Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 14, 2018 8:31 pm

Aurélio sorria intimamente por ver Matilde naquela situação.
Ele vira quando Sara havia chegado com o padre e quando a moça entrara na sala.
Na ingenuidade, Matilde maltratara aquela cujos pés teria de beijar.
Ainda bem que tudo iria se modificar e ele não precisaria mais fazer sexo com Matilde como Mariano ordenara.
Mas ainda faltava a parte principal do plano, que era fazer com que Cássio os flagrasse na cama.
Mariano queria que o sobrinho perdesse todo o respeito pela mãe.
Cássio, por outro lado, não poderia mandá-lo embora da fazenda por exigência do testamento.
Aurélio sorria feliz!
No quarto, Sara olhava Mariano sem saber o que dizer.
Tanto tempo esperando o momento de conhecer seu pai, abraçá-lo, dizer que mesmo sem conhecê-lo o amava muito, e, no entanto, estava ali parada, completamente sem acção.
Vendo o embaraço da jovem, Mariano reuniu as últimas forças que lhe restavam e, quase num fio de voz, começou:
- Sente-se, Sara, temos muito que conversar.
A vida em mim se esvai, não tenho muito tempo para lhe pedir perdão.
Mas tenho tempo para reparar todo o mal que fiz a você e sua mãe.
Ela, emocionada, abraçou-o com muita força.
- Meu pai! Quantos anos esperei por este abraço!
O momento de emoção fez com que ambos chorassem.
Um choro aliviado, um pranto que lavava a alma.
Quando serenaram, Mariano tornou:
- Sei que posso ir em paz, seu abraço e seu carinho mostraram que estou perdoado.
Não poderia deixar este mundo sem isso.
Obrigado, filha!
- O senhor não tem de ser perdoado de nada, meu pai.
Sou grata por ter me dado a vida, a chance de estar aqui podendo ser útil, evoluir, ser feliz.
Isso não há dinheiro que pague.
- É claro que precisava do seu perdão.
Fui um jovem fraco, comandado pelo meu pai.
Não tive forças suficientes para deixar todas as convenções de lado e viver o amor de verdade que sentia por sua mãe.
Por causa dessa infeliz escolha, amarguei uma vida de frustração e infelicidade.
Deus me castigou e não pude ter filhos com Melânia.
Vivi minha vida em uma intensa e eterna busca pelo dinheiro, para aumentar meu património.
Hoje eu sei que fiz bem, pois tudo será para a minha única filha, aquela a quem eu mais amo, você.
Sara ia replicar dizendo que não precisava de nada, que só em saber que seu pai a amava e poder conhecê-lo antes de sua morte, já era tudo o que ela precisava para ser feliz.
Vendo que a filha iria discordar de sua atitude, ele disse, com voz cada vez mais fraca:
- Aceite tudo o que vai lhe acontecer.
Não sei se tenho esse direito, pois não sou Deus, mas eu tracei o seu destino.
Se realmente me perdoou pelos anos de abandono a que lhe submeti, faça o que tem de ser feito, pois tudo o que seu velho pai fez, foi pensando apenas na sua felicidade.
Vendo que a respiração de Mariano chegava ao fim e que já não conseguia mais articular nenhuma palavra, Sara o abraçou com mais força e viu que dele exalava o último suspiro.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 14, 2018 8:31 pm

Um choro forte, sentido, brotou de seu peito e, em oração, ela pediu que os bons espíritos assistissem seu pai naquele momento.
Minutos depois que Mariano fechou os olhos na Terra, seu perispírito foi gradualmente se desprendendo, deixando-o confuso.
Fora do envoltório físico, ele olhou para trás e viu Sara chorando, abraçada a seu corpo inerte.
Certamente, havia morrido.
Naquele momento, uma onda de pavor o acometeu e ele tentou retornar à matéria, sem obter sucesso.
Desesperado, ajoelhou-se e pediu a Deus que o ajudasse.
Sua prece foi tão sincera, que, de repente, um imenso clarão surgiu no quarto.
A luz foi tomando forma e Mariano, entre assustado e surpreso, viu sua esposa Melânia.
Os olhos dela passavam paz e tranquilidade.
Fixou-se naquele que um dia foi seu esposo, e disse com voz doce:
- Chegou a hora, meu velho.
Deus o libertou do sofrimento a que voluntariamente se entregou.
Embora a ambição, o sentimento de vingança e o ódio o tenham acompanhado durante todo esse tempo, sua prece fervorosa e verdadeira ao Criador libertou-o de intensos sofrimentos nas regiões umbralinas.
Sem ela eu não poderia estar aqui para levá-lo a um local de refazimento e paz.
Dê-me sua mão.
Mariano, emocionado e curvado pelo remorso, não conseguia estender as mãos para a esposa.
E, num pranto dolorido, conseguiu dizer:
- Não sou digno de você, Melânia.
Não posso seguir ao seu lado.
- Por que não é digno de mim?
Em nada sou melhor!
- Como não?
Sou um endividado perante a vida, não pude fazê-la feliz, casei-me sem amá-la, não dei a atenção devida que uma esposa precisava de um marido.
Todos os dias da minha vida pensei em Leonora e em como seria feliz se estivesse casado com ela.
Melânia respondeu serena:
- Ninguém é endividado perante a vida.
Cada ser, cada consciência, dá o melhor que pode em seu nível de evolução.
Errar é natural e faz parte da aprendizagem.
É preciso aprender isso, para que se possa sair dos meandros negativos da culpa.
Diz que foi mau marido, mas fui eu que o atraí em minha vida.
As pessoas se atraem mutuamente pelas necessidades de evolução e pela onda de pensamentos e crenças que emanam.
Por pensarem que estão no mundo para sofrer, por acreditarem no pecado, na dificuldade, por acharem que a felicidade não existe ou que ela depende dos outros, a maioria das pessoas atrai para si pessoas que vão levá-la justamente a vivenciar tudo isso.
É por essa razão que quase todas as relações no mundo andam tão mal.
Enquanto as pessoas não mudarem a forma de pensar, de ser e agir vão continuar a sofrer.
Eu, por exemplo, desde a mais tenra idade fui aprendendo que para ser feliz precisava ter um marido, casar-me e ter filhos.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 14, 2018 8:32 pm

Minha mãe sempre falava que o mundo era um vale de lágrimas.
Sem usar meu raciocínio, fui acreditando em tudo, perdi minha identidade, ignorei-me, e atraí você em meu caminho.
Na verdade, se existisse um culpado, seria eu.
Mariano, embora perturbado pelo recém-desencarne, entendeu tudo o que Melânia disse.
Ela, que era para ser a vítima, para cobrá-lo, estava se colocando como a única responsável.
Ele queria aceitar, ia replicar quando foi interrompido por sua voz suave:
- Não vamos debater sobre isso neste momento.
Como pôde ver, a vida continua, e a morte é uma ilusão.
Tive autorização dos nossos maiores para levá-lo a um lugar onde poderá ser ajudado e, com o tempo, vai aprender a servir na causa do bem.
- Como vou deixar minha Sara na mão daquela mulher má e cruel?
- Confie na Providência Divina.
Sara e Matilde estão unidas por um compromisso de vidas passadas.
Fatalmente iriam se encontrar para aprenderem a se perdoar mutuamente.
E você também precisa perdoar Matilde.
Onde passará a viver não há lugar para ódio, ressentimentos ou qualquer sentimento negativo.
Deverá aprender a perdoar, se quiser permanecer ao meu lado.
- Não posso perdoar tanta maldade, tampouco deixá-la livre para prejudicar minha filha.
- Você vai entender como tudo sempre está certo e que não há injustiças no mundo.
Não pense em nada por enquanto, venha comigo e, na hora exacta, entenderá o que lhe digo.
Finalmente, Mariano deu as mãos a Melânia e ambos desapareceram do quarto.
O choro de Sara foi ficando mais forte e logo foi ouvido por toda a fazenda.
Em poucos minutos, o quarto estava cheio, e a notícia que Mariano havia morrido consternou a todos, excepto Matilde.
Quando os ânimos se acalmaram e padre Sílvio fez uma oração, Matilde, embora contente com a morte do cunhado, olhou para Sara com desdém e bradou:
- Foi sua culpa.
Se não tivesse vindo visitá-lo, ele não teria morrido.
Retire-se deste quarto, agora!
Padre Sílvio tentou acalmá-la:
- Controle-se, Matilde, todos nós sabíamos que Mariano não ia mais resistir a tanto sofrimento.
Se ele morreu nos braços de Sara talvez tenhamos de agradecer, pois sua visita permitiu que sua alma fosse libertada.
Por um momento Matilde concordou.
Se ele morrera depois daquela visita tanto melhor.
Ainda que ficasse sem nada, só em saber que iria ver-se livre da presença asquerosa do cunhado já era motivo de sobra para comemorar.
No entanto, precisava fingir.
- Peço desculpas, sei que me exaltei.
O Cássio era muito apegado ao tio, e saiu desde cedo.
Precisamos avisá-lo. Onde está Ana?
- Assim que terminei a oração ela dirigiu-se ao oratório para continuar a rezar pela alma de Mariano.
- Preciso falar com ela, talvez tenha uma ideia de onde Cássio se encontra.
Olhou mais uma vez para Sara, dizendo em tom de desprezo:
- E você, trate de ir embora com o padre.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 14, 2018 8:32 pm

Não é da família, não é conhecida; portanto, não é bem-vinda.
Sara sentiu um ódio surdo.
A vontade que tinha era de dizer toda a verdade naquele momento, mas havia prometido à mãe fazer tudo como o combinado.
Em sua mente já via o gostinho da vitória quando entrasse naquela soberba fazenda como a dona absoluta.
- Não se incomode, senhora, estarei partindo com o padre, mas voltarei para o velório.
Sei que não vai poder impedir que as pessoas da cidade, que tanto são gratas ao senhor Mariano, participem do sepultamento.
Matilde engoliu em seco.
Teria de facto de suportar toda aquela gente.
- Tudo bem, volte se quiser.
Mas sua presença aqui neste momento não é necessária.
Agora, temos de resolver problemas de família, tratar do funeral, dentre outras coisas que só competem aos familiares.
Você jamais poderá pertencer ao nosso nível ou ter uma família como esta.
Dê-me licença.
Sara mais uma vez teve de engolir todo o ódio e seguiu com o padre.
Saberia esperar a hora certa para dar o troco.
Sem perceber, já estava entrando na mesma faixa vibratória de Matilde, o que lhe acarretaria sérios problemas.
Matilde dirigiu-se ao oratório, onde Ana rezava com fervor.
- Pare com isso um momento e me escute.
A voz da mãe era grave e Ana resolveu lhe obedecer.
- Seu irmão saiu logo depois do café da manhã e, até agora, não deu notícias.
Você tem ideia de onde pode ter ido?
- O Cássio passa a maior parte do tempo com Rodrigo, no clube de campo.
Hoje é o primeiro dia do ano, devem estar por lá bebendo e flertando com aquelas mulheres pecaminosas.
- Ainda bem que seu irmão não exagera na bebida.
Vou pedir que Aurélio vá avisá-lo.
Aproveite e, em vez de orar por Mariano, ore para que aquele desgraçado tenha sido justo no testamento.
Não conseguirei dormir nem comer até saber o que está contido naquele maldito documento.
- A senhora não vai orar pela alma do tio?
- Faz-me rir, Ana, com tanta ingenuidade.
Espero que a esta altura ele esteja com Melânia no fogo do inferno.
Ana sentiu um leve tremor, não gostava de ver a mãe falando aquelas coisas.
Virou-se de costas e continuou a orar.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 14, 2018 8:32 pm

4 - O funeral
Cássio chorou muito a morte do tio.
Para ele, era como se estivesse se despedindo do verdadeiro pai.
Embora aquele momento já fosse esperado, ele não conseguia se conformar com a morte, muito menos ver aquele homem que sempre fora cheio de vida dentro do esquife, preparado para ser entregue aos vermes.
Vendo-o chorar sentidamente, Ana se aproximou:
- Saia um pouco de perto desse caixão e vá se alimentar.
O dia já vai clarear e você não comeu nada desde que chegou do clube.
- Não consigo comer, meu estômago está embrulhado, enjoado.
- Talvez precise sair um pouco.
Há muita gente aqui, e o ambiente está abafado.
Venha tomar um pouco de brisa no jardim.
Cássio deixou-se conduzir pela irmã e logo estavam do lado de fora.
A madrugada ia alta, mas as pessoas não deixavam a fazenda.
Todas queriam estar presentes naquele momento considerado o acontecimento do ano, mas que deveria ser de oração ao recém-desencarnado.
Os irmãos se sentaram em um banco e começaram a apreciar as estrelas.
Ana muito carinhosa, como sempre, começou a acariciar os cabelos lisos do irmão, que se deixou levar por aquela onda de conforto, sentindo muita paz.
De repente, ao abrir os olhos viu Sara à sua frente.
Vendo que ele levara um susto, a moça justificou-se:
- Desculpe-me, não quis assustá-lo.
Na verdade, não percebi que dormia nos ombros de sua irmã.
Mesmo no momento de dor que atravessava, Cássio não conseguia conter seu impulso conquistador.
Desejara Sara desde que a vira pela primeira vez, e pretendia que a moça fosse sua próxima aventura.
Durante o dia, conversando com Rodrigo no clube, descobriu que Sara nunca havia namorado.
Esse facto aumentou seu desejo de conquistá-la, pois adorava ser o primeiro na vida de uma mulher.
Refazendo-se rapidamente do susto, respondeu:
- Não há por que se desculpar, eu apenas descansava.
A morte de meu tio está sendo muito penosa.
- Tentei dar-lhe os pêsames, mas não tive coragem de me aproximar enquanto você estava agarrado ao caixão.
Cássio levantou-se e abraçou Sara com muito carinho.
O coração dos dois batia acelerado.
Quando o abraço terminou, Sara disse:
- Espero que o bom Deus possa confortá-lo por esta perda.
Diz minha mãe que nessas horas só Ele é que consegue nos dar força.
Ana adorou aquelas palavras e observou:
- Você parece ser religiosa; no entanto, nunca a vi na igreja assistindo às missas do padre Sílvio.
- Não sou dada a religião.
Acredito que Deus existe e comanda tudo no Universo, mas ainda não me decidi a seguir uma doutrina.
Ana falou orgulhosa:
- Espero que quando escolher seja pela única religião deixada por Deus na Terra.
- E que religião é essa?
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 15, 2018 8:52 pm

- Ainda pergunta?
É a religião Católica.
Ana fez uma pausa e, vendo que Sara a ouvia com atenção, continuou:
- Percebo mesmo que você não conhece muito de religião.
Se quiser posso ser sua amiga e lhe explicar a história da Igreja Católica, provando que ela é a única aprovada por Jesus.
Cássio as interrompeu:
- Não vão ficar aqui falando de religião, não é?
- Desculpe, irmão, esqueci que infelizmente você é ateu.
Sara assustou-se:
- Cássio é ateu?
- Sim, sou ateu.
- Porquê?
- Nunca aceitei a ideia de um Deus.
Prefiro as respostas que a Ciência nos dá e para mim está bom demais.
A ideia de Deus deixa as pessoas completamente alienadas, fora da realidade, cheias de regras, com medos de pecados, do diabo e todas essas bobagens que as religiões inventaram.
Não acredito em nada disso.
Para mim, Deus foi uma construção da necessidade humana para ter em que se pendurar.
E se for para continuar falando sobre isso, prefiro sair e voltar ao velório.
Sara percebeu que Cássio ficou nervoso, olhou-o, e finalizou:
- É uma pena que não acredite em Deus, mas você tem livre-arbítrio.
Aceite meus pêsames, são verdadeiros.
Ele pegou em suas mãos, beijou-as com carinho, e disse:
- Estão aceites.
A propósito:
a que horas pretende ir embora da fazenda?
Posso levá-la em casa.
Ana ruborizou-se, percebeu todo o jogo do irmão.
Com raiva interveio:
- Mamãe não vai permitir que saia do velório para levar alguém em casa!
Se a moça veio até aqui é porque está acompanhada, não precisa se preocupar.
- Sim, eu vim com o padre Sílvio.
- Mas eu faço questão, Sara - disse Cássio com voz melíflua.
- Eu pretendo ir embora com padre Sílvio.
Voltarei para a missa e o sepultamento.
Realmente, não precisa se preocupar.
Creio ser este um momento em que deve permanecer ao lado de sua família.
Pelo que sei, agora, você é o novo chefe.
Cássio percebeu que Sara não cairia facilmente em suas investidas.
Assim, resolveu contemporizar:
- Tudo bem, não gosto de recusas, mas vou perdoá-la pelo momento que passo.
Mas em outra oportunidade gostaria de conversar mais com você, conhecê-la melhor, ser seu amigo.
- Vamos ver.
De repente, ouviram a voz de Matilde:
- O que vocês estão fazendo aqui fora?
- Vim tomar um ar com a Ana.
O ambiente estava sufocante.
Algum problema?
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 15, 2018 8:53 pm

- Todos os problemas.
Você, agora, é o único homem da família, deveria estar lá dentro o tempo inteiro.
Todos estão reclamando sua presença.
E eu posso saber o que essa moça está fazendo aqui com vocês?
- Ela veio nos dar os pêsames.
- Era só o que me faltava!
Ninguém aqui precisa dos pêsames dessa moça, que, aliás, é muito inconveniente.
Já não bastava ser a responsável pela morte do Mariano, ainda teve a coragem de comparecer ao velório?
Sara sentia um ódio grande de Matilde.
Nunca ninguém a tratara com tanto desprezo.
Ia se afastando sem nada responder, remoendo a raiva, quando Cássio pegou com força em seu braço e disse:
- Que história é essa de você ser a responsável pela morte de meu tio?
Nem bem Sara abriu a boca já foi cortada por Matilde.
- Ela veio visitar seu tio com o padre Sílvio.
Pouco tempo depois, Mariano morreu em seus braços, enquanto ela soluçava, fingindo estar triste.
Essa mulherzinha deve ter feito algo para que o tio de vocês morresse tão depressa.
Ainda pela manhã estava bem-disposto, falante, corado.
- Cale-se, mamãe.
A senhora e todos nós sabíamos que tio Mariano não tinha mais como sobreviver.
Olhou para Sara e disse:
- Desculpe o transtorno, minha mãe está exaltada, depois nos falamos.
Matilde sentiu-se destratada diante daquela estranha e jurou vingança.
Quando todos se afastaram, Sara pôs-se a pensar.
Porque a mãe pedira com tanta força para que houvesse o que houvesse ela nunca se aproximasse de Cássio?
Certamente por causa da víbora de sua mãe.
Andou um pouco, entrou num caramanchão, e continuou a pensar:
Sou dona de tudo isso.
Até onde a vista alcança.
Meu Deus, nunca pensei que isso um dia pudesse me acontecer.
Sempre desejei ter uma condição de vida melhor, principalmente para ajudar a minha mãe, que tanto sofre, mas nunca imaginei que o destino me reservava justamente uma fortuna tão grande.
Depois, há o Cássio, não posso negar que estou apaixonada por ele.
Nunca um homem me tocou tão profundamente.
Percebi em seus olhos que sou retribuída, mas ao mesmo tempo há o pedido de minha mãe para que eu não me aproxime dele.
Será que somos irmãos?
Será que dona Matilde e seu Mariano tiveram algum relacionamento?
Os pensamentos povoavam a mente de Sara e só depois de um longo tempo foi que ela saiu do caramanchão.
Encontrou com Letícia, uma amiga que a procurava:
- Finalmente!
Onde você estava?
- Fui meditar um pouco dentro daquele caramanchão.
Estou confusa.
A amiga não parecia interessada em seus problemas e foi directa:
- Padre Sílvio está nos chamando para voltarmos à cidade.
Estava difícil de encontrá-la.
Este lugar é enorme! Andei, andei, e acabei indo parar na antiga senzala desactivada.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 15, 2018 8:53 pm

Você não sabe o que aconteceu!
- O quê?
- Ouvi muitos gemidos, como se houvesse pessoas lá dentro.
Arrepiei-me inteira, pois me lembrei que meu avô sempre diz que esta fazenda é mal-assombrada.
Saí correndo e esbaforida.
Sara riu do rosto assustado de Letícia:
- Pois eu não teria medo.
Os mortos não podem fazer nada directamente aos vivos.
- Não é você que diz acreditar em Espiritismo?
- Minha mãe é espírita e já li alguns livros.
Sei que os espíritos podem nos influenciar muito, mas eles não saem por aí pegando ninguém ou correndo atrás das pessoas.
- Não sei, vamos andando que o padre nos espera.
As duas seguiram até o carro onde padre Sílvio impaciente as aguardava.
Durante o trajecto de volta, todos foram calados, imersos em seus próprios pensamentos.
***
Ao entrar em casa, Sara percebeu a luz acesa no quarto da mãe.
Certamente, ela ainda não havia dormido.
Leonora recebeu com muita calma a notícia do desencarne de Mariano.
Orou aos espíritos amigos para que o recebessem do outro lado, certa de que em pouco tempo estaria com ele no plano espiritual.
No entanto, a reviravolta que estava para acontecer na vida de Sara a deixava preocupada e confusa.
Conhecia bem Matilde para saber do que ela era capaz.
Por essa razão, naquela noite do velório, ficou acordada esperando a filha chegar, tinha de estar a par de tudo.
- Mãe? Ainda não dormiu?
Sente-se mal?
- Não, Sara, meu corpo tem resistido.
Minha alma é que está em agonia, temerosa com seu futuro.
Fiquei aqui lendo o Evangelho, orando por todos, pois me arrepia a ideia de você estar naquela fazenda.
Como está sendo o velório?
- A família está conformada, só o sobrinho Cássio é que permanece inconsolável.
Ficou durante horas agarrado ao caixão.
Senti muita pena dele, dizem que o senhor Mariano era como se fosse seu pai.
Fiz minha parte, procurei-o e dei meus pêsames.
Leonora sentiu que Sara falava em Cássio de maneira especial.
Conseguira notar pelo tom de sua voz.
Não gostou nada daquilo, uma vez que a queria bem longe do rapaz.
Procurou fingir que não havia percebido e tornou:
- E Matilde?
Qual foi a reacção dela?
- Fingiu chorar de vez em quando, mas sei que eram lágrimas falsas.
Aquela mulher é uma cobra.
Até agora não acordei do sonho de saber que sou a herdeira de toda aquela fazenda e que passarei a viver sob o mesmo tecto daquela mulher.
Sinto um ódio por ela que não sei explicar, ninguém nunca me tratou com tanto desprezo.
Mas nós duas vamos residir ali e saberei muito bem como colocá-la no seu lugar.
- Eu não vou com você.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 15, 2018 8:53 pm

Estou velha, doente, mal posso me locomover.
Por outro lado, não me sentiria bem em deixar minha casa para ir viver com aquela gente.
Foi lá que Mariano viveu com a esposa durante décadas, tudo ali deve lembrar o casal.
Seria um tormento para mim.
- Mas, mãe, a senhora sabe que eu nunca a deixaria sozinha aqui.
Se a senhora não for, eu não vou.
E não poderei aceitar a herança que meu pai me deixou.
Jamais ficaria bem sabendo que a senhora está aqui sozinha, tendo de enfrentar uma doença tão terrível sem o meu auxílio.
- Não viverei muito tempo, e posso pedir que Rosana encontre alguém de confiança para ficar comigo.
Definitivamente, não vou.
Sara levantou-se decidida e disse:
- Então quando o mordomo vier nos procurar novamente, pode dizer que não quero nada, que a fortuna pode ficar com todos eles ou ser doada.
- Não seja caprichosa, Sara.
Alguns dias que eu fique viva não vai fazer nenhuma diferença.
- Para mim faz!
Leonora lembrou-se da promessa feita a Mariano tempos atrás.
Sara precisava herdar tudo, pois além de ter direitos era uma forma de ela se sentir compensada por tantos anos de sofrimento e miséria.
Aquelas pessoas mereciam o que Mariano estava fazendo.
Lembrando do prometido e, sabendo que Sara era voluntariosa e decidida, resolveu ceder.
- Tudo bem, filha, se quer assim, assim será.
Você não pode ficar sem receber o que seu pai deixou.
De minha parte não nego que me sinto vingada, mas também aprendi que toda a riqueza pertence a Deus, que a desloca quando e como quer.
Se uma fortuna como essa veio parar em suas mãos é porque pode fazer algo de útil com ela.
Sara, contente pela decisão da mãe, abraçou-a com carinho.
- Obrigada pelo sacrifício que vai fazer por mim.
Sei que valerá a pena.
Agora, vou me deitar, pois amanhã irei com padre Sílvio bem cedo para a missa e o sepultamento.
- Espere. Quero que me faça um favor.
Pegue aquela rosa que está sobre o toucador e coloque no túmulo de Mariano.
Será minha última lembrança para ele nesta Terra.
Sara olhou a rosa vermelha, que parecia estar bem fresca.
- Onde a senhora a encontrou?
- Pedi ao filho da vizinha que fosse à floricultura de dona Silvana e comprasse a rosa mais bonita que encontrasse.
- Como é lindo o amor! Rosas vermelhas significam amor.
Um dia quero amar alguém assim.
- Vai chegar a hora, e, quando chegar, espero que não sofra tanto quanto eu sofri.
Sara saiu do quarto levando a flor, enquanto pensava em Cássio.
Queria dar também uma flor a ele, como prova de seu amor.
Amor? Será que estava amando mesmo uma pessoa que tinha visto apenas duas vezes?
Leonora, no quarto, sentia que a filha pensava em Cássio.
Com medo, orou fervorosamente a Deus, pedindo que afastasse a filha daquele homem, mesmo sabendo não ser mais possível.
* * *
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 15, 2018 8:53 pm

O cortejo fúnebre seguia devagar em direcção ao velho cemitério da fazenda.
A missa de corpo presente, como era costume naquela região, fora feita em casa e padre Sílvio se esmerou no sermão, emocionando os presentes.
Sara ficou escondida entre os demais, esperando que a sepultura ficasse vazia para que ela pudesse depositar a flor e dizer suas últimas palavras ao pai.
As pessoas abastadas discursaram uma por uma enquanto o caixão baixava ao túmulo.
Após mais de uma hora e do sincero discurso de Cássio, as pessoas saíram.
Escondida atrás de um velho jacarandá, Sara esperava.
Quando percebeu estar só, achegou-se à lápide, depositou a flor, e começou a falar em voz alta:
- Esta flor representa um amor verdadeiro.
Um amor que nasceu e cresceu em dois corações, mas não pôde ser vivido.
Que o senhor meu pai, aceite-a como prova de que, mesmo distante, o amor pode continuar existindo, mostrando que para ele não existem barreiras nem tempo.
Não convivi com o senhor, mas sempre o amei.
No fundo, sentia que meu pai, onde quer que estivesse, era uma pessoa muito boa, de coração honesto e amoroso.
Vá em paz e que Deus o acompanhe na eternidade.
Sara chorava baixinho.
Naquele momento, chorava pela ausência paterna, por todos os dias e noites que sonhara com um pai imaginário, um caixeiro viajante que a qualquer hora pudesse chegar e chamá-la de filha, sem saber que seu verdadeiro genitor estava muito perto.
Depois que a emoção serenou e ela ia se levantar, sentiu uma mão forte e quente apertando a sua.
- Cássio?
Desculpe, estava orando pelo seu tio.
- Você chorava.
Por acaso o conhecia?
- Não. Sou mesmo emotiva; sempre fico muito triste quando alguém se vai.
Acho que não sei lidar com a morte. E você?
Porque voltou?
- Queria me despedir a sós do meu tio.
As pessoas durante o enterro me sufocaram, falaram demais, tiraram meu espaço.
Queria ter um momento só meu com ele.
- Mas você é ateu.
Os ateus acreditam que tudo se acaba com a morte, não tem nenhum significado você vir aqui se despedir.
Cássio corou, não esperava ouvir isso.
Na verdade, ele não viera por outro motivo senão por Sara.
Viu ao longe quando a moça saiu detrás da árvore e postou-se no túmulo.
Era o momento ideal para tentar uma aproximação.
Mas, agora, tinha de encontrar uma boa desculpa.
- Sabe, Sara, sou ateu sim, mas também tenho minhas manias, meus desabafos.
Mesmo sabendo que é impossível meu tio me ouvir, queria vir aqui falar o que sinto, colocar para fora a dor do nunca mais.
- Fico triste que pense assim e, certamente, seu tio onde quer que esteja também ficará muito triste.
Mas já que veio para ficar a sós, não sou quem vai impedi-lo.
Já estou me retirando, não quero perder a carona do padre Sílvio.
- Por favor, deixe-me levá-la em casa. Só hoje.
- Como disse da outra vez, não precisa.
Você é o único homem da família, tem de ficar com sua mãe e irmã.
- Faço questão de levá-la e também que acompanhe as minhas palavras.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 15, 2018 8:54 pm

Cássio havia feito um discurso sincero e bonito quando o corpo baixou à sepultura, mas, agora, estava se sentindo ridículo tendo de fazer teatro diante de Sara.
Mesmo assim, procurou se esmerar e, por fim, chorou de verdade.
Sara, percebendo seu sofrimento, resolveu ceder ao pedido.
- Eu permito que me leve em casa.
- Não sabe como sua aceitação alivia minha dor.
Foram andando de volta à fazenda, onde padre Sílvio estava impaciente.
- Sara, você demorou muito.
- Estava rezando com Cássio na sepultura do senhor Mariano.
Cássio tornou:
- O senhor pode ir com Letícia, hoje quem vai levar Sara em casa sou eu.
O padre conhecia a fama de Cássio e percebeu o que ele queria com a moça, por essa razão disse:
- Não vou permitir.
Dona Leonora deixou-a sob minha responsabilidade.
Em hipótese nenhuma ela irá com você.
Sua mãe também não permitiria.
- Senhor padre, minha mãe não manda em mim, e Sara já é adulta o suficiente.
Ela decidiu que vai comigo.
Dá para parar de implicar?
Padre Sílvio olhou para Sara com preocupação.
Cássio era um rapaz fino, elegante, rico, acostumado a ter as melhores mulheres e usá-las por capricho.
Jamais levaria a sério um relacionamento com uma moça tão sofrida e pobre como Sara.
No entanto, percebeu que nada poderia fazer.
Além do que, não queria confusão com Cássio, pois agora era ele quem iria mandar na fazenda, e como era um descrente, podia ser capaz de parar de doar as somas que Mariano regiamente enviava para a paróquia.
Rendendo-se aos fatos, apenas disse:
- Tenham juízo, meus filhos.
Muito juízo!
- Pode deixar, padre, não sou nenhum lobo mau.
As moças sorriram com a expressão sem graça do padre.
Logo depois, Cássio e Sara saíram da fazenda sozinhos.
Ele, pensando apenas em se divertir e conseguir o que queria; ela, apaixonada, pensando ter encontrado o grande amor de sua vida.
Eram destinos que se cruzavam mais uma vez.
Matilde, atarefada que estava com a organização da casa após o funeral, nada percebeu.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 15, 2018 8:54 pm

5 - Nasce uma paixão
O carro de padre Sílvio seguiu na frente do de Cássio.
A estrada de terra estava lotada com os automóveis das pessoas abastadas que haviam ido ao sepultamento.
Cássio queria ficar a sós com Sara e, por essa razão, no primeiro desvio ele manobrou e entrou.
A moça, percebendo suas intenções, corou levemente, mas não queria que nada acontecesse naquele momento, muito menos no meio de uma estrada.
Olhou para Cássio, que sorria com o canto dos lábios, e tornou:
- Prefiro que volte e acompanhe os outros carros.
A essa altura, padre Sílvio já percebeu que seu carro não está mais na estrada e deve estar pensando mal de nós dois.
Não desejo que ele vá se queixar à minha mãe que está doente, pois isso pode piorar seu estado.
Cássio fingia não ouvi-la e começou a cantarolar.
Sara repetia as mesmas frases na tentativa de fazê-lo voltar, até que, à sombra de uma árvore, ele freou bruscamente.
Assustada, Sara gritou:
- Seu louco!
Arrependi-me de ter vindo com você.
O que vai fazer parado aqui?
Estamos perto da cidade.
Cássio olhou para Sara com imenso carinho.
Percebeu que ela estava realmente nervosa.
Por essa razão, pegou suas mãos, apertou-as contra as suas, e disse:
- Sara, você não é mais nenhuma moça ingénua.
Sabe que desde que a vi pela primeira vez a desejei para mim, e sei também que você me deseja.
Posso sentir no seu olhar, na sua respiração nervosa, no seu jeito de falar, que me quer tanto quanto eu a quero.
Somos adultos, podemos nos amar livremente.
O rosto de Sara ficou rubro.
Não sabia se acreditava ou não naquelas palavras, mas era muito bom estar ouvindo aquilo.
Tomou coragem e disse com voz que a emoção embargava:
- Você não está mentindo.
Eu o desejo sim, desde que o vi na virada do ano.
Mais do que desejo, sinto que o amo.
Não sei explicar como esse sentimento tomou conta de meu coração com tanta intensidade, mas mesmo o amando não vou me sujeitar a fazer amor com você para que depois me deixe, como deve fazer com todas.
Cássio não esperava aquela reacção.
Nunca havia escutado um não de uma mulher.
Estava acostumado a ter todas aos seus pés.
Sabia de sua beleza, de seu charme, de sua fama de rico, Sara não tinha razões para rejeitar seu amor, uma vez que também se declarara.
Tentou contemporizar:
- Você está confundindo as coisas, não falei que quero apenas fazer sexo com você.
O que desejo realmente é conhecê-la melhor, namorar e, quem sabe no futuro, até me casar com você.
Sara soltou uma gargalhada.
- Seria muito bom se isso fosse verdade.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 15, 2018 8:54 pm

Contudo, sei de meu lugar e sei de seu lugar neste mundo em que vivemos.
Nunca você vai se casar comigo, eu não estou à altura do seu status nem sou a mulher que sua mãe sonha como nora.
Ela fez uma pausa e, com lágrimas nos olhos, continuou:
- É melhor pararmos por aqui e conservarmos apenas uma boa e sincera amizade.
- Não seja radical, Sara.
Meus sentimentos são verdadeiros.
Dê-me uma chance de prová-los.
Não sou o que dizem por aí nem dou importância ao que a sociedade pensa.
Já falei que minha mãe não manda em minha vida e não é ela que vai escolher a mulher com quem vou me casar, ter meus filhos, constituir uma família.
Ela ia interrompê-lo quando ele, carinhosamente, pôs as mãos em seus lábios e continuou:
- Acredite em meu amor.
Sou um homem de 29 anos.
Por que acha que até hoje não me casei?
Por não ter encontrado a mulher de meus sonhos, a mulher que sempre quis para mim.
Os argumentos de Cássio não eram tão fortes e ele estava mentindo, mas Sara, levada pela paixão, entregou-se àquele momento e o beijou com todo o amor que sentia.
Após a emoção do beijo, ela tornou:
- Vou dar uma chance a você, poderemos nos conhecer melhor.
Mas quero que saiba desde já que sou uma moça pobre, que mora em um bairro e uma casa igualmente pobres.
Dá para perceber pelo meu modo de vestir que apenas tenho o necessário para viver com dignidade, e ainda ajudo no orçamento do lar fazendo quitutes, que vendo de casa em casa e em minha barraca na rua.
Você provará o meu amor aceitando-me como sou.
Cássio deu um sorriso alegre e beijou-a novamente, dizendo:
- Eu a aceito como é, e com essa chance que me deu de provar o meu amor, mostrarei a você o quanto sou digno.
Enleada pela paixão, Sara deixou-se levar pelo sonho.
Ao chegar a casa, notou que todos na rua pararam para observar o carro luxuoso de Cássio.
Ela, muito feliz, não se importou com a natural curiosidade dos vizinhos e entrou.
Cássio, por sua vez, acelerou e logo estava indo em direcção à casa do amigo Rodrigo.
Durante o trajecto pensava:
Achei que não ia conseguir, porém mais uma vez sai vitorioso.
Essa minha aventura custará alguns sacrifícios, mas vai valer a pena.
A casa de Rodrigo era um sobrado muito bem conservado, cercado por um jardim belíssimo.
Dava para perceber que a família possuía boa situação financeira.
Cássio entrou e foi conduzido à sala.
Logo que o amigo apareceu foi comentando:
- Estou conseguindo seduzir Sara.
Você não disse que era difícil e que eu não iria ter sucesso?
Meu caro, já estou com ela na palma das minhas mãos.
Rodrigo, com ar maroto, zombou:
- O rico empresário e a barraqueira. Que belo casal!
- Seria um casal se eu fosse me casar com ela.
O que desejo é apenas tê-la em minha cama.
Ela tem um beijo ardente, não sabe o quanto estou excitado esperando o momento de tê-la como quero.
- Não sei se ela vai ceder a você com facilidade.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 15, 2018 8:54 pm

Durante o sepultamento de seu tio notei o quanto é recatada.
Ainda repito que você deve ir com cautela ou vai perdê-la de vez.
- Você não sabe como consegui enganá-la.
Cássio foi narrando tudo o que havia acontecido e finalizou:
- Lamento ter de fazer isso com a doce Sara, mas você precisa ver o local onde mora.
Nunca vou ter como esposa uma mulher saída de um buraco daqueles.
Rodrigo não gostou da última frase de Cássio e, com rosto severo, alertou-o:
- Acho que você vai se meter em encrenca.
Essa moça é muito querida aqui na cidade.
Se você fizer com ela o que fez com as outras, vai levantar a ira do povo contra você.
Lembre-se de que ficará no lugar de seu tio no comando da usina.
Deve se dar ao respeito de agora em diante.
- Olha só quem fala.
Se brincar, você é pior do que eu.
E esse povo daqui depende de mim e de minha usina para viver.
Nada poderão fazer.
E repito: você é pior do que eu.
- Pode ser, mas não tenho status nem venho da família que você vem.
E se acontecer com Sara o mesmo que aconteceu com sua prima Fabíola?
Cássio ficou pálido.
- Por que me lembrar disso logo agora?
- Para o seu bem.
Sara não vai fazer como Fabíola.
- Já vi que não foi boa ideia ter vindo aqui.
Quando você estiver menos moralista, eu volto.
Cássio levantou-se rapidamente, deixando Rodrigo falando sozinho.
Já no carro, voltando para a fazenda, ele ia pensando:
A princípio, impressionei-me com a beleza de Sara, pensei estar gostando dela, mas ainda que estivesse, não poderia me casar ou ter algo mais sério com uma pessoa que vem de uma miséria daquela.
Sei que meu tio sempre sonhou para mim um casamento com uma mulher que traga mais status a nossa família e, quem sabe, aumente nossa fortuna.
Não posso, agora que ele morreu, trazer uma mulher qualquer para ser minha esposa.
E eu não posso estar gostando de Sara, nunca gostei de ninguém.
O que gosto mesmo é de sexo e do prazer que ele pode me proporcionar.
Com esses pensamentos, Cássio entrou em casa e encontrou com a mãe.
- Eu posso saber onde estava?
- Fui levar o Rodrigo em casa.
Ele estava sem carro - mentiu ele.
- Demorou demais.
Eu e sua irmã estamos bastante ansiosas.
- Posso saber o que está acontecendo?
- Sente-se aí.
Cássio se sentou, esperando que a mãe relatasse mais um problema fútil, todavia, o rosto de Ana, que se aproximava com ar de choro, fê-lo imaginar que se tratava de algo sério.
- Assim que o sepultamento terminou, o doutor Percival e o doutor Guilherme me chamaram ao escritório para conversar.
Na verdade, eles queriam falar com você, mas como não sabíamos seu paradeiro, disseram tudo a mim e a Ana, com recomendações que lhe passássemos o recado o mais rapidamente possível.
- E do que se trata?
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 15, 2018 8:54 pm

Já vão abrir o testamento?
- Não. Eles não vão abrir nada - disse Matilde com voz raivosa, enquanto torcia as mãos.
O testamento só vai ser aberto quando completar um mês do passamento de Mariano.
Até lá, temos de viver na ansiedade, na depressão, com medo de sairmos daqui expulsos e sem levar um centavo.
Você precisa procurar esses advogados e convencê-los a abrir logo o testamento, ou então vou enlouquecer.
Cássio passou as mãos pelos cabelos lisos num gesto de nervosismo.
Entendia a ansiedade da mãe; por outro lado sabia que os advogados estavam cumprindo as ordens do tio.
Ele nada poderia fazer.
Por fim, disse:
- Acalme-se, mamãe.
Nada podemos fazer a não ser esperar.
- Eu não me conformo - gritou Matilde, atirando ao longe um vaso de louça.
Esses homens devem ter algum segredo, algum ponto fraco para que possamos chantageá-los.
Não vou deixar isso como está, muito menos esperar um mês para saber o que há naquele maldito documento.
Cássio abraçou a mãe com força e logo ela estava mais calma.
Passados alguns minutos, Cássio tornou:
- Não temos alternativa a não ser esperar.
Chantagem é crime e não vamos perder tempo procurando saber da vida íntima dos advogados, pois isso pode piorar as coisas.
Eles estão apenas cumprindo o que tio Mariano determinou.
Além de tudo, o tio me garantiu que não ficaríamos sem tecto se dependesse de mim.
Assim, farei de tudo para que essa fortuna fique em nossas mãos.
Matilde sentiu-se mais confiante ao ouvir o filho, mas quando ele se retirou para o quarto e Ana para o oratório, ela foi procurar Aurélio, encontrando-o na copa.
- Preciso de um favor seu.
- Diga, madame.
- Deixe de formalismos, estamos a sós.
- Então diga logo o que quer.
- O testamento só vai ser aberto daqui a um mês.
Não posso aguardar tanto tempo.
Vá à cidade nas horas de folga e consiga algumas informações a respeito desses advogadozinhos.
Deve haver algum segredo, alguma coisa oculta que eu possa usar para forçá-los a abrir logo o testamento e acabar com essa minha angústia.
- Isso é perda de tempo.
Esqueceu que eles não são daqui da cidade e sim da capital?
- Mas estão aqui já há algum tempo a serviço de Mariano.
Sei como são os homens, devem ter arrumado alguma amante aqui na cidade mesmo.
Se eu descobrir algo a respeito, estarei em vantagem e eles ficarão em minhas mãos.
- Continuo achando que vamos perder tempo.
Um mês passa rápido e se você souber conter essa ansiedade nem verá o tempo passar.
Você sabe como eu a ajudo a conter suas ansiedades.
Matilde corou.
- Ainda assim, preciso que você verifique os hábitos nocturnos deles.
Veja se descobre alguma coisa, não posso ficar de braços cruzados.
Aurélio fingiu concordar, mas não iria fazer nada do que ela estava pedindo.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 15, 2018 8:55 pm

Matilde merecia cada minuto de ansiedade e angústia que passasse na espera da abertura do testamento.
A conversa foi encerrada e cada um voltou aos seus afazeres.
A fazenda estava toda em desordem e a funerária ainda trabalhava por lá, retirando os objectos do enterro.
Era tarde da noite quando todos se recolheram.
* * *
Assim que chegou a casa, Sara agradeceu à vizinha, que ficara velando por sua mãe.
Ia dirigindo-se à cozinha quando ouviu o chamado da mãe.
- Sente-se mal?
- Não filha, estou bem.
Desejo saber como foi o funeral e se deixou a minha rosa lá.
- Foi triste.
Os sobrinhos de meu pai estavam inconsoláveis, principalmente o Cássio.
Quando as pessoas saíram de perto da sepultura, depositei a flor e disse tudo o quanto queria.
Cássio se aproximou para se despedir também e até me emocionei com as palavras dele.
É um homem muito sensível.
Leonora percebeu que a filha estava diferente, mais alegre, com o rosto corado, falando em Cássio com mais carinho do que no dia anterior.
Logo, notou que algo havia acontecido entre os dois e seu coração disparou.
Sabia da fama do sobrinho de Mariano e não queria que Sara sofresse.
- Minha filha, estou sentindo que você está gostando do Cássio.
Tenho até a impressão de que algo aconteceu entre vocês.
Sei que já é mulher feita, dona de sua vida, mas sempre fomos amigas, nunca houve segredos entre nós.
Por essa razão, peço-lhe que me conte o que está acontecendo.
Sara não conseguia esconder nada da mãe; portanto, contou tudo e até a proposta que Cássio lhe fez de namorar e de se casar.
Estava tão empolgada, tão feliz, que Leonora não teve coragem de desencorajá-la, dizendo que Cássio não prestava e que apenas usava as mulheres.
- Eu espero que esse moço possa realmente fazê-la feliz.
Mas você acreditou em tudo o que ele falou?
- Sinto que meu amor por ele vem de outra vida.
Sei que já nascemos e vivemos muitas vezes na Terra e em outros mundos, e acredito que nenhum reencontro afectivo seja pela primeira vez.
Sei que há uma diferença muito grande de nível social, mas também sei que nosso destino é ficar juntos.
Creia, minha mãe, nunca senti por ninguém o que sinto por Cássio.
Não sabe como senti vontade de dizer naquele momento que sou a dona de tudo e que nossa diferença não é tão grande assim.
No entanto, sei que chegará a hora, serei paciente.
Leonora calou-se.
Percebeu, naquele momento, que não poderia mudar a força das coisas.
O que lhe restava era orar para que sua filha não sofresse e que o seu amor fosse correspondido.
Percebendo que a mãe a olhava com carinho, Sara a abraçou e foi cuidar de suas tarefas.
Não conseguia tirar de seu pensamento a imagem do homem amado.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 15, 2018 8:55 pm

6 - A confissão de Ana
A partir daquele dia os encontros entre Cássio e Sara se tornaram cada vez mais frequentes.
Por exigência dela, todos os dias ele ia buscá-la em casa e depois iam a um lugar reservado onde namoravam, trocavam juras de amor, sem, contudo, terem maior intimidade.
Toda a cidade comentava que o herdeiro da grande fortuna dos Caldeiras estava com mais uma aventura, enganando uma moça boa e ingénua como Sara.
Todavia, por mais que as pessoas a alertassem, ela continuava confiante de que Cássio a amava e que iriam se casar.
Cássio, por sua vez, não gostava daquela situação.
Contudo, se quisesse levá-la para a cama, tinha de se submeter ao interrogatório dos outros e até receber sermões do padre Sílvio, que tinha muita estima por Sara e temia pelo seu futuro.
Ele ia levando toda aquela situação com certa dificuldade.
Nunca uma mulher fora tão difícil de ceder aos seus encantos de homem.
No entanto, quanto mais Sara era difícil, mais seu interesse aumentava, principalmente quando pensava que ele seria seu primeiro homem.
Os dias na fazenda estavam tristes e opressivos.
Ana rezava o tempo inteiro ajoelhada aos pés do oratório, e sua mãe, inquieta, andava de um lado para outro, resmungando, brigando com as empregadas e quebrando objectos.
Naquela noite, Cássio demorou a dormir.
Teve uma discussão com Sara, que não aceitou sair da cidade com ele para se divertir em outro ambiente.
Foi com dificuldade que adormeceu.
Quando tudo parecia silenciar, um vulto de homem esgueirou-se pela sala e foi em direcção à grande piscina.
Era Aurélio.
Sem que ninguém soubesse, quando todos iam dormir, ele tinha o costume de tomar banho na piscina.
Certo de que ninguém o estava vendo, tirava a roupa e mergulhava nas águas.
O corpo de Aurélio era esculturalmente perfeito:
braços e pernas fortes, peito saliente com alguns pelos, costas grandes e largas.
Tudo isso era escondido no traje de mordomo, que ele usava durante o dia.
Ninguém imaginava que por baixo daquela roupa, tinha um corpo generosamente trabalhado pela natureza.
Naquela noite, Ana estava com insónia e, por mais que rezasse, não conseguia dormir.
Resolveu descer para tomar água e, como já conhecia o caminho, não acendeu a luz.
Viu quando Aurélio saiu sorrateiro e o seguiu, ficando escondida por entre as palmeiras.
A visão do mordomo tirando a roupa e mergulhando nas águas mexeu profundamente com sua sensibilidade.
Esquecida do pecado, naquele momento ela olhava embevecida a cena.
Sem perceber, ela foi se deixando levar por aquelas sensações que a arrepiavam.
Ela resolveu que todas as noites iria observá-lo.
Começava ali, para aquela moça, um triste quadro de obsessão sexual.
Enredada por espíritos ainda presos aos vícios, Ana começou a pensar com frequência em Aurélio, e a qualquer sinal de sua aproximação, seu corpo tremia, sentia tonturas, empalidecia, mas disfarçava muito bem.
Durante o dia, sentia-se mal, chorava, culpava-se, rezava mais e mais.
No entanto, quando a madrugada chegava, ela não conseguia conter o impulso de ver Aurélio.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 15, 2018 8:55 pm

O prazer que sentia naquele momento a deixava extasiada.
Mas, pela manhã, voltava a se culpar.
Com o passar dos dias, ela decidiu que só padre Sílvio, ouvindo-a em confissão, poderia ajudá-la.
Por essa razão, assim que terminou a missa naquela manhã de domingo, ela o procurou envergonhada.
- Padre, preciso que me ouça em confissão.
- Minha filha, não creio que peque tanto a ponto de querer se confessar assim todos os meses.
Não completou ainda três semanas que a ouvi e a absolvi.
- Mas é que depois desse tempo aconteceu algo muito estranho comigo, creio que o diabo está se apoderando de meu corpo.
Padre Sílvio olhou para Ana com profundidade.
Sentia em sua voz uma inflexão de vergonha e sofrimento.
O que estaria acontecendo?
Levou-a ao confessionário e, após as palavras de praxe, perguntou em tom amoroso:
- O que a atormenta tanto?
- Um homem - disse ela após longo silêncio.
- Um homem?
Mas você é uma moça, é jovem, não há razão para perturbar-se por um homem.
Deus criou o homem para a mulher, é natural que um dia você fosse sentir algo especial por alguém.
A não ser que esse homem seja casado.
É o seu caso, minha filha?
- Não, senhor.
Ele não é casado.
- Então, não existe pecado.
Mas você disse que ele a perturba.
Pode me dizer como?
- Padre, não sei nem como começar.
Sinto-me indigna e impura.
Tenho vergonha.
- Você sabe que o que é dito em segredo de confissão jamais é revelado.
Um padre é o representante de Nosso Senhor Jesus Cristo na Terra, não há por que ter receios.
Ana estava com medo, mas não tinha como voltar atrás.
Além de tudo, precisava fazer a confissão, não estava aguentando passar todo aquele drama que ia do prazer à culpa sem contar a ninguém.
- Como o senhor sabe, sempre tive sonhos perturbados, sensuais, com alguém.
Mas sempre que me confessava e era absolvida, sentia-me livre.
No entanto, agora, sinto-me presa a uma teia terrível, sem conseguir ver uma saída.
Vou lhe contar tudo para que o senhor possa compreender-me.
Uma noite em que não conseguia dormir, desci para tomar água quando vi um vulto de homem passando pela sala e indo em direcção à área externa.
Reconheci ser Aurélio, o mordomo da fazenda.
Intrigada, resolvi segui-lo e vi que estava indo para a piscina.
Era madrugada, e eu fiquei escondida atrás das palmeiras para ver o que ele iria fazer.
Aurélio foi tirando a roupa e mergulhou na água.
A luz da lua me fez ver toda a sua silhueta.
Comecei a sentir uma sensação que nunca havia sentido antes.
Quando vi, já estava envolvida por esses sentimentos pecaminosos.
Ana prorrompeu em prantos, enquanto padre Sílvio se persignava.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 15, 2018 8:55 pm

Quando percebeu que a moça havia se acalmado, perguntou:
- Isso aconteceu apenas uma vez?
- Não. Descobri que ele tem por hábito tomar banho de piscina quando todos já estão dormindo.
Sem conseguir me conter, movida por uma estranha compulsão, sempre estou a espreitá-lo.
O pior é que durante o dia já não consigo mais rezar como antes.
Quando ele se aproxima, sinto uma vontade de puxá-lo e beijá-lo.
Como não posso fazer isso, sinto tonturas, palpitações, arrepios.
Disfarço bem, e minha mãe nunca percebeu, mas isso tudo está me deixando sem apetite e ela já está perguntando se estou doente.
Ajude-me, padre Sílvio, isso só pode ser obra do demónio.
- Minha filha - começou o padre com voz pausada -, você está cometendo um pecado grave, que é a fornicação.
Sentir essas sensações sem estar casada com ele é uma infracção grave às Leis de Deus.
Não creio que penitências resolverão o caso, embora a aconselhe a rezar ainda mais.
No entanto, com toda a minha experiência de sacerdócio, ouvindo relatos como o seu e até mesmo estudando-os no seminário, posso afirmar que essa é a tentação demoníaca mais difícil de tirar de uma pessoa.
Ana tremia como se fosse uma folha sacudida pelo vento.
Perguntou num fio de voz:
- E o que eu posso fazer para me livrar disso?
- Como eu disse, esse é um pecado grave e requer muita oração, mas nem sempre a oração é suficiente.
O que eu aconselho mesmo é você se casar com o moço.
Assim, vivendo uma vida digna sob o sagrado sacramento do matrimónio, você estará livre para fazer o que desejar com ele.
Um susto grande tomou conta de Ana.
Ela, casar-se com Aurélio?
Nunca havia pensado nem em casar, muito menos com o mordomo de sua casa.
O que sentia por ele era atracção, desejo, e não amor.
- Eu não o amo, nunca pensei em me casar, queria dedicar minha vida à igreja.
E, além de tudo, minha mãe jamais aceitaria que eu me casasse com um simples mordomo.
- Eu lhe digo, minha filha:
o demónio está querendo fazer morada em sua alma.
Noto que, apesar de sua dedicação à igreja, não tem nenhuma vocação para a vida religiosa.
No seu caso, o melhor mesmo é se casar.
Aproveite que o rapaz é solteiro e conquiste o seu amor.
Quanto à Matilde, eu saberei como fazê-la aceitar.
Está absolvida em nome de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.
Reze três terços todos os dias, nunca mais o observe, e não se entregue a ele sem estar casada.
O sexo fora do casamento é um pecado horrível aos olhos de Deus.
Que Ele a acompanhe!
Quando a confissão foi encerrada, Ana levantou-se e foi andando lentamente até a praça.
Admirava o padre pela compreensão que ele tinha das coisas e pela forma que agia com ela, nunca a condenando.
Mas como iria fazer para conquistar Aurélio?
Ela estava confusa, tentando organizar os pensamentos, quando sentiu uma delicada mão apertar seu braço.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 15, 2018 8:56 pm

- Sara?
É você mesma? - disse Ana surpresa.
- Sim, não se esqueceu de mim tão depressa, né?
- Não, lembro-me bem de você no enterro de tio Mariano e sei que vende doces aqui na pracinha da igreja.
Como está?
- Não muito bem.
Minha mãe continua doente e sofrendo muito.
Como filha, não posso estar feliz numa situação dessa.
- Realmente, é muito triste.
Estimo melhoras a ela.
- Obrigado, você é muito gentil - Sara fez uma pequena pausa, olhou-a nos olhos e perguntou em tom amigável:
- Vim aqui porque percebi que está passando por problemas.
Notei quando saiu da igreja com um ar triste, melancólico.
Posso ajudá-la?
- Você é que é gentil preocupando-se comigo.
Tenho passado por problemas que só Deus poderá me ajudar.
- Respeito-a em não querer se abrir, mas saiba que se precisar de uma amiga, estarei aqui.
As duas se abraçaram e Ana sentiu-se muito bem.
Aquela troca de carinho com uma pessoa amiga a fez pensar que não estava só com aquele problema.
Na sua casa, ninguém a compreenderia, sua mãe era capaz de fazer um escândalo e até agredi-la; seu irmão era muito liberal, mas não sabia entender as mulheres, provavelmente iria julgá-la como uma aspirante a meretriz.
Assim que terminou o abraço, ambas notaram a presença de Letícia, que acabava de chegar.
- Sara! Deixou sua barraca sozinha para conversar com a cunhadinha, hein?
Sara corou.
Não esperava aquele comentário.
Cássio pedira que por enquanto não revelasse o romance a ninguém, mas Letícia era sua melhor amiga, não tinha como esconder dela.
Nunca poderia imaginar que ela pudesse fazer aquilo.
Ana, que escutou perfeitamente, inquiriu:
- Você quer dizer que Sara está namorando o Cássio?
É verdade, Sara?
- Sim - respondeu timidamente.
Estamos namorando há alguns dias, mas nosso romance ainda é segredo para a maioria das pessoas.
Espero contar com sua discrição.
Ana olhou para Sara e sentiu pena.
Aquela moça simples, vestida com roupas gastas e velhas, tão boa de coração, não merecia ser mais uma vítima do seu irmão doidivanas.
- Você tem certeza de que ele a pediu em namoro?
Foi Letícia quem respondeu:
- Sim, ele a pediu em namoro.
Vai até a casa de Sara buscá-la todas as noites para saírem.
A cidade inteira já sabe, nem sei por que eles dizem que é sigilo.
- Desculpe, mas eu mesma não sabia.
Cássio sempre foi muito independente e nunca diz o que faz ou deixa de fazer.
Mas eu lhe peço que tome cuidado.
Ele é volúvel e está acostumado a usar as mulheres.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 16, 2018 8:58 pm

Não se deixe levar.
- Sei me cuidar - respondeu Sara.
Acredito que vocês julgam muito mal o Cássio.
Será que nunca vai chegar a hora de ele se apaixonar e amar alguém de verdade?
Ana meneou a cabeça negativamente.
- Não o estou julgando, Sara.
Eu conheço meu irmão como a palma da minha mão.
Você é uma moça de sentimentos puros, tem o coração bom, não merece ser enganada por ele.
- Como disse, sei me cuidar e não deixo que seu irmão passe dos limites comigo.
Se notar que ele está apenas me usando, saberei agir e terminarei a relação.
- Vejo que é diferente das mulheres com quem ele já se envolveu, mas, ainda assim, tome cuidado.
Agora, preciso ir, o chofer me espera e se demorar a chegar à fazenda levo uma bronca daquelas da minha mãe.
Vou rezar muito por você.
Ana se despediu e quando Sara se viu a sós com a amiga, não conteve a indignação.
- Por que fez isso comigo, Letícia?
Posso saber?
- Sabia que você ia ficar brava comigo, mas fiz para o seu bem.
Alguém daquela família precisava saber o que está acontecendo entre você e Cássio.
- Não entendo o porquê, e muito menos essa sua iniciativa de contar logo para Ana, que é a irmã dele.
Pensei que fosse minha amiga, mas é uma traidora.
- Escute, Sara, você está cega pela paixão.
Cássio a está enganando como fez com todas as outras mulheres com quem se relacionou, só você não enxerga isso.
Fiz questão que Ana soubesse, só assim a dona Matilde vai saber e vamos ver qual será a reacção dele.
Dizem que aquela mulher manda em tudo, inclusive no filho.
Se ele tiver coragem para enfrentar a mãe e ficar ao seu lado, aí sim saberemos que ele a ama de verdade.
Sara entendeu que Letícia queria seu bem, mas estava magoada.
- Ele pediu para que eu não ficasse revelando nossa relação por aí.
Talvez até para nos resguardar de Matilde.
Sinto que Cássio é verdadeiro.
Letícia viu que não tinha jeito, Sara teria de aprender com a própria desilusão.
Abraçou a amiga e pediu desculpas.
Logo, as duas estavam novamente conversando sobre outros assuntos, embora Cássio não saísse do pensamento de Sara.
Ana, em encarnação anterior, quando viveu na Rússia dos czares, era uma linda e exuberante mulher.
Chamava-se Kira.
Fazia parte de uma família de nobres e logo conseguiu, pela sua posição e talento, ser bailarina do balé imperial.
Reconhecida por sua dedicação, e tendo caído nas graças do coreógrafo, tornou-se a principal bailarina da Companhia.
Dançava com a alma e arrancava suspiros dos homens, que pouco a pouco desejavam tê-la.
Ao contrário da maioria das moças de sua época, Kira não queria se casar.
Desejava a vida artística, crescer profissionalmente e ganhar o mundo.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 16, 2018 8:59 pm

Sua família, embora mantendo conceitos rígidos, aceitava suas ameaças e, por ela ser a caçula, fazia tudo o que queria.
Assim, nunca lhe exigiram um noivo, embora não faltassem pretendentes.
Aos poucos, Kira percebeu que despertava nos homens algo diferente.
Ela mexia com a sexualidade deles, principalmente dos casados.
Em sua mente invigilante começou a passar o pensamento de que para se tornar uma mulher completa, deveria
conhecer o sexo, pois até aquele momento ainda se mantinha virgem.
Começou a sair às escondidas com um conde muito rico e bonito, porém casado.
Isso para ela era o que menos importava.
O prazer físico que passou a sentir ao seu lado era, de facto, o que mais a interessava.
Com o passar dos meses, no entanto, ela começou a enjoar de manter relações com ele, queria se aventurar, sentir o mesmo prazer, mas com homens diferentes.
Logo sua vida sexual estava completamente desregrada.
Kira passou a sair com muitos homens e a ter vários parceiros diferentes ao mesmo tempo.
Sua família nunca desconfiou desse comportamento anormal, até que uma carta anónima revelou a verdade.
Pressionada para sair daquela vida, Kira percebeu que sua única solução seria se casar; então, cedeu aos apelos de Ivan, um jovem conde a quem ela nunca amou, mas que, naquelas circunstâncias, era-lhe o melhor caminho.
Pensava que depois de casada, e vivendo longe dos pais, poderia trair o marido à vontade, sem que ele desconfiasse.
O balé não mais a interessava, só os prazeres do sexo é que valiam.
Sem perceber, ela foi atraindo para si uma imensidão de espíritos sexólatras, que passaram a viver ao seu redor, sugando sua vitalidade e fazendo com que seu desejo aumentasse ainda mais.
Ivan, por sua vez, apaixonou-se pela esposa com sinceridade.
Cobria-a de presentes, agrados.
Percebia sua volúpia, mas gostava daquilo.
Contudo, nunca imaginou a quantidade de amantes que ela mantinha.
Os anos foram passando e, como resultado dessa obsessão, Kira foi enfraquecendo, ficou apática, sem vontade para nada.
Os espíritos a envolviam em sua simbiose difícil e complexa, o que a fez desencarnar ainda jovem, vítima de severa e irreversível anemia.
Ivan chorou muito sua morte, pois a amava com sinceridade.
Nunca mais voltou a se casar e terminou sozinho e sem filhos, sem nunca imaginar que sua esposa tomava ervas que a impediam de engravidar.
Assim que Kira deixou o corpo físico, acordou num lamaçal em que vários espíritos se debatiam.
Ela percebeu também que estava nua e, mesmo fraca, sem saber que havia morrido, foi ganhando forças e acabou saindo da poça em que estava.
Foi andando e logo chegou a um vasto campo, com vegetação rasteira, onde encontrou vários espíritos fixados no sexo desvairado e doentio.
À medida que foi ganhando forças, passou a participar daquele grupo e, praticamente enlouquecida, ficou nessa situação anos a fio.
Até que um dia, Ivan, já desencarnado e sabendo do seu estado, obteve permissão para ajudá-la.
Os espíritos superiores o haviam avisado que se Kira continuasse ali por mais algum tempo, iria se transformar numa massa disforme e sofreria a chamada segunda morte, que é a perda do perispírito humano e a perda da consciência.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 16, 2018 8:59 pm

Esses bondosos amigos o avisaram que a energia sexual jamais poderia ser usada de maneira leviana e exagerada, porquanto acarreta em quem age assim uma grande perda de vitalidade, que leva aos mais terríveis sofrimentos.
Ao ver o marido e sentir sua luminosidade, Kira chorou sentidamente.
Naquele momento, veio-lhe um arrependimento sincero e o desejo de mudança.
Com esforço, foi levada a uma colónia e lá descobriu que havia passado muitos anos em um vale, acompanhada por desequilibrados do sexo.
As imagens de suas acções desregradas a deixaram mal, confusa, com imenso sentimento de culpa.
O amor de Ivan a consolava.
Foi convidada a participar de um curso a respeito da sexualidade e, horrorizada, descobriu que havia manchado seu corpo, o templo sagrado do espírito, com um vício terrível.
Aprendeu que o sexo foi criado por Deus para a troca magnética, a união de almas e a reprodução, mas tudo dentro do equilíbrio, que é Lei Universal.
Sentindo-se uma pecadora, não conseguia se perdoar.
Os mentores se esforçaram para que ela deixasse a culpa de lado e procurasse programar sua nova vida para experimentar a dignidade de um lar.
Mas ela entrou num processo de auto-punição e passou a evitar tudo e todos.
Ivan, profundamente triste, reuniu-se com os mentores, pedindo uma reencarnação rápida para ele e sua amada.
Prometeu que na próxima existência tentaria ajudá-la da melhor maneira a livrar-se do vício.
Foi aconselhado a esperar, porquanto a família de Kira, que muito se comprometera na passagem pela Terra, em breve sairia do umbral e todos renasceriam.
Era mais seguro que ela retornasse na mesma família.
Assim, Ivan esperou.
O tempo passou e todos reencarnaram, desta vez no interior do Brasil, numa fazenda, em uma cidadezinha do Mato Grosso.
Ana, que é Kira reencarnada, movida inconscientemente pelo sentimento de culpa, fugiu do mundo e dos relacionamentos, encontrando na religião e na fé cega um freio às suas tendências de outrora.
Todavia, as imperfeições do espírito são como ímãs atraindo a limalha de ferro, ou as chagas abertas atraindo as moscas.
Assim que a tentação apareceu em seu caminho, Ana mais uma vez, não resistiu, e os espíritos dos homens que ela seduziu em outros tempos e que já a haviam encontrado com facilidade, sedentos para viver o mesmo prazer que tiveram antes, não mais a deixavam.
Aurélio, que é Ivan reencarnado, sem nenhuma intenção, havia despertado nela os mesmos desejos que a levaram à queda.
Caberia, agora, cumprir a promessa que fizera antes de renascer:
conduzi-la ao caminho do equilíbrio.
O sexo tem feito muitas criaturas enveredarem pelos caminhos mais torpes.
Embora natural, desejável e saudável, inúmeros são os que dele se utilizam para satisfazer seus mais baixos instintos, conduzindo-se assim ao vale do desajuste e da dor.
Muitos encarnados que hoje estão sob regime de privação sexual e até castrados, como ocorre em alguns países do Oriente, reajustam por meio do impositivo da dor toda a série de crimes que cometeram pelo mau uso da sexualidade.
Outros, que se impõem uma vida casta, com medo dos relacionamentos, são, em muitos casos, espíritos em processo de fuga inconsciente.
Pensam que agindo assim vão se reajustar consigo mesmos.
No entanto, essas posturas não são adequadas àqueles que se perderam nos caminhos do sexo.
Voltar à Terra e vivenciar a sexualidade sadia, aprendendo a conter os impulsos negativos e permitindo-se experimentar uma vida com o verdadeiro afecto e equilíbrio interior, é a melhor solução.
Só enfrentando os pontos fracos, disciplinando as emoções, é que todos podem encontrar o caminho mais rápido rumo à evolução.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 16, 2018 8:59 pm

7 - Oração e fé
Assim que chegou à fazenda, Ana procurou Cássio.
Sabia que o irmão sempre voltava de madrugada nas noites de sábado e no domingo geralmente só acordava ao meio-dia.
Aproveitou que Matilde não estava por perto e, lentamente, girou a maçaneta da porta do quarto do irmão.
Como era costume, a porta estava aberta e Cássio dormia profundamente debaixo do lençol de seda.
Ana sacudiu-o pelos braços, mas ele se mexia gostosamente e não acordava.
Começou então a chamar seu nome em voz alta, o que despertou a curiosidade de Matilde, que acabava de passar por ali.
O que Ana fazia àquela hora no quarto do irmão?
Precisava averiguar.
Sentia cheiro de segredo no ar.
O que estaria acontecendo?
Ficou atrás da porta entreaberta e pôs-se a escutar.
De tanto Ana gritar, Cássio acordou sobressaltado.
Quando deu por si, percebeu que sua irmã o olhava inquiridora.
Esfregou os olhos, bocejou e, ainda sonado, perguntou:
- Eu posso saber o motivo que fez você me acordar?
Detesto ser acordado, quando isso acontece passo o dia irritado, nervoso.
O que você quer?
- Eu vim lhe pedir que termine esse namoro ridículo com Sara.
Cássio não podia acreditar no que estava ouvindo.
Quem havia contado sobre seu envolvimento à sua irmã?
Certamente, Rodrigo.
Mas ele não perdia por esperar.
Tentou contemporizar:
- Seja quem foi que lhe contou essa asneira, saiba que é mentira.
Não estou namorando ninguém.
Você sabe que das mulheres só quero a melhor parte, não estou disposto a me envolver tão cedo.
- Não minta para mim, Cássio.
Foi Sara quem me confirmou.
Estávamos conversando na praça depois da missa, quando, de repente, uma amiga dela se aproximou dizendo que ela estava com a cunhada.
Estranhei e perguntei do que se tratava e ela me disse que estão namorando e que você vai buscá-la e levá-la todas as noites.
O que você está pretendendo ao iludir uma moça tão boa e ingénua como Sara?
Você está em pecado, quer usá-la para satisfazer seus instintos animais.
- Minha irmã, você não entende nada da vida.
Passa o tempo rezando, indo à igreja, não sabe de nada que ocorre entre um homem e uma mulher.
Sara não é tão ingénua como parece, tanto que até hoje não se entregou a mim.
Certamente, está se fazendo de difícil para poder me conquistar.
Você é que é ingénua e acha que todas as mulheres são iguais a você.
O que Sara mais quer é ter um marido como eu, que a tire da miséria.
É interesseira e se for para a cama comigo será porque quer, pois já é adulta e sabe muito bem o que está fazendo.
Agora, deixe-me dormir.
- Não, Cássio.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 16, 2018 9:00 pm

Sara pode não ser ingénua, mas está gostando mesmo de você, senti em seus olhos a chama do amor.
Não é justo que faça com ela o que faz com as mulheres cínicas e vulgares com as quais costuma sair.
Ela merece respeito e o ama de verdade.
Seja sincero, termine antes que a faça sofrer sem poder corresponder a ela.
Cássio notou que a irmã estava diferente, parecia outra pessoa.
Sempre cabisbaixa, rezando, agarrada à barra da saia da mãe, nunca emitia opinião.
Agora, estava altiva, falando alto, defendendo uma pessoa que mal conhecia.
No entanto, ter ouvido que Sara o amava de verdade mexeu com algo dentro dele.
Seria verdade?
Após alguns minutos de silêncio, ele encarou a irmã e perguntou:
- Como sabe que Sara me ama?
Ela lhe disse isso?
- Não, mas eu vi em seus olhos.
E se não me engano estou vendo o mesmo nos seus.
Meu Deus! Será que você está amando pela primeira vez?
Estaria eu errada?
Cássio ajeitou-se na cama e resolveu abrir seu coração para a irmã, que, afinal, era a única pessoa em quem poderia confiar seus sentimentos.
Não poderia dizer a Rodrigo que estava sentindo algo especial por Sara, admitir isso para o amigo era mostrar-se um fraco.
Logo ele, que nunca se deixou levar por mulher alguma e era visto como o inconquistável.
- Ana, olhe bem.
A primeira vez que vi Sara foi na noite de ano-novo.
Quando nossos olhos se encontraram senti uma sensação gostosa, confesso que a achei a mulher mais linda do mundo.
Mesmo naqueles trajes pobres, ela parece uma princesa.
Pensei que ela seria mais uma para minha colecção.
Com esse objectivo, passei a cortejá-la, mas, apesar da vontade de tê-la em meus braços, de levá-la para a cama, também sinto que de certa forma estamos ligados por outros laços.
Sinto-me bem quando estou ao seu lado, parece que o tempo pára.
No entanto, preciso ter certeza do que sinto.
Se perceber que a amo de verdade faço de Sara minha esposa.
Ana olhava desconfiada para o irmão.
Seria mesmo verdade ou era apenas uma forma de acabar com aquela conversa?
De qualquer maneira, sentiu Cássio diferente, poderia mesmo estar apaixonado.
Mas até quando?
Sabia muito bem de seu temperamento volúvel, por essa razão disse:
- Espero que saiba realmente o que está fazendo.
Vi Sara poucas vezes, mas gostei dela, é uma moça pobre, mas honesta, de bom coração.
Não quero vê-la sofrer, hoje nos tornamos amigas e estou com medo que ocorra com ela o mesmo que ocorreu com a nossa prima Fabíola.
Lembro bem que você se dizia apaixonado, até que tudo aconteceu.
- Você sabe que não gosto que falem sobre esse assunto.
Fabíola para mim morreu e está enterrada.
Além do que, você sabe muito bem que naquela época eu namorava a Fabíola mais por influência da mamãe, porém eu nunca a amei nem senti o que sinto por Sara.
Não estou afirmando que a amo, mas confesso que nunca senti por ninguém o que sinto por ela.
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