Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 16, 2018 9:00 pm

Se for sincero, terei coragem de tomá-la como minha mulher.
- Você sabe que isso nunca acontecerá, mamãe não permitirá.
Ela ainda alimenta o sonho de vê-lo casado com Fabíola, mesmo depois de tudo o que aconteceu.
Nunca permitiria que uma pessoa pobre como Sara entrasse nesta casa como sua esposa.
Cássio irritou-se:
- Minha mãe não tem nenhum poder sobre minha vida.
Já deixei que me influenciasse no passado e me dei mal.
Agora, acabou.
A única pessoa que teria algum poder sobre mim seria tio Mariano, a quem considerava meu verdadeiro pai.
Sou homem feito, chefe da família, o cabeça dos negócios.
Eu é que decido meu destino.
- Que seja assim, espero que saiba o que está fazendo.
Agora, coloque uma roupa e venha se alimentar, já passa do meio-dia.
Matilde, de tão estarrecida pelo que ouviu, nem se lembrou de que já havia conhecido uma moça chamada Sara.
Percebendo que a conversa estava se encerrando, esgueirou-se pelo grande corredor e entrou em seu quarto.
O ódio a consumia.
Quem seria a moça que se atrevera a mexer assim com o sentimento do seu filho?
Pelo que notara, Cássio estava mesmo envolvido e, se ela não tomasse as providências devidas, poderia cometer o desatino de casar-se com uma mulher qualquer, e isso ela não iria permitir de maneira alguma, muito menos agora, que corria o risco de perder a herança e ficar sem nada.
Mas não podia enfrentar o filho.
Cássio era por demais independente para fazer o que quisesse, ela bem sabia disso desde o episódio fatídico ocorrido entre ele e sua sobrinha Fabíola.
Ela teria de descobrir quem era essa mulher e armar um plano para afastá-la de vez da vida do filho.
* * *
O almoço transcorreu calmo e logo Rodrigo chegou com mais dois amigos para tomarem banho de piscina e passarem o resto da tarde na fazenda.
Ana, por mais que tentasse, não conseguia desviar os olhos de Aurélio.
Quase não conseguiu se alimentar direito.
Já na sala, enquanto folheava algumas revistas ao lado da mãe, o mordomo apareceu para servir suco.
Ana, que havia se levantado e estava saindo do ambiente quando Aurélio chegou, sem querer tombou seu corpo e quase caiu em cima do mordomo.
Ele a apoiou rapidamente com suas mãos e a conduziu ao sofá.
Ao sentir sua presença e seu calor, Ana começou a ter tonturas e ficar pálida e, por mais que Matilde massageasse seus pulsos, ela não reagia.
Terminou desmaiando.
Foi um alvoroço e pelo grito que Matilde soltou espontaneamente, logo todos estavam na sala.
Cássio pegou Ana nos braços e a levou ao quarto.
Providenciaram sais, mas ela não acordou.
Assustada, Matilde gritou:
- Chamem o doutor Geraldo urgente.
Ela pode ter tido um ataque cardíaco.
- Calma, mamãe, Ana nunca ficou doente. Deve ter sido o calor.
- Não é. Já há alguns dias tenho notado que ela anda alheia, não come direito, deve até estar dormindo mal.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 16, 2018 9:00 pm

Aurélio ligou para o médico e então começou a espera.
Por mais que fizessem, Ana não despertava, e se não fosse pela fraca respiração, poderia se dizer que estava morta, visto sua palidez cadavérica.
Ninguém imaginava que Ana não acordava porque havia sido tirada do corpo abruptamente pelos seus obsessores.
Aproveitando seu desequilíbrio, que aumentou com a proximidade de Aurélio, os espíritos a induziram a um rápido sono hipnótico, e assim que a viram desdobrada, aproximaram-se:
- Finalmente, Kira, finalmente a encontramos.
Demorou, hein?
Achou que ia fugir de nós?
Eram quatro entidades masculinas, de aspecto horrendo, exalando terrível mau cheiro.
Reconhecendo-os, Ana olhou-os terrificada e gritou:
- Afastem-se de mim, não quero mais nada com vocês.
Afastem-se!
- Ora, ora - disse um deles com zombaria você gostava de ficar connosco.
O que a fez mudar?
Não me diga que foi porque reencontrou seu maridinho.
O que ele faz vestido de empregado?
Não era tão rico e fino?
- Vão embora, eu não quero mais nada que lembre aquela época de minha vida.
Sou outra, agora sou de Deus, rezo, entreguei-me a Jesus.
Gargalhadas cortaram o ar.
- Ora, ora.
Você é a Kira de sempre, está rezando para fugir da culpa, mas nós sabemos que quem se vicia no sexo dificilmente encontra o equilíbrio.
Bastou que a induzíssemos a ver seu marido na piscina para que você ficasse louquinha novamente.
Ana chorava copiosamente.
Outro espírito com voz ríspida disse:
- Estamos perdendo tempo, viemos para levá-la até o nosso chefe.
Se ele permitir, poderemos ficar com ela para sempre.
Ele conversará com ela melhor do que nós, e vai induzi-la a ceder.
Não se esqueçam de que ele tem muito poder, e foi quem nos ensinou a recuperar energia para que não virássemos ovóides pelo vício do sexo.
Os homens começaram a amarrar Ana e, de repente, saíram da fazenda e começaram a andar por uma trilha cheia de pedregulhos.
Desesperada, ela chorava, gritava, implorava, mas nada adiantava.
Finalmente, chegaram a uma rua escura, cheia de construções grandiosas, que lembravam a Praça Vermelha russa.
Ana sentiu uma imensa familiaridade com o local.
Foram andando mais um pouco e entraram em um imenso palacete, onde pessoas seminuas faziam as vezes de serviçais.
Passaram por corredores estreitos até que chegaram a uma sala grande, onde um homem estava sentado em um trono, ouvindo melodias fúnebres executadas por um anão em um piano de calda.
Ana não sabia como agir.
Notava-se que a única pessoa vestida naquele ambiente era aquele que parecia ser o chefe.
O homem horrendo, com feições animalescas, olhou-a com profundidade:
- Kira, Kira.
A rainha da Cidade Pervertida.
Não está lembrando de sua casa?
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 16, 2018 9:00 pm

Ela pensou um pouco e gritou:
- Meu Deus! Drômio?
É você mesmo?
- Sim. Mandei que a trouxessem aqui para que fizéssemos um acordo.
- Não quero acordo algum com vocês.
Hoje sou diferente, conheço Deus, tenho religião, não quero fazer nada que atente contra as Leis do Pai.
O ser monstruoso soltou uma gargalhada que cortou o ar.
- Como você é ingénua!
Nós a estamos observando há tempos.
Acha que rezar aquelas palavras repetidas, ajoelhada aos pés de imagens de gesso, vai adiantar alguma coisa?
O que vale é o seu pensamento.
Bastou ver seu marido se banhando para voltar a ser a Kira de antes, voluptuosa, cheia de desejo.
Ana estava muito assustada.
Desde que fora resgatada nunca mais estivera naquele local.
Lembrou que era muito difícil sair da Cidade Pervertida.
Sentindo-se impotente, ajoelhou-se e começou a chorar.
Drômio, ao vê-la submissa, bradou:
- Não precisa chorar, se fizer um acordo connosco tudo ficará bem.
Ana limpou os olhos com as costas das mãos e, assustada, perguntou:
- Que acordo?
- Os homens que a usaram desde a última encarnação estão muito saudosos de você.
Por mais que aqui existam outras escravas que os possa satisfazer, eles não conseguem esquecer a grande dançarina do balé imperial.
Como são homens de minha confiança, aos quais devo retribuição pelos favores que me fazem, resolvi presenteá-los com sua presença aqui mais uma vez.
O acordo é claro:
você escolhe permanecer entre nós e, em troca, além de receber o que tanto anseia, podemos programar para que seu marido volte para cá e faça parte da festa.
- Que horror! Jamais aceitarei isso.
Reconheço que estou sofrendo pelos meus desvarios quando vivi como Kira, mas não desejo fazer tudo novamente.
Padre Sílvio me aconselhou a casar-me com Aurélio, ele foi meu marido Ivan e me ama de verdade.
Sei que também conseguirei amá-lo e seremos felizes.
Não preciso de vida desregrada para ser feliz.
Não aceito nada.
Drómio irritou-se com a altivez de Ana e retrucou agressivo:
- Vejo que quer se bandear para o lado do Cordeiro, mas saiba que será obrigada a aceitar.
Tentei conversar com você para ver se aceitava de bom grado, mas, como não quer, terá de fazer obrigada.
Tiramos você do corpo e temos como deixá-la afastada para sempre.
Na Terra, você ficará em estado de coma, definhando em um hospital, até que se rompa o cordão de prata.
Virando-se para os espíritos que trouxeram Ana, Drómio ordenou:
- Coloque a rebelde em uma de nossas celas, com o tempo ela acabará cedendo.
Quando os homens fizeram menção de agarrá-la, Ana começou a orar.
Orou com fé e de maneira verdadeira como nunca tinha feito antes.
Em questão de segundos uma capa energética azulada a envolveu e espíritos luminosos levaram-na rapidamente de volta ao corpo.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 16, 2018 9:00 pm

Assustados com a luz, tanto os espíritos quanto Drómio fecharam os olhos e se encolheram.
Quando tudo acabou e perceberam que Ana não estava mais ali, o chefe rosnou com ódio:
- Malditos filhos do Cordeiro!
Deixe estar, Kira tem a mente fraca.
Mesmo protegida por esses infames, ela pensa muito em sexo.
O que temos de fazer é impedir que ela se case com Aurélio.
Teremos de transformá-la em uma prostituta se quisermos tê-la de volta.
Enquanto continuar certinha como está, sempre que a trouxermos para cá, ela vai pedir protecção e será levada.
Mas se deixar-se envolver pelos caminhos do sexo desregrado nada poderá impedir que a escravizemos.
Tenhamos paciência.
Os espíritos saíram insatisfeitos, enquanto Drómio ordenou que o anão continuasse a tocar as músicas fúnebres, pois ele precisava se acalmar.
* * *
De repente, Ana soltou um longo suspiro e acordou.
Aos poucos, foi recobrando a consciência e, ao ver tantas pessoas ao seu redor, assustou-se:
- O que aconteceu?
Porque estão me olhando desse jeito?
Matilde chorava aliviada, enquanto Cássio a ajeitou na cama dizendo:
- De repente, você desmaiou.
Mamãe soltou um grito alto e quando chegamos a encontramos com a respiração fraca, pouca pulsação, pensamos que estivesse morrendo.
Ana lembrou-se de que desmaiou por causa da proximidade de Aurélio.
Suas faces enrubesceram.
- Não sei como isso foi acontecer, não estou com nenhuma doença.
- Está sim, filha.
Tenho percebido que não come direito, anda inquieta, nervosa, provavelmente não tem dormido bem.
O que tem acontecido?
Ana não podia negar que estava diferente.
A mãe havia percebido, restava encontrar uma desculpa para que ninguém suspeitasse da verdade.
- Desde que tio Mariano morreu, não tenho me sentido bem - mentiu.
Acho que fiquei impressionada com sua morte.
Matilde a olhou desconfiada.
- No dia do sepultamento você estava forte e consolando o seu irmão.
Não deve ser isso.
Tem algo que a preocupa?
- Não. Acho também que tenho me sentido entediada com a vida aqui na fazenda, já não tenho mais a alegria de antes.
Nesse momento, Geraldo chegou.
- O que houve com a mocinha?
Matilde se adiantou:
- De repente, perdeu a cor e desmaiou.
Passou mais de meia hora estendida na cama, e só agora acordou.
Será que Ana está doente?
Geraldo pediu que os homens se retirassem ficando sozinho com Ana e Matilde no quarto.
Depois que a examinou disse:
- A pressão está normal, também não aparenta anemia.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 16, 2018 9:01 pm

De qualquer forma, um desmaio tem de ser bem investigado.
Quero que faça esses exames e me entregue o mais rápido possível.
- O senhor suspeita de algo?
- Pode ter sido uma queda de pressão normal por causa do calor.
Acontece com muita gente.
Pode também ocorrer devido a uma emoção muito forte.
Contudo, ela garante que nada aconteceu!
- Sim, ela estava comigo folheando algumas revistas.
Não houve nada de anormal.
- Estou sentindo que Ana está um pouco tensa - tornou Geraldo.
- Vou receitar um ansiolítico para que melhore e durma bem.
Pelas olheiras, creio que não tem repousado o suficiente.
O médico encerrou a consulta despedindo-se.
Matilde o levou até a porta e depois voltou para ficar com Ana que, mesmo melhor, recusava-se a sair do quarto.
Temia que Aurélio novamente se aproximasse e ela não conseguisse conter a emoção desmaiando novamente.
Vendo-a pensativa, Matilde tornou:
- Quantas vezes lhe disse que viver enfurnada aqui nesta fazenda, só rezando o tempo inteiro, iria prejudicar sua saúde?
Não há quem aguente viver assim.
Está vendo? Já ficou depressiva.
Ana arrependeu-se de dizer à mãe que estava entediada.
Não era tédio o que ela sentia, muito pelo contrário.
A fazenda até tinha ficado mais interessante depois que ela passara a admirar e desejar Aurélio.
Agora, sua mãe iria infernizá-la para que saísse ou até providenciasse uma viagem.
Isso era o que ela menos queria.
Tentou contemporizar:
- Na verdade, nem sei o que sinto, mamãe.
Rezar me faz bem, não gosto de sair.
Creio que tudo isso vai passar.
- É bom que passe mesmo, pois, do contrário, envio você para passar uns tempos com Fabíola.
Depois, não sabemos o nosso futuro, nem se permaneceremos morando nesta casa.
Meu Deus! Quantos problemas!
- Acalme-se, mamãe, vamos rezar o terço.
Era o que Matilde menos queria, rezar um terço.
Todavia, preocupada com a saúde da filha, resolveu acompanhá-la.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 16, 2018 9:01 pm

8 - Amor sincero
Os dias que se seguiram transcorreram calmos.
Cássio havia retomado a rotina no escritório da usina e, apesar de todos os falatórios, continuava a namorar Sara na tentativa de tê-la em seus braços.
Ana não mais havia desmaiado, recusara-se a fazer os exames, mostrava melhora, mas, praticamente, não saía do quarto, onde ficava rezando a maior parte do tempo.
Matilde, acostumada às esquisitices da filha, acabou por deixá-la.
Uma tarde, quando Ana estava lendo a Bíblia, Matilde entrou com olhar altivo, fechou o livro e tornou:
- Muito bem, mocinha.
Agora, que já passou seus chiliques e voltou a ser a mesma de antes, quero conversar com você seriamente.
Ana corou.
Será que a mãe havia descoberto que ela andava olhando Aurélio enquanto ele se banhava?
Seria uma vergonha sem tamanho.
Vendo que a filha permanecia calada, Matilde continuou:
- Pelo seu mutismo creio que já sabe do que vou falar.
Pois bem, ouvi sem querer uma conversa sua com seu irmão, muito interessante por sinal.
Nela, você pedia que ele se afastasse de uma moça com receio de que ela sofresse.
Eu ouvi muito bem quando Cássio falou que se ela o conquistasse, iria torná-la sua esposa.
Quem é essa vadia?
Ana sentiu-se aliviada, o assunto não era sobre ela.
- Não é nenhuma vadia.
Por essa razão tenho pedido que Cássio se afaste da moça, que tem o coração puro, gosta do meu irmão de verdade e não merece que ele faça com ela o que vem fazendo ao longo do tempo com as outras mulheres levianas.
- Pelo visto essa mulherzinha já conquistou sua simpatia.
Vamos, diga-me quem é.
- É Sara, a moça que vende doces na barraca da praça.
Matilde soltou uma gargalhada.
- Você deve estar brincando comigo.
Não, isso não é verdade.
Meu filho tem o gosto apurado, sempre teve as melhores mulheres, jamais iria se envolver com uma barraqueira sem eira nem beira.
Deixe de brincadeira e me conte a verdade.
- Essa é a verdade, mamãe.
Inclusive a senhora a conhece.
É aquela que estava aqui na fazenda quando o tio Mariano faleceu.
- Não posso acreditar, eu me recuso.
Mas será que essa pobre infeliz e desgraçada não percebeu que seu irmão só está querendo brincar com ela?
- Se a senhora ouviu a conversa sabe que Cássio está em dúvida com seus sentimentos.
Eu o conheço e estou vendo um brilho diferente em seus olhos.
Quando fala nela, por mais que diga que só quer uma aventura, percebo um toque de paixão em suas palavras.
Acredito que meu irmão está apaixonado pela primeira vez.
No entanto, temo que mesmo a amando, Cássio não consiga se livrar do apego à vida social e às riquezas.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 16, 2018 9:01 pm

Sinto que meu irmão pode sacrificar o amor verdadeiro em nome dessas ilusões.
Matilde ficava pálida a cada palavra pronunciada pela filha.
Se isso estivesse acontecendo seria uma verdadeira desgraça.
Ela sabia que Cássio era voluntarioso e não lhe obedecia, era bem capaz de se casar com uma mendiga e trazê-la para morar na fazenda.
Mas isso ela não iria permitir, porquanto tencionava casá-lo com Fabíola, o que era também da vontade de Mariano, e certamente deveria ser uma das exigências do testamento.
Pensou um pouco e afirmou:
- Se seu irmão estiver mesmo apaixonado, deve ter acontecido por meio de algum tipo de feitiço que essa barraqueira fez.
Preciso impedir que esse namoro continue.
- Não vai adiantar - tornou Ana.
Todas as noites ele a busca em casa, vão namorar no jardim e depois a leva de volta.
A senhora sabe como é Cássio.
Quanto mais a senhora tentar impedir, mais ele vai querer continuar.
O jeito é aceitar.
Se eu estiver enganada e ele não tiver nenhum sentimento por ela, vai abandoná-la mais rápido, sem que a senhora precise se meter.
Mas se o sentimento que os une for verdadeiro, terá de aceitá-la como nora.
Com olhos vidrados de ódio, Matilde bradou:
- Jamais!
Nunca aquela mendiga vai ter meu filho como marido, nem entrará novamente nesta casa.
Tomarei minhas providências.
Saiu feito um furacão, deixando Ana falando sozinha.
Matilde se dirigiu ao escritório, fechou a porta e certificou-se de que não fora observada.
O ambiente era ricamente mobiliado com bom gosto e apuro.
Atrás de um grande quadro, Matilde viu o cofre, fez a combinação e o abriu.
Fazia tempo que ela havia descoberto a combinação para abri-lo.
Ali, o velho Mariano guardava algumas somas em dinheiro e jóias.
Não era muito, mas para a mendiga deveria servir.
Após sair do escritório, avisou a Aurélio que iria ao cabeleireiro e pediu ao chofer que a conduzisse até a cidade.
Foi fácil identificar Sara em sua barraca simples, onde, com alegria, atendia os fregueses.
Desceu do carro e, com porte altivo, aproximou-se da moça.
- É com você mesma que quero falar.
Sara ficou surpresa, mas disfarçou.
- Diga, senhora.
Em que posso servi-la?
Matilde olhou para Sara de cima a baixo com desdém.
- Você não me serve em nada e, como todas as outras vadias, é dissimulada e cínica.
Sabe que vim aqui por causa desse seu casinho com meu filho.
Vim lhe dizer que a partir de hoje vocês não se encontram mais.
Sara sentiu o ódio subir-lhe à cabeça, mas tinha de se controlar.
Algumas pessoas se aproximavam e ela ficou vermelha de vergonha.
Tentou contemporizar:
- Senhora, não acha que é melhor falarmos sobre isso em outro momento?
- Não tente me enganar.
Sei que o que você quer de meu filho é dinheiro e posição, mas saiba que, enquanto eu viver, ele jamais vai se unir a uma mulher igual a você.
Será que você acha que ele teria coragem de algum dia ter algo sério com uma barraqueira miserável feito você?
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 16, 2018 9:01 pm

- Dona Matilde, a senhora está me ofendendo e eu não desejo discutir.
Peço que se retire ou então faço eu.
Sara ia se retirando quando Matilde agarrou com força em seu braço, impedindo-a que continuasse andando.
- Não fuja de mim.
Vim para que possamos fazer um acordo.
- Não quero nada com a senhora.
- Não se faça de santa, mulheres como você têm um preço.
Quanto quer para deixar meu filho em paz?
Sara não resistiu a tamanha afronta e fez menção de esbofeteá-la, mas Matilde foi mais ligeira e segurou seu braço.
- Tente fazer isso e eu lhe mato!
- Deixe-me em paz.
- Não deixarei e não sairei daqui enquanto não me prometer que nunca mais vai se aproximar de meu filho.
Tome isto.
Abriu a bolsa e mostrou um volumoso maço de notas.
- Deve servir para você sumir da nossa vida.
Sara pegou o dinheiro e, num acto de raiva, jogou todas as cédulas sobre Matilde.
- Não quero seu dinheiro nojento.
Saiba que amo seu filho e que seu filho me ama.
Mesmo contra sua vontade vamos nos casar.
Agora, dê-me licença.
- Vejo que não quer ceder, mas saiba que ganhou uma inimiga.
Meu filho nasceu para se casar com uma mulher de berço, culta e refinada.
Foi para isso que o preparei e não para viver com uma mulher que não tem onde cair morta.
Sei que quando ele tiver o que deseja vai abandoná-la.
Quis fazer um bom negócio com você, mas você não aceitou.
Perdeu uma grande chance.
Sara tremia de raiva e humilhação.
Ainda assim, não se deu por vencida.
- Se a senhora tivesse tanta certeza de que seu filho me deixaria, não teria vindo aqui com essa proposta indecente.
No fundo, sabe que Cássio me ama e quer constituir uma família comigo.
Prepare-se, dona Matilde, pois quando isso acontecer vou colocá-la em seu lugar.
Sara saiu correndo, enquanto Matilde, enraivecida, derrubava e chutava a barraca como se tivesse perdido a razão.
Quando se acalmou, vendo a pequena multidão aglomerada ao seu redor, levantou a cabeça dizendo:
- Ajudem-me a catar essas cédulas. Vamos!
Algumas pessoas começaram a pegar as notas que estavam no chão e entregá-las a Matilde.
Quando terminou, ela retornou ao carro remoendo seu ódio:
Ainda teve coragem de me desafiar.
Não sabe o que a aguarda!
* * *
Sara chegou em casa tentando conter o pranto.
Bateu a porta com força e trancou-se em seu pequeno quarto, chorando convulsivamente.
Nunca pensou em ser tão humilhada publicamente.
Quem aquela mulher pensava que era?
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 16, 2018 9:01 pm

No entanto, por mais que pensasse ser a dona de toda a fortuna dos Caldeiras e que poderia dar o troco, não conseguia conter a revolta e a tristeza por ter sido tratada como uma mulher qualquer, sem princípios.
Ela era uma moça honesta, digna, e não estava com Cássio por interesse; amava-o de verdade.
Naquele momento, sentiu-se muito fragilizada e só.
Não poderia contar nada à mãe, que estava com a saúde comprometida, muito menos chorar na sua frente.
Continuou chorando quando ouviu leves batidas na porta.
- Mãe? A senhora levantou?
Uma voz delicada se fez ouvir:
- Não, Sara, é Rosana.
Vi quando entrou batendo a porta com força, quero saber o que está acontecendo.
Sua mãe a escutou chorando e está preocupada.
Sara sabia que Rosana, antiga patroa de sua mãe, sempre vinha visitá-la, distraí-la com leituras espíritas ou conversa saudável.
Sabia também que Rosana era a única pessoa com quem ela poderia desabafar naquele momento.
Por tudo isso, quando abriu a porta, abraçou-se a ela com força, deixando que lágrimas teimosas escorressem dos seus olhos.
Rosana a fez acalmar-se e alguns minutos depois Sara convidou-a a sentar-se na cama tosca, contando tudo o que havia acontecido.
Finalizou dizendo:
- Preciso tomar posse de tudo para me vingar dessa mulher e colocá-la em seu lugar.
Só assim serei feliz!
- Você tão jovem e já pensando em vingança?
Está começando sua vida de maneira errada.
Se resolver se vingar nunca será feliz.
- Mas não é justo, dona Rosana.
Eu sou uma moça correcta, amo Cássio com todas as forças de meu coração, mas tenho amor-próprio, não posso deixar que passem por cima de minha dignidade nem dos meus sentimentos.
- Sei de suas qualidades, mas justamente por amar Cássio e querer ter uma vida a dois com ele, é que deve perdoar e esquecer o que essa mulher ignorante fez com você.
Não entre na sintonia dela nem em seu nível.
Quem se vinga de uma ofensa se nivela ao ofensor, podendo ser atingido por ele novamente.
É isso o que quer para sua vida?
Uma eterna guerra com a sua futura sogra?
- É ela quem está pedindo isso.
A senhora diz que ela é ignorante, mas eu discordo.
Ela é uma mulher muito refinada e inteligente, sabe muito bem o que está fazendo.
Rosana tornou com suavidade:
- Estou me referindo à ignorância espiritual.
As pessoas materialistas, que agem na maldade e na ganância como Matilde, são ignorantes das leis verdadeiras e imutáveis que regem a vida.
Na verdade, são almas enfermas, às quais devemos perdoar sempre.
Além de tudo, também temos nossos pontos fracos e necessitamos do perdão alheio.
Quero que preste atenção ao que vou lhe dizer.
Tenho visto muita coisa nesta vida, já vivi muito e sei que a vida se encarrega de mostrar tudo o que é preciso para que a pessoa se livre de suas imperfeições e se volte ao espiritual.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jan 16, 2018 9:02 pm

A maldade tem um preço alto em dor e sofrimento e Deus sabe dar a cada um segundo suas obras, sem que precisemos nos vingar.
Esqueça tudo isso se quiser ter uma vida feliz com o homem que seu coração escolheu.
Mande luz para Matilde e fique no bem, assim ela nunca mais conseguirá atingi-la.
Sara acalmou-se.
No fundo, Rosana tinha razão.
Havia aprendido com a mãe aqueles mesmos conceitos, tinha de colocá-los em prática, dar seu testemunho.
Limpou o rosto, deu um beijo na amiga e dirigiu-se ao quarto da mãe.
Resolveu contar tudo o que tinha acontecido, mas sem dramatizar.
Quando Rosana saiu, Leonora chamou a filha ao leito e disse:
- Era esse um dos motivos que me fizeram pedir a você para nunca se aproximar desse rapaz.
Pense bem antes de continuar essa relação.
Matilde nunca vai aceitar esse seu envolvimento com Cássio, e poderá lhe fazer muitas maldades.
Estou partindo deste mundo a qualquer hora e não quero ir para o outro lado da vida deixando você à mercê de uma mulher tão perigosa.
- Não se preocupe, mãe, saberei me defender.
Não é a senhora mesmo que diz que o mal só nos atinge se dermos importância a ele?
Pois não vou dar importância alguma a essa senhora, e ela não terá condições de me fazer mal.
Nem a mim, nem ao Cássio.
- Você está mesmo gostando desse rapaz.
Meu Deus! Como eu queria evitar isso.
- O coração não escolhe quem vai amar, e a senhora sabe muito bem disso.
Sentiu na pele o sofrimento de uma vida longe de seu verdadeiro amor.
Não quero isso para mim.
Amo Cássio, e sei que sou amada, quer felicidade maior?
Lutarei por ela até o fim.
Além disso, sei que sou a dona de tudo e quando estiver de posse do que é meu, ninguém poderá me fazer mal, todos dependerão de mim.
Aposto que Matilde vai me tratar na palma da mão.
O coração de Leonora estava apertado.
Sua intuição de mãe dizia que não seria tão fácil como a filha estava pensando.
Sentia mesmo que Sara iria passar por muitos dissabores, tudo em nome da ambição desmedida daquela família.
Entretanto, vendo a filha tão animada e com o coração abrindo-se para o amor, não teve coragem de dizer mais nada.
Notou que ela estava mais arrumada que o habitual, por essa razão comentou:
- Aposto que vai sair novamente com ele.
- Sim. Como todas as noites, vamos sair.
A propósito, já estou saindo para esperá-lo no portão.
A Josefa prometeu ficar com a senhora até a hora da minha volta.
Sabe que não costumo me demorar.
Sara deu um beijo no rosto da mãe e foi para o portão esperar por Cássio.
De repente, a cena da humilhação que havia sofrido naquele dia voltou com força em seu pensamento.
Por mais que tentasse, não conseguia esquecer as palavras ofensivas de Matilde, e voltou a chorar sentidamente.
Quando Cássio chegou, encontrou-a entre lágrimas.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 17, 2018 8:59 pm

Já dentro do carro perguntou:
- O que aconteceu, meu amor?
Sua mãe piorou?
- Não. Minha mãe está bem.
- O que houve para deixá-la nesse estado?
Sabe que não desejo vê-la sofrendo.
Cássio falou com tanto carinho que Sara amoleceu ainda mais.
Vendo que ela não iria falar mais nada, ele parou o carro numa rua sem movimento e tornou:
- Sara, sabe que a amo e por essa razão precisa confiar em mim.
Se você não me contar o que está acontecendo, vou sentir-me ofendido.
Afinal, estamos ou não apaixonados?
Sara, sentindo a sinceridade nas palavras de Cássio, contou tudo o que havia acontecido, sem omitir nenhum detalhe.
Ao término da narração, ele estava estupefacto.
A mãe não poderia ter feito aquilo.
Quem ela pensava que ele era?
Agora, mais do que nunca, merecia respeito por ser o chefe da família.
Nunca permitira que sua mãe interferisse em sua vida amorosa, mesmo quando do facto desagradável ocorrido com sua prima Fabíola.
Saberia colocar Matilde no devido lugar.
Ele não tinha certeza de que iria se casar com Sara, mas, se quisesse, ela seria sim sua esposa, e sua mãe jamais poderia impedir.
Por essa razão, abraçou-a com muito amor e disse:
- Não tenho palavras para falar sobre essa atitude de minha mãe, mas saiba que isso nunca mais vai acontecer.
Amo-a demais para deixar que sofra por mim.
Envolvidos pela emoção, Cássio e Sara entregaram-se a um beijo longo e carregado de paixão.
Cássio disse:
- Deixe-me provar o quanto a amo.
Fosse pela fragilidade emocional, fosse pelo amor que sentia, Sara não conseguiu mais resistir e, aos poucos, foi se entregando a Cássio ali mesmo dentro do carro.
Depois, ela, profundamente emocionada, disse:
- Nunca senti nada parecido por homem nenhum.
Você é o amor de minha vida.
Cássio, que também nunca sentira sensações tão intensas, completou:
- Eu a amo, Sara.
Amo-a como nunca amei ninguém em toda a minha vida.
Quero que seja minha mulher.
- Eu aceito. Meu maior desejo é ser sua para sempre.
Quando chegaram em casa, tanto Cássio como Sara não conseguiam esquecer o amor que viveram e o quanto suas almas eram afins.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 17, 2018 8:59 pm

9 - O perdão
Depois do episódio com Sara, Matilde voltou para casa e foi ter com Ana.
Girou a maçaneta e entrou no quarto, que estava fechado e escuro.
- Só quero ver quando vai sair desse quarto e voltar a andar pela casa normalmente.
Irrita-me saber que você fica o tempo inteiro trancada aqui com esse terço na mão.
O que há nesta casa que você tanto teme?
Ana corou.
- Nada. Eu não temo nada, apenas quero ficar só.
- Mas isso não é normal.
Você deixou de ir até mesmo à missa.
Se continuar como está, chamarei um psiquiatra para avaliá-la.
- Psiquiatra?
Mas não existe psiquiatra por aqui.
Além do que, eu não estou louca.
- Mas parece que está ficando.
E se continuar agindo dessa forma, trarei sim um psiquiatra.
Aurélio foi ontem à cidade e ficou sabendo que o prefeito contratou um para atender no hospital municipal.
Você sabe que por causa de sua tia Marta sempre procuro saber se temos novos especialistas nessa área!
- Não preciso de médico, quero ficar só com Jesus!
Matilde sentiu vontade de esbofetear a filha, mas precisava desabafar, contar a alguém o que havia feito a Sara.
Após alguns minutos de silêncio, tornou:
- Tomei uma atitude hoje que está me deixando preocupada.
Mas fiz o certo.
- O que foi?
- Procurei a barraqueira e ofereci dinheiro para que ela deixasse seu irmão.
Sabe o que ela fez?
Simplesmente recusou e jogou as notas em cima de mim com muita petulância.
Mas aproveitei e disse tudo o que ela precisava ouvir.
Coloquei-a no seu devido lugar.
Ana ficou boquiaberta.
- Mamãe, como a senhora teve coragem de fazer uma coisa dessas?
Não lhe disse que Cássio está gostando da moça?
A essa altura devem estar juntos e, certamente, ela já contou o que a senhora fez.
Cássio não vai ter boa reacção.
- Cássio precisa entender que sou sua mãe e que o que fiz foi para o bem dele.
Você queria que eu permitisse esse disparate?
Fiz um bem à moça.
Se eles brigarem por minha causa e terminarem tudo, como espero que aconteça, essa Sara vai me agradecer, pois meu filho só a está usando, assim como faz com todas as outras mulheres com quem se envolve.
- Creio que a senhora errou.
Essa confusão vai é unir os dois ainda mais.
Matilde alterou a voz e disse quase gritando:
- Afinal, de que lado você está?
O que essa vagabunda fez para conquistar assim sua amizade?
Ana sentiu medo da mãe, por essa razão resolveu contemporizar:
- Só estou dizendo que meu irmão gosta dela de verdade, e pelo que a senhora fez pode ser até que acelere o casamento.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 17, 2018 9:00 pm

- Casamento? Nunca!
Nem morta eu vou permitir uma coisa dessas.
E, se eu morrer, virei como um fantasma atrapalhar e me vingar dessa mulher.
Demorou um pouco e encarou Ana com ódio dizendo:
- Se eu souber que você está participando disso e apoiando o seu irmão, você vai se ver comigo.
Fique aí com seu terço, aproveite e medite bem.
Saiu batendo a porta com força, deixando Ana com muita raiva.
Fazia tempo que não estava mais suportando a presença da mãe.
Sempre vestida de preto, fazendo pose de eterna viúva, fingindo ser religiosa.
No fundo, sua mãe era uma mulher má e mesquinha, capaz de tudo para conseguir seus objectivos.
Apertou as contas do terço com mais força e, num murmúrio, pediu:
- Perdoe-me, meu Deus, por pecar contra minha própria mãe.
Além do pecado da carne, ainda tenho esse outro.
Não suporto mais aguentar as maldades que ela faz.
Ana continuou rezando mecanicamente até que parou e, sentindo sede, dirigiu-se à cozinha.
Naquela hora certamente Aurélio estava em seu quarto e ela não correria o risco de encontrar-se com ele.
Assim que terminou de ingerir o líquido, dirigiu-se lentamente para o corredor que dava para os quartos.
De repente, viu sua mãe passar sorrateira na direcção do quarto de Aurélio.
Resolveu espiar para ver o que ia acontecer.
Observou quando Matilde girou a maçaneta e entrou sem fazer barulho.
O que ela queria no quarto do mordomo?
Ela precisava averiguar.
Seguiu com passos leves e aproximou-se da porta.
Escutou vozes, os dois conversavam.
- Preciso de você hoje - disse Matilde, completamente envolvida pelo desejo.
- Calma, senhora, para quê a pressa? - perguntou Aurélio com voz sedutora e sensual.
- Estou muito nervosa.
Fiz algo que pode comprometer minha relação com meu filho.
Eu dependo dele até para as mínimas coisas, mas não podia deixar de ter feito o que fiz.
Estou temerosa e, nessas horas, só você consegue me relaxar, fazer-me esquecer esses problemas.
Ana estancou perplexa.
Não podia ser!
Sua mãe e Aurélio eram amantes?
Precisava comprovar.
Espiou pela fechadura e viu quando o mordomo e sua mãe se abraçaram e se entregaram.
Aquela cena fez com que ela ficasse completamente desorientada.
Apesar disso, permaneceu ali, observando tudo.
Depois de algum tempo, correu para o seu quarto e trancou-se.
Mil pensamentos passaram por sua cabeça invigilante.
Aurélio era exactamente como ela imaginava em seus devaneios.
Por outro lado, passou a odiar a mãe por completo e perder o medo que lhe tinha.
Em sua ilusão, Aurélio lhe pertencia e Matilde o estava roubando.
Completamente obsidiada, disse para si mesma:
Eu a odeio e vou fazer de tudo para destruí-la.
De posse desse segredo tenho-a em minhas mãos.
Vultos escuros rodopiavam e riam ao redor de Ana, que, agora, já não mais rezava.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 17, 2018 9:00 pm

Prostrou-se na cama e ficou tentando descobrir uma maneira de fazer com que Cássio soubesse da vulgaridade que sua mãe cometia.
Por outro lado, se ele descobrisse, expulsaria Aurélio da fazenda.
E ela não podia mais viver longe dele.
Virando-se na cama, tentava conter os pensamentos acelerados, sem conseguir.
***
Quando Cássio chegou à fazenda, passava da uma da madrugada.
Apesar da noite de amor que tivera com Sara, de ter tido a certeza de que a amava, sua raiva por Matilde era grande, precisava colocar a mãe no seu devido lugar e estava decidido que seria naquele momento.
Foi ao quarto dela e bateu com força, gritando:
- Mãe, abra! Agora!
Matilde acordou sobressaltada e, ouvindo a voz de Cássio, ficou nervosa.
Certamente a barraqueira havia contado o que ela havia feito e o filho tinha lhe tomado as dores.
Criou coragem e resolveu enfrentá-lo, afinal, era sua mãe e Cássio lhe devia respeito.
Pegou o penhoar, vestiu-se e, fingindo nada saber, abriu a porta perguntando:
- O que foi, filho?
O que aconteceu para você me chamar a esta hora?
Vendo o cinismo da mãe, Cássio não aguentou:
- Quem a senhora pensa que é para humilhar Sara daquela forma?
- Do que está falando?
Quem é Sara?
Cássio puxou-a pelo braço com força, levando-a para a sala.
Sua voz estava alterada e ele gritava:
- Pare de cinismo.
A senhora humilhou uma moça pobre, de coração bom.
A troco de quê? Posso saber?
Pensa que com isso vai conseguir nos separar?
- Fiz isso para o seu bem.
Será que não percebe que Sara é uma vadia, que está tentando dar um golpe?
Logo você, tão experiente, que sabe como são as mulheres, caiu no conto de uma de uma dessas?
- Sara é a mulher da minha vida e com ela vou me casar.
Ela será a senhora desta casa, e a senhora vai ter de obedecer a ela.
- Você está louco. Meu filho enlouqueceu.
Eu o conheço, você não gosta de ninguém, nem de mulher alguma!
Você gosta é de sexo e dinheiro.
Você pode ter tudo isso, não precisa trazer uma mulher de baixo nível para morar aqui.
Olhe sua posição, você é o rapaz mais rico da região.
Se casar com ela, perderá todo o respeito.
A cada palavra de Matilde, Cássio se irritava ainda mais.
Sentia ímpetos de esbofeteá-la, mas não podia, era sua mãe.
Ainda assim, ele era homem, independente, faria o que quisesse de sua vida.
Gostava da mãe, mas não poderia deixar que ela passasse por cima dele.
- A senhora não sabe o que diz nem sabe quem eu sou.
Quem me conhecia era tio Mariano, a quem devo tudo o que sou.
Saiba que amo Sara e ela será minha mulher.
A senhora será obrigada a pedir-lhe perdão.
Se não fizer isso, deixo-a sem dinheiro.
Sabe que sou eu quem a sustento com o meu salário da empresa.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 17, 2018 9:00 pm

Se não for até Sara, amanhã, e pedir-lhe perdão, não lhe dou mais nenhum centavo.
Matilde começou a chorar fingidamente.
- Cássio, tenha sensatez.
- Ou isso, ou sou capaz até de expulsá-la da fazenda.
Eu sou o chefe de tudo, sou eu quem manda nos negócios.
Não vou aceitar que a tratem mal quando ela vier morar aqui.
- Seu tio não aprovaria esse namoro.
Ele nunca iria permitir que você se envolvesse com uma mulher pobre e sem cultura.
- Você não sabe o que diz.
Matilde resolveu jogar sua última cartada:
- Seu tio afirmou que você só herdaria alguma coisa se fizesse o que ele pediu no testamento.
Pois então, tenho certeza de que ele vai pedir para que case com sua prima Fabíola, reparando o mal que lhe fez.
Cássio ficou pensativo.
E se aquilo fosse verdade?
Teria coragem de deixar o luxo de lado para casar-se com Sara?
Sua mãe estava blefando.
Mariano não gostava de Fabíola, e ficou do seu lado quando o facto trágico aconteceu.
Segurou a mãe com força e bradou:
- Isso é mentira.
Não tente me enganar, pois ninguém sabe o que está naquele testamento.
É a última vez que lhe peço:
vá amanhã e peça perdão a Sara.
Ou isso ou fica sem nada.
Matilde ajoelhou aos pés do filho, suplicando:
- Não me faça passar por tamanha humilhação.
Perdoe-me, eu aceito Sara.
Mas não me peça para me humilhar indo até aquela barraca miserável para pedir perdão.
- A escolha é sua.
E quero que saiba que sou eu quem manda na minha vida.
A senhora não tem nenhum poder sobre mim, muito pelo contrário, depende de mim.
Sempre fiz o que bem entendi e não é agora que será diferente.
Cássio saiu feito um furacão, deixando Matilde sozinha na sala, ajoelhada chorando, rasgando o penhoar e falando sozinha:
- Guilherme, veja no que nosso filho se transformou!
Veja com quem ele vai se casar.
Saiu ao seu sangue e o da sua família, sempre se envolvendo com a escória da sociedade.
Continuou chorando, até que vislumbrou o rosto de Ana.
Ao ver a filha, ela se recompôs e, procurando apoio, perguntou:
- Você viu no que seu irmão se transformou?
Viu o que ele fez comigo?
Com olhos vidrados de ódio e ciúme, Ana vociferou:
- A senhora merece!
- O que você disse?
- Isso que ouviu: a senhora merece!
Louca de ódio, Matilde esbofeteou a filha.
Ana, com mais ódio ainda, disse com voz que a emoção tornou rouca:
- É a última vez que a senhora me bate.
- Eu bato quantas vezes quiser.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 17, 2018 9:01 pm

- Não. Esta foi a última vez.
Em breve saberá porquê.
Ana saiu, deixando a mãe sozinha a chamá-la:
- Volte aqui, sua louca, volte!
Vendo que Ana não voltou, Matilde foi para o seu quarto e bateu a porta com força.
Não conseguiu dormir pensando em como fazer para ludibriar o filho.
Certamente, iria conseguir, nem que para isso fosse pedir perdão à Sara e fingir que a aceitava.
Com o tempo, iria semear a discórdia naquela relação, que acabaria por minar-se.
Outra coisa que precisava descobrir era o que tinha feito Ana ter aquela reacção.
Sua filha não andava bem, por certo estava enlouquecendo como a tia.
Rolou pela cama a noite inteira, até que adormeceu com os primeiros clarões do dia.
* * *
Pela manhã, Cássio e Ana estavam sentados à mesa para o desjejum.
Apesar da farta refeição ninguém tocava em nada.
Reinava um silêncio absoluto no recinto.
Incomodada, após algum tempo Ana tornou:
- Escutei toda a discussão entre você e a mamãe ontem.
Achei-o certo.
Ela passou dos limites.
Cássio desfez um pouco o semblante carrancudo e respondeu:
- De agora em diante, será assim.
Mamãe acha que não cresci, pensa que pode ter algum poder sobre minha vida.
Mantenho o que disse:
ou ela vai comigo agora pedir perdão à Sara ou a expulso da fazenda.
- Você teria coragem de fazer isso? - Ana perguntou animada, queria ver a mãe longe de Aurélio.
- Claro que teria!
Sou um homem de palavra.
- Você está sendo impiedoso demais com ela.
Lembre-se de que é sua mãe e nos mandamentos da Lei de Deus diz que temos de honrar nosso pai e nossa mãe.
- Não me venha com essa história de Deus agora.
Você sabe que não acredito em nada disso.
Já passa das nove e mamãe não sai daquele quarto.
Tenho obrigações na usina, compromissos ao longo do dia, se ela demorar mais, ponho aquela porta abaixo.
- Não precisa - disse Matilde, entrando na sala com a aparência totalmente modificada e ar altivo.
Aqui estou.
Resolvi que não adianta nada tentar enfrentá-lo, você está cego e é teimoso.
Estou disposta a pedir perdão àquela mulher.
Cássio irritou-se:
- Aquela mulher tem nome, e será minha esposa.
- Tudo bem - disse ironicamente.
Pedirei perdão à Sara.
- É assim que se fala, vamos que já estou atrasado.
- Não antes do meu desjejum.
Matilde sentou-se à mesa e começou a devorar as diversas iguarias que tinha à sua frente.
Ana assustada, observava-a.
A mãe estava modificada, usava maquiagem, cabelos soltos, vestido colorido e sapatos de salto alto.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 17, 2018 9:01 pm

Ela que jurara nunca mais tirar os trajes de luto.
Não resistiu à curiosidade:
- A senhora resolveu tirar o luto?
Por que está vestida assim?
Matilde fuzilou a filha com o olhar, mas, percebendo que Cássio também estava curioso, não se furtou a explicar:
- A pequena discussão que tive ontem com seu irmão me fez despertar para a vida.
Resolvi mudar.
Além do mais, teremos em breve mais uma pessoa morando nesta casa, a futura mulher do meu filho.
Não quero recebê-la com roupas negras, muito menos com rosto compungido.
Se ela vem mesmo, que seja recebida com alegria.
Cássio estranhou a atitude da mãe.
Desde que seu pai Guilherme morrera, Matilde colocara luto e agarrara-se à religião, afirmando nunca mais querer ter marido.
De qualquer forma, ela estava certa.
Não gostava de vê-la sempre de preto, andando pela casa como se fosse uma sombra.
Aquela mudança era para melhor.
Matilde comia de maneira deselegante, como se tivesse passado vários dias de fome.
Quando terminou, olhou para Ana e perguntou:
- E você? Resolveu sair daquele quarto?
- Sim. Essa noite não foi de reflexão apenas para a senhora, foi para mim também.
Resolvi que ficar presa ali de nada me adiantaria.
A partir de agora também serei outra pessoa, irei lutar pelos meus sonhos.
Vou logo avisando que pedirei ao chofer que me leve à cidade, pois pretendo renovar meu guarda-roupa.
Matilde tornou incrédula:
- O que deu em você, hein?
Pirou de vez?
- Não se preocupe, mamãezinha, sua filha vai se tornar ainda melhor a partir de agora.
- Assim espero.
Já está arrependida de como me tratou ontem?
Ana fingiu:
- Sim, estava fora de mim e mereci a bofetada.
Cássio, vendo que a conversa ia se prolongar, interrompeu:
- Vamos, mamãe, depois a senhora conversa com Ana.
Terá muito tempo para isso.
Vou levá-la até a cidade, trazê-la de volta e depois seguir para a usina.
Matilde assentiu e ambos se retiraram.
Ao ver a mãe sair com tanta elegância, Ana sentiu o ódio e o ciúme aumentarem.
Pensou:
Ela resolveu abrir as asas, pode até querer assumir o romance com Aurélio, tenho de ficar atenta.
Ela não o terá mais nenhuma noite.
Apesar de estar mais fortificada em sua obsessão, Ana ainda se sentia frágil com a presença do mordomo, mas resolveu que não iria evitá-lo, muito pelo contrário, reuniria forças para se insinuar e conquistá-lo.
Matilde e Cássio não trocaram uma palavra durante todo o caminho.
Quando chegaram à praça logo avistaram Sara arrumando a barraca.
O ódio consumia Matilde, mas, após muito reflectir, ela decidiu que iria fazer jogo com o filho.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 17, 2018 9:01 pm

Fingiria que estava aceitando e, se a relação continuasse, ela, como falsa amiga de Sara, saberia armar para destruir tudo.
Matilde tinha a esperança de que Mariano exigisse no testamento que Cássio se casasse com a prima Fabíola.
Ela tinha certeza de que seria assim.
Movida por esses pensamentos, resolveu enfrentar a humilhação de pedir perdão àquela mendiga.
Cássio aproximou-se e Sara, ao vê-los, assustou-se.
- Cássio?
O que quer aqui a esta hora?
Ele a beijou com carinho e disse:
- Você acha que eu deixaria o que aconteceu ontem passar em brancas nuvens?
Conversei com minha mãe, expus meus sentimentos e ela, arrependida, veio lhe pedir perdão.
Sara olhou para Matilde, que sorria forçadamente.
Não gostava daquela mulher, por certo o pedido de perdão era uma farsa.
- Eu não aceito que sua mãe me peça perdão.
Ela me odeia e quer me ver longe de você.
Pelo que fez ontem, sei que é capaz de tudo para destruir nossa relação e até a mim.
Matilde, com fingida humildade, aproximou-se, pegou com delicadeza nas mãos de Sara, e disse:
- Eu vim aqui de coração aberto lhe pedir perdão.
Não a odeio, apenas achava que você não era a mulher certa para o meu filho.
Mas ele me fez ver que o amor que sente é sincero, pensa mesmo em se casar.
Posso ainda não gostar tanto de você, mas se finalmente meu filho escolheu uma mulher para compartilhar a vida, tenho de abençoar e aceitar essa união.
Perdoa-me?
Sara acabou por se envolver na onda de falsidade emanada de Matilde e, por fim, acabou achando sincero seu pedido de perdão.
- Eu a perdoo, senhora.
E, se serei sua nora, devo fazer de tudo para vivermos em paz.
As duas se abraçaram, e Matilde, forçando um choro, disse:
- Ontem, eu estava fora de mim.
Sou uma mulher religiosa, casta, caridosa.
Jamais deveria ter feito o que fiz.
Como me arrependo!
- Também não é para tanto.
O importante é que nos entendemos e podemos conviver bem de agora em diante.
Matilde a beijou no rosto, selando a falsa paz.
Cássio abraçou Sara agradecendo:
- Não sabe como fico agradecido por você ter perdoado minha mãe, isso mostra o quanto é nobre e tão diferente de todas as mulheres que já tive.
Assim, combinaram de se ver á noite.
Cássio se retirou e voltou à fazenda.
Já no carro, olhou para sua mãe com ironia:
- A senhora enganou Sara, mas não a mim.
Sei que seu gesto foi de falsidade.
Mas saiba que não permitirei nada mais que venha a prejudicá-la. Entendeu?
- Como você pode duvidar de sua própria mãe?
Você sabe o quanto eu sou orgulhosa!
Jamais faria o que fiz se não fosse de coração.
Preferia ser expulsa de casa.
- Assim espero.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 17, 2018 9:02 pm

Após alguns minutos de silêncio, Matilde tornou:
- Olhe esta paisagem.
Até onde o olhar alcança pertencia ao seu tio.
Temo que tenhamos de deixar tudo isso para trás.
- Não há por que temer.
Tio Mariano disse que está em minhas mãos, e se depender de mim, tudo será nosso.
Matilde lançou seu veneno em forma de preocupação:
- Tenho receio.
Algo me diz que a exigência que seu tio pede no testamento é que você case com Fabíola.
Apaixonado como está por Sara, é provável que desista de tudo para viver esse amor.
Cássio ficou nervoso, não gostava de pensar naquela hipótese.
Todavia, sua mãe poderia ter razão.
Se fosse para escolher entre a fortuna e o amor de Sara, o que faria?
Infelizmente, seu desejo e sua ambição pelas coisas materiais eram grandes.
Conseguiria ele viver de um mísero salário?
- Vamos deixar isso para depois.
Não quero pensar em nada agora.
Intimamente, Matilde sorria feliz.
Havia deixado o filho perturbado.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 17, 2018 9:02 pm

10 - O testamento
Cássio não conseguia esquecer o que Matilde dissera.
Com os pensamentos contraditórios resolveu que não iria mais ao escritório da usina.
Desmarcou todos os compromissos matutinos e rumou para a casa de Rodrigo.
Ao chegar lá, o amigo ainda dormia.
Ele subiu ao quarto e puxou seu cobertor.
- Acorde, Rodrigo, precisamos conversar.
O outro, com o rosto inchado e ainda atordoado, demorou a reconhecer o amigo.
Após alguns minutos disse:
- Cássio? Você aqui tão cedo?
Algum problema?
- Não é cedo, já passa das onze.
Isso é hora de acordar?
- A farra ontem foi boa, cheguei tarde e só trabalho depois do meio-dia.
Mas, pela sua cara, vejo que está com problemas.
- Vista-se e desça.
Preciso desabafar.
Já na sala, Cássio tornou:
- Pela primeira vez na vida, estou com medo.
- Medo de quê? - questionou Rodrigo, que nunca vira o amigo tão nervoso.
- Estou apaixonado por Sara.
Ontem fizemos amor pela primeira vez e descobri que a amo como nunca amei ninguém.
Cássio fez um gracejo:
- Eu já vi esse filme antes.
- Dessa vez é pra valer.
- Sempre é para valer.
- Deixa de pirraça. O assunto é sério.
Eu nunca senti nada parecido por mulher nenhuma.
É com ela que quero me casar.
Rodrigo fez um rosto sério ao dizer:
- Você disse a mim, aqui mesmo nesta sala que jamais levaria a sério uma mulher saída de um buraco daqueles.
Está esquecido?
Espero que não esteja brincando com os sentimentos dela.
Isso é muito sério.
- Eu estava enganado quando disse aquilo.
Até me arrependo, pois Sara só vive ali porque não tem outro lugar para morar.
Mas seu porte é de rainha, seus gestos delicados, sua fala doce, sua pele macia.
Pretendo fazê-la minha mulher.
Rodrigo estava incrédulo:
- Será mesmo que o inconquistável Cássio Caldeiras foi flechado pelo cupido?
- Sim. Estou amando de verdade.
- Mas eu não vejo problema algum nisso, meu amigo.
Você é livre, pode fazer o que quiser de sua vida.
Não há motivos para ter medo.
- Há sim.
Como você sabe, meu tio Mariano, antes de morrer, deixou um testamento.
Pelo que ele me disse só terei parte na herança se aceitar o que for pedido nesse documento.
Minha mãe acha que ele certamente pediu que eu me case com Fabíola para reparar o mal que lhe fiz.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 17, 2018 9:02 pm

Se isso for verdade, não saberei como agir, pois não sei viver sem luxo, riqueza, requinte, ao mesmo tempo não poderei viver mais sem Sara, sem seu amor, seu carinho, seus beijos, seus abraços.
Estou perdido.
- Não acho que deva se preocupar.
Fiquei sabendo o que sua mãe fez com Sara ontem.
Ela não gosta de sua namorada e pode estar falando isso como blefe para atrapalhar sua relação.
- Sei que sim, mas ao mesmo tempo não descarto a possibilidade de ela estar certa.
Meu tio disse que havia selado meu destino.
Ele sabia o quanto gosto de dinheiro e de tudo aquilo.
Rodrigo meneou a cabeça negativamente:
- Gosto de você, Cássio, mas esse seu apego ao dinheiro sempre me assustou.
E se de repente a usina vier à falência e vocês perderem tudo?
Já acho milagre ela dar lucro aqui em nossa região.
- Justamente por ser exclusividade aqui é que ela dá mais lucro.
As usinas do nordeste enfrentam sérios problemas com a seca, a maioria abre falência, vira usina de fogo morto.
Não penso nisso.
Penso em ter de tomar uma decisão.
- Você não pode prometer nada a Sara antes de saber o que está escrito no testamento.
Vá enrolando até o dia da abertura.
Falta apenas uma semana.
Cássio passou a mão nervosamente pelos cabelos lisos.
- Eu já a pedi em casamento, não formalmente, mas ontem, enquanto fazíamos amor, eu disse que a queria para ser minha mulher.
- Então, procure esfriar.
É melhor do que prometer e depois não poder cumprir.
Os olhos de Rodrigo brilharam maliciosos e ele disse:
- Se o seu tio fez a exigência para que você se case com Fabíola, faça isso e tome Sara como amante.
- Está louco?
Não a quero como amante, quero-a como minha mulher, mãe dos meus filhos.
- Caro amigo, não há outra solução.
Eles ficaram debatendo o assunto, sem chegar a nenhuma conclusão, mas uma coisa estava certa:
Cássio faria de tudo para ter Sara e a riqueza ao mesmo tempo.
* * *
Nos dias que se seguiram, Cássio e Sara continuaram se encontrando e se amando.
Todavia, ele não mais tocou em casamento e ela, envolvida pelo amor que sentia, acreditou que ele estaria deixando para mais tarde uma conversa definitiva.
Por outro lado, Sara até se sentiu aliviada, pois, se ele partisse para um pedido de casamento, ela não saberia como agir, porquanto nada poderia fazer até que o testamento fosse aberto.
Como Cássio reagiria se soubesse que ela era a herdeira de tudo o que ele julgava possuir?
Finalmente, o dia tão esperado chegou.
Matilde, por mais que tentasse, não havia conseguido nenhuma informação comprometedora sobre os dois advogados, o que a deixara de mãos atadas e sem poder fazer nenhum tipo de chantagem.
Por essa razão, naquela manhã de segunda-feira levantou-se cedo, tomou o café rapidamente e dirigiu-se ao oratório.
Ajoelhada, pediu a Deus e aos santos para que lhe favorecessem e que Cássio fizesse a coisa certa para manter a fortuna nas mãos da família.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 17, 2018 9:02 pm

Às dez horas, horário marcado para o início da abertura do testamento, Percival e Alceu já estavam na sala olhando cinicamente para Matilde, que, por sua vez, sentia aumentar o nervosismo, o ódio e a ansiedade.
Quando todos estavam reunidos, Matilde tornou:
- O que estão esperando para começar?
Todos os interessados já estão aqui.
Quer nos matar de ansiedade?
- Calma, minha mãe - tornou Cássio.
Eu acabei de entrar na sala, certamente esperavam por mim.
- Não, meu caro rapaz.
Estamos esperando outra pessoa, que, aliás, já chegou - respondeu Percival com sorriso sarcástico.
- Outra pessoa?
Mas quem mais pode se interessar por um assunto desses?
- Entre, Sara - disse Alceu em voz alta.
Sara, que tinha ido à fazenda no carro dos advogados e estava atrás da porta principal só esperando o chamado, entrou de cabeça erguida, bem arrumada, vestindo sua melhor roupa.
Diante do olhar espantado de todos, ela foi andando lentamente, sentando-se ao lado de Matilde, que, irritada, gritou:
- O que ela está fazendo aqui?
Que brincadeira é essa?
- Meu amor - tornou Cássio - o que a traz aqui?
- Eu sugiro que façam silêncio - disse Percival.
Vamos começar a leitura do testamento.
Matilde poderia imaginar mil coisas, menos que Sara fosse a herdeira legítima de Mariano.
Vendo-a trocar olhares amistosos com Cássio e Ana, sentiu o sangue ferver em suas veias.
Aquela intrusa estava indo longe demais.
Percival começou a ler pausadamente a relação de bens de Mariano, que incluíam propriedades em diversos estados do Brasil, em países da Europa, investimentos milionários e bastante rentáveis, que surpreenderam a todos.
A usina Caldeiras era apenas uma diversão do velho, se comparada a todo o lucro que ele obtinha com os aluguéis dos imóveis, dos investimentos e a toda a sua fortuna.
A cada palavra dita pelo advogado, Matilde sentia seu coração descompassar.
Quando terminou a leitura, Percival olhou para todos dizendo:
- O que está escrito a seguir eu não lerei.
A pedido de Mariano, vamos ouvir de sua própria voz o que ele determinou.
O advogado retirou um gravador da pasta e apertou o botão.
Logo, a voz inconfundível de Mariano se fez ouvir:
Querido Cássio, você foi o filho que a vida me negou biologicamente, mas me deu em espírito.
Jamais poderia partir para o mundo dos mortos deixando-o sem nada, mas antes que você saiba o que reservei para você, permita-me que eu lhe conte um pouco de minha história.
Quando jovem, apaixonei-me por uma moça muito bonita.
Era filha de cortadores de cana e também trabalhava nas terras de nossa família.
Nosso amor foi verdadeiro, intenso, e só não nos casamos porque meu pai impediu, visto que era um homem muito preconceituoso e interessado em unir fortunas.
Casei-me com Melânia sem amor e, ao fazer isso, nunca mais soube do paradeiro daquela a quem verdadeiramente amei.
Leonora era seu nome.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 17, 2018 9:03 pm

Deverá abandonar esta casa e levar sua mãe e irmã junto.
Desculpe-me, Cássio, se fui injusto, mas essa foi a única maneira que encontrei de partir deste mundo assegurando o futuro da minha única filha e o seu.
Como o conheço muito bem, sei que aceitará meu pedido.
Adeus.”
Todos ficaram estarrecidos com o que ouviram.
Matilde, em estado catatónico, não conseguia mover um músculo da face.
Cássio, surpreso por nunca imaginar uma coisa como aquela, não tinha coragem de articular palavra.
Ana chorava, sentindo-se humilhada e inferior, e Sara não conseguia conter a decepção.
Em sua mente, passou a acreditar que Cássio já sabia de tudo, por essa razão a estava namorando.
Rompendo o silêncio, Matilde tornou com voz rouca:
- Isso só pode ser uma alucinação.
- Não é - disse Alceu.
Assim que descobriu ser pai, Mariano fez um teste de DNA com um punhado de cabelo de Sara arranjado por dona Leonora e comprovou a paternidade.
Exame este que está anexado ao processo de doação de bens.
Logo após, o próprio Mariano tratou de registá-la sigilosamente em cartório.
Pagou regiamente para fazer o registo altas horas da madrugada para que ninguém soubesse.
Fez uma pequena pausa e continuou:
- Além disso tudo, Mariano, em vida, deixou um apartamento de luxo, todo mobiliado e uma gorda poupança para seu fiel mordomo Aurélio.
Aliás, onde ele está?
Gaguejando, Cássio retorquiu:
- Está na cozinha com os outros empregados.
- Vá chamá-lo.
Ele precisa saber que também herdou alguma coisa.
Aurélio foi introduzido na sala e, naquele momento, Matilde, num acto de ódio, partiu para cima de Sara com um vaso de porcelana nas mãos e teria atirado em sua cabeça, caso o mordomo não a tivesse contido.
Percival disse:
- Tire sua mãe daqui, Cássio, ela está transtornada e pode fazer uma besteira e se complicar ainda mais.
Ela escapou por pouco de ser investigada pela polícia.
Infelizmente, Mariano não tinha provas de quem havia colocado cicuta em sua bebida.
Cássio calmamente conduziu a mãe escadaria acima, acompanhado por Ana, que chorava sem parar.
Sara, cabisbaixa e com vergonha, não sabia o que fazer nem o que pensar.
De repente, ser dona de tudo aquilo se tornou um fardo.
Seu mundo havia desmoronado.
De uma coisa ela tinha certeza:
jamais iria se casar com Cássio.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jan 17, 2018 9:03 pm

11 - Dever cumprido
Quando todos saíram da fazenda, Matilde retornou à sala acompanhada de Ana.
Encontrou Cássio lendo atentamente alguns papéis.
- O que são esses papéis? - perguntou Matilde com voz raivosa.
- São cópias do testamento.
O doutor Percival fez questão de deixar várias aqui connosco para que fiquemos cientes de que tudo é verídico.
- E o que mais diz aí?
Que outras loucuras o seu tio cometeu?
- Nenhuma loucura, mamãe - respondeu Cássio irritado com tudo aquilo.
Sara é filha legítima dele, não há como negar.
O tio ainda foi muito bondoso em ter me dado a oportunidade de herdar a metade de tudo.
Temos de nos conformar.
- Até parece que para você vai ser um sacrifício - disse Ana com uma ponta de inveja.
Juntou a fome com a vontade de comer.
Você ama Sara, já a estava namorando antes de saber a verdade.
Foi uma coincidência muito agradável, não acha?
Cássio nada respondeu.
Olhou para a irmã sem palavras.
Tudo aquilo lhe parecia um pesadelo.
É claro que ia se casar com Sara, sabia disso muito antes de descobrir que ela tinha qualquer parte na herança.
O problema foi a forma como ela o olhou depois da revelação.
Pôde ver no rosto da amada a sombra da desconfiança.
Saiu sem falar com ele ou olhar para trás.
Certamente achando que ele sabia de tudo e não passava de um aproveitador.
Seus pensamentos foram interrompidos pela voz sibilina e ríspida de Matilde.
- Maldita barraqueira!
Teremos de aturá-la, só Deus sabe até quando!
- Esqueceu que a amo e que a farei minha esposa?
Nem tente nada contra ela.
Sei que quis matar tio Mariano envenenado, mas com Sara será bem diferente.
Consta no testamento que se Sara morrer antes de se casar, toda a fortuna vai para instituições de caridade.
Se Sara morrer depois de casada comigo, ficarei apenas com a metade da fortuna.
Certamente meu tio, conhecendo-a como a conhecia, uma assassina fria, tomou todas as precauções.
- Como ousa chamar assim a sua mãe?
Desde aquela noite não o estou reconhecendo.
Nem parece o filho que pus no mundo.
- Desde aquela noite, quando soube o que a senhora fez, perdi todo o respeito que lhe tinha.
E a senhora é isso mesmo:
uma assassina, pois quem tenta envenenar o próprio cunhado não passa disso.
Matilde fingiu um pranto, mas Cássio não se deu por vencido, levantou-se da poltrona, jogou os papéis sobre o colo da mãe e saiu batendo a porta com força.
Assim que se acalmou, Matilde se pôs a ler o testamento, tendo Ana ao lado.
Ela estava perdida, rendia-se aos factos.
Olhou para a filha, que a fitava com pena, e disse:
- Não preciso da sua piedade, saia daqui!
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 18, 2018 9:27 pm

- Acalme-se, mamãe.
Estou aqui para ajudá-la.
Arrependi-me muito pela maneira como a tratei, e só Deus e os santos sabem o quanto peço perdão por ter infringido um dos mais sagrados de seus mandamentos, que é honrar o pai e a mãe.
Olhe para mim e preste atenção no que vou lhe dizer.
Matilde sentiu mesmo que precisava de um ombro amigo naquele momento.
Abraçou a filha e pôs-se a escutar o que ela dizia.
- A senhora precisa ficar amiga de Sara mais do que nunca.
- Eu? E por que faria isso?
- Porque se ela não se casar com Cássio, perderemos tudo, e se os dois se separarem ou ela morrer, ficaremos apenas com a metade.
- Isso eu sei.
Mas não vejo por que ficar amiga daquela barraqueira usurpadora.
Seu irmão iria se casar com ela, sendo ela herdeira ou não.
- A senhora estava muito nervosa e não percebeu como Sara olhou para Cássio assim que ouviu tio Mariano exigindo que ambos se casassem.
Vi decepção nos olhos dela, vi mágoa.
Tenho certeza de que ela está achando que Cássio já sabia de tudo e estava namorando-a apenas para ficar com a metade da fortuna.
Acho difícil desfazer essa impressão e é provável que Sara não o aceite como marido.
Se isso acontecer, teremos de sair daqui sem nada, vendo ela se casar com qualquer aventureiro que aparecer.
Matilde ouvia atenta e Ana continuou:
- A notícia de que Sara é milionária, a herdeira de Mariano Caldeiras vai se espalhar pela cidade rapidamente e, em pouco tempo, choverão pretendentes.
A senhora tem de ficar amiga dela para convencê-la a aceitar Cássio como marido.
Matilde percebeu que a filha tinha razão.
Ela não podia ser contra, teria mesmo de ver seu filho casado com uma mulher sem cultura, malvestida, vinda de baixo.
Todavia, teria de ganhar sua confiança.
Ela não aceitaria o que acontecera e iria virar o jogo.
Com Sara casada daria um jeito de tirar tudo dela e vê-la na miséria outra vez.
Virou-se para a filha, já com o rosto mais sereno, e disse:
- Tem razão.
Se tudo é dela e se quisermos ter nossa parte, farei o possível para aceitá-la.
Aliás, muito antes de saber de tudo, fui até aquela barraca infecta pedir perdão pelo que fiz.
- Mas não pense que vai conquistá-la facilmente.
Tenho certeza de que ela e Cássio sabem que seu perdão não passou de uma farsa.
Matilde mais uma vez percebeu o quanto a filha estava certa e iria se esmerar na falsidade.
A fortuna poderia estar temporariamente nas mãos daquela infeliz, mas tudo aquilo lhe pertencia, ela sentia isso e faria até o impossível para ter tudo de volta.
Ana convidou-a para irem ao oratório rezar um terço pela paz na família, e ela, sem ter muito o que fazer naquele momento, resolveu aceitar.
Quem sabe a oração não lhe traria mais algum ânimo?
* * *
Mariano e Melânia, em espírito, acompanharam tudo o que aconteceu naquela manhã.
Ele estava profundamente arrependido pelo que havia feito.
Aquele pouco tempo na espiritualidade serviu para que ele enxergasse a vida de forma diferente e visse, que, na verdade, não agira por justiça e sim por vingança.
Percebeu que para ser realmente justo deveria ter distribuído tudo igualmente entre todos os seus parentes vivos, já que da Terra nada iria levar de material.
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