O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 26, 2017 12:51 pm

- E a panela, simplesmente, explodiu?
- Foi.
- Meu Deus!
- Foi mesmo Deus quem me ajudou.
Deus e o Bruce.
- O Bruce? Como assim?
O que ele fez?
- Ele apareceu de repente, sabe?
Sem ele, eu não teria conseguido salvar a vida de Larissa.
Ele é um cão muito inteligente e sensível.
Com orgulho e admiração, André ouviu o relato de Roberta.
Quando ela terminou, o cachorro havia se aproximado, atraído pela repetição incessante de seu nome.
- Bruce, você é um herói! - comentou ele, abraçando o cão pelo pescoço.
- Ele é mesmo o único e verdadeiro herói dessa história.
Salvou não apenas a vida de Larissa, mas a minha também.
- A sua?
Pensei que a senhora não tivesse sido atingida pela explosão.
- E não fui.
Bruce salvou a minha vida de outro jeito.
- De que jeito?
- Ele me fez ver o quanto eu andava cega pela arrogância, o orgulho, o egoísmo e tantas outras coisas que fizeram de mim a velha amarga e mesquinha que você conheceu.
Apesar de não entender bem onde Bruce entrava em tudo aquilo, André não contestou.
Era inteligente o bastante para deduzir a confissão velada, a culpa, o arrependimento.
- Isso significa que a senhora vai mudar? - arriscou ele, timidamente.
- Você é um menino muito esperto, sabia?
Ele sorriu, envergonhado.
A seus pés, Bruce havia voltado a concentrar-se no graveto.
Como se adivinhasse, levantou as orelhas uma fracção de segundo antes de o telefone tocar.
A um olhar de Roberta, André deu um salto do sofá, correndo para atender.
- Alô! - ele quase gritou.
Pai! E aí, pai?
Como está a Larissa?
Ele ouviu em silêncio, sem ousar interromper a fala de Wilson.
Olhou para Roberta, com um pouco de pesar.
Acomodou o telefone de volta na base e voltou para a varanda, onde Roberta o aguardava, ansiosa por notícias.
- Então, André? - indagou, aflita.
Como é que ela está?
- Ela está bem.
- Graças a Deus! — desabafou, com sinceridade.
Ele ouviu as nossas preces.
- Ouviu, sim. Só que...
- Só que... - repetiu ela, estimulando-o a prosseguir.
— Tem mais uma coisa... - ele continuou, quase sem conseguir encará-la.
— É com Larissa?
- Não.
— Então, o que é?
- Eles já sabem de tudo - revelou, constrangido.
Papai quer que eu vá para casa.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 26, 2017 12:51 pm

Disse que a senhora não é confiável.
Foi como se o céu despencasse sobre ela, atirando-a num mundo de escuridão e medo.
Acontecia o previsível e, ainda assim, inesperado.
Lá no fundo do coração de Roberta, uma esperança pequenininha havia criado um desfecho além da realidade, como se fosse possível distorcer a imagem da vida para moldá-la a seus desejos.
- Vá para casa - pediu ela, com calma e amargura.
Obedeça seu pai.
De cabeça baixa, sem ousar encontrar os olhos dela, André aquiesceu.
Do portão, ainda se virou a tempo de ver a ponta da bengala sumir, antes que ela fechasse a porta.
— Dona Roberta — chamou, obrigando-a a reabrir a porta e encará-lo com tristeza.
Eles estão errados.
Eu confio na senhora.
Ela agradeceu com o olhar.
Não foi capaz de dizer nada.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 26, 2017 12:51 pm

Capítulo 43
A Lizandra com quem Danilo agora lidava era muito diferente da Lizandra que ele havia conhecido.
Apesar de conservar a beleza, uma sombra havia estacionado sobre seu semblante.
Devia aquela mudança à doença de Rodrigo, talvez a única pessoa no mundo com a capacidade de despertar nela algum tipo de consciência.
E ela parecia bem consciente de seu papel de mãe, ou antes, de seu amor pelo filho.
- Você está calado - observou Marília, deitada ao lado dele na cama, lendo um livro no Kindle.
Aconteceu alguma coisa?
- Não...
Quero dizer, estava pensando naquele menino...
- O da epilepsia?
Ele assentiu.
— O filho de Lizandra.
- Ele mesmo - disse, sem maior emoção, tentando ignorar que aquela afirmação não poderia ser casual.
- Estranha, essa moça, não? - comentou ela, cautelosamente.
- Por que diz isso?
- Quando a vi pela primeira vez, ela me pareceu decidida, esperta, cheia de atitude.
Uma mulher ardilosa tentando se fazer passar por uma pobre dona de casa traída.
- E agora?
- Agora, não sei.
Cheguei a pensar que ela podia ter alguma coisa com você, mas depois que a vi em seu consultório, fiquei em dúvida.
Danilo teve um sobressalto.
Muito mais pela frieza com que ela dizia aquilo do que com a desconfiança em si.
Ela o estava testando.
- Você achou que ela era minha amante?
- Achei. - Ela abaixou o aparelho.
Retirou os óculos e olhou para ele.
- E é?
O quarto adquiriu uma atmosfera de inquietação, ao menos ao redor de Danilo.
O coração dele se arremessou contra o peito, quase escalando a garganta para fugir.
Ele engoliu em seco, como se, com isso, fosse possível devolver o órgão a seu estado natural.
Não foi. O coração parecia dar pulos de pânico, sentindo-se aprisionado não apenas pelo corpo, mas pelo medo de omitir a verdade, tanto quanto pelo medo de revelá-la.
Ele demorava a responder, visivelmente desassossegado.
O quarto estava gelado, devido à baixa temperatura do ar-condicionado.
Mesmo assim, gotas de suor salpicaram sua testa.
- E então? - insistiu ela.
É ou não é?
- Não — objectou ele, sem muita convicção.
- Nunca foi?
- Quer mesmo saber? - retrucou, sem ter para onde fugir.
- Eu já sei.
Marília soltou o Kindle em cima da cama.
À meia-luz, suas lágrimas não eram visíveis, embora perfeitamente intuídas por Danilo.
Ela saiu do quarto, sentindo o resultado irracional do ódio misturado ao amor.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 26, 2017 12:51 pm

Danilo não teve coragem de ir atrás dela.
Não sabia o que lhe dizer.
Qualquer coisa que dissesse soaria como desculpa.
Ela jamais acreditaria que ele a amava.
Passando pelos quartos das crianças, ela parou para olhá-las.
Será que sofreriam se ela pedisse o divórcio?
É claro que sim.
No entanto, teriam que aceitar.
Seguiu adiante, sentando-se no sofá para assistir à televisão.
Sintonizou num filme qualquer, ao qual não prestava a mínima atenção.
Queria apenas a companhia das cores e dos sons, para afastar o vazio que se abria em seu coração.
Ficou ali por muito tempo, cochilando de vez em quando.
- Eu nunca devia ter me envolvido com ela - Marília ouviu Danilo dizer, atrás dela.
- Não devia mesmo - concordou ela, abrindo os olhos semicerrados, sem se voltar para ele.
- Eu posso explicar... - afirmou ele, sentando-se ao lado dela.
- Não precisa.
Eu já sei.
- Sabe?
- É claro. Você vai dizer que estava insatisfeito, que eu sempre fui chata, e você queria emoção, porque nosso casamento era um tédio.
Mas que você me ama e que a outra não representou nada além de uma aventura inconsequente.
Ele abaixou os olhos, envergonhado por ela ter adivinhado suas palavras.
- Sinto muito - sussurrou.
- Eu também.
- Você me ama?
- Se não amasse, não sentiria muito, não sentiria nada.
- Então, me dê mais uma chance.
- Porquê? Porque você me ama?
- Amo. Você nem imagina o quanto.
Ela deu um suspiro de desânimo.
Após alguns minutos de silenciosa expectativa, respondeu:
- Não é assim que as coisas funcionam.
- Porquê? Eu amo você, amo muito você.
Lizandra foi... uma aventura. Só isso.
Não pode me perdoar?
Me dar uma segunda chance?
- Posso perdoar e dar uma segunda chance.
O que não sei é se poderei voltar a confiar.
- Marília, por favor.
Ele se ajoelhou em frente a ela, segurando as mãos dela com firmeza.
- Faço o que você quiser, mas não me deixe.
Prometo que, se você me perdoar e me der mais essa chance, nunca mais darei motivos para você desconfiar de mim.
Vou reconquistar a sua confiança.
- Não sei se acredito que isso seja possível.
Pode ser que você acredite nisso, mas talvez esteja se enganando.
- Me dê mais uma chance! - implorou.
Vou provar para você, eu juro.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 26, 2017 12:52 pm

Nunca mais verei Lizandra, nunca mais!
Terminei com ela por causa de você, porque é a você que amo.
- E o garoto?
A pergunta o deixou confuso.
De repente, viu-se diante de uma escolha quase impossível de fazer.
Colocou tudo numa balança.
De um lado, a mulher e os filhos, a quem amava acima de tudo.
De outro, o amor à profissão e a lealdade a seu juramento.
- Posso passá-lo a um amigo - considerou ele, com cautela.
Alguém de confiança, que trabalhe com homeopatia.
- Quem? Sua amiga, que propôs tirar um pedacinho do cérebro dele?
Ele estranhou a ironia.
Do jeito que ela falava, parecia até que não concordava que ele passasse o caso adiante.
- Ela não é homeopata.
Mas conheço outros...
- Neurologistas?
- Não. Mas isso não importa.
A homeopatia cuida do doente como um todo, você sabe.
- Não é isso que eu quero — contestou ela, balançando a cabeça, com decisão.
O garoto confia em você, acha que você vai curá-lo.
E depois, ele não tem nada com isso.
Não é culpa dele se a mãe resolveu se envolver com seu médico.
Então, vá em frente.
Cumpra o seu dever, cuide do menino.
- Como posso fazer isso, sabendo que você sabe?
- Como pode não fazer, sabendo que é sua responsabilidade?
- Meu amor por você e pelas crianças vem em primeiro lugar.
- Eu sei. E é por isso que estou dizendo para você curar o menino.
Não pense que é fácil, para mim, dizer isso.
É bem difícil, na verdade.
Está consumindo muito da minha energia, mas é assim que tem que ser.
- Por que está fazendo isso?
- Já disse.
- “Porque é assim que tem que ser” não é suficiente.
- Sou mãe, Danilo, e tenho consciência.
Como acha que eu me sentiria se o menino piorasse por causa do meu ciúme e do meu orgulho?
- Acha que é só isso?
Uma questão de ciúme e de orgulho?
- Precisa de algo mais?
- Não sei o que dizer... - murmurou, entre a vergonha e a emoção.
- Como eu disse antes, perdoar e dar outra chance é fácil.
O que estou lhe dando é um voto de confiança.
- Marília... - parou de falar, a voz embargada.
Você não pode imaginar como estou me sentindo.
Estou aliviado, feliz, envergonhado...
- Não é para menos.
Agora, tem uma condição.
- O que você quiser.
- Esse assunto está encerrado.
Pode ter certeza de que não vou ficar aqui imaginando se você voltou a me trair ou não.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 26, 2017 12:52 pm

Vou confiar integralmente em você.
De agora em diante, se você me ouvir pronunciar o nome de Lizandra novamente, é porque descobri alguma coisa e perdi a confiança em você.
Da próxima vez, não tem volta.
- Isso nunca vai acontecer. Eu juro!
- Não precisa jurar.
Mostre que você realmente me ama e tudo voltará a ser como antes.
Ele a abraçou e beijou com uma felicidade incontida.
Não duvidava das palavras dela, muito menos de suas intenções.
Era grato pela chance que ela lhe oferecia, pela confiança que lhe devolvia de forma tão desprendida.
A sombra da dúvida passou longe dos pensamentos dele; mais ainda, de seu coração.
Com ela envolvida por seus braços, tinha certeza de que nunca mais a trairia.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 26, 2017 12:52 pm

Capítulo 44
Logo na primeira semana após o início do tratamento homeopático, Rodrigo começou a demonstrar sinais de melhora.
As crises haviam diminuído significativamente, a mente parecia mais límpida, menos embaralhada pelos distúrbios neurológicos e espirituais.
Iniciava, inclusive, a oferecer resistência ao assédio de Camélia.
Passado o primeiro mês, quase não exibia mais sintomas da enfermidade.
As convulsões cessaram inteiramente.
E, por mais que Camélia tentasse, não encontrava facilidade alguma para chegar até ele.
Reencontrando o equilíbrio, Rodrigo ia, aos poucos, rompendo a sintonia com ela.
- Estou impressionado - admitiu Vítor, à mesa do café da manhã.
Não acreditei quando o Dr. Danilo disse que a melhora seria tão rápida.
- Você é muito céptico mesmo, não é? - contrapôs Lizandra.
Depois diz que tem a mente aberta.
- Eu tenho a mente aberta - tornou aborrecido.
Mas é que todo mundo diz que os remédios da homeopatia demoram a fazer efeito.
Antes que Lizandra tivesse tempo de responder, Rodrigo entrou na cozinha.
Vinha com ar animado, aspecto saudável, muito diferente do ar fantasmagórico de alguns dias atrás.
- Bom dia - cumprimentou ele, sorrindo amistosamente.
- Bom dia, meu amor - respondeu Lizandra, sentando-o em seu colo.
Como estamos hoje?
- Muito bem.
- Que maravilha!
- Isso é óptimo, meu filho - concordou Vítor.
Sinal de que a homeopatia está fazendo efeito.
- Agora sente-se e tome seu café.
Anita fez panqueca de maçã. Está com fome?
- Morrendo de fome!
- Então, coma tudo - falou Anita, servindo-lhe uma panqueca quentinha.
Vai querer com mel ou geleia?
- Só com canela, Anita. - Ela polvilhou a panqueca.
Está bom, obrigado.
O barulho de xícaras e talheres se batendo irritou os ouvidos de Camélia, que seguia os passos de Rodrigo, sem poder se aproximar.
Quando ele dormia, era mais fácil.
A libertação do perispírito dele facilitava o encontro.
Desperto, porém, ele a evitava.
- Mamãe, nós conhecemos alguma Camélia? - indagou ele, de repente, para grande espanto do espírito.
- Camélia... - repetiu a mãe, pensativa.
Que eu me lembre, não. Porquê?
- Por nada. Curiosidade.
É que, às vezes, sonho com alguém com esse nome.
- Quem? - estranhou Vítor.
- Não sei. Por isso que perguntei.
Vítor e Lizandra trocaram um olhar de entendimento.
Até Anita, que acreditava no mundo invisível, pareceu compreender o significado daquele sonho.
- Não é nada, meu filho.
Provavelmente, apenas um nome que você ouviu na televisão.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 26, 2017 12:52 pm

- É. Pode ser.
- Já está pronto para a consulta? - tornou Lizandra, notando que ele acabara de comer.
- Ah, mãe, tenho mesmo que ir?
Já estou me sentindo melhor.
Ao ouvir o protesto de Rodrigo, Camélia deu um pulo.
Era exactamente isso que ela lhe dizia nos sonhos!
Insistia que ele já estava bom, que não precisava mais de médico, que os pais estavam exagerando.
Não seria melhor brincar ou visitar o Bruce?
Ainda não inteiramente recuperado, Rodrigo recebia as sugestões de Camélia, pensando tratar-se de seus próprios pensamentos.
A mãe fraquejou por uns momentos, comovida com o ar de desapontamento dele.
Por sorte, Vítor não teve a mesma reacção.
- Você se lembra do que o Dr. Danilo falou, não se lembra, Lizandra? - observou ele, um pouco incisivo demais.
Vai fazer justamente o contrário?
- É claro que não! - protestou ela, afastando a “peninha” que sentia dele.
Você vai ao médico, sim, Rodrigo.
É para o seu bem.
Você ainda não está curado.
Camélia ficou furiosa, mas não pôde fazer nada.
Foi obrigada a assistir à partida de Rodrigo, sem poder intervir.
Tampouco quis acompanhá-lo.
Se pudesse agredir o médico, bem que daria um pulo lá.
Mas havia algo naquele consultório que a intimidava, tolhia seus gestos e inibia seus ataques.
Em casa, pelo menos, ficava livre para pensar.
Se Moisés a visse, diria que ela estava melhor sem a cadeia energética que erguera em volta dos dois.
Ela não compreendia como uns remedinhos à toa tinham tanto poder.
Assim que Rodrigo começou com a medicação, as garras que ela enfiava nele, feito tentáculos venenosos, começaram a ser expelidas.
Em pouco tempo, se soltaram, retornando para ela como fios eléctricos desgovernados.
Sentiu-se vítima de sua própria arma.
As mãos não voltaram ao normal, mantendo a aparência estranha de garras disformes.
Na ponta de seus dedos, um fiozinho energético ainda pendia, pronto para reingressar nos centros nervosos de Rodrigo, tão logo ele se descuidasse da medicação.
Enquanto ele não estivesse forte o suficiente para rechaçar de vez os seus ataques, ela permaneceria ali, tentando, insistindo, lutando, até que ele cedesse ou a mandasse embora de uma vez.
A energia vital das crianças é a força motriz que as impulsiona a crescer.
Qualquer alteração nessa energia provoca um abalo em sua sensibilidade, e uma reacção imediata é accionada pelos seus corpos subtis, que tentam recuperar o equilíbrio energético.
Toda enfermidade possui raízes em distúrbios emocionais e mentais.
Por detrás da aparência frágil e inocente de cada criança, existe um espírito que já passou pela Terra inúmeras vezes, acumulando, ao longo dos séculos, tanto créditos quanto débitos na contabilidade da consciência.
Créditos e débitos, nesse sentido, nada mais são do que atitudes que permitem ou impedem a entrada da luz na consciência humana, determinadas pelas virtudes ou intemperanças de emoções e pensamentos.
Trazendo no íntimo, de forma não consciente, uma complexidade de comportamentos viciosos, a criança não está imune à manifestação dos sintomas daí decorrentes.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 26, 2017 12:53 pm

É preciso, portanto, corrigir os factores emocionais e mentais responsáveis pela geração ou repetição da conduta imprópria, a fim de que a energia vital reencontre seu equilíbrio e elimine a raiz da doença.
Como a busca desse equilíbrio é inata na criança, cujo objectivo imediato é crescer e se desenvolver, ela consegue assimilar muito bem a medicação homeopática, que tem por função, justamente, provocar o reequilíbrio buscado por aquele pequeno ser.
Sabendo disso tudo, não foi surpresa, para Danilo, a resposta de Rodrigo aos medicamentos.
Após um exame completo, o médico fez várias perguntas, que ele respondeu com clareza, sem muita necessidade de intervenção dos pais.
Contou como se sentira durante aquele mês, quais foram suas reacções, se tivera alguma mudança orgânica ou no comportamento e coisas do género.
O que ele não sabia responder, os pais faziam por ele.
Quando a consulta terminou, Danilo estava bastante satisfeito.
- Excelente, Rodrigo - elogiou, premiando-o com um chocolate.
Não é todo mundo que ganha esse prémio, viu?
Só os meus pacientes que se comportam melhor.
- Obrigado - disse Rodrigo.
Vou guardar para depois.
Vítor pigarreou de leve, olhando para o filho discretamente.
Tinha algumas perguntas para fazer a Danilo, mas não queria que o menino escutasse.
Conforme havia combinado com Lizandra, ela saiu com ele para beber um refrigerante.
Depois, o marido lhe contaria o resultado da conversa.
- Não vou demorar, doutor, prometo - comentou Vítor, preocupado em não avançar no horário do próximo paciente.
Só quero esclarecer uma dúvida.
- Pois não.
O que quer saber?
- Rodrigo hoje nos perguntou de uma tal de Camélia.
Nunca ouvimos falar em ninguém com esse nome.
Até aí, tudo bem, ele podia tê-lo ouvido em qualquer lugar.
Mas o que achamos estranho é que ele tem sonhado com ela ultimamente.
O que quero saber é:
o senhor acha possível que seja algum espírito?
A pergunta pegou-o de surpresa.
Danilo pensou por uns instantes antes de responder.
Não podia correr o risco de dar uma explicação errada, principalmente porque aquele não era um campo que ele dominasse totalmente.
- Difícil dizer — começou, com cautela.
Não sou nenhum especialista no assunto.
- Tudo bem.
Mas, na sua opinião, pode ser que sim, ou essa hipótese é totalmente absurda?
- Absurda não é.
Ao contrário, é possível, é viável, é até provável.
Mas não é uma certeza.
Agora, se vocês estão em dúvida, e querem mesmo saber, aconselho-os a procurar um centro espírita.
- Talvez façamos isso. Não sei.
Não quero ser chato nem repetitivo, mas ainda não estou plenamente convencido.
Afinal de contas, o que pode um espírito querer com meu filho, uma criança inocente e indefesa?
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 26, 2017 12:53 pm

Danilo olhou para ele com desânimo.
Aquela era uma pergunta típica dos cépticos e ignorantes, que nada sabiam a respeito de reencarnação ou da lei de causa e efeito.
Escolhendo bem as palavras, tentou elucidar da melhor forma possível:
- Não sou espírita, embora um estudioso dos fenómenos espirituais.
Acredito, firmemente, no chamado mundo invisível.
Existem outras consciências por aí que são magnetizadas ou repelidas por nós, de acordo com o padrão vibratório de nossos sentimentos e pensamentos.
Sem excepção, somos todos sensíveis o suficiente para sentir sua influência.
Mas algumas pessoas nasceram com essa sensibilidade mais aguçada do que outras, o que quer dizer que podem não apenas sentir, mas identificar essas influências, ou mesmo interagir com elas.
E como tudo gira em torno da lei de atracção, cada pessoa magnetiza seus semelhantes, que passam a interferir em sua vida com maior ou menor intensidade, de acordo com o grau de identificação entre a pessoa e a consciência magnetizada, ou espírito, se assim preferir chamar.
- Quer dizer, então, que meu filho é uma pessoa sensível e, por algum motivo, acabou magnetizando um espírito afim?
- De uma certa forma, sim.
- Mas que afinidade pode ter uma criança com essas... consciências malignas?
- Nesta vida, talvez nada.
Mas em outra, não sabemos.
- Não sei em que acreditar, doutor - confessou ele, com sinceridade.
É tudo muito novo para mim.
- Crer ou não crer em espíritos é indiferente para o tratamento.
É claro que a fé auxilia bastante, já que é capaz de operar milagres.
A crença ajuda, mas a falta dela não atrapalha.
Tenho pacientes de várias religiões, que não acreditam em espiritismo nem nada do género, mas que seguem o tratamento à risca e têm obtido sucesso.
Católicos, baptistas, ateus...
Tem de tudo por aqui.
A maioria não faz qualquer tipo de questionamento.
Ninguém me pergunta nada.
Só o que as pessoas querem é ser curadas.
Elas não se ligam em energia, dinamização, vidas passadas...
Muitas nem sabem que essas coisas existem, ou não acreditam.
Mas se fazem tudo direitinho, têm uma grande chance de cura.
Se não fazem, põem tudo a perder.
Agora, se existe uma influência, ela vai ser mais intensa quanto maior a incredulidade da pessoa.
Como cada um vai lidar com isso é muito individual.
Não tenho como dizer.
Quando os alertei sobre essa possibilidade, foi porque achei que vocês tinham a mente aberta e conseguiriam compreender.
- Nós compreendemos.
Tanto que Rodrigo não queria vir, mas eu insisti.
- Se ele não queria vir, é muito provável que estivesse sendo influenciado.
Vocês fizeram bem em trazê-lo.
- Foi o que pensei.
- E se isso aconteceu, tomem ainda mais cuidado nos dias de consulta.
Pode ser que ele passe mal ou fique doente.
Ainda que isso aconteça, não deixem de vir.
Lembre-se de que sou clínico geral, não apenas neurologista.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 27, 2017 10:53 am

Posso lidar com qualquer enfermidade.
- Obrigado, doutor.
Não quero atrasá-lo mais.
O próximo paciente já deve estar esperando.
- É verdade.
- Foi muito bom conversar com o senhor.
Estou suficientemente esclarecido.
De agora em diante, vou ficar ainda mais atento a Rodrigo.
Querendo ou não, ele vai vir a todas as consultas.
- Fico mais tranquilo assim.
Até a próxima, então.
- Bom dia, doutor.
Ao deixar o consultório, Vítor ainda relutava em aceitar que Rodrigo estivesse sob a influência de um espírito.
Em casa, dividiu com Lizandra as informações colhidas, sem saber que mais alguém as partilhava com eles.
Camélia ouviu tudo atentamente, ora se irritando, ora se desesperando.
Sentia que o cerco se fechava sobre ela de tal forma, que não demoraria muito para que fosse vencida.
Precisava estar preparada.
Não queria sair do lado de Rodrigo, mas agora começava a se perguntar se valeria mesmo a pena insistir em algo que, até então, só lhe trouxera sofrimento.
Porque ela já não aguentava mais.
No limite de suas forças, reconheceu, pela primeira vez, que estar com Rodrigo não lhe dava mais nenhum prazer.
Só dor, angústia e solidão.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 27, 2017 10:53 am

Capítulo 45
O que Moisés sentiu ao entrar no apartamento de Lizandra foi inesperado.
Preparado para encontrar a força daninha, opressiva e deletéria de Camélia, surpreendeu-se com a inusitada sensação de leveza e tranquilidade.
A algazarra no terraço o atraiu para lá.
Fazia um calor insuportável.
A temperatura de quase 40 graus contribuiu para o processo de restabelecimento da alegria em família, reunida na piscina, onde Vítor apostava corrida com Rodrigo por debaixo de água.
Lizandra fazia às vezes de juíza, dando a palavra final ao vencedor, que era, quase sempre, o filho.
Os três riam, esbanjando felicidade.
Da doença, não havia nem sinal.
- Como vai, Camélia? — saudou ele, aproximando-se do espírito, sentado no guarda-corpo do terraço.
- O que você acha? - respondeu de mau humor.
- Se não está bem, deveria estar.
A alegria deles é contagiante.
- Acha mesmo?
- Acho.
- Bom para você.
- Dá um tempo, Camélia!
Isso já está ficando monótono.
- O quê?
A minha frustração?
O meu ódio?
- Não. A sua insistência em algo que você já perdeu.
- Não perdi nada! - enfezou-se.
- Perdeu, sim.
Perdeu essa batalha, Camélia.
A vitória foi deles - sentenciou, apontando-os com o queixo.
Ou melhor, a vitória foi do bem, como sempre acontece.
- Você agora deu para ser engraçadinho, é?
- Você acha que isso é engraçado?
- Você não passa de um traidor, Moisés!
Ensinei-lhe tudo o que sei, e é assim que você me retribui.
- Assim como?
- Assim, desse jeito... tentando me tirar daqui.
Não se esqueça de que cheguei primeiro!
- Longe de mim querer tirar você daqui!
O que quero, Camélia, é vê-la bem.
- Só tem um jeito de me ver bem - tornou emburrada, olhando para Rodrigo.
- Desse jeito, não dá - objectou ele, seguindo o olhar dela.
Ele agora é livre.
Você também não quer ser?
- Se ainda não reparou, eu sou livre - disse, exibindo as mãos, de onde os fios energéticos pendiam, ínfimos e inertes.
Não estou mais ligada a ele.
- Está. A simbiose pode ter se rompido, mas não foi totalmente desfeita.
- Você quer dizer que, a qualquer momento, posso restabelecer nossa sintonia? — animou-se.
- Teoricamente, sim, é possível.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 27, 2017 10:53 am

Mas infinitamente improvável.
Se você ainda não reparou, a energia de Rodrigo se estabiliza cada dia mais.
E, cada dia mais, quem sofre é você.
Eles nem sabem que você está aqui.
- Rodrigo sabe.
Ele sonha comigo.
- Por isso a vê como um sonho.
Não como uma pessoa de verdade.
- Os pais dele desconfiam.
- Muito bem, Camélia!
Foi descoberta por quem tem o poder de mandá-la embora.
- Eles não têm poder nenhum — rebateu, irada.
- Eles, não.
Mas estão em condições de encontrar quem tenha.
É isso que você quer?
Que eles procurem um centro espírita, por exemplo, e tragam até aqui médiuns para fazer uma limpeza espiritual e levar você aprisionada?
Sim, porque aí, não tem jeito.
Você sai, nem que seja na marra.
- Saio, mas volto.
- Não volta.
Você não é uma assombração presa a um castelo.
É um espírito em desequilíbrio, atada ao desequilíbrio de outra pessoa.
Se essa pessoa entra nos eixos, você, puf.
Desaparece - concluiu ele, fechando e abrindo os dedos de ambas as mãos.
- Está se divertindo, Moisés? - indagou, ainda mais furiosa.
Eu tenho cara de palhaça?
- Você? Não.
Sempre achei-a inteligente, meiga, bonita...
- Pare com esse deboche!
- Não é deboche - objectou ele, em tom conciliador.
É preocupação.
Estou fazendo o que posso para que você compreenda que é a que mais sofre com tudo isso.
Veja o seu estado, veja o deles.
Quem lhe parece mais infeliz?
Ela obedeceu.
Durante vários minutos, acompanhou a balbúrdia da família.
Os três mergulhavam, jogavam água, se abraçavam.
A pequena piscina transbordava, de tanta alegria.
- Não enche - foi a resposta malcriada.
Ela se virou de costas para ele, as pernas penduradas para o lado de fora, ameaçando precipitar-se do guarda-corpo.
- Não vai adiantar nada - observou ele, calmamente.
Você já está morta. Esqueceu?
E já faz tanto tempo, que nem a sensação da dor você vai sentir.
- Eu não me esqueci — afirmou ela, substituindo a irritação pela tristeza.
E é justamente por não esquecer que não consigo partir.
Sinto-me ligada a ele.
Eu ainda o amo.
E ele me ama.
Sei que ama, mas Lizandra não permite que ele perceba.
Quer Rodrigo só para ela.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 27, 2017 10:54 am

- Ouça a si mesma, Camélia.
Não é possível que você, com a inteligência que tem, acredite mesmo nisso.
Você sabe que eles vivem outra vida agora.
Não se lembram de nada do passado.
Nascerem como mãe e filho foi uma escolha dos dois.
Já lhe passou pela cabeça que eles podem estar tentando, justamente, substituir a paixão deletéria do passado por um amor mais puro, mais genuíno?
Não há nada mais verdadeiro do que o amor de mãe.
Camélia o encarou com as sobrancelhas erguidas, emoldurando seu olhar de espanto.
- Nunca havia pensado nisso - reconheceu, abismada.
- Pois então, pense agora.
Ela pensou, reflectiu, ponderou.
Depois de algum tempo, voltou a questionar, ainda com teimosia:
- Se é assim, por que não vim junto com eles?
- Não acredito que você está me fazendo essa pergunta.
Por acaso, você aceitou ajuda?
Aceitou seguir o caminho natural do pós-desenlace, receber tratamento adequado, ser instruída, esclarecida, orientada para, depois, se preparar para o reencarne?
Hein, Camélia, você fez isso?
- Não — sussurrou, vencida.
- Pois então, como queria vir junto deles?
Ou você pensa que é tão inteligente que poderia fazer tudo sozinha?
- Isso nem me passou pela cabeça - redarguiu, envergonhada.
- Sei que não.
Mas agora, você pode começar a pensar nisso.
Não seria bom ter a chance de vir nessa família e acabar, de uma vez por todas, com o ódio, a inimizade e a vingança?
Não é muito melhor serem todos amigos?
- Não vejo como possa conseguir isso.
Não dá mais para Rodrigo me esperar.
Uma reencarnação leva tempo.
Quando eu nascesse, na certa, ele já estaria velho.
Não poderia mais ser meu marido.
- E seu pai?
Já pensou nisso?
Ele poderia ser seu pai, e Lizandra, sua avó.
- Pai?! Mas se ele for meu pai, não poderemos... - calou-se, ainda com mais vergonha.
- Fazer sexo?
É isso que é importante?
O que vem primeiro, Camélia?
O sexo ou o amor?
- Às vezes, é o sexo que precede o amor.
A gente pode se envolver com alguém sexualmente, e o amor acaba vindo depois.
- Não foi no sentido do quê antecede o quê numa relação que eu falei, e sim no de prioridade.
Mas tudo bem, vou refazer a pergunta:
o que você quer reconquistar em Rodrigo?
O sexo ou o amor?
Agora ficou bem claro?
- Ficou.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 27, 2017 10:54 am

- E então?
Ela olhou para os lados, tentando achar um meio de fugir à pergunta.
Não encontrou.
- É o amor, Moisés - falou, não sem irritação.
Era isso que você queria ouvir?
- Queria ouvir a sua resposta sincera.
Essa é sua resposta sincera?
- Você está me tratando feito criança! — protestou, elevando a voz.
Não se esqueça de que fui eu que lhe ensinei essas coisas.
- Você me ensinou muitas coisas, pelas quais serei eternamente grato, já disse.
Você foi minha amiga quando pensei não ter mais ninguém.
Me ajudou muito, reconheço.
E é por isso que quero ajudar você também.
Eu a amo, Camélia, de verdade.
- Você o quê? - espantou-se.
Você me ama?
- Amo.
- Mas como?
A gente mal se conhece!
- Estamos no plano das emoções, onde nossas emoções vibram com mais intensidade e sem as interferências da matéria física.
Aqui, elas rolam soltas, não dá para a gente mentir ou disfarçar.
Quem sente ódio, por exemplo, não consegue ocultá-lo nem fingir que não sente.
É instantâneo.
Nosso corpo todo é feito disso.
E já que as emoções andam por aqui sem censura nem questionamentos, basta que elas cheguem a nós e pronto.
A gente logo as recebe.
Sem perguntar porquê, sente.
A revelação foi inesperada, surpreendente, tocante.
Camélia passou a vê-lo de um jeito diferente.
Não era apenas a indumentária, que ele substituíra por roupas limpas da outra vez que o vira.
Era algo no seu semblante, uma paz evidente, uma certeza que transmitia segurança.
- Você é uma caixinha de surpresas - comentou ela.
Nunca poderia imaginar que aquele mendigo se revelaria uma pessoa tão madura e sensível.
- Não apenas eu.
Você está pronta para seguir.
É mais madura do que eu, sabe muito sobre o lado invisível da vida.
Por que desperdiçar tanta inteligência e sabedoria com coisas que não valem a pena e só atrapalham a sua felicidade?
Não acha que seria mais útil empregar tudo o que sabe para ajudar alguém, para ajudar a si mesma, em primeiro lugar?
Que vida é essa que você leva, Camélia, que não faz bem nem a você, nem a ninguém?
- Você tem razão, Moisés - concordou ela, dando liberdade à mente para usar de seu intelecto sem o veneno da emoção desregrada.
Isso não é vida.
- É claro que não.
- Estou cansada...
- Deve estar mesmo.
- Eu gosto de aprender, de me instruir, de estar por dentro das coisas.
Já lhe falei que gostaria de ser professora?
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 27, 2017 10:54 am

- Ainda está em tempo.
- E se eu não puder reencarnar com ele?
Sei que tem uma hierarquia lá em cima.
A gente não sai por aí fazendo o que quer.
E se um “graudão” do astral disser que eu não posso reencarnar, já era.
Terei que ficar por lá, trabalhando pela minha melhora.
- Não acho que trabalhar pela própria melhora seja algo tão ruim assim.
- Você entendeu o que eu quis dizer.
- Tudo bem.
E se eu lhe disser que estou autorizado a lhe garantir que você poderá reencarnar junto a Rodrigo?
Você acredita?
- E você está?
- Estou.
- É sério isso? - duvidou, querendo acreditar.
Não está falando só para me convencer?
- Eu jamais mentiria para você, Camélia.
Ainda mais com uma coisa dessas.
Foi minha mãe quem me pediu para vir aqui e lhe dar a notícia.
Parece que alguém lá em cima se preocupa com você.
- Tenho muitos amigos por lá, na verdade...
É que já estive lá várias vezes.
Em todas, acabei fugindo.
- Não está na hora de parar de fugir?
De aceitar a chance que estão lhe oferecendo e desistir dessa perseguição inútil?
Mais ainda, de refazer as relações, desmanchando o ódio e, sobre ele, erguendo a construção sólida do amor?
O ódio é uma coisa poderosa, mas não é eterno.
Com o tempo, ele enfraquece e cai.
O amor que vem a seguir é que dura para sempre.
Alívio. Foi o que ela sentiu quando ele terminou de falar.
Não propriamente pelas palavras, mas pela decisão que, através delas, era capaz de tomar.
Os grilhões invisíveis se despedaçaram diante dela, libertando-a, de uma vez por todas, da energia de Rodrigo.
Era uma sensação muito boa, que ela não experimentava fazia muito tempo.
- Quero partir - afirmou, com convicção.
Num último e breve olhar, despediu-se de Rodrigo.
Fitou Lizandra também e o que sentiu a deixou ainda mais aliviada, uma sensação positiva de optimismo, de fé, de esperança.
A certeza de que nada nunca está perdido.
Sempre existe a chance de recomeçar.
Mesmo quando a morte ceifa a vida, o recomeço acena com a obstinação própria da incessante renovação que é reencarnar.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 27, 2017 10:54 am

Capítulo 46
A empresa de construção em que Ítalo trabalhava fornecia plano de saúde, cuja cobertura estendia-se à enteada.
Isso possibilitou levar Larissa a um bom hospital particular, onde ela foi prontamente atendida e medicada.
- Graças a Deus! - desabafou Priscila.
Bendito plano de saúde.
Da outra vez, ela foi atendida no SUS!
Acompanhada de Ítalo, Priscila seguiu o enfermeiro, que conduzia Larissa em uma cadeira de rodas.
- Só pode entrar um responsável por vez - anunciou ele, assim que alcançaram a porta do atendimento.
- Eu vou - decidiu Priscila, passando junto com a filha.
Levou quase duas horas até que ela retornasse, sem a menina, Ítalo e os demais acercaram-se, ansiosos por notícias.
Por sorte, as queimaduras, embora de segundo grau, puderam ser tratadas no pronto-socorro, não havendo necessidade de enxertos nem cirurgia.
Felizmente, os primeiros socorros prestados por Roberta impediram as bolhas de estourar, mantendo a pele intacta.
- Como ela está? - o marido foi o primeiro a indagar.
- Bem, na medida do possível.
Teve queimaduras de segundo grau que, graças aos primeiros socorros prestados pela sua mãe, não infeccionaram.
E ela também hidratou bastante as lesões, de forma que o médico acha que não vai precisar fazer raspagem para retirar a pele morta.
- Quando é que ela vai sair?
- Só amanhã, se tudo correr bem.
Ela levou uma pancada forte na cabeça e vai precisar ficar em observação.
Pode ter sofrido uma concussão.
Está um pouco confusa, com dor de cabeça e bastante sonolenta.
- Isso é grave?
- O médico acha que não, mas somente poderá fazer uma avaliação mais segura depois da ressonância magnética.
- Você vai dormir aqui com ela? - perguntou Ítalo.
- Vou, claro.
- Certo, meu bem.
Ela é menor, tem direito de ficar com a mãe.
Quer que eu traga alguma coisa de casa?
- Não precisa.
Vou dormir do jeito que estou.
E tenho uma necessaire na bolsa, onde carrego pequenos itens higiénicos de viagem.
- Gostaria de ficar também.
- Não pode.
Só permitem um acompanhante.
Mas você pode ficar até o fim do horário de visitas, que é às oito da noite.
- Então, ficarei.
Ela assentiu, fitando o rosto dele com imenso desgosto.
Não demorou muito e as lágrimas fizeram tremular seus lábios.
- Não chore, Priscila - Isabela confortou.
Ela vai ficar bem.
- Eu sei...
Mas dói tanto ver minha filhinha sofrendo daquele jeito!
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 27, 2017 10:54 am

- Vai passar.
- E ela falou uma coisa estranha.
- Que coisa?
- Ela disse que ouviu dona Roberta dizer:
“Vou pagar por esse pecado.
Deus vai me punir pelo que fiz”.
- E daí? - acrescentou Ítalo.
O que você acha que isso significa?
- Parece óbvio, não?
- Para mim, não.
- Pois para mim, está na cara que ela quis dizer que foi sua mãe quem provocou a explosão.
- O quê?! - indignou-se Ítalo, quase bufando de incredulidade.
Minha mãe? Que maluquice é essa, Priscila?
Está acusando minha mãe de tentar explodir a cozinha?
- Estou apenas repetindo o que Larissa falou.
- Engraçado.
Se entendi bem, o que Larissa falou foi algo do tipo: pagar pelos pecados e ser punida por Deus.
Não me lembro de você ter dito que ela tenha feito alguma referência à explosão.
- E por que outro motivo Deus iria punir sua mãe pelo que ela fez?
- Sei lá!
Ela pode ter feito tantas coisas...
E quem garante que foi isso mesmo que Larissa ouviu?
Ela sofreu uma concussão, está confusa.
- Pode ser, mas eu duvido.
Acho que sua mãe é bem capaz disso.
Não concorda comigo, Isabela?
Apanhada de surpresa, Isabela gaguejou, mas não respondeu.
Não queria se envolver naquela história.
Que achava possível, isso achava.
Tanto que cochichou ao ouvido de Wilson que ligasse para o filho e o mandasse para casa.
Roberta não era uma pessoa confiável.
- Ora, Priscila, francamente! - objectou Ítalo, irritado.
Isso é um absurdo!
Além de uma grande injustiça.
- É por isso que vamos conversar com a sua mãe primeiro.
Vou dar a ela a chance de se explicar.
Mas se ficar provado que foi ela mesma quem causou a explosão, não vai ter jeito.
Ela vai precisar ir embora de nossa casa.
- Você está louca, Priscila!
Só porque você e mamãe não se dão, não significa que ela faria mal a uma criança.
Mamãe foi enfermeira!
Você mesma reconheceu que os curativos que ela fez ajudaram a evitar infecção, raspagem e sei lá mais o quê.
- Eu só repeti o que os médicos disseram.
- Isso quer dizer que você acha possível que minha mãe quisesse queimar a Larissa?
De propósito?
- Sinceramente, não sei o que pensar.
Sua mãe já machucou Larissa uma vez.
- Foi diferente!
Você está usando os delírios de uma criança como pretexto para expulsar minha mãe.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 27, 2017 10:55 am

- Eu jamais faria isso!
A tensão que os cercava tornou-se quase intolerável.
No meio da discussão, Wilson aproveitou para sair e ligar para o filho.
- Procurem se acalmar - pediu Wilson, quando voltou para junto deles.
Essa discussão não vai levar a nada.
- Tem razão - concordou Ítalo, sem ocultar a mágoa.
- Vocês podem ir, se quiserem - disse Priscila aos amigos.
Já fizeram muito por nós.
Agora, não há muito o que fazer, a não ser aguardar.
- Tem certeza? — tornou Isabela, segurando as mãos dela.
Sabe que pode contar connosco, não sabe?
- Sei sim, mas não tem necessidade de vocês deixarem a pizzaria sozinha por mais tempo.
E tem o André também.
- Se é assim, nós vamos - concordou Wilson.
- Qualquer coisa que precisar, por favor, telefone, está bem? - Ela assentiu.
Promete?
- Prometo. E obrigada por tudo.
Como sempre, vocês foram fantásticos.
- E você, Ítalo? - perguntou Wilson.
Vai ou fica?
- Se você não se incomodar, Priscila, vou com eles - falou Ítalo, como se estivesse se desculpando por sentir tanta mágoa.
Quero ver como estão as coisas em casa.
- Não me incomodo - assegurou ela.
Pode ir. Larissa e eu ficaremos bem.
- Ligue, se precisar de alguma coisa.
- Pode deixar.
Ítalo era, todo ele, um único bloco de angústia.
Beijou-a na boca, sem frieza, porém, com um pesar tão intenso, que ela sentiu como se tocasse os lábios de um homem agonizante.
- Eu te amo - sussurrou ela.
Ele não respondeu.
Balançou a cabeça em sinal de concordância, sem encontrar palavras capazes de revelar seus sentimentos.
Fez uma carícia no rosto dela antes de partir, sem se voltar.
Ítalo entrou em casa a passos arrastados, temendo o que iria encontrar.
A sala escura o envolveu em uma atmosfera sufocante de tragédia.
O cheiro de feijão queimado espalhara-se pela casa toda, sobrepondo-se ao odor suave do limpa piso de lavanda com que Priscila costumava esfregar o chão.
De forma mecânica, estendeu a mão para o interruptor e acendeu a luz.
Quase imediatamente após o clique, uma suavidade amarela inundou o ambiente, tornando visível a poltrona diante da porta, onde Roberta jazia, a cabeça tombada para o lado, adormecida.
Ele levou um susto.
A princípio, pensou que ela estivesse morta, mas o movimento regular de subida e descida do peito indicava que não.
Parou próximo a ela, analisando-lhe o rosto.
A mãe possuía feições duras, que o tempo cuidara de enrijecer ainda mais.
As rugas ao redor da boca pareciam sempre em movimento, acostumadas à reclamação.
Os olhos, ainda que fechados, expressavam uma intolerância enraizada, que nem as pálpebras enrugadas conseguiam mascarar.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 27, 2017 10:55 am

E as mãos, crispadas sobre os braços da cadeira, deixavam antever os ossos porosos se projectando por debaixo da pele seca.
Vista daquele jeito, ela parecia a personificação do mal.
Talvez a impressão decorresse da experiência, dos anos vividos sob a opressão de regras austeras, intolerantes e pouco amorosas.
Ainda assim, havia algo nela que mexia com ele.
Ela era sua mãe.
Os cabelos brancos que se soltaram do coque desciam levemente sobre seu rosto, desenhando linhas cinzentas, quase imperceptíveis.
Sugeriam um ar de angelitude decrépita, a única coisa que se poderia tomar por imaculada em meio à decadência física de seu corpo, reflexo de um declínio moral ainda maior.
Roberta abriu os olhos lentamente.
A sombra dele precipitava--se sobre ela, tornando turva sua visão, embaciada pelas lágrimas acumuladas em sua vista imperfeita.
Com o susto, Roberta apertou o coração, já bastante acelerado pelos episódios das últimas horas.
— Sou eu, mãe - disse Ítalo, segurando a mão dela com carinho.
Não se assuste.
— Ítalo... - balbuciou, passando a língua nos lábios ressequidos, aos poucos ressurgindo do sono.
Como está a Larissa?
— Das queimaduras, bem, graças à senhora.
Mas teve que ficar em observação, por causa de uma possível concussão.
Ela apertou os olhos, como se pudesse impedi-los de expressar todo o medo e a dor que percorriam seu coração naquele momento.
- Concussão... - repetiu, já sabendo dessa possibilidade - É grave?
- Os médicos ainda não sabem.
Ele olhou ao redor e indagou:
- Cadê o André?
- Foi para casa.
- Porque não nos esperou chegar?
Ela deu de ombros.
Não queria contar que Wilson lhe dera essa ordem.
- Não consegui limpar a cozinha - desculpou-se, para mudar de assunto.
Estou me sentindo tão cansada!
- Não precisa se preocupar com isso.
Eu mesmo limparei tudo.
A senhora já fez demais.
- Não fiz nada que qualquer enfermeira formada não teria feito.
O resto agora é com Deus.
Ítalo não estava acostumado a ouvir a mãe falar em Deus.
Ela ia à missa de vez em quando, aos domingos, cumprindo um ritual mais social do que religioso.
- Mãe - chamou ele, com ternura, hesitando na escolha das palavras.
Preciso lhe perguntar uma coisa...
- Não precisa, não — cortou ela.
Já sei o que você vai perguntar.
Antes, deixe-me contar-lhe tudo o que aconteceu, da forma como aconteceu.
Depois, julgue-me como quiser.
Ele arregalou os olhos, temendo que ela confirmasse as suspeitas de Priscila.
Engolindo em seco, puxou uma cadeira e sentou-se defronte a ela, encarando-a com expectativa e medo.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 27, 2017 10:55 am

- Muito bem, mamãe.
Conte-me o que houve.
Ela contou.
Sem omitir nenhum detalhe, confessou seu crime.
De cabeça baixa, Ítalo ouvia sem se mexer, quase sem respirar, evitando olhar para ela.
- E foi isso que aconteceu - encerrou, satisfeita com sua coragem.
- Eu a defendi, mãe — Ítalo conseguiu sussurrar, após longos minutos de silenciosa decepção.
Quase briguei com Priscila porque ela a acusou.
Pensei que ela estivesse louca, que fosse só um pretexto.
Mas não. A senhora fez mesmo!
- Não foi por querer - defendeu-se ela.
Foi estupidez, burrice.
Não foi um crime. Foi um acidente.
Eu só queria estragar o feijão. Só isso...
A voz parecia um estorvo para a garganta.
Ítalo também emudeceu, temendo a dureza das próprias palavras.
- A senhora sabe o que Priscila vai fazer - afirmou ele depois, com raiva.
Sabe, não sabe?
- Sei.
- E que eu nada poderei fazer para evitar?
Ela assentiu, fracamente.
— Então me diga, mamãe.
O que a senhora pretende fazer?
- Nada.
- Nada - repetiu, frustrado.
- Nada - insistiu.
Simplesmente, vou embora.
- Simplesmente, vai embora — tornou, como se fosse o eco das palavras da mãe.
E quer que eu assista à sua partida em silêncio ou que eu brigue com Priscila e parta com a senhora?
- Nem uma coisa, nem outra.
Quero que você continue com a sua vida e seja feliz.
- Dá para me explicar como farei isso, sabendo que a senhora está largada por aí?
- Quem foi que disse que ficarei largada?
- E não vai ficar?
- Não.
- Para onde pretende ir, posso saber?
Ela deu de ombros e retrucou vagamente:
- Quando souber, mando avisá-lo.
- Mamãe! - exasperou-se.
Isso não é hora para brincadeiras!
- Não estou com cara de quem está brincando, estou?
Ele não respondeu, mantendo o ar enfezado.
- Estou tentando ser realista e objectiva.
Sua mulher vai me expulsar daqui, é lógico.
É o direito dela, não é?
Afinal, ela não vive dizendo que a casa é dela?
- Não é bem assim, mãe.
- É exactamente assim.
E se quer saber, sorte a dela.
Já imaginou se a casa fosse sua também?
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 27, 2017 10:55 am

Vocês iam acabar brigando.
Quem sabe, até, se separando?
- Não é isso que a senhora sempre quis?
- Quis. Não quero mais.
Falei sério quando disse que estou arrependida.
Arrependo-me de tudo, não apenas de ter acendido aquele maldito fogo novamente.
Arrependo-me, principalmente, de ter sido egoísta, mesquinha, maledicente.
Eu nunca devia ter me metido na vida de vocês.
- Priscila não vai acreditar.
- É claro que não.
Nem eu acreditaria, depois de tudo o que fiz.
E pensar que tentei envenenar seu casamento, acusando Priscila de um caso que nunca existiu.
- Ah! Agora a senhora reconhece que foi tudo fantasia da sua cabeça.
- Não foi fantasia. Foi intriga.
Dava para perceber que não havia nada entre os dois, mas eu queria que houvesse.
Queria que ela me desse um motivo, um motivo apenas, para que eu o convencesse de que estava certa e que ela não era mulher para você.
- Porquê, mamãe? Porque fez isso?
Priscila a recebeu de braços abertos.
Porque pôs tudo a perder?
- Ciúme, inveja, medo, ignorância, maldade. Pode escolher.
A escolha foi impossível.
Todos aqueles atributos mesquinhos, e muitos outros mais, se aplicavam a Roberta.
Ele deixou que ela fosse para o quarto.
Queria dizer alguma coisa, mas não havia mais nada a ser dito nem feito.
Só esperar.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 27, 2017 10:56 am

Capítulo 47
A cozinha parecia um campo de batalha.
A área próxima aos destroços do fogão encontrava-se toda chamuscada.
Feijão seco e queimado espalhava-se pelas paredes e pelo tecto, onde a tampa da panela se enfiara.
Azulejos, ferro e pedaços de alumínio misturavam-se ao caos.
Para completar, o cheiro de fumaça havia impregnado a atmosfera da casa inteira.
A visão da cena medonha quase desanimou Ítalo.
Precisava, porém, limpar tudo antes que Priscila voltasse, ou o ódio cresceria ainda mais em seu coração.
Nem bem começou a retirar o entulho e Isabela e André surgiram na porta de trás.
Vieram para ajudar.
Ele aceitou a ajuda com olhos agradecidos.
Enquanto ensacava os destroços, ela e André esfregavam, limpavam, arrumavam do jeito que era possível.
Quando terminaram, a impressão que dava era de que a cozinha passava por uma reforma.
- Não ficou cem por cento, mas foi o que deu para fazer — observou Isabela.
- Ficou óptimo.
Nem sei como lhes agradecer.
- Não precisa.
Fizemos por amizade a vocês.
Não é, André?
O menino assentiu, olhando ao redor, satisfeito com sua participação no trabalho.
- Larissa vem hoje? - indagou o menino.
- Bem, sim.
Irei buscá-la daqui a pouco.
- Wilson vai com você ao hospital? — perguntou Isabela.
- Não quero pedir isso a ele.
Vocês já fizeram demais.
- Deixe de bobagens, Ítalo.
Wilson é seu amigo.
Vai ficar chateado se souber que você não quis lhe pedir ajuda.
Quer saber? Eu mesma vou ligar para ele.
Na mesma hora, Wilson se prontificou a levar Ítalo ao hospital.
Assim que a alta foi dada, os dois partiram para lá.
Isabela deixou a pizzaria aos cuidados do empregado e voltou para arrumar o quarto de Larissa.
Ela precisava de um ambiente saudável, limpo e fresco, livre da poeira e dos germes.
Sempre com André, varreu, tirou pó, trocou lençóis, ajeitou os travesseiros.
Em poucos instantes, o quarto estava feito novo.
De Roberta, nem sinal.
Priscila nunca havia admirado tanto o marido quanto naquele momento.
Ele, que sempre defendera a mãe, não hesitou em assumir que estava errado e contou o que ela lhe havia dito na noite anterior.
Falou tudo com objectividade, sem rodeios, sem justificativas forçadas.
Foi difícil, doloroso, quase impossível.
Uma atitude nobre, honesta, que resultou na prova irrefutável da dignidade dele.
- Coitada, mamãe - apiedou-se Larissa.
Deve ter sido horrível para ela.
- Horrível foi para você, que sofreu as queimaduras e teve que ser internada.
- Mas eu tenho vocês.
E ela, o que é que tem?
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 27, 2017 10:56 am

Nada. Isso é que é horrível.
- Pode até ser.
Mas não é motivo para ela fazer o que fez — rebateu Priscila, um pouco indignada.
Ela cometeu um erro gravíssimo.
Um crime que quase acabou em morte.
- Que exagero, mãe!
Foi um acidente.
- Isso quem disse foi ela.
Nós não sabemos.
- Eu sei.
- Sabe como? Me diz.
- Ela cuidou de mim, não cuidou?
Se fosse de propósito, teria me deixado lá para morrer.
- Era o mínimo que ela podia fazer, Larissa.
Afinal, ela é enfermeira ou não é?
- Ela contou que foi o Bruce que ajudou?
- O Bruce? - estranhou Priscila, buscando a resposta em Ítalo, que se virou para trás.
- Ela não me falou nada sobre Bruce - informou Ítalo.
- Ah, não?
E como é que vocês acham que ela, aleijada daquele jeito, ia conseguir fazer tudo sozinha?
- E eu é que sei? - retrucou Priscila.
Ela deu o jeito dela.
- O jeito dela foi o Bruce.
Ela ficou sem a bengala.
Quem a levou para ela foi o Bruce.
- E daí? Digamos que tenha sido.
Isso não muda nada.
- Muda muita coisa.
Só eu sei o esforço que foi para ela me carregar.
- Como é que você sabe?
Não estava dormindo?
- O tempo todo, não.
Acordei várias vezes com ela falando com o Bruce.
Vi quando ele carregou a bengala na boca e entregou para ela.
Quis até elogiar o Bruce, mas não deu.
Estava doendo demais.
Uma troca de olhares significativa percorreu os quatro cantos do carro.
Depois da revelação de Ítalo, a conversa praticamente se limitou a Priscila e Larissa.
Wilson foi o único que não disse nada.
Deixou-os em casa e seguiu directamente para a pizzaria.
Ítalo entrou carregando a criança, tomando cuidado para não tocar suas feridas.
A cabeça ostentava um galo imenso, mas nada de concussão.
Priscila entrou em seguida, resguardada no silêncio, procurando assimilar as palavras de Ítalo e de Larissa.
- Cadê a Nina? — foi a primeira coisa que ela perguntou.
- Está lá em casa - informou André, enquanto Ítalo a acomodava na cama.
- Foi você que cuidou dela?
- Eu e o Bruce.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Nov 27, 2017 10:56 am

- Você pode buscá-la para mim?
Estou morrendo de saudades dela.
- Ela também está com saudades.
Ficou numa tristeza só.
- Você precisa descansar, meu bem - alertou a mãe.
Daqui a pouco, o André traz a gatinha.
- Pode dormir, Larissa - tranquilizou ele.
Se você estiver dormindo quando eu voltar, coloco a Nina juntinho de você.
- Está bem. Estou mesmo me sentindo cansada.
- Então descanse - arrematou Priscila, acariciando seus cabelos.
Enquanto isso, vou preparar algo gostoso para você comer.
Ela bocejou e fechou os olhos, entregando-se ao sono.
Priscila a beijou suavemente, pondo todo mundo para fora com um gesto educado.
- Mamãe? — chamou Larissa, quando apenas a mãe restava dentro do quarto.
- O que foi, querida?
- Vai perdoar a dona Roberta?
- Não sei. Ainda não pensei nisso.
Esperou para ver se ela diria mais alguma coisa.
Como não dissesse nada, concluiu que ela havia adormecido.
Nem bem alcançou o limiar da porta, Larissa chamou novamente:
- Mamãe?
- Sim, Larissa?
O que foi desta vez?
- Você já ouviu falar em compaixão?
A pergunta foi tão inesperada, que Priscila sentiu o choque da surpresa cair sobre seus lábios.
Ela abriu a boca num assombro mudo, perguntando-se de onde a filha havia tirado aquela ideia.
Era uma insinuação de indulgência que a fez sentir raiva, medo, remorso, tristeza, horror, repulsa, pena, tudo ao mesmo tempo.
Sob o impacto do inesperado, chegou bem perto da cama.
Larissa dormia serenamente.
Nem parecia que fora ela quem havia falado aquilo.
Priscila ficou paralisada, esperando que ela dissesse algo surpreendente outra vez.
Ela nada disse.
Dormia a sono solto.
Priscila demorou para se convencer de que a menina não tornaria a despertar para lhe fazer outra pergunta estapafúrdia.
Quando ela saiu, Moisés saiu de seu esconderijo.
Sabia que não podia ser visto, contudo, lhe agradava fingir que se escondia.
Fazia parecer que ele se esquivava para agir em segredo, como um espião a serviço do bem.
- Estou ficando bom nisso - disse, para ninguém.
Em seguida, beijou a menina e saiu em busca de sua árvore preferida, a fim de saciar-se com a sua energia.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

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