Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 23, 2018 7:50 pm

Queira Deus que você nunca precise do perdão de alguém, pois se precisar e tiver seu pedido negado vai sentir na pele o que está fazendo Cássio sentir.
- Eu sinto muita pena de você.
Não quero ouvir mais nada.
O que desejo e sei é que vocês nunca serão felizes.
O peso do crime de seu maridinho vai ser o fantasma a rondar eternamente a relação dos dois.
Agora, ponham-se daqui para fora.
Fabíola falava com olhos injectados de ódio e quase gritando.
Vencido, Cássio tirou a chave do bolso, abriu a porta e saiu.
Ao chegar no carro, antes de dar partida, sentiu uma enorme tontura.
Sara, percebendo que o marido estava pálido e suando abundantemente, correu a afrouxar sua gravata, abrindo as portas do carro e massageando-lhe os pulsos.
Aos poucos, Cássio melhorou.
O espírito abortado, que seria filho de Cássio e Fabíola, reconhecendo nele o verdadeiro responsável por sua infelicidade, deslocou-se do perispírito daquela que seria sua mãe, ao qual havia muito tempo estava preso, e grudou-se com muito ódio ao corpo de Cássio.
Agora, sim, ele iria se vingar.
Por esse motivo, o mal súbito, a partir daquele momento, acompanharia Cássio num difícil processo obsessivo.
O reconhecimento do erro e o peso da culpa, abriram o campo para que o espírito em estado de rebeldia o atacasse.
Cássio iria sentir os resultados concretos da Lei de Acção e Reacção, numa obsessão severa, que não aconteceria para puni-lo ou para que pagasse pelo erro, mas para seu amadurecimento como espírito imortal no conhecimento das leis cósmicas que regem a vida.
Vendo que o marido estava melhor e que a cor já havia voltado ao seu rosto, Sara tornou:
- Foi a emoção.
No fundo, você esperava que ela o perdoasse.
- Sim. Fabíola foi muito dura comigo.
Suas palavras entraram como flechas em meu coração.
Estou me sentindo um monstro.
- Você não precisa se culpar.
Deve aprender que a culpa nunca resolve problema algum, só atrai sofrimento e dor.
Devemos tomar consciência dos nossos erros e repará-los no bem, nunca por meio da dor ou da culpa desnecessária.
- Mas é muito difícil.
Preferia não ter reconhecido que errei, assim não estaria neste estado.
- Você reconheceu porque evoluiu, deu um passo a mais na senda do progresso.
Enquanto estamos mergulhados no oceano das ilusões, achamo-nos sempre certos; no entanto, quando Deus nos toca a consciência, é impossível continuarmos sendo os mesmos que éramos antes.
Contudo, as Leis Divinas que o criador plantou em nossa alma não servem para nos punir ou impingir sofrimentos, mas sim para que possamos reparar o mal com actos de amor.
Tenho certeza de que você vai conseguir.
- Mas como? Fabíola nunca me dará a chance da reparação.
- Arrepender-se foi o primeiro passo.
Creio que até ontem você não estava totalmente arrependido.
Mas hoje, ouvindo o que Fabíola disse, seu coração foi tocado.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 23, 2018 7:51 pm

Não é preciso que a reparação seja feita exactamente com as pessoas às quais fizemos mal.
Muitas vezes, aqueles a quem prejudicamos já avançaram tanto que não precisam mais de nossa reparação.
Então, é hora de fazermos o bem em prol de outras pessoas que passam pelos mesmos problemas.
Sabemos que a humanidade é uma só e que todos são nossos irmãos, filhos do mesmo pai.
Fabíola se recusa a perdoar, mas você pode ter outros filhos, ser um pai de dicado, amoroso, responsável, pode até mesmo adoptar crianças carentes de carinho, de lar, de protecção.
A dor do ser humano que vive na ilusão é muito grande e se você quiser reparar o mal que fez, precisa aprender a ser humilde e ajudar a todos os que passam pelas provas da dor que eles mesmos criaram.
- Suas palavras me aliviaram.
Creio que já estou bem para dirigir, levá-la à fazenda e voltar para o escritório.
Eu a amo!
Sara deu leve beijo nos lábios de Cássio e já iam partindo quando viram o carro de Matilde estacionar diante do hotel.
Curioso, Cássio tornou:
- O que mamãe veio fazer aqui?
- Ainda pergunta?
Visitar a sobrinha, ora.
Elas são muito apegadas.
- Isso está estranho.
Mamãe não costuma sair tão cedo nem é tão apegada à Fabíola como você imagina.
Só pode ser alguma armação que as duas estão tramando.
- Deixe disso, Cássio. Vamos embora.
Sua mãe é livre para visitar quem quiser.
- Não. Algo me diz que minha mãe e Fabíola estão aprontando.
Vou verificar.
Uma leve intuição fez Sara achar que Cássio estava certo.
- Se elas estiverem mesmo aprontando e você aparecer, é claro que vão fingir que nada está acontecendo.
- Ficarei atrás da porta e ouvirei o que conversam.
- Nesse caso, irei com você.
É feio escutar a conversa alheia, mas se for realmente algo que estão planeando contra nós, precisamos saber.
Os dois voltaram ao hotel e Cássio pagou razoável quantia ao gerente para deixá-los escutar o que as duas conversavam.
Assim que Matilde entrou, eles puseram o ouvido na porta e aguardaram.
O hotel, apesar de muito limpo e organizado, era um tanto velho e as portas tinham algumas frestas, suficientes para que o som passasse à vontade.
Dentro do quarto, Fabíola estava irritada:
- Quer dizer que não veio me pagar?
A senhora prometeu que só ia me procurar quando estivesse com o dinheiro em mãos.
- Tenha um pouco mais de paciência, Fabíola.
Eu vim fazer-lhe outra proposta, e se você aceitar poderá ganhar muito mais.
Os olhos de Fabíola brilharam de cobiça.
Tinha dinheiro o suficiente para voltar aos Estados Unidos, contudo, queria mais, muito mais.
Por essa razão, interessou-se:
- Qual seria essa outra proposta?
Depois do que fiz, sabe que jamais poderei voltar àquela casa.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 23, 2018 7:51 pm

Muito pior agora, que Cássio e Sara estão reconciliados e ele veio até aqui me pedir perdão pelo que fez.
Acabaram de sair.
Matilde ficou rubra.
- Isso não pode estar acontecendo.
Cássio só pode estar enfeitiçado por aquela miserável.
Conheço como meu filho é orgulhoso e sei que se veio lhe pedir perdão só pode ter sido induzido por ela, que posa de boa samaritana.
Ainda bem que demorei a chegar.
Antes passei na igreja para me confessar com padre Sílvio.
Fez uma pausa e prosseguiu colérica:
- Mas isso não ficará assim, eu tenho outros planos.
- Então me diga logo.
Se for para duplicar o que prometeu me pagar é claro que aceitarei.
- Você precisa voltar para a fazenda e seduzir meu filho.
Fazendo isso, darei um jeito para que Sara os flagre juntos.
- Mas isso é impossível.
Cássio mudou muito, está gostando mesmo daquela sem graça, dificilmente cairá numa armadilha.
- Não tenho tanta certeza.
Cássio sempre teve uma queda grande pelo sexo, e você sabe ser sensual e provocante.
Duvido que ele resista.
E se não conseguir, usaremos o truque mais velho do mundo.
Faremos Cássio ingerir uma bebida com forte sonífero, tiramos sua roupa e você deita-se com ele.
- Esse truque pode dar certo para mulheres bobas, mas Sara não é nem um pouco.
Certamente descobrirá.
Matilde irritou-se:
- Afinal, de que lado você está?
Quer ou não ganhar dinheiro?
- Não se trata disso.
Trata-se de sermos práticas.
Revelei o aborto que Cássio me fez fazer; contei os requintes de crueldade e como me enganou e nada aconteceu.
Quero que a senhora pense melhor, crie um plano infalível e depois me chame.
Além de tudo, ele veio aqui me pedir perdão, só faltou se ajoelhar aos meus pés e eu neguei.
Acha que me aceitarão de volta na fazenda com facilidade?
Matilde foi sentindo-se impotente e grossas lágrimas de ódio rolaram por sua face.
Não queria a separação do filho e sabia que isso jamais iria acontecer.
Ela era mulher experiente e sabia reconhecer um amor sincero.
O que queria era apenas que Sara fosse infeliz.
Secou as lágrimas com um lenço de seda, olhou para a sobrinha, e disse:
- Preciso revelar a você o que descobri esta noite.
- O que foi?
Pelo visto a descoberta a desagradou muito.
- Sim. Você estava certa.
Ana está apaixonada.
- Quer dizer que a senhora descobriu o cortador de cana com quem ela está namorando?
- Muito pior.
Descobri que Ana está tendo um caso com Aurélio, dentro de minha própria casa.
Fabíola não conseguia acreditar.
- A senhora tem certeza?
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 23, 2018 7:51 pm

- Absoluta!
Ontem ouvi quando faziam amor e vi quando ele deixou o quarto dela com ares de felicidade.
- Espertinha sua filha, hein?
Aurélio é muito atraente e tem um ar viril.
- Eu sei disso!
Eu fui traída! - disse Matilde aos berros.
- Traída? Não me diga que.
- É isso mesmo.
Eu e Aurélio éramos amantes desde que o Guilherme morreu.
Fabíola ouvia surpresa, enquanto Matilde continuava:
- Eu amava o meu marido, mas nos últimos tempos já não tínhamos mais vida sexual.
Quando ele morreu, senti-me extremamente solitária naquela fazenda enorme com Mariano a me perseguir.
Até que Aurélio foi chegando devagar, seduzindo-me, e eu não resisti.
O pior de tudo é que com o tempo acabei por me apaixonar; no entanto, ocultava esse sentimento.
Sempre deixei claro para ele que nosso envolvimento era apenas sexual.
Faz algum tempo, ele deixou de me procurar, e sempre que eu tomava a iniciativa recebia uma recusa.
Agora sei por quê.
Ele e Ana são amantes.
Deus sabe desde quando!
- A senhora foi corajosa em manter um caso com o mordomo sendo que a qualquer momento Cássio poderia descobrir.
Além de tudo, ele tem idade para ser seu filho.
Fingindo não ouvir a crítica, Matilde prosseguiu:
- Sempre fizemos tudo muito bem feito.
Cássio nunca prestou muita atenção nessas coisas, sempre viveu voltado para a usina e suas diversões.
Mas, agora, minha própria filha atravessa-me o caminho.
Vim hoje aqui não apenas para desarmonizar a relação de Cássio e Sara, mas para destruir Ana.
Eu amo Aurélio, ele me pertence, nem vou considerar que Ana é minha filha.
Acabo com ela sem piedade.
- Pensa em matá-la?
- Claro que não, apesar de tudo ela saiu de mim.
Mas posso destruí-la de outra maneira e estou aqui para que possamos pensar na melhor maneira de fazermos isso.
Naquele momento, as duas ouviram um grande estrondo e perceberam que a porta do quarto havia sido arrombada com um pontapé.
Cássio surgiu com olhos rancorosos, acompanhado por Sara.
Olhando a mãe, bradou:
- A senhora nunca mais vai conseguir fazer mal a ninguém.
Acabou.
- Filho, você está enganado.
Não sabe o que diz - falou Matilde assustada, percebendo que fora pega em flagrante.
- Não adianta.
Ouvi toda a conversa.
Você é uma decepção, dona Matilde.
A partir de hoje não é mais minha mãe.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 23, 2018 7:51 pm

Como ousou tentar acabar com minha felicidade?
Como ousou se deitar com o mordomo debaixo do meu nariz?
Como posso respeitar uma mulher feito a senhora?
Matilde chorava pela vergonha em ver-se descoberta.
Não havia saída para ela.
Tentou contemporizar.
- Eu sou sua mãe, Cássio.
Você nasceu de mim.
Tem de me perdoar, eu só quero o seu bem.
- E o meu bem é destruir minha felicidade?
E acabar com sua filha?
- Sua irmã é uma rameira, que se finge de santa.
No fundo, não passa de uma qualquer que se deita com o primeiro que aparece.
- A senhora não é muito diferente.
- Respeite-me! Eu exijo!
- A senhora não exige mais nada.
A partir de hoje não a considero mais minha mãe e nunca mais voltará à fazenda.
Mandarei trazer todos os seus pertences.
Fique despreocupada, manterei a mesada de sempre, afinal, não posso deixá-la morrer de fome.
Mas esqueça que eu e Sara existimos, e também esqueça que Ana existe.
Agora, que já sei que ela e Aurélio estão tendo um romance, vou exigir que se casem.
Como vê, a senhora perdeu.
Cássio ia puxando Sara para sair do quarto quando Matilde agarrou em sua calça, ajoelhou-se e pediu:
- Filho, eu o amo.
Não me deixe longe de você, daquela casa que tanto amo, da minha irmã querida.
Sem isso, certamente morrerei.
- Pensasse nisso antes de fazer tudo o que fez.
Agora, é impossível.
Não volto atrás em minhas palavras. Adeus.
Sara interveio:
- Cássio, pense melhor.
Dona Matilde é sua mãe.
- Deixe disso, Sara.
O melhor para essa cobra é ficar com essa outra cobra, que é a Fabíola.
As duas se merecem.
Cássio saiu feito um furacão, arrastando Sara pelo braço, que, tocada pela compaixão, não queria deixar o local.
Matilde, ajoelhada, continuou chorando sentidamente até que Fabíola a levantou e fez com que sentasse.
- A senhora precisa ficar bem.
Vai se deixar derrotar logo agora?
Matilde, contudo, sentiu-se tocada por um sentimento forte, que nunca antes havia experimentado:
a rejeição verdadeira do filho.
Ela sentiu a energia de cada palavra dita por Cássio e aquilo mexeu profundamente com seu coração.
Realmente, amava o filho.
O que faria agora que o havia perdido para sempre?
Olhou para a sobrinha e murmurou:
- Eu morri para o Cássio.
Tenho certeza de que morri.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 23, 2018 7:52 pm

Eu achava que por mais que eu fizesse, ele sempre me perdoaria porque sou sua mãe.
Mas hoje vi que perdi meu filho.
- O que é isso?
Vai amolecer? E a vingança?
- Esqueça.
Minha vida também acabou!
Não tenho mais por que me vingar.
- Claro que tem.
Agora tem mais motivos que nunca!
Tem de separar Ana de Aurélio e Cássio de Sara.
Ouvindo as palavras de Fabíola, pela primeira vez Matilde percebeu que nada daquilo fazia sentido.
Por mais que odiasse Sara, era dela que seu filho gostava.
Naquele momento, percebeu que o seu amor por Cássio era mais forte.
Virou-se para Fabíola com raiva.
- Cale-se! Percebi o quanto estava enganada quando me liguei a você e quando quis terminar com a felicidade de meus filhos.
Quero que vá embora, desapareça de minha frente.
Fabíola não conseguia acreditar.
- Mas a senhora ainda agora queria vingança, destruição.
Não é possível que tenha mudado tão de repente!
- Infelizmente você nunca vai entender minha mudança, você nunca será mãe.
Enquanto eu viver, farei de tudo para receber o perdão de meu filho.
- Que mulher fraca!
Por essa razão até a songa-monga de sua filha roubou seu amante.
Não resistindo, Matilde esbofeteou Fabíola com tamanha força que a fez rodar e cair na cama.
- Ainda tenho dinheiro em minha conta, o suficiente para pagar o que combinamos.
Assim que fizer isso, quero que desapareça para sempre de nossa vida.
Saiu do quarto sem olhar para trás, deixando Fabíola sem entender a súbita mudança.
A natureza não dá saltos, e a repentina mudança de Matilde pode ser estranha, mas de acordo com sua vida anterior, seu espírito já estava preparado para esse acontecimento.
A alma humana possui inúmeros segredos que só as vidas sucessivas podem explicar.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 23, 2018 7:52 pm

23 - Aurélio é aceite
Cássio e Sara seguiram calados até a fazenda.
Assim que entraram na casa, Ana veio recebê-los, e sem saber o que havia acontecido, perguntou alegre:
- Conseguiram o perdão de Fabíola?
Ninguém respondeu.
Depois de um tempo de silêncio, onde Cássio olhava para a irmã com indagação, ela, sentindo-se incomodada e achando aquela atitude estranha, perguntou:
- O que aconteceu?
Porque me olha desse jeito?
- Chame o Aurélio - ordenou Cássio secamente.
- Aurélio está ocupado na copa.
Se deseja alguma coisa, eu mesma posso buscar.
- Quero o Aurélio aqui e agora.
Vá chamá-lo!
O tom forte e agressivo de Cássio fez com que Ana corasse.
O que o irmão queria com o mordomo?
Havia descoberto alguma coisa? Mas como?
Tinha certeza de que Sara seria a última a lhe contar.
Tremendo de nervoso, ela foi à copa, chamou Aurélio formalmente e voltou para a sala, onde Cássio e Sara estavam sentados no grande sofá.
Ela com rosto tenso, e ele com cara de poucos amigos.
Ao ver o mordomo, ele disse:
- Sente-se, Aurélio.
Aurélio obedeceu sem entender o tom do patrão.
Olhando-o nos olhos, Cássio foi taxativo:
- Ou você se casa com minha irmã ou vai embora agora desta casa.
Ana e Aurélio, tomados pela surpresa, não souberam o que dizer.
De facto Cássio havia descoberto a verdade.
Mas como?
Olhando para o patrão, Aurélio armou-se de coragem e dignidade.
- Sei que deve ter descoberto o quanto Ana e eu nos amamos.
Peço perdão se esse amor o ofende de alguma maneira, mas meus sentimentos por sua irmã são nobres e era eu mesmo que ia comunicá-lo que nos casaríamos.
- Como você tem coragem de ser tão ousado depois de tudo o que fez? - a voz de Cássio estava alterada e ele fazia o possível para se controlar.
- Eu não fiz nada de errado, a não ser ter nascido em condições miseráveis nesta fazenda e servir seu tio com fidelidade.
- E o caso que tinha com minha mãe?
Que nome você dá a isso?
Fidelidade ao meu tio?
Aurélio sentiu o sangue sumir em suas faces.
Havia iniciado o romance com Matilde a mando do próprio Mariano, que a queria ter em suas mãos, saber de seus planos malévolos com antecedência e para isso nada melhor que estivesse apaixonada por um homem viril e jovem como ele.
E aquela não era hora para mentiras.
Ana estava presente e sabia de parte da história, mas também devia a ela uma explicação que nunca havia dado.
- O senhor pode não acreditar no que vou lhe contar, mas conhecendo o seu tio como conhecia saberá que não estou mentindo.
Dona Matilde sempre foi ambiciosa e queria a todo custo possuir tudo o que era dele.
Seu pai havia perdido toda a parte da herança no jogo e ela não se conformava!
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 23, 2018 7:52 pm

Enquanto não tirasse o senhor Mariano do caminho, não sossegaria.
Houve até a tentativa de envenenamento, que, felizmente, foi descoberta a tempo.
Vendo que Cássio ouvia com atenção, ele continuou:
- Quando o senhor Guilherme morreu e o duelo entre dona Matilde e o senhor Mariano ficou pior, ele me pediu que a seduzisse e mantivesse com ela um romance, para não só tê-la nas mãos quando fosse necessário, mas também para saber de todos os seus planos com antecedência.
Assim o fiz.
Fui seduzindo sua mãe aos poucos e mantivemos o nosso relacionamento até eu ser surpreendido com a declaração de amor de sua irmã.
Creia, Cássio, depois que passei a amar Ana, nunca mais tive nada com sua mãe.
Eu amo sua irmã e é com ela que quero me casar, ser feliz e ir embora daqui.
Prometi ao seu tio que ficaria na fazenda até que você e Sara se casassem e pudessem se ver livres da perseguição de sua mãe.
Eu sempre soube de todos os segredos do senhor Mariano e, como lhe disse, sempre lhe fui fiel.
Cássio estava estarrecido com o que ouvia, no entanto, sabia que o tio era capaz de tudo aquilo.
Fora criado por Mariano e conhecia bem sua personalidade.
Não adiantava condenar Aurélio, visto que sua mãe também fora leviana e cedera facilmente às investidas do primeiro que apareceu, sem nenhum respeito à memória de seu pai.
Por fim, disse:
- Você e minha mãe erraram, mas não adianta ficarmos lamentando.
Quero que você e Ana se casem, mas imponho uma condição:
vocês deverão continuar morando aqui na fazenda.
Não vou aceitar que minha irmã saia do lugar onde foi criada.
Esta casa é imensa, podemos ser uma família unida e, com o tanto de quartos que temos, podemos ter quantos filhos desejarmos.
- Eu tenho um óptimo imóvel que herdei de seu tio.
Conversamos, eu e Ana, e decidimos que, após o casamento, vamos nos mudar para lá.
- E vão viver de quê?
Você só sabe ser mordomo e Ana não tem profissão alguma.
- Na cidade há muitas casas de pessoas com dinheiro precisando de serviços como o meu.
E se não conseguir, tenho um bom dinheiro no Banco, também herança do seu tio.
Posso ir vivendo com a renda, até montar um negócio com o qual possa ter lucros e viver modestamente.
- E você, Ana? Concorda mesmo com isso? - perguntou Cássio, com a voz embargada de tanta contrariedade.
- Meu irmão, é o melhor para todos.
Como poderemos viver nesta casa com a presença de mamãe?
Acha que ela nos deixaria em paz?
Seria até mesmo um incómodo para eu viver no mesmo tecto com uma mulher que sei que ama meu marido, ainda que essa mulher seja minha própria mãe.
- Ela não pisará mais nesta casa.
- Como?
- É o que ouviu.
Foi por meio dela que soube de toda a verdade.
Fabíola não me perdoou e ainda queria jogar Sara contra mim.
Quando íamos saindo do hotel, vimos o carro de mamãe chegando.
Instintivamente a seguimos e pudemos escutar sua conversa com Fabíola.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 23, 2018 7:52 pm

Além de estar tramando destruir minha felicidade, confessou que mantinha uma relação com Aurélio e que queria destruir você, Ana.
Nossa mãe não nos tem nenhum amor, é uma mulher cruel e detestável.
Enquanto Cássio falava, sua aura mudava de cor e tornava-se cinzenta.
O espírito obsessor, que lhe estava acoplado ao corpo, percebendo as energias negativas daquele que o havia assassinado mesmo antes de nascer, sentia aumentar o ódio e colava-se ainda mais agora, já com plena intenção de levá-lo à loucura para se vingar.
Ana fez um rosto triste.
- Preferia que tudo fosse diferente.
Gosto da mamãe e não aprovo que a tenha expulsado de casa.
- Mas é o que ela merece.
E ela pode ser sua mãe, mas não é mais a minha.
Então, aceitam minha proposta?
Ana calou-se, esperando Aurélio responder.
- Já que dona Matilde será afastada, podemos nos casar e viver aqui.
Não quero mudar de função, por essa razão, continuarei a ser o mordomo.
Gosto do que faço, sinto-me bem cuidando do bem-estar desta fazenda e das pessoas.
- Mas você vai entrar para a família Caldeiras e um Caldeiras não pode ser um reles mordomo.
Encaixarei você em um dos departamentos da nossa usina e ganhará muito mais.
- Eu não quero. Posso aceitar morar aqui, mas desejo ser o que sou.
Nunca fui rico nem almejo posição social.
Ana me aceita e me ama como sou.
Espero que compreenda.
- É isso mesmo, Cássio - posicionou-se Ana com voz doce.
Aprecio Aurélio dentre outras coisas, justamente por ser o que é.
Se não o aceitar assim, eu mesma faço questão de ir-me embora daqui com ele.
Vendo que a irmã estava resoluta, Cássio deu por encerrada a conversa, não sem antes exigir que marcassem a data do casamento.
Ana e Aurélio não cabiam em si por tamanha satisfação.
E, assim, foram comemorar o que havia acontecido.
* * *
Cássio passou o resto do dia em casa deitado na rede da grande varanda pensando em tudo o que havia acontecido.
O espírito de Mariano, próximo a ele, pedia:
- Meu filho, perdoe sua mãe.
Você não sabe o que está fazendo.
Ela foi a grande vítima de tudo.
Sua ambição desmedida, seu orgulho e vaidade a fizeram sofrer tanto que hoje ela é essa pessoa amargurada e infeliz.
Parte do que Matilde é deve-se a você e Sara.
As pessoas com as quais convivemos são um pouco de nós, assim como nós somos um pouco de cada uma delas.
Pense nisso e perdoe!
Cássio pensava:
Será que devo perdoar mamãe?
Não estou sendo muito orgulhoso e tirano no que fiz?”
Felício, o obsessor, percebendo-lhe os pensamentos, grudou-se mais a ele, e repetia alto:
- Jamais perdoe a sua mãe.
Você tem de viver infeliz de remorso, longe dela, até enlouquecer.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 23, 2018 7:52 pm

Cássio sentiu uma tontura, mas recuperando-se rápido pensou:
- Não! Não perdoarei, por mais que eu viva com remorso, ela nunca mais pisará aqui.
Mariano sentia muita pena do sobrinho, mas, vendo que ele não lhe acatava as sugestões, resolveu afastar-se.
Um ronco de carro se fez ouvir e logo Rodrigo estava na varanda conversando com o amigo.
- Fui ao escritório e me disseram que você não passou bem e estava em casa.
O que aconteceu?
Com riqueza de detalhes, Cássio contou tudo ao amigo, que ia enrubescendo a cada palavra.
Quando terminou de ouvir, ele disse:
-Você fez muito bem.
Sua mãe, além de perversa, não passa de uma mulher vulgar.
Se a minha mãe se deitasse com o mordomo, eu seria o primeiro a dar-lhes as costas.
Cássio sentiu grande alívio, finalmente alguém lhe dava razão.
Tinha visto nos olhos de Ana que ela não ficara bem com sua atitude e Sara, por sua vez, condenava-o também com o olhar.
- Ainda bem que tenho um amigo que me entende.
Você acredita que estou aqui desde as duas da tarde e Sara ainda não veio me ver?
Está sentida com o que fiz com mamãe e fechou-se no quarto com Ana falando dos preparativos para o casamento.
O espírito de Felício, mesmo deformado em consequência do aborto, se locomovia à vontade.
Percebendo que Rodrigo era seu aliado, aproximou-se e começou a falar por sua boca, numa psicofonia tão subtil, que dificilmente alguém perceberia.
Rodrigo dizia:
- Sara é uma boba.
Pessoas muito boas são bobas.
Não dê ouvidos a ela e continue firme com sua mãe.
Rodrigo fez uma pausa e mudou de assunto:
- Você está realmente mudado.
Permitir que sua irmã se case com um empregado qualquer é o cúmulo.
Toda a cidade vai comentar.
- Mas não posso fazer nada.
Aurélio sempre foi fiel ao meu tio e, além de tudo, tirou a virgindade de Ana.
Deve reparar o que fez.
Rodrigo soltou uma gargalhada.
- Como você é antigo para algumas questões!
Hoje as mulheres perdem a virgindade com qualquer um.
Nem por isso se casam.
Eu e você já tiramos a virgindade de dezenas.
- Mas uma Caldeiras é diferente.
Ana não é dessas mulheres com quem costumávamos sair.
- Ainda assim.
Obrigar alguém a se casar apenas porque perdeu a virgindade é demais.
- E quem disse que eles vão se casar obrigados?
Eles se gostam e pelo que pude ver é um amor verdadeiro.
Rodrigo intimamente ruminava um ódio surdo.
Havia algum tempo, nutria por Ana uma atracção forte, irresistível.
Às vezes, passava horas pensando nela.
Mas como fazer para tirá-la daquele criadinho?
Os espíritos chefiados por Drómio, que ainda tentavam levar Ana para a prostituição, haviam se colado a Rodrigo a fim de que ele se interessasse pela moça.
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Ave sem Ninho

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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 23, 2018 7:53 pm

Vendo que ele cultivava o ódio e a sede pelo prazer do sexo, conseguiam teleguiá-lo facilmente.
Por essa razão, naquele instante, sugeriram a Rodrigo um pensamento que ele captou com imensa facilidade.
De súbito, mudou o rumo da conversa:
- Sabe o que eu estava pensando?
- Só pode ser em mulher - gracejou Cássio, conhecendo o temperamento do amigo.
- Nada disso.
Estou lembrando que, tirando os dias de festa, você nunca me convidou para dormir aqui.
Ando saturado da minha casa e esse ar do campo me faz bem.
Por tudo isso, vou convidar-me para dormir com vocês esta noite, nesta fazenda maravilhosa.
O que acha?
- Sabe que não é má ideia?
Enquanto Sara estiver magoada comigo pelo que fiz com mamãe, sei que nossa relação não será um mar de rosas.
Ela é muito verdadeira, só faz o que sente vontade.
Hoje mesmo, está distante, não quer falar comigo.
Você fará bem em dormir aqui e até em ficar mais dias.
Sei que está de férias.
- Sim, estou.
Só preciso ir em casa pegar algumas roupas.
Vim sem nenhum plano de ficar.
- Não precisa, você pode usar minhas roupas enquanto estiver aqui.
Temos o mesmo corpo e tenho roupas aí que nunca usei.
- Aceito, então!
Os dois amigos ficaram conversando animadamente, sem saber a trama obsessiva que estava se passando por trás de decisões aparentemente sem importância.
Foi com certa angústia que Ana soube da permanência de Rodrigo por lá.
O rapaz a olhava com cobiça, mesmo sabendo de seu envolvimento e futuro casamento com Aurélio.
Cássio fez questão que, após servir o jantar, Aurélio se sentasse com eles.
Segundo ele, seria assim daquele dia em diante.
Podia-se ver o clima de paz e harmonia que reinava entre o casal.
A constatação do amor dos dois deixava Rodrigo com raiva e com mais vontade de executar seus planos.
Após o jantar, Sara e Ana foram para a biblioteca.
Aurélio para a copa, ficando apenas Cássio e Rodrigo a conversarem na grande sala de estar.
Sem que eles percebessem, ali estavam vários espíritos da falange de Drómio e também os espíritos amigos de Melânia, Mariano e Leonora, unidos aos mentores espirituais em estado de prece para o auxílio necessário.
Guilherme, pai de Cássio e Ana, após algum tempo no umbral, estava se preparando para reencarnar e, por esse motivo, não os estava auxiliando.
As horas foram passando e, aos poucos, todos foram se recolhendo.
Cássio e Sara, apesar de não estarem num bom momento, não deixavam de se amar, e logo estavam envolvidos num sono reparador.
Ana e Aurélio, por sua vez, resolveram restringir os encontros agora que a relação fora descoberta por Cássio e cada um encontrava-se em seu quarto, tentando conciliar o sono sem, contudo, conseguir.
A presença de Rodrigo ali, sem que eles pudessem explicar, soava ameaçadora e volta e meia pensavam nele.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 23, 2018 7:53 pm

Aurélio sentia ciúme, pois notara como ele olhara para Ana e ela, apesar de todo amor por Aurélio, sentia-se atraída por Rodrigo e intimamente o desejava.
Eram os desejos em desalinho guardados no inconsciente que faziam Ana ter pensamentos com um homem pelo qual não tinha nenhum sentimento.
Ao recordar seus olhares sedutores durante o jantar, sentia seu corpo estremecer.
Aliados aos desejos de sua alma, boa parte dos pensamentos e sensações que sentia naquele momento também eram induções dos espíritos especialistas em obsessões sexuais enviados por Drómio, que já se sentiam vencedores.
Se Ana cedesse a Rodrigo, seria tomada por desejos incontroláveis e não conseguiria manter-se fiel a Aurélio.
Sairia de casa em busca do prazer fácil.
A energia sexual como fonte criadora de renovação da espécie, de troca magnética com a função da união das almas, necessita ser disciplinada, como também ocorre com outras energias da vida.
Contudo, a energia sexual é talvez a de maior responsabilidade para o espírito, esteja ele encarnado ou não.
O ser que não possui uma conduta sexual sadia, fatalmente é conduzido por obsessões severas ou mesmo subtis e nem mesmo sente que está sendo influenciado.
No campo do sexo é preciso redobrar o orai e vigiai”, visto que em nome dele, entramos pelos caminhos das paixões, da passionalidade, dos crimes de toda sorte e dos desvarios que nos forçam ao devido reajuste no tempo certo.
Somado a tudo isso, ainda há os corações que, pelos apelos do sexo, ferimos levianamente e com os quais teremos de nos harmonizar, quando imposto pelas Leis Divinas.
O sexo é divino quando é fonte saudável que a ninguém prejudica, mas é motivo de queda a abismos profundos para aqueles que o profanam pelos vícios.
Ana sentiria isso na pele, e sua hora de libertação definitiva havia chegado.
Todo ponto fraco requer uma prova para que a pessoa possa se conhecer melhor, reavaliar valores e, muitas vezes, reparar delitos cometidos há muito tempo.
Vencer a prova é conquistar a saúde espiritual.
Por ter também a mente voltada para o sexo irresponsável, Rodrigo encontrava-se no quarto de hóspedes sem dormir, maquinando seu plano.
Pensava: Notei como Ana olhou com desejo para mim aquele dia na piscina.
Sei que sou belo e capaz de seduzir qualquer mulher.
Com ela não será diferente.
Assim, abriu a porta do quarto e saiu pelo corredor em silêncio em direcção ao quarto de Ana.
Parou um pouco e deu duas batidas.
Ana assustou-se e pensou Será Aurélio?
Mas nós combinamos de dar uma parada nos encontros.
Sem pensar muito e, achando que era mesmo ele, correu e abriu.
A visão de Rodrigo a perturbou de tal maneira que ela sentiu-se tonta.
Não entendeu o que ele estava fazendo ali àquela hora.
Perguntou, tentando dominar-se:
- Aconteceu algum problema?
- Ana, eu preciso que você me escute.
Posso entrar em seu quarto um instante?
Ela, percebendo suas intenções, ficou entre o bom senso de dizer um não e ceder aos seus desejos mais profundos.
Demorou um pouco para se decidir, por fim disse:
- O que você quer me dizer, hein?
Fale daí mesmo.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 23, 2018 7:53 pm

Sabe que jamais deixarei um homem quase sem roupa entrar em meu quarto uma hora dessas, ainda mais tendo um compromisso como o que eu tenho com Aurélio.
Seja o que for, fale daí.
- Vai me dizer que gosta mesmo desse empregadozinho?
- Sim. Eu o amo, e se foi isso o que veio saber, pode ir embora.
Rodrigo, completamente influenciado pelos espíritos obsessores, foi empurrando-a para dentro do quarto e encostando seu corpo ao dela.
Ana foi deixando-se envolver e, quando percebeu, já o estava beijando com sofreguidão.
Os obsessores aumentavam sua actuação quando Melânia aproximou-se, colocou a mão direita na fronte de Ana e fez com que ela se lembrasse de Aurélio.
Seria a última tentativa para fazê-la voltar à realidade.
De súbito, Ana lembrou-se de Aurélio e aquele pensamento foi tão forte que ela empurrou Rodrigo com toda a força.
Sentindo nojo de si mesma, vociferou:
- Saia daqui! Agora!
Ele, completamente louco, voltou a agarrá-la e derrubou-a sobre a cama como um animal desesperado.
Ana começou a gritar fortemente repetidas vezes, até que toda a casa acordou.
Cássio correu ao quarto e, ao deparar com a cena degradante, seguido por Aurélio e Sara, ficou sem saber o que fazer.
Ana chorava pedindo socorro e, quando finalmente Rodrigo a soltou, foi desfalecendo e desmaiou.
Enquanto Sara tentava reanimá-la, Aurélio avançou para cima de Rodrigo e o cobriu de murros e pontapés.
Completamente desorientado, ele só fazia apanhar, sem reagir.
Vendo-o quase desmaiado Cássio pediu:
- Pare, Aurélio! Já basta!
Espero que o patife do meu amigo tenha aprendido a lição.
Enquanto Rodrigo, envergonhado e aflito, tentava se levantar e procurar algo para cobrir o corpo, Aurélio aproximou-se de Ana, que continuava desmaiada.
Sara foi-lhe massageando os pulsos e, após alguns minutos, ela recobrou as cores do rosto e voltou a si.
Percebeu que Rodrigo não estava mais no quarto e pensou ter sido vítima de uma alucinação.
Cássio sentou-se ao seu lado.
- Quero que me conte tudo o que aconteceu.
O patife do Rodrigo saiu correndo, mas não me escapa.
Sei que não vai conseguir fugir com o corpo tão machucado.
Ana estava envergonhada, afinal, inicialmente ela cedera.
Resolveu omitir o fato e começou:
- Rodrigo tentou me atacar.
Eu estava quase dormindo quando ouvi batidas na porta do quarto.
Pensando ser Aurélio, fui atender, mas deparei com Rodrigo tentando iniciar uma conversa totalmente sem sentido.
De repente, começou a me acariciar e quando o empurrei, ele voltou-se para mim com toda a fúria.
Se estivesse sozinha aqui em casa nem sei o que teria me acontecido.
Ouvindo a narrativa de Ana, Aurélio bradou:
- Maldito, eu o mato onde o encontrar.
- Não vale a pena, Aurélio - tornou Cássio calmamente.
Rodrigo sempre foi leviano e acostumado a ter todas as mulheres que quis.
Certamente pensou que Ana iria cair em sua lábia e por essa razão tentou seduzi-la.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 23, 2018 7:53 pm

Só não entendo essa violência súbita.
Desde que o conheço nunca o vi nem mesmo insistir quando uma mulher lhe dizia não.
Costumava dizer que aquelas que o rejeitavam não sabiam o quanto perdiam.
Vou conversar seriamente com ele antes que peça para ir embora.
- Faça isso, Cássio, e também faça-o prometer nunca mais nem olhar para Ana ou não sei qual será minha reacção.
Cássio saiu em busca de Rodrigo e o encontrou dirigindo-se com dificuldade para o carro.
A surra de Aurélio fora muito forte e era até provável que o amigo estivesse com alguma fractura.
- Rodrigo, preciso falar com você.
Notando o tom amistoso de Cássio, Rodrigo desarmou-se e começou a chorar.
- O que aconteceu com você, hein?
Dentro de minha casa, desrespeitar minha irmã e ainda tentar estuprá-la?
Esse não é o Rodrigo que eu conheço.
Eu poderia fazer como o Aurélio e esmurrá-lo ainda mais, pois se não tivéssemos chegado, minha irmã teria sofrido com sua violência; contudo, prefiro acreditar que você deve estar com algum distúrbio mental.
Rodrigo só fazia chorar.
Não havia como explicar o que havia acontecido.
A atracção por Ana, o desejo de tê-la nos braços e, por fim, a compulsão criminosa do estupro.
Sentou-se no chão da varanda e, quando os soluços amainaram, balbuciou:
- Desculpe, Cássio.
Não sei dizer o que deu em mim.
Parece que o demónio tomou conta de meu corpo.
- Ora, não diga besteira!
Demónio não existe.
Você deve estar doente.
- Não. Eu estou bem.
Não consigo nem sequer entender a minha atracção imediata por Ana.
Sempre a conheci, convivíamos como se fôssemos irmãos.
Fez pequena pausa, levantou-se e finalizou:
- Só peço que um dia possa me perdoar e que possamos voltar a ser amigos.
Cássio gostava de Rodrigo como se fosse um irmão, e, naquele momento, perder sua amizade seria muito ruim.
Contudo, teria de dar uma dura nele.
Se estivesse doente que fosse se tratar e quando melhorasse poderiam reatar.
Ele agora era o representante dos Caldeiras.
Não poderia deixar um ato como aquele passar em branco.
- Está perdoado, mas não desejo mais vê-lo enquanto não se curar desse problema.
Um homem que do nada tenta estuprar a irmã do melhor amigo não deve estar bem.
Peço que se cuide e nunca mais se dirija a ninguém de nossa família, muito menos a Ana.
Aurélio está com muita raiva e possui uma arma, não sei o que poderia lhe acontecer.
Cássio virou as costas, deixando Rodrigo arrasado.
Ele havia errado, tinha consciência disso, mas não esperava tanta frieza daquele que conhecia desde a infância.
Com dificuldade, foi para o carro, entrou e deu partida.
Mesmo sendo madrugada e tendo o corpo todo dolorido, resolveu enfrentar a estrada.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 23, 2018 7:54 pm

24 - Depressão
Quando Cássio entrou em casa, encontrou Sara esperando-o no corredor.
- Como está Ana?
- Bem. Deixei-a com Aurélio.
Tudo seria melhor, não fosse sua atitude com Rodrigo.
Cássio corou.
Com certeza Sara ouvira a conversa.
- O que você queria que eu fizesse?
Que acobertasse um tarado?
- Ele é seu melhor amigo, Cássio.
Aliás, o seu único amigo.
Todos os outros são uns bajuladores.
Rodrigo merece uma segunda chance.
- Eu não consigo entender sua ingenuidade.
Está indiferente comigo porque expulsei mamãe de casa, uma mulher sórdida, que só quer nossa infelicidade.
E, agora, vem defender uma pessoa que acabou de cometer um ato hediondo?
Sara intimamente pediu orientação a Deus para aquela conversa.
Sabia que Cássio era extremamente materialista e racional, não seria fácil tirá-lo daquele círculo vicioso.
Sua prece rápida, porém sincera, fez com que o mentor dela se aproximasse e a intuísse:
- Eu não sou ingénua como parece.
Vejo os factos da vida com outros olhos.
Não tenho o poder de modificá-lo, mas enquanto eu puder plantar a semente do bem em seu coração, assim o farei.
Com um gesto carinhoso, pegou as mãos do marido e o conduziu até o sofá.
Acomodados, um diante do outro, ela começou:
- Não estou indiferente com você por causa de dona Matilde.
Apenas não concordei com sua atitude e quando não estou feliz não sei fingir.
Acredito que sua mãe é uma pessoa como eu e você, com defeitos, mas também com qualidades.
Dentro da visão dela tudo o que faz é para o bem.
- Então querer destruir a felicidade do filho é um bem?
- O conceito de felicidade dela pode estar equivocado, como também o conceito do que seja bom ou ruim.
Contudo, acredito na reencarnação e quando uma pessoa nos odeia, nos faz mal, nos persegue é porque temos sérios compromissos espirituais com ela.
É provável que tenhamos sido nós que, em vidas passadas, a fizemos sofrer, passar por privações, traumas e dores diversas, que ficaram guardadas no inconsciente dela.
Então quando a vida nos une novamente no palco do mundo, a cobrança é inevitável e inconsciente.
Sua mãe pode estar nos cobrando por erros do passado.
Já pensou? Se isso for verdade, podemos estar sendo injustos com ela e adquirindo ainda mais compromissos perante nossa própria consciência!
O que ela dizia fazia sentido para Cássio.
Apesar de ateu e descrente, ele pôde comprovar que a vida após a morte existia, quando, durante a sessão espírita em sua casa, seu tio comunicou-se dando provas inequívocas da sua identidade.
Aquele fato ficou marcado em sua mente por vários dias, sendo esquecido logo depois.
Ele forçou-se a esquecer, pois admitir que a vida continuava após a morte era também admitir que existia uma força superior comandando o universo, ou seja, teria de aceitar que Deus existia e isso ele jamais faria.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 24, 2018 9:45 pm

Por essa razão, rebateu:
- Essa sua teoria é boa, mas segundo ela deveríamos dar a nossa cabeça ao inimigo, o que foge totalmente ao bom senso.
Quer dizer que precisamos conviver com todos aqueles que odiamos e até deixar que nos façam mal em nome de uma pretensa dívida de vidas passadas?
- Sabia que ia perguntar isso.
Não precisamos nem somos obrigados a conviver com quem nos odeia ou odiamos.
Mas para que possamos nos afastar é preciso que não tenhamos mais nenhuma mágoa em nosso coração, que tenhamos perdoado totalmente essas pessoas, de modo a só existir amor.
Você se afastou de sua mãe com ódio, e esse sentimento aprisiona e faz sofrer.
Ninguém pode seguir adiante, ter felicidade na vida sem vencer o passado.
Por essa razão, devemos fazer tudo para nos reconciliarmos com nossos desafectos, e, mesmo se não pudermos amá-los, devemos não ter para com eles nenhum sentimento negativo.
Esse é o preço da felicidade.
Nesse sentido, se prejudicamos sua mãe no passado devemos, agora, ajudá-la, tentando uma convivência pacífica, harmoniosa, doando amor, carinho, compreensão.
Se quando tivermos tentado de tudo, ela ainda resistir, daí não teremos mais responsabilidade.
Estaremos livres do passado, enquanto ela, por não ter perdoado, vai continuar sofrendo.
- Sabia que você queria trazê-la de volta.
Mas não vou fazer isso.
Não tenho suas crenças, não acredito em nada do que diz.
Só acredito no que vejo e o que vejo é uma mulher de péssima índole querendo me destruir. Esqueça!
- Por causa do ódio e da visão errada que temos das coisas é que a vida nos manda as pessoas mais difíceis para que possamos conviver com elas.
Sempre que vemos defeitos nos outros, estamos, na verdade, olhando a nós mesmos como se fosse num espelho.
Toda imperfeição que percebemos nos outros está primeiro em nós.
Por essa razão, ouso dizer que somos tão maus quanto dona Matilde, já que assim a enxergamos.
Cássio irritou-se.
- Não adianta.
Não há argumento que me faça ceder.
Se quer conviver com ela, vá morar no hotel e me deixe em paz!
Ele ia se levantando quando ela o segurou pelo braço.
- Ainda não terminei.
- O que quer?
- Falar de Rodrigo.
- Não me diga que vai defendê-lo também!
- Vou apenas dizer que tenho a certeza de que seu amigo foi envolvido por espíritos obsessores e só fez o que fez por indução deles.
Se não perdoá-lo, sofrerá muito.
- Agora a culpa é dos espíritos - zombou Cássio.
- Não. Rodrigo deu abertura quando quis se mostrar macho, quando se deixou levar por pensamentos descontrolados.
Mas o resto foi obra dos obsessores.
Vi quando conversavam e percebi que nem ele mesmo sabe por que assim agiu.
Cássio parou um pouco e pensou que poderia ser verdade.
Rodrigo nunca agira daquele modo.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 24, 2018 9:45 pm

- De qualquer forma, não quero mais uma pessoa perturbada por espíritos convivendo connosco.
Basta a tia Marta.
- Se não percebeu, sua tia já está quase curada.
Anda pela casa, pelos jardins, veste-se bem, até come connosco às vezes.
- O médico trocou a medicação.
Deve ser por essa razão.
E o assunto está encerrado.
Venha, precisamos dormir.
Percebendo que não ia adiantar continuar tentando convencer Cássio da realidade, ela calou-se e o seguiu.
Assim que deitou e percebeu que o marido dormia, fez sentida prece a Jesus, pedindo que tocasse sua alma com a chama da fé. Envolvida por energias benéficas, em pouco tempo adormeceu, sem perceber que o espírito deformado de Felício estava mais grudado ao corpo daquele que seria seu pai.
A um canto, Mariano e Melânia conversavam.
- Infelizmente seu sobrinho terá de aprender pelo caminho da dor.
Eu não gostaria que isso acontecesse.
Cássio é fraco, temo que não resista.
- Deus não coloca fardos pesados em ombros leves.
Ele teve toda a chance de aprender pela inteligência e pelo amor por meio das sábias palavras de Sara; no entanto, preferiu o lado oposto.
Na vida é sempre assim.
O sofrimento e a dor só aparecem em último caso, quando foram esgotadas todas as outras formas de aprendizado.
Antes de o mal entrar em nossa vida, seja ele qual for, Deus sempre nos dá vários alertas, provoca situações para que possamos abrir nossa consciência e evoluir sem a necessidade das lágrimas.
Nós é que não aproveitamos.
O que podemos fazer por Cássio é continuar velando por ele, firmes na prece e na fé.
No momento em que ele mudar, estaremos prontos para ajudá-lo.
Mariano compreendeu e com Leonora, que ministrava passes no casal, somou também energias benéficas.
Depois de algum tempo, os três espíritos saíram do local, deixando-o com mais harmonia.
* * *
Assim que recebeu o dinheiro de Matilde, Fabíola partiu para os Estados Unidos, não sem antes brigar com a tia, desejando-lhe toda a sorte de infelicidades e problemas.
Perdendo a companhia da ex-aliada, que nem mesmo queria saber da mãe, Matilde percebeu que ficara só.
Suas amigas, ao saberem do que lhe havia acontecido e que, agora, estava vivendo num hotel sem nenhum conforto, afastaram-se uma a uma.
Pela cidade corria o boato de que Matilde fora flagrada com um dos empregados da fazenda.
Ela sentia na pele o peso do falso moralismo e do preconceito, coisas que estava tão habituada a fazer com as pessoas.
Naqueles dias solitários e de reflexão, a única pessoa que ainda a procurava era o padre Sílvio.
Matilde sentia-se grata, mas ao mesmo tempo, a falta que a fazenda fazia, a convivência com a família que lhe fora tirada, principalmente com a irmã Marta, deixava-a prostrada, sem saber o que fazer nem para onde ir.
Cássio pagava todas as suas despesas e mantinha sua mesada, mas nunca na vida Matilde se sentiu tão só.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 24, 2018 9:45 pm

Contudo, a cada dia ela reflectia mais e percebia que tudo o que lhe acontecera fora provocado por ela mesma.
Não sabia explicar o ódio descomunal que sentia pela nora, o desejo quase doentio de ter toda a fortuna que era de Mariano nem mesmo entendia como chegara a praticar tantas maldades.
Seu espírito estava amadurecendo e ela começava a entender que tudo aquilo era em vão.
Como se arrependia! Se pudesse voltar atrás, faria tudo diferente.
Amava o filho, amava Ana, estava sendo duro ter de viver longe deles.
Nessas horas, os espíritos luminosos acercavam-se dela e a intuíam a procurar pelo filho, pedir perdão, mostrar que havia se modificado.
Contudo, ela logo mudava de pensamento, pois conhecia o temperamento irascível do filho e tinha quase certeza de que não seria perdoada.
Assim, os dias iam passando vazios, cinzentos, até que ela tomou uma decisão:
iria embora da cidade.
Começou a planejar uma viagem, que, contudo não iria acontecer.
A vida faria com que desistisse.
* * *
Em uma manhã de primavera, Cássio abriu os olhos e percebeu que Sara ainda dormia profundamente.
Consultou o relógio sobre o criado-mudo e percebeu que passava pouco das seis da manhã.
O canto dos pássaros e o barulho das copas das árvores mexendo-se ao sabor do vento fizeram com que ele não conciliasse mais o sono.
Abriu a janela e de onde estava observou a imensidão das terras que, agora, eram suas.
Ele não podia saber ao certo onde elas paravam, iam até onde a vista pudesse alcançar.
Sentiu uma tristeza inexplicável e pensou:
Que vida sem graça!
Acordar, ir para o escritório, vistoriar os trabalhos dos usineiros, voltar para casa, jantar, ir para a cama e dormir.
Tudo virou um tédio!
Tentou livrar-se desses pensamentos, mas eles vinham acompanhados de sensações de fracasso, solidão e angústia.
Continuou a pensar:
O casamento de minha irmã se aproxima, mas, de repente, tudo perdeu a graça.
Espero que essa festa passe logo.
Perdi meu melhor amigo, minha mãe me traiu e não presta, só me resta Sara.
Sara!
Ela, apesar de se entregar para mim na cama, olha-me com reprovação.
Não vejo mais admiração em seus olhos quando me observa, deve estar perdendo o amor por mim.
Cássio, que fora dormir na noite anterior muito bem e alegre, acordou vendo a vida em preto e branco, sem saber explicar de onde vinham aqueles pensamentos.
Vendo que não ia mais dormir, foi até a copa.
Como sempre, os empregados já haviam se levantado e preparavam o café.
Aurélio estava com eles e, ao vê-lo, pensou:
Como ele consegue ser feliz levando uma vida tão medíocre?
Não! Ele não pode ser feliz.
Aqui nesta fazenda ninguém é feliz.
Vejo tristeza e solidão em tudo.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 24, 2018 9:45 pm

Vendo-o no limiar da copa com ar pensativo, aproximou-se:
- O que houve, caiu da cama? - falou já mais íntimo do futuro cunhado.
Saindo do estado de torpor que o invadiu, Cássio respondeu:
- Acordei mais cedo que de costume e não consegui mais pegar no sono.
Nunca o barulho da natureza me incomodou tanto quanto hoje.
- Às vezes acontece de acordarmos fora do horário, nosso organismo é meio maluco.
- É. - tornou Cássio sem graça.
Vou tomar uma ducha enquanto o café não fica pronto.
Aurélio notou que Cássio estava alheio e estranho.
Teria brigado com Sara durante a noite?
Se fosse, iria descobrir.
Nunca vira o patrão com um rosto tão sem expressão.
Parecia um morto-vivo.
Enquanto isso, Cássio deixava que a água morna escorresse pelo seu corpo.
Os pensamentos acelerados continuavam:
De que vale tudo isso se vamos morrer um dia?
Que adianta casar, ter filhos, lutar pela riqueza, se vamos terminar em uma cova escura, vencidos pela morte?
A esse pensamento veio-lhe à mente uma cena em que se via claramente dentro do túmulo sendo devorado pelos vermes.
A imagem foi tão forte que seu coração acelerou e ele desligou o chuveiro.
Começou a sentir pânico.
Demorou a se controlar e, por fim, pensou:
O que é isso, Cássio?
Você tem tudo o que precisa para ser feliz, é casado com a mulher que ama, possui fortuna, juventude e beleza, o que quer mais?
Com esse diálogo consigo mesmo, em pouco tempo melhorou.
Quando se trocava, Sara acordou.
- Nossa, meu amor, está apressado hoje, hein?
Já em pé a essa hora?
- Acordei muito cedo e resolvi ir me adiantando.
Quero chegar ao escritório cedo, tenho muita coisa para resolver.
- Deve ser caso de vida ou morte para fazer você chegar naquela usina antes das dez.
Cássio aproximou-se da mulher e a beijou longamente.
Esperou que ela se banhasse e logo os dois estavam com Ana e Aurélio à mesa do café.
Durante a refeição, Cássio pouco falou, o que era completamente incomum, já que adorava conversar e centralizar o papo em si.
Estava tão alheio que não ouviu uma pergunta que Sara estava lhe fazendo, até que foi sacudido por ela:
- Cássio, em que mundo você está? Acorde!
- Desculpe, Sara, eu me distraí.
- Você está estranho.
Notei isso desde que acordei.
O que está acontecendo?
- Nada, meu amor. Levantei cedo, não dormi o suficiente, deve ser isso.
- Você está pálido - observou Ana.
Tem certeza de que está bem?
- Sim, estou.
Não se preocupem, eu nunca adoeci e não será agora.
Levantando-se de chofre, pegou sua valise e disse:
- Preciso ir, já estou atrasado.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 24, 2018 9:45 pm

Sem esperar que alguém respondesse, ele saiu praticamente correndo, entrou no carro e deu a partida.
Ana e Sara deixaram a mesa e o observaram sumir na curva da estrada.
- Meu irmão está com algum problema, tenho certeza.
- Também acho.
Ele esteve muito calado durante o café, e, enquanto se trocava no quarto, percebi em seus olhos um imenso vazio.
Será que é a falta da mãe?
- Faz-me rir, Sara.
Cássio nunca deu tanta importância à mamãe, nunca teve para com ela nenhum tipo de apego.
Pode ser que ele esteja passando por algum tipo de problema na usina.
Vamos aguardar.
Seja o que for, logo saberemos.
Agora, vamos entrar e continuar preparando minha festa.
Sara seguiu a amiga e logo estava entretida com o que fazia, esquecendo-se do problema do marido.
* * *
Cássio passou todo o dia sentindo grande tristeza, que aumentava aos poucos.
No escritório, fez tudo mecanicamente e sem motivação.
Ao voltar para casa à noite parecia que seu peito ia explodir tamanha a angústia que sentia.
Na mesa do jantar pouco falou e sequer observou que sua tia Marta estava com eles comendo normalmente e perguntando muito por Matilde.
Resolveu se recolher cedo e quedou-se num mutismo absoluto.
Não queria conversar, não sentia vontade.
Sara, percebendo que o marido não estava bem, fez ligeira prece, olhou-o fitando o vazio e disse:
- Cássio, você está com um problema, tenho certeza.
Sou sua mulher, sua companheira, tem de se abrir comigo.
Ele ouvia calado, sem ânimo para responder.
Sara continuou:
- Não estou reconhecendo o homem alegre, falante e espirituoso pelo qual me apaixonei.
O que está acontecendo?
Sem conseguir se conter, Cássio prorrompeu num pranto sentido e amargurado, deixando Sara ainda mais preocupada.
Nunca vira o marido chorar em momento algum, apenas no dia do desencarne de Mariano, mas, ainda assim, era um pranto conformado, brando, nem de longe era o mar de lágrimas que ele derramava agora.
- Cássio, pelo amor de Deus!
Você descobriu que está doente?
Só pode ser isso.
Até onde sei os negócios vão bem, temos muito dinheiro.
Só pode ser doença. Diga-me.
Ele bradou:
- Deixe-me em paz, Sara!
Deixe-me em paz!
- Como posso deixá-lo em paz se você não está em paz?
Nunca o vi desse jeito.
Não me esconda se estiver doente, vamos lutar pela cura.
- Não estou doente, apenas descobri que a vida é sem graça, chata, que não há motivos para continuar na luta se vamos todos adoecer e morrer um dia.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 24, 2018 9:46 pm

Sara estava impressionada.
Cássio falava com veracidade como se aqueles pensamentos fossem realmente seus e ela pôde perceber que o marido havia entrado em depressão e provavelmente sem motivo. Tentou ajudar:
- Você não pensa assim nem acredita nisso.
Deve estar dessa forma por ter brigado com dona Matilde e ter rompido a amizade com seu melhor amigo, quase seu irmão.
- Eu não sei explicar, só sei que descobri que não vale a pena viver.
A preocupação tomou conta de Sara.
Enquanto ele disse a última frase ela sentiu um arrepio estranho e nítida sensação de que havia um espírito com eles no quarto.
Provavelmente o espírito que estaria plantando a semente do pessimismo em Cássio.
Sara sabia, pelas leituras que fazia e até por alguns casos que havia visto na região, que algumas pessoas envolvidas por depressões fortes, oriundas de obsessões de espíritos desencarnados, haviam perdido a alegria, a força de viver e chegaram mesmo ao ato do suicídio.
Será que havia realmente alguém do mundo espiritual interessado em fazer Cássio se matar?
A esse pensamento sentiu um calafrio.
Tentou elevar o pensamento, olhou para o marido e disse:
- Cássio, você é um homem feliz, realizado, de bem com a vida.
Esses pensamentos não são seus.
Tire-os da sua mente.
- Não consigo e não quero.
A gente vai amadurecendo e percebendo que a vida não é o mar de rosas que pensávamos a princípio.
As responsabilidades, as traições dos amigos, a falta de amor acabam com toda a motivação.
- Mas você sempre gostou das suas responsabilidades, adora ser empresário, lidar com os negócios que foi de seu tio.
Seu amigo não o traiu, ele foi movido por um ato compulsivo, estava fora de si, e sua mãe fez tudo pelo seu bem.
O que você precisa é reconsiderar, mudar sua forma de pensar, senão vai amargar uma depressão profunda.
O espírito deformado de Felício, que era a causa da depressão de Cássio e queria vê-lo cometer o suicídio, percebeu que Sara estava ganhando terreno e fazendo o marido reflectir.
Por essa razão, lançou-se sobre ela com muito ódio apertando o seu pescoço.
Sara sentiu uma ligeira tontura seguida de um mal-estar, mas, intuindo o que estava acontecendo, reforçou seu pensamento em Deus e uma luz azulada a envolveu, arremessando Felício para longe.
O espírito vingativo bradava:
- Maldita! Mil vezes, maldita.
Com você posso não conseguir nada, mas com ele consigo tudo.
É materialista, imoral, falso.
É um prato cheio.
Ele se matará ou sugarei todas as suas energias até levá-lo ao desencarne.
Não adianta rezar.
Dizendo isso, voltou a colar-se ao corpo de Cássio e fez com que ele tivesse raiva da esposa.
- Você não me compreende.
Está do lado das pessoas erradas, nem deve me amar mais.
Por favor, vamos dormir.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 24, 2018 9:46 pm

- Espere, Cássio, ainda não terminamos de conversar.
- Não quero mais ouvir sua voz por hoje. Respeite-me.
Cássio virou-se e fechou os olhos.
Pela sua mente passavam os pensamentos mais depressivos possíveis.
Era uma obsessão, que se continuasse acabaria por desequilibrar as substâncias químicas do cérebro responsáveis pelo humor e ele entraria em uma depressão crónica de difícil tratamento.
Um espírito obsessor com desejos de vingança é uma sentinela em alerta vinte e quatro horas, esperando descobrir as fraquezas e os pontos fracos do seu desafecto, para assim prejudicá-lo.
Assim sendo, percebemos o quanto é importante a prática da oração diária, da renúncia às atitudes negativas e, principalmente, do controle mental no esforço de pensar e acreditar sempre no bem.
A obsessão campeia pela Terra principalmente pela mente dos encarnados viciados no pessimismo.
Vendo que não conseguiria mais nada com Cássio naquela noite, Sara resolveu se calar e, mais uma vez, orar a Deus, pedindo aos espíritos superiores que protegessem seu marido e dessem assistência a quem o estivesse fazendo mal.
Confiante na bondade divina e refeita pelo poder da prece, ela adormeceu.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 24, 2018 9:46 pm

25 - Caminhos do amor
Nos dias que se seguiram, Cássio piorou sensivelmente.
O espírito de Felício, aliado a outros obsessores, o fazia entrar em um poço profundo de tristeza e ele foi perdendo o resto da vontade que tinha de ir para o trabalho, chegando a ponto de ficar prostrado na cama durante todo o dia.
Vendo que a situação se agravava e caminhava para o pior, Sara chamou Rafael para uma consulta.
Quando o médico chegou, encontrou-o deitado, lágrimas escorrendo pelo rosto e olhos fixos num ponto indefinido.
De tão dominado que estava pelo estado depressivo, deixou-se levar pela análise do médico sem dizer quase nada ou fazer algum gesto.
Ao final, Rafael lhe perguntou:
- Você quer mesmo melhorar, Cássio?
Seja sincero.
- Não, eu quero morrer.
- Mas você não vai morrer, vai voltar a ser o jovem feliz e activo de antes.
Quero que me prometa não dar trabalho e tomar a medicação na hora certa.
Desejo que saiba que esse seu estado não é seu, você passa por um momento de turbulência emocional, mas tudo voltará ao normal.
Cássio permaneceu calado.
Rafael, vendo que de nada adiantaria continuar conversando, saiu do quarto e chamou Sara e Ana.
Já na sala, ele foi sincero:
- Sei que você acredita e vivência a doutrina espírita, por essa razão tenho a liberdade de dizer que seu marido está sofrendo a acção de espíritos obsessores, cujo objectivo estamos longe de conhecer.
Receitei algumas medicações que, a princípio, vão ajudar, mas, se ele não for tratado espiritualmente, voltará ao estado de antes ou talvez pior.
Em psiquiatria chamamos isso de pacientes refractários, com os quais a medicação não faz efeito, justamente por ser um processo altamente obsessivo.
- O que poderemos fazer por ele? - perguntou Sara preocupada.
- Conheço o Cássio, ele é fraco nesse sentido, não acredita em nada e dificilmente vai se ajudar.
- Isso torna as coisas piores.
A descrença e a falta de fé são os piores inimigos do homem, até mais do que o egoísmo e o orgulho, pois aquele que acredita na vida e tem fé é humilde e caridoso.
Você precisa fazer o mesmo que fez com dona Marta.
O caso dela era pior e, no entanto, hoje ela está muito bem.
Em todos os casos de obsessão não há outra recomendação além da prece constante, da mudança de pensamentos do obsediado e, quando possível, um diálogo com os espíritos que estão movidos pelo ódio.
- Vou procurar dona Rosana.
Ela precisa vir aqui e fazer outra reunião como aquela.
- Faça isso.
Tenho acompanhado os estudos em sua casa e vejo como ela é honesta no que faz e tem alta moral.
- Mas e quanto aos remédios?
Se é obsessão não será inútil usá-los?
- De forma alguma.
A medicação bloqueia a acção obsessiva e poderá impedir por um tempo que o problema atinja o corpo físico.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 24, 2018 9:46 pm

Mas, se o problema é apenas obsessivo, se a pessoa não for tratada pelo lado espiritual, ele retorna, chegando a ponto de a medicação de nada adiantar.
Além de tudo, seu marido é médium.
Quando ficar bom deverá estudar melhor o assunto.
- Médium?
Cássio é médium? - perguntou Sara.
- Claro! Todos somos médiuns, uns mais, outros menos, porém em alguns essa faculdade é mais evidente.
Todo obsediado é médium, se não fosse, os espíritos não conseguiriam fazer nada.
- Mas ele, do jeito que é, nunca vai aceitar isso, muito menos trabalhar com a mediunidade.
- Esse é um erro que muitas pessoas cometem.
Por ter mediunidade, ninguém é obrigado a trabalhar com ela.
O sexto sentido é parte integrante da natureza, todos o possuem em maior ou menor grau para facilitar a própria evolução.
Só têm de trabalhar com a mediunidade aqueles que vêm com o chamado mandato mediúnico.
Esses geralmente sentem espontaneamente a vontade de servir ao próximo e o fazem com muito prazer.
O que ocorre é que muitos centros espíritas por não estudarem bem o assunto ou até mesmo para aumentar o número de frequentadores da casa, começam a dizer que todos aqueles que têm sintomas de mediunidade devem trabalhar, servindo aos espíritos.
Com isso, criam muitos problemas, porquanto os médiuns sem nenhum preparo ou condição se lançam nas reuniões mediúnicas com total descontrole ou passam a ser fascinados por espíritos, que lutam para comprometer a causa espírita.
- Não sabia que isso acontecia.
- Porque você vive aqui onde não tem casas espíritas.
Contudo, eu venho da capital e conheço muitas.
Já vi muitos dirigentes de centros espíritas trabalharem com médiuns despreparados só porque eles um dia apareceram na casa com alguma perturbação espiritual.
Essas pessoas acabam acreditando que precisam trabalhar e, na maioria das vezes, começam dando comunicações completamente anímicas em que o próprio inconsciente do médium se manifesta e todos acreditam que sejam espíritos que estão se comunicando.
- E por que a espiritualidade superior permite que isso aconteça?
- A espiritualidade superior tenta evitar, mas muitos dirigentes e trabalhadores dos centros espíritas são vaidosos e gostam de quantidade, de casa cheia.
Muitos deles dizem que para ser espírita é obrigatório frequentar um centro espírita, desenvolver algum trabalho, só para dizer que a casa que dirigem está crescendo por ter muitos frequentadores.
Os mentores, mesmo assim, continuam ajudando e fazendo o que podem para evitar os abusos, mas, infelizmente, onde impera a vaidade há um campo aberto para a entrada de espíritos altamente inferiores, e o que vemos hoje são muitos centros espíritas mal assistidos.
Sara continuou:
- Eu pensei que para ser espírita de verdade teríamos de frequentar um centro espírita.
Sempre comentava com mamãe a falta que um centro espírita com dirigentes sérios fazia em nossa cidade.
- Concordo. Kardec nos disse que se reconhece o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelo esforço que faz em domar suas más tendências.
De que adianta frequentar um centro espírita, estudar, ler, fazer trabalhos na casa e não se modificar interiormente?
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 24, 2018 9:46 pm

A casa espírita existe sobretudo para o espírita e todos aqueles interessados em conhecer a espiritualidade aliviarem as dores de sua alma.
A frequência a um lugar como esse deve ser feita espontaneamente.
Ninguém é menos espírita porque não vai ao centro espírita.
Somos espíritas quando acreditamos nessa doutrina consoladora, melhoramo-nos como seres humanos e, consequentemente, melhoramos o mundo.
Sara percebeu que Rafael tinha razão.
Voltando ao assunto de Cássio, ele disse:
- Procure Rosana ainda hoje, siga seus conselhos.
Tenho certeza de que se seu marido for tocado pela força divina conseguirá se curar.
- Obrigada, doutor, farei isso.
Depois que Rafael saiu, Sara pediu que Aurélio e Ana redobrassem a vigilância sobre Cássio.
Saiu e foi para a casa de Rosana.
Lá chegando, foi recebida com alegria.
- Minha menina, quanta saudade!
- Digo o mesmo, dona Rosana, mas infelizmente vim procurá-la por causa da dor e não simplesmente porque me lembrei da senhora.
Sinto-me envergonhada em dizer isso, mas estou sendo sincera.
- Não se preocupe, Sara.
Podemos não nos ver sempre, mas sabemos que nosso afecto é sincero.
O que está acontecendo?
Com lágrimas nos olhos, Sara contou tudo e por fim pediu:
- Gostaria que a senhora fosse novamente com sua equipe lá na fazenda fazer uma nova sessão de desobsessão.
Creio ser a única maneira de ajudar na cura de Cássio.
Rosana pensou um pouco e disse:
- Talvez não seja necessário a equipe da desobsessão ir até lá.
Podemos fazer o trabalho daqui mesmo.
- Verdade?
- É. Os espíritos estão em todos os lugares e podem ser atraídos para toda a parte.
Algumas vezes nossos mentores nos instruem a ir a determinados lugares, quando é necessário e quando uma reunião extra vai fazer bem a toda a família, como foi no caso de sua tia Marta.
Naquela noite, todos reflectiram e inclusive Cássio pôde comprovar que a vida continua após a morte.
Quando as pessoas estão amadurecendo e podem dar mais um passo na senda evolutiva, eles dão todas as provas necessárias.
Contudo, entrarei em contacto com nossos maiores e falaremos sobre o problema pedindo orientação.
Se eles disserem que será melhor uma reunião na fazenda, com certeza, iremos.
Com a sua tia Marta, fizemos lá só uma sessão, o resto do trabalho continuamos aqui.
Hoje posso dizer que estou muito feliz, pois os espíritos que a perturbavam resolveram ceder ao bem e perdoar.
Os olhos de Sara encheram-se de lágrimas.
De facto, Marta estava muito bem, deixara de ter as crises e já convivia com todos dentro de casa.
Apenas continuava com o pensamento um pouco confuso e a voz embolada como sequela dos tratamentos a que foi submetida por tanto tempo.
Sara despediu-se de Rosana na esperança de que ela fizesse o melhor com os espíritos.
Ao passar pela cidade sentiu uma forte vontade de ver Matilde.
Quem sabe ela poderia ajudar?
Apesar de tudo, não lhe guardava ódio e sabia do seu amor por Cássio.
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