Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 12, 2017 8:13 pm

Após dar algumas instruções no hotel, tomaram o ônibus e partiram.
Ao chegarem, dirigiram-se para o hospital do município.
Era noite e a direcção não permitia mais a entrada de visitas.
Aída, no entanto, mencionou a gravidade do caso para o porteiro, que acabou permitindo a entrada.
Coração aos saltos, Hortência seguiu para o isolamento, onde sua mãe estava cadavérica, vencida pela terrível doença.
Correu para perto e acariciou sua mão.
Lúcia abriu os olhos e chorou.
Ambas se abraçaram.
Com voz fraca, Lúcia disse:
- Filha, perdoe-me por todo o mal que te fiz.
- Não precisa pedir perdão, mãe.
A senhora vai ficar boa e quando sair desse hospital será muito feliz com todos nós.
Lúcia deixava as lágrimas descer espontâneas por seu rosto.
- Não haverá mais tempo.
Quero que saiba que nunca deixei de amá-la.
Revoltei-me por ver você cometer o mesmo erro que eu cometi, e que gerou você.
Eu também amei um homem comprometido que me abandonou.
- Por isso nunca me disse quem era meu pai.
Posso, agora, saber quem é?
- Não tenho tempo de contar como tudo aconteceu, mas pergunte a Diva, ela sabe de toda a história e do crime terrível que cometi e que agora Deus vai me cobrar.
Vejo Raul do meu lado com feições animalescas cobrando meu crime.
Irei para o inferno.
- Raul? Quem é Raul?
- Seu pai. O nome dele era Raul.
Ele está do meu lado e disse que veio me levar para o sofrimento.
Mas sei que seu perdão pode me ajudar, não posso morrer sem saber que me perdoou por todo o mal que te fiz.
- A senhora só fez o que uma mãe revoltada faria.
Eu a amo e está perdoada.
- Não. Eu não fiz só isso.
Fiz coisas piores, que o tempo se encarregará de revelar.
Sei que não tenho mais perdão.
O Raul vai me levar.
Um silêncio cortante tomou conta do ambiente triste e lúgubre.
Aída comentou:
- Ela está tendo alucinações.
Está ciente de que o espírito de seu pai está ao lado dela chamando-a para morrer e levá-la a um lugar de tormentos.
- Pobre mamãe.
Queria muito que ela se curasse e voltasse a nosso convívio.
- Infelizmente, não é possível.
Nesse momento, Lúcia exalou seu último suspiro, dando golfadas de sangue.
Hortência chorou sentidamente e Aída retirou-a do recinto.
Diva esperava no saguão e, ao vê-la naquele estado, imediatamente sentiu que a tia havia desencarnado.
Elevou seu pensamento ao alto e pediu amparo para aquela que durante anos foi sua mãe.
As três, abraçadas, foram para a capela.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 12, 2017 8:13 pm

Quando se acalmaram, Hortência comentou:
- Minha mãe disse que meu pai estava ao seu lado, esperando para levá-la ao inferno.
Isso é possível, Diva?
- Sim. Sua mãe e seu pai têm laços que só o tempo e o perdão podem fazer desaparecer.
Em estados de doença, a consciência se altera e a mediunidade aflora com mais intensidade.
É comum, em todos os casos de morte iminente, o paciente ver entes que o precederam na viagem à próxima dimensão.
Estou certa de que Raul veio cobrar todo o mal que tia Lúcia lhe fez.
Hortência estava impressionada.
- Ela é que foi enganada.
Pelo que me contou, ele era casado e a abandonou.
- Não foi bem assim.
Mas creio que não é hora de falarmos sobre isso.
É hora de orarmos em favor dos espíritos de sua mãe e seu pai.
Ele não a levará para o inferno, pois o mesmo não existe, mas poderá levá-la ao umbral, que é uma zona de muito sofrimento.
Oremos para que ambos possam se perdoar e entender o valor do bem.
As três oraram em silêncio.
Por fim, Aída disse:
- Não me sinto digna de estar aqui com vocês.
Fui má como ela, ajudei-a a em muitas coisas das quais agora me envergonho.
- Não fique assim, Aída.
Se estiver arrependida, poderá refazer o que fez de errado.
Hortência indagou:
- E os professores colegas da mamãe?
- Ninguém veio visitá-la depois do diagnóstico - disse Aída.
- Essas pessoas são desumanas.
- Sua mãe também não era tão amiga assim. Era uma pessoa difícil de conviver.
- Mesmo assim.
O que mais me causa dó é saber que morreu sozinha e sem conhecer o neto.
Diva retorquiu:
- Tudo por orgulho.
Se sua mãe fosse mais humilde, teria sido feliz desde o princípio.
Desde que ficou grávida de você. Tia Lúcia desconhecia essa virtude, por isso atraiu tanto sofrimento.
A doença foi a forma que a vida encontrou de curar seu espírito.
Mateus começou a chorar, e logo a atenção das três se voltou para o menino.
Aída também não o conhecia, e ficou emocionada ao vê-lo.
Depois de algum tempo, Hortência fora chamada pelos médicos para resolverem problemas burocráticos.
Havia a liberação do corpo a ser feita, e eles queriam fazê-lo o mais rápido possível.
O hospital era público, muito cheio, e as coisas tinham de funcionar com rapidez.
Terminada a burocracia, Hortência, Diva e Aída prepararam-se para levar o corpo de Lúcia até Rios Claros.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 12, 2017 8:14 pm

31 - OBSESSÃO
Após o enterro da mãe, Hortência foi entrando em um estado de prostração inexplicável.
As perdas recentes abateram seu estado de ânimo e ela não conseguia ao menos brincar com Mateus, que a adorava e reclamava sempre sua presença.
Passava as horas deitada na cama ou no sofá, olhos perdidos fitando o vazio.
Quem tivesse vidência, poderia ver claramente o espírito de Lúcia atormentado junto à filha.
Com as duas o espírito de Raul, louco de ódio e clamando vingança.
Lúcia, assustada, corria e se abraçava à filha, ora pedindo perdão por tudo o que havia lhe feito, ora pedindo protecção contra o homem que um dia amou.
Assim que fora retirada do corpo, Lúcia sentiu um torpor e adormeceu.
Acordou num quarto simples, tendo ao seu lado uma enfermeira e um homem ainda moço, que a encarou perguntando:
- Como se sente, Lúcia?
Ainda fraca e com sono, ela balbuciou:
- Sinto-me muito fraca, quero ver minha filha.
Não posso morrer sem ter seu perdão.
A enfermeira a encarou firme:
- Você já pediu perdão a Hortência e ela já a perdoou.
Não precisa mais ficar preocupada nem ter remorsos.
- Mesmo assim.
Sinto que seu perdão não foi verdadeiro.
Como uma filha pode perdoar o que eu fiz como mãe?
Não soube apoiá-la quando mais precisou e ainda fiz com que seu sofrimento aumentasse.
Não, ela não me perdoou e nem eu mereço perdão.
Além do mais, há Raul.
Ele está me perseguindo e irá me levar para as trevas.
Ele veio cobrar o que eu fiz.
- Fique calma.
Sua filha a perdoou sinceramente e foi seu pedido de perdão e seu reconhecimento do erro que a fez ser socorrida neste posto.
Raul não poderá encontrá-la aqui, a não ser que você permita.
De repente, Lúcia recordou o perdão da filha com nitidez e que naquele instante havia morrido.
Assustou-se:
- Eu já morri. Tenho certeza de que já morri.
Como não estou no inferno?
Por que vocês estão me ajudando?
Anselmo olhou-a com ternura:
- Você realmente desencarnou, passou para a outra dimensão da vida.
Deste lado não existe inferno nem céu, mas as muitas moradas que o Pai nos reservou para além da vida terrestre.
Como Selma lhe disse, seu arrependimento à beira do desencarne foi o que a fez ser socorrida e merecer este lugar.
O minuto da morte é muito importante, visto que, se você não tivesse se arrependido, Raul a teria levado para uma zona de muito sofrimento, e não poderíamos fazer muito.
Seu compromisso com ele é muito grande e um dia terá de reparar.
Mas agora é a hora de buscar o equilíbrio.
Gostaríamos que tomasse esse líquido e voltasse a dormir.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 12, 2017 8:14 pm

Lúcia chorava enquanto sorvia um líquido verde.
Em poucos instantes adormeceu.
Selma olhou o companheiro e comentou:
- Talvez ela não fique connosco.
Raul está louco no umbral à sua procura.
Se continuar chamando-a por pensamentos, ela o irá escutar e, movida pelo remorso, irá até ele.
- Lúcia não compreendia o quanto as más acções podem pesar em nosso espírito imortal.
Ninguém consegue ser feliz até reparar todo o mal que houver feito ao seu próximo ou a si mesmo.
Jesus disse "não sairás daqui até que pagues o último ceitil", querendo dizer que iremos reconstruir tudo o que desmanchamos, que devemos colocar no lugar até as mínimas coisas que com nossas próprias mãos desfizemos.
Se Raul conseguir isso, será porque infelizmente Lúcia terá dado abertura.
Vendo que ela dormia tranquila, os dois seareiros do bem foram atender outros pacientes naquele imenso Posto de Socorro.
Era noite quando Lúcia acordou sobressaltada.
Seu quarto tinha uma pequena janela, e ela resolveu abri-la.
A aragem do outono entrou no ambiente e ela se sentiu bem.
Olhou as estrelas e sorriu ao pensar que, apesar de "morta", ela continuava vendo e sentindo as coisas.
Como se arrependia das coisas que havia feito!
Não era difícil aceitar a morte, pois já tinha conhecimento.
Além de ter sempre escutado o que Diva dizia, ela lia, às escondidas, os livros de Allan Kardec.
O mais difícil era aceitar o remorso que sentia pelas maldades que havia cometido, remorso esse que começou ainda encarnada, pouco antes de adoecer.
Lúcia ignorava que a tuberculose aconteceu justamente pela somatização do seu estado mental culposo.
Pensando em tudo o que havia feito, começou a chorar baixinho.
De repente, sentiu um arrepio e escutou claramente a voz de Raul:
- Maldita, onde quer que esteja não a deixarei em paz!
Vai me pagar, vai me pagar!
A voz continuava e era entrecortada de gemidos e gargalhadas.
Lúcia começou a se apavorar e foi quando viu claramente o rosto de Raul encarando-a com ódio e dizendo:
- Seu lugar é perto de mim, nas trevas! Nas trevas!
Em um pequeno instante, ela foi arrancada do lugar onde estava e viu-se no meio de um matagal escuro com o espírito de Raul ao seu lado.
Vendo-o, começou a correr desesperada, mas o lugar não tinha saídas nem fim.
Tropeçou e caiu. Pensou na filha com força e pediu:
- Minha menina, minha princesa.
Ore por sua mãe.
Preciso muito de você - disse com tanta força que foi arremessada para a casa de Hortência, onde a encontrou na cama, refazendo-se do sepultamento.
Daquele dia em diante, os espíritos de Raul e Lúcia não deixaram mais aquela casa.
Quando ela se aproximava da filha, sentia-se protegida, e Raul, enraivecido, não conseguia se aproximar.
Diva entrou na sala e, olhando para Mateus, exclamou:
- Olha como ele está! Todo sujinho!
Neide apareceu em seguida.
- Já ia trocá-lo, a dona Hortência pediu que eu fizesse tudo, mesmo com ela em casa.
- Obrigada, Neide, leve o Mateus para o quarto, pois preciso conversar com ela.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 12, 2017 8:14 pm

Neide obedeceu e Diva pegou nas mãos geladas da prima.
- Você precisa reagir.
Nem quando o Douglas desapareceu você ficou nesse estado.
Tia Lúcia pôde se despedir de você antes de partir, e você teve a chance de perdoá-la.
- Sinto-me apática e a todo instante vejo na mente o rosto de minha mãe pedindo ajuda.
Ela não está num bom lugar.
Vejo também um homem barbudo, alto, forte e moreno com um chicote na mão.
Diva estremeceu, ela estava falando de Raul.
Ela sabia que ambos não deveriam estar bem no plano espiritual, mas orava sempre para que os mentores pudessem auxiliá-los.
Provavelmente Lúcia, arrependida, estava pedindo auxílio à filha.
- Hortência, você precisa orar por sua mãe e ir comigo à casa de dona Vilma.
Lá pediremos auxílio espiritual para os seus pais.
Eles não estão bem e têm passado essa energia para você.
- Eu preciso saber o segredo que minha mãe guardava, porque nunca me disse quem era meu pai e que erro tão grave é esse que ela diz que meu pai veio cobrá-la.
- Então prepare-se, você vai saber de tudo.
"Sua mãe conheceu seu pai assim que terminou de se formar.
Ela era tida como uma mulher vencedora e independente, pois mesmo com dificuldade tinha cursado uma faculdade e concluído o curso.
Tia Lúcia era muito bonita, mas também muito ambiciosa, dizia que só ia se relacionar com homens ricos, que pudessem dar a ela todo o conforto material.
Não sonhava muito com o casamento, mas se contentava com o dinheiro que os homens pudessem lhe dar.
Na universidade, assim que prestou concurso e foi leccionar, conheceu Raul.
Ele era um homem casado com sua melhor amiga, Amélia, também professora.
Sem se importar, ela o seduziu e ambos se tornaram amantes.
Tia Lúcia já havia tido outros amantes ricos antes, mas por Raul ela se apaixonou.
Fez de tudo para tirá-lo da amiga, mas não conseguiu.
Raul era aventureiro, gostava de sexo e de ter amantes, mas amava mesmo era sua esposa.
Quando se descobriu grávida, pensou em aborto, mas descobriu que ele gostava muito dos filhos que tinha com Amélia, e pensou em prendê-lo com mais um.
Então fez chantagem, disse que, se ele não a assumisse, ela mataria o bebé.
Raul cedeu, aparentemente, e disse que assim que o bebé nascesse, deixaria a esposa e se casaria com ela.
Era uma situação fictícia, e tia Lúcia, por estar apaixonada, deixou-se enganar.
Esperou você com muita alegria, fez todo o enxoval, comprou tudo do bom e do melhor e, quando perguntada, dizia aos colegas que era uma gravidez independente, o que chocava a todos na época.
Amélia estava sempre ao seu lado, apoiando-a, pois na universidade muitas pessoas a discriminavam.
Você nasceu linda e cheia de saúde, mas, ao contrário do esperado, Raul não deixou a esposa.
Aquilo, para tia Lúcia, foi o fim.
Ela se revoltou e colocou para fora toda sua personalidade má e egoísta.
Naquela época, eu já morava com ela aqui em Rios Claros, pois sempre gostei da tia como se fosse minha mãe e também queria estudar.
Foi, então, que ela tramou envenená-lo.
Não sei como, conseguiu ficar a sós com ele e propôs o brinde fatal.
Mais tarde, fiquei sabendo que ela o fez ingerir um veneno que provoca infarto fulminante.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 12, 2017 8:14 pm

Naquela época, ninguém desconfiou, e tia Lúcia estava toda chorosa no enterro consolando Amélia.
O tempo passou e estranhos pesadelos começaram a incomodá-la.
Todas as noites eu acordava com seus gritos.
Ela afirmava que Raul estava querendo enforcá-la.
Então rezávamos e ela voltava a dormir.
Mas os pesadelos sempre retornavam.
Até que um dia, quando você tinha dois anos e Aída já morava connosco, ela, vencida por não conseguir dormir e pelo remorso, acabou me revelando toda a verdade.
Naquela época, eu já conhecia e espiritismo e disse-lhe que ela era uma assassina, mas Deus não iria fechar-lhe as portas por isso, que um dia ela voltaria à Terra para reparar o erro e ficar em paz com a consciência.
Ensinei-a orar a Jesus e aos espíritos protectores pedindo perdão, e que confessasse o crime perante a lei humana.
Ela passou a orar, acalmou-se, mas não queria ser presa, pois tinha você, a filha que ela muito amava.
Aos poucos, ela foi deixando os pesadelos, mas endureceu o carácter, tornou-se uma pessoa mais má e desumana.
Ser mau sobre a Terra traz uma consequência terrível para o espírito após a morte.
Provavelmente seu espírito não encontra paz e está ao seu lado.
Você precisa ir comigo à casa da Vilma.
Hortência ainda estava impressionada com a narração, mas não acreditava que o espírito de sua mãe estivesse perto dela.
- Não vou. Tenho medo dessas coisas, também não acredito que a mamãe esteja aqui perto.
Ela me perdoou antes de morrer, não viria depois da morte me fazer mal.
- Não estou dizendo que ela está querendo lhe fazer mal - salientou Diva.
O que quero dizer é que ela provavelmente está achando em você algum ponto de apoio.
Nem sempre os espíritos que nos passam sensações, pensamentos e induções ruins o fazem com má intenção.
Os espíritos que ficam perturbados depois da morte e não saem da crosta terrestre podem se aproximar dos encarnados, e estes sentir suas perturbações.
Além do que, eu sinto tia Lúcia aqui.
Hortência começou a se arrepiar.
Vendo seu estado, Diva propôs que orassem.
Assim fizeram, e pouco depois Hortência estava se sentindo melhor.
Vendo-a mais corada, Diva tornou ao assunto:
- Dona Vilma realiza sessões espíritas todas as quartas-feiras na casa dela.
Aqui a cidade é pequena, preconceituosa e ninguém teve ainda a coragem suficiente nem apoio para fundar um Centro Espírita.
Então, dona Vilma fez de sua casa um lugar de orações, estudos e socorro a encarnados e desencarnados sofredores.
Eu ia, às vezes, mas tia Lúcia não permitia que eu fosse sempre, mas garanto que você precisa ir lá.
Hortência também sentia que precisava de algum auxílio.
Ela estava ficando a cada dia mais debilitada.
Não comia nem dormia direito, não se interessava mais pelo hotel e também estava se desligando do filho, que passou a ficar quase que todo o tempo sob os cuidados de Neide.
Ela realmente precisava fazer alguma coisa.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 12, 2017 8:14 pm

Após muito pensar, disse:
- Tudo bem, eu irei.
Hoje é terça, será que já podemos ir amanhã?
- Os trabalhos da quarta-feira são justamente de socorro espiritual, é fundamental que o interessado vá.
De qualquer forma, tenho de falar com ela primeiro para saber.
As pessoas têm ido procurá-la com frequência, e não sei se é preciso marcar.
- Dona Vilma é médium?
- Não. Apesar de ter a intuição muito desenvolvida, ela dirige os estudos e é a doutrinadora nas reuniões mediúnicas.
Após a oração, Hortência sentiu-se melhor e foi brincar com Mateus.
A tarde estava findando quando Neide pediu para sair.
Era sempre assim.
Durante o dia, quando tinha uma folga, ela pedia para ir à casa da mãe ver o seu estado.
Neide era muito amorosa, gentil, cuidava de Mateus como se fosse seu filho, tinha muitas qualidades, por isso nem Hortência, nem Diva se importavam com suas saídas.
A noite caíra completamente e Diva resolveu procurar Vilma para saber sobre como proceder com Hortência e se elas poderiam ir no dia seguinte.
Voltou com resposta positiva.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 12, 2017 8:15 pm

32 - AJUDA ESPIRITUAL
Outro dia passou rápido e, à medida que a noite chegava e se aproximava o horário da sessão, Hortência começou a ficar inquieta, nervosa, suando frio e com muito medo.
Parecia que uma coisa terrível iria lhe acontecer se saísse de casa.
Diva já conhecia aqueles sintomas e disse-lhe com firmeza:
- Há um espírito interessado em que você não vá à sessão.
Você precisa reagir e ir.
Para que essas sensações não a dominem mais, vamos logo agora, mesmo ainda faltando uma hora.
- Estou com muito medo- clamou Hortência, tremendo qual folha sacudida pelo vento.
Diva apertou seu braço e a levou a até a porta.
Com esforço, conseguiram ir andando até a casa da amiga, que ficava algumas quadras acima.
Ao entrarem no ambiente, foram recebidas por uma moça simpática que, sorrindo, lhes deu boas-vindas:
- Vilma às espera na sala de reuniões.
A casa era grande.
Vilma era separada e os filhos eram independentes, moravam todos na cidade, mas cada um tinha sua casa.
Ela reservara um espaço do ambiente doméstico para os estudos e sessões.
Eram duas salas grandes e um pequeno quarto onde eram ministrados os passes.
A simpática senhora de cabelos grisalhos veio recebê-las com um sorriso e pediu que se sentassem em cadeiras que estavam dispostas ao fundo da mesa.
Ela olhou para Hortência e disse com simpatia:
- Fique tranquila, essa sensação de medo vai passar.
Hortência ficou impressionada.
De facto, aquela senhora sentia as coisas.
Os médiuns foram chegando e as cumprimentando com cordialidade.
Eles se sentaram ao redor da mesa e iniciaram conversação em torno da espiritualidade.
Nada de diálogos fúteis, comentários sobre a vida alheia, anedotas.
Toda a conversa girava em torno das belezas do universo e da sabedoria de Deus.
O som da vitrola em música new age acabou deixando Hortência mais calma, apesar de o medo ainda permanecer.
De repente, ela se surpreendeu com a chegada de Estela.
Rosto sofrido, corpo franzino, aquela senhora era o retrato vivo do sofrimento.
Hortência concluiu que ela deveria estar ali em busca de auxílio para o marido, que se encontrava ainda em estado de coma.
Um coma misterioso, sem explicações pela medicina.
O senhor Edionor havia sofrido uma parada cardíaca, mas havia se recuperado, e os médicos o retiraram do coma induzido.
Mesmo assim ele não acordou, apesar de todo o esforço da equipe médica nesse sentido. De repente, ela pensou:
poderia o senhor Edionor estar sendo vítima de uma obsessão?
Seria possível que espíritos interferissem na vida das pessoas a ponto de fazê-las entrar em coma?
Seus questionamentos foram interrompidos quando a luz foi apagada, permanecendo acesa apenas uma pequena lâmpada azul.
Dona Vilma fez uma prece muito bonita rogando a orientação e o amparo dos espíritos iluminados, mentores da casa, para o trabalho da noite.
Logo após, as luzes foram acesas mais uma vez e uma tarefeira abriu a Bíblia no Novo Testamento e leu um trecho do Sermão da Montanha.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 12, 2017 8:15 pm

Algumas pessoas comentaram, e foi a vez de dona Vilma abrir ao acaso O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Após ler um trecho que falava sobre os inimigos desencarnados, ela deu suas explicações e finalizou:
- Os espíritos que vêm ter connosco esta noite já viveram encarnados na Terra, mas a morte não os impossibilita de se comunicarem.
Por isso, todos devem olhar o facto com muita naturalidade, pois são pessoas como nós, que apenas estão do outro lado da vida, para o qual um dia todos iremos.
Pedimos que mantenham o pensamento firme em Deus, com muita fé.
As luzes novamente foram apagadas, agora ficando acesas pequenas lâmpadas verdes.
Vilma pediu socorro espiritual para todos os presentes e para as pessoas cujos nomes estavam no caderno de preces.
Alguns minutos de silêncio e logo uma médium começou a respirar com rapidez e a falar com voz entrecortada:
- Oh, meu Deus! Me tire desse tormento!
Eu sou um assassino! Assassino!
Vilma aproximou-se carinhosa:
- Meu amigo, todos nós somos imperfeitos e ignorantes, por isso cometemos actos que nos levam ao sofrimento, ao remorso.
Mas Deus sempre nos dá mais uma chance e podemos reparar o mal que fizemos com actos de amor.
Já pensou em deixar a culpa e fazer algo por quem tanto prejudicou?
- Não há mais tempo.
Eu fui vingativo, falso, cruel.
Não tenho mais perdão.
Principalmente porque...
O espírito deu uma pausa, parecendo com receio de continuar.
Vilma insistiu:
- Fale, amigo. Abra seu coração.
Aqui você está com pessoas que querem seu bem e trabalham em nome de Deus.
Enquanto você mantiver consigo essa culpa, não vai conseguir acordar no corpo de carne.
- Eu matei... Eu matei...
Eu matei o meu sangue!
Eu matei meu próprio filho!
O espírito chorava copiosamente.
- Acredite na força divina que é capaz de transformar todo mal num bem.
Você ainda está encarnado e pode, com a força mental, retomar seu corpo e fazer o que deve ser feito.
Seu filho não morreu.
Ainda há chances de você se redimir de verdade e aprender a respeitar a vida humana.
- Estou fraco, preciso retornar.
Quero que Estela saiba que a amo e, apesar de todo o passado, sempre desejei tê-la ao meu lado.
Espero que me perdoe.
Estela estava chorando, pois sabia que era Edionor quem estava falando.
Tanto ela como Hortência e Diva o reconheceram, mas não entenderam como aquilo poderia estar acontecendo, afinal Edionor estava vivo, apesar do coma.
Outro espírito se manifestou dizendo-se estar vivo e não entender por que a família chorava sua morte.
Vilma explicou sobre seu novo estado e o fez recordar o momento de sua morte.
Ele se emocionou, chorou e foi levado pelos mentores a um local de refazimento.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Dez 12, 2017 8:15 pm

Logo depois, um médium começou a falar em tom áspero:
- Por que me prenderam aqui?
- Você não está preso, apenas foi convidado a falar - salientou Vilma.
- Não quero falar nada.
Quero é que me soltem para que eu possa completar minha vingança.
Ela é minha, só minha.
Vi que a adormeceram e a levaram, mas onde quer que ela se encontre, conseguirei achá-la.
- A partir de agora você não terá mais acesso a ela.
Lúcia está protegida por espíritos de escol.
Antes de adormecer, ela se ajoelhou e pediu perdão a Deus pelo crime, prometendo fazer tudo para se redimir.
Esse pedido sincero fará sua protecção a partir de agora.
Raul vociferou:
- Como pode?
Ela tem de pagar.
Eu era feliz com minha família, tinha tudo pela frente, era um bom profissional, bom pai.
Mas ela tirou minha vida, me envenenou sem nenhum remorso. Como agora pode estar protegida?
- Deus não fecha a porta àquele que se arrepende.
Quem comete um crime, seja de que natureza for, um dia será chamado a reparar, pois ninguém escapa da lei de justiça.
Deus não precisa que façamos justiça com nossas próprias mãos, Ele sabe muito bem aplicar sua lei, que vai nos encontrar onde quer que estejamos.
Lúcia errou, sim, e terá de voltar à Terra para reparar, mas você também foi responsável, por isso atraiu essa morte.
- Não tive culpa de nada.
Ela é a culpada- rosnava Raul.
- É mais fácil e cómodo colocar a culpa dos nossos problemas nas mãos dos outros.
No entanto, você foi adúltero, traiu sua esposa, seus filhos, sua família.
Além disso, prometeu à sua amante que ficaria com ela, encheu-a de esperanças apenas para se livrar de um problema momentâneo.
Você não desejava que ela abortasse, mas não precisava enganá-la por isso.
Hoje você está percebendo o preço da traição.
Digo isso não para que se sinta culpado, mas para que veja a responsabilidade de seus actos.
Ninguém pode ser feliz, evoluir, aproximar-se de Deus sem atentar para as verdades do espírito.
Quando traem, as pessoas se tornam vulneráveis a toda sorte de sofrimentos.
Infelizmente, a maioria ainda não aprendeu essa preciosa lição.
Raul agora chorava.
Vilma aproveitou seu momento de reflexão e pediu:
- Vá com esses amigos que estão ao seu lado.
Você está vagando entre os encarnados e nas zonas inferiores há muito tempo.
Precisa aprender a viver como desencarnado, a se alimentar, a se higienizar.
É hora de parar de sofrer e fazer os outros sofrer.
- Para onde vão me levar?
- Você vai para um Posto de Socorro, onde receberá os primeiros atendimentos.
Sabemos que toda mudança demanda tempo.
Quando estiver lá, terá recaídas, voltará a ter vontade de vingança.
Tudo depende apenas de você, pois ao lado disso contará com amigos que o farão reflectir e mudar para melhor.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 13, 2017 7:46 pm

Vá em paz e que Deus o abençoe.
O médium calou-se e Vilma pediu vibrações de amor para Raul. Hortência chorava emocionada, ao mesmo tempo que sentia o alívio dos sintomas que a incomodavam.
A reunião terminou com as palavras dos mentores falando sobre o perdão das ofensas.
Salientaram que a falta de perdão provoca feridas na alma, doenças no corpo e que só quando passarmos a perdoar incondicionalmente todas as ofensas é que teremos a verdadeira paz de espírito.
As luzes foram acesas, e os médiuns se despedindo deixaram o ambiente.
Hortência e Diva queriam falar com Vilma, esclarecer o que tinha acontecido naquela noite com os espíritos de Lúcia e Raul, no entanto recuaram ao perceber que Estela também estava lá provavelmente querendo explicações sobre a estranha comunicação do marido.
Já iam se despedir, quando foram interpeladas por Vilma:
- Sei que desejam falar comigo e também necessito esclarecer algumas coisas.
Sugiro que me esperem na outra sala, enquanto converso com Estela.
Estela olhou para as duas com lágrimas nos olhos, enquanto disse:
- Elas podem ficar, o que desejo saber também tem a ver com a situação de Hortência, já que foi o Douglas o prejudicado.
- Não quero que fique preocupada comigo, senhora.
Deve pensar antes de tudo em seu marido, que necessita muito de amparo.
- Eu faço questão de que as duas fiquem e participem da conversa.
Virando-se para Vilma questionou:
- Tenho certeza de que foi o meu marido quem se manifestou esta noite, revelando ter cometido um crime que acabou por dar sumiço em Douglas, que na verdade é seu filho.
Como isso pode acontecer se ele ainda está vivo?
Posso confiar no que foi dito?
Vilma esperava pelas perguntas e notou que não só Estela, mas também Hortência e Diva queriam uma resposta. Com calma, ela explicou:
- A comunicação do espírito de pessoas vivas por intermédio de um médium é perfeitamente possível e já foi muito bem explicada por Allan Kardec em O Livro dos Médiuns, Capítulo XXV, item 284.
É claro que para isso o encarnado precisa estar em estado de sono ou, como no caso de Edionor, em hibernação, quando a alma adquire liberdade parcial.
Edionor está adormecido apenas no corpo, mas seu espírito está desperto no mundo espiritual, onde continua sentindo, vendo e ouvindo ainda melhor do que quando está no mundo material.
Seu marido está com remorso, fez o que não devia e agora sua consciência lhe cobra.
No mundo dos espíritos todos os nossos sentimentos são ampliados, tomam uma dimensão gigantesca.
Dessa forma, o remorso, para a maioria, é um tormento sem fim, e, muitas vezes, o único remédio é a reencarnação.
Assim como os sentimentos de amor, saudade, amizade, todos crescem do outro lado.
O que seu marido fez hoje foi tomar a consciência de que pode voltar ao corpo e reparar o mal que fez.
Pelo que os espíritos disseram, o Douglas não morreu, e ele terá a oportunidade de se redimir ainda neste mundo.
Alegre-se, Estela, tenho certeza de que logo ele voltará do coma.
Estela estava chorando, enquanto Hortência tentava conter o pranto emocionado ao saber que seu amor estava vivo em algum lugar e poderia ainda voltar para ela e o filho.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 13, 2017 7:46 pm

Estela desabafou:
- Vim procurar esta casa em razão do sofrimento.
Sempre fomos amigas, mas eu tinha preconceito em relação ao Espiritismo e temia vir aqui por causa do falatório das pessoas da cidade.
Mas quando tudo aconteceu fiquei só, aquelas que eu julgava amigas não mais me procuraram, pouco foram ao hospital.
Só aí lembrei-me daqui.
Quando fui convidada a vir aqui esta noite, fiquei curiosa, pois sei que essa reunião é fechada.
Jamais pensei que pudesse ouvir Edionor e muito menos a confissão que ele fez.
Ela olhou para Vilma com mais atenção e perguntou assustada:
- Não há perigo de algum membro da reunião sair contando o que ouviu aqui?
Vilma sorriu:
- Para um trabalho como esse são seleccionadas pessoas com muito rigor.
Só aquelas que têm muito estudo e conhecimento doutrinário é que podem participar.
Costumo dizer que a reunião mediúnica é um confessionário, daqui nada, absolutamente nada pode ser comentado.
Se soubermos que algum participante da reunião está fazendo semelhante coisa, o dispensamos sumariamente.
O trabalho com a espiritualidade é extremamente sério.
- No entanto, você convida outras pessoas, como no caso da Hortência e da Diva. Não é perigoso?
- Só convido pessoas com o aval da espiritualidade.
Quando eles autorizam, tenho confiança.
Fora disso não vem mais ninguém.
Diva questionou:
- Mas eu sei que existem centros espíritas que fazem as reuniões de desobsessão com o paciente presente.
Vilma salientou:
- Sim, alguns fazem.
Mas cada reunião tem sua razão de ser, e nesses ambientes cada paciente entra apenas acompanhado por um familiar.
Aqui não trabalhamos assim.
Para fazer reuniões de desobsessão com os obsediados presentes é necessária uma equipe mediúnica muito treinada, comprometida com o trabalho, séria.
Sem isso, esse tipo de reunião é uma porta aberta para espíritos imperfeitos, mistificadores e até maus.
Hortência esperou ela dar uma pausa e perguntou:
- Minha mãe foi ajudada e, pelo visto, meu pai também.
Será que estão bem?
- Seu pai cedeu com muita rapidez, o que é raro acontecer.
Um espírito endurecido pelo ódio e pelo sentimento de vingança dificilmente deixa seus propósitos apenas porque veio a uma reunião e ouviu meia dúzia de palavras bonitas.
É preciso desconfiar desses espíritos que se convertem ao bem com facilidade.
Na verdade, a maioria quer enganar o doutrinador para sair logo da reunião e ficar livre para voltar a fazer maldades.
Infelizmente, muitos conseguem.
No caso de Raul, ele cedeu temporariamente porque viu que não ia mais conseguir perseguir sua mãe.
Foi levado a um posto de socorro, mas o mais provável é que retome seus desejos de vingança.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 13, 2017 7:46 pm

Nosso trabalho agora é orar por ele, pedir a Deus que toque seu coração para o bem, para a bondade.
Você, que é filha, tem esse dever.
Em suas preces, nunca deixe de orar para Raul.
- Mas eu nem o conheci.
Soube apenas que ele não quis saber de mim, enganou minha mãe.
- Ninguém engana ninguém, isso é ilusão.
Nós é que nos deixamos enganar levianamente pelas ilusões que cultivamos e projectamos nas pessoas.
Por isso nunca devemos esperar nada de ninguém, as pessoas só vão nos dar o que elas tiverem para oferecer, ninguém pode ir além do que não possui.
Esperar que elas ajam da maneira que sonhamos é uma utopia que fatalmente nos levará ao sofrimento.
Sua mãe cultivou uma ilusão e não soube reagir quando a vida mostrou a verdade, não devemos julgá-la.
No entanto, sem o seu pai você não estaria reencarnada na Terra, podendo usufruir das belezas deste mundo e da vida.
Por pior que nossos pais sejam, teremos para com eles a eterna dívida da vida, o que já é o bastante para perdoá-los sempre, em qualquer circunstância, e orarmos em seu favor sempre que for preciso.
Hortência agora deixava as lágrimas cair em abundância.
Quando se refez, olhou para a bondosa senhora e disse:
- A senhora fala das belezas do mundo.
Mas, para mim, o mundo é feio e mau.
A maldade predomina e parece vencer.
O senhor Edionor, sabe-se lá como, quase matou o filho, minha mãe morreu antes que pudéssemos nos reconciliar de verdade e vivermos em harmonia, estou praticamente só, sem saber que rumo tomar.
Douglas deve estar longe e sofrendo sem conseguir voltar.
Desculpe-me, mas não posso concordar com a senhora.
Vilma ponderou com bondade:
- Respeito seu pensamento, mas tenho aprendido que os sofrimentos aparecem para educar nossa alma, nos fazer rever crenças, mudar pensamentos e atitudes que não condizem mais com nosso nível de evolução.
O que posso afirmar, com certeza, é que tudo está sempre certo e que Deus não deixa ninguém sofrer se não for para o bem da pessoa.
Talvez sua visão de mundo tenha atraído tanto sofrimento para sua vida.
As pessoas precisam aprender que são suas crenças e pensamentos que atraem todos os acontecimentos para suas vidas.
Pensar sempre no bem, no amor, na riqueza, na saúde, na fartura, acreditar que somos merecedores da felicidade e que podemos viver num mundo bonito e sem dor é o primeiro passo para quem quer evoluir e chegar mais rápido à perfeição total.
Pense nisso.
Vilma deu por encerrada a conversa e todos, mais refeitos, foram para casa.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 13, 2017 7:46 pm

33 - EDIONOR ACORDA DO COMA
Estela estava à janela olhando os últimos raios de sol que desapareciam no horizonte, aproveitando para reflectir sobre as palavras de Vilma.
Pensava que deveria haver um motivo justo para Edionor estar naquele estado vegetativo e tudo em sua vida ter mudado de repente.
Descobriu que não era mãe biológica de Amanda, que foi traída, e enfrentava a enfermidade misteriosa do marido praticamente sozinha.
Amanda havia se transformado em uma pessoa fria e distante, pouco a visitava ou ao pai no hospital.
Continuava a viver na mesma casa em que morava com Douglas, mas, à boca pequena, comentavam um possível relacionamento dela com Fernando.
Estela sentia-se em plena solidão.
De repente, o telefone tocou e ela foi atender:
- Alô?
- É a senhora Estela?
- Sim, quem fala?
- Aqui é o Dr. Henrique.
Tenho boas notícias. Edionor acaba de acordar do coma e a chama insistentemente.
Assim que puder, esteja aqui.
Os olhos de Estela encheram-se de lágrimas.
- Como foi isso, doutor?
Ainda hoje, pela manhã, ele continuava no mesmo estado.
- O coma de Edionor foi estranho.
Em todo caso, as pessoas nesse estado costumam acordar de maneira inesperada, sem que ninguém preveja.
Agradeça a Deus, aparentemente seu marido está óptimo.
- Estarei aí em meia hora.
Feliz, Estela foi se arrumar e logo estava a caminho de Pedra Bonita.
Ao entrar no quarto do hospital e olhar seu marido, não conseguiu conter a emoção, e lágrimas rolaram sobre sua face.
Apesar de toda a verdade, Edionor era o homem que ela amava, seu companheiro de toda uma vida, e ela já o havia perdoado.
Aproximou-se e se abraçaram em silêncio.
Quando a emoção serenou, Edionor olhou-a profundamente e, com voz ainda fraca, desabafou:
- Não poderia morrer sem receber esse seu abraço e lhe pedir perdão por tudo o que fiz.
Estela, eu a amo.
- Eu também o amo e já o perdoei por tudo.
Viveremos como sempre, não vamos deixar o passado pesar sobre nossa vida.
Estamos velhos demais para isso.
Dr. Henrique, vendo que o diálogo prometia ser longo, advertiu:
- Edionor precisa de muito repouso.
Apesar de não estar mais doente, saiu de um estado de coma há pouco tempo.
Deixarei que conversem à vontade mais cinco minutos, depois teremos de levá-lo para fazer exames, e logo depois deverá repousar.
Estela olhou para o médico, amigo de tantos anos, e disse:
- Não se preocupe, dr. Henrique, não vamos nos exceder.
Ao ficarem a sós, Edionor, com o semblante envergonhado, perguntou:
- Foi ela quem contou tudo, não foi?
- A quem se refere?
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 13, 2017 7:47 pm

- Leontina.
Tinha certeza de que um dia ela faria isso.
- Não foi ela, e sim a Tereza.
Não tinha mais como me enganar, deixando-me sem saber uma verdade que fazia parte de minha vida.
Edionor chorou:
- Tudo o que fiz foi em nome de meu amor por você.
Sabia que no estado em que você estava, fraca pelo parto difícil, não iria resistir ao saber que seu filho havia nascido morto.
- Não se preocupe, você me deu uma menina linda, que amo mais que tudo na vida. Fui uma mulher realizada, pois pude ser mãe.
Nada pode dar mais alegria a uma mulher do que pegar em seus braços um ser pequenino e indefeso e amá-lo com todo o coração. Ser mãe não é apenas gerar um filho no ventre, ser mãe vem da alma.
Você me fez o melhor bem.
- E ela? Não veio por quê?
Estela limpou as lágrimas em delicado lenço e retorquiu:
- Amanda está muito revoltada por saber da adopção.
Antes de vir para cá, comuniquei-lhe sobre o seu estado.
Ela ficou feliz, mas disse que vai esperar que chegue a Rios Claros para vê-lo.
Respeitei sua posição, pois sinto que nossa filha está sofrendo.
Primeiro descobriu-se estéril, depois o marido a traiu e abandonou e, por último, descobre que não tem nosso sangue.
Amanda é imatura, creio que não a educamos correctamente.
Tem muito orgulho e não quer aceitar a realidade.
Edionor ficou pálido, puxou o braço da mulher e disse com voz baixa:
- Nosso tempo está acabando, logo o Henrique vai chegar e devo lhe dizer o que pretendo fazer e tudo o que cometi.
- Assim está me assustando - falou Estela, embora já sabendo da participação do marido no sumiço de Douglas.
- Acordei de um coma, mas estou lúcido e já tomei minha decisão - continuou Edionor.
Mas antes que a comunique aos outros, tenho de dizer a você que fui e sou um monstro, preferia estar morto a essa hora.
Ele deu uma pausa, suspirou e, com olhos perdidos no vazio, narrou:
- Assim que foi trocada por Hortência, Amanda entrou em revolta e passou a me procurar exigindo que eu fizesse algo para me vingar dela e do Douglas.
A princípio relutei, gostava muito dele, era meu braço direito, mas aos poucos fui me deixando levar pelo orgulho e passei a pensar que eu, o homem mais temido e respeitado da cidade, não poderia deixar passar em brancas nuvens a traição feita a minha filha, e muito menos que Douglas fizesse nova família.
Era um acinte à minha pessoa, à minha filha e à minha família.
Então me fiz de amigo para tramar sua morte.
Amanda havia me revelado o romance com Fernando e, apesar de surpreso, apoiei os dois, pois achava justo depois de tudo o que Douglas havia feito.
Então preparamos uma armadilha.
Juntamo-nos com Lúcia, que queria ver a filha infeliz, e escrevemos uma carta anónima na qual revelávamos o romance entre Amanda e Fernando, pois sabíamos que Douglas iria querer tirar a história a limpo.
Lá chegando, bandidos contratados por mim dariam cabo de sua vida e sumiriam com o corpo.
Foi isso o que aconteceu.
Douglas foi assassinado na casa de Fernando, por minha culpa.
Eu sou um assassino e ainda hoje me entregarei à polícia.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 13, 2017 7:47 pm

Estela, chorando e assustada por haver confirmado o que o espírito do marido havia dito dias antes na sessão em casa de Vilma, sentiu vontade de dizer que Douglas não havia morrido, mas não tinha provas, por isso implorou:
- Não faça isso.
Sei que o mais correto é se entregar, mas não vou suportar vê-lo preso, e além de você nossa filha, que foi cúmplice.
- Esquece que pratiquei o maior crime que um pai pode cometer?
Esqueceu que matei meu próprio filho?
Jamais me perdoarei se não me vir pagando por essa atrocidade.
Nunca mais poderei vê-lo, dizer o quanto me arrependo, o quanto o amo e pedir seu perdão.
Ao ver a mulher chorar, ele revelou:
- Não vou envolver nossa filha nisso.
Afinal, ela foi traída, é passional, queria vingança, mas sem minha ajuda nada disso teria acontecido.
Eu sou o único culpado.
- E o que vai dizer ao delegado?
- Direi que mandei sequestrar o carro de Douglas, matá-lo e dar sumiço no corpo.
Tudo será comprovado, pois o carro está em uma das minhas fazendas distantes e o corpo...
Bem, o corpo eu pedi que jogassem em um local longe e que o macerassem bem para dificultar a identificação.
Não sei o destino do corpo, pois contratei matadores de outro estado.
Horrorizada, Estela comentou:
- Mas Diva e Hortência o viram sair de casa pouco antes de desaparecer.
- Contarei do bilhete.
Não se preocupe, nossa filha não será envolvida, nem a Lúcia.
Estela continuava muito nervosa e sem saber o que fazer, mas não via alternativa, ela sabia que quando o marido decidia algo sempre ia até o fim.
Ficou calada, enquanto lágrimas insopitáveis rolavam pela face envelhecida e cansada.
Nem lembrou-se de contar ao marido que Lúcia havia morrido.
Dr. Henrique chegou e levou Edionor para fazer exames.
Enquanto esperava numa antessala, Estela ia orando e pedindo forças a Deus.
Assim que retornou ao quarto, Edionor olhou para o Dr. Henrique, ganhou coragem e pediu:
- Chame a polícia aqui.
Quero me entregar.
O médico, a princípio, achou que o amigo estava brincando, deu um sorriso e ia virando as costas, quando ouviu a voz de Edionor se tornar mais grave:
- Quero a polícia aqui, sou um assassino. Chame, doutor.
- Edionor, não é hora para brincadeiras.
Você ainda permanecerá neste centro alguns dias, é melhor repousar.
Estela interferiu:
- Doutor, meu marido precisa fazer isso, ele não está brincando.
Chame a polícia.
O médico ficou a par de toda a história e, estupefacto, analisou as condições clínicas do paciente e, vendo ser possível, fez o que ele pediu.
Dias depois, Edionor saía do hospital directo para a cadeia.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 13, 2017 7:47 pm

34 - VINGANÇA CONCRETIZADA
Como era de se esperar, a notícia caiu como uma bomba para Tereza e Hortência, como também para toda a cidade.
Edionor estava preso, mas as investigações continuavam, pois o novo delegado desconfiava que existia algo errado na história e que não fora revelado.
Na casa de Hortência, Tereza chorava desconsolada, enquanto dizia:
- Eu sempre tive razão, aquele homem é mau.
Eu deveria ter chamado meu marido para ter ido embora daqui.
Eu sentia que se um dia pai e filho entrassem em contacto iria acontecer uma desgraça.
Nunca irei me perdoar.
Diva tentava ajudá-la, mas Tereza, com a confirmação da morte do filho, estava inconsolável.
Hortência, embalando Mateus, olhos rasos d'agua, resolveu:
- Dona Tereza, tenho algo a lhe dizer que talvez venha tirá-la do seu sofrimento.
Diva sabia que ela se referia à comunicação que Edionor havia dado na casa de Vilma e da informação espiritual de que Douglas não havia morrido de facto.
Tereza levantou o rosto e a encarou com tristeza:
- Nada pode me consolar, a não ser saber que meu filho deixou uma sementinha linda, que vai nos dar muita alegria.
Bendita a hora em que ele conheceu você.
- A senhora precisa saber o que nós já sabemos, mas deverá manter todo o sigilo.
Limpando o rosto com as mãos, Tereza perguntou:
- O que vocês sabem além de toda essa história suja que veio à tona com a prisão de Edionor?
Está tudo esclarecido.
Ele tramou a morte de meu filho, mandou sequestrá-lo, matá-lo e jogar o corpo longe daqui.
Até a polícia de Mato Grosso já está na busca dos assassinos.
O que mais podem saber?
Hortência chamou Neide, entregou Mateus e pediu que se retirasse. Então ela e Diva começaram a contar:
- Fomos a uma sessão espírita na casa de dona Vilma e recebemos a informação de que Douglas não morreu.
Ele está vivo!
Pelos olhos de Tereza perpassou um brilho de emoção.
- Como pode ser? Eu não acredito que espíritos possam contar nada.
- É por isso que pedimos sigilo quanto a esta informação, - tornou Diva.
Mas sei que, se a espiritualidade a enviou, foi para que nós pudéssemos vibrar por Douglas onde quer que ele esteja.
No entanto, não podemos sair por aí falando,
pois não temos nenhuma prova e ainda iremos colocar dona Vilma em uma situação embaraçosa.
Tereza deu de ombros:
- Sou católica, não acredito muito em espíritos.
- Pois deveria.
Vamos lhe contar tudo.
Diva passou a narrar o facto utilizando todo o seu conhecimento sobre a doutrina espírita e o simplificando da melhor maneira para que Tereza o entendesse.
Ela sabia que as pessoas trazem no íntimo a consciência dessas verdades, mas para que elas possam admiti-las é preciso que outras as instruam de maneira adequada, com bom senso, sem fanatismo.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 13, 2017 7:47 pm

Ao final, Tereza sentia leve esperança.
- Gostaria muito de acreditar piamente, assim como vocês, mas temo me iludir.
Minha sogra sempre lidou com isso, admiro-a muito, mas confesso que nunca levei a sério essa crença que ela tem.
Mas, em meu íntimo, uma esperança se acendeu.
Meu filho pode estar vivo!
Ela recomeçou a chorar num misto de alegria e tristeza.
Hortência acariciava seus cabelos, enquanto dizia:
- Eu também sinto que isso é verdade.
O corpo não foi encontrado e sempre sonho com ele pedindo minha ajuda no meio de uma mata fechada.
Como a senhora sabe, eu tenho mediunidade de premonição, até fiquei conhecida aqui na cidade como a "menina das adivinhações", lembra?
Tereza riu:
- Lembro, sim.
Eu ficava intrigava com seu dom.
- Com o tempo, as premonições rarearam, mas ainda hoje as tenho vez por outra.
Vejo uma imagem de um bebé chorando e me chamando, não sei o que essa imagem quer dizer, e fico intrigada pois nunca consigo ver o rosto da criança.
Mas sei que é algum aviso.
Da mesma maneira, vejo o Douglas vivo, pedindo ajuda.
Eu o amo, e o que mais desejo é que volte ao meu convívio.
Nunca amei ninguém em toda a minha existência como amo o seu filho e, se a senhora o ama também, deve acreditar no que digo e vibrar connosco para que ele ache o caminho de retorno.
Tereza, mesmo esperançosa, ainda disse:
- Não sei...
Segundo o depoimento de Edionor, os bandidos o mataram e jogaram o corpo longe, acho muito difícil ele ter sobrevivido.
- Para Deus o impossível não existe e ninguém sabe de facto o que aconteceu - tornou Diva.
O que podemos fazer é orar e esperar.
As três mulheres fizeram uma oração na qual pediram a Deus para que tudo desse certo e que, se fosse verdade, trouxesse logo Douglas de volta.
Elas nem desconfiaram que estavam sendo espreitadas por Neide que, com curiosidade, escutava toda a conversa escondida no corredor.
Os dias foram passando depressa, e o delegado Arthur encerrou as investigações, transferindo Edionor para o presídio de Belo Horizonte, onde aguardaria por julgamento.
Amanda fingiu importar-se e, em conversa íntima, garantiu ao pai que estava arrependida de havê-lo colocado naquela situação.
Fingiu chorar, o que deixou Edionor consternado e com o pensamento reforçado de que estava fazendo a coisa certa.
Afinal, ele fora o único culpado, estava em idade avançada e não tinha mais nada a perder, enquanto sua filha era jovem, estava reconstruindo a vida, tinha todo o direito de ficar em liberdade.
Por toda Rios Claros comentava-se o agora assumido romance de Fernando e Amanda.
Eles já não se importavam em esconder, e até haviam marcado data para o casamento, afinal, Amanda era viúva.
Hortência, por sua vez, sentia-se mais aliviada, finalmente seu medo daquela mulher lhe fazer algum mal havia passado.
Era madrugada alta quando gritos fortes acordaram Diva e Neide.
Ambas foram imediatamente para o quarto de Hortência, que chorava abraçada ao berço de Mateus.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 13, 2017 7:48 pm

Diva, com mau pressentimento, correu, e foi com alívio que viu o bebé com rostinho assustado, olhos activos, como que buscando socorro.
Neide abraçou a patroa e, com muito esforço, conseguiu levá-la de volta à cama.
Quando mais calma, olhou para as duas e disse:
- Foi horrível! Foi horrível!
Aconteceu outra vez!
Diva sabia que foi uma das premonições que viera em forma de sonho, por isso indagou:
- Qual delas foi desta vez?
Ainda soluçando, ela explicou:
- Foi mais um sonho com o bebé.
Desta vez eu vi o rosto, era o Mateus, era meu filho.
Ele chorava muito, estendia os bracinhos para mim, e sumia no meio de uma fumaça escura.
Vi também duas mãos femininas segurando-o.
Estou assustada, vai acontecer alguma coisa com meu filho, alguém está lhe querendo fazer mal.
Quero ir embora desta cidade.
Havia algo estranho no ar, Neide e Diva sentiam calafrios.
Havia espíritos ali.
Diva tornou:
- Você precisa se acalmar, a premonição não foi clara.
Tudo é uma interpretação sua.
Quem poderia fazer mal ao seu filho?
Todos querem vê-la bem, é muito querida aqui.
Edionor está preso, Amanda está vivendo uma outra fase da vida dela e nem se lembra mais de você.
Nada vai acontecer.
Mateus começou a chorar e Hortência levantou-se, trémula, a sacudi-lo.
Pelo nervosismo que passava à criança, esta aumentava o choro.
Neide, com cuidado, tirou-o dos braços da mãe, dizendo:
- A senhora está muito nervosa e Mateus está captando isso.
Minha avó sempre dizia que o que a mãe sente o filhinho sente também.
Vou acalmá-lo enquanto preparo um chá.
Neide colocou Mateus no carrinho e saiu em direcção à cozinha.
Diva a sós com Hortência, olhou-a com firmeza, dizendo:
- Neide está certa, uma criança sente com mais facilidade as energias do mundo astral e das pessoas que vivem com ela.
Não sinta medo, pois, se você temer, pode justamente atrair o que não deseja.
- Mas como posso não temer?
Desde criança convivo com as premonições e sei que na maioria das vezes elas se realizam.
Sempre tive a mesma visão, mas nunca havia visto o rostinho do bebé, hoje a vida me mostrou que é o Mateus.
Sinto um aperto no peito, parece que algo horrível vai acontecer.
Diva também sentia que mãe e filho passariam por grande provação, mas não quis demonstrar para não piorar o estado da prima. Tentou despreocupá-la:
- Muitas vezes você pode estar vendo imagens plantadas em sua mente por espíritos obsessores.
Às vezes elas são tão nítidas que chegam a ser confundidas com a realidade.
- Não estou confundindo.
Sei que é uma premonição.
Quero ir embora daqui, largar tudo.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 13, 2017 7:48 pm

Nada mais me prende a este lugar.
- Vamos acalmar a mente por hoje.
Amanhã é dia de atendimento fraterno na casa de dona Vilma, vamos fazer uma consulta.
Os amigos espirituais sabem nos orientar com bom senso, sem precipitações.
Nada devemos resolver com a mente agitada, por impulso. Confiemos em Deus.
Hortência acalmou-se mais, porém via-se que seu corpo ainda tremia.
Ambas ficaram caladas, cada uma imersa em seus próprios pensamentos.
Minutos depois, Neide trouxe Mateus, que já dormia profundamente.
- Fiz chá de cidreira para nós.
Fiquei também assustada, pensei que dona Hortência estava passando mal ou algo mais sério tivesse acontecido à criança.
Diva olhou-a com carinho:
- Você é um anjo, Neide, nessas horas é sempre bom ter um ombro amigo a mais para nos ajudar, vamos ao chá.
Minutos se passaram e, mesmo mais calmas, nenhuma delas conseguia conciliar o sono.
Hortência colocou Mateus para dormir ao seu lado e não parava de fitá-lo um minuto sequer.
Diva, ao lado, também fazia o mesmo, e no íntimo pedia a Deus que, se algo tivesse para acontecer, que aliviasse o sofrimento daquela jovem mãe que tanto já havia sofrido na vida.
Neide retirou-se deixando-as caladas, contando as horas para o dia amanhecer.
Assim que o Sol despontou no horizonte, Mateus começou a chorar. Era hora de alimentá-lo.
Hortência percebeu que, por força do cansaço, ela e Diva haviam adormecido sem perceber, e com alegria viu que seu filhinho continuava ali, vivo e com saúde.
Passaram o dia sem saber o que fazer, não foram ao hotel só aguardando a noite chegar para irem ao atendimento fraterno.
Quando as horas foram se aproximando, Hortência começou a sentir uma ansiedade fora do comum em um misto de angústia e depressão.
Diva percebeu e tornou:
- Você já conhece esses sintomas, devemos ir de qualquer maneira.
- Só saio daqui com o meu filho.
- Nos trabalhos desta noite não é permitida a presença de crianças, qualquer barulho atrapalha o andamento- explicou Diva.
- Então prefiro não ir.
Não deixo meu filho sozinho um só instante.
Neide propôs:
- Posso levá-lo e esperar em outro ambiente.
Pelo que sei, lá é uma casa, deve ter muitas salas.
Enquanto vocês entram, fico com ele.
Sabem como o Mateus se acalma rápido comigo.
Hortência aceitou e assim partiram.
Ventava forte e logo grossos pingos de chuva começaram a cair, bem a tempo de elas chegarem à casa de Vilma.
Não havia muitas pessoas, e uma senhora simpática as atendeu dizendo que Neide poderia ficar na primeira sala enquanto Diva e Hortência eram atendidas.
Assim que elas entraram, passados poucos minutos, Neide esperou uma distracção da senhora e saiu sorrateiramente com Mateus nos braços.
Andou por algumas ruas, saiu do bairro e logo estava numa estrada de terra.
Muito nervosa, pensava:
"Eles já deveriam estar aqui.
Qualquer descuido e o plano vai por água abaixo".
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 13, 2017 7:48 pm

A chuva ameaçava voltar, e Neide tinha de lutar contra a ventania.
Algum tempo depois, um carro aproximou-se, baixou o vidro e viu-se o rosto de Amanda:
- Vamos, entre rápido!
Neide obedeceu e entrou.
O carro, guiado por Fernando, aumentou a velocidade e logo estavam ganhando a pista asfaltada.
Quando já estavam distantes da cidade, Amanda começou a gargalhar alto e dizer:
- Estou vingada! Vingada!
Finalmente chegou o dia.
Ela pensou que ia roubar o meu marido e ia ficar por isso mesmo?
Agora eu roubei o que ela mais ama na vida.
Vai sofrer, sofrer muito até pagar por todas as humilhações que passei.
Fernando ponderou:
- Ainda não saímos do país.
Não podemos comemorar.
- Mas nossos passaportes falsos já estão todos providenciados e nosso voo é daqui a uma hora.
Programamos tudo desde cedo quando "Neide" nos avisou que elas sairiam à noite.
Nada mais nos detém. Paris!
Aqui vamos nós! Adeus, Brasil!
- gargalhou alto, virou-se para Neide, que também sorria, e, colocando Mateus em seu colo, disse:
- Agora sua mãezinha sou eu! Tadinho, nem pôde se despedir da mamãe - ela ria diabolicamente.
Sua mãe era uma vagabunda, mas agora você tem a mim.
Uma mulher rica, fina, que vai lhe dar a melhor educação.
Fernando sorriu:
- Não lhe disse que ia ser fácil?
Foi como tirar um doce de uma criança.
Ela nem desconfiou da Neide, que, na verdade, é minha prima Alessandra.
Alessandra tornou:
- Como iriam desconfiar?
Afinal, estudei teatro tantos anos para quê?
Aquelas duas são muito bobinhas mesmo.
Mas teve horas que pensei que não iria conseguir.
A louca da Hortência tem uns pressentimentos, uns sonhos, sei lá.
Só sei que na noite de ontem acordou gritando e chorando dizendo ter visto uma mulher levar o Mateus.
Tremi de medo pensando naquela bruxa descobrir nosso plano.
Afinal, só aceitei
sequestrar a criança porque vocês me prometeram vida de madame em Paris. Quero brilhar nos teatros franceses.
Amanda ria:
- Não se preocupe, queridinha.
A princípio ficará em nossa mansão, pois terá de cuidar de Mateus até que ele se acostume comigo, depois seguirá seu caminho, embora eu ache que não vai dar certo, pois os teatros franceses estão em decadência...
Com facilidade, embarcaram com destino à França, sem saber que estavam escrevendo um futuro doloroso para suas vidas.
Minutos atrás.
Hortência e Diva adentraram a sala fracamente iluminada por uma lâmpada verde e sentaram-se em frente a um rapaz jovem, negro, que sorria com simpatia para elas.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 13, 2017 7:48 pm

Embora o ambiente fosse saturado de energias benéficas, nem uma das duas estava se sentindo bem.
A angústia havia aumentado, um pavor indescritível era sentido sem que houvesse uma explicação, a não ser o pesadelo da noite anterior.
Durval olhou-as e, sem esperar que elas perguntassem, começou a falar:
- Esperamos, em nome do mestre Jesus, que vocês aprendam a suprema alegria de dar.
Há momentos em que a vida exige renúncias que aparentemente estão acima de nossas forças, mas Deus não dá o fardo maior do que podemos carregar.
É preciso entender que não temos posse de nada, que a vida é a dona de tudo e sempre coloca as coisas nos devidos lugares.
Será pedido de vocês, principalmente de você, Hortência, muita calma e aceitação, entendendo que acima dos nossos desejos pairam as leis universais que conduzem nosso espírito pelos caminhos que precisamos trilhar em busca da ascensão.
Podemos dizer, vulgarmente, que Deus é o mesmo que dá, é o mesmo que tira e é o mesmo que dá o consolo.
Os ventos, às vezes, levam para longe uma tenra flor que enfeitava o jardim de uma existência, mas essa mesma flor vai enfeitar outras existências onde quer que se encontre, pois sempre dará beleza e perfume.
Hortência estava emocionada e não conseguia falar.
Diva perguntou:
- Agradecemos as palavras, querido irmão, mas viemos aqui em busca de consolo para um problema que nos aflige.
Minha prima tem pesadelos constantes com um bebé que chora e pede sua ajuda.
Está desesperada pensando que pode acontecer algo ruim com seu filhinho.
O que tem a nos orientar?
Durval meditou por alguns instantes e disse:
- Nada de mau acontecerá ao seu filho Hortência.
Fique certa disso.
Você ficará confusa, vai entrar em rebeldia, desacreditar em Deus, mas estou aqui para lhe dizer que nada do que Ele permite acontecer na Terra é errado.
Em nossa visão materialista vemos erros nas coisas, por isso julgamos e condenamos as pessoas.
Tudo ilusão, só Deus sabe a verdade e só Ele pode julgar com sabedoria.
Hortência balbuciou:
- O que acontecerá para que eu fique assim?
- Procure não se preocupar.
O recado da espiritualidade para você é: nunca se precipite, tudo acontece para o melhor.
Quero dizer que quando tudo estiver parecendo ter chegado ao fim, você vai perceber que está apenas começando.
E lembre-se: nada para Deus é impossível.
Elas notaram que estava encerrada a consulta e não estavam satisfeitas.
O espírito afirmara que nada ia acontecer com Mateus, mas sugerira que ela iria sofrer.
O que mais ela poderia passar de ruim?
Despediram-se de Vilma e foram para a sala procurar Neide.
Estranharam, pois ela não estava lá.
Dirigiram-se para a recepcionista, que disse:
- Precisei sair por alguns minutos e, quando retornei, a moça com o bebé não estava mais aqui.
Não sei como saiu num temporal desses.
Hortência começou a ficar nervosa.
Aonde Neide teria ido com a chuva torrencial que caía?
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 13, 2017 7:49 pm

Começou a chorar.
De repente, reconheceu as mãos da mulher que vira no sonho levando seu filho, eram as mãos de Neide.
Rapidamente chegou à conclusão que ela levara seu filho.
Gritou desesperada:
- Eu quero meu filho!
Eu quero meu filho!
Diva tentou acalmá-la:
- Pare de gritar, vai atrapalhar o trabalho.
Ela parecia não ouvir e repetia:
- A Neide sequestrou o meu filho, eu quero ele de volta agora.
Ninguém conseguiu detê-la.
Hortência saiu no meio da chuva correndo em direcção à sua casa.
Diva seguiu atrás sem importar se estava se molhando ou não.
Hortência abriu a porta e encontrou a casa vazia.
Seu coração estava acelerado, sua respiração estava curta.
De súbito desmaiou.
Quando Diva chegou, encontrou-a caída e foi correndo chamar a vizinha.
Odete e Miguel ajudaram-na a levá-la para o quarto.
- Precisa chamar um médico.
Ela está ficando arroxeada.
Vá, Miguel, chame o doutor Cintra - disse Odete com praticidade.
Virando-se para Diva, pediu:
- Vamos friccionar os pulsos dela para ajudar na circulação.
Diva nervosa e tremendo muito não conseguiu, só fazia chorar.
Odete, depois de massajá-la e perceber que Hortência já respirava melhor, perguntou:
- O que está acontecendo, afinal?
Onde estão a Neide e o Mateus?
Diva, entre lágrimas, respondeu:
- Não sabemos.
E é por isso que Hortência desmaiou.
Tememos que Neide tenha levado o Mateus para longe.
Odete fez um ar de incredulidade:
- Como podem pensar isso?
A Neide é uma boa menina e não teria nenhum interesse em levar a criança.
- Nós fomos ao centro e, ao sairmos de lá, ela não estava mais.
Sumiu em meio a toda essa chuva.
Odete não conseguia entender o porquê da desconfiança.
- Ela pode ter ido a algum lugar e deve estar esperando a chuva passar.
Provavelmente o Mateus chorou e ela resolveu sair para não incomodar.
- A senhora não entende.
Hortência tem pressentimentos, premonições desde criança.
A senhora não conhece toda a história, pois veio morar aqui há poucos anos, mas tudo o que a Hortência previa sempre acontecia.
Apelidaram-na de "menina das adivinhações", "bruxa" e tantos outros nomes, pois até morte de pessoas ela sabia que ia acontecer.
De algum tempo para cá, antes até de o Mateus nascer, ela começou a ter visões.
Via um bebé chorando, pedindo sua ajuda, sendo levado por alguém.
Esta noite ela reconheceu que o bebé era seu filhinho.
Essa visão a perturbou e, como sabe, somos espíritas e fomos fazer uma consulta em casa de dona Vilma para saber do que se tratava.
Ao sairmos, não encontramos
mais a Neide.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 13, 2017 7:49 pm

Está muito estranho.
Pode ser que ela tenha levado o Mateus.
Diva recomeçou a chorar, enquanto isso Hortência despertava.
Levantou-se da cama e começou a rodar gritando:
- Tragam o meu filhinho, tragam ele.
Não vou resistir viver sem ele, vou morrer.
- Calma, a Neide já deve estar chegando.
Ela não seria capaz de fazer nenhum mal ao seu filho - dizia Odete, tentando ser firme.
- Não quero ouvir nada, eu quero meu bebé- começou a abrir as gavetas da pequena cómoda onde ficavam as roupinhas da criança e, abraçada a elas, chorava copiosamente.
A cena era triste.
Doutor Cintra chegou e, vendo seu estado, aplicou-lhe um sedativo.
Olhando para Diva, que tremia muito, perguntou o que estava acontecendo.
Odete contou as suspeitas e finalizou:
- Não podemos fazer nada a não ser esperar.
- Essa moça deve ter parentes aqui, vocês devem procurá-los e ir imediatamente à polícia.
Diva lembrou-se, de repente, que nunca havia conhecido um parente sequer de Neide.
Envergonhada pela falha, disse olhando para o médico:
- Não sabemos quem eram os parentes da Neide. Nunca os vimos.
Dr. Cintra indagou:
- Há quanto tempo ela mora aqui?
- Há quatro meses.
Veio dois meses depois que o Mateus nasceu.
- Como puderam colocar alguém dentro de casa sem nenhum referencial, sem ao menos conhecer uma pessoa da família?
Foi um erro grave de vocês.
De qualquer forma, devem comunicar à polícia.
O novo delegado não é mais mandado por Edionor nem pelos poderosos daqui e está fazendo um óptimo trabalho.
Não tem nenhum suspeito?
- Não, senhor, ninguém mais aqui queria fazer mal a Hortência.
Alguém bateu à porta.
Era Aída. Diva a abraçou chorando.
Aída, sem saber o que estava acontecendo, comentou:
- As pessoas estão falando que Hortência está em desespero e que saiu correndo e chorando pelas ruas da cidade.
Fiquei preocupada.
Estou morando só na casa que era de nossa tia, e não me sinto digna da companhia de vocês depois de tudo que fiz, mas saibam que nunca deixei de me preocupar e pensar em como seria bom se eu não tivesse sido tão egoísta e má.
Diva olhou-a com amor.
- Não é hora para lembrarmos o passado. Parece que uma tragédia se abateu sobre nós.
Contou tudo e, ao finalizar, Aída também estava chocada.
Dr. Cintra se despediu, dizendo:
- Receitei esse ansiolítico, mas pelo que estou vendo, se a suspeita do sequestro se confirmar, sei que Hortência não vai resistir e precisará ficar internada.
Qualquer coisa me procurem.
O médico se despediu e, pouco tempo depois, a atenção foi voltada para Miguel, que dizia:
- Vejam, aqui tem um envelope, bem ao pé da porta.
Na agitação, ninguém percebeu.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Dez 13, 2017 7:49 pm

Diva pegou o envelope amarelado das mãos de Miguel, abriu e viu uma carta.
A cada palavra que lia sentia-se desfalecer:
"Hortência,
Você pensou que eu nunca iria me vingar, não é mesmo?
Calei-me todo esse tempo, aguentei todas as humilhações para, no momento certo, fazer você sofrer tanto quanto me fez todo esse tempo.
Levo seu filho amado para muito, muito longe.
Não espere alguém pedir resgate ou entrar em contacto.
Estou saindo para sempre do país ao lado do homem que realmente me ama e serei muito feliz sabendo que nunca mais você terá um dia de paz.
Nunca mais poderá ouvir o chorinho da criancinha que você colocou no mundo, nunca mais poderá escutar seu sorriso e jamais o ouvirá chamá-la de mamãe.
Serei a mãe dele e tenho direito, pois ele é filho de Douglas, homem que você fez questão de tirar de mim.
O único consolo que terá é saber que seu filho estará bem cuidado, mas jamais sentirá o prazer de ser sua mãe.
Adeus
Amanda"
A carta era muito clara.
O facto havia se consumado.
Mateus fora sequestrado e jamais voltaria ao convívio da mãe.
Amanda mostrara todo o seu lado sombrio e monstruoso, cometendo um crime hediondo, sabendo-se protegida pelo dinheiro e pelo poder.
Elas nada mais poderiam fazer.
Ninguém sabia como ler aquelas palavras para Hortência assim que ela acordasse.
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