O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 29, 2017 9:40 am

Erguendo-se de um salto, Vítor soltou o cachorro e correu para perto de Rodrigo, que mantinha os olhos semicerrados.
Parecia que falava no sonho.
Após alguns segundos, vendo que Rodrigo não esboçava mais nenhuma reacção, Vítor voltou para a poltrona.
— Não vá embora, pai — o menino pediu, agora abrindo os olhos lentamente.
Tive um sonho esquisito.
— Estou aqui — ele retrucou, acariciando seus cabelos.
— Sonhei com o Billy, ou melhor, com o Bruce.
Só que ele era pequenininho... um filhote...
— E mesmo?
E foi um sonho ruim?
— Foi ruim porque foi um sonho.
Se fosse de verdade, seria bom.
— Com isso, você quer dizer que gostaria de ter um outro filhote de border collie?
- É... Seria bom.
Só que a mamãe nunca vai concordar.
Ela odeia cachorros.
Aparentemente, Rodrigo não se lembrava de nada do que havia acontecido na véspera.
Nem do presente, nem do cachorro, nem da convulsão.
Melhor assim.
Não precisavam torturá-lo, revivendo coisas ruins.
- Sua mãe está mudada, meu filho.
Ela quer o seu bem.
- Pode ser.
Mas duvido que...
Nesse momento, o filhotinho interrompeu a conversa.
Como se quisesse participar do assunto, saltou directamente para a cama, onde se deitou, de frente para o garoto, abanando o rabo como se estivesse pedindo permissão para fazer algum tipo de bagunça.
- O que é isso, pai? - espantou-se, levando a mão à boca para sufocar um grito de susto.
É o cachorro do meu sonho... mas então... não foi um sonho?
- Não foi um sonho — confirmou o pai.
Ele é tão de verdade quanto eu e você.
O barulho despertou Lizandra, que se sentou na cama, aos pés do menino.
Louco de vontade de segurar o cão, mas temendo ser repreendido por ela, Rodrigo congelou, recostado na cabeceira.
- Não quer segurar seu novo cachorrinho? - incentivou Lizandra, empurrando o filhote ao encontro dele.
- Mas... Mas... — balbuciava Rodrigo, entre excitado e temeroso.
- Ele é seu, meu filho - continuou ela, apanhando o cachorro para passá-lo ao garoto.
Pode pegar.
Rodrigo mantinha as mãos paralisadas embaixo das cobertas.
Não sabia se podia confiar na mãe.
Das outras vezes, também acontecera assim.
A mãe permitia que ele ficasse com o animal e depois o levava embora.
Não queria que aquilo se repetisse.
- Vamos, Rodrigo - estimulou Vítor.
Pegue-o. É seu.
Rodrigo não se mexia.
Balançou a cabeça de um lado a outro, recusando-se a tocar no animal.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 29, 2017 9:40 am

- O que há, Rodrigo? - perguntou Lizandra, temendo nova convulsão.
Não gosta mais de cachorros?
- Gosto — respondeu, sem demonstrar emoção.
- Então, por que não o pega?
Não era o que você queria?
Ou não quer mais um cachorro?
Quer que o leve embora?
Lizandra fez menção de segurar o cachorro, na esperança de que ele reagisse.
Foi exactamente o que aconteceu.
Entre o medo de nova decepção e a esperança de ter seu bichinho, a esperança falou mais alto.
- Não! - protestou ele, às pressas.
Quero que ele fique aqui comigo.
- Não vou levá-lo, filho — tranquilizou ela.
Era só brincadeira.
- Ele é meu mesmo?
Pai e mãe assentiram ao mesmo tempo.
— Mas mãe, você não gosta de cachorros.
E o border collie é o mais levado de todos.
Não quero gostar dele...
Não posso gostar dele...
Sempre que eu me apego a um bichinho, você acaba tirando-o de mim.
- Isso não vai mais acontecer — afirmou Lizandra, tentando transmitir a ele a confiança que sentia.
Nunca mais, eu prometo. Eu mudei.
Sou capaz de fazer qualquer coisa para que você seja feliz.
Você e seu pai.
Acrescentou a última frase propositalmente, esperando que Vítor notasse a intenção velada.
Se ele notou, não disse nada.
- Vamos lá, Rodrigo - disse o pai.
O que está esperando para agarrar essa fofurinha de cachorro?
Ele não esperou mais.
Estalou a língua e bateu na cama, chamando o cão para junto de si.
O animal obedeceu docilmente, abanando o rabinho em sinal de contentamento.
Rodrigo o pegou no colo.
Apesar de filhote, era grande e pesado.
- Ele pode se chamar Dave? - Rodrigo perguntou.
- E quem é Dave, posso saber? - questionou Lizandra, de bom humor.
- Dave Mustaine, vocalista do Megadeth - esclareceu Vítor.
Não é, Rodrigo?
- Isso mesmo.
- Nunca ouvi falar — declarou Lizandra.
- É porque você não gosta de rock - retrucou Vítor.
É uma banda famosa de metal.
- Desde quando Rodrigo gosta de rock?
- Não é que eu goste - esclareceu o menino.
É o André que gosta.
Ele deu o nome ao Bruce por causa do Bruce Dickinson, que é vocalista do Iron Maiden.
Só que, agora, ele disse que a banda preferida dele é o Megadeth, mas o Bruce já estava acostumado com o nome, e ele não podia mudar.
E como o André é meu amigo, resolvi fazer essa homenagem a ele.
- Que gesto bonito, meu filho! - Lizandra, realmente, emocionou-se.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 29, 2017 9:41 am

- E Dave é um nome bem legal - acrescentou Vítor.
Bela escolha, filho. Gostei.
Pelo visto, o cão também gostou, porque começou a latir, dando mostras de aprovação.
Em pouco tempo, Rodrigo já havia superado a crise.
Nem parecia que tivera uma convulsão.
À mesa do café, Dave sentou-se ao lado do menino, recolhendo os pedacinhos de peito de peru que ele lhe atirava, sob o olhar satisfeito e sem sinais de censura da mãe.
- Anita já sabe? - questionou Rodrigo.
- Ainda não - disse Lizandra.
Vai saber na segunda-feira.
- Podemos ir à casa do André? — tornou o menino.
Quero mostrar o Dave a ele e ao Bruce.
- Vamos ver.
- Ah... - decepcionou-se.
Porquê?
- Porque antes vou levá-lo ao médico.
Pode não ter sido nada, mas prefiro que o Dr. Danilo dê uma olhada em você.
- Médico para quê? - objectou o menino.
Estou bem.
- Sua mãe tem razão, meu filho - confirmou Vítor, sempre atento.
A saúde vem em primeiro lugar.
- Tá legal...
A consulta foi rápida, porém, minuciosa.
Pelo que haviam lhe informado a respeito do ocorrido com o novo cachorro, a conclusão que Danilo tirou foi de que se tratava de um episódio pontual.
Ainda assim, requereu os exames necessários, que nada de anormal acusariam.
Mais sossegados, voltaram para casa.
Ainda era cedo, daria tempo de levar Rodrigo para brincar com André.
No entanto, não era essa a vontade deles.
Sem que nada combinassem, ambos sentiam a mesma necessidade do refúgio em família, de partilhar momentos especiais na intimidade do lar, do qual faziam parte apenas eles três.
Quatro, na verdade.
Não podiam esquecer o cachorro.
Parecia que eles haviam se embrenhado por um caminho de ressentimentos tão profundo que não viam meios de retornar.
Como desfazer o que já estava feito, se é que isso ainda era possível?
O estrago fora irremediável e irreversível.
Ou será que não?
Talvez não fosse tão difícil.
Talvez tudo fosse bem mais fácil do que eles imaginavam.
Quem sabe não poderiam ir até o fim naquele caminho e deixar para trás, perdidas no emaranhado das encruzilhadas percorridas, as desilusões que coleccionaram ao longo da vida a dois?
Ambos perceberam ao mesmo tempo.
Não tinham que tentar remendar os buracos abertos em sua relação.
Se fizessem isso, nunca poderiam esquecer e superar, pois os remendos estariam ali, visíveis e palpáveis, apenas para fazê-los lembrar.
O que precisavam fazer era construir uma nova relação.
Pegar a antiga, com seus destroços e escombros, e guardá-la cuidadosamente em um canto da memória, para acessarem sempre que se vissem na iminência de repetir os equívocos do passado.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 29, 2017 9:41 am

A lembrança do que haviam sofrido serviria para evitar a reincidência.
Recomeçariam do zero, ergueriam as bases familiares sobre o arcabouço das experiências passadas, mas com expectativas renovadas e originais, sem medos, sem cobranças, sem ressentimentos.
Só com amor.
A algazarra de Rodrigo e Dave desfez o encanto dos devaneios.
Os dois agora corriam pela casa, saindo pela porta da cozinha e entrando pela da sala, tão livres e despreocupados, que os pais sentiram o corpo relaxar.
Tudo corria bem.
Estavam todos felizes.
Mas por quanto tempo?
Uma névoa encobriu parcialmente a alegria de Lizandra.
Apesar de a mente de Vítor trabalhar de forma bastante semelhante à dela, ele ainda não havia dividido com ela parte alguma de seus pensamentos.
Ela não sabia o que esperar dele.
Se dependesse só daquele momento, poderia jurar que as coisas retornariam a normalidade.
Mas ela sabia que alguns momentos são passageiros, porque são apenas o espelho de um sonho do qual não se quer acordar.
Como, porém, todos os sonhos morrem com a chegada da vigília, o espelho no qual eles se reflectem se parte, desfazendo o encanto que faz com que cada momento seja o melhor dentre os melhores da vida.
O que Lizandra mais temia era abrir os olhos de manhã e perceber que Vítor não estava mais ali.
Procurava não pensar, contudo, não se iludia.
Quando ela acordasse do sonho, não sabia o que iria encontrar.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Nov 29, 2017 9:41 am

Capítulo 55
A pensão até que não era ruim, e Roberta logo se acostumou. Podia não ser nenhum palácio, mas ali sentia-se em paz. Os hóspedes, em sua maioria, eram idosos solitários, saudáveis o bastante para evitarem o triste destino do asilo. Esse era um medo que ela sentia. Tinha pavor de morrer sozinha, longe do filho, longe da família.
- Sua mulher sabe que você vem me ver quase todos os dias? -indagou ela a Ítalo, que a ajudava a arrumar a cama.
- Sabe, claro. Não escondo nada de Priscila.
- Ainda bem. Não quero causar mais problemas do que já causei.
- Fique tranquila. Isso não vai acontecer.
- E a Larissa, como vai?
- Está praticamente curada.
- Graças a Deus! Tenho orado por ela todas as noites. Sinto muitas saudades dela.
- Ela sempre pergunta pela senhora. E o André também.
- Ele é um amor de menino. Gosto muito dele.
Fazia pouco mais de meia hora que ele havia chegado e já precisava partir. Visitava-a frequentemente, mas não podia demorar-se muito. Sempre que saía mais cedo de casa, passava lá a caminho do trabalho.
- Tenho que ir - avisou, consultando as horas. - Amanhã, trarei algumas frutas. Quer que traga pão e queijo também?
- Seria bom.
- Certo. Comporte-se até eu voltar, viu?
Ela procurou sorrir, pois era isso o que ele esperava que ela fizesse. Segurou nos lábios o sorriso até que ele saísse, quando então permitiu que ele se retraísse no rosto enrugado e carrancudo. Deu um suspiro profundo, que não significava nada além de resignação. A fim de não sentir o tempo passar, sentou-se na cadeira de balanço que levara com ela e ligou a televisão.
Assim que a imagem cintilou na tela, alguém bateu à porta. Além de Ítalo, Roberta não imaginava quem poderia ser. Era norma da pensão que estranhos não podiam subir sem ser anunciados. Pelo visto, Ítalo esquecera o celular e voltara para buscá-lo. Um pouco aborrecida, levantou-se com esforço, apanhou a bengala e foi atender.
Ao abrir a porta, estacou abismada, paralisada pela surpresa. Olhos arregalados, levou a mão à gola do vestido, apertando-a para se proteger.
- Posso entrar? - indagou Priscila, sem qualquer animosidade.
Mesmo com o choque, Roberta conseguiu se mover. Chegou para
o lado, franqueando passagem à nora.
- Veio à procura do Ítalo? — perguntou Roberta, tentando adivinhar o motivo da visita.
Ele não está mais aqui.
- Eu sei.
Vi quando ele saiu, a caminho do trabalho.
- Foi? — estranhou.
Porque não falou com ele?
E quem a deixou subir?
- Não falei com ele porque vim para falar com a senhora.
E me deixaram subir porque estive aqui algumas vezes, com Ítalo.
Todo mundo na portaria me conhece.
- E o que você tem para falar comigo, que Ítalo não pode saber?
- Não é que ele não possa saber.
É que quis fazer isso sozinha.
- Não sei aonde você quer chegar, Priscila.
E sou péssima em adivinhações.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 30, 2017 10:19 am

Por isso, será que você pode ser mais objectiva e falar de uma vez?
Meio sem jeito, Priscila caminhou pelo aposento, avaliando móveis e utensílios.
Dava a si mesma tempo de reorganizar as palavras, cujo sentido havia se perdido entre o caminho de casa e a pensão.
De tanto repetir o que iria dizer, acabara se esquecendo de tudo.
A mente, antes cheia de ideias, sem mais nem menos se esvaziou, e o monólogo ensaiado terminou como na perplexidade do escritor, que, de repente, se vê diante da tela em branco do computador.
- Desculpe, dona Roberta - começou ela, sentindo que gaguejava.
Ensaiei tanto esse momento e agora não sei por onde começar.
- Sei que é cliché, mas, que tal começar pelo começo?
- O começo.
Ah, se eu soubesse quando tudo começou...
Assim como haviam sumido, as palavras retornaram inesperadamente e, antes que desaparecessem outra vez, engolidas pela vergonha e o orgulho, Priscila disparou:
- A verdade, dona Roberta, é que acredito na senhora.
Sei que a senhora está sofrendo, que se arrependeu do que fez e se modificou.
Concluindo, gostaria que a senhora voltasse a morar connosco. Pronto.
Mais objectiva do que isso, impossível.
Os olhos de Roberta fixaram-se em Priscila, revelando o quanto estava abismada.
Será que não era apenas uma armadilha dos sonhos?
Quem sabe ainda estava na cadeira de balanço, adormecida diante de algum programa monótono na televisão?
- A senhora não diz nada? - acrescentou Priscila, questionando--se se acabaria se arrependendo de ter ido até ali.
- A verdade, Priscila, é que não sei o que dizer.
Você me pegou totalmente de surpresa.
- Essas coisas costumam ser assim mesmo.
Todo mundo que pensa e sente acaba sempre surpreendendo alguém.
E então? O que me diz?
Não quer voltar para casa comigo?
- Você sabe que eu quero.
Só tenho medo.
- Medo de quê? De mim?
De Larissa?
Ou de voltar a ser a mesma de antes?
- Isso não.
Quando alguém muda de verdade, nunca mais volta a ser o que era.
Se volta, é porque não mudou.
Apenas se impôs a mudança.
- Sábias palavras, dona Roberta.
Mas ainda espero sua resposta.
Parou de falar, surpreendida com a própria desconfiança, que tratou de externar:
— Ou a senhora tem medo de que eu é que não tenha mudado?
É isso? Acha que estou fingindo?
- Fingindo? Não.
Talvez esteja tentando se iludir, por causa de Ítalo.
- Não é bem assim.
Confesso que não foi fácil mudar de ideia e vir aqui pessoalmente.
É claro que essa decisão envolve o Ítalo.
Se eu não o amasse, não ligaria a mínima para os sentimentos dele.
Muito menos, para os da senhora.
Mas não é somente porque o amo que vim.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 30, 2017 10:19 am

Nem porque Larissa cisma em defender a senhora.
- Porque foi que veio, então? - Roberta viu-se obrigada a perguntar, já que Priscila emudeceu ante a hesitação.
- Porque... Droga, dona Roberta, porque somos todos humanos, porque temos o direito de errar e de acertar, porque não podemos permitir que o orgulho seja mais forte do que o perdão, porque todos merecemos uma segunda chance.
Os olhos de Roberta, ainda fixos nela, agora expressavam uma emoção que era o resultado da mistura entre admiração e contentamento.
- Você agora me deixou sem fala - tornou Roberta.
O que devo pensar de tudo isso?
- Que essa é nossa segunda chance.
Minha e sua.
Podemos nos esforçar para que tenhamos uma convivência pacífica.
Estou disposta a tentar.
A senhora está?
Roberta quis responder, mas foi impedida por um soluço abusado, que, desobedecendo a ordem de não chorar, atravessou-se em sua garganta.
Atrás do primeiro, vieram outros, e mais outros, até que o pranto acabou instalado.
Entre uma lágrima e outra, ela via o espanto no olhar de Priscila que, a essa altura, temia que a sogra passasse mal.
- Ah, minha filha... - balbuciou Roberta, abrindo os braços para acolher Priscila, como um dia, acolhera suas próprias filhas.
Rezei tanto por isso!
Poderia morrer nesse instante, que não me importaria, sabendo que você me perdoou.
- Não morra agora, por favor - contestou Priscila, meio troçando, meio preocupada.
Ainda existem muitas coisas boas que podemos compartilhar.
A sua ambrosia, por exemplo.
A minha não fica tão boa...
Era o jeito de Priscila diluir um pouco a comoção.
Muito emocionada, Roberta demorou a conter o pranto.
Acalmou-se devagar, ajudada pelas palavras amistosas de Priscila.
Não era uma pessoa dada a carícias exageradas, mas revelava o carinho no tom de voz equilibrado e na gentileza dos gestos.
Priscila sentou Roberta na cama.
Enquanto conversava com ela, arrumava sua mala.
Em pouco tempo, esvaziou o armário e as gavetas, recolheu o material de higiene do banheiro, aprontou tudo.
- Só falta a cadeira de balanço - comentou Priscila.
Ítalo dará um jeito de buscá-la depois.
Podemos ir?
- Podemos - assentiu Roberta, já com a bengala na mão, pronta para se levantar.
Ajudada pela nora, caminhou para a saída.
Queria sair dali o mais rápido que suas pernas doentes permitissem.
Não propriamente pela pensão, mas porque não estava acostumada a viver sozinha.
A solidão lhe parecia algo triste, sem esperança, quase tão ruim quanto a morte.
- Vai sentir saudades daqui? — indagou Priscila, em tom de brincadeira.
Roberta parou na porta e se virou, olhando para dentro do quarto.
Não ficara ali tempo suficiente para sentir saudades.
E mesmo que tivesse ficado, a sensação ainda seria de alívio.
- Saudade nenhuma — murmurou.
Virando-se novamente, apanhou o braço que Priscila lhe oferecia.
A passos vagarosos, ritmados pelas batidas abafadas da bengala no tapete, avançou pelo corredor.
Desceu as escadas e, enquanto descia, ouviu o som distante da porta, que se fechava lentamente.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 30, 2017 10:19 am

Capítulo 56
O movimento na casa de André era grande naquela tarde.
Afinal, não era todo dia que se faziam 10 anos.
Várias pessoas se espalhavam pelo quintal, sentadas em mesinhas onde era servido o churrasco.
André e Larissa haviam protestado contra o cardápio escolhido pelos adultos, que ia contra sua nova resolução de não comer mais carne.
Mas o pai o convencera, afirmando que era o mais prático e mais fácil de contentar todo mundo.
- Você e Larissa podem comer as outras coisas.
E sua mãe vai fazer uma macarronada, para acompanhar.
Ele estava no portão, recebendo alguns convidados, quando ouviu uma buzina do outro lado da rua.
Reconheceu o carro de Vítor, que trazia Rodrigo.
- Vai lá receber seu amigo - falou Isabela, entrando com os convidados.
André atravessou a rua com cuidado.
Aguardou até que Vítor estacionasse o carro para aproximar-se da porta traseira.
Quando Rodrigo a abriu, levou um susto.
Pelo vidro escuro da janela, não dava para ver o que ele trazia no colo.
- Meu Deus, Rodrigo! - exclamou, as mãos espalmadas sobre as duas faces, impedindo o queixo de cair.
É um filhote de border collie!
E é igualzinho ao Bruce!
O cachorro se remexia nos braços de Rodrigo.
Ajudado pelo pai, ele atou a coleira no pescoço do cão e colocou-o no chão.
- Esse é o Dave - anunciou.
De Dave Mustaine.
- Você colocou no seu cachorro o nome do meu vocalista preferido? - Ele assentiu.
Uau! Que máximo!
- Isso, porque somos amigos.
- Podemos entrar, crianças? - chamou Lizandra, estendendo ao filho o presente de André.
Atravessaram a rua juntos.
Do outro lado, Rodrigo entregou o presente a André, que o abriu com interesse.
- Obrigado, tia Lizandra - agradeceu, desembrulhando uma fita de videogame do Homem Aranha.
Adorei! Era o que eu queria.
- Foi Rodrigo quem escolheu - avisou ela.
- Gostei muito, Rodrigo, obrigado.
Isabela surgiu com Wilson, recebendo-os com entusiasmo.
Convidou-os para entrar, acomodando-os a uma mesa na sombra.
- Sirvam-se à vontade - falou Wilson, apontando para a mesa das comidas.
- Obrigado - disse Vítor.
- Sabemos que Rodrigo não come carne - acrescentou Isabela.
- André e Larissa agora também estão com essa ideia.
Para eles, fiz macarronada.
E tem outras coisas também.
Ela procurou Rodrigo, mas ele já havia desaparecido no fundo do quintal, correndo junto de André.
- Cadê o Bruce? - perguntou Rodrigo, buscando-o entre as pernas das pessoas.
Quero que ele conheça o Dave.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 30, 2017 10:20 am

- Aposto que ele está lá com a Larissa, comendo churrasco.
Era, exactamente, onde Bruce estava.
Sentado ao lado de Larissa, recebia dela pedacinhos de carne, que ele alternava com Nina, escondida embaixo da toalha.
- Oi, Larissa - cumprimentou Rodrigo, beijando-a nas duas faces.
E as queimaduras?
- Já estão curadas!
Não fiquei nem com cicatriz... — Calou-se, arregalando os olhos.
De quem é esse cachorro?
- É meu - informou Rodrigo, pegando o animal no colo.
Meus pais que me deram.
- Mas que gracinha! - elogiou Larissa, fazendo carinho na cabeça dele.
E é igualzinho ao Bruce!
- Vem cá, Bruce — chamou André.
Venha conhecer seu novo amigo.
Bruce o cheirou desconfiado, olhando para André com ar de interrogação.
O filhotinho ergueu a pata e acertou o focinho dele, que deu dois passos para trás.
Ofendido, latiu e mostrou os dentes, tentando impor liderança, até que abanou o rabo e desistiu dele, voltando para junto de Larissa.
Levado como todo filhote, Dave não aceitou a rápida desistência de Bruce.
Queria brincar.
Saltitou ao redor de Bruce, tentando morder suas patas.
Bruce não se incomodou.
De vez em quando, olhava para o filhote com ar indignado.
Quando muito, se afastava, para não ser mais mordido, mas voltava em seguida, atraído pela distribuição de carne que as crianças faziam.
Quem não gostou muito dele foi a Nina.
Como Dave nunca antes havia visto um gato, estranhou aquele bicho peludo, com cara engraçada.
Curioso, esticou o pescoço para cheirá-la, provocando uma reacção inesperada em Nina.
Assustada com o atrevimento do cachorro, ela fez uma corcova arrepiada e bufou zangadamente, abrindo as unhas para desferir-lhe uma fabulosa unhada no focinho.
O cãozinho soltou um ganido mais de indignação do que de dor, enquanto Nina saltava do colo de Larissa e fugia para o quintal vizinho, provavelmente para se esconder na casa da árvore.
A risada das crianças dissipou o medo de Dave, além de estimular a travessura de Bruce, que corria de um lado para outro, dando pequenas investidas no filhote, como se quisesse desafiá-lo para algum tipo de jogo.
Dave, que a princípio se mostrara assustado, aos poucos se tornou confiante e seguiu o cão maior até o fundo do quintal, onde puseram-se a correr, um atrás do outro.
À outra mesa, Lizandra e Vítor bebericavam suas cervejas, interessados na história que Isabela contava.
Em pé atrás da mulher, Wilson acrescentava um detalhe ou outro que fazia todo mundo rir.
A seu lado, Ítalo dava-lhe cutucadas amistosas, mandando que ele calasse a boca e parasse de interromper a mulher.
Em outra mesa, Priscila se ocupava em servir a Roberta um prato de comida, tentando explicar-lhe por que ela não podia comer mais linguiça:
- A senhora tem pressão alta.
Quer ir para o hospital e estragar a festa?
Em outros tempos, Roberta trataria de protestar.
Não aceitava que ninguém lhe dissesse o que podia ou não fazer.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 30, 2017 10:20 am

Mas a reprimenda da nora tinha outra conotação.
Era carinho misturado com preocupação, uma experiência nova, que fez dela uma pessoa feliz.
Os olhos que pousavam sobre as duas viam além do que qualquer um poderia entender.
Entre uma cutucada em Wilson e outra, Ítalo encarava a mulher e a mãe, consciente de que os gestos aparentemente simples de ambas eram o resultado do esforço mútuo que empreenderam para conquistar a tolerância e o perdão.
Toda vez que ele olhava para ela, Priscila, mesmo sem ver, percebia.
Ela olhava de volta e entregava a ele seu melhor sorriso.
Junto, vinham fagulhas de amor.
Terminada a história, Isabela e Wilson foram conferir os outros convidados, deixando Lizandra e Vítor sozinhos.
Ela pouco compreendera do que Isabela dissera.
Os pensamentos desviaram sua atenção para a trajectória de sua vida.
Seus olhos seguiam os caminhos do filho, atentos a qualquer alteração em seu comportamento.
- Feliz? - ela ouviu Vítor perguntar, ao mesmo tempo que ele alisava o dorso de sua mão.
- Estou. Fazia tempo que não via Rodrigo tão contente assim.
- É só por isso que está feliz?
Só por causa de Rodrigo?
— E não deveria estar?
Os exames de Rodrigo não acusaram nada.
O Dr. Danilo tinha razão.
Foi apenas um episódio isolado.
Não é para me sentir feliz?
— É claro que é!
Estamos ambos felizes.
Mas será que nossa felicidade, actualmente, se resume ao bem-estar de nosso filho?
— O que está querendo me dizer, Vítor?
Vá directo ao ponto.
— Somos uma família, Lizandra.
Quero que as coisas continuem assim.
Lizandra voltou-se para fitá-lo, logo percebendo um brilho diferente flutuando em seu olhar.
Não disse nada. Nem era preciso.
As palavras vieram, voltaram e adormeceram.
De um jeito tranquilo, feminino, doce e profundo, ela inspirou o perfume que emanava dele, fechou os olhos e, ao tornar a abri-los, não se surpreendeu ao vê-lo ainda ali, olhando-a com a mesma paixão de antes.
Envolvida na simbologia do antigo sonho, experimentou a sensação de despertar tentando reter a emoção do momento.
Nos olhos dele, viu reflectidos não apenas o tempo que se fora, mas o tempo que ainda viria a ser.
Soube, então, que viveriam juntos para sempre.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 30, 2017 10:20 am

Epílogo
Por toda parte, o que se via era a diversão inocente e contagiante.
Todo mundo feliz, momentaneamente esquecido dos problemas diários, ocupado com as risadas.
As crianças eram as que mais se divertiam, e havia muitas brincando juntas, correndo, jogando, fazendo novas amizades.
- Viu como estão todos felizes? - comentou Moisés, que havia se convidado para a festa.
- Estão mesmo - concordou Camélia, deitada com a cabeça no colo dele.
Pena que a gente não pode participar da diversão.
- Engano seu.
Eu estou participando.
- Você participa olhando? - tornou ela, um pouco irritada.
- É lógico!
Já viu coisa mais engraçada do que aquele garotinho ali? - e apontou para a criança.
Olhe só como faz careta para a irmã, sem ninguém ver.
Ela fica furiosa.
- Isso não tem graça, Moisés! — protestou ela.
A mãe dele devia dar-lhe uma palmada.
- Deixe de ser ranzinza.
Só porque sua última encarnação foi há séculos, esqueceu-se de como é ser criança?
Ela fez um muxoxo de reprovação.
Virou a cabeça para a frente, de mau humor, concentrando-se em seguir a algazarra.
Ficaram assim durante horas.
O vaivém das pessoas os distraía, as piadas os divertiam.
Junto com os encarnados, riram, discutiram, brigaram, fizeram as pazes.
Só não comeram nem beberam.
Não eram espíritos sanguessugas.
- O que é que a gente faz agora? — indagou Camélia, cansada de viver sem ser percebida.
- Como assim?
A gente faz o que sempre fez: nada.
- Estou cheia disso.
Quero fazer alguma coisa.
Alguma coisa útil.
Moisés olhou para ela.
Não disse nada, porém, foi forçado a admitir que sentia a mesma coisa.
As crianças passavam por eles em disparada, enquanto alguns adultos se refugiavam por ali para fumar escondidos.
- Essa gente não vê que está se matando — observou ele, espantando a fumaça com as duas mãos.
- Não adianta - objectou ela.
Essa fumaça é física.
Você não pode dissipar matéria física com mãos fluídicas.
- Será que não dá para a gente sair daqui?
- E ir para onde?
Para debaixo de outra árvore?
- Por que o mau humor, Camélia?
Você estava se divertindo.
- A diversão acabou.
Estou me sentindo vazia.
- É... no fundo, eu também.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 30, 2017 10:20 am

Está tudo resolvido, ninguém precisa mais de mim.
- E o Tostão?
Desistiu de procurá-lo?
- Há muito tempo.
Minha mãe tinha razão.
Ele deve mesmo ter retornado ao grupinho dele.
- Mais um motivo.
Vamos embora daqui, Moisés.
Vamos procurar outro lugar para a gente.
- Que lugar, Camélia?
Não temos para onde ir.
- Viu no que deu me tirar da casa de Lizandra?
Lá, pelo menos, tínhamos um tecto.
- Deixe de besteiras.
A gente não precisa de tecto.
- Você diz isso porque se acostumou à vida de mendigo.
Mas eu, não.
- Se é assim, por que não aproveita que Lizandra e Rodrigo estão aqui e pega uma carona de volta para lá?
- É sério, isso?
- Claro que não!
Foi sarcasmo, ironia.
Só quis provocar você.
- Pois não conseguiu.
Não sinto mais vontade alguma de voltar para a casa de Lizandra.
Já estava me sentindo sufocada lá.
- Pelo menos isso...
Passaram-se mais alguns minutos antes de ela recomeçar a falar:
- Você tem certeza de que foi isso que aconteceu?
- Isso o quê?
- Do Tostão ter retornado à alma-grupo?
- Foi o que minha mãe falou.
Camélia guardou silêncio.
Qualquer coisa que dissesse soaria artificial.
Clichés mal ensaiados para servir de consolação.
- O que é aquilo lá, Moisés? — questionou ela, apontando para a frente.
Parece que são os cães.
Porque será que estão correndo para cima de nós?
- Não esquenta.
Eles não podem nos morder...
Os animais vinham trotando pelo quintal, levantando poeira à sua passagem.
Bruce, grandalhão, desajeitado, e Dave, grandinho, bagunceiro.
Um adulto e uma criança que se comportavam quase da mesma maneira.
- Não deviam ser dois cachorros? - tornou ela, intrigada.
Ele assentiu.
— Então, por que estou vendo três?
Sem muita curiosidade, Moisés avaliou a situação.
Bruce e Dave corriam na frente, seguidos de perto por outro cão, de raça indefinida.
Um animal leve, alegre, luminoso, muito diferente de seus companheiros.
Corria como se flutuasse, os pelos balançando suavemente ao contacto do vento.
Não era possível! Era um sonho.
Sim, era isso, adormecera e estava sonhando.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 30, 2017 10:21 am

Sem olhar para Camélia, que já havia perdido o interesse nos cachorros, fez um pedido esquisito:
- Me belisque.
- O quê?
- Não ouviu?
Me belisque.
Ela deu de ombros e fez como ele pediu, apesar de duvidar que ele sentiria alguma coisa.
Moisés nada sentiu, embora fingisse que sim.
Coçou o braço vítima do beliscão e desatou a rir.
Riu igual a um louco desvairado.
Gargalhou até engasgar, sem ligar a mínima para a cara de espanto de Camélia, que se afastou dele, fingindo um medo que não existia.
— Ficou maluco, Moisés?
— Mas que danada! — foi a resposta incomum.
Ela continuou sem entender.
Permaneceu ali parada, observando o comportamento misterioso de Moisés.
Ele não se mexia.
Nem seus olhos se moviam, vidrados na aproximação dos cachorros.
Camélia apontou o dedo para ele, pensando em acusá-lo de atrair os animais para junto deles, quando percebeu algo estranho.
Definitivamente, havia algo errado com a inusitada matilha.
Os dois cães da frente, embora de tamanhos diversos, eram muito semelhantes.
O de trás, coitadinho, era um vira-lata bem fuleiro, mas até que bonitinho.
Nada de extraordinário, não fosse uma singular característica, fundamental para que se pudesse definir a que lugar cada um pertencia.
Camélia ia interrogar Moisés, mas não teve tempo.
Ele se atirou de joelhos ao chão, abrindo os braços com tamanha amplitude, que até parecia uma réplica do Cristo Redentor.
Os cães da frente o viram e desviaram dele, mesmo sabendo que poderiam atravessá-lo.
O de trás, não.
Parado diante dele, rabo abanando, pôs-se a latir freneticamente, com uma excitação que só sossegou depois que saltou sobre Moisés e encheu seu rosto de lambidas.
— Tostão - murmurou, quase mudo de emoção.
— Tostão? — repetiu ela, estupefacta, sem entender.
Depois, apontou para o quintal, mostrando a chegada de mais dois espíritos.
Veja só... Quem serão aqueles?
Eles vinham caminhando por entre as mesas, espargindo flocos de luz sobre os convidados.
Abençoaram a comida, entoando uma espécie de mantra diante dos pratos de carne.
— Mãe - falou Moisés, ainda emocionado, sem largar do Tostão.
Porque não me disse?
— Eu bem que tentei, mas você sumia cada vez que eu falava no nome de Tostão.
— Você disse que ele ia retornar à alma colectiva.
— Eu disse o que, normalmente, acontece.
Nunca afirmei que Tostão seguiria a regra geral.
Você que se precipitou e entendeu tudo errado.
— Tanto tempo perdido...
— Perdão, Moisés, mas nenhum tempo é perdido — interrompeu Germano.
Todo mundo tem o seu ritmo, ainda que se tenha a impressão da inércia.
O que está parado tem o seu tempo de caminhar.
— E você ajudou tanta gente - observou Lucélia.
Pessoas de quem dizia não gostar, outras que até nem conhecia.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 30, 2017 10:21 am

— Inclusive a mim — acrescentou Camélia.
— Sem contar o cachorro - complementou Germano.
— Nada disso tem importância.
O que importa é que todos estão felizes e Tostão está aqui comigo.
Nunca mais vou deixar que o tirem de mim. Nunca mais...
— O nunca mais pode terminar amanhã — ponderou Germano.
— O que quer dizer com isso? — espantou-se.
Que vocês vão levá-lo?
— Não. Que o tempo vai até o limite que a vontade impõe.
— E isso significa o quê, exactamente?
Camélia quis saber, mas pensou e deu a resposta, ela mesma:
— Que, se a gente quiser, o nunca mais pode voltar a acontecer?
— Isso mesmo.
— Camélia é muito esperta - elogiou Moisés.
— Estou vendo - concordou Germano.
— É você o cara que cuida dos animais? - ela perguntou, provocando nele um sorriso amistoso.
- Acho que sim.
— Então, será que pode me explicar uma coisa?
— Se eu souber...
— O que você estava fazendo lá no meio?
Com a comida, quero dizer.
Tive a impressão de ter ouvido uma espécie de mantra.
— Não foi impressão.
Entoei o mantra para facilitar a mentalização num ambiente altamente dispersivo, impregnado de concentrações tóxicas.
— Como assim, concentrações tóxicas? - assustou-se Camélia.
Todos me parecem tão alegres!
- E estão. Concentrações tóxicas não são grupos de pessoas ruins nem de espíritos do mal, como pode parecer.
São apenas energias liberadas pelo excesso de carne, que tem uma vibração muito densa.
- Isso significa que os animais ainda estão por aqui? - Camélia horrorizou-se.
- Os abatidos? Não.
Já foram levados há muito tempo.
Mas a carne guarda resquícios de sangue, que fornece a fluidez da vida.
É uma coisa que pertenceu a algo vivo, não foi fabricada.
Fez parte do corpo de alguém, ainda que esse alguém seja um animal, não importa.
Apesar de o espírito dele não estar mais por aqui, nós não sabemos até que ponto a experiência do abate foi traumatizante para ele.
Tampouco sabemos por onde anda a alma dele:
se está em tratamento ou se foi reconduzida.
Então, para que não sobre nenhum resquício da energia do animal naquele pedaço de carne, ou do trauma do abate no espírito do animal, sempre que me vejo em situações como essa, promovo o rompimento dos elos energéticos que poderiam ainda ligar a carne ao espírito do animal.
Isso evita que ele sinta qualquer vibração de desconforto em sua energia.
- As pessoas não deviam comer carne — murmurou Camélia, torcendo o nariz para demonstrar sua repulsa.
- Esse é um assunto delicado, Camélia.
O ser humano evoluiu do animal, por isso, ainda guarda a memória instintiva do que viveu e aprendeu.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 30, 2017 10:21 am

Os instintos não são arrancados.
Eles vão sendo suprimidos à medida que as pessoas assumem o controle sobre eles.
Isso leva tempo e independe do grau de evolução espiritual.
Moisés segurou a mão de Camélia.
Sabia de onde provinha a aversão dela pela carne.
- A festa está chegando ao fim — observou Lucélia, mostrando aos outros que quase todos já haviam ido embora.
- Cantaram os parabéns e nem percebemos — lamentou Camélia.
- Está na hora de irmos também - informou Lucélia, olhando, directa e significativamente, para o filho.
- Para onde vocês vão, será que tem lugar para mais dois? - a pergunta veio de Camélia, em vez de Moisés, como Lucélia esperava.
- Que mais dois? — Moisés se surpreendeu.
Está pensando em ir embora com eles e me levar junto?
- Por que não, Moisés? — revidou a amiga.
Ainda agora, não estávamos falando, exactamente, sobre isso?
- Vamos para lugares diferentes, mas podemos levar todo mundo — esclareceu Germano.
Tanto na minha cidade, quanto na de Lucélia, há estudo e trabalho para quem quiser aprender e se dedicar.
Lucélia e Germano aguardavam, enquanto Moisés e Camélia se decidiam.
- Vou poder levar o Tostão? - Era a preocupação de Moisés.
- Se você disse que nunca mais ia se separar dele, quem sou eu para impedir que o leve?
- Então, acho que vou.
O que me diz, Camélia?
- A ideia foi minha.
Preciso dizer alguma coisa?
- Vou poder voltar aqui? — ele indagou, agora com olhos húmidos, que direccionava a Rodrigo e Bruce.
- Sempre que quiser.
Você não vai para nenhuma prisão.
- Se não deixarem, a gente foge — lembrou Camélia.
Já fiz isso várias vezes.
- Não precisam fugir - contestou Lucélia.
Todo mundo é livre.
Camélia não insistiu.
Longe dela discutir com um espírito de tamanha iluminação feito Lucélia.
Ela apertou a mão de Moisés, e Lucélia tomou-lhe a outra.
Rapidamente, os quatro espíritos se deram as mãos, incluindo Tostão no círculo que se formou.
Germano entoou outro mantra, que os demais aprenderam rapidamente.
Enquanto cantavam, Germano fez a oração, atraindo as energias luminosas que desceram do céu por canais invisíveis, abertos na atmosfera astral.
Inundados de luz, os corpos dos espíritos flutuavam próximo ao chão, espargindo uma cintilação dourada que deslizou para fora do círculo poderoso e mágico.
Anoitecia.
A Lua cheia se insinuou no céu, mostrando que as sombras também tinham o seu encanto.
Ao mesmo tempo que a luminosidade do Sol decrescia, pequenas lâmpadas se acendiam por todo o quintal.
Pouco a pouco, a claridade mortiça conduziu a noite pelos portais do céu, deixando a seus cuidados o destino de tudo que vivia.
Chegou um momento em que os espíritos se confundiram com as cintilações da noite.
As mentes em concentração fundiram-se umas às outras, confundiam-se as matérias fluídicas que davam a cada um a sensação de uma apartada existência.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 30, 2017 10:22 am

Quem os pudesse ver não saberia dizer onde terminava o corpo de um e começava o do outro.
Naquele momento, eram todos apenas um.
Firmes naquela união, partiram em um único raio de luz, deixando atrás de si um rastro luminoso e invisível, que só os mais sensíveis conseguiriam captar.
Não foi por outro motivo que Bruce se afastou de todos e foi sentar, sozinho, perto da árvore onde o grupo de espíritos estivera reunido.
De olhos bem abertos, encarou o vazio.
Ali estava o que ninguém além dele parecia capaz de perceber.
Acompanhando a subida dos espíritos, olhava cada vez mais alto no céu, onde pequeninas estrelas azuis, timidamente, começavam a luzir.

FIM
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 30, 2017 10:22 am

Posfácio
Este livro foi inspirado pelo Leonel em um momento que vivemos uma onda de desrespeito aos animais, para que as pessoas reflictam sobre suas atitudes e as consequências de tudo que a eles fazem, seja de bom ou de ruim.
Não é bem uma história verídica, mas baseada em fatos acontecidos com diversas pessoas, em lugares e épocas diferentes.
Reunidos na mesma narrativa, esses fatos foram entrelaçados, relacionados e conectados, transformando-se em uma singular e verdadeira história, cuja repercussão espiritual é exactamente como aqui descrita.
Esta, aliás, tem sido uma técnica utilizada pelo Leonel nos últimos tempos.
Em vez de contar uma única história, ele reúne episódios reais colhidos aqui e ali e joga tudo, de uma vez só, na minha mente, e eu que me vire para lhes conferir coerência, lógica e, o principal: emoção.
Se a montagem não ficar boa, ele me faz escrever tudo de novo.
Ou então, se eu enveredar pelo caminho errado, ele simplesmente bloqueia os meus pensamentos, e me vejo diante da tal síndrome da folha em branco que, no caso, é a do computador.
É algo assim como: criatividade, mas nem tanto.
Ou seja, nada de inventar além do necessário para conferir emoção à trama.
Este processo acabou se tornando nosso método particular de psicografia e, vou confessar, é bem estimulante.
Esperem só até o próximo livro...
Às vezes, tenho que pesquisar muitas coisas, sobre assuntos que desconheço.
Foi o que aconteceu com a homeopatia, por exemplo.
Ainda bem que tenho um amigo chamado Luiz António, que foi quem me ajudou nessa parte, porque eu mesma não entendo nada (e acho que o Leonel também não).
É, os espíritos não sabem de tudo.
Eles também estão presos ao que já experienciaram em suas vidas.
A pesquisa fica por minha conta, embora ele me ajude bastante, já que, normalmente, me conduz ao local exacto onde está o que preciso.
Resumindo, tenho uma certa liberdade para criar o que é preciso com relação à história, desde que não me anime muito e acabe extrapolando.
Os ensinamentos, por outro lado, ficam por conta dele.
Foi por isso que me senti à vontade para dar aos animais desse livro os nomes de meus próprios animais.
Todos eles existem ou existiram.
O Bruce é o border collie do meu filho, tão terrível quanto o da história.
O Billy (seu nome anterior) é o nome do pequinês da minha mãe.
O Toby foi um shitzu que tivemos e que morreu da doença do carrapato.
A Suzy é minha gatinha branca, braba que só, e a Nina, o meu docinho, é outra gatinha mestiça com Sagrado da Birmânia, linda e vesguinha.
Por fim, o Dave, que não é um cachorro, mas um gatinho preto que meu filho e eu resgatamos da rua.
Bom, é isso.
Obrigada por ler este livro e por ouvir minha súplica em favor dos animais.

§.§.§- Ave sem Ninho
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