Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

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Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 13, 2018 8:58 pm

Herdeiros de nós mesmos
Maurício de Castro

Pelo espírito Hermes

Descrição da capa:
Esta capa está dividida em duas partes.
Na parte de cima e até o meio, fotografia de rosto de um casal de jovens, olhando-se de frente, de maneira carinhosa e muito próximos um do outro.
Do meio para baixo, fotografia de uma fazenda.
Uma casa grande e um terreno com plantação em frente à casa e, ao fundo do lado esquerdo desse terreno, várias árvores.
Vê-se também o céu em tom avermelhado.
A paisagem tem como cor predominante o vermelho da terra e um verde muito escuro da plantação, quase um marrom escuro.
A casa é branca com detalhes das janelas e portas em tom de vermelho.
O título do livro está no meio, entre as duas fotografias e a palavra herdeiros está escrito em preto e, de nós mesmos, em vermelho.
Abaixo do título, os nomes do autor e do espírito, nas cores preto e vermelho.

Sumário
Prólogo


Os herdeiros
A revelação
O encontro
O funeral
Nasce uma paixão
A confissão de Ana
Oração e fé
Amor sincero
O perdão
O testamento
Dever cumprido
Chegada à fazenda
Uma grande amizade
Obsessão
Esperança
Lei de Acção e Reacção
Mudanças
O casamento
Misericórdia
O desencarne de Leonora
A revelação
Liberto das amarras do sofrimento
Aurélio é aceite
Depressão
Caminhos do amor
O desaparecimento
A reunião espírita
Epílogo
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Ave sem Ninho

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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 13, 2018 8:59 pm

Prólogo
Era meia-noite quando os fogos anunciaram a chegada de mais um ano.
As pessoas comemoravam e nutriam a esperança de um novo ano com muita paz, prosperidade e saúde.
Um tanto distante do bulício da cidade, numa majestosa fazenda, uma jovem senhora vestida de preto, cabelo penteado com um coque, terço nas mãos, observava, por uma das janelas da soberba construção, os fogos ao longe.
Apesar de admirar a beleza do espectáculo, seu rosto, vez por outra, girava e vislumbrava um senhor bastante idoso deitado em alvo leito, respirando com dificuldade.
De repente, deteve-se melhor na sua respiração cada vez mais fraca e pensou:
Com certeza morrerá este ano.
Este miserável precisa morrer para o meu bem e de meus filhos. Louvado seja Deus!
A esse pensamento, sombras sinistras se colaram a ela, que, sem perceber, aumentava o desejo de ver aquele homem morto, distante de tudo aquilo.
Alguns minutos após a queima dos fogos, ela continuou na janela, sentindo o frescor da brisa.
Havia chovido durante toda a tarde, e seus filhos estavam preocupados com a festa de réveillon, pois não queriam perder a oportunidade de sair e se divertir, coisa que naquela fazenda pouco se fazia.
Perdida em pensamentos, Matilde foi surpreendida por duas grossas mãos passando por sua cintura.
Sentiu uma respiração quente, forte, e reagiu temerosa:
- Aurélio? O que quer aqui?
Deseja que o traste do Mariano acorde?
O homem, com aspecto viril e jovial, impecavelmente vestido à moda dos antigos mordomos ingleses, olhou-a abrindo um sorriso malicioso.
- Com essa fraqueza em que seu cunhado se encontra, só se acordar para a morte.
Porque não abreviamos logo este momento?
Você pode.
Matilde ruborizou-se.
Na verdade, desejava mesmo que Mariano morresse, mas não tinha coragem suficiente para desligar os aparelhos e acabar com seu suplício.
Revidou:
- Não posso fazer isso.
A vida e a morte estão nas mãos de Deus.
Ele é quem decide a hora.
- Não se faça de santa na minha frente.
Mesmo com esse terço na mão e esses eternos trajes de viúva, você não me engana.
Esqueceu que somos amantes desde que seu marido faleceu?
Ela sentiu o coração disparar.
- Vamos sair daqui, é melhor termos essa conversa lá fora.
Saíram por um longo corredor que dava em belíssima sala adornada com móveis do início do século passado, lustres, bibelôs e espelhos emoldurados em ouro.
Tudo naquela casa denotava riqueza extrema e bom gosto.
Matilde olhou para Aurélio e pediu:
- Não quero mais intimidades comigo no quarto de Mariano.
Ele está doente, mas é esperto.
Ouve muito bem.
Se descobrir que temos um relacionamento vai contar aos meus filhos e eu perderei o respeito deles.
Aurélio fez ar de mofa.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 13, 2018 8:59 pm

- Quero ver quando terá coragem para assumir nosso relacionamento.
Em breve o senhor Mariano baterá as botas, você e seus filhos herdarão tudo.
O Cássio vai querer cair fora daqui, e Ana, do jeito que é boboca e aceita tudo o que você diz, não vai se opor a nossa união.
- Não quero pensar nisso, agora.
Cada coisa em seu momento.
Por enquanto, você é o mordomo e eu a patroa.
Agora, vamos nos recolher.
Daqui a pouco, meus filhos estarão chegando das festas e não quero que nos surpreendam conversando.
- Tem certeza de que não quer passar algumas horas da noite de réveillon comigo? - disse isso beijando-a com ardor.
Seduzida, Matilde esqueceu-se de tudo e foi para o quarto de Aurélio.
***
A festa da virada de ano era tradição na pequena Boa Esperança.
A cidade vivia da renda produzida pela grande Usina Caldeiras, produtora de açúcar para exportação, que pertencia ao senhor Mariano Caldeiras e se localizava na imensa fazenda dele.
Desde a sua doença, seu sobrinho Cássio, filho de seu irmão Guilherme e de Matilde, jovem formado em Administração de Empresas, era quem comandava tudo com mãos de ferro.
Cássio era um homem bonito, tinha 29 anos, era alto, moreno-claro, cabelos lisos, sorriso jovial e maroto, que a todos encantava.
Formou-se na Universidade de Cuiabá.
Foi com entusiasmo que recebeu o convite do tio para trabalhar na empresa.
No entanto, Matilde tentava incutir em sua mente que ele era apenas um empregado como qualquer outro, que seu tio lhe pagava mal e o humilhava diante de todos.
Nessas horas, Cássio sentia-se um pouco revoltado, mas não deixava o veneno da mãe dominá-lo e logo recuperava o ânimo.
Compreendia que o tio, que às vezes agia com dureza, apreciava a disciplina, o trabalho correto, esperando que as pessoas se entregassem de corpo e alma ao que faziam.
A banda local tocava um animado samba e Cássio, unido a dois amigos, dançava a valer.
Nem se lembrava da irmã, que àquela altura devia estar rezando na igreja.
Enquanto ele gostava de curtir a vida, namorar, festejar, Ana era fechada, tímida e vivia agarrada à barra da saia da mãe.
Desenvolvera uma religiosidade fanática, rezava sem parar e havia desistido dos estudos.
Nem pensava em namorar.
Cássio achava uma pena, pois a irmã era bonita, tinha um olhar expressivo e sorriso simpático quando queria agradar a alguém.
Contudo, por mais que ele conversasse com ela a respeito do seu comportamento, Ana não cedia.
Quando a música parou, Cássio olhou para Rodrigo e disse:
- Estou ensopado de tanto dançar e com sede.
Vamos para o bar tomar água?
Já extrapolei na bebida por hoje, não quero chegar em casa bêbado.
- Há uma moça em uma barraca aqui perto que vende água de garrafinha.
O bar, a esta hora, está apinhado e, se você entrar lá, vai sair bêbado.
Não estou a fim de levar ninguém para casa.
- Vamos até a moça da barraquinha.
Os dois saíram da pista de dança improvisada e caminharam em direcção a uma jovem de rara beleza, que se vestia com simplicidade.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 13, 2018 8:59 pm

Trazia um laço de fita no cabelo, tinha os olhos vibrantes de alegria e um sorriso bonito para cada freguês que comprava algo em sua barraca.
Cássio aproximou-se e, sem observar o rosto da moça, pediu uma água com gás.
- Aqui está, moço.
Um feliz ano-novo!
Cássio levantou o rosto e seus olhos se encontraram.
Naquele momento, parecia que um véu havia sido arrancado de seus olhos.
Quem era aquela beldade que ele nunca vira?
Notando a surpresa no rosto do rapaz, a moça insistiu:
- Vamos, segure sua água.
- Muito obrigado - disse embaraçado.
Como você se chama?
- Sara, muito prazer.
Ela deu a mão para cumprimentá-lo e ele pôde sentir a maciez de sua pele e a leveza do seu toque.
Ficou encantado.
- Chamo-me Cássio. Cássio Caldeiras.
Você já deve ter ouvido falar de mim.
Ela deu de ombros.
- Nunca ouvi.
Sei da família Caldeiras, que é muito rica e vive numa fazenda.
Você faz parte dessa família?
- Sim. Sou sobrinho do senhor Mariano, tomo conta da usina porque ele está doente.
- Sinto muito pelo seu tio e estimo melhoras.
Agora, com licença, preciso atender esta garotinha aqui.
Cássio pagou a água e saiu.
Estava fascinado com a beleza daquela moça.
Como nunca a havia encontrado?
Rodrigo fez uma piada:
- Apaixonado pela barraqueira?
Pois ela nem lhe deu atenção.
Hoje você está azarado.
- Cale-se, Rodrigo.
Não sou de apaixonar-me assim tão facilmente, mas convenhamos que uma beleza dessas não passa despercebida.
Fiquei tonto.
- Eu já me acostumei com ela.
- Você a conhece? - perguntou interessado.
- Sim. Sara é uma moça sofrida, que tem a mãe doente.
Moram na periferia, em uma casa paupérrima.
Vivem da aposentadoria da senhora Leonora e dos quitutes que Sara faz para conseguir um extra.
É uma menina muito prendada.
Faz bolos, pães, bolachas e várias outras iguarias que as pessoas encomendam.
Assim, consegue dinheiro para os medicamentos da mãe, que sofre de doença incurável.
- Como sabe de tudo isso?
Rodrigo gracejou:
- Não sou como você que vive enfurnado naquela fazenda e só vem aqui nas festas.
Moro na cidade, esqueceu?
E Sara é muito conhecida aqui.
De repente, foram abordados por Ana, que inquiriu:
- Bebeu muito, Cássio?
- Não, maninha.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 13, 2018 8:59 pm

Não se preocupe, voltaremos em segurança para casa.
- Assim espero.
Em vez de participar das festas da igreja, você prefere essa vida mundana.
Ainda vai se arrepender.
Cássio riu.
- Ana, Ana.
Você ainda vai me matar de rir.
Eu, em festas de igreja!
Nem em Deus acredito!
Religião é para as mulheres, padres e donzelas.
Rodrigo também sorriu.
- Concordo com você.
Ana, com as faces ruborizadas, pegou o irmão pela camisa e o puxou em direcção ao carro.
- Já passam das duas da manhã.
Não quero mais ficar!
- Mas a festa mal começou.
- Eu quero ir embora.
Você me trouxe com a condição de levar-me a hora que eu quisesse.
Mamãe, como sempre, estará acordada esperando nossa chegada e ainda quero dar-lhe um abraço de ano-novo.
Cássio disse com raiva:
- Você é desmancha-prazer, mesmo.
Maldita hora em que insisti para que você saísse um pouco para se divertir.
Vamos embora.
Rodrigo não acreditou no que estava vendo!
- Você vai se deixar dominar pela sua irmã?
- Eu prefiro não arrumar briga em casa.
Depois, já me diverti o mais que pude:
dancei, flertei, bebi.
Por hoje, chega.
Rodrigo, malicioso, disse:
- Mas não namorou ninguém.
Logo o Cássio Caldeiras, sair de uma festa sem conquistar a mulher mais bonita!
Ele lembrou-se de Sara.
Era a mulher mais bonita que ele já vira.
- A mulher que eu quero está muito ocupada. Adeus!
Cássio entrou no carro, que, em poucos minutos, saiu da rua e ganhou a longa estrada que conduzia à fazenda Boa Esperança.
***
Como sempre fazia quando os filhos iam a alguma festa, Matilde os esperava acordada até a hora do regresso.
O caminho entre a cidade e a fazenda era um tanto longo e sinuoso, o que lhe causava pavor; imaginava algum possível desastre durante o trajecto.
Naquela noite de virada de ano não foi diferente.
Após sair sorrateira do quarto de Aurélio, deixando ordens expressas para que ele não aparecesse na sala, ela tirou os sapatos, soltou os cabelos, e ajeitou-se gostosamente numa grande poltrona de vime.
Recomeçou a rezar o terço, mas logo um torpor a invadiu e, sem perceber, caiu em sono profundo.
Sonhou que estava em uma estrada deserta e lamacenta, caminhando sem saber para onde.
Sentiu medo, mas avistou duas figuras humanas e gritou pedindo ajuda.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 13, 2018 9:00 pm

Um dos homens olhou--a com desdém, sorriu e disse:
- É você mesma?
Como veio parar aqui?
Cadê os santos que não a protegeram deste lugar?
Matilde começou a ficar nervosa e rogou:
- Quero sair daqui e voltar para casa.
O outro espírito gargalhou, dizendo:
- E bom que volte, mesmo, pois é lá que deve ficar.
Mas, aproveitando esse momento, vou avisá-la de que você vai perder tudo.
Ao perceber que ela o ouvia com atenção, ele continuou:
- É isso mesmo, a herança tão esperada não vai para suas mãos.
Ficará pobre a esmolar pelas ruas.
Você e seus filhos.
Ela desesperou-se:
- Como pode ser?
Eu sou a única herdeira.
Tenho todos os direitos.
- Você não é a herdeira, mas poderá vir a ser, se quiser.
Ela, então, perguntou:
- O que devo fazer?
- Roubar.
Tirar tudo dela, assim como ela fez com você tempos atrás.
É justo que se vingue e tome o que é seu.
O rosto de Matilde se transfigurou em ódio.
Seu espírito lembrou-se do passado e, irada, ela disse:
- É isso o que farei.
Chegou a minha hora!
Tenho todo o direito de ficar com o que é meu.
Os espíritos sorriam e de repente desapareceram.
Matilde continuou sozinha e começou a perceber que afundava numa areia movediça.
Desesperada, começou a gritar por socorro, mas ninguém vinha ao seu encontro.
Então foi gritando mais alto e mais alto, até que acordou com as mãos de Cássio sacudindo-a.
- Mãe, acorde!
Teve um pesadelo.
Ela deu-se conta de que estava na sala e não naquele local escuro e malcheiroso de minutos antes.
Aos poucos, foi se acalmando.
Olhou para os filhos e inquiriu:
- Isso são horas de chegar?
Já estava aflita, com receio de que acontecesse uma desgraça por essa estrada a uma hora dessas.
Ainda mais com Ana em sua companhia.
- Já lhe falei que a senhora precisa parar com essa mania de me esperar voltar de meus passeios.
Onde já se viu?
Tenho 29 anos, não sou mais um adolescente, sou um adulto e sei cuidar de mim.
- Mãe que é mãe não dorme enquanto o filho não chega em casa.
- Tudo bem.
Agora, vamos nos recolher.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 13, 2018 9:00 pm

Ana olhou para o irmão, censurando-o:
- Não vai dar um abraço na mamãe pela passagem de ano?
- Já ia me esquecendo.
Feliz ano-novo, mamãe.
Ambos se abraçaram e Ana fez o mesmo, dizendo:
- Rezei muito por todos da família, principalmente para que o tio Mariano melhore.
- Como você pôde fazer isso?
Esse homem tem de morrer para podermos ter o que é nosso.
Deus, que é justo, sabe que já está na hora.
Por essa razão, o fez adoecer sem ter chance de se curar.
Já esqueceu todas as humilhações que passamos nesta casa com esse traste?
Ana corou:
- Ainda assim, rezo para que ele melhore.
Gosto do tio Mariano.
Cássio se mantinha calado, até que a mãe o interpelou:
- E você, também orou pela melhora dele?
- A senhora sabe que eu nunca faço nenhum tipo de oração.
Não acredito nessas coisas, muito menos em Deus.
- Melhor assim.
Agora, cada um para seu quarto, já está amanhecendo.
Ana estava indo em direcção ao quarto, quando voltou e falou para a mãe:
- Padre Sílvio perguntou sobre a tia Marta.
Disse que pode fazer o que a senhora pediu.
Matilde apertou o braço da filha com força:
- Já lhe disse para não comentar sobre Marta com as pessoas.
Você não tem jeito, mesmo.
Alguém mais ouviu a conversa?
- Não, só eu estava na sacristia.
- Melhor assim, ninguém pode saber de nada.
Agora vá dormir, depois eu me acerto com o padre.
As luzes da fazenda foram se apagando, ficando acesa apenas a fraca luz do abajur do quarto de Cássio.
Sozinho, no silêncio da madrugada, ele não conseguia dormir pensando em Sara.
Será minha próxima aventura.
Ela fingiu não perceber minha admiração, mas no fundo sei que percebeu e ficou encantada.
Todas sempre se encantam comigo. Sempre foi assim e sempre será.
Pensando em fazer de Sara mais uma de sua colecção, ele adormeceu.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 13, 2018 9:00 pm

1 - Os herdeiros
Assim que o dia amanheceu, Matilde correu ao quarto de Mariano na esperança de que a morte o tivesse levado.
Ouviu barulho de pessoas conversando e resolveu espreitar pela porta entreaberta.
Além de não ter morrido, Mariano estava mais activo, corado, conversando com seus dois advogados.
Por mais que se esforçasse, ela não conseguiu escutar o que eles diziam.
Quando percebeu que estavam se despedindo, correu de volta à sala, sentando-se em sua costumeira poltrona de vime.
Quando os advogados iam se dirigindo para a porta de saída, ela os chamou:
- Doutor Percival!
Doutor Alceu!
Os simpáticos senhores olharam para ela e, depois dos cumprimentos, um deles perguntou:
- O que deseja, senhora Matilde?
- Nada de importante.
Apenas estranhei o fato de os senhores estarem aqui tão cedo e no primeiro dia do ano.
Algum problema com Mariano?
Percival mediu-a de cima a baixo, olhou-a profundamente
como a sondar seu íntimo e disse:
- Minha senhora, já não é novidade que nosso caro Mariano
tem poucos dias de vida, e como era de se esperar estávamos
tratando de assuntos relativos ao testamento.
Matilde assustou-se:
- Testamento? Mariano escreveu um testamento?
- Sim.
- Então. Então quer dizer que isso pode anular minha legitimidade como herdeira de seus bens?
- Não sei se sabe, mas você e seus filhos não tinham herança alguma.
Antes de morrer, seu marido havia perdido tudo para o irmão, que ficou com toda a fortuna.
- Mas Mariano é sozinho no mundo.
Cássio, Ana e eu somos seus legítimos herdeiros.
- Seriam se ele não houvesse deixado um testamento.
Esse documento anula quaisquer direito de parentes sobre o que for herdado, a não ser que eles estejam incluídos.
Matilde sentia-se desfalecer.
- Suponho que eu e meus filhos estejamos nesse testamento como únicos donos de tudo.
É isso?
Percival deu um sorriso cínico e respondeu:
- Isso a senhora só vai descobrir no dia em que Mariano nos deixar.
Até lá, nada pode ser dito.
Passe bem, senhora.
Os advogados saíram, e Matilde quedou-se na poltrona, pálida e tonta.
Não poderia ter ocorrido algo pior.
Mariano a odiava desde sempre.
Certamente, nada iria para ela.
Sua esperança era Cássio, pelo qual o velho era muito afeiçoado.
O que havia sido escrito naquele documento?
Ela precisava saber.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 13, 2018 9:00 pm

Aproveitou que os filhos estavam dormindo e só iriam acordar mais tarde e procurou por Aurélio, encontrando-o na copa.
- Preciso falar com você.
- Não posso agora, vou levar o desjejum ao senhor Mariano.
- Obedeça-me.
Venha comigo.
Aurélio seguiu-a até seu quarto e só então notou o quanto Matilde estava com os olhos inquietos e a respiração ofegante.
- Você sabia que o Mariano fez um testamento?
- Testamento?
Não, não sei de nada - mentiu ele.
- Estou desesperada.
Isso muda todos os meus planos.
Os advogados, que saíram daqui agora há pouco, estavam tratando do testamento que ele escreveu.
- Tem certeza?
- Sim, o Percival me contou.
E, pelo ar de cinismo com que me tratou, sei que meu nome não está incluído.
Esse velho está aprontando alguma e você terá de descobrir tudo para mim.
Em você ele confia.
Tente saber tudo ainda hoje, aproveite que ele parece ter acordado com mais força.
- Tentarei fazer o possível, mas você sabe o quanto o senhor Mariano é introvertido, nem tudo ele me diz.
Não sei se conseguirei.
Matilde estava desesperada.
- Você é minha única esperança.
Tenho de saber o que está escrito ali para que eu possa tomar minhas providências.
Aurélio acercou-se dela e questionou:
- O que você poderá fazer contra dois advogados e um testamento já escrito?
- Eu sempre sei o que fazer.
Mas não posso tomar uma atitude sem saber ao certo o que está acontecendo.
- Tentarei descobrir na hora do café.
Agora, preciso me apressar.
A copeira já deve estar estranhando o meu sumiço.
Os dois saíram do quarto e, enquanto Aurélio se dirigia aos aposentos de Mariano, Matilde voltou para sua poltrona e pôs-se a esperar.
Não adiantaria tentar escutar atrás da porta, pois nunca conseguia ouvir os sons que vinham daquele recinto.
Além de Mariano não poder falar alto, certamente também ela não ouviria a voz de Aurélio, pois para um segredo como aquele ele falaria muito baixo também.
Aurélio entrou no quarto com a bandeja ricamente farta para o desjejum.
Mariano, deitado, olhos perdidos num ponto distante, ao vê-lo disse:
- Não quero comer nada.
Preciso falar com você.
Vendo que Aurélio mantinha-se respeitosamente distante, ele aumentou o tom de voz:
- Sente-se próximo a mim.
Nesta casa, as paredes têm ouvidos.
Sei que a serpente da minha cunhada tenta escutar tudo atrás das portas.
Aurélio sentou-se próximo a Mariano que, com voz rouca, iniciou:
- Sei que tem feito bem a parte que lhe cabe.
Sou-lhe eternamente grato.
- Faria muito mais, senhor.
Ela já sabe do testamento e está em desespero.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 13, 2018 9:00 pm

Temo que faça alguma coisa contra o senhor.
- Não fará. Não terá mais tempo.
Sinto que o resto de vida se esvai a cada dia pelos meus poros.
O mal que ela me fez durante a vida já foi o suficiente para receber o que a aguarda.
Os olhos de Aurélio brilharam.
- Acho muito justo o que o senhor fez.
- Justíssimo, justíssimo.
Eu não sabia o que hoje sei; se soubesse, tudo seria diferente.
Por essa razão, peço-lhe, Aurélio, não deixe de cumprir o nosso trato.
Você permanecerá aqui nesta fazenda e vai fazer tudo como combinado.
Matilde é um demónio e como tal fará tudo para destruir aquela que passei a amar mais que a própria vida.
Irei para o mundo dos mortos, mas prometo que de onde estiver virei lhe cobrar sua parte no trato.
Aurélio sentiu um leve arrepio.
Não acreditava que os mortos pudessem voltar, mas aquelas palavras ditas com tanta força pelo velho Mariano fizeram-no com que tremesse por dentro.
- Não se preocupe, caro senhor.
Farei tudo como me ordenou.
Creio que já chegou o momento de iniciarmos, não?
- Sim. Aqui está o envelope.
Entregue em mãos.
Não sei se com essas dores sobreviverei até amanhã; portanto, vá hoje mesmo levá-lo ao destino.
- Sim senhor.
Agora, coma pelo menos uma fatia de pão.
- Não desejo nada.
Cerre as cortinas e me deixe em paz.
- O seu médico passará aqui às dez horas, como de costume.
- Aproveite enquanto o doutor Geraldo está aqui e saia sem que Matilde perceba.
Ela não pode saber de nada até o momento certo.
Depois de algum tempo, Aurélio saiu do quarto e, antes de dirigir-se para a cozinha, foi interpelado por Matilde:
- E então?
O que conseguiu descobrir?
- Nada. O velho se fechou em copas.
Não aceitou nem comer.
Você disse que ele acordou melhor.
Qual nada! Creio que não passa de hoje.
Matilde o olhou com desespero:
- Se nem a você ele contou é porque é pior do que eu imaginava.
É bem capaz que ele deixe tudo para uma instituição de caridade e eu fique à míngua.
Mas posso comprar esses advogados, a fortuna é imensa.
Quem não se corrompe por uma boa soma em dinheiro?
Aurélio fez um esgar de incredulidade.
- Não sei se o Percival e o Guilherme são assim fáceis de serem comprados.
Parecem-me pessoas honestas.
- Deixe comigo.
De tão nervosa, Matilde nem questionou a demora de Aurélio no quarto com Mariano, o que o deixou aliviado.
Pouco tempo depois, Ana e Cássio desceram para o café.
Matilde sentou-se à mesa com eles, demonstrando nervosismo.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 13, 2018 9:01 pm

Ana percebeu e perguntou:
- O que tem, mamãe?
Seu rosto está pálido, está inquieta.
- Preciso que vocês terminem logo esse café para que possamos conversar.
Algo muito grave está acontecendo.
Cássio pousou a xícara no pires e inquiriu:
- O tio Mariano piorou?
-Antes fosse.
Amanheceu melhor.
Terminem com esse desjejum que estarei no escritório a esperá-los.
Matilde saiu, deixando Ana e Cássio com o semblante preocupado.
- Mamãe não anda nada bem.
Tem se recusado a ir às missas, não tem saído deste lugar desde que o tio adoeceu.
Deve ser falta de oração.
- Cale-se, Ana - disse Cássio irritado.
Você só pensa em igreja, missa, padre.
Mamãe é preocupada com nosso futuro.
Creio que algo sério está acontecendo para deixá-la nesse estado.
Eu não acho que ela deva se preocupar, tio Mariano vai morrer e tudo será nosso.
Ou será que existe algo que vai impedir isso?
- Não creio, somos os únicos herdeiros.
Cássio levantou-se da mesa, não conseguiu mais comer.
Puxou Ana pelo braço e conduziu-a ao escritório.
Lá chegando, Matilde os deixou a par de tudo o que soubera, finalizando:
- Não sei qual será o nosso destino.
Eu sei que o tio de vocês quer nos ver à míngua.
Mas haja o que houver não perderemos o que é nosso.
Cássio estava preocupado.
Gostava do tio, preocupava-se com sua saúde, trabalhava com prazer na usina, mas era vaidoso.
Acostumado ao luxo, vestia-se impecavelmente, frequentava a nata da sociedade mato-grossense, saía com belas mulheres em seu carro último modelo, e não conseguia ver-se sem tudo isso.
Sabia que o tio também tinha por ele desvelos de pai, mas também sabia do ódio que nutria por Matilde e de como haviam se digladiado desde que seu pai morrera.
Achava mesmo que Mariano adoecera pelas constantes brigas que tinha com ela.
Levantou o rosto dizendo:
- Não vamos nos preocupar por enquanto.
Creio que a senhora está fazendo tempestade em copo d ’água.
E depois, se tudo virar-se contra nós, saberemos dar um jeito.
- Não seja tão confiante, Cássio.
O melhor que tem a fazer é falar com seu tio, agora.
Ele gosta de você, o respeita, deixou todos os negócios em suas mãos.
Você é o filho que ele não teve.
Se você não for, farei uma loucura.
Você sabe do que sou capaz.
- Calma, mamãe. Falarei com ele.
Deixe pelo menos o doutor Geraldo chegar, examiná-lo e sair do quarto.
Então, farei o que me pede.
Cássio saiu, deixando mãe e filha confabulando.
- Seu irmão tem muito sangue-frio.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 13, 2018 9:01 pm

É porque sabe que vai ganhar algo nessa herança.
Mas o quê? Um apartamentozinho em Cuiabá?
Uma fazenda no Pantanal?
Não, isso eu não aceito.
Quero tudo o que pertence a Mariano e que é nosso por direito.
É uma fortuna para cinco gerações. Eu mereço, nós merecemos depois de tantos anos de sofrimento.
- Mamãe, vamos ao oratório, precisamos pedir que tudo corra bem.
Matilde, guiada por Ana, deixou-se conduzir ao imenso e belo oratório barroco da fazenda, mas não prestava atenção a nenhuma oração que a filha fazia.
Fingia acompanhar, mas seu pensamento estava na grande herança que infelizmente corria o risco de não ser sua.
***
Cássio deu duas batidas leves na porta do quarto e, mesmo sem ouvir a voz do tio permitindo sua entrada, ele entrou.
Geraldo havia saído havia alguns minutos e comunicara que o estado de Mariano, apesar de terminal, mantinha-se estável.
Recomendou mais cuidados e medicação na hora certa.
Apesar de escuro, Cássio notou que Mariano remexia-se inquieto.
Falou baixinho:
- Tio? Preciso falar com você.
Ao ouvir a voz do sobrinho querido, Mariano abriu os olhos e, com voz levemente fortificada, respondeu:
- Não se preocupe, ainda não morri.
Abra as persianas.
Cássio obedeceu e sentou-se numa poltrona próximo à cama.
- O que deseja?
Algum problema com nossos negócios?
- Não. E eu já lhe disse para não se preocupar com a usina e os outros imóveis.
Quando assumi o comando, o fiz por amor a todo o nosso património e por amor ao senhor.
Sua doença é séria e não comporta outras preocupações, mas, se lhe alegra saber, tudo está prosperando como sempre.
Mariano sentiu pena de Cássio.
Apesar de tudo, era o único naquela fazenda em quem ele confiava.
Na verdade, amava o sobrinho como a um filho.
Sabia de sua ambição desmedida, da sua falta de respeito com as mulheres, mas também de sua honestidade.
Se Matilde era uma mulher vulgar e interesseira, capaz de tudo para conseguir seus objectivos, Cássio era o oposto.
Por essa razão, ele planeou tudo, pensando no melhor para o sobrinho.
Sabia que não iria se arrepender.
Notando que Cássio queria lhe falar com urgência perguntou:
- O que deseja me falar?
Noto preocupação em seu rosto.
- É. é. - Cássio estava sem jeito, mas tinha de cumprir o que prometera a Matilde.
É sobre o testamento que o senhor escreveu.
Sei que não gosta de minha mãe nem de minha irmã.
Acompanhei desde pequeno o ódio que nasceu entre vocês e não quero julgar ninguém, mas não acho justo que elas fiquem sem nada.
Meu pai era seu irmão.
Tudo bem que ele perdeu tudo para o senhor, mas não me sentirei bem se herdar alguma coisa e mamãe e Ana não herdarem nada.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 13, 2018 9:01 pm

Meu coração de filho e de irmão não ficaria feliz.
Por essa razão, peço que me tire do testamento ou inclua minha mãe e Ana.
Mariano fez um silêncio e não respondeu.
Na verdade, havia traçado o destino de Cássio no testamento, mas, naquele momento, não podia revelar nada.
- Vocês estão se precipitando, e sua mãe mais ainda.
Quem disse que elas não vão herdar nada?
- Nós sabemos que seu ódio é maior que tudo.
Desculpe, tio, mas não creio que perdoará minha mãe.
- Cássio, meu filho.
Não demorarei a morrer.
Sua mãe muito errou e, com seu pai, quase terminou com minha vida naquele episódio tão conhecido de todos desta casa.
Não vou mentir que deixei algo para vocês, mas devo admitir que o amo e em nome desse amor decidi algo que vai mudar todo o rumo desta história.
Tudo vai depender exclusivamente de você.
Saiba que o que está escrito naquele testamento e tudo o que eu fiz e programei foi unicamente por amor a você.
Talvez na hora você não entenda, nem eu mesmo entendi por que fiz, mas, agora, não posso mais mudar.
Lembre-se de que a sua vida, a vida de sua mãe, da sua irmã, desta fazenda e tudo o que possuo, estará exclusivamente em suas mãos.
Não sou Deus, mas escolhi o seu destino.
Cássio gelava à medida que ouvia.
O tio dissera claramente que eles não iriam ficar com nada, mas ao mesmo tempo afirmava que a história iria mudar e tudo iria depender dele!
- Como assim?
Como escolheu o meu destino? - perguntou nervoso.
Mariano começou a tossir e disse num fio de voz:
- Nada mais posso revelar.
Aguarde o dia de minha morte e, após o meu sepultamento, saberá de tudo.
Vendo que Mariano não estava mais aguentando manter uma conversação, ele aproximou-se, beijou-o no rosto e saiu.
Na sala, tanto Matilde quanto Ana esperavam ansiosas.
- O que aconteceu lá dentro?
Vamos, conte-nos tudo - Matilde insistia torcendo as mãos.
- A senhora tinha razão.
Nós não vamos herdar nada.
Uma palidez mórbida tomou conta do rosto de Matilde.
- Eu sabia!
Esse velho traste vai nos deixar na rua.
Isso não é justo.
Eu vou lá falar com ele, vou gritar toda a minha revolta, meu ódio e o facto de ter deixado que ele o criasse como filho.
Eu dei você para ele e, agora, o que ele faz?
Deixa-nos sem nada, na miséria.
- Calma, mãe.
Não é só isso.
- E o que tem mais?
O que pode ser pior do que isso?
- Ele disse que no testamento tem coisas que poderão mudar o nosso destino e que tudo está em minhas mãos.
- Como assim?
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 13, 2018 9:01 pm

- Ele não explicou mais nada, apenas disse que fez tudo por amor a mim e que escolheu o meu destino.
Não acredito que vamos precisar sair desta casa, pois no que depender de mim tudo farei para que não fiquemos sem abrigo.
Ana apertava com força o terço entre as mãos e dizia:
- Tudo para o Cássio, sempre o Cássio. E eu?
Nunca fiz mal algum ao tio.
Sempre fui cordata, rezei por ele, senti muito quando soube de sua doença.
Eu não tenho culpa de ser filha de quem sou.
Matilde esbofeteou-a:
- Cale-se. Você não sabe o que diz.
Não sabe o sacrifício que eu e seu pai fizemos entregando o Cássio para que Mariano praticamente o criasse, viajasse com ele pelo mundo.
Nós quase não tivemos a presença do nosso filho ao nosso lado.
Mesmo quando estava em casa, Cássio ficava grudado no verme do tio, na empresa, desde adolescente!
Ninguém reconhece o que fiz pensando em nosso futuro?
Cássio indignou-se:
- A senhora fez isso apenas pensando em se dar bem, como sempre.
- Não fale assim comigo.
Você sabe que eu fiz pensando em nosso bem e de nossa família, principalmente no seu e no de sua irmã.
O pai de vocês era um bom homem, amei-o desde o princípio, mas era viciado no jogo.
O que eu podia fazer?
Ele foi jogando, jogando, até que perdeu toda a herança que o pai deixou para ele e o irmão.
Mariano sempre pagava tudo, não queria perder o que havia herdado.
Eu fiz tudo por amor.
Cássio amava a mãe, por essa razão voltou atrás:
- Desculpe pelo jeito que lhe falei.
Nossos ânimos estão exaltados com tudo o que vem acontecendo.
Acho que a senhora deveria também pedir perdão a Ana por tê-la esbofeteado.
Ela não merece.
Matilde olhou para a filha e abraçou-a, pedindo perdão.
- Agora que já fiz minha parte, preciso sair um pouco, distrair minha mente.
O clima desta fazenda está me sufocando.
- Vai ao córrego?
É lá que costumo ir para melhorar minha cabeça e orar à virgem - era a voz de Ana interessada em acompanhar o irmão.
- Não vou ao córrego coisa alguma. Não gosto de contacto com a natureza.
Da natureza só quero o lucro que ela pode nos dar com a cana-de-açúcar.
Vou para a cidade.
Dizendo isso, ele saiu como um furacão, deixando a mãe e a irmã se questionando sobre o que estava escrito no testamento.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 13, 2018 9:02 pm

2 - A revelação
O luxuoso carro do velho Mariano vencia a distância entre a fazenda e a cidade com Aurélio ao volante.
Por ordens do patrão, ele dispensara o motorista e seguia para um destino que iria modificar toda a trajectória daquela família.
Aproveitara a chegada de Geraldo para sair sem ser percebido por Matilde.
Aurélio sempre fora fiel ao patrão.
Por ordens dele, assim que Guilherme morreu, passou a assediar a recém-viúva, que, sem muita dificuldade, caiu em seus braços.
Ele era um homem bonito, másculo, branco, alto, forte, corpo bem definido, jovem e de sorriso sedutor.
Nascera ali mesmo na fazenda, era filho de usineiros.
Seus pais partiram do Mato Grosso quando ele tinha 20 anos, deixando-o sob os cuidados de Mariano.
O velho era muito amigo do casal e se afeiçoara a Aurélio desde que ele era criança.
Notando sua dificuldade nos estudos e sem ter como empregá-lo na usina resolveu que ele trabalharia dentro de casa.
Assim, tratou de ensiná-lo a lidar com os empregados e assumir pequenas tarefas.
Logo Aurélio tornara-se o mordomo da fazenda Boa Esperança.
Por sua lealdade e amizade ao patrão recém--viúvo todos passaram a respeitá-lo, inclusive Matilde.
Fazia 15 anos que estava nessa função e esse tempo servira para adquirir considerável fortuna.
Mariano, além de lhe pagar um bom salário, dava-lhe grandes agrados, que ele fora juntando pensando em um dia sair dali.
Mas as coisas aconteceram de modo diferente e, em mais um pacto com o patrão, ele se obrigou a ficar na fazenda até que tudo terminasse.
Aurélio dirigia pensando em tudo isso quando, de repente, percebeu que já estava na cidade.
Passou pelos bairros mais abastados e foi entrando por pequenas ruas sem calçamento até atingir um bairro paupérrimo.
Olhou ao redor e viu crianças sujas, despidas, brincando no esgoto a céu aberto.
Acolá animais soltos vagavam a esmo, completando o cenário de extrema pobreza, que contrastava com o da belíssima fazenda em que residia.
Parou diante de uma casa, que, assim como as outras, tinha aspecto pobre e sujo.
De repente, pensou:
O senhor Mariano tem toda razão, tudo podia ser diferente.
Mas será mesmo?
Parou no pequeno portão de madeira e, certificando-se de que era ali mesmo, chamou:
- Senhora Leonora!
Preciso falar-lhe!
Alguns instantes depois, a porta se abriu e surgiu a figura de uma linda moça.
Ao vê-la, Aurélio pensou:
É ela, com certeza, é ela.
- Gostaria de falar com a senhora Leonora.
- Desculpe, senhor, mas minha mãe atravessa uma doença difícil e está a descansar no momento.
Pode me dizer do que se trata?
- Conheço a situação de sua mãe e não viria importuná-la se não fosse um caso de extrema urgência.
Diga que é Aurélio e que é da parte do senhor Mariano Caldeiras.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 14, 2018 8:28 pm

A moça ficou em dúvida, sua mãe acabara de sair de uma crise forte de dor.
Pensou alguns instantes e resolveu ceder.
- Entre, vou ver se ela está em condições de atendê-lo.
Ao entrar no ambiente simples e acolhedor, Aurélio não deixou de observar o contraste existente entre a rua e aquela casa.
Tudo ali era limpo e arrumado.
Praticamente não havia móveis, mas os que existiam estavam dispostos com apuro e bom gosto.
Ainda assim era muita pobreza.
Não entendia o porquê de Leonora e Mariano terem feito aquela opção e escondido aquele segredo por tanto tempo.
- Minha mãe vai recebê-lo. Venha.
O quarto de Leonora era pobre, mas muito claro e ventilado.
Ao fitá-la, Aurélio percebeu como a doença e a velhice a haviam transformado.
Não parecia aquela moça bonita e alegre que Mariano mostrava nas fotos secretamente escondidas no fundo falso do armário do quarto.
Além do que, já a havia visitado antes na companhia do patrão, anos atrás, quando tudo fora descoberto e o sofrimento que a vida lhe impôs a transformaram em outra pessoa.
- Sente-se, Aurélio - disse Leonora com a voz fraca.
Sabia que você viria.
Não imaginava quando, mas sabia.
Sua visita me faz crer que meu Mariano, assim como eu, espera os dias para se libertar deste corpo que não mais nos serve.
Não é verdade?
- Sim, dona Leonora.
Assim como senhor Mariano prometeu da última vez que a viu, aqui estou porque chegou a hora da sua morte.
Os médicos já o desenganaram e esses são seus dias finais.
Chegou também a hora de a senhora fazer a parte que lhe cabe.
Sei que será difícil, mas é necessário.
- Sei que é.
O que mais importa é que já ensinei a minha filha o suficiente para que ela lide com tudo isso.
Partirei em paz.
- Por mais que a tenha ensinado, creio que Sara não se sairá bem sem minha presença.
Aquela fazenda é um covil de serpentes, e a serpente maior é a Matilde.
Mas, assim como disse da última vez, estarei ao lado de sua filha até o fim.
Os olhos castanhos de Leonora encheram-se de lágrimas.
Sabia que Aurélio tinha razão, mas sabia também que sua filha precisava vencer os desafios que a vida estava lhe impondo para aprender os valores eternos do espírito.
Pouco antes de ficar doente, Leonora conhecera a doutrina espírita por meio de sua patroa, uma mulher generosa e inteligente, que, com prazer, havia lhe ensinado sobre o mundo espiritual e a causa dos sofrimentos que grassam sobre o planeta.
Foi ela quem mais a ajudou no momento que descobrira seu grave problema de saúde.
Em uma das conversas, Rosana disse-lhe:
- Os problemas de saúde vêm de atitudes negativas que estamos tendo para connosco.
Nosso espírito nasceu para ser livre, realizar-se, ser feliz.
Tudo o que fazemos contra essa programação acaba em dor e sofrimento.
- O que posso ter feito de errado para estar com um câncer?
Sempre fui uma pessoa boa, honesta, cumpridora dos meus deveres de mãe.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 14, 2018 8:29 pm

Acreditei estar quite com Deus.
- Você não fez o principal, não foi feliz.
Deus nos deu a vida, um corpo saudável, esse planeta maravilhoso para habitarmos, mas temos de fazer a nossa parte.
Aprendemos a receber e até a dar ao próximo, mas desaprendemos a ciência de ser feliz.
A única retribuição que Deus deseja de nós é a nossa felicidade.
Você fez tudo certo, mas vivia triste, lamentando-se pelo passado, porque não teve a chance de viver o seu amor.
Esqueceu-se de que neste mundo ninguém é vítima, mas responsável pelo próprio destino.
Acreditando que nasceu para ser infeliz, fechou--se em seu mundo, perdeu a chance de amar outra vez e ser amada, de reconstruir sua vida, e não há corpo que resista a um espírito frustrado e amargurado.
É por essa razão, que há tantos doentes no mundo. Enquanto as pessoas não aprenderem a arte de ser feliz não serão saudáveis.
- Eu não tive nenhuma culpa pela minha infelicidade, foi o destino que quis assim.
- Não existe destino, senão aquele que nós próprios criamos.
Vimos estudando isso há algum tempo desde que lhe emprestei os livros de Allan Kardec.
Pensei que houvesse aprendido.
- É difícil compreender quando se está vivenciando a dor.
- Mas é justamente na hora da dor que devemos usar tudo o que aprendemos com a espiritualidade.
Agora, que já criou a doença, aproveite a experiência para evoluir com ela, não se queixando hora alguma, suportando tudo com coragem e resignação.
Depois, a vida continua.
Uma doença grave, sem cura, representa também a preparação para a chegada no plano espiritual.
Além disso, Deus nunca desampara nenhum de seus filhos.
Aceite, agora, o que não pode mais mudar e encontrará a paz.
Foi assim que Leonora, amparada por sua amiga Rosana e pelos livros espíritas que lia, foi melhorando o emocional, preparando-se com coragem e força para a chegada à pátria maior.
Sabendo que não ia viver por muito tempo, tratou de ensinar a doutrina consoladora para Sara, sua filha e razão de seu viver.
Seu maior medo era partir e deixá-la sozinha, mas Mariano acabara descobrindo a verdade que ela tentara ocultar e prometeu que cuidaria da filha de ambos como deveria.
Saiu da corrente de pensamentos que a invadira quando percebeu Aurélio retirando do bolso do terno um papel.
- Não vim aqui apenas para lhe comunicar que Mariano está morrendo, mas para lhe trazer esta carta.
Nela, ele explica tudo o que está guardado para sua filha, que não deverá saber de nada até a hora certa.
Prepare-a no que for preciso, o resto virá ao seu tempo - fez uma pausa e perguntou com voz baixa:
- A propósito, onde ela está?
Suponho que não escutou o que conversamos.
- Pedi para que ela saísse assim que soube tratar-se de você.
Sara é muito curiosa, certamente vai querer saber o que uma pessoa estranha veio conversar comigo.
Não poderei ocultar-lhe a verdade.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 14, 2018 8:29 pm

Não na situação em que me encontro.
- Mas a senhora não poderá dizer-lhe tudo.
Sugiro que leia esta carta e depois a queime.
Mariano a escreveu como uma despedida, pelo amor que sente por você e também para informá-la sobre o futuro de sua filha naquela fazenda.
Não seria justo que a senhora morresse sem saber o que ele programou.
Com dificuldade, Leonora sentou-se no leito simples, pegou os óculos e começou a ler.
Cada palavra que lia emocionava-a, mas, a partir de determinado ponto, ela começou a ficar pálida, seu rosto contraiu-se de dor e olhou para Aurélio vociferando:
- Ele não tem o direito de fazer isso com minha filha. Não tem!
- Senhora, tudo o que ele vai fazer é para o bem de Sara.
Como um pai pode querer o mal para a filha?
- Eu sei que isso aqui vai fazê-la sofrer amargamente.
Meu Deus, como evitar esse sofrimento?
Aurélio contemporizou:
- Está sendo dramática, senhora.
No fim, tudo vai dar certo.
Leonora, sentindo a respiração ficar ofegante e o coração encher-se de ódio, bradou:
- Suma daqui, Aurélio! Desapareça!
Sei que só meu corpo morrerá, meu espírito ficará vivo e se minha filha for infeliz virei lhe cobrar e a Mariano.
Agora, retire-se desta casa.
- Como quiser, senhora!
Dizendo isso, Aurélio saiu.
Sara, parada no portão de madeira, aguardava.
- E então? Já terminou?
- Sim, senhorita, tenha um bom dia.
Desde que aquele homem misterioso com carro último modelo chegara pedindo para falar com sua mãe, Sara se inquietara.
O que alguém como ele iria querer com uma mulher simples e doente como sua mãe?
Não demoraria para saber.
Perguntaria a Leonora.
Entrando no quarto, surpreendeu a mãe num acesso de tosse muito forte.
Assustou-se e fez como os médicos e enfermeiras haviam lhe ensinado sempre que sua mãe tivesse alguma crise.
Com paciência, acalmou-a e quando tudo voltou ao normal indagou:
- Mãe, algo sério se passou aqui entre a senhora e aquele homem. Seu estado emocional e físico não nega.
Quero saber tudo.
Nunca existiram segredos entre nós duas.
- Sim, minha querida.
Existiu e existem muitos segredos entre nós.
- Como assim, mamãe?
- Chegou a hora de lhe revelar.
Apenas peço que perdoe esta mulher, que muito errou nesta vida, por actos e omissões, mas que fez tudo isso por amor a você.
- A senhora está me assustando.
O que há em sua vida que eu não sei?
Leonora tentou ser forte, não havia mais como prosseguir sem dizer toda a verdade.
Segurou as mãos de Sara com força, olhou-a profundamente e disse:
- Você já é adulta, e, embora inteligente, sempre acreditou na história de que seu pai foi um caixeiro-viajante, um amor rápido da juventude pelo qual me deixei levar sem pensar nas consequências.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 14, 2018 8:29 pm

Mas isso não é verdade. Seu pai vive mais próximo do que você imagina, e não foi um amor passageiro, foi a única pessoa a quem realmente amei e amo até hoje.
Os olhos de Sara brilharam de emoção.
Se aquilo fosse verdade, ela poderia reencontrar o pai, abraçá-lo, dizer o quanto sentira sua falta durante todos aqueles anos.
Nem questionaria o porquê de ter sido abandonada por ele, apenas aproveitaria o momento para dizer que, em seu coração, sempre o amara, mesmo sem conhecê-lo.
Leonora, vendo o silêncio da filha, continuou:
- Há quase trinta anos eu, minha mãe, meu pai e dois irmãos chegamos a estas terras.
Moça jovem e sonhadora, eu esbanjava beleza, chamando a atenção por onde passava.
Viemos do norte buscando emprego na usina Caldeiras.
Resolvemos nos instalar nas terras da fazenda e começamos a trabalhar no corte da cana.
Mariano também era muito moço e, por um desses acasos do destino, acabamos por nos conhecer e nos apaixonar.
Eu vivi grandes momentos de felicidade ao lado dele, embora soubéssemos que nosso amor era impossível.
Ele era muito rico, herdeiro do senhor Osvaldo, que sonhava para o filho um casamento em que houvesse a união de fortunas.
Foi com tristeza que um dia, ao nos encontrarmos, ele me disse:
Leonora, minha vida vai mudar.
Acabei de me formar e meu pai já arranjou um casamento para mim com a jovem Melânia, filha de outro usineiro amigo dele.
Não tenho outra saída senão aceitar.
Mas meu amor por você é muito grande, forte e verdadeiro.
Podemos continuar com nosso romance mesmo depois de me consorciar.
O que não posso é perdê-la.
- Eu sabia que aquele momento iria chegar.
Minha mãe, mulher prática, acostumada à realidade da vida, era também minha confidente e sempre me prevenia para o fim de minha relação.
No entanto, naquele momento meu coração bateu mais forte e, com medo de perdê-lo, desafiei-o:
Não pensava que fosse tão fraco a ponto de obedecer a seu pai de maneira tão cega.
Como pode se casar com uma mulher que não ama, apenas por dinheiro?
Não é nem de longe o homem íntegro e honesto que imaginei.
- Ele, sentindo-se ofendido, tentou se desculpar:
Meu pai é muito severo, perdemos nossa mãe muito cedo e foi ele quem praticamente nos educou, a mim e ao meu irmão.
Pode pensar o que quiser de mim, mas não tenho coragem de lhe negar o que quer que seja.
Espero que me compreenda e que possa dar continuidade ao nosso amor.
Pois eu não quero mais nada de você.
Um homem que não é capaz de me valorizar, aceitando-me como sou, enfrentando tudo para ficar ao meu lado, não merece o meu amor.
Adeus, Mariano.
- Naquele momento, cega pela raiva, vi em Mariano uma pessoa interesseira, capaz de sacrificar a própria felicidade em nome de um património material.
No entanto, por mais que tentasse não conseguia odiá-lo.
Mas eu tinha amor-próprio e jamais me sujeitaria a ser a outra.
Entrei em depressão, meus pais ficaram preocupados, mas nada puderam fazer.
Eles haviam comprado essa casinha que vivemos com muita dificuldade e eu deixei de trabalhar no corte da cana, não queria nunca mais entrar nas terras daquela família.
Poucos dias depois, descobri que estava grávida.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 14, 2018 8:29 pm

Minha felicidade foi muito grande.
Estava esperando um ser, fruto de um amor verdadeiro.
Meus irmãos haviam se casado.
Um deles retornara para o norte com a esposa.
Meus pais, já cansados e velhos, ficaram muito felizes com a chegada de mais um neto.
Minha mãe me aconselhava a procurar Mariano e o senhor Osvaldo; afinal, eu tinha direitos, a criança tinha o sangue deles.
No entanto, deixei-me levar pelo orgulho e preferi me virar sozinha.
Já que Mariano havia me abandonado, não teria o direito de saber que teria um filho.
Depois, eu tinha muito medo, o senhor Osvaldo era temido na região, poderia tentar fazer mal a mim e à criança, na tentativa de preservar o casamento do filho.
Fui à luta e comecei a fazer bolos, doces, salgados, que aprendi com minha mãe, e passei a vendê-los pela vizinhança.
Foi assim que, aos poucos, fiz um enxoval simples e comprei as coisas necessárias para a chegada de um bebé.
Você nasceu numa noite quente de verão.
Era uma linda menina.
Ninguém sabia quem era o seu pai.
Mariano, assim que se casou, fez uma longa viagem de lua de mel.
Perdemos todo o contacto.
Os Caldeiras pouco frequentavam a cidade, muito menos os bairros pobres; sendo assim, ninguém me viu grávida nem desconfiou de nada.
O tempo foi passando e minha luta para sobreviver e dar-lhe uma vida digna foi árdua.
Lavei roupa para fora, aprendi a costurar, a fazer novas receitas e, assim, fomos nos mantendo.
Os anos se sucediam e fiquei sabendo que Melânia, a esposa de Mariano, por um estranho problema de infertilidade nunca pôde ter filhos.
Foi com tristeza que soube de seu grave estado de saúde e de sua morte três anos atrás.
Embora eu tivesse sofrido com o casamento, agora, sabia que Mariano deveria estar triste com a solidão e a perda.
Na verdade, nem por um dia deixei de amá-lo.
Poucos meses depois da morte da esposa, Mariano veio procurar-me.
Contou como havia se arrependido de não ter enfrentado o pai para ficar comigo quando jovem.
Por essa fraqueza, amargou um casamento sem amor, sem afecto e sem filhos.
Melânia era uma mulher bondosa, gentil, carinhosa, mas ele não a amava.
Procurou respeitá-la até o fim da vida.
Nesse tempo transcorrido, o património dos Caldeiras havia se multiplicado e, agora, ele estava à frente dos negócios.
Vendo-o ali, diante de mim, revelei tudo o que havia acontecido.
Mariano ficou extremamente feliz ao saber que tinha uma filha.
Ver suas fotos deixou-o emocionado e agradecido a Deus.
Tentei aproximá-los, mas ele tinha um grande complexo de culpa, não sabia nem como olhar para você.
Mais uma vez fugiu, porém me disse que tudo o que era dele um dia seria seu.
Revelou sentir que sua morte estava próxima e que deveria ressarcir minha juventude e os anos que a filha viveu praticamente a esmolar.
Tentei relutar, não queria mais nada que pertencesse àquela família, mas era você, era seu destino que estava em jogo.
Já me sentia velha, cansada, o corpo doente.
O que seria de você o dia em que eu morresse?
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 14, 2018 8:30 pm

Mariano prometeu que nada iria lhe faltar e que era natural que a legítima herdeira de tudo fosse sua filha.
Sara ouvia a tudo, deixando grossas lágrimas caírem sobre seu rosto.
Não conhecia nada de si mesma e de sua origem.
Pensou em se revoltar, cobrar da mãe todos os anos de privações, sem a presença paterna.
Mas, naquele momento, não tinha como exigir nada, apenas se render aos factos.
Olhando para Leonora balbuciou:
- Então eu sou herdeira de toda a fortuna da família mais rica de Boa Esperança?
- Sim, minha filha.
É uma fortuna incalculável e, por ela, muitos vão brigar e tentar destruí-la.
Contudo, acredito que a fortuna, quando legítima, é abençoada por Deus.
Se Ele a fez parar em suas mãos é porque você saberá fazer o melhor.
- Isso tudo ainda está muito confuso para mim.
O senhor Mariano está morrendo, é o que dizem pela cidade.
Logo estarei de posse de uma fortuna que não saberei gerir.
Não! Não quero.
Leonora apertou com mais força as suas mãos e numa súplica pediu:
- Esse é o último pedido que lhe faço, filha.
Aceite e tome tudo o que é daquela família.
Um dia sua mãe foi abandonada por causa desse maldito dinheiro.
Nada mais justo que, agora, você usufrua tudo o que é seu e tudo o que fez sua mãe sofrer.
- Não a entendo, minha mãe, a senhora ao mesmo tempo em que fala em Deus, age com se estivesse se vingando.
- Não sou perfeita, e ainda guardo mágoa.
Acredito que toda herança é legítima, mas é também um momento que minha alma muito esperou para a desforra.
- Não sei se saberei agir.
Há mais pessoas naquela casa que devem herdar também.
Ainda ontem, durante a festa da virada de ano, conheci o sobrinho do senhor Mariano, um rapaz chamado Cássio.
Ele é quem comanda tudo desde que o tio adoeceu.
Não sei se esses parentes vão me aceitar.
Ao ouvir a filha citar o nome de Cássio, Leonora sobressaltou-se:
- Faça o possível para estar longe desse moço.
Você passará a viver naquela fazenda, mas não permita que ele se aproxime de você.
É outro pedido que lhe faço em meu leito de morte.
Mesmo sem entender, e ainda com a cabeça cheia de informações novas, Sara não pôde deixar de dizer à mãe que faria justamente o que ela lhe pedia.
Leonora continuou:
- Seu pai escreveu um testamento e ninguém daquela família, excepto o mordomo Aurélio, vai herdar nada.
Dessa forma, tudo, exactamente tudo, vai para suas mãos.
Sara sentiu-se assustada.
Vendo que a mãe não conseguia mais falar devido ao extremo cansaço, procurou ajeitar os lençóis e o travesseiro para que ela descansasse.
Leonora, vencida pelo cansaço, adormeceu profundamente.
Sara foi para a sala e sentou-se no pequeno sofá.
De repente, pensou que não seria má ideia ficar rica e viver em outro ambiente.
Ela era uma moça simples, vivia dos quitutes que preparava para vender na praça e pela vizinhança, mas, de vez em quando, cansava-se dessa vida.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 14, 2018 8:30 pm

Poderia ser uma boa oportunidade.
Além do que, havia Cássio.
Ela fingira não se importar, mas no fundo estava com seus pensamentos voltados para o moço.
Agora, sabia tratar-se de seu primo.
Não seria um amor proibido?
Tinha também o pai.
Ela que viveu todos aqueles anos sonhando com um abraço paterno, não iria se privar do que tanto ansiou.
Mesmo sem a mãe saber iria à fazenda abraçar aquele que lhe deu a vida, antes que ele partisse para o outro mundo.
Com esses pensamentos foi para a pequena cozinha onde iria preparar mais doces e salgados para vender na praça mais tarde.
O que Sara não sabia era que começaria para ela uma fase de grandes provações, um retorno de acções iniciadas em uma vida pregressa na Rússia dos czares e que voltaria agora, para a devida reparação e reajuste.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 14, 2018 8:30 pm

3 - O encontro
Entardecia quando Matilde ouviu o barulho característico do velho carro de padre Sílvio.
Assim que o viu entrar pela enorme porta de cedro foi pedir sua bênção.
Após abençoá-la e fazer os cumprimentos de praxe, o sacerdote perguntou com humildade:
- Como vão as coisas, minha filha?
Matilde fez um ar de fingido sofrimento ao responder:
- Muito mal, não tarda para Mariano morrer, acho bom que o senhor durma por aqui, pois a qualquer momento precisaremos de sua presença para a extrema-unção.
- Muito triste ver um homem tão bom padecer dessa maneira - comentou o sacerdote finalizando:
- São os mistérios da fé.
Um silêncio se fez.
Matilde fingia enxugar uma lágrima no canto do olho.
Depois, comentou:
- Certamente o senhor está aqui por causa de minha irmã Marta.
Sei que resolveu fazer o que lhe pedi.
- Resolvi, mas sei que não é correto.
A igreja já não mais se utiliza desses rituais antigos.
- Mas o exorcismo não é antigo, sei que ainda é usado nos mosteiros quando os monges são atacados pelo demónio.
Padre Sílvio não queria dar largas àquele assunto, por essa razão finalizou:
- A igreja tem outros métodos mais modernos para expulsar demónios, mas já que insiste no exorcismo, farei como lhe prometi.
A propósito, como está Marta ultimamente?
- Está na fase em que o demónio faz com que ela fique quietinha, chorando em cima da cama.
Não come direito, não quer tomar banho, não conversa.
Creio não ser um bom momento para fazermos o ritual, é melhor na fase em que o demónio a deixa louca.
- Como achar melhor.
Vim aqui hoje para saber de Mariano e também por outro motivo.
- Como quiser, padre.
- Uma moça da cidade foi à igreja hoje no início da tarde.
Trata-se de uma jovem muito simples, humilde, possui uma barraca de quitutes na praça, onde tira algum trocado para ajudar a mãe doente.
É dessas almas boas, quase inexistentes nos dias atuais.
Como corre na cidade que o senhor Mariano está à beira da morte, ela consternou-se e disse-me que gostaria de lhe fazer uma visita.
Como não tem transporte, pediu-me carona.
Matilde irritou-se:
- Desculpe, padre, mas isso é um disparate.
Onde já se viu o senhor trazer uma barraqueira para visitar o Mariano?
Não posso permitir.
Mariano já está cansado, sofrendo dores atrozes, nem gosta que nós da família entremos no quarto, imagine uma qualquer.
- Não a estou reconhecendo.
Onde está sua piedade?
- Sei que posso ter exagerado, mas foi o próprio médico que proibiu visitas.
- Tenho certeza de que Sara não fará mal algum a Mariano.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 14, 2018 8:30 pm

É uma moça doce, quer visitá-lo em agradecimento por tudo o que fez pela cidade.
Se você não permitir que ela entre, eu mesmo vou ao quarto de Mariano e falo o que está acontecendo.
Tenho certeza de que, após me ouvir, ele vai recebê-la com todo o carinho.
Matilde sentiu-se vencida.
Por um lado não poderia contrariar o padre; por outro, não gostava de ver pobres-diabos entrando naquela que julgava ser sua casa.
Por fim, disse:
- Que entre a barraqueira.
Mas que seja breve.
Padre Sílvio foi até o carro e pediu que Sara descesse e entrasse com ele.
Ela estava maravilhada com tudo o que via.
Apesar de ser quase noite, não deixou de observar a imensidão das terras que circundavam a construção soberba e imponente da fazenda Boa Esperança, que dali a alguns dias seria sua.
O padre havia lhe dito que até onde a visão alcançasse tudo pertencia aos Caldeiras.
De repente, ao cruzar a grande porta de entrada e ver todo o luxo da sala, ela sentiu que ali era o seu lugar, que nascera para ser rica e viver naquele conforto.
Questionou-se rapidamente como havia conseguido viver até aquele dia sem todo aquele luxo, sendo servida e reverenciada por todos.
Era a memória inconsciente de Sara se manifestando, recordando os tempos de luxo quando vivera na Rússia imperial.
Todavia, a nova educação e a vida na pobreza que ela tivera na presente encarnação moldaram a sua personalidade de tal forma que ela não era mais aquela mulher ambiciosa, cruel e insensível de outrora.
Por mais que seu espírito ainda fosse sensível às riquezas materiais, jamais teria novamente os impulsos malévolos que tanto sofrimento espalhara décadas atrás.
O espírito, ao renascer na Terra, ganha um novo cérebro, que, como um filme virgem, vai gravar as novas experiências e assimilá-las de acordo com seu nível evolutivo.
Na primeira infância, se receber uma educação voltada aos valores eternos do espírito, o ser reencarnado vai moldar-se aos poucos e, quando, aos catorze anos reassumir sua personalidade verdadeira, fruto de todas as suas vivências pretéritas, por mais que ainda tenha resquícios de maldade, vai estar mais amadurecido, questionando a validade do mal, tendo o poder de modificar seu destino, evoluir e encontrar a felicidade.
Mas, se esse espírito, ainda atrasado moralmente, receber uma educação que valorize mais o material do que o espiritual, que o induza a acreditar no mal, que o faça enveredar pelos caminhos dos preconceitos, vícios e ambições desmedidas, certamente, ao reassumir sua reencarnação na fase adolescente, perder-se-á no cipoal das ilusões enveredando pelo caminho do crime, da desonestidade, da licenciosidade, onde aumentará seus compromissos perante as leis cósmicas que regem a vida, recolhendo para si o sofrimento correccional e educador.
Por essa razão, conclui-se que o valor da educação é imenso, podendo fazer com que o espírito estacione ou dê um passo adiante rumo ao Criador.
Não falamos aqui da educação académica, que longe está de ensinar os valores eternos de Deus e ainda engatinha sobre a Terra.
Falamos tão somente da educação moral, cósmica.
Não aquela baseada na moral do mundo, em que o certo e o errado ditam as regras, mas da moral universal, da verdade absoluta contida em cada consciência.
Essa tarefa está destinada aos pais ou responsáveis por todos os que reencarnam.
Triste dos progenitores que conduzem mal seus filhos, pois, certamente, responderão à Lei Maior e terão de voltar para refazer o que ajudaram a estragar, com desafios e provas maiores que as anteriores.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 14, 2018 8:30 pm

Leonora havia criado Sara dentro de bons preceitos, estava quite com a lei.
Por essa razão, naquele momento, por mais que quisesse ser rica e ter conforto, sua consciência também lhe dizia que tudo aquilo só valeria se fosse para seu progresso.
Matilde mediu Sara de cima a baixo e, com voz que o desprezo dominava, falou:
- Não precisava vir, não conhece ninguém nesta casa, não é bem-vinda.
Espero que seja rápida.
- Não se preocupe, senhora, apenas lhe desejarei saúde e agradecerei pelo que tem feito ao nosso município.
- Assim espero. Siga-me.
Sara e padre Sílvio foram andando atrás de Matilde até que chegaram ao quarto de Mariano.
O velho senhor abriu os olhos e, com dificuldade, reconheceu-os.
Seu coração, mesmo fraco, acelerou-se ao perceber que sua filha estava ali.
O que ela queria?
Certamente já sabia a verdade e o viera acusar.
Juntou toda a força que ainda lhe restava e pediu:
- Por favor, deixem-me a sós com a moça.
- Mas que disparate, Mariano!
Não vê que essa mendiga pode abusar de sua saúde?
Mariano sentiu mais raiva ainda de Matilde.
Naquele momento, teve certeza de que estava certo ao fazer o testamento.
E, com a emoção à flor da pele, gritou:
- Deixe-me em paz!
Saiam, você e o padre. Agora!
O tom de voz não deixou dúvidas de que Mariano não os queria ali.
Do lado de fora, Matilde comentou:
- Esses velhos não têm vergonha!
Basta verem uma moça novinha para desejarem intimidade.
Que vergonhoso!
Nem com o pé na cova eles se dão ao respeito.
- Cale-se, Matilde - bradou padre Sílvio.
Como sempre você não deixa de pecar, nem parece com Ana, que é exemplo de virtude.
Seu comportamento me faz crer que não merece meu esforço em ajudar sua irmã Marta.
Hoje você passou de todos os limites.
O senhor Mariano deve ter ficado feliz em ver que uma jovem se interessou por sua saúde.
Além do que, eu sei que ele não gosta de você por tudo o que aconteceu.
Como queria que ele a deixasse permanecer no quarto?
Matilde ruborizou-se:
- Perdão, padre, sou uma pecadora.
Não tolero pobres, nem fui com a cara dessa moça vulgar.
Mas lhe peço:
não deixe de socorrer minha irmã.
Faço quantas penitências forem necessárias, mas não deixe que esse sofrimento continue.
- Tudo bem, não precisa se ajoelhar.
Naquele momento, Aurélio entrou no recinto.
- O senhor deseja um suco, um café?
Tem aqueles biscoitos que o senhor adora.
- Traga tudo para cá, Aurélio.
Você sabe que o padre lancha connosco quando vem aqui, não tinha necessidade de perguntar.
- Sim, senhora.
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