O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 28, 2017 9:50 am

Capítulo 48
André entrou no quarto de Larissa na ponta dos pés.
Não queria correr o risco de despertá-la.
A mãe permitira a visita, desde que ela não estivesse dormindo.
Bem devagarinho, acercou-se da cama, analisando seu rosto em busca de um sinal de que estivesse acordada.
De olhos bem fechados, ela parecia dormir.
Ele ia dar meia-volta, contudo, quedou-se admirado, preso no magnetismo que se desprendia do rosto dela.
- O que está fazendo parado aí? — indagou ela, em tom de troça, sem abrir os olhos.
- Que susto, Larissa! — protestou ele, meio sobressaltado.
Pensei que você estivesse dormindo.
- Tenho o sono leve.
- Ou sabe fingir muito bem.
Foi assim que escutou a conversa de dona Roberta com o Bruce?
- Foi assim mesmo - confirmou ela, recostando-se na cama.
- Está se sentindo melhor? - perguntou, fitando-a com imensa ternura.
- Estou...
Mas espere aí um instante! - zangou-se, subitamente.
Cadê a Nina? Ontem, você não prometeu que ia trazê-la para mim?
- Eu trouxe.
Mas sua mãe não permitiu que ela ficasse junto de você.
Pode infeccionar as queimaduras.
- E onde ela está agora?
- Deve estar andando por aí.
Quer que vá procurá-la?
- Quero.
- Certo. Volto já.
Tão logo ele saiu, Priscila assomou na porta.
- Tem visita para você, Larissa - informou.
- Quem é?
- O Rodrigo.
Ele pode entrar?
- Claro!
Bruce passou na frente, como se quisesse anunciar a chegada do menino.
Latiu e parou ao lado da porta, sem se aproximar da cama.
Rodrigo entrou sorridente, mais corado, confiante.
Um garoto bonito, com o aspecto saudável que toda criança da sua idade deveria ter.
- Oi, Larissa - cumprimentou ele, meio acanhado.
- Oi, Rodrigo. Tudo bem?
- Tudo. E você?
- Melhorando.
- Que susto, hein?
- Você nem imagina...
Minha primeira aventura perigosa, que vou guardar para contar aos meus netos.
- Primeira?
Pretende ter outras?
- Algumas.
A vida precisa ser interessante, você não acha?
- Acho. Mas assim?
Ela riu gostosamente.
Ainda ria quando André entrou, trazendo Nina no colo.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 28, 2017 9:50 am

- Surpresa! — exclamou ele, mostrando a gata.
- Nina! Que saudades!
Põe ela aqui comigo.
- Nada disso. Sua mãe proibiu.
Você só pode olhar de longe.
No máximo, um carinho na cabecinha.
Ele aproximou a gata da mão estendida de Larissa.
Quando sentiu o afago da dona, Nina se agitou toda, mordiscando, de leve, os dedos de André, para que ele a soltasse.
- Nina! - ralhou Larissa, mas em tom tão meigo, que ela parou de morder e lambeu a mão do menino.
- Não pode, Nina - falou ele.
Se não se comportar, vou ter que levar você embora.
- Já viu quem está aqui? - tornou ela, apontando para Rodrigo.
- Vi, claro.
Mas quase não o reconheci.
Você está diferente.
- Estive doente - contou ele, meio sem jeito.
- Seus pais contaram - informou André.
Mas agora já está bem?
- Estou me tratando com homeopatia - esclareceu.
Melhorei bastante, desde que comecei.
- Meu pai também tratou o Bruce com homeopatia - informou André.
Ele ficou bom rapidinho.
— O que você teve? — Larissa quis saber.
Apesar das orientações de Lizandra, para que ele não revelasse a natureza de sua enfermidade a qualquer um, Rodrigo sentiu que podia confiar nos dois.
Sabia que eles não o evitariam nem sairiam correndo, como se ele fosse portador de alguma doença contagiosa.
A mãe queria protegê-lo, mas não precisava se preocupar.
Estava entre amigos.
— Tenho epilepsia — confessou, no tom mais informal que conseguiu sustentar.
- Puxa, Rodrigo, isso é grave! - constatou André, impressionado.
Você não vai ter nenhuma convulsão agora, vai?
- André! — censurou Larissa.
Isso lá é coisa que se diga?
Não vê que está deixando Rodrigo sem graça?
— Tudo bem, Larissa.
Mas não, André, não é assim que acontece.
E, como disse, estou me tratando.
— Me desculpe, cara - falou André, arrependido.
Não quis ofender nem nada.
Foi só curiosidade mesmo.
E também, para a gente ficar preparado.
Vai que você tem um ataque, e a gente não sabe o que fazer?
Temos que saber como ajudar, não é?
- Obrigado pela preocupação - tornou ele, emocionado.
Lia sinceridade nos olhos dele.
Mas faz tempo que não tenho nenhuma convulsão.
Desde que comecei com a homeopatia.
— Que bom, Rodrigo — acrescentou Larissa.
E que bom que você veio me visitar.
O Bruce também deve ter gostado.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 28, 2017 9:50 am

— Ele já me fez um monte de carinhos.
— Por que está parado na porta? — estranhou Larissa, vendo que o cão não se aproximava.
- Ele é um menino muito esperto - informou André.
Sabe que não pode chegar mais perto.
- É mesmo — confirmou Rodrigo.
Desde pequenininho.
Daquele jeito peculiar que só as crianças sabem ter, Larissa apressou-se em contar a Rodrigo a respeito do heroísmo de Bruce.
Não queria dar-lhe tempo de se sentir triste outra vez.
Rodrigo escutou atentamente, olhando para André de vez em quando, como se buscasse confirmação.
André confirmava com a cabeça, fazendo aumentar, ainda mais, a admiração do amigo.
- Não é à toa que ele é o cão mais inteligente do mundo - observou Rodrigo, entre maravilhado e orgulhoso.
- Verdade - concordou André, dando um puxão em Nina que, aproveitando-se da distracção das crianças, tentava subir na cama.
Você não pode, Nina.
- Sua gatinha é muito linda — comentou Rodrigo.
- Obrigada.
Você gosta de gatos?
Ele assentiu:
- Tive um, uma vez.
Mas não deu certo.
A intuição das crianças, livre das censuras e questionamentos impostos pelo racionalismo adulto, tende a decifrar correctamente as situações.
Por mais faladeiras que sejam, sabem o momento exacto de silenciar ou a coisa certa a dizer.
São espontâneas, sim, porém, sensíveis, dotadas de altas doses de empatia.
E nem precisam pensar muito para agir.
Agem da maneira correta porque conseguem captar as emoções.
Não sabem defini-las nem organizá-las, mas decifram a mensagem oculta nas entrelinhas etéreas da escrita astral e a traduzem da forma menos complexa e mais optimista que podem.
É por isso que se costuma dizer que as crianças se entendem.
Muitos adultos que assim falam não imaginam o quanto isso é real.
As crianças não apenas se entendem, como se comunicam, se estimulam e se ajudam instintivamente, apenas com o jeito de olhar, de falar ou se tocar.
Mesmo desconhecendo a natureza sincera e pura que lhes é própria, André, como toda criança, não teve nenhuma dificuldade de perceber que o gatinho a que se referia o amigo fazia parte de uma história que não tivera um final feliz, e que o melhor seria não provocar lembranças amargas.
Ele levantou a gata na altura dos olhos de Rodrigo, de um jeito engraçado, que o fez rir.
Nina esperneou, em sinal de protesto, mas não foi capaz de fugir.
- Você viu como a Nina é vesguinha? - perguntou ele, tentando conter o animal e evitar suas unhadas.
- É mesmo! - admirou-se.
Eu nem tinha reparado.
- É o charme dela — afirmou Larissa, toda prosa.
Até o Bruce se apaixonou.
Parada atrás da porta, Priscila ouvia a conversa das crianças.
Sua intenção não era bisbilhotar.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 28, 2017 9:51 am

Mas foi dominada pela emoção ao escutar tantas palavras de carinho e amizade em três seres tão pequenos, tão inexperientes e, ao mesmo tempo, tão sinceros e naturais.
- Trouxe refresco de acerola — anunciou, finalmente entrando no quarto.
Quem quer?
- Eu! - gritaram Larissa e André, ao mesmo tempo.
- E você, Rodrigo? — Priscila dirigiu-se a ele.
Não quer?
- Quero sim, senhora. Obrigado.
- Que menino educado! - elogiou.
Mas nada de senhora, ok?
Faz com que eu me sinta uma velha.
Pode me chamar de tia Priscila, se quiser.
É como André me chama.
Ele riu, sentindo-se à vontade na presença dela.
Apanhou o copo e experimentou de leve.
- Está uma delícia! — exclamou, dando um grande gole.
Acho que nunca provei um suco tão gostoso.
- É do nosso quintal - esclareceu Larissa.
Temos também laranja, limão, abacate, goiaba e manga.
- Tudo isso? — espantou-se.
Como pode?
- É um quintal grande - arrematou Priscila, que terminou de servir o suco e deixou a bandeja sobre a cómoda.
Daqui a pouco, vou trazer cachorro-quente.
Já está quase pronto.
- Obrigado, tia Priscila - recusou Rodrigo educadamente, não encontrando qualquer dificuldade em chamá-la de tia.
Eu não como carne.
- Não come carne? - surpreendeu-se Priscila.
Porquê?
- Não acho certo matar os animais.
Estabeleceu-se um certo constrangimento, que Priscila tentou contornar, sugerindo sanduíche de queijo para todos.
Dali em diante, a conversa centrou-se na questão de se seria certo ou errado matar os animais para comer.
- Lá em casa, todo mundo come — falou Rodrigo.
Eu parei porque quis. Tenho pena.
- Também tenho — concordou Larissa, seguida pelo assentimento de André.
Mas nunca havia passado pela minha cabeça que eu poderia, simplesmente, não comer mais carne.
- Não sei se sua mãe ficaria contente com isso - observou Rodrigo.
No começo, a minha quase me matou.
- Minha mãe respeita minhas escolhas.
E a do André também, não é, André?
- É.
- Sorte a de vocês.
Minha mãe fez um escândalo.
Só depois que fiquei doente é que ela passou a aceitar.
- Pelo menos, ela mudou.
Minha mãe diz que a gente nunca deve ter medo de mudar.
- Tem razão.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 28, 2017 9:51 am

- Querem saber de uma coisa? — tornou André, pensativo.
Também vou parar de comer carne.
E você, Larissa?
- Acho uma boa ideia.
Pelo menos, vou tentar.
- Meu pai diz que a gente não deve julgar ninguém e que não existe nem certo, nem errado - declarou Rodrigo, reflexivo.
Essa deve ser uma escolha de cada um, porque o que pode ser certo para uns pode não ser para outros, e vice-versa.
Importante é a gente fazer aquilo em que acredita e não tentar impor a nossa verdade.
- Seu pai tem razão — concordou Larissa.
Mas vou parar de comer, mesmo assim.
- Sai daí, Nina!
O grito súbito e zangado de André desfez a seriedade da conversa.
Novamente se aproveitando da distracção das crianças, Nina subiu na cama e se enroscou no meio das pernas de Larissa, como era seu costume.
O grito inesperado a assustou, e ela disparou porta afora, seguida por Bruce, para quem tudo era motivo de brincadeira.
- Seus pais também vieram, Rodrigo? - indagou Larissa.
— Não. O pai de André disse que eu podia passar o dia aqui, e ele só vem me buscar mais tarde.
Só não posso esquecer de tomar os meus remédios.
- A gente lembra você - afirmou André.
— Se você não vai embora agora, a gente podia jogar um jogo — propôs Larissa.
- Boa ideia - concordou André, entusiasmado.
- Pode ser Banco Imobiliário?
Posso ficar com a maquininha do cartão?
— Jogo de tabuleiro vai ser complicado para você jogar deitada.
Melhor Contra o Tempo.
O que você acha, Rodrigo?
Rodrigo os encarava com ar de surpresa.
Não conhecia jogos que não fossem de computador ou videogames.
— Não sei... — balbuciou ele, hesitante.
Nunca joguei nenhum dos dois.
- Então, vai ser Contra o Tempo.
É melhor para a Larissa jogar deitada.
- Para mim, tanto faz.
Só que vocês vão ter que me ensinar a jogar.
— Tudo bem — concordou André, entornando o conteúdo da caixa em cima da cama.
É muito fácil.
— Você só tem que tirar uma carta e fazer o que ela manda no tempo da ampulheta.
Ensinadas as regras, as crianças esqueceram-se da vida, jogando e se divertindo com as tarefas pedidas pelas cartas.
Riam, gargalhavam, entrosavam-se cada vez mais.
Rodrigo estava adorando aquela vida que não conhecia, menos tecnológica e isolada, mais natural, partilhada com amigos.
Priscila chegou com sanduíches de queijo e mais suco, além de uma deliciosa ambrosia, que Rodrigo nunca havia experimentado.
Tudo era novo para ele, principalmente a experiência de brincar com outras crianças.
Não que Rodrigo fosse um menino arredio ou anti-social.
Era até comunicativo e simpático.
Tinha amizades na escola, mas era só.
O prédio em que vivia era pequeno, sem crianças da sua idade.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 28, 2017 9:51 am

E não era costume brincar com os amigos do colégio fora do ambiente escolar, já que todos possuíam actividades extra-curriculares e nem sempre os pais tinham disponibilidade para levar os filhos, uns à casa dos outros.
O dia passou tão rápido que as crianças mal notaram.
O crepúsculo começava a assumir seu domínio sobre o quintal, esmaecendo o verde das árvores, ao mesmo tempo que espargia no céu matizes dourados e nuvens grises.
Rodrigo estava maravilhado.
O pôr do sol era uma das coisas que mais o encantava.
Sempre que podia, seguia o movimento do astro, que descia sobre as montanhas no lado oeste de sua cobertura.
Ou então, caminhava com os pais pela areia da praia, pisando sobre os grãos miudinhos e frescos, brilhantes feito pó de ouro, na direcção em que o Sol se recolhia, longe, no horizonte.
Ao primeiro sinal da noite, a campainha da frente soou, tornando audíveis as vozes de Wilson e Vítor.
- Acho que seu pai veio buscar você — constatou Larissa, perdendo um pouco o ânimo.
Promete que vai voltar?
Ele acenou com a cabeça e confessou num murmúrio emocionado:
- Vocês são meus melhores amigos.
Adorei passar a tarde com vocês.
- Quando a Larissa melhorar, a gente vai brincar na casa da árvore.
Você gostou de lá?
- Se gostei? Eu adorei!
Batidas na porta eram indício de que Vítor esperava por Rodrigo.
Após uma breve, porém, efusiva despedida, o menino partiu com o pai.
Como se isso fosse possível, achou Rodrigo diferente daquele que havia deixado ali, poucas horas atrás.
Mais alegre, vivaz, extrovertido, tagarelando sem parar.
Não era apenas a medicação que o tornava diferente.
Havia algo mais.
Uma alegria nova, contagiante.
Vítor compreendeu.
Eram as pessoas, os amigos.
O filho havia encontrado algo que nunca antes possuiu: amizade.
Agora, sim, Vítor pensou, ele saberia o que era, realmente, viver.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 28, 2017 9:51 am

Capítulo 49
Há muito Danilo não sabia o que era ter um dia tranquilo no consultório.
Com a crise económica e política que o país atravessava, o número de pessoas com problemas neurológicos havia aumentado sensivelmente.
Muito stress, depressão e crises de nervos.
Na maioria das vezes, no entanto, o que ele observava era uma crescente desesperança, consumindo o ânimo de pessoas até então, aparentemente, equilibradas e optimistas.
Mesmo assim, podia se considerar um profissional bem-sucedido.
Ao assumir o tratamento de Rodrigo, assumiu também sua paixão pela homeopatia.
Substituindo, cada vez mais, os remédios alopáticos pelos homeopáticos, embora sem abrir mão dos primeiros, ganhou status de neurologista conceituado e respeitável no meio da homeopatia.
Paralelamente, imbuiu-se do espírito caridoso.
A medicina era sua paixão, e a razão de ela existir era para ajudar as pessoas.
Durante um dia inteiro na semana, abria o consultório para atender pessoas que não tinham condições de pagar.
Fez um trato com uma farmácia, que mantinha preços mais acessíveis para os pacientes enviados por ele.
E se, de todo, a pessoa não tivesse condições de pagar, o farmacêutico estava autorizado a fazer os remédios às expensas dele.
Tudo para que ninguém ficasse sem o devido atendimento.
Tamanha dedicação impressionou não apenas a mulher, como também o plano espiritual.
Um médico do mundo invisível, amigo seu de outras vidas, associou-se a ele para auxiliar no tratamento aos doentes, fazendo-o intuir medicamentos e conduzindo suas perguntas na direcção certa para a descoberta da origem dos desequilíbrios.
E havia ainda Marília.
A mulher e os filhos, a razão pela qual ele aceitara o chamado da vida para se tornar um homem melhor.
O coração jamais cerra suas portas nem se deixa vencer pela cegueira.
Há sempre um pontinho de luz que se recusa a esmaecer, porque essa luz é a verdade, e a verdade nunca morre.
Mais dia, menos dia, a luzinha ganha força e rompe as barreiras da fascinação, que prende o sentimento ao desejo.
Subitamente, dentro do peito, uma explosão acontece, liberando as fagulhas do discernimento e descerrando a cortina da sedução que conduz ao desvario.
Tudo então se torna claro, límpido, inevitável.
Diante da descoberta íntima e da revelação que a segue, o que resta é esperança.
Do outro lado, fica a semente do perdão.
Envolvido pela contemplação e análise de sua própria vida, Danilo não escutou o telefone interno, anunciando a chegada do próximo paciente.
Foi preciso que Sílvia entrasse para despertá-lo do quase transe a que o levara a reflexão.
- Dr. Danilo - ela chamou baixinho.
Desculpe. Liguei, bati, mas o senhor não atendeu.
Está tudo bem?
- Está, Sílvia, obrigado.
Eu só estava distraído, pensando na vida.
- O paciente das nove chegou.
- Mande-o entrar, por favor.
Conduzido pela mão de Lizandra, Rodrigo entrou no consultório.
Ele recebeu o menino com o carinho de sempre.
Apertou a mão de Lizandra e fez com que eles se sentassem.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 28, 2017 9:52 am

- Vítor não veio hoje? — indagou, estranhando a ausência do pai do garoto.
- Não. Vim sozinha com Rodrigo.
- Certo. E quais as novidades que você tem para me contar, Rodrigo?
Como passou o mês?
- Muito bem!
Sabe que fiz até novos amigos?
- É mesmo? E como foi isso?
Com a vivacidade que Danilo esperava, Rodrigo contou tudo o que lhe acontecera durante os últimos trinta dias.
Era outra criança.
Nem de longe parecia aquele garoto doente, triste, vitimado por convulsões incessantes.
- Ele está outro, Danilo, não está? - perguntou Lizandra, numa animação excessiva, que o assustou um pouco.
- Sim. A eficácia da homeopatia é incontestável.
- Sou forçada a concordar com você - admitiu Lizandra.
É uma pena que a maioria dos médicos não a aceite.
Muitos dizem que não adianta nada.
- É o desconhecimento.
Não são poucos os alopatas que afirmam que os remédios homeopáticos são apenas placebo, que curam pela indução psicológica.
Isso não é verdade, óbvio.
- Porque a homeopatia é assim tão boa? - Rodrigo perguntou, surpreendendo a mãe e o médico.
- Tudo é bom, Rodrigo - esclareceu Danilo.
Basta que se saiba o momento certo de usar.
- E quando é que se sabe o momento certo de usar? — tornou ele, dando vazão à sua curiosidade natural.
- Rodrigo, chega - pediu Lizandra.
Já está na hora de irmos.
Não queremos atrapalhar.
- Ele não atrapalha — objectou Danilo.
E eu adoro falar sobre homeopatia.
Muito bem, Rodrigo, preste atenção.
Tudo no universo é energia, logo, nosso corpo também é.
Todos nós possuímos o que se chama energia vital, responsável pela nossa vitalidade, nossa saúde física.
Até aí, tudo bem?
- Sim.
- Todo nosso organismo está cheio de energia vital.
E cada pedacinho do nosso corpo, cada órgão, sistema, cada célula, tudo tem ligação com o que se passa na nossa mente e na nossa emoção.
A energia vital se esgota naturalmente, com o passar dos anos, à medida que envelhecemos.
Mas ela também pode escapar de nosso corpo devido a uma desorganização do organismo causada por algum vício do comportamento.
Tem ideia de como isso acontece?
- Não.
- Imagine as ondas de rádio.
Elas se propagam em determinadas frequências, certo?
E o que permite a você sintonizar uma estação qualquer de rádio no carro da sua mãe.
- Certo.
- As frequências conduzem ondas específicas, e cada onda leva um tipo de informação.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 28, 2017 9:52 am

A onda de rádio leva a informação da música, por exemplo.
Da mesma forma, nossas células vibram numa frequência própria, conduzindo informações para todo o nosso organismo.
A qualidade das informações que recebemos depende do nosso estado emocional e do nosso estado mental.
Qualquer alteração nesses estados altera também a frequência emitida pelas nossas células e, consequentemente, as informações transportadas aos órgãos a eles relacionadas.
E então que a informação passa de vibração saudável a um desequilíbrio, que percorre nosso corpo, causando a doença.
Para que a cura seja efectiva, é preciso reequilibrar a frequência da informação, o que se alcança pela reorganização do caos provocado pelos estímulos que levaram ao comportamento vicioso. Entendeu?
- Não muito bem - retrucou Rodrigo, visivelmente confuso.
- É complicado mesmo.
Tem adultos que não compreendem.
- Essa coisa de princípio vital e energia não é aceita pela alopatia - observou Lizandra.
Vistas dessa forma, a alopatia e a homeopatia parecem contraditórias.
Como é possível o mesmo médico aplicar as duas?
- Não são contraditórias. São diferentes.
Por meio de métodos distintos, o que ambas querem é encontrar a cura das doenças.
A homeopatia é menos agressiva e mais eficiente, na medida em que cura a causa da enfermidade.
Mas a alopatia também tem suas vantagens, sendo muito eficaz, sobretudo, quando é preciso manter a vida.
O problema da alopatia é que fazer desaparecer o sintoma não garante a cura da doença, porque ela se instala na alma, embora seus sintomas se reflictam no corpo físico.
Se o enfermo elimina esses sintomas e, paralelamente, ganha consciência da necessidade de modificar a si mesmo por meio de novos pensamentos, sentimentos e acções, tem grande chance de alcançar a cura efectiva, desde que empreenda essa transformação.
Caso não consiga se modificar, a doença eliminada tende a reaparecer de forma parecida, sob outra roupagem.
- Porque a pessoa, na verdade, não se curou.
- Exactamente. Ela apenas camuflou a doença, embutindo os sintomas no corpo físico, sem alcançar o âmago, a essência, a causa primária de todas as coisas, que está localizada nos corpos subtis.
Mas o conflito ainda está lá, na alma, e os sintomas por ele provocados precisam encontrar um jeito de sair, de se mostrar.
O que fazer, se as saídas somáticas estão agora bloqueadas pelos remédios alopatas?
Simples. Os sintomas partem em busca de um novo canal de manifestação e, quando o encontram, é por ali que se revelam, ocasionando o aparecimento de doenças conexas à originária, com sintomas semelhantes aos iniciais.
- Que coisa! - exclamou Lizandra.
Estou impressionada.
- O corpo físico, a todo instante, envia ao cérebro mensagens que objectivam nos alertar da necessidade de resolver os problemas estabelecidos na alma.
Em resposta, o cérebro providencia a melhor forma de expressão do problema, fazendo pipocar, aqui e ali, os mais variados sintomas, na esperança de chamar a atenção da pessoa para a necessidade de modificação daquele aspecto de sua vida.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 28, 2017 9:52 am

Se ela consegue compreender isso, não precisa nem de remédio.
Cura-se sozinha.
Se não, a homeopatia a ajuda a ganhar consciência e operar a reforma interior.
- E a alopatia?
- A alopatia, simplesmente, elimina aqueles sinais, deixando ao indivíduo a escolha entre se modificar ou não.
Como a maioria das pessoas não associa à doença a necessidade de reforma interior, fica satisfeita quando se vê livre daquele mal.
Só que a doença não se satisfaz apenas em ir embora.
Não é isso que ela quer.
A doença não quer fazer maldade com ninguém, não quer prejudicar nem destruir.
Seu desejo é alertar para o comportamento inadequado.
Se a pessoa não se toca, ela volta para tentar uma nova abordagem.
Aí, então, ou aquela pessoa desperta e se modifica, se ainda houver tempo hábil, ou então desiste e morre.
Exactamente ao final das explicações, a campainha do telefone alertava Danilo da chegada do próximo paciente.
Era o momento de se despedir.
- Obrigada, doutor - disse Lizandra, apertando a mão dele.
- Não me agradeça.
Só fiz cumprir o meu dever.
E venha cá, Rodrigo. Cadê o meu abraço?
O menino obedeceu e o abraçou.
— Até o próximo mês.
Solto do abraço, Rodrigo beijou-o no rosto, para surpresa de Danilo e de Lizandra.
Se fosse possível, ela também o teria beijado.
Não para extravasar qualquer desejo oculto, mas para demonstrar a gratidão que sempre teria a ele.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 28, 2017 9:52 am

Capítulo 50
Lizandra não sossegava.
Olhava o relógio a cada segundo, caminhando de um lado a outro sem parar, indo e vindo da beirada do terraço para ver se o carro de Vítor entrava na garagem.
Porque eles demoravam tanto?
Era sábado, não devia ter muito trânsito.
Sentados no sofá, os espíritos de Moisés e Camélia acompanhavam, com tédio, o vaivém descontrolado da mulher.
Moisés fitava o chão, enquanto Camélia ajeitava a saia, ora descobrindo as coxas, ora puxando-a sobre os joelhos.
— Quer parar com isso? - pediu Moisés.
Está me deixando nervoso.
— E eu estou ficando cansada.
O que viemos fazer aqui?
Porque me trouxe de volta?
— Dá para você esperar um instante?
Quero ver uma coisa.
— Que coisa?
— Se você não sabe, não sou eu que vou dizer.
Não era você que dizia que sabia tudo?
Ela fez um muxoxo e voltou a alisar a saia.
— Isso foi antes — alertou.
Agora, perdi o interesse em Lizandra.
E Rodrigo está muito melhor sem mim.
— Verdade.
— Então, podemos ir embora?
Quero voltar para a árvore.
— Gostou de lá, não foi?
— Gostei. É calmo, sossegado.
Ninguém perturba.
Só a velha... de vez em quando.
Por isso é que quero voltar logo para lá!
— Será possível que você não pode esperar?
— Esperar o quê, meu Deus?
— Quero ver uma coisa, já disse.
É algo do meu interesse, não do seu.
— Se é assim, por que me pediu para vir junto?
— Porque gosto da sua companhia.
— Puxa-saco.
Quer saber? Vou embora.
— Dá um tempo, Camélia.
O que você tem para fazer?
Ela deu de ombros, sem responder.
Ou vai me dizer que está com fome, com sede ou com vontade de ir ao banheiro?
— Engraçadinho - rebateu ela, com desdém.
Nesse momento, ouviram um barulho na porta.
Alguém enfiava a chave pelo lado de fora da fechadura e agora girava a maçaneta.
Camélia revirou os olhos, aborrecida com o suspense, como se ela não soubesse quem havia chegado.
Moisés parecia não ter perdido o entusiasmo diante do óbvio.
Ela não entendia porque tanta celeuma por nada.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 28, 2017 9:53 am

— Chegaram! - exclamou Moisés, dando um pulo do sofá.
É agora.
Camélia seguiu a direcção do olhar dele, mas não viu nada.
Assim que a porta se abriu, Vítor entrou com Rodrigo.
Não havia nada de excepcional na entrada deles, a não ser o facto de que Lizandra se comportava como uma louca que acabara de descobrir que o mundo é redondo.
Assim que o filho pisou dentro de casa, Lizandra o envolveu num abraço caloroso, quase sufocante.
O menino deixou-se abraçar até o ponto em que começou a sentir dificuldade de respirar.
O mais gentilmente que pôde, afastou os braços da mãe.
— Você está me sufocando - reclamou ele, desenvencilhando-se de seu abraço, mas não de sua presença.
— Como foi o seu dia? - Lizandra quis saber.
— Muito bom. Larissa está quase boa.
Jogamos outro jogo legal.
— Você viu o Bruce?
Ele ergueu as sobrancelhas, estranhando o facto de ela chamar o cachorro por seu novo nome.
- Vi. Ele me deu várias lambidas.
- Ele é mesmo uma gracinha, não é?
- É... — respondeu ele, sem entender.
Sentado no sofá entre os espíritos, que haviam chegado para o lado a fim de dar-lhe espaço, Vítor olhava de um para outro sem dizer nada.
Sentindo-se incomodada com a intrusão do encarnado, Camélia se levantou e foi sentar-se, de pernas cruzadas, em cima da mesa.
- Espere um instante, sim, querido? — pediu Lizandra.
Mamãe vai um instantinho lá dentro e já volta.
- Não posso ir para o meu quarto? - estranhou ele.
- Só um instantinho - repetiu ela, súplice.
- O que foi que deu nela, pai? - indagou ele, dirigindo-se a Vítor.
- Você vai ver - foi a resposta lacónica.
Ao vê-la voltando pelo corredor, Moisés se levantou do sofá, aproximando-se de Camélia.
- Ê agora - anunciou com entusiasmo, apertando a mão da amiga.
- Eu, hein! - tornou ela, cheia daquela lenga-lenga.
Chegando bem pertinho de Rodrigo, Lizandra estendeu a ele uma caixa grande, revestida por um papel azul cintilante e encimada por um laço vermelho de cetim.
- O que é isso? — indagou ele, curioso, fazendo menção de agitar a caixa.
- Um presente. Não chacoalhe.
Ande logo, abra.
Vítor também se aproximou e pôs a mão no ombro do filho, para transmitir-lhe confiança.
Ao segurar a caixa, Rodrigo sentiu-a desequilibrar, como se seu conteúdo resvalasse de um lado para outro.
Uma desconfiança surgiu em seus olhos, mas não, não podia ser.
Estava enganado.
Devia abrir logo aquela caixa e se contentar com algum brinquedo caro, de última geração, que a mãe, provavelmente, descobrira na internet.
Rodrigo ia apoiar a caixa no chão quando ouviu uma espécie de ganido partindo de dentro dela.
O susto e a esperança fizeram com que ele pusesse de lado suas defesas e levantasse a tampa com avidez, revelando o mais profundo desejo que lhe consumia a alma.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 28, 2017 9:53 am

Ao olhar para dentro, o coração deu um pinote e pareceu se ausentar do peito, indo se esconder em algum lugar qualquer, além da realidade.
Ficou paralisado, indiferente ao suor gélido que brotava em sua testa, feito gotículas reluzentes de cristal.
Um misto de emoções se atropelou em seu coração que, subitamente, parecia haver encontrado o caminho de volta para o peito e agora oscilava como um pêndulo desgovernado, sem saber onde parar.
Rodrigo encarou os pais.
Queria falar, mas as palavras se desencontraram dos pensamentos.
De forma muito rápida, o mundo pareceu abandonar o eixo, girando freneticamente ao redor de um vazio aterrorizante que, aos poucos, se preenchia de medo.
Ele lançou ao pai um olhar de súplica e, à mãe, um outro, que parecia implorar compaixão.
De dentro da caixa ainda partia aquele ganido arrepiante e assustador, brincadeira macabra de algum diabinho sem amor.
Subitamente, a luz sumiu da vista de Rodrigo.
Encarando a escuridão, sentiu-se projectar da beira de um abismo aterrador, embora já conhecido.
Era como despencar no vácuo, atravessando dimensões estranhas, em que o sofrimento assomava como o único lugar onde seus sentimentos poderiam desaguar.
— Ele está tendo uma convulsão! — Lizandra gritou, tentando amparar o filho antes que ele caísse no chão.
O corpo dele tombou para o lado de Vítor, que o segurou a tempo de deitá-lo de lado no sofá, a cabeça apoiada no colo da mãe.
A caixa escapuliu de suas mãos, entornando sobre o tapete seu conteúdo mágico.
De dentro dela saiu, assustado e lentamente, um filhotinho de border collie idêntico ao Bruce.
Tinha a mesma pelagem, a sobrancelha marrom, os olhos de um castanho vívido e inteligente.
Enquanto o corpo do menino se contorcia, Lizandra derramava sobre ele lágrimas de desespero e incompreensão.
Pensara que ele ficaria feliz com o presente.
Nem de longe imaginara aquela reacção, um retrocesso no tratamento, o distanciamento da cura.
- Não fui eu! - Camélia foi logo se defendendo, dando um salto na direcção do menino.
Ao tentar se aproximar, foi impedida pelas mãos vigorosas de Moisés, que a puxou para trás e disse energicamente:
- Deixe-os! Não é problema seu.
Ele está tendo uma reacção puramente emocional, não uma crise epiléptica.
Vai passar logo.
- Desde quando você virou neurologista? - espantou-se ela.
— É só analisar os centros nervosos dele.
Ela o olhou com estranheza, como se estivesse diante de alguém que não conhecia.
Mas havia admiração em sua voz quando comentou baixinho:
— Você não pára de me surpreender.
Ainda mais estranheza ela sentiu ao perceber que ele havia saído de perto dela e se acercara do menino.
Moisés olhou para ela em dúvida, como se uma ideia fantástica remexesse todo o seu cérebro.
Parecia considerar alguma possibilidade ou estratégia, pela maneira como avaliava a situação.
Vítor já havia ligado para o médico e estendia o fone para Lizandra.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 28, 2017 9:53 am

No mesmo momento, mais por instinto do que por convicção, Moisés também estendeu as mãos, só que sobre o corpo convulsionado de Rodrigo.
Foi então que algo surpreendente aconteceu.
A ponta dos dedos dele começou a cintilar, ganhou cor e intensidade, passou de um verde bem clarinho a um tom esmeraldino vivo e, finalmente, se projectou sobre o menino.
Tudo em uma pequenina fracção de segundo.
Os raios deviam estar vivos, pois sabiam exactamente o que fazer.
Como tentáculos energéticos, foram se espraiando por cima do corpo de Rodrigo, até o envolverem por completo.
Então, precipitaram-se por seus poros, alcançando as partes internas de sua fisiologia.
Reparando melhor, percebia-se que eram raios finíssimos, centenas deles, entrelaçados numa trama que fazia lembrar neurónios energéticos cheios de vitalidade, que, aos poucos, iam substituindo as contrapartes astrais excitadas pelo excesso de actividade eléctrica no cérebro de Rodrigo.
Fascinada não apenas com o que via, mas com a nova habilidade de Moisés, Camélia observava a cena boquiaberta, esquecendo-se de que podia falar.
Em poucos minutos, todo o corpo de Rodrigo foi envolvido por aquela malha colorida e brilhante, que soltava faíscas translúcidas e reluzentes, como estrelas dos mais variados tons de verde salpicadas em um céu ainda mais verde.
Pouco a pouco, a convulsão foi cedendo, até que ele se aquietou.
De um lado, Camélia chorava baixinho, tomada pela emoção do que bem poderia ser chamado de milagre.
De outro, Lizandra também vertia suas lágrimas, de desespero a princípio, mas logo substituídas pelo pranto manso do alívio e da gratidão.
Parado em frente a ela, Vítor mantinha os olhos húmidos e a cabeça desanuviada, a fim de tomar as providências que se fizessem necessárias.
- Passou - constatou Lizandra, a voz suavizada pela inexplicável certeza.
Igualmente envolvido pela onda revigorante que varreu o ambiente, Vítor não foi capaz de responder.
Ainda segurava na mão o fone, que Lizandra não chegara a apanhar, atingida em cheio pelos fluidos transferidos por Moisés.
Uma calma surpreendente havia se espalhado por toda a sala.
Até o cãozinho sentira os efeitos da chuva verde e dormia tranquilamente aos pés da poltrona.
Com a cabeça deitada no colo da mãe, Rodrigo respirava serenamente.
Mantinha os olhos fechados, mas não dava sinais de sofrimento.
Parecia haver pegado no sono naquele momento, embalado pela aura suave do ambiente doméstico.
Com todo cuidado, Vítor apanhou-o no colo, para colocá-lo na cama.
Atrás deles, Lizandra seguia em silêncio, embora desse para perceber, na altura de seu cérebro, uma luminosidade branca que oscilava entre pétalas de rosas e margaridas.
Ela estava rezando.
Quando Moisés voltou para junto de Camélia, ela ainda retinha nos olhos as lágrimas que a emoção derramara.
- O que foi isso? — questionou ela, mesmo sabendo a resposta.
- Não sei explicar... — Moisés gaguejou.
Ao ver o desespero deles, senti uma vibração esquisita no peito, como se algo lá dentro estivesse lutando para sair.
Ao mesmo tempo, minha cabeça pareceu tomada por um torvelinho.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 28, 2017 9:53 am

Vi tudo rodar, tudo se embaralhar diante de meus olhos.
Eu só conseguia pensar em Rodrigo, só via o corpo do menino se agitando, e algo em meu coração também se agitou.
Uma certeza de que eu podia ajudar, de que eu saberia o que fazer.
Foi quando vi a mão de Vítor estendida e, mecanicamente, estendi também as minhas.
O resultado foi o que você viu.
- Você estava em transe?
- Não. Sabia, o tempo todo, o que estava fazendo, assim como sabia que não podia parar.
Estranho, não acha?
Nem eu sabia que tinha essa capacidade.
- Acho que todos nós a temos.
Basta purificarmos nossa aura, alimentá-la de sentimentos bons, acreditar que é possível fazer o bem e nos convencermos de que, no fundo, no fundo, somos todos servos a serviço da humanidade.
Não posso mentir, Moisés.
Fiquei impressionada.
Você foi fantástico.
- Obrigado.
- Você é uma alma nobre, Moisés.
Nem parece que foi aquela criatura nojenta.
- Graças a Deus!
- O que faremos agora?
Podemos ir?
- Acho que sim.
Foram-se.
E sabiam que não precisariam mais voltar.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 29, 2017 9:37 am

b]Capítulo 51[/b]
Absorto em seus pensamentos, Ítalo não viu a mãe parada na porta do quarto, apertando entre os dedos uma foto antiga.
Durante alguns minutos, ela permaneceu fitando o filho, permitindo que a mente se distanciasse com as lembranças.
Nos anos em que permanecera solteira, sujeita ao jugo do pai, encontrara alívio no exercício da enfermagem, sua verdadeira vocação.
Não era bonita.
Foi por isso que o pai permitiu que se formasse, com medo de que ela não encontrasse marido e tivesse que ser sustentada por ele pelo resto da vida.
Dedicada aos enfermos, fez de tudo um pouco.
Curou feridas, auxiliou em partos, cirurgias e amputações.
Amparou recém-nascidos com o mesmo carinho com que segurava na mão dos desenganados, para que a última lembrança que levassem da vida não fosse o vazio da solidão.
Mas enterrou sua melhor parte quando resolveu se casar.
Paulino dizia que a amava, e ela se deixou iludir pelas artimanhas de um aproveitador.
Sem parentes próximos, o que Paulino queria mesmo era uma mulher que cuidasse dele e de suas mazelas.
Ao pronunciar o sim que a uniu ao marido, deu também a ele o poder de encerrá-la numa prisão.
Passou o resto da mocidade numa gaiola, de onde presenciava, por entre barras douradas de uma alegria fingida, a correria dos anos em direcção à velhice, onde não luzia mais esperança alguma.
Dali, assistiu às transformações do mundo, sem delas poder participar.
Enfurnada nas ameaças do poder marital, tinha medo de reagir e ser agredida, de confrontá-lo e sucumbir, vítima da própria fraqueza.
A repressão esvaziou a alegria e encheu seu peito de amargura.
Tantos anos jogados fora!
Um tempo que se dissolveu na poeira do próprio tempo, uma vida perdida nas brumas do conformismo, na intimidação, no medo de que o marido cumprisse a promessa que havia feito de espancá-la.
Tentou o apoio dos pais.
Não conseguiu.
De jeito nenhum o pai permitiria que ela voltasse para casa.
Sem lar e sem dinheiro, a única saída era manter o silêncio e suportar as esquisitices do marido.
Com a chegada dos filhos, acabou transferindo para eles toda sua amargura, tornando-se a mãe fria e austera que sempre foi.
A amargura tornou-se rotina, que a idade só fez acentuar, conduzindo-a pelas sendas da rabugice, aguçando sua língua, desvirtuando seu olhar para o foco da malícia que se converte em maldade.
O peso das lembranças despencou sobre os olhos de Roberta, forçando as lágrimas a uma descida desenfreada pela pele macilenta de seu rosto.
O silêncio, sob o qual ela tentou ocultá-las, foi abalado pelo impacto dos soluços, que reverberaram pela quietude do quarto de Ítalo, levando-o a levantar a cabeça e encarar a mãe.
- A senhora está aí - afirmou ele, com voz triste.
Não a ouvi chegar.
- Não era para você ouvir - retrucou ela, hesitando em aproximar--se.
Queria apenas observá-lo.
- O que é isso que tem em mãos? - quis saber, notando o pedaço de papel que ela apertava.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 29, 2017 9:37 am

Não houve resposta.
Roberta enxugou os olhos, para desanuviá-los das lágrimas, e fitou a fotografia amarelecida.
Sentiu o filho aproximar-se, mas permaneceu onde estava, segurando a foto com as duas mãos.
- O que é isso? - insistiu Ítalo.
Deixe-me ver.
A foto mostrava Roberta ainda jovem, vestida de noiva, ao lado de um homem sisudo, em meio a arranjos de flores cuidadosamente dispostos diante de um altar.
- Eu devia ter adivinhado na época — divagou ela, acompanhando o olhar do filho em direcção à fotografia.
- Adivinhado o quê?
- Que seu pai e eu nos casamos por motivos diversos.
Ele a encarou espantado, como se estivesse diante de uma louca.
- Vê como nossas feições são diferentes?
Eu sou toda sorrisos.
Seu pai, um autómato cumprindo o protocolo.
Mas isso não importa agora. É passado.
- O que está tentando me dizer, mãe?
- Não sou uma pessoa ruim, Ítalo...
- Ninguém está dizendo que é.
- Não, ninguém.
Sou eu que fico repetindo isso para mim mesma.
Quero me convencer de que é verdade.
- Mãe...
- Estou de partida, Ítalo.
Vim aqui me despedir.
- Para onde é que a senhora vai? - espantou-se.
- Tem uma pensão barata não muito longe daqui.
Não é de luxo, mas é um lugar direito.
- Foi Priscila quem a mandou embora?
- Priscila nem fala comigo.
Fui eu que decidi partir.
- Ah, mãe!
Eu lamento tanto!
- Não se lamente.
Eu vou ficar bem.
Está aqui o endereço.
Depois de um beijo prolongado no rosto dele, Roberta foi embora, deixando presa em suas mãos a fotografia de seu casamento, com o endereço da pensão escrito no verso.
Ítalo virou e revirou a foto entre os dedos, até que parou para estudá-la melhor.
Roberta exibia seu sorriso mais encantador, onde transpareciam sonhos, esperança e felicidade.
O pai, ao contrário, permanecia sério, olhando para a câmara como se ela fosse sua inimiga.
Analisando a figura paterna, Ítalo descobriu coisas para as quais nunca havia atentado antes.
Não era apenas o rosto sisudo, nem os dentes trincados como se remoessem a raiva, muito menos os punhos cerrados, parcialmente escondidos por detrás do vestido de noiva da mulher.
Mais do que tudo isso, incomodou-o a indisfarçável expressão de desprezo, que somente olhos muito apaixonados e iludidos não foram capazes de enxergar.
Ainda de posse da foto, Ítalo avaliou os próprios sentimentos.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 29, 2017 9:38 am

O pai nunca fora uma figura presente.
Pagava as contas, mandava e desmandava, exigia, punia.
A mãe incorporava o papel da mulher submissa, porém, feliz dentro da sua ignorância.
Fazia tudo o que o marido pedia.
Ou melhor, ordenava.
Não questionava, não discutia.
Simplesmente, obedecia.
No meio de ambos, os filhos absorviam um pouco de tudo isso.
Temiam o pai e respeitavam a mãe.
A educação dos quatro foi o reflexo da intransigência e da austeridade de Paulino.
Se ele dizia para Roberta brigar, ela brigava.
Batia, se ele falasse que era para bater.
Colocava de castigo, se assim lhe fosse ordenado.
Tudo sem questionar nem opor resistência.
Roberta agia com os filhos da forma como o marido mandava.
Ítalo tornou a olhar para a foto, procurando comparar aqueles rostos às feições dos dois na velhice.
Ao morrer, o pai ainda mantinha o mesmo olhar de desprezo, duro, frio e insensível.
A mudança nele operada ficou por conta das rugas.
Roberta, que na foto sorria com jovialidade e alegria, chegava ao fim da vida desfigurada por uma carranca de mau humor e rabugice.
O pai continuou o mesmo.
A mãe sofrera uma mudança radical. Porquê?
Ele agora entendia.
Olhou o retrato ainda mais uma vez e lamentou, intimamente, o tempo perdido não apenas por Roberta, mas também por ele e pelos irmãos, que não foram capazes de compreendê-la.
Roberta não era nada daquilo que demonstrava ao mundo.
Era uma pessoa bipartida, artificial, camuflada.
Era alguém que não era, uma mulher travestida de outra, uma alma mascarada tentando fundir no rosto uma imagem que não lhe pertencia, mas da qual necessitava, desesperadamente, para sobreviver.
A mãe não era cruel, nem severa, nem rabugenta, nem autoritária.
A vida toda, simplesmente, não passara de uma mulher demasiadamente infeliz.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 29, 2017 9:38 am

Capítulo 52
O táxi deixou Roberta na porta da pensão pouco tempo depois que ela saiu da casa de Priscila.
Um rapazinho magrelo abriu a porta e apanhou sua pouca bagagem.
Já a estavam esperando.
Após um breve registro na recepção, ela subiu para o quarto que escolhera quando estivera ali da primeira vez.
Não era grande, mas limpo, claro, fresco, com uma vista livre da rua.
Enquanto arrumava suas coisas no armário, lembrava-se do que havia acontecido antes de sua partida.
Foram dias de pura tensão, de uma guerra silenciosa de nervos travada entre ela e a nora.
No final, Priscila vencera.
Afinal, era com ela que estava a razão.
No dia do acidente, quase não haviam se falado.
Depois, quando Larissa voltou para casa, Roberta esperou que Priscila a procurasse.
Estava pronta para receber as injúrias e agressões que sabia merecer.
Para espanto seu, Priscila não a procurou.
Da primeira vez que se cruzaram, Roberta ensaiou o início de uma conversa, mas a nora a ignorou.
Seguiu seu caminho como se ela, simplesmente, não estivesse ali.
Depois disso, sempre que podia, Priscila a evitava.
Comiam à mesma mesa, embora não se falassem.
Ítalo deu início à reconstrução da cozinha sem que ela lhe cobrasse ou exigisse nada.
Esperava, ao menos, que Priscila a fizesse pagar pela reforma, o que nunca aconteceu.
Roberta queria muito ver como Larissa ia passando, mas tinha medo de que Priscila a expulsasse.
Passava pela porta do quarto dela, acenava, sorria.
A menina acenava de volta, sorria em retribuição, jogava-lhe beijinhos estalados.
Um dia, animada pelo incentivo de André, tomou coragem e entrou.
Priscila viu e não disse nada.
Medicou a menina e voltou por onde veio.
Nem olhou para Roberta.
Ela não existia.
Se Priscila não se resolvia, ela daria o primeiro passo.
Cansada de tanta indiferença, Roberta achou que estava na hora de procurá-la.
O erro fora dela, então, caberia a ela tentar consertá-lo.
Da primeira vez, encontrou Priscila no quarto, guardando a roupa passada.
Munida de seu olhar mais sincero, Roberta parou na porta, à espera de que a outra a visse.
Quando a viu, Priscila colocou os lençóis dobrados em cima da cama e caminhou em sua direcção.
Certa de que, finalmente, a nora lhe dispensaria alguma atenção, Roberta sorriu.
Ia dar um passo à frente quando a porta quase bateu em seu rosto.
Chegou a sentir o vento no nariz.
Sem uma palavra, Priscila fechara a porta na cara dela.
Por pouco, Roberta não foi atingida.
Ficou desconcertada, sem saber se insistia ou se ia embora.
Ferida em seu orgulho, preferiu partir.
Alguns dias depois, tentou novamente.
Dessa vez, abordou-a na cozinha, onde não havia portas que pudessem ser batidas.
Priscila não respondeu.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 29, 2017 9:38 am

Por fim, quase desistindo, Roberta fez uma última tentativa.
Seguiu a nora pelo quintal e segurou-a pelo braço.
O choque do contacto inesperado foi tão grande, que Priscila reagiu automaticamente.
Deu um empurrão em Roberta com tanta força, que ela soltou a bengala, se desequilibrou e foi directo ao chão.
Priscila não se comoveu.
No entanto, a visão da idosa caída accionou sua consciência.
Independentemente do que sentia por Roberta, o que tinha diante de si era uma mulher idosa caída no chão.
Priscila era muitas coisas, menos covarde.
Não permitiria que o ódio superasse sua dignidade.
Abaixando-se junto a Roberta, ajudou-a a pôr-se de pé.
Colocou a bengala na mão dela, esperou que ela se firmasse.
Quando achou que ela já estava em condições de caminhar sozinha, quis afastar-se sem emitir uma palavra.
Roberta segurou-a novamente, mas, dessa vez, Priscila não reagiu.
— Solte-me, por favor — viu-se obrigada a dizer.
— Só um momento, Priscila, por favor.
Ouça o que eu tenho a dizer.
— Nada do que a senhora tenha a dizer pode me interessar.
— Quero me explicar...
— Não precisa - cortou ela, levantando a mão solta.
Já sei de tudo.
— Então, ao menos, deixe-me pedir-lhe perdão.
— Não quero suas desculpas.
— Você tem todos os motivos para estar com raiva de mim, mas acredite quando digo que estou arrependida.
— Não adianta. Não acredito.
— Eu mudei, Priscila...
— Bom para a senhora.
— Por favor - suplicou, à beira das lágrimas.
O que posso fazer para lhe provar que estou arrependida e que mudei?
Priscila permaneceu em silêncio, fitando a sogra com uma indiferença mordaz.
Depois de alguns minutos, o mutismo dela começou a incomodar Roberta, que abaixou os olhos, dando a entender que ia desistir.
Priscila insistia na inércia como forma de desprezo, até que Roberta, também sem dizer nada, balançou a cabeça e virou as costas para ela, claudicando de volta para casa.
— Tem uma coisa que a senhora pode fazer - falou Priscila de súbito, acercando-se de Roberta.
Ir embora da minha casa.
A sugestão foi um choque.
Roberta levou a mão ao peito, contendo a angústia.
— É isso mesmo que você quer? — redarguiu, dando tempo a si mesma de se recuperar.
— Não apenas o que eu quero, mas o que sei que é melhor para todos.
Inclusive, para a senhora.
— Está bem — concordou rapidamente, para surpresa de Priscila.
Se essa é a sua vontade, farei como quer.
Você está no seu direito.
Vou juntar minhas coisas, me despedir de meu filho e de Larissa, se você permitir, e vou embora.
— A senhora pode fazer o que quiser.
E para que não diga que a tratei com crueldade, vou lhe dar um prazo para se mudar.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 29, 2017 9:39 am

A senhora tem até o final da semana que vem para encontrar outro lugar para ficar.
Isso lhe dá cerca de dez dias.
Será que basta?
- Acho que sim.
— Óptimo. Só tem mais uma coisa.
Não quero que a senhora fale sobre isso com Ítalo.
Ele é um homem bom, não merece a mãe que tem.
— Quer que eu minta para o meu filho?
— Depois de tudo que a senhora fez, mentir não deve ser nenhum sacrifício.
— Tem razão, não é. E não se preocupe.
Ítalo vai pensar que vou embora por vontade própria.
— E Larissa também — acrescentou.
— E Larissa também - repetiu, sem emoção.
— Óptimo. Que bom que nos entendemos.
— É só isso?
— Sim.
— Então, com licença.
Vou começar a procurar minha nova casa.
Aquela conversa havia acontecido quase duas semanas atrás.
E Roberta fez como Priscila pediu.
Encontrou a pensão, arrumou suas coisas, se despediu do filho e partiu, sem lhe contar absolutamente nada.
De Larissa, não teve forças para se despedir.
Não sentia raiva.
Um pouco de mágoa, talvez.
A descrença de Priscila era compreensível, embora dolorosa.
No fundo, Roberta achava que merecia o castigo que a nora lhe impunha.
Se nem ela mesma conseguia se perdoar, como pretendia que Priscila o fizesse?
Talvez, no dia de sua morte, Priscila a perdoasse.
Não é o que geralmente acontece entre pessoas que não se querem bem?
Parece que a morte apaga as lembranças ruins, mas nem sempre recupera as boas.
As pessoas se arrependem de sua intolerância, de sua intransigência, de não terem aproveitado a oportunidade de reconciliação.
Algumas se desesperam, outras caem na apatia, outras superam com facilidade.
Mas fica sempre um espinho, por menor que ele seja.
Um pequeno incómodo diante de algo impossível de ser remediado.
Para evitar mais esse arrependimento, não é melhor perdoar antes que seja tarde demais?
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 29, 2017 9:39 am

Capítulo 53
Pessoas comuns erram, é da sua natureza.
Pessoas incomuns são espíritos muito próximos a Deus.
É graças ao erro que existe o perdão, a reconciliação, a vontade de mudar, de aprender e melhorar.
É também por causa dele que as pessoas se entregam à culpa, à vingança, à intransigência, à acusação.
Não é que o erro provoque reacções contraditórias.
É que ele abre, no coração humano, caminhos que se bifurcam numa encruzilhada de compaixão e desamor.
O primeiro conduz à libertação, ao passo que este encerra o espírito nas tramas do ódio, do ressentimento, do desequilíbrio e da consequente necessidade de harmonização.
Pessoas erram porque não conhecem o caminho da verdade.
O erro é a encenação da mentira, da ilusão do orgulho e do poder.
Não é a causa da queda nem a queda em si.
É o início do despertar da consciência, que descortina o véu da ignorância e joga luz sobre as sombras que toldam a razão.
É pelo erro que se chega ao caminho da perfeição, porque nada se cria no mundo que não demande esforço, perseverança e fé.
Essa é a forma de Deus estimular o progresso, induzir o homem a sair da estagnação, para que o futuro se torne acessível e presente.
O maior erro que alguém pode cometer é acreditar que não é passível de errar.
Essa ideia é fruto do orgulho, que ilude a inteligência com a crença na sua superioridade e infalibilidade.
Somente Deus conhece a plenitude da perfeição.
Toda a humanidade guarda, adormecido, o germe que, um dia, alcançará o mais elevado grau de iluminação.
Um dia... mas não agora.
Por ora, o que se tem no planeta é uma sucessão de erros e acertos, dos mais variados graus, atendendo a múltiplos estágios de amadurecimento espiritual, conduzindo o ser humano, a passos lentos e, muitas vezes, dolorosos, rumo ao desenvolvimento da própria moral.
De tudo se conclui que o erro não é algo a ser temido, nem renegado, nem odiado.
Também não deve ser motivo de vergonha, de culpa ou condenação.
Ao contrário, deve ser encarado como uma oportunidade de exercício das faculdades mais sublimes que adormecem no coração de cada criatura, permitindo que o amor se manifeste por meio do perdão, seja pelo próximo ou por si mesmo.
O erro é a face oposta da perfeição.
Essas ideias ainda não haviam se integrado ao pensamento de Priscila, mas faltava bem pouco para que isso acontecesse.
Desde que mandara a sogra embora, vinha reflectindo sobre o que acontecera.
À excepção de Isabela, ninguém sabia que a partida de Roberta fora uma exigência sua.
- O que foi que o Ítalo disse? - indagou Isabela, enquanto Priscila a auxiliava na cozinha.
- Nada. Ele não fala.
Optou pelo silêncio.
- Estranho.
Será que ele não desconfia que foi você quem a mandou embora?
- Se desconfia, não deixa transparecer.
- E você? Como se sente diante de tudo isso?
- Como é que eu poderia me sentir?
Aliviada, claro.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 29, 2017 9:39 am

- Tem certeza?
Priscila não sabia mentir.
O máximo que conseguia era ocultar a verdade, porém, nunca mentia.
Quando não queria revelar alguma coisa, usava a sinceridade para deixar claro que preferia não falar.
Não era seu costume usar-se de subterfúgios para esquivar-se feito uma serpente escorregadia.
- Não - confessou, após breve reflexão.
E é isso que me incomoda.
A facilidade com que dona Roberta aceitou ir embora me deixou balançada.
Pensei que a passividade dela era fingimento, uma jogada esperta para ver se conseguia me sensibilizar.
Durante os dez dias que antecederam sua partida, fiquei esperando que me procurasse para pedir que eu reconsiderasse.
Mais próximo do fim do prazo, achei que ela estava me preparando uma armadilha e que daria o bote a qualquer momento.
Por fim, apostei na chantagem.
No dia em que ela se foi, jurei que Ítalo entraria no meu quarto esbracejando, exigindo que eu voltasse atrás.
E adivinhe só! Nada aconteceu.
Ela se foi, Ítalo ficou na dele e tudo pareceu voltar ao normal.
- E Larissa?
- Você sabe como são as crianças, não é, Isabela?
Larissa e André morrem de pena de dona Surtada.
Juram que ela está arrependida.
- Será que não está?
-Não sei. Pode até ser, o que seria bom, pois mostraria que ela tem algum tipo de consciência.
- Todo mundo tem consciência, Priscila.
Você também tem a sua.
- Porque será que sinto uma acusação velada nas suas palavras?
Não fui eu que quase matei alguém.
- Foi um acidente.
- Acidente ou não, foi ela quem o provocou.
Ela podia estar presa.
Sorte a dela que eu confirmei a história do acidente.
- Ah, é...
Você ia mesmo mandar a mãe do seu marido para a cadeia.
- Eu não fiz isso, fiz?
— Ainda bem que não.
Olhe, Priscila, não quero que pense que estou contra você e a favor de Roberta.
Estou do seu lado como sempre estive, e acho que você precisa ouvir certas coisas.
Ela fez uma pausa, experimentando a reacção da amiga.
Em vista de sua neutralidade, animou-se a prosseguir:
— Você se deixou cegar pelo orgulho.
Tomou uma atitude extrema e não quer voltar atrás, para que dona Roberta não pense que venceu.
É isso. Pronto. Falei.
Agora, pode espernear, esbracejar e brigar comigo, se quiser.
Para sua surpresa, Priscila não moveu nem um músculo.
Seus lábios, que sempre tinham uma resposta pronta para sair, permaneceram cerrados, sem nem ao menos tremular.
Apenas os olhos demonstravam algum tipo de reacção.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 29, 2017 9:39 am

Estavam mais brilhantes do que no início da conversa, umedecidos pelas lágrimas que não eram tantas ao ponto de cair, embora suficientes para sinalizar que ela havia sido tocada.
- Talvez você tenha razão - concordou, o olhar tão perdido quanto a certeza.
Talvez o que me falte seja humildade suficiente para perdoar.
- Então, amiga?
Liberte-se desse peso.
Esqueça o orgulho.
Perdoe. Reconsidere.
Vai fazer bem a você, em primeiro lugar.
- Eu bem que gostaria.
Mas é tão difícil!
- Se você não se apegar ao orgulho, vai ver que é bem mais fácil do que imagina.
Orgulho é uma coisa danada.
Impede a gente de conseguir tantas coisas...
E no final, a gente percebe que a gente mesma é que sai perdendo.
- Fico imaginando...
Será que, se dona Roberta estivesse no meu lugar, ela me perdoaria?
- O que lhe importa isso?
Você não é dona Roberta, não é igual a ela, não pensa nem sente feito ela.
- Mais uma vez, você está coberta de razão.
- Ninguém tem motivo para odiar seu semelhante.
Tudo serve de estímulo para o exercício do perdão.
E as pessoas se modificam.
Não merecem uma segunda chance?
Ela parou para pensar.
Havia grande sabedoria e verdade nas palavras de Isabela.
Mas entre o pensamento e a acção, por vezes, estende--se um grande abismo.
Uma coisa é ter consciência do que deve ser feito.
Outra coisa é tomar coragem para pular por cima do orgulho e fazer.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 29, 2017 9:40 am

Capítulo 54
Após a convulsão imprevista de Rodrigo, Lizandra e Vítor passaram a noite ao lado dele, sentados numa poltrona, revezando-se na vigília.
Colocaram um colchonete ao lado da cama para que, enquanto um vigiasse, o outro descansasse um pouco.
Mas acabaram ficando acordados quase a noite toda, conversando.
Vítor despertou assustado.
Pensou que houvesse cochilado por apenas um instante e se espantou ao constatar que já era de manhã.
Perto dele, Lizandra dormia no colchonete.
Ele ajeitou o travesseiro sob a cabeça dela e cobriu seu corpo com cuidado.
Enquanto fazia isso, seu olhar se prendeu no rosto lívido da mulher, percorrendo, com atenção, as rugas que despontavam ao redor dos olhos, os poucos fios de cabelo branco se insinuando por debaixo da cabeleira tingida de louro, os lábios grossos, antes naturalmente rosados, agora sem cor, quase confundindo-se com a palidez da pele.
Um arrepio involuntário deixou-o confuso, transtornado, com raiva dele mesmo.
Devia odiar aquela mulher pelo que ela fizera não apenas a ele, mas, principalmente, ao filho.
Lizandra o traíra com outro homem, fora uma mãe negligente, incompreensiva, impiedosa.
Eram motivos mais do que suficientes para apagar o amor e acender a chama da revolta que conduz ao divórcio.
Era essa sua intenção, sim, era.
Depois que tudo terminasse, que Rodrigo ficasse bom, separar-se-ia de Lizandra e deixaria que ela levasse a vida que bem entendesse.
E pediria a guarda do filho.
Disso não abriria mão.
O que o coração transmitia não guardava as feições do rancor, mas tinha todas as características do amor.
Vítor estava magoado, com o orgulho ferido, mas não odiava a mulher.
Ao contrário, parecia amá-la ainda mais, fascinado pela transformação radical de seu jeito de ser.
A doença de Rodrigo fizera de Lizandra uma nova mulher.
Seus valores pareciam ter se alterado.
Ela agora dava mais importância à família do que às futilidades sociais e materiais.
Não havia como duvidar do arrependimento dela.
Vítor soltou um suspiro e tornou a sentar-se na poltrona ao lado da cama do filho.
Por sorte, não soltou o corpo no assento, ou teria amassado a criaturinha que, sem que ele percebesse, se instalara sobre a almofada.
Sentindo a maciez do animal, Vítor se levantou e o pegou com cuidado.
— Veja só, menino - disse ao cachorro.
Quem imaginou que isso iria acontecer?
Mas não se preocupe.
Rodrigo vai adorar você.
O filhote aproveitou para mandar uma lambida bem em direcção aos lábios de Vítor, que conseguiu desviá-los, mas não a tempo de evitar que seu rosto fosse atingido.
— Seu danadinho — brincou, afagando a cabeça do animal.
Nada de lambidas, tá legal?
Não sou muito chegado em baba de cachorro, por mais fofinho que seja.
Já ia se sentando com o cão no colo, quando uma vozinha miúda partiu da cama:
— Pai...
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

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