Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 07, 2017 9:01 pm

13 - ESPIRITUALIDADE INFERIOR INDUZ AO ADULTÉRIO
Assim que Amanda saiu do hotel, entrou no carro e dirigiu-se a uma bela mansão.
O criado a atendeu prontamente:
- Aguarde, senhora, a dona Rosemeire já irá atendê-la.
Aceita uma água, um café?
- Não, obrigada. Pode se retirar.
Ao ficar só, começou a observar o luxo da decoração da casa.
Rose era mulher do prefeito, que já estava à frente da cidade havia alguns anos.
Na verdade, a prefeitura, havia décadas, estava nas mãos daquela mesma família, que era muito rica e conceituada.
Aquela mansão era belíssima, não dava nem para comparar com sua casa.
Alguns anos depois do casamento, Douglas, mesmo a contragosto de Edionor, comprou uma residência aprazível, mas muito simples, por meio de um financiamento.
No entanto, ela queria mais.
Não se conformava em ter um marido pobre apesar de gostar dele.
Além de tudo, era orgulhoso e não quis aceitar uma casa melhor oferecida por seu pai.
Naquele momento, vendo a riqueza daquele ambiente, ela pensou se conseguiria viver com menos luxo por muito tempo ao lado do marido.
Rose apareceu tirando-a dos devaneios.
Era uma mulher jovem, com pouco mais de trinta anos.
Alta, morena, lábios carnudos, cabelos lisos e negros, vestia-se muito bem.
Casara-se com o prefeito por interesse, não o amava.
Para compensar a falta de amor, ela passeava muito com Amanda em Belo Horizonte e compravam muito.
Ainda não tinha filhos, o que lhe permitia mais liberdade, por isso fazia planos de ir visitar o exterior ao lado da amiga.
- Que bela surpresa!
O que faz aqui tão cedo?
Só pode estar chateada com alguma coisa.
- Estou sim. Tive uma pequena discussão com Douglas por causa de uma mulher.
- Como assim. Traição?
Ele a está traindo?
- Não é isso. Douglas me ama, tenho certeza.
Nunca me trairia.
Mas é que ele empregou no hotel uma moça com quem eu não simpatizo.
É filha de uma professora da cidade.
Há muitos anos ela se envolveu em nossa vida e parece que quer envolver-se novamente.
Rose não estava entendendo.
- Mas quem pode ser? Você nunca me contou nada a respeito.
Amanda narrou os factos, terminando por dizer que tinha certeza do interesse de Hortência por seu marido.
- Você precisa exigir que o Douglas tire essa mulherzinha de lá.
- Não posso bater de frente com ele.
Mostraria que estou insegura, e Douglas tem personalidade forte.
Deu a palavra que a empregaria, não vai voltar atrás.
Além do que, não quero me indispor mais com ele, você sabe que nossa vida
conjugal não anda nada bem.
- É... sei mesmo. Mas o que pretende fazer?
Vai deixar que ela flerte com seu marido durante todo o dia?
Lembre-se que os homens não resistem e uma hora caem na tentação.
- Apesar de confiar muito em Douglas, não quero pagar para ver.
Vou planear algo para tirar Hortência de lá, e você vai me ajudar.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 07, 2017 9:02 pm

De repente, Rose aproximou-se mais da amiga, abaixou o tom de voz e perguntou:
- E o Fernando?
Continua dando aquelas investidas em você?
O rosto de Amanda se descontraiu e ela sorriu.
- É claro que sim.
Esse não me esquece nem se conforma com meu casamento com Douglas.
Olhe só o que ele me deu.
Amanda abriu a bolsa e retirou um cordão de ouro com um pingente.
Rose admirou-se:
- Ele continua a presenteá-la mesmo! Não desiste.
Amanda gargalhou.
- Sim, ele é muito rico.
Ficou solteiro por minha causa, disse que vai esperar meu casamento terminar para ficar comigo.
Acredita, amiga?
- Todos da cidade comentam isso.
Seu marido o detesta.
Mas como você pode aceitar esses presentes?
Outro dia foi uma gargantilha, agora esse pingente.
Que desculpas você usa?
- Eu sou óptima em criar histórias.
Douglas nem desconfia.
E aceito porque é muito bom para uma mulher saber que é desejada.
Só tenho de tomar mais cuidado. Fernando me aborda em qualquer lugar.
Outro dia quase fui flagrada pelo Douglas conversando com ele na porta de casa.
- Você precisa mesmo ficar alerta.
Os olhos de Rose ficaram mais maliciosos.
- Por que você não tem uma relação com ele?
Amanda corou.
- Não fale isso nem de brincadeira.
Adoro ser cortejada, receber presentes, saber que sou amada, mas é só.
Nunca me permitiria ir além, apesar de sentir muita vontade.
Rose, envolvida por espíritos viciados, continuava:
- Pois você é muito boba, pode ir além, se quiser.
Se fizer bem feito, seu marido nunca vai descobrir.
- Sinto necessidade de me aventurar.
Mas não tenho coragem.
Apesar de tudo, amo meu marido.
Os espíritos continuavam a falar por intermédio de Rose:
- Você sabe que com o tempo o sexo no casamento fica muito sem graça.
Se você deseja experimentar, por que não fazer?
Temos de aproveitar a vida e os prazeres que ela nos oferece.
Eu mesma, assim que encontrar a pessoa ideal, não titubearei em fazê-lo de amante.
Você pode fazer o mesmo.
Fernando mora só, a mansão dele é distante do centro, você pode ir para lá sem que ninguém desconfie.
Sem perceber, Amanda foi sendo envolvida pelos mesmos espíritos que teleguiavam a amiga, e o seu desejo lúbrico foi aumentando.
Começou a visualizar imagens eróticas dela com Fernando, e naquele momento decidiu:
- Você está certa.
Deixarei que Fernando perceba que estou pronta para me envolver com ele. Devo aproveitar minha mocidade.
Eu sinto muito desejo e o meu marido não percebe.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 07, 2017 9:02 pm

Sinto-o distante.
- Então não espere mais.
Se os homens têm amantes, por que nós, mulheres, não podemos ter também? Direitos iguais, minha cara.
- Essa visita aqui melhorou muito minha mente, minhas ideias.
Estou saturada dessa vida nesse lugar pequeno, sem nenhuma diversão.
Você sabe que tenho depressão, inclusive meu analista sugeriu também que era hora de um novo amor.
Mas aqui sinto uma força inexplicável me dizendo que a hora é agora.
As duas sorriram e foram brindar a decisão.
Tempos depois, quando voltou para casa, Amanda já não sentia mais o vazio de antes.
Iria apenas esperar Fernando procurá-la mais uma vez para insinuar-se completamente.
O que ela não sabia era que o adultério traz consequências terríveis para quem o pratica.
Tanto Amanda como Rose baixaram o padrão vibratório e cederam aos espíritos inferiores, viciados em sexo.
Por isso pagariam alto preço, que seria cobrado inadiavelmente.
Todo adultério na Terra, salvo raras excepções, é induzido por espíritos malévolos e sensuais, desejosos dos prazeres terrenos e intencionados em ver a queda das criaturas em abismos profundos.
Ninguém nasceu para trair, e quem o faz, principalmente movido pelo sexo, terá sua hora dolorosa de resgate e reparação.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 07, 2017 9:02 pm

14 - USANDO O LIVRE ARBÍTRIO
Os dias foram passando depressa e Hortência, por mais que tentasse, não conseguia encontrar uma chance de aproximar-se mais de Douglas.
Sentia seus olhares, sabia ser correspondida, mas ao mesmo tempo percebia que ele lutava contra aquele sentimento.
Por isso decidiu que era ela quem iria tomar a iniciativa.
No entanto, faltava-lhe coragem e oportunidade.
Pensara que no hotel tudo seria mais fácil, porém Douglas estava sempre ocupado e outras vezes viajava com o sogro para as fazendas passando dias sem aparecer.
Assim como ela, Douglas, a cada dia, sentia aumentar o desejo de tê-la como mulher.
Não conseguia controlar seus sentimentos.
Por isso evitava Hortência o mais que podia.
Passava horas em reflexão e concluía que não podia envolver uma moça jovem numa relação daquelas.
Hortência era cheia de vida, tencionava crescer profissionalmente, tinha tudo pela frente.
Ele era casado, tinha deveres para com a esposa, não podia deixá-la.
O máximo que poderia oferecer a outra mulher era uma relação extraconjugal e limitada, como todas daquele tipo.
Não. Hortência era especial, merecia casar, ter sua própria família.
Quando a via sorrindo, arrependia-se amargamente de haver se casado.
Amanda tornou-se uma mulher fútil, sem escrúpulos, fria, já não era aquela moça que ele havia conhecido quando mais jovem.
Era um fim de tarde quando ele, após muito pensar, decidiu:
"Se não posso tê-la como mulher, que seja minha amiga".
Dirigiu-se à recepção e, vendo-a, disse:
- Assim que terminar o expediente, passe no escritório, precisamos conversar.
A alegria brotou no peito de Hortência.
Fingindo não saber do que se tratava e por estar na presença de Mónica, perguntou:
- Do que se trata?
- Assuntos de trabalho.
Não esqueça. Estarei esperando-a.
Hortência olhou no relógio e percebeu que ainda faltava meia hora.
A ansiedade a dominava, e ela estava inquieta.
Naquele dia não tinha muito movimento e ela estava sem ter o que fazer.
De repente, Mónica indagou:
- O que será que o patrão quer com você, hein?
Hortência, notando o tom irónico da amiga, desconversou:
- Também não sei.
Somos só nós duas aqui, não sei por que o assunto é comigo.
A outra olhou-a maliciosa:
- Até onde pensa que pode me enganar?
- Enganar?
Do que está falando?
- Isso mesmo.
Todos aqui já perceberam o seu interesse pelo Douglas e o dele por você.
Salta aos olhos dos dois.
Hortência corou:
- Não sei do que está falando.
Não há nenhum interesse entre nós a não ser o de trabalho.
E é bom que parem de falar isso por aí, pois não desejo confusões com a esposa dele.
- Tudo bem. Vou fingir que não estou percebendo nada, mas não posso deixar de dizer que até na cidade já comentam.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 07, 2017 9:02 pm

Sei da fama de sua mãe, não seria nada bom para você se ela soubesse.
- Sei disso e estou afirmando que não há nada, as pessoas são muito maldosas.
Vêem coisas onde não existem.
- Não venha com essa história para mim.
Vejo muito bem seus suspiros quando Douglas chega, a troca de olhares, o quanto você faz de tudo para estar próxima dele.
Só te dou um conselho:
muito cuidado!
Você está se metendo com pessoas muito perigosas.
O senhor Edionor, sogro dele, está velho, mas continua violento, resolvendo tudo à bala.
Amanda saiu ao pai, é uma mulher perigosa, capaz de tudo para prejudicar uma pessoa.
Hortência gelou ao lembrar-se de Amanda.
Sentia, com suas premonições, que aquela mulher iria lhe fazer muito mal, um mal tão grande que ela não sabia a dimensão.
- Olha, Mónica, agradeço os conselhos, mas não há nada mesmo.
Tudo não passa de impressão.
- Tudo bem, mas não diga que não foi avisada.
Hortência agradeceu e foi para a sala de Douglas.
Era sempre assim, todas as vezes que se aproximava dele seu coração descompassava, suas pernas tremiam, ela ficava sem cor.
Sentia que o amava muito e que não desejava ninguém além dele.
Assim que entrou e sentou, Douglas levantou-se e trancou a porta.
Olhou-a profundamente e, com coragem, iniciou:
- O que desejo lhe falar não se trata de trabalho.
Você é uma excelente funcionária, não há do que me queixar.
O que gostaria mesmo é de ser seu amigo.
Ele foi tão directo que ela sorriu.
- Mas nós já somos amigos.
- Não desejo uma amizade superficial.
Quero que seja minha confidente.
Noto que é muito madura, tem sensibilidade.
Preciso de uma pessoa assim ao meu lado.
- Uma amizade entre nós pode ser muito perigoso.
Sua mulher não irá aprovar.
- Meu casamento não anda bem, sinto falta de alguém com quem desabafar, falar dos meus problemas, sinto falta de afecto.
Mas, ao mesmo tempo, não desejo comprometê-la.
Podemos sair e ir para outra cidade, onde ficaremos à vontade para sermos amigos.
É tudo o que mais desejo.
Hortência não acreditava que aquilo estivesse acontecendo.
Ele estava se declarando, mas de outra forma.
- Sinto-me honrada em privar da amizade de meu patrão, mas não posso sair e viajar, minha mãe não iria permitir e você não teria desculpas para dar à sua mulher.
Você deve ter outros amigos com quem conversar, não desejo problemas para mim nem para sua família.
- Por favor, Hortência!
Não me negue sua amizade.
Tenho um plano.
Você estuda na cidade vizinha, podemos marcar alguns dias e eu estarei lá.
No intervalo das aulas podemos sair.
Era muito tentador para Hortência, e ela cedeu:
- Tudo bem. Não posso negar a quem me pede com esse carinho.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 07, 2017 9:02 pm

Não entendo por que me escolheu para ser sua amiga. Um homem costuma conversar com outros homens a respeito de sua vida, e não com uma mulher.
Ele não soube responder.
Essa foi uma maneira ilógica de aproximação, mas foi a única que ele conseguiu para tê-la por perto.
- A escolhi por achá-la especial.
Sei que saberá me entender.
- Ele deu uma pausa e continuou.
Vamos começar hoje.
Assim que você chegar a Pedra Bonita, chegarei também e nos encontraremos. Pode ser?
- Não posso cabular.
Terá de esperar a hora dos intervalos.
E o que dirá a sua mulher?
- Espero o tempo que for necessário e Amanda não questiona quando saio.
Se ela perguntar, direi que fui resolver algum problema para Edionor.
Combinaram que seria naquele mesmo dia o início da "amizade" e, ao sair da sala, Hortência não podia se conter de felicidade.
Depois dessa aproximação, logo ele iria se declarar, era questão de tempo.
Passou pelo saguão e Mónica não estava mais lá.
Não deixou de notar o olhar irónico do funcionário da noite ao vê-la sair do escritório do patrão.
No entanto, para ela nada disso importava.
Chegou em casa e todos notaram que ela estava diferente.
Lúcia a encarou e disse:
- Você está muito alegre.
O que aconteceu?
Espero que não tenha sido nenhuma paquera com esses moços daqui.
Sabe muito bem que desejo outro tipo de marido para você, e ele não está neste fim de mundo.
- Estou alegre como sempre, mamãe, e já a avisei que de minha vida eu cuido.
- Está enganada.
Da sua vida eu é que cuido.
Você é jovem e, como tal, não sabe nada da vida e muito menos escolher o melhor futuro.
Diva ouvia calada.
Sabia muito bem qual era a causa da alegria de Hortência.
Teria de falar com ela, pois sentia que algo havia acontecido e era Douglas quem estava por trás.
Lúcia continuava tentando arrancar algo da filha, mas Hortência entrou no quarto e a deixou falando sozinha.
Diva entrou junto e agarrou em seu braço.
- Conte-me o que aconteceu entre você e Douglas.
Sei que foi algo com ele. Essa sua alegria não é à toa.
- Sim, Diva.
Ele praticamente se declarou para mim.
Diva assustou-se:
- Como? Ele teve coragem para tanto?
- Não foi como eu queria, mas me propôs uma amizade, quer estar mais próximo de mim.
Finalmente realizarei meu sonho.
- Meu Deus! O que posso fazer para você desistir disso?
Se ele estiver em seu destino, um dia vai acontecer.
Não apresse as coisas.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 07, 2017 9:03 pm

- Não quero esperar esse "um dia" chegar.
Quero eu mesma fazer esse dia, Diva.
E, por mais que me fale em Espiritismo, não posso deixar de me relacionar com o homem que amo em nome do certo ou do errado.
Quero ser feliz.
Hortência contou todos os detalhes sem perceber que alguém ouvia do outro lado da porta.
Era Aída. À medida que escutava, ia se enchendo de horror.
Deveria contar imediatamente à sua tia o que Hortência pretendia fazer.
Mas, se fizesse isso, haveria uma guerra entre mãe e filha e ela sairia como delatora.
Teria de encontrar outra maneira para fazer com que Hortência não cometesse aquela loucura.
Diva era uma segunda mãe para ela, passava a mão na cabeça, até mesmo podia incentivá-la, mas com ela, Aída, isso não iria acontecer.
Onde já se viu ter um caso com um homem casado?
Pelo visto, era isso que Hortência pretendia.
Aída e Diva já passavam dos trinta anos, e nenhuma havia se casado, continuavam morando com a tia.
Diva namorava um moço bom, mas inseguro, não tinha trabalho fixo e por isso não planeavam se casar.
Já Aída não se permitia ser cortejada pelos homens da cidade.
Assim como Lúcia, odiava aquela gente e pretendia ir morar em Belo Horizonte, onde encontraria um homem rico.
Poderia ser um viúvo ou qualquer idoso rico que pudesse lhe oferecer vida boa.
Ambas eram formadas em magistério e leccionavam em escolas da cidade.
Enquanto Diva gostava da profissão, Aída estava insatisfeita, vivia reclamando, tratava mal as crianças e, por vezes, as agredia.
Pensava que a vida era injusta e que não tivera oportunidade de cursar uma universidade.
Continuou escutando e, quando viu que Hortência ia saindo com Diva, escondeu-se no corredor.
Enquanto preparava suas aulas, pensava no que faria para acabar com a alegria daqueles dois.
Diva foi esperar Mário chegar e, enquanto isso, orava a Deus para que guiasse sua menina pelo bom caminho.
Sabia que o destino tinha uma força incrível, e sentia que Douglas e Hortência estavam ligados por laços de encarnações passadas.
Mas sabia também que era melhor esperar, pois a vida fazia tudo certo e na hora exacta os uniria sem a necessidade de traição.
No entanto, eles tinham o livre-arbítrio e eram livres para exercê-lo.
Ela sabia que não faziam com má intenção, por isso não seriam tão punidos pela vida.
Entregou nas mãos de Deus e ficou em paz.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 07, 2017 9:03 pm

15 - DOUGLAS E HORTÊNCIA SE ENTREGAM AO AMOR
O ônibus parecia mais lento que de costume.
Hortência queria logo que ele chegasse ao destino, pois sabia que naquela mesma noite estaria com Douglas.
Da janela percebeu o carro dele seguindo atrás, mais lento.
Não sabia o que iria acontecer, mas já que ele pedira sua amizade, era isso que ia ter.
Assim chegou à universidade e assistiu às primeiras aulas, avisou a uma amiga que não estava passando bem e se retirou.
Logo entrou no carro que a esperava e ao se ver a sós com ele, perguntou:
- Para onde estamos indo?
- Não se preocupe.
Conheço bem o lugar, tem um piano-bar muito aconchegante, lá poderemos ficar à vontade para conversarmos.
- Ainda não entendo por que um homem como você precisa de uma amizade como a minha.
Não entendo de assuntos masculinos.
- Eu a aprecio, desejo tê-la do meu lado.
Para mim, isso é suficiente.
Hortência calou-se.
Seguiram em silêncio e, após estacionar, entraram.
O ambiente era realmente acolhedor e romântico.
O piano tocava com maestria músicas em voga.
Logo ambos estavam bebendo. Naquele momento, para os dois parecia que o mundo havia parado.
Ao iniciar uma música, Douglas propôs:
- Me acompanha na pista?
- Não posso negar.
Essa música é linda, está fazendo o maior sucesso.
Ambos deixaram se levar ao som da melodia e, quando perceberam, estavam se beijando.
Sentiram a pureza de sentimentos naquele beijo.
Para eles, naquele momento não havia traição, havia apenas o encontro de duas almas afins temporariamente separadas.
Quando a música terminou, voltaram para a mesa sem saber o que dizer um ao outro.
Hortência quebrou o silêncio.
- Quero que saiba que o amo desde o primeiro dia que o vi, ainda criança.
Douglas, emocionado, respondeu:
- Eu também senti o mesmo quando a peguei no colo pela primeira vez.
Agora sei que estamos destinados um ao outro.
Não posso, depois de hoje, viver mais ao lado de minha mulher.
Tenho certeza, Hortência, de que você é o amor pelo qual eu tanto esperei.
- Você não sabe o quanto sonhei com o dia que ia ouvir isso.
Mas, infelizmente, você não pode ser meu como deve.
Sua mulher nunca irá permitir.
De repente, Douglas lembrou-se de Amanda, do seu génio irascível e pensou que ela tinha razão.
Não poderia terminar seu casamento de uma hora para outra.
- Você tem razão.
Agora não podemos estar livres, mas em breve vou me separar.
É uma questão de tempo.
- Acredita, mesmo, que seremos felizes naquela cidade, com sua mulher e seu sogro por perto?
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 07, 2017 9:03 pm

- Meu sogro hoje é meu aliado e, conhecendo a filha como conhece, não vai se opor a uma separação.
- Ainda tem de enfrentar minha mãe.
Ela jamais vai aceitar que eu me relacione com você.
Sempre sonhou com um rapaz rico e de status para meu marido.
- Não vamos nos preocupar com nada agora, vamos curtir esse momento.
Voltaram à pista de dança e continuaram abraçados trocando juras de amor.
Horas depois, foram para um lugar mais reservado, onde se entregaram ao amor que sentiam.
Amanda estava entediada naquela noite.
Sua novela predilecta havia terminado e não havia mais o que ver.
Tentava ler, mas seu pensamento estava distante, mais precisamente nos dois dias depois que resolvera seguir o conselho de Rose.
Lembrou-se que ligou para Fernando e disse que iria visitá-lo.
Chegando lá, foi recebida com alegria.
A casa era imensa e muito bem decorada.
Após pedir um uísque, ela tentou ser amável.
- Achei que estava lhe devendo uma visita.
Afinal, me presenteia tanto, me trata com tanto carinho que não merece a indiferença que dou.
Os olhos verdes de Fernando brilharam.
Ele estava sentindo algo diferente no ar.
Seria o que ele estava pensando?
- Eu sabia que um dia iria vir até minha casa.
Era uma questão de tempo.
Sinto que não é feliz com seu marido.
Só eu posso fazê-la inteiramente feliz.
Disposta a se entregar a ele, ela aquiesceu:
- Exactamente.
No começo tudo foi uma grande aventura, mas, com o tempo, percebi que o Douglas não é o homem que eu esperava.
Eu o amo, mas ele não consegue perceber minhas mínimas necessidades, ultimamente quase não me toca.
Depois, nunca mais fui feliz a partir do dia que soube que não poderia ter filhos.
- Seu erro foi ter se casado com ele.
Deveria ter seguido o conselho do seu pai, e hoje seria minha esposa.
Garanto que suas necessidades não estariam sem ser satisfeitas.
Fernando falava próximo a Amanda, com respiração ofegante.
Completamente envolvidos pelo desejo, beijaram-se loucamente.
Depois daquela tarde, ela passou a visitá-lo com frequência, e uma relação sólida se estabeleceu.
Amanda já não conseguia sentir nenhum prazer sexual com o marido, apenas com o amante.
Ao lembrar daqueles momentos, ela sentia crescer a vontade de estar cada vez mais perto de Fernando, mesmo sabendo que seu interesse por ele era apenas atracção física.
Apesar de tudo, amava o marido.
Jogou o livro para um lado e ligou para Rose.
- Como vai, Amanda?
- Não muito bem, estou entediada.
- Seu marido não está com você?
- Não. Ele precisou viajar para o meu pai, foi a Pedra Bonita.
Estou sentindo falta dos meus encontros com Fernando.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Dez 07, 2017 9:03 pm

Faz dias que ele viajou.
Não pensei que um dia fosse gostar tanto de sexo.
Rose gargalhou.
- É que nós, mulheres, fomos criadas numa cultura muito machista.
Só o homem é que tem direito ao prazer.
Mas há muito descobri que isso não é verdade, nós temos tanto direito quanto eles.
E volto a dizer: se eles têm amantes, por que nós não podemos ter também?
- Confesso que suas ideias mudaram minha vida, que estava muito monótona.
As tardes que passo com Fernando me deixam viva.
- Por que você não se separa do Douglas?
Seria a melhor solução.
- Não posso fazer isso, eu o amo.
- Você é doida mesmo.
Agora diz que Fernando mudou sua vida, e ao mesmo tempo diz que ama o marido.
- Não sei se você me entende.
Eu amo um, mas sinto prazer com outro.
Não posso me separar.
Quero ficar com os dois.
- Isso até quando Fernando aguentar.
Vamos ver até ele chegar ao limite.
Você será cobrada e terá de fazer uma opção.
- Não desejo pensar nisso agora.
Ainda bem que ele volta de viagem na sexta-feira.
Não aguento mais esperar.
- Sexta ainda vai demorar.
Podemos marcar uma viagem a Belo Horizonte.
Que tal amanhã?
Amanda adorou a ideia.
De repente, o tédio passou e ela resolveu ir para o quarto arrumar seus pertences para a viagem.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 08, 2017 7:49 pm

16 - SUSPEITAS
Depois daquela noite, o romance entre Douglas e Hortência foi ficando mais intenso.
Ele, envolvido pelas novas emoções e sentimentos, deixara a mulher praticamente de lado e só pensava numa forma de acabar com aquele casamento fracassado.
De vez em quando, pensava no início do namoro, da fuga, da paixão que um dia sentira pela esposa e se perguntava onde fora parar todo aquele sentimento.
Amanda sentia-o distante, mas intimamente agradecia aos céus, pois o que mais detestava ultimamente era privar da intimidade do marido.
Fazia dois meses que Douglas estava completamente envolvido pelo amor que havia descoberto e que sabia, nunca havia vivido antes.
Pensando em deixar os encontros com a amada mais românticos e fáceis, alugou um apartamento num bairro distante da cidade universitária, onde estavam sempre que podiam.
Hortência sabia que não podia deixar a faculdade de lado, tinha de sempre apresentar boas notas a mãe, que lhe exigia muito e jamais poderia desconfiar do que estava acontecendo.
O tempo correu célere e, numa tarde de verão, vamos encontrar Amanda e Rose sentadas na sala de estar, falando dos amantes e de suas vidas, que segundo elas haviam melhorado bastante.
- Eu nunca gostei de trabalhar e nem cheguei a me formar - dizia Amanda com ar afectado.
Nasci rica e, embora meu marido não tenha tanto dinheiro, não preciso me sujeitar a trabalhar.
Ele que se casou comigo, agora que me dê do bom e do melhor.
Rose olhou melhor a sala da casa da amiga e percebeu que tinha poucos adornos, era muito simples.
- Pelo visto, seu marido não lhe dá do bom e do melhor.
Vocês poderiam morar numa casa mais confortável.
- O Douglas não quis quando meu pai ofereceu.
Você sabe como pobre é orgulhoso.
Queria ter uma casa com o próprio esforço.
Tem coisa mais pobre?
Rose gargalhou.
- Ainda você ri.
Esta casa aqui ele está pagando, é boa, mas foi financiada.
Imagine, logo eu morar numa casa financiada.
- Por isso me casei com quem pudesse me dar a vida com que sempre sonhei.
Não aceitaria menos.
Amanda retorquiu:
- De qualquer forma, o Douglas não deixa faltar nada aqui.
Ele não sabe, mas meu pai me dá uma mesada até hoje.
Uma gorda mesada.
Gasto timidamente e o resto guardo numa poupança.
O dia em que eu quiser dar um salto maior, esse dinheiro estará lá.
- E seu caso com Fernando, hein?
Nunca mais falamos sobre isso.
O rosto de Amanda corou:
- Ontem estivemos juntos novamente.
Ele é o tipo de homem que toda mulher queria ter.
Mas tenho aquele velho problema:
amo meu marido, mas ele não é ardente nem sensual.
Não posso mais ficar sem Fernando e sem o bem que ele me proporciona.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 08, 2017 7:49 pm

De repente, a campainha soou.
Com enfado, Amanda foi atender e voltou com uma carta na mão.
- Quem era?
- Imagine só, o correio.
A empregada aqui só fica até depois do almoço.
Se alguém chega, eu mesma que tenho de me humilhar para abrir a porta.
- Humm, recebendo cartinhas, hein? - ironizou Rose.
- Esta está sem remetente.
Vou abrir para ver.
À medida que lia a carta, o rosto de Amanda ia ficando pálido e contraído.
Rose começou a se preocupar.
- O que aconteceu?
O que está escrito aí?
Sem conseguir falar e tremendo muito, Amanda passou o papel a Rose, que leu em voz alta:
"Querida Amanda,
Aqui é uma amiga que gostaria muito de alertá-la para o que vem acontecendo com seu marido.
Há alguns meses ele vem mantendo um relacionamento com a jovem Hortência, filha da professora Lúcia e que trabalha com ele no hotel.
Ambos se encontram em Pedra Bonita todas as semanas, e ele até alugou um apartamento para tal.
Em breve estarei enviando-lhe mais detalhes.
Abraços de uma pessoa que muito a admira."
Amanda, com feições coléricas, bradou:
- Preciso descobrir se isso é verdade.
Se for, eles não sabem do que sou capaz!
Mato-os sem piedade.
Rose tentava acalmá-la:
- Pare de falar bobagens.
Se for verdade, você está com sorte.
Vai poder se separar dele e ficar com Fernando.
- Será que você não entende que meu interesse em Fernando é apenas sexual e que amo meu marido?
Ah! Eu sempre desconfiei que algo pudesse acontecer entre aqueles dois.
Minha intuição feminina me dizia.
- Mas pode ser invenção dessas pessoas daqui.
Você sabe como esta cidade é movida pela fofoca.
- Não creio.
Esse bilhete me pareceu bem convincente.
- O que você vai fazer?
- Por enquanto nada.
Meu pai sempre me ensinou a agir com frieza.
Vou fingir que nada sei e seguirei Douglas da próxima vez que ele for à Pedra Bonita, e é claro que você irá comigo.
Rose não estava gostando daquilo.
Podia ser uma doidivanas, mas não tolerava escândalos, violências, muito menos assassinato.
Era bem capaz de Amanda matar os dois de verdade.
- Eu não vou com você.
Uma mulher no seu estado pode cometer barbaridades e eu não desejo estar perto.
- Rose, você não pode me abandonar num momento como este.
Já te falei que vou agir com frieza, não farei nenhum escândalo lá.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 08, 2017 7:49 pm

Mas aqui será bem diferente.
Neste momento, Douglas havia acabado de entrar em casa.
Foi logo cumprimentando a amiga de sua mulher:
- Rose, como vai?
- Tudo bem, que pena que chegou na hora em que estava de saída.
- Fique connosco para o jantar.
- Desejaria muito, mas não posso.
Meu marido vai receber uns vereadores em casa hoje à noite, preciso estar com ele.
Douglas entendeu e deu um beijo no rosto de Amanda, enquanto Rose saía.
- Chegou mais cedo hoje.
- Sim, o movimento não está tão bom.
O Ciro ficou em meu lugar.
- Por que não deixou a Hortência?
Douglas não deixou de notar o tom irónico da mulher, mas fingiu não perceber.
- Ela é apenas uma recepcionista e também já estava de saída.
Estuda à noite.
- É. Havia esquecido.
Ela estuda na cidade vizinha, a mesma cidade que você deu para frequentar todas as semanas.
- O que deu em você para vir com tantas ironias?
Está insinuando que tenho algo com Hortência?
Amanda sorriu cinicamente e o encarou enquanto disse:
- Não. Eu sei que você me ama e jamais seria capaz de me trair.
Você sabe muito bem do que sou capaz de fazer com uma mulher que tivesse algum relacionamento com você...
Douglas sentiu o sangue ferver.
Quem ela pensava que era?
- O que você faria se eu te traísse, hein?
Mataria a mulher que estivesse comigo?
Teria coragem?
- Nunca duvide do que uma mulher traída é capaz de fazer.
- Ora, Amanda, você sabe que não sou capaz de fazer isso com você.
Ela gritou:
- E isso? Explique-me o que é isso?
Douglas pegou o bilhete, já amassado, e leu.
Corou, mas não deixou a mulher perceber seu nervosismo.
Aquela carta foi feita por alguém que conhecia realmente tudo o que estava acontecendo.
Ele tinha de proteger Hortência.
Ele era o responsável por haver tirado sua virgindade e transformando-a em amante.
Não era justo deixar seu amor sofrer.
- Como você pode acreditar numa coisa dessas?
Essa cidade vive da vida alheia.
Hortência é apenas minha funcionária.
Trato-a com deferência porque sabe se esforçar no trabalho.
Por isso as pessoas vivem dizendo coisas lá no hotel.
Outro dia tive de demitir um funcionário por causa de piadinhas bobas.
Amanda viu que não iria conseguir uma revelação naquele momento e resolveu contemporizar.
Ela haveria de provar a realidade.
- Tudo bem, amor.
Vou confiar em sua palavra.
Esquecerei esta carta.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 08, 2017 7:49 pm

Estava fora de mim.
Não posso imaginar você nos braços de outra mulher.
Eu te amo, desde quando te vi pela primeira vez sabia que seria meu.
Amanda puxou o marido e o beijou ardentemente.
Naquela hora, após muito tempo, sentiu-se atraída por ele.
Não sabia se era pelo medo de perdê-lo ou pela possibilidade de estar sendo traída, mas uma força maior tomou conta de seu ser e acabaram ficando juntos.
Depois de tudo, ela olhou e disse:
- Prometa que nunca vai me trair.
- Você sabe que nunca farei isso, vamos esquecer.
Amanda tentou parar os pensamentos contraditórios que vinham em sua mente e descansou a cabeça no peito do marido.
Precisava pensar friamente no que iria fazer.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 08, 2017 7:49 pm

17 - GRAVIDEZ INESPERADA
Vários dias se passaram.
Num fim de tarde, assim que chegou do hotel, como todos os dias, Hortência foi tomar seu banho para depois fazer um pequeno lanche e ir tomar o ônibus que a deixaria na cidade vizinha.
Quando ia começar a comer, ao sentir o cheiro do alimento, sentiu-se ligeiramente tonta e enjoada.
Lúcia e Diva perceberam que ela estava pálida e perguntaram quase que em uníssono:
- O que você tem?
- Não sei explicar, estou enjoada, minha cabeça está rodando, não consigo me levantar.
Diva, preocupada, tomou o pulso da moça e contou as batidas.
Depois disse:
- A pressão está normal.
Você pode ter ingerido algo que fez mal.
O melhor é não ir para a universidade hoje e descansar.
Vou fazer um chá de boldo.
Enquanto Diva se retirava para a cozinha, Lúcia olhou para a filha, com dureza, dizendo:
- Desde pequena que a ensinei a não comer essas porcarias que se vendem nas ruas.
Agora vai perder um dia de aula por causa de uma bobagem de um enjoo, podia fazê-la ir mesmo doente.
Precisa aprender a valorizar o estudo.
Quando estudava ia até com febre para a sala de aula.
Hoje qualquer coisa é motivo para faltas.
Se melhorar, irá no ônibus das oito.
Conseguirá ainda assistir às duas últimas aulas.
Hortência não entendia como a mãe podia ser tão insensível e dura.
- Não comi nenhuma porcaria.
Fiz um lanche no próprio hotel.
A voz de Aída, que corrigia livros escolares, se fez ouvir:
- Você anda comendo outras coisas que causam enjoo, não é mesmo Hortência?
Lúcia notou o tom irónico da sobrinha.
- O que quer dizer?
O que ela anda comendo?
- Nada, tia.
Sabe como é, no hotel as refeições são de qualidade, mas durante as noites na universidade não se sabe o que esses jovens andam comendo.
Lúcia não percebeu a acusação velada da sobrinha e, voltando-se para a filha, exclamou:
- Espero, mocinha, que você aprenda a se alimentar melhor.
Quem estuda não tem o direito de adoecer.
E espero que o chá de boldo da Diva faça bem, pois não temos dinheiro para médicos, além do mais, quero-a linda amanhã.
Irei lhe fazer uma bela surpresa.
Hortência ficou curiosa.
Nada que viesse da mãe poderia ser bom.
Assim que foi crescendo e tornando-se lúcida, percebeu que sua mãe era uma mulher maldosa, amarga, capaz de tudo para que os outros ficassem infelizes.
Baixava a auto-estima de Diva, chamando-a de velha para o casamento, comentando sobre sua falta de beleza e charme.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 08, 2017 7:50 pm

Só com Aída Lúcia tinha afinidade, andavam sempre juntas, nunca discutiam.
Aída tinha o mesmo temperamento da tia, por isso se afinizavam tanto.
De repente, o enjoo foi ficando mais intenso e ela começou a ter náuseas.
Diva chegou com o chá e a levou para a cama.
Quando estava mais refeita e com a porta fechada, Hortência, muito preocupada e tremendo, falou em voz baixa.
- A Aída sugeriu que eu estou grávida.
Tenho certeza de que ela escuta nossas conversas e sabe que me encontro com Douglas.
Estou morrendo de medo.
Não posso estar grávida logo agora.
O que será de mim, se isso for verdade?
Diva reflectiu e, por fim, disse:
- É apenas um enjoo, pode ser realmente pelo facto de você ter ingerido alguma coisa estragada.
- Não, tenho certeza de que não é.
Esta noite tive outra premonição.
Acordei e vi uma imagem à minha frente.
Vi-me grávida aos nove meses.
Vi também um menino chorando muito, em desespero, pedindo minha ajuda.
Diva arrepiou-se:
- Sua mediunidade está retomando.
Você precisa fazer um exame de urina ou sangue para saber se está realmente grávida.
Providencie isso amanhã e peça urgência. Essa sua visão está mostrando claramente que, se não estiver, vai ficar grávida.
Se eu pudesse entrar em sua cabeça e fazê-la desistir desse relacionamento, já o teria feito.
Sinto muito medo das consequências.
- Lá vem você com essas histórias de leis divinas.
- Não me refiro a isso apenas.
Estou me referindo às consequências do dia a dia que você vai sofrer.
Tia Lúcia não vai aceitar essa gravidez, e só Deus sabe o que ela será capaz de fazer.
Se a família de Amanda descobrir que você está tendo um romance com o marido dela, será outro inferno.
Você vai sofrer muito.
Pela primeira vez, Hortência teve, de facto, medo.
Sentia que estava carregando no ventre uma nova vida e, com isso, tudo mudava.
Ela estava estudando, ia ter de parar, não sabia como a mãe e até mesmo Douglas iriam aceitar e reagir a situação.
Num ato de desespero, abraçou Diva e chorou.
Ouviram batidas na porta, Diva abriu e Lúcia e Aída entraram.
- Ouvimos choro.
O que está acontecendo? - indagou Lúcia.
- Nada de mais - Diva respondeu temerosa.
Hortência estava chorando porque deixou de ir à aula.
Nesses anos todos ela nunca faltou.
Desconfiada, Lúcia inquiriu:
- É isso mesmo? Ou vocês estão me escondendo algo?
Não venham me dizer que Hortência tem alguma doença mais séria.
Não temos dinheiro para gastar com medicamentos, principalmente agora que a sua vida, mocinha, vai mudar muito.
Hortência levantou-se da cama e, com raiva, revidou:
- Não temos dinheiro para nada aqui porque a senhora gasta tudo o que ganha em roupas da moda, cabeleireiro, tratamentos de beleza.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 08, 2017 7:50 pm

Esta casa há anos não vê uma reforma.
E não entendo em que minha vida vai mudar.
Mudar em quê?
- Vou fingir que não escutei seus impropérios porque está com esses enjoos aí.
E garanto que a partir de amanhã você terá uma nova vida.
Amanhã é sábado.
Vamos receber aqui uma visita ilustre.
- Não sei como a senhora tem coragem de receber alguém ilustre numa casa como esta.
- Esta é a casa que você tem, deve agradecer.
Meus amigos sabem que tenho de me vestir melhor por causa da universidade, sabem que não sou rica, não irão estranhar minha casa.
E deixe de choro, pois não a quero com olheiras amanhã.
Lúcia saiu deixando Aída ainda no quarto.
Olhando para Hortência, ela sussurrou:
- Sinto pena de você, queridinha.
Não sabe o que a aguarda.
Diva, que estava irritada com tudo aquilo, não suportou:
- Não entendo seu ódio por Hortência, uma menina que você ajudou a criar.
Saia daqui ou não responderei por mim.
- Aguardem-me - ameaçou Aída, saindo e batendo a velha porta com estrondo.
Hortência voltou a se deitar.
Estava indisposta.
Tomou o chá e os enjoos cederam.
Diva não arredou o pé do quarto e quando Mário, seu noivo, chegou, ela conversou e pediu a ele que voltasse no outro dia.
- Você deixou seu noivo por mim? Não é justo.
- É mais que justo.
A tenho como uma filha e preciso conversar com você.
Hortência abriu os olhos e fixou-os nos da prima esperando o que ela ia dizer.
- Se você estiver realmente grávida, precisa saber que essa criança, mesmo fruto de uma relação ilícita, é um espírito que está retornando ao palco do mundo para crescer, amadurecer, resolver velhos problemas, ser feliz.
Aconteça o que acontecer, não se desfaça dela.
Ninguém é chamado a ser mãe ou pai à toa.
Quando Deus chama alguém à paternidade é porque ele confia que essa pessoa possa dar o melhor e auxiliar para que mais um filho Dele chegue à vitória.
- Por que está me dizendo isso?
- Sinto que forças estranhas vão querer que esse espírito não reencarne.
Sinto, também, que ele vai reencarnar com uma grande missão.
Por isso, não aborte essa criança.
- Jamais teria coragem de fazer isso.
- Será? Seu amor por Douglas não seria maior que o amor que sente pelo seu filho?
E se ele não aceitar e pedir para você tirar?
Entre o amor e a razão, de que lado você iria ficar?
Hortência foi pega de surpresa.
Nunca pensara naquilo.
Se Douglas exigisse um aborto, o que ela faria?
Temerosa, perguntou:
- O que acontece quando uma mulher aborta?
- O espírito que estava ligado a ela sofre um choque terrível.
Se for evoluído, vai aceitar a situação e esperar outra oportunidade.
Se for mais primitivo e ignorante, pode se revoltar e passar a agredir aquela que o abortou, fazendo-a entrar em depressão, pensamentos obsessivos, sugar sua vitalidade, e até mesmo levá-la à loucura.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 08, 2017 7:50 pm

Em qualquer um dos casos, todo aborto lesa os órgãos genéticos do corpo astral, e a mulher que abortou, um dia se verá com problemas sérios no útero e ovário, muitas vezes de difícil tratamento.
- Mas vejo muita mulher que abortou viver bem, sem problemas físicos ou mentais.
Diva elucidou:
- É que, às vezes, os espíritos abortados são bons e não cobram nada, outras vezes os espíritos inferiores não exercem uma acção tão directa na pessoa.
Ele passa a persegui-la sutilmente, fazendo com que sua vida profissional e, principalmente, afectiva não vá adiante.
Pode demorar para isso acontecer, mas é certo que virão cobrar esse ato.
- E por que Deus permite isso?
- Deus nos dá a liberdade de acção a cada minuto.
Toda vez que você age está mandando mensagens para o universo, que vai responder de acordo com o que foi feito.
É claro que toda acção negativa, como também as positivas, tem seu retorno inadiável.
Por isso é bom agirmos sempre com honestidade, amor, paciência, fazendo o bem.
Assim estaremos plantando flores em nosso caminho que desabrocharão no tempo certo.
Hortência não poderia mais abortar depois de ter escutado tudo aquilo. Ainda perguntou.
- E a mulher que aborta fatalmente sofrerá tanto assim?
Ela não pode trabalhar isso de outra maneira?
- Sim. Mas para isso é necessário uma mudança grande, que geralmente não acontece.
É preciso receber outros espíritos, cuidá-los com amor ou adoptar crianças carentes de lar e protecção.
Pode ser que venha a receber espíritos muito endurecidos, primitivos, viciados, para que, recebendo o amor dessa mãe, possam mudar e conhecer o bem.
Para a mulher que se redime, a tarefa é árdua.
Deverá ser mãe devotada, amorosa, dedicada a criar os filhos de acordo com as leis universais.
Mesmo assim, como o ato do aborto lesou seu perispírito, é provável que ainda tenha problemas de saúde para se reequilibrar.
- É por isso que há tantas mulheres com problemas no aparelho reprodutor?
- Muitas sim.
As doenças no aparelho reprodutor feminino podem ser consequências de abortos praticados nesta ou em outras existências físicas, como também podem ser o resultado de uma vida sexual desregrada.
O sexo é para ser usado com amor e respeito, pois é expressão divina.
Diva e Hortência continuaram conversando.
Até que, vencidas pelo sono, foram dormir.
Restava agora esperar o dia seguinte, que iria confirmar ou não a gestação que, pela mãe, já estava sendo muito desejada.
No outro dia pela manhã, Hortência levantou-se e saiu sem se alimentar, alegando que o faria no hotel.
Foi a um laboratório e pediu o exame de sangue específico para descobrir se esperava mesmo uma criança.
A atendente a olhou com ironia, pois a conhecia e deveria saber do seu provável envolvimento com o patrão, já que todos na cidade comentavam à boca pequena.
Ao sair, pediu urgência no resultado, que queria para o mesmo dia.
Ao chegar ao hotel, deparou-se com Douglas, que ia entrando.
Encararam-se, trocaram palavras formais e cada um foi para o seu serviço.
Durante todo o tempo ela não conseguia se concentrar.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 08, 2017 7:50 pm

O que faria se realmente estivesse grávida?
Será que ele a iria apoiar ou pediria que abortasse a criança?
O que sua mãe faria com ela?
Essas perguntas a perturbaram, e ela sentiu uma tontura.
Ao perceber, Mónica indagou:
- O que você tem?
Está muito pálida.
Sente-se mal?
- Sim, Mónica.
Não me alimentei bem hoje pela manhã, talvez seja isso.
- Mas você já lanchou que eu vi.
Será que está com problemas de saúde?
De repente, ela tentou ganhar forças.
Mónica não poderia desconfiar do que estava realmente acontecendo.
Apoiou-se numa cadeira e sentou-se, dizendo:
- Tenho estudado até altas horas depois que retorno da faculdade.
Durmo pouco.
Talvez meu corpo não esteja aguentando mais esse ritmo.
Mónica tornou com ironia:
- Principalmente às quintas-feiras, que você sempre chega mais tarde, não é?
Hortência corou.
- Chego no horário de sempre.
É que às vezes não consigo o ônibus no mesmo horário em que deixo a faculdade, tenho de pegar outro que passa uma hora depois.
Nossa, o povo daqui está a cada dia mais especializado na vida alheia, e você não fica atrás, hein?
- Só quero ser sua amiga e volto a lhe avisar que está indo longe demais.
Não sei como Amanda até hoje não descobriu o que se passa entre você o marido dela.
Todos na cidade comentam.
Hortência sentiu-se frágil naquele momento e chorou.
Não deu largas a conversas e avisou que ia para casa, não estava se sentindo bem.
Pegou seus pertences e saiu.
Uma vez em casa, Diva assustou-se com sua palidez:
- O que aconteceu?
Você está parecendo um fantasma.
- Acho que estou mesmo grávida.
Hoje, depois que fiz o exame, tomei um café reforçado no hotel, mas pouco tempo depois senti uma tontura, um enjoo...
Este exame é até desnecessário, só vai comprovar algo que já sabemos.
Diva empalideceu.
Não sabia o que ia acontecer quando Lúcia e Amanda descobrissem aquilo.
Se pudesse, tiraria Hortência da cidade, fugiria com ela e nunca mais a deixaria voltar.
Mas era irremediável, só havia uma maneira: enfrentar as consequências.
Abraçou aquela que considerava sua filha, dizendo com amor:
- Precisamos estar calmas.
Sinto que uma tempestade vai desabar nesta casa e precisamos ser fortes.
Ninguém sabe a surpresa que sua mãe estará preparando para hoje à noite.
Seja qual for o resultado do exame, deve ficar calada.
Na hora exacta daremos um jeito de dizer com menos transtornos.
Hortência continuava tonta e resolveu deitar para relaxar o corpo.
No período da manhã, em alguns sábados, sua mãe e Aída trabalhavam, e ela deu graças a Deus por estar sozinha com Diva.
Não sabia o que aquelas duas poderiam fazer vendo-a naquele estado, principalmente Aída, que estava a par da situação.
Ela não voltou mais ao hotel naquele dia, deixando Douglas nervoso e preocupado.
Era fim de semana e eles não poderiam se encontrar.
No fim da tarde, ao buscar o exame e constatar a gestação, não sabia se chorava ou se sorria, apenas pedia a Deus que a amparasse no que estava por vir.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 08, 2017 7:51 pm

18 - O FILHO DA LUZ
Voltando um pouco no tempo, dias antes de Hortência iniciar sua gestação, vamos encontrar três espíritos reunidos numa ampla e arejada sala dentro de um prédio da Colónia Nosso Lar.
Uma senhora de aspecto jovial, sorriso delicado, olhava para um belo rapaz que, acompanhado por um senhor, a ouvia atentamente.
- Mateus, a cada instante a hora do retorno se aproxima.
Sei que se sente preparado para a missão que terás de desempenhar na Terra, missão essa de elevada importância.
Conhecemos o plano de luz onde estavas estudando, e por isso mesmo confiamos que a educação do mundo em nada vai te influenciar.
Estás pronto. Deus confia em ti.
O jovem de rara beleza levantou-se e, com os olhos brilhando, exclamou:
- Sei disso, Madalena, além de tudo não estou sozinho, terei a companhia elevada do mentor Osíris.
Nascer na Terra é, de facto, uma grande responsabilidade, temos de contribuir para esse planeta tão maltratado por nossos irmãos menos esclarecidos, enfrentar a pressão da sociedade, ser nós mesmos.
Se, de facto, desejo cumprir essa tão sagrada missão à qual o Pai celeste me confiou, devo renunciar aos ditames do certo e do errado, dos preconceitos e da ignorância que vou encontrar por lá.
Osíris, até então calado, manifestou-se:
- Mateus tem consciência de que tudo acontece de maneira certa, e que na hora exacta irá para sua verdadeira mãe.
Madalena aquiesceu:
- Exactamente.
Você será gerado em um ventre, mas sua mãe verdadeira é outra.
Sabe que o que ela provavelmente vai fazer não é o mais adequado, mas está dentro do nível de evolução que ela possui, não podemos condená-la.
Ela vai aprender a amar de verdade por sua causa, mudará o rumo da própria existência, poderá se libertar do mal.
Mateus completou:
- Ela vai renascer espiritualmente.
O que temo é o sofrimento que ela vai causar àquela que vai me gerar.
Preferia nascer num ambiente miserável, ser deixado num orfanato para que Amanda me adoptasse depois.
Seria o mais sensato.
- Mas você sabe que os imperativos da vida maior coexistem com o livre-arbítrio das criaturas.
Ninguém poderá impedir o que Amanda vai fazer, ela tem a liberdade.
E o que o atraiu a nascer em outro ventre é um compromisso do pretérito, uma necessidade de reajuste.
No entanto, mesmo da maldade a vida vai fazer surgir um bem.
Você só tem com Hortência uma paixão de muitos séculos que já foi sublimada e terá agora os laços de sangue, mas sua verdadeira mãe será Amanda.
Mateus levantou e pegou uma pasta, abriu-a e mostrou aos dois companheiros dizendo:
- Tenho tudo isso gravado no subconsciente, sei que conseguirei.
- Essa é sua maior missão - tornou Madalena.
Dela dependem muitas vidas na Terra.
Como médico dedicado que será, guiado pelas hostes da luz, vai fazer o que muitos há anos não conseguiram.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 08, 2017 7:51 pm

- Às vezes temo fracassar.
Muitos profissionais da medicina têm falhado na missão que escolheram, em nome do dinheiro e da posição social.
- Deus não confia uma missão desse porte a um espírito que possa falhar.
Esse seu medo se dá pela aproximação das energias do mundo, pela proximidade da reencarnação.
Eu estarei ao seu lado como mentor e sempre encontrarei uma forma de deixá-lo no caminho recto.
Assim como aprendeu em seus estudos, sabe que não existem erros nem acertos, apenas espíritos em aprendizado e evolução para Deus.
O que sempre conta são as intenções de cada um.
Infelizmente, a doutrina Cristã, mal compreendida pelos homens, criou a noção de pecado, céu e inferno.
Aqui sabemos que não existe nada disso.
Não há com que se preocupar, quando chegar a hora você estará preparado e beneficiado pela intuição.
Agora, siga com Osíris para os últimos preparativos, estarei aqui orando por você.
Mateus despediu-se e saiu com seu mentor.
Madalena foi para sua escrivaninha e ficou a meditar.
"Enquanto todos estarão condenando a relação de Douglas e Hortência, numa demonstração de ignorância quanto às leis eternas, o Criador estará abençoando mais uma porta que se abre para a reencarnação de um filho seu, um filho da luz.
Temos muito o que aprender, muito."
Depois de meditar um pouco mais, foi dedicar-se a outras tarefas envolvendo aqueles que estavam de regresso ao corpo de carne.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 08, 2017 7:51 pm

19 - AMOR DE MÃE POSTO À PROVA
A noite de sábado foi chegando e Hortência viu-se obrigada a se arrumar mais que o habitual, pois sua mãe a avisara que receberiam uma importante visita.
Ela estava particularmente nervosa.
Não sabia o que Lúcia estava querendo com aquilo tudo, nem tinha noção de como contar para ela que estava esperando um filho de um homem comprometido.
Um carro parou ao portão e, com alegria, Lúcia foi recepcionar o visitante.
Ao vê-lo entrar, Hortência teve uma desagradável surpresa:
- Gustavinho?
O que faz aqui?
- É assim que você recebe um colega? - disse Lúcia envergonhada.
Gustavo era filho do reitor da universidade em que a filha estudava e era muito rico.
Bonito, alto, corpo atlético, era muito requisitado pelas garotas.
No entanto, só tinha olhos para Hortência.
Declarava que só a ela entregaria seu coração.
Ao saber, Lúcia procurou estreitar os laços de amizade e ficou sabendo que ambos estudavam o mesmo curso, mas em turnos diferentes.
Entre uma conversa e outra, o convidou para ir à sua casa tentar uma melhor aproximação com sua filha, pois sabia que Hortência o havia rejeitado inúmeras vezes.
- Não estou tratando mal o Gustavo, mas é que fiquei surpresa, nunca poderia imaginar que a visita ilustre fosse ele.
Vamos nos sentar.
Diva e Aída se apresentaram e ofereceram refresco.
Hortência questionou:
- Qual o motivo dessa sua vinda aqui?
Sei que seu pai não o deixa sair sozinho de carro, muito menos à noite, hora que você deve estudar.
- Na verdade, sempre quis estreitar o laço de amizade entre nós, mas você nunca me deu chance.
Então aproximei-me de dona Lúcia e pedi uma chance de poder frequentar a casa de vocês, ser amigo de verdade.
Hortência percebeu o jogo da mãe e levantou-se, dizendo entre dentes:
- Então era isso, mamãe?
A senhora pensou que algum dia poderia me aproximar do Gustavo para um envolvimento, um namoro?
Está muito enganada.
Fui sincera com ele desde a primeira vez que demonstrou interesse por mim.
Peço que se encerre esta visita ridícula.
E peço, mamãe, que não se intrometa mais em minha vida.
Vou escolher o homem que eu gostar para me envolver, e Gustavo não é esse homem.
Vou me retirar.
Num ímpeto violento, Lúcia agarrou o braço da filha e, num empurrão, a fez sentar-se novamente.
- Não pense que pode falar comigo nesse tom, muito menos na frente de um colega.
Gustavo gosta de você, quer lhe proporcionar um relacionamento sério, pensa em casamento.
Tem o meu consentimento, e assim será.
Hortência riu:
- A senhora pensa que estamos em que século?
Estamos em 1989, e não há cem anos.
Nem a senhora, nem ninguém pode decidir minha vida.
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Ave sem Ninho

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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 08, 2017 7:51 pm

Virando-se para Gustavo, disse:
- Não alimente ilusões a meu respeito, meu coração pertence a outro.
Não se exponha a uma situação como essa.
Você pode ser feliz com outra pessoa.
Os olhos de Gustavo brilharam rancorosos:
- Sei muito bem a quem seu coração pertence.
Pensa que não andei investigando?
Sei de tudo, e acho que é hora de sua mãe saber.
Não é justo que seja enganada.
Lúcia empalideceu.
O que será que estava acontecendo com sua filha que ela não sabia?
Pelo tom de Gustavo, era algo grave.
Hortência não namorava, não demonstrava interesse pelos homens da faculdade ou da cidade.
Não! Não podia ser.
Sua filha não poderia ser homossexual.
Se isso fosse verdade, preferia vê-la morta.
A esse pensamento, vociferou:
- Vamos, Gustavo, conte tudo.
Não posso ficar sem saber o que está acontecendo.
Vamos, estou esperando.
Hortência estava gelada.
Sentia que havia chegado a hora da verdade.
Diva, que a tudo ouvia da outra sala, entrou e interrompeu:
- Gustavo, você não vai falar nada.
Você não tem certeza do que dirá.
Não se fala as coisas por leviandade.
Seu pai deve tê-lo ensinado quanto a isso.
Lúcia percebeu que Diva também sabia o que estavam querendo lhe ocultar.
Num acesso de cólera, esbofeteou a sobrinha, que caiu de mau jeito sobre o sofá.
Puxando seus cabelos, Lúcia esbravejava:
- Você sabe, sua traidora, sempre notei cumplicidade entre vocês.
Agora quem vai falar é você ou não responderei por mim.
- Solte a Diva, mãe - gritava Hortência desesperada.
Lúcia soltou a sobrinha e, percebendo que fora além, parou e começou a chorar.
Hortência notou que a intuição de mãe dizia a Lúcia que era algo sério.
Sentou ao seu lado, acariciou seus cabelos e disse:
- Mãe, chegou a hora de dizer a verdade.
A senhora precisa saber.
- Quem irá contar à sua mamãezinha sou eu.
Não acha mais interessante?
De repente, todos se voltaram para a Amanda, que acabava de entrar na casa acompanhada por Rose.
Lúcia levantou e, sem entender o que aquela mulher excessivamente arrumada queria em sua casa, questionou:
- Mas o que é isso aqui?
O que você deseja, Amanda?
- Vim lhe contar uma história muito interessante e também mostrar umas fotos.
Lúcia estava aturdida.
- Fotos? De quê?
De quem?
- Dona Lúcia, é melhor a senhora sentar-se novamente.
Pelo que ouço falar de seu temperamento, pode ter infarto ao saber o que tenho a dizer e ao ver o que vim fazer aqui.
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Ave sem Ninho

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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 08, 2017 7:52 pm

- Ande logo, não vou sentar, conte o que sabe! Já!
Hortência e Diva choravam abraçadas.
A situação era deprimente.
Amanda, com ódio, esbracejou:
- Sua querida filha está tendo um caso com meu marido há muito tempo.
Como a senhora, que é uma mãe tão zelosa, não viu isso?
- Como? Com seu marido? Impossível - disse tremendo.
- Isso mesmo que a senhora ouviu.
Sua filhinha está se encontrando todas as semanas com Douglas, enquanto a senhora pensa que ela está sentadinha assistindo às aulas.
Onde estava que não percebeu que sua filha não passa de uma prostituta?
Lúcia não conseguia acreditar no que ouvia.
Virou-se, pálida, para Diva e sem querer ouvir a resposta perguntou:
- Diva, em nome de tudo o que fiz por você, não negue.
Isso é verdade?
- Sim. Sua filha ama o Douglas.
O amor dos dois é sincero.
A senhora terá de aceitar. Hortência já é adulta e estou do lado dela.
Amanda virou-se:
- Duas prostitutas numa mesma casa.
Era de se esperar.
Mas a senhora, dona Lúcia, pode ir comprovando tudo isso com essas fotos enquanto eu faço minha parte - jogou sobre Lúcia um envelope e partiu com violência para cima de Hortência.
Rose a ajudava, segurando-a para que Amanda desferisse-lhe tapas e puxões de cabelo.
Diva e Gustavo tentavam ajudar e, com toda a força, conseguiram separá-las.
Quando viu-se longe da rival, Amanda, sorrindo diabolicamente, sacou um revólver exclamando colérica:
- Chegou seu fim, sua meretriz!
Num átimo, Diva atravessou à frente gritando:
- Não faça isso!
Ela está grávida.
Amanda parou, foi ficando pálida, tonteou e desmaiou.
Rose a amparou, tentando fazer com que acordasse. Em vão.
A sala simples da casa de Lúcia havia entrado num clima pesado.
Ela olhava as fotos da filha beijando Douglas, filho de sua melhor amiga, fotos provavelmente tiradas por um detective, e chorava copiosamente.
Nunca esperava que a filha fosse fazer isso com ela.
Resolveu reagir:
- Gustavo, você que está com carro, leve essas duas loucas daqui.
Não as quero em minha casa.
- A senhora não vê que uma delas está desmaiada?
- Ela ia matar Hortência.
É uma mulher perigosa e, assim como essa aí, é uma desequilibrada. Por favor, leve-as.
Rose encolerizou-se:
- A senhora me respeite.
Desequilibrada aqui é sua filha, não sou eu que estou tendo um caso com um homem casado e, muito pior, grávida.
O que a senhora pretende fazer diante de tudo isso?
Lúcia levantou-se e a esbofeteou:
- Saia já daqui.
Amanda parecia não acordar e foi com dificuldade que conseguiram colocá-la no carro de Gustavo, que deu partida e saiu.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Dez 08, 2017 7:52 pm

Quando ficaram a sós, Lúcia notou que Hortência chorava e tremia nos braços de Diva.
Aída foi logo de aproximando:
- Se a Diva não revelasse a gravidez, Hortência estaria morta.
Eu também sabia de tudo, mas não podia contar, achava que a senhora iria sofrer.
Lúcia respondeu colérica:
- Até você me traiu, Aída?
Duas traidoras que eu alimentei, eduquei?
Aída baixou a cabeça constrangida, não queria ficar mal com a tia.
- Calei-me pelo bem de todos.
Depois, a Diva era a confidente da Hortência e a apoiava em tudo.
Se sua filha está grávida agora a culpa é dela.
Olhando para Hortência, Lúcia exclamou:
- Maldita!
Como você pôde, em poucos segundos, destruir um sonho que alimentei durante toda a minha vida?
Quando olhava para você pequena, imaginava que seria meu orgulho, que iria encontrar um bom homem, ter família, sair desta miséria.
Pensei que teria um destino diferente do meu.
Já vi que esqueceu tudo o que ensinei sobre moral, sobre os homens.
Você acha que Douglas vai querer esse filho?
Que vai deixar o lar para viver com você?
Responda-me, sua maldita!
Hortência, por entre soluços, balbuciou:
- Acho que a senhora nunca amou na vida.
Não entende que nós não pedimos para gostar das pessoas, simplesmente acontece.
Se fez sonhos sobre mim não tenho culpa, nunca disse que seria a filha maravilhosa que a senhora sempre sonhou.
O que posso afirmar é que amo Douglas e que ele também me ama.
Vou ter esse filho, custe o que custar.
- Não, não terá.
Essa criança não é bem-vinda e deverá ser abortada.
Amanhã mesmo a levarei a uma conhecida para que ela faça o trabalho.
Gustavo gosta de você e ainda tenho esperanças de que se case com ele.
Só não vai acontecer com você grávida de outro, portanto, terá de abortar.
Ao ouvir aquilo, Diva se horrorizou:
- Eu não vou deixar isso acontecer.
Nem que para isso tenha de tirar Hortência desta casa.
- Eu não vou abortar meu filho.
Mãe, por favor, tenha piedade.
- Não posso ter piedade de um filho nascido de uma relação como essa.
- E quanto a mim?
De onde vim?
Esqueceu que até hoje não sei quem foi meu pai?
A senhora diz que ele morreu, que foi um namorado de juventude, mas nunca vi sequer uma foto.
Não pode falar de mim, a senhora é mãe solteira.
Aquelas palavras calaram Lúcia.
Como explicar que o pai de Hortência era também um homem casado, a quem ela muito amou e não foi correspondida?
Ela foi uma jovem feliz, sonhadora, mas a paixão da juventude, a relação que tivera e depois o abandono a transformaram naquela criatura incapaz de amar.
Lúcia julgava que a vida a tinha deixado daquele jeito.
Desde que foi abandonada, nunca mais fora feliz.
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Re: Sem medo de amar - Hermes / Maurício de Castro

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