O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 18, 2017 10:54 am

O que não entendo, e não aceito, é ela achar que tudo tem segundas intenções.
Primeiro acha que Wilson e eu temos um caso.
E agora, as crianças até já transam?!
- Não foi isso o que ela disse...
- O problema é que ela nunca diz nada.
Leva os outros a dizerem por ela.
Pense bem, Ítalo.
Sua mãe está provocando discórdia na nossa casa.
- Ela não faz por querer...
- Não a defenda mais, por favor, ou acabaremos brigando, e é exactamente isso que ela quer.
- Você está exagerando.
Por que minha mãe haveria de querer que brigássemos?
- Ela não gosta de mim.
Quer você só para ela.
- Que bobagem.
Minha mãe sabe que eu amo você.
- Sabe mesmo? Duvido.
la pensa que pode competir comigo.
- Competir com você?
Mas o que é isso agora?
Ciúmes da minha mãe?
- Ela é que morre de ciúmes de mim e da Larissa.
Faz questão de me lembrar que Larissa não é sua filha.
- Minha mãe sabe que gosto de Larissa como se fosse minha filha de verdade.
- Esse talvez seja um dos problemas.
Ela não aceita você tratar como filha a filha de outro homem.
Durante alguns minutos, ele permaneceu pensativo, até que avaliou:
- Talvez você tenha razão.
Minha mãe sempre foi dominadora e controladora.
Talvez esteja estranhando o facto de que não pode mandar em nossa casa.
- Isso jamais irá acontecer!
Por favor, Ítalo, nunca a deixe pensar que tem esse poder.
Sua mãe é uma pessoa difícil, você sabe.
- Eu sei.
Mas será que podemos deixá-la de lado por um momento?
Preciso de você.
A troca de carícias afastou Roberta, momentaneamente, dos pensamentos de Priscila.
A recíproca, no entanto, não acontecia.
Sozinha em seu quarto, Roberta remoía os últimos acontecimentos, imaginando o teor da conversa que os dois mantinham na cama.
A seus ouvidos chegavam apenas murmúrios indiscerníveis, sons indistintos abafados pelas paredes, impossíveis de precisar, mas não de deduzir.
Falavam dela, com certeza.
E, com certeza, Ítalo a defendia.
O volume das vozes, que ora se elevava, ora diminuía, mantinha sua atenção tão aguçada que afugentou o sono para lá da madrugada.
Ela queria tanto escutar a conversa que chegou a se levantar, indo postar-se diante da alcova do filho, o ouvido grudado na porta, pronto para captar as palavras malditas da nora e reuni-las em sua própria trama perversa.
Ou então, o que seria melhor, aproveitar-se da defesa de Ítalo para mostrar que a nora nunca seria mais importante do que ela.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 18, 2017 10:55 am

Apesar dos esforços, não conseguiu distinguir nada além de um verbo ou substantivo escassos, insuficientes para que ela montasse sua história.
Cedendo mais ao cansaço do que à frustração, acabou desistindo da infame vigília e retornou ao quarto, as pernas exaustas de manter o peso do corpo sem o auxílio da bengala, cujo toc, toc reverberando no soalho bem poderia delatar sua presença.
O esforço de caminhar sem apoio quase levou sua determinação.
Por pouco, ela não se entregou ao sono, deixando passar a oportunidade de exibir sua vitória.
Teria adormecido, embalada pelo tédio das vozes que, aos poucos, iam se tornando inalteradas, até que, inesperadamente, silenciaram.
A alteração na frequência com que o som inundava seu cérebro rompeu com a monotonia, responsável pela sonolência.
Roberta arregalou os olhos, fixando-os na escuridão vazia do aposento.
Teria adormecido?
O relógio na mesinha de cabeceira informava que apenas cinco minutos haviam se passado desde que ela retornara ao quarto.
Agora, a casa toda parecia quieta.
As vozes cederam espaço ao silêncio.
Todos estavam dormindo.
Menos o filho e a nora.
Mesmo sem ver, Roberta sabia que eles não dormiam.
Um rangido quase imperceptível, partindo do fim do corredor, foi suficiente para que ela deduzisse o que eles estavam fazendo.
Seu coração encheu-se de raiva. Depois de todos os desaforos que ela fora obrigada a ouvir da nora, Ítalo ainda se mantinha ao lado dela.
Sabia disso, porque os dois estavam se amando!
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 18, 2017 10:55 am

Capítulo 15
Aos poucos, Lizandra foi deixando de sofrer por causa de Danilo.
Ainda sentia saudades dele, sonhava que o beijava, que estavam se amando.
Acordava ofegante, sentindo na pele o roçar das mãos dele, mas logo percebia que não eram os dedos do amante que acendiam seu fogo, e sim os do marido.
Entre a decepção e o desejo, ela deixava fluir o prazer daquele contacto, entregando-se a Vítor com ardor, sem saber se era a ele ou ao outro que devia tamanha paixão.
A vida começava a retomar sua rotina, restabelecendo a harmonia dentro de casa.
E, embora Vítor, por vezes, a olhasse com desconfiança, impondo entre eles um certo distanciamento, parecia deixar-se seduzir pelo interesse dela, dedicando-lhe mais atenção do que ela realmente merecia.
Não tardou para que a monotonia voltasse a incomodar Lizandra.
Apesar de decidida a não mais se relacionar com outro homem além do marido, não podia abrir mão de se divertir.
Logo retomou suas saídas, gastando seu tempo entre o shopping, a academia e o salão de beleza.
Tudo isso sem descuidar muito da família.
O cachorro também não a incomodava tanto.
Já estava até se acostumando com ele, apesar de ainda se aborrecer bastante cada vez que ele destruía alguma coisa.
Billy recebia as broncas que ela lhe dava com resignação, mas sem medo, como se soubesse que merecia a reprimenda por ter feito algo errado.
- O Billy não tem mais medo de você, mãe - comentou Rodrigo, vendo como o cachorro se aproximava de Lizandra para receber seus carinhos.
Sabe que você agora é amiga dele.
Ela não disse nada.
Apenas sorriu com benevolência, esforçando--se para que aquela pretensa amizade se tornasse real.
Ela acariciou a cabeça do cachorro, que se esparramou no chão, expondo o peito para que ela o afagasse ali.
Rodrigo tinha razão.
O cachorro aprendera a confiar nela e a demonstrar-lhe afeição.
Naquela manhã, como sempre, ela abriu a porta preparada para o pulo que Billy daria em cima dela, abanando o rabo e tentando lamber seu rosto.
O animal tinha esse costume horrível, que ela não conseguia corrigir.
Isso se repetia todas as vezes que ela entrava em casa.
Não falhava nunca.
Nem uma vez sequer, Billy deixou de recebê-la com seu costumeiro alvoroço.
Por isso, foi com imensa estranheza que ela entrou em casa, já que o cachorro não apareceu.
- Billy! - ela chamou, pensando que ele talvez estivesse dormindo.
Vem cá, Billy. Cadê você?
Acorda, preguiçoso.
Como ele não respondia, Lizandra começou a se preocupar.
E se ele estivesse doente?
Ou tivesse se machucado? Ou fugido?
Rapidamente, ela afastou do pensamento a breve satisfação que aquelas ideias lhe proporcionaram.
Pelo bem de Rodrigo, não podia permitir que elas se transformassem em esperança.
Talvez ele estivesse com Anita, na cozinha.
Na certa, o cheiro de algum quitute o prendia lá.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 18, 2017 10:55 am

Sim, devia ser isso.
De toda sorte, tinha que se certificar.
Atravessou a sala imensa, olhando embaixo dos móveis, mas, como esperava, não o encontrou.
Ia passando perto da mesa de jantar, quando o sapato deslizou sobre algo que tornava o chão mais liso do que normalmente era.
Ela olhou para baixo, seguindo o rastro de uma espuma branca, que contornava a mesa e ia morrer do outro lado da sala.
Teve o pressentimento de que não ia gostar do que estava prestes a ver.
E foi o que aconteceu.
Ela engoliu em seco.
Por pouco não desmaiou de horror.
Para começar, os pés das poltronas haviam sido quase totalmente roídos, as lascas da madeira pulverizadas por todo o piso.
Os estofados em jacquard foram feitos em tiras, espalhadas pela sala como trapos esfarrapados.
E suas preciosas almofadas, de seda texturizada e de cetim em capitonê, sofreram uma estripação tão severa que mais pareciam corpos sem vísceras.
- Anita! — ela berrou, apavorada.
A empregada acorreu às pressas, pensando que alguma desgraça havia sucedido.
Quando chegou à sala, teve confirmadas suas suspeitas.
— Dona Lizandra... - murmurou ela, levando as mãos às faces rubras.
O que foi que aconteceu aqui?
— O que aconteceu?
Eu é que lhe pergunto:
o que significa toda essa destruição?
— Não sei. Eu estava na cozinha, fazendo o almoço.
— Cadê o Billy?
— Não faço ideia.
Não faz muito tempo, ele estava lá fora, no terraço.
— Billy! — ela gritou, tentando manter a calma.
Venha cá, Billy, estou chamando!
De cabeça baixa, o rabo entre as pernas, Billy, finalmente, apareceu, vindo do quarto de Rodrigo.
Parecia envergonhado, arrependido da bagunça que havia feito.
— Olha a cara dele, dona Lizandra! — exclamou Anita.
Parece até que sabe que fez besteira.
— Não parece, não.
Ele sabe. Isso se faz, Billy?
Sua vontade era dar uma surra naquele cachorro danado.
Foi um custo conseguir se controlar.
Billy tentou se desculpar à sua maneira.
Sentou-se diante dela, ganiu baixinho, procurou sua mão para uma pequena lambida de reconciliação.
Anita não foi capaz de conter o riso, mas Lizandra não conseguia ver onde estava a graça.
— Me desculpe, dona Lizandra, mas a cara dele está muito gozada.
— Gozada vai ser a surra que vou dar nele!
Anita calou-se, assustada.
Mais adiante, o espírito de Moisés envolveu o cachorro num abraço etéreo, para tentar defendê-lo.
— Fique quieto - sussurrou ele, ao ouvido de Billy.
Se a megera tocar em você, revide.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 18, 2017 10:55 am

Dê-lhe uma dentada bem dada.
Embora o cão não fosse indiferente à presença de Moisés, não captava suas sugestões, que iam contra sua natureza dócil e meiga.
O espírito encarava Lizandra com hostilidade, sacudindo os punhos fechados em sinal de ameaça, pronto para desferir-lhe um murro, caso ela se aproximasse mais.
Paralisada, Anita rezava baixinho, pedindo a Deus que domasse a fúria da patroa, evitando uma desgraça.
Em contrapartida, Moisés sustentava a atitude ameaçadora, praguejando em voz alta, lançando fagulhas invisíveis na direcção dela.
Como o poder da oração é mais forte, capaz de neutralizar os entraves energéticos que tentam impedir a fluência das vibrações do bem, Anita conseguiu desmanchar as faíscas que o espírito atirava sobre Lizandra na forma de dardos venenosos.
Foi graças ao apelo da criada que a mente de Lizandra se clareou, fazendo ressurgir, do fundo de seus pensamentos, as palavras do filho, tão cheias de alegria, que ela não foi capaz de ignorá-las:
“O Billy não tem mais medo de você...
Sabe que você agora é amiga dele”.
Que espécie de amiga era ela, que não levava em conta os sentimentos do próprio filho?
— Você não é amiga de ninguém — rugiu Moisés, que interceptou seu pensamento.
É uma falsa, fingida, dissimulada.
Está doida para dar um jeito de sumir com o cachorro.
— Venha cá, Billy — chamou ela, estendendo a mão para ele, que chegou para perto a cabeça, colocando-a ao alcance do afago de Lizandra.
Você não devia ter feito isso, viu?
Foi muito feio.
Inteligente como era, Billy intuía a extensão de seu ato.
Com os olhos, acompanhou a direcção em que ela apontava. Vendo a destruição que causara, lambeu a ponta de seus dedos, as orelhas caídas em sinal de submissão, de respeito, de arrependimento.
A reacção dela deixou Moisés meio apalermado, principalmente porque Billy se derretia ante a doçura de sua voz, onde apenas ele parecia reconhecer o fingimento.
— Não se deixe enganar, meu amigo - falou ele com tristeza, acariciando a barriga do cachorro por debaixo da mão de Lizandra.
Você pode ser amigo dela, mas ela será sempre sua maior inimiga.
Se Billy escutava, não compreendia.
Naquele momento, os carinhos da mulher favoreciam a confiança, reforçando os laços de amizade que ele, na inocência própria dos "irracionais”, acreditava existir.
Lizandra também acreditava nisso.
Estava firmemente convicta de que agora era capaz de administrar a têmpera, segurando os impulsos antes que eles se tornassem acções avassaladoras.
- Graças a Deus, dona Lizandra, que a senhora se conteve - comentou Anita, mal conseguindo disfarçar o alívio.
O pobre não tem culpa de ser cachorro.
Ela encarou a empregada, balançando a cabeça em sinal de assentimento, e retrucou de um jeito meio frio, meio enigmático:
- Não, Anita, não tem.
Novamente em luta consigo mesma, Lizandra entrou no quarto.
Parecia que um diabinho se digladiava com um anjinho, cada um soprando conselhos diferentes em cada ouvido.
Será que estava ficando louca?
Não era possível que um simples cachorro tivesse o poder de desequilibrar sua sanidade.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 18, 2017 10:56 am

Afinal, o que estava acontecendo com ela?
Se ela pudesse, veria o vulto sombrio encostado na porta do quarto.
Moisés não era um espírito ruim, contudo, estava a tal ponto envolvido com Billy, que qualquer coisa que pudesse ameaçá-lo imediatamente erguia, a seu redor, uma aura de revolta que se fazia reflectir no campo emocional de Lizandra, dada a incapacidade dela de se conectar com energias mais subtis.
O resultado da indignação de Moisés foi uma forte dor de cabeça, que a visitava com frequência, desde que ela trouxera o cachorro para casa.
Nem de longe ela era capaz de fazer tal associação, se bem que Moisés também não fosse.
Ela não sabia estar sendo bombardeada pela raiva de um espírito, e este desconhecia seu poder.
Momentos depois, quando um ruído de algazarra chegou até o quarto, Lizandra abriu o chuveiro.
Precisava esfriar a cabeça antes de encontrar o filho, que acabava de chegar da escola.
- Esfrie o quanto quiser - disse Moisés.
Só não se meta com o cachorro.
Ou vai se ver comigo.
Quando ela começou a se despir, ele não quis mais ficar.
Era um indigente morto e revoltado, mas era uma pessoa decente.
De olhos fechados, virou as costas e saiu.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 18, 2017 10:56 am

Capítulo 16
O diabo não dorme nem tira férias.
Não se descuida, não enfraquece, não desiste.
É persistente, tenaz, astucioso.
Se não pode atacar de frente, dá a volta pelo lado até encontrar um ponto fraco por onde possa se infiltrar.
O diabo é paciente, calculista, gosta de seduzir com a mentira, a ilusão.
Porque o que o diabo mais sabe fazer é enganar, transformando a realidade numa sombra moldada de prazeres, que afasta a razão e traz para perto o êxtase provocado pelas falsas certezas, pelas conquistas fáceis e pela ilusão maior do poder.
Assim também o anjo.
Ele não dorme nem tira férias; não se descuida, não enfraquece, não desiste.
Só que o anjo não ataca.
Ele protege, ajudando a erguer a fortaleza do discernimento, que mantém indene a razão.
Para o anjo, não existem pontos fracos, apenas potenciais que ainda não foram desenvolvidos.
E, como ele também é paciente, trabalha para transformar toda aptidão para o bem em um escudo de luz e uma espada de amor.
São essas as armas que ele levanta para defender a verdade, combatendo as sombras que obscurecem a mente e o coração.
Céu e inferno são alegorias originadas da imaginação humana, que precisou criar, no mundo externo, um lugar de luz ou de sombra capaz de reflectir seu próprio universo interior.
São criações mentais tão poderosas que se consolidaram fora da matéria, resultado da soma de crenças semelhantes, que buscam conforto ou castigo após a morte.
Céu e inferno dividem o reino da mente humana, colocando anjo e demónio como senhores absolutos de cada parte sob seu domínio.
Não existe quem não possua, ainda que escondido no recôndito mais profundo de sua essência, esse governo dividido, ditando regras e conselhos.
Ninguém pode viver sem um e outro.
Os dois são necessários ao equilíbrio do pensamento e da emoção.
Quanto mais o diabo avança, mais intolerante, violenta e pérfida se torna a pessoa.
Sozinho, o anjo retira a agressividade natural que, bem direccionada, fornece o elemento que impulsiona o homem ao desenvolvimento.
Buscar esse equilíbrio é um dos grandes desafios do ser humano.
Não se pode rejeitar o diabo nem recusar o anjo.
O diabo não é o malvadão; o anjo não é o bonzinho.
Cada um deles é apenas um aspecto de algo muito mais profundo, implacável e assustador: a consciência.
Todos os dias, Lizandra se via em luta com seu diabinho e seu anjinho particulares, tentando, a todo custo, equilibrar seus pensamentos, de acordo com os ditames da consciência.
Não era fácil.
Sentia falta de Danilo, irritava-se com o cachorro e não podia descontar em nenhum dos dois.
Obrigava-se a conviver com a ausência do amante e as diabruras do cão.
- Aonde é que vocês vão? — indagou ela ao marido e ao filho, deitada no sofá com uma forte dor de cabeça.
- Levar o Billy ao parque de cães - respondeu Rodrigo, atando a coleira ao pescoço do cachorro.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 18, 2017 10:56 am

- Parque de cães?
Que novidade é essa?
- Descobri um parque aqui perto onde os cachorros ficam soltos - esclareceu Vítor.
Vamos levar o Billy lá para brincar.
- E eles não fogem?
- Dificilmente.
É uma área cercada.
- Não quer vir com a gente, mamãe?
- Hoje não, meu filho.
Estou com uma enxaqueca terrível.
- Quer que eu traga algum remédio? — Vítor perguntou.
- Não precisa, já tomei.
- Se está tudo bem, então, vamos indo.
Quanto mais tarde, mais quente.
- Hum, hum... Mas espere, Vítor!
E o adestrador?
Você não ficou de arranjar um?
- Ainda estou procurando.
- Tudo bem.
Assim que a porta se fechou, Lizandra abriu os olhos.
O remédio parecia estar começando a fazer efeito, já que a dor diminuía.
Na verdade, a dor era resultado da influência de Moisés que, ao sair atrás de Billy, rompera o elo energético que mantinha com Lizandra.
Cerca de dez minutos depois, a dor havia sumido por completo.
Ela se levantou do sofá e foi para a cozinha, onde preparou um copo de limonada, para espantar o calor.
A bebida gelada lhe fez bem.
Uma brisa fresca soprava do terraço, apesar do sol, esparramado por todos os cantos.
Apoiada no portal, para refrescar-se com o vento, ela bebia o refresco, enquanto analisava as condições do terraço.
Precisava de uma pequena reforma.
O deque da piscina tinha um rombo, que Billy abrira de tanto morder.
Os pés das cadeiras estavam roídos, as almofadas tinham marcas de dentes.
Nem a rede se salvara, já que Billy puxara tanto as franjas que a maior parte havia se soltado do tecido.
Para não se aborrecer, ela voltou para dentro, tentando não prestar atenção à água que ele entornara da bacia e se espalhava pelo piso da cozinha, misturada com a terra que ele cavoucava dos vasos, onde enterrava seus ossos.
Na área de serviço ao lado, folhas de jornal sobrepostas e amassadas escondiam as fezes e a urina, cujo odor era impossível disfarçar.
Ainda mais essa.
Sábado, sem a Anita, não tinha quem limpasse a sujeira do cachorro, o que acabava sempre sobrando para ela.
Como detestava aquilo!
Retornou para a sala, onde o caos a deixou ainda mais irritada, sobrepondo-se à fraca determinação de não se irritar.
Brinquedos parcialmente comidos jaziam espalhados pelo chão, infestando tudo de baba e sujeira.
Almofadas remendadas, um pouco de recheio aqui e ali, espalhado pelo vento e que Anita não vira.
Dois pés da mesa comidos, o sofá cheio de marcas de patas, o fio do telefone quase partido por uma dentada.
Lizandra não aguentava mais.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 18, 2017 10:56 am

Estava indo além de seu limite.
Amava o filho, não queria que ele sofresse, muito menos que ficasse magoado com ela.
E agora que reconquistava o marido, não queria fazer nada que o desgostasse.
Mas não era justo ela passar por tudo aquilo só para manter os outros felizes.
E a felicidade dela, onde ficava?
— Não fica - disse para si mesma.
Mas enfim... Só se o cachorro sumisse.
Ele podia fugir ou sofrer um acidente...
Horrorizada com tão macabro pensamento, ela sacudiu a cabeça, para espantar a tentação do demónio.
Procurou centrar-se nas coisas boas que advinham daí.
Aturar o cachorro não era um preço muito alto para estar em paz com o filho e o marido.
Isso era o mais importante, era no que ela precisava se concentrar.
Sua prioridade, agora, era a família.
Mais tarde, quando os três voltaram do tal parque, ela os recebeu com a mesa posta para um almoço especialmente feito para o marido e o filho.
Queria se redimir de sua própria sordidez.
— Que bom! — exclamou Rodrigo.
Estou morrendo de fome.
Sentaram-se, com o cachorro ao lado, lançando ao filho um olhar de pidão.
Rodrigo lhe passava pedaços de frango e batata frita, que ele comia com gosto.
— Você não devia dar isso para o cachorro - observou Lizandra.
Pode fazer mal a ele.
— Não faz, não - objectou Rodrigo, atirando uma batata no chão.
Se a gente come, ele também pode comer.
Ela sorriu, sem o contrariar, uma ideia súbita despontando no fundo de sua mente.
— E que tal o parque? — indagou, com interesse.
— Muito bom — respondeu Vítor.
Os cachorros ficam soltos e se divertem.
— Eles não brigam?
— Não, né, mãe!
Cachorro brabo não pode entrar.
— Ainda bem.
E fica longe daqui?
— Não.
— Dá para ir a pé?
— Nós fomos — disse Vítor.
Por quê?
- Estive pensando...
Talvez me faça bem dar umas caminhadas com o Billy.
- Você não faz academia todo dia?
— Faço. Mas caminhar é sempre bom.
E Billy não precisaria esperar Rodrigo chegar da escola para levá-lo à rua.
— Boa ideia, mãe!
O Billy vai adorar sair com você.
Não é, Billy?
O animal respondeu com um latido contente.
Ouvindo a alegria dele, que provocava a do filho, ela sentiu um aperto no coração.
Como pudera pensar em desfazer-se do cachorro, maior responsável pela alegria do filho?
Decididamente, ela não podia.
Jamais faria isso.
Levá-lo para passear todos os dias era uma maneira de demonstrar aos dois homens de sua vida o quanto ela havia mudado.
Tinha certeza de que isso os impressionaria, faria com que eles nunca mais duvidassem de que ela era boa esposa e mãe.
E, quem sabe, ela não gostaria de passear com Billy?
Talvez ele lhe mostrasse um prazer que ela ainda não sentira, mas que muita gente parecia sentir.
Era hora de ela demonstrar que também podia agir como qualquer pessoa e ser dona de um cão.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 18, 2017 10:57 am

Capítulo 17
Logo na segunda-feira, Lizandra deu início ao novo proseio.
Quando voltou da academia, atou a coleira no pescoço de Billy e saiu com ele.
Foi preciso muita força para dominá-lo.
Indisciplinado, ele puxava a correia, disparando na frente dela feito um lobo selvagem, obrigando-a a andar depressa para não ser arrastada.
- Decididamente, você precisa de um adestrador, Billy - reclamou ela, dando um puxão na coleira.
Se não, quando crescer, ninguém vai conseguir segurar você.
Aos trancos e barrancos, ela concluiu o passeio, quase arrependida de ter tido aquela ideia, os braços doloridos de tanto puxar a guia.
Fora apenas uma volta no quarteirão, mas a deixara esgotada.
Se continuasse assim, não sabia por quanto tempo conseguiria manter a determinação.
No dia seguinte, foi a mesma coisa, e, no outro, também.
A falta de disciplina dele a estava cansando.
Ele puxava, ziguezagueava de um lado para outro, queria escolher que caminho seguir.
Lizandra não andava, praticamente corria atrás dele.
Parecia um trem desgovernado.
Quando ele parou para cheirar uma árvore, ela deu um suspiro de alívio.
O calor fazia brotar gotículas de suor em sua testa, que ela limpou com o punho.
Devia ter trazido um lenço de papel.
Um puxão na guia deu sinal de que ele havia terminado.
Olhando para baixo, Lizandra sentiu a repulsa que sempre experimentava toda vez que ele fazia cocô.
Ela olhou de um lado a outro, para ver se havia alguém observando-a.
Se não houvesse ninguém, simplesmente ignoraria a sujeira e iria embora.
Mas um casal de idosos vinha se aproximando, e o velhinho já olhava para ela com ar de reprovação.
Querendo demonstrar que era uma pessoa civilizada, ela afrouxou a coleira e retirou um saquinho plástico do bolso da bermuda, com o qual recolheu as fezes do cachorro, tudo sob o olhar vigilante do casal, que, embora fingisse não prestar atenção, estava pronto para censurá-la, caso ela não fizesse a devida limpeza.
Como se entendesse o que se passava, Billy se sentou perto dela, aguardando que Lizandra terminasse, para poderem prosseguir com o passeio.
A atitude de Billy agradou-a imensamente.
Era a primeira vez que ele ficava quieto.
Talvez estivesse cansado ou com sede.
De qualquer forma, a surpreendente quietude dele levou-a a afrouxar a correia, a fim de melhor segurar o saquinho com seus dejectos.
Foi nessa hora que o inesperado aconteceu.
Do outro lado da rua, um gato passou correndo.
Tudo aconteceu muito rápido.
Feito um alucinado, Billy deu uma arrancada tão violenta que a correia escapuliu da mão dela.
Ele disparou pela rua, quase foi atropelado e investiu contra o gatinho, que subiu em um muro bem a tempo de evitar uma focinhada, já que ele não tinha o hábito de morder.
Como o gato sumiu, Billy ficou desesperado.
Seguiu ladeando o muro, na esperança de encontrá-lo na outra extremidade.
Ele não estava lá, mas o cachorro continuou correndo, correndo, até que a lembrança do gato havia esmaecido, e só o que sobrou foi a maravilhosa sensação de liberdade.
— Billy! — Lizandra chamou esbaforida, correndo atrás dele feito louca.
Volte aqui, Billy!
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 18, 2017 10:57 am

Billy não obedeceu.
Ao contrário, corria ainda mais rápido.
Cada vez que ouvia a voz dela, aumentava a velocidade, julgando fazer parte de uma brincadeira.
- Para, Billy! - ela continuava gritando.
Junto! Junto!
Era o comando que ela descobrira na internet, para fazer o cão voltar para junto de seu dono.
Só que Billy não sabia disso.
Ninguém nunca lhe ensinara nada.
A certa altura, as pernas de Lizandra recusaram-se a obedecer.
Ela não aguentava mais correr.
Quase sem conseguir respirar, sentindo dor na lateral do corpo, ela parou e ficou apenas olhando, impotente, vendo-o diminuir cada vez mais com a distância.
- E agora? - lamentou ela, à beira das lágrimas.
O que é que eu vou fazer?
Ela ia chorar.
Não podia evitar que o pranto a destruísse.
Chorava de desespero, de raiva, de remorso.
Devia ter previsto aquilo.
Billy era um animal sem qualquer noção de adestramento, não sabia se comportar na rua.
Não era culpa dele.
Não. Ela era culpada... culpada por não poder fingir para si mesma que, se ele sumisse, sumiria com ele boa parte de seus problemas.
Torturada pelo alívio que não devia sentir, Lizandra manteve os olhos fixos na rua vazia, à espera, nem ela sabia de quê.
Queria que Billy voltasse, ao mesmo tempo que torcia para ele sumir.
Era isto o que mais a afligia:
essa ambiguidade de sentimentos, que a conduzia pelos extremos da própria consciência.
Enquanto esperava, pensava no que iria dizer.
Difícil mesmo seria convencer o marido e o filho de que não fora proposital.
Billy simplesmente se soltou e correu.
Correu e sumiu.
Sumiu e não voltou.
Uma súbita visão surgiu para desmentir a fatalidade inevitável que ela começava a urdir.
Ao longe, no fim da rua, a silhueta negra de um animal caminhava em sua direcção, sem pressa, despreocupado.
À medida que se aproximava, sua forma se tornava familiar, até que ele chegou próximo o suficiente para que ela não tivesse nenhuma dúvida do que, desde o início, era uma certeza.
Como se nada tivesse acontecido, Billy sentou-se ao lado dela; a língua de fora, o único sinal de cansaço.
Agora sem saber se ria ou se chorava, Lizandra abaixou-se para apanhar a guia empoeirada, solta atrás dele.
Devia brigar com ele?
Ou simplesmente abraçá-lo, demonstrando que estava feliz com a sua volta?
Sem muito pensar, abraçou-o, incapaz de repreendê-lo.
— Vamos? — chamou. — Para casa.
Ele a seguiu obedientemente, a marcha reduzida pela exaustão que sofreava suas patas.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 18, 2017 10:57 am

Lizandra ia em silêncio, perguntando-se até que ponto ele tinha consciência do que havia feito.
Talvez nenhuma.
Ou talvez conhecesse a extensão do seu limite, intuindo o momento em que deveria retroceder, para não perder o caminho de volta para casa.
À noite, quando Vítor chegou, encontrou-a sentada na sala, com o filho ao lado e Billy deitado a seus pés.
Ele pressentiu sinais de animosidade e irritação.
- Aconteceu alguma coisa? - indagou, sentando-se na poltrona diante deles.
- O que aconteceu foi que o Billy quase fugiu hoje — respondeu Lizandra, sem fazer rodeios.
- Como assim?
- Ele puxou a guia da minha mão e disparou atrás de um gato.
Pensei que o tinha perdido, mas ele, inexplicavelmente, voltou.
- É porque ele gosta da gente, não é, Billy? - intercedeu Rodrigo, abraçando o cão pelo pescoço.
- Ele voltou porque é inteligente e sabe que poderia se perder — corrigiu Vítor.
De qualquer forma, é preocupante.
Da próxima vez, pode ser que ele não volte.
- Exactamente.
Para evitar isso é que ele não sai de casa enquanto não tiver um adestrador.
Não quero que, mais tarde, me acusem de ter dado sumiço no cachorro.
- É você quem se acusa.
Nem de longe isso passou pela minha cabeça.
E aposto que, pela de Rodrigo, também não.
O menino meneou levemente a cabeça, incomodado por essa possibilidade que, até então, não havia lhe ocorrido.
- Só estou dizendo isso porque... vocês sabem por quê.
Já chega o que passamos com a Suzy.
A menção à gatinha estendeu uma névoa de tristeza nos olhos de Rodrigo, que se abraçou ainda mais a Billy.
- Está bem — concordou Vítor, notando a mudança na expressão do filho.
Você está certa.
Amanhã mesmo vou providenciar um bom adestrador.
Dois dias depois, Billy iniciou o adestramento.
As primeiras aulas aconteceram no terraço, para que o adestrador ganhasse a confiança do animal.
Em breve, já estavam na rua.
Um pouco mais tarde, Lizandra e Rodrigo passaram a participar das aulas, a fim de que o cachorro reconhecesse o comando de suas vozes.
O aprendizado foi breve.
Graças à extraordinária inteligência dos border collie, Billy não encontrou dificuldade alguma em aprender.
Só assim Lizandra retomou seus passeios na rua, permitindo, também, que Rodrigo saísse com ele mais tarde, em companhia do pai.
Apesar das contradições não apenas emocionais, mas comportamentais de Lizandra, um elo de intimidade estabeleceu-se entre ela e o cão.
Desde que ele passou a obedecer-lhe, suas travessuras se tornaram mais contidas e ela chegou mesmo a sentir um certo prazer em sua companhia.
Caminhar com ele pela manhã tornou-se um programa agradável, tranquilo, um alívio para o stress.
— Será que você mudou mesmo? — Moisés costumava indagar, responsável, em parte, pelo alívio que ela sentia.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 18, 2017 10:57 am

Quero acreditar em você, sua megera, mas não sei, não...
À medida que ele aliviava a pressão sobre Lizandra, a enxaqueca ia melhorando, de forma que ela, não de todo equivocada, associava essa melhora aos passeios matinais com o cão.
E, embora Moisés não estivesse totalmente convencido da surpreendente transformação no temperamento de Lizandra, aos poucos foi se acostumando.
Mudar, no entanto, significa não apenas refazer a atitude, mas convencer a mente e o coração de que velhos vícios não são mais satisfatórios.
Quando a razão e a emoção se equilibram na consciência das acções oportunas, prevendo e aceitando somente resultados condizentes com a ética humana e espiritual, então, a verdadeira transformação acontece, de forma definitiva, segura e irrevogável.
Se não é assim, o que se tem é a imposição da razão sobre a emoção, que mexe com a consciência, embora não seja capaz de, realmente, alcançá-la.
A mudança assim operada é mera ilusão imposta pelo desejo, que se desmancha na primeira oportunidade que a verdadeira essência encontra de se desprender do jugo do pensamento racional, abandonando os grilhões do que deve ser para ganhar a liberdade daquilo que realmente é.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 18, 2017 10:58 am

Capítulo 18
No banco de trás do carro, Billy se mantinha deitado, quase imóvel.
A pequena mancha de sangue secara em sua cabeça, não chegara a sujar o estofado.
À medida que a raiva de Lizandra arrefecia, arrependia-se da atitude precipitada e vingativa que tomara com o cachorro.
— Mas também, o que deu em você para subir na minha cama e fazer xixi? - indagou ela, olhando-o pelo espelho.
Você nunca fez isso.
Ficou doido de repente, foi?
Ouvindo a voz dela, ele levantou a cabeça e ganiu baixinho.
Logo, um odor ácido de urina se espalhou pelo carro.
O cheiro foi tão forte que Lizandra foi obrigada a desligar o ar-condicionado e abrir as janelas.
Ela parou o carro na beira de uma calçada, virando-se para trás com indignação:
— Está a fim de me provocar, é?
Não foi por querer que bati em você.
Não precisava fazer isso.
Novo ganido, seguido de um jacto de urina que se espalhou pelo banco negro, inviabilizando que ela identificasse o sangue misturado com a urina.
O cheiro se tornava insuportável.
Olhando para ele, Lizandra percebeu sua dor.
Havia algo de errado com ele.
Tirando o facto de que ele urinara onde não devia, o que nunca antes havia feito, não era natural ele esvaziar a bexiga sobre o próprio corpo.
Sem contar aquele odor forte, que quase a fez vomitar.
— Você está doente, não está?
Deu um jeito de arranjar alguma infecção urinária.
Era só o que me faltava...
De volta para a frente, ela engatou a marcha, prosseguindo pela rua.
Mais uma razão para levá-lo ao veterinário, além da pancada que ela desferira em sua cabeça com o secador de cabelo, que lhe abriu uma pequena ferida no crânio.
A caminho da clínica, ia pensando.
Se havia uma coisa para a qual ela nunca tivera paciência, era cuidar.
Por isso, a dificuldade com o filho, que passava longe da falta de amor, revelando seu temperamento inquieto, omisso, tão descuidado, que beirava a negligência.
Rodrigo, contudo, tinha a seu favor o inabalável sentimento da mãe, que exigia dela esforço e persistência, a fim de assegurar que lhe daria o melhor que tinha para dar.
O mesmo podia dizer do marido, para quem queria se tornar uma mulher atenciosa e, com isso, manter unida a família e intacto o casamento.
O cachorro, porém, era diferente.
Se continha a irritação, era porque conseguira, após muitos percalços, enquadrá-lo no que ela considerava um comportamento razoavelmente adequado.
Anita cuidava dele nos dias de semana e, aos sábados e domingos, convencera Rodrigo a limpar a sujeira dele, dar-lhe água e comida, o que ele fazia sem reclamar, auxiliado pelo pai.
Assim, tudo se tornou mais fácil.
Doença, contudo, era outra história.
Não bastava levá-lo ao veterinário.
Era preciso cuidar dele, submetê-lo ao tratamento, dar-lhe os remédios na hora exacta, vigiar para que ele não fizesse nada que o ferisse.
Isso já era demais.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Nov 18, 2017 10:58 am

Sabia que era uma exigência que ia muito além do que ela podia fazer ou teria para dar.
Não conseguia se ver mais presa ao lar do que já se encontrava.
O diabinho na sua cabeça estendeu sua sombra negra sobre o coração de Lizandra, obscurecendo a lamparina que o anjo, à custa de muito sacrifício, fazia luzir um pouco mais a cada dia.
A luta que se travou foi ferrenha, terrível, dolorosa.
De um lado, ela queria se livrar do problema.
De outro, a consciência martelava que não.
Nessa batalha, saiu vencedor aquele que residia mais próximo de sua real essência, despertando o que ela, a todo custo, tentava enfronhar na profundidade mais visceral de seu âmago.
Da crueza de sua personalidade, que ali se apresentava sem camuflagem, sem a pantomima do dia a dia, em que ela posava de mãe e esposa perfeita, ressurgiu a velha Lizandra, aquela para quem seus desejos, seu bem-estar, seus interesses se colocavam acima de tudo e de todos.
A Lizandra de sempre, que pensara haver se modificado, mas que, finalmente, se via diante do espelho de sua alma, que lhe mostrava a imagem fria e egoísta da mulher que nunca deixara de ser.
No breve instante em que o diabo venceu, fazendo-a esquecer das promessas que fizera a si mesma, Lizandra tomou o que considerou, mais tarde, a pior decisão de sua vida.
Evitando olhar para o cachorro, cujo silêncio era sinal de que havia adormecido, ela deu uma guinada no volante, entrou no retorno, tomando a direcção da praia.
Seguiu beirando a orla, avaliando as possibilidades.
Havia muita gente por ali, banhistas, ciclistas, pessoas caminhando ou correndo.
Não era um bom local.
Acabou seguindo pela serra de Grumari, onde se deparou com um trânsito reduzido a poucos carros, que passavam em ambas as direcções.
Dirigindo devagarzinho, seguiu em busca do local adequado.
Passou por restaurantes, terrenos vazios, muitas árvores e arbustos.
De um ponto mais à esquerda, uma nesga luminosa no meio da mata descortinava o azul do mar lá embaixo.
Lizandra avançou alguns metros, até que freou.
Olhou pelo espelho, pensou, considerou as implicações do que estava prestes a fazer.
Acelerou um pouco mais e, quando chegou a um trecho um pouco mais largo, fez uma manobra arriscada, retornando pela outra pista.
Diante do que que parecia um mirante natural e improvisado, parou para melhor avaliação.
Satisfeita com a descoberta, estacionou o carro na reentrância, desligou o motor e permaneceu olhando por mais alguns minutos.
Não sabia se teria coragem.
A experiência com Suzy fora muito traumática para Rodrigo.
Mas não era só.
Sentia-se uma traidora, aproveitando-se da confiança de um ser que se entregava em suas mãos para desfazer-se dele sem piedade, só porque agora estava doente.
Esse pensamento quase despertou sua consciência, fazendo-a mudar de ideia.
Mas o vento atirou um cheiro fétido em suas narinas, e o estofado do banco, coberto de urina, parecia definitivamente estragado.
- Vamos lá fora, garoto? - indagou ela, afugentando o pensamento, já contaminado pela morbidez da culpa.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 19, 2017 11:10 am

Desceu do carro, escancarando a porta de trás num ímpeto de determinação, para evitar as mãos de tremer, levando-a a vacilar ante o que devia fazer.
Billy não se mexia.
Talvez a dor fosse muito grande, talvez ele se sentisse incomodado, todo sujo de urina e sangue.
— Não vou pensar em nada, não vou! — ela repetia para si mesma.
É o melhor para todos, não é?
Você é só um cachorro.
Ao puxá-lo pela coleira, ele veio docilmente.
Sujo, malcheiroso, alquebrado e, ainda assim, obediente.
Ela se comoveu.
O cachorro, agora sentado na terra, parecia evitar o olhar da mulher, como se, de repente, se desse conta do que estava prestes a acontecer.
— Eu sabia — gemeu Moisés, agarrado ao pescoço do animal.
Sabia que você não tinha mudado, sua traíra, bruxa, vadia!
De nada adiantaram as ofensas de Moisés.
Além da dor de cabeça, que retornou com violência dobrada, Lizandra nada registou de sua revolta.
Puxou a coleira.
O cão se levantou, seguindo-a a passos vagarosos, soltando um ganido ou outro de vez em quando.
O pequeno mirante, aberto na vegetação que crescia à beira de um precipício, parecia bem adequado.
Ela parou com ele ali, admirando o mar de águas translúcidas, que se estendia num azul de tons variados, correndo sob o céu até encontrá-lo no horizonte.
— Não é um lugar bonito?
Eu não ia deixar você em qualquer buraco.
Aqui, você terá a chance de encontrar um novo amigo.
— Amigo! — esbracejou Moisés.
Ele é seu amigo.
É o melhor amigo de sua maior inimiga!
Pobre cão ingénuo.
Se soubesse como você é falsa e sem coração, jamais teria confiado em você.
E eu nunca devia ter permitido essa aproximação. Nunca...!
Moisés falava como se tivesse o poder de evitar que os encarnados materializassem suas escolhas.
Não tinha. Podia influenciar no pensamento e até na matéria física, mas só.
Sua influência só alcançava os resultados que a índole do influenciado permitia.
— Por favor, Deus, não permita que ela faça isso - Moisés agora suplicava, agarrando o cachorro, implorando que a intervenção divina impedisse a desgraça que ele não tinha meios para impedir.
Como Deus ouve todas as preces, ouviu também a de Moisés.
Uma luz brilhou a seu lado, ofuscando a do Sol, fazendo surgir diante dele os espíritos de Lucélia e Germano.
- Mãe, ela quer matar o cachorro - disparou ele, desmanchando-se em lágrimas.
Ninguém liga para os cães.
Será que ela não percebe que os animais também choram, sentem dor e medo?
Enquanto Lucélia abraçava o filho, Germano se aproximou de Lizandra, pousando a mão sobre sua testa, para despertar-lhe a consciência.
Ela hesitou novamente.
Olhou para Billy, que se mantinha sereno, a dor quase anestesiada pela injecção energética que Germano havia aplicado no órgão infeccionado.
- Não faça isso - Germano soprou ao ouvido dela.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 19, 2017 11:10 am

Moisés tem razão.
Você não quer ser a inimiga de seu melhor amigo, quer?
Ouvindo as palavras do espírito desconhecido, Moisés tornou, indignado:
- Porque ele não manda que ela solte logo o Billy?
Ele parece poderoso, pode muito bem impedi-la.
- Poder, ele não pode — esclareceu Lucélia.
Se ela estiver mesmo decidida, não vai seguir os conselhos de ninguém.
Mas ele está tentando.
- Quem é ele, mãe?
- É o Germano.
É o responsável por uma cidade astral chamada de Nosso Pet, inspirada em Nosso Lar, mas que só abriga animais.
- Eu nem sabia que isso existia! — surpreendeu-se.
Será que ele sabe o que foi feito do Tostão?
Já procurei por todos os cantos e não consigo encontrar.
- Porque não pergunta a ele?
- Germano - chamou timidamente, depois que o espírito encerrou suas tentativas com Lizandra.
- Olá, Moisés — cumprimentou ele, dando um abraço no outro.
- Você me conhece?
- E como!
Sua mãe fala muito de você.
- Ele vai ficar bem? - indagou em primeiro lugar, apontando para Billy.
- Creio que sim.
Talvez ela não me ouça, porque está decidida a desfazer-se do cachorro.
Mas vamos tentar encontrar um novo lar para ele.
- Como?
- Orientando quem estiver disposto a adoptá-lo a passar por aqui e o recolher.
- Você pode fazer isso? - admirou-se.
- Dependendo da recepção dos encarnados, sim.
No momento em que Moisés se preparou para perguntar de Tostão, o ronco do motor de um carro desviou toda sua atenção para Lizandra.
Ela havia deixado Billy deitado no mesmo lugar, aproveitando-se de que ele adormecera para fugir.
Esquecendo-se de Germano, da mãe, de Tostão, de tudo, Moisés desapareceu num piscar de olhos, ressurgindo ao lado de Lizandra.
— Vai mesmo abandonar o cachorro, sua maldita, vai?
Tomado pela fúria, resultado do desespero, Moisés investia contra Lizandra, desferindo-lhe murros na face e na cabeça.
O ódio que vibrava era tão intenso, que ela chegou a sentir uma pontada no crânio, como se houvesse sido atingida por um objecto contundente.
Billy permanecia onde ela o deixara, deitado sobre as folhas, adormecido pela transfusão de energia promovida por Germano.
De uma certa forma, a apatia do animal facilitou o abandono, desobrigando-a de ter que enfrentar a visão dos olhos súplices dele.
Apesar da tontura, ela acelerou o carro, dirigindo com cautela, olhando pelo espelho a cada segundo, para se certificar de que ele não a seguiria.
Billy continuou no mesmo lugar, imóvel, sem reacção alguma.
Será que havia morrido?
— Não, sua vaca, ele não morreu! - berrou Moisés.
Mas vai morrer, se você o deixar ali doente, jogado na beira da estrada.
E vai ser culpa sua, ouviu? Só sua!
Ela apertou as têmporas, para ver se a dor diminuía.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 19, 2017 11:10 am

Não diminuiu, ao contrário, aumentava cada vez mais.
Ante o mal-estar crescente, ela acelerava devagarzinho, para evitar bater com o carro.
Além da enxaqueca, sentiu que um enjoo subia até a garganta.
Parou o carro, abriu a porta, vomitou.
Uma buzina estrídula forçou-a a prosseguir lentamente.
Os carros a ultrapassavam como podiam, alguns motoristas a xingavam, outros, mais medrosos, seguiam buzinando atrás dela.
Foi um alívio quando ela retornou à segurança da orla, onde a existência de duas pistas facilitou as ultrapassagens, e os outros motoristas a deixaram em paz.
Moisés prosseguia com suas maldições, só parando quando ela, em voz baixa, murmurou:
- Espero que você fique bem...
Ela se referia a Billy, que ele, no afã de agredi-la, esquecera ao abandono.
Preocupado com o cachorro, num átimo, surgiu ao lado dele.
Billy ainda dormia, acalentado pelas vibrações de Germano.
Por falar em Germano, onde é que ele estaria?
Olhando de um lado a outro, Moisés não viu ninguém.
A rua estava deserta, sem carros, sem transeuntes.
Apenas ele, abraçado ao cachorro, zelando pela sua vida.
Era o único que se importava.
- Estou aqui, meu amigo - confortou Moisés, acariciando o pelo sedoso de Billy.
Não vou deixar você.
Prometo que não vou.
Ficou ali ao lado dele, esperando alguém chegar ou o cachorro morrer.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 19, 2017 11:11 am

Capítulo 19
O rosto de Wilson estava lívido.
Por pouco não batia de frente com aquela maluca.
Devia estar bêbada, para dirigir assim na contramão.
Foi muita sorte a doida desviar a tempo, talvez despertada pela estridência da buzina.
E ele ainda fora obrigado a pisar no freio, jogando no chão o filhotinho de cachorro que pusera no banco a seu lado.
— De onde veio você, cãozinho? - indagou ele, afagando o focinho de Billy.
Quem foi que deixou você assim, ferido e doente, hein?
E que raça mais esquisita é essa sua?
Mas você é bem bonitinho, sabia?
Deitado no banco ao lado, Billy lambeu os dedos de Wilson, reconhecendo nele alguém em quem podia confiar.
Indignado, Wilson se perguntava quem teria tido a coragem de abandonar aquele cachorro tão mansinho.
Por acaso, pensou, ele estava passando por aquela estrada, por onde nunca ia.
Mas, naquele dia, tivera uma vontade imensa de ver o mar lá de cima, de sentir a presença das árvores.
Tinha acabado de sair de uma fábrica de embalagens plásticas, onde fora comprar alguns potes para armazenar comidas e condimentos, quando, de repente, sentira uma vontade inexplicável de percorrer as curvas da serra de Grumari, lugar aonde não ia havia mais de vinte anos.
Tomado por um impulso quase irresistível, Wilson acedeu imediatamente ao chamado da nostalgia.
O que ele denominava de nostalgia era apenas a sugestão feita pelo espírito encarregado por Germano de aproximá-lo de Billy.
Dos recônditos de suas lembranças, o espírito evocou momentos da infância de Wilson, na época em que morava em Barra de Guaratiba e costumava passear por ali com a família.
Decidido a matar as saudades, Wilson tomou o caminho mais longo de volta para casa, no bairro de Vila Valqueire.
Assim que se aproximou da Barra de Guaratiba, seus pensamentos voaram até a meninice, quando viviam ali, ele e os irmãos, gozando de total liberdade pelas ruas sem asfalto, correndo na praia praticamente intocada.
É claro que tudo estava muito diferente, mas a lembrança dava a sensação de que continuava o mesmo.
Envolvido por uma aura de suave nostalgia, subiu a serra, admirando a natureza em cada recanto.
Ia devagar, curtindo as árvores, o sol e, sobretudo, o mar que, de tempos em tempos, vislumbrava por entre a vegetação.
Ia assim, absorto pelas reminiscências da infância e a beleza do lugar, quando avistou uma cena inusitada.
Um carro estacionou na entrada de um pequeno mirante, e um casal saltou para apreciar a paisagem.
De mãos dadas, provavelmente admirados com a exuberância do lugar, não viram o cachorro surgir do meio do mato.
Sujo, machucado, parecia doente.
O barulho da porta batendo devia ter despertado nele alguma lembrança que o fez sair de seu esconderijo e se arrastar até o carro, arranhando a porta com fraqueza.
Atraída a atenção do casal, a moça soltou um grito de medo, agarrando-se ao braço do namorado, que, embora sem violência, tratou de afugentar o cão para longe.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 19, 2017 11:11 am

Ciente da rejeição, o cachorro soltou um ganido triste, descendo pela estrada num caminhar vagaroso, que acusava sofrimento.
A cada carro que passava, ele levantava as orelhas, olhando avidamente, esperando, procurando...
Como os automóveis seguiam adiante, ele seguiu também.
Um grupo de jovens num jipe passou devagar, gritando coisas para ele.
O cachorro parou, eles pararam.
Movido por um instinto inato de esperança, aproximou-se do carro, o rabinho abanando, julgando-se salvo.
Ao invés de socorrê-lo, um dos garotos atirou algo que parecia cerveja na cara do cachorro, rindo debochadamente.
Penalizado desde o início, Wilson vinha logo atrás, dirigindo o mais devagar que podia.
O estado do animal, por si só, já o condoía.
Presenciar o desprezo com que o tratavam o deixou revoltado, tão revoltado que, diante do incidente com o jipe, resolveu intervir.
— Vocês não têm vergonha? — gritou, parando na contramão, ao lado do jipe.
Maltratar um cachorro indefeso!
Surpreendido na maldade e na ilicitude, o motorista acelerou, cantando os pneus ao fazer a curva.
Wilson parou o carro bem ao lado do cão, que olhou para ele com uma certa desconfiança, encolhendo-se o mais que pôde.
Sem notar a presença do invisível, Wilson saltou, alheio aos gritos de Moisés:
— Vá embora!
O cachorro tem sentimentos, viu?
Vá maltratar sua mãe!
Atrás de Wilson, uma presença iluminada encheu Moisés de assombro.
O ser luminoso acompanhou o homem até chegar ao cão, sorrindo para Moisés, que logo compreendeu tratar-se do espírito enviado por Germano para cuidar de Billy.
— Chegue aqui, garoto — chamou Wilson com carinho, oferecendo a mão para o cachorro cheirar.
Deixe-me ver o que você tem aí.
Um pouco receoso, Billy encostou o focinho, de leve, nos dedos de Wilson, no exacto momento em que o espírito soprava sobre eles flocos brancos de luz.
Foi uma sensação maravilhosa para os três:
o encarnado, o desencarnado e o cachorro.
— Vá com ele - disse o espírito, fazendo surgir uma espécie de coleira de luz que ligava Billy a Wilson.
- Venha comigo, amiguinho - repetiu Wilson, sensível à presença do invisível.
Conheço um garotinho que vai adorar você.
Billy foi, capenga, estropiado, porém, mais confiante.
Wilson ajudou-o a entrar no carro, tocando-o com o máximo de cuidado, notando que ele sentia dor.
Depois que o carro partiu, Moisés encarou o espírito e sussurrou emocionado:
— Obrigado.
O espírito sorriu e estendeu-lhe amistosamente a mão.
— Venha comigo.
Germano o espera.
— Não posso...
Na mesma hora, sumiu.
Wilson seguia pela rua, esquecido da paisagem e da nostalgia.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 19, 2017 11:11 am

Demoraria um pouco mais para chegar em casa, mas tinha um bom motivo.
Quando o celular tocou, não pôde atender, mas sabia que era Isabela, preocupada com a demora imprevista.
Ao parar no primeiro sinal, passou um WhatsApp para ela, em que dizia simplesmente: estou chegando.
Enfrentou muito trânsito até chegar a Vila Valqueire.
Durante o percurso, Billy se manteve quieto, embora houvesse urinado uma vez.
Wilson não se importou.
Ao contrário, procurou confortar o animal, assegurando-lhe que ele ficaria bem.
Quando, finalmente, estacionou o carro na garagem, Isabela correu ao seu encontro, morta de preocupação:
- Pelo amor de Deus, Wilson, o que foi que aconteceu?
Você nunca demorou tanto!
- Tive um imprevisto.
- Que imprevisto?
Ela parou de falar, estarrecida.
Wilson agora abria a porta do outro lado, de onde um cão enorme se arrastou para fora.
Preto, uma faixa branca no dorso, marcas marrons sobre os olhos, como sobrancelhas espessas.
- Meu Jesus Cristo! - exclamou ela, levando a mão ao peito.
De quem é esse cachorro?
- Não sei.
Encontrei-o na rua, escorraçado por todo mundo.
- Coitadinho - ela logo se condoeu.
Ele parece doente. E está fedendo.
- Alguém bateu na cabeça dele.
- É macho?
- É.
- Ainda é filhote?
Ele parece filhote, mas é tão grande!
- Creio que sim.
Ele tem carinha de bebé.
E não é tão grande assim.
- Como não? É imenso!
- Sem exageros, Isabela.
Parece até que é do tamanho de um labrador.
- E não é?
- Lógico que não!
É bem menor.
Você vai ver quando crescer.
- Vou ver?
Quer dizer que você pretende ficar com ele?
- Você não acha que André ia gostar?
- Mas Wilson, você não sabe de quem é esse cachorro!
Ele pode estar perdido, deve ter alguém atrás dele.
Sem contar que está doente.
E se for alguma coisa contagiosa?
- Vou levá-lo ao veterinário antes de permitir que André o veja.
- Você não pode estar falando sério.
Nós não temos condição de ficar com esse cachorro.
- O que você sugere que eu faça?
Que o jogue na rua novamente?
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Ave sem Ninho

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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 19, 2017 11:11 am

- Para começar, você nem devia tê-lo apanhado.
- Quer dizer que eu devia tê-lo deixado lá, sofrendo bullying de playboyzinhos mimados?
- Não é isso...
- O que é, então?
- Não sei. Você está me confundindo.
- Você não tem pena dele?
Olhe só o coitadinho.
- É claro que tenho pena - concordou ela, sensibilizada ante o estado lastimável do cão.
Só não sei se devemos ficar com ele.
- Se você tiver outra sugestão, estou pronto para ouvir.
- Não tem ninguém que o queira?
- Não sei. Você tem?
- Lógico que não!
Ela desistiu de argumentar.
Sabia, desde que ele entrara ali com o cachorro, que acabaria concordando em ficar com ele.
- Se André o vir, vai enlouquecer - afirmou ela, irremediavelmente vencida.
- Eu sei. É por isso que ele não pode vê-lo ainda.
Não antes que eu o leve ao veterinário.
- Então seja rápido — pediu ela, finalmente externando sua rendição.
Ele já deve estar chegando da escola.
Depois de entregar as encomendas a Isabela, Wilson colocou o cachorro no carro outra vez.
Ele resistiu, chorou, não queria ir.
O medo de ser abandonado novamente levava-o a fazer força para não entrar.
- Tudo bem, menino - Wilson o acalmou.
Não tenha medo. É para o seu bem.
Vencido, Billy deixou-se levar, o olhar perdido na incerteza do futuro.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 19, 2017 11:11 am

Capítulo 20
Ao chegar à clínica veterinária, Billy sentia tanta dor que não foi capaz de ensaiar qualquer tipo de resistência.
Saiu do carro praticamente carregado por Wilson e amparado por Moisés, que voou para junto dele tão logo deixou o espírito enviado por Germano.
A veterinária procedeu a um exame minucioso, colheu sangue, urina, fez várias perguntas, a fim de reconhecer os sintomas.
No fim, constatada a infecção urinária, a doutora encarou Wilson com ar sério e considerou:
— Gostaria de tentar um tratamento novo.
Não é novo, na verdade.
E só que não é muito usado para fins veterinários.
— Que tratamento?
— Homeopatia.
Ele ergueu as sobrancelhas, fitando-a com incredulidade.
— Não acredita que pode dar certo?
— Não é que não acredite.
Eu mesmo já andei tomando alguns remédios.
É só que não sei se funcionaria para o cachorro.
— Por que não?
— Sei lá...
— E se eu lhe garantir que, em animais, funciona de um jeito ainda melhor?
— Eu ia querer saber por quê.
— A primeira coisa que você deve saber é que a homeopatia é a cura pelos semelhantes, ou seja, a doença é curada pela substância que reproduz seus próprios sintomas.
Mas ela não cura a doença.
Cura o paciente como um todo.
— Como, se ele só está doente da bexiga?
— Aí é que está.
A doença é a expressão do desequilíbrio interno.
Sendo assim, o que a homeopatia faz é disparar estímulos energéticos que equilibram a energia do paciente.
- Não me leve a mal, doutora, mas como pode um cão estar em desequilíbrio? - indagou Moisés, que não perdia uma só palavra das explicações da médica.
— Como é possível que um cão esteja em desequilíbrio? — Wilson repetiu, captando, sem saber, a indagação do espírito, que também se surpreendeu.
- Cada animal tem o seu temperamento, características que formam sua personalidade.
Com base nas informações do dono, é possível identificar a raiz do problema e consertá-la.
— Então, não vai dar certo.
Não sei nada sobre o cachorro.
- Mas podemos deduzir.
Ele foi abandonado, estava perdido, com muito medo.
Além de doente, foi agredido, o que revela uma situação pretérita de insegurança.
Só aí, já podemos tirar algumas conclusões que podem ajudar no tratamento.
Ele olhou dela para o cachorro, ainda em dúvida.
- Confesso que não sei o que dizer.
— Não diga nada, apenas confie.
A homeopatia vem sendo usada há algum tempo no tratamento dos animais, principalmente nos de produção.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 19, 2017 11:12 am

— Refere-se aos animais de corte?
- Sim. Além de mais económica, a medicação não contamina a produção dos alimentos, como carne, leite e ovos.
Possui acção rápida e não agride nem o animal nem o meio ambiente.
— Nunca tinha ouvido falar numa coisa dessas.
Homeopatia para animais...
Onde já se viu?
- Os animais possuem energia vital, assim como nós.
É a energia que todos absorvemos do universo.
Energia em equilíbrio é sinal de saúde.
Desordem interna provoca uma perda prematura de energia.
Esse desperdício é provocado por vícios, hábitos perniciosos, má alimentação, pensamentos negativos, sentimentos difíceis e outros, que abrem uma válvula de escape no organismo para dar saída a ela.
Por onde ela sai, manifesta-se a doença.
- No ser humano, isso é fácil de assimilar.
Mas os animais não têm vícios nem pensamentos negativos.
Agem apenas por instinto.
- Não exactamente.
O instinto é altamente influenciado pela atitude humana e acaba gerando emoções boas ou ruins.
O pensamento do animal, embora não ordenado, possui a organização própria da inteligência conferida pela sua espécie.
Ele não pensa em palavras, mas pensa.
- Pelo que entendi, é o ser humano que acaba provocando a doença nos animais.
- Pode-se dizer que sim.
Os animais são muito sensíveis.
São como esponjinhas, absorvendo as energias do ambiente e das pessoas.
Um ambiente doméstico caótico desequilibra as energias do animal, que pode vir a apresentar sintomas de várias enfermidades.
- Então é por isso que dizem que ter um animal em casa é bom, porque tudo de ruim vai para ele?
- Isso é um absurdo!
Não seria uma troca justa.
O animal recebe a energia porque tem mais sensibilidade, o que não significa que sabe como lidar com ela.
Ele pode ficar doente e, ainda assim, a energia continuar no ambiente.
Ele até serve de sinalizador, mas não de bode expiatório.
- Concordo plenamente com você.
- Existem casos, também, em que o animal se coloca na posição de auxiliador do dono.
Em outras palavras, ele quer ajudar o dono a tomar consciência de alguma coisa que não está legal no comportamento dele.
Então, adoece.
Com isso, ele pretende mostrar ao dono a necessidade de se modificar.
Se o dono percebe, óptimo.
Se não, acaba ficando doente também.
- Os animais fazem isso? - espantou-se.
Mas eles não são capazes de raciocinar dessa maneira.
- Eles não raciocinam. Sentem.
É uma coisa instintiva, algo que está projectado na alma deles e que se manifesta de forma inconsciente, algo que decorre do amor.
- Então é por isso que o animal desenvolve a mesma doença do dono - observou, impressionado.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Nov 19, 2017 11:12 am

Já vi casos assim.
A pessoa fica doente e, logo em seguida, o animal também cai doente, vítima do mesmo mal.
- Se o animal adoece depois, a história é um pouco diferente.
Quando o dono ainda não apresenta nenhum sintoma da doença, a enfermidade do animal serve para alertá-lo e, com isso, evitar que o dono adoeça.
Mas se a pessoa adoece primeiro, não há mais o que ser evitado.
Lembra da história do desequilíbrio?
Ele assentiu.
- Pois é. Antes de chegar ao físico, o espírito já adoeceu.
Isso significa que a energia daquela pessoa já estava desequilibrada.
E como o animal, além de sensível, tem essa ligação afectiva muito forte com o dono, acaba absorvendo dele mais essa energia.
Tem a mesma doença porque desenvolveu uma sintonia muito grande com a pessoa.
É como aqueles cães, que têm comportamento muito parecido com o do dono.
São ciumentos, porque o dono é ciumento.
São meigos, porque o dono é meigo.
São ranzinzas, porque o dono também é.
E por aí vai.
- Sem contar que percebem logo quando a pessoa não é lá muito boa.
Parece que eles sabem quando alguém gosta ou não deles.
- E sabem mesmo.
Está na energia da pessoa, que eles conseguem captar.
- Estou impressionado, doutora!
- Então, vamos experimentar homeopatia no... como é mesmo o nome dele?
- Ainda não tem nome.
Acabei de encontrá-lo.
- Tudo bem.
Vamos ou não tentar?
- A senhora me convenceu.
Vamos tentar, sim.
- Óptimo. Vou fazer a receita.
Você pode encomendar o remédio aqui mesmo.
Não demora nada.
Se quiser, pode esperar, ou então, mandaremos entregar em sua casa.
- Não sabia que, além de veterinária, a senhora é também farmacêutica.
- Não exactamente.
Tenho um pequeno laboratório que atende a clínica.
- Mas é uma inovação, não?
- Acho que sim.
Não conheço muitos veterinários que façam isso.
A maioria vende os remédios prontos.
Ela entregou a ele a receita.
- Vou mandar fazer.
E prefiro esperar.
Meu filho ainda não sabe do cachorro.
Billy acabou se tornando a sensação da clínica.
Dócil, inteligente, bem ensinado, conquistou todo mundo.
Enquanto aguardava, Wilson conseguiu ainda encaixá-lo para um banho.
Comprou tudo de que ele poderia precisar, pegou o remédio e levou-o para casa.
- Vamos nessa, meninão - falou, abrindo a porta de trás para ele.
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Re: O melhor amigo do inimigo - Leonel/Mónica de Castro

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