NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

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NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 17, 2017 8:40 pm

NADA É PARA SEMPRE
Psicografia de Maurício de Castro

Pelo espírito Hermes

Este livro é dedicado a duas pessoas especiais:
Leonardo Rásica - escritor e amigo do peito
Denner Evair - a quem considero mais que um filho, um verdadeiro presente divino.
Que Deus possa iluminar suas vidas!

PREFÁCIO
Nada descreve a honra com que recebi o convite para fazer um breve prefácio a este novo livro de Maurício de Castro, NADA É PARA SEMPRE.
Já o conheço de outros tempos e de outras obras e foi, portanto, com muito entusiasmo que soube que mais um livro seu seria publicado.
Desta vez o promissor escritor, através do espírito Hermes, brinda-nos com um envolvente romance sobre um dos temas mais universais e intrigantes da História da Humanidade:
o aspecto transitório e efémero das condições e situações humanas, e sua correlação com o materialismo - quanto mais algo é puramente material, maior sua fragilidade frente aos reveses do tempo.
A história de Clotilde - mais tarde Isabela - é um perfeito exemplo desta transitoriedade:
da vida miserável de favela à prostituição de luxo, aos confortos de esposa de um bem-sucedido político; do amor materno e incondicional aos impulsos que a impelem aos actos mais hediondos, tudo parece mutável e passageiro na existência dessa personagem que um dia jurou vingança contra as humilhações e violências que sofreu no início de sua juventude, antes de se tornar Isabela.
Para a jovem Isabela, desnorteada pela dor e pela miséria e seduzida pelas promessas de dinheiro fácil e abundante de uma suspeita "Madame", o valor de um ser humano na sociedade parece ser ditado unicamente pelo que a pessoa tem de material, e assim ela promete a si mesma se tornar rica e poderosa, sem pensar no quanto isso poderá lhe custar à alma.
Espíritos vingativos, que a perseguem desde existências prévias, tornam ainda mais densa a trama.
Os valores equivocados de Isabela, infelizmente, parecem ser a regra na sociedade de hoje em dia.
O aspecto espiritual é negligenciado, e a religião da maioria se converte em uma perigosa ilusão:
a ilusão do dinheiro, e de tudo o que ele pode comprar-mansões deslumbrantes, carros potentes, roupas de luxo, poder, privilégios e até mesmo a beleza, talentosamente confeccionada pelas mãos de cirurgiões regiamente pagos.
Tudo ilusão, tudo transitório...
A ascensão que o dinheiro parece proporcionar é falsa e enganosa, é uma ladeira quê temos a impressão de estar subindo, enquanto, na verdade, não saímos do lugar.
É como aquela personagem de fábula, que corre atrás da lua, e em sua ingenuidade crê que se aproxima dela mais e mais, esgotando-se em uma obsessão louca e equivocada.
Assim são todos os que guiam suas vidas pela ambição das "riquezas" mundanas, sem suspeitar que toda a fortuna, o poder e o prestígio alcançados por um homem podem desabar como um castelo de cartas ao menor sopro do destino.
Algumas vezes, apenas uma mudança assim pode fazer com que essas pessoas percebam o essencial:
que a única riqueza que existe é a da alma, e que a única ascensão possível é a espiritual.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 17, 2017 8:41 pm

Somente então se percebe que os verdadeiros degraus para a legítima ascensão - o aperfeiçoamento espiritual — estão em conceitos como o amor incondicional, a abnegação, a responsabilidade pelos próprios actos, o respeito aos outros e a si, a humildade, a fraternidade...
Conceitos que nada tem a ver com a dimensão material, especialmente em um mundo como o que vivemos hoje, em que tudo muda tão rapidamente e onde NADA É PARA SEMPRE.
Estou certo de que o leitor, após ter o prazer de acompanhar cada reviravolta do interessante relato com o qual nos presenteiam Hermes e Maurício de Castro terminará este livro um pouco mais rico, mas em moedas que realmente contam:
a sabedoria e a iluminação espiritual.

Boa leitura!
LEONARDO RÁSICA, ESCRITOR.

SUMÁRIO
Prólogo


1 A visita
2 Uma proposta das trevas
3 Entre o bem e o mal
4 A primeira vítima
5 Uma vida destruída
6 Uma inimiga
7 Orientações
8 Adquirindo compromissos
9 A descoberta de Flaviana
10 Plano sórdido
11 À hora da vingança
12 De volta a antigos hábitos
13 Na Mansão de Higienópolis
14 A morte se aproxima
15 Encontrando a espiritualidade
16 De volta ao mundo maior
17 Intriga
18 A nova realidade
19 Conhecendo a verdade
20 O bem é mais forte
21 De volta para casa
22 Renúncia
Epílogo
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 17, 2017 8:41 pm

PRÓLOGO
Numa tarde chuvosa e fria, uma mulher jovem de miserável aspecto, com o filho pequeno nos braços e uma sacola de sujo tecido nas mãos, tenta esconder-se da intempérie da chuva por entre as casas em construção daquela rua.
Finalmente encontra um tecto e deita-se ali com o filhinho de bruços sobre sua barriga.
No íntimo sente-se aliviada, pois nesse exacto momento a chuva aumenta com toda a sua força.
A criança de meses, sem ter sequer um ano completo, alheia a tudo que se passa, olha para a mãe e sorri.
Em sua inocência não avalia a dor pela qual ela passa vendo o filho naquela indigência.
Fazia muito tempo que Clotilde passava o dia a esmolar pelas ruas.
O barraco em que vivia era paupérrimo.
Possuía poucos parentes que, em situação igual à dela, não poderiam ajudá-la.
Difícil mesmo tinha ficado depois da gravidez, indesejada, por sinal.
Na favela onde morava era praticamente um "cão sem dono", e assim ficou fácil ser estuprada por Juvêncio.
Homem forte e asqueroso, integrante de um grupo de marginais, rapidamente pousou sobre ela os olhos e só se aquietou quando a tomou à força e a violentou sexualmente.
Ao descobrir-se grávida, Clotilde pensou que estava em pesadelo; procurou o brutamontes, que questionou a paternidade da criança e ainda a espancou.
Pensando em aborto, cogitou concretizá-lo.
Acertou tudo com uma amiga.
Esta ia levá-la a uma mulher que fazia uma beberagem fatal, quando uma noite mudou todo o seu plano.
Ainda sentia as fortes emoções daquele sonho.
Lembrou-se de quando adormeceu e sonhou que estava num campo verde e vasto, quase infinito.
Sentiu medo por estar em um local deserto, apesar da beleza.
Porém, de repente, uma doce figura de mulher apareceu num clarão:
— Clotilde, que Deus a abençoe e proteja!
Assim como lhe disse da última vez, cumpro minha promessa.
Estou aqui pronta para ouvi-la.
Ela não reconheceu de imediato, mas a cabo de poucos segundos deu um grito:
— Diana! Minha amiga querida!
Como tudo isso foi acontecer comigo?
Desabou no chão chorando convulsivamente.
— Não mereço! Sempre fui tão boa!
Diana, espírito lúcido e já bastante evoluído, esclareceu:
— Sempre merecemos tudo por que passamos.
Na lei divina tudo está certo sempre.
Já se esqueceu do que estudou connosco?
Ela pareceu se revoltar:
— Aqui volto a me lembrar, porém lá esqueço.
Ademais, acho o fardo muito pesado, não vou resistir, vou sucumbir mais uma vez!
Diana sorriu:
— Sente-se um pouco nesta grama.
Não vim aqui para vê-la chorar dessa maneira.
Ninguém está sozinho ou desamparado pelo Pai.
Ele jamais nos dá provas maiores do que possamos suportar e vencer.
Estou aqui para ajudá-la e comigo há um grupo de amigos que a assistirão na crosta.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 17, 2017 8:41 pm

— Então é mesmo a hora de Thierry voltar?
Não seria mais tarde?
Afinal, ainda não estou preparada, e o acto do estupro foi traumatizante.
O ser angelical elucidou:
— Sim, Thierry vai voltar, assim como prometeu, para estar a seu lado, equilibrando-a nas horas mais difíceis do seu reajuste.
Mas não é só, ele também muito errou contigo naquela experiência na França.
Tanto é que não lograram viver num plano de regeneração e tiveram de vestir novamente a carne da Terra, esse mundo de desafios, para assim continuarem o aprendizado.
— Sei disso, mas é difícil me conformar.
Por que fui errar daquela maneira?
— Só se erra por ignorância.
Se você soubesse o que iria lhe acontecer naquele momento, jamais agiria da mesma forma, por isso não se condene.
Retorne a Terra e abrace a responsabilidade que assumiu consigo mesma.
Infelizmente teve de ser por meio de um estupro, mas Thierry estaria com você de uma maneira ou de outra.
Volte e fique com Deus!
A mulher deu-lhe um abraço terno e desapareceu envolta no mesmo clarão que a fez surgir.
Clotilde acordou chorando, um pranto dolorido e aliviado ao mesmo tempo.
Despertando de seu devaneio, ali naquela casa em construção, olhando a chuva impertinente, ela percebeu o quanto fora feliz em sua escolha e como aquele sonho a havia ajudado.
Se não fosse por ele, talvez Daniel não estivesse ali naquele momento, enchendo sua vida de encanto e alegria.
Aquela frase:
"Abrace a responsabilidade que assumiu consigo mesma" ficou em sua mente, e foi ela quem a fez no dia seguinte desistir do aborto.
A chuva parou e ela percebeu que já era tarde e não poderia mais esmolar naquele dia.
O pouco que conseguira dava para ela, mas e Daniel?
O que iria comer naquela noite?
Seguiu em direcção à favela com essa preocupação em mente e, ao subir o morro, uma mulher esbaforida veio ao seu encontro:
— Corre Clotilde.
Começou um incêndio na favela e seu barraco está em chamas.
Acho que não sobrou nada!
— Meu Deus, que horas começou isso?
— Não sei direito, mas o fogo consumiu tudo muito rápido!
Clotilde tentou se apressar, porém, ao chegar perto, percebeu que de sua casa nada sobrara.
Entregou Daniel nos braços de Shirley e começou a chorar copiosamente.
Seu barraco era sua dignidade.
Mesmo feio e feito de madeira, era a maneira de dizer a si mesma que tinha algo de seu.
Naquela noite, Clotilde foi pedir abrigo na casa da mãe.
Lá alimentara Daniel com um mingau sem nenhuma substância nutritiva, e o resto da noite não conseguiu dormir de tanto chorar.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 17, 2017 8:41 pm

1 - A VISITA
O dia amanheceu nublado e as nuvens encobriam os raios solares.
Clotilde acordou cedo, providenciou a parca alimentação para o filho e sentou-se em frente do barraco de sua mãe, recomeçando a chorar.
Tinha pouco mais de vinte anos e já sofria amargamente sem nunca ter feito mal a ninguém.
Sua infância triste, em meio aos tiroteios e às guerras contra o tráfico de drogas na favela, a tinha transformado numa adolescente melancólica e sem expectativas.
Desde pequena saía às ruas para pedir esmola com a mãe e sentia no rosto das pessoas todo o desprezo por gente como ela:
pobre e com pouco estudo. Se muitos davam de bom grado um pedaço de pão, um punhado de açúcar ou farinha, outros batiam a porta ou viravam o rosto em desagrado.
Como a vida era difícil!
Estava assim concatenando as ideias quando sua mãe, Lourdes, uma senhora idosa, gorda, de cabelos desgrenhados, saiu à porta e se dirigiu a ela.
Sentadas sobre um tronco de árvore sem vida, elas começaram a dialogar:
— E, filha, a vida é ruim e cheia de problemas para todos nós.
Quando você quis morar sozinha, não me intrometi, mas avisei dos perigos que ia passar, vivendo só com o Daniel.
Seu corpo é belo de formas, e os brutamontes daqui são violentos.
Todos os dias eu rezo para que não lhe aconteça de novo o que houve com o Juvêncio.
— Nem fale mãe.
Nem eu, nem a senhora merecemos a vida que levamos.
Depois de ter o Daniel foi que pude perceber o quanto preciso dar a ele uma vida melhor.
Não quero viver neste morro para sempre.
— Não sonhe minha filha. Sabe que isso é impossível.
Quem nasce pobre, morre pobre.
Siga os conselhos desta mãe velha que lhe fala.
Tudo que queremos, não conseguimos.
Veja o que aconteceu com seu pai.
Morreu de doença ruim na boca, aquela ferida que não cicatrizava e aumentava a cada dia.
Ninguém veio nos ajudar, nem mesmo Deus se valeu por nós.
Às vezes duvido da sua existência!
Nesse momento, um grupo de pessoas com sacolas nas mãos subia vagarosamente o morro.
Eram três mulheres de meia-idade.
Atrás delas, um carrinho de mão vinha empurrado por mais dois moços.
Aproximaram-se das duas, e uma mulher questionou:
— Foi nesta área da favela que houve um incêndio ontem?
Vimos pela televisão, mas não temos certeza da rua.
As senhoras podem nos informar?
Clotilde levantou-se:
— O incêndio foi na fileira de casas onde eu morava.
Do meu barraco não sobrou nada.
Mais de vinte casas foram destruídas pelo fogo.
Se quiser, posso lhes mostrar.
— Aceitamos, sim.
Fazemos parte da assistência social do Centro Espírita Maria de Nazaré e ontem, quando vimos o incêndio, nos reunimos, juntamos alguns mantimentos e viemos para ajudar.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 17, 2017 8:42 pm

Se as pessoas aceitarem, podemos nos reunir e ler o Evangelho.
O que você acha?
Lágrimas escorriam no rosto de Clotilde:
— Acho que todos vão aceitar.
Somos muitos carentes e não estamos em condições de rejeitar nada.
Nossos poucos mantimentos se consumiram junto com o fogo; foi terrível!
— Eu me chamo Neide, e elas são Jane e Cláudia.
Os rapazes são Mário e Lucas.
Agora, vamos para a rua?
Lourdes, meio desconfiada, seguiu com eles para ver o que iria acontecer.
Ao chegar ao local, todos perceberam que a situação era desoladora.
Se Clotilde teve a casa da mãe para se abrigar, muitos outros vizinhos com filhos pequenos não tiveram abrigo e foram forçados a dormir ali mesmo, pelo chão.
Felizmente ninguém morrera.
Clotilde anunciou os visitantes:
— Esse é o pessoal do centro espírita que veio nos ajudar.
Viram ontem pela tevê o incêndio e se apiedaram de nós.
Quem aceitar a ajuda deve se aproximar.
Imediatamente todos vieram, uns chorando, outros agradecendo.
Lucas perguntou se eles podiam ler um trecho do Evangelho segundo o Espiritismo e comentá-lo.
Todos aceitaram. Abrindo ao acaso, viu-se a seguinte mensagem:
"O que é preciso entender por pobres de espírito".
Após lê-la integralmente, Jane começou o comentário:
— Jesus nos disse que todos os pobres de espírito herdariam o reino dos céus.
Vejam bem, ele disse os pobres de espírito, e não os pobres de dinheiro, o que é bem diferente.
Pobre de espírito é todo aquele que tem o coração pobre de orgulho, de vaidade e de egoísmo.
Ao contrário do que se pensa pobre de espírito não é aquela pessoa sem cultura, sem dinheiro ou conhecimento, é, sim, todo aquele que procura se empobrecer das ilusões do mundo e se enriquecer dos ensinamentos de Deus.
E continuou:
— Amigos, não pensem que Deus se alegra em vê-los nessa situação infeliz.
Ele é sumamente bom e justo; dá a cada um de nós segundo nossas obras.
Existem outras formas de aprendizagem para todos aqueles que vivem a pobreza física.
Mas, para mudar o estado de coisas, é necessária a reformulação interior.
Vocês devem tomar conhecimento de que podem e merecem a felicidade e a fartura, de que podem e merecem evoluir sem o sofrimento.
Ao tomarem essa consciência, suas vidas se modificarão.
Jesus disse:
"Todo aquele que crê em mim, terá vida, e vida em abundância".
Uma mulher com o rosto marcado pelo sofrimento perguntou:
— Como podemos mudar esse estado de coisas, se não temos ajuda?
O governo não cumpre seu papel, não temos ninguém que se preocupe connosco.
Não concordo com o que a senhora diz.
Acho que Deus está omisso e não consegue dar conta de nós.
Jane sorriu:
— Garanto que está equivocada.
Nosso progresso não depende do governo ou de quem quer que seja; só depende de nós mesmos.
A prosperidade é uma questão pessoal, e não uma questão social.
Por isso não fazemos esse trabalho por assistencialismo.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 17, 2017 8:42 pm

Vamos à busca de quem realmente precisa e quer se ajudar.
Enquanto esperamos que os outros cuidem de nós com nosso egoísmo, esquecemos que estamos na Terra para aprender a enfrentar a vida com coragem e buscar a melhoria.
Todos, se quiserem, poderão fazer isso.
Não foi Jesus mesmo que disse que "A fé remove montanhas"?
Ouve um silêncio geral.
Jane prosseguiu:
— Não queremos confundir vocês, pois cada um aqui tem sua crença e sua fé, e não podemos impor nada a ninguém; apenas queremos a felicidade de todos e acreditamos em Jesus e nos ensinamentos da espiritualidade.
Se algo dito aqui os tocou, aproveitem.
Que Deus fique com todos.
Logo depois os farnéis foram distribuídos para as vítimas do incêndio.
Todos agradeceram à ajuda e o grupo avisou que voltaria mais tarde com roupas e outros utensílios.
Vendo aquela expressão de carinho, Clotilde não conseguiu se conter:
— Como ainda existem pessoas boas no mundo, não é, mãe?
— É verdade, mas são poucos.
A maioria das pessoas são ruins e maldosas.
Neste mundo onde vivemos só podemos esperar mesmo pelas coisas ruins.
— Credo, mãe.
Às vezes acho que as coisas más que nos acontecem vêm da senhora, sempre a agourar!
— Não agouro nada, menina, apenas digo a verdade.
Clotilde não discutiu e seguiu com a mãe para o barraco.
Colocou os mantimentos em cima da mesa e, de repente, uma onda de rancor a invadiu:
— Que miséria ter de depender da caridade alheia.
Só aceito por causa de meu filho. Se não fosse por ele, não queria nada disso aqui.
Dona Lourdes se indignou:
— Você deve é agradecer a Deus essa gente ter vindo aqui hoje.
Esquece que depois que seu pai morreu o dinheiro das minhas lavagens de roupa não dá para nada? Seus irmãos pouco ajudam.
Reze por esse povo que, mesmo fazendo parte de uma seita perigosa, veio aqui nos ajudar.
Clotilde calou-se e foi preparar o mingau.
Um dia ela sairia dali e todos iam ver quem ela era de verdade.
Após dar comida a Daniel, ela saiu a esmolar novamente.
Passou o dia, mas recolheu pouca coisa.
À noite, dividindo a cama tosca e malcheirosa com a mãe, ela adormeceu pensando em como deveria fazer para mudar de vida.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 17, 2017 8:42 pm

2 - UMA PROPOSTA DAS TREVAS
Novamente, após raiar o dia, Clotilde saiu pelas ruas de São Paulo caminhando lentamente com o filho a tiracolo.
Passou por algumas casas, pediu esmola e foi seguindo.
No final de uma bonita rua, nos Jardins, ela divisou uma senhora bem vestida sentada em um jardim muito verde e bem cuidado.
Lia um livro, que parecia ser a Bíblia, com muita atenção.
— Senhora, tem uma esmola para me dar, pelo amor de Deus?
A mulher olhou de soslaio para Clotilde e, de longe mesmo, respondeu:
— Passe aqui na sexta-feira.
Hoje não é dia de esmola! — Dizendo isso, concertou os óculos e voltou a ler.
Pelo espírito de Clotilde passou uma onda de raiva, e ela gritou:
— Será que a senhora é tão ruim a ponto de me negar uma mísera esmola?
Então para que ler esse livro e ser religiosa, se a senhora não é capaz de um ato de caridade?
A mulher se levantou enraivecida e revidou:
— E essa agora!
Uma pedinte ousando me desafiar.
Saiba que de pobres miseráveis já estou farta.
Saia de minha calçada antes que eu mande meu segurança colocá-la para fora.
Não confio em pessoas como você.
— Quem a senhora é para falar assim?
Só porque é rica, pensa que é a dona do mundo?
Eu a amaldiçoo.
Que a senhora termine os seus dias na pior das situações e que, quando morrer vá para o inferno!
As palavras de Clotilde, ditas com tanta energia negativa fizeram vibrar de ódio o espírito daquela mulher.
Com ódio, ela gritou:
— Ronaldo, Ronaldo, venha aqui agora!
De repente, um homem forte e de roupas escuras apareceu.
— Esta miserável ousou desafiar Augusta de Camargo e vai ter o que merece.
Dê uma surra nela.
Clotilde tentou correr, mas o peso do filho e os passos rápidos do homem a fizeram ceder.
Ele lhe puxou o filho, colocou-o no chão e a espancou.
Depois se retirou e entrou pelos portões da sumptuosa mansão.
Jogada no chão, Clotilde não sabia qual era a dor maior:
se a moral ou a física.
O certo é que naquele momento um ódio surdo por tudo e por todos brotou de seu coração e ela chorou mais de raiva do que de tristeza.
Pegando Daniel na calçada, saiu se arrastando pela rua.
Olhou a casa da senhora, que já estava longe e jurou em voz alta:
— Um dia voltarei para me vingar!
Maldita seja essa mulher.
A partir de hoje ninguém mais vai me maltratar.
Eu é que maltratarei, pisarei, prejudicarei e farei mal a todos os que encontrar pela frente.
Olhou para Daniel, que sorria e disse:
— Filhinho, você ainda será muito rico, e vou ensiná-lo a pisar, magoar e ferir as pessoas.
Juro que ninguém nunca vai humilhar você.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 17, 2017 8:43 pm

Nesse instante, sombras escuras se aproximaram de Clotilde.
Uma delas, que parecia a chefe do grupo, disse:
— Nosso trabalho foi perfeito!
Essa já está ganha.
Bastou um pouco de humilhação para ela ceder aos nossos impulsos e ainda vamos mais longe.
Muita atenção: a segunda parte do plano e a mais importante está por vir. Vamos lá.
Dizendo isso, o grupo de espíritos das trevas desapareceu chão adentro.
Clotilde andou sem rumo durante horas e Daniel começou a chorar.
Percebeu que o filho estava com fome e providenciou a alimentação.
Felizmente um senhor lhe cedeu um pouco de leite.
Ao alimentar o filho, ela percebeu que agora era seu estômago que clamava por alimento.
Sem ter o que comer, enfraquecida e humilhada, começou a chorar sentada no meio-fio.
Após algum tempo, notou que uma mulher excessivamente arrumada e com roupas de cores berrantes a fitava como que a vasculhar seus mais íntimos pensamentos.
— O que a senhora quer? — perguntou Clotilde com raiva.
A mulher de seus sessenta anos, percebendo a fúria em sua interlocutora, aquiesceu:
— Estava admirando você.
Uma moça tão bonita, de formas tão exuberantes, jogada em um chão como indigente.
Você não merece nem pode ficar assim.
Ao ouvir aquelas palavras Clotilde ficou feliz; pelo menos alguém a valorizava.
— É isso o que sou: uma indigente, sem dinheiro, sem casa para morar com meu filho e sem comida.
Como quer que eu esteja?
A mulher com muito traquejo sentou-se com ela e falou:
— Eu me chamo Aurélia, ou melhor, madame Aurélia, e quero ajudá-la.
Se aceitar minha proposta poderá morar comigo, e ainda levar esse bebé!
— Como? Não entendi.
Morar com a senhora?
Mas com que intenção me faz essa proposta?
Não sou o que a senhora está pensando; não me interesso por mulheres.
Madame Aurélia sorriu:
— Não é nada disso, sua bobinha.
Vou lhe revelar a verdade: tenho um bordel num bairro afastado daqui, mas que é frequentado por homens da estirpe paulistana.
Convivem comigo muitas moças que, assim como você, estavam em situação difícil e lá encontraram apoio.
Hoje recebem muito dinheiro pelo que fazem.
Ao observar seu corpo esbelto e seu rosto bonito, pensei logo:
essa é a menina que faltava para completar minha colecção de moças e suprir a falta da Julieta, que se casou.
Clotilde estava admirada com tudo o que ouvia e não conteve a pergunta:
— Uma prostituta se casou?
Após uma gargalhada, madame Aurélia respondeu:
— Isso mesmo.
É raro, mas acontece.
E com você pode até acontecer o mesmo.
Se aceitar, levo-a a um óptimo salão de beleza onde vai ficar mais bela e depois a ensino tudo sobre a profissão.
Porém, tenho de lhe explicar um detalhe:
você tem de me dar garantias de que é maior de idade, e terá de dividir seus lucros comigo.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 17, 2017 8:43 pm

No bordel entra muito dinheiro e é justo que eu fique com cinquenta por cento de tudo que você facturar.
Garanto que é muito dinheiro e que você não vai se arrepender.
Enquanto Clotilde pensava, os espíritos das trevas começaram a envolvê-la:
— Não vê que madame Aurélia é a única capaz de lhe tirar desse sufoco?
Ninguém até hoje a ajudou.
Ao contrário, todos a humilharam.
Depois, como prostituta você pode chegar a ser rica!
Vamos logo, aceite!
Cedendo à proposta, ela respondeu:
— A senhora tem razão.
Vou seguir seus conselhos.
Ainda hoje levei uma surra, fui humilhada e jurei que nunca mais ninguém ia me fazer Sofrer.
Quero, sim, ser rica, e vou conseguir isso usando o sexo e os homens.
Chega dessa vida ruim que só me faz sofrer.
As duas se levantaram e seguiram trocando ideias.
Quem tivesse vidência poderia enxergar um grupo de espíritos deformados abraçando as duas e lhes inspirando ideias.
Num canto da rua, Diana e mais dois companheiros estavam atentos:
— Nunca pensei que ela fosse ceder tão fácil à influência das trevas.
— Infelizmente ela cedeu, e não pudemos interferir.
Mais uma vez o livre-arbítrio nos impede a acção.
As criaturas são livres para agir tanto como são para pensar.
Diana concordou:
— Infelizmente, o apelo para a comercialização do sexo está muito difundido na Terra.
Os espíritos das trevas têm conseguido muitos seguidores no mundo, e Clotilde vai errar mais uma vez.
Vivendo em um bordel, ela estará se comprometendo ainda mais com as leis divinas e terá um penoso reajuste.
Um companheiro questionou:
— E madame Aurélia, vai continuar por séculos corrompendo consciências?
— Assim será, até que a dor venha visitá-la.
Toda pessoa que desrespeita o sexo, levando-o à comercialização, sofrerá as consequências danosas desse ato.
Infelizmente, na Terra isso vem acontecendo desde o princípio, sem que os homens aprendam à lição.
Agora vamos, companheiros.
Temos muito que fazer pela nossa irmã Clotilde, afinal, como disse Jesus:
"Não são os sãos que precisam de médicos, e sim os doentes".
Dizendo isso, seus vultos radiosos desapareceram na direcção do bordel onde Clotilde passaria a viver.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

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3 - ENTRE O BEM E O MAL
Madame Aurélia e Clotilde seguiram andando até um ponto de ônibus e alguns minutos depois desceram em Higienópolis.
Seguiram por uma rua residencial e, ao final dela, entraram numa mansão do início do século XX.
Madame Aurélia esclareceu:
— Ganhei essa casa de um político influente assim que comecei "na vida".
Até hoje moro aqui e mantenho o estilo, apenas fazendo algumas reformas.
Clotilde estava maravilhada com a beleza da casa e do jardim.
Seguiram por ele e entraram por uma pesada porta de madeira.
Ao penetrarem em um grande recinto, houve uma agitação geral.
As outras moças vieram para perto, umas admirando a beleza de Clotilde, outras questionando sobre ela e o bebé à cafetina.
— Parem de amolação.
Se querem saber, minha intuição estava certa.
Hoje pela manhã encontrei a substituta de Julieta; foi fácil e rápido.
Maria José, trabalhadora antiga da casa, inquiriu:
— Como à senhora a descobriu?
Pensei que tivesse saído às compras, como sempre faz pela manhã.
A senhora, quando quer buscar uma moça nova, sempre procura à noite no sinal.
A cafetina pareceu meditar, sentou num sofá e respondeu:
— Não sei o que me deu hoje pela manhã.
Ao acordar tinha a certeza de que se saísse encontraria alguém para o serviço.
Não costumo acreditar nisso, mas parece que tinha alguém do meu lado dizendo que eu deveria sair e que encontraria a pessoa que queria.
Andei por horas sem rumo até que achei a Clotilde chorando, sem casa e sem comida.
A sorte me mandou para o lugar certo.
Clotilde estava envergonhada.
Desde já se sentia uma mercadoria; a maneira como aquela mulher falava dava a entender que ela não passava disso.
— Sente-se aí, menina.
Estas são suas colegas, e aquele ali é Floriano, nosso mordomo.
Fique à vontade.
Vou subir e preparar seu quarto.
As outras moças, com roupas sumárias e coloridas, aproximaram-se e começaram a fazer perguntas, às quais Clotilde respondia meio desnorteada.
Ela estava muito admirada com o luxo daquele local; nunca entrara num lugar assim.
Começou a observar toda a decoração, as cortinas de um veludo cor de vinho, os móveis que pareciam ser do início do século passado, o bar muito luxuoso e decorado com quadros de artistas famosos.
Os tapetes vermelhos e as estátuas de pessoas nuas e fazendo sexo completavam o visual do ambiente.
As moças foram saindo e ela chamou:
— Ele, você, por favor, não me deixe só.
Estou tão desorientada!
Morgana se apiedou:
— Você é tão nova...
Por que não escolhe outro tipo de vida?
— É que não tenho outra saída.
Sou pobre, moro numa favela com minha mãe num barraco miserável, cansei de pedir esmola pela rua e ser humilhada.
O encontro com madame Aurélia mudou minha vida.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 17, 2017 8:44 pm

A partir de hoje quero ser outra pessoa.
A colega se admirou:
— Nossa você está decidida mesmo!
Mas não se engane; a vida aqui não é fácil.
Ao ver nossas colegas gargalhando e bebendo, achamos que tudo é muito bom, contudo a prostituição tem seu lado cruel.
— Estou disposta a enfrentar todas as consequências.
Fico cada vez mais admirada...
Pensei que esse tipo de bordel não existisse mais.
— Mas existe — explicou Morgana, que parecia estar na casa dos trinta anos.
Nem todas as prostitutas gostam e podem viver fazendo programas no sinal.
Muitas são mortas pelos clientes ou envolvidas no tráfico de drogas.
Outras não conseguem se manter e preferem um lugar assim como o nosso.
Clotilde continuava curiosa:
— Vocês não têm problemas com a polícia?
— Madame Aurélia só admite que trabalhem com ela mulheres maiores de idade, e a Mansão de Higienópolis, como aqui é chamada, é protegida por políticos influentes do governo, que inclusive são frequentadores assíduos dos nossos serviços. Esta casa tem protecção de muita gente grande.
Clotilde se sentiu segura e feliz. Ali realizaria seu sonho.
— Então não vejo por que essa vida tem o lado ruim — comentou ela.
Morgana sorriu.
— É que você está chegando agora.
Não sabe o que terá de enfrentar.
Se o dinheiro é alto, os ossos do ofício são, por vezes, repugnantes.
Madame Aurélia exige que façamos sexo com qualquer cliente, sem distinção, muitas vezes até mesmo com drogados, bêbados ou homens violentos.
Eles nos usam como querem; terá de ser forte e se acostumar.
Olhando para o bebé ao seu lado no sofá, Clotilde pensou:
"Vou ser forte e suportar; para conseguir meu objectivo, farei de tudo".
Madame Aurélia desceu as escadarias e chamou por Clotilde.
Seguiram por um longo corredor, que tinha muitas portas.
Na última, à esquerda, pararam.
Ao entrarem no quarto, Clotilde ficou deslumbrada.
Uma cama de casal coberta com luxuoso lençol vermelho, abajur, banheiro e janelas com cortinas seria o seu recanto.
— É aqui que você passará a viver a partir de agora — explicou a velha senhora.
Não costumo deixar que mulheres com crianças vivam aqui, mas você é uma excepção.
Sua beleza e seu corpo são raros de ser encontrados.
Olhe sua barriga, nem parece que teve criança!
Você será um sucesso aqui na casa.
Mas vou logo avisando:
não tolero arrependimentos, brigas entre colegas ou rejeição a clientes.
Qualquer coisa que fizer de errado aqui, voltará para o olho da rua.
Sou muito boa, mas perco a paciência com ataques de consciência, choro e lamentações.
Se quiser viver neste lugar, terá de seguir as normas da casa.
Clotilde ouvia tudo um pouco assustada.
A mulher, com olhos penetrantes prosseguiu:
— A partir de hoje também não terá vida própria.
Sua vida pertence a esta casa.
Primeiro vamos começar mudando o seu nome.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 17, 2017 8:44 pm

Clotilde é um nome arcaico e feio.
Não combina com mulheres que devem dar prazer e alegria aos homens.
De agora em diante se chamará Isabela.
Vá almoçar, pois à tarde sairemos às compras e ao cabeleireiro.
Mudaremos esse corte horrível e o pintaremos, de maneira a chamar a atenção.
Seja rápida, tome um banho.
Estou esperando por você lá embaixo.
Com a voz sumida pelo medo, Clotilde indagou:
— E meu filho, onde ficará nas horas de meu trabalho?
— Paciência, tudo se resolve no tempo ideal.
Dizendo isso, saiu fechando a porta atrás de si.
Clotilde caiu em um pranto convulsivo por mais de meia hora.
Depois, ainda influenciada por espíritos inferiores, concluiu que só havia para ela aquele caminho, e que agora não era hora para arrependimentos.
Algum tempo depois, desceu, almoçou, alimentou o filho e ao sair, deixou Daniel com uma de suas colegas.
Pelo centro de São Paulo elas fizeram compras e foram ao salão de beleza.
Mais tarde, quando chegou, Clotilde parecia outra pessoa.
As amigas a felicitaram pela nova aparência, que deixou algumas com inveja, tamanha era sua beleza.
— Como faço se meus parentes me procurarem?
A severa mulher foi taxativa:
— Esqueci de lhe dizer que, enquanto viver na Mansão de Higienópolis, não terá mais família.
Está proibida de procurá-los e se for encontrada, deverá livrar-se deles o mais rápido possível.
Em seu caso acho difícil encontrarem você, pois, vivendo naquela miséria, dificilmente chegarão até aqui.
A noite chegou e, já no quarto, madame Aurélia lhe explicou:
— Hoje você ficará aqui quieta, sem aparecer.
Daqui a pouco o grande salão será aberto e você ouvirá muita música, gargalhadas e gritos.
Não se assuste; são suas colegas no trabalho.
Sua estreia será amanhã.
Faremos uma festa especial para você.
Haverá um leilão:
quem pagar mais vai estrear a nova trabalhadora da casa.
Clotilde ainda estava chocada com tudo aquilo, no entanto tinha de prosseguir.
Do ponto onde estava jamais olharia para trás.
Aquela vida pobre e miserável que levava morrera naquele dia.
Não queria mais saber da mãe, aquela velha agourenta, nem de seus irmãos, pobres e sem emprego.
Mesmo com toda a algazarra formada no salão, Clotilde conseguiu dormir.
Em poucos minutos estava fora do corpo.
Viu três homens com roupas escuras, cabelos desgrenhados e semblantes perversos se aproximar:
— Parabéns, está fazendo tudo certo.
Continue assim; você conseguirá tudo o que deseja.
— Quem são vocês? — perguntou assustada.
— Somos seus amigos.
Estamos lhe inspirando as ideias e as acções.
Não tem se sentido forte ultimamente para decidir as coisas?
Pois é, somos nós.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 17, 2017 8:44 pm

O espírito Diana também apareceu.
Reduzindo a sua vibração, ela pôde ser vista por todos eles.
Clotilde correu e abraçou-a:
— Minha amiga, você continua ainda do meu lado?
Mesmo com a vida que estou querendo levar?
Veja aqueles ali são meus amigos.
Diana, com semblante sereno, olhou-a séria enquanto falou:
— Clotilde, pense muito no que vai fazer para não se comprometer ainda mais.
Essa vida que pretende iniciar só vai levá-la ao caminho do sofrimento.
Esqueceu o que já fez no passado, você e Davi?
Ainda dá tempo.
Nós a aconselhamos a romper esse laço com essas pessoas e voltar para a casa de sua mãe.
Lá a intuiremos e você conseguirá melhorar de vida honestamente.
— Não posso; infelizmente não posso.
Quero ser rica, famosa, para poder humilhar e ferir aquela mulher horrível que me ofendeu e a todos que encontrar no caminho.
Só conseguirei isso aqui, com essas pessoas.
Não vê que na favela nada conseguirei, a não ser pedir esmola?
Diana não se deu por vencida:
— Você pensa assim, pois está dando vazão às ilusões do mundo.
Dinheiro e fama só são bons quando os conseguimos pelos caminhos do bem.
Quem procura a riqueza e o status por meios negativos e reprováveis, por meio do roubo ou da vida fácil na prostituição, apesar de o conseguirem, nunca serão felizes.
As leis de Deus cobrarão, centavo por centavo, tudo que foi conseguido de forma desonesta.
E, em seu caso, haverá a agravante da prostituição.
Toda pessoa que se utiliza desse meio para subir na vida terá um retorno doloroso no futuro.
Poderá nascer pobre mais uma vez e ter os órgãos genésicos deformados, além de ter como companhias os obsessores que a induziram por esse caminho.
Pense bem antes de decidir.
Os espíritos, que ouviam tudo e estavam sentindo que podiam perder a chance de influenciar Clotilde, tomaram a frente:
— Não pense assim, amiga.
Não vê que essa aí só quer o seu mal?
Em poucos anos nesta casa você vai conseguir tudo o que quer; até um marido estamos providenciando para você.
Analise bem...
Estando do nosso lado, nunca estará desamparada e ainda vai conseguir se vingar de todos que a molestaram, até mesmo daquela mulher.
Clotilde ficou em dúvida:
— Mas... E se me acontecer tudo aquilo que Diana falou?
Ela é minha amiga, estudei muito com ela.
Eu já sabia que a tentação da vida fácil ia aparecer na minha jornada.
Julgava estar forte para resistir, mas parece que vou sucumbir.
Posso ser punida severamente por Deus.
O espírito gargalhou:
— Você acredita mesmo nisso?
Esse papo não resolve nada! Vemos pessoas do bem a todo instante sofrer maldades e receber desgraças, enquanto nós, os chamados
prevalecemos vitoriosos e com sorte.
Qual caminho vai escolher?
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Dez 17, 2017 8:45 pm

Diana fez sua última tentativa:
— Não é bem assim como ele disse.
Quem é realmente bom sempre recebe o bem porque a lei é justa.
As pessoas que chamamos "boazinhas" e que sofrem estão passando por provações por não estarem dando o melhor que podem dentro do nível de evolução delas.
Alardeiam o bem e o fazem realmente ao semelhante, mas deixam de fazê-lo a si próprias.
Não desenvolvem a consciência, não procuram ter fé nem cultivam bons pensa mentos; só pensam em amar os outros sem amar a si mesmas.
A felicidade só acontece quando abrimos à consciência e usamos nosso potencial a nosso favor.
Jesus nos disse:
"Amai o próximo como a ti mesmo".
Infelizmente, muitas pessoas se esquecem do "ti mesmo".
A amiga espiritual de Clotilde tomou novo fôlego, e completou:
— Quanto aos maldosos que estão vivendo bem, é bom que eles se prepararem, pois a vitória do mal é apenas momentânea.
Deus realmente não pune ninguém, todavia chegará à hora do acerto de contas com a própria consciência, e é possível que sofram bastante até se voltarem novamente ao bem, reparando todos os delitos cometidos ou, o que é pior:
expiando.
Não se trata de castigo divino, e sim do retorno natural de suas acções.
Clotilde pensou um pouco e decidiu:
— Não adianta tentar me iludir.
Cansei das ilusões de que o bem sempre vence e de que Deus a tudo prove.
Vou cuidar de minha vida e não quero mais saber de suas interferências.
Sou grata por tudo que me fez, mas, se for para ficar me cobrando agora, prefiro não vê-la mais.
Ao ouvir aquela frase, Diana desistiu e desapareceu, indo à busca de seus companheiros.
— É amigos — comentou Diana, ao encontrá-los —, mais uma vez Clotilde preferiu entrar pela porta larga que conduz à perdição.
Entretanto, estaremos atentos.
Qualquer sinal de mudança voltaremos para ajudá-la.
Deixaram aquele lugar onde espíritos inferiores aproveitavam as paixões que escravizam os homens e foram se recolher à colónia Campo da Redenção, onde trabalhavam e viviam.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 18, 2017 8:32 pm

4 - A PRIMEIRA VÍTIMA
Fazia um ano que Isabela se encontrava na Mansão de Higienópolis.
Desde o dia de sua estreia no bordel, tivera de suportar todo tipo de humilhação e impropérios.
Ela procurava aguentar tudo calada, deixando os homens livres para fazer com ela o que quisessem como tinha ensinado madame Aurélia.
Mas seu íntimo estava repleto de ódio e rancor.
Assim como ela agradecia a Deus seu filho estar alimentado e bem, também odiava todos, principalmente a mercenária cafetina.
Um dia ela se vingaria dela também e poderia lhe mostrar, então, o quanto era forte.
Nunca mais tivera notícias da mãe nem dos irmãos.
Sempre que pensava neles, uma onda de rancor a invadia.
Julgava-os fracos e sem capacidade.
A noite estava bonita e a brisa do outono entrava pelas grandes janelas da mansão.
Isabela estava no quarto contíguo ao seu, onde ficava Daniel, e o alimentava quando Morgana entrou.
— Isabela, é bom se apressar, pois madame Aurélia quer todas nós no grande salão.
Tem algo de muito importante a nos comunicar.
— O que é que ela quer desta vez?
Explorar-nos ainda mais?
A outra, com ar preocupado, sentou ao lado dela.
— Você sabe que sou sua amiga e quero o seu bem — começou Morgana.
Por isso vou lhe avisar:
não abuse da bondade da madame; outro dia eu a ouvi dizer que você é muito dada a chiliques e quer ser melhor que as outras.
Disse também que só não a coloca no olho da rua porque é muito bonita e dá muito lucro a casa.
Mas lhe digo para não abusar.
A Ofélia era assim, até o dia em que a madame não aguentou e tocou ela daqui.
Isabela sentiu muita raiva.
Quem aquela madamezinha pensava que era?
— Digo-lhe, Morgana:
um dia ainda serei rica e vou sair desse inferno.
Nesse dia vou me vingar de todos os que me humilharam principalmente de dona Aurélia.
Eu juro amiga!
E, se você quiser, a levarei junto.
A outra, com sorriso triste, redarguiu:
— Isso é muito difícil de acontecer.
No entanto, se você um dia melhorar de vida, lembre-se da amiga aqui.
Agora vamos descer que a chefe nos espera e não gosta de atrasos.
No salão as outras já estavam sentadas, esperando o início da reunião.
Madame Aurélia, tragando elegante cigarro e bebericando um vinho seco, começou:
— Hoje teremos uma visita muito importante em nossa casa.
Trata-se de um cavalheiro que nunca veio aqui e nos visitará pela primeira vez.
É um importante senador, braço direito do nosso governo.
Quero que vocês todas estejam bonitas, da ponta da unha até o último fio de cabelo.
Ele vai escolher uma de vocês para passar a noite de graça, e nenhuma poderá se recusar.
Isabela protestou:
— Por que de graça?
Isso nunca aconteceu antes!
Se me escolher, eu não vou!
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 18, 2017 8:32 pm

— Não brinque garota.
Esse homem é importante, amigo de um protector nosso, e lhe devemos esse presente.
Caso ele escolha você, terá de ir ou então será mandada para o olho da rua.
Há muito tempo venho estando engasgada com suas gracinhas aqui.
A prostituição é trabalho como qualquer outro e deve-se fazer vontades e agrados ao freguês.
E, como toda boa empresa, aqui também tem seus brindes, por isso uma de vocês será o brinde da noite.
Agora subam e se arrumem, pois quero todas impecáveis.
As moças subiram insatisfeitas.
Não gostavam de trabalhar de graça; nenhuma delas queria ser a escolhida.
Finalmente à hora chegou.
A casa cheia, anunciando animação, estava à espera do misterioso homem.
De forma discreta, ele entrou acompanhado de outros amigos já frequentadores do lugar.
Após cumprimentar a dona, sentou-se e pediu uma bebida forte.
Num lugar do umbral, um grupo de espíritos se reunia.
Um deles dizia:
— A hora chegou, precisamos ir para lá!
— Além do que, estamos ansiosos pelas vibrações do sexo que podemos obter naquele paraíso.
O que parecia ser o chefe se pronunciou:
— Podem vampirizar à vontade, porém não se esqueçam da importante missão que têm lá.
Devem influenciar o senador Humberto para que ele escolha a Clotilde.
Ela precisa fazer o que nós desejamos.
— Isso mesmo!
Ela é um fantoche em nossas mãos; certamente vamos conseguir.
Dizendo isso, as sombras escuras desapareceram, indo em direcção do local.
Madame Aurélia fez uma espécie de desfile no qual uma a uma às mulheres eram apresentadas.
De repente, as sombras chegaram ao ambiente e cumprimentaram outros espíritos que já se encontravam no local, todos buscando o prazer do sexo de forma ilícita e sempre o conseguindo junto àqueles que não possuem vivência no verdadeiro bem.
Romário, que comandava a expedição, explicou:
— Vejam como é fácil obrigar as pessoas a fazer nossas vontades.
Madame Aurélia foi, no século passado, uma famosa cafetina nordestina.
Comandava com mãos de ferro um bordel que ficou famoso naquelas paragens.
Conseguia com uma feiticeira uma beberagem que impedia suas meninas de engravidar e, caso alguma delas "pegasse barriga", como assim ela dizia a levava a uma mulher experiente para fazer aborto.
Essa mulher que vocês vêem aí foi responsável por mais de cem abortos praticados no ambiente onde trabalhava fora os outros incontáveis que fez em si mesma.
Não sabemos por que, mas desencarnou naquele tempo com um terrível câncer no útero que a devorou em seis meses.
Ficou no umbral sofrendo como se ainda estivesse com a doença durante largo período.
Depois que foi resgatada pelos servos do Cordeiro, nunca mais ouvimos falar dela, até que um dia a encontramos pelo pensamento em uma situação difícil.
A mãe tinha morrido e ela era arrimo de seis irmãos menores.
Sem ter dinheiro e sem trabalho, entrou em desespero.
Daí foi fácil sugerirmos que retornasse à antiga profissão que exerceu no passado.
E agora vocês podem ver o resultado.
Os espíritos gargalharam e se dirigiram ao alvo da noite: o senador Humberto Aguiar.
Sentado à mesa com um copo de forte bebida entre as mãos, o senador esperava com ansiedade a hora de escolher sua preferida.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 18, 2017 8:33 pm

Ele era um homem de meia-idade, moreno claro, com um bigode devidamente aparado, meio calvo, mas muito bonito.
Qualquer uma das mulheres dali se daria por feliz ao passar uma noite com ele, desde que fosse regiamente recompensada.
Porém, de graça, nenhuma estava disposta.
Madame Aurélia, microfone à mão, iniciou a homenagem dizendo palavras belas ao senador que tanto contribuía com o governo e o deixou à vontade para escolher sua parceira da noite.
Humberto, num gesto muito seu, colocou a mão direita no queixo e perpassou o olhar em cada uma delas minuciosamente.
Estava difícil escolher.
Realmente seus amigos tinham razão.
Madame Aurélia só trabalhava com mulheres de primeira.
Como escolher a melhor?
Romário, atento, percebeu que era o momento exacto de agir e, lançando um olhar que logo foi compreendido pelos seus companheiros, iniciou a operação.
Eles se abraçaram ao senador e começaram a sugerir frases:
— Escolha a Isabela!
Não vê que ela é a melhor? — dizia um.
— A sua deverá ser aquela do costume azul; não a deixe escapar.
Você aqui é rei, pode tudo — outro dizia.
— Com Isabela você terá a noite inesquecível com a qual sempre sonhou — vociferava o outro.
Sem perceber que estava sendo envolvido por espíritos perversos, cujas intenções ele estava longe de saber, Humberto de repente sentiu-se magnetizado pelo olhar e pelo corpo da mulher do vestido azul.
Fez menção de olhar as outras na tentativa de encontrar alguma mais interessante, mas não conseguia.
Estranha força o prendia ao semblante de Isabela.
Com rapidez, decidiu:
seria a que estava na ponta da fila.
Com um gesto ele fez a sua escolha.
Isabela tremeu; isso não poderia estar acontecendo com ela.
— Isabela, desça! — ordenou a madame.
Acompanhe o senhor Humberto ao seu quarto.
Você foi à escolhida, parabéns!
Palmas e gargalhadas cortaram o ar.
O olhar de Aurélia já dizia por si mesmo que, se ela não obedecesse, não escaparia do olho da rua.
Isabela ainda tentou enfrentá-la, todavia, ao lembrar que Daniel poderia ficar mais uma vez sem tecto ou comida, resolveu aquiescer.
A festa continuou no grande salão enquanto ela e Humberto foram para o quarto.
Daniel ficava sempre aos cuidados de uma empregada que não exercia a função de prostituta enquanto a mãe trabalhava.
Uma vez no quarto, Isabela se entregou àquele homem que sequer iria pagá-la com muita repugnância.
Quando tudo acabou, o espírito de Romário sussurrou ao seu ouvido:
— Esse é o homem que você esperava.
Nele está sua chance de mudar de vida!
Aproveite!
De repente um pensamento a acometeu:
"Quem sabe esse homem não pode me tirar da miséria?".
Fumando um elegante charuto, ele parecia estar distante.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 18, 2017 8:33 pm

Tomando coragem, numa atitude incomum às prostitutas profissionais, ela tentou:
— O senhor mora em Brasília mesmo?
Ele, parecendo não ter se importado com a pergunta, respondeu:
— Praticamente sim.
Lá tenho um belo apartamento onde passo a maioria dos dias da semana.
Aqui em São Paulo tenho uma bela casa onde ficam minha esposa e minha filha.
Venho sempre que posso.
— O senhor é casado há muito tempo?
— Sim, há mais de trinta anos.
Construí uma família sólida, embora marcada por tragédias.
Perdi dois filhos num acidente de carro e minha esposa vive doente.
Influenciada pelos espíritos das trevas, subitamente ela pensou:
"Esse homem ainda será meu.
Vou tirá-lo dessa mulher doente e serei, assim, a esposa dele".
O senador parecia estar apreciando a conversa, pois em hora nenhuma se opôs às perguntas dela.
Isso não era algo comum de ele fazer com mulheres desse tipo.
Mal sabia que agia assim pela influência de espíritos ainda atrasados que estavam no local.
Toda pessoa que busca o prazer do sexo de forma comercial está sujeita à invasão de espíritos inferiores.
O senador Humberto Costa de Aguiar era visado pelo astral inferior fazia anos.
Mas só depois de várias tentativas tinham conseguido influenciá-lo.
E à hora havia chegado; bastava Isabela fazer o que eles desejavam.
Isabela deu sua cartada:
— Gostaria de vê-lo mais vezes.
Será sempre de graça, é porque é para você...
Vestindo-se, ele respondeu:
— Voltarei outras vezes, sim.
Deu um beijo no rosto dela e saiu fechando a porta atrás de si.
Desceu. O salão havia se aquietado e apenas uma música romântica embalava alguns casais que ainda conversavam na penumbra.
Muito contente, madame Aurélia aproximou-se do senador:
— Tenho certeza de que gostou senador.
Isabela é uma das minhas melhores meninas!
— Com certeza é a melhor.
A partir de hoje quero que ela seja exclusivamente minha.
Pagarei por isso; basta me dizer a quantia.
Pelo semblante de Aurélia passou um vislumbre voraz de ambição.
— Gostaria que o senhor soubesse que não vai custar barato.
Infelizmente, temos de nos manter.
E, pela estrutura da casa, o senhor pôde perceber que gastamos muito, principalmente para oferecer o que há de melhor a pessoas como o senhor, por exemplo.
Ele se sentou próximo ao balcão e pediu uma bebida, a qual Aurélia serviu com prazer.
Como era bom fazer um negócio de vulto como aquele!
Fumando outro charuto que, pela marca, Aurélia percebeu ser importado, ele confessou:
— Usei a Isabela hoje sem pagar, o que me deixou meio constrangido.
Não é de meu feitio usar essas mulheres sem dar nada em troca.
Aceitei por insistência de amigos.
Mas, a partir de hoje, ela será só minha.
Faça os cálculos que eu pago.
Com muita satisfação, aquela mulher, acostumada a vender o corpo das pessoas, calculou tudo muito rápido e mostrou a quantia ao senador.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 18, 2017 8:34 pm

Coçando o bigode ele afirmou:
— Nossa não pensei que ela fosse tão cara!
Porém, tenho de concordar que é realmente esse o valor que ela tem.
Assinou o cheque, pegou o paletó e saiu sem esperar os amigos.
Dentro do carro, o senador ficou pensando nos intensos momentos de prazer que vivenciara ao lado daquela jovem mulher e jurou para si mesmo que jamais a perderia.
Ele não poderia ver a quantidade de espíritos que o rodeavam.
Do tecto do carro aos bancos, espíritos viciados em bebida e sexo estavam em contacto com aquele homem que se imaginava sozinho.
Em processo de vampirismo, essas entidades retiravam dele o fluido vital e com isso encurtavam, e muito, o número de anos de sua presente encarnação.
Era a primeira vítima de Isabela e seus comparsas desencarnados na presente existência.
Ela, que reencarnara para progredir e crescer com o próprio esforço, condição que sempre exige mudanças de atitudes e pensamentos, estava preferindo a porta larga, que, como disse Jesus, sempre nos conduz à perdição.

* Apesar de parecer contraditório Romário dizer que não sabia por que madame Aurélia havia desencarnado com câncer no útero, uma vez que tinha provocado tantos abortos em si mesma e em outras de suas meninas, o motivo parece muito claro.
Devemos ter em vista que a óptica é a de Romário, que não tinha esclarecimento suficiente para entender as leis divinas. (N. do E.)
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 18, 2017 8:34 pm

5 - UMA VIDA DESTRUÍDA
O carro último modelo parou em frente de um majestoso portão de ferro. Humberto, com o controle remoto abriu o portão e, após colocar o veículo na garagem, entrou na elegante vivenda.
Construída em bairro luxuoso de São Paulo, aquela casa causaria inveja a qualquer pessoa, mesmo as da mesma classe do senador.
Tudo ali fora cuidadosamente escolhido por Flaviana de Camargo Aguiar quando, no auge da sua felicidade afectiva, se casara com o homem amado.
Naquela época, quando ele ainda não tencionava seguir carreira política, tudo era diferente.
Amoroso e apaixonado, ele a cortejara até conseguir sua mão em casamento.
Não fora fácil.
Humberto era ainda muito novo e vinha de uma família que, apesar de ter algumas posses, não era rica.
Ele sempre tinha sido muito ambicioso e jamais se casaria com uma mulher que fosse pobre ou tivesse património igual ao seu.
Ele queria mais, tencionava ser milionário, e só fazendo um casamento de conveniência com uma moça da alta sociedade é que iria conseguir.
Era início dos anos 1970 e a revolução sexual havia transformado o comportamento e o carácter de muitas moças naquela época.
Para Humberto, encontrar uma à altura dos seus sonhos estava praticamente impossível.
Mas a vida, quando quer pôr um espírito à prova, que ele mesmo atrai com o próprio comportamento, faz surgir oportunidades de onde menos se espera: eis que, no baile de sua formatura, onde se tornara bacharel em Direito, Humberto conhece Flaviana.
Do primeiro encontro ao casamento foi menos de um ano.
Os pais dela, o senhor Hipólito e dona Augusta, haviam sido educados de forma austera e sempre condicionados ao pensamento de que as classes não deviam nem podiam ser misturadas.
Porém, a paixão da filha única pelo recém-formado Humberto aos poucos foi minando a resistência dos pais, que acabaram por concordar.
Humberto fez o papel de moço apaixonado quando, na realidade, só queria mesmo era ascensão social e financeira, esta última principalmente.
Agradavam-lhe as formas do corpo e o rosto angelical de Flaviana, mas amor mesmo ele não tinha por ela.
Foi um casamento sem amor, portanto, fadado ao fracasso.
Flaviana, como a maioria das mulheres, teve uma educação equivocada.
Fantasiava o homem perfeito, que iria aparecer e lhe fazer todas as vontades.
O mimo a fez achar que Humberto era o príncipe que a vida lhe mandara.
Iludida com o sonho de amor, ela atraiu para sua vida justamente o homem que iria, por intermédio da desilusão e da dor, fazê-la amadurecer.
Após as pompas da cerimónia e a rica lua-de-mel, começou para eles o tempo da convivência.
Depois dos primeiros anos, a paixão que ele demonstrava esfriou.
Vieram os dois primeiros filhos, a rotina entediante, até que, logo após o fim do regime militar, Humberto interessou-se pela política.
Filiou-se a um partido que estava surgindo com muita força naquele momento e, anos depois, até se candidatou à vice-presidência do país, mas foi derrotado.
Conseguindo o cargo de senador, deixou para sempre de advogar, tarefa que exercia com bastante enfado.
Entrou na sala excessivamente luxuosa e tudo estava às escuras.
Naquele momento pensou no quanto era infeliz.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 18, 2017 8:34 pm

Patrícia havia nascido em meio às brigas e confusões de um matrimónio já fracassado.
O senhor Hipólito, percebendo que a filha fora enganada, praticamente cortou relações com o casal, principalmente após saber das aventuras sexuais do genro.
Humberto subiu e com desgosto foi para o quarto de hóspedes em que dormia.
Começou a relembrar a tristeza e a dor de ter perdido Marcos e Alfredo, seus filhos queridos e que seriam seus continuadores na carreira política.
No desastre apenas ele se salvara.
Começou a chorar de emoção.
Apesar de tudo, ainda lhe restava Patrícia, que era seu anjo bom.
Só por ela é que não abandonava para sempre aquela casa triste e sombria, apesar de rica e composta com tudo que há no mundo moderno.
Poucos anos depois do nascimento de Patrícia, estranhos sintomas acometeram sua mulher.
Ela começou a ter náuseas e vómitos frequentes, manchas arroxeadas começaram a surgir junto com um forte prurido, mas os médicos não conseguiam diagnosticar a doença.
Até que ela começou a urinar mais que o normal e sempre que o fazia era com muita dor e sangramento.
Quando foi descoberta a insuficiência renal, ela já estava com mais de noventa por cento dos rins comprometidos.
Os médicos afirmaram que só o tratamento com hemodiálise poderia lhe dar algum tempo a mais de vida, pois um transplante naquele momento seria arriscado e até fatal, além do que teriam de enfrentar a fila de espera, mesmo sendo ricos.
Foi uma bomba que caiu sobre aquela família.
Desesperada, dona Augusta, já viúva havia alguns anos, exigiu que o tratamento fosse feito em casa.
Eles conseguiram os aparelhos e montaram uma verdadeira clínica no próprio quarto do casal.
Humberto, a partir daquele momento, sempre tinha de contar com a presença desagradável da sogra em sua casa.
Olhar rancoroso, ela conversava com ele somente o necessário.
Fazia dois anos que sua mulher estava gravemente enferma.
Humberto chorava copiosamente sua desdita.
Perdera os filhos, a riqueza não o tornara tão feliz quanto imaginara e sentia um imenso vazio dentro do peito.
Só mesmo na política e no sexo encontrava algum prazer.
Mas, ultimamente, toda vez que podia fugia das reuniões do Senado. Estava perdendo o gosto pela vida.
Só agora, ao encontrar Isabela, é que tinha vislumbrado uma nova luz em seu caminho.
Sem que ele pudesse ver, seus filhos desencarnados estavam ali a velar por ele.
Marcos e Alfredo, espíritos bons, logo compreenderam como atraíram aquelas mortes por acidente e trataram de procurar auxiliar o próximo na colónia onde viviam.
Trabalhavam bastante, porém sem se desligar um instante sequer da família que os recebera com tanto amor na Terra.
Ao perceberem a doença da mãe, prontamente foram buscar explicações com um dos instrutores da cidade em que viviam.
Foram recebidos com cordialidade por Alexandre.
— Vieram saber sobre o estado de Flaviana.
Fui informado de que está desenvolvendo uma doença terminal.
Marcos, olhos marejados, redarguiu:
— Isso mesmo.
Não conseguimos entender por que aquela que foi nossa mãe na Terra tem de passar por semelhante sofrimento.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 18, 2017 8:35 pm

Gostaríamos de ajudar.
— A doença da mãe de vocês não poderá ser curada na presente encarnação.
Tentem se conformar para poderem ajudar.
Adoecer junto com ela não será o melhor remédio.
— Por quê? — foi à pergunta aflita de Alfredo.
— Todas as doenças que acontecem aos encarnados surgem pela maneira equivocada com que estão guiando suas vidas.
O corpo de carne é uma espécie de válvula que absorve as energias doentias produzidas pelo pensamento humano e as extravasa em forma de doenças.
No caso da sua mãe, ela se encontra escrava da hemodiálise porque foi escrava a vida inteira das próprias ilusões.
Terá de modificar a forma de pensar para encontrar a paz e o equilíbrio.
No entanto, isso não acontecerá na Terra; só vai se dar depois do desencarne.
— Notamos que a nossa mãe estava muito infeliz, mas ela não se iludiu.
Quando percebeu quem nosso pai era de verdade, acordou para a vida e procurou viver da melhor maneira possível.
Alexandre explicou:
— Engana-se.
Sua mãe trocou de ilusão.
Se antes o que a dominava era o sonho de amor, agora ela vive na esperança de que Humberto mude de comportamento e ainda seja o que ela espera.
Sua mãe alimenta o desejo de transformá-lo.
Triste situação.
Infelizmente, a doença é a forma que a vida encontrou de levar ao seu espírito a cura por que ela tanto anseia. É necessário, acreditem.
Se ela não precisasse passar por semelhante situação, a bondade divina não iria permitir.
Conformados, eles saíram, e a partir daquele instante procuravam ajudar no que fosse necessário no intuito de diminuir as dores da mãe.
Era com tristeza que viam o pai mergulhar nos meandros da corrupção e do sexo irresponsável, mas nada podiam fazer a não ser rezar e ter paciência.
Humberto chorou durante um tempo, porém lembrou-se da filha, Patrícia, o único bem que lhe restara na vida.
Como ela era bela e inteligente!
Já estava com dezoito anos e havia terminado o colegial.
Pensava em prestar vestibular e ser psicóloga.
Humberto sabia que ela conseguiria.
Era muito interessada pela vida e pelos estudos.
Naquele instante, lembrou-se das conversas longas que tinha com ela e de como admirava sua sabedoria.
Apesar da idade, ela tinha muitas ideias que desafiavam o raciocínio comum e às vezes fazia com que ele se sentisse melhor.
Pensando na filha, adormeceu.
Pela manhã, já devidamente barbeado, desceu.
Tinha acordado bastante cedo, apesar de ter dormido tarde. Encontrou Patrícia à mesa, tomando café.
— Bom dia, papai!
Como é bom tê-lo em casa.
Está ficando cada vez mais rara sua presença aqui.
Levantou-se e deu um beijo na testa dele.
Enquanto Eulália, a criada, o servia, ele comentou:
— Esta casa sempre me traz recordações tristes.
A lembrança dos seus irmãos, dos tempos de felicidade que vivi ao lado de sua mãe, tudo isso me machuca muito.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 18, 2017 8:35 pm

— Sabe papai, há alguns meses tenho frequentado um lugar muito bom, onde tenho aprendido várias coisas a respeito da vida.
Sempre que vou lá me sinto bem.
E um centro de estudos espirituais.
Gostaria muito que o senhor fosse lá um dia comigo.
Ele, meio desinteressado, perguntou:
— E o que se aprende lá?
Pelo visto, é um centro religioso.
— Lá, eles ensinam que o sofrimento é um estado antinatural, que nascemos para ser felizes e que a perfeição total é nosso destino.
Mas não tem nada a ver com religião.
Eles afirmam que as religiões vão acabar e trabalham com eles muitos terapeutas e médiuns que, com o auxílio de espíritos bons e evoluídos, nos ajudam a viver melhor.
Ele fez um ar azedo:
— Só podia ser mesmo o espiritismo.
Quero que saiba que aqui nunca ensinamos religião a ninguém, cada um sempre foi livre para seguir o que quisesse, mas não me obrigue a ouvir coisas que vêm de pessoas simplórias e supersticiosas.
Muito me admira você, sempre tão inteligente, ter caído em uma dessas.
Ela continuou sem se importar:
— Eles trabalham como espiritualistas independentes, mas têm bases no espiritismo codificado por Allan Kardec.
Vendo o senhor sempre tão triste, observando a doença horrível da mamãe e os factos trágicos que aconteceram com meus irmãos, sempre me perguntei o porquê, e nunca encontrei respostas.
Hoje, com o pessoal do centro, tenho descoberto coisas incríveis e sei que tudo está certo da maneira como está.
Eles me deram O Livro dos Espíritos para ler e com ele estou descobrindo até o próprio Deus.
Não é fabuloso, papai?
Coçando o bigode, Humberto replicou:
— Sei não...
Tenho medo de que eles coloquem em sua cabeça que seus irmãos morreram e sua mãe está sofrendo porque estão pagando débitos de vidas passadas.
Conheço pessoas espíritas que depois que abraçaram essa doutrina se tornaram conformistas e estagnadas, aceitando tudo sem reagir.
Não quero que você pense assim.
— É aí que está o engano, papai.
A interpretação errada de alguns deu a essa sublime doutrina uma conotação conformista.
Tenho aprendido que não existe fatalidade e que noventa por cento dos nossos sofrimentos não vêm de vidas passadas, e sim de escolhas atuais.
Só quando nascemos com defeitos físicos, em estados calamitosos de pobreza e doença, ou numa família problemática é que estamos recolhendo o que fizemos no passado.
Quanto ao resto, corre por conta do nosso modo inadequado de pensar e encarar a vida.
Creia papai, o sofrimento pode e deve ser evitado.
Chegou à hora de a humanidade se libertar de vez da dor.
Não acha que tenho razão?
Tomando vagarosamente seu café, Humberto se perguntava de onde a filha tirava tantas ideias, que por vezes o confundiam.
— Então, como explicar o sofrimento de sua mãe, uma mulher tão boa e prestativa?
Não consigo entender.
Se você perguntar a um espírita, por exemplo, ele dirá que é um resgate.
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Re: NADA É PARA SEMPRE - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Dez 18, 2017 8:35 pm

— Nada disso.
Conversei com a Sílvia, uma das terapeutas, sobre o problema de mamãe, e ela me disse que os problemas de saúde são o resultado de atitudes equivocadas da pessoa na presente encarnação.
Nos casos de problemas renais, a causa está na escravidão que a pessoa vive consigo mesma.
Espera tudo dos outros e tem dificuldades no relacionamento afectivo.
São pessoas que criam à imagem do amor ideal e, quando se decepcionam, ficam com muito ódio, achando que tudo está perdido.
Elas, então, desistem de viver, atraindo para si a moléstia nos rins.
Humberto remexeu-se na cadeira.
Realmente Flaviana havia se decepcionado bastante com ele.
Com certeza ela descobrira que o casamento só fora uma conveniência.
Resolveu parar com aquela conversa; não desejava se sentir culpado.
Eulália desceu a escadaria com uma bandeja praticamente intacta nas mãos.
Aproximou-se da mesa:
— Sr. Humberto, dona Flaviana o chama.
Disse que quer lhe falar antes que saia.
— Como está ela hoje, Eulália?
— Um pouco pior.
Está depressiva, quase não quis comer.
Deixando a filha na sala, ele foi ter com ela.
Ao entrar no quarto, uma sensação de tristeza muito grande o invadiu.
Aqueles aparelhos horríveis filtrando o sangue praticamente o tempo inteiro davam uma impressão soturna ao ambiente.
Na cama ricamente arrumada, Flaviana se encontrava com os olhos perdidos num ponto indefinido.
Em quase nada lembrava aquela moça jovem e bonita que um dia havia se casado com Humberto.
— Sente aí! – disse ela com voz fraca.
Ele obedeceu.
— Sei que você nunca me amou.
Percebo como era ingénua quando achei que você era o homem perfeito que idealizei.
Tarde demais; minha vida está destruída.
Ele pegou nas mãos dela e o remorso o fez derramar algumas lágrimas.
— Não diga isso. Você é jovem.
Sua vida não está destruída, você vai se recuperar e voltar a ser o que era antes.
Lembre-se de Patrícia; ela precisa muito de você!
— Não me iluda mais.
Sei que não tenho chances de cura e, se tivesse, não sei se iria querer mais me curar...
Para quê? Para viver desprezada por você, dentro desta casa enorme, sem meus filhos?
Prefiro morrer a voltar a essa vida que você me dá.
Ele chorou pelo remorso.
— Não tive culpa do que aconteceu.
Você sabe como a política me absorve.
Não posso fazer mais do que já faço.
Pensa que também não sofro a morte de Alfredo e Marcos?
Pensa que não sofro ao vê-la assim, sem poder se levantar e levar uma vida normal?
— Você sofre pelo remorso, por ter me tirado da casa de meus pais e despertado meu amor sem nenhuma intenção de retribuir.
Como fui tão cega? — lamentou-se Flaviana.
Mas não posso me demorar relembrando a infelicidade que é minha vida.
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