O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 16, 2017 12:06 pm

- Gatos são limpinhos.
- Conversa.
Todo animal é sujo e transmite doenças.
- Nina não tem doenças.
É uma gata bem tratada, está com todas as vacinas em dia.
Por favor, dona Roberta, deixe Larissa e Nina em paz.
Da minha filha, cuido eu.
Roberta engoliu a raiva.
Larissa era uma garota mal-educada e sem-vergonha.
Já naquela idade ficava se esfregando no filho do vizinho.
Talvez houvesse puxado a sem-vergonhice da mãe.
Foi por isso que o primeiro marido morreu?
Priscila era sonsa, fingida.
Na frente de Ítalo, dava uma de boazinha, mas por trás, devia aprontar das suas.
- Cadê o Ítalo? - ela perguntou de repente, como se só agora desse pela falta do filho.
- Foi jogar futebol.
Daqui a pouco ele chega.
Quando Roberta levantou os olhos, viu um homem parado na porta da cozinha, prestes a entrar.
Ela abriu a boca para gritar, mas o homem se adiantou e cumprimentou com naturalidade:
- Olá, Priscila.
Bom dia, dona.
- Ah! - exclamou Priscila, levando a colher de pau à boca para provar o arroz.
Oi, Wilson. Veio buscar o André?
- Isso mesmo.
Estou chamando pela cerca, mas ele não ouve.
- Ele está na árvore com a Larissa.
- Posso ir lá chamá-lo?
O almoço já está pronto.
- É claro - e, notando o ar de curiosidade da sogra, apresentou:
- Esta é minha sogra, dona Roberta.
Dona Roberta, nosso vizinho, Wilson, pai do André.
- Muito prazer - falou ele, estendendo-lhe a mão, que ela tocou com a pontinha dos dedos.
Ante o sorriso frio de Roberta, Wilson puxou a mão.
Pediu licença, dirigindo-se para o quintal, acompanhado pelos olhos de rapina da velha senhora.
- Bonito homem - comentou ela, lançando a Priscila um olhar malicioso.
— Verdade - concordou, sem se dar conta da maldade no tom de voz da outra.
— Ele vem sempre aqui?
— Às vezes. Somos bons vizinhos, costumamos nos reunir para jogar buraco, fazer churrasco e essas coisas que os amigos fazem.
O silêncio de Roberta não delatava o que lhe ia no pensamento.
Mulher de muita malícia, criava maldade onde não existia.
Ao dar de cara com Wilson, o vício da perfídia logo aguçou seu pensamento.
Sem tirar os olhos dele, Roberta começou a urdir a teia de intrigas onde pretendia aprisionar a nora e libertar o filho, de uma vez por todas, de suas garras malditas.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 16, 2017 12:06 pm

Capítulo 10
Mais tarde, após o jantar, André se reuniu com a família para assistir a um pouco à televisão.
O pai alugara um DVD chamado A Incrível Jornada, onde dois cães e uma gata partiam numa aventura por florestas e montanhas, em busca de seus donos.
A ideia de Wilson era animar o filho, que ainda se ressentia da morte de Toby.
- E então, filho? - questionou Isabela, ao final do filme.
Gostou?
- Gostei.
Queria ter um cachorro igual ao Shadow.
- Ué! Quem foi que disse que não queria mais cachorro?
- Mudei de ideia.
A Larissa me convenceu.
- Eu nem sei que raça de cachorro é aquela — comentou o pai, em tom de gracejo.
- Não faz mal — rebateu o menino.
Podia ser qualquer outro.
Até um vira-lata.
Eu não me importo com raça.
- Nós não podemos agora - objectou Isabela.
Estamos com uma dívida imensa na padaria.
Ainda temos que pagar os fornos.
- Mas um vira-lata não custa nada.
Podemos ir a um abrigo.
- Sabemos o quanto você está sofrendo, meu filho, mas agora não dá.
Espere até as coisas se ajeitarem, e você terá seu cachorrinho.
- Promete?
- Prometo.
Após um breve silêncio, André comentou:
— A avó postiça da Larissa é uma megera.
Implicou com a gente hoje.
- Eu a conheci - disse Wilson.
Mulher sem educação.
Estendi a mão para ela, mas ela mal a tocou.
Depois ficou me olhando com ar esquisito.
- Como assim? - Isabela quis saber.
- Sei lá.
Só não gostei do jeito como ela me olhou.
- Vai ver se apaixonou por você.
- Engraçadinha.
- Porque não os convidamos para comer uma pizza amanhã à noite? — sugeriu Isabela.
Acho que Priscila ia gostar.
- Boa ideia — concordou Wilson.
Talvez isso amoleça a velha.
- Quem foi que disse que estou querendo amolecer a velha?
- André quer, não é, meu filho?
- Sei lá — retrucou o menino, dando de ombros.
Só gostaria que ela parasse de implicar com a gente.
- Pois é. Quem sabe, conhecendo nossa família, ela não deixa você em paz?
- Por que não vai lá convidá-los? - sugeriu Isabela.
Afinal, você já foi apresentado a ela.
- Tudo bem — concordou Wilson, não muito satisfeito.
Quer ir comigo, filho?
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 16, 2017 12:06 pm

- Agora não.
Vou jogar videogame.
- Vou sozinho, então.
Não demoro.
A volta repentina de Wilson, com a desculpa esfarrapada de um convite para comer pizza no domingo à noite, soou muito suspeita aos ouvidos de Roberta.
Não lhe parecia certo tanta intimidade assim entre um homem e uma mulher que não eram casados.
Vizinhos ou amigos, o decoro exigia distanciamento e até mesmo uma certa cerimónia no tratamento, o que, definitivamente, não existia entre aqueles dois.
Em silêncio, os olhos de águia seguindo cada movimento da presa, Roberta acompanhava a desconcertante visita de Wilson, reparando na troca de olhares lúbricos, nos casuais esbarrões sedutores, na suavidade das palavras sussurradas que entoavam intimidades.
Nada daquilo existia de verdade, mas não tinha importância.
O que importava era o jeito de manipular as situações para acomodá-las à intriga.
Envenenada pela infâmia criada por seus pensamentos maliciosos, Roberta não via a hora de alertar o filho.
Se ele se separasse de Priscila, os dois poderiam voltar a morar juntos, e ela cuidaria para que nenhuma outra mulher se interpusesse entre os dois.
A oportunidade surgiu quando Priscila se retirou da sala com Larissa.
Roberta esperou até não ouvir mais as vozes das duas, aguçando os ouvidos para se certificar de que a nora não estava por perto.
Convencida de que estavam sozinhos, abordou o filho de forma directa:
- Há quanto tempo você conhece esse Wilson?
- Desde que comecei a namorar a Priscila - informou Ítalo, olhos pregados na televisão.
- Vocês se dão bem?
- Muito bem. Porquê?
Ao invés de responder, ela seguiu com as perguntas:
- Ele vem sempre aqui, na sua ausência?
- Na minha ausência? - surpreendeu-se, agora encarando-a.
Como assim?
- Ele esteve aqui mais cedo.
Veio buscar o filho.
- Ah!
- Fez uma cara quando me viu...
- Cara de quê?
- Uma cara esquisita, não sei bem.
Parece que não gostou da minha presença.
- Impressão sua, mãe.
O Wilson é gente boa.
- Não digo que não seja, mas a reacção dele foi meio enigmática.
E olhou para Priscila de um jeito estranho também.
- Que jeito estranho?
- Olhe, meu filho, longe de mim fazer intriga, mas acho que você devia ficar de olho na sua mulher e nesse sujeito.
Não se vai confiando assim em estranhos.
- O que a senhora está querendo dizer?
- Não estou querendo dizer nada.
Mas sou velha, vivida.
Reconheço aquele olhar.
- Que olhar? - Ítalo começava a se irritar, aborrecido com as insinuações da mãe.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 16, 2017 12:06 pm

- Um olhar de cobiça, sei lá.
- A senhora está delirando.
Wilson é nosso amigo há anos e é muito bem casado com Isabela.
Os dois se dão super bem.
- Como é que você sabe?
Ela lhe disse?
- Não precisa dizer.
Só de olhar para eles, a gente percebe.
- Se eu fosse você, não confiaria tanto nisso.
Homem é bicho sem-vergonha, e mulher sozinha é um perigo.
- Mas que mulher sozinha?
Priscila tem a mim.
- Só que você fica fora o dia inteiro, ao passo que o outro trabalha em casa.
- Vou fingir que não estou entendendo as suas insinuações.
Mas antes, deixe-me esclarecer umas coisas.
Primeiro, confio em Priscila e sei que ela jamais me trairia.
Segundo, Wilson é nosso amigo e não tem o menor interesse em Priscila.
Ele ama a mulher dele.
- Tudo bem.
Não está mais aqui quem falou.
Mas depois, não diga que não avisei.
Ele ia retrucar, quando Priscila entrou na sala, acompanhada de Larissa, limpa e perfumada após um demorado banho.
- Vai dormir, minha princesa? — indagou Ítalo, estendendo os braços para a menina.
- Vou sim.
Boa noite, papai.
- Boa noite, meu bem.
Sonhe com os anjos.
- Boa noite, dona Roberta.
Ela não respondeu.
Irritava-a ouvir a menina chamar seu filho de papai.
Ele não era pai dela e nunca seria.
- Larissa está dando boa-noite, mãe - alertou Ítalo.
Não vai responder?
- Hã...? Claro, claro.
Boa noite.
Mesmo a noite não foi capaz de adormecer os pensamentos maldosos de Roberta, que chegou a sonhar com Priscila e Wilson se beijando.
Acordou suando frio, com uma vozinha irritante vindo do lado de fora.
- Larissa!
Acorda, preguiçosa!
Vamos brincar!
- O que está fazendo aí, garoto? - repreendeu ela, pondo a cara pela janela.
Isso lá são horas de gritar embaixo da janela dos outros?
Chispa daqui!
- Eu... combinei com a Larissa às nove horas.
Ela está atrasada.
- Não tem nada disso, não.
Larissa está dormindo, e você não deve incomodá-la.
Vá para casa.
- Mas eu combinei com ela — André insistiu.
- Você está me desobedecendo, menino?
- Não, senhora.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 16, 2017 12:07 pm

É só que Larissa e eu...
- Sem essa de Larissa e eu.
E até que foi bom pegar você aí, sozinho.
Assim posso colocar alguma ordem nessa promiscuidade.
Você não é companhia para ela.
Meninos devem brincar com meninos, e meninas, com meninas.
Embora André não soubesse o que significava promiscuidade, entendeu que ela estava tentando afastá-lo da amiga.
- Não sei o que a senhora quer dizer, mas Larissa e eu somos amigos.
- É disso que estou falando.
Vocês não podem ser amigos.
Ela não é para o seu bico.
Você é homem, tem que brincar com meninos.
Ou será que é algum mariquinhas?
Hein? Gosta de coisas de menina?
É uma bichinha enrustida?
Que coisa feia!
André permanecia mudo.
Primeiro, porque os pais lhe ensinaram a não ter preconceito contra as pessoas.
Segundo, porque não entendia bem o que ela queria dizer.
Terceiro, porque não ia sair dali sem falar com Larissa.
- Estou falando com você, garoto! — ela gritou, causando-lhe um sobressalto.
Responda: você é uma bichinha?
- Não, senhora - respondeu ele, assustado.
Mas não tenho nada contra quem é.
Roberta sentiu o sangue ferver.
Agora estava explicado por que aquele garoto era tão atrevido.
Sendo filho de quem era, só podia ser desavergonhado.
- Seu moleque! — esbracejou, rubra de indignação.
Devia lhe dar uma lição.
- Deixa a gente em paz — intercedeu Larissa, que vinha chegando ao quintal.
André está aqui porque eu chamei, e a senhora não tem nada a ver com isso.
Vamos, André.
Os dois saíram correndo pelo quintal, em direcção à árvore.
Larissa se arrependia do que dissera a Roberta.
Ela havia prometido a Ítalo que tentaria não responder mal a ela, mas aquela mulher era horrorosa.
Roberta agora estava lívida.
A má-criação de Larissa não tinha limites.
Ela, sim, é que precisava de uma lição.
Não podia desrespeitar os mais velhos e sair impune.
Não. Tinha que haver uma consequência.
Quando olhou para o lado, onde ficava a janela do quarto da menina, um sorriso maligno brotou em seus lábios.
Pendendo para fora do peitoril, o rabo cor de creme de Nina balançava de um lado a outro.
Na pressa de sair em socorro do amigo, Larissa se esquecera daquela gata insuportável.
Sem pensar duas vezes, Roberta entrou no quarto da menina.
Ao vê-la, a gata bufou e se arrepiou toda.
Quis fugir, mas não foi rápida o suficiente.
A bengalada atingiu seu dorso antes que ela conseguisse se pôr fora do alcance da mulher.
Soltando um miado estridente, Nina disparou pelo quintal e sumiu, deixando Roberta com um sorriso que era muito mais do que maligno.
Nele, o que era agora visível, era o ar de satisfação.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 16, 2017 12:07 pm

Capítulo 11
Vestida como uma alta executiva, Lizandra pisou no hall de entrada da empresa em que Marília trabalhava.
O andar confiante dava a falsa impressão de que se tratava de uma importante mulher de negócios, imagem que ela procurava ostentar como se lhe fosse natural.
Logo à saída do elevador, a mesa da recepcionista fora colocada estrategicamente, de forma a impedir que qualquer pessoa entrasse sem ser percebida.
- Bom dia - cumprimentou uma sorridente mocinha.
Em que posso ajudá-la?
- Bom dia - retrucou Lizandra, secamente.
Eu gostaria de falar com a dona Marília, por favor.
- Pois não.
A senhora tem hora marcada?
- Não. O assunto é pessoal.
A moça ergueu as sobrancelhas.
Era a primeira vez que alguém procurava Marília para tratar de assuntos pessoais.
Em geral, ela era bastante reservada, jamais comentando qualquer assunto particular em seu local de trabalho.
Mesmo assim, não lhe cabia questionar.
- Seu nome? — tornou ela, disfarçando a curiosidade.
- Lizandra Campos de Almeida.
Sou paciente do marido dela.
- Aguarde um momento, por favor.
Não quer se sentar?
- Obrigada.
Lizandra sentou-se em um confortável sofá, fitando cada recanto da imponente saleta.
Tudo muito bonito e bem decorado.
Acima da mesa da recepcionista, letras douradas, porém discretas, anunciavam o nome da empresa:
Liberté Correctora de Valores.
O lugar podia ser bonito, mas a rival não devia passar de um tribufu.
Após alguns minutos, uma mulher surgiu de uma porta lateral.
Vestia um tailleur cinza claro, sapatos de salto médio e mantinha os cabelos soltos, muito bem escovados.
Pouca maquiagem, jóias discretas e elegantes.
No rosto, óculos de aro fino de metal lhe conferiam um ar aristocrático e, ao mesmo tempo, intelectual.
Era bonita. Não de uma beleza vulgar ou estonteante, mas clássica e serena, própria das mulheres seguras de si.
Aquela figura singular, um tanto quanto exótica, não podia ser a Marília que ela procurava.
- Bom dia - cumprimentou ela, estendendo a mão para Lizandra.
Queria falar comigo?
O sentimento que percorreu sua pele e fez tremer sua espinha foi de inveja.
Imaginava Marília uma mulher apagada e sem sal, vestida em trajes sem graça, como quem se veste para ir ao supermercado.
Aquela mulher, porém, não era nada daquilo.
Era exuberante à sua maneira, pois sua elegância encontrava-se na graciosidade dos gestos, na simplicidade de suas formas, agradáveis à vista e, sobretudo, em seu ar inteligente e confiante.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 16, 2017 12:07 pm

A vontade de Lizandra foi de sair correndo.
O que ela pretendia indo até ali, movida por uma curiosidade mórbida de conhecer pessoalmente sua adversária?
Em que estava pensando?
Que poderia, simplesmente, olhar para a cara da outra, dizer oi e, em seguida, virar-lhe as costas e sumir?
Aquilo era uma loucura.
Ela nunca devia ter ido procurar a mulher de Danilo.
Diante de Marília, Lizandra sentiu-se invadir por uma fraqueza moral sem precedentes.
Ela era muito diferente do que Danilo descrevera.
Vendo-a, podia até compreender por que ele mudara de ideia e resolvera ficar com ela.
Talvez fosse melhor seguir o conselho dele e afastar-se.
Sentia, em seu íntimo, que não podia competir com a outra.
Era como se a pequenez da alma de Lizandra se intimidasse com a superioridade moral de Marília, cuja dignidade prescindia de esforços.
O choque do primeiro momento cedeu em parte, assim que ela olhou para a mão estendida de Marília.
Num átimo, analisou a manga bem cortada do blazer, a pulseira simples de ouro e as unhas bem feitas, pintadas à francesinha.
Ao mesmo tempo, vislumbrou a aliança na mão esquerda, reluzindo em afronta a seus sentimentos.
Foi isso que lhe deu forças para se recompor e readquirir um pouco da auto-confiança.
Se Marília era atraente, ela era exuberante.
Não fazia o tipo intelectual, mas voluptuosa.
A curiosidade insistiu para que Lizandra ficasse e aproveitasse aquele encontro para conhecer a rival.
Quem sabe, conhecer seu ponto fraco para montar uma estratégia de reconquista de Danilo?
Ou então, podia simplesmente fazer-se de vítima e contar tudo a Marília, fingindo-se de mulher enganada, iludida, apaixonada por um homem casado que mentira o tempo inteiro.
O que será que Danilo pensaria disso?
Sentindo que um sorriso irónico nascia no canto de seus lábios, ela se recompôs, com medo de se trair.
Voltou os olhos para o rosto da simpática moça que aguardava uma resposta e resolveu dar asas ao improviso.
Não importava qual seria o resultado daquela visita.
O que faria no futuro, naquele momento, não lhe interessava.
Queria apenas ouvir a voz da outra, analisar seu comportamento.
Queria ser notada por Marília, tornar-se inesquecível, despertar sua compaixão.
E quando Danilo soubesse, pela boca da própria Marília, que uma mulher chamada Lizandra fora procurá-la, sentir-se-ia parcialmente vingada só de imaginar a reacção dele.
Seria de espanto, surpresa, raiva?
Ou medo?
- Bom dia — respondeu Lizandra, com surpreendente auto-controle.
Você é a Marília, esposa do Dr. Danilo?
- Eu mesma.
Em que posso ajudá-la?
- Será que podemos conversar a sós?
- É claro.
Venha comigo, por favor.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 16, 2017 12:08 pm

Se a mulher era paciente de Danilo, então, não tinha problema em fazê-la entrar.
Ao menos, foi no que Marília pensou, embora não imaginasse o que poderia fazer por ela.
Depois de acomodada em uma poltrona, na antessala do escritório do chefe de Marília, Lizandra entrou logo no assunto:
- Lamento vir procurá-la assim, sem avisar, mas é que estava em dúvida sobre se deveria vir ou não.
Marília a olhava, sem entender.
— Mas seu marido me convenceu.
Fez muitos elogios à sua capacidade e me mostrou que você é a pessoa certa para me ajudar.
Saber que Danilo a elogiara com uma paciente encheu Marília de orgulho, como Lizandra esperava.
Ela estufou o peito, sorriu e retrucou:
- Seu problema deve ser financeiro, suponho.
- Mais ou menos.
Não chega a ser um problema, mas pode vir a ser.
Não vou fazer rodeios com você, Marília.
Sou casada, amo meu marido, mas acho que ele tem uma amante.
Nós temos um filho de dez anos, com quem me preocupo muito.
Meu marido vem esbanjando dinheiro, o que está me assustando.
Como tenho minhas economias, pensei em um investimento que me assegure um bom retorno financeiro e que, ao mesmo tempo, fique fora do alcance dele.
- E porque se decidiu pela Bolsa de Valores?
É um investimento de risco, você sabe.
- A verdade é que não entendo nada dessas coisas.
Meu marido foi quem sempre cuidou do nosso dinheiro.
Temos uma poupança conjunta, mas queria retirar minha parte para aplicar em um investimento só meu.
- Se a poupança é conjunta, seu marido não vai desconfiar se metade do dinheiro sumir de repente?
E agora, Lizandra? - pensou ela.
Fora sincera quando dissera que não entendia nada de investimentos.
- Tem... Tem razão... - gaguejou ela.
Eu não havia pensado nisso.
- E, francamente, Lizandra, investir em Bolsa não me parece a solução mais adequada para você.
Não a conheço, mas, pelo seu perfil inicial, você passa a impressão de uma pessoa que precisa de dinheiro seguro, e o mais seguro seria aplicar em poupança ou em algum outro fundo de investimentos.
— Você acha? - rebateu laconicamente, para não denunciar sua raiva.
- Não que eu não queira ajudá-la.
Eu quero, mas não posso enganá-la e dizer que seria um bom investimento só para ficar com o seu dinheiro.
Se você insistir, posso muito bem chamar um de nossos melhores correctores.
Não estamos aqui para enganar ninguém.
- Compreendo - disse Lizandra, à beira das lágrimas.
De qualquer forma, agradeço a sua atenção.
Quando ela se levantou, Marília se arrependeu da forma como a tratara.
Fora sincera, é claro, mas não devia ter sido tão franca nem directa.
Tinha diante de si uma mulher destruída pela traição do marido e pelo receio de ver o filho passando necessidade.
Ela era mulher e mãe, compreendia essas coisas.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 16, 2017 12:08 pm

- Por favor, Lizandra, não me leve a mal - desculpou-se.
Entendo a sua situação, e é por isso mesmo que quero preservar você de um possível mau negócio.
- Não precisa se desculpar, Marília.
Você tem razão.
Foi idiotice da minha parte pensar em retirar metade do dinheiro da poupança para aplicar em Bolsa.
Meu marido ia descobrir e ficaria furioso.
Você fez bem em me alertar.
- Não sou consultora financeira, mas, se você quiser, podemos conversar.
Tenho algum conhecimento e posso tentar lhe indicar uma boa aplicação.
Você pode abrir uma conta em outro banco e iniciar seu próprio investimento, sem o seu marido saber.
O que você acha"?
- Você faria isso por mim"? - exultou ela, enxugando uma lágrima inexistente.
- É claro.
- Você nem imagina o quanto me deixa feliz.
Seu marido tinha razão:
você é uma pessoa maravilhosa!
O ar envergonhado e satisfeito de Marília não deixava dúvidas de que Lizandra a estava conquistando com bajulação e elogios.
O ponto fraco dela era o marido.
- Não é nada disso.
Gosto de ajudar as pessoas.
Ainda mais quando tem filhos envolvidos.
Também sou mãe.
- Sabe, Marília, há tempos que não tenho com quem conversar abertamente.
Desde que me casei, meu marido me afastou das pessoas e da família.
Tornei-me praticamente uma eremita em minha própria casa.
Quase não saio, minhas amigas não me procuram mais, meus pais se distanciaram.
Resta-me apenas o meu filho.
E agora, você.
- Por favor, não exagere.
- Perdoe-me. Eu me empolguei.
É claro que não somos amigas.
Nós mal nos conhecemos.
- Não se trata disso.
Podemos ser amigas, é claro.
Mas eu não sou a única pessoa que você tem no mundo.
Você tem família e amigos.
É só reconquistá-los.
Como farei com seu marido, pensou, segurando um sorriso sarcástico.
- Você acha que é possível? — considerou, rindo intimamente.
- Tudo é possível.
Se suas amigas gostam de você, vão se reaproximar.
E seus pais, então, nunca se afastaram, na verdade.
- Obrigada. Nem a conheço direito e já gosto de você.
Acho até que não vou mais precisar dos remédios do Dr. Danilo.
- Vá com calma.
Não sou sua médica.
Ele é que é.
Melhor seguir as orientações dele.
- Vou seguir.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Nov 16, 2017 12:08 pm

Estou apenas brincando.
O Dr. Danilo também é uma óptima pessoa.
Vocês formam um lindo casal.
- Obrigada.
- É verdade.
- Muito bem, então - arrematou Marília, apresentando a Lizandra um cartãozinho.
A hora em que você quiser, é só me ligar.
Podemos marcar um almoço ou um café.
- Excelente!
Mal vejo a hora de nos reencontrarmos.
- Ligue para mim.
- Vou ligar.
Despediram-se com dois beijinhos amigáveis nas faces.
Marília virou as costas, percorrendo, segura, o caminho de volta até sua sala.
Não disse nada, mas alguma coisa naquela mulher não soara bem.
Havia algo de artificial em suas atitudes, um estranho brilho de falsidade em seu olhar.
Talvez fosse apenas impressão, lógico, contudo, deixou em Marília uma pequenina semente de desconforto.
Lizandra, por sua vez, quase despencou do salto alto, tamanha a tremedeira nas pernas.
Enquanto estava sentada, conseguira manter-se firme.
Ao se levantar, as pernas bambearam e ela, por pouco, não tropeçou nos próprios pés.
Não queria admitir, mas estava arrependida.
Talvez não tivesse sido boa ideia ceder àquela loucura.
Agora, porém, não tinha mais jeito.
E já que ela havia tido o trabalho de ir até lá, era melhor esperar para ver o resultado, fosse ele qual fosse.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 17, 2017 10:22 am

Capítulo 12
A caminho de casa, Lizandra pensava na história que Rodrigo lhe contara sobre o cachorro chamado Biruta.
Por alguns instantes, a preocupação com o filho sobrepujou a paixão por Danilo.
Por mais que não gostasse de animais, fora ela quem comprara Billy para ele.
A responsabilidade era toda sua.
Pelo bem do filho, engoliria a irritação para, ao menos, tentar tolerar aquele cão insuportável.
Firme nesse propósito, entrou no apartamento preparada para o alvoroço do animal.
Este, contudo, não se aproximou.
Ao contrário, quando a viu, foi se esconder embaixo da mesa.
Rodrigo ainda não havia voltado do colégio, de forma que o cão se sentia desprotegido, apesar da presença invisível de Moisés a seu lado.
O espírito se espremeu embaixo da mesa junto com o cachorro, afagando sua cabeça, tentando acalmá-lo.
Seria impossível não perceber o medo do animal.
O que ela desejava mesmo era que ele se mantivesse a distância, contudo, fizera uma promessa a si mesma.
Pelo bem do filho, tentaria fazer com que o cão gostasse dela.
Largou a bolsa em cima do sofá, foi até a área, onde guardava as coisas dele e retornou com um petisco na mão.
Abaixou-se junto à mesa; o cachorro ganiu baixinho, encolhendo-se o mais que pôde.
— Sai daqui, megera! - grunhiu Moisés, dando um tapa na mão de Lizandra, que nada sentiu.
— Vem cá, menino, vem — chamou ela, com a voz mais amistosa possível.
Não vou lhe fazer mal.
Veja o que trouxe para você.
Abriu a mão, exibindo o petisco, cujo aroma logo alcançou as narinas de Billy.
O cão hesitou, lambendo os beiços, agora doido de vontade de se aproximar.
- Não caia nessa, amigão - aconselhou Moisés.
É uma armadilha.
Ela só quer pegar você para lhe dar uma surra.
Billy, porém, não seguiu o conselho do espírito.
Seduzido pela oportunidade de abocanhar uma delícia, estendeu o focinho em direcção a ele, mas Lizandra puxou a mão.
Estimulado pela gulodice peculiar aos cães, ele foi se aproximando aos poucos, seguindo a mão dela, que cada vez se retraía mais.
Quando seu corpo se encontrava totalmente descoberto, ela, finalmente, permitiu que ele pegasse o petisco.
Enquanto Billy mastigava, Lizandra lhe fazia carinho, para espanto de Moisés e deleite do animal.
Billy era um cão dócil, afável, muito amigo das pessoas.
Era, acima de tudo, inocente, sem malícia, fácil de conquistar-lhe a confiança.
A primeira coisa que Rodrigo viu quando chegou da escola foi a cena inusitada, que ele nunca imaginara possível.
Sentada no sofá, a mãe via televisão com Billy a seu lado, roendo um ossinho, feliz da vida.
- Mãe! — exclamou ele, incrédulo.
Você está passando bem?
Aproximando-se dela, Rodrigo experimentou-lhe a testa, fingindo que via se ela estava com febre.
- Dá um tempo, Rodrigo - censurou ela, de brincadeira.
Estou muito bem, obrigada.
- Mas então, o que deu em você?
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 17, 2017 10:22 am

Ficou cega?
- Que eu saiba, enxergo muito bem.
- Não percebeu o Billy ao seu lado, em cima do sofá?
- Não apenas percebi, como fui eu que o coloquei aqui.
- O quê?! Não, você está doente.
Sério. Acho melhor ligar para o papai...
- Deixe disso, Rodrigo.
Sente-se aqui ao meu lado.
Ele obedeceu, espremendo-se entre ela e Billy.
Lizandra segurou a mão dele com ternura e continuou:
— Não vou mais brigar com o Billy.
Quero que ele e eu sejamos amigos.
- Está falando sério? - ele duvidou.
- Muito sério.
- Porquê?
O que aconteceu para você mudar assim?
- Você. Você aconteceu.
É porque o amo que estou fazendo isso.
Não quero que você sofra e quero que confie em mim.
- Posso confiar mesmo?
- É claro que pode.
Vou fazer o possível para aprender a lidar com o Billy.
- Ah, mamãe!
Era tudo o que Rodrigo queria ouvir.
Sua felicidade foi tanta, que ele a demonstrou em um abraço apertado e vários beijos no rosto da mãe.
Quando Billy se juntou aos dois, lambendo o menino e Lizandra de quebra, ela tolerou pacificamente, embora morrendo de nojo.
A repulsa, porém, foi compensada pelos carinhos do filho, e só de senti-lo junto a ela, alegre, cheio de vida, convenceu-se de que tomara a decisão certa.
Dali em diante, estava decidido:
nada mais de bater no cachorro.
A partir desse dia, foi o que aconteceu.
Lizandra passou a tratá-lo bem, e ele, a confiar nela.
Ainda filhote, logo se esqueceu das palmadas que ela lhe dera, passando a manifestar alegria e afecto todas as vezes que ela chegava em casa.
Ela, por sua vez, esforçava-se ao máximo.
Havia momentos em que até sentia prazer na companhia do cachorro, principalmente quando via o filho correndo com ele pelo terraço ou atirando água da piscina em seu focinho.
- Você mudou mesmo - observou Vítor, deitado na espreguiçadeira, ao lado dela.
Pensei que era apenas fingimento, mas não.
- Não sou fingida - objectou ela, de mau humor.
Você não me conhece.
Pelo meu filho, sou capaz de qualquer coisa.
- Será? - duvidou Moisés, que acompanhava tanto a brincadeira de Rodrigo quanto a conversa de Lizandra.
À excepção de Billy, ninguém notava a presença do espírito.
Vítor não ouviu o questionamento dele nem respondeu à esposa, mas segurou na mão dela, surpreendendo-se com o aperto que ela lhe deu.
Nesse momento, algo tornou a despertar dentro dela.
O contacto do homem trouxe a lembrança do amante, a do amante, fez surgir a imagem de Marília.
- Tudo bem? - indagou ele, notando que ela se retraía.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 17, 2017 10:23 am

- Só um pouco de dor de cabeça.
Deve ser o sol.
Apertando as têmporas, ela se levantou, antes que ele tivesse tempo de protestar.
Vítor, que já não sabia mais o que fazer, limitou-se a vê-la desaparecer pela porta da sala.
- Depois diz que não é fingida — considerou Moisés, sarcasticamente.
Cedendo à irritação, Lizandra abriu ao máximo a torneira do chuveiro, entrando, de cabeça, debaixo da água fria.
Precisava resfriar os pensamentos.
Por instantes, o problema do filho a desviara da rejeição de Danilo, fazendo-a esquecer seu encontro com Marília.
O que havia acontecido, afinal?
Ela se produziu toda, escolhendo um vestido longo simples e elegante.
Maquiou-se com cuidado, perfumando-se, em seguida, com uma essência bem suave.
Não queria que Danilo a visse como a amante vulgar e fútil, mas que enxergasse nela uma mulher sensual, sim, mas também refinada e distinta.
- Vai sair? - indagou Vítor, assim que ela alcançou a porta de entrada.
- Vou ao shopping. Não demoro.
No fundo, Vítor sabia que ela não ia a shopping algum.
Pela atitude dela nos últimos tempos, andava desconfiado de que ela teria um amante.
Nunca pensou que Lizandra seria capaz de traí-lo.
Brigaria com qualquer um que insinuasse tal coisa.
O comportamento dela, todavia, era típico da traição: desinteresse pelo sexo, pela família, saídas repentinas, misteriosas, impaciência...
Apenas Rodrigo parecia manter a cabeça dela no lar.
Pela primeira vez, a saída repentina incomodou Lizandra.
Deixar o convívio do filho e do marido, naquele momento em que partilhavam da intimidade em família, reflectiu mal em seu coração.
Sentia-se feliz em casa, como há muito não sentia.
Ver o filho brincar com Billy, sem se irritar com o cachorro, era uma novidade compensadora.
Sentir a suavidade da mão do marido sobre a sua despertara nela um desejo manso, que bem poderia evoluir para a paixão ardente que costumavam dividir na cama.
Só isso já seria suficiente para mantê-la em casa.
O único problema é que ainda era muito apaixonada por Danilo.
Assim como Vítor e Lizandra, Danilo e Marília aproveitavam o sábado de sol para curtir a piscina junto com os filhos.
Marília se bronzeava na espreguiçadeira, bebericando uma cerveja gelada.
Ao lado dela, totalmente enfiado embaixo do guarda-sol, Danilo explicava a ela um pouco sobre homeopatia:
- A homeopatia é hipocrática, você sabe - dizia ele, sob o olhar atento da mulher.
Segue a filosofia de Hipócrates, por muitos chamado o Pai da Medicina.
O principal método utilizado por Hipócrates foi a observação, ou seja, o estudo do paciente, não da doença.
É dele também a ideia de que semelhantes são curados por semelhantes, que é a base de toda a homeopatia.
Em busca da cura da alma, ela vai à raiz do comportamento humano, que se torna acessível pelos remédios de doses diluídas e dinamizadas, de uma forma que a humanidade ainda não tem condições de compreender.
- Porque não?
- Porque o ser humano só consegue acreditar naquilo que os olhos vêem.
Felizmente, a física quântica veio abrir novas fronteiras, desvendando a existência e o funcionamento do minúsculo e maravilhoso universo das partículas subatómicas que compõem dimensões mais subtis.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 17, 2017 10:23 am

- Espere um pouco - pediu Marília, levantando a mão em protesto.
Deixe ver se entendi.
O estudo da física clássica concentra-se em tudo aquilo que é maior do que o átomo.
Como a relatividade, por exemplo, que acho fascinante.
A física quântica, por outro lado, busca explicar os elementos da matéria menores do que o átomo, como eléctrons e fótons.
- Minha mulher inteligente - elogiou ele, embevecido.
É isso mesmo.
As leis da física clássica não se aplicam à física quântica.
Tudo muda quando se está diante de partículas infinitesimais, que podem se comportar de maneira imprevisível, aparentemente aleatória.
- Certo. Mas o que a física quântica tem a ver com a homeopatia?
- Você sabe que os remédios são dinamizados várias vezes, não sabe?
- E os movimentos de dinamização alteram as moléculas da água, reduzindo a substância a partículas tão minúsculas que não podem mais ser detectadas, embora preservem a informação do princípio activo - concluiu ela, rapidamente.
- Estou impressionado — admitiu ele.
Você andou lendo sobre o assunto?
- Não. Mas assim que você começou a falar, foi fácil deduzir.
O celular dele vibrou em cima da mesa, identificando a chamada de Lizandra.
Ele não atendeu.
Ela ligou de novo, ele também não atendeu.
Na terceira vez, com medo de despertar as suspeitas de Marília, pediu licença a ela e entrou em casa, fechando a porta de vidro que dava para o quintal.
- O que você está pretendendo? — perguntou com raiva, tão logo atendeu.
- Falar com você - foi a resposta rápida.
- Hoje é sábado. Não posso sair.
- Dê um jeito. É importante.
Fez-se silêncio por alguns segundos.
Ele estava decidindo se valia ou não a pena arriscar de novo seu casamento por uma mulher que não lhe dizia mais nada.
Sabia, porém, que Lizandra não desistiria até conseguir o que queria.
- Onde você está?
- No shopping.
- No shopping? Ficou louca?
Quer que alguém nos veja?
- Ninguém vai nos ver, não se preocupe.
E depois, só quero conversar.
Não tem nada de mais em conversar.
Se, eventualmente, formos vistos, você pode dizer que encontrou uma paciente por acaso e foi beber um refrigerante com ela.
Mais alguns instantes silentes se passaram, até que ele se decidiu por ir.
Marília agora retomara a leitura de um romance no Kindle.
- E aí? — indagou ela, com suavidade.
Alguma coisa importante?
- Na verdade, sim.
Era um paciente...
Vou precisar sair.
- Vai demorar?
- Não. Estarei de volta antes do almoço.
- Tudo bem - ela concordou de imediato, sem se deixar dominar pela desconfiança, que tentava abrir espaço para penetrar em sua mente.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 17, 2017 10:23 am

- Até já.
Deu-lhe novo beijo, acenou para os filhos e saiu.
Enquanto dirigia, pensava no que dizer a Lizandra.
Melhor seria evitar um confronto directo, ou ela bem poderia cumprir a promessa de contar tudo a Marília.
Se tivera coragem de procurá-la no trabalho, era capaz de qualquer coisa.
Enquanto esperava, Lizandra resolveu fazer umas compras, para justificar sua ida ao shopping.
Perambulava pelos corredores cheios de gente, olhando as vitrines, parando de vez em quando para comprar algo que a interessava.
Ao sair de uma loja, deu de cara com Danilo, fitando-a com um misto de ansiedade e desgosto.
- Como sabia que eu estava aqui? - indagou ela.
- Estou seguindo você desde lá de baixo.
Vi quando entrou em várias lojas.
- Me seguindo? - surpreendeu-se.
Porquê?
- Não sei.
- Tudo bem, não importa.
Vamos nos sentar em algum lugar?
Danilo queria evitar lugares públicos.
Escolheu um restaurante que tinha salão próprio, para não ser obrigado a se expor na praça de alimentação.
Pediram uma porção de fritas, apenas para justificar sua presença ali, embora nenhum deles estivesse com fome.
— Muito bem - iniciou ele.
Cá estamos. Posso saber do que se trata?
Ela deu um sorriso irónico.
Espetou uma batata, mas não a comeu.
— Sério, que você não sabe mesmo do que se trata? - retrucou, com voz zombeteira.
Achei que você fosse mais esperto.
— Escute aqui, Lizandra, não estou a fim de seus joguinhos.
Diga logo o que quer e acabe com essa ladainha.
Deixe-me em paz.
— Não precisa ser agressivo.
Será possível que você já se esqueceu de tudo o que vivemos?
— Por favor, de novo, não.
Já tivemos essa conversa.
— Eu sei. Mas tinha esperanças de que algo houvesse mudado.
— O que poderia ter mudado, Lizandra?
Acha que eu viria correndo para você só porque você foi procurar Marília no trabalho dela?
Foi essa a sua intenção?
Fazer-me tremer de medo e ceder a suas chantagens?
— Não... - ela balbuciou, desconcertada com a reacção dele.
— Então, qual é?
Diga-me, porque não entendo.
Você procurou Marília, contou-lhe uma história ridícula, e quer que eu pense o quê?
Que fez isso por mera curiosidade?
— Você pode não acreditar, mas a verdade é que foi isso mesmo.
Estava curiosa para conhecer a mulher que o tirou de mim.
— Francamente, Lizandra!
Você ficou doida ou o quê?
Marília é minha esposa!
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 17, 2017 10:23 am

Ninguém tomou ninguém de ninguém, mas, se fôssemos pensar assim, não seria o caso de você ter me tomado dela?
Ela não respondeu.
Fitou-o com mágoa, lutando para evitar que um vendaval de ressentimentos varresse seu coração.
Nem parecia o Danilo que ela conhecera, meigo, gentil, carinhoso.
— Você mudou... — foi só o que conseguiu murmurar, pois as lágrimas emudeceram-lhe a voz.
O pranto suave de Lizandra arrefeceu as labaredas da raiva que consumiam cada pedacinho de afecto que ele ainda poderia sentir por ela.
Um pequeno alento de ternura amenizou seu ímpeto de acusar, ferir, desprezar, despertando nele a consciência do quão imatura ela era.
Tudo o que ela fazia era fruto dessa imaturidade, que criara em sua mente um mundo de ilusão, onde seus desejos, fonte primária de sua existência, deviam ser sempre satisfeitos.
Ele olhou para ela, agora com compaixão, vendo ali uma mulher irresponsável, inconsequente e totalmente perdida.
— Eu não mudei - retrucou ele, agora mais calmo.
Apenas acordei de um sonho, porque foi isso o que vivemos, Lizandra.
Nada mais do que um sonho.
— Não foi sonho. Foi real...
— Não. A realidade é nossa família, nossos parceiros, nossos filhos.
Será que você quer mesmo abrir mão da sua casa, seu marido, seu filho?
— Não se trata disso...
— Quer ou não quer?
Ela demorou para responder, com medo de admitir a verdade.
Contudo, não podia mais fingir, não para si mesma.
— Não - sussurrou, de forma quase inaudível.
- Então, Lizandra, não nos resta outra alternativa, senão nos afastarmos de vez.
- Mas eu o amo...
- Não ama, não.
Você está apenas magoada, ferida, sentindo-se humilhada em sua feminilidade.
Se puser de lado o orgulho, vai ver que tenho razão.
- Você não pode falar por mim.
Não sabe o que estou sentindo.
- Tem razão, não sei.
Mas posso falar por mim.
Não é minha intenção magoá-la, mas a verdade é que não amo você.
Amo minha mulher.
Querendo ou não, você vai ter que aceitar isso.
Ou acha que pode me obrigar a gostar de você?
Ele disse isso sem qualquer agressividade na voz, apenas com uma espontaneidade que a assustou mais do que tudo.
Era aquilo mesmo que ele pensava, no que acreditava, o que queria.
Como poderia ela forçá-lo a continuar um romance que ele não desejava mais?
Para ela, seria ainda mais degradante saber que mantivera o amante à custa de chantagem e ameaça.
Ela não merecia isso, não precisava se sujeitar a tamanha humilhação.
— Não precisa mais se preocupar comigo - afirmou ela, ostentando uma altivez superficial, mas convincente.
Não vou mais incomodar você. Ou sua mulher.
— Está falando sério? — surpreendeu-se.
— Estou. Não preciso rastejar aos pés de um homem que não me quer.
Também tenho minha dignidade.
— Não estou dizendo o contrário.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 17, 2017 10:24 am

— Nem precisa.
Entendi o recado e vou seguir com a minha vida.
Espero que você encontre felicidade na sua.
— É só isso? — continuou, ainda mais abismado.
Sem ressentimentos?
— Sem ressentimentos.
Só lembranças.
Ela falava sério.
Depois de tudo o que ouvira, não pretendia mais dar chance ao destino de humilhá-la novamente.
Daria um jeito de refazer seu casamento, centraria a atenção no filho, que ainda era criança e precisava dela.
Queria ser boa mãe.
Rodrigo merecia isso.
E ela também.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 17, 2017 10:24 am

Capítulo 13
Parado na porta diante de Ítalo, Wilson segurava no colo uma Nina trémula e assustada.
Assim que avistou sua dona, a gata deu um salto e atravessou a sala correndo, indo esfregar-se nas pernas de Larissa.
- Por onde você andou, Nina? - questionou a menina, pegando-a no colo.
Procurei por você o dia inteiro.
- Estava presa no galpão dos fundos — avisou Wilson.
Isabela ouviu um miado e, quando fomos ver, era ela.
Acho bom dar-lhe água e comida.
Ela deve ter ficado presa lá o dia inteiro, no calor.
- O que foi que você aprontou, hein, sua gata danada?
Quer me matar de preocupação?
Antes de seguir com Nina para a cozinha, Larissa lançou uma olhada de soslaio para Roberta.
Tinha certeza de que aquilo era obra dela.
- Você está exagerando - comentou Priscila mais tarde, quando se juntou à filha.
- Será, mãe?
A dona Surtada não esconde de ninguém que detesta gatos.
- Sim, mas fazer uma maldade dessas?
Isso já é demais.
Aquele galpão é um forno, apanha sol o dia inteiro.
Será que ela ia colocar a gatinha lá para cozinhar, de propósito?
- Você duvida?
Mesmo sendo ela quem é?
E a Nina está machucada.
Olha só aqui — e exibiu as costas da gata, que tinha um pequeno calombo.
Não posso nem tocar, que ela chora.
Deve estar doendo.
Aposto que a dona Surtada deu uma bengalada nela.
- Não se pode acusar ninguém sem provas.
E depois, dona Roberta não conseguiria levar a Nina para o vizinho sem que ninguém visse.
- É claro que conseguiria!
Com todo mundo ocupado na padaria, seria muito fácil atravessar o quintal sem ser vista.
Por mais que Priscila desse razão à filha, não podia dizê-lo abertamente, ou acabaria provocando uma guerra declarada entre a filha e a sogra.
— Melhor deixar isso para lá — aconselhou ela.
A Nina está bem.
— Ela pode ter fracturado algum osso.
- Menos, Larissa.
Ela agora só precisa de conforto e carinho.
Leve-a para a cama com você.
Amanhã, ela vai estar melhor.
Mesmo a contragosto, Larissa obedeceu.
Queria que André estivesse ali com ela, para ajudá-la a acalmar Nina.
A gata estava tranquila, mas a presença do amigo dava forças a Larissa que, apesar de decidida, sentia-se mais segura ao lado dele.
Já na cama, com Nina enroscada nela, Larissa adormeceu rapidamente.
Priscila aguardou ainda alguns minutos, acariciando os cabelos sedosos da filha, até que, convencida de que ela dormia, retornou para a sala.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 17, 2017 10:24 am

No corredor, notou o silêncio que se espalhava pela casa, imaginando se Ítalo e Roberta haviam adormecido no sofá.
Ao se aproximar um pouco mais, o silêncio deu lugar a sussurros, que fizeram com que ela apurasse os ouvidos, na tentativa de captar alguma coisa.
O marido e a sogra, na certa, cochichavam sobre Larissa.
Priscila apertou o passo, pronta para sair em defesa da menina, quando as vozes abafadas se elevaram subitamente:
- Não admito que fale assim da minha mulher! - era Ítalo, visivelmente zangado.
Priscila não é como você está pensando.
A resposta veio inaudível, mas Priscila sabia que Roberta a acusava de alguma coisa.
A raiva deu uma espetadela em seu coração, preparando-a para o inevitável embate.
Pronta para irromper sala adentro, Priscila chegou a dar os primeiros passos, parando antes de alcançar o limiar da porta.
Precisava aprender a ser mais esperta.
Em vez de brigar, conhecer o inimigo talvez fosse uma estratégia mais interessante.
Oculta atrás da parede, sem emitir nenhum ruído, apurou os ouvidos e focou a atenção no que estava sendo dito.
— Você é muito ingénuo — dizia Roberta, em tom de pura malícia.
Não vê que esse tal de Wilson sempre arranja uma desculpa para vir até aqui?
Numa hora é o filho, noutra, a gata.
O que mais ele vai inventar?
- Quem está inventando é a senhora.
Conheço Wilson há anos.
E Priscila é minha mulher...
- Que já era amiga dele antes de vocês se casarem.
Nunca se perguntou de onde vem tanta amizade?
- Deixe de ser maliciosa!
Cansei de lhe dizer que somos todos amigos.
- Até a amizade há de ter um limite.
- Por favor, mãe, não insista mais nesse assunto.
A senhora não sabe o que está falando.
- Sei muito bem.
Não se iluda, meu filho.
Homem que vive atrás de mulher casada só pode querer uma coisa, e não é amizade.
Aí tem...
- Tem o quê, dona Roberta?
Não conseguindo mais conter a indignação, Priscila saiu de seu canto, esforçando-se para não colocar a sogra para fora de sua casa.
- Deu para ouvir atrás das paredes agora, é? - repreendeu Roberta, que levara um susto.
Que coisa feia!
- Feio é a senhora, na minha casa, fazer intriga minha com o vizinho.
Está querendo me envenenar, para estragar meu casamento?
- Tenha calma, querida — intercedeu Ítalo, conciliador.
Mamãe não falou sério.
Não é, mamãe?
- Pior ainda.
Se esse absurdo fosse sério, seria um equívoco, um mal-entendido.
Não sendo sério, é maledicência pura, um acto deliberado e maldoso.
- Você se melindra à toa - defendeu-se Roberta.
Não a acusei de nada.
Eu só acho que não fica bem esse homem viver atrás de você.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 17, 2017 10:24 am

- Ele não vive atrás de mim.
Vem aqui de forma desinteressada, como fez a vida inteira.
- Ele nos convidou para comermos pizza amanhã - retorquiu Ítalo, tentando mudar de assunto e arrefecer os ânimos.
O que acha, querida?
Estão com um forno novo na padaria, que é um sucesso.
Puseram até algumas mesinhas...
- É claro que iremos! — exclamou Priscila, para surpresa de Roberta.
Assim, a senhora poderá nos observar mais de perto com seu olhar viperino.
Quem sabe não se engasga com um pedaço de pizza, morde a língua e morre do próprio veneno?
- Priscila! - horrorizou-se Ítalo.
- Deixe, meu filho.
É assim que sua mulher gosta de mim.
- Posso ter exagerado - tornou ela, meio arrependida.
Mas a senhora me tira do sério.
- Se não sou bem-vinda nesta casa, posso muito bem ir para um asilo - provocou, tentando fazer-se de vítima.
Com minha pensãozinha, talvez consiga pagar um lugar razoável, onde não seja maltratada.
- De jeito nenhum, mamãe! - objectou Ítalo, estupefacto.
Seu lugar é aqui, com a família.
- Não creio que sua mulher me considere da família.
Outro dia mesmo, ela me disse isso.
- Se disse, foi num impulso - desculpou-se, embaraçado.
Aposto que não foi o que ela quis dizer.
- Foi isso mesmo.
Mas não faz mal.
Estou me acostumando a ser escorraçada.
- Priscila não vai escorraçá-la, não é Priscila?
- Eu estou entendendo bem, ou essa conversa mudou de rumo? - indignou-se Priscila, que, por um tempo, limitara-se a acompanhar o diálogo dos dois, só para ver onde ia parar.
Acorda, Ítalo, não vê o que ela está tentando fazer?
Quer inverter a situação e colocar você contra mim, me fazendo passar por megera.
- Viu só, meu filho?
É assim que ela me vê: como uma megera.
- Não foi isso que eu disse! - irritou-se.
Mas, pensando bem, como se chama alguém capaz de maltratar uma gatinha inocente, inventar mentiras sobre a nora e ainda se fazer de coitadinha?
- Ah! Quer dizer que agora também sou culpada do desaparecimento da gata.
O que mais?
Será que também tenho participação na Lava Jacto?
- Não duvido nada...
- Muito bem, agora chega - repreendeu Ítalo.
Estamos todos com os ânimos alterados.
Acho melhor irmos dormir e deixar essa conversa de lado.
Quem sabe, amanhã, todo esse mal-entendido já não terá sido esquecido?
Vamos, Priscila.
Boa noite, mamãe.
Saiu, arrastando a mulher pelo braço.
Priscila deixou-se conduzir passivamente.
Sentia tanta raiva que nem queria mais reagir, com medo de acabar cometendo uma loucura.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 17, 2017 10:25 am

Por pouco não esbofeteou a sogra, o que poderia ainda lhe valer um processo por maus-tratos a idosos.
E ela não era assim.
Não era essa sua índole.
Não podia permitir que Roberta despertasse nela seu lado mais sombrio.
O mesmo não se dava com Roberta.
Cada vez mais, ela se comprazia em infernizar a vida de Priscila e de Larissa.
Wilson servia bem a seus propósitos.
Ainda que ela, no fundo, não acreditasse que os dois fossem amantes, só insinuar isso para o filho já a enchia de satisfação.
Podia não ser verdade, mas dava uma boa intriga.
Mesmo que Ítalo também não acreditasse na traição da mulher, uma intriga bem feita sempre plantava a semente da dúvida que, com sorte, poderia evoluir para a cizânia ou, quem sabe, a tragédia?
Roberta balançou a cabeça, para afugentar o pensamento indesejável.
Tragédia não era o que ela queria.
Reconhecia que tinha uma mente astuta, maquiavélica, uma habilidade com enredos mordazes, uma dissimulação natural.
Tudo isso eram ferramentas de que ela dispunha para reaver o que lhe pertencia.
Não fosse Priscila ter atravessado seu caminho quando resolvera se casar com Ítalo, ela não teria nenhuma necessidade de lançar mão de métodos traiçoeiros.
No fundo, não tinha nada contra Priscila nem contra Larissa, a não ser o facto de lhe terem roubado seu bem mais valioso.
Sim, era por isso que as odiava e faria o possível para vê-las fora da vida de Ítalo.
Mas uma tragédia... decididamente, não.
Ela era ardilosa, não era assassina.
Um pouco maldosa e cruel, talvez, mas não algoz nem desumana.
Tivera sua quota de tragédia quando fora enfermeira.
Vira muita desgraça, muito sangue, doenças, chagas.
Cuidara de gente ferida a bala, facada, fogo.
Mulheres espancadas, crianças molestadas, idosos desnutridos.
De tudo, experimentara um pouco, mas o suficiente para compreender que violência e felicidade jamais poderiam caminhar juntas.
Uma coisa eram tapas e bengaladas, cuja finalidade era, tão somente, pedagógica.
Ela não tinha receio de usar esse método quando se tratava de ensinar as crianças ou de mostrar aos animais qual o seu devido lugar.
Tampouco fazia segredo de sua intolerância à gata de Larissa, em quem desferiu mesmo uma bengalada.
Mas só. Não foi ela quem trancou o animal no galpão do vizinho.
Na certa, ao correr para lá, a gata esbarrou em alguma tranca e ficou presa.
E quem levou a culpa? Ela, óbvio.
Como sempre, tudo o que acontecia de ruim naquela casa, desde que ela ali chegara, era culpa dela.
Isso, contudo, não a incomodava.
Deixando de lado a violência e a tragédia, havia outros meios de alcançar o que queria.
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Ave sem Ninho

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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 17, 2017 10:25 am

Capítulo 14
Passava um pouco das oito da noite quando Larissa entrou correndo na padaria, que agora se transformara em pizzaria, seguida pelos pais e por Roberta.
As mesas estavam quase todas ocupadas, e um cheirinho gostoso de pizza se espalhava por todos os cantos.
Os fregueses pareciam satisfeitos e à vontade naquele ambiente acolhedor.
Assim que avistou Larissa, André correu ao seu encontro, abraçando-a com efusão.
O que mais queria era mostrar a ela o novo negócio do pai.
- Entende agora o que eu digo? - Roberta sussurrou ao ouvido de Ítalo, apontando as crianças com o queixo.
Com o pai que tem, esse menino não podia sair boa coisa.
O olhar de Ítalo foi de reprovação e de alívio, pois Priscila não havia escutado o comentário.
Ele não disse nada.
Cumprimentou os amigos com o abraço fraterno de sempre.
Quando Wilson abraçou Priscila, Roberta deu uma cutucada nas costelas dele, dirigindo à nora e ao amigo seu sorriso mais maldoso.
- Ficou muito bonito, Wilson - admirou-se Priscila.
- O movimento cresceu bastante, não? — observou Ítalo, olhando ao redor.
Casa cheia, pelo visto.
- Vocês nem imaginam - concordou Isabela, olhando ao redor para ver se alguém precisava de alguma coisa.
Estamos dando um duro danado.
Para pagar as contas, tivemos que despedir o único empregado que tínhamos.
Somos apenas nós, para cuidar de tudo.
- Por isso, peço que vocês não reparem se, de repente, tivermos que deixá-los para atender alguém - avisou Wilson.
- É claro que não, Wilson, imagine! - disse Priscila.
Afinal, o freguês tem sempre razão, não é?
- Somos amigos há muito tempo - acrescentou Ítalo.
Entre nós, não tem frescura.
- Não mesmo.
Agora, venham por aqui.
Reservei uma mesinha especial para nós.
Duas mesas foram postas juntas, perto da janela, a fim de dar espaço para sete lugares.
Depois que todos se acomodaram, Wilson surgiu com uma garrafa de champanhe; e uma de guaraná, para as crianças.
- Precisamos brindar! - exclamou, enchendo as taças, que Isabela ia passando de mão em mão.
Ao sucesso!
- Ao sucesso! - repetiram todos.
Foi uma noite agradável, apesar das constantes ausências dos anfitriões, que se revezavam para atender os clientes.
Houve momentos em que até Priscila e Ítalo se ofereceram para ajudar, servindo pratos, recolhendo travessas, conferindo o troco.
Tudo era novidade, motivo de diversão e alegria.
Quando, finalmente, o último cliente saiu, Wilson fechou as portas, dando por encerrado o movimento.
- Ufa! - desabafou, em tom de gracejo.
Finalmente, descanso.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 17, 2017 10:25 am

- Foi uma noite incrível! - elogiou Priscila.
Adorei ajudar vocês.
- Sério? — tornou Isabela.
Tive medo de estar abusando da boa vontade de vocês.
- De jeito nenhum!
Foi muito divertido.
- Também achei - concordou Ítalo.
- Se você gostou mesmo, Priscila, por que não vem trabalhar com a gente? — sugeriu Wilson.
É nossa amiga, pessoa de inteira confiança.
No começo, não poderíamos lhe pagar muito, mas você não precisaria ficar aqui o dia todo.
Só nas horas de maior movimento, para dar uma força no caixa, quem sabe?
Nesse momento, Roberta quase se delatou.
Durante toda a noite, pouco falara além de monossílabos inexpressivos.
Mantinha a cabeça baixa, mas a atenção circulava por todo o ambiente ao redor.
Em pequeninas garfadas, ia comendo lentamente, disfarçando um apetite voraz, ávido pelas guloseimas que não se permitia degustar.
Contudo, não conseguiu permanecer impassível diante do convite de Wilson.
Deu uma cotovelada nas costelas de Ítalo, que, com a surpresa, por pouco não deixou escapar um grito.
- O que está fazendo, mamãe? - ralhou, baixinho, em seu ouvido.
Fique quieta, por favor.
Ela se remexeu na cadeira, visivelmente incomodada com a repreensão de Ítalo.
Olhou de soslaio para Priscila, que praticamente a ignorava, ocupada que estava em olhar para Wilson.
- A proposta é tentadora - anunciou ela, para horror de Roberta.
- Mas preciso pensar.
- Se é pelo baixo salário, garanto que será uma situação provisória - assegurou Wilson.
Não é nossa intenção fazer você trabalhar de graça...
- Não se trata disso - cortou Priscila, rapidamente.
Somos amigos, salário é o de menos.
Só não sei se daria conta.
Ítalo pigarreou, atraindo para si as atenções.
- Porque não faz uma experiência, meu bem? - aconselhou.
Você sempre gostou de ter o seu dinheiro, e a costura não está dando para nada.
- Não precisa ter pressa - argumentou Isabela.
Pense bem, e depois nos diga.
- Farei isso.
Mas antes, preciso agradecer a vocês por se lembrarem de mim.
- Não foi nada - contrapôs Wilson, sem jeito.
Somos todos amigos...
- Certo, gente, só que agora está tarde - disse Ítalo, consultando o relógio.
Amanhã é segunda-feira, dia de trabalho e de escola.
Não é, Larissa?
- Antes de vocês irem, posso mostrar meu novo jogo do Batman à Larissa? - André quase implorou.
Por favor, tio Ítalo, só um instantinho.
- Deixe, papai — Larissa também implorou.
Vocês conversaram a noite inteira.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 17, 2017 10:25 am

Agora é a nossa vez.
Só um pouquinho, vai...
- O que você acha, Priscila? - ele se dirigiu à mulher.
— Acho que alguns minutos não farão mal.
São dez e vinte e cinco, Larissa.
Às onze, vamos embora.
- Beleza!
Os dois se levantaram correndo, disparando pela porta de trás, em direcção à casa, nos fundos.
À excepção de Roberta, ninguém mais parecia se preocupar com o facto de que não ficava nada bem os dois saírem para brincar sozinhos.
Todos agiam como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
Ela, porém, não conseguiria permanecer indiferente àquele absurdo, colaborando, com o seu silêncio, para o desvirtuamento moral das duas crianças.
- Não me levem a mal — começou ela, interrompendo a conversa dos demais -, mas vocês acham normal um menino e uma menina sozinhos no quarto, sem supervisão de um adulto?
- Não precisa se preocupar, dona Roberta - Isabela respondeu prontamente.
Os dois são muito bonzinhos e educados.
Tenho certeza de que não vão fazer nenhuma besteira.
- De que tipo de besteira você está falando?
Os quatro a encararam ao mesmo tempo, recusando-se a crer na maldade que ela insinuava.
- Ora, do tipo que toda criança faz - continuou Isabela, tentando não dar a ela oportunidade de expressar sua malícia.
Espalhar coisas, quebrar objectos, desarrumar o quarto... enfim, bagunça.
- Na minha época, menino não brincava com menina.
Muito menos ficavam sozinhos, e ainda mais no quarto.
- Sua época já passou, dona Roberta — comentou Priscila, ironicamente.
Hoje em dia, ninguém liga mais para certas coisas.
E depois, eles são crianças.
- É de pequenino que se torce o pepino.
- A senhora adora clichés, não é mesmo? - Priscila não conseguia conter a irritação.
Tem sempre uma frase feita para qualquer ocasião.
- Não sei o que você quer dizer com isso.
Eu me preocupo, é só.
Depois, quando o estrago estiver feito, não digam que não avisei.
- Que estrago?
São só crianças, pelo amor de Deus!
E se conhecem desde que nasceram.
- Mais um motivo.
Muita intimidade para um casal tão jovem.
Já imaginaram essa intimidade daqui a alguns anos?
- O que é que tem, mamãe? - Era Ítalo, também irritado.
Eles vão continuar sendo amigos.
- Ou não...
- Do que a senhora tem medo? - tornou Priscila, indignada.
De eles transarem?
Roberta enrubesceu, mas não se deu por vencida:
- Você mesma disse.
- Ora, francamente, dona Roberta! - acrescentou Priscila.
Como disse antes, ninguém liga mais para isso.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Nov 17, 2017 10:26 am

- Não acredito que você, como mãe, não liga que sua filha se entregue ao primeiro sujeito que aparecer.
- Meu filho não é “o primeiro sujeito que aparecer” — protestou Isabela, com um pouco de fúria.
É um menino ajuizado, muito responsável.
E o melhor amigo de Larissa.
- Pelo visto, você também não se importa.
E por que se importaria?
Tem um filho homem.
- Isso mesmo - concordou Priscila.
E já que eu, que tenho filha mulher, não me importo, creio que o assunto está encerrado.
- Eles ainda são crianças, mãe - Ítalo contemporizou.
Quando chegar o momento, a gente pensa nisso.
- Pode ser tarde demais.
- Já passou pela sua cabeça que eles podem vir a ser namorados? - continuou Priscila.
E que namorados transam?
- Se você acha normal crianças transarem, então não está mais aqui quem falou.
- Quem falou não está mais aqui, então não temos mais que falar sobre isso.
- Acho melhor a gente se despedir - propôs Ítalo.
Está ficando tarde.
- Também acho.
Não vale a pena estragarmos uma noite maravilhosa com discussões inúteis.
- As crianças ainda devem estar jogando - alertou Wilson.
Você disse onze horas.
- Já são quase onze - anunciou Priscila.
É só chamar, que Larissa desce.
Isto é, se eu não estiver interrompendo alguma coisa...
O tom era de escancarada ironia.
Priscila não aguentava mais a intromissão maldosa da sogra nos assuntos da sua família.
Roberta queria mandar, mas ela nunca permitiria.
Mais tarde, já na cama, Ítalo ponderou:
- Acho que você não devia ter falado daquele jeito.
Minha mãe não gostou.
- E eu gostei, Ítalo?
Acha que é bom ouvir sua mãe insinuar que nós e nossos amigos não prestamos?
- Ela nunca disse isso.
- E precisa?
Sua mãe, aos poucos, está pondo as asinhas de fora.
Está se revelando cruel, dominadora e maldosa.
- Ela é idosa.
- E daí?
Isso não lhe dá o direito de ser desagradável e se intrometer na nossa vida.
- Tenha paciência com ela, Priscila, é só o que lhe peço.
- Só me faltava você ficar do lado dela.
Não é possível que não tenha percebido o que ela está fazendo.
- Ela é desagradável, não nego.
Também eu não gosto das coisas que ela fala.
Brigo sempre com ela, chamo sua atenção.
Mas ela é velha, teve outra criação.
- Entendo isso.
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