Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 24, 2018 9:47 pm

Talvez se ele se reconciliasse com a mãe já iniciasse o processo de recuperação.
Por essa razão, quando passava diante do hotel onde ela estava hospedada, Sara resolveu entrar.
Falou rapidamente com a recepcionista e foi directo ao quarto da sogra.
Deu leves batidas na porta e pôde notar a surpresa no rosto de Matilde ao se certificar de que era realmente ela.
- O que quer?
- Posso entrar um pouco?
Precisamos conversar.
- Meu quarto está uma bagunça, melhor que fale daí.
- Dona Matilde, o assunto é sério, não vou me importar com a desarrumação de seu quarto e não posso falar aqui fora.
Peço sua compreensão e insisto para que me deixe entrar.
Matilde já não tinha mais raiva de Sara, nem de ninguém.
Modificara-se e se pudesse faria tudo diferente.
Contudo, não sabia o que a nora queria ali.
Cássio estava com raiva dela, provavelmente a teria mandado para dizer-lhe alguma coisa negativa, provavelmente o corte de sua mesada.
Mas deixou que Sara entrasse.
Impressionada com a quantidade de malas que viu pelo quarto, Sara perguntou:
- A senhora está mudando de hotel?
- Não. Estou mudando de cidade.
Vou-me embora.
- Custa-me acreditar, a senhora teria coragem de deixar tudo aqui e partir?
- Não me restam mais alternativas.
Meu filho e minha filha me odeiam e sei que você me odeia também.
Minhas amigas, após o que me aconteceu, abandonaram-me.
Estou completamente só, não há mais motivos para que eu permaneça aqui.
Pelo tom de voz, Sara percebeu que Matilde falava a verdade.
Sentiu um aperto no peito que não sabia de onde vinha e que se Matilde partisse para sempre ela perderia uma grande oportunidade, e todos iriam sofrer mais.
Sua intuição lhe dizia isso.
Pegou as mãos da sogra e fez com que se sentasse na cama.
- E se eu lhe pedir para que a senhora fique?
- Não tenho motivos para atender ao seu pedido.
- Tem sim.
Sei que a senhora ama aquela fazenda, ama seus filhos, sua irmã.
Não sei quais foram os motivos para que seu coração tenha ficado tão endurecido esses anos todos, mas não posso julgá-la.
O que sei é que podemos recomeçar, passar uma borracha em tudo, esquecer e viver em paz.
- Você fala como se fosse fácil.
Mas eu conheço a natureza do meu filho, é incapaz de perdoar.
Além de tudo, Ana vai se casar com Aurélio. Sabendo que eu e ele fomos amantes seria impossível vivermos sob o mesmo tecto.
- Sei que não é fácil, dona Matilde, mas temos de tentar, e sei que aos poucos vamos conseguir.
Basta a senhora querer.
- Já lhe disse que não tenho motivos.
- Mas terá a partir de agora.
Vim aqui lhe pedir ajuda. Cássio está gravemente enfermo e, se a senhora não contribuir, não sei o que será dele.
Matilde ficou pálida.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 24, 2018 9:47 pm

Cássio sempre fora um touro na saúde.
Nunca pegava nem resfriado.
Assustada, perguntou:
- O que ele tem?
Diga-me, pelo amor de Deus.
- Cássio entrou em depressão profunda há mais de duas semanas.
No começo tentou se ajudar e ainda ia ao escritório, mas com o passar dos dias prostrou-se na cama e só sai de lá para tomar banho ou comer alguma coisa depois que insisto muito.
A usina está nas mãos do Luciano, um antigo funcionário.
Tem falado em morte e temo que se mate.
- Meu Deus!
Como isso aconteceu?
- Não sei dizer, só sei que ele precisa da nossa ajuda e, principalmente, que a senhora mostre que realmente mudou e que o ama.
Matilde começou a chorar enquanto dizia:
- Essas doenças mentais são genéticas, deve ter puxado à Marta.
E se ele enlouquecer como a tia?
- A senhora sabe que o problema de sua irmã era espiritual, tanto que já está bem e quase recuperada.
O mesmo acontece com Cássio.
Ele está sendo assediado por espíritos infelizes.
Matilde calou-se.
Sabia que o caso da irmã fora uma obsessão e se Sara afirmava que com Cássio acontecia a mesma coisa, devia ter algum fundamento.
Sara continuou:
- Doutor Rafael já foi consultá-lo, ele vai tomar alguns remédios, mas tenho certeza de que não vai melhorar como o esperado.
Hoje fui procurar dona Rosana e ela garantiu que vai nos ajudar.
- O que posso fazer pelo meu filho?
Se eu for para lá é capaz de me expulsar a pontapés.
- Garanto que isso não vai acontecer.
Cássio não está em condições de fazer nada.
- Mas ainda há a Ana e o Aurélio.
Como vou encará-los?
- Da maneira mais natural possível.
A senhora teve um envolvimento com ele que durou até quando deu.
Ele apaixonou-se por sua filha e vocês terminaram a relação.
Agora, é só aceitar e seguir adiante.
Matilde estava corada.
Sara falava como se tudo fosse muito natural.
- Você não sabe como é difícil para mim voltar lá, principalmente encarar os meus filhos depois que eles souberam que eu me deitava com o mordomo.
Que respeito terão por mim?
- O respeito que devem a uma mãe.
A senhora não fez nada de errado.
Sentiu-se atraída por Aurélio e entregou-se a ele com o desejo de ser feliz, de aproveitar.
Tudo é muito natural.
Se Ana e Cássio tiverem algum preconceito quanto a isso, eles é que estarão errados.
A senhora ficou viúva jovem, é natural que tenha sentido falta do amor e procurado por ele à sua maneira.
Matilde cada vez mais se admirava com Sara e arrependia-se de ter-lhe feito tanto mal.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 24, 2018 9:47 pm

- A inda assim, Ana não verá com bons olhos minha presença.
A todo instante pensará que quero lhe roubar o marido.
- O que a senhora sente por Aurélio?
Aquela pergunta ousada e directa pegou Matilde de surpresa, mas ela não titubeou.
- Não sinto mais nada.
Durante o tempo em que permaneci aqui sozinha reflecti muito sobre a vida e sobre mim mesma.
O que me atraiu em Aurélio foi sua juventude, a aventura, a beleza.
Mas passou, hoje o vejo como um homem qualquer.
- Então não há o que temer.
A senhora está sendo sincera e quando somos sinceros enviamos energias equivalentes para as pessoas que sentem isso e correspondem.
A princípio, Ana poderá não gostar, mas com o tempo verá que entre ele e a senhora já não existe mais nada, e a confiança voltará a ser restabelecida.
- Você pode ter razão.
Mas sempre acreditei que quando perdemos a confiança em alguém nunca mais voltamos a tê-la.
Quem acreditará em minha mudança?
- Essa é uma crença errada que as pessoas cultivam porque ainda não amadureceram espiritualmente.
Por que não podemos voltar a confiar nas pessoas?
Será que elas nunca podem mudar e passar a ser verdadeiras?
Quando não confiamos nos outros é porque não confiamos em nós mesmos.
Vemos no outro o espelho do que realmente somos.
Eu acredito na senhora e sei que mudou de verdade, sinto isso.
O ser humano é mutável e está sempre evoluindo, creio que a vez da senhora chegou e não é indo embora, fugindo, que vai provar alguma coisa.
É quando enfrentamos os problemas que eles se resolvem.
Então, vem comigo?
Tocada pelas palavras de Sara, Matilde deixou que lágrimas teimosas rolassem pelo seu rosto enquanto a abraçava.
- Perdoe-me, Sara, perdoe-me por tudo o que lhe fiz e pensei em fazer.
Eu deveria estar doente quando agi daquela forma, possuída pela posse, pelo ciúme, pelo ódio.
Hoje percebi que quem mais perdeu fui eu.
- Ninguém perde nada nesta vida, porque nós não possuímos nada.
A senhora não possuía ciúme, posse ou ódio, pois nenhum filho de Deus possui em si tais sentimentos.
Nós os sentimos momentaneamente e, envolvidos por essas ilusões, achamos que os possuímos e que somos assim.
Mas ninguém nesta vida é mau ou possui sentimentos maus.
Somos todos ignorantes das verdadeiras leis de amor que regem o universo e, com isso, iludimo-nos, equivocamo-nos.
Mas chegará a hora do retorno à casa do Pai para a senhora e todos nós.
Não tenho o que perdoar, pois não possuo esse poder.
A única pessoa que pode nos perdoar somos nós mesmos.
Por essa razão, perdoe-se por sua ignorância e liberte-se para uma nova vida.
Matilde estava renovada com aquelas palavras.
A partir daquele momento faria tudo para estar em paz consigo mesma e com os outros.
Só ela poderia fazer aquilo.
Por essa razão, seguiu com Sara, de cabeça erguida, sem medo de enfrentar a realidade.
Naquele momento, o plano espiritual festejava.
Aquelas duas almas, inimigas de uma vida anterior, finalmente haviam se perdoado e a partir dali seguiriam pelos abençoados caminhos do amor.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 24, 2018 9:47 pm

26 - O desaparecimento
Ao ver Sara e Matilde entrarem juntas pela porta principal da casa, Ana assustou-se e, por instantes, pensou estar sendo vítima de uma alucinação.
Voltando a si, olhou para as duas com curiosidade.
- Posso saber o que está acontecendo e o que a senhora quer aqui?
Matilde ia responder, mas, a um sinal de Sara, calou-se.
- Sua mãe veio aqui para ajudar o seu irmão e voltará a morar nesta casa.
- Você só pode estar brincando, Sara.
- Nunca fui tão verdadeira.
Cássio está doente, precisa de toda a família unida ajudando em sua recuperação.
Ele pode não admitir, mas um dos motivos que o levaram a entrar nessa depressão foi o rompimento definitivo com a mãe.
Sinto que Cássio não ficou bem ao expulsar dona Matilde daqui.
No fundo, queria que as coisas fossem diferentes e que a mãe não tivesse desejos de prejudicá-lo ou a você.
- Mas você sabe que Cássio estava certo - tornou Ana com entonação de raiva na voz.
Mamãe nunca gostou de ter perdido a herança para você e nunca aprovou sua união com ele.
Chamou Fabíola para acabar com sua felicidade e estava disposta a destruir também minha relação com Aurélio.
Como você teve coragem de trazê-la novamente aqui depois de tudo?
- Dona Matilde está arrependida e pretende provar que mudou.
- E você acredita?
Sempre pensei que fosse inteligente o suficiente para não cair nas armadilhas dessa aí.
- Eu acredito sim, e sei que a presença de dona Matilde aqui será providencial.
Sei que tem todos os motivos para desconfiar; contudo, acredito em minha intuição, vi em seus olhos que está arrependida realmente.
Se quer saber, sua mãe estava de malas prontas para ir embora da cidade.
Iria fazer isso sem ninguém saber.
Ana não acreditava em nada daquilo e achava que Sara havia caído em mais um jogo da mãe.
Se Matilde voltasse a morar na fazenda tudo seria pior, ainda mais agora, que ela iria se casar com Aurélio, seu ex-amante.
Com esses pensamentos disse furiosa:
- Sinto muito, mas você terá de escolher.
Se mamãe voltar para esta casa, eu saio.
Aurélio tem um óptimo apartamento em Cuiabá e não pensarei duas vezes antes de ir para lá, até mesmo sem me casar.
A decisão é sua.
- Não seja tão inflexível, Ana.
Todos merecem uma segunda chance.
- Pelo visto já tomou mesmo sua decisão.
Espero que não se arrependa amargamente depois.
Quero lembrá-la de que mamãe e papai já tentaram envenenar tio Mariano, só não conseguiram por um pequeno descuido.
Gosto muito de você e vou torcer para que não seja a próxima vítima.
Não precisa preocupar-se comigo e com Aurélio, faremos nossas malas e iremos embora daqui o mais rápido possível.
Ana rodou nos calcanhares e saiu da sala sem que Sara pudesse falar mais nada.
Olhou para Matilde, que tremia e tinha os olhos rasos d ’água.
- Eu sabia que isso iria acontecer.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 24, 2018 9:47 pm

Acho melhor ir embora.
Se Ana, que sempre foi mais cordata me tratou assim, como não me tratará o Cássio?
- Não se precipite pela imaturidade e ciúme de Ana.
Como lhe disse, Cássio não está em condições de dizer nada, a senhora verá.
Sara conduziu Matilde até o quarto onde Cássio mantinha-se deitado, olhos fixos no tecto, deixando uma lágrima vez por outra descer dos olhos.
Quando Matilde viu a figura do filho tomou um choque.
Cássio havia emagrecido muito, os cabelos estavam desalinhados, não havia brilho no olhar.
Definitivamente aquele não era o homem que ela havia colocado no mundo.
Só a interferência espiritual poderia explicar aquele estado.
Vagarosamente foi se aproximando da cama, pegou em uma das suas mãos e disse:
- Filho? O que aconteceu?
Você era tão feliz. - Matilde tinha a voz trémula e estava bastante emocionada.
Cássio virou o rosto mecanicamente e encarou a mãe. Sua fisionomia foi mudando e, de repente, começou a falar de maneira agitada:
- Perdoe-me, perdoe-me!
Se você não me perdoar irei para o inferno novamente, serei devorado pelos vermes, os monstros vão me perseguir. Perdoe-me!
Era notável que Cássio havia piorado bastante e estava aos poucos perdendo a razão.
Matilde, chorando, retrucou:
- Não tenho o que lhe perdoar, filho.
Eu é que preciso pedir-lhe perdão por ter desejado sua infelicidade.
Fui uma mãe ruim, omissa, interesseira.
Nunca soube amá-lo de verdade.
Ele parecia não haver escutado o que ela havia dito e, já sentado na cama, com os olhos bastante abertos, continuou:
- Você confiava em mim, achava que estaria amparada para sempre, que se casaria e seria muito feliz.
Mas eu lhe tirei tudo, matei todos, todos!!!
De repente, ele fez pequena pausa e parecendo mais assustado, gritou:
- Eu matei você!! Eu matei você!!
Como pode estar agora falando comigo?
Matilde sentiu uma sensação ruim.
Enquanto o filho dizia aquelas palavras desconexas e aparentemente sem sentido, ela foi se sentindo angustiada e teve a nítida sensação de que algo nelas era verdadeiro.
Contudo, não disse nada à Sara.
Vendo que ele havia se acalmado e voltado à posição de antes, chamou a nora a um canto e disse temerosa:
- Meu filho perdeu a razão.
Isso não é depressão, é loucura.
Conheço bem, pois lidei com Marta a vida inteira.
O que vamos fazer?
Sara também estava muito preocupada.
Antes de sair de casa havia deixado Cássio depressivo, mas lúcido.
- Precisamos continuar mantendo a calma.
Eu sei que ele não está louco, está envolvido por espíritos obsessores.
Até certo ponto é comum que fique assim.
Vamos orar pedindo a Deus auxílio e protecção.
As duas iniciaram uma prece em voz alta, mas logo Matilde, levada pela emoção, tomou a frente e começou a falar com Deus sozinha:
- Senhor, sei que sou uma pessoa errada, pecadora, não aceitei amar os filhos que tu me deste neste mundo para orientar.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 25, 2018 9:10 pm

Mas ouve o pedido de uma mãe aflita, vendo um filho consumir-se em uma doença triste, sofrendo sem solução.
Envia teus anjos para curá-lo, Senhor, e entregarei minha vida a ti.
Matilde chorava sentidamente e Sara, abraçada a ela, também rogava pela saúde daquele a quem tanto amava.
Sem que elas percebessem o quarto se encheu de luz.
Não a luz dos espíritos bons que ali já estavam assistindo àquele drama, mas a luz de suas próprias auras, que, em prece sincera, haviam se tornado brilhantes e radiosas.
Ana e Aurélio, que a tudo observavam pela porta entreaberta, ficaram estupefactos.
Perceberam que de facto Matilde havia se tornado outra pessoa.
Por essa razão, entraram no quarto e, ainda no clima da prece, Ana olhou para a mãe com emoção.
- Perdoe-me, mamãe pelo que disse ainda há pouco.
Pude perceber que a senhora está mudada.
Nunca a vi fazendo uma prece tão sincera e profunda como esta.
Sei que, assim ora, não está com maus pensamentos no coração.
Abrace-me.
Mãe e filha se abraçaram emocionadas, enquanto Aurélio, a um canto, observava, sem saber como agir.
Sentia receio que com Matilde morando com eles seu casamento pudesse não ser tão feliz quanto ele imaginara.
Contudo, resolveu não pensar mais nisso.
Que o tempo se encarregasse disso.
O que mais importava agora, era a saúde de Cássio, que se havia agravado muito naquelas últimas horas.
O telefone tocou e ele foi atender.
Voltou ao quarto dizendo:
- É para você, Sara, é a dona Rosana.
Sara apressou o passo e logo estava falando com a amiga:
- Como foi bom a senhora ter ligado neste momento.
Cássio piorou muito. Agora, em vez da depressão, parece que enlouqueceu.
Só a fé em Deus tem nos sustentado.
- Continue com fé.
Fizemos uma reunião especial com nossos mentores e eles autorizaram uma nova reunião na fazenda.
Amanhã, às sete da noite, estaremos iniciando.
Fique atenta e vigie Cássio o máximo que puder.
Os espíritos nos avisaram que os irmãos infelizes que o obsidiam, sentindo nossa presença, farão de tudo para desequilibrá-lo ainda mais.
Sem a oração constante ficará mais difícil nossa actuação.
- Agradeço-lhe por tanta boa vontade. Deus a abençoe.
- Agradeça a Deus, minha querida.
Só Ele, com seu poder, transforma a nossa vida.
A conversa terminou e Sara contou a todos sobre a reunião que seria no dia seguinte.
Como já era noite e ninguém quis jantar, recolheram-se mais cedo em prece.
Antes de ir para seu antigo quarto, Matilde pediu:
- Quero ficar no quarto com meu filho.
- Não precisa.
Ele está quieto e parece dormir.
Se algo acontecer garanto que a chamo.
- Tem certeza de que deseja ficar sozinha?
- Sim. A senhora também precisa descansar e dormir.
Como disse, se precisar vou até o seu quarto.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 25, 2018 9:11 pm

Assim, as luzes da fazenda foram se apagando pouco a pouco e logo um silêncio intenso tomou conta do ambiente.
Na verdade, ninguém conseguia conciliar o sono e a prece era o recurso que usavam para manterem-se em equilíbrio.
***
Quando os primeiros raios de sol penetraram pela cortina, Sara acordou e, num sobressalto, percebeu que Cássio não estava na cama.
Sentiu uma sensação de medo e correu até o banheiro.
Ele não estava lá.
Assustada e, prevendo uma catástrofe, vestiu-se rapidamente e foi gritando o nome do marido pelo corredor.
Ainda era muito cedo e ninguém havia se levantado, mas logo todos estavam acordados e nervosos com o estado de Sara.
Olhando para eles e com voz trémula ela bradou:
- Cássio sumiu!
Não está no quarto, não está na casa.
Algo terrível aconteceu.
- Acalme-se, Sara - disse Aurélio compassivo.
Esta casa é grande e ele pode estar em qualquer lugar.
- Tenho certeza de que não está, Aurélio, não adianta procurar.
Cássio fugiu.
- Ele não estava em condições de ir a lugar algum - ponderou Ana.
Mal conseguia andar.
- Tenho certeza do que estou falando.
Vamos reunir todos os trabalhadores e procurar Cássio por toda a fazenda.
No estado em que está não duvido que faça uma besteira e tire a própria vida.
Matilde, preocupada, ficou sem saber o que fazer ou dizer.
Na verdade, ela não se sentia com direito à palavra, parecia que aquela não era a casa em que havia vivido tanto tempo e em que fora acostumada a mandar.
Preferiu calar-se num choro mudo e angustiado, esperando a melhor solução.
De repente, Ana gritou assustada:
- Meu Deus, o rio! Se ele quiser se matar é para lá que vai.
Sara empalideceu.
- Então vamos todos para lá.
Enquanto os empregados e alguns peões seguiam em direcção ao rio, Aurélio, devidamente intuído pelos espíritos superiores, resolveu ligar para Rodrigo.
Mesmo que os amigos estivessem com a amizade rompida, ele sentia que Rodrigo tinha de saber o que estava acontecendo e talvez até ajudar.
Nessa hora, Aurélio engoliu o orgulho e o ciúme e, em prol de Cássio, contou tudo o que havia acontecido com ele ultimamente, solicitando a presença de Rodrigo imediatamente até Boa Esperança.
Depois, seguiu com os outros.
Ao chegarem ao rio uma decepção:
Cássio não estava lá, ou talvez estivesse no fundo das águas.
O pânico tomou conta de todos e ninguém sabia o que fazer, até que Sara decidiu:
- Quem souber nadar deve mergulhar e procurar por todo o rio.
Essas terras são imensas e ele pode ter ido também a outro lugar.
Vamos nos dividir em grupo e procurar.
Eu vou ficar por aqui esperando.
Alguns homens mergulharam, enquanto Aurélio, com outro grupo, seguiu na direcção oposta.
Como não havia plantações nem criações de animais, as terras da fazenda, principalmente ao seu redor, eram feitas de campos de flores e plantas diversas, onde se destacava um imenso campo de girassóis cuidadosamente cultivado pela beleza que produzia.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 25, 2018 9:11 pm

Era no meio dos girassóis que Cássio estava.
Havia acordado por volta das três da madrugada totalmente mediunizado e, agindo com cautela, foi até o velho depósito, pegou uma corda grossa e embrenhou-se pelos campos.
O espírito de Felício, sabendo que a reunião mediúnica iria se realizar, tratou de agir antes, e induziu Cássio ao suicídio.
Ele, pelas imperfeições morais que mantinha, o cultivo de pensamentos materialistas e, principalmente, a falta de fé em Deus e na vida, oriundas do ateísmo, deixou-se conduzir como marionete nas mãos de seus obsessores.
Vez por outra, Cássio saía do corpo e via sua real situação.
Percebendo o que ocorria e, achando que suas crenças materiais caíam por terra, chorava e pensava em orar a Deus.
Mas não conseguia articular palavra, pois não podia dirigir-se a um ser que na sua concepção não existia.
Atribuía à vida fora do corpo algum mistério científico ainda não descoberto e custava-lhe admitir a realidade divina.
Assim, seu fim estava realmente próximo.
Seguindo a sugestão de Felício e, praticamente repetindo palavra por palavra o que ele dizia, Cássio pensava:
Eles vão me procurar de manhã cedo, mas ninguém desconfiará do campo dos girassóis, vão directo ao rio.
Ficarei aqui até que desistam e me deixe em paz para que eu possa amarrar uma pedra a esta corda e me jogar no fundo das águas.
Assim, ele se pôs a esperar.
Enquanto isso, Rodrigo chegava à fazenda.
Sabendo que quase todos estavam no rio seguiu para lá.
Encontrou Matilde, Sara e Ana sentadas nas pedras, observando o correr das águas na angustiosa expectativa de os mergulhadores aparecerem.
Ao verem Rodrigo se espantaram, mas ele logo se explicou:
- Sei que não deveria estar aqui depois do que fiz.
Mas não poderia ficar de braços cruzados sabendo que meu amigo corre perigo de vida.
Vim para ajudar e só descansarei quando encontrar Cássio vivo.
- Como você soube o que estava acontecendo? - perguntou Sara curiosa.
- Aurélio me telefonou assim que todos saíram de casa para procurar Cássio.
Sei que deve ter sido difícil para ele fazer isso, mas prova que é uma boa pessoa e está interessado na vida do cunhado.
Aproveito o momento e volto a pedir perdão a todos vocês, principalmente a você, Ana.
Hoje, analisando friamente, vi que não estava em mim quando tentei seduzi-la.
Nem sei por que exactamente fiz aquilo.
Espero que me perdoe e, quando tudo estiver bem com Cássio, possamos voltar a conviver como sempre.
Esse tempo longe de meu melhor amigo fez-me perceber o valor de uma verdadeira amizade.
Jurei para mim mesmo que a reconquistaria.
Ana sentiu a veracidade das palavras de Rodrigo e retorquiu com carinho:
- Por mim, está perdoado.
Não é de hoje que nos conhecemos, praticamente nos criamos juntos, fiquei muito decepcionada com sua atitude, mas hoje posso compreendê-la.
Rodrigo, num gesto espontâneo, abraçou-a fortemente, sentindo a emoção de ser novamente amigo daqueles a quem tanto amava.
Terminado o abraço, ele disse:
- Não posso ficar aqui parado sem nada fazer.
Conheço Cássio e sei todos os lugares desta fazenda a que ele costuma ir.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 25, 2018 9:11 pm

Vou agora mesmo procurá-lo e garanto a vocês que vou encontrá-lo.
Depois disso, darei minha vida para que ele fique bem e se recupere.
Rodrigo saiu caminhando ligeiro e logo desapareceu por entre a vegetação.
Pouco tempo depois, os homens que mergulharam no rio à procura do patrão apareceram dizendo:
- O corpo não está aqui, senhoras.
Se ele fez besteira a correnteza já deve ter levado para longe.
Matilde começou a soluçar em desespero.
Eriberto continuou:
- Vamos continuar procurando até encontrar.
Se o patrão se jogou no rio, mais cedo ou mais tarde encontraremos seu corpo.
Sara, mesmo com um pouco de nervosismo, equilibrou-se e ordenou:
- Continuem procurando. Serão regiamente recompensados.
Façam tudo, mas achem Cássio.
- Não estamos fazendo isso interessados em recompensa, dona Sara.
Gostamos do patrão, admiramos seu jeito de lidar com a gente, de como se dedica àquela usina.
É um grande homem, não merecia um fim desses.
Agora, dê-nos licença, continuaremos a procurar.
Os homens foram seguindo pela margem até que, a uma longa distância, voltaram a mergulhar.
Sara decidiu:
- Não tem sentido ficarmos aqui.
Voltemos à fazenda e esperemos notícias lá.
As outras duas a acompanharam e logo estavam de volta a casa.
***
Rodrigo não sabia ao certo onde procurar.
As terras eram muito extensas e chegava em determinado ponto em que a mata era fechada.
O velho Mariano não tinha maiores interesses em produzir coisa alguma por ali e, praticamente, abandonara todos os cuidados com boa parte do grande terreno.
Resolveu que não iria entrar naquela mata sozinho, sem protecção.
Foi andando de volta à casa-grande quando passou pelo imenso campo dos girassóis.
De repente, lembrou-se da infância.
Ele, Cássio e Ana costumavam brincar ali de esconde-esconde.
Bons tempos aqueles, pensou.
O espírito de Leonora, que caminhava com o rapaz, colocou a mão direita sobre sua testa e intuiu:
- Procure no campo dos girassóis.
Cássio pode estar lá.
Por estar preocupado com o amigo e pedindo a Deus uma solução, Rodrigo captou fielmente a intuição de Leonora e pensou:
Devo procurar no campo dos girassóis.
Cássio pode estar ali. Ia entrando na grande plantação quando pensou:
Isso é bobagem, quem quer se matar não vem para uma plantação de flores.
Sem dar-se por vencida, Leonora continuou:
- Ele está aqui.
Você é o instrumento de Deus para conduzir nosso irmão à cura.
Entre, não custa nada tentar.
Captando os pensamentos dela como se fossem seus, Rodrigo resolveu tentar.
Podia ser uma bobagem, mas algo lhe dizia que o amigo poderia estar ali.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 25, 2018 9:12 pm

Foi caminhando devagar e, ainda intuído por Leonora, avistou Cássio todo encolhido, chorando, segurando uma pedra.
Emocionado, gritou:
- Cássio! Meu Deus!
Você está vivo!
Foi correndo ao encontro dele que, assustado, esquivava-se e tentava correr gritando:
- Saia daqui, deixe-me em paz.
Você é um traidor, nunca foi meu amigo.
Eu quero morrer, deixe-me morrer em paz.
Rodrigo correu também e o alcançou.
Começou entre os dois uma luta corporal.
Logo, Rodrigo conseguiu imobilizá-lo devido à sua fraqueza e, com a corda amarrou suas mãos, dizendo:
- Você não vai morrer, meu amigo.
Esta vida é linda, cheia de coisas boas.
Foi você quem me ensinou a vivê-la e vai continuar vivendo com todos os que o amam por muitos e muitos anos.
Amarrado, e sem conseguir soltar-se, Cássio parecia não ouvir, só gritava:
- Solte-me, seu demónio, ou não responderei por mim.
Quero morrer, esta vida não vale nada.
Vendo que não conseguiria travar um diálogo sensato com o amigo que mostrava estar completamente alienado, Rodrigo foi empurrando-o com força até que, no pátio da fazenda, começou a gritar para alguém ajudá-lo.
Logo apareceram alguns trabalhadores que ajudaram a imobilizá-lo totalmente e conduziram-no à cama.
Vendo o filho gritando e todo amarrado, Matilde não conseguia conter o choro.
Sara também chorava, mas agradecia a Deus por Rodrigo tê-lo encontrado com vida.
Cássio debatia-se com violência sobre a cama, afrouxando as cordas, e ninguém sabia o que fazer para acalmá-lo, até que Rodrigo sugeriu enérgico.
- Precisamos ligar para o doutor Rafael e pedir que ele venha com urgência até aqui.
Cássio, infelizmente, está louco e só um psiquiatra poderá tratá-lo.
Não se importando com as últimas palavras de Rodrigo, Sara correu ao telefone e chamou o psiquiatra.
Uma hora depois, Rafael chegou à fazenda e, vendo o estado do doente, aplicou-lhe forte sedativo.
Olhou para o rosto dos presentes e disse:
- Ele ficará dormindo por muitas horas.
O suficiente para se darem o início e o término da reunião.
Aurélio, que já estava presente, questionou:
- Mas ainda é meio-dia e a reunião será só à noite.
O efeito do remédio não vai durar tanto.
- Além de ter vindo para medicar o Cássio, vim também trazendo um recado de dona Rosana.
Ela avisou que fará a sessão à tarde, a pedido dos próprios amigos espirituais.
Ela tentou falar por telefone, mas ninguém atendeu.
Não ficou surpresa com o que Cássio fez, garantindo ser a interferência dos obsessores.
- Mas estamos numa quarta-feira, à tarde as pessoas trabalham.
Como poderão vir para a reunião?
- Será uma sessão íntima e dona Rosana seleccionou apenas dois médiuns para essa tarefa, médiuns que poderão estar connosco hoje à tarde sem problemas.
O médico ia se despedindo quando Sara convidou:
- Almoce connosco, doutor.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 25, 2018 9:12 pm

O senhor voltará à tarde e será cansativo fazer esse longo percurso duas vezes.
Por que não fica aqui desde já?
- Se não for incómodo.
Hoje não tenho mais consultas.
- Incómodo algum. Será um prazer para nós, se bem que com tudo isso acontecendo acredito que ninguém esteja com fome.
Rafael sorriu:
- Então faremos um pequeno lanche.
Nas horas difíceis da vida não podemos nos deixar levar pela onda desordenada sob pena de piorarmos a situação.
Ficar sem se alimentar em nada vai ajudar Cássio.
Todos concordaram e foram para a mesa.
Enquanto lanchavam, os pensamentos inquietos não paravam de fluir.
Na mente de cada um, a pergunta era a mesma:
a reunião mediúnica teria possibilidade real de ajudar Cássio?
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 25, 2018 9:12 pm

27 - A reunião espírita
Foi com grande alívio que Sara, Ana, Matilde e Aurélio receberam Rosana e sua equipe na fazenda.
- A senhora não sabe o bem que está nos fazendo.
Só a presença de vocês nos conforta e dá confiança.
- Fique tranquila, minha querida, tudo vai dar certo.
Tenho alguma experiência e acredito que o caso de seu marido será facilmente solucionado.
As subjugações aparentam ser difíceis de curar, mas, na maioria das vezes, são as mais fáceis.
Difícil mesmo são as obsessões subtis, as fascinações de que tantas pessoas são vítimas e que as deixam tão envolvidas que recusam ajuda, achando que estão sempre certas.
Essas são as piores.
- Deus a ouça, dona Rosana.
Não aguento mais ver o Cássio sofrendo tanto.
- É preciso aprender uma coisa sobre o sofrimento das pessoas que amamos.
Embora seja desagradável vê-las passar pela dor, sofrer junto, entrar em depressão, desespero e perder a fé em nada vai ajudá-las.
Quando alguém que amamos está sofrendo devemos pedir auxílio a Deus e ficar equilibrados, pois só assim os ajudaremos de verdade.
- Sei que é verdade, mas na hora da prática é difícil.
- Mas a fé não ficou para as horas onde tudo é alegria e prazer.
Ela existe para ser usada justamente nos momentos em que a tempestade nos alcança.
O homem de fé recebe as dores da vida com serenidade no olhar, tranquilidade no coração e confiança na alma.
É preciso confiarmos integralmente na Fonte da Vida, que faz tudo para o nosso melhor; sem isso, fatalmente cairemos.
As palavras de Rosana calaram fundo dentro do coração dos presentes.
Eram três horas da tarde quando os médiuns sentaram-se à mesa com a família e, após breve oração inicial, abriu-se O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Rafael leu o texto intitulado Bem e Mal Sofrer e fez pequeno comentário, em que salientou que apenas depende de nós deixarmos o sofrimento de lado, extirpando de nossa alma todo o traço de maldade, pessimismo e ignorância.
Garantiu que quanto mais lúcida das coisas espirituais a pessoa for, menos ela vai sofrer e terá uma vida verdadeiramente abençoada sobre a Terra.
Em seguida, Rosana pediu assistência aos espíritos superiores e direccionou o pensamento dos médiuns a Cássio, pedindo que ficassem concentrados e em prece.
Alguns minutos se passaram até que um médium deu violento soco na mesa e gritou:
- Malditos! Mil vezes, malditos.
Tudo fiz para levar esse infeliz para as trevas e vocês vieram se intrometer.
Mas garanto que nada conseguirão fazer e eu o seguirei eternamente até levá-lo ao vale da morte.
Ele tem uma dívida comigo e deverá pagá-la até o último centavo.
Rosana, pedindo inspiração a Deus, começou um diálogo:
- E se eu lhe disser que ninguém deve nada a ninguém, você acreditaria?
O espírito deu uma gargalhada zombeteira.
- Vejo que a senhora é uma louca, que não tem senso das coisas.
Todos são devedores e nós somos os credores, temos o direito de cobrar até o fim.
E fique certa de que eu cobrarei.
Assim que me soltarem deste corpo, voltarei a me colar a ele e, desta vez, será para sempre.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 25, 2018 9:12 pm

- Qual é a razão do seu ódio e o motivo pelo qual julga que ele lhe deve algo?
- Ele me matou!
O espírito fez um silêncio e depois continuou:
- Ele me matou com requintes de crueldade.
Não me deixou viver.
Logo eu que tanto precisava dessa chance.
Sentia-se um tom de lamento na voz daquele ser sofredor.
Rosana continuou:
- Você diz que ele o matou, mas eu estou conversando com você agora.
Se você estivesse morto, isso não seria possível.
Como você explica o que está acontecendo?
- Como a senhora é ignorante!
Ele quis matar meu corpo físico quando eu ainda estava dentro do ventre de minha mãe.
Rejeitou-me desde o começo por causa da sua vida sensual e material e, por fim, levou minha mãe a uma clínica e fez com que ela abortasse.
Meu corpo ainda estava vivo quando foi retirado do útero, mas ele ordenou que o médico me estrangulasse.
Oh! Que sofrimento passei naquele instante.
Nunca sofri tanto.
Felício agora chorava, relembrando os trágicos momentos do aborto, mas o ódio persistia:
- Levei muito tempo agarrado à minha mãe.
Senti que fazia mal a ela, pois a coitadinha tinha constantemente dores de cabeça e no abdómen, além de dormir mal e ter pesadelos.
Mas eu não sabia para onde ir nem queria partir com uma equipe que me procurava falando do perdão e que eu deveria me restabelecer para conquistar a paz.
Não aceitava, pois no meu coração só existia e ainda existe o ódio por esse ser infeliz, que me prejudicou.
No começo, não sabia como encontrá-lo tão imantado estava à minha mãe, mas, assim que chegamos a esta fazenda, reconheci-o imediatamente e, ajudado pelos meus amigos justiceiros, consegui me acercar dele e deixá-lo como está.
Ouvindo tudo isso a senhora ainda acha que ele não me deve nada?
- Eu prefiro não julgar ninguém, mas uma coisa eu sei:
não existem vítimas sobre a Terra.
Cada pessoa passa pelo que é necessário, a fim de aprender a ser bom, humano, humilde, e, principalmente, a perdoar.
Você já parou para analisar por que atraiu essa experiência tão dolorosa?
- Não atraí nada, fui uma vítima.
E pelo visto a senhora quer justificar um crime.
- Não quero justificar nada.
Um crime é um ato hediondo que vai contra as leis cósmicas e todo aquele que o comete terá de repará-lo um dia.
Contudo, só passa pelo sofrimento a pessoa que dele necessita, pois se assim não fosse, Deus seria injusto.
Cássio não deve nada a você, mas sim à própria consciência, que um dia saberá fazer com que ele repare seu erro da melhor forma possível, assim como você não deve nada a esta pessoa, olhe.
Rosana estava com mão direita aberta sobre os olhos do médium e Felício via naquela mão uma pequena tela onde surgiam algumas imagens.
Ele se viu vestido com um jaleco branco num rico consultório ginecológico.
Uma moça, acompanhada de uma senhora elegantemente vestida, insistia para que o médico, amigo da família, retirasse de seu ventre um filho indesejado, fruto de uma relação ilícita.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 25, 2018 9:12 pm

Felício relembrou que àquela época ele nunca havia feito um aborto em ninguém, mas Fabíola ofereceu-lhe uma vultosa quantia pelo serviço e ele cedeu.
Logo, as cenas do aborto eram mostradas e Felício viu-se com um feto já quase todo formado em suas mãos.
Olhou para a moça e disse-lhe que seu filho ainda estava vivo, mas que ele iria matá-lo ali mesmo, livrando-se do fardo em seguida.
Foi mostrada a cena em que Felício estrangulava a criança e, pouco tempo depois, Fabíola, voltando para lhe agradecer e dar-lhe o restante do dinheiro combinado.
Depois disso, ele nunca mais fez nenhum aborto e até mesmo se havia esquecido desse ato.
Por essa razão, naquele momento entrou num choro convulsivo.
- Eu não lembrava mais disso, foi há muito tempo, eu era jovem, queria dinheiro.
Fui tentado e caí.
Meu Deus, como pude ser tão mau?
- Você foi ignorante, meu irmão.
Nada justifica um aborto, mas, no seu caso específico, aconteceu como efeito desse seu ato passado.
Você precisava aprender a valorizar o dom da vida.
Se Cássio foi mau, você também foi.
Se você precisa de perdão ele também precisa.
Então, vai continuar a persegui-lo?
Ele fez longa pausa e, por fim, respondeu:
- Depois do que vi é impossível.
Sou tão devedor quanto ele.
- Esqueça a palavra devedor.
Como já lhe disse, ninguém deve nada a ninguém.
Somos responsáveis por tudo o que fazemos, desde as pequenas até as grandes coisas, por essa razão a Lei de Justiça sempre nos chama a viver experiências muitas vezes dolorosas, mas que são o remédio para as feridas da nossa alma.
Vá em paz, meu querido, siga com essa enfermeira que está ao seu lado e trate-se com amor para que possa recuperar sua forma adulta e um dia voltar à Terra para recuperar-se de seus enganos.
Deus o abençoe.
Houve uma pequena pausa na reunião, mas notava-se que todos estavam em reflexão.
A conhecida história do aborto que Cássio obrigou Fabíola a fazer tempos atrás estava clara ali e era o abortado quem cobrava aquilo que julgava uma dívida.
Cada um meditou a respeito das próprias atitudes e, reconhecendo a perfeição da Justiça Divina, prometeram para si mesmos caminhar a partir dali na senda do bem.
A outra médium, uma jovem com no máximo trinta anos,
deu um leve suspiro e começou a falar:
- A bondade de Deus permitiu que todos estivessem aqui
hoje reunidos para que eu tivesse a chance de contar algumas verdades que se escondem no véu do esquecimento.
Há muito tempo, na Rússia dos czares, viveu um senhor muito rico, dono de inúmeras propriedades e terras, amigo do czar desde os tempos da juventude.
Já o havia acompanhado em muitas das suas caçadas e participado com sua filha Matilde e seu filho Cássio, de muitos bailes no palácio imperial.
A mansão em que o senhor Mariano morava em São Petersburgo, era de uma riqueza invejável e de beleza sem igual.
Contudo, ele havia ficado viúvo muito cedo.
Amara uma moça pobre, porém muito ambiciosa, que o trocou por um conde com o dobro de sua riqueza, partindo com ele.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 25, 2018 9:13 pm

Essa moça era Leonora.
Desiludido, Mariano uniu-se a Melânia, sobrinha do czar, num casamento de interesses, mas a jovem morreu, deixando-o na solidão.
As crianças foram crescendo e não se davam bem de forma alguma.
Cássio desde cedo, mostrou-se egoísta e interesseiro.
Exigia que o pai lhe desse mais brinquedos e roupas do que para a irmã, o que sempre acontecia, pois Mariano era muito afeiçoado ao filho, dando pouca ou quase nenhuma importância à mocinha Matilde, que já com quinze anos estava prometida a Ivan, um lindo rapaz por quem era apaixonada e conhecido nesta vida como Aurélio.
O tempo foi passando e Kira, hoje conhecida como Ana, filha de uma irmã de Mariano passou a morar na casa, pois se tornara bailarina do balé imperial e precisava viver na capital, saindo da pequena província onde morava com a mãe.
Kira fez muito sucesso como bailarina, mas era uma desregrada no campo do sexo.
Querendo abafar os escândalos que ela fazia, Mariano começou a procurar-lhe um rapaz para casamento, e qual não foi a surpresa quando o jovem Ivan, noivo de Matilde, admitiu-se apaixonado por Kira, desejando casar e ir embora dali para que tudo se resolvesse.
Mariano queria sossego para a família e não se importou quando desfez o casamento da filha para dar o noivo à sua sobrinha.
Foi a primeira grande decepção de Matilde, que não entendia por que o pai a tratava com tanta indiferença.
Forçou-a a viver reclusa em seu quarto, saindo apenas para as refeições.
Até que um dia Mariano comunicou aos filhos uma novidade:
iria se casar novamente.
Havia encontrado uma mulher muito bonita, que vinha de uma família falida, mas com algum status perante a corte.
Não seria um mau casamento.
Quando Sara foi apresentada à família, todos ficaram em choque.
Além de bonita, ela era muito jovem.
Matilde sentiu que Sara estava interessada no dinheiro do pai, mas, como não tinha voz na casa, ficou calada e aceitou tudo.
O casamento foi feito com muita pompa e toda a sociedade russa comentava a beleza da noiva e sua meiguice.
Pouco tempo depois do casamento, Cássio, que se havia apaixonado por Sara desde o primeiro momento, sentindo que era correspondido, tomou-a como amante.
Ambos traíam Mariano dentro da imensa mansão, embora ninguém desconfiasse.
A ambição de Cássio casou-se perfeitamente com a de Sara, que queria ver a família de volta aos tempos de luxo.
Após um ano de casado, Mariano teve de receber a irmã Marta em casa, pois ela havia cometido um crime grave, tinha queimado uma moça viva por ciúmes do seu marido, que a abandonou logo após o acontecimento.
Marta estava chorosa e temia a justiça, mas Mariano e o czar conseguiram livrá-la, e o crime passou impune.
A família contava com Mariano, Matilde, Marta, Kira, Ivan, Cássio e Sara.
A fortuna era grande, mas quando fosse dividida para todos igualmente, como queria Mariano após sua morte, ficaria uma parte não muito grande para cada um.
Ambiciosos, Cássio e Sara queriam tudo, e esse desejo aumentou quando Mariano, tocado pelo remorso de nunca ter dado nenhuma atenção à filha, que já estava noiva do conde Guilherme, resolveu fazer um testamento doando grande parte dos bens para o casal.
Cássio soube de tudo e fingiu aceitar, mas seu ódio o consumia dia e noite.
Unido a Sara durante as madrugadas em que se amavam, acabaram por decidir que todos deveriam morrer para que a herança ficasse apenas com eles.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 25, 2018 9:13 pm

Dando início ao plano, procuraram o médico Rodrigo e combinaram que se ele fornecesse atestados de óbito comprovando que a família Gorky fora vitimada por uma doença contagiosa, ganharia grande quantia em dinheiro e algumas propriedades.
O médico aceitou.
Sara e Cássio, sem que ninguém percebesse, começaram a colocar uma poção causadora de febre maligna e mortal na água que todos bebiam, tendo o cuidado de separarem os recipientes com água pura para eles.
Assim, um a um, todos adoeceram.
A febre ia matando-os aos poucos e Rodrigo dizia que a família devia ter sido contagiada por alguma doença desconhecida e mortal.
Todos morreram, e esse estranho acontecimento, que veio a vitimar apenas uma família em toda São Petersburgo, foi comentado e até investigado pelo czar.
Mas a poção não deixou resíduos nos corpos.
Sara e Cássio ficaram muito ricos e, um ano depois, casaram-se numa rica festa no palácio imperial, concedida pelo czar, em reconhecimento aos muitos anos de amizade com Mariano.
Como queriam a riqueza só para si, o casal evitou ter filhos e morreram em idade avançada num acidente.
A família de Sara herdou a riqueza, que foi dilapidada em pouco tempo.
Quando acordaram no umbral, os dois começaram a ser perseguidos por figuras bizarras, animais deformados, lobos com olhos faiscantes, que beliscavam seus perispíritos, causando-lhes feridas horríveis.
A família já estava em uma colónia de paz e os havia perdoado, excepto Matilde, que, por tudo o que passara, desenvolveu uma grande revolta pela vida e pelas pessoas, principalmente por Sara, que considerava a mentora de tudo.
Décadas se passaram em que Cássio e Sara vagaram pelo umbral com o corpo deformado.
Até que, um dia, o arrependimento os tocou e eles começaram a chamar por Deus.
Julgavam estar no inferno, atirados às penas eternas, mas ainda assim pediram clemência ao Criador pelos seus sofrimentos.
Foram resgatados e levados a intenso tratamento num hospital correccional.
Quando estavam em equilíbrio, envergonhados e com remorso, encontraram-se com toda a família.
O mentor Sérgio os reuniu, dizendo que Deus lhes iria dar uma nova chance para que vencessem os pontos fracos e se perdoassem de verdade.
Renasceriam no Brasil numa fazenda no interior do Mato Grosso e novamente possuiriam imensa fortuna para testar sua ambição.
Na espiritualidade aprenderam que na Terra ninguém é dono de nada e que os bens que todos possuem são empréstimos de Deus para accionar seus processos evolutivos.
Mariano reencontrou Leonora e ela também se mostrou muito arrependida por ter trocado o grande amor de sua vida pelo dinheiro.
Por essa razão, renasceria pobre e Mariano deveria vencer o orgulho de ter sido rejeitado e aceitá-la desta vez como esposa.
Sara seria filha dos dois e Matilde a reencontraria na mesma família para que se perdoassem e aprendessem a conviver sem rancor.
Sara e Cássio programaram que morreriam cedo, assim que se casassem, para que a fortuna ficasse para quem tinha realmente direito: Matilde.
Ela aceitou e os três se abraçaram com carinho antes do reencarne.
Matilde seria mãe de Cássio para aprender a amá-lo de verdade e ele, por sua vez, amá-la também, já que, como irmã não desenvolveu esse sentimento.
Kira aceitou ser filha de Matilde com a condição de Ivan, seu grande amor, estar por perto para auxiliá-la nos momentos das provações pelo sexo e, finalmente, Mariano, que seria o chefe de toda a família, deveria ser justo e distribuir tudo igualmente como combinado na espiritualidade.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 25, 2018 9:13 pm

Melânia renasceria para ser amiga da família e fazer um casamento feliz.
Contudo, na Terra depois de reencarnados, sentindo as energias do mundo físico, todos se voltaram para sentimentos negativos e se equivocaram mais uma vez.
Mariano, em vez de se casar com Leonora, preferiu dar-lhe o troco inconscientemente, abandonando-a e casando-se por interesse.
Sara, que fatalmente iria entrar para a família quando reencontrasse Cássio, estava realmente modificada e pronta para doar tudo a Matilde, quitando assim seu compromisso com a própria consciência.
Contudo, ao se encontrar mais uma vez na Terra com Sara, Matilde provou que não a havia perdoado de verdade e, em vez de amá-la, passou a odiá-la com todas as forças.
Sempre ambicionou a fortuna da família, pois no seu inconsciente tudo era seu.
Cássio, que escolheu estudar a espiritualidade, voltou a ser avaro e ateu como sempre, aumentando seus compromissos com as leis cósmicas.
Mas nada será perdido.
Ana e Aurélio vão se casar e ela vencerá as más tendências no campo do sexo.
Matilde finalmente perdoou Sara e aprendeu a amar Cássio incondicionalmente.
Leonora e Mariano aprenderam que, acima de todas as conveniências e tentações do mundo, deve pairar o amor, e, de agora em diante, nunca mais vão se separar.
Sara, com sua nova postura diante da vida, realmente modificada e voltada para Deus, ganhou longos anos de vida na Terra.
Sua missão será reconduzir Cássio ao aprisco do Pai.
Com a fortuna que tem em mãos será intuída a desenvolver um belo projecto assistencial no planeta, que servirá de referência de trabalho
ao bem para as gerações futuras.
Nem Sara nem Matilde são herdeiras de nada, pois a única herança que realmente possuímos são as nossas atitudes, o bem que fazemos ao próximo e a nós mesmos.
Cássio será curado e talvez se torne um novo homem, desperto para a divindade que mora dentro dele e para o Criador, que tanto o ama e o chama constantemente.
Que a paz do mestre Jesus permaneça nesta casa hoje e sempre!
Um espírito amigo.”
A reunião foi encerrada com uma prece de agradecimento e, naquele momento, todos tiveram uma única reacção:
abraçaram-se com muito amor e carinho, como que a dizer que realmente o mal havia sido esquecido e, a partir dali, reinaria só o amor.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 25, 2018 9:13 pm

Epílogo
Os anos passaram e o tempo varreu todos esses acontecimentos.
Matilde corria pelos jardins da fazenda com ar de cansada pelo peso da idade, mas seu rosto estava feliz ao gritar pelo neto:
- Felício! Volte aqui, Felício!
Olha que se eu o pegar, vou lhe dar umas palmadas!
A criança corria ainda mais e escondia-se por entre as palmeiras.
Por fim, cansada de correr, achegou-se aos braços da avó.
- Vovó Matilde, quando o papai vai voltar, hein?
Estou com saudades.
- Ah, meu querido, você sabe que papai tem viajado muito com mamãe para trabalhar, não é?
- É, mas eu sinto muita saudade dele.
- E da mamãe?
Não sente saudade da mamãe?
- Claro, vovó, é que papai Cássio me dá muito mais brinquedos que a mamãe.
Matilde sorriu gostosamente dizendo:
- Interesseiro!
Começou a ventar forte e, como o sol já estava se escondendo, ela resolveu entrar com Felício.
A criança era alérgica e contraía gripe com facilidade.
Ao chegar à sala encontrou Ana contando histórias para Letícia sua filhinha da mesma idade de Felício.
As crianças se juntaram e começaram a fazer algazarra, distraindo-se com os livros.
Quando Matilde sentou-se com a filha no sofá, ela comentou:
- Mamãe, sabe do que eu estava me lembrando?
- Do quê?
- Das descobertas que fizemos naquela reunião seis anos atrás.
- Eu também me lembro sempre.
oi uma graça que Deus nos concedeu em saber a verdade.
Nem todos conseguem descobrir o que foram e fizeram em outras encarnações.
- É que Deus só permite essas revelações quando elas vão beneficiar a todos os envolvidos e também quando as pessoas já estão maduras para isso.
- É muito engraçado.
Eu, que tanto odiei Mariano, fui sua filha anteriormente.
Você era minha prima e, agora, é minha filha.
Marta era minha tia e hoje é minha irmã.
- E Cássio, que era seu irmão, agora, é seu filho.
Sara, esposa de tio Mariano é, agora, sua nora.
- Deus faz tudo certo.
Hoje entendo que tudo deveria ser exactamente como foi, e até Cássio mudou a forma como encara a vida.
Depois de ter sido curado daquela obsessão deixou de ser ateu.
- Mesmo sabendo que ele e Sara foram ambiciosos e praticaram o mal, não guardo nenhuma mágoa, fui tocada pela chama do bem.
- Tempos depois ainda descobrimos que Fabíola foi filha de tia Marta, assim como é hoje.
Foi ela que procurou aquele médico para abortar.
Nessa hora, Felício olhou para as duas com uma cara assustada.
Depois, virou-se e continuou a brincar.
Matilde continuou:
- Falando em médico, o próprio Rodrigo compreendeu que havia sido o médico responsável pelos óbitos falsos.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 25, 2018 9:14 pm

Agora, está terminando o último ano do curso de medicina.
Entendeu que deve reparar o mal que fez exercendo a profissão com seriedade e amor.
- Quem diria que Rodrigo iria deixar aquela vida boémia, casar-se e ser médico?
- Conhecer a espiritualidade transforma a vida de qualquer um.
Fiquei muito feliz em vê-lo casado e pai, já estava na hora.
A conversa das duas foi interrompida pela chegada de Cássio e Sara.
A alegria tomou conta de todos, especialmente de Felício, que correu a abraçar o pai.
Cássio o segurou no colo e disse:
- Meu amorzinho, papai trouxe um montão de brinquedos para você.
- Trouxe aquela girafa que mexe o pescoço e come a folha da árvore?
- Sim, claro!
E trouxe também o parque do rinoceronte, que você tanto queria.
- Oba, oba!
O menino beijou o pai com muita alegria.
Sara, enquanto abraçava Matilde e Ana, disse:
- Esse aí ainda vai estragar essa criança.
- Como foi o trabalho com as ONGs?
- Belo como sempre.
Desde que iniciamos esse projecto de cuidar de crianças órfãs e encaminhá-las para adopção me sinto renovada.
Sinto que é para isso que Deus nos deixou a fortuna, para fazer o bem ao próximo por meio do progresso que fazemos ao meio em que vivemos.
Mas estamos apenas começando.
Vamos criar muitas ONGs em todo o país e, com a fé que temos no universo, muitas crianças carentes encontrarão um lar em que poderão ser felizes, sem que nada lhes falte.
Só lamento ter de passar alguns dias longe de meu Felício.
- É por uma causa nobre.
- Sim. No futuro, teremos assistentes suficientes para podermos ficar o máximo possível aqui na fazenda.
Afinal, aqui também tem muito trabalho.
Além da usina, colocamos todas aquelas terras que estavam sem uso para produzir e com isso criamos muitos empregos e demos condições de vida a muitas pessoas, que sonhavam com um pedaço de chão para cuidar e tirar o sustento.
Não quero sair deste lugar por nada deste mundo.
Aurélio acabava de entrar e foi saudado por Cássio.
- Como está nossa querida usina?
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 25, 2018 9:14 pm

- Progredindo como sempre.
Nunca pensei que de simples mordomo poderia virar administrador!
Até que tenho me saído bem.
- Excelente, Aurélio, excelente!
A família se reuniu em torno da mesa para o jantar.
Tempos depois, quando Felício já estava dormindo, Cássio e Sara foram para a janela do quarto e observaram o céu estrelado, recebendo o frescor da brisa.
- Olhando a beleza desse céu, o equilíbrio desses astros, a beleza deste universo, não posso mais negar a existência de Deus.
Como pude ser tão cego?
- Eu não sei dizer, pois não consigo entender como alguém pode não acreditar na existência de Deus.
Cássio olhou para Sara com amor e disse:
- Uma das provas de que Deus existe é esse sentimento que nos une.
Um amor assim só pode ter nascido no seio de Deus.
- Todo amor verdadeiro nasce de Deus.
Por essa razão, nunca vou cansar de repetir: eu o amo!
- Eu também a amo.
Como nunca amei ninguém nesta vida.
Ele fez uma pausa e rectificou:
— Só amo uma pessoa com essa intensidade: meu querido Felício.
Naquele momento, uma luz muito forte surgiu a um canto do quarto e, envoltos nela, estavam Leonora e Mariano.
Olhando para o casal, ela disse:
- Não pode haver felicidade maior no mundo do que ver a felicidade do nosso semelhante.
- Eu sei de uma felicidade maior, é ver o ódio transformar-se em amor.
- Refere-se a Felício?
- Sim. Agora ele ama Cássio que, por sua vez, o ama também.
São os milagres da reencarnação.
- Eu diria melhor:
são os milagres do amor divino.
Os dois espíritos radiosos ficaram observando o casal e ouviram quando Cássio disse:
- Meu maior desejo é viver para sempre ao seu lado, eu, você, Felício e todos os outros filhos que Deus nos mandar.
- Eu também, meu amor.
É tudo o que mais quero.
De repente, uma estrela cadente fez-se notar no lindo céu estrelado como que a dizer que o desejo deles seria atendido.
Vendo aquele belo espectáculo e sentindo a emoção do momento, Cássio deixou que uma lágrima escapasse de seu olho e corresse teimosamente por sua face.
Estavam felizes!

Fim

§.§.§- Ave sem Ninho
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Ave sem Ninho

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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

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