Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 19, 2018 9:33 pm

Vou entrar lá agora.
- Ela não vai dar, não adianta insistir.
- Se você não for pedir, eu mesma vou.
- Não precisa - disse Matilde, que com os gritos voltou à sala correndo, já indo em direcção a escada.
Já que insiste, não vou me opor.
Só peço que não diga a ninguém o que vir naquele quarto.
Concordando com a cabeça, Sara seguiu a sogra e Ana, que também as acompanhava.
Matilde abriu a pequena porta e entraram.
O que Sara viu a assustou e cortou seu coração.
Ali estava uma senhora de meia-idade, muito gorda, desdentada, cabelos desgrenhados, com o vestido rasgado e sujo de urina, amarrada com cordas fortes, que a prendiam a uma cama de madeira trabalhada.
Os olhos da mulher pareciam estufados e do canto de sua boca escorria uma baba branca e fétida.
Tomada pelo susto, só minutos depois foi que Sara começou a sentir o mau cheiro do quarto, que era insuportável.
Ainda assim, enquanto ouvia xingamentos, começou a fazer uma prece profunda e sentida a Deus em favor daquela doente e de seus obsessores.
Milagrosamente, Marta, como que acompanhando a prece, parou de gritar e começou a chorar baixinho.
Em minutos, adormeceu.
Matilde, sem saber o que dizer, chorou sentida.
Por mais que odiasse Sara, era inegável que sua oração tivera um efeito maravilhoso na irmã, coisa que ela não conseguia fazer por mais que rezasse terços e mais terços.
Quando tudo serenou, as três saíram do quarto e Matilde, envergonhada e sem querer olhar para Sara, voltou para a cozinha.
Na sala, Ana disse:
- Sua oração foi maravilhosa!
Quando ela tem esses ataques só as injecções que Aurélio aplica é que a fazem dormir.
- Vamos fazer assim até o médico chegar.
Sempre que ela acordar gritando ou xingando voltaremos ao quarto e oraremos.
- Você é um anjo!
- Não. Não sou anjo.
É dever de todos nós orar e amparar aqueles que sofrem.
As duas amigas passaram o dia nessa tarefa, até que, finalmente, o médico, Rafael, chegou à fazenda.
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Ave sem Ninho

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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 19, 2018 9:33 pm

15 - Esperança
Rafael observou Marta por alguns minutos enquanto ela dormia.
Logo após, sem ter muito o que fazer no quarto, desceu e começou a interrogar:
- A senhora é irmã da paciente?
- Sim, queira se sentar, por favor - disse Matilde solícita e esperançosa.
Pela primeira impressão havia gostado do médico.
Rafael era um jovem de 35 anos, que havia iniciado a carreira como psiquiatra fazia dez.
Moreno claro, cabelos castanhos, olhos cor de mel, nariz aquilino e muito simpático.
Fazia da profissão um apostolado, tratando todos os seus pacientes com carinho e amor, não importando suas condições financeiras ou sociais.
Espírita desde o nascimento, cresceu estudando a doutrina consoladora ao lado dos pais e familiares.
Quando passou a se interessar pelas enfermidades da mente humana, procurou pesquisar o assunto à luz da espiritualidade e uniu o conhecimento académico com o que o Espiritismo lhe passava.
Descobriu que a grande maioria das doenças mentais, na verdade, são obsessões severas, nascidas de ódios do passado, de culpas acumuladas no inconsciente e de mediunidade mal conduzida.
Com essa descoberta, seu trabalho foi optimizado, pois sempre que podia e o paciente permitia, enviava-os para tratamentos desobsessivos, ou como coadjuvante do tratamento físico dava-lhes água fluidificada, que trazia do centro espírita que frequentava ou de suas reuniões do Evangelho no Lar.
Como de praxe, começou a perguntar a Matilde:
- O que ela sente?
Qual é o problema?
- Bem.
Matilde estava sem querer falar no assunto diante de Sara, mas vendo que ela se mostrava interessada e não ia sair, resolveu continuar:
- Minha irmã sempre foi diferente de mim e das outras moças da época.
Já na adolescência mostrava-se por vezes muito calada, chorosa, outras falante demais, desobedecendo aos pais, saindo muito e sem destino.
Ninguém suspeitava de doença mental, achávamos que era apenas um comportamento excêntrico.
Nosso pai tratou logo de nos casar, eu com Guilherme Caldeiras e Marta com Juliano Abrantes.
A família do marido dela não era muito rica, havia se metido em negócios escusos e passava por problemas financeiros.
Apesar disso, Marta, como toda mulher casada, teve sua casa e foi viver sua vida.
Logo ficou grávida e o problema começou assim que a criança nasceu.
Fabíola veio ao mundo, deixando a mãe com uma depressão profunda, que hoje conhecemos como depressão pós-parto.
Mas logo após a crise depressiva, minha irmã começou a falar demais, rir descontroladamente, sair de loja em loja comprando tudo o que via pela frente.
Desse momento em diante, a cada crise, a situação ia ficando pior, até que, em estado de loucura total, tivemos de interná-la pela primeira vez em um sanatório.
Foi muito difícil para todos nós, Marta tomava electrochoques, drogas fortíssimas, que não surtiam efeito.
Por outro lado, Fabíola era recém-nascida e, em meus braços, chorava de fome.
Providenciamos uma ama de leite e só assim ela conseguiu sobreviver.
Marta ficou bem, saiu do internamento, mas com o tempo outras crises vieram.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 19, 2018 9:33 pm

Juliano foi paciente até demais, passou a cuidar da filha, que cresceu vendo a doença da mãe, mas depois de algum tempo começou a ter amantes e acabou abandonando-a sozinha com Fabíola.
Nesse tempo ela já era adulta e formada em Psicologia.
Contudo, ela nunca teve paciência com a mãe e também foi embora, deixando-a comigo.
Trouxe-a para a fazenda e, como não há outro jeito, preciso amarrá-la para dar-lhe as medicações, que quase não surtem efeito.
Quando não está altamente depressiva, chorando e quase sem conversar, está eufórica, gritando palavrões e impropérios, colocando em risco a própria vida e a nossa.
Matilde fez uma pausa e, com olhos lacrimosos, pediu:
- Por favor, doutor, salve minha irmã.
Desde que o senhor entrou, senti uma esperança.
Não suporto mais ver Marta nesse sofrimento terrível sem que eu possa fazer nada.
Rafael percebeu que estava diante de mais um quadro obsessivo, e que pela medicina psiquiátrica era chamado de psicose maníaco-depressiva.
Olhou para Matilde e disse com paciência:
- Minha senhora, a situação da sua irmã não é fácil.
O diagnóstico não é bom, e creio que, pela medicina, não há muito o que fazer.
Matilde já esperava por aquela resposta, afinal, todos os psiquiatras que ela procurava diziam o mesmo.
Continuou a ouvir.
- Sua irmã sofre de uma doença incurável pela medicina, chamada psicose maníaco-depressiva.
Alguns pacientes conseguem ficar bem, muitos até levam uma vida normal usando medicação, mas, pelo que me conta, a doença de sua irmã mostra-se refractária ao uso da medicação.
Quais os remédios que ela toma?
Matilde sabia de cor e, após dizer ao médico, finalizou:
- Sei que tenho agido errado em deixar o nosso mordomo aplicar as injecções, mas a fazenda é distante da cidade e não temos condições de buscar enfermeiros altas horas da madrugada ou em horários inusitados.
- A medicação que ela toma está correta e é a indicada para esse problema, o que posso fazer é aconselhar que a mantenha.
Matilde, agora, já estava chorando.
Perguntou num fio de voz:
- Não há nenhuma droga nova?
- Existem algumas em teste na Europa e outras nos Estados Unidos, mas ainda não temos para comercialização.
Ele fez uma pausa e, percebendo que não tinha mais o que fazer, levantou-se e deu a mão a Matilde dizendo:
- Não sei qual a sua religião, mas creio ser a Católica pelas imagens espalhadas pela casa, por essa razão, vendo que é uma pessoa religiosa, peço que ore muito.
É o melhor remédio para sua irmã.
Agora, preciso ir.
- Espere, preciso lhe pagar.
- Não vou lhe cobrar.
Nada mais fiz do que avaliar e dizer tudo o que a senhora já sabia.
Não considere isso como uma consulta.
- Faço questão, doutor.
- Se faz tanta questão, pegue o dinheiro da consulta, compre mantimentos e faça farnéis para pessoas carentes.
Agora, preciso mesmo ir.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 19, 2018 9:34 pm

Matilde estava curiosa e não conteve a pergunta:
- Qual é a sua religião?
- Sou espírita, senhora, embora o Espiritismo não seja uma religião e sim uma doutrina de consequências morais e filosóficas.
Matilde fez um esgar de incredulidade.
Ia dizer que não acreditava em nada daquilo, mas não era de bom tom discutir com um médico.
Quando ele foi embora, deixou-se cair no sofá, desalentada.
Ana aproximou-se:
- Não fique assim, mamãe, todos nós já sabíamos que o caso da tia Marta é incurável.
- Mesmo assim, é duro mais uma vez ter de perder a esperança.
- Mas a senhora estava disposta a fazer uma sessão de exorcismo aqui com o padre Sílvio, ele até confirmou que viria.
Creio que pode ajudar.
Matilde corou.
Como Ana ousava falar aquilo diante de Sara?
- Você está louca?
Quem pensou em exorcismo aqui?
- Não se preocupe, mamãe, Sara já sabe de tudo.
Sara, que até aquele momento se manteve calada num canto do sofá, manifestou-se:
- Sei sim, dona Matilde, embora não acredite que exorcismo vai adiantar.
Creio que o problema da sua irmã é espiritual e precisa de oração, dentre outras coisas.
Também acredito que ela possa melhorar e que a senhora não deve perder a esperança.
Matilde sentiu ódio e já ia gritar com Sara quando viu Cássio entrar pela porta.
Num tom que lutou para tornar doce, retorquiu:
- Sua crença é a mesma desse médico.
Mas somos católicas fervorosas e peço que não interfira nisso.
Já lhe pedi uma vez.
- Não quero interferir em nada, apenas peço para orar no quarto.
Mas se a senhora deixasse que fizéssemos outras coisas, sua irmã poderia até se curar.
Cássio beijou Sara e, mesmo descrente, procurou não interromper aquela conversa, percebeu que sua mãe prestava atenção.
Sentou-se ao seu lado no sofá, e ela continuou:
- Há métodos de cura para obsessões usados no Espiritismo e que a senhora poderia tentar.
Sinto que ama sua irmã de verdade e me apiedo de seu sofrimento.
Matilde sentiu-se tocada, Sara era verdadeira.
E se aquilo que ela estava dizendo funcionasse?
Não estava ela própria querendo fazer exorcismo?
A medicina já desenganara sua irmã, será que havia outra forma de cura?
Vencendo o orgulho perguntou:
- Quais são esses métodos de cura?
Não entendo nada de Espiritismo.
Ouço até falar que vocês conversam com o diabo.
Sara não se perturbou.
- Sei que a senhora é inteligente o suficiente para não acreditar numa coisa dessas.
O Espiritismo só faz o bem e o diabo não poderia fazer nada de bom.
O Evangelho diz que o demónio não pode fazer nada que destrua o seu reino.
Isso prova que tudo o que é bom, que faz bem, provém apenas de Deus.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 19, 2018 9:34 pm

- Desculpe, não quis ofendê-la, mas é o que dizem por aí.
- Eu também sempre pensei assim - disse Ana.
Mas conhecendo Sara como conheço, vendo sua bondade, tolerância, doçura e humildade, creio que estava enganada a respeito dessa doutrina.
Uma pessoa como ela jamais poderia estar com o diabo.
- Agradeço pelas palavras, Ana - tornou Sara carinhosa.
Mas dona Matilde perguntou sobre os métodos de cura.
Existem vários, mas o principal é a desobsessão.
- O que é isso? - perguntaram Ana e Matilde em uníssono.
- A desobsessão é um processo em que, por meio de reuniões com médiuns sérios, os espíritos obsessores que estão fazendo a pessoa sofrer são atraídos para conversar com uma pessoa experiente, com boa moral, à qual chamamos de doutrinador.
A medida que o diálogo vai acontecendo, esses espíritos, envolvidos pelas energias físicas dos médiuns, vão tomando consciência dos seus erros e do tempo que estão perdendo ao perturbar uma pessoa.
Quando auxiliados pelos espíritos de luz, convencem-se do mal que estão fazendo, deixam o encarnado em paz e este melhora imediatamente.
- Isso é fantástico.
Nunca ninguém nos disse nada a respeito - tornou Matilde realmente admirada.
Mas como você sabe que minha irmã está com esse problema e não com uma doença como dizem os médicos?
- É nítido.
Basta olhar para dona Marta e ver o quadro vivo da obsessão.
Em quase todo problema mental, há uma obsessão.
Por essa razão, peço para ajudá-la.
Nossa cidade não possui centro espírita, mas dona Rosana, ex-patroa de minha mãe, é espírita há muitos anos e faz reuniões mediúnicas em sua casa.
Ela atua como doutrinadora e trabalha com médiuns competentes e responsáveis.
Posso conversar com ela e pedir que faça uma sessão aqui na fazenda.
- Aqui na fazenda?
Mas essas pessoas que virão acabarão por saber da história de minha irmã.
Não posso concordar.
- Essas pessoas são discretas e nunca falam o que se passa nas reuniões, eu posso garantir para a senhora.
Se me der autorização, posso procurá-la amanhã bem cedinho.
Matilde olhou para Sara e sentiu que de facto ela queria ajudar.
Mas estava muito confusa, não podia dar uma resposta naquele momento.
- Sei que está sendo boa e quer ajudar de verdade, mas não posso dar uma resposta agora.
Prometo pensar.
Vou me retirar e não me chamem para jantar.
Matilde saiu indo em direcção ao seu quarto, enquanto Cássio, beijando novamente a namorada, perguntou:
- Como foi o seu dia?
- Meu dia foi dedicado a sua tia, coisa que parece não ter importância para você.
Cássio notou que Sara estava magoada com seu pouco caso e procurou contemporizar:
- É que não costumo me meter nesse assunto, que é coisa só da minha mãe.
- Mas você está errado.
Uma família deve ser unida, principalmente na hora da dor.
Ela é sua tia e você precisa ajudá-la de alguma maneira.
- E de onde você pensa que sai o dinheiro que custeia os remédios caríssimos que ela toma?
Eu respondo: do meu bolso.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 20, 2018 8:57 pm

- Ora, Cássio!
E você pensa que ajudar é só dar o remédio?
Ajudar é dar amor, carinho, compreensão, palavras de conforto, encorajamento.
Sinto que não se importa nem um pouco com sua tia.
Cássio sabia que era verdade.
Nunca havia feito mal a ninguém, considerava-se uma pessoa boa, mas era indiferente ao sofrimento humano.
Só sofreu mesmo com a doença e a morte do tio, o resto para ele não importava.
Mas, agora, teria de mudar, percebia que Sara era altruísta, preocupada com o semelhante, se ele se mostrasse frio, talvez ela pudesse se desinteressar, e o que ele menos queria era perder o seu amor e a fortuna que vinha junto.
Por essa razão, resolveu contemporizar:
- Você está certa, amor, como sempre.
Até hoje fui muito negligente com minha tia, mas você me tocou para a verdadeira ajuda.
Prometo ser o melhor dos sobrinhos e tudo farei para ver tia Marta bem e curada.
- Se o que diz é verdade, quero que participe da reunião mediúnica que será feita aqui em prol de dona Marta.
Sei que você fará de tudo para sair na hora ou ficar no quarto, já que afirma não acreditar em Deus e muito menos em espíritos.
Ele não gostaria de ficar em uma reunião espírita, pois achava que as pessoas fingiam-se de médiuns para enganar os outros.
Não acreditava em nada do que diziam, pois para ele tudo terminava com a morte; no entanto, não poderia negar o pedido de Sara.
- Se esta é a condição para acreditar em mim, prometo ficar na reunião.
Agora, vamos nos preparar para jantar - deu-lhe um beijo demorado e retirou-se.
Feliz com o facto de Cássio ter aceitado participar da reunião, Sara foi até o quarto ver a mãe.
Encontrou Leonora conversando agradavelmente com Maria José, uma antiga empregada da fazenda.
Vendo que a filha entrou no quarto, Leonora tornou:
- Maria José tem estado comigo muito mais que você.
O que tanto fez nesta casa hoje?
- Orei pela dona Marta.
E nem se queixe, pois sei que Maria José é uma excelente companhia e também sei que quase não sentiu dores hoje.
- Você está certa, tem de viver sua nova vida e ir se habituando a ela.
Tenho notado que está muito interessada no caso da irmã da víbora.
- Sim, tenho me preocupado, e já achei a solução.
Tenho certeza, convenci dona Matilde a fazer uma reunião mediúnica aqui na fazenda, atraindo os obsessores de Marta para um possível esclarecimento.
Vou chamar a dona Rosana e sei que ela virá.
Leonora olhou para Maria José, que estava calada desde que Sara entrou no quarto, e disse:
- Será muito bom rever Rosana, mas, por coincidência, antes de você chegar, Maria José estava me contando que coisas muito estranhas acontecem aqui na fazenda.
- Coisas estranhas?
- Conte a ela, Maria José.
Maria José era uma negra simpática, gorda, já beirando os 60 anos.
Olhou para Sara e com modos simples começou:
- Esta fazenda é mal-assombrada.
Eu e mais outros empregados sempre dissemos isso a dona Matilde, mas ela nunca acreditou.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 20, 2018 8:57 pm

- Mal-assombrada?
O que acontece por aqui além do problema de dona Marta?
Sara estava muito curiosa.
- Muita coisa ruim já aconteceu, principalmente no tempo da escravidão.
O avô e o pai do senhor Mariano eram senhores de escravos e, pelo que dizia minha avó, tratavam os negros como animais.
Muitos deles morreram no tronco de tanto apanhar.
Os espíritos desses negros até hoje estão por aqui, rondando a fazenda e fazendo moradia na senzala abandonada.
Sara sentiu um arrepio.
Nunca gostou muito de ir até os fundos da casa onde ficava a antiga senzala, não se sentia bem.
Maria José continuou:
- Os quartos dos empregados ficam próximos à senzala, e, durante muitas noites, ouvimos gritos agudos de alguns negros clamando por liberdade, outros choram e dizem que vão se vingar.
Ouvimos lamentos tristes, cantos estranhos falando sobre a nossa terra e som das correntes que os amarravam.
Tem noites que não consigo dormir.
Sara impressionou-se.
Seria possível que, após tanto tempo da abolição, os espíritos dos escravos continuavam ainda naquele lugar?
Pela narrativa sincera de Maria José ela sentia que sim.
Sendo assim, o caso da fazenda era pior do que ela imaginava.
Maria José se despediu dizendo ir buscar o jantar de Leonora e quando mãe e filha ficaram a sós no quarto começaram a conversar sobre o assunto. Leonora disse:
- Desde que cheguei aqui senti uma coisa estranha, sufocante.
Apesar de linda e majestosa, esta fazenda tem algo de assustador.
Agora sei o que é, são os espíritos.
Primeiro, os obsessores de Marta, depois, os dos escravos.
Tenho orado muito a todo instante.
- Temos de orar muito sim, mãe, mas não podemos ter medo.
Se existem espíritos que durante a vida foram escravos e ainda se mantêm no mesmo lugar, querendo vingança, devemos ter piedade e enviar-lhes vibrações de muito amor.
Leonora mudou de assunto:
- Estou sentindo que você está muito feliz.
Vejo brilho em seus olhos.
- Sim, mãe. Para minha felicidade ser completa só era mesmo preciso que a senhora se curasse totalmente.
- Você sabe que isso não é possível.
Qualquer dia desses estarei partindo para a pátria espiritual.
E não considere isso um mal.
Quero estar liberta para poder prosseguir.
Meu corpo está cansado, velho e doente, enquanto meu espírito, ao sair deste mundo, vai estar radioso, saudável, belo.
Quer alegria maior?
Sara abraçou a mãe, beijando-a com muito amor.
- Esse será o dia mais triste de minha vida, mas, assim como a senhora, aprendi que a vida continua e sei que nossa separação será apenas temporária.
- Vamos deixar esse assunto de lado.
Conte-me como anda sua relação com o Cássio.
Os olhos de Sara cintilaram.
- Eu o amo e sei que sou amada.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 20, 2018 8:58 pm

Mas estou descobrindo o quanto Cássio é materialista e por vezes frio.
Confesso que tenho medo de me decepcionar com ele.
- Não diga isso.
Você o ama de verdade, e embora o amor nos faça ver os defeitos da pessoa amada, ele também faz com que possamos sempre passar por cima de tudo e amar essa pessoa como é.
O amor verdadeiro entende, compreende, espera, suporta. Tenho certeza de que por mais que você descubra pontos fracos em Cássio nunca deixará de amá-lo.
- As pessoas dizem que o amor se acaba com as decepções.
- Nada mais errado.
Quem ama com a alma, nunca esquece do ser amado.
Muitas vezes, julgamos os outros, cobramos perfeição, criticamos, condenamos, esquecidos de que nós também temos muitas imperfeições e pontos fracos que nos impedem de alcançar a paz e a felicidade.
E como disse Jesus:
Por que olhar o argueiro no olho do vosso próximo e não enxergar a trave que há nos nossos?
Quando cobramos e exigimos da pessoa amada, quando nos sentimos decepcionados e desiludidos, é porque longe estamos do amor incondicional, aquele amor pregado pelo apóstolo Paulo em sua primeira carta aos Coríntios.
- A senhora tem razão, mãe.
Não vou cometer esse erro.
Quantos casais que se amam estão separados porque não souberam compreender um ao outro?
Não sou perfeita, mas também não quero ser egoísta.
Amo demais o Cássio para deixar que pequenas coisas venham a nos separar.
Aprendi que as diferenças não separam, muito pelo contrário, é na diferença que há a troca de experiência, que enriquece, enobrece, eleva.
Sara ainda permaneceu muito tempo conversando com Leonora, até que Maria José entrou com a bandeja levando o jantar.
Após medicar a mãe, Sara foi para sala de jantar onde se encontrou com os outros.
Marta havia se acalmado e deixado de gritar, por essa razão a refeição transcorreu tranquila.
Matilde não saiu do quarto, e Ana logo se retirou para suas orações, deixando Cássio e Sara sozinhos aproveitando o amor que os unia.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 20, 2018 8:58 pm

16 - Lei de Acção e Reacção
No dia seguinte, a fazenda amanheceu agitada.
Pela madrugada, Marta recomeçou a gritar.
Nem mesmo as orações de Sara, Ana e Matilde fizeram com que ela se acalmasse.
Aurélio não podia aplicar o forte sedativo antes da hora; portanto, todos passaram a noite acordados, indo dormir quando o dia começou a clarear.
Ainda assim, antes das oito, não havia mais ninguém na cama.
Nunca se viu Marta em tão forte crise.
Cássio foi para o escritório, mas antes deixou Sara na casa de Rosana, que a recebeu com carinho.
Após contar o motivo de sua visita, finalizou:
- Gostaria que a senhora fosse realizar uma reunião de desobsessão na fazenda.
Não vejo outra maneira de ajudar.
Rosana pensou um pouco e explicou:
- Nós já fazemos as reuniões de desobsessão aqui e não é necessário irmos para outros lugares, porquanto para o espírito não existem barreiras nem distâncias.
Por outro lado, sinto que essa sessão não será apenas para esclarecimento dos desencarnados, mas para toda a família.
Nesse caso, podemos e devemos fazer na fazenda.
- Eu lhe agradeço, dona Rosana.
Sei que sua equipe vai a algumas casas realizar socorros, e lá é o que mais precisa:
um socorro urgente para dona Marta.
Caso isso não aconteça nem sei o que será daquela pobre senhora.
- Imagino o sofrimento.
Infelizmente, a obsessão hoje em dia ganhou carácter de epidemia.
É raro o lar onde não se encontram obsessores causando toda sorte de problemas.
- Por que isso acontece?
Sempre li que são as pessoas que abrem as portas para os espíritos obsessores.
- Isso mesmo - afirmou Rosana com segurança.
Nesta época de transição pela qual passa a Terra, as pessoas tornaram-se demasiadamente materialistas.
Já não se fala mais em amor ao próximo, em respeito a si e ao semelhante, os valores sociais estão completamente invertidos.
Nossa sociedade está doente, valorizando o material, o status, a aparência.
As pessoas perderam o contacto com a própria alma, não sabem lidar com suas emoções nem disciplinam os pensamentos.
Estas são as causas das obsessões.
O dia em que o homem se espiritualizar, ficará livre não apenas deste mal, mas de todos os outros.
Rosana marcou a reunião para o mesmo dia, à noite.
Foi com expectativa que Matilde, Cássio, Ana e até Aurélio esperaram que chegasse as oito como combinado.
Matilde já não estava tão descrente e Ana, mesmo ainda agarrada ao catolicismo, acreditava que aquilo tinha alguma espécie de valor.
No entanto, estavam com medo, nunca haviam lidado com espíritos.
Até mesmo Cássio, que se dizia ateu, começou a sentir grande inquietação e uma vontade louca de sair correndo e não participar de nada.
Estavam na sala quando Rosana e sua equipe chegaram.
Surpresos, perceberam que o médico Rafael Sampaio também estava entre eles.
Ele mesmo explicou:
- Conheci Rosana poucos dias depois que aqui cheguei quando ela acompanhava uma doente ao meu consultório.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 20, 2018 8:58 pm

Estendemos a conversa e ela me revelou ser espírita.
Fiquei muito feliz, pois quando deixei Cuiabá para aqui trabalhar senti-me vazio sem os estudos e as reuniões espíritas das quais participava.
Na casa de Rosana encontrei o local perfeito para continuar meus estudos e entrar em contacto com a espiritualidade elevada.
Ele fez uma pausa e continuou:
- Não se preocupem, assim como tenho ética como profissional da medicina, tenho também como espírita, e tudo o que se passar aqui, aqui mesmo ficará.
Matilde pediu que todos se sentassem e procurou ser solícita.
Logo percebeu que aquelas pessoas, longe se serem desequilibradas como ela pensava, eram alegres, conversavam tranquilamente e tinham o semblante sereno.
Começou a pensar que o Espiritismo deveria mesmo ser uma coisa boa e seria melhor ainda se curasse sua irmã.
Assim que Rosana regressou do quarto onde fora visitar sua amiga Leonora pediu:
- Precisamos de uma mesa.
Nesta reunião, os médiuns precisam ficar sentados, concentrados e em prece.
Não podemos ficar aqui nestas poltronas.
- Vamos para a sala de jantar, lá a mesa é grande e o ambiente confortável - tornou Matilde.
Quando todos sentaram, Matilde pediu:
- Acredito que todos vocês sabem que a família Caldeiras é tradicionalmente católica.
Se estamos recorrendo a esta seita é porque chegamos ao limite dos nossos sofrimentos com minha querida irmã Marta.
Por essa razão, peço que ninguém comente na cidade o que vieram fazer aqui.
O padre Sílvio pode saber e não queremos nos indispor com ele, muito menos com falatório e mexerico nas ruas.
Ana corou de vergonha.
Nem ela tinha tanto preconceito como a mãe.
Rosana, após ouvir, meditou e disse:
- Fique despreocupada, senhora, todos estamos aqui na intenção de ajudar sua irmã e sua família.
Não temos nenhum interesse em divulgar nada que se passa neste ambiente.
Só gostaria de frisar que o Espiritismo não é uma seita, e que não precisam ficar apreensivos quanto aos espíritos que aqui vão se comunicar.
Eles são seres iguais a nós, apenas perderam o corpo de carne e vivem em outra dimensão.
Em seguida, Rosana pediu que apagassem as luzes, deixando acesa apenas uma pequena lâmpada branca num abajur.
Antes de fazer a prece inicial, ela ainda elucidou:
- A penumbra é necessária, pois facilita a concentração dos médiuns e de todos os presentes.
Peço que ninguém interrompa nenhuma comunicação e que fiquem sempre em prece, pedindo ao Criador que nos ampare e auxilie os irmãos sofredores.
A reunião começou com Rosana proferindo a Prece de Cáritas e pedindo auxílio aos amigos espirituais para Marta e seus obsessores.
A doente, que estava dormindo sob o efeito de fortes sedativos, de repente acordou e reiniciou os gritos, ao que Rosana explicou:
- Não se preocupem.
Os espíritos que a estão assediando, sentindo a presença dos irmãos de luz, ficaram ainda mais raivosos e a acordaram, na tentativa de atrapalhar o trabalho.
Logo ela ficará calma quando eles forem atraídos para os médiuns.
Minutos depois, os gritos de Marta cessaram e logo um médium começou a falar demonstrando muito ódio:
- O que vocês vieram fazer aqui?
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Ave sem Ninho

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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 20, 2018 8:59 pm

Perder tempo?
Nada vai me impedir de concretizar a vingança que planeio há tantas décadas.
Façam o favor de ir embora - o médium falava com voz forte e altiva.
Rosana, com paciência e amor, iniciou o diálogo:
- O amigo sabe que estamos aqui em nome de Deus e Jesus, e, quando estamos em nome Deles, nunca perdemos tempo.
O amigo é quem perde tempo, pois a vingança nunca trouxe felicidade para ninguém.
- Você diz isso porque não sofreu o tanto que sofri.
A mulher que vocês tentam ajudar é uma assassina cruel e implacável.
Matou minha filha inocente num incêndio apenas por ciúme.
Ela não se comoveu com os gritos de minha adorada Ludmila enquanto seu corpo queimava nas chamas.
Naquela época, nada pudemos fazer, pois éramos pobres camponeses e ela uma rica senhora de terras, cuja família também está aqui hoje e a protegeu de ser presa.
Eram amigos do czar, aquele miserável!
Mas hoje eu posso tudo e jamais vou descansar se não a vir morta.
Já conseguimos enlouquecê-la.
Agora, só falta ela se suicidar como estamos pretendendo.
Matilde, Ana e Cássio ouviam tudo com atenção enquanto estranho fenómeno se passava.
A medida que a entidade falava, eles pareciam conhecer toda aquela história.
Estavam impressionados.
A voz de Rosana era doce e não se perturbava com as ondas de ódio emanadas daquele irmão sofredor.
- Nós sabemos que você clama por justiça, mas nesta vida ninguém é inocente e Deus está no comando de tudo.
Não é melhor entregar a justiça nas mãos Dele e perdoar?
Todo julgamento que fizermos sempre será errado, pois parte de nossa visão parcial e limitada.
A origem dos acontecimentos de nossa vida se perde na noite dos tempos e, como não sabemos das coisas, devemos entregar tudo nas mãos da Justiça Divina, que dá a cada um de acordo com suas obras.
A entidade continuava nervosa e bradava:
- Não venha querer me enrolar com esse papo de Justiça Divina.
Deus não está se importando com nada e se eu não fizer justiça com minhas próprias mãos, nada vai acontecer, e essa mulher horrorosa, ciumenta e assassina, passará impune.
Deixem-me em paz, saibam que não estou sozinho, comigo está toda a minha família, moramos aqui nesta casa e sabemos tudo o que acontece.
A família Caldeiras, antiga família Gorky, sempre foi movida pela usura e ambição.
Aqui estão todos, posso reconhecê-los.
Há aquela que roubou tudo e os matou, há o traidor da família, há a principal vítima, que tudo sofreu, e há a antiga dançarina do balé imperial, essa foi a única que escapou.
Estou vendo também o marido dela, que era rico e agora não passa de um reles mordomo.
Vou me vingar de todos vocês.
Nunca vou deixá-los em paz.
O espírito gargalhou muito e logo depois deixou o médium.
Rosana pediu que todos elevassem o pensamento a Deus e rogassem por aquela alma enferma, que na ilusão penetrara pelos caminhos da vingança e do ódio.
Passados alguns minutos de silêncio, uma médium estremeceu levemente e, com voz pausada e suave, começou a falar:
- Bendito seja Deus, que me permitiu estar aqui esta noite podendo falar certas coisas àqueles a quem muito devo.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 20, 2018 8:59 pm

Fez uma pequena pausa e continuou:
- Enquanto vivi na Terra, deixei-me levar pelo egoísmo, pela ambição desmedida e pela covardia.
Perdi a oportunidade de conviver com a mulher que mais amei por medo de enfrentar a sociedade e mostrar que eu podia ser dono de minha vida.
Por essa razão, amarguei um casamento de aparência e fui muito infeliz.
Apenas amei e devotei minha vida a você, querido filho Cássio.
Nessa hora, Cássio, envolvido pela emoção gritou:
- Tio Mariano?
É o senhor?
A médium continuou sem se perturbar, enquanto Rosana pedia que Cássio se calasse e se acalmasse:
- Sim, Cássio.
A vida continua e a morte é uma ilusão.
Meu filho, só existe vida, vida e vida em todas as partes do Universo.
Por essa razão venho pedir que deixe o materialismo de lado e procure amar a espiritualidade.
Aqui deste lado, compreendi que o ódio que nutri por sua mãe, por meu irmão Guilherme e por sua irmã Ana, foi a pior coisa que cultivei, pois envenenou meu coração e, aliado à tristeza que tinha na alma, fez surgir em mim o terrível câncer que me vitimou.
Peço a você, querido filhinho, volte-se para Deus.
Sim, ele existe, por mais que não queira acreditar.
Só em Deus você encontrará forças para reparar o mal que fez à Fabíola.
Esse mal foi uma semente plantada e voltará até suas mãos para o devido reajuste.
Descobri aqui com minha querida Melânia, que até o menor mal que fizermos a nosso próximo terá de ser reparado um dia.
Finalizo pedindo que todos da família se unam.
Os laços que os unem são antigos e fortes.
Matilde e Sara precisam se perdoar.
Um dia retornarei e, se tiver permissão, contarei toda a história que deu origem aos factos que todos vivenciam no presente.
Quero pedir desculpas a minha sobrinha Ana por não ter tido boa vontade em amá-la, e a meu filhinho Cássio por não tê-lo ensinado a amar mais as coisas do espírito do que as da matéria. Até breve.
A médium voltou ao normal e, após alguns minutos de silêncio, onde só se ouvia o pranto abafado de Cássio, Rosana proferiu a prece de encerramento, agradecendo a todos os espíritos amigos pelas bênçãos obtidas naquela noite.
Quando as luzes foram acesas, as pessoas olharam para Cássio, que, com o rosto banhado de lágrimas, disse:
- Não pode ser, isso não pode ser verdade.
Isso é um engano!
Sara, chegando perto dele e alisando seus cabelos lisos, disse calmamente:
- Isso vai de encontro ao materialismo e a tudo o que você acredita, mas é real e tenho certeza de que você sabe disso.
- Essa mulher, essa médium nem me conhece.
Como poderia saber o que se passou entre mim e Fabíola?
Como acertou me chamar de meu filhinho, coisa que só tio Mariano fazia?
Rosana, percebendo que todos da família precisavam de esclarecimentos, convidou-os à sala de estar.
Quando estavam sentados começou:
- Sei que para vocês tudo está confuso, principalmente porque ainda não possuem conhecimento da espiritualidade e do Espiritismo.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 20, 2018 8:59 pm

Estou aqui para esclarecer as dúvidas dentro do que me for possível.
Matilde, ainda impressionada por tudo o que vivenciara e certa de que fora mesmo o espírito de Mariano que ali aparecera, questionou:
- A primeira manifestação foi do espírito que perturba minha irmã, estou certa?
- Sim - disse Rosana.
- Mas não adiantou ele ter vindo aqui falar.
Só demonstrou querer vingança por um passado que nem sei se existiu e não está disposto a deixar Marta em paz.
Como fazer para afastar esse espírito terrível de uma vez por todas?
- Sua irmã sofre de uma obsessão por subjugação.
Como foi dito, há nesta casa uma equipe de obsessores, que fazem parte da mesma família e cobram por um erro grave que Marta cometeu no passado.
Espíritos assim não deixam seus objectivos com facilidade.
É preciso muito diálogo, não só de doutrinadores encarnados como também de espíritos evoluídos que os façam desistir de prejudicá-la.
- Eu pensei que minha irmã iria ficar curada hoje.
Afinal, não foi para isso que vocês vieram aqui?
Para curar minha irmã? - questionou Matilde com arrogância.
Rosana não se impacientou.
- Não viemos curar ninguém, não temos esse poder.
A cura de um processo obsessivo grave depende de vários factores:
os espíritos precisam ser esclarecidos, a família do obsediado necessita se evangelizar, melhorar a conduta e o teor dos pensamentos, e o principal:
o próprio obsediado precisa fazer uma mudança radical nos pensamentos, nas atitudes e no comportamento.
Sem isso, nem Deus vai curar sua irmã.
Matilde se indignou:
- Então minha irmã é vítima de uma coisa horrorosa dessas e Deus não quer curá-la?
- Sua irmã não é vítima.
Na Terra não existem vítimas, apenas pessoas colhendo o que plantaram.
Sua irmã assassinou uma pessoa na vida anterior e pelo visto ficou impune pelas leis humanas.
Provavelmente, quando chegou ao mundo espiritual, percebendo a gravidade da falta cometida, entrou num processo doloroso de auto-punição e culpa.
Essa culpa ficou guardada no inconsciente e, quando ela reencarnou, esse sentimento continuou a infelicitá-la, fazendo-a ser uma pessoa fechada, isolada das demais, com tendência à depressão.
Essas energias negativas que ela emanava abriram as portas para que seus inimigos do Além a atacassem e ela entrasse num processo de desequilíbrio mental.
Se tivesse aprendido a dominar seus pensamentos negativos por meio da prece e da educação mental, esses espíritos nunca conseguiriam atingi-la, por mais que tentassem.
Se as pessoas soubessem, fariam todo o esforço possível para evitar qualquer pensamento negativo.
São eles os responsáveis por todos os sofrimentos do mundo.
Matilde pareceu entender.
De facto, Marta, desde a mais tenra idade, era muito calada, triste, diferente das moças de sua época.
Por coisas simples e banais, sempre se culpava, entrava em depressão, chorava.
- E como fazer para ela se curar?
- É como já disse.
Se querem ver Marta bem e com saúde, todos devem colaborar.
A família precisa estar unida, espiritualizada e em prece.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 20, 2018 8:59 pm

Este lar necessita ficar em paz, sem brigas, discussões, desuniões.
Sugiro que se reúnam uma vez por semana e estudem o Evangelho de Jesus.
E quando Marta estiver em sua fase de calma, leiam o Evangelho para ela, plantem a semente, ensinem que a culpa e o pessimismo não servem para nada e que ela ainda pode ser muito feliz.
É um trabalho árduo.
De um lado a família faz sua parte e do outro, nós faremos a nossa nas reuniões mediúnicas.
Se todos aqui mantiverem o pensamento elevado, nenhum espírito inferior conseguirá entrar na casa.
Foi a vez de Cássio:
- Estou sendo forçado a crer que existe vida além da morte.
Essa moça que falou como se fosse meu tio disse coisas que só minha família sabia.
Só meu tio Mariano me chamava de filhinho.
Como isso pode acontecer?
- Os espíritos, quando aparecem espontaneamente, fazem questão de deixar provas de sua identidade.
Seu tio obteve permissão dos espíritos evoluídos para se comunicar; por essa razão, sabendo que você é descrente, procurou mostrar que era realmente ele que estava aqui.
Cássio ouvia calado, enquanto Rosana continuou:
- No entanto, o que mais importa na comunicação de um espírito seja superior, seja inferior, é a mensagem que ele passa.
Seu tio veio pedir que você se ligue ao espiritual, pois chegará a hora da reparação de um erro e só com a ajuda de Deus você conseguirá se sair bem.
- Entendi.
Mas a senhora fala que podemos tirar lições de espíritos inferiores.
Isso eu discordo.
Pelo pouco que entendo quem é inferior não pode ensinar nada a ninguém.
- Engana-se.
Os espíritos inferiores nos alertam para nossos defeitos e para as coisas que não devemos fazer.
Por exemplo:
o espírito que quer prejudicar sua tia, faz-nos meditar sobre como é inútil a vingança e o ódio.
Faz-nos perceber que quem não perdoa vive num inferno de tristeza e dor.
Por essa razão, devemos aproveitar e aprender com esse irmão a sermos bons, pacientes, caridosos e indulgentes com todos aqueles que de uma forma ou de outra tentam nos prejudicar.
São essas pessoas que nos testam em nossa capacidade de amar, tolerar, compreender, perdoar e não julgar.
Vendo que ninguém mais queria falar, Rosana se despediu, prometendo continuar a orar pela família e colocar o nome de Marta no caderno de preces da reunião de desobsessão.
Marta continuou em silêncio, dormindo.
Aquela noite foi de forte emoção para todos e logo estavam em seu quarto, tentando conciliar o sono sem conseguir.
Enquanto o perseguidor de Marta falava sobre o passado, todos se sentiram dentro daquela história.
Cássio sentiu-se o traidor da família; Ana teve a certeza de que foi a bailarina do balé imperial; Matilde, sem saber explicar como, sentiu-se a vítima; Sara viu-se naquela que roubou a todos e Aurélio sentiu que fora o homem rico que, agora, virara mordomo.
Com esses pensamentos, só muito tarde é que conseguiram adormecer.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 20, 2018 9:00 pm

17 - Mudanças
Nos dias que se seguiram Marta foi melhorando e, em pouco tempo, encontrava-se refeita da violenta crise que tivera.
Por entrar na fase de depressão, seus gritos não mais eram ouvidos pela fazenda e ela permanecia quieta, deitada, olhos perdidos num ponto indefinido.
Apenas por pequenos comentários referentes à melhora de Marta, a reunião de desobsessão era mencionada.
Fora isso, ninguém ousava comentar nada.
No entanto, Sara notara mudança em Cássio, que se havia tornado mais atencioso com a família, e em Matilde, que já não a olhava com desdém e sim com certa gratidão.
Aproximava-se o dia do casamento entre Cássio e Sara.
A data havia sido marcada e, por grande insistência de Matilde, o casal resolveu abrir as portas da fazenda para uma grande festa.
Com ajuda da sogra, ela havia escolhido um lindo vestido de noiva e era com empolgação que esperava o momento de ser a esposa do homem amado.
Leonora mantinha-se em um quadro estável, sua doença pareceu estacionar, o que deixava Sara ainda mais feliz, pois no fundo temia que a mãe não pudesse estar presente em seu casamento.
Contudo, por mais que tentasse esquecer a história entre Cássio e Fabíola, ela não conseguia.
No dia imediato à reunião onde o espírito de Mariano havia mencionado a história, Sara procurou saber de Cássio o que de facto havia ocorrido, porém, ele, com meias palavras, apenas dissera que namorara Fabíola e quando pôs um fim na relação ela entrara em depressão e abandonara a mãe, indo embora do país.
Sara não acreditou e resolveu ter paciência.
Com o tempo certamente saberia a verdade.
Naquela manhã em particular, faltando apenas uma semana para o casamento, ela estava pensando naquela história no grande sofá da sala quando Ana chegou.
- Posso saber em que tanto pensa?
- Penso numa forma de descobrir a verdade sobre Fabíola e Cássio.
Ana sentiu-se desconfortável.
Sara havia lhe perguntado, mas ela apenas havia confirmado a mesma versão que o irmão pedira que dissesse.
- Não sei por que você quer remexer o passado.
A verdade você já sabe, Cássio namorou nossa prima e ela pensou que iriam se casar, quando meu irmão terminou tudo, entrou em depressão e sumiu.
Tempos depois, ficamos sabendo seu paradeiro.
- Ana, não minta, pois não é do seu feitio.
Dona Matilde também me disse a mesma coisa, mas sei que todos nesta casa, inclusive Aurélio, estão instruídos a me contar sempre a mesma versão.
Ana corou.
- Se sabe que estamos mentindo, então vamos esquecer esse assunto.
Você sabe que amo meu irmão e não o trairia jamais.
Mas como sua amiga, posso garantir que a verdade não é nada de mais e que você não deve se preocupar com ela.
- Não queria começar minha vida com Cássio sem saber quem ele é de verdade.
- Mas você sabe quem ele é.
Cássio é esse homem amoroso, cordial, cavalheiro, bonito e que a ama.
Isso não é o bastante?
Sara olhou no fundo dos olhos de Ana e percebeu que não adiantava conversar, ela não diria nada, e talvez fosse tolice de sua parte saber algo que se passara quando ela nem conhecia Cássio.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 20, 2018 9:00 pm

- Você tem razão, vamos esquecer o assunto.
Agora, vamos falar de você e Aurélio.
Ana aproximou-se nervosa dizendo:
- Aqui não, vamos para o córrego.
Lá falaremos mais à vontade.
As duas saíram em direcção ao pequeno córrego, que ficava nos fundos da grande construção.
Sara nunca tinha ido àquele lugar e, durante a caminhada, ia observando tudo, encantada com as árvores que encontrava, o olho d’água e a nascente.
A paisagem da fazenda era encantadora.
Ana sentou-se numa grande pedra, tirou os sapatos e colocou os pés na água.
Sara fez o mesmo, depois, olhou para a amiga e disse:
- Precisamos começar a agir, senão você perderá Aurélio.
- Você acha que ele pode assumir o romance com minha mãe? - perguntou Ana com o coração aos saltos.
- Acho pouco provável, mas Aurélio é jovem e bonito.
Você acha que ele vai querer ficar sozinho a vida inteira?
- Nunca pensei nisso.
O que devo fazer?
- Você deve se declarar a ele.
- Já disse que acho isso feio para uma mulher.
- E eu já disse que o feio e o bonito dependem dos olhos de quem vê.
Você não precisa ser vulgar, apenas fale de seus sentimentos.
Que mal há nisso?
- Tenho medo.
- Ora, Ana, se você não o fizer, farei eu! - disse Sara resoluta.
- Não, por favor!
Dê-me um tempo.
- Já lhe dei tempo demais.
Faz mais de um mês que você me contou sua história e nada aconteceu.
Sara fez uma pausa, pegou as mãos geladas de Ana e, olhando-a com carinho, tornou:
- Você é uma moça bonita, jovem, inteligente, não pode deixar a vida passar em branco.
Precisa viver e ninguém vive plenamente sem amar, sem se doar, sem receber amor.
Não deixe essa chance passar por medo.
Ela encheu os olhos de lágrimas.
- Temo por tudo.
Temo não ser correspondida, temo que Aurélio zombe de mim e conte tudo a mamãe, o que tornará minha vida um verdadeiro inferno.
Por outro lado, meu sentimento por ele é voluptuoso, forte, violento.
Não sei como agir.
- Você precisa experimentar.
Seu coração descobriu o amor por meio de Aurélio, coisa que você nunca havia vivenciado.
Sinto que seu espírito já sofreu muito pelas paixões e ilusões terrestres.
Por essa razão, tudo em você é muito intenso.
Contudo, com um marido que ama, você terá a chance de se harmonizar.
Vou lhe dar um ultimato:
se até o dia de meu casamento você não tomar nenhuma atitude, eu o farei.
Ana abraçou a amiga com muito amor.
- Sara, você é um anjo que Deus colocou em nossa vida.
Quero que você e meu irmão sejam muito felizes.
- Não sou anjo coisa alguma, sou apenas uma pessoa que quer seu bem e sua felicidade.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 20, 2018 9:00 pm

Vamos? Daqui a pouco Cássio chega e quero ultimar alguns preparativos com ele.
Ele quer convidar a região inteira e eu, além da Letícia e da dona Rosana, não tenho ninguém mais para convidar.
- Deixe com meu irmão, ele é muito bem relacionado e com uma mulher linda como você com certeza fará questão de trazer toda a sociedade para admirá-la.
Sara sorriu com a simplicidade de Ana ao falar e, abraçadas, ambas retomaram o caminho.
* * *
Dentro da casa, Matilde havia chamado Aurélio ao seu quarto.
Após certificar-se de que ninguém os vira, ela trancou a porta e foi seduzindo-o, procurando tirar sua roupa.
Aurélio, no entanto, empurrou-a de leve dizendo:
- Agora, não!
Seu filho está para chegar. Perdeu o juízo?
Matilde se recompôs dizendo:
- É que estou muito carente e faz dias que não nos amamos.
- Temos de ter todo o cuidado agora que Sara e a mãe estão morando aqui.
Uma onda de ódio perpassou pelo rosto de Matilde.
- Ainda bem que você tocou no assunto, afinal, foi para isso que o chamei aqui.
Fez o que lhe pedi?
- É claro que fiz, Matilde.
Quando é que deixaria de cumprir uma ordem sua? - disse irónico.
- É que tenho de ter certeza de que as coisas vão sair como planeei.
Sara e Cássio podem até se casar, mas não terão nem um dia sequer de felicidade.
- Não acha que está sendo dura demais com a moça?
Afinal, é por causa dela que você conseguiu continuar nesta casa e ter a vida de luxo que sempre possuiu.
Além de tudo, todos os dias ela faz orações no quarto da sua irmã e, coincidência ou não, dona Marta está bem melhor.
Matilde olhou com ódio para Aurélio.
- Afinal, de que lado você está, seu patife?
Aurélio, sentindo o ódio subir-lhe a cabeça, segurou os braços dela com força bradando:
- Estou do lado de quem eu quiser.
Lembre-se de que a qualquer hora posso destruir sua vida contando a seu adorado filho que temos um caso.
Contente-se com o que posso lhe oferecer e nunca mais me chame de patife.
Matilde estava estarrecida, jamais esperava aquela reacção de Aurélio o qual julgava seu cúmplice fiel.
- Solte-me, está me machucando.
Aurélio soltou-a dizendo:
- Fiz o que me pediu e tudo vai ocorrer na hora certa, mas saiba que não vou mais colaborar com seus planos diabólicos e só irei até seu quarto ou a receberei no meu o dia que quiser.
Agora, quem manda sou eu.
- Não o estou reconhecendo - tornou Matilde nervosa.
- Então, trate de me conhecer de agora em diante.
Aurélio saiu batendo a porta com estrondo, deixando-a absorta em pensamentos contraditórios.
Fosse o que fosse que Aurélio estivesse aprontando, ela iria descobrir e reverter a situação.
O que não podia era perdê-lo ou perder o domínio sobre ele.
* * *
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 20, 2018 9:00 pm

Cássio chegou para o almoço com o amigo Rodrigo.
Fazia tempos que não se viam e como Cássio não iria para o escritório à tarde, convidou-o para banharem-se na piscina.
Sara gostava muito de Rodrigo, percebia nele uma pessoa honesta, fiel, respeitosa e verdadeiro amigo de Cássio, talvez o único.
Quando o almoço terminou, Cássio convidou Sara e Ana para irem à piscina com eles.
Ambas aceitaram e, embora não fossem entrar na água, ficariam trocando ideias.
Rodrigo era inteligente, conversava sobre tudo, o que facilitava a comunicação entre eles.
A tarde era de muito calor e logo Matilde chegou avisando que iria ao cabeleireiro na cidade.
A conversa seguia descontraída quando Cássio pediu a Ana:
- Mana, vá lá dentro e peça ao Aurélio que nos traga aquela cerveja bem gelada que reservei para hoje.
Ana corou levemente e olhou para Sara, que com o olhar a encorajou a ir.
Evitava ao máximo ficar sozinha com Aurélio temendo se descontrolar, contudo, encorajada pela amiga, saiu em direcção à casa.
Chamou pelo mordomo, que logo veio em sua direcção.
Seu coração descompassou e ela começou a tremer.
Aurélio percebeu e, chegando mais perto, perguntou:
- Sente-se mal senhorita?
- Só uma ligeira tontura, vai passar.
- Sente-se aqui - tornou Aurélio solícito, indicando uma poltrona.
Ana sentou-se e ele disse:
- Vou trazer um copo com água.
- Não precisa, já estou melhor, deve ser esse calor.
Sem perceber, Ana havia pegado nas mãos de Aurélio e uma energia de amor muito grande a envolveu.
Foi muito rápido, mas o mordomo percebeu o seu olhar amoroso e foi como se um véu tivesse sido arrancado de sua visão.
Ana gostava dele! Vira em seu olhar.
Com o coração também em descompasso, Aurélio pediu licença e saiu, sem saber como agir naquela situação.
Sara entrou na sala e, vendo Ana sentada com o rosto pálido, perguntou:
- O que aconteceu?
Cássio está reclamando da demora.
- Aconteceu que mais uma vez me descontrolei quando fiquei perto de Aurélio.
O pior é que nossas mãos se tocaram e notei que ele percebeu meu olhar amoroso em sua direcção.
Meu Deus, que vergonha!
- Você precisa se acalmar.
Vá para o quarto, deite-se e faça uma prece.
Peça a Deus que a ajude a encontrar o equilíbrio.
- Sara, sei que você acredita em espíritos, por essa razão quero lhe fazer uma pergunta.
- Pode fazer, tentarei responder dentro do meu limitado conhecimento.
- Sinto que meus desejos não são só meus.
As vezes, sinto que existem demónios ao meu lado colocando-me em tentação a todo instante.
Esse descontrole ao me aproximar de Aurélio não pode ser normal.
Sara pensou um pouco e, intuída, disse:
- Os desencarnados podem fazer com que nossos desejos para certas coisas aumentem.
Mas eles não são demónios, são espíritos de pessoas que já viveram na Terra e que, ao morrer, não deixaram seus maus hábitos, seus vícios, seus pontos fracos.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 20, 2018 9:00 pm

Para satisfazerem-se melhor eles buscam os encarnados que têm as mesmas imperfeições que eles, para que se unindo possam experimentar as mais diversas sensações.
Acontece com quem fuma, bebe, se droga, fala da vida alheia, come exageradamente, pensa negativo, julga os outros, e com o sexo não é diferente.
As aberrações sexuais, os estupros, a promiscuidade, a pedofilia e a prostituição são todas induzidas pelos espíritos das trevas, que encontram a receptividade nas pessoas que não controlam suas emoções e pensamentos.
- Quer dizer que esse meu desejo por Aurélio pode ser uma indução de um espírito inferior?
No outro dia você me disse que era normal.
- Sentir atracção por alguém é normal, desejável e saudável, mas quando esse desejo nos desequilibra, tira-nos o controle dos pensamentos e acções, torna-se um sentimento compulsivo, que certamente tem origem em uma obsessão.
Pode ser que você tenha abusado do sexo em vidas anteriores e essa seja a porta aberta que os obsessores encontram para desequilibrá-la.
Por essa razão eu digo que além de orar, você precisa vivenciar a sexualidade sadia e com amor, e isso você só vai conseguir casando-se com quem ama.
Ana tinha os olhos cheios de lágrimas.
- Eu amo Aurélio, mas tenho medo.
- Por essa razão eu lhe dei o prazo até o dia do meu casamento, e espero que você cumpra.
- Reunirei todas as minhas forças e vou cumprir, sim.
Mas, agora, quero me recolher, meditar.
Diga a meu irmão e ao Rodrigo que não me senti bem e fui para o meu quarto.
- Direi, sim. Vá descansar.
Enquanto Ana seguia em direcção ao seu quarto, e Sara ia para a cozinha pegar as cervejas, um vulto se esgueirou por trás de um grande móvel e saiu pelo corredor entrando em uma das portas.
Era Aurélio que, sem querer, ouvira toda a conversa.
Sentado em sua cama simples, ele estava muito feliz.
Pensava:
Então Ana me ama!
Como uma senhorita tão fina e delicada como ela pôde se interessar por um serviçal rude como eu?
Ele se perguntava enquanto sentia brotar em seu coração um sentimento nunca antes experimentado.
Ele estava amando também.
Agora entendia a diferença desse sentimento para o que sentia por Matilde.
Ao pensar nela sentiu um asco e jurou para si mesmo que jamais voltariam a fazer sexo.
Principalmente depois que ouvira o que Sara havia dito sobre os espíritos obsessores.
Aurélio deitou na cama e com amor no peito ficou durante longos minutos imaginando Ana em seus braços.
A vida em sua trama sempre perfeita iria mais uma vez unir duas almas afins.
Ivan e Kira, agora vivendo como Aurélio e Ana, teriam a chance de encontrar a verdadeira felicidade, embora tivessem que tirar muitas pedras do caminho.
* * *
Sara levou a cerveja e sentou-se na beirada da piscina.
De repente, fixou a atenção no que Rodrigo dizia:
- Cássio, sua irmã Ana é uma moça linda.
Sabe que eu nunca tinha parado para observar?
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Ave sem Ninho

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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 20, 2018 9:00 pm

Cássio sorriu.
- E quem vai parar para observar uma moça que quase não sai de casa e quando sai é para ficar na barra da batina do padre?
- Eu penso que Ana ainda não gostou de ninguém.
Quem sabe quando se apaixonar não mude esse estilo de vida?
- Não creio, ela sempre foi muito retraída e grudada em mamãe.
O destino dela é ficar solteirona.
- Não se depender de mim. - tornou Rodrigo reticente.
- Será que meu amigo Rodrigo está se interessando pela beata Ana Caldeiras? - disse num gracejo.
Logo você, esse pilantra que sempre gostou das devassas?
Deixe de brincadeira.
- Não estou brincando, Cássio.
Hoje pude observar melhor sua irmã.
Tem um rosto muito bonito, pele delicada, gestos subtis, até mudou a forma de se vestir.
As mulheres estão ficando muito fáceis, talvez por essa razão eu nunca tenha me interessado em levar nenhum namoro a sério.
Mas Ana é diferente.
Se você me ajudar a conquistá-la, prometo fazê-la a mulher mais feliz do mundo.
- Espero que você esteja falando sério.
Amo minha irmã e não quero vê-la sofrer.
- Nunca falei tão sério em toda a minha vida.
- Então prometo que Ana será sua.
Sara, a esse ponto da conversa, aproximou-se dizendo:
- Como você pode prometer Ana ao Rodrigo sem nem saber o que ela quer?
- Ora, amor, e o que poderia ser melhor para minha irmã do que um bom partido como Rodrigo?
- Acho que o melhor para sua irmã é ela escolher com quem deseja namorar.
Ana já é bem grandinha para fazer suas próprias escolhas.
Rodrigo notou que Sara falava num tom sério.
- Por acaso é contra que eu namore sua cunhada? - perguntou encarando-a.
- Não tenho nada contra você, Rodrigo, pelo contrário, admiro-o muito.
Mas o que estou estranhando é essa sua atracção repentina por Ana e esse desejo de fazê-la a mulher mais feliz do mundo.
Você a conhece há tempos e nunca demonstrou interesse.
Rodrigo corou.
Na verdade, ele observara Ana como mulher apenas naquele dia e gostou da observação.
Claro que não a amava, mas podia vir a amá-la se conseguisse mais intimidade e um namoro.
Por essa razão disse:
- Sei que é amiga de Ana e deve estar preocupada com seu futuro.
De facto eu nunca tinha parado para observá-la como mulher, mas hoje, aqui na piscina, enquanto vocês conversavam, pude perceber como ela é meiga, bonita, recatada.
Tenho o direito de tentar me aproximar.
- Tem razão.
Sara resolveu encerrar o assunto antes que falasse demais, ia pedindo licença quando ouviu Cássio dizer:
- Vou torcer para que minha irmã o aceite, pois você é único homem que aprovo para ela.
Aqui nesta cidade só tem borra-botas, jamais iria deixar Ana se envolver com esses aproveitadores.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 21, 2018 8:33 pm

Sara ia discutir com Cássio, mas pediu licença e entrou na casa.
Mais uma vez percebeu como ele era materialista.
Se os advogados não tivessem afirmado que ele não sabia de nada sobre a herança, ela começaria a duvidar de seu amor.
A sala estava calma e ela resolveu deitar um pouco no sofá tentando pensar em uma maneira de ajudar Ana a se livrar daquela situação.
Com certeza Cássio não iria aprovar que a irmã tivesse algum envolvimento com Aurélio.
Iria causar empecilhos, expulsar o mordomo da fazenda, o que não seria nada bom.
Com esses pensamentos, resolveu fazer uma prece pedindo auxílio do Alto.
O que Sara não sabia é que Rodrigo havia sido envolvido pelos espíritos trevosos, que trabalhavam para Drómio na Cidade Pervertida.
Percebendo que Ana e Aurélio estavam prestes a se entender e que ela iria optar por um matrimónio harmonioso, os espíritos resolveram agir e impulsionar Rodrigo a envolvê-la nas tramas do comportamento desregrado para que ela voltasse a se prostituir como antes.
Além de Rodrigo, os espíritos também tentariam envolver outros homens a conquistá-la para o sexo fácil.
O que eles não poderiam permitir de forma alguma era que Ana tivesse uma vida amorosa saudável e equilibrada.
Tudo fariam para que a antiga bailarina do balé imperial russo voltasse a dar prazer aos diversos espíritos que viviam viciados vagando pela Cidade Pervertida.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 21, 2018 8:34 pm

18 - O casamento
O dia do casamento de Sara e Cássio finalmente chegou.
A fazenda estava agitada por conta dos preparativos coordenados por Matilde, que fazia questão de mostrar interesse e bom gosto em tudo, desde a decoração da capela, a escolha do bufê, até a arrumação do grande pátio da grande casa, onde os noivos receberiam os cumprimentos.
Matilde fizera questão de contratar uma banda de música jovem para tocar enquanto cada convidado era servido e logo após embalar a festa que terminaria com o dia claro.
O casal preferiu adiar a viagem de lua de mel, porquanto a saúde de Leonora havia piorado bastante e Sara não queria que a mãe morresse sem a sua presença.
Mesmo assim, comprou-lhe uma cadeira de rodas e um lindo vestido para que ela pudesse participar
da cerimónia e dos cumprimentos.
Aurélio, assim como todos os empregados da fazenda, estava envolvido com os afazeres, mas nem assim conseguia esquecer Ana e a descoberta de seu amor.
No entanto, disfarçava de tal modo que ela nada percebeu.
Depois daquela descoberta nunca mais tinha tido qualquer tipo de relação com Matilde, o que a deixou nervosa e inquieta.
A noite estava linda e a aragem do outono, banhada pela luz da lua cheia, entrava pelas janelas do quarto onde Sara se preparava.
Maquiadores, estilistas e esteticistas vieram de Cuiabá, convocados por Matilde, para transformarem Sara na noiva mais bonita que todos ali tinham visto.
Quando ela ficou pronta e olhou-se no espelho, sentiu uma terna emoção.
Afinal, estava tão linda assim para o homem de sua vida! Ana aproximou-se:
- Você vai ser muito feliz, minha querida.
- Sei disso.
Estou tão emocionada e alegre que não tenho palavras.
Mas não pense que me esqueci de você.
Hoje é seu último dia.
Se não se declarar ao Aurélio, amanhã eu vou chamá-lo e contarei sobre seus sentimentos.
- Como você é boa!
No dia mais importante de sua vida ainda consegue pensar nos outros!
- Deixe de bobagem, não estou pensando nos outros, estou pensando em você, que, além de minha cunhada, é minha amiga a quem muito amo.
Fez pequena pausa e perguntou:
- Criou coragem ou será preciso minha intervenção?
- Criei coragem, sim.
Seja como for que Aurélio venha a reagir, preciso dizer que o amo e o desejo mais que tudo nesta vida.
- É assim que se fala.
A porta abriu-se com rapidez e Matilde apareceu elegantemente vestida dizendo:
- Vamos, Sara, só estamos esperando você, tudo já está pronto, inclusive Cássio à sua espera, ansioso como qualquer noivo.
Sara emocionou-se ainda mais.
- Não o vi hoje.
Como a senhora conseguiu afastar-nos para que não nos víssemos?
- Coisas de uma boa sogra, afinal, não é bom o noivo ver a noiva antes do casamento.
Agora, vamos. Você não pode se atrasar mais.
Matilde conduziu Sara até a porta da fazenda onde um carro a esperava para conduzi-la até a capela.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 21, 2018 8:34 pm

Quando a marcha nupcial começou a ser tocada, ela entrou deslumbrante, caminhando pelo tapete de veludo vermelho, de braços dados com Alceu, que, por exigência de Mariano, iria levá-la até o altar.
Quando Cássio tocou a mão de Sara, sentiu uma onda de amor envolvê-lo de maneira tão grandiosa, que jurou para si que nada no mundo seria capaz de separá-lo daquela mulher.
Assim que padre Sílvio terminou a cerimónia que os uniu definitivamente, e o beijo amoroso selou o verdadeiro compromisso, uma salva de palmas ecoou no ambiente.
Os espíritos de Mariano e Melânia estavam ali, radiantes de felicidade.
- Quando os uni na Terra pelo testamento nunca imaginei
que estava fazendo algo tão certo.
Como estou feliz! - comentou Mariano.
- Os encarnados não sabem, mas nenhuma acção praticada por eles é em vão ou por acaso.
O livre-arbítrio das criaturas coexiste com as leis universais.
Por essa razão afirmamos que tudo sempre está certo como está e ninguém age errado como pensamos a princípio.
Cada ser sempre age de acordo com seu nível de evolução, impulsionando o progresso de outros seres e assim por diante.
A vida é uma sinfonia perfeita.
- Como é bom saber disso, Melânia.
Seria melhor ainda se todos pudessem partilhar desse conhecimento.
- Um dia a humanidade entenderá; por hora é preciso esperar fazendo a nossa parte.
Vamos continuar pela fazenda; afinal, o desencarne de Leonora está próximo e, mesmo depois que isso acontecer, deveremos permanecer para auxiliar Cássio e Sara nos desafios que terão de enfrentar.
- Gostaria de poder evitar isso.
- Mas ninguém tem esse poder.
Cássio é muito materialista e Sara ainda guarda resquícios negativos de sua personalidade passada natural que a vida os empurre por meio do sofrimento, para que aprendam os verdadeiros valores da alma.
Mariano calou-se e com os outros espíritos continuou a lançar energias de paz sobre o casal.
* * *
Disfarçadamente, Matilde desapareceu entre os convidados e entrou na casa.
Foi até um dos quartos, girou a maçaneta, e entrou.
Olhou para a mulher que a esperava e com sorriso diabólico disse:
- Finalmente chegou a hora, eles já estão recebendo os cumprimentos.
- Já não aguentava mais esperar, fiquei com ódio por não ter visto a cerimónia.
- Perdeu de ver como aquela pobre miserável se comportou.
Parecia dona de meu filho.
A mulher pareceu se impacientar com a conversa.
- Não vamos ficar falando sobre isso agora, preciso cumprimentar o casal.
- Vá, querida, boa sorte!
Enquanto ela saía do quarto, Matilde soltou uma gargalhada estridente.
Sara não sabia o que a aguardava.
* * *
Extremamente felizes, o casal recebia os cumprimentos.
A fila era longa, mas eles estavam tão satisfeitos que nem percebiam o tempo passar.
De repente, Cássio sentiu-se gelar e o coração descompassar.
Não podia ser quem ele estava pensando.
Diante deles estava uma jovem morena, cabelos lisos, lábios carnudos, com aparência de 30 anos, elegantemente vestida, que sorria cinicamente.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 21, 2018 8:34 pm

Sara, a princípio, não estranhou, mas a moça demorou demais observando sem dar os cumprimentos, o que a fez achar que ali tinha algo diferente.
Olhou para Cássio, que, parado e pálido, nada dizia.
Fabíola abriu os braços para ele e o abraçou forte dizendo:
- Eu não poderia jamais deixar de cumprimentá-lo, meu amor.
Feliz casamento! - dizendo isso, sem que Cássio pudesse esboçar qualquer reacção, ela o beijou forçadamente na boca, causando frisson entre os convidados, que se aglomeraram para ver a cena.
Sara, sem entender o que estava acontecendo, esperou que Cássio se desvencilhasse daquela mulher, e perguntou nervosa:
- Cássio, pode me dizer o que é isso?
Ele estava completamente envergonhado, desconcertado, sem saber o que falar.
Por fim disse:
- Esta é minha prima, Fabíola.
- Sim, sou a prima predilecta dele.
Deu para notar, não é?
Sara começou a se sentir humilhada e com ciúmes.
De repente, veio-lhe à mente o que o espírito de Mariano dissera naquela noite.
Lembrou que houve um envolvimento maior entre Cássio e aquela prima, tudo confirmado por ele mesmo.
Completamente descontrolada, Sara bradou:
- Deu para notar que você é uma mulherzinha cínica e vulgar.
Saia de nossa frente.
- Calma, querida.
Um beijinho não tira pedaço nem vai roubá-lo de você.
Cássio é todo seu.
O que quero é aproveitar esta festa maravilhosa.
Sejam felizes.
Fabíola ia se afastando quando Cássio a segurou fortemente pelo braço.
- O que pensa que está fazendo?
Quem a chamou aqui?
- Não preciso ser chamada, minha mãe mora aqui e eu posso vir vê-la quantas vezes quiser.
- Você sabe que sua presença não é bem-vinda em nossa casa.
- Não era assim que você pensava antes, quando nos deitávamos sobre os montes de feno.
Algumas pessoas começaram a rir, outras a cochichar, e outras a apontar para eles.
Sara, completamente humilhada, soltou a mão de Cássio e saiu correndo em direcção a casa.
Ana foi atrás dela, enquanto Cássio sacudia Fabíola com muita raiva.
- Quero que vá embora daqui o quanto antes.
Matilde chegou e se interpôs entre os dois.
- Ela não vai embora.
Se você não gosta de sua prima eu gosto, e sei que Marta ficará muito feliz por vê-la.
- Mãe, quantas vezes devo lembrá-la de que a casa não é sua, e sim minha e de Sara!
Essa mulherzinha não ficará aqui nem mais um segundo.
Rodrigo aproximou-se de Cássio e o chamou à razão.
- Melhor aceitar a presença de sua prima.
Você já se esqueceu do passado?
Cássio parecia haver caído em si.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 21, 2018 8:34 pm

Se Fabíola revelasse a Sara o que havia acontecido entre eles fazia alguns anos, sabia que sua mulher jamais o perdoaria.
Resolveu contemporizar.
- Se quiser ficar que fique, mas passe longe de mim e de minha mulher.
- Sim, querido, fique despreocupado.
Fabíola jogou um beijo com a ponta dos dedos para Cássio e desapareceu com Matilde em meio aos convidados.
Como a noiva havia saído correndo, a fila dos cumprimentos se desfez rapidamente e todos passaram a comentar o ocorrido.
Logo a banda começou o show e os mais jovens passaram a aproveitar a festa.
Leonora, que estava com Rosana, não havia entendido nada, mas como presenciara a cena, ficou com dó da filha e a seguiu para tentar ajudá-la.
Sara estava trancada em seu antigo quarto e por mais que a mãe, Rosana e Ana chamassem, ela não abria a porta.
Cássio chegou com o coração oprimido, pediu licença e começou a gritar pela esposa.
- Sara, eu a amo, abra esta porta.
Fez uma pausa, acalmou-se e continuou:
- Nós juramos um dia que não deixaríamos nada nos separar.
Não se deixe levar por uma coisa tão pequena.
Os soluços de Sara pararam e, minutos depois, ela abriu a porta.
Cássio entrou, abraçou-a fortemente e ambos se beijaram com amor.
Sentaram-se na cama e ele tornou:
- Tenho certeza de que foi minha mãe quem chamou Fabíola aqui só para nos importunar, e conseguiu.
Veja o estado em que você está.
- Como você acha que eu ficaria depois de tudo o que ela fez e disse?
- Compreendo, meu amor, mas sei que você é madura o suficiente para não deixar que nossa primeira noite como casados termine mal.
- Tem razão, Cássio.
Aprendi que não devemos nos deixar levar pela maldade dos outros.
No entanto, não quero mais voltar para a festa.
- Eu também não quero, vamos para nosso quarto.
Dizendo isso, pegou Sara no colo com extremo carinho, abriu a porta e deparou com Rosana, Leonora e Ana que, com sorrisos de felicidade, bateram palmas.
Eles também sorriram e foram para seus aposentos.
Lá chegando, Cássio e Sara, aos poucos, foram se entregando ao sentimento que os unia e logo se esqueceram de todo o resto.
Ao ver que o casal voltara a ficar em paz, Leonora sorriu e olhou para Rosana:
- É, minha amiga, creio que realmente nada separa esses dois.
Nem essa tal de Fabíola.
- Sim, concordo.
Eles são almas afins e quando almas afins se unem não há separação.
No entanto, sinto que eles enfrentarão muitos problemas.
Esta fazenda, as pessoas e os espíritos que moram aqui, estão envolvidos em energias escuras de cobiça, usura e ambição.
Temos de orar muito por eles.
Ana, que estava presente, questionou:
- A senhora acha que tenho energia ruim?
- Oh, desculpe querida, não quis me referir a você.
Sinto que sua alma é boa, nobre e anseia ser feliz.
Mas eu sei que você também percebe que o ambiente nesta casa não é dos melhores.
Muitos perigos rondam Cássio e Sara, e você, como amiga, deve estar sempre por perto os ajudando.
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