O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 14, 2017 10:01 am

Graças a Deus, tudo correra como o esperado.
André já estava em choque devido à morte de Toby.
Ela não queria acrescentar mais uma notícia ruim à sua pequena colecção de frustrações.
A notícia de que André mudaria de escola e seria companheiro de turma de Larissa acalmou um pouco o coração confrangido do menino.
Não que fosse uma espécie de compensação, mas, ao menos, era um raio de alegria no poço de tristezas em que a morte de Toby atirou sua alma.
Mal via a hora de contar à amiga.
- Você não gostou da novidade? — indagou ele, diante da cara de poucos amigos de Larissa.
- É claro que gostei! - ela afirmou rapidamente.
Pelo menos, tenho algo para comemorar.
- Por que está falando isso?
- Você nem imagina, André!
Também tenho uma novidade, só que é péssima.
Antes que ele tivesse tempo de perguntar qual era, ela disparou:
- A dona Surtada está de mudança para cá.
- Não! — rebateu ele pasmado, tapando a boca com a mão.
Era só o que faltava!
- Pois é.
Agora não falta mais nada.
- Quando vai ser isso?
- Neste sábado.
- Sábado...?
Que horror!
Para as crianças, sobretudo para Larissa, era mesmo um horror.
Dia após dia, elas assistiam aos preparativos para a mudança de Roberta.
Ítalo transformou uma parte da garagem em quartinho e pintou o antigo quarto de rosa-shocking, cor preferida da mãe.
Terminava de dar os últimos retoques em um buraco de prego que se esquecera de fechar, o que tinha que ser feito com rapidez, pois a mudança estava marcada para aquele dia.
- Que mau gosto — afirmou Larissa, torcendo o nariz para as paredes.
Ítalo riu e, pousando o rolo na bacia de tinta, chamou:
- Venha cá, querida.
Quero conversar com você.
- Desculpe, papai.
É que não gosto de rosa choque.
Mas não devia ter falado nada.
Ele a abraçou, emocionado.
Era sempre assim que se sentia quando ela o chamava de pai.
- Tudo bem, Larissa, você tem o direito de não gostar da cor.
Mas não é sobre isso que quero falar.
O que quero, na verdade, é lhe pedir desculpas e lhe agradecer ao mesmo tempo.
- Hã?!
- Desculpas por trazer para casa uma pessoa que não se dá muito bem com você, e agradecer pela sua generosidade em aceitar a vinda dela.
- Mas eu não fiz nada!
Você e mamãe é que decidiram tudo.
- Decidimos, mas você não se opôs.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 14, 2017 10:01 am

Mesmo insatisfeita, não deu contra.
E, por isso, só tenho a agradecer.
Vou fazer de tudo para que minha mãe não a aborreça.
- Ah! Pai! - exclamou ela, enlaçando o pescoço dele.
Desculpe chamar a sua mãe de dona Surtada.
- O quê? — surpreendeu-se ele, embora gracejando.
Que história é essa de dona Surtada?
Quem foi que lhe deu esse apelido?
- Fui eu.
Ouvi a palavra na novela e fui procurar no dicionário.
Quando vi o que significava, achei que era a cara da sua mãe. Desculpe.
- Não tem problema.
Só não a chame assim na frente dela, o.k.?
- O.k. E pode deixar.
Vou me esforçar para não responder mal a ela.
- Você é uma boa menina.
É minha filha de verdade.
Ao se abraçarem novamente, Ítalo pousou um beijo paterno na fronte de Larissa.
Eram como pai e filha, relação que já se repetia havia algumas encarnações.
- Tchau, pai — despediu-se, contente.
Vou lá na casa do André.
Saiu saltitante, um pouco mais conformada com a situação.
Ao atravessar a cerca de tábuas que separava os quintais das duas casas, reservada para a passagem das crianças, levou um susto com a movimentação na padaria.
Alguns homens tentavam fazer passar, pela porta da frente, uma gigantesca máquina.
- Oi, Larissa — cumprimentou André, assim que ela parou a seu lado.
- Que trambolho é esse?
- É o novo forno de pão.
E ainda tem outro, só que a lenha.
- Ah...
- Papai agora vai modernizar a padaria e vender pizza feita no forno a lenha.
Ele disse que todo mundo prefere.
- Seu pai agora vai fazer pizza? — Ele assentiu.
Uau!
- E vai pôr umas mesinhas também.
É por isso que está todo mundo duro aqui em casa.
Temos que economizar para poder pagar por tudo isso.
- Tudo isso vai dar um óptimo retorno - informou Isabela, que acabara de se aproximar.
Porque vocês não vão brincar em outro lugar?
Ao menos, até os moços terminarem de entrar com os fornos?
- Vamos para a casa da árvore? - sugeriu Larissa.
- Vamos.
Foram correndo.
Depois de se acomodarem, ouviram um arranhado na portinhola.
Ao abrirem, Nina entrou com o rabo em pé, esfregando-se nas pernas de Larissa.
- Sua avó não gosta de gatos — disse André, fitando a gatinha.
- Ela não é minha avó.
- É como se fosse.
- Não é, não.
Ela é só a dona Surtada, mãe do Ítalo.
- De qualquer jeito, ela não gosta de gatos.
- Eu sei - desanimou.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 14, 2017 10:01 am

E o pior é que ela já deve estar chegando.
- É. Tá um sábado movimentado...
Como é que você vai fazer com a Nina?
- Ela que experimente botar as mãos na minha gata!
Acabo com ela.
- Você não vai fazer nada disso.
Em todo caso, se eu fosse você, manteria a Nina à distância.
André estava coberto de razão.
Larissa não sabia, mas uma das principais queixas de Roberta era a pobre da Nina.
Roberta detestava gatos, cães, passarinhos ou qualquer outro animal.
Não suportava a sujeira, o cheiro, o barulho, as pulgas.
Não via nada de mais nas gracinhas que faziam e que todo mundo admirava.
Ao contrário, achava que eram um bando de idiotas que conversavam com irracionais, que nada compreendiam.
No meio da tarde, uma camionete encostou diante da casa de Larissa, trazendo os poucos pertences que Roberta manteve após a venda do apartamento.
- Seja bem-vinda, mamãe - falou Ítalo, beijando as faces dela.
Esticando os dedos tortos, ela deu uns tapinhas no rosto dele e mandou que os homens descarregassem a camionete.
Tiraram uma cama, um armário, uma cómoda e uma cadeira de balanço, além de duas malas com roupas e objectos pessoais.
Roberta entrou em seguida, ergueu o rosto empoado para a nora e comentou em tom mordaz:
- Você está mais gorda, Priscila.
Devia fazer um regime.
O sorriso de Priscila murchou.
Ítalo, contudo, foi em seu socorro:
- É assim que cumprimenta minha esposa, mãe?
Com um comentário maldoso?
- Deixe, Ítalo - Priscila protestou.
Não tem importância.
- Tem, sim.
Se vai morar aqui connosco, mamãe, acho bom começar a tratar bem minha esposa e minha filha.
- Ora, me perdoem - desculpou-se, falsamente.
Não quis ofender.
Não foi um comentário maldoso, mas apenas uma pequena observação.
Priscila engordou um pouco e, quando falei em regime, é porque conheço umas receitinhas óptimas...
- Está tudo bem, querido - intercedeu Priscila.
Sei que dona Roberta não falou por mal.
- É claro que não - concordou ela, dando tapinhas nas faces da nora, com um pouco mais de força do que o necessário.
- Onde colocamos isso, dona? — a voz do carregador interrompeu as saudações falsamente amistosas.
- Por aqui - orientou Ítalo.
Roberta não disse nada, ainda remoendo as palavras do filho.
Fuzilou Priscila com o olhar e seguiu para o quarto, distribuindo ordens e recriminações.
Mudou a mobília de lugar três vezes, até que se deu por satisfeita.
- Acho que assim está bom - falou secamente.
É o melhor que se pode fazer aqui.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 14, 2017 10:01 am

Pela troca de olhares entre Ítalo e Priscila, dava para se ter uma ideia de como seria a estada de Roberta em sua casa.
Ela percebeu os sinais silenciosos, embora fingisse não ter percebido.
Precisava ir devagar e só aos poucos mostrar quem mandava ali.
Era a mais velha, a matriarca, portanto, todos lhe deviam obediência.
Inclusive a moleca da Larissa, cuja voz chegava a seus ouvidos pela janela aberta.
Sua neta, pois sim...
A afirmação de Ítalo quase a tirou do sério.
Teve que se segurar para não gritar que aquela menina horrorosa não era sua neta.
Nem neta, nem ninguém que fizesse parte de sua família.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Nov 14, 2017 10:02 am

Capítulo 5
A mente de Lizandra era um turbilhão de revolta e indignação.
Danilo a deixara esperando, não aparecera.
Dissera que ia telefonar, mas simplesmente resolveu ignorá-la.
E não atendia o telefone, não respondia mensagens, e-mails, WhatsApp, nada.
Com o celular na mão, Lizandra pensava se devia ligar novamente.
Consultou as chamadas recentes e se deparou com treze ligações suas, feitas para ele, só naquela manhã. Era demais.
Do terraço da cobertura, vinham a voz de Rodrigo e os latidos de Billy.
Aquele cachorro era o inferno.
Não devia ter se deixado levar pela conversa mole da vendedora e comprado aquele bicho.
Ele não era nada do que ela dissera.
Era um cão terrível, não sossegava um minuto.
Sem contar que não podia deixar nada ao seu alcance, porque ele destruía tudo.
Em pouco tempo, roera dois chinelos do filho, um sapato e os óculos de leitura do marido, várias revistas, jornais e até umas meias da Anita.
- Rodrigo, cala a boca desse cachorro! — ela gritou, enfurecida.
- Ah, mãe, estamos brincando - reclamou o menino.
- Vão brincar de outra coisa que não faça barulho.
- O Billy não gosta.
Ele só gosta de bagunça.
Não é, garotão?
O cão respondeu com um latido agudo e saiu correndo para dentro da sala.
Pulou no sofá com uma rapidez de foguete, deu uma lambida na cara de Lizandra e abocanhou a almofada, sacudindo-a de um lado a outro.
- Tire esse cachorro daqui! — esbravejou ela, puxando a almofada com as duas mãos.
Pensando que era brincadeira, Billy puxou para o outro lado.
Quanto mais Lizandra o mandava soltar, mais forte ele segurava, sacudindo freneticamente a cabeça.
Apesar de filhote, Billy tinha muita força nas mandíbulas.
Com um puxão mais forte, conseguiu, finalmente, arrancar a almofada das mãos de Lizandra.
- Me dá isso aqui! — ela exigiu.
Lizandra se levantou para correr atrás dele, e Billy disparou na frente, levando a almofada presa entre os dentes.
- Solta isso, Billy, não pode! - ralhou Rodrigo energicamente, tentando segurar o animal.
Billy nem ligou.
Para ele, tudo fazia parte de uma grande brincadeira.
Sentindo-se livre, sacudiu a almofada com força.
Ao perceber que Lizandra se aproximava, deu um salto e subiu no deque da piscina.
Ali, prendeu a almofada entre as patas da frente e mordeu com gosto, abrindo um rasgo no tecido e arrancando o recheio de fibras.
Depois de estripada a almofada, nela perdeu o interesse.
Soltou-a quando Lizandra chegou ao lado dele, saltando novamente para o terraço, correndo para se esconder entre as pernas de Rodrigo.
- Veja só o que ele fez! - explodiu ela, exibindo os trapos da almofada estripada.
Vou dar uma surra nesse cachorro!
- Por favor, mãe, ele não sabe que não pode - suplicou Rodrigo.
Ele é filhotinho ainda.
Com o tempo, ele vai aprender a se comportar.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 15, 2017 10:23 am

- Sai da frente, Rodrigo!
É assim que se ensina.
Sem dar ouvidos às súplicas do filho, Lizandra puxou-o pelo braço e alcançou Billy pelas orelhas.
O cachorro se encolheu todo, com medo.
A aparência e a energia de Lizandra eram sinais de que algo muito ruim estava para acontecer.
Como aconteceu.
O primeiro tapa o atingiu no focinho; o segundo, no dorso; o terceiro, na coxa.
Billy ganiu baixinho.
Por sorte, não era um cão de revidar.
Era dócil, meigo, de boa índole, incapaz de machucar qualquer pessoa ou mesmo outro animal.
A passividade dele estimulou a fúria de Lizandra, que perdeu a noção de limite e o espancou com violência.
Ela só parou no terceiro tapa porque Rodrigo chorava, tentando segurar sua mão.
- Tadinho, mãe - soluçou ele.
Que maldade. Isso não se faz.
- E destruir a almofada, se faz?
Trate de ensinar esse cachorro ou ele vai embora.
— Não! Você não pode mandar o Billy embora.
Ele já é da família.
— Cachorro não faz parte da família!
É só um animal idiota!
- Ele é melhor do que muita gente.
— Está se referindo a mim?
Ele não respondeu de imediato.
Ela fora má com Billy, mas era sua mãe e ele a amava, apesar de tudo.
— Não - disse por fim, sem a encarar.
Mas você não foi boazinha com ele. Nem comigo.
As lágrimas do filho, finalmente, a sensibilizaram.
Ela sabia que descontava no cachorro sua frustração com a indiferença de Danilo.
Um mal-estar a acometeu subitamente, como se uma onda de calor subisse pelo seu pescoço, incendiando suas faces.
Era nervoso.
Tudo por causa de Danilo.
- Está certo, meu amor - tornou ela, arrependida.
Eu perdi a paciência.
Esse cachorro me tira do sério.
Ele é muito danado.
— Não é culpa dele.
- Eu sei. Só que ele precisa aprender a se comportar.
- A gente podia contratar um adestrador.
— Talvez seja uma boa ideia.
Vou pensar no assunto.
- Promete que não bate mais nele?
- Prometo.
Era mentira, ela sabia.
Essa decisão persistiria apenas até a próxima travessura de Billy, que a faria se descontrolar e, novamente, descontar nele suas frustrações.
Ela se abaixou para afagar a cabeça do cão, mas ele recuou, fugindo para trás de Rodrigo.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 15, 2017 10:23 am

Tentando ocultar a raiva, ela retirou a mão, até que Anita chamou da porta:
- O almoço está pronto.
Lizandra abraçou o filho, puxando-o para a sala.
A onda de calor se transformara em dor de cabeça.
Ela estava somatizando seus problemas.
Sentou-se à mesa, procurando disfarçar o insistente mal-estar, agora acompanhado de enjoo.
Ela não sabia, mas a somatização, à qual ela atribuía sua indisposição, nada mais era do que a reacção indignada do espírito a seu lado.
No princípio, quando Lizandra lutou com Billy pela posse da almofada, Moisés se escangalhou de rir, apostando que o cão venceria a demanda.
Depois, quando o cachorro correu e destroçou a almofada, ele chegou a se dobrar, tamanhas as gargalhadas.
Ainda apostava no cão.
Mesmo quando Billy procurou a protecção de Rodrigo, ele achou graça.
Mas quando Lizandra desferiu no animal três tabefes estalados, o sorriso em seus lábios murchou por completo.
Com uma fúria incontida, Moisés saltou sobre ela, desferindo-lhe seguidos socos na cabeça.
Suas mãos atravessaram a matéria densa da encarnada, nela deixando apenas uma leve ardência.
Foi o resultado da energia de ódio com que ele havia se atirado sobre Lizandra, traduzida como sensação de calor.
Frustrado em seu intento de espancá-la, Moisés puxou os cabelos dela, que, como antenas, captaram toda a carga odiosa que emanava dele e a conduziram directamente aos centros nervosos dela.
Veio, então, a dor de cabeça, e a indiscernível sensação de ter o corpo invadido trouxe junto um forte enjoo.
- A senhora está se sentindo bem, dona Lizandra? — questionou Anita, solícita.
— Não é nada — ela rebateu, procurando disfarçar.
Estou bem, Anita, sério.
Procurando não dar muita atenção à dor, Lizandra se serviu.
Colocou no prato uma fatia de carne assada, batatas coradas, arroz e salada.
Já ia dar a primeira garfada quando notou que Rodrigo, apesar do prato cheio, rejeitara a carne.
- A comida está ruim? — sondou.
- Não.
- Então, por que não quer a carne assada?
Você adora.
- Não gosto mais.
- Posso saber por quê?
- Não gosto mais de carne.
- Que novidade é essa agora?
- Não quero mais comer carne.
Não é justo com os animais.
Lizandra soltou o garfo.
Não podia crer no que estava ouvindo.
- Era só o que me faltava.
Quer ficar doente?
Você está em crescimento, precisa de proteína.
- Existem outros alimentos com proteína, tipo soja, por exemplo.
Você podia mandar fazer para mim.
- Dá um tempo, Rodrigo! — Ela cortou um pedaço de carne e pôs no prato dele.
Come.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 15, 2017 10:23 am

- Não quero.
- Come, Rodrigo, estou mandando!
- Não quero, e você não pode me obrigar.
Ela pensou em insistir, contudo, mudou de ideia.
Devia ser uma rebeldia passageira, uma tentativa de puni-la por causa do cachorro.
Assim que a fome apertasse, ele comeria a carne normalmente.
- Tudo bem - concordou ela, chegando a carne para a beira do prato dele.
Se não quer comer, não coma.
Mas depois, não venha reclamar que está com fome.
Ele agradeceu em silêncio.
Pensara que a mãe ia insistir, mas ela acabou surpreendendo-o.
Sentado a seus pés, Billy abanava o rabinho, esperando que Rodrigo atirasse alguma coisa para ele.
Quando terminou de comer, puxou a fatia de carne, cortando-a em pedaços pequenos.
- Resolveu comer, é? - indagou ela, satisfeita.
- Não é para mim.
- Não? É para quem...
Ela se calou, sentindo a proximidade da irritação.
— Nem vem, Rodrigo!
Você não vai dar carne para o cachorro.
Ele tem a ração dele.
- É o meu pedaço.
Se não quero comer, posso dar para ele.
- Não pode, não.
Além de acostumá-lo mal, não tem graça eu gastar dinheiro com carne de primeira para você dar a esse vira-lata.
- Ele não é vira-lata!
E mesmo que fosse, ele merece.
Não é, Billy?
Billy abanou o rabo, comendo, com satisfação, a carne que Rodrigo lhe oferecia.
Lizandra não sabia com quem estava mais furiosa:
se com o filho ou com o cachorro.
Contudo, diante do incidente de há pouco, achou melhor não dizer mais nada.
Limpou os lábios no guardanapo e se levantou, com Moisés andando atrás dela.
- Você é uma megera sem coração - o espírito espumou.
Maltrata o cachorro e ainda não quer que ele coma?
Você vai ver só...
Ele estacou abruptamente, surpreso com a claridade súbita que se interpôs entre ele e Lizandra.
Prevendo quem poderia surgir diante dele, rodou nos calcanhares e sumiu pela parede, segundos antes de Lucélia chamar o seu nome.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 15, 2017 10:23 am

Capítulo 6
A ideia já se delineava na cabeça de Lizandra.
Como se arrependia de ter comprado aquele cachorro!
Deixara-se convencer pela vendedora e agora estava às voltas com um monstrinho dentro de casa, levado e destruidor.
Tudo bem que ele era esperto, engraçadinho e muito meigo, mas isso não compensava os prejuízos que vinha lhe dando.
- O que você tem hoje? - indagou Vítor, logo que chegou do trabalho.
- Nada. Estou com dor de cabeça.
A fim de evitar maiores questionamentos, Lizandra trancou-se no banheiro.
Não estava com vontade de conversar com o marido, muito menos de lhe dar satisfações.
Sentia mesmo uma forte dor de cabeça, mas não era esse o motivo que a levara a se afastar.
A verdade é que estava furiosa com Danilo.
A dor de cabeça aumentava à medida que ela incluía Billy em seus pensamentos mesquinhos, porque o espírito de Moisés não lhe dava trégua.
Inconformado com a perda de seu Tostão, afeiçoara-se a Billy como se fosse ele o seu dono.
Queria que o cão crescesse livre, que tivesse tudo o que ele não pudera dar a Tostão.
Embora não fosse uma pessoa ruim, Moisés tinha o corpo emocional preenchido de frustração e raiva, que ia espargindo pela casa à medida que se deixava levar pela ira diante dos maus-tratos que Lizandra infligia ao animal.
Como uma onda se propagando no oceano, os pensamentos de Moisés acabaram chegando até a mãe.
Lucélia os captou num momento em que, justamente, conversava sobre o filho.
— Ele está pensando em mim - afirmou ela ao jovem com quem falava.
— Eu sei - concordou Germano.
Também senti.
— Fui procurá-lo, para contar o que você me disse, mas ele sumiu antes de eu aparecer.
— Tudo tem a sua hora, Lucélia.
— Eu sei.
Foi por isso que vim até aqui, Germano.
Achei que já era hora de eu conhecer um pouco mais sobre a espiritualidade animal.
— Para o conhecimento, a hora é sempre agora.
Em que posso ajudar você?
— Tenho algumas dúvidas.
Para começar, sobre o sofrimento dos animais.
Como justificar o quanto eles sofrem?
Suas acções e reacções são involuntárias.
O ser humano constrói o seu destino.
O animal, não.
Ou você vai me dizer que eles também têm carma?
— O carma é o resultado de acções pretéritas, cujas consequências são sentidas no futuro.
É o caos interno que leva ao desequilíbrio e, por isso mesmo, deve ser reorganizado.
Pressupõe acção consciente, determinada pelo discernimento, pela capacidade de distinguir entre o certo e o errado, o bem e o mal.
— Mas bem e mal são diferentes aspectos da consciência!
São fruto de conquistas individuais, de acordo com o plano divino.
Quanto mais próxima a consciência está da divindade, mais se evidencia o bem.
Mais distante, mais associada ao mal.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 15, 2017 10:24 am

— Exactamente!
Bem e mal são evoluções do mesmo conceito, que é a capacidade de agir conforme o discernimento.
O mal é resultado da ignorância.
O bem, do conhecimento acerca da verdade divina.
— E como se encaixa o sofrimento dos animais em tudo isso?
— A resposta mais simples é que o sofrimento burila o espírito.
Ele é a fonte de onde se origina toda a consciência.
A dor é a primeira motivação do espírito.
Sem ela, a criatura pode permanecer por anos na estagnação.
E não me refiro apenas à dor física, mas também às psíquicas e emocionais.
A raiva causa dor, a tristeza causa dor, o abandono causa dor.
Tudo isso é reflexo da experiência, que vai se repetindo até ser apreendida.
Quando isso acontece, o sofrimento pode ser evitado e deixa de existir.
- Desculpe, Germano, mas não sei se é bem assim.
Existem coisas que mesmo a experiência não consegue evitar.
- Quando a criatura apreende o resultado da experiência, ela sabe como evitar a dor.
Se não, é porque ela só tem uma noção muito frágil do que a dor realmente significa.
O cérebro racionaliza e expõe os resultados daquilo que já vivenciou, mas o faz de uma forma mecânica, sem a real consciência da dimensão daquela experiência.
A pessoa aprende pela repetição, não porque foi levada a reflectir e concluir.
Então, ela aprende, mas não apreende.
É como fazem crianças e adolescentes, que decoram um texto para a prova e depois o esquecem.
- Mas de que forma os animais podem fazer isso?
Eles aprendem por repetição, logo não apreendem nada.
- Aprendem e apreendem, só que isso leva tempo.
O homem e o animal encarnam para adquirir experiências.
Ao desencarnar, ambos levam consigo o resultado do que a carne vivenciou.
Para o homem, a experiência é só dele.
O animal a transforma em experiência de todo o grupo que compõe sua alma colectiva.
A medida que o animal ali deposita essas experiências, vai reunindo os elementos que integrarão a futura consciência individual.
Então, primeiro ele aprende a experiência.
Quando, por fim, a apreende, deixa de ser animal e está pronto para ingressar no reino hominal.
- Nesse momento, ele deixa de existir como um ser individual?
- É difícil para o ser humano pensar em perda da individualidade, já que supõe que a criatura deixaria de existir como algo diferenciado.
Na verdade, o animal continua a existir, mas sua consciência ultrapassa as questões primárias e individuais para integrar-se de todas as vivências compartilhadas por aquele grupo.
Ele retém o que viveu individualmente e o que vem das vivências do grupo.
Guarda suas lembranças, mas a elas soma as lembranças do grupo.
E um e todos ao mesmo tempo.
É um porque possui o atributo da individualização ao encarnar.
E é todos porque é resultado do somatório das vivências do grupo ao qual pertence.
É graças a esse compartilhamento que o animal nasce com instinto, que nada mais é do que o resultado de experiências repetidas e, por isso mesmo, arraigadas na alma colectiva.
Assim como podem surgir daí o temperamento e a inteligência, que são diferentes.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 15, 2017 10:24 am

Uns animais são mais dóceis, mais espertos, mais arredios, mais ciumentos, tudo dependendo das experiências que viveram e que vão muito além da dor.
- Antes de chegar ao estágio humano, o animal passa por todos os outros reinos e por todas as espécies, não é?
- Sim. Tudo no universo está em constante evolução.
- E como se dá a evolução da alma-grupo dos animais?
- Os primeiros animais de cada família, que se seguiram à condição de vegetais, estão muito próximos das camadas mais rudimentares da evolução, ainda bastante selvagens, agressivos, sanguinários.
Com a transposição de uma alma-grupo para outra, mais avançada, o somatório das experiências adquiridas vai lhes conferindo cada vez mais habilidades, atenuando o mais primitivo dos instintos, que é o de sobrevivência, através do desenvolvimento da socialização, da prudência e da astúcia, dentre outros.
Chegando ao mamífero doméstico, o que temos é um animal sociável, cujos instintos são influenciados pelos sentimentos, pelo aprimoramento da inteligência e, sobretudo, pelo contacto com o ser humano.
- Como é isso, Germano?
As almas-grupo, quero dizer.
De que são feitas?
- Da matéria cósmica retirada do universo, como tudo o mais.
Só que essa matéria é muito fina e elástica.
Com ela, se forma o envoltório dentro do qual se acomoda a essência colectiva.
E como essa matéria não é sólida nem indivisível, chega uma hora em que ela se divide, embora as duas metades permaneçam ainda unidas.
Cada novo ser, então, é retirado de uma das partes e a ela sempre devolvido, com suas experiências.
Essa divisão é realizada por uma espécie de membrana muito delgada e semipermeável, que permite a fluência de experiências entre ambas as metades.
Com o tempo, esse vaivém de experiências acaba condensando aquela película até o ponto em que não é mais possível a transição entre as duas metades.
Quando isso acontece, o invólucro se rompe, e cada metade ganha novo status, alçada, agora, a uma nova espécie.
Esse processo torna a se repetir da mesma maneira, acolhendo almas-grupos de outras espécies, e assim, sucessivamente.
A cada vez que se divide, multiplicam-se as espécies e diminui o número de corpos em cada grupo.
Por isso, ao alcançar animais de maior complexidade, cada alma-grupo abriga um número bem menor de vidas em potencial.
São destas que nascem os animais domésticos, cuja última fragmentação importa na individualização do ser, que está pronto para ingressar nas vivências humanas.
Como esse grupo é relativamente pequeno, as vidas que dali surgem concentram toda a gama de experiências das espécies que lhes antecederam.
Somadas à influência humana, essas experiências conferem ao animal certos atributos próprios do homem, que vão desde o ódio ao amor.
Vibrados aos extremos, esses sentimentos são capazes de levar à individualização prematura do animal.
- Como assim?
- A violência pode provocar no animal um pavor intenso, que evolui para o ódio.
Essa intensidade é de tal ordem, que ele não consegue mais se reunir ao grupo, tornando-se uma espécie de centelha desgarrada.
Pronto. Está individualizado.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 15, 2017 10:24 am

Quando reencarnar, muito provavelmente será um indivíduo rancoroso, vingativo, com tendência ao crime e à marginalidade.
Por outro lado, doses excessivas de amor acendem uma luminosidade no chacra cardíaco do animal, onde vibram o amor incondicional, a generosidade, a gratidão, o altruísmo e a compaixão.
Nesse ponto, é impossível, para o animal, voltar atrás com o despertar desse chacra, que o torna único dentro da espécie a que pertence.
Daí vem um ser humano bondoso, amável, caridoso.
- E o que acontece com eles?
Reencarnam imediatamente como pessoas?
- Não. Para que isso aconteça, ainda vai levar algum tempo, durante o qual eles permanecem no mundo astral.
Há muitos animais domésticos nessa condição.
É por isso que algumas pessoas vêem o espírito de seus antigos mascotes e companheiros.
Eles continuam no plano espiritual, mas não ficam perdidos.
São recolhidos e tratados.
Muitos permanecem sob os cuidados de algum parente ou amigo de seu antigo dono, junto de quem aguardam seu retorno.
- Podem reencarnar?
- Podem. Existem animais que reencarnam na mesma família, para ajudar alguém a vencer alguma experiência que precisa viver na Terra, como cães de cegos, por exemplo.
Ou pode ser que a própria pessoa mereça ter aquele animalzinho a seu lado novamente, o que é permitido e acontece.
— E as cobaias de laboratório?
Foi graças ao sacrifício de muitos animais que a medicina alcançou tantos avanços.
— É verdade.
Esse talvez tenha sido um mal necessário, do qual o homem abusou para extravasar sua crueldade.
- Mas de que outro jeito deveria tratá-los, sabendo que os cria para sofrer ou morrer?
- Com respeito e dignidade.
Com reconhecimento e gratidão.
Se, por um lado, esses animais são sacrificados em nome da ciência, em circunstâncias, muitas vezes, dolorosas e insensíveis, por outro, são imediatamente socorridos, anestesiados fisicamente, a fim de não sentirem dor, e encaminhados a postos de socorro astral, onde permanecem por muito tempo, até retornarem à sua essência.
— Mas nem sempre eles são sacrificados.
E os que sobrevivem em condições inumanas, apresentando defeitos físicos, lacerações e chagas, tanto físicas quanto psíquicas?
— Os encarnados não sabem e não vêem, mas esses animais estão em constante atendimento.
Existem veterinários astrais encarregados de cuidar deles, minorando, na medida do possível, suas dores e sofrimentos.
Muitos, inclusive, só se acalmam quando percebem a presença dos espíritos ao seu redor ou sentem-lhes as mãos sobre a cabecinha.
- Que coisa triste!
- Hoje a consciência das pessoas está se modificando, e existem vários movimentos direccionados aos direitos dos animais.
Com a descoberta de novos métodos de pesquisa, o uso de cobaias vai sendo aos poucos abolido, até que, no futuro, seja totalmente eliminado.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 15, 2017 10:25 am

— Que métodos seriam esses?
— Métodos que utilizam células in vitro e programas de computador capazes de calcular a reacção de determinadas substâncias no organismo humano.
Toda a colectividade científica deveria abrir os olhos para essa questão e investir na utilização não apenas desses processos, mas de outros que possam substituir a utilização de animais.
Após alguns momentos de reflexão, Lucélia retomou suas perguntas:
- E os animais que servem de sacrifício em rituais religiosos?
Isso está certo?
- Não está certo nem errado.
Para alguns, é necessário.
Para outros, não.
Esses animais, normalmente, são preparados para não sentir dor, tanto pelos que realizam o sacrifício, quanto pelos espíritos presentes.
E existem pessoas que precisam dessa energia vital para potencializar sua capacidade de empreender realizações no mundo da matéria.
- Existem correntes espiritualistas na Terra que divergem quanto à natureza da alma animal.
Segundo algumas, a alma dos animais é individual, ao passo que outras afirmam que é grupai.
Qual delas está certa, afinal?
- Todas estão corretas.
O que acontece é que cada uma enfoca a questão em momentos distintos.
Os animais possuem alma colectiva e se individualizam por meio do contacto com o ser humano.
A partir daí, não retornam mais ao grupo, o que acontece na grande maioria dos casos relacionados aos animais domésticos.
Por isso, quem ama ou amou seus bichinhos não precisa ficar preocupado, achando que eles vão sumir e se esquecer de seus donos.
O amor, principalmente, os torna únicos, e eles guardarão, na vida espiritual, a lembrança daqueles que tanto os amaram.
- Você fala dessas coisas com tanto sentimento! — observou Lucélia, admirada.
Foi você que escolheu trabalhar com eles?
- Sim. Eu amo os animais e, por isso, após um período de preparação, vim parar nessa cidade astral, carinhosamente denominada por nós de Nosso Pet, em homenagem à famosa colónia Nosso Lar, onde me dedico ao socorro e ao cuidado de animais desencarnados.
- Você não sabe como essa nossa conversa foi útil, Germano.
Como eu gostaria que meu filho o conhecesse!
Se estivesse aqui e ouvisse você falar, não ficaria tão revoltado.
— Tenho certeza de que, no momento certo, nós nos encontraremos.
- E o Tostão?
Queria poder levar notícias do cachorro a Moisés.
- Você terá, eu prometo.
Vou descobrir quem o acolheu.
Só não faço isso agora porque tenho um dever a cumprir.
- Obrigada - falou ela, emocionada.
Sem você, eu estaria perdida.
- Foi um prazer ajudá-la.
É um prazer maior ainda ganhar sua amizade.
Lucélia apertou as mãos de Germano, segurando lágrimas de emoção.
Num halo de luz, ele desapareceu.
Ela não se arrependia de ter ido a Nosso Pet, cuja existência, até bem pouco tempo, lhe era desconhecida.
E Germano a recebera muito bem.
Ela confiou nele desde o primeiro momento.
Em seu coração, a chama da esperança aquecia seu amor de mãe.
Em breve, tinha certeza de que estaria em condições de oferecer ao filho a ajuda de que ele precisava.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 15, 2017 10:25 am

Capítulo 7
A todo instante, com crescente impaciência, Lizandra consultava o relógio, maldizendo os minutos, por passarem tão devagar.
Já consumira duas águas minerais e uma Coca-Cola.
Agora pensava em pedir um suco de laranja, só para justificar sua estada no barzinho.
O caso é que não aguentava mais tanta bebida.
A bexiga começava a inflar, mas ela não podia se dar ao luxo de sair para ir ao banheiro, pois Danilo podia aparecer nesse meio-tempo.
Passava das duas horas, e nada.
Ela sabia que ele costumava sair tarde para almoçar.
Não se enganara.
Assim que terminou de olhar as horas pela milésima vez, ele surgiu na portaria.
Ela tirou uma nota de cinquenta da carteira e jogou sobre a mesa.
Era muito, mas cobriria as despesas, sem que ela tivesse que esperar.
Fez sinal para o garçom, indicando o dinheiro, e, após murmurar um “pode ficar com o troco” apressado, saiu.
- Danilo — ela chamou, tocando em seu ombro.
O médico se virou, contrariado.
Já esperava por aquele momento.
- Oi, Lizandra.
Tudo bem?
- O que você acha? - foi a resposta irritada.
Há dias estou esperando pelo seu contacto, e nada.
Você faltou ao encontro comigo e não me deu a menor satisfação.
- Sinto muito.
Tive uma emergência.
- Não podia ter avisado?
- Eu me esqueci.
- É claro que não se esqueceu.
Você, simplesmente, resolveu me ignorar.
Porquê? Não gosta mais de mim?
Aquele não era momento para mentiras.
Segurando Lizandra pelo braço, ele a conduziu para o barzinho onde ela estivera, sentando-se com ela à mesma mesa.
- Está na hora do meu almoço — comentou ele.
Não posso me demorar.
Pediu um sanduíche e um suco.
Enquanto aguardava, olhou para ela, tentando ganhar coragem para pôr um basta naquela situação.
- Bem - começou ela, indicando que aguardava que ele iniciasse a conversa.
Não vai dizer nada?
Após tamborilar na mesa com os dedos por alguns segundos, ele se decidiu.
Não podia esperar mais.
— A verdade, Lizandra, é que eu e Marília estamos nos entendendo.
Olhou para ela, experimentando o efeito de suas palavras, mas ela se manteve fria, encarando-o com aparente indiferença.
- Descobri que ainda a amo e quero dar uma outra chance ao nosso casamento.
- Dar uma chance à sua mulher sem sal e sem ambição? - tornou, ainda sem aparentar emoção.
- Não fale assim.
Você não a conhece.
Marília é uma mulher incrível...
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 15, 2017 10:25 am

- Incrível?
Até outro dia, ela era chata, sem graça e cheirava a cebola.
O que aconteceu?
Tomou um banho de loja ou o génio da lâmpada lhe deu de presente um perfume francês?
- Não precisa ser sarcástica.
- Não estou sendo — rebateu, com frieza.
Estou apenas repetindo as suas palavras.
- Isso foi antes de conversarmos.
Na verdade, eu é que não prestava atenção à minha mulher.
Porque ela é secretária, julguei-a mal, achando que se contentava com um empreguinho e com o papel de doméstica.
Mas Marília é uma alta secretária executiva, fez duas faculdades e domina três idiomas.
Isso não a impede de gostar de cozinhar, de cuidar da casa e da família.
Ela tem um jeito meio sério de se vestir, o que não significa que seja desleixada.
Ao contrário, é bonita, elegante e muito, mas muito inteligente.
Sem contar que ganha tão bem quanto eu.
- É disso que se trata, então?
De dinheiro?
- Não. Só falei isso para que você compreenda a importância da profissão dela.
Não quero o dinheiro de Marília.
- Ah, bom...
Porque, dinheiro por dinheiro, eu tenho mais.
- Você não trabalha.
Um leve rubor coloriu as faces de Lizandra, derretendo um pouco da geleira que ela fixara em seu olhar.
- Você agora quer inverter as posições?
Sua mulher passou a ser interessante, e eu, o estropício?
- É você quem está dizendo.
Em momento algum pensei coisa semelhante.
Vocês duas são diferentes.
- Sei. Agora, ela é a intelectual engraçadinha, e eu, a gostosona burra. É isso?
- Não! - exclamou ele, irritado, quase derrubando o copo que o garçom acabara de colocar à sua frente.
- Se não é isso, então, o que é?
Danilo esperou o garçom terminar de servi-lo e se afastar, para então responder:
- Eu amo Marília.
Estava passando por uma fase ruim, mas agora as coisas estão entrando nos eixos.
São dezassete anos de casamento, temos dois filhos maravilhosos.
Não posso, simplesmente, jogar tudo para o alto.
- Então, preferiu jogar a mim, a amante descartável. Cachorro!
- Pare com isso, Lizandra.
Você também é casada, tem um filho.
Não quer estragar seu casamento, quer?
- Isso não vem ao caso.
Vítor é um idiota.
- Se é assim, porque não se separa dele?
- Você sabe que não posso.
Todo o património dele é anterior ao casamento.
Eu não tenho nada.
- Pode pedir pensão.
Ou pode trabalhar.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 15, 2017 10:25 am

Você não fez faculdade?
- De filosofia.
Acha que vou ser professora nesse país de m...?
Calou-se, antes de completar o palavrão, pois sabia que Danilo não gostava de mulheres com linguajar chulo.
- Melhor ser professora do que viver à custa dos outros — retrucou ele.
- Os outros, no caso, é o meu marido.
Ele tem obrigação de me sustentar.
- Se você se contenta com isso, mais um motivo para não estragar seu casamento.
E o melhor que temos a fazer é terminar tudo agora, antes que façamos alguma coisa da qual nos arrependamos depois.
- Você tem razão.
Não tenho a mínima intenção de estragar meu casamento.
Mas também não estou com a menor vontade de terminar tudo agora.
Acho que podemos continuar como estávamos.
Meu marido não sabe, sua mulher também não.
O que eles não vêem não pode magoá-los.
- Infelizmente, não penso mais assim.
Estou decidido a acertar as coisas com Marília e aconselho você a fazer o mesmo com Vítor.
- Deixe que, do meu casamento, cuido eu.
- Óptimo. Assim como eu estou tentando cuidar do meu.
E é por isso que não podemos mais nos encontrar.
- Você não pode fazer isso!
- É claro que posso.
Assim como você também poderia, se quisesse.
- Mas eu não quero.
- Sinto muito.
É como tem que ser.
Não quero que você fique magoada.
Você é uma mulher sensacional, mas acabou.
Guardarei boas lembranças do tempo em que estivemos juntos.
- Não precisa ser cliché nem piegas.
Você vai me esquecer assim que eu virar as costas.
- Você também vai me esquecer.
Nós vivemos uma aventura, Lizandra, nada mais do que isso.
Não há amor na nossa relação.
- Fale por você.
- Não acredito que você me ame.
- Isso parece mesmo impossível, não é?
Sendo você quem é.
Mas o facto é que eu o amo.
Amo e não vou abrir mão de você.
- Infelizmente, você não tem escolha.
Toda relação pressupõe acordo de duas vontades.
Quando uma falha, a relação se desfaz.
- Eu não acredito que você está fazendo isso comigo - ela choramingou, finalmente desabando em lágrimas.
- Por favor, Lizandra, não chore.
A vida é assim. Podemos ser amigos.
— Não quero ser sua amiga.
Quero mais.
— Não me peça o que não posso mais lhe dar.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 15, 2017 10:26 am

— Não me conformo, Danilo.
Marília não é mulher para você.
Aposto que nem na cama ela é boa.
Deve ser uma geladeira.
— Isso não importa.
Nós nos amamos.
— Não, Danilo, é a mim que você ama.
Sei que é.
Você só está confuso, eu entendo.
Mas isso vai passar.
Marília vai continuar sendo aquela dona de casa insossa, e você logo vai enjoar dela.
Ela mudou o tom de voz, assumindo um ar mais agressivo:
- Quando isso acontecer, não venha correndo para mim.
— Não virei, porque não vai acontecer.
Um turbilhão de sentimentos se confundiu no coração de Lizandra, que passava do ódio à tristeza com a velocidade de um raio.
Indignação, revolta, medo, tudo se misturava no torvelinho de suas emoções.
Aos poucos, Lizandra foi se dando conta de que Danilo falava sério.
Tentava engolir os soluços, embora não com a mesma facilidade com que ele engolia o sanduíche.
Parecia que fazia um lanche com uma colega de trabalho, tamanha sua indiferença por ela.
— É sua última palavra? - questionou ela, a voz tremendo de raiva.
— É minha última palavra - confirmou ele.
Lizandra nem pensou.
Num gesto rápido, apanhou o copo praticamente cheio e atirou-o no rosto de Danilo.
Ele deu um salto para trás, mas não a tempo de evitar que se melasse todo de suco.
— Isso não vai ficar assim — rosnou ela.
Me aguarde!
Saiu batendo os saltos, esbarrando nas cadeiras ao redor.
Todos na lanchonete se viraram para Danilo, morto de vergonha.
O garçom tentou ajudá-lo a limpar a sujeira, mas não adiantou.
Danilo pagou a conta e voltou para o consultório, às pressas.
Lavou-se no banheiro o melhor que pôde, vestindo o jaleco por cima da camisa.
— Está tudo bem, Dr. Danilo? — Sílvia indagou, preocupada.
— Tudo. Foi só um acidente.
De acidente, aquele episódio não tinha nada.
Lizandra demonstrara o que ele podia esperar.
Não seria fácil romper definitivamente com ela, mas não tinha jeito.
Mais cedo ou mais tarde, Lizandra teria que aceitar.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 15, 2017 10:26 am

Capítulo 8
Do hall de entrada, Lizandra escutou os latidos de Billy, junto às gargalhadas de Rodrigo e de Vítor.
Só de ouvir aquele cão idiota, sentiu raiva.
Com tudo o que estava passando, ainda tinha que aturar aquele filhote endiabrado.
Assim que ela abriu a porta, quase foi jogada ao chão pelo cachorro, que saltou sobre ela para lamber-lhe o rosto.
Não estivesse segurando na maçaneta, teria mesmo caído.
Um rubor de ódio incendiou seu coração, estampando-o em sua face afogueada.
- Tire esse cachorro de cima de mim! - berrou para Rodrigo.
- Billy, vem — chamou o menino, ao que o cão logo obedeceu.
Vamos jogar bola no terraço.
- Nada disso!
Não quero bola aqui.
Pode quebrar alguma coisa.
- Mas mãe, ele adora jogar bola.
- Já disse que não!
Trate de arranjar outra brincadeira.
Não aguento mais esse animal!
Não sei onde estava com a cabeça quando concordei em comprar essa coisa!
- Seja paciente, Lizandra - intercedeu Vítor.
Ele ainda é filhote.
Estou procurando um adestrador.
Billy aprende rápido e vai saber se comportar.
- Acho bom.
Ou eu o devolvo para a loja.
- Mãe! - exclamou o menino, levando a mão à boca.
Você não pode fazer isso.
Dizem que eles sacrificam os animais que ficam encalhados.
- Bobagem. Você acha que eles vão perder dinheiro?
- É verdade, querida - concordou Vítor.
Quando um cão é devolvido, pode ficar encalhado e, na maioria das vezes, é sacrificado.
Normalmente, as devoluções ocorrem por doenças preexistentes e por não serem de raça pura.
No seu caso, todavia, não iam aceitar Billy de volta.
Ele é saudável e é um legítimo border collie.
- Ele é uma graça, né? - disse Rodrigo, embevecido com o cão.
Olha só o olho dele, papai!
Não é lindo?
- Realmente - concordou Vítor, analisando o olho direito do cachorro, onde uma pequena e brilhante mancha preta sobressaía na íris castanha, cuja aparência era de uma camurça marrom-claro texturizada.
Muito bonito mesmo.
- Tudo bem — Lizandra prosseguiu, esganiçada.
Existem outros meios de me livrar dele.
- Não, mãe! - protestou o garoto.
Você não está pensando em fazer com ele o que fez com a Suzy, está?
Ela não respondeu, mas Vítor falou por ela:
- É claro que não, não é, amor?
Você não vai fazer isso, vai?
Esqueceu-se de como Rodrigo ficou traumatizado?
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 15, 2017 10:26 am

Lizandra optou por não responder.
Se falasse, corria o risco de descontar em todos a sua frustração.
- Também não vai fazer que nem a mulher do Biruta, vai? — indagou Rodrigo.
- Que Biruta é esse?
- É um conto da Lygia Fagundes Telles.
Biruta era o cachorro do menino que uma mulher chamada dona Zulu criava.
Como era muito bagunceiro, no dia de Natal, a mulher inventou que ia levá-lo a uma festa onde havia um menino doente, para distrair o menino, sabe?
Só que era mentira.
A empregada acabou contando que o Biruta não ia voltar.
Ele tinha roído uma meia, e a tal da dona Zulu ficou furiosa, e inventou aquela história de menino doente só para poder soltar o cachorro longe.
Aí, o menino pegou a bolinha que tinha comprado para o Biruta de Natal e apertou-a com força no coração...
Ele se calou, a voz embargada, visivelmente emocionado com a história.
- Onde você ouviu isso? - Lizandra, impressionada, quis saber.
- Na escola.
- Isso lá é história que se conte para crianças? - esbracejou.
Onde já se viu?
Só para deixar o menino impressionado e triste.
Vou reclamar com a professora amanhã mesmo.
- Pelo amor de Deus, não seja ignorante, Lizandra! - censurou Vítor.
É um conto clássico, você não vai dar uma de burra na escola, vai?
- Mas, agora, Rodrigo está pensando que vou fazer a mesma coisa! - queixou-se.
- E você vai? - insistiu ele, os olhinhos brilhantes.
- É claro que não — afirmou ela, embora sem muita convicção.
Isso é só uma história, Rodrigo.
Não sou essa tal de dona sei lá o quê.
- Dona Zulu.
- Alguma vez eu menti para você? - Ele não respondeu.
Menti?
- Não.
- Quando levei a Suzy, foi na sua frente, não foi?
Ele assentiu.
— Em momento algum inventei uma história dessas para levar a gata às escondidas.
- Fiquei tão triste!
- Você sabe que me arrependi do que fiz, mas agora já era.
- Eu sei. Não vamos mais falar da Suzy.
Dá uma tristeza...
- Acho melhor deixarmos essa história para lá - sugeriu Vítor, abraçando o filho.
O que importa é que Billy não é esse Biruta e não vai a lugar nenhum.
Ele já é parte da família.
- Viu, mãe?
Papai sabe que ele é da família.
- Vocês dois estão contra mim, não estão?
Ela conseguiu até esboçar um sorriso.
- Tudo bem. Sei quando estou vencida.
Billy é da família.
Será que agora podemos jantar?
Estou morrendo de fome.
- Anita deixou lasanha — avisou o menino.
- Lasanha? Porquê?
Não foi isso que eu mandei fazer.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 15, 2017 10:26 am

- Porque eu pedi — retrucou ele com voz baixa, quase como a pedir desculpas.
Mais uma vez, ela sentiu a costumeira irritação absorver seu humor.
Rodrigo não podia desdizer suas ordens.
Pensou em repreendê-lo, mas o olhar de censura de Vítor a desencorajou.
- Tudo bem, meu filho — disse ele.
Eu também adoro lasanha.
- Engorda pra burro — comentou ela - mas tudo bem. Vamos lá.
Os três, juntos, puseram a mesa, sempre acompanhados de Billy.
A presença do cachorro era suficiente para deixar Lizandra irritada, mas ela precisava se controlar.
Usava o animal como bode expiatório, descontando nele a raiva que a fazia tremer.
A história do tal Biruta, porém, a incomodou.
Vira-se espelhada nas palavras daquele conto.
Podia ser estourada, impaciente, impulsiva, mas amava o filho acima de tudo.
A sua maneira exasperada, sentia por ele um amor profundo, que lhe causava remorso, enchendo-a de culpa cada vez que o magoava.
Não devia ter lhe comprado aquele cachorro, porém, agora era tarde demais.
O cão estava ali, e Rodrigo o adorava.
Apenas pelo filho, precisava conter a irritação, para tolerar a presença do animal sem perder a cabeça.
Por Rodrigo, se esforçaria ao máximo para tratar bem o cão, ainda que isso lhe custasse a tranquilidade e a paciência.
Mais tarde, quando se recolheram, Rodrigo levou Billy para o quarto, permitindo que ele deitasse em sua cama.
- Não deixe mamãe saber - sussurrou, abraçando-se ao cão.
Enquanto isso, Vítor tentava despertar algum desejo em Lizandra, beijando-a e fazendo carícias provocantes.
Ela, contudo, empurrou-o para o lado, falando com fingida doçura:
- Hoje não. Estou cansada.
- Cansada de quê, Lizandra? — perguntou ele, sentando-se na cama e acendendo o abajur.
Você não faz nada.
Passa o dia badalando na rua.
Mal olha o seu filho, que está, praticamente, sendo criado pela Anita.
Graças a Deus que nós temos uma boa empregada, se não, não sei o que seria desse menino.
A voz dele saía carregada de uma exasperação que parecia contida há muito tempo.
Duas brigas num dia só, ela não aguentaria.
Bastava a discussão com Danilo.
Tinha agora que aturar as cobranças de Vítor?
- Porque está tão aborrecido? - retrucou ela, fingindo-se magoada.
O que foi que eu fiz?
- Nada. O problema é esse.
Você não faz nada.
- Como assim?
O que você queria que eu fizesse?
Quando nos casamos, você concordou que eu não precisava trabalhar.
- Verdade.
Mas também não precisa ficar à toa, batendo perna pela cidade.
Nem sei onde você anda o dia inteiro.
- Está desconfiando de mim?
- Não se trata disso.
Eu só acho que você devia dar um pouco mais de atenção ao nosso filho e a mim.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 16, 2017 12:04 pm

- Dou atenção suficiente aos dois.
- Você sabe que não dá.
Rodrigo passa o dia sozinho, e eu... parece até que não tenho mulher.
- O que quer dizer com isso?
- Quero dizer que você tem me evitado.
Sempre que a procuro, você inventa que está cansada ou com dor de cabeça.
O que está acontecendo?
Não sente mais desejo por mim?
Era quase uma reprise de sua conversa com Danilo, um filme de muito mau gosto.
- Dá um tempo, Vítor! - reclamou ela.
Quero dormir.
- Porque você está fugindo do assunto?
É porque tenho razão?
- Razão em quê?
- Você está estranha, distante, fria.
Parece não sentir mais nada por mim.
- Pelo amor de Deus, Vítor, pare com isso!
Você está inventando coisas.
Sou a mesma de sempre.
- Você quer dizer que não anda esquisita?
- Não... — Até que uma ideia brotou em seu pensamento, e ela admitiu:
— Muito bem, se quer saber mesmo, eu não aguento mais esse cachorro.
Ele está me tirando do sério.
- Que desculpa mais esfarrapada.
Colocar a culpa no Billy é uma covardia.
- Não é que seja culpa do Billy.
É que eu não gosto de animais.
Você sabe disso.
- Se não gosta, por que o comprou?
- Porque o Rodrigo insistiu.
- Não exactamente, não é, Lizandra?
Você comprou o Billy para que o Rodrigo a deixasse em paz.
- Que absurdo!
Você fala como se eu não gostasse de nosso filho.
- Você gosta, mas não tem paciência com ele.
Um cão para distraí-lo deixaria você ainda mais à vontade.
- Não é nada disso.
- Será que não?
Eu, que trabalho fora o dia inteiro, passo mais tempo com ele do que você.
Por isso mesmo, estou até pensando em tirar umas férias.
- Férias?
E quem vai cuidar dos negócios?
- O vice-presidente, é claro.
E toda a minha directoria.
Ninguém é insubstituível.
Vítor era dono de uma extensa cadeia de postos de gasolina, negócio que fora iniciado por seu avô e passara ao pai, que tratou de adquirir novas franquias, espalhando seus postos pelo país inteiro.
Com a morte do pai, Vítor herdara metade da companhia, a quem coube ainda administrar a parte da mãe.
Era um homem honesto, bom, muito rico e muito generoso também.
- E para quando é isso?
- Para a semana que vem.
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Ave sem Ninho

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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 16, 2017 12:05 pm

E estou pensando em reduzir meu horário de trabalho também.
Rodrigo precisa de mim.
- Faça como achar melhor.
Ela virou para o lado e apagou o abajur.
- Boa noite.
- Boa noite.
Mas não pense que esqueci a nossa conversa.
Não é porque você me distraiu falando de Rodrigo e de Billy que vou deixar passar o assunto.
Continuaremos amanhã.
Era uma sorte Vítor não poder sentir a raiva extravasando pelos poros de Lizandra.
Aquela, decididamente, era uma conversa que não lhe interessava.
No dia seguinte, o melhor seria tentar tolerar as carícias do marido.
Se era sexo que ele queria, era sexo que iria ter.
Como se isso fosse tudo que Vítor desejasse de sua mulher.
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Ave sem Ninho

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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 16, 2017 12:05 pm

Capítulo 9
Segurando firmemente Nina no colo, Larissa subiu correndo as escadas que levavam à casa na árvore.
Mais atrás, veio André, galgando os degraus de par em par.
- Cheguei primeiro - cantarolou ela.
- Não valeu, Larissa, você me empurrou.
- Eu não empurrei!
Só cheguei você para o lado.
- Engraçadinha.
Como todo gato, Nina não gostava de colo e começou a se debater nos braços da menina, que falou às pressas:
- Fecha a porta.
André obedeceu e Nina deu um salto do colo de Larissa, indo aninhar-se em sua almofada preferida.
- Tem a janela - observou André.
- Eu sei. Mas vamos tomar conta para que ela não saia, não é, Nina?
- Porque isso?
É por causa da sua avó?
- Ela não é minha avó! — irritou-se.
E é por causa dela, sim.
Mal chegou, já está de implicância comigo e com a Nina.
Vive enxotando a coitadinha.
- Velha chata - criticou André.
Minha mãe sempre diz que quem não gosta de bicho não é boa coisa.
- Sua mãe tem razão.
A velha Roberta é uma bruxa.
Tem até os dedos tortos, feito uma bruxa de verdade...
Antes que André tivesse tempo de responder, ouviram um toc, toc, toc surdo partindo do lado de fora.
Assustada com o ruído súbito, Larissa deu um salto para trás, gritando sem pensar:
— É a bruxa!
A voz da bruxa veio lá de baixo, em tom de recriminação:
— Estou ouvindo vocês dois.
Desçam já daí!
— E agora? — sussurrou André.
Larissa se levantou resoluta, debruçando-se sobre o peitoril da janelinha.
- Porquê? - indagou, confrontando Roberta.
- Porque eu estou mandando — respondeu ela, com irritação.
Onde já se viu, um menino e uma menina, sozinhos, trancados num barracão em cima da árvore?
- Não é um barracão - objectou Larissa.
É uma casa na árvore, e foi meu pai quem fez.
E não estamos sozinhos.
Nina está com a gente.
- Nina?
— Minha gatinha.
E mesmo que estivéssemos só nós dois, qual o problema?
Minha mãe nunca se importou com isso.
— Sua mãe é uma irresponsável.
Mas eu vou consertar isso, ora se vou.
- Você não manda em mim.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 16, 2017 12:05 pm

- Em primeiro lugar, não é você.
É senhora. Trate de me respeitar.
Em segundo lugar, você é muito atrevida.
Não gosto de criança com nariz em pé.
Larissa ia responder, mas André a impediu.
— Acho melhor a gente obedecer.
- De jeito nenhum!
Não vou deixar essa bruaca velha mandar em mim.
- Não quero me meter em encrencas.
— Você não vai - e, voltando-se para a janela, Larissa gritou:
— Não vou sair agora.
E se quer que eu desça, venha aqui me buscar!
Espumando de raiva e indignação, Roberta rodou nos calcanhares, claudicando com sua bengala em direcção à casa.
Nunca vira criança tão desaforada.
Era tudo culpa de Priscila, que não lhe dava educação.
- Priscila! - esbracejou ela, entrando na cozinha.
A nora teve um sobressalto tão grande que quase deixou cair a colher de pau dentro do arroz, levantando água quente por todo lado.
- Meu Deus, dona Roberta, que susto!
- Você precisa dar um jeito nessa menina - queixou-se, ignorando o estrago que, por pouco, não ocasionara.
- Ela não tem um pingo de educação.
- Quem? Larissa?
- Existe outra menina por aqui?
- O que foi que ela fez?
- Está trancada naquela casa horrorosa, com aquele menino aí do lado, fazendo sabe-se lá o quê.
- O que acha que eles podem estar fazendo?
São duas crianças!
- Você sabe tão bem quanto eu que as crianças hoje em dia são muito precoces.
Aposto como ela já mostrou as calcinhas para ele.
- Que mente imunda, dona Roberta! — censurou Priscila, enojada.
Eles só pensam em brincar.
- Você é muito tola mesmo.
Eles ficam lá dentro sozinhos, com a porta fechada.
Se não estivessem fazendo nada, não deixariam a porta aberta?
- Larissa fecha a porta quando não quer que a Nina fuja.
- Muito conveniente.
Como se gato não pulasse a janela.
Priscila engoliu a raiva e preferiu não responder.
- Sem contar que ela não tem um pingo de educação.
Ouvi quando me chamou de bruxa.
- Francamente, dona Roberta! - tornou Priscila, ocultando o riso.
Não vê que isso é coisa de criança?
- Criança sem educação, isso sim.
E também me chamou de você, em vez de senhora.
- Nós não ligamos para essas formalidades aqui em casa.
Larissa nos chama, a todos, de você.
- Está errado.
Você não me chama de senhora?
Meu filho não me chama de senhora?
Porque uma criança, que nem é minha neta, poderia me chamar de você?
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 16, 2017 12:05 pm

- Em nossa casa, não ligamos para isso - insistiu Priscila, visivelmente irritada.
E se nós a chamamos de senhora, é em respeito à sua idade e porque não conhece nossos costumes, já que não faz parte da minha família...
- Como se atreve? - interrompeu, esbracejando.
É claro que sou parte da sua família.
Não que isso me agrade, mas você se casou com o meu filho, apesar de eu ter sido contra.
Uma viúva, com uma filha...
Mas Ítalo insistiu, e acabei me conformando.
Então, quer você queira, quer não, sou parte da sua família, e é minha obrigação zelar para que as normas da boa conduta sejam obedecidas.
Coisa que, parece, ninguém ensinou à sua filha.
- Minha filha é muito bem-educada - rebateu ela, as faces rubras de raiva e vergonha.
O caso é que ela diz o que pensa.
- Aí é que está.
Criança não tem o direito de dizer o que pensa.
Isso se chama falta de educação.
- É uma questão de ponto de vista.
Eu já acho que Larissa é uma criança sincera.
- Sincera... Ela é mal-educada, insisto.
E aquele menino malcriado é um aproveitador.
- Quem? André?
Ora, faça-me o favor!
André é um amor de criança.
Conheço os pais dele desde que me mudei para cá, antes mesmo de ele e Larissa nascerem.
- Pois aposto como os pais dele são outros mal-educados.
Onde já se viu deixar uma criança largada pela rua?
-André não é uma criança largada!
Está sempre aqui em casa com a Larissa, porque eles gostam de ficar na casa da árvore.
É o refúgio deles.
- Refúgio de quê?
Da vigilância dos adultos, é claro.
Sem contar aquela gata horrorosa.
Gatos dão bronquite.
Vai ver, é por isso que vivo com falta de ar.
- Gatos não dão bronquite. Isso é lenda.
O que acontece é que algumas pessoas são alérgicas.
- Tanto faz.
O facto é que os pelos daquela gata me deixam com falta de ar.
É por isso que ela deve ir embora.
- O quê? De jeito nenhum!
Nina é o xodó da Larissa.
- Lugar de bicho é no quintal.
Você não devia permitir que ela entrasse em casa.
- Já disse que Nina é o xodó da Larissa.
Está acostumada a dormir na cama com ela.
Imagine se vou colocá-la para fora de casa.
- Você permite que uma gata que anda pela terra, sobe em árvores e se esfrega no chão durma com a sua filha na cama?
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

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