Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 21, 2018 8:34 pm

- Conto com sua ajuda para amparar minha filha quando eu não estiver mais aqui - disse Leonora com carinho.
- Não se preocupe, dona Leonora.
Sara conquistou meu coração e o do meu irmão também.
Eu nunca pensei que um dia Cássio fosse gostar de alguém de verdade, mas Sara veio mostrar que eu estava enganada.
Mesmo que eu não estivesse aqui, sei que meu irmão faria de tudo para protegê-la e deixá-la bem.
- Quem é essa moça que quis estragar a felicidade de minha filha?
A pergunta directa de Leonora pegou Ana de surpresa; no entanto, ela não podia contar a verdade.
- É nossa prima.
Uma doidivanas quando o assunto é amor.
Namorou o Cássio algum tempo atrás e não se conformou quando ele terminou tudo.
Foi embora para outro país, mas sei que ainda alimenta o desejo de reconquistá-lo.
- Ela vai querer atrapalhar a vida deles.
Tem muita maldade, percebi no olhar.
- Mas não vai conseguir, eu lhe garanto.
Cássio é um homem forte, decidido, sei que vai conseguir colocar nossa prima no devido lugar.
- Assim espero.
A conversa foi encerrada e Leonora pediu que Rosana a levasse ao quarto, onde iria repousar e tomar seus medicamentos.
As dores fortes haviam aumentado muito nos últimos dias.
Foi com dificuldade que ela pôde acompanhar a cerimónia.
Ana saiu em direcção ao pátio, onde a festa acontecia.
Ficou observando as pessoas para evitar encontrar a mãe e tentar achar Aurélio.
Percebeu quando Matilde e Fabíola aproximavam-se e escondeu-se por entre as palmeiras.
As duas passaram gargalhando alto e não notaram sua presença.
De repente, viu que Aurélio ia subindo os degraus que levavam à casa.
Era sua hora, tinha de ter coragem.
Apressou o passo e, antes que ele entrasse, chamou-o:
- Aurélio. Precisamos conversar.
Ele, surpreso e com coração aos saltos, perguntou:
- O que deseja, senhorita?
- Preciso conversar com você, mas não pode ser aqui, acompanhe-me até o meu quarto.
Aurélio corou.
- Ao seu quarto, senhorita?
- Sim. Ninguém está na casa, além de dona Leonora, Cássio e Sara.
E cada um está em seu quarto, ninguém vai nos ver.
Num ato de coragem, Ana puxou o braço de Aurélio e praticamente o arrastou até o quarto.
Os dois estavam envergonhados e sem saber como agir.
- O que quer, senhorita?
- Eu. Eu. - Ana sentiu que não ia ter coragem, não conseguiu mais falar.
Aurélio, percebendo o que ela ia dizer, pegou em sua mão e disse:
- Não precisa dizer nada.
Sei que me deseja tanto quanto eu a desejo.
- Eu não apenas o desejo, Aurélio, eu o amo.
Movido por grande emoção, Aurélio tomou-a nos braços e a beijou com intensidade.
Envolvidos pela onda de amor, amaram-se.
Ana nunca sentira na vida uma emoção como aquela.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 21, 2018 8:35 pm

Depois de algum tempo, continuaram fazendo carinho um no outro, numa intimidade daqueles que já se conhecem há muito tempo.
Ele virou-se:
- Não sei como será de agora em diante, mas sei que a amo, e a partir de hoje, não saberei viver sem você.
- Eu também.
Não sei como vivendo com você durante tanto tempo nunca o havia observado como homem.
- Digo o mesmo.
Achava-a muito mimada e dependente da Matilde.
Hoje vejo que é uma mulher completa.
Tenha certeza de que a farei muito feliz.
- Vamos fazer como Cássio e Sara e jurar que nada neste mundo vai nos separar.
- Vamos, sim.
Ambos fizeram o juramento e logo depois se vestiram, voltando para a festa como se nada tivesse acontecido.
Ana sabia que teria de enfrentar a mãe e o irmão.
A mãe por não querer perder o amante, e Cássio por não desejar ver a irmã casada com um homem sem posses.
Mas ela agora era uma nova Ana e com a força do amor iria lutar contra tudo e todos.
Próximo à senzala abandonada, dois espíritos inferiores esbracejavam.
Um dizia entre os dentes:
- Não é possível que tenhamos perdido essa batalha.
Drómio avisou que se ela se deitasse com o mordomo não conseguiríamos mais atingi-la.
- E é verdade.
Quando eles começaram a se amar, uma capa de luz azul os envolveu e nos arremessou para longe.
Isso acontece porque existe amor entre os dois.
Há muitos anos manipulamos a sexualidade das pessoas e sabemos que quando um casal tem respeito e amor não conseguimos interferir, fazer sexo com eles ou sugar suas energias.
- Sei disso, mas do que nos adianta ficarmos nesse papo furado?
Ficamos encarregados de influenciar os homens para que seduzissem Ana e, no entanto, não conseguimos.
Drómio vai nos castigar.
Nessa hora, uma voz cavernosa se fez ouvir:
- Servos inúteis, serão levados às profundezas do abismo para aprenderem a não brincar em serviço.
Malditos sejam!
Sombras escuras envolveram aquelas duas entidades, que, em fracção de segundos, desapareceram chão adentro.

Estamos narrando a história de uma união entre almas afins, coisa rara de acontecer no planeta Terra devido aos valores falsos da sociedade, a hipocrisia, a sensualidade e as ilusões da vida material, que a maioria dos encarnados ainda carrega tão fortemente em sua alma pouco avançada.
Em uma união desse tipo é natural e nada fantasioso os sentimentos que descrevemos.
(Nota do Autor Espiritual)
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 21, 2018 8:35 pm

19 - Misericórdia
Passavam das dez quando, na manhã seguinte, o café foi servido.
A festa havia terminado ao raiar do dia e Matilde fez questão de esperar o último convidado ir embora.
Todos comiam em silêncio quando Fabíola, com ar de deboche, perguntou:
- Os pombinhos não vêm para o café?
- O senhor Cássio chamou-me mais cedo e pediu-me que levasse o café dos dois ao quarto - respondeu Aurélio polidamente.
- Que romântico, hein?
- Meu filho sempre foi um romântico inveterado, principalmente quando inicia uma relação - tornou Matilde com voz afectada e fingida.
Torço muito por este casamento, mas temo que, com o tempo, Cássio venha a enjoar da esposa, como aconteceu com todas as outras.
- Eu que o diga - disse Fabíola revirando os olhos.
- Isso não vai acontecer, podem ter certeza - disse Ana com firmeza na voz.
Conheço muito bem meu irmão e sei que está amando de verdade.
Quando amamos assim, nunca perdemos o encanto pela pessoa amada.
Esse casamento vai ser eterno.
Fabíola sentiu um ódio surdo brotar dentro de si ao ouvir as palavras da prima.
- Você não pode ter certeza de nada.
Quem pensa que é?
Até onde sei não passa de uma solteirona amargurada que vive para rezar.
Como pode entender de amor? Ora, cale-se.
- Não vou aceitar suas provocações, Fabíola.
Na verdade, eu sinto muita pena de você.
Estudou, formou-se em Psicologia, foi embora do país, mas não passa de uma criatura infeliz por não ter conseguido o amor de meu irmão.
Além de tudo, não tem coração, não deu a mínima importância para a própria mãe, abandonando-a no momento em que ela mais precisou.
Fabíola, usando o que aprendera no curso de Psicologia, passou a observar Ana.
Ela estava muito mudada e não era mais aquela moça boba e apagada de tempos atrás.
Falava com firmeza e altivez, além de demonstrar um brilho radiante de felicidade no olhar.
Havia algo acontecendo na vida de Ana e ela iria descobrir o que era.
Contudo, não ia deixar que ela a ofendesse.
- Não preciso da sua compaixão, querida.
Noto que está muito saidinha, querendo ser gente, mas não passa de uma mulherzinha qualquer perdida num fim de mundo e que nem sequer estudou.
Fez uma pausa e continuou:
- Noto que está diferente, parecendo apaixonada.
Quem será, hein?
Algum cortador de cana?
Matilde a interrompeu:
- Chega, Fabíola.
Por mais que goste de você, não posso permitir que ofenda assim a minha filha.
Está certo que Ana não quis estudar e é muito apegada a mim e à religião, mas isso não lhe dá o direito de ofendê-la.
Peça desculpas.
Fabíola levantou-se da mesa dizendo:
- Só disse a verdade e não pedirei desculpas!
Vou lhe dar um aviso, minha tia:
Ana está realmente com um brilho diferente no olhar, sei porque sou psicóloga e conheço quando alguém está apaixonado.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 21, 2018 8:35 pm

Procure saber quem é o infeliz, pois certamente não passa de um aproveitadorzinho barato.
Ana também se levantou com raiva.
- Como ousa interferir em minha vida?
Nunca lhe dei essa liberdade, e também nunca interferi quando se relacionou com meu irmão e toda aquela desgraça aconteceu.
Não tenho culpa se é uma mulher infeliz e amarga.
Procure me esquecer.
- Impossível, você é uma criatura insignificante e problemática.
Esqueceu que estudei justamente para lidar com pessoas desequilibradas como você?
Movida por intensa raiva, Ana girou o braço e esbofeteou Fabíola com tanta força que ela rodou e foi levada ao chão.
- Isso é para você aprender quem eu sou.
E aproveito para avisá-la:
não tente atrapalhar a felicidade de Sara e Cássio, pois terá em mim uma grande inimiga, daquelas que não tem pena de suas vítimas.
Passe bem, querida.
Matilde, atrapalhada e completamente espantada pela reacção intempestiva de Ana, ficou sem saber o que fazer, até que, vendo Fabíola tentando se levantar sem conseguir por causa de súbita tontura, deu-lhe as mãos, ajudando-a a sentar-se novamente na cadeira.
Quando se recompôs disse entre dentes:
- Sua filha vai pagar caro por essa bofetada.
- Acalme-se, Fabíola.
Não concordo com o que Ana fez, mas você foi longe demais, não a respeitou.
- Se for para ficar do lado deles, para que me trouxe aqui?
- Não estou do lado deles, mas discutir com Ana não vai levar a nada. Contenha seu génio.
- Sua filha está do lado do casalzinho, percebi desde ontem, pois nem sequer veio dar-me boas-vindas.
Além de tudo, está muito diferente.
Algo está acontecendo debaixo do seu nariz e a senhora não está percebendo.
- Ao que você se refere?
- Não ouviu o que eu disse?
Sua filha está apaixonada.
Aurélio, que havia se retirado do recinto, acabava de voltar a tempo de ouvir aquelas últimas palavras.
Enquanto retirava as louças da mesa, fingindo nada perceber, aproveitou para ouvir a conversa.
- Faz-me rir, Fabíola.
Ana pode estar mudada, sim, isso eu concordo, pois Sara é daquelas mulheres independentes, com ideias avançadas e tem influenciado minha filha.
Mas por quem Ana iria se apaixonar?
Ela mal sai de casa.
- Como você é ingénua para certas coisas!
Esta fazenda vive cheia de trabalhadores, posseiros, cortadores de cana.
Pode ser um desses.
- Não acredito. Ana não tem contacto com essa gente, a não ser.
- A não ser?
- Só pode ser o Rodrigo.
Tenho certeza de que é ele.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 21, 2018 8:36 pm

- Tem certeza?
- Acredito que sim.
O único homem que Ana tem contacto é Rodrigo, que vem, frequentemente, aqui.
Outro dia ele estava na piscina com Cássio, enquanto ela e Sara conversavam ali.
Fui avisar que ia sair e passei rapidamente por eles, o suficiente para perceber que Rodrigo olhava minha filha de maneira diferente.
- Mas Rodrigo é um rapaz qualquer.
Vai deixar que um homem sem nome à altura dos Caldeiras faça parte da família?
- Rodrigo não é tão pobre assim.
Os pais são de famílias tradicionais da cidade, tem status, melhor que nada.
Fabíola riu.
- Se ele tiver estômago para aturar a sem graça da sua filha, sorte sua, que não vai amargar-se com os chiliques de uma solteirona dentro de casa.
- Vamos dar uma volta pela fazenda.
Está fazendo um sol lindo lá fora.
Depois penso melhor nesse assunto.
- E quando devo colocar em execução o resto do plano?
- Deve esperar.
Depois do que você fez ontem, Sara vai passar um tempo desconfiada, olhando-a com raiva e ciúme.
Precisa ganhar a confiança dela e de Cássio.
Para isso, terá de se fazer de amiga e boa filha, não se esquecendo de estar sempre com sua mãe, fingindo preocupação.
- Vai ser difícil.
Mas para não deixar Cássio ser feliz com outra mulher valerá a pena o esforço.
Matilde sentiu uma ponta de tristeza, não gostava de saber que Fabíola não gostava da mãe.
Contudo, resolveu não tocar naquele assunto.
Logo depois, ambas saíram para o passeio matinal.
Aurélio, que a tudo ouvira, ficou bastante aliviado. Fabíola era esperta, havia percebido que Ana estava gostando de alguém, mas ao mesmo tempo acharam que era de Rodrigo. Tanto melhor.
Até que eles resolvessem tomar coragem e assumir o que sentiam um pelo outro, era bom que ninguém suspeitasse de nada.
Aurélio só não gostou de tomar conhecimento da trama diabólica que Matilde e a sobrinha estavam preparando para separar Cássio e Sara.
Ele jurara a Mariano que ficaria o tempo que fosse preciso na fazenda até o casal firmar-se no amor que sentiam, protegendo-os da ira de Matilde e de quem quer que fosse. E assim o faria.
Resoluto, terminou de recolher as louças saindo em direcção à cozinha.
Passava do meio-dia quando Cássio e Sara, felizes, saíram do quarto.
Eles haviam conversado muito e ela resolveu aceitar a presença de Fabíola na fazenda, porquanto ela tinha direito de ver a mãe, principalmente agora, que Marta havia melhorado.
Cássio havia lhe detalhado a personalidade cruel e vingativa da prima de forma a fazer Sara não entrar em seus jogos cínicos e vulgares.
Após certificar-se de que Leonora estava bem, com as dores bastante aliviadas, chamou o esposo e foram passear pela fazenda.
O sol estava quente e eles pararam embaixo de frondosa árvore.
Sentaram-se na grama e passaram a observar o vaivém das pequenas ondas do grande lago que se formava às suas vistas.
Poucos minutos depois, sentiram a presença de Fabíola e Matilde, que se aproximavam.
- Gostaria de pedir desculpas a você, Sara - disse Fabíola com fingimento na voz.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 21, 2018 8:36 pm

- Não há do que se desculpar.
Percebi que você se deixou levar pelas emoções, o que é natural.
Eu é que me comportei como uma criança quando saí chorando e correndo.
Não tenho o que temer, Cássio me ama e só a certeza disso me deixa segura.
Mordendo os lábios de raiva, Fabíola falou com voz que se esforçava para tornar doce:
- Ainda assim quero me desculpar, principalmente com você, Cássio.
Comportei-me muito mal e, por pouco, não estraguei a linda festa de vocês.
- Faço minhas as palavras de Sara.
Não há do que se desculpar.
Conheço-a bem e sei como, apesar de ser psicóloga, continua a se comportar como uma adolescente.
Fabíola sentia o ódio aumentar, mas disfarçava bem.
- Agora que já pedi desculpas, gostaria que fôssemos amigos.
Afinal, estou na casa de vocês porque preciso estar um pouco com minha mãe.
Fiquei muito feliz quando tia Matilde ligou-me falando de sua recuperação.
E já que preciso estar aqui, que possamos conviver em paz.
- Por mim, tudo bem - disse Cássio.
- Eu não vejo também nenhum problema, Fabíola - completou Sara.
O episódio de ontem já está esquecido e fico feliz que tenha vindo visitar sua mãe.
Ela melhorou bastante e ultimamente só falava em seu nome.
Fabíola continuou fingindo, dizendo ter se arrependido por haver deixado Marta sozinha e até conseguiu fazer uma lágrima rolar do seu olho.
De repente, e sem que pudesse prever, Sara viu um espírito de aspecto deformado agarrado ao corpo de Fabíola.
Foi por poucos segundos, mas ela enxergou nitidamente a figura de um homem com a cabeça de adulto e o corpo de bebé, com o braço esquerdo avantajado e o direito muito pequeno.
O espírito expelia chispas de ódio em direcção à Fabíola, que se transformavam em raios ígneos envolvendo todo o seu corpo e concentrando-se no baixo ventre e cerebelo.
Aquela visão deixou Sara perturbada e ela sentiu uma grande tontura.
Todos perceberam sua palidez e Cássio a sacudiu com força.
- O que está acontecendo, Sara?
De repente, ficou pálida.
Está se sentindo mal?
- Um pouco tonta.
Quero voltar para casa.
- Sua pressão pode ter caído - tornou Matilde solícita.
- Não tenho problemas de queda de pressão.
- Mas às vezes acontece, ou será que já vai me dar um netinho?
Sara não respondeu e, apoiando-se em Cássio, foi andando lentamente de volta a casa.
Fabíola e Matilde os seguiram, caladas.
Após tomar um pouco de água que Aurélio lhe trouxe, Sara foi melhorando e, em pouco tempo, estava novamente bem.
Como não podia falar da visão que havia tido, resolveu contemporizar.
- Deve ter sido mesmo uma queda de pressão.
- É que as energias desta casa de repente ficaram péssimas - disse Ana, olhando de soslaio para Fabíola.
- Deixe disso, Ana.
Tonturas acontecem com qualquer um e como disse dona Matilde, se não for a pressão posso realmente estar grávida.
Os olhos de Ana brilharam alegres.
- Tomara que seja verdade.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 21, 2018 8:36 pm

Esse bebé viria para completar a felicidade de vocês.
A conversa foi interrompida por Aurélio anunciando que o almoço estava sendo servido.
Todos foram almoçar, conversando amenidades.
Fabíola e Matilde se mostravam muito simpáticas com o casal, sem, contudo, conseguir enganar Ana, que sabia com quem estava lidando.
De todos daquela mesa, a única que não estava prestando atenção à conversa era Sara, impressionada com a visão de um espírito tão sofredor.
Na primeira oportunidade iria perguntar a Rosana do que se tratava e de como ajudá-lo.
O resto do dia passou rápido.
Cássio e Sara voltaram ao quarto, onde permaneceram trocando juras de amor e tecendo planos para o futuro.
Quando saíram para o jantar, encontraram todos à mesa. Quando iam terminando a refeição, Sara olhou para Fabíola com firmeza e perguntou:
- Como está dona Marta hoje?
Suponho que tenha passado a tarde com ela.
- Ah, mamãe dormiu a tarde inteira de forma que não pudemos conversar como gostaria - mentiu Fabíola, que passara a tarde maquinando planos com Matilde com o intuito de atrapalhar a felicidade do casal.
- Quando dona Marta dorme durante a tarde, geralmente passa boa parte da noite acordada, pois seu sono é bastante irregular.
Dessa forma, gostaria que me acompanhasse nas orações que faço com Ana em seu quarto todas as noites.
- Orações? - questionou Fabíola com desdém.
Posso saber por que reza no quarto de mamãe?
- Você não sabe de muitas coisas, Fabíola - disse Sara amável.
- A doença de sua mãe na verdade é uma perseguição de espíritos desencarnados.
É o que chamamos de obsessão.
Para que ela se cure, uma das coisas que precisamos fazer com constância é a oração a seu favor e a favor dos irmãos ignorantes que a fazem sofrer.
Desde que começamos a fazer isso, sua mãe obteve grande melhora.
- Desculpe, mas não acredito nessas coisas.
A ciência tem explicações suficientes para os problemas mentais.
Eu estudei Psicologia e sei que os problemas mentais são causados por deficiências de substâncias químicas e lesões cerebrais.
Para mim, o que você diz são crenças de pessoas simplórias e ignorantes.
- Respeito sua opinião, mas acredito que deveria rever seus conceitos.
Embora a medicina tenha levantado hipóteses sobre as causas da loucura, ainda não chegou a nenhuma conclusão.
Acredito também que exista a loucura puramente física, com causas orgânicas, mas, nesse caso, o uso da medicação melhora os sintomas significativamente, e na maioria dos casos os pacientes passam a levar vida normal com reintegração social.
Mas quando a medicação falha e nenhum método de cura dá certo, é hora de levarmos em conta outros factores, e esses factores são espirituais.
Dona Marta nunca obteve melhora com os remédios, mas bastou começarmos o tratamento de desobsessão para que ela melhorasse.
Você mesma pôde comprovar.
- Você fala com segurança, onde estudou tudo isso?
Como pode provar que o que diz é verdade?
- Eu estudo a doutrina espírita e como ela também é ciência, contamos com a ajuda de pesquisadores sérios, cientistas de renome, que estudaram a esquizofrenia e chegaram a conclusões surpreendentes.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 21, 2018 8:36 pm

Também conversei bastante com o doutor Rafael, psiquiatra espírita que trabalha nesta cidade, e ele ajudou-me a entender um pouco mais.
Quanto às provas, creio que a melhora de sua mãe é mais que suficiente, não acha?
Fabíola não respondeu.
No telefonema que Matilde lhe fizera apenas havia mencionado que sua mãe estava submetendo-se a um novo tratamento e estava se recuperando rapidamente.
Ela imaginava que se tratava de algum medicamento novo.
Olhou para a tia e perguntou:
- Então é esse o tratamento que a senhora disse que minha mãe vem fazendo?
Não pensei que, como católica, pudesse acreditar nessas coisas.
- Eu tive de me render aos factos - tornou Matilde, um tanto envergonhada.
Não suportava mais ver o sofrimento de minha irmã, sempre estática como uma múmia ou toda amarrada na cama feito um animal.
Amo Marta profundamente e nessas horas não podemos nos deixar levar por preconceitos religiosos.
Pelo menos, tento não me deixar levar.
É claro que jamais serei espírita ou compactuarei com uma doutrina dessas, mas, de certa forma, está ajudando minha irmã, isso não posso negar.
- Então, acompanha-nos nas orações? - inquiriu novamente Sara.
- Claro que sim.
Peço desculpas por ter dito que os espíritas são ignorantes.
Vendo-a expressar-se dessa maneira, creio que estava enganada.
O jantar terminou e, enquanto Cássio dirigia-se para a sala de televisão, as mulheres foram em direcção ao quarto de Marta.
Fabíola estava se sentindo incomodada.
O que ela menos queria era orar.
Acreditava que Deus existia, mas não perdia tempo com rezas, igrejas e coisas do tipo; nem se lembrava mais qual havia sido a última vez que fizera uma oração.
Contudo, tinha de agradar à Sara ao máximo, pois conquistar sua amizade fazia parte do plano.
Quando entraram no quarto, encontraram Marta sentada na cama, olhando-se num pequeno espelho.
Todos podiam notar sua mudança física e mental.
Estava limpa, com um vestido novo estampado, cabelos arrumados e olhar alegre.
Não havia voltado de todo ao normal, mas já conversava algumas frases com sentido, ora pedindo coisas, ora falando que amava Matilde e Fabíola.
Quando viu a filha e foi abraçada por ela, Marta deixou que lágrimas grossas caíssem em profusão sobre seu rosto.
Com a voz um tanto embolada balbuciou:
- Minha querida Fabíola, minha pequena.
Pensei que nunca mais fosse vê-la.
Eu a amo, minha bonequinha.
Fingindo uma emoção que estava longe de sentir, Fabíola disse:
- Eu também a amo, mamãe. Muito.
Tive de ir embora forçada pela vida, mas agora estou de volta e prometo nunca mais abandoná-la.
Matilde chorava de emoção e, vendo aquele momento de comoção, Sara percebeu o que já tinha certeza:
Matilde tinha um lado bom, aquele lado divino, que todo ser humano possui, por pior que seja.
Quando o abraço terminou, Sara pediu que todos se sentassem para que fosse iniciada a leitura do Evangelho.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 21, 2018 8:36 pm

Abriu, ao acaso, O Evangelho Segundo o Espiritismo na mensagem Honrai vosso pai e vossa mãe.
Como sempre fazia, Sara leu e dissertou sobre o tema com emoção.
Falou que os filhos têm uma eterna dívida para com os pais:
a dívida da vida e, por essa razão, tudo devem fazer para amá-los, respeitá-los e ajudá-los em todos os momentos.
Salientou que toda ofensa que um filho faz aos pais e toda falta de caridade que tem com eles serão cobradas inadiavelmente pela vida, geralmente por meio de muita dor e sofrimento.
Completou dizendo que aqueles que desprezam seus pais verão suas mais caras afeições serem destruídas ainda na existência presente, explicando que a vida de muitos filhos, às vezes, é repleta de sofrimentos, decepções e angústias, justamente por não terem dado valor àqueles que Deus os presenteou como genitores para toda a existência.
Fabíola sentiu-se tocada nas fibras mais íntimas de seu ser.
Nunca fora boa filha nem gostava da mãe.
Mas como iria fingir um sentimento que não possuía?
Será que havia sofrido tanto no passado por ter sido sempre tão áspera e desrespeitosa com Marta?
Contudo, as reflexões daquela mulher insensível e egoísta não duraram mais que poucos minutos.
Logo, já as havia esquecido e tentava acompanhar a prece final proferida por Sara, que deu por encerrado o culto daquela noite.
Fingindo estar matando as saudades, Fabíola resolveu ficar no quarto com Marta depois que todos saíram.
O sofrimento do homem, seja como for, sempre pode ser evitado.
Ninguém na Terra nasceu para sofrer.
O homem só é infeliz quando se distancia das leis cósmicas que regem o universo, enveredando-se pelos caminhos dos valores invertidos, das crenças negativas, dos pensamentos tóxicos e das atitudes vis.
Fabíola não teria passado pelas dores que vivenciou no passado se tivesse outra forma de pensar e ver a vida.
Não aproveitou a lição do sofrimento e continuou na mesma faixa energética, o que certamente atrairia provas mais duras e dores mais profundas.
Misericórdia quero, não o sacrifício, disse Jesus.
Lamentável que muitos não entendam nem pratiquem esse ensinamento.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 21, 2018 8:37 pm

20 - O desencarne de Leonora
Os dias foram passando e a vida na fazenda voltou à rotina.
Como a lua de mel havia sido adiada, Cássio voltou aos seus afazeres na usina e Sara, percebendo o agravamento do estado de saúde da mãe, passou a dedicar-se exclusivamente a ela.
Os medicamentos não mais aliviavam as dores com a mesma eficácia de antes e Leonora havia perdido o apetite, comia apenas o necessário para manter o fio de vida que ainda lhe restava no corpo.
Embora com todo o conhecimento do Espiritismo que possuía, e amparada por Rosana, estava sendo extremamente difícil para Sara o momento da separação. Tentando consolá-la a amiga disse:
- O corpo morre, mas o espírito é eterno.
Leonora deixou-se levar pela mágoa, agasalhou o sofrimento no coração, por essa razão criou energias negativas e pesadas que culminaram com a doença no corpo.
No entanto, sua mãe aceitou a enfermidade com resignação, sem reclamar.
Durante todo esse tempo em que ficou doente procurou aprender o que a vida lhe estava ensinando e tenho certeza de que, a partir de agora, nunca mais vai cultivar nenhum sentimento depressivo.
O corpo de Leonora está cansado, sem condições de continuar vivo, mas sua alma libertou-se e assim que se desligar da matéria estará brilhante, sadia, renovada.
O que você quer?
Ver sua mãe doente ou saber que ela está viva e com muita saúde na outra dimensão?
- Tem razão, Rosana, mas ainda assim é difícil a separação.
Minha mãe, além de meu pai, foi a única pessoa da família que conheci, pois pouco depois que nasci meus avós morreram.
Como poderei viver sem sua alegria, seus conselhos sábios, seus carinhos?
- A separação é difícil, mas se torna menos dolorosa quando temos certeza de que ela é temporária.
Você está casada com o homem que ama, herdou uma imensa fortuna, está com uma grande responsabilidade nas mãos.
A vida de Leonora na Terra está terminando, mas a sua está apenas começando.
A vida precisa continuar.
Além disso, Deus é sabedoria e bondade, preenche os nossos vazios com outras oportunidades de progresso, luz e felicidade.
Sinto que seu apego está dificultando o processo de desencarne de sua mãe, por essa razão, peço-lhe que ore com todo o coração e peça a Deus que a liberte.
É o melhor que pode fazer por ela neste momento.
Elas estavam conversando aos pés do leito de Leonora, que não mais falava nem ouvia o mundo externo, apenas respirava fracamente.
Sara então fechou os olhos e fez sincera prece a Deus e aos espíritos superiores, pedindo que o desencarne de sua mãe fosse suave e que ela fosse conduzida com amor aos planos de luz.
Minutos depois, Leonora exalou o último suspiro e, enquanto Sara chorava baixinho abraçada a Cássio e Ana, uma grande luz, que não podia ser vista pelos olhos humanos, inundou o quarto.
Eram os espíritos radiosos de abnegados enfermeiros do plano espiritual, que, unidos a Melânia e Mariano, desataram os últimos laços que prendiam aquela enferma ao corpo.
O espírito de Leonora despertou perturbado e não conseguiu de pronto reconhecer quem estava ali.
Começou a andar lentamente pelo quarto, amparada amorosamente por Mariano, que a fez se deitar numa maca.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 22, 2018 9:48 pm

Passados alguns minutos, ela o reconheceu e, sorrindo, disse:
- Mariano! Você veio me buscar!
Será que mereço tanta felicidade?
- Sim, Leonora.
Você soube suportar com coragem o sofrimento que atraiu para si e por essa razão está liberta.
Agora, poderemos nos unir para sermos felizes para sempre.
Os dois se abraçaram demoradamente, trocando beijos e abraços, até que Leonora percebeu a presença de Melânia, que a olhava com amor.
Sentiu-se constrangida e automaticamente separou-se de Mariano.
Melânia aproximou-se, abraçando-a.
- Não precisa ter receio, Leonora.
Meu casamento com Mariano foi só na Terra, aqui nos amamos apenas como irmãos e amigos.
- Desculpe, é que pensei. bem, eu pensei que estava cometendo uma traição.
Melânia sorriu ternamente.
- De forma alguma.
Este lado da vida é o lado da verdade.
Se na Terra as pessoas costumam fingir, seguir regras e mentir, aqui não podem mais fazê-lo, pois tudo é mostrado exactamente como é.
Você e Mariano sempre se amaram, mas nunca conseguiram ficar juntos ao longo das encarnações por causa de orgulho, vaidade e egoísmo.
Quando não era ele quem errava, era você a responsável.
Nessa última vida, antes de reencarnarem você sabia que iria para a Terra numa condição humilde e encontraria Mariano numa posição superior segundo os moldes do mundo.
Ele precisava dessa posição para, dentre outras coisas, reparar erros do passado e ter a coragem suficiente para vencer o orgulho e assumi-la como mulher.
Mariano ouvia calado e Leonora protestou:
- Mas ele não se casou comigo por medo e em obediência ao pai.
Não foi por orgulho, mas por temor.
- Isso não é verdade.
Embora Mariano tenha usado essa desculpa para diminuir a cobrança de sua consciência, na verdade, ele se sentia superior a você e não a queria como esposa, pois julgava que para um homem com seu status um casamento com uma pessoa simples e de condição humilde era degradante.
Por essa razão, pagou um preço muito alto.
Viveu sem amor, amargando comigo uma união de aparência em que ninguém foi feliz.
Leonora estava indignada.
- Como pôde fazer isso comigo, Mariano?
- Não o condene - interrompeu Melânia.
Sei que é madura o suficiente para aceitar a verdade.
Se nessa vida foi ele quem a rejeitou, na vida anterior foi você quem o trocou por um conde muito rico, deixando-o no abandono.
- Mas e você? Por que teve de viver um casamento infeliz?
Estava destinado?
- As únicas uniões que estão destinadas na Terra são as das almas afins.
Todas as pessoas quando estão no mundo se encontram com quem realmente amam ou se combinam afectivamente, mas a maioria deixa passar a chance dessa convivência por estar envolvida em preconceito, orgulho, medo, vaidade e egoísmo.
Assim, deixa o amor verdadeiro e busca o envolvimento com pessoas que melhorem suas condições sociais, financeiras ou, ainda, se ilude com beleza, fama e até mesmo o sexo.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 22, 2018 9:48 pm

É daí que se originam os casamentos infelizes, que são a maioria na Terra.
Deus não destina ninguém a se unir sem que seja por amor.
A crença de que devemos estar juntos de pessoas que nos fazem sofrer e às quais teremos de suportar até o fim da vida é errada e perniciosa.
Existem inúmeras formas de aprendizado, e quando uma relação dá errado o melhor a fazer é optarmos pela separação, de modo que cada um terá o direito de refazer sua vida e ser realmente feliz.
Eu não estava destinada para ser esposa de Mariano, mas a minha forma equivocada de pensar e ver a vida me atraiu para isso.
É claro que nos conhecemos do passado, mas não tínhamos programação para ser marido e mulher.
Foi nosso livre-arbítrio quem assim o fez.
Na verdade, a programação era para que você e ele se casassem.
Leonora reflectia e percebia que tudo fazia sentido.
- O que fez você ser atraída para Mariano?
- Durante várias encarnações eu alimentei a baixa auto-estima, a falta de opinião própria, e acreditei que não nasci para ser feliz.
Antes de reencarnar como Melânia, fiz cursos aqui no astral e descobri que precisamos mudar de crenças e atitudes para que nossa vida melhore e nosso espírito evolua.
Confiante, mais uma vez de volta ao mundo, porém, sentindo as energias deste planeta, voltei a acreditar nas mesmas coisas.
Em pouco tempo, tornei-me uma mulher apagada, que não sabia o que realmente queria.
Deixei-me levar pela educação que recebi, que preconiza que a mulher deve obedecer ao marido e fazer-lhe todas as vontades.
As nossas crenças criam energias equivalentes e são elas que movem os fatos em nossa existência e fazem o nosso destino.
Por essa razão, atraí um homem que não me amava, machista, e com isso fechei-me ainda mais.
Como pode ver, tudo foi de minha inteira responsabilidade.
Leonora estava ainda atordoada, mas havia entendido tudo o que Melânia lhe havia dito.
Olhou para Mariano com muito amor e, sem pensar, correu a abraçá-lo dizendo:
- Não quero mais errar, o que quero, agora, é ser feliz e só posso ser feliz ao seu lado.
- Eu digo o mesmo - tornou Mariano com olhos vibrantes de alegria.
A partir de agora, libertos dos compromissos do mundo, podemos finalmente encontrar a paz.
Ambos foram interrompidos por Melânia, que disse:
- Ainda estamos na Terra, no quarto onde Leonora desencarnou.
Sara ainda chora, mas logo mais o serviço funerário chegará para aprontar seu antigo corpo para o sepultamento.
É melhor irmos e deixar que os espíritos amigos fiquem aqui acompanhando os encarnados.
- Preciso despedir-me de minha filha.
- Mas faça sem drama, não passe angústias para Sara.
Você sabe que a morte é uma ilusão e que a separação é temporária.
Leonora aproximou-se da filha, abraçando-a com ternura, enquanto dizia-lhe ao ouvido:
- Não chore, querida, eu sempre estarei ao seu lado como foi a vida inteira.
Meu corpo está sadio, não sinto mais dores nem incómodo, Deus me curou.
Por essa razão, embora o momento seja triste, conserve em seu coração a certeza da eternidade e que um dia novamente estaremos juntas.
Leonora beijou-a com carinho e Sara sentiu uma grande emoção que fez seu corpo estremecer.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 22, 2018 9:48 pm

Pôde ouvir claramente as últimas palavras da mãe um dia novamente estaremos juntas e disse em pensamento:
- Com certeza, mamãe, vá com Deus!
Em poucos instantes, os espíritos de Melânia, Mariano e Leonora desapareceram, deixando no quarto um delicado aroma de rosas.
Uma semana havia se passado desde a morte de Leonora.
Sara, fortalecida pela fé espírita e amparada por Rosana, foi aos poucos deixando a dor da ausência.
E continuamente enviava vibrações para que a mãe pudesse prosseguir sua jornada.
Por vezes, chorava ao entrar no quarto e ver o leito vazio, ou ao mexer em seus pertences, contudo, nessas horas, pedia a Deus que a fortalecesse e se refazia na certeza da imortalidade da alma.
Entardecia quando Matilde chamou Fabíola ao seu quarto cerrando a porta com cuidado para que ninguém percebesse o que iriam conversar.
- Já passou tempo demais.
Uma semana foi tempo suficiente para que ela esteja preparada para um novo choque.
Chegou a hora, Fabíola - disse Matilde com olhar rancoroso, apertando com força as mãos da sobrinha.
- Creio que devemos ter cuidado e esperar mais um pouco.
Sara é esperta e pode não cair na minha conversa.
Estou ansiosa para destruir a felicidade dessa miserável, mas não quero que nada dê errado.
- Mas você não vai contar a ela nenhuma mentira.
Sei o quanto sofreu com tudo o que aconteceu e por isso mesmo, confio que quando for contar a história, será de maneira tão verídica que será impossível para Sara não se abalar e ficar um bom tempo longe de meu filho.
Fabíola sentiu uma grande tristeza.
Recordar os piores instantes de sua vida causava-lhe grande angústia e mal-estar.
Mas Cássio merecia pagar por tudo o quanto lhe fizera.
Viera para o Brasil com a intenção de não deixá-lo ser feliz de forma alguma.
Mesmo que não tivesse mais nenhuma chance com ele, não iria deixá-lo em paz para desfrutar um casamento harmonioso com outra.
Enquanto fosse viva isso não iria acontecer.
Olhou para Matilde e tornou:
- Sara ainda está abalada pela morte da mãe.
Nesses instantes a pessoa fica mais vulnerável à manipulação das outras.
Este é o momento.
Se deixarmos passar, talvez minha revelação não tenha o impacto necessário e ela pode até perdoá-lo.
Não é metida a boa samaritana?
- Então faça isso.
Aproveite hoje, antes de Cássio voltar do escritório.
Sempre às seis da tarde Sara fica sozinha lendo na sala íntima, pois, nesse horário, Ana se recolhe às orações.
Fez pequena pausa e continuou:
- Mas, por favor, não vá exagerar.
O que desejo é que eles não sejam felizes, mas em hipótese alguma pode haver separação.
Não quero perder o que é meu.
- Pode deixar.
Pelo que tenho analisado, eles se gostam muito.
O que vou dizer vai separá-los por um bom tempo, o suficiente para que a senhora me pague pelo serviço feito e pense em outra maneira de mantê-los afastados.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 22, 2018 9:49 pm

As duas riram cinicamente e, em seguida, Fabíola foi para seu quarto esperar a hora certa de aproximar-se de Sara com fingida benevolência.
Matilde não queria a separação, mas ela sim.
Iria contar tudo com riqueza de detalhes e pagaria para ver Sara perdoar Cássio.
Quando percebeu que Ana saíra em direcção ao oratório, Fabíola entrou na sala e, vendo Sara com um livro aberto lendo atentamente, falou baixinho:
- Desculpe se a interrompo.
- Não tenha receios, tenho muito tempo para ler aqui na fazenda.
Deseja falar comigo?
- Sim. É um assunto muito delicado, e pensei bastante se falaria ou não.
Mas minha consciência vem me perseguindo e sinto que você precisa saber.
Sara sentiu uma energia negativa envolvendo-a, mas procurou ignorar e encorajou Fabíola:
- Se eu preciso saber, creio mesmo que deva me contar, embora tenha intuição do que seja.
- Como assim? - perguntou Fabíola temerosa.
De repente, imaginou que Cássio podia ter se adiantado e contado tudo antes e da maneira dele.
- Sei que vai falar sobre sua relação com Cássio tempos atrás.
Se quer se abrir comigo sobre isso, não vejo problemas, embora não ache necessário.
O passado está morto e Cássio, agora, é casado comigo.
Sinceramente não tenho interesse algum no que se passou com ele antes de mim, a não ser para ouvi-la como amiga.
Fabíola sentiu um ódio surdo.
Conteve as expressões e, com voz pausada, começou:
- Sei que você é uma pessoa boa, sincera e só tenho a lhe agradecer o que faz por minha mãe.
Mas sua bondade é tanta que chega a ser ingénua às vezes e não percebeu quem Cássio é de verdade.
- Estou percebendo que sua intenção é causar intriga entre mim e ele, por essa razão, não quero ouvi-la.
Queira se retirar.
- Por favor, Sara, escute-me.
Não quero causar intriga, pois sei que sua bondade vai fazê-la perdoar Cássio.
Mas é uma questão de consciência.
Não posso ver uma pessoa como você, envolvida com outra capaz de cometer actos os mais hediondos possíveis.
Você ama Cássio, mas não sabe quem ele é nem do que é capaz.
Fabíola falava com tanta sinceridade e aparente bondade que Sara acabou por dar-lhe crédito.
- O que existe nele de tão grave que eu ainda não sei?
Sei que é ateu, ambicioso e materialista, mas esses defeitos são compreensíveis e perdoáveis em qualquer ser humano.
- Mas você não sabe que Cássio é um assassino!
Um assassino cruel, frio e calculista.
- O que me diz? - gritou Sara aterrada.
Fabíola começou a chorar e, dessa vez, seu pranto era sincero.
Começou a recordar:
- Há alguns anos, Cássio e eu começamos um envolvimento.
Entreguei-me a ele consciente do que estava fazendo.
Logo me vi apaixonada e, mesmo conhecendo-o bem e sabendo que provavelmente nunca se casaria comigo, fui deixando-me envolver.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 22, 2018 9:49 pm

Alguns meses depois, descobri que estava grávida.
Ao contar que estava esperando um bebé, Cássio teve uma reacção violenta, olhou para mim com olhos injectados de fúria e bradou:
Você é uma meretriz!
A mulher que faz o que você faz comigo deve sair por aí com outros homens fazendo o mesmo.
Tenho certeza de que esse filho não é meu.
A partir de agora, nosso envolvimento acabou.
Nunca mais me procure e trate de tirar essa criança.
Fabíola narrava a história como realmente havia acontecido e Sara sentia seu coração se dilacerar a cada palavra ouvida. Ela continuou:
- Fiquei desesperada, pois, apesar de tudo, não queria abortar, desejava meu filho.
Eu nunca havia feito sexo com outros homens e me senti muito ofendida com as palavras dele.
No dia seguinte, procurei tia Matilde e lhe contei toda a história.
Ela ficou feliz pela gravidez, sempre me quis como nora e prometeu conversar com Cássio e Mariano.
Assim o fez. Primeiro, contou a Mariano sobre o que havia acontecido.
Quando Cássio chegou, o tio o chamou para conversar, cobrando-lhe a responsabilidade pelo que tinha feito, dizendo que ele deveria casar-se comigo e assumir a criança.
Mesmo tendo muito respeito por Mariano, a quem considerava um pai, Cássio relutou, disse que assumiria o filho, mas casamento estava fora de cogitação.
Assim foi.
Cássio procurou-me dizendo que aceitava ser pai, mas que nunca mais nos encontraríamos.
Senti-me desprezada e rejeitada, chorei muito.
Vivia com minha mãe doente, havia acabado de concluir o curso universitário, estava difícil de encontrar emprego.
Cássio proibiu minha entrada na fazenda e nas vezes em que fui procurá-lo no escritório da usina recusou-se a falar comigo, pedindo que fosse embora.
Mesmo com tudo isso acontecendo eu queria ser mãe.
Sentia dentro de mim a força da maternidade e já amava aquele ser com todas as forças de meu coração.
Quatro meses depois, quando minha barriga já estava um tanto volumosa por causa do quinto mês de gestação, Cássio me procurou com o rosto sereno, pedindo-me perdão.
Durante a conversa disse:
Fabíola, pensei melhor e resolvi me casar com você.
Sei que é a mulher mais certa para minha vida, mas não estou preparado para ser pai nem sei se estarei um dia.
Por essa razão, peço que tire essa criança e logo depois nos casaremos.
Viveremos em paz, amando-nos, mas sem filhos por perto.’
Completamente iludida pela paixão, fiquei muito feliz, mas ainda insisti:
Eu quero muito ter esse filho.
Amo-o como se já estivesse em meus braços sorrindo para mim, claro que quero ser sua esposa, mas também quero o meu filho.
Você terá de optar:
ou eu ou essa criança.
Como vi que essa era sua última palavra, resolvi ceder, pensando que poderia tirar aquele filho, mas que, com o tempo de casamento, conseguiria convencê-lo a ter outro.
Por essa razão, disse:
Aceito o que me pede, mas já estou no quinto mês e um aborto nesse período é muito perigoso.
Não se for feito por um profissional competente.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 22, 2018 9:49 pm

Tenho um amigo médico em Cuiabá que fará isso por nós e nem vai me cobrar tão caro.
Mas ninguém pode saber que você abortou planeadamente.
Fingiremos uma viagem para comemorar a reconciliação e, quando voltarmos, diremos que você passou mal, sentiu dores e abortou espontaneamente.
Tudo bem - respondi.
Eu concordei pela paixão, mas no fundo estava com o coração apertado, sentindo muita tristeza.
Parecia ouvir a vozinha do meu filho chorando dentro do meu ventre.
A notícia da reconciliação e do futuro casamento alegrou a todos na fazenda.
Houve até jantar em comemoração.
Cássio fingia muito bem e estava bastante carinhoso, até voltamos a nos amar.
No dia marcado, fomos para Cuiabá e esperamos alguns dias num luxuoso hotel.
Até que, em um sábado pela manhã, Cássio disse:
É hoje. Vamos nos livrar desse problema para que possamos viver em paz em nosso casamento.
Mas você poderia ter me avisado ontem.
Porque me pegou de surpresa?
Não a avisei para que você não pensasse em desistir.
Agora, vista-se que doutor Fagundes nos espera.
Chegamos a um grande hospital particular e nos dirigimos ao consultório, que estava inteiramente vazio.
Percebi que o médico estava ali apenas me esperando.
Ele me examinou, olhou para Cássio e disse:
É perigoso.
Vão arriscar?
Sim, doutor.
Fabíola é forte, sei que vai resistir.
Meu coração estava aos saltos, mas não tinha mais como voltar atrás.
Fomos encaminhados para a sala de cirurgia e sem nenhum constrangimento o doutor Fagundes, ajudado pela enfermeira Mercedes, começou a enfiar ferros em meu útero, revolvendo a criança que parecia se debater, tentando defender-se.
Senti muita dor e logo passei a ter contracções.
O médico olhou para Cássio e afirmou:
Agora ela vai expulsar o feto naturalmente como se estivesse em trabalho de parto, esse método que uso não falha, vamos aguardar.
Mercedes segurava minha mão e percebi que ela orava baixinho.
Em poucos minutos, a criança saiu de dentro de mim ainda com vida.
O doutor Fagundes a pegou e olhou para Cássio exclamando:
Ainda está vivo!
Seria um belo menino.
Cássio apenas disse friamente:
Mate-o, doutor.
Acabe logo com isso, mate essa criança.
Enquanto o médico estrangulava o bebé, a fim de retirar o fio de vida ainda existente em seu corpo, eu desmaiei.
Quando acordei dias depois, estava sozinha em um quarto muito limpo.
Mercedes veio me ver e, percebendo minha fraqueza, aconselhou:
Descanse mais, minha filha.
Você sofreu muito.
O que houve comigo?
Você teve uma hemorragia muito grande e só conseguiu se salvar por estar num hospital muito bom, com muitos recursos.
Não consegui mais conversar e entrei em pranto.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 22, 2018 9:49 pm

Logo adormeci para acordar mais tarde com mais força.
Mercedes estava ao meu lado e perguntei-lhe:
Onde está o Cássio?
Foi buscar a mãe em Boa Esperança.
A notícia do que lhe aconteceu chocou a todos, embora não saibam do ato criminoso que cometeram.
Eu não queria.
Mas ele queria e eu nunca vi tanta frieza e maldade num homem.
Fez uma pausa, olhou-me com carinho e continuou:
Esse rapaz não serve para você, se ama sua vida, deixe-o, ele é um assassino.
Eu chorava sem parar.
Quando serenei, olhei para Mercedes e perguntei curiosa:
A senhora parece ser contra esse tipo de coisa, por que continua trabalhando aqui?
Esta foi a última vez que participei de um aborto.
No começo, trabalhava por necessidade, mas aos poucos minha consciência foi me cobrando e comecei a ter muito remorso.
Orava a Deus para me livrar desse trabalho, mas não tinha forças, porque ele é meu único sustento.
Contudo, depois do que vi fazerem com você e seu filho jurei para mim mesma que seria a última vez.
Assim que você tiver alta, pedirei demissão e posso vir até a passar fome, mas nunca mais ajudarei médico nenhum a realizar abortos.
Sinto que isso é um crime terrível perante as Leis de Deus e rogo a Jesus que um dia possa me perdoar.
A conversa foi interrompida pela chegada de tia Matilde e Cássio, que a acompanhava com ares de felicidade.
Tentei me controlar ao máximo para não contar a verdade, principalmente
vendo que ela estava sinceramente sofrendo pela perda do neto.
Dois dias depois, o doutor Fagundes chegou e antes de me dar alta, olhou para Cássio, depois olhou para mim, e resumiu secamente:
Seu aborto foi muito grave, lesou bastante seu útero, de forma que a senhorita nunca mais poderá ter outros filhos.
Eu não acreditava no que ouvia e não entendia o porquê daquele médico me dar aquela informação de uma maneira tão pouco formal.
Tempos depois, descobri que ele havia feito a mando de Cássio, para deixar-me ciente da minha nova situação.
Chorei muito e foi com tristeza que voltei para cá.
Fiquei na fazenda ainda algum tempo, até que um dia Cássio me procurou com ar grave:
Fabíola, precisamos conversar.
Quero lhe dizer que não vai mais haver casamento.
Pensei muito e descobri que não a amo como imaginava e nunca seríamos felizes juntos.
Espero que me compreenda.
Como? O que me diz é verdade ou está brincando?
Nunca falei tão sério em toda a minha vida.
Espero que guarde nosso segredo para sempre assim como combinamos.
Pensei em tudo.
Aqui, depois do que se passou, você não iria se sentir bem, por essa razão, providenciei uma boa soma em dinheiro e entrei em contacto com um antigo professor que mora nos Estados Unidos pedindo que encontrasse para você um trabalho onde possa se ocupar por lá e fazer uma especialização na universidade que desejar. Como viu, pensei em você e na sua felicidade.
Ouvindo tudo aquilo, entrei numa onda de ódio nunca experimentada antes, principalmente por perceber como ele me usara, enganando-me num plano sórdido apenas para matar o meu filho e ver-se livre da responsabilidade.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 22, 2018 9:49 pm

Saí como louca correndo por esta casa, bradando aos quatro ventos tudo o que tinha acontecido.
Mariano, Ana e até tia Matilde ficaram chocados com a frieza e crueldade de Cássio, mas, para evitar o escândalo e não comprometer o nome da família, praticamente me obrigaram a ir para os Estados Unidos.
Não tendo outra saída, embarquei com muito ódio no coração, principalmente de Mariano, que pouco depois colocou Cássio debaixo de suas asas e o apoiou.
Como vê, o seu marido, a quem você tanto ama e venera, é um assassino, talvez o pior de todos:
que mata pessoas inocentes e sem defesa.
Sara chorava muito, de cabeça baixa.
Chorava de decepção e também por pena de Fabíola e daquele espírito que não pudera vir ao mundo por causa de uma atitude tão torpe e desumana como a de Cássio.
Agora havia compreendido que o espírito deformado que vira colado ao corpo de Fabíola era o abortado, que certamente estava perto da mãe cobrando o seu ato.
Quando levantou a cabeça, percebeu que Fabíola não estava mais na sala.
Seu mundo havia ruído.
Ali sozinha, mergulhada em profundos pensamentos, concluiu que depois de saber tudo aquilo não mais poderia estar unida a Cássio.
Ana entrou e, percebendo seu estado, correu a abraçá-la.
Havia escutado boa parte da conversa, mas resolveu não intervir, pois sabia que uma hora Sara teria de saber a verdade.
Por essa razão, ficou apenas calada, alisando os cabelos da amiga com carinho e orando para que tudo terminasse em paz.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 22, 2018 9:49 pm

21 - A revelação
Fabíola apressou o passo, limpou os olhos húmidos com as costas das mãos e dirigiu-se ao quarto de Matilde, que a esperava ansiosa.
- Está feito.
Duvido que Sara perdoe seu filho.
- Não vá me dizer que exagerou!
Apenas quero que ela fique muito tempo longe dele, sofrendo.
Nada de separação.
- Não exagerei. Contei tudo como realmente aconteceu.
Só que a pobre moça é cheia de pudores, duvido que um dia possa perdoar uma coisa como essa.
- Eu saberei fazê-la perdoar meu filho.
Eles viverão num inferno.
Depois do perdão, após alguns dias de felicidade, volto a encontrar outra maneira de semear a discórdia entre os dois.
Matilde falava com os olhos brilhantes de satisfação.
- Não a entendo.
Devia estar feliz por Cássio ter se casado justamente com a dona de tudo.
- E você acha que essa miserável tem o direito de roubar o que é meu?
A herança era para ser minha, somente minha e de meus filhos.
Tenho motivos de sobra para odiá-la e, além de tudo, existe algo em Sara que não sei explicar exactamente o que é, mas que faz com que eu a odeie muito mais.
- Tudo bem.
Mas, agora, vamos a assuntos mais práticos.
Preciso sair da fazenda o mais rápido possível, antes que Cássio chegue.
Como ficará meu pagamento?
Matilde tentou disfarçar o incómodo que aquela pergunta lhe causou.
Prometera muito dinheiro a Fabíola para que ela voltasse ao Brasil e ajudasse a destruir a felicidade de Sara, mas, na verdade, não tinha nenhuma intenção de pagá-la.
Ela vivia da pensão do marido e do dinheiro que Cássio lhe dava todos os meses para suas futilidades.
Tinha muito dinheiro guardado, mas não queria cumprir a promessa.
Contudo, a sobrinha não podia desconfiar, por essa razão, disse:
- Você sai logo daqui e se instala no hotel que eu reservei.
Aurélio já arrumou suas malas, colocou no carro e a está esperando.
Tenho de inventar uma boa desculpa para conseguir a quantia que lhe prometi e convencer meu filho.
Ele é muito rígido quando o assunto é dinheiro, mas saberei manejá-lo.
Não se preocupe, antes de sua viagem pagarei o que lhe devo.
- Assim espero.
Fabíola saiu apressada pela porta dos fundos e seguiu até o carro onde Aurélio a aguardava.
Quando o veículo foi se distanciando da casa, ela lançou um olhar maldoso para a majestosa construção e pensou:
- Que sejam infelizes para sempre!
Por sorte o carro de Cássio e Aurélio não se encontraram e Fabíola pôde chegar ao hotel instalando-se sem mais problemas.
Justamente naquele dia, Cássio teve problemas no escritório só chegando em casa mais tarde que o habitual.
Encontrou a sala em penumbra e a mesa do jantar posta apenas para uma pessoa.
Estranhou o facto e chamou por Aurélio, que ainda não havia retornado.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 22, 2018 9:50 pm

Matilde, que esperava sorrateira a chegada do filho, apareceu e disse:
- Aurélio foi levar Fabíola para a cidade.
- Por quê? O que aconteceu para ela ter nos deixado finalmente em paz?
- Não sei ao certo. - fingiu.
Mas parece-me que Fabíola e Sara conversaram e ela contou tudo sobre o aborto.
Sua mulher está no quarto com Ana chorando muito.
Cássio sentiu-se gelar.
- Maldita! Por que foi abrir a boca?
Fez bem em ter ido embora, pois não sei qual seria minha reacção se a encontrasse aqui.
- Iria matá-la como fez ao seu filho?
- Não me irrite, mãe.
Posso perder a cabeça até mesmo com a senhora.
Até acho que foi uma armação sua.
Se confirmar isso, mando-a embora desta casa sem pestanejar e a deixo sem nenhum centavo.
- Como você é cruel!
Nunca me olhou como mãe, nunca me obedeceu.
Acusa-me de algo que não tenho culpa - tornou Matilde fingindo chorar.
- Descobrirei se a senhora não é realmente a culpada.
- Mesmo que fosse, você acha que Sara iria passar a vida inteira sem saber do que você foi capaz?
- Ela iria saber, por mim, do meu jeito.
- Você iria torcer os fatos e ainda se colocar como vítima.
Cássio fuzilou a mãe com um olhar e saiu em busca de Sara.
Se continuasse ali ouvindo as provocações de Matilde acabaria por esbofeteá-la.
Ao entrar no quarto, viu a mulher sentada na cama tendo a irmã ao lado.
Ana, percebendo que o momento seria apenas para os dois, pediu licença e se retirou.
Cássio aproximou-se da mulher, ajoelhou-se e pediu com sinceridade:
- Perdoe-me, Sara.
É a única coisa que posso lhe pedir neste momento.
Sara, intuída pelos espíritos de Melânia, Mariano e Leonora, sentiu-se condoída.
No fundo, Cássio era uma alma materialista, envolvida pelas ilusões do mundo.
Naquele momento, pediu a Deus que a orientasse no que fazer.
Seria mesmo justo se separar daquele a quem tanto amava por um erro do passado?
Leonora, cheia de luz, intuía a filha:
- Querida, perdoe-o!
O perdão é o ato mais sublime que um ser humano pode praticar na Terra.
Você, agora, está esquecida do passado, mas um dia também foi materialista e criminosa.
Quem é você para negar o perdão a alguém?
Jesus perdoou a todos aqueles que lhe quiseram mal, mostrando que não estamos na condição de julgar nenhum dos nossos semelhantes, mas, acima de tudo, soerguê-los no caminho do bem, compreendendo suas fraquezas e orando a Deus para que possam se redimir.
Você ama Cássio incondicionalmente.
Se não perdoá-lo agora, viverá infeliz e cheia de remorsos.
Por sua vez, Melânia dizia-lhe aos ouvidos:
- Os erros que os homens cometem provêm da ignorância das Leis de Deus.
Cássio não é mau.
Não existe ser humano mau:
ou são doentes ou ignorantes, pois se Deus tivesse criado alguém mau, Ele não seria Deus.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 22, 2018 9:50 pm

Chegou a hora de mostrar que não foi à toa todo o seu arrependimento do passado criminoso e não foi perdido o tempo que estudou connosco a fim de vencer seus desafios nesta encarnação.
Lembre-se de que somos todos almas ainda ignorantes; nem por isso Deus deixa de derramar sua misericórdia todos os dias sobre nós.
Você é uma fracção de Deus, é centelha divina, por essa razão, tem condições de perdoar todo o mal que venham a lhe fazer.
Essas intuições foram passadas a Sara em questão de segundos, mas ela as captou na íntegra.
Com os braços fez com que Cássio se levantasse, olhou-o nos olhos e o abraçou com muito amor.
Naquele momento, ele chorou sentidamente.
Só de imaginar que poderia perder Sara, seu pensamento paralisava no medo e na angústia.
Sentia que depois de tê-la encontrado não mais poderia viver sem sua companhia.
Quando o abraço terminou, ele encarou-a e pediu:
- Eu preciso ouvir dos seus lábios que me perdoa.
Sem isso, não encontrarei novamente a paz.
- Eu não tenho do que perdoá-lo.
Sou tão imperfeita quanto você ou qualquer outra criatura da Terra.
Mas se faz questão, eu digo: está perdoado.
Cássio cobriu-a de beijos.
Quando a emoção serenou, Sara olhou-o séria:
- Sente-se aqui.
Precisamos conversar.
- Pode me dizer tudo o que quiser.
Que sou assassino, mau, egoísta e frio. Sei que mereço.
- Não vou lhe dizer nada disso.
Se o fizesse, de nada teria valido o meu conhecimento espiritual.
Pensei em me separar de você, de mandá-lo embora.
Não vou negar que minha impressão foi horrível, parecia que estava casada com um monstro, mas Ana me fez pensar melhor e lembrar o que mamãe nos pediu:
haja o que houver nunca se separem.
Ele sorriu:
- Lembro-me desse dia.
Dona Leonora me falou de Deus, da vida espiritual e fez esse pedido.
Sua mãe foi uma grande pessoa.
- Agora que já sei de tudo, não vamos mais falar no assunto.
Apenas quero dizer que com o aborto você se comprometeu seriamente com as Leis de Deus e um dia terá de reparar esse erro para que possa ficar em paz com a própria consciência.
Apenas lhe peço que tenha a coragem de assumir que cometeu um erro gravíssimo e que vai pensar seriamente no assunto e se arrepender.
- Você sabe que não acredito em nada disso.
- Não vou forçá-lo a acreditar, mas o mínimo que você pode fazer é se arrepender sinceramente, procurar Fabíola e lhe pedir perdão.
- O que você me pede é impossível.
Posso até me arrepender e até confesso que se fosse hoje não faria novamente, mas pedir perdão à Fabíola, jamais.
Ela era uma interesseira, que só queria minha beleza e meu dinheiro.
- Nada disso.
Fabíola o amava de verdade.
Entregou-se porque estava apaixonada.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 22, 2018 9:50 pm

- Vocês mulheres acreditam em tudo. - zombou.
- Quero que saiba que, apesar de tê-lo perdoado, se você não pedir perdão à sua prima, posso voltar atrás e pedir a separação.
Não vou guardar mágoas, mas não quero viver ao lado de uma pessoa tão vaidosa e orgulhosa a ponto de não ter coragem de pedir perdão quando necessário.
Vendo que Sara falava sério, ele resolveu:
- Tudo bem, vou procurá-la e pedirei perdão.
- Faço questão de ir com você para comprovar.
- Não confia em mim?
- Vou confiar ainda mais depois de vê-lo pedir perdão a alguém que muito prejudicou.
Cássio novamente a abraçou e cobriu-a de beijos.
Depois, foi tomar um banho e, mais tarde, ambos foram jantar.
Matilde quase desmaiou ao perceber que seu plano dera errado; mas fingiu bem e demonstrou falsa felicidade dizendo ter torcido para que o casal se entendesse.
Quando entrou no quarto, teve um acesso de fúria e rasgou as próprias roupas, ficando seminua.
Com os olhos injectados de ódio bradou:
- Isso não ficará assim, amanhã mesmo procurarei Fabíola e já que a horrorosa da Sara a perdoou, farei com que volte a esta casa e planearei para que ela seduza meu filho.
Não vou permitir que essa barraqueira seja feliz.
Dizendo isso, deitou-se na cama, desfazendo-se em lágrimas de rancor.
A um canto do quarto, os espíritos radiosos de Melânia, Mariano e Leonora a observavam com sentimento de compaixão.
Melânia comentou:
- Foi mais fácil fazer Sara perdoar.
Difícil será atingirmos o coração de Matilde para que também perdoe.
- Queira Deus que possamos cumprir com essa missão que os irmãos maiores nos confiaram.
Matilde carrega todo o ódio no inconsciente.
Sua alma sabe que na última encarnação foi lesada em todos os seus bens, tanto materiais quanto afectivos.
Na verdade, Matilde foi quem mais sofreu com o que Sara e Cássio fizeram no passado, foi a grande vítima que, agora, cobra inconscientemente seus algozes - disse Mariano com entonação triste na voz, sentindo-se também culpado por tudo o que Matilde passara.
Leonora o corrigiu:
- Matilde sofreu grande maldade, não nego, todavia, ninguém é vítima.
Tudo o que ela passou naqueles tempos foi atraído por ela mesma para que aprendesse as verdades do espírito.
É claro que Sara e Cássio assumiram grave compromisso de reajuste pelo que cometeram, mas Matilde também mostrou com a prova que sofreu que não era tão boa quanto aparentava.
O que precisa ocorrer entre os três é o perdão recíproco.
Sem isso, mais uma reencarnação de dores e sofrimentos será necessária.
Os três passaram a envolver aquela pobre mulher em energias de paz.
Passados alguns minutos, vendo que Matilde melhorara sensivelmente, deixaram a fazenda indo buscar refazimento na colónia em que viviam.
Apesar de o ódio haver diminuído e sentir-se mais calma, Matilde não conseguia dormir.
Rolava pela cama tentando encontrar uma maneira mais efectiva de fazer Sara sofrer.
Não importava se o filho sofria junto.
Cássio havia se tornado um verdadeiro estranho, sentia que ele não a amava como mãe e, talvez, ela fosse um peso para ele.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 22, 2018 9:50 pm

Então que sofresse também.
Percebendo que não iria conseguir conciliar o sono, resolveu procurar Aurélio.
Havia algum tempo que ambos estavam afastados, porém ela sabia o quanto o mordomo a desejava.
Não conseguia entender o porquê de sua rejeição nos últimos tempos.
Iria procurá-lo e colocar tudo em pratos limpos.
Sabia que tinha poder de sedução sobre ele, que, com certeza, não resistiria.
Vestiu uma roupa provocante e saiu silenciosa em direcção ao quarto.
Girou a maçaneta e, como sempre, percebeu que a porta estava aberta.
Para sua surpresa, Aurélio não estava lá.
Sua curiosidade aumentou ao notar que a cama nem havia sido desfeita.
Onde estaria?
O inverno havia chegado e com o frio certamente ele não iria para a piscina banhar-se de madrugada como era seu costume.
A casa estava toda às escuras e ela já ia voltando para o quarto quando ouviu um barulho estranho.
Apurou melhor os ouvidos e percebeu que aqueles sons vinham do quarto de Ana.
O que estaria acontecendo lá?
Movida pela curiosidade, Matilde foi andando lentamente e, ao aproximar-se, pôde ouvir claramente Aurélio e Ana se amando.
O ódio e o ciúme foram tomando conta de seu peito e ela começou a sentir falta de ar.
Começou a pensar:
Como não pude perceber isso antes?
Como fui idiota!
Fabíola me avisou que Ana estava apaixonada e eu, como uma imbecil, não liguei os factos.
Nunca pensei que minha filha, tão recatada e religiosa, fosse se entregar a um homem dessa maneira.
Mas ela não perde por esperar.
Será mais uma a quem terei de destruir.
Aurélio é meu e não será uma debilóide quem vai me roubá-lo.
Agora sei o porquê da rejeição dele.
Mais do que nunca, preciso conversar com Fabíola para que me ajude a separar esses dois para sempre.”
Atraído pelos pensamentos negativos de Matilde, um espírito de aspecto deformado aproximou-se dela e disse com altivez:
- É isso mesmo, Matilde!
Destrua quem destruiu sua felicidade.
Antes de Ivan casar com Kira e tirá-la da prostituição era a você que ele estava prometido.
Vai permitir mais uma vez ser passada para trás?
Matilde sentiu o ódio aumentar a tal ponto, que seu coração começou a doer. Continuou a pensar:
Não posso deixar que ela me passe para trás.
Mas, agora, preciso me acalmar.
Foi em direcção à cozinha e tomou um copo com água.
Como que para ter certeza de que era Aurélio quem estava realmente com sua filha no quarto, Matilde ficou escondida atrás de um móvel e esperou.
Ao vê-lo sair com semblante feliz, ela sentiu-se humilhada e destruída.
Foi graças a calmantes que conseguiu dormir aquela noite.
Quando conseguiu, devido ao teor de seus pensamentos, foi levada ao umbral onde conversou com Drómio, que a orientou em como se vingar de Ana.
Ao amanhecer estava cheia de intuições.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 22, 2018 9:50 pm

22 - Liberto das amarras do sofrimento
Quando, na manhã seguinte, Cássio e Sara desceram para o café, encontraram Ana sozinha à mesa esperando-os.
- Posso saber onde está a mamãe?
- Acabou de sair, e pela expressão não foi fazer coisa boa.
- Mamãe saiu assim tão cedo? - questionou Cássio, intrigado com as palavras da irmã.
Pelo menos disse aonde foi?
- É claro que não.
Mal falou comigo, dispensou o motorista e foi dirigindo sozinha.
- Bem, tenho coisas importantes a resolver hoje e o que dona Matilde foi fazer, sei lá onde, não me interessa - tornou Cássio com firmeza.
- Cássio está certo, vamos deixar dona Matilde em paz, afinal, ela precisa ter sua liberdade - disse Sara.
- Desde que essa liberdade não prejudique os outros - finalizou Ana, que, observando-os melhor, perguntou curiosa:
- Posso saber por que Sara está tão arrumada?
Pretendem sair juntos?
- Sim. Ontem quando Cássio chegou e eu o perdoei, fiz questão que começasse a reparar seu erro.
Para isso, exigi que fosse hoje pedir perdão a Fabíola por tudo o que lhe fez.
E para garantir que ele fará isso mesmo, vou acompanhá-lo.
- E você aceitou, meu irmão?
Logo você, tão orgulhoso?
- Vi que o orgulho não vale a pena quando está em jogo um amor como o que eu sinto por Sara.
Ana, vendo que o irmão estava superando aos poucos as ilusões do orgulho, sentiu uma grande alegria, levantou-se e, com um gesto espontâneo, beijou-lhe os cabelos.
O café transcorreu calmo e, pouco tempo depois, os dois se dirigiram para a cidade.
Ao chegarem ao hotel onde Fabíola estava hospedada, pediram informação sobre o número do quarto e dirigiram-se para lá.
Fabíola os recebeu com espanto:
- O que fazem aqui? Saibam que não são bem-vindos.
- Vim para conversar com você.
Talvez o assunto mais sério que vou tratar em toda a minha vida - a voz de Cássio estava vacilante.
- O assunto mais sério de sua vida foi o assassinato de meu filho.
Fora isso, não temos mais nada a conversar.
Agora, vão embora, não o suporto, nem a sua mulherzinha - Fabíola falava com aspereza.
- Fabíola, dê uma chance ao Cássio.
Sei que, ao me contar toda a história, seu intuito era nos separar, mas pude compreender algumas coisas e também quero que você compreenda - tornou Sara com delicadeza.
- Compreendeu porque não foi com você e provavelmente nunca será.
Você é herdeira de uma grande fortuna, certamente Cássio vai querer ter muitos filhos com quem possui tanto.
Mas queria ver se continuasse sendo aquela barraqueira miserável de tempos atrás.
Tudo seria muito diferente.
Cássio, vendo que não ia conseguir conversar facilmente com a prima e, percebendo que a sua paciência já estava se esgotando, empurrou-a com força para dentro e fez Sara entrar.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 22, 2018 9:51 pm

Trancou a porta escondendo a chave no bolso da calça.
Fabíola bradou colérica:
- Farei um escândalo se vocês não saírem de meu quarto agora.
- Eu vim aqui lhe pedir perdão - disse Cássio com profundidade na voz.
Fabíola parou um pouco e pensou não ter escutado direito.
- Você o quê?
- Eu quero lhe pedir perdão por tudo o que a fiz sofrer.
Sei que nada mais posso fazer para devolver nosso filho aos seus braços, muito menos sua fertilidade, mas uma coisa eu quero:
o seu perdão.
Fabíola ouvia calada e, vendo que ele ia continuar, procurou prestar mais atenção:
- Eu fui leviano, mau, egoísta.
Acho mesmo que fui um monstro.
Mas se estou aqui lhe pedindo perdão é porque estou sinceramente arrependido.
Hoje jamais faria o que fiz.
Além do perdão, quero dizer que você pode contar comigo e Sara no que precisar em sua vida.
Então, perdoa-me?
Fabíola pôde sentir sinceridade nas palavras de Cássio, mas foi por poucos segundos.
Lembrando repentinamente a maneira vil como ele a enganou e o ato criminoso de aborto e de assassinato da criança de forma tão fria, ela começou a rir ironicamente, e disse:
- Nunca! Nunca vou lhe perdoar.
Se o inferno existir e você depender do meu perdão para livrar-se dele, saiba que passará a eternidade queimando com o demónio.
Você não passa de um canalha, um monstro frio, cruel e interesseiro.
Sinto muita pena de Sara por estar ao lado de um ser degradante como você.
Eu poderia ser mãe, ter meu filho como minha companhia, mas você tirou-me esse direito e nunca mais saberei o que é carregar uma vida em meu ventre.
Você acha que tudo isso pode se resolver num simples pedido de perdão?
Cássio estava envergonhado e não tinha palavras.
Tudo o que ela dizia penetrava-lhe o coração como punhais.
Vendo que não tinha mais o que fazer, olhou para Sara e apertou sua mão:
- Pelo menos tentei.
Vamos embora.
- Não. Antes quero dizer algumas coisas a Fabíola - fez pequena pausa e, olhando-a nos olhos, começou:
- Você está muito doente, Fabíola. Doente de ódio, de sede de vingança, de rancor.
Só você tem a sofrer com isso.
Vim com Cássio para ver se estaria sendo sincero no pedido de perdão que ia lhe fazer, e comprovei que ele está realmente arrependido e sentido por tudo o que aconteceu.
Tenho certeza de que se fosse hoje ele faria tudo diferente e você estaria com seu filhinho nos braços.
Mas o tempo não volta e se você sofreu não foi apenas por responsabilidade do Cássio, mas sua também.
Deveria ter resistido ao máximo e não ter aceitado fazer o aborto.
Portanto, se ele conseguiu foi com a sua conivência.
Sinto muito por ter negado o perdão a alguém que vem humildemente lhe pedir.
Quem perdoa se liberta das amarras do sofrimento.
Esse perdão seria muito melhor para você do que para Cássio, que passará ainda muito tempo, talvez a vida inteira, com esse remorso na consciência.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

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