O PRÓXIMO MINUTO/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

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Re: O PRÓXIMO MINUTO/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 10, 2018 11:20 am

Hector adormeceu ali mesmo, aconchegado pelo namorado, que o amparava e acariciava seus cabelos soltos, suaves e, apesar de tudo, perfumados.
Os dois contrastavam totalmente com o ambiente.
Diego trouxe roupas masculinas para Hector, pois ele ainda vestia as que usara na apresentação artística.
Assim que Diego saiu do quarto, da enfermaria, foi abordado por um guarda:
- Por favor! - disse o policial para ele.
Queria uma palavra com você.
- Está acontecendo alguma coisa?
- Não, nada disso!
É que eu fui salvo por este rapaz que está no leito.
Notei que vocês têm certa intimidade...
-É o meu namorado, meu homem - declarou Diego, assumindo os sentimentos em relação a Hector.
E olhe que eu nunca conheci nenhum homem tão cheio de valentia, de coragem e honradez como meu Hector.
- Imagino... - falou o soldado, olhando para baixo, como se estivesse pensativo.
Ele se jogou à minha frente na hora em que o tiro foi disparado.
Por sorte, a bala o atingiu de raspão.
Ele me empurrou para que o tiro não pegasse em mim!
Eu queria fazer alguma coisa para agradecer a ele.
- Pelo que conheço do meu Hector, não precisa se preocupar.
Ele é assim mesmo. Não precisa agradecer, de verdade.
- Mas eu faço questão!
Estou muito emocionado e pedi licença para não trabalhar mais por hoje.
E da minha vida que estamos falando, e ela foi salva por alguém que eu não conheço...
Tirando um bloco de anotações do bolso do paletó, Diego anotou o número de um telefone e o entregou ao guarda.
- Aqui está o número do celular de Hector.
Mas, por favor, nos dê um tempinho até ele se recuperar mais.
Depois é só ligar e falar com ele.
Direi que você esteve aqui.
Falarei sobre seu desejo de agradecer-lhe.
0 guarda assentiu e se retirou, olhando para trás por um instante, como se hesitasse em partir, enquanto Diego telefonava para algum lugar, a fim de transferir Hector de hospital.
Passaram-se os dias. Hector recuperou-se, conquanto não tirasse da memória as lembranças, ainda que fragmentárias, do que lhe ocorrera no Invisível.
Decidiu, então, que deveria visitar um centro espírita do qual ouvira falar algumas vezes.
Chamou Diego, e este logo se prontificou.
- Quero rezar para agradecer a segunda chance de vida que tive.
Sobretudo, agradecer por você, que é minha vida, meu amparo, meu amor.
O homem com quem escolhi viver, por quem tenho uma gratidão que não sei pôr em palavras.
Nos dias que se seguiram, Hector e Diego conversaram muito.
Parece que o reflexo das conversas que Hector teve com Samuel enquanto estava em transe, no seu minuto de reflexão, começavam a surtir efeito.
- Quero lhe falar sobre alguns traumas meus; acho que estão me impedindo de ser mais feliz ou, quem sabe, de fazer você mais feliz.
- Que é isso, Hector?
Sou feliz ao seu lado, e isso me basta.
- Não mesmo, Diego!
Quero resolver isso.
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Re: O PRÓXIMO MINUTO/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 10, 2018 11:21 am

Você tem me dado tanto apoio, tem me dado sua vida, então tenho certeza de que é hora de enfrentar isto que me consome internamente.
Tenho algo muito mal resolvido em relação à minha sexualidade e acho que é por isso que fiquei tantos anos com você sem uma proximidade maior ou uma intimidade de casal.
- Já falamos sobre isso, amor.
Lembra que eu disse que aguardaria seu momento?
Saberei esperar! Não se preocupe.
- Sim, eu sei, Diego.
Mas agora sou eu quem estou incomodado, e quero resolver essa pendência de vez.
Quero ser seu sem barreiras, sem limites.
- Estou com medo desta conversa.
Por que logo agora?
- Não sei o porquê.
Mas depois que voltei do acidente, meus pensamentos parecem estar mais claros, como se recebesse uma intuição ou inspiração a fim de solucionar este lado da minha vida.
Além do mais, meu querido, precisamos mesmo ficar bem um com o outro.
Anseio conversar mais sobre o assunto e compartilhar com você algumas coisas que, para mim, eram delicadas demais.
Agora sei que é a hora certa.
- Hector, Hector!...
Você está me deixando intrigado.
Talvez seja melhor a gente procurar uma terapia ou algo assim.
- Não descarto a possibilidade, mas primeiro quero dividir com você meu passado, sem reservas.
Quem sabe você possa me ajudar, como amigo, como parceiro e, sendo meu amor, meu homem, estou certo de que enfrentaremos isso juntos.
E Hector falou de seus traumas, do padrasto e da rejeição que sentiu já na infância.
Falar do padrasto foi a parte mais delicada, pois, ao mencioná-lo, emocionou-se, à medida que lhe assomavam à mente as cenas de abuso que sofreu durante a adolescência.
Diego amparou Hector, abraçando-o e beijando-o ternamente.
Ambos se comoveram.
- Amor, nem sei o que dizer, além do fato de que estarei ao seu lado para tudo o que precisar e que, agora, compreendo melhor o porquê de sua dificuldade em manter um relacionamento mais íntimo, de se entregar sexualmente a mim.
Eu compreendo, Hector, de verdade.
Hector chorava baixinho, recordando as dificuldades que vivenciara com o padrasto e do quanto teve de lutar para sobreviver emocionalmente.
Depois, a vida profissional, a decisão de actuar como transformista, como artista e, mais tarde, de iniciar uma actividade social junto às prostitutas e aos rapazes da noite, necessitados de amparo e de alguém que os recebesse num lugar de tratamento.
- Tenho pensado, Hector.
Será que não é hora de você se dar um tempo em relação às apresentações artísticas e se dedicar um pouco mais ao trabalho como designer?
Depois do que ocorreu, do tiro que, graças a Deus, passou de raspão, do trauma gerado por tudo isso...
- Também tenho pensado seriamente nisso, Diego, mas não tenho como arranjar dinheiro para manter o Palácio de Cristal.
Você já tem ajudado tanto...
0 que ganho como designer não é suficiente para levar avante o trabalho com as meninas da noite.
Não sei como solucionar essa situação financeiramente.
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Re: O PRÓXIMO MINUTO/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 10, 2018 11:21 am

- Andei pensando e acho que podemos resolver isso.
Claro, se você achar boa a ideia de dar um tempo como transformista.
Talvez seja hora de a gente se concentrar e dar um passo além.
Já que resolveu me contar tudo sobre seu passado, que era tão difícil para você, acho que este momento deve ser aproveitado, amor.
Quem sabe pudéssemos fazer uma parceria com alguma instituição e dar maior qualidade ao trabalho que você faz?
- Trabalho que nós fazemos, Diego.
Pois sem você, eu, sozinho, não teria condições, jamais, de levar adiante o projecto com as meninas da rua.
- Pois bem. Vou procurar me informar direito; assim que tiver os elementos necessários, volto a falar com você.
- E vai me deixar esperando, assim?
Não vai me adiantar nada?
- Curioso!... - falou, beijando-lhe a testa. -
Sabe que te amo profundamente?
Não sei o que seria da minha vida sem você.
-Bobo!
- De verdade!
E me orgulho tanto do seu trabalho, da sua generosidade em se entregar sem reservas a um trabalho dessa natureza, amparando pessoas tão rejeitadas pela sociedade:
garotas de programa que usam drogas, travestis que vivem caídos pelas ruas, sem tecto, sem ter qualquer amparo ou família...
- Deixe isso pra lá, Diego! - falou Hector sensível, após a confissão do namorado.
Sabe de uma coisa?
Quero terminar o namoro com você.
0 anúncio abrupto de Hector pegou Diego de surpresa.
Foi um choque, pois Hector despejou aquilo assim, sem preparar o parceiro para o que viria.
Sem saber ainda o que pensar, Diego ficou branco, lívido.
- Não se preocupe!
Não fique assim, não Hector tentou remediar, rindo e denunciando a brincadeira.
É que quero lhe pedir em casamento!
Quero que seja meu marido e que vivamos o mais intensamente possível.
Se quiser, pode se mudar lá para casa definitivamente.
Vai ser o dono da minha vida e, quem sabe, encontramos alguém, algum doido por aí que possa celebrar nossa união.
Diego permitiu que os olhos se enchessem de lágrimas e beijou Hector ali mesmo, emocionado, terno, profundamente grato à vida pela bênção que recebia.
Era tudo o que mais queria.
Ele ia com constância ao apartamento de Hector, passava alguns dias com ele, mas sempre tinha de deixá-lo, sempre voltava para casa.
Ficava um vazio.
Queria mesmo era constituir família com ele e construir a vida na companhia da pessoa que amava.
Não lhe agradava deixar seu menino sozinho.
Os dois se abraçaram satisfeitos com a decisão.
Parece que o esforço de Samuel junto a Hector surtira efeito.
Aos poucos, as intuições afloravam à sua mente e os dois amigos, amantes e parceiros se ajustavam mais e mais para uma vida em comum, mais íntima, intensa, familiar.
- Tenho um sonho, Hector, que gostaria de compartilhar com você.
Claro, você não precisa concordar, mas quem sabe possamos encontrar um jeito...
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Re: O PRÓXIMO MINUTO/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 10, 2018 11:21 am

- Adoptar uma criança!
- Isso mesmo. Sempre tive o sonho de ser pai e, como você me pediu a mão em casamento...
Hector riu gostosamente, demonstrando enorme ternura pelo companheiro.
Tocaram-se as mãos.
Tocaram-se os corações e as almas, quase numa fusão, caso possível fosse.
Conversaram longamente sobre os planos para o futuro.
No domingo seguinte, resolveram visitar um centro espírita no Tatuapé.
Não sabiam que, no mesmo dia, César e Igor estariam naquele exacto local, agradecendo pelo apoio espiritual.
Também não os conheciam, pelo menos não fisicamente, no caso de Hector.
Ao chegarem à rua Dr. Gabriel de Rezende, notaram intensa movimentação.
Nunca haviam ido ao lugar, e as surpresas foram se mostrando a cada passo que davam.
Finalmente, na rua do centro, admiraram a grande multidão que ia e vinha de todos os lados.
Parecia que toda a Chácara Mafalda ou a população deste e dos demais bairros vizinhos se dirigia à casa espírita.
Diego e Hector, captando uma intuição, tiveram a ideia de perguntar a um dos trabalhadores, vestido com um uniforme impossível de não ser notado, de cor vibrante, aonde poderiam ir para fazer uma oração, uma vez que havia tanta gente de um lado e outro da rua, e tantos pontos de concentração, que não sabiam que rumo tomar.
De mãos dadas, sem se importar se eram observados ou não, dirigiram-se ao lado oposto ao local onde ficava o centro espírita, o grande salão, a fim de orar e agradecer.
Sentaram-se exactamente à frente de César e Igor, sem percebê-los de imediato.
Na parede, a figura do venerável médico dos pobres.
0 ambiente, com todos em oração, inspirava o recolhimento espiritual.
Soltaram-se as mãos, mas entrelaçavam-se pelos corações.
E juntos oraram, agradeceram, louvaram pelas inúmeras bênçãos que estavam experimentando.
Terminados mais de 30 minutos de meditação, levantaram-se e saíram, dirigindo-se ao outro lado da rua.
Vibrações dulcíssimas de intensa paz pareciam envolver ambos os casais.
Sim, pois que César, obedecendo a um impulso, talvez à mais pura intuição, levantou-se também, chamando Igor e rumando para o local onde ouviriam a palestra.
Mas as músicas cantadas, a alegria e a descontracção de toda a gente os impressionou sensivelmente.
Enquanto Hector estava parado ao lado de Diego, Igor tocava disfarçadamente o ombro de César, logo na entrada do salão de grandes proporções.
Estavam paralisados, ouvindo a música que falava de Evangelho, louvor e gratidão a Jesus.
Tudo formava um ambiente de pura espiritualidade.
Os dois casais olharam-se mutuamente.
E, sem premeditar nada, apresentaram-se.
César olhou Hector mais detidamente e disse-lhe:
- Não o conheço de algum lugar?
Por acaso você conhece a cidade de Curitiba, onde me criei?
Hector, um pouco pensativo, parecia sentir alguma vibração que ainda não conseguia explicar.
Sendo o mais cortês e elegante possível, respondeu:
- Não creio, pois nunca fui a Curitiba.
Mas, falando assim, talvez o conheça de algum lugar.
E apresentou seu namorado, Diego, acentuando que eram namorados e estavam ali para agradecer.
Por sua vez, César também apresentou Igor como seu namorado.
Resolveram sentar-se próximos, pois o salão já estava quase lotado e precisavam escolher um lugar.
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Re: O PRÓXIMO MINUTO/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 10, 2018 11:21 am

Encontraram cadeiras contíguas.
Nascia ali uma amizade no plano físico, já inaugurada num plano mais além daquele usualmente percebido pelos sentidos humanos.
O tempo passou.
Dois meses depois, Hector e Diego convidaram alguns amigos e parentes para uma festa especial, sem comunicar do que se tratava.
Compareceram também César e Igor. Havia um toque de elegância no local, no apartamento de Hector e Diego, embora a simplicidade da decoração, que era minimalista.
Após os convidados se apresentarem e alguns minutos de suspense sobre o motivo da reunião, Diego e Hector se deram as mãos e falaram, emocionados:
- Nós os convidamos aqui, nesta noite, os amigos recentes e os mais antigos, os parentes que têm afinidade connosco, para uma comemoração especial.
E chamaram para junto de si um homem vestido de maneira descontraída, descolada, porém com um toque de charme e elegância. Logo o apresentaram:
- Este é um médium e dirigente de uma casa espírita que convidamos.
É que, hoje, eu e Diego... - falou Hector emocionado, olhando directamente nos olhos do namorado - hoje celebraremos nossa união com um momento de oração.
Todos ficaram surpresos e aplaudiram a iniciativa.
Passado o breve momento de euforia, Diego se pronunciou:
- Resolvemos fazer uma cerimónia simples, sem chamar a atenção de ninguém, pois queríamos algo intimista, só nosso, que pudéssemos compartilhar apenas com pessoas que nos amam e que são queridas por nós.
Por isso, estamos aqui, eu e o meu menino, Hector, que me pediu em casamento!... - o olhar furtivo e a entonação de Diego inspiraram a reacção bem-humorada de todos.
- Ao mesmo tempo em que celebramos a vida, agradecendo por esta alegria, queremos também anunciar uma decisão importante.
Nós adoptamos uma criança, e nosso lar já nasce sob essa bênção, que, para nós, é muito significativa.
Mal Diego encerrara a fala, todos os cumprimentaram, efusivamente.
Os noivos estavam elegantemente vestidos, embora descontraídos, com traje despojado, sem excessos.
Apresentavam a fisionomia radiante de felicidade. Em seguida, o médium convidado para realizar a cerimónia colocou-se em posição que lhe permitia ser visto por todos os presentes.
Hector e Diego, de mãos dadas, postaram-se à sua frente.
Foi lido um trecho da Bíblia, mais precisamente uma passagem do livro de Cantares, de Salomão, também conhecido como Cântico dos Cânticos.
O dirigente espiritual se pronunciou:
- Para mim é uma honra estar aqui nesta noite, a fim de dirigir esta celebração à vida.
Enquanto muitos se unem e se separam, indiferentes à importância do compromisso assumido com o coração um dos outro, nossos amigos Diego e Hector estão aqui para selar seu compromisso de carinho, amor, afecto e amizade, celebrando e rogando as bênçãos de Deus.
Não sou representante de Deus na Terra, mas ocupo a posição de representante de uma comunidade de pessoas que têm um relacionamento com Deus.
E é por isso que, junto dos amigos, daqueles que amam os noivos, dos que lhes são caros e simpáticos, estamos reunidos para compartilhar este momento, que é realmente significativo, mágico e muitíssimo especial.
"Estas duas almas já se encontram unidas desde muito tempo, quando resolveram trocar seu afecto, confortar-se mutuamente e selar seu amor através do compromisso um com o outro.
Vivendo juntos em coração e parceria, a cumplicidade dos sentimentos marcou o início de uma relação afectiva que se consolida aqui, nesta noite, quando juntos elevamos os pensamentos ao Pai, que não faz acepção de pessoas, a Jesus, que abençoou a samaritana, caminhou entre os rejeitados da sociedade de sua época e abriu os braços a todos que soubessem amar.
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Re: O PRÓXIMO MINUTO/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 10, 2018 11:21 am

Como estamos falando de amor, de um amor incomum que une duas almas sensíveis, falamos de Deus.
Pois quem ama, não importando a forma de amar, está em Deus e Deus está nele.
0 mandamento de Jesus é:
'Amai-vos uns aos outros'.1
E não:
'Amai apenas as pessoas do sexo oposto'.
Considerando que o amor de Hector e Diego é muito maior do que o amor de muitos casais tradicionais, vim aqui de bom grado, sob o patrocínio de entidades superiores, que aqui estão neste momento, comemorando connosco a consolidação desse amor e a união pública e duradoura dos dois.
Essa união é coroada, ainda, pela bênção de uma criança, que empresta a este casamento a qualidade de família.
Todos ergueram os braços na direcção dos noivos, atendendo ao convite do oficiante, elevando os pensamentos e os corações em gratidão à vida e a Deus.
A cena era realmente comovente.
Do outro lado da vida, os invisíveis, amigos espirituais presentes, também elevaram as mãos.
Somaram seus pensamentos às vibrações emitidas e irradiadas pelos corações presentes à celebração do amor que unia aquele casal, aqueles parceiros, amantes e amores, que aproveitou o momento para apresentar a criança, o filho que coroava aquela família alternativa com as bênçãos da alegria.
De dois em dois, cada um se dirigiu ao cómodo onde repousava a criança, numa cama pequenina, preparada com esmero; o quarto, em toda a decoração, reflectia os cuidados dos novos pais.
- Com a chegada do nosso filho - manifestou-se Hector, imensamente satisfeito e comovido -, encerro minha participação na noite como artista.
Tenho de me dedicar agora ao nosso filhinho; a vida de artista, com seus desafios, horários loucos e irregulares, não me permitiria ficar atento à educação dele.
Além do mais, minha motivação para trabalhar na noite, à parte a satisfação, era também sustentar uma obra social, pois o dinheiro que eu ganhava, mesmo somado com a ajuda que Diego sempre deu, não era suficiente para sustentar o Palácio de Cristal.
E Diego complementou, demonstrando um contentamento que dificilmente poderia ocultar:
- Nosso amigo Igor, namorado de César, conseguiu excelentes parceiros para o sustento do Palácio de Cristal, fundado por Hector.
Ele próprio, o Igor, nos ofereceu ajuda, e agora existe um grupo de parceiros que é mantenedor da obra social, que não podemos parar.
Encerrada a fala de Diego, três pessoas os chamaram à parte e ofereceram colaboração financeira, como investidores, visando à manutenção do trabalho que tanto exigiu de Hector.

1 Jó 13:34; 15:12,17. Cf. Rm 12:10; 1ªPe 1:22.
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Re: O PRÓXIMO MINUTO/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 10, 2018 11:22 am

MUITOS DIAS SE PASSARAM desde esses acontecimentos.
Porém, Hector não se sentiria totalmente satisfeito enquanto não visitasse a velha mãe e o padrasto.
Precisava ir ao encontro de ambos.
Todos os meses enviava uma soma de dinheiro para a mãe; porém, até então, havia evitado procurá-la, devido ao episódio ocorrido na adolescência, quando do abuso sofrido por parte do padrasto.
Agora queria apresentar Diego e falar do filho que adoptara. E mais ainda...
Quando chegou a São José do Rio Preto, cidade distante pouco mais de 400 km da capital paulista, sentiu-se vacilar.
Será que deveria ir ao encontro da mãe?
Como veria o padrasto?
A esta altura, este já estava mais velho, é verdade - embora esse fato em nada ajudasse a tornar mais fácil o esquecimento, pois se sentia incapaz de subtrair da memória os abusos sofridos.
Com muito custo, lograra atenuar o impacto emocional decorrente das lembranças tormentosas, mas estas ainda se faziam notar.
Enfim, como seria recebido?
Mais ainda: como abordaria o padrasto e a mãe?
Apoiado por Diego, Hector foi estimulado a prosseguir.
- Você não veio até aqui para desistir neste ponto da jornada!
Não era essa sua necessidade?
Tantas vezes você me disse, Hector, que queria muito enfrentar e resolver a situação.
Estarei ao seu lado e juro:
não vou deixar você desistir, logo agora.
Os dois se dirigiram ao Parque Estoril, região da cidade onde viviam a mãe e o padrasto de Hector.
Ele havia ligado para a mãe quando chegaram ao aeroporto da cidade.
Ela os esperava ansiosa.
Assim que Hector viu a casa onde moravam, o coração disparou; as lembranças vieram à tona.
Apoiou-se no marido instintivamente, como a pedir ajuda.
A mãe o recebeu eufórica.
Abraçaram-se, choraram bastante, enquanto Diego respeitosamente se mantinha a alguns passos, esperando a hora de ser apresentado à sogra.
Trazia nas mãos um ramalhete como presente, além da caixa de chocolates de uma marca famosa.
Aguardou até que mãe e filho pudessem se tocar, compartilhar emoções, trocar carícias.
A mãe de Hector acariciava sua face, seus cabelos e olhava o filho extasiada.
- Quantos anos, meu filho! Quantos anos...
- e chorava de contentamento.
Me perdoe, meu Hector!
Me perdoe pelo meu silêncio, meu filho.
- Que é isso, mamãe?
Não fale assim.
Estou aqui agora e é isso que importa.
Aliás, quero aproveitar e lhe apresentar alguém.
Apontou para Diego, que se comovera com o reencontro de mãe e filho.
E esse reencontro realmente fez bem para o seu Hector, que chorava a olhos vistos.
- Este é Diego, o homem que me faz feliz, minha mãe.
É com ele que escolhi viver e ele é a pessoa da qual lhe falei, que me deu apoio durante todos estes anos.
A mulher, já idosa, demonstrou abertura mental incrível.
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Re: O PRÓXIMO MINUTO/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 10, 2018 11:22 am

Estendeu os braços e falou:
- Venha, meu filho!
Você é também um filho para mim.
Nas cartas que Hector me escreveu, ele sempre falava de você.
Me sinto honrada em conhecer o homem que faz meu filho feliz.
Venha, me abrace.
Diego abraçou a sogra chorando, tremendo, emocionado com a forma como foi acolhido.
Hector se uniu a ambos, igualmente sensibilizado.
Deveras aliviado, também.
Ignorava como a mãe receberia o seu Diego.
Agora, portanto, estava sinceramente mais tranquilo:
uma pressão interna havia sido liberada.
E tudo isso ocorrera ainda do lado de fora da casa onde morava dona Edite, a mãe de Hector.
Adentraram a casa e notaram um ar de simplicidade em todo o ambiente, embora o bom gosto na decoração, da distribuição dos móveis às flores expostas no vaso sobre a mesa.
Hector permanecia apreensivo, pois não vira o padrasto.
Não queria tocar no assunto ainda, mas, como não notou a presença dele, teve de perguntar:
- Onde está o Rui?
Não o vejo por aqui...
- Ah! Meu filho.
Eu nunca quis atormentá-lo falando de questões difíceis.
O Rui está muito mal no hospital da cidade.
Desde alguns anos que ele entrou num processo grave de depressão.
Falava dormindo; dizia que queria pedir perdão.
Mas por mais que eu lhe perguntasse, nunca se revelou por inteiro.
Só consegui interná-lo, mais recentemente, e pagar todo o tratamento por causa da contribuição generosa que você me dá todos os meses.
Vivíamos da minha aposentadoria e da aposentadoria do Rui, porém o dinheiro não era suficiente para pagar as despesas cada vez maiores com medicamentos, médicos, hospitais, enfermeiros e psiquiatras.
Principalmente os remédios são muito caros.
Quando decidimos parar com tudo, entregando a situação à vontade de Deus, você começou a enviar dinheiro.
Foi a salvação do Rui.
A princípio, ele ficou mais deprimido ainda ao saber que era tratado com o dinheiro que você enviava.
Mas não tínhamos como fazer diferente.
-E você passou necessidade, minha mãe?
Me diga...
- Não! Não, meu filho.
Com a aposentadoria, dava tranquilamente para vivermos.
Como éramos apenas nós dois, nos adaptamos a um estilo de vida simples.
Tive de reaprender a viver sem excessos, sem luxo e sem ultrapassar os limites.
Foi um aprendizado.
- Mas me fale, e o Rui?
Como ele está?
-0 Rui, meu filho, foi se fechando cada dia mais.
Entrou num estado de culpa e infelicidade tão grande que finalmente parou de falar.
Já é assim faz três anos.
Só se comunica com gestos.
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Re: O PRÓXIMO MINUTO/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 10, 2018 11:22 am

Os psiquiatras não sabem muito mais o que fazer.
Não fosse o dinheiro que você me envia, não teríamos condições de pagar o plano de saúde, muito menos os medicamentos.
Agora faz seis meses que ele está internado.
Desenvolveu um câncer de próstata, que se alastrou para a região dos testículos.
Não sei o que fazer.
Ele definha a cada dia.
Mas parece que a morte foge dele.
Por mais grave que seja a situação, ele sobrevive, persiste, como que aguardando alguma coisa.
A quimioterapia acabou com as resistências do Rui.
Teve de extrair a próstata, mas não adiantou mais.
Os testículos estavam, também, comprometidos.
Estamos esperando o momento final a qualquer hora.
Mas ele se apega à vida de uma maneira que não entendemos.
-E você nunca falou disso pra mim, minha mãe!
Nem consigo imaginar o sofrimento que você passou todo esse tempo.
Diego permanecia calado, ouvindo, respeitando o momento de ambos.
- Sabe, meu filho?
Todos nós sofremos estes anos.
Sabe que, por mais que eu tente, nunca consegui imaginar a extensão do seu sofrimento, desde que saiu de casa?
Então, estamos todos no mesmo barco. 0 que me resta é a religião.
Rezo todos os dias por você.
Não quis falar nada com você, Hector, porque eu sabia do seu sofrimento íntimo.
Jamais ignorei seus sentimentos, meu filho.
Algum dia, ainda hei-de contar pra você os detalhes da nossa história, a parte que você não conhece, e então entenderá o porquê do meu silêncio estes anos todos.
Hector abraçou a mãe, amparando-a nos braços e afagando seus cabelos.
Percebeu que não tinha parâmetros para avaliar a história dela, o silêncio e os motivos que a levaram a se omitir à época em que foi abusado pelo padrasto.
Mas não queria pensar nisso agora.
- Quero visitar o Rui no hospital.
A senhora me acompanha?
- Hector!... - exclamou Diego, reticente.
- Eu sei o que estou fazendo, Diego. Não se preocupe.
Acho que sei o que prende Rui ao corpo de uma maneira tão sofrida.
Preciso falar com ele. Vai comigo, mamãe?
- Claro, filho.
Posso telefonar para o médico e pedir a permissão dele para uma visita hoje.
Mas...
- Mas o quê, mamãe?
- Você deve se preparar, meu filho.
A situação física de Rui não é nada agradável.
Sinceramente, não sei se você ficará bem ao vê-lo como está.
- Não importa isso agora, mamãe.
Eu preciso vê-lo.
E penso que ele também precisa desse encontro.
Após alguns telefonemas, Hector, Diego e Edite se dirigiram ao Hospital de Base, a fim de visitar Rui.
Ao chegarem lá, tiveram de aguardar pelo menos por uma hora.
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Re: O PRÓXIMO MINUTO/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 10, 2018 11:22 am

Foi a hora mais longa de todas, pois Hector parecia totalmente alterado com a possibilidade de rever o padrasto.
Diego o abraçou e amparou a sogra, Edite, que não recusou a atitude carinhosa.
Hector apoiava-se no ombro de Diego, visivelmente agitado.
Assim que a recepcionista os chamou, os três caminharam até a unidade de câncer.
E o que viram chocou até mesmo Diego, que jamais havia tido contacto com Rui.
0 homem estava desfigurado.
De uma magreza atroz, jazia estendido na maca, entubado, tendo ao lado um auxiliar de enfermagem, a lhe prestar assistência.
0 corpo apresentava escaras em diversas partes.
Exalava um odor repulsivo, e tanto Edite quanto Hector levaram instintivamente a mão ao nariz, ao se aproximarem de Rui.
O quadro era desolador.
Diego hesitou um pouco mais, procurando permanecer ligeiramente afastado.
Sentiu uma tremenda opressão, pois nunca vira alguém naquele estado.
Ao se aproximarem de Rui, ele abriu os olhos.
Reconheceu Edite e ameaçou um movimento com os olhos, tentando se comunicar.
Edite chorou.
0 enfermeiro aventurou-se a dizer:
- Desde hoje cedo que o quadro dele parece ter piorado, e nenhum dos médicos entende como ele ainda se mantém vivo.
Parece grudado no corpo...
Hector se aproximou um pouco mais; fixando os olhos de Rui, principiou:
- Rui, sou eu, o Hector...
Você me reconhece?
Rui fitou o rapaz, num nítido esforço para lembrar-se da fisionomia à sua frente; arregalou os olhos logo em seguida.
Respirou mais sofregamente.
Tossiu muito. 0 enfermeiro acudiu, aplicando algum medicamento no soro que era conduzido às veias de Rui.
- Sou eu, Rui, o Hector - tornou a falar para o velho padrasto.
E Hector chorava, tocado profundamente pelo sofrimento do homem que abusara dele na adolescência.
Mil pensamentos cruzavam sua cabeça naquele momento. Edite fez menção de se aproximar, mas Diego abraçou-a delicadamente, oferecendo apoio para aquele momento.
Com a outra mão, tocou levemente o ombro de Hector, dando a entender que estava ali, amparando-o.
Para a surpresa de todos, inclusive do enfermeiro que acompanhava o caso de Rui, ele abriu a boca, esforçando-se ao máximo para se comunicar.
Forçou muito, a ponto de provocar uma crise de tosse.
Há alguns anos parecia ter emudecido de tanta depressão, agravada mais recentemente pelo câncer, que o consumia e o levara àquele quadro deplorável.
Mas o câncer era somente o reflexo do remorso, este sim, que lhe corroía verdadeiramente a intimidade.
Quase engasgado, balbuciou:
- He... Hec... Hector... Me per... - e tossiu ainda mais, expelindo sangue pela boca.
O enfermeiro acudiu, limpando, mas Hector, mesmo chorando, não arredava pé do lugar ou da sombra daquele homem.
- Rui, não fale nada!
Eu venho aqui apenas...
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Re: O PRÓXIMO MINUTO/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 10, 2018 11:22 am

- Hector soluçava, amparado mais intensamente por Diego, que lhe deu um beijo na cabeça, demonstrando apoio e afecto.
Hector precisava dessa força.
Edite se retirou, induzida por uma enfermeira, que se compadecera da situação da mulher.
Ela chorava muito, pois não sabia mais o que fazer pelo seu Rui.
Queria poupá-lo de tamanho sofrimento.
- Rui - continuou Hector, limpando as lágrimas enquanto reunia forças e finalmente lhe dizia.
Quero lhe pedir o seu perdão, Rui. Me perdoe!...
Uma revoada de pensamentos passou pela cabeça do homem moribundo.
Ele queria e precisava do perdão de Hector.
Havia destruído a juventude, os sonhos do adolescente e marcado profundamente a vida do rapaz.
E mesmo corroído pelo remorso, já no fim da vida, só eram possíveis o tratamento e o cuidado médico em virtude do dinheiro que Hector enviava todo mês para a velha mãe.
Embora fosse eternamente grato a Hector por esse gesto, era uma situação com a qual não conseguia conviver.
Na totalidade, sua vida dependia da mão generosa do mesmo Hector de quem abusara, fizera sofrer e espezinhara os enlevos da juventude.
Mas agora, que finalmente teria a chance de pedir perdão ao rapaz, era ele quem estava ali, rogando-lhe clemência.
E ele, Rui, não tinha o que perdoar.
Fora ele o agressor, e não o ofendido.
Vendo aquela situação, as lágrimas de Hector caindo-lhe sobre a face desfigurada, Rui procurava, a todo custo e com muito esforço, expressar seu pedido de perdão, seu clamor por misericórdia.
Sentia-se envergonhado; não, sentia-se mais que envergonhado.
Nos bastidores da vida, Samuel e outros amigos invisíveis presenciavam o desenrolar da situação.
Aguardavam o desfecho daquele drama que durara tantos anos.
Diego beijou os cabelos de Hector uma vez mais, despertando a atenção do enfermeiro, que não entendia tanto carinho de um homem para outro.
E mais ainda:
nenhum dos dois sequer parecia afeminado.
Eram másculos, homens mesmo, conforme pensava o enfermeiro.
Ele não sabia que Diego e Hector formavam um casal gay, uma família alternativa.
Hector, num ímpeto, surpreendeu a todos mais ainda quando debruçou a cabeça em direcção a Rui e o beijou na testa, deixando as lágrimas descerem e molharem a pele do padrasto.
Este lhe sentiu as lágrimas como um bálsamo que invadia sua alma.
Após esse gesto, Hector, ainda amparado pelo marido, tocou a face de Rui e falou baixinho, de maneira que somente o padrasto pudesse ouvir:
- Vá em paz, Rui!
Não sofra tanto; não se martirize assim.
Se puder, me perdoe, pois eu não soube compreender você e seus sentimentos, ao longo de todos estes anos. Me perdoe.
Rui estremeceu.
Tossia tão violentamente que o enfermeiro pediu para Hector e Diego se afastarem um pouco.
Diego sugeriu que fizessem uma oração.
Hector imediatamente se prontificou:
- Meu Deus, meu pai.
Em teu nome, Senhor, pedimos o amparo de nosso amigo Dr. Bezerra e sua falange de espíritos do bem.
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Re: O PRÓXIMO MINUTO/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 10, 2018 11:23 am

Que o médico dos pobres possa se condoer de Rui e de minha mãe, e ampará-lo em nome do seu amor...
Diego chorava, embevecido pelas palavras de Hector e, ao mesmo tempo, cativado pela grandeza de sua alma, de seu coração, que pedia perdão quando ele próprio, Hector, é quem fora agredido, violentado.
Como amava, como admirava aquele homem.
Como se espelhava nele e se orgulhava de tê-lo recebido como marido, como companheiro de sua vida.
Ambos se derretiam em pranto, enquanto Hector pronunciava a prece, em meio a soluços e ao sabor salgado das lágrimas, que lhe escorriam até a boca e além.
Nos bastidores da vida, até mesmo Samuel se sentiu emocionado, principalmente quando uma luz diferente apareceu na frente dele e dos demais espíritos.
Aquela luz, materializando-se ou coagulando, eis que surge, nada mais, nada menos, que a personalidade venerável de Bezerra de Menezes.
Samuel e seus companheiros reverenciaram aquele ser iluminado, que vinha, em nome do amor de Jesus e em resposta às orações de Hector, libertar Rui das amarras e do sofrimento do corpo físico.
Bezerra passou por Samuel e pelos outros amigos espirituais, tocando suavemente em seus ombros e pronunciando uma frase que lhe era bem característica:
- Não estão sós aqueles que amam, meus filhos...
0 laço que prendia Rui ao corpo foi definitivamente rompido pela vontade e pelo magnetismo de Bezerra, que o conduzia, desacordado, a uma instituição de socorro no espaço.
A luz permaneceu no ambiente espiritual por mais alguns minutos, atestando a presença da equipe espiritual que acompanhava o venerando médico.
Hector chorava muito; foi levado, juntamente com Diego, a outro aposento do hospital.
Rui vomitava sangue; entrara numa espécie de convulsão.
Estava esperando apenas o perdão de Hector e fora surpreendido com este a lhe rogar indulgência e compaixão.
Encerrava-se ali um drama complexo, secular, por meio da vitória do bem e do amor, que sobrepujou a dor e a própria morte.
Quando Diego apareceu, ao lado de Hector, Edite fitou-os, aflita.
Porém, o olhar de seu Hector já dizia o bastante.
Ela entendeu imediatamente o que ocorrera, sem palavras, sem frase alguma pronunciada.
Hector e Diego a abraçaram e novamente as lágrimas assinalaram aquele momento de libertação.
Lágrimas de alívio, lágrimas de saudade, lágrimas que caíam como bênçãos.
Lágrimas de esperança e de sonhos.
Ah! As lágrimas!
Como dizem muito mais do que mil palavras, do que frases inteiras.
As lágrimas ... somente as lágrimas!
Após o enterro do corpo de Rui, Hector e Diego tentaram convencer Edite a ir morar com os dois em São Paulo.
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Re: O PRÓXIMO MINUTO/Ângelo Inácio - Robson Pinheiro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 10, 2018 11:23 am

Mas a mãe de Hector se recusou.
Queria ficar ali mesmo, na cidade onde passou toda a vida.
Não obstante, ofereceu-se para visitá-los e, acima de tudo, queria muito conhecer o netinho, o filho de Hector e Diego.
Ao se despedir dos dois, Edite abraçou Diego falou:
- Cuide muito bem do meu filho.
E você também, Hector - rogou, emocionada.
Tome conta deste novo filho que a vida me deu.
E beijou a face de Diego, dizendo-lhes adeus no Aeroporto Estadual de São José do Rio Preto.
Profundamente aliviado, de alma lavada, Hector entrou na aeronave acompanhado do marido.
Acomodou-se na poltrona, mirou o horizonte e teve um pensamento de gratidão.
À frente de ambos, as páginas brancas de suas vidas, à espera de que rescrevessem a própria história.
Uma nova história, cujo final dependia exclusivamente deles.
Mas este final, caro leitor, ficará para um outro tempo, para um próximo minuto...

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BÍBLIA de referência Thompson. Tradução Contemporânea de Almeida. São Paulo: Vida, 1995.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o espiritismo, 1ª ed. esp. Rio de Janeiro: FEB, 2004.
. O livro dos espíritos. IA ed. esp. Rio de Janeiro: FEB, 2005.
. O livro dos médiuns. IA ed. esp. Rio de Janeiro: FEB, 2005.
. Revista espírita. Rio de Janeiro: FEB, 2004. v. 1, out 1858.
PINHEIRO, Robson. Pelo espírito Joseph Cleber. Além da matéria. 2ª ed. rev. Contagem: Casa dos Espíritos, 2011.
. Pelo espírito Joseph Gleber. Consciência. 2ª ed. rev. Contagem: Casa dos Espíritos, 2010.
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Pelo espírito André Luiz. Evolução em dois mundos. 20ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2002.
XAVIER, Francisco Cândido. Pelo espírito André Luiz. Nosso lar. 3ª ed. esp. Rio de Janeiro: FEB, 2009.


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