Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 10, 2017 7:51 pm

Eles são muito apegados.
Por que não vão até lá?
- A senhora lembrou bem.
No calor do acontecimento, esqueci-me de dona Tereza.
Talvez ele esteja lá - um fugidio lampejo de esperança se passou na mente de Diva.
Entraram no carro de Edionor e rumaram para a casa de Tereza.
Ao chegarem lá, perceberam que estava tudo escuro.
Edionor desceu do carro e bateu na porta.
Minutos depois, Tereza apareceu.
Ao reconhecer Diva e Edionor, começou a falar nervosa:
- O que houve com meu filho?
Vocês aqui a essa hora só pode ter sido algum problema sério.
Foi com o filho dele?
Edionor pediu:
- Podemos entrar? Precisamos conversar.
Tereza, trémula, deixou que entrassem, mas sem conseguir se conter gritou em desespero:
- O que aconteceu? Digam-me!
- A senhora precisa ficar calma.
Temos de saber o que, de fato, houve com seu filho.
Precisa nos ajudar.
- Como? Então vocês não sabem?
Diva contou toda a história que havia narrado a Edionor e finalizou:
- Não sabemos o que se deu.
Tememos por algo grave.
Pela mente de Tereza passaram várias cenas desconexas, e ela começou a gritar e a esmurrar Edionor:
- Você foi o culpado de tudo.
Seja o que for que tenha acontecido com meu filho, foi por sua responsabilidade.
Eu sempre soube que entrar para sua família seria uma desgraça para a vida de meu filho, criado com tanto sacrifício e cuidados.
Seu miserável!
Conseguiu destruir a vida dele!
Miguel e Diva tentaram segurar Tereza, que, vencida pelo nervosismo, quedou-se na poltrona entrando em pranto.
- Vir aqui só piorou as coisas.
Tereza está muito descontrolada - comentou Edionor.
Diva olhou-o nos olhos e disse com firmeza:
- Será que ela não tem razão?
Não estaria o senhor por trás do sumiço de Douglas?
Edionor ficou rubro de ódio.
- Como você pode me acusar de algo desse tipo?
Douglas, para mim, é como um filho.
Não tenho nenhum motivo para lhe fazer nenhum mal.
Ademais, não sabemos ainda o que se passou, de repente ele já pode ter chegado em casa.
Estamos todos tirando conclusões precipitadas.
Virando-se para Tereza, disse:
- Vamos à casa dele saber se está por lá.
Qualquer coisa voltaremos para avisá-la.
Tereza gritou:
- Eu irei junto!
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 10, 2017 7:51 pm

- Não. A senhora vai ficar por aqui.
Hortência está perto de dar à luz.
Se a visse desse jeito seria capaz de ficar mais nervosa do que já está e antecipar o momento - bradou Edionor.
- Eu sei de mim.
Saberei me controlar na frente da menina.
Percebendo a teimosia da mulher, todos resolveram ceder.
Afinal, ela era a mãe, tinha direitos.
Quando chegaram a casa, tiveram uma grande decepção:
Douglas não estava lá.
O clima de desespero tomou conta de todos. Edionor retirou-se, indo prestar queixa à polícia.
Era temido na cidade e costumava mandar em tudo.
Forçaria os policiais a fazer uma busca por todos os rincões de Rios Claros.
Apesar da situação, a confiança de que a polícia, sob as ordens do velho Edionor, acabaria por desvendar o ocorrido, acalmou a todos.
O dia amanheceu e nenhum vestígio.
Logo toda a cidade estava em polvorosa comentando o assunto.
A polícia do local, apesar de sempre ineficiente, tentou fazer uma lista de suspeitos.
Mas Douglas, aparentemente, não tinha inimigos.
Ninguém suspeitava de que Amanda tinha um romance com Fernando, e eles não sabiam como proceder.
Edionor, por sua vez, mandou procurar em todas as suas fazendas como última esperança.
Enquanto aguardavam, Tereza lembrou-se de Vó Leontina.
Chamou todos na sala e disse:
- Douglas tem muito apego à avó.
Pode ser que esteja lá.
Ninguém sabe por que saiu de repente.
Pode ter entrado em dúvidas com relação à nova vida e ter ido procurá-la para se aconselhar.
Edionor comentou:
- Não é possível.
A casa da velha Leontina é muito longe.
Ele não faria uma viagem dessas à noite e sem avisar a esposa.
E, mesmo que tivesse ido, ele já teria voltado. Hoje ele iria viajar para uma de minhas fazendas, e não é homem de romper compromissos.
Tereza reconheceu a lógica do pensamento, mas queria ouvir os conselhos da sogra.
Leontina era médium e poderia saber onde o filho se encontrava.
- Mesmo que ele não esteja lá, a vó Leontina conversa com os espíritos, pode nos aconselhar e até dizer onde ele está.
Gostaria de ir lá.
- Eu também vou - decidiu Hortência.
Edionor não gostava de Leontina e não queria rever o local de seu ato criminoso no passado, mas não teve outro jeito a não ser levar Tereza e Hortência até lá.
Logo seguiram viagem.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 10, 2017 7:52 pm

26 - A HORA DA VERDADE
Sentada numa velha cadeira de balanço, Leontina reflectia sobre a vida.
O peso da idade a fizera se afastar um pouco das actividades às quais estava acostumada, mas sempre que podia atendia os necessitados que a procuravam em busca do alívio para suas dores físicas e morais.
Naquele momento, ela pensava sobre o que um dos seus amigos espirituais lhe falara durante a noite.
Enquanto seu corpo repousava, seu espírito foi desdobrado e levado a um local agradável na espiritualidade.
Encontrou-se com o jovem Guilherme, espírito amigo que muito a auxiliava nos trabalhos de cura.
Guilherme olhou-a profundamente nos olhos e tornou:
- Leontina, é preciso que saiba sobre alguns factos que vão se dar em sua família.
A hora da verdade se aproxima, e ela sempre aparece.
Nada fica oculto para sempre, pode até ficar na Terra, mas aqui no astral todos descobrem não só as verdades que ficaram ocultas durante a vida como as verdades sobre o próprio espírito.
Cada espírito tem seus inúmeros segredos guardados nos arquivos do inconsciente, e que na hora mais apropriada vão aparecer.
Entretanto, nós aqui do nosso plano fazemos o possível para que a verdade dos factos seja descoberta ainda na Terra, o que facilita o perdão e a redenção.
Leontina em espírito, já completamente desperta, sabia ao que Guilherme se referia.
Preocupada, perguntou:
- Nem todos estão preparados para a verdade.
E se reagirem mal?
Essa verdade pode até mesmo destruir uma família.
- A verdade só destrói aquilo que já está destruído de facto.
Por mais que doa e faça sofrer, ela é sempre melhor que a mentira.
Dizem, na Terra, que a verdade dói uma vez só, enquanto a mentira dói a vida inteira.
É uma realidade.
Guilherme interrompeu um pouco, depois continuou:
- Trouxe-a aqui também para que saiba os factos que ocorrerão com Douglas.
Esse, que actualmente é seu neto na Terra, passará por dura provação, será separado do convívio dos seus entes queridos e ficará longe.
A vida vai mudar para todos, você só verá o bem que está atrás de tudo quando regressar para este lado.
Desejo alertá-la de que nada ocorre para o mal, quero também que permaneça no bem, sabendo que Douglas, onde quer que se encontre, vai estar protegido e amparado por Deus e por seu espírito guardião, que nunca o abandona.
Leontina estava com lágrimas nos olhos.
Amava muito aquele neto, mas entendia que cada um devia passar pelo que estava programado para crescer e evoluir, ela não podia nada com os desígnios sábios da vida.
- Guilherme - tornou com voz que a emoção embargava -, agradeço a Deus por tê-lo como amigo.
Se não fosse a força de vocês, teria sucumbido em minha missão.
Tentarei ser forte para ajudar Tereza, que muito sofreu nesta vida e vai sofrer ainda mais com a ausência do seu filho único e amado.
Peça aos outros amigos que a amparem, ela vai precisar de muita força.
- Não se preocupe.
Deus jamais dá uma prova superior às nossas forças.
Tereza tem uma mentora muito sábia que sempre a auxilia.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 10, 2017 7:52 pm

Ninguém está só.
Agora retorne à sua vida e aguarde os acontecimentos com fé.
Ninguém pode conter a força da verdade.
Leontina abraçou Guilherme com força e o beijou no rosto.
No outro dia, pela manhã, lembrou nitidamente do sonho e, em oração, começou a se preparar.
Sabia que seu neto havia desaparecido em razão da maldade do homem, mas entregou a situação nas mãos de Deus.
Aninha percebeu que ela estava diferente e perguntou:
- O que acontece com a senhora, vó?
- Infelizmente, minha querida, este mundo é cheio de maldade, isso as vezes me deixa muito triste.
Mas eu sei que tudo é sempre para o melhor. Logo tudo passa.
Aninha conhecia quando Leontina não queria falar sobre um assunto e não insistiu, passou a cuidar de suas tarefas, enquanto a velha senhora foi sentar-se à frente da casa na sua cadeira de balanço.
Pouco tempo depois, Leontina sentiu o coração descompassar quando percebeu o carro de Edionor parado à frente de sua casa.
Logo viu Tereza e Hortência descerem e se aproximarem.
Edionor adiantou-se:
- Bom dia, senhora!
- Bom dia. Sejam todos bem-vindos.
Tereza abraçou aquela que conhecia todo o seu drama e não conteve o pranto.
Leontina também chorava e, naquele momento, ela sentiu que o desaparecimento de Douglas era sério; sentiu mais, parecia que nunca mais veria o neto.
Com a emoção das duas, Hortência também começou a chorar.
Depois de algum tempo, todos se recompuseram e Leontina os chamou para entrar.
Mesmo no clima de tristeza e apreensão, Tereza não deixou de observar:
- Muita coisa aqui mudou, vó.
Sua casa está mais arrumada, e há outra casa grande ao lado.
A senhora vendeu o terreno?
- Não. Aninha foi crescendo, tomou-se uma mocinha e conheceu um moço em Pedra Bonita muito bom, honesto que queria se casar com ela.
Ela estava muito feliz, mas, por outro lado, não queria se casar e me deixar só, preferia mesmo ficar sem o noivo a me deixar.
Então disse que eles poderiam construir uma casa no terreno ao lado e viver aqui.
Vagner, a princípio, não gostou da ideia.
Moço da cidade, acostumado àquela vida, não queria viver na roça, mas Aninha foi firme, disse que se assim não fosse ela não se casaria.
Por muito tempo eles ficaram nessa discussão, até que Vagner cedeu, construíram a casa e hoje estão felizes.
Ele trabalha durante o dia na cidade e à noite está aqui.
Aninha descobriu que também tem mediunidade e já está trabalhando com as pessoas; ela possui o dom de curar.
Tereza não conteve o comentário:
- Parece que vocês, na zona rural, vivem melhor, são mais felizes.
Na cidade só existe a maldade.
- Não pense assim.
A felicidade independe do lugar em que moramos.
Aqui temos vida simples, vivemos com o necessário, não criamos necessidades falsas, como muitos o fazem.
Eu descobri, minha filha, que a infelicidade do homem vem das falsas carências que ele cria.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 10, 2017 7:52 pm

Em nome delas, não titubeiam em ferir, humilhar, maltratar seu semelhante e a si mesmos.
A alma quer ser feliz, mas a cabeça inventa uma série de coisas e faz o homem achar que para alcançar a felicidade precisa ter riqueza, mansões luxuosas, carro do ano, status e poder.
Tudo ilusão!
A felicidade está nas coisas simples da vida.
Aqui encontro a felicidade ao ver o pôr do sol, quando observo o desabrochar de uma flor, o chiado dos pássaros, o canto do galo.
Na cidade os homens perderam o contacto com Deus, vivem presos, com medo de tudo, por isso muitos entram em depressão, ficam tristes, com vazio interior.
Sei de histórias de pessoas que têm tudo, marido bom, filhos saudáveis, riqueza e mesmo assim estão amarguradas, ressentidas, vazias sem saber por quê.
É que sem o contacto com Deus, por meio das forças da natureza, ninguém pode ser feliz.
Apesar das sábias palavras de Leontina, todos estavam mesmo preocupados com Douglas e queriam saber o que havia acontecido com ele.
Com todo o cuidado, Edionor narrou o que estava acontecendo e, ao final, disse:
- Já que a senhora fala com os mortos, pode saber onde seu neto está.
Pergunte a eles, sabemos que tem poder para isso.
A velha senhora parecia pensar, e depois revelou:
- Eu já sabia de tudo.
Tenho amigos espirituais que me ajudam e, quando podem, dizem as coisas.
Mas eles não podem e nem devem dizer tudo.
Meu coração dói ao saber que meu neto querido foi uma vítima da maldade alheia, mas ao mesmo tempo sei que ele está vivo e bem em algum lugar.
Edionor tornou, impaciente:
- Se sabe que ele está vivo, por que não diz onde está?
- Eu não tenho poder para isso nem sou mais que Deus.
Ele é que regula e manda em todo o universo e em tudo o que acontece.
Os espíritos não podem falar determinadas coisas, pois, acima de tudo, está a lei de Deus em acção.
Douglas necessitava dessa experiência, que só vai acabar quando ele aprender o que a vida deseja lhe ensinar.
Sem ouvir as últimas palavras de Leontina, Tereza foi se enchendo de cólera e, com rapidez, começou a gritar e a esmurrar Edionor.
Todos ficaram sem saber o que fazer.
Aninha tentava segurá-la, mas ela estava com força multiplicada e começou a falar com a voz entrecortada:
- Foi sua culpa.
Bastou meu filho entrar na sua vida para que tudo desse errado.
Eu tenho certeza de que foi você e sua filha que deram sumiço nele.
Mas você vai me pagar.
Se ele morrer, você terá para sempre na consciência que matou
seu próprio filho. Matou!
Edionor quedou-se.
Será que tinha escutado direito?
Não! Não podia ser!
Douglas seu filho? Reagindo, pegou as suas mãos com força e também gritou:
- Você está louca, Douglas não é meu filho, não pode ser.
Tereza, mesmo percebendo que havia falado demais, não conseguia se conter:
- Sim, seu monstro! Monstro!
Pensa que aquela noite não teve consequências?
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 11, 2017 7:33 pm

Teve sim. Consequências essas que tive de carregar na consciência durante toda a minha vida.
Douglas é seu filho.
Seu filho! E você o matou!
Edionor não conseguiu mais ficar de pé, seu corpo formigava e sentia a cabeça rodar.
Amparado por Aninha, ele se sentou.
Todos estavam com os pensamentos fervilhando.
Como podia ser?
Então Douglas tinha se casado com a própria irmã?
Vencendo o silêncio que se fez, Edionor perguntou com voz entrecortada:
- Eu exijo uma explicação!
Alguém tem de me explicar o que está acontecendo.
Olhou súplice para Tereza, enquanto pedia:
- Não me deixe assim.
Como Douglas pode ser meu filho?
- Eu posso explicar.
Tereza não tem condições - falou Leontina com voz séria, vendo a nora de cabeça baixa chorando baixinho.
Era o que todos queriam. Hortência não conseguia imaginar por que Tereza havia permitido que seu filho namorasse e se casasse com a própria irmã.
Ninguém conseguia entender.
Quebrando mais uma vez o silêncio, a voz de Leontina se fez ouvir:
- Tudo começou quando Tereza se casou com meu filho.
Naquela época, minha casa era cheia, meus filhos moravam aqui e eu era viúva de pouco tempo.
Gerson, marido de Tereza, viajava muito, era caminhoneiro, e nessas viagens muitas vezes não queria deixar a mulher só em casa e, então, Tereza passava os dias comigo.
Ela era uma jovem muito bonita e cobiçada pelos homens, logo despertou a atenção de Edionor, dono de uma fazenda próxima daqui, que hoje pertence a um dos filhos do prefeito.
Edionor estava casado havia pouco tempo e sempre visitava essa fazenda com dona Estela, sua esposa.
Percebendo que Tereza passava os dias aqui enquanto o marido viajava, passou a vir só e começou a frequentar minha casa.
Todos ficaram bem felizes, pois ele ofereceu emprego aos meus filhos, coisa que estava difícil, e arranjou para que Tereza ajudasse como arrumadeira.
Ninguém desconfiou de nada, até que um dia minha nora chegou em casa mais cedo e, com o semblante assustado, comentou temerosa:
- Dona Leontina, acho que o senhor Edionor está querendo alguma coisa comigo.
Não volto mais àquela casa.
- Por que diz isso, filha? - perguntei inocente.
- Porque hoje ele me ofereceu flores frescas e me chamou para passear na cascata.
- E você? O que disse?
- Disse que não estava me sentindo bem e que iria embora mais cedo.
- Menina, não leve isso a mal, o senhor Edionor é um homem bom, de respeito, além de tudo é casado com uma mulher muito bonita e fina.
Ele quer apenas ser educado com você.
Não acho deva deixar aquela casa.
Você e seu marido são pobres, vivem com pouco dinheiro.
O tempo que o Gerson passa fora você deve aproveitar para ajudar no orçamento.
Não leve tudo tão a sério.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 11, 2017 7:33 pm

Tereza ouviu meus conselhos e continuou na casa.
Com o tempo, me esqueci do ocorrido, Gerson voltou e ela foi para casa.
Um mês depois, retornou dizendo que meu filho viajaria para mais longe dessa vez e precisaria passar mais de um mês comigo.
Fiquei muito feliz, pois, além de ter companhia, teria também alguém para ajudar na casa.
Tereza ia para a fazenda do Edionor e à tardinha voltava, me ajudava no café e no jantar.
Depois de lavarmos a prataria, conversávamos até tarde.
E assim aconteceu.
Em um fim de tarde, Tereza chegou no carro de Edionor.
- Boa tarde, dona Leontina! - disse ele com simpatia.
- Boa tarde. Tereza está doente?
Porque a trouxe de carro?
- Não se preocupe com ela.
Vim lhe pedir para que a deixe dormir lá na fazenda neste fim de semana.
Minha mulher e minha sogra chegarão para ficar connosco e preciso de uma mão a mais para a lida.
Prometo pagar a mais.
Eu não desconfiava do que ele estava planeando e deixei.
Na mesma sexta-feira ela foi.
Durante a noite, as horas passavam e nada de a mulher e a sogra de Edionor chegarem.
O relógio deu dez badaladas e os outros empregados foram se recolher.
Tereza também ia para seu quarto, quando foi abordada por Edionor:
- Não se vá, aconteceu algum problema na estrada e elas ainda podem chegar.
Fique me fazendo companhia.
Tereza, envergonhada, respondeu:
- Não senhor, já fiz tudo o que tinha para ser feito.
Não é bom que sua mulher e sua sogra cheguem aqui e nos encontrem conversando...
Ele pareceu concordar dizendo:
- Tudo bem, mas fique atenta.
A qualquer momento elas podem chegar e posso precisar de você.
Tereza se recolheu, mas estranhamente não conseguia dormir.
Fosse pela casa estranha, fosse pelo quarto, algo a perturbava, e era com pavor que ouvia o velho relógio dar suas badaladas estrondosas de hora em hora.
Passava da uma da manhã, quando sentiu que alguém empurrava levemente a porta.
Assustou-se, acendeu o lampião e viu a figura de Edionor à sua frente.
Sem ter tempo de reagir, sentiu-se presa nas mãos daquele homem que a violentou sexualmente, e desmaiou.
Edionor estava com uma fúria desumana e abusou dela outras vezes.
Assim que tudo terminou, ele deixou o quarto e saiu.
Ao acordar e dar-se conta de tudo, grave desespero tomou conta de Tereza.
Nem esperou o dia raiar e pôs-se na estrada.
Com muita dificuldade por não conhecer o caminho e pelo escuro, chegou aqui chorando muito.
Como sempre fomos amigas, não foi difícil para mim descobrir o que havia acontecido.
Intenso ódio brotou de meu peito.
Revoltei-me e o procurei na manhã seguinte.
Edionor recebeu-me e, após me ouvir, disse:
- Sua nora foi quem me provocou, sabe que sou homem e não iria resistir.
- O senhor não presta, isso sim.
Fez mal a uma mulher casada com uma covardia sem tamanho.
Só não conto a meu filho, pois ele o mataria e se tornaria um criminoso.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 11, 2017 7:34 pm

Mas quero que saiba que enquanto eu viver não deixarei de pensar numa forma de me vingar, de vingar a honra de minha nora.
Ele me olhou com desdém e vociferou:
- Saia de minha casa, maldita, e a partir de hoje avise a seus filhos que não trabalham mais para mim.
Não quero mais gente sua em minhas terras.
- Eu é que não desejo ver meus filhos neste lugar, adeus!
Tereza entrou em depressão, não queria mais viver.
Foi com muita conversa que consegui fazê-la reagir.
Depois de três semanas, ela começou a comer, mas um enjoo a fazia ter náuseas.
Desesperada, olhou-me e disse:
- Minhas regras atrasaram.
Estou grávida!
Grávida daquele homem horroroso!
Fiquei também chocada e tentei acalmá-la:
- Pode ser normal, minhas regras também costumavam atrasar e não era filho.
- Eu sei que estou grávida.
Sinto isso. Eu quero morrer.
Examinei Tereza minuciosamente e constatei:
- Minha menina, você está mesmo esperando criança.
Mas não deve esmorecer nem deixar o que aconteceu acabar com seu casamento.
Sei que ama meu filho e, por isso, não houve traição.
Quando ele voltar da viagem, você estará melhor dos sintomas e ele deve procurá-la.
Depois de uns dias, comunique que está grávida.
Só nós duas saberemos esse segredo.
- Não quero enganar o Gerson, eu o amo e ele é muito bom para mim.
- Seja sensata, minha filha.
O Gerson saiu ao pai, tem temperamento forte e é moralista.
Se souber que isso aconteceu, pode matar o Edionor e ainda obrigá-la a tirar essa criança.
Melhor que ele não saiba de nada.
Se souber, nunca vai aceitar criar um filho de outro homem.
Tereza continuava chorando e retorquia:
- Mas seu filho é negro e essa criança vai nascer branca, tenho certeza, que ele vai desconfiar.
Estou perdida!
- Acalme-se. Você também é branca e podemos dizer que a criança saiu a você.
Ela pareceu se acalmar, mas nos dias seguintes voltou à depressão.
Quando Gerson chegou, achou-a prostrada na cama, sem ânimo. Então comentei:
- Suas viagens constantes estão fazendo mal a sua jovem esposa.
Ela precisa mais do seu carinho e da sua presença.
Gerson olhou-a penalizado:
- Finalmente vou passar um bom tempo em casa.
As viagens que fiz me renderam um bom lucro, de forma que posso descansar.
Abraçou Tereza, que correspondeu timidamente ao abraço.
Antes de partirem de minha casa, chamei-a no quarto e pedi:
- Procure reagir.
Tem de ser forte.
Se seu marido pensar que está doente, não vai procurá-la e a barriga vai aparecer.
Precisa aparentar estar bem para que tudo dê certo.
Vi seus olhos amargurados, quando me disse:
- Não quero esta criança, dona Leontina.
Vou procurar uma curiosa e pedir que a tire de mim.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 11, 2017 7:34 pm

Não vou poder conviver com a imagem daquela noite para sempre.
Não tenho forças.
Naquela hora, algo tomou minha voz e falei quase sem querer:
- Esta criança não tem culpa de nada.
Se você fizer isso, vai cometer o maior erro da sua vida.
Este bebé que ainda não chegou vai ser seu tesouro, será a criatura que você mais vai amar neste mundo.
Deixe-o viver e aprenda a amá-lo.
Um filho, venha como vier, sempre é uma luz que Deus manda para nós.
Tereza mudou a fisionomia e respondeu:
- Prometo pensar.
Preciso ir, peço que ore para que eu tenha forças.
Gerson e Tereza partiram e não deixei de orar um só dia.
Foi com felicidade que os recebi novamente, ouvindo meu filho dizer:
- Mãe, a Tereza está grávida.
Serei pai.
Não é uma grande felicidade?
Olhos rasos d'agua, respondi:
- Sim, filho, uma felicidade.
Uma criança é sempre uma bênção e será meu primeiro netinho.
- Sim, mãe. Seu primeiro.
O tempo foi passando e chegou o mês de Tereza dar à luz.
Gerson estava em viagem, por isso ela ficou comigo mais uma vez.
Naquele tempo, os partos eram feitos em casa, com uma boa parteira.
Disse a meu filho que viajasse em paz, pois dona Odete, uma senhora das redondezas, faria o parto quando chegasse o momento.
Tereza já havia se curado da depressão, mas seus olhos perderam o brilho da alegria, não sorria mais como antes.
Eu só orava a Deus pedindo para que aquele ser que estava por nascer trouxesse aquela mãe de volta à vida.
Numa fria manhã de domingo, Tereza acordou com dores.
Olhei para ela e disse:
- Fique calma. Conheço essas coisas e sei que vai demorar.
Vou chamar dona Odete para que fique o dia connosco e espere a hora.
Dona Odete era uma mulher estranha.
Vestia-se sempre de preto, devido à viuvez, e morava só num casebre no meio da mata.
As pessoas da redondeza diziam que ela era bruxa, mas nunca dei importância a esses comentários.
Seu corpo era franzino e sua voz, fina e cortante.
Os cabelos presos em coque e um xale também de cor negra completavam sua figura.
Quando ela chegou, examinou Tereza e sorriu:
- Não será para agora.
Vamos esperar para o fim da noite.
Odete almoçou connosco e, durante a tarde, as contracções haviam cedido.
Estávamos todos na sala quando um de meus filhos chegou dizendo:
- O peão da fazenda do senhor Edionor está chamando a dona Odete.
Disse que é urgente.
A senhora levantou-se e foi ao terreiro:
- Diga, meu filho.
- Minha mulher está tendo as dores para ter nené, pediu que a senhora fosse lá agora.
Já saiu a água, está na hora de nascer.
Odete olhou para mim, pensou um pouco e respondeu:
- Não se preocupe, Leontina, sua nora só vai ter criança pela madrugada, e essa outra vai nascer agora.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 11, 2017 7:34 pm

Irei lá e depois volto. Nada de mau vai acontecer.
Odete subiu na carroça e se foi.
De facto, Tereza não estava tão incomodada e ficamos despreocupados.
Duas horas depois, já de tardezinha, a velha senhora voltou.
Assim que entrou, disse:
- Fiquei com pena dos dois.
Vivem numa pobreza de dar dó.
O patrão deles parece que os deixa passar fome.
Aquela menina vai morrer.
- Então foi uma menina?
- Sim. Muito bonita, nasceu corada e com saúde.
Não comentamos mais o ocorrido e, durante a madrugada, Douglas nasceu.
Quando Tereza o olhou pela primeira vez, chorou muito e me agradeceu:
- Muito obrigado, dona Leontina, se não fosse pela senhora, jamais poderia sentir a alegria deste momento.
- Agradeça a Deus, minha filha.
Foi Ele que te ajudou a tomar a melhor decisão.
Foi uma alegria para todos.
Três dias depois, Gerson voltou e, com felicidade, levou seu "filho" para casa.
Tereza renasceu com a chegada da criança, curou-se da depressão, voltou a viver e parecia realmente ter esquecido o passado.
Todos comentavam que a criança se parecia muito com a mãe e que era muito branquinha, mas logo dizíamos que ela havia saído à Tereza, e as pessoas se calavam.
Ninguém poderia imaginar o que de fato havia acontecido.
Alguns dias depois...
Edionor sentia que Leontina iria falar um outro segredo e gritou:
- Alguém cale essa mulher!
Ou eu mesmo o farei a meu jeito.
Leontina o olhou com coragem:
- Agora que comecei, irei até o fim.
Ninguém mais vai me calar.
É a hora da verdade.
Edionor ainda tentou se levantar, mas as pernas não lhe obedeciam.
Estava extremamente nervoso e só fazia gritar:
- Ninguém acredite no que esta velha vai contar.
Ela não está com o juízo no lugar, ela fala com os mortos.
São os mortos do inferno que a estão usando para me difamar.
Tereza levantou-se com raiva:
- Chega, Edionor.
Nem eu mais posso viver com esse segredo, que também sei.
Hortência e Aninha também precisam saber a verdade.
Não é justo que fiquem pensando mal de mim.
Por isso, vó, conte tudo.
Leontina continuou sem se perturbar:
- Alguns dias depois, numa madrugada fria e chuvosa, acordei com um de meus filhos me chamando.
Ele me dizia que dona Odete estava na porta com um dos empregados do senhor Edionor e pedia que eu fosse até lá.
- O que desejam?
Odete se adiantou:
- Precisamos de sua ajuda, a dona Estela está dando à luz e o parto está complicado, talvez não fique viva a coitadinha.
Venha comigo para me ajudar.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 11, 2017 7:34 pm

A fazenda estava fechada havia dias, e eles vieram só para passar o fim de semana, não há outra mulher na casa.
Se alguém não me ajudar, não sei o que poderá acontecer.
Disse resoluta:
- Há muitas casas nas redondezas.
Não gosto daquele homem, não vou! Procurem outra pessoa.
- Leontina, deixe o orgulho de lado.
Você sabe que sua casa é a mais próxima, de forma que se eu for mais longe pode não dar tempo.
Já fui imprudente em ter saído, mas eu sabia que só a convenceria se viesse pessoalmente.
Meu peito estava oprimido, mas resolvi ajudar.
Enfrentamos a chuva fina e o frio e, quando chegamos, encontramos Edionor com muita angústia:
- Ainda bem que voltaram.
Dona Odete, dona Leontina, salvem a minha mulher!
Perguntei:
- O senhor é rico.
Porque não levou sua mulher para um hospital?
- Não pensei que ela fosse dar à luz justamente hoje.
Quando ela começou a sentir as dores, tentei colocá-la no carro, mas não consegui.
Estela desmaiou e me apavorei.
Percebi que não ia dar tempo e lembrei-me de Odete.
Eu nasci nas mãos de uma parteira, por que meu filho não poderia nascer também?
Mandei chamá-la e ela me confirmou que, se eu a tivesse levado de volta para a cidade, Estela morreria no caminho.
Sem mais perguntas, entramos e fomos para o quarto.
Estela gemia e se contorcia.
O parto foi muito difícil, e a criança não queria sair de jeito nenhum.
Vi Edionor chorando feito criança e, naquele momento, meu ódio por ele desapareceu completamente.
Comecei a orar e pedi a Deus que não deixasse aquela mãe morrer no parto.
Minutos depois, a criança nasceu e a mãe desmaiou mais uma vez.
O bebé não chorou e estava com o cordão umbilical enrolado ao pescoço.
Odete olhou e disse:
- Está morta. O coitadinho se sufocou durante o parto e não resistiu.
Edionor segurou seu filho morto e chorou copiosamente.
Peguei a criança, enrolei-a num lençol e a tirei do quarto, enquanto Odete terminava de fazer a limpeza em Estela, que dormia profundamente.
Na sala, Edionor pegou o filhinho nos braços e chorou mais uma vez.
O peão Leandro, apesar de maltratado, era muito amigo do patrão, entrou na grande sala e presenciou a cena.
Edionor olhou para mim e para ele, dizendo:
- Estela é uma mulher frágil, sensível. Se souber que o filho morreu no parto, não vai resistir.
Meu Deus! O que fazer?
Leandro encheu o peito de ar e propôs:
- Minha menina não vai ter condições de viver, está muito fraquinha e, se continuar comigo, vai morrer.
O senhor pode comprar minha filha por um bom dinheiro, vamos embora daqui, pegaremos a estrada e nunca mais voltaremos.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 11, 2017 7:35 pm

Eliete não vai ser contra, sabe que precisamos de dinheiro e que a filha não terá vida boa connosco.
Os olhos de Edionor brilharam:
- Quanto quer pela menina?
O homem disse o preço e Edionor concordou.
Virou para mim e pediu:
- Vá até a casa do Leandro e busque a menina.
Em troca, coloque meu filho morto nos braços da outra mãe.
Esse é um segredo que deverá durar por toda a nossa vida.
Se a senhora me trair, saiba que posso tirar a vida de todos os seus filhos e, inclusive, a sua.
Eu não temia mais Edionor.
Olhei para ele com doçura e respondi:
- Não precisa fazer nada disso.
Saberei me calar.
Saí no escuro e voltei trazendo a pequena Amanda em meus braços.
Edionor chorou ao ver aquela que, a partir daquele momento, seria sua filha.
Beijou a criança e a colocou ao lado de Estela.
Horas mais tarde, quando ela acordou, eu não estava mais lá, mas soube que recebeu a menina como se fosse sua filha e nunca soube da verdade.
Odete também foi regiamente paga para esconder o segredo e foi-se embora, ninguém mais sabe dela.
Essa é a história de Edionor.
Foi a vez de Tereza falar:
- Por isso, apesar de tudo, permiti que ele namorasse a Amanda, pois sabia que ela não era filha de Edionor.
Mas nunca lhe tive simpatia, nem achava que meu filho fosse ser feliz naquele casamento.
Tenho certeza de que foi ela quem o fez desaparecer, e quem sabe com a ajuda desse aí.
De repente, todos tiveram a atenção voltada para Edionor, que soltou um gemido e foi ao chão.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 11, 2017 7:35 pm

27 - AMANDA DESCOBRE A ADOPÇÃO
Vagner estava chegando em seu jipe, quando percebeu vozes e choro abafado na casa de Leontina.
Correu para lá, entrou na sala e encontrou um homem deitado no sofá com ar de morto e várias pessoas conversando sem se entenderem.
Ao vê-lo, Aninha apressou-se:
- Que bom vê-lo mais cedo em casa.
Este senhor sofreu um desmaio e está ficando roxo.
Se não o levarmos para um hospital logo, poderá morrer.
Vagner não conseguiu entender de pronto:
- Quem são essas pessoas?
Vieram para consulta?
Leontina explicou:
- Esta é minha nora, Tereza, aquela é Hortência, a nova companheira de meu neto, e este senhor chama-se Edionor.
Eles vieram aqui à procura de meu neto, que desapareceu, mas encontraram outra verdade.
Edionor não resistiu e está mal do coração.
Sei que ele não vai morrer, mas precisa de um médico com urgência.
Foi Deus que o mandou sair mais cedo do trabalho, pois o ônibus só passa aqui bem mais tarde, e até lá ele não iria resistir.
- A firma entrou em greve, não sabemos quando vamos retornar.
Mas não posso levar este senhor no meu jipe, é desconfortável e pode ser que ele não resista.
- Você sabe dirigir, pegue as chaves do carro dele e o leve, não espere mais.
Edionor respirava fracamente e estava com olhos e boca arroxeados.
Tereza e Hortência resolveram acompanhá-los ao hospital de Pedra Bonita.
A viagem foi rápida e, assim que chegaram, Edionor foi avaliado e internado na Unidade de Terapia Intensiva.
O Dr. Henrique Freitas, amigo de longa data, após os procedimentos necessários, foi ter com os acompanhantes.
- Por pouco ele não morreu.
Sofreu uma parada cardíaca, mas agora está em coma induzido.
Por isso chamei aqui a Dona Estela e sua filha Amanda e disse para virem o mais rápido possível.
A situação é estável, mas não podemos prever se vai continuar assim.
É melhor que a família esteja por perto.
Hortência não queria ver Amanda, por isso não queria estar por perto quando ela chegasse ao hospital.
Pediu:
- Quero que Vagner nos leve para a nossa cidade agora.
Não temos mais o que fazer aqui, nossa parte já foi feita.
Dr. Henrique interveio:
- Desculpem-me, mas terão de ficar.
Assim que Amanda e Estela chegarem, vocês terão de explicar tudo o que aconteceu com Edionor antes da chegada dele ao hospital.
Não podem sair desse jeito.
Tereza concordou:
- Ficaremos.
Afinal, Edionor veio connosco e não é justo deixarmos de contar o que houve.
Conheço Estela e sei que ela vai querer saber o que estávamos fazendo juntos.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 11, 2017 7:35 pm

Dr. Henrique, satisfeito, pediu licença e saiu. Hortência sentiu fome e foram para a lanchonete do hospital.
Uma vez lá, enquanto aguardavam o pedido, ela questionou:
- A senhora vai contar tudo o que ficou sabendo na casa da dona Leontina?
- Não posso e nem devo fazer isso.
Vamos dizer que viemos à procura do meu filho e que, de repente, o Edionor passou mal.
Se Estela souber a verdade, pode também adoecer, e então estaremos provocando uma tragédia.
- Não acho justo que ela fique sem saber.
Muito menos Amanda.
- Sim, elas saberão.
Mas só quando Edionor se recuperar e se decidir a contar.
- E se ele morrer?
- Nesse caso, eu mesma vou contar.
Mas só nesse caso.
De repente, o pensamento de Tereza foi para Douglas.
Onde ele estaria?
Tudo indicava que Edionor estava por trás do sumiço dele.
Não resistira ao saber que fizera mal ao próprio filho.
O que será que tinha acontecido?
Ao pensar que o filho talvez estivesse morto àquela hora, Tereza começou a chorar, no que foi acompanhada por Hortência.
Vagner não sabia do que se tratava, mas sentia que um segredo guardado há muito tempo havia sido revelado na casa de Leontina.
Terminado o lanche, os três se dirigiram ao saguão.
Hortência não parava de pensar.
Logo naquele momento, perto do dia em que o primeiro filho nasceria, Douglas havia sumido.
Por que o destino estava fazendo isso com eles?
Uma vez Diva havia dito que o adultério tinha um preço doloroso.
Será que por eles terem sido adúlteros a vida os estava dando uma lição?
Mas era muito penoso imaginar que ele pudesse estar morto naquele momento.
Os minutos foram passando e, de repente, viram Amanda e Estela entrando no hospital.
Tereza foi recebê-las.
Estela chorou em seu ombro, enquanto Amanda, de óculos escuros, fingia não os ver.
Logo o Dr. Henrique as deixou a par da situação clínica de Edionor e, após a visita rápida, ambas voltaram a conversar e para saber como aquilo havia acontecido.
Antes que Estela esboçasse alguma palavra, Amanda adiantou-se com agressividade:
- Podem ir contando como foi que vocês fizeram meu pai adoecer dessa forma.
Ele estava bem, era homem de saúde, forte.
Bastou sair com vocês para que isso acontecesse. Estou esperando.
O silêncio se fez, até que Tereza o quebrou:
- Não tivemos culpa de nada.
Meu filho desapareceu e ficamos todos desesperados.
Seu pai resolveu nos ajudar a procurá-lo e fomos até a casa de dona Leontina.
Douglas gostava dela e poderia estar lá.
Enquanto conversávamos, seu pai sentiu-se mal e desmaiou.
Isso é tudo.
- E a senhora pensa que vai ficar nisso mesmo?
Se meu pai morrer vocês serão os culpados.
Não tem nada a ver se Douglas sumiu ou não.
Vai ver que fugiu dessa mulherzinha vulgar e cínica com quem resolveu se concubinar.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 11, 2017 7:35 pm

Hortência começou a sentir raiva.
Quem era ela para tratá-la assim?
Amanda continuou com feições de ódio:
- É isso mesmo, cínica e vulgar.
Uma rameira que teve a coragem de destruir um casamento.
Uma prostitutazinha qualquer que resolveu um dia acabar com um lar honrado.
Uma mulher sem moral, sem eira nem beira.
Douglas bem que a merece, os dois são iguais.
Só mesmo um trouxa como ele para querer uma mulher da sua laia. Vadia!
- Cale-se! - Hortência levantou sem conseguir se conter e deu-lhe uma bofetada.
Quando Amanda ia revidar, Vagner a segurou, mas ela continuava gritando com histeria:
- Vagabunda! Miserável!
Vai me pagar por tudo o que me fez!
Sem conseguir conter suas palavras, Hortência bradou:
- Você que é uma miserável de uma adoptada! Adoptada!!
Todos ficaram confusos e perplexos.
Teriam escutado direito?
Amanda parou de se sacudir entre os braços fortes de Vagner e a encarou:
- Você é uma louca.
Não sabe o que diz.
- É isso mesmo, você é uma coitada de uma adoptada.
Filha de peões! Veio do nada.
Não pode falar de mim.
Tereza sentiu que não havia mais como evitar a verdade.
Estela tremia e, com voz entrecortada, suplicou:
- O que essa mulher está falando?
Ela só pode estar brincando.
- Não estou!
Amanda não é sua filha!
Virou-se para Tereza e pediu:
- Conte, dona Tereza, conte a verdade às duas, e também conte por que seu Edionor passou mal.
- Aqui não é lugar - retorquiu Tereza.
Estamos no saguão de um hospital, e os funcionários já foram chamar a directoria por causa da confusão.
Somos pessoas civilizadas, vamos sair daqui.
Amanda já não sabia o que fazer ou dizer. Ela adoptada?
Aquelas pessoas sabiam de algo, e ela precisava ir até o fim.
- Solte-me, não vou agredir ninguém.
Só quero saber a verdade.
- Não aqui. É melhor irmos para outro lugar.
O director chegou e pediu que se retirassem.
Tereza concordou e disse a todos:
- Vamos nos comportar.
Na capela podemos conversar com mais calma, pois o que tenho a dizer é muito sério e nem sei se devo.
Estela, com os olhos rasos d'agua, exigiu:
- Terá de contar.
Sinto que não posso mais ficar sem saber a verdade.
Se Amanda é adoptada, preciso saber.
Chegando à capela, Tereza começou a narrar em detalhes tudo o que aconteceu.
Estela chorou muito e abraçou a filha com emoção.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 11, 2017 7:36 pm

Quando foi revelado que Douglas era o verdadeiro filho de Edionor, Amanda se descontrolou:
- Não é possível!
Isso só pode ser um castigo.
Esta mulher está mentindo.
Aonde quer chegar com toda essa invenção?
- Não é invenção e tenho fé em Deus que Edionor vai se recuperar e vai confirmar tudo o que acabei de dizer.
Infelizmente, era um segredo que também fazia parte de minha vida e nunca pude revelar.
Sofri sozinha e calada durante todos esses anos.
Agora meu filho sumiu, não se sabe o que lhe aconteceu e eu nem pude lhe revelar que ele estava com o pai, lado a lado, o tempo inteiro, e não sabia.
Amanda estava colérica:
- Pois eu espero que meu pai morra, e que seu filho morra junto - dizendo isso, saiu em disparada, deixando Estela em prantos.
Hortência arrependeu-se de ter dito a verdade num gesto de impulsividade, mas agora todos já sabiam.
Todavia, temia por Estela, parecia que aquela senhora era boa, muito diferente da filha.
Ficou aliviada quando a viu abraçar-se a Tereza, que a consolava:
- Edionor fez tudo isso por amor a você, Estela.
Você foi a única mulher que ele amou na vida.
Amanda pode não ser sua filha de sangue, mas o é espiritualmente.
Você não vai deixar de amá-la por isso, nem ela a você.
- Eu sei, mas é muito difícil para mim assimilar tudo isso.
Tenho notado que Amanda anda estranha, temo por sua saúde mental.
Ela não tem se comportado bem.
Agora, com esse choque, vai ficar pior.
- Amanda precisa amadurecer.
Talvez a verdade venha a ajudá-la.
Agora vamos orar à Maria e pedir amparo a Ela neste momento.
Estavam numa capela muito bonita.
No altar, muitas flores frescas e, ao centro, uma grande imagem de Maria.
Tereza fez uma prece comovida e foi acompanhada por todos os presentes.
Logo depois Estela já estava melhor.
Tereza olhou-a e disse:
- Temos de ir.
Peço que deixe o Vagner nos levar até em casa no carro de seu marido, depois ele deixa o veículo em sua casa.
- Sim, podem ir.
Se quiser, podem usar o carro, pois o Vagner não terá como voltar para casa.
- Não se preocupe, lá ele pega um táxi.
Fez uma pausa e continuou:
- Espero que não nos interprete mal, nem fique com raiva da Hortência.
Amanda provocou e, nessas horas, não sabemos como vamos reagir.
Esse segredo ficaria guardado até que Edionor melhorasse e pudesse, ele mesmo, lhe contar.
Mas a vida sempre sabe o que faz.
Estela calou-se e apenas a abraçou.
Quando deixaram o hospital, Tereza e Hortência não conseguiam articular nenhuma palavra.
Foram em silêncio até em casa.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 11, 2017 7:36 pm

28 - MECANISMOS DA VIDA
Os dias foram passando e nenhuma notícia de Douglas.
O carro também havia sumido misteriosamente, e a polícia deu o caso por encerrado.
Edionor continuava no hospital, sem melhoras.
Sua vida era mantida por aparelhos.
Amanda, mesmo em desequilíbrio pela notícia de que era adoptada, continuou ao lado de Estela, mas com muito ódio do pai, que escondeu toda aquela verdade.
Tereza e Hortência entraram em depressão pelo sumiço de Douglas.
Nenhum sinal, nenhum rastro, nada que lhes desse alguma esperança.
Foi nesse clima de tristeza que Mateus veio ao mundo.
Quando Hortência o olhou pela primeira vez, chorou emocionada e jurou para si mesma que, a partir dali, viveria para o filho.
Tereza saiu da apatia ao segurar o neto, e também resolveu que, em memória do filho, iria ajudar na criação de Mateus, dando-lhe muito amor e carinho.
Todos passaram a achar que Douglas havia morrido.
Ele era um homem responsável, de negócios, amava Hortência, estava feliz com o filho que ia nascer, amava viver entre eles.
Jamais iria fugir ou viajar para longe sem avisar.
Com esse pensamento, conversaram com o padre Januário, que celebrou uma missa para sua alma.
A cidade parou para assistir.
No fundo da igreja, Amanda e Fernando, disfarçados, sorriam cinicamente.
Uma noite, Hortência acordou vendo uma imagem muito desagradável.
Via Douglas cheio de hematomas, perdido num matagal, andando sem destino.
A visão era nítida.
Ela o enxergava com a mesma roupa que usava antes de sair de casa, mas com muitos rasgões e suja de lama.
Não suportando o quadro, gritou alto.
Diva entrou correndo no quarto, foi ao berço e viu que Mateus dormia profundamente.
Acercou-se de Hortência, dizendo:
- Aconteceu novamente, não foi?
- Sim. Mas desta vez não foi a visão com o bebé.
Foi com Douglas.
Sei que o Douglas não morreu, ele está vivo!
Está vivo!
Os olhos de Diva brilharam emocionados, sabia que Hortência era médium de premonição, e confiava no que ela via.
- Conte-me mais. O que viu?
- Ele está longe daqui, em uma mata, uma floresta, sei lá.
Está perdido - começou a chorar.
- Acalme-se, vamos orar por ele.
- Não posso me acalmar.
Para que Deus me deu essa mediunidade se não posso saber tudo?
Eu deveria saber exactamente o lugar onde ele está para mandar procurá-lo e trazê-lo de volta para mim e para o nosso filhinho.
Diva entendia a dor da sobrinha, mas sabia como as leis universais funcionavam, por isso tentou acalmá-la:
- Fique confiante.
Se Deus não lhe mostrou tudo, é porque não é a hora.
Já lhe falei uma vez e volto a repetir.
As premonições acontecem para que possamos vibrar pelas pessoas envolvidas.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 11, 2017 7:36 pm

A vida lhe mostrou que Douglas está vivenciando uma situação difícil, precisando de orações para que se fortaleça e vença essa prova.
Se ele não está morto, é sinal de que Deus ainda pode lhe poupar a vida.
- A senhora fala de Deus.
Não consigo entender por que ele nos fez passar por tudo isso.
Será porque fomos adúlteros?
A voz de Diva era grave ao dizer:
- A vida afastou um pai de um filho, alguém fez uma maldade grande e tirou a felicidade de uma nova família.
Não acredito que tudo isso seja porque foram fracos e se entregaram ao amor, mesmo sendo um dos dois comprometido.
A vida não é perversa nem se vinga das pessoas por um ato que só a Deus cabe julgar.
O que aconteceu com vocês pode ter origem em situações do passado, que voltaram agora pela necessidade de reparação.
Tudo poderia ter sido evitado, mas, para isso, seria necessário que os envolvidos estivessem vibrando em outra faixa de energia.
É bom saber que são as energias e os pensamentos que emitimos ao universo que atraem os factos para nossa vida.
- Mas nós éramos boas pessoas.
O Douglas era um homem honesto.
Vibrava no bem.
Diva foi calma ao explicar:
- O bem não se resume a ser honesto e não praticar o mal aos outros.
O bem é muito mais abrangente.
Douglas emitia energias de insegurança, não confiava em si mesmo, tinha crenças pessimistas.
Sentia medo de que Amanda fizesse mal a você e ao Mateus.
Você também é muito insegura, temerosa.
Ter medo é acreditar no mal.
Por isso a vida traz experiências dolorosas que tiveram origem em vidas passadas, para que possamos vencer os nossos pontos fracos e evoluir.
O passado só tem poder sobre nós enquanto não nos modificarmos.
O que vai acontecer com Douglas ao enfrentar esses desafios?
O quanto ele vai crescer com isso?
E você também?
É hora de deixarmos a condição de vítimas de lado e nos colocar a favor da vida.
- Sinto que vou demorar muito para ver o Douglas.
Meu filho será criado sem os carinhos e a protecção do pai.
É um preço horrível que estou pagando.
- Tudo acontece para o melhor.
Agora volte a deitar e faça uma prece pelo Douglas e por você mesma.
Lembre-se de que agora tem um filho para criar, e esse ser precisa de seu apoio e alegria.
Amanhã, o Edmilson virá aqui para falar sobre a administração do hotel, você deverá estar preparada.
Hortência lembrou-se do hotel, mas não queria ficar lá.
- Não volto mais para lá.
Vou deixar o Edmilson tomando conta de tudo.
Não me sinto preparada.
- Você precisa enfrentar as coisas.
Não adianta ficar só em casa chorando.
Depois, o Edmilson trabalhava sob as ordens do Douglas, ele não pode fazer tudo sozinho.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 11, 2017 7:36 pm

Agora aquele hotel ficará sob sua responsabilidade.
- Ainda estou confusa, o hotel pertence ao senhor Edionor.
Provavelmente Amanda vai querer tomar conta de tudo.
Não sei o que fazer.
- Então deite-se e ore.
Quando estamos confusos, sem saber o que fazer, a oração é o melhor remédio.
Diva deu um beijo na testa da sobrinha e retirou-se.
Na quietude da noite, Hortência rolou insone sem conseguir juntar as palavras corretas para fazer uma oração.
Por fim, apenas pediu a Deus que protegesse Douglas e seu filhinho.
Quando os primeiros raios de sol começaram a surgir, ela finalmente conciliou o sono.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 11, 2017 7:37 pm

29 - VOLTANDO À VIDA
A manhã estava radiosa, colorida, bela.
Mesmo assim, Hortência não sentiu ânimo para levantar e cuidar de seus afazeres.
Mateus começou a chorar clamando fome, e ela ainda sonada e vencida pelo choro da criança foi amamentá-lo.
Após banhá-lo e trocar sua roupa, foi para a sala.
Diva estava servindo o café e, mesmo a contragosto, ela se serviu de algumas torradas.
Pouco tempo depois, Edmilson chegou.
Diva o fez entrar e logo Hortência o recebeu.
- Bom dia, Edmilson.
Confesso que não estou com nenhum estímulo para ir ao hotel.
Desejo mesmo deixar tudo em suas mãos.
Aquele lugar não será o mesmo sem o Douglas.
Edmilson era um homem maduro, ruivo, bem-apessoado, olhos enérgicos.
- A senhora precisa ir lá.
Sempre trabalhei sob o comando do seu marido e não saberia continuar sem alguém a me guiar lá dentro.
- Mas você entende de tudo.
Eu era apenas uma recepcionista.
- Posso entender, mas o hotel cresceu muito depois que o Douglas assumiu o comando.
Não me sentiria à vontade para mandar em algo que não é meu.
Ou a senhora assume ou passarei tudo para a outra dona.
Hortência surpreendeu-se:
- Outra dona?
- Sim. Não sei se a senhora sabe, mas seu marido comprou metade do hotel, no entanto, a outra metade pertence ao senhor Edionor, logo deverá ficar sob o comando de Amanda ou de dona Estela.
Elas nunca se interessaram pelo negócio, mas não terei alternativa a não ser procurá-las para que assumam.
Diva ponderou:
- Talvez seja o mais correto.
Hortência não tem nenhum vínculo formal com o Douglas.
Se ela for para lá, é provável que elas reclamem e a expulsem.
Conheço muito bem a Amanda.
É capaz de tudo.
Após pensar, Hortência respondeu:
- Diva tem razão.
Não posso assumir nada antes da resposta de Amanda e de dona Estela.
Procure-as e, caso não queiram se responsabilizar, eu prometo voltar e tentar fazer o que sei.
Edmilson concordou e, agradecendo, saiu.
Assim que a porta se fechou, Diva dirigiu-se a Hortência com o semblante preocupado:
- Não sei como faremos para viver, caso Amanda resolva dirigir o hotel.
Ela pode fazer isso apenas para deixá-la na miséria e afrontá-la.
Todos sabem que com Douglas desaparecido você não tem meios de sobreviver e criar um filho.
Tia Lúcia a rejeita, meu emprego também era lá no hotel.
O que faremos para viver e para criar o Mateus?
- Douglas era muito precavido e tinha uma conta conjunta comigo.
Temos um bom dinheiro guardado, que vai dar para nossas primeiras despesas, até que possamos nos situar num novo emprego.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 12, 2017 8:12 pm

Sua voz se embargou e ela falou com olhos cheios de lágrimas:
- Até agora não consigo entender como ele desapareceu dessa maneira.
Não consigo aceitar que tenha me deixado espontaneamente.
Também não acredito que tenha morrido, como a dona Tereza acha.
Diva retrucou:
- Agora só nos resta esperar e ter paciência.
O problema é que nesta cidade não teremos como encontrar algo para fazer, não teremos trabalho.
E quando seu dinheiro terminar?
- Não pensarei nisso agora.
O aluguel aqui é caro, podemos nos mudar para uma casa mais barata.
Também não sabemos se Amanda vai querer dirigir o hotel.
Pode ser que eu ainda tenha chances de trabalhar e me manter.
Diva murmurou:
- Deus te ouça!
As horas foram passando e, à tardinha, Edmilson retornou.
Após os cumprimentos, ele foi directo ao assunto:
- Conversei com Amanda, e ela não quer assumir nada.
Disse que nunca trabalhou e que não será agora que o fará.
Deu carta branca para que você pudesse dirigir o hotel e afirmou que não vai interferir em nada.
Tanto Diva quanto Hortência não conseguiram entender.
- Você tem certeza do que Amanda disse?
- Absoluta.
Tanto que vim pedir para que a senhora esteja lá amanhã cedo.
Temos muitas coisas pendentes que requerem solução imediata.
Ainda atordoada, Hortência respondeu:
- Sim, estarei lá amanhã cedo.
Pode aguardar.
- Que bom que tomou essa atitude.
Faremos um bom trabalho juntos.
Esse hotel era tudo para o seu marido.
Onde quer que ele esteja, vai ficar feliz ao saber que tem alguém zelando pelo que era dele.
- Não acredito que o Douglas morreu.
Fizeram uma maldade grande com ele, mas ele está vivo e vai voltar.
Edmilson pensava como ela.
Trabalhava com Douglas havia algum tempo e, pelo que conhecia do patrão, ele jamais abandonaria a família.
Também não acreditava em sua morte.
Corria à boca pequena que o velho Edionor, juntamente com a filha, havia dado sumiço nele por estar num novo relacionamento.
De qualquer forma, um dia a verdade iria aparecer.
Quando Edmilson se foi, Diva virou-se para Hortência com rosto alegre:
- Ainda bem que não iremos nos preocupar com dinheiro.
Meu trabalho está garantido e você também vai ter um salário.
- Não queria voltar para lá, mas tenho meu filho.
É por ele que estarei fazendo isso.
De repente, Diva lembrou-se:
- Teremos de sair o dia todo, como vamos cuidar do Mateus?
Ele não tem nem um mês ainda.
É frágil, precisa ser amamentado.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 12, 2017 8:12 pm

Como fará?
- Podemos contratar uma babá. Que acha?
- Seria bom.
Ela poderia ficar com ele nas horas em que você estivesse mais ocupada e levá-lo para ser amamentado nas horas certas.
- Mas como faremos para encontrar uma pessoa de confiança?
- O melhor que temos a fazer é pôr um anúncio no jornal da cidade, e assim que aparecer alguém veremos se é ou não de confiança.
As duas mergulharam em planos até que a noite chegou por completo.
Ao colocar Mateus para dormir, ela ficou observando-o enquanto pensava:
"Meu filho, mamãe te ama mais que a própria vida.
Você tem o rostinho igual ao do papai, ainda mais o amo por isso.
Você é minha luz!"
A criança pareceu entender e sorriu.
Hortência o beijou várias vezes e foi se recolher.
Apesar do sono, não conseguia dormir.
Seus pensamentos fervilhavam:
"Não consigo entender a Amanda.
Num dia me destrata, me agride com palavras, no outro deixa o caminho livre para que eu possa assumir um negócio que também é dela.
Amanda está muito mudada.
Apesar do escândalo no saguão do hospital, parece haver se conformado com o fato de o marido tê-la abandonado."
Outros pensamentos vieram, até que o sono foi mais forte e ela adormeceu.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 12, 2017 8:12 pm

30 - A BABÁ
Um pouco distante dali, Fernando e Amanda confabulavam:
- Precisamos encontrar uma maneira de colocar nosso plano em prática.
Já estamos demorando muito, não acha, amor? - dizia ele com voz melíflua.
- Tenha calma.
Não se esqueça de que o plano já está em andamento.
Estou fingindo que aceitei a situação e até permiti que ela aquela vadia se apoderasse do hotel, que é meu.
Apenas me desequilibrei no hospital, mas consegui contornar a situação.
Está sendo muito difícil, para mim, conviver com a realidade de ser adoptada, uma mera filha de peões de meu pai, que me venderam a preço barato.
Fernando puxou-a mais de encontro ao peito e a consolou:
- Isso não deve aborrecê-la.
O que importa é que está comigo e, juntos, seremos muito felizes.
Quero dizer que nossos documentos falsos e o visto como turista já foi concedido.
Em breve, poderemos sair do Brasil sem nenhum problema.
- Como ficará fora daqui?
Até agora não me disse.
- Não se preocupe, ficaremos pouco tempo fora.
Tenho muito dinheiro no exterior e laranjas para movimentá-lo.
Você sabe que minha vida não se resume a esta cidadezinha sem futuro.
Tenho outros negócios.
Amanda olhou-o com curiosidade.
- Posso saber que negócios são esses?
- As mulheres e a curiosidade.
Você não precisa saber de nada, apenas fique segura ao meu lado.
Afinal, eu a amo de verdade e sou o único que vai fazer com que seu sonho se realize.
- Mesmo assim não sei como fazer para realizar o principal.
Até agora não temos nenhuma ideia.
- Estamos demorando a fazer o que deve ser feito.
Mas ao mesmo tempo penso que não podemos fazer nada agora.
Seu pai está doente, sua mãe precisa de você ao lado dela naquele hospital.
Se quisermos que tudo saia perfeito, precisamos ter paciência e saber esperar.
Amanda arrepiou-se de emoção:
- Perto de você sinto-me a mulher mais realizada do mundo.
Como um dia pude gostar daquele infeliz?
- Douglas teve o fim que mereceu.
Não poderia nunca ter traído a mulher mais especial do mundo.
- Não sabemos mesmo se ele morreu.
Nosso plano foi feito pela metade.
Não sabemos quem realizou o resto.
Fernando considerou:
- Mesmo que ele não tenha morrido, deve estar longe, ou então já teria voltado para a mulherzinha.
Agora vamos esquecer isso...
Hortência assumiu o hotel e, apesar da pouca prática em administração, conseguiu levar adiante sua tarefa com a ajuda de Edmilson.
Os dias estavam passando e ficava difícil cuidar do trabalho e de Mateus ao mesmo tempo.
Já haviam colocado anúncio no jornal em busca de uma babá, mas nenhuma havia aparecido.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 12, 2017 8:13 pm

Diva também trabalhava agora como recepcionista, e não podia ajudar a prima.
Não havia muito o que ser feito, mas Hortência gostava de ficar lá o tempo todo, conversando com os hóspedes e funcionários, sentindo-se útil.
No entanto, Mateus queria colo a todo instante, chorava e se mostrava irritado naquele ambiente.
Era urgente a presença de alguém para ajudá-la.
Num fim de tarde, uma moça alta, magra, cabelos cacheados, tez clara e bem vestida apareceu no hotel.
Foi à recepção e perguntou:
- A senhora Hortência se encontra?
- Sim, está no escritório.
O que deseja? - perguntou Diva solícita.
- Eu li no jornal que estão precisando de uma babá.
Tenho prática e gostaria de trabalhar.
Sabe informar se ela já encontrou alguém?
Diva ficou feliz.
- Você chegou na hora certa, menina.
Estamos há mais de um mês procurando sem encontrar.
Mas você é muito jovem, deve estar estudando e tem boa aparência.
Queremos alguém para morar connosco.
Sou prima da Hortência e sei que uma pessoa que não possa ficar com ela todo o tempo não será útil.
A moça fez um ar de tristeza ao dizer:
- Infelizmente não estudo, pois não tenho recursos.
Acabei de chegar à cidade com minha mãe, que é doente.
Morava em Belo Horizonte, mas ela adoeceu e o médico recomendou um lugar de clima ameno, onde não existisse muita poluição, e viemos para cá.
Vivemos da sua aposentadoria.
Diva apiedou-se:
- É muito triste uma doença em família.
Mas repito que é moça, pode encontrar algo melhor.
- Aqui nesta cidade é difícil.
Pelo que vejo, o comércio é pequeno, e não posso mais esperar.
Tenho de ajudar com as despesas da casa que alugamos.
Se quiserem, posso mostrar que tenho prática.
Na capital trabalhei em duas casas cuidando de bebés.
Tenho bastante jeito com criança.
- Vamos lá falar com Hortência.
Ambas chegaram ao escritório e, após ouvir toda a história, Diva lembrou:
- Você ainda não nos disse seu nome.
- Chamo-me Neide.
- Então, Neide, não sei se poderemos empregá-la.
Pelo que contou, sua mãe deve precisar muito de você.
Como passará as noites fora?
- Minha mãe não está só.
Veio connosco minha tia Cacilda, que também me ajuda a cuidar dela.
Dessa forma, tenho o tempo integral para ficar com seu filho.
Hortência sorriu e disse:
- Então está empregada.
Começa a partir de amanhã bem cedo.
Os olhos de Neide marejaram.
- Não sabe como estou agradecida.
Deus a abençoe.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 12, 2017 8:13 pm

Dizendo isso e de posse do endereço, a moça se foi.
Ao ficar a sós com Diva, Hortência observou:
- Essa moça está muito bem vestida para ser tão pobre quanto diz.
- Qual nada.
Ela deve estar assim porque veio em busca de emprego.
Ninguém iria dar confiança ou empregar alguém malvestido.
Pode ser que esteja vestindo sua melhor roupa.
Hortência aquiesceu:
- É verdade. Gostei muito do jeito da Neide.
É carinhosa e meiga, Mateus estará em boas mãos.
- Também gostei dela, mas devemos observá-la bem nesses primeiros dias para ver se realmente vale a pena.
A conversa foi interrompida com a chegada de Mónica.
- Infelizmente, tive de deixar a recepção sozinha, pois estão chamando a Hortência lá fora.
É aquela sua outra prima, a Aída.
- Aída? O que ela quer aqui?
- É o que vamos ver - disse Diva saindo rápido, arrastando Hortência pelo braço.
Na recepção, encontraram Aída aflita.
- O que aconteceu? - perguntou Diva.
- Tia Lúcia está mal no hospital.
Vim aqui avisá-las e dizer que ela quer falar com Hortência.
Diva empalideceu.
- O que a tia tem?
- Começou a tossir e ter febre.
Vocês sabem como ela é.
Resistiu a ir ao médico até que a situação piorou de vez.
Fui forçada a interná-la.
O dr. Rubens disse que provavelmente era um caso de pneumonia, e seria melhor que fosse removida para Pedra Bonita, onde há mais recursos.
Foi difícil convencera tia, mas ela, debilitada, acabou cedendo.
Chegando lá, fizeram vários exames e descobriram o pior: ela é portadora de uma grave tuberculose cujos focos já tomaram ambos os pulmões.
Foi tratada com o que há de melhor, mas não reage.
Pensaram em extrair o pulmão mais avariado, mas não tem mais como ela resistir a uma cirurgia.
Sua mãe vai morrer.
Hortência sentou-se numa poltrona e, extremamente nervosa, começou a chorar.
Amava a mãe, e a relação das duas havia sido boa até ela se envolver com Douglas.
Sabia que ela tinha génio forte, era dura e fria, mas a criou muito bem, havia lhe ensinado coisas boas.
Naquele momento, começou a sentir remorso.
Ela não fora a filha que Lúcia sonhara.
Por que aquele amor mudou toda sua vida dessa maneira?
Se não fosse por ele, estaria bem casada e tendo vida normal.
No entanto, fora se aventurar com um homem casado, que a engravidou e, de repente, sumiu.
Mas fora por amor.
Quando se refez, olhou para Diva e disse:
- Precisamos vê-la agora. Vamos.
- E quem cuida do Mateus?
- Ele vem connosco, mas não entra no hospital.
A senhora fica com ele enquanto vejo minha mãe.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

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