar - disse ele, apesar do olhar de reprovação da mãe.
A porta se entreabriu apenas o suficiente para tornar Priscila parcialmente visível.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 24, 2017 10:53 am

Sem adentrar o quarto, ela fixou os olhos no marido e chamou, procurando manter a voz num tom cordial e neutro.
- Será que você pode vir aqui um minuto, Ítalo?
- Já vou.
- Não sei se você percebeu, mas meu filho e eu estamos conversando - contrapôs Roberta, mal-humorada.
Priscila teve que lutar com os sentimentos e a voz, para não dar uma resposta desaforada.
Com muito esforço, conseguiu se controlar, procurando manter no rosto um sorriso artificial e congelado:
- Eu sei, mas é importante.
Por favor, Ítalo...
- Está certo.
Volto depois, mamãe.
Beijou a mãe rapidamente na testa, seguindo atrás de Priscila, imaginando que nova sucessão de tempestades desaguaria sobre ele.
Entraram no quarto em silêncio.
Ela trancou a porta e se virou para ele, mantendo no ar uma expectativa cruel, insistindo em fixar nele o olhar enigmático.
Não se movia.
Depois de uma eternidade, finalmente, ela se mexeu.
O olhar abrasivo havia desaparecido, substituído por feições amenas, súplices.
Os gestos de ameaça cederam à proximidade dele, desmanchando-se em ternura.
Toda ela tremia.
Com vagar, aproximou-se, estendendo a mão para tocá-lo.
Ele recebeu o toque dela sem medo, com esperança.
Não havia hostilidade em seus gestos, apenas um encanto pelo que acabara de ser redescoberto.
- Você me ama? - perguntou ela, com simplicidade.
- Amo.
Ele fez uma pausa e devolveu a pergunta:
- Você me ama?
- Amo.
Não puderam dizer mais nada.
Os lábios se uniram, unindo também seus corpos, seus corações.
Entregues ao esquecimento que só faz bem, amaram-se como se apenas os dois existissem.
Naquele momento, não havia nada no mundo além do amor partilhado por eles.
O crepúsculo avançou sobre a tarde, ameaçando derramar o véu da noite por cima dos telhados das casas.
A janela emoldurava a transição das horas, fazendo do tempo uma pintura viva.
Era algo tão bonito de se ver, que Priscila não se atreveu a interromper aquele momento mágico da criação de Deus.
Abraçada ao marido, acompanhava a transformação da luz, que ia se apagando enquanto escurecia.
O quarto mergulhou na penumbra, delineando o contorno de sombras que não se moviam.
Não havia trevas entre eles, nem do lado de dentro, nem do lado de fora.
Só o deslumbramento da escuridão silenciosa, que, em vez de medo, traz consigo a paz.
As batidas que soaram na porta ecoaram por todo o quarto, retornando cada coisa à perspectiva fria de sua natureza sem vida.
- Mamãe? - veio a vozinha meiga de Larissa.
Vocês estão aí?
- Estamos aqui, meu bem - respondeu ela, acendendo a luz.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 24, 2017 10:53 am

O que foi que houve?
- Não tem jantar hoje?
- Jantar? - estranhou.
Que horas são?
- Já passa das oito.
- Oito da noite?
Meu Deus do céu!
Levante, Ítalo!
Não é que dormimos e esquecemos da vida?
Sacudido bruscamente, Ítalo abriu os olhos, tentando entender o que se passava.
Priscila corria pelo quarto, atarantada, catando as roupas do chão e vestindo-as apressadamente.
- Que horas você disse que são? — perguntou ele, sem conseguir focar a vista no relógio da mesinha.
- Oito horas!
Esqueci de fazer o jantar.
- Calma, Priscila - contemporizou ele, puxando-a pela mão.
Qual o problema?
Podemos comer uma pizza no Wilson.
- Larissa ia adorar.
- Então vamos.
Não se apoquente.
Não é nada demais.
- E a sua mãe?
Sério, Ítalo, não queria que ela fosse com a gente.
- Pode deixar que eu cuido disso.
Essa noite, passaremos sozinhos, eu, minha mulher e nossa filha.
- Jura?
Vai fazer isso mesmo?
- Vou, sim.
- Obrigada - finalizou ela, apertando a mão dele com gratidão.
- Ponha um vestido bem bonito.
Vou mandar a Larissa se arrumar e depois, vou falar com a minha mãe.
Roberta recebeu a notícia de que fora excluída do programa nocturno com uma incredulidade irritante.
Tinha vontade de gritar com o filho.
Primeiro, ele não voltara, embora houvesse dito que voltaria.
Depois, passou o resto da tarde trancado com Priscila no quarto, fazendo ela bem sabia o quê.
Agora, surgia de repente, avisando que não tinha jantar.
E, para concluir, apenas a informou que levaria a mulher e Larissa para comer fora, mas que ela não fora convidada.
- Quer que eu morra de fome em casa, sozinha? — rebateu ela, a voz trémula de indignação e raiva.
- Deixe de exageros, mãe.
Sobrou sopa de ontem.
É só esquentar.
- Vocês vão se regalar num banquete, e quer que eu tome sopa requentada?
- Não vamos nos regalar num banquete.
Vamos só comer uma pizza.
- Porque não posso ir junto?
Não fui da outra vez?
- Porque Priscila e eu queremos ficar sozinhos.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 24, 2017 10:53 am

- Por acaso, Larissa é invisível?
Ou ela não conta?
- Larissa é nossa filha.
Queremos passar uma noite só que seja, sozinhos.
Só nós três.
- Você está me excluindo da família - constatou ela, com azedume.
- Não se trata disso.
É que as coisas não vão lá muito bem entre mim e Priscila.
De uns tempos para cá, temos brigado muito.
Quero nos dar uma chance de voltarmos a nos entender.
- Sou eu a causa de tanta discórdia?
- Mamãe, por favor...
- Se sou, pode dizer.
Arrumo minha trouxa e, amanhã mesmo, vou embora.
- Deixe de bobagens.
A senhora nem tem para onde ir!
- Eu me arranjo.
- Pare com isso, está bem?
Não seja ciumenta.
A senhora sabe o quanto a amo, mas amo Priscila também.
Ela é a minha mulher.
Não adiantava discutir com ele.
Nem Roberta tinha mais forças para isso.
Vencida, suspirou profunda e dolorosamente, para ver se ele se comovia.
Não se comoveu.
Ele a beijou gentilmente na testa, afagou o rosto dela e se foi.
Antes de sair, voltou-se brevemente e acrescentou de bom humor:
- Não fique triste.
Vou lhe trazer um pedaço de pizza.
Triste, ela não ficou.
Ficou com raiva, amargando na solidão a cortante dor da derrota.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 24, 2017 10:53 am

Capítulo 38
Lucélia encontrou Moisés abraçado a uma árvore no quintal de Larissa, onde parecia haver firmado residência.
- O que está fazendo, meu filho? - perguntou ela, mais para chamar a atenção dele do que para obter uma explicação.
- Tirando energia da árvore.
Não está vendo?
- Quero falar com você — disse, sem perda de tempo.
- Pode falar.
Estou ouvindo.
- Porque não me chamou?
Finalmente, ele se decidiu a desgrudar-se da árvore.
A seiva energética do vegetal o fez sentir-se fortalecido.
- Não vi motivos para chamá-la.
- Não é verdade.
Você está tentando parecer durão, mas sei que está abalado.
- Abalado com o quê, precisamente?
- Você sabe.
- Sei o quê?
Que sou o diabo?
- Você não é nada disso.
- Mas fui.
- Disse-o bem.
Foi, não é mais.
- Sem joguinhos de palavras, por favor.
Você podia ter me preparado.
- Sou sua mãe, mas nem sempre posso evitar que você passe por certas coisas.
Você não é um bebé.
- Desde quando você sabe dessa barbaridade?
- Desde sempre.
Ou você acha que eu não tinha conhecimento do que havia sido o filho que carreguei no ventre?
Pensa que, quando aceitei ser sua mãe nessa vida, não sabia de que antro você havia saído?
- Porque você fez isso?
Porque aceitou ser minha mãe?
- Tirando o amor que sempre lhe tive?
Porque acredito no bem oculto no coração das pessoas.
- Mesmo das pessoas malditas?
- Deixe de ser dramático.
Nenhuma existência é maldita.
Tudo vem de Deus.
- Mesmo o mal, o inferno e os demónios?
- Mesmo esses.
São aspectos de Deus, mas não são Deus.
São criações que se desvirtuaram do criador, mas só porque Ele permitiu.
- Porque Deus permitiria uma coisa dessas?
- Para que cada um se esforce e cresça por seus próprios méritos.
- E não é que eu cresci mesmo? - zombou.
O diabo evoluiu. Virou indigente.
- Acha mesmo que você foi o diabo?
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 25, 2017 10:16 am

- Fui.
- Não foi, não.
- Eu me lembrei de tudo.
O ser tenebroso, macabro, de aspecto animalesco, serpenteando por aquele lugar horrendo era eu.
A pobre Camélia quase morreu de susto.
- Camélia já está morta.
- É jeito de falar.
- Ela apenas ficou chocada porque não esperava que a criatura que ela sempre temeu naquela época fosse você.
- Viu só?
Você está se contradizendo.
Reconhece que eu era o próprio Satã!
- Quanta ignorância...
Para começar, satã é uma palavra hebraica que significa adversário.
É o opositor, tudo que afasta o homem de Deus.
Originariamente, então, satã é a força que confere ao ser humano a capacidade de distinguir entre o bem e o mal.
A oposição surge do questionamento, quando alguém começa a raciocinar e discernir.
Daí, faz suas próprias escolhas, segue seu próprio caminho.
Deixa de ser comandado para ser o senhor de sua própria vontade.
Satã não é o mesmo que diabo. Nem você.
— Gostei da explicação, mas isso não muda nada.
É só uma questão de nome.
Tudo bem, Satã não é o diabo, nem eu sou Satã.
E mesmo que não fosse o diabo em pessoa, era algo muito semelhante.
— Pare um pouco e escute, sim?
Muitos são os espíritos que encarnam a figura do diabo.
São espíritos poderosos que habitam a treva, sem dúvida, mas mesmo ali existe ordem, e cada um tem a sua função.
Já pensou no caos que seria o planeta, se houvesse uma horda incontrolável de espíritos malignos soltos por aí?
— O planeta já é um caos.
— Podia ser pior.
Esses seres mantêm a ordem e o equilíbrio nas estações inferiores do astral.
Vibram em frequência semelhante à dos mais embrutecidos, circulam livremente em seu meio, entendem a sua linguagem.
São os líderes, os chefões.
Mandam e exigem ser obedecidos.
Ninguém os desafia.
Nem aqueles que possuem elevação moral suficiente.
— Por que não?
— Porque eles não querem.
Respeitam a posição que cada um ocupa dentro da ordem divina.
— Sei — disse vagamente, fazendo uma pausa para reflexão.
Me explica uma coisa:
como é que eu consegui sair do submundo e reencarnar?
— O poder é inebriante, Moisés.
Poucos espíritos com altos cargos hierárquicos se animam a deixar as sombras.
Sair significa abrir mão do poder e assumir responsabilidades.
Enquanto dominados pelo orgulho, eles não saem.
Até que algo acontece que muda suas perspectivas, fazendo-os ver que seu universo de poder é só uma gotinha de ilusão.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 25, 2017 10:16 am

Chega um momento em que todo mundo é tocado por esse algo mais, essa luzinha que, uma vez acesa, nunca mais volta a se apagar.
— E ninguém os impede de sair?
— Alguns até tentam.
Mas a vontade tem mais força do que se supõe.
E como o espírito não pode ser aprisionado, salvo pela indução provocada pelo medo e a ignorância, eles acabam se dando conta de que sempre foram livres para partir.
Então, simplesmente, partem.
- Como foi que eu entrei nessa, mãe?
Quero dizer, o que me levou a sentir prazer no sangue?
Que tipo de espírito se compraz com uma coisa assim?
- Espíritos muito primitivos, embrutecidos, selvagens, no limiar dos instintos:
guerreiros sanguinários, empalhadores, canibais.
Todo tipo de gente.
Para esses espíritos, o sangue é uma droga, um verdadeiro vício.
É dali que extraem a energia vital que lhes dá a ilusão de que ainda estão vivos.
- Até aí, tudo bem — avaliou ele, pensativo.
É horrível, mas faz algum sentido.
O que não faz sentido algum é a aparência bestial que adquiri.
Meio homem, meio bode, com cascos, chifres e tudo! Porquê?
- O espírito não tem forma, você sabe.
O que lhe dá forma é o invólucro, o chamado perispírito, ou corpo astral.
Mas de onde surgiu o corpo astral?
Moisés deu de ombros.
- Do plasma derivado do fluido cósmico universal, que é a matéria primária do universo, da qual provêm todas as coisas.
O plasma é o quarto estado da matéria, a mais abundante do universo, responsável até pela formação das estrelas.
Todo fluido, e o plasma que dele deriva, é uma substância plástica, moldável, sem forma específica.
Extraído do universo, é com o plasma que se forma o plano astral, bem como o veículo que nele circula, que é o corpo astral.
E, levando-se em consideração que o corpo astral, como plasma que é, pode ser livremente moldado, o resultado disso é que ele sofre transformações de acordo com a vontade do artista.
Um pouco de inteligência, criatividade e pronto.
O espírito formata para si mesmo a máscara ou a fantasia que quer.
- Foi o que eu fiz?
Deliberadamente, formatei aquela heresia?
- Em parte, sim.
Espíritos vampiros, que sugam o fluido de pessoas desencarnadas, absorvem o plasma presente no corpo astral humano.
Logo, não há diferença no conjunto de átomos astrais, que são absorvidos naturalmente.
Quando se trata de animais, é um pouco diferente.
No seu caso, por exemplo, você já estava tão impregnado da energia dos animais, que seu corpo astral entrou em desequilíbrio, misturando resquícios do plasma absorvido das vítimas ao seu próprio plasma.
Isso provocou uma reacção gradativa e imperceptível.
Seu corpo astral foi absorvendo partes animais que se mantiveram meio intactas, que não se diluíram no todo da matéria.
Injectadas no seu corpo astral, elas não se dissolveram.
Sem saber o que fazer com elas, a massa astral que dava forma ao seu corpo fez o melhor que pôde, deu a solução que encontrou.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 25, 2017 10:16 am

Direccionou tudo para as extremidades, onde elas tentaram se reagrupar na forma original, formando cascos e chifres.
— Parece até coisa de filme.
Como em A Mosca, em que a máquina não sabia o que fazer com o DNA do cara e o da mosca, e acabou juntando tudo numa aberração.
— Boa comparação, Moisés.
Traçando-se um paralelo metafórico, pode-se dizer que o plasma carrega uma espécie de DNA astral, que, injectado no receptor, mistura-se à sua própria cadeia genética, formando um ser híbrido.
Ele a encarava de boca aberta, com um assombro que chegou a ser engraçado.
- Como foi que eu fiz tudo isso sem saber? - questionou, perplexo.
— A mente não para de trabalhar.
As ideias do corpo mental se convertem em acções voluntárias, na maioria das vezes.
Mas ele tem os seus segredos.
E como é ele que comanda o pensamento, não precisa de palavras que o traduzam.
Nem de imagens, nem de sons, nem de mensagens deliberadas e conscientes.
Ele capta o desejo e faz.
- Não entendi nada - queixou-se ele, cada vez mais abismado.
- O ser em que você se transformou queria manter o poder, é lógico.
Para isso, precisava impor medo, sua forma de ter o respeito e a obediência cega dos comandados.
Quem conhece os atributos das matérias astral e mental não se aprisiona, pois sabe identificar os métodos geradores da ilusão.
Mas quem não conhece morre de medo.
A história da humanidade está recheada de superstições assustadoras, que foram se agregando ao imaginário colectivo do planeta ao longo das eras.
Todo mundo teme o diabo, porque ele é a personificação do que há de mais mesquinho, maligno e inconfessável no ser humano.
Foram esses sentimentos que auxiliaram na formatação da imagem a ele atribuída, da qual seres muito inteligentes se apropriaram para imprimir terror e, com isso, firmar sua posição de soberanos absolutos do inferno.
Assim nasceu o diabo.
Ou diabos, porque são muitos.
— O diabo, então, não passa de um mito.
— Um mito que é real, na medida em que cada um o fortalece com sua crença e seu medo.
— Então, se entendi bem, eu me apropriei dessa imagem para me impor pelo terror.
— Foi. Sua mente já havia dado ordens ao corpo astral para plasmar cascos e chifres, dos quais você soube bem se aproveitar.
Um retoquezinho aqui, outro ali, e pronto.
A fantasia ficou perfeita.
Dali em diante, foi só vesti-la, fazer cara de fera e mandar à vontade.
— É tipo uma plástica astral?
— Tipo isso.
Só que sempre se pode retornar à forma anterior.
— Deus me livre!
Moisés se persignou três vezes e conseguiu sorrir descontraidamente.
— Parece que agora você está mais relaxado - observou Lucélia, com gosto.
— E como!
Você não sabe o peso que tirou de cima de mim.
— Quer dizer que deixou de lado a ideia absurda de que você foi o diabo?
— Não sei se a ideia é absurda.
Mas não penso mais isso, não.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 25, 2017 10:17 am

Compreendo e aceito minha condição pretérita de espírito ignorante, seduzido pelo poder.
— É inteligente.
Você sempre foi muito inteligente.
— Mais ou menos.
Se fosse tão inteligente assim, não teria virado mendigo.
— Foi você que escolheu.
— Não quero falar sobre isso agora.
Ainda não me recuperei totalmente.
Engraçado...
Está sendo mais fácil superar minha fase demónio do que minha última encarnação.
— Natural.
Sua “fase demónio” se acabou há muito tempo.
Mas faz poucos meses que você desencarnou.
Aproveitando que você tocou no assunto.
Não acha que já está na hora de partir?
- Não. É estranho, mas não sinto vontade de deixar a Terra.
Ainda não.
- Não se apegue aos vivos, porque eles não podem compreender os mortos - sentenciou ela, olhando fundo nos olhos dele.
- Não estou apegado.
É só... não sei definir... uma necessidade de ficar, de fazer alguma coisa...
- Como o que você fez para ajudar Lizandra?
- Não fiz nada para ajudar Lizandra - protestou ele, acabrunhado.
- Foi um gesto muito bonito ir à casa dela para sugerir que ela levasse o filho ao homeopata.
Devia imaginar que não poderia esconder nada de um espírito esperto feito a mãe.
Sim, ele havia ido à casa de Lizandra por amor a Rodrigo.
Nem imaginava como é que ele sabia das coisas, mas o facto é que tinha certeza de que apenas um médico homeopata seria capaz de curá-lo.
Como gostava muito do menino, não podia permanecer inerte, vendo-o definhar dia após dia.
- Não fiz por ela - contestou, cabisbaixo.
Fiz por ele.
- Não. Fez por você.
A surpresa o pegou de jeito, provocando uma reflexão silenciosa.
Entendia o que ela queria dizer.
Ao fazer algo por alguém, a pessoa faz é por si, porque o resultado que daí se origina reverte para ela em primeiro lugar.
Seja para o bem ou para o mal.
Lucélia o fitava com aquele olhar compreensivo e sábio que toda mãe reserva para seu filho.
Não falou nada, mas Moisés sentiu vibrar dentro dele a força do que talvez fosse o pensamento dela:
na dúvida, consulte o íntimo do seu coração.
Ele não duvida.
Sempre sabe o que é certo fazer.
Aceite a sugestão e faça.
Mesmo assim, ele se recusou a ouvir o que o coração dele queria dizer.
O pensamento da mãe, que ele captou parcialmente, tinha algo a ver com Tostão.
Ele não queria saber.
Não queria ouvir dela que seu maior amigo havia virado massinha sovada na tal paçoca da alma-grupo.
Sentindo a resistência dele, Lucélia quase se adiantou para lhe contar o que havia descoberto.
Moisés, contudo, foi mais rápido.
Cruzando o olhar com o dela, desapareceu numa nuvem de fumaça.
Lucélia deu um suspiro profundo e olhou ao redor, procurando-o entre as árvores.
Ele havia mesmo desaparecido, ela não sabia para onde.
Ainda não havia chegado o momento de ele saber a verdade.
Em breve, quem sabe, esse momento chegaria?
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 25, 2017 10:17 am

Capítulo 39
Os dois espíritos se estudavam cautelosamente.
Camélia, sob o domínio da ira, não escondia a disposição de atacar, se preciso fosse, para que ele a deixasse em paz.
Fazia algum tempo que não se viam, desde que Moisés se mudara para a casa de Larissa.
- O que você quer, Moisés? - interrogou ela, com a urgência de um inquisidor.
Pensei que agora não tivesse mais motivos para vir aqui.
- Por que diz isso?
Não posso visitar uma amiga?
- Quem é sua amiga?
Eu ou Lizandra?
Ele fez cara de espanto, ela prosseguiu:
— É, eu sei. Não adianta fingir nem tentar me enganar.
Sei que foi você que sugeriu a ela o tratamento da homeopatia.
Por que fez isso, hein?
Foi para se vingar?
Porque eu chamei você de diabo naquele dia?
- Não é nada disso.
Minha mãe já me esclareceu sobre essa história.
- Que bom, porque não falei sério.
Quer dizer, na hora falei, mas depois, mudei de ideia.
Você não é o diabo.
Foi só um pobre infeliz que resolveu se fingir de diabo.
- Será que dá para a gente mudar de assunto?
Essa história ficou no passado.
- Ficou mesmo, não foi?
Mas então, por que você quis se vingar de mim?
— Não quis me vingar de ninguém.
Só fiz o que achei que era certo.
Você está prejudicando o menino.
- Depois de tudo o que lhe contei, você acha que ele merece sua defesa? Ou ela?
— Por que não esquece esse assunto?
Arranje outra coisa para fazer.
— Olha só quem fala!
Um pobre coitado que pensa que é importante só porque a mãe é uma figurona da luz.
— De onde você tirou essa ideia fantasiosa, posso saber?
— Não interessa!
Vá-se embora daqui.
Seu negócio era com o cachorro.
Ele se foi, você pode ir também.
Vá procurar seu cão desencarnado.
Ou então, vá assombrar outro lugar.
— Assombrar? - repetiu ele, dando gargalhadas.
Sério, Camélia, você é uma pândega.
— Agora tenho cara de palhaça, é? - enfureceu-se, mostrando os punhos para ele.
Você é muito mal-agradecido, isso sim.
Não fosse por mim, ainda estaria por aí, remoendo a própria ignorância.
— Assim como você.
— Eu não sou mendiga.
— Não. É só infeliz e assustada.
— Quer parar com isso?
Não vai conseguir me enrolar com essa conversa mole.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 25, 2017 10:17 am

— Longe de mim querer enrolar um espírito inteligente como você.
— Vai debochando, vai.
— Não é deboche.
Acho você muito inteligente, e é por isso que essa atitude não combina com você.
— Não me venha com sermão.
Não vai adiantar nada.
— Não sou padre para dar sermão.
— Óptimo. Então, se não tem o que fazer aqui, pode ir se mandando.
— Porque está sendo tão agressiva?
Eu só quero o seu bem.
— Se é assim, você me faria um enorme bem se desaparecesse.
— Não quer vir comigo?
— Para onde? — zombou.
Para sua casinha de bonecas na árvore?
— Como é que você sabe da casa na árvore?
Por acaso já andou por lá, me espionando?
— Espionando, eu?
Não me faltava mais nada.
Esqueceu que sei ler pensamentos?
Aprendi muito antes de você.
— Tem razão.
Devo a você muito do que aprendi.
Por isso, quero ajudá-la.
— Você não tem condições nem de ajudar a si mesmo.
Olhe-se no espelho!
Continua com a mesma aparência maltrapilha de quando chegou aqui.
— Pode ser.
Mas aparências podem ser modificadas.
Quer ver?
Ela não respondeu.
Olhava-o de mau humor, os braços cruzados demonstrando a irritação.
Era chegado o momento de Moisés colocar em prática o que a mãe havia lhe ensinado.
Já fizera isso antes.
Agora, seria mais fácil, já que a transformação que pretendia não envolvia sua aparência física, mas apenas as roupas com que se apresentava.
De olhos fechados, concentrou-se, procurando fixar o pensamento no universo, imaginando os átomos cósmicos desfilando pelo plasma.
Em pouco tempo, a mente entrou em acção.
Estendendo braços invisíveis, ele recolheu uma parcela do plasma, que reteve entre as mãos etéreas.
Totalmente concentrado, deu início ao processo de manipulação mental, idealizando, em minúcias, a roupa ideal para vestir.
Em vida, antes que a indigência o colhesse, ele gostava de usar calças jeans e camiseta de malha, normalmente branca ou azul.
Quando abriu os olhos, foi dessa forma que se apresentou.
- Que lindo - ironizou Camélia, batendo palmas devagar.
Se está querendo me impressionar, perdeu o seu tempo.
Sei fazer isso muito melhor do que você.
— Porque não faz, então?
Porque não desfaz esses tentáculos, ou garras, ou hos energéticos, ou lá o que seja que você criou para enfiar nos centros nervosos de Rodrigo?
- Engraçado - desdenhou ela, olhando para ambos os lados do próprio corpo.
Não estou vendo nada.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 25, 2017 10:17 am

- Tem certeza? Então me diga.
O que é isso aqui?
Ele puxou os dedos que ela escondia sob os braços cruzados, desvendando garras retorcidas e deformadas.
Ela retirou as mãos às pressas, cobrindo-as novamente com os braços.
— Saia daqui — rugiu.
Você não tem o direito.
- Pensou que eu não tinha visto?
Se não quisesse que eu visse, não devia ter me aplaudido.
- Idiota. Quem você pensa que é?
Está tentando se fazer passar por muito esperto, mas é só um demónio falido e burro.
- Posso ser burro, mas sou livre.
- E eu não sou?
- Não. Está aprisionada ao campo energético de Rodrigo.
Embora, naquele momento exacto, Camélia não estivesse grudada em Rodrigo feito um parasita, não era capaz de ir além dos limites com que sua mente a aprisionara.
Se tentasse ultrapassar a barreira fluídica que circundava o apartamento, era atraída de volta pelo magnetismo de Rodrigo, firmemente embaraçado ao dela.
- Vá embora - ela suplicou, agora com lágrimas nos olhos.
Deixe-me em paz.
Aprisionada nos estreitos limites do apartamento, o mais distante que Camélia conseguiu ir foi até a ponta do terraço.
Ainda tímido, o Sol despontava por detrás dos morros a leste, pronto para desfiar suas cores em vapores ténues de luz e calor.
Moisés foi atrás dela.
Encontrou-a debruçada sobre o guarda-corpo, admirando a chegada do dia em silêncio, envolta por uma névoa ténue de melancolia.
- É realmente lindo, não é? - comentou ele, embevecido.
- Fique quieto - ordenou ela, irritada.
Preste atenção.
O silêncio não era total.
De algum lugar da casa, vozes indistintas permeavam o espectáculo da alvorada.
Camélia seguiu na direcção de onde elas partiam.
Pela porta aberta, entrou na cozinha, seguida por Moisés.
- Segundo entendi - era Vítor quem falava —, a homeopatia é a cura pelos semelhantes, enquanto a alopatia cura pelos contrários.
- Foi o que entendi também.
- E se utiliza de substâncias que reproduzem os mesmos sintomas da doença, ao passo que a alopatia usa remédios que atuam contra aqueles sintomas.
- O que mais me animou foi o facto de que a homeopatia utiliza doses mínimas de substâncias que possuem actuação energética, ao passo que as doses alopáticas estão no limiar da toxidade e quase sempre têm efeitos colaterais.
- Isso é importante, sem dúvida.
Agora, tem uma coisa que não entendi direito.
- O que foi?
- Essa história de espírito ruim...
- Eu não sou um espírito ruim! - protestou Camélia, indignada.
- Não sei se acredito muito nisso.
- Isso mesmo, não acredite - concordou Camélia, irritada.
Eu não existo.
- Hoje em dia, não duvido de mais nada - prosseguiu Lizandra.
E onde está a sua mente aberta?
Não é você que vive dizendo que tudo é possível, que há muitas coisas no mundo ainda desconhecidas e incompreensíveis?
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 25, 2017 10:18 am

- Você não entendeu.
Eu acredito em espíritos.
Só não creio que um deles esteja molestando nosso filho.
- Porque não?
- Que razões poderia ter um espírito maligno para perturbar uma criança que nunca fez mal a ninguém?
- Não sei.
E depois, ele não disse que é isso.
Pode não ser.
- Não é — insistiu Camélia.
Moisés sentiu pena dela.
Camélia não percebia que começava a agir feito uma demente.
Ela se voltou para ele com olhos amedrontados, as lágrimas etéreas se desmanchando na frieza do vazio.
Moisés tocou seu rosto com cuidado.
Não queria que ela o repelisse.
Ela não o fez.
Deixou-se acariciar até não poder mais se conter.
Então, afastou as mãos do esconderijo embaixo do braço e segurou a mão dele.
Sem se importar com o aspecto repulsivo das garras disformes de Camélia, Moisés a puxou para um abraço.
Envolveu-a com ternura, sentindo a transfusão energética que alimentava o corpo dela.
- Não fique assim - sussurrou ele.
Isso vai passar.
- Ah, Moisés...
Não conseguiu dizer mais nada.
A consciência roubou-lhe a voz, assim como ela roubava a saúde de Rodrigo.
Em seu íntimo, perguntava se o que ele dizia era verdade.
Será mesmo que tanto ressentimento, um dia, iria passar?
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 25, 2017 10:18 am

Capítulo 40
O ódio transformou-se em companhia constante no coração de Roberta.
Ainda não havia perdoado o filho por tê-la deixado sozinha em casa, sem jantar, apenas com uma sopa velha e fria para servir de alimento.
Tudo para ir comer pizza na casa do vizinho, arrastando com ele a mulher desaforada e sua filhinha insuportável.
Sentada na cama, ela remoía o ressentimento, tentando maquinar um plano que afastasse as duas sirigaitas de Ítalo, de vez.
Era possível vislumbrar parte da casa na árvore, onde as crianças permaneciam horas trancadas, sem a supervisão de um adulto, fazendo brincadeiras inapropriadas na companhia de dois pulguentos.
Retirando-a de seu devaneio, a voz esganiçada de Priscila reverberou pelo quintal, chegando até ela pela janela aberta do quarto:
- Larissa! Larissa!
A menina assomou na janelinha da casa na árvore e respondeu prontamente:
- O quê, mãe?
- Vou ao mercado e já volto.
Dê uma olhada na panela de pressão para mim, está bem?
Começou a chiar agora.
Coloquei em fogo brando, mas você tem que apagar.
- Daqui a quanto tempo?
- Meia hora.
- Tá bem.
- Não se esqueça, ou pode causar uma explosão.
- Pode deixar, mãe, eu sei!
- E não mexa na tampa, pelo amor de Deus!
- Tá!
- Entendeu, Larissa?
- Entendi! - finalizou ela, voltando para dentro.
Logo que ouviu o barulho da porta da frente se fechando, Roberta foi espiar a cozinha, onde a panela apitava normalmente.
Priscila não devia deixar algo tão perigoso sob a responsabilidade de uma criança.
Seria benfeito se o feijão queimasse.
Ítalo, na certa, ficaria chateado.
Podia até ser que não brigasse com ela, mas deixaria escapar a frustração por não encontrar o jantar pronto do jeito que ele gostava.
Pensando nisso, uma ideia lhe ocorreu.
De volta ao quarto, aguardou para ver se Larissa cumpriria a ordem da mãe direitinho.
Na hora exacta, a menina entrou correndo na cozinha e apagou o fogo, disparando de volta para a árvore.
A panela já era assunto antigo, esquecida em cima do fogão.
Hora de Roberta agir.
Com cuidado para não ser vista pela janela da cozinha, chegou perto do fogão.
A panela continuava com seu chiado, deixando sair o vapor acumulado lá dentro.
Roberta nem pensou na tragédia que sua acção maldosa poderia causar.
Pensava que a válvula continuaria liberando pressão, mesmo com o fogo aceso.
Sem pensar duas vezes, girou brevemente o botão do queimador, liberando a chama azul em sua potência máxima.
Em seguida, girou-o em sentido contrário, aproximando-o o máximo possível da posição desligada, mas sem o desligar.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 25, 2017 10:18 am

Isso daria a impressão de que, na pressa de voltar para as brincadeiras, Larissa teria soltado o botão de qualquer jeito, sem conferir se realmente o havia desligado, aumentado o fogo ao invés de apagá-lo e, consequentemente, queimando o feijão.
De volta ao quarto, aguardou.
Priscila não deveria demorar.
Encontraria o fogo ligado, poria a culpa na filha, mas não adiantaria nada.
O feijão já estaria estragado, imprestável para comer.
Podia ser que ela e Ítalo considerassem isso uma coisinha à toa, mas era o início de uma grande vingança.
Os minutos passavam rapidamente, indiferentes à ansiedade de Roberta, que não desgrudava os olhos dos ponteiros.
Paralelamente, o chiado da panela aumentava, sem que ela percebesse.
Alheios a seus planos, fragmentos de feijão subiram com o vapor, entupindo a válvula de escape e a auxiliar.
Inesperadamente, Priscila demorava a voltar do mercado, entretida na conversa com uma vizinha.
Preocupada com o resultado da tramóia, Roberta resolveu ir até a cozinha conferir a panela, que chiava de um jeito esquisito.
Nem bem chegou à porta, seu coração quase parou.
Seu corpo inteiro se tornou um bloco gelado, paralisado por ondas de terror.
No fogão, a panela sacolejava, emitindo gritinhos agudos, reclamando porque a válvula de pressão não saía do lugar.
O ar quente, preso lá dentro, não tinha por onde escapar.
O chiado continuava, cada vez mais alto, queixando-se da válvula entupida, alheia à angústia do vapor.
Percebeu, tarde demais, que as leis da física agiam independentemente das leis de Roberta.
O que parecia terrível ficou ainda pior.
Entrando em seu pesadelo, Larissa passou pela porta e estacou em frente ao fogão, tentando adivinhar por que o fogo continuava aceso, se ela mesma o havia desligado.
- Sai daí, Larissa! - gritou Roberta, apavorada.
O grito caiu no vazio, mas não no silêncio.
Larissa ouviu Roberta gritar seu nome, mas nem teve tempo de se virar para ela.
A panela de pressão, sem revelar a quantas andava sua fúria, deu uma chocalhada e, subitamente, explodiu.
Uma chuva de feijão quente e queimado voou por toda a cozinha, enquanto pedaços de alumínio incandescente se precipitavam com a velocidade de projécteis disparados por uma metralhadora descontrolada.
A explosão colheu Larissa em cheio, atirando-a contra a parede como se ela fosse uma boneca de pano sem peso e sem vida.
Com o choque da cabeça contra o azulejo, a menina desmaiou antes mesmo de perceber o que havia acontecido.
Foi uma verdadeira bomba que, por pouco, não incendiou a cozinha.
Roberta entrou claudicante, do jeito mais apressado que pôde.
O fogo se extinguiu sozinho, sufocado pela onda de choque.
Em meio aos destroços, procurou a criança.
Larissa estava caída perto da parede, coberta de feijão da cabeça aos pés.
A pele, uma chaga viva e carbonizada, não escondia a gravidade das queimaduras.
- André! - ela chamou, na esperança de que o menino a escutasse.
André! André!
André não estava mais lá.
Havia ido para casa tomar banho e preparar-se para o jantar.
Ela estava sozinha com a garota.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 25, 2017 10:19 am

Tentando dominar o pânico, procurou acalmar-se e inteirar-se da situação.
Como enfermeira formada, saberia o que fazer.
Jogou a bengala no chão e ajoelhou-se ao lado de Larissa.
Com cuidado, conseguiu puxá-la para cima dos joelhos, examinando o rosto avermelhado e o sangue que brotava da ferida na cabeça.
Precisava dar um jeito de se levantar com a menina e banhá-la em água fresca, para hidratá-la.
O problema é que não andava direito.
Como faria isso sozinha?
Procurando não pensar na dificuldade que seria, Roberta, gentilmente, pousou a cabeça de Larissa no chão.
Afastando os destroços, fincou a bengala no piso e fez força para se levantar, apoiando-se nela com ambas as mãos.
À custa de muito sacrifício, conseguiu pôr-se de pé.
Parou um momento, para recuperar o fôlego e voltou-se para a criança.
Abaixou-se para apanhá-la, temendo não ser capaz de levantar-se novamente.
Deus, ou alguma outra força invisível, a estava ajudando, porque ela conseguiu puxar a criança e segurá-la no colo.
Mas teve que soltar a bengala.
Com muita dificuldade, caminhou até o banheiro, apertando Larissa nos braços para evitar que ela escorregasse e caísse.
Com o pé, foi empurrando a banquetinha de plástico, que servia para enfiar roupa suja, em direcção ao boxe.
Não foi fácil.
A todo momento, a banqueta deslizava, ameaçando tombar e rolar para longe.
Ela conseguiu controlá-la, enfrentando nova dificuldade para suspendê-la o suficiente para ultrapassar a pedra do boxe.
Aos trancos e barrancos, a coluna e as pernas estalando de dor, sentou-se com Larissa no colo.
Abriu a torneira do chuveiro, deixando que a água se derramasse sobre ela e Larissa.
Não foi capaz de segurar as lágrimas.
Não queria que nada daquilo tivesse acontecido.
Seu único desejo era tirar Priscila do caminho, para que ela pudesse viver em paz com o único filho que lhe restara.
Nunca lhe passou pela cabeça ferir ninguém, muito menos uma criança.
Que espécie de enfermeira era ela, que jurara colocar-se a serviço da humanidade e agora se encontrava ali, amparando uma menina cheia de queimaduras provocadas por ela?
Ouvindo um gemido baixinho, Roberta olhou para baixo, na esperança de que Larissa houvesse recobrado a consciência.
A garota, porém, mantinha os olhos fechados, choramingando de vez em quando, como se quisesse acordar de um sonho ruim.
- Larissa - chamou Roberta.
Está me ouvindo, Larissa?
Consegue abrir os olhos?
Com muito esforço, Larissa abriu um olho, depois o outro, mas parecia não compreender o que via.
Tentou pronunciar algumas palavras, porém, de seus lábios saíram apenas sons desconexos, balbucios delirantes.
- Pode me ouvir, Larissa? - chamou ela de novo.
Compreende o que eu digo?
À medida que a consciência retornava, Larissa vencia a barreira da confusão provocada pela síncope, ao mesmo tempo que a dor das queimaduras ardia feito ferro em brasa enfiado na carne.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 25, 2017 10:19 am

- Está doendo muito - choramingou ela, tentando se levantar.
- Tenha calma, procure não se mexer.
- Tá chovendo - murmurou ela.
A chuva tá me machucando.
- Não está chovendo.
É só o chuveiro.
- Quero a minha mãe...
- Você se lembra do que aconteceu, Larissa?
Lembra da explosão?
Os olhos de Larissa estacionaram na torneira do chuveiro, que ela quis fechar.
Esticando um braço, tocou o metal, sentindo a pele toda repuxar.
- Ai, ai, ai... — gemeu, contorcendo-se de dor.
Está queimando.
Foi a panela de pressão que explodiu.
A panela...
Calou-se, engolindo as palavras junto com os soluços provocados pela dor.
A cabeça também doía, contudo, eram as queimaduras que lhe causavam maior sofrimento.
Ela mantinha os olhos fechados, apertando as pálpebras e mordendo o lábio a cada contracção da carne ferida.
Cerca de quinze minutos haviam se passado desde que Roberta se sentara com a menina embaixo do chuveiro.
A pele dela devia estar hidratada o suficiente.
Tentou se levantar, mas os pés resvalaram no piso molhado.
Olhou ao redor, à procura de algo que pudesse auxiliá-la.
Nada. Nenhum objecto adequado ao alcance de sua mão.
O banheiro tinha a frieza de um mausoléu, talvez devido ao frio da própria água, que se infiltrava pela porosidade de seus ossos, dando-lhe a impressão de estar trancada num sepulcro.
Nada se mexia.
Larissa, olhos fechados, respirava com dificuldade, emitindo ruídos estranhos que a fizeram lembrar dos estertores da morte.
Seria isso?
Estariam ambas mortas, atingidas pela explosão?
- Não estamos mortas - afirmou ela, e, decidida, implorou:
-Deus! Me ajude!
Ela queria renunciar a tudo e se abandonar às lágrimas, mas não se permitiu.
Nunca fora mulher de desistir facilmente.
Nem dificilmente, para falar a verdade.
Ela estava viva e bem.
Podia não ter mais a robustez da juventude, mas havia ainda muitas coisas que, apesar de suas limitações, poderia fazer.
Restava-lhe descobrir o quê.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 25, 2017 10:19 am

Capítulo 41
A quietude era total.
Nem o som do vento, nem o barulho dos carros, nenhum indício de que o mundo existia fora do banheiro onde Roberta se encerrara com Larissa.
Nada se movia naquela câmara mortuária.
De Priscila, nem sinal.
Por onde ela andaria?
Porque demorava tanto?
Um único sinal de vida surgiu subitamente.
Um movimento na porta chamou a atenção de Roberta, que olhou com esperança.
Não sabia se ria ou se chorava, se agradecia ou maldizia a chegada repentina do cachorro.
Bruce entrou de mansinho e parou, a língua de fora, olhando-a com neutralidade.
Não abanava o rabo, não latia.
Só ficou ali, vasculhando o ambiente como se tentasse entender o significado de tudo aquilo.
O significado era que André devia estar por perto.
Atrás do cachorro, vinha sempre o menino.
Não era? De qualquer forma, valia a pena tentar.
- André! — gritou, esforçando-se o máximo que seus pulmões cansados permitiam.
André, você está aí?
Responda, André! André!
Venha cá, meu filho! André!
Ninguém respondeu.
Ainda parado no mesmo lugar, Bruce também não emitia nenhum ruído nem fazia menção de se mover.
Roberta olhou-o, desesperada.
Precisava fazer alguma coisa.
As lesões de Larissa estavam feias, vermelhas, cheias de bolhas, em alguns lugares a pele já se soltava.
Queimaduras de segundo grau, pelo visto.
Era preciso levar Larissa com urgência ao posto médico, mas como, se não havia ninguém para acudi-la?
- Preciso dar um jeito de me levantar - disse Roberta em voz alta, como se desabafasse com o cão.
Mas não tem ninguém aqui para me ajudar, não é, pulguento?
Só você.
O jeito era tentar se virar sozinha.
Experimentou a saboneteira embutida na parede, mas só o que conseguiu foi escorregar os dedos na louça saturada de sabão.
Em seu colo, Larissa choramingou em protesto, sem se mover.
Ela olhou novamente para a saboneteira, avaliando se valia a pena insistir, contudo, desistiu.
Não daria certo mesmo.
Ao desviar os olhos da parede do boxe, soltou um grito assustado.
Sem que ela percebesse, Bruce havia saído de perto da porta e estava agora sentado diante dela, mantendo o olhar sério, grave, avaliador.
- Ai, cachorro, que susto'. — reclamou ela.
Você não me serve de nada.
Xô! Passa fora!
Ah! Se eu ao menos tivesse a minha bengala...
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 25, 2017 10:19 am

Subitamente, Bruce levantou as orelhas, assumindo aquele olhar de inteligência que lhe era tão peculiar.
Abanou o rabo de leve, levantou-se e saiu correndo, para alívio de Roberta.
No fundo, tinha medo de que o cão a mordesse.
Poucos minutos depois, o som de algo se arrastando pelo chão provocou-lhe um sobressalto, logo convertido em esperança.
Podia ser alguém chegando, embora o mais provável era que não fosse.
O barulho que vinha do corredor era muito estranho, não parecia ninguém caminhando.
Mesmo assim, ficou olhando, ansiosa, na expectativa de ver Priscila surgir com ar enfezado.
Priscila enfezada seria uma bênção.
O som foi se aproximando lentamente, como se alguém arrastasse algo com dificuldade.
Não podia ser Priscila.
Efectivamente, não era.
Para espanto de Roberta, Bruce passou pela porta desajeitadamente, puxando a bengala que se prendera no portal.
- Traz aqui, Bruce! - ordenou, ríspida.
Vamos, estou mandando, cachorro burro, traz logo essa bengala aqui!
O cão não obedeceu.
Conseguiu passar a bengala pela porta, soltando-a diante de suas patas.
Dali, olhou para Roberta que, inesperadamente, pareceu compreender.
- Traz para mim, Bruce - ela agora pediu, em tom de comando, sim, mas, sem agressividade.
Ele segurou a ponta da bengala e tornou a arrastá-la, depositando-a aos pés de Roberta.
Ela esticou o braço livre, mas não conseguiu alcançá-la.
- Aí não, Bruce - repreendeu ela, firme, porém, gentilmente.
Aqui, na minha mão.
Aqui, Bruce, aqui!
Ela abriu e fechou a mão, movimentando os dedos, na esperança de que ele entendesse.
Por uma fracção de segundo, ele olhou directamente nos olhos dela.
Toda vez que André dizia aqui com aquela entonação, era o momento em que ele deveria colocar a bola no lugar para o qual ele apontava.
Já que Roberta não apontava para lugar nenhum, ele fez uma associação dirigida pela inteligência, misturada ao instinto e à intuição.
Bruce tornou a abocanhar a bengala, tomando o cuidado de deixar livres as extremidades, conduzindo-a directamente até a mão estendida de Roberta.
Quando ela viu o castão cor de marfim encostado na palma da mão, quase chorou de alegria.
Fechando os dedos ao redor dele, puxou a bengala para si, fincando no chão a outra extremidade.
— Por favor, não escorregue — implorou.
Bruce tomou, então, outra atitude inesperada.
Parou em pé bem junto a ela, olhando dela para Larissa, tentando falar com os olhos.
Se ele entendia ou não a gravidade da situação, Roberta não saberia dizer.
Mas a atitude dele parecia não deixar dúvidas.
Ou talvez fosse o desespero dela que a fez compreender as coisas à sua maneira.
O facto, porém, é que ela não pensou duas vezes.
Apoiou o corpo de Larissa sobre as costas de Bruce, que se vergou com o peso, mas logo se recompôs.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 25, 2017 10:20 am

Parcialmente aliviada do fardo, Roberta equilibrou Larissa com a lateral de seu corpo.
As patas de Bruce bambeavam, quase cedendo ao esforço que ele fazia para que elas não arriassem.
Roberta precisava ser rápida.
Com uma das mãos mantinha Larissa presa a ela, enquanto, com a outra, dava impulso no próprio corpo, uma, duas, três vezes, até que, finalmente, conseguiu pôr-se de pé.
Na mesma hora, soltou a bengala, amparando Larissa bem a tempo de evitar que ela fosse ao chão junto com o cachorro, que dava mostras de cansaço.
Ela quis afagar a cabeça dele, em gratidão, mas não conseguiu se abaixar.
Com a menina novamente no colo, Roberta saiu coxeando em direcção ao quarto.
Sem apoio, exausta, emocionalmente abalada, manquejava devagarinho, com muita dificuldade.
A perna doía horrivelmente, assim como os quadris.
O quarto, quase ao lado do banheiro, de repente pareceu estar a quilómetros de distância.
Quando, finalmente, alcançou a cama, deitou-se junto de Larissa.
Respirou fundo várias vezes, tentando não pensar na própria dor.
A seu lado, Larissa se contorcia e chorava.
- Acalme-se - sussurrou ela, alisando os cabelos de Larissa.
Vai ficar tudo bem.
Sou enfermeira, vou cuidar de você.
Antes, contudo, precisava falar com alguém.
Apanhou o celular na mesinha de cabeceira e ligou para Ítalo, expondo a situação com a maior brevidade possível.
Em seguida, pensou.
Precisava dar um jeito de limpar e cobrir as feridas com gaze, se quisesse evitar uma infecção.
- Vou pagar por esse pecado - resmungou para si mesma.
Deus vai me punir pelo que fiz.
Chorou baixinho, ocultando o rosto entre as mãos para esconder de si mesma a vergonha.
O que diria à nora?
Como encararia o filho?
Deixaria que Larissa levasse a culpa por um acidente no qual não tivera a menor participação?
E será que se perdoaria se a garota ficasse com alguma sequela que lhe roubasse a juventude e a vida?
Não era hora de sentir pena de si mesma.
Cuidar da menina era o mais importante.
Precisava encontrar uma maneira de voltar ao banheiro, onde ficava o material de primeiros socorros.
Sem a bengala, seria impossível.
Se fossem só as dores, daria um jeito de suportá-las e andaria até lá.
No entanto, depois da dor, vinha a fraqueza.
As pernas dela se tornaram incapazes de atendê-la.
Mas nem tudo estava perdido.
Ainda tinha o cão.
- Bruce! — chamou.
Aqui, Bruce!
Em poucos instantes, ele apareceu na porta, totalmente recuperado do esforço de sustentar o peso de Larissa no lombo.
Para surpresa de Roberta, trazia a bengala presa entre os dentes.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 26, 2017 12:50 pm

Após um pequeno embate com os batentes, conseguiu passar com ela.
Dessa vez, nenhum comando foi necessário.
Bruce sabia o que fazer.
Caminhando de forma decidida, ergueu o focinho e acomodou a bengala no colo de Roberta.
Depois, chegou para trás, abanando o rabo, à espera de um elogio.
- Muito bem, Bruce — falou ela, agradecida.
Após um breve afago, levantou-se novamente, procurando não pensar na dor nem na fraqueza.
As pernas cediam a todo instante, mas ela não caiu nenhuma vez.
Não apenas a bengala a sustinha.
Bruce caminhava a seu lado, fornecendo o apoio que lhe faltava para evitar que o corpo envergasse.
De posse do material necessário, voltou ao quarto, onde Larissa ainda dormia.
Gentilmente, lavou as lesões com a solução fisiológica que encontrou no armário do banheiro, evitando esfregá-las com força.
Em seguida, cobriu tudo com gaze, que ela humedecera na pia do banheiro.
O tempo todo, Bruce permaneceu a seu lado.
Achou esquisito, porque André, em nenhum momento, aparecera para procurá-lo.
Não era crível que não tivesse dado pela falta do cachorro.
Curiosa, conferiu as horas.
Não era possível!
Desde a explosão, haviam se passado apenas trinta e cinco minutos.
Como é estranho o sofrimento, pensou.
É algo que costuma desacelerar o tempo.
Quando se sofre, tudo passa devagar.
Larissa agora dormia um pouco mais tranquila, aliviada pelo efeito do curativo.
O cachorro latiu de repente, assustando Roberta, que olhou para a porta, esperando ver André surgir.
Quem entrou foram Priscila e Ítalo, ambos pálidos, desnorteados, a imagem da aflição.
- O que foi que aconteceu? — perguntou Priscila, correndo para a filha, horrorizada com a quantidade de ataduras.
Roberta não foi capaz de responder.
Na verdade, nem foi preciso, porque Priscila já saía pela porta em disparada, carregando a filha no colo.
- Ela precisa ir para o hospital - avisou Roberta, sem forças para ir atrás delas.
Ítalo apenas assentiu.
Saiu, sem se dar conta do significado da dor que transparecia no olhar da mãe.
Jamais poderia ler a culpa escondida por detrás do medo e da preocupação.
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Ave sem Ninho

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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 26, 2017 12:50 pm

Capítulo 42
Sentada no sofá da sala, com a filha no colo, Priscila chorava.
Segurava o telefone com a mão trémula, tentando alcançar as teclas com o polegar.
- Me dá aqui - pediu Ítalo, retirando o telefone da mão dela.
- Ligue para Isabela!
Peça o carro deles emprestado!
Na mesma hora, Wilson se prontificou a levá-los ao hospital.
Esperavam por ele quando Roberta chegou, claudicando como nunca, fazendo caretas de dor.
- Está tudo bem, mãe? - indagou Ítalo, ajudando-a a sentar-se.
- Pelo amor de Deus, dona Roberta, agora não! — irritou-se Priscila, pensando que a sogra só queria chamar atenção.
- O que foi que houve, mãe? - perguntou ele, tentando evitar uma discussão.
- Foi a panela de pressão - balbuciou.
Explodiu...
- Quando me ligou, por que não disse que a situação era grave?
- Eu disse que Larissa havia se queimado...
Nesse momento, Wilson entrou correndo, agitando a chave do carro na mão.
Em seguida, Isabela surgiu com André.
- Então era aqui que você estava, Bruce? - o menino perguntou baixinho, batendo na coxa para chamá-lo.
- O que foi que aconteceu, meu Deus? - tornou Isabela, lívida.
- Ela está cheia de queimaduras - informou Priscila, em lágrimas.
Temos que ir ao hospital agora.
- Vamos logo - chamou Wilson, com urgência.
- Deixe que eu a carrego — avisou Ítalo.
Ele a tomou dos braços de Priscila.
Sentindo o contacto dele, Larissa entreabriu os olhos.
- Papai... — choramingou.
Cadê a mamãe?
- Estou aqui, minha filha - acudiu Priscila, segurando a mão dela.
Vai ficar tudo bem.
Estamos indo para o hospital.
- De novo...?
Terminou a frase fracamente, cerrando os olhos em seguida.
Priscila engoliu em seco, fitando o marido com o pânico estampado nas feições.
- Ela está apenas dormindo - constatou Roberta, pela primeira vez emocionada com a forma como a menina e o filho se tratavam.
Não se preocupem, ela não vai morrer.
E agora corram.
Ela precisa de cuidados urgentes.
- Vou com vocês - anunciou Isabela, seguindo atrás dos outros.
- Também vou — avisou André, postando-se ao lado da mãe.
- Você não pode, meu filho - objectou Wilson.
Não permitem crianças no hospital.
- Mas eu quero ir!
Quero saber como a Larissa vai ficar.
- Nós telefonaremos, avisando — tranquilizou a mãe.
Vá para casa e espere.
- Não quero ficar sozinho lá.
Vou ficar morrendo de preocupação.
- Você pode ficar aqui comigo, se quiser - falou Roberta, para surpresa de todos.
Podemos esperar juntos e orar.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 26, 2017 12:50 pm

Você sabe orar?
Ele assentiu com a cabeça, mas não estava convencido.
A última coisa que desejava era ficar sozinho em companhia de dona Surtada.
- Não, obrigado — respondeu, hesitante.
Acho melhor ir para casa com o Bruce.
- Ele pode ficar também.
O espanto foi ainda maior, mas não havia tempo a perder com esclarecimentos.
- Fique aqui, André - ordenou Isabela.
É melhor você ficar na companhia de um adulto.
Em pé, na varanda, André acompanhou a partida.
O carro virou a esquina e desapareceu, mas ele permaneceu lá, os olhos turvos de lágrimas, desejando estar junto de Larissa.
- Venha se sentar aqui comigo um pouquinho — disse Roberta, sentando-se no sofázinho da varanda.
Vamos fazer uma oração.
O que acha?
- Está bem — concordou ele, acomodando-se ao lado dela.
- Sabe rezar o Pai-Nosso e a Ave-Maria?
- Sei.
- Então, vamos rezar juntos.
Ela começou a recitar as preces, acompanhada, em voz alta, pela vozinha triste de André.
Roberta encerrou as orações com lágrimas nos olhos, secando-as com as costas da mão.
- Porque a senhora está chorando? — estranhou André.
- Porque estou triste e preocupada. Você, não?
- Estou. Mas é que... - calou-se, com medo de aborrecê-la.
- O quê? Você pensou que eu não sabia chorar?
Que sou uma mulher dura, sem alma, sem coração?
- Não, dona Roberta, nada disso! - objectou ele, às pressas.
É só que...
Não sabendo o que dizer, optou pelo silêncio, olhando-a de um jeito duvidoso.
Ela sorriu tristemente, dando tapinhas leves na mão dele.
Em seguida, olhou ao redor, à procura de Bruce, que havia se sentado numa das extremidades da varanda e agora se distraía roendo um graveto.
- Não precisa se preocupar nem tentar se desculpar.
Sei que tenho sido uma velha rabugenta, ultimamente.
Mas sabia que, nem sempre, fui assim?
- Não?
- Não. Houve uma época em que eu era alegre, divertida...
Já fui jovem, sabia? - Ele balançou a cabeça.
E fui enfermeira também.
- A Larissa me contou.
- Eu adorava a enfermagem.
Trabalhei até me casar.
Depois, meu marido proibiu, e aí vieram os filhos...
- Como assim? - Ele não entendeu.
- Deixe isso para lá.
É passado, acabou.
Não interessa mais.
O silêncio cresceu entre eles, levando os pensamentos de Roberta de volta ao passado.
Lembrar-se de que fora, um dia, alegre e divertida, causou nela um choque inesperado.
Em que altura da vida havia perdido a alegria, a generosidade, o altruísmo?
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 26, 2017 12:50 pm

Por que se deixara transformar naquela velha amarga, desagradável e implicante?
Porque a vida não foi como você desejou, ela respondeu a si mesma.
Na tentativa de escapar à tirania paterna, aprisionara-se a um marido que a tolhia, humilhava e não lhe dava o menor valor.
Tudo o que ela jurara ter para si e não conseguira fora retirado de sua vida, da mesma forma que ela extirpara dos filhos os sonhos e os anseios.
Só que eles, ao contrário dela, seguiram seu caminho, conduzindo-se de acordo com sua vontade.
Mesmo Ítalo, que permanecera ao lado dela, não abrira mão de se casar com uma mulher que amava, apesar de ela a detestar.
E o que conseguiu com tudo isso?
A resposta era uma só. Solidão.
— Dona Roberta — André cortou seus pensamentos.
- Hum?
— Como foi que a panela de pressão explodiu?
Larissa disse que conferiu duas vezes.
- Tem certeza?
— Tenho.
Larissa está acostumada a desligar o fogo da panela de pressão.
Como foi dar uma bobeira dessas?
Ao observar o rosto dele, Roberta não conseguiu detectar nenhum sinal de suspeita ou acusação.
O menino não desconfiava de sua participação no acidente.
Apenas não entendia como fora possível aquilo acontecer.
- Não sei... - falou vagamente.
A resposta ficou meio no ar, beirando o vazio.
O mesmo vazio que penetrou a alma de Roberta naquele momento.
- Estranho - concluiu o menino.
Estranho mesmo era permitir que a criança, além de ferida, levasse a culpa por algo que não tinha feito.
Priscila poderia não ralhar com Larissa de imediato, mas, em algum momento, lhe chamaria a atenção.
Afinal, ela podia ter morrido.
Sem falar na perda da confiança, que também era uma coisa terrível de acontecer.
O certo seria falar a verdade.
Contar ao filho e à nora o que ela havia feito.
Só que o medo era um obstáculo quase intransponível.
E se eles a mandassem embora?
Ela não tinha para onde ir.
Sua casa fora vendida; os móveis, doados.
Recebia uma pensão minguada e tinha uma pequena importância na caderneta de poupança, fruto da venda do único imóvel, que ainda repartira com os filhos.
Quem sabe não daria para ela comprar um apartamento?
O medo aumentou de tamanho, pintando horrores na cabeça dela.
Imaginou-se sozinha, num apartamento vazio, numa vizinhança estranha.
O telefone, que já quase não tocava, silenciaria por completo.
Talvez comprasse um gato, o que seria uma ironia, já que, a vida toda, sempre detestara animais.
Nada disso daria certo.
Certo mesmo é que morreria sozinha.
Só esse pensamento já seria suficiente para demovê-la de qualquer ideia de contar a verdade.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 26, 2017 12:51 pm

Ninguém viu, ninguém podia provar nada.
Talvez Larissa soubesse.
Não poderia provar, claro, mas onde ficaria a consciência de Roberta diante da injustiça?
Talvez ela não tivesse uma consciência.
Talvez fosse o que todo mundo dizia:
uma mulher má, despida de alma, de sentimentos, de honestidade.
Se era mesmo tudo aquilo, havia chegado a hora de mudar.
- Não é tão estranho — disse ela, sem nem se dar conta do que dizia.
Foi um acidente.
- Eu sei, mas como?
Ela disse que apagou o fogo.
- E apagou.
- Como é que a senhora sabe? — espantou-se ele, virando-se para encará-la.
A senhora viu?
- Não só vi, como fui eu que tornei a acendê-lo.
André não conseguiu falar.
Levou as mãos à boca, empurrando de volta para a garganta o grito que tentou escapar.
Na mesma hora, os olhos se ressentiram, transformando o grito em lágrimas de revolta, que ele não teve como segurar.
- A senhora o quê? — revidou, com lábios trémulos.
Mas por quê? A mãe dela mandou desligar...
A senhora achou que o feijão ainda não estava cozido?
Ela riu da ingenuidade dele.
O bom das crianças é não enxergar a maldade.
- Eu vou lhe contar - avisou ela.
Apesar da vontade de confessar, Roberta hesitou por uns momentos.
Não sabia se seria certo partilhar com uma criança um segredo tão terrível.
- Contar o quê? - redarguiu ele, diante da hesitação dela.
- Nada, André - reconsiderou.
Esqueça isso.
- Como é que a senhora acha que vou esquecer uma coisa dessas?
Quero saber por que a senhora ligou o fogo.
- Vai contar a alguém?
Ele levantou as sobrancelhas, surpreso.
Não havia pensado nisso.
- Não sei... - confessou.
Mas... a senhora não vai?
- Também não sei - admitiu, depois de alguns segundos.
- Se a senhora não contar, tia Priscila vai brigar com a Larissa.
- Você acha que Priscila brigaria com a filha numa situação como essa?
- Agora não, depois.
Não é justo deixar a Larissa levar a culpa por uma coisa que ela não fez, a senhora não acha?
- Acho. Mas me falta coragem.
- Porquê? Foi um acidente.
Ela desviou os olhos dele, esfregando as mãos com nervosismo.
- Jamais me passou pela cabeça que a panela pudesse explodir.
Percebi, tarde demais, que a válvula não girava, emitindo um ruído estranho.
Não consegui chegar a tempo de apagar o fogo novamente.
Larissa estava lá, diante do fogão...
Um soluço roubou-lhe a voz.
Roberta se debatia entre o remorso e o medo.
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