Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 18, 2018 9:27 pm

Quando tudo acabou e a sala ficou vazia ele se pôs a chorar com remorso.
- Acalme-se, Mariano - pediu Melânia com doçura.
Você precisa deixar de se culpar pelo que fez.
Enquanto estava na Terra, você via tudo com os olhos do materialismo; por essa razão não sabia fazer diferente.
Assim somos todos nós.
Enquanto estamos vivendo encarnados, deixamo-nos levar pelas ilusões, pela ambição do poder, e até mesmo pela posse das coisas materiais.
O homem, infelizmente, ainda não percebeu que a única herança que realmente possui são seus actos, atitudes e pensamentos.
Isso ele levará para onde for.
Disse o mestre Jesus:
Não ajunteis tesouros na Terra, onde a traça corrói e o ladrão os leva, mas ajunteis tesouros nos céus, onde nem o ladrão os leva nem a traça os corrói, porque são eternos.
Enxugando as lágrimas, Mariano tornou:
- Ser rico é pecado, eu sei.
- Não. Ser rico não é pecado.
O que não é certo é o apego às riquezas.
Jesus nunca condenou a riqueza ou os bens materiais que são necessários à nossa evolução na Terra, mas alertou sobre o apego e todo o sofrimento que ele acarreta.
Não ajuntar tesouros na Terra significa não ficar preso ao que se conseguiu, ou fazer da vida uma eterna busca pela materialidade.
Quando o homem perceber isso, dará um grande passo em direcção a Deus.
- Eu tive muito orgulho do que herdei e com esforço dupliquei.
Mas não soube repartir, agi por vingança.
Por essa razão, não consigo me perdoar.
Meu acto fará com que Matilde faça ainda muito mais mal do que já fez.
Estou pondo em risco a felicidade de quem mais amo, que são o Cássio e a Sara.
Hoje sei que a maldade de Matilde não tem limites.
Melânia tornou com calma:
- Você teve livre-arbítrio e fez o que achou melhor.
Mas o nosso livre-arbítrio coexiste com as determinações de Deus.
O homem pensa que age sozinho e que está separado da natureza e de suas leis.
Isso é uma ilusão.
Deus tem o poder de transformar o mal feito por nós em sementes de bem e felicidade futura para todos os envolvidos.
Quando o homem age utilizando-se de sua liberdade, ele pode errar muito, mas Deus, em sua infinita sabedoria, fará com que tudo resulte em experiência e aprendizado, fazendo cada um passar exactamente pelo que precisa para aprender a ser mais feliz.
Assim sendo, nada foge da programação divina, que nos destinou ao bem e à harmonia sem fim.
- Você diz tudo isso, mas eu sei que só me perdoarei quando vir os frutos desse bem.
Não suportarei ver meus meninos sofrerem por minha culpa.
- Acalme-se e lembre-se, acima de tudo, de que não deve mais se envolver com os problemas do mundo.
Você não está em condições de ajudar e deverá deixar a vida seguir seu rumo.
Como já lhe contei, Matilde e Sara são inimigas de vidas passadas e precisavam se encontrar mais uma vez na Terra para se perdoarem mutuamente.
Você não foi o pai dela ao acaso.
Sua decisão de uni-la a Cássio foi um meio que a vida encontrou para que ele e Sara finalmente pudessem viver em paz, reparando o passado de delitos.
Como vê, nada na vida está errado.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 18, 2018 9:27 pm

Vamos ficar em paz e sentir a segurança em nosso coração.
É confortante saber que, apesar de tudo, até mesmo dos nossos erros, Deus está conduzindo nossa vida sempre para o melhor, para dias mais felizes e radiosos de paz.
Dando o braço a Mariano, disse carinhosa:
- Vamos, meu amigo.
Você precisa repousar e eu trabalhar.
Logo os espíritos luminosos desapareceram do ambiente.
* * *
Sara chegou em casa aos prantos e Rosana, que estava visitando Leonora, assim que a viu trancar-se no quarto foi ter com ela.
- Abra, Sara, precisa nos contar o que aconteceu.
- Deixe-me só, Rosana. Por favor.
- Não vou deixá-la só, você não está bem, algo aconteceu de errado e sua mãe está preocupada.
O melhor é abrir e nos dizer o que houve.
Se você não contar, Leonora ficará mais ansiosa e, doente como está, pode piorar.
O argumento foi forte e Sara resolveu abrir.
Conduziu Rosana para o quarto da mãe e começou:
- Fui enganada.
Terrivelmente enganada pelo único homem a quem realmente amei.
- O que aconteceu, minha filha?
O que Cássio lhe fez?
Sara contou tudo sobre a abertura do testamento e finalizou:
- Nunca imaginei que a riqueza viesse para mim em meio a essa amargura.
Ele só me namorou porque estava interessado em receber a metade de tudo.
- Eu já sabia.
- Como assim, mãe?
A senhora sabia que Cássio estava me enganando e não me disse nada?
- Não é isso.
O que eu sabia era que Mariano ia exigir que vocês dois se casassem no testamento.
A carta que ele me enviou quando estava à beira da morte contava em detalhes.
Sara estava indignada.
- E por que a senhora não me disse? - perguntou com voz que o choro cortava.
- Não fique triste com sua mãe, minha querida.
Eu não podia lhe dizer nada, jurei a Mariano que não diria, e creio que Cássio também de nada sabia.
- Como a senhora pode crer nisso?
- O conteúdo do testamento era um segredo, só sabia o que estava ali contido, Aurélio e eu.
O mordomo era muito fiel ao patrão e jamais iria abrir a boca para Cássio.
Não se precipite, ao contrário, agradeça aos céus por essa coincidência.
Ele a conheceu e a amou enquanto você era pobre.
Sara parecia reflectir.
A mãe poderia ter razão.
Pôde ver no rosto de Cássio que ele ficara tão perplexo quanto ela, mas no momento pensou ser fingimento.
De qualquer forma, precisava ter certeza.
Ela teria uma conversa com Cássio e saberia, olhando em seus olhos, se ele estava mentindo ou não.
- A senhora pode ter razão.
É que na hora, envolvida por todos aqueles ataques de Matilde, senti-me perdida, sem saber o que fazer ou pensar.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 18, 2018 9:28 pm

Olhou para Rosana e para a mãe e, sem jeito, falou:
- Durante a volta da fazenda, os advogados me deram todas as instruções do que preciso fazer para tomar posse de minha herança.
A primeira delas é mudar-me para a fazenda.
Sei que esta é a parte mais difícil para a senhora, mamãe, mas precisamos ir.
- Você sabe que estou doente e tenho poucos dias de vida, espere que eu me vá e depois você se muda - tornou Leonora com voz triste.
- Não diga isso, mamãe, só Deus é que pode saber quanto de tempo nos resta de vida.
A senhora ainda pode e vai viver muito.
Tenho notado que sua doença não está avançando e a senhora tem estado mais bem-disposta ultimamente.
Não custa atender a um pedido de meu pai, o homem que a senhora amou.
- Concordo com sua filha, Leonora - manifestou-se Rosana, até então calada.
Deus está dando a chance de você viver melhor, com mais conforto.
Esta casa não está em condições para abrigá-la em seu estado de saúde.
- Para mim é muito difícil ter de viver naquele lugar.
Foi lá que vivi meu amor, mas também foi lá que Mariano se casou e viveu com a mulher.
Tudo naquela casa deve lembrar o casal.
Seria torturante e até acho que partiria antes do tempo.
Além de tudo, existe Matilde, que é uma víbora e fará o que for possível para infernizar nossa vida.
Sara parou para pensar e percebeu mais uma vez que a mãe tinha razão.
Já ia dizer que concordava com ela quando Rosana disse:
- Eu acho que chegou a hora de você enfrentar o passado e se desapegar dele.
Ir para aquela casa será um bom treino para você que passou a vida inteira se lamentando por não ter vivido o seu amor e por essa razão acabou doente.
Lá poderá ver que o casamento de Mariano não passou de uma farsa e que, apesar de ele ter respeitado a esposa, foi você que ele sempre amou.
Quanto à Matilde, tenho certeza de que não tentará nada para prejudicá-las.
Sara agora é a dona, é quem manda em tudo, por essa razão ela terá de tratá-las como rainhas.
Vença o seu orgulho, Leonora, esta é a hora.
- Você diz isso porque sempre teve um marido que a amou e nunca sofreu uma desilusão.
- Isso não quer dizer que não entenda das dores do meu semelhante - ponderou Rosana com calma.
Tenho aprendido a não julgar, mas também sei que precisamos vencer nossos pontos fracos se quisermos evoluir.
Fugir de coisas ou pessoas por medo, orgulho ou vaidade só vai atrasar a hora de enfrentarmos esses problemas.
Eu sei que podemos encontrar a felicidade desde já, basta que para isso deixemos de dar vazão a sentimentos e pensamentos negativos.
O orgulho é um sentimento negativo, ele nos cega e nos impede de ver os verdadeiros valores da alma.
Você não quer ir para a fazenda apenas para não ver o local onde o homem que amou viveu com a esposa, não quer sofrer, mas eu garanto que isso é orgulho.
Ele fez a escolha dele, respondeu por ela.
Se foi feliz ou não, o que importa?
Quando amamos alguém de verdade, ficamos felizes por ver a pessoa livre para experimentar outros caminhos e até mesmo ser feliz, ainda que longe de nós.
Liberte esse seu apego por Mariano e ajude sua filha a enfrentar esse novo desafio que a vida está lhe mandando.
Leonora chorava baixinho enquanto Rosana falava.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 18, 2018 9:28 pm

Sabia que a amiga tinha razão.
Ela sempre fora orgulhosa.
Fizera questão de fugir de Mariano, esconder que ele tinha uma filha, como se com isso pudesse puni-lo.
Quanta ilusão!
Só ela foi quem sofreu com tudo isso.
Amargou anos de solidão, não abriu o coração para um novo amor e para a felicidade.
E o que conseguira com isso?
Apenas a doença e o sofrimento.
Foi com esses pensamentos que resolveu:
- Vamos para a fazenda, filha.
Não importa o tempo que eu dure sobre esta Terra.
Quero deixar de lado tudo o que me fez sofrer e sei que só enfrentando as coisas com coragem é que vou conseguir.
Sara abraçou a mãe, beijando-a com carinho.
- Preciso adiantar o almoço para começar a arrumar nossas coisas.
Sei que são poucas, mas quero entrar lá com tudo o que possuo.
Deu outro beijo na mãe e seguiu em direcção a um pequeno cómodo, que servia de cozinha.
Começou a cortar os legumes para preparar uma sopa quando Rosana apareceu na soleira.
- Despedi-me de sua mãe prometendo que vou visitá-la na fazenda.
Mas antes de sair gostaria de falar com você.
- Já sei, é sobre o Cássio.
- Não, é sobre a fortuna que tem nas mãos.
Rosana falou com uma expressão e tom de voz diferentes, e só naquele momento Sara se deu conta da imensa responsabilidade que tinha.
Rosana pediu-lhe que continuasse preparando a sopa, sentou-se num pequeno banco, e disse:
- Eu sei que é muito bom ganhar uma fortuna assim de repente, principalmente quando se vive numa situação tão difícil como a sua, tendo uma mãe doente para cuidar, sem ter uma roupa melhor para vestir e até mesmo sem saber se terá o que comer amanhã.
Mas quero que você, como moça inteligente que é, estudiosa da doutrina espírita, fique atenta, pois a prova da fortuna, assim como a da miséria, podem ser muito pesadas para nosso espírito se passarmos por elas sem verificarmos seu verdadeiro sentido.
- Entendo, dona Rosana.
Pode ficar tranquila, pois ao lado de Cássio saberei gerenciar tudo o que recebi.
Não sairei por aí distribuindo tudo, muito menos serei egoísta a ponto de não me preocupar com o sofrimento do meu semelhante.
Sei o que é ser pobre e sei também quantos estão na miséria precisando de uma ajuda.
- É aí que se encontra o problema.
Ser rico, próspero, ter facilidades financeiras é muito melhor do que ser pobre e viver na miséria.
O pobre pouco ou nada tem a oferecer ao seu semelhante, pois vive quase sempre na penúria e, muitas vezes, queixando-se do Criador, como se Ele fosse o responsável.
No entanto, os ricos também, em sua maioria, não sabem lidar com a dádiva que é o dinheiro, muitos se sentem culpados e por essa razão saem por aí dando esmolas, achando que estão ficando quites com Deus.
Outros, gastam todo o dinheiro em orgias e coisas fúteis da vida.
Nenhuma das duas posturas está correta.
- E como saber como lidar com o dinheiro?
Pelo visto, não é fácil.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 18, 2018 9:28 pm

- Pode não ser fácil, a princípio, mas quando descobrimos que dinheiro é energia espiritual e passamos a dar o valor exacto que ele merece, aos poucos, vamos aprender a usá-lo de maneira adequada.
Sem dinheiro nada nesse mundo vai para a frente.
As grandes descobertas, os avanços da medicina, as pesquisas, que buscam melhorar as condições de vida do ser humano só podem ser feitas pelas mãos de quem tem muito dinheiro.
Ela fez uma pausa e continuou:
- Você tem nas mãos uma fortuna grandiosa e a melhor maneira de usá-la bem, cumprindo com o que Deus quer, é utilizá-la em favor do bem comum.
Nem esmolas, nem prodigalidade exagerada, muito menos mesquinhez.
Deus distribui a riqueza para que ela faça bem aos espíritos que estão reencarnados sobre a Terra, aliviando-lhes o sofrimento, minorando-lhes suas dores.
Mas isso só é possível quando se dá dignidade ao ser humano por meio do trabalho e de outras chances de desenvolvimento.
Converse com Cássio e sei que ambos terão a melhor ideia para fazer a verdadeira caridade.
Sara concordou com o que Rosana disse e, como estava adorando a conversa, perguntou:
- Se a riqueza é o melhor para o ser humano, porque existe tanta miséria e pobreza?
- Por causa da mente pobre das pessoas e dos preconceitos que se criaram em torno do dinheiro.
Deus é imensamente rico, tudo o que existe pertence a Ele e também a nós, que somos seus filhos.
Deus não criou a pobreza, ela foi criada pela mente do homem, que ainda não compreendeu que pode ir além e realizar coisas extraordinárias com seu poder interior.
Se todos quisessem, poderiam ter muito dinheiro, vida farta, prosperidade, felicidade.
Creio mesmo que um dia, quando todos evoluírem, o mundo será assim.
- Sempre acreditei que as pessoas nasciam pobres porque foram ricas em outra vida e utilizaram mal o dinheiro.
- Não acredite nisso.
Riqueza é um estado mental, quem reencarna num meio rico tem o espírito impregnado de prosperidade ou precisa dessa experiência para aprender o valor do dinheiro.
Quem reencarna num meio pobre é porque acreditou na pobreza, na falta, no não merecimento.
É claro que existem ricos que foram muito maus em vidas passadas, usaram de maneira errada a fortuna e pediram para nascer pobres, por acreditar que foi a riqueza a causa de sua falência espiritual.
São espíritos que ainda não perceberam que a queda” humana não depende nem da riqueza nem da pobreza, mas do carácter e dos pontos fracos que neles existem.
Os que escolheram a miséria, certamente um dia vão se arrepender, porque perderam um tempo precioso, viraram encargo para a sociedade e não fizeram nada além de enterrar o próprio talento.
- E todos podem ter uma vida melhor, com mais prosperidade?
- Sim, basta para isso que acreditem na própria força, revejam seus pensamentos equivocados e sintam-se merecedores.
Deus não aprecia a pobreza, a falta, a fome, a doença, o sofrimento.
Pense nisso, Sara, e não deixe que essa oportunidade passe em vão.
- Nem tenho como lhe agradecer, dona Rosana, por esses ensinamentos tão elevados.
Além de boa patroa e amiga, agora, vai se tornar minha conselheira.
Rosana sorriu amavelmente abraçando Sara com carinho.
Ao sair dali, tinha a certeza do dever cumprido.
Iria orar para que Sara pudesse aproveitar todas as intuições que recebera e que lhe foram passadas para bem cumprir sua tarefa na Terra.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 18, 2018 9:28 pm

12 - Chegada à fazenda
Já era noite quando Sara reconheceu o som da buzina do carro de Cássio.
Foi até o portão para recebê-lo e, após os cumprimentos, pediu que entrasse.
Ela percebeu que Cássio estava acanhado, com rosto compungido e, naquele momento, sentiu que ele realmente não sabia de nada, nem a estava usando.
Por essa razão, quebrou o silêncio:
- Perdoe-me por ter saído da fazenda sem falar com você.
Naquele momento meu sonho de amor foi desfeito, pois acreditei sinceramente que você estava me usando apenas para conseguir se casar comigo e ter a metade da herança, mas agora, nem sei por quê, tenho certeza de que estava enganada.
Cássio emocionou-se:
- Ainda bem que chegou a essa conclusão.
Passei o dia inteiro sem ter coragem de procurá-la, pensando em ouvir palavras que fossem destruir tudo o que sonhei para nós dois.
Beije-me.
Ambos se entregaram a um beijo cheio de amor e encanto.
Quando a emoção serenou, Sara tornou:
- Eu o amo, Cássio, e parece que meu pai sabia o que estava fazendo quando nos uniu.
- Sim, meu tio foi sábio, sabia que eu não iria resistir a uma beleza como a sua - gracejou.
- Eu não o conhecia, nem mesmo o tinha visto aqui na cidade, mas, depois que passamos a namorar, vi que sua fama não era das melhores.
Soube que já aprontou muito, tanto aqui como na capital.
Cássio corou um pouco, pensando se deveria ou não contar o que houve entre ele e Fabíola.
Decidiu rapidamente que não e, por fim, disse:
- Mas essa fase já passou, aliás, ela passou assim que a vi naquela noite de réveillon.
Você é a mulher da minha vida.
Os dois continuaram abraçados trocando juras de amor, quando ouviram o chamado de Leonora:
- Sara? Quem está aí?
- É o Cássio, mãe.
Leonora silenciou, depois pediu:
- Traga-o até meu quarto, precisamos nos falar.
Cássio e Sara entraram de mãos dadas, o que fez Leonora se emocionar.
A filha estava tendo a chance de viver o amor de verdade, coisa que ela experimentou um dia, mas que não pôde levar adiante.
Olhou para Cássio demoradamente e sentiu que ele amava de facto a sua Sara e que faria de tudo para fazê-la feliz.
- Sabe, Cássio - começou com voz lenta -, o meu maior medo desde que adoeci era ter de deixar Sara sozinha no mundo, sem ter alguém que a ajudasse.
Depois, soube que ela herdaria tudo, e que você seria seu marido.
A princípio, assustei-me, pois sabia da sua fama de conquistador.
Por essa razão fiquei com muito medo, temendo que Sara sofresse.
Mas, agora, olhando-os, sinto que nasceram um para o outro.
Sei que vai saber amar e proteger minha filha, assim como eu fiz durante todo esse tempo.
- Pode ficar tranquila, dona Leonora.
Um homem só vive de aventuras até encontrar a mulher que lhe preencha o coração.
E essa mulher eu já encontrei, e é sua filha.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 18, 2018 9:28 pm

Meu tio fez questão de nos unir, mas o que ele não sabia era que já estaríamos unidos por uma união sincera.
- Vocês estavam marcados pela vida para se encontrarem mais uma vez na Terra, e se reajustarem com o passado, disso eu tenho certeza.
- Desculpe, senhora, mas não acredito em destino.
- Eu também não, mas acredito que a vida de cada um tem uma programação, que é escolhida antes do nascimento, e que Deus fará de tudo para que essa programação se cumpra.
Sara interrompeu:
- Mamãe, não vai falar sobre Espiritismo agora!
A senhora já sabe que Cássio é ateu.
Ele não acredita em nada disso.
Leonora olhou fundo nos olhos de Cássio e, sem se perturbar, continuou:
- Pode ser que ele não acredite, mas será empurrado pela vida a acreditar na força maior que comanda tudo no universo.
Chegará uma hora em que ele perceberá que só Deus poderá ajudá-lo e, nesse momento, ao sentir a intervenção divina em sua vida, nunca mais dirá que é ateu.
- Mais uma vez peço desculpas à senhora, mas não acredito nisso.
Creio mesmo que Deus foi uma invenção humana para que nas horas difíceis as pessoas tivessem algo em que se pendurar, ou até mesmo uma criação de mentes perversas, a fim de dominar os mais fracos.
Eu nunca vou acreditar em Deus.
As pessoas que acreditam nessas coisas são todas fanáticas, medrosas, vêem pecado em tudo, deixam de viver, outras caem na hipocrisia, pregando uma coisa e fazendo outra.
Tenho dois exemplos em casa.
Minha mãe e Ana vivem com o terço na mão, mas sei que não fazem nada do que pregam e não acreditam em nada do que dizem.
- É que elas, assim como a maioria das pessoas, acreditam no Deus que os homens criaram e não no Deus que criou os homens.
Todo equívoco que as pessoas cometem em nome de Deus vem da visão distorcida do que seja a divindade.
- Mas elas seguem a Bíblia, o livro sagrado dos cristãos.
Por essa razão se dizem certas.
- É aí que está o erro.
Quem foi que disse que a verdade sobre Deus está na Bíblia?
- E não está?
- Não. A Bíblia foi feita pelo homem e, por esse motivo, está cheia de erros absurdos, uns pela pouca evolução das pessoas da época, outros colocados ali de propósito pelas religiões dominantes a fim de prenderem as pessoas pelo temor.
A verdade sobre Deus não está em livro algum, e sim na natureza e na observação de suas leis.
Quem se detiver a observar a vida e ver como ela funciona, vai encontrar o toque do Criador em tudo.
Além disso, Ele colocou Suas leis em nossa consciência, e por essa razão é tão difícil para alguns aceitar o que as religiões pregam.
As verdades da nossa consciência são muito diferentes daquelas que os padres, pastores, rabinos e outros líderes religiosos costumam pregar.
Cássio passou as mãos pelos cabelos lisos.
Nunca havia pensado daquela maneira.
Seria por isso que nunca aceitava o que os padres diziam?
Desde pequeno detestava ouvir os sermões nas missas de domingo em que seu pai Guilherme e sua mãe Matilde o obrigavam a ir.
Quando ficou rapaz e dono do próprio nariz, nunca mais entrou na igreja.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 18, 2018 9:29 pm

Não poderia acreditar num Deus que punia, que castigava, que mandava seus filhos para o inferno, que vivia vigiando as pessoas.
Só podia ser mentira.
Agora, ali, diante de Leonora, descobria uma nova maneira de ver Deus.
Por esse motivo, perguntou:
- Como é o Deus em que a senhora acredita?
Certamente segue alguma religião.
- Não sigo religião alguma, até acho que a religião fez mais mal ao homem do que bem.
Ocorre que conheci, por meio de uma amiga, uma doutrina, que me ensinou a enxergar Deus de maneira diferente, de uma maneira que minha alma aceitou.
O que mais gosto é dividir esse conhecimento com outras pessoas.
- Que doutrina é essa?
- E a doutrina espírita.
Sei que já ouviu falar.
- Sim, é aquela que leva as pessoas a fazer consultas aos mortos para saber se vão ganhar no jogo, como andam os negócios, a vida íntima etc.
Não acredito nisso.
- Você está enganado.
Muita gente confunde essas coisas com Espiritismo, mas não é nada disso.
O Espiritismo é uma doutrina surgida no século XIX, na Europa, e organizada pelo francês Allan Kardec.
Tem por base a crença num Deus único, soberanamente bom e justo, a reencarnação, a pluralidade dos mundos habitados, a sobrevivência e comunicação dos espíritos com o nosso mundo e a Lei de Causa e Efeito.
Os espíritas não dão consultas, não jogam cartas, nem evocam os espíritos para fins de satisfação de interesses mesquinhos e materialistas.
Mas você perguntou sobre o Deus em que eu creio.
Eu acredito que Ele é a inteligência suprema do Universo, que nos criou simples e ignorantes, mas com potencial suficiente para ser desenvolvido ao longo das encarnações.
Creio que Ele é amor e nos destinou à felicidade, à alegria, à saúde e à paz.
Jamais nos pune ou castiga, mas dá a cada um a colheita de sua semeadura, para que todos possam melhorar e aprender a reconhecer os verdadeiros valores da alma.
- Esse é um Deus diferente.
- Não. A maneira de ver é que é diferente.
Deus é o mesmo em todo lugar, são as pessoas que o vêem desta ou daquela forma, de acordo com seus níveis de evolução.
- E quem me garante que a senhora não está iludida ao me apresentar um Deus tão bonzinho quanto esse?
Leonora sorriu.
- O que eu estou dizendo qualquer um pode experimentar e chegar às mesmas conclusões, por meio da observação e do bom senso.
Não creio nisso apenas porque o Espiritismo assim o diz, creio porque pude comprovar e ver que é verdade.
E, sabe, a verdade liberta, dá alegria, tranquilidade.
- A senhora ainda não me convenceu.
- Nem pretendo.
Acredito na sabedoria do Universo e se for para você aprender sobre essas coisas nesta encarnação, a vida vai levá-lo a esse caminho.
- Mas a senhora falou que eu e Sara estamos destinados um ao outro!
Isso na sua crença tem a ver com reencarnação?
- Sim. Nas questões afectivas as pessoas não se encontram na Terra pela primeira vez.
Já vivemos inúmeras reencarnações, conhecemos pessoas, amamos, odiamos, sofremos e fizemos sofrer.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 18, 2018 9:29 pm

Para que tudo chegue à harmonia é necessário que nos reencontremos com todos os que amamos e odiamos, a fim de que com a convivência, tudo o que for negativo seja diluído.
Por essa razão, peço a vocês, aconteça o que acontecer, nunca se separem.
O amor de vocês é verdadeiro.
É um amor que Deus uniu, e esse tipo de amor o homem não deve separar jamais, sob pena de sofrer muito.
Lutem, perdoem, esforcem-se, mas nunca deixem de viver um com o outro.
Cássio estava sentindo algo diferente.
Aquela mulher tinha um poder estranho de conduzir seu pensamento para coisas que ele julgava já ter opinião formada.
O que ele ignorava é que, naquele instante, vários espíritos de luz estavam ali, distribuindo energias renovadoras e fluidos saudáveis, que o faziam entrar em contacto com seu Cristo interno, coisa que havia muito não acontecia.
Percebendo que a conversa estava acabando, Cássio disse:
- Não se preocupe, nada vai separar Sara de mim.
- Assim espero, amor - tornou Sara carinhosa.
Quando os dois saíram do quarto, Sara olhou-o e disse:
- Creio que logo chegaremos à fazenda.
- Eu supus mesmo que iriam para lá, afinal, tudo aquilo é seu.
- Nosso, aquilo tudo é nosso.
Cássio franziu o cenho.
- Não gosto de pensar que estou usufruindo de algo que é seu.
Por mais que eu tenha a metade, gostaria de dizer que tudo de facto é seu.
E faço questão que seja assim.
- Você está sendo orgulhoso, acredito que se meu pai deu-lhe a metade do que possuía, não foi apenas porque iria desposar a herdeira, mas por amá-lo como a um filho.
- Pode ser.
Sempre percebi que tio Mariano projectou seu instinto paterno em mim, visto que tia Melânia nunca pôde ter filhos, e, na verdade, sempre me senti mais filho dele do que do meu pai Guilherme.
- Então, seu bobinho, não precisa ficar pensando que só herdou por minha causa.
Você foi muito amado e mereceu.
Cássio enlaçou-a pela cintura, beijando-a com ardor enquanto dizia:
- Eu a amo, Sara, e nada neste mundo vai nos separar.
- Tenho certeza disso.
- Precisamos mesmo ter certeza, pois tenho a vaga impressão de que vamos enfrentar uma série de problemas em nosso casamento.
Minha mãe não a aceita e sei que fará de tudo para impedir nossa felicidade.
Precisamos jurar que não deixaremos nada nos atingir.
Vamos falar juntos:
nada neste mundo vai acabar com nosso amor.
Eles repetiram a frase em voz alta e sentiram uma leve brisa que os envolveu, como que a dizer que o Universo conspiraria a favor daquelas palavras.
Não era muito tarde quando Cássio saiu da casa de Sara.
Então resolveu passar na casa de Rodrigo.
O amigo era farrista, saía muito, mas estavam no meio da semana e sem lugar para ir, certamente o encontraria no seu quarto vendo filmes.
Assim que chegou a casa, uma criada veio atender e como ele previu encontrou o amigo grudado à TV.
- Você aqui a esta hora?
O que aconteceu?
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 18, 2018 9:29 pm

- Nada de mais.
Não posso mais visitar o meu melhor amigo?
- Claro, e você está me devendo, nunca mais saímos juntos!
Sei que a esta hora está com Sara, vai me dizer que brigaram!
- Não brigamos.
Sara está muito ocupada arrumando suas coisas para se mudar para a fazenda com a mãe.
Rodrigo fez um esgar de incredulidade.
- Você vai ter a coragem de levar Sara para morar na fazenda sem se casarem e ainda com a mãe, não é?
Estou entendendo direito?
- Rodrigo, prepare-se, pois o que vou lhe contar parece uma história criada por um dos roteiristas de cinema hollywoodiano.
Fez uma pausa e prosseguiu:
- Você certamente está esquecido de que a abertura do testamento de tio Mariano estava programada para esta semana, um mês após a sua morte.
- Sim, realmente esqueci, afinal, nunca mais paramos para conversar, nem lembrava mais desse testamento.
- Então, meu caro, ele foi aberto e você não vai acreditar quando eu lhe contar quem herdou tudo.
Cássio passou a contar toda a história, inclusive sobre o romance do tio com Leonora e de como Sara passou a ser dona de tudo o que eles possuíam.
O rosto de Rodrigo passou da incredulidade ao espanto, e quando percebeu que a história chegara ao fim e que o amigo de facto não estava brincando, comentou:
- Que sorte a sua, hein?
Vai me dizer que não sabia de nada?
Agora entendo por que resolveu namorar uma moça pobre como Sara.
Espertinho, você!
- Não brinque, Rodrigo.
Eu não sabia de nada, e os advogados podem provar isso.
Foi coincidência.
O bom é que amo Sara e casar com ela não será nenhum sacrifício, e sim o maior prazer de minha vida.
Os olhos de Cássio brilhavam, e Rodrigo não deixou de observar:
- Deus foi muito bom com você, deve agradecer.
- Não foi Deus que foi bom, quem foi bom foi o meu tio.
- Ah, esqueci que você não acredita em nada.
De qualquer forma, o acaso foi muito inteligente não acha?
- Penso que sim, pois faria tudo para salvar o nosso património e me consumia todas as noites pensando se tivesse que decidir entre Sara e a fortuna.
Confesso que não saberia por qual optar.
- Eu sei. Você iria optar pela fortuna.
Acostumado ao luxo, a ter tudo o que sempre quis, duvido que fosse escolher Sara e viver com um salário.
- O bom é que, como você disse, o acaso me favoreceu.
Agora, vamos descer e, por favor, sirva-me um bom vinho.
Os amigos desceram e, enquanto bebiam, continuavam a comentar o quanto a sorte às vezes favorecia as pessoas, completamente enganados por suas convicções materialistas.
* * *
Nos dias que se seguiram, a notícia de que Sara era filha de Mariano e dona de tudo, causou rebuliço na pequena cidade de Boa Esperança.
Rodrigo tratara de comentar com algumas pessoas, que passaram para outras e logo a porta da casa de Sara estava lotada de gente, algumas nem a conheciam, mas pediam sua ajuda e rogavam socorro financeiro.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 18, 2018 9:29 pm

Felizmente, tudo estava pronto para a mudança e foi, com dificuldade, que Sara conseguiu driblar a multidão, colocar sua mãe dentro da ambulância, e seguir com Cássio levando seus poucos pertences.
Vendo a suposta indiferença de Sara, não faltou quem comentasse sobre sua arrogância e mesquinhez, já que não prometera ajudar ninguém.
Padre Sílvio, que a tudo acompanhava, tratou de defendê-la, pregando um sermão demorado, afastando assim a pequena multidão que ainda restava no local.
Quando chegaram à fazenda, foram recebidos pelos advogados, que os esperavam, Matilde, Ana e Aurélio.
Olhando para Matilde, Sara perguntou:
- Mandou que preparassem nosso quarto como pedi?
- Sim, fique tranquila - respondeu Matilde, com falsidade, abraçando-a.
Seja bem-vinda a esta casa que, agora, é sua.
Preparei um dos maiores quartos, já que deseja dormir com sua mãe.
Está tudo limpo, arejado, pronto para recebê-las.
Percebendo o clima amistoso entre as duas, Percival comentou:
- Creio que tudo aqui vai ser como do desejo de nosso saudoso Mariano.
Eu e Alceu viemos para garantir sua tranquilidade e relembrar à senhora Matilde que ela não manda mais em nada e deve sim obedecer.
Mas, felizmente estamos vendo que já se conformou.
- Ah sim - disse Matilde, tentando conter o ódio.
Não posso lutar contra a força das coisas.
De qualquer forma, Sara e Cássio iriam se casar, devo abençoar essa união e a chegada dessa moça aqui.
Alceu fez um ar cínico ao dizer:
- Esperamos que seja verdade, pois não foi o que nos pareceu no dia da abertura do testamento, onde a senhora fez menção de agredir Sara.
Espero que se controle.
Fez pequena pausa e, olhando para Sara, disse:
- Estaremos na cidade ainda durante alguns meses.
Mariano nos pagou regiamente para que prestássemos todo e qualquer tipo de orientação a você.
E mesmo quando formos embora, gostaria de lembrar que não assine nenhum documento sem antes nos mostrar.
Teremos todo o prazer de vir até aqui ou recebê-la em nosso escritório em Cuiabá para qualquer eventualidade.
Olhando de soslaio para Matilde, que estava corada de ódio, abraçou Sara seguido de Percival.
Ambos se retiraram.
Os enfermeiros entraram com Leonora pela porta principal e, ao vê-la, Matilde aproximou-se:
- Seja bem-vinda, Leonora.
Leonora calou-se.
Parecia estar vivendo um pesadelo ao entrar naquela casa tão rica e, ao mesmo tempo, tão assustadora.
Sim, aquela fazenda tinha algo assustador, que ela não sabia dizer o que era, mas que a deixou tensa.
Aurélio aproximou-se solícito:
- Venham, eu mostrarei a vocês os seus aposentos.
A maca seguiu com Leonora, que, amparada pela filha, entrou no luxuoso recinto, muito bem adornado, com tapeçarias finas, móveis de madeira trabalhada, lustres e bibelôs completando a elegante decoração.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 18, 2018 9:30 pm

Quando todos saíram, ela comentou:
- Ainda bem que não viverei muito.
Não suportaria ter de aturar morar num lugar como este.
- Mamãe! - censurou Sara.
Quer um lugar melhor do que este para viver?
Olhe só a beleza de cada coisa, de cada objecto desta casa.
Precisamos admirar o belo.
Esta fazenda é muito bela.
- Pode ser para você, que vai iniciar sua vida ao lado do homem que ama, mas para mim isto aqui não serve.
- Tudo bem, não vamos discutir, sei que a senhora tem suas razões, mas não me impeça de ser feliz aqui, ao lado de Cássio.
- Eu não impedirei nada, quem poderá impedir é Matilde.
Tome muito cuidado com essa mulher.
- Tomarei, mamãe.
Agora, descanse.
Leonora sentiu que Sara não havia levado a sério seu alerta.
Com certeza era pela empolgação da hora, mas ela saberia esperar outro momento para abrir-lhe os olhos com mais força.
Ajeitou-se entre os lençóis e pôs-se a orar, pedindo ajuda a Deus e aos espíritos de luz.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 18, 2018 9:30 pm

13 - Uma grande amizade
Assim que saiu do quarto da mãe, Sara foi abordada por Matilde, que passava pelo corredor.
- Já ia mesmo chamá-la, Cássio quer lhe falar.
Deu o braço a Sara, que mesmo estranhando aquela atitude de suposto carinho, não a rechaçou.
Seguiram até a sala.
Cássio a abraçou dizendo:
- Preciso ir ao escritório.
Não queria sair de casa logo no seu primeiro dia aqui, mas ligaram-me de lá me lembrando de um encontro com alguns exportadores.
Sinto muito, amor.
- Não precisa se preocupar, a fazenda é grande, mas tenho certeza de que não vou me perder - disse ela sorrindo.
- Para que não se perca pedi a mamãe que lhe mostrasse toda a casa.
Quero que fique à vontade para conhecer tudo o que é seu. Com o tempo e depois de casados, viajaremos para a Europa onde poderá ver o resto de seu património.
- Meu só não, lembre-se de que a metade pertence a você.
Nem quero pensar em Europa agora!
Contento-me em conhecer a fazenda, que é muito mais do que pensei ter um dia.
- Bem, estou indo - beijando Sara, retirou-se.
Assim que se viram a sós, Matilde e Sara se olharam.
Por um momento, ela não viu nenhuma sombra de rancor ou ódio nos olhos da sogra.
Será que estava mudando?
Matilde quebrou o silêncio.
- Venha, vou lhe mostrar toda a casa.
Sara a acompanhou e ficou conhecendo aquela imensa propriedade.
Havia de tudo:
sala de jantar e estar, de música e jogos, jardim de inverno, muitos quartos e uma imensa piscina.
Vendo a curiosidade no rosto da nora, Matilde tornou:
- Esta fazenda é muito antiga, trata-se de uma construção soberba do século XVIII.
Foi construída pela família de meu marido e de seu pai, e conservada por todos esses anos.
Mariano fez questão de manter o estilo neoclássico, reformando-a todos os anos.
Fiz muito esforço para que ele deixasse meu marido Guilherme construir a piscina quando Cássio e Ana nasceram.
- É muito bela.
Ouvia muito falar deste lugar, mas só agora, conhecendo tudo, vejo que não exageravam: é coisa de novela!
Matilde sorriu.
Já dentro da casa, ambas começaram a percorrer imenso corredor, cheio de portas na parte superior.
Matilde foi abrindo um a um os quartos, que, embora vazios de gente, estavam todos arrumados de maneira impecável.
Foram seguindo, até que Matilde virou-se bruscamente e disse:
- Vamos descer.
Já viu tudo, podemos fazer um lanche enquanto esperamos a hora do almoço.
- Não, senhora!
Não vi o que tem dentro daquele quarto.
Sara apontava para um quarto com uma porta menor, no fim do corredor.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 18, 2018 9:30 pm

Matilde, com visível nervosismo e parecendo desesperada, retorquiu:
- Ali não há nada, só mais algumas camas vazias.
- Mesmo assim quero ver.
Faço questão de conhecer tudo.
Para desespero de Matilde, Sara apressou o passo e foi até a pequena porta, girando com rapidez a maçaneta.
Percebendo que estava fechada, perguntou:
- Porque esse é o único quarto da fazenda que está trancado?
Matilde, pálida, não sabia o que dizer, previa que aquele momento chegaria, mas não era a hora de Sara saber a verdade.
Por fim, inventou:
- Desculpe, Sara, mas não quero nem posso abrir esse quarto para você.
Peço que, mesmo sendo a dona de tudo, respeite meu desejo.
- Mas porquê, senhora?
- Nesse quarto guardo todas as recordações do meu marido, todos os objectos que lhe pertenceram enquanto vivo.
Só eu mesma para fazer isso, mas amei demais o Guilherme, e o Mariano tinha muita raiva do irmão.
Temendo que ele jogasse tudo o que pertencia a ele fora, acabei guardando tudo aqui.
Sara estava desconfiada, mas resolveu ceder.
- Tudo bem, vamos descer.
- Antes disso, quero lhe pedir uma coisa.
- Pode falar.
- Haja o que houver, nunca abra a porta deste quarto.
Sara estranhou.
- Mas o que pode existir de mais nos pertences do seu marido?
- São objectos que guardo com muita estima. Por favor, prometa que nunca tentará abrir.
- Tudo bem, senhora, eu prometo.
- Você é um anjo!
Estou vendo o quanto estava enganada quando tentei lhe fazer mal.
Matilde deu um leve beijo no rosto de Sara e, de braços dados, ambas desceram.
Quando chegaram à sala, encontraram Ana, que, ao vê-las juntas, perguntou:
- Onde estavam todo esse tempo?
- Fui mostrar a casa à nova dona.
Estávamos na parte de cima.
Sara ficou encantada.
- Imagino.
Mas a senhora não abriu o quarto do papai, não é?
Matilde gelou.
Porque a idiota de sua filha tocou novamente naquele assunto?
- É claro que não.
Mas já expliquei tudo a Sara, que entendeu perfeitamente, mostrando o quanto é compreensiva com as manias de uma viúva.
- Compreendi sim, Ana, não tenho mais curiosidade para ver nada.
Já conheço toda a casa e para mim basta.
Matilde chamou Aurélio, que prontamente a atendeu.
- Traga um lanche para nós.
- Sim senhora.
Foi por pouco tempo, mas Sara percebeu que com a entrada do mordomo Ana mudou de cor e sua respiração tornou-se acelerada.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jan 18, 2018 9:30 pm

Percebeu também o olhar que ela lançou a ele.
Será que Ana gostava de Aurélio?
Ela precisava averiguar.
Aurélio trouxe o lanche e elas ficaram conversando amenidades até a hora do almoço.
Quem não conhecesse Matilde, diria que ela estava adorando Sara e já tinha aceitado toda a situação, mas, na realidade, por dentro, ela se consumia de ódio ao lembrar que tudo o que lhe pertencia estava nas mãos daquela que considerava uma pobre miserável.
Pela mente de Matilde passava todo tipo de pensamentos de vingança, e ela já se via no momento em que, vingada e dona de tudo novamente, expulsaria Sara dali a pontapés.
Cássio chegou e todos almoçaram num clima alegre.
Sara não deixou Aurélio levar a refeição da mãe no quarto, coisa que ela mesma fez.
Como não estava acostumada a ficar sem trabalhar, logo sentiu um vazio no peito.
O que ela faria durante as tardes?
Assim que terminou de dar o almoço à mãe, foi procurar por Ana e encontrou-a rezando, ajoelhada no oratório.
Quando percebeu que a oração havia terminado ela chamou baixinho:
- Ana, vamos conversar um pouquinho?
- Ah sim, vamos.
Estava mesmo precisando lhe dizer algumas coisas.
Seguiram até a sala e, ao se sentarem, Ana disse:
- Embora eu tenha me sentido mal por perceber que tio Mariano nunca gostou de mim, saiba que fiquei muito feliz em saber que você foi quem herdou tudo.
Essa fortuna não poderia ter parado em melhores mãos.
- Sei que gosta de mim, Ana, muito antes de saber da verdade.
- Gosto mesmo, e hoje sei que estava enganada quando naquele dia na praça lhe disse que Cássio estava apenas querendo se aproveitar de você.
Tenho certeza de que meu irmão a ama como nunca amou ninguém na vida.
Estou muito feliz por essa coincidência imposta por tio Mariano em que vocês serão obrigados a se casar.
Sei que serão muito felizes, parece que o tio estava adivinhando.
- Meu pai foi muito feliz nessa decisão, pois também amo profundamente seu irmão.
Sara fez uma pausa e perguntou num tom de brincadeira:
- Aqui nesta casa ninguém faz nada, não é?
- Como assim?
- Digo, ninguém trabalha.
Parece que só Cássio tem uma ocupação.
O que vocês fazem durante o dia todo?
Ana sorriu.
- Eu estou acostumada a não fazer nada.
Por opção, escolhi não continuar meus estudos na capital, como fez Cássio.
Gosto muito de orar, de conversar com Jesus e com os santos.
Ocupo meu tempo entre as orações e, algumas vezes, ajudo minha mãe nos adornos da casa.
Também aprecio muito ler sobre a vida dos santos e a Bíblia.
- E sua mãe?
- Mamãe nunca trabalhou.
Enquanto meu pai era vivo, ela vivia para cuidar dele e das coisas dele.
Depois que ele morreu, passa os dias cuidando para que tudo na fazenda fique impecável.
Temos muitos empregados aqui, temos até um mordomo, mas mamãe faz questão de colocar seu toque pessoal em tudo, desde o que é servido nas refeições aos arranjos da sala.
Mas por que a pergunta?
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 19, 2018 9:31 pm

- É que desde cedo fui acostumada a trabalhar e, agora, que tenho tudo, não sei se vou me acostumar a ficar parada sem ter o que fazer.
- Com o tempo você se acostuma.
- Acho que não.
O trabalho é a melhor terapia para a alma.
É no trabalho que o homem cresce e se desenvolve.
Por essa razão, vou pedir ao Cássio que me arranje algo para fazer no escritório da usina.
Ana abaixou os olhos com tristeza.
- Pensei que apreciasse minha companhia.
Poderíamos ocupar o tempo conversando.
- Eu adoro sua companhia, Ana.
Mas quero trabalhar, sentir-me útil.
Não estou condenando sua forma de viver, mas é diferente da minha.
De qualquer maneira, vamos sempre conversar.
Sara fez uma pequena pausa, olhou para Ana, procurando algo escondido no fundo de sua alma, e disse:
- Gostaria de lhe fazer uma pergunta.
Sei que posso estar sendo indiscreta, e saberei compreender se não quiser falar sobre o assunto, mas me diga:
o que você sente pelo Aurélio?
Ana sentiu-se gelar.
De repente, seu coração disparou e ela levantou-se rapidamente dando as costas para Sara.
- Não entendo por que me pergunta isso.
Sara levantou-se também e, ficando diante dela, tornou:
- Como disse, posso compreender se não quiser falar do assunto, mas notei que sente algo por ele.
Foi em fracção de segundos, mas, pela manhã, na hora em que ele se aproximou de nós, percebi seu olhar, e eu diria que está apaixonada.
Ana deixou que lágrimas escorressem de seus olhos.
Sara, sentindo que a amiga sofria, abraçou-a com ternura.
Ana, sentindo-se acolhida, tomou coragem:
- Preciso me abrir com você, mas aqui na sala é perigoso.
Vamos ao jardim.
As duas seguiram de mãos dadas, e quando sentiu-se segura de que ninguém as ouvia, Ana começou:
- O que vou lhe dizer jamais ninguém poderá saber.
Sinto que posso confiar em você, Sara.
Vejo pureza em seus olhos, em suas atitudes.
Sei que não vai me condenar.
Sara aquiesceu e Ana começou a contar tudo, desde o começo quando vira Aurélio na piscina, passando pelo conselho do padre Sílvio, até aquele momento, quando já se mostrava disposta a conquistá-lo.
Por fim disse:
- Não sei se estou apaixonada, se o amo, mas sinto por ele uma atracção tão forte, que me faz passar mal.
Tenho tentado me controlar, mas por vezes não consigo, nem sei ainda como ele não percebeu.
- Eu vi seus olhos em direcção aos dele, posso garantir que está apaixonada e que não é apenas o desejo que a move.
Vou ajudá-la a conquistá-lo.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 19, 2018 9:31 pm

Ana, sentindo muita alegria, tornou:
- Pensei que fosse me condenar pelos meus impulsos, e, em vez disso, vai me apoiar?
Você é uma santa!
- Não sou santa coisa alguma e vou ajudar porque sinto que realmente o ama.
Mas você precisa parar de considerar os seus desejos como sendo uma coisa impura.
Isso não é verdade, e a está prejudicando, levando-a a sentir-se culpada.
- Mas meus desejos são impuros, pecaminosos.
Só quando me casar com ele poderei desejá-lo sem estar pecando.
Sara olhou-a demoradamente e considerou:
- Ana, sei que é católica e segue com fidelidade os preceitos de sua religião, mas gostaria que soubesse que as religiões foram criadas por homens e, por essa razão, apesar de nelas existirem muitas verdades, há também muita coisa falsa e irreal.
- Não quero discutir religião.
Você é liberal, não vai à igreja.
- O que não significa que não entenda de Deus e das leis da vida.
Posso garantir a você que os desejos fazem parte da natureza humana e são absolutamente normais.
A sexualidade faz parte de nossa vida e tudo é natural como Deus criou.
Você é mulher, cheia de vida, vontade de amar, por essa razão é normal e desejável que queira fazer sexo.
Ana corou.
- Você quer me confundir.
- Não. Quero apenas que desperte para a realidade.
Todas as coisas que existem no mundo foram criadas por Deus.
O sexo é uma delas, faz parte da vida.
Ninguém pode se sentir feliz e completo, sem vivenciar essa experiência, que faz parte do nosso amadurecimento como espíritos imortais.
Você vem sufocando sua sexualidade, não se permitindo uma relação.
A abstinência não é boa e pode causar problemas mentais e físicos.
- Você está enganada - rebateu Ana.
As freiras e os padres vivem muito bem e felizes sem sexo.
- Podem até viver, não nego, mas certamente se passassem pela experiência sexual, com certeza teriam mais harmonia.
Ana estava horrorizada.
Ia falar alguma coisa quando Sara a interrompeu e continuou:
- O problema do sexo está no uso que se faz dele.
Assim como a fortuna e tantas outras coisas que Deus deixou no mundo.
A sexualidade vivida de maneira saudável, sem excessos, praticada de maneira lícita, sem ferir ninguém, é ferramenta de evolução abençoada por Deus.
- Você quer dizer que posso ter uma relação com Aurélio sem estar casada e que isso não é pecado?
- Sim, vocês dois são livres, independentes, o que impede que se amem?
- A Bíblia diz que o sexo antes do casamento é pecado.
- A Bíblia foi escrita por homens e, por essa razão, não representa a verdade absoluta e está cheia de equívocos e preconceitos.
Para Deus, não importa se o sexo é feito antes ou depois do casamento, o que importa no sexo é o respeito mútuo, o afecto sincero, o amor verdadeiro.
Onde existe tudo isso, não pode haver pecado.
Além de tudo, o sexo é uma manifestação natural, que aparece em todos os indivíduos despontando na adolescência.
É aí onde entra a educação e o equilíbrio na hora de experimentá-lo.
- Você deu voltas em minha cabeça.
Gostaria de acreditar em tudo o que me disse, mas minha religiosidade é muito forte.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 19, 2018 9:31 pm

Decidi conquistar Aurélio, mas ao mesmo tempo tenho medo.
- Como disse, vou ajudá-la.
Se ele se interessar por você será uma felicidade.
Ana ficou calada por alguns instantes, sem saber se dizia sim ou não.
Olhando para Sara, que a fitava com olhos de sincera amizade, resolveu revelar.
- Há uma coisa que não lhe contei.
Na verdade, é um segredo que não é meu, mas que diz respeito à minha vida.
Se quero que me ajude, não posso omiti-lo.
- Pode falar, tenha confiança, somos amigas.
- Aurélio mantém um caso com minha mãe.
- Como? - perguntou Sara, pensando não ter entendido.
- É isso mesmo que ouviu.
Minha mãe e Aurélio são amantes, e creio que já há algum tempo.
Sara estava realmente surpresa.
- Como descobriu isso?
Ana contou e ao final disse:
- Esse facto pode acabar me prejudicando e, às vezes, desencoraja-me.
Tenho medo da mamãe.
- Você precisa saber até onde o relacionamento deles é verdadeiro.
- Mas é verdadeiro. Eu vi!
- Não me refiro a isso.
O que quero dizer é que você precisa averiguar se eles realmente se gostam.
Há pessoas que se envolvem apenas pela sensualidade, pode ser o caso deles.
- Como vou saber isso?
- A única maneira é se declarar a Aurélio, dizer tudo o que você sente.
A forma que ele reagir a isso, vai dizer também sobre o que ele sente por sua mãe.
- Não tenho coragem de me declarar, isso é feio para as mulheres.
Quem deve se declarar é o homem.
Sara sorriu.
- Isso são regras sociais que não servem para nada.
Ainda bem que os tempos mudaram.
As mulheres corajosas e que tem boa auto-estima, sabem se aproximar de um homem, revelar o seu amor, sem ser vulgar ou parecer fácil.
O homem percebe e acaba por admirá-las.
É isso o que você vai fazer.
- Não sei se tenho coragem.
- Terá, eu vou ajudar.
As duas fizeram uma pausa.
Perceberam que haviam se esquecido do tempo e que o sol já se punha no horizonte.
- Nossa conversa foi tão boa que já está anoitecendo!
Nem notamos.
Daqui a pouco, mamãe vai colocar todos os criados para nos procurar - disse Ana sorrindo.
- Então vamos entrar.
Tenho de dar algumas medicações à mamãe e me preparar para esperar o Cássio chegar.
As duas saíram do jardim e entraram na casa.
Daquele momento em diante fortalecia-se uma grande e verdadeira amizade.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 19, 2018 9:32 pm

14 - Obsessão
Pouco tempo depois, Cássio chegou e todos ficaram na grande sala de estar, apreciando licores enquanto esperavam o jantar ser servido.
Matilde continuava amável e cordata com Sara e o clima era de harmonia.
O jantar transcorreu calmo, e logo depois Ana e Matilde retiraram-se para os seus quartos.
Sozinhos na sala, Cássio e Sara aproveitaram para conversar e trocar carinhos.
Algum tempo depois, ele disse, com suavidade:
- Vamos para o meu quarto?
- Sim, mas primeiro vou ver minha mãe, hoje ela está muito mal-humorada pela mudança de residência.
Você me aguarda?
- Claro, meu amor.
Sara foi ao quarto da mãe e notou que ela dormia profundamente.
Fazia um frio intenso e ela colocou outro cobertor sobre Leonora.
Ao sair, Cássio já a esperava no corredor e, juntos, seguiram para o quarto dele.
Passavam das duas da madrugada quando Sara voltou para seu quarto.
Após verificar que estava tudo bem com a mãe, foi ao banheiro, tomou uma ducha reconfortante e mergulhou nos lençóis macios.
Nunca imaginara que um dia viveria num lugar daquele, com o homem amado, dormindo em uma cama tão boa.
Após fazer sentida prece de agradecimento, adormeceu.
Meia hora depois, Sara acordou muito assustada, ouvindo gritos estridentes e fortes que ecoavam por toda a casa.
Ligou o abajur e percebeu que Leonora também estava acordada e com medo.
Os gritos cessavam e depois voltavam, após algum tempo, a mesma voz gritando alto começou a dizer:
- Satanás!
Saia daqui, Satanás!
Eu vou matar todos vocês!!
Eu vou matar!!!!
A mesma frase era repetida diversas vezes, até que Leonora, assustada e com medo, disse:
- Tem algum espírito perturbado nesta casa, bem que eu não queria vir para cá.
- Isso não é espírito nenhum, mãe, é alguém que está muito vivo e com problemas.
- Parece a voz da Matilde.
- Mas não é.
Essa voz é muito estridente e mais fina.
Vou sair e ver o que é.
Leonora estava com muito medo.
- Não faça isso.
Pode ser que alguma louca tenha invadido a casa.
Vamos permanecer caladas e quietas.
- Eu não tenho medo, aqui tem muita gente e sei que não fomos só nós que escutamos.
Todo mundo já deve ter acordado.
Sem titubear, Sara vestiu um penhoar, abriu a porta e deparou com o corredor escuro.
Sentiu medo, mas resolveu seguir adiante.
De repente, uma mão grossa segurou seu braço e ela ouviu:
- É melhor ficar onde está, Sara.
- Solte-me!
- É para o seu bem.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 19, 2018 9:32 pm

- Quem é você?
- Aurélio. Eu sabia que assim que os gritos começassem, você iria sair para ver do que se tratava.
Por essa razão, fiquei de prontidão na tentativa de impedi-la.
- Não adianta, vou ver o que é.
Os gritos continuavam fortes e estridentes.
Sara percebeu que vinham do andar superior. Tentou desvencilhar-se de Aurélio, mas não conseguiu.
- Por favor, solte-me.
Não tenho nada contra você, mas se continuar me segurando assim, amanhã mesmo conto tudo ao Cássio.
- Eu posso explicar tudo sem a necessidade de a senhorita ir conferir.
- Então diga logo o que é.
- Nesta fazenda há uma alma atormentada que, de tempos em tempos, grita dessa forma para assustar as pessoas.
Por essa razão, é melhor que fique aqui e não se envolva com essas forças malignas.
Sara percebeu que era mentira.
- Sei que não é verdade, há uma pessoa aqui, e essa pessoa ou está louca ou querendo nos assustar; e eu vou ver quem é.
Mesmo sem conhecer direito a casa, Sara, num gesto rápido, soltou-se das mãos de Aurélio e foi andando.
Chegou à sala, ligou o abajur e pôde ver a escada.
Subiu rapidamente e, com coragem, foi andando pelo imenso corredor e acendendo as luzes.
Logo percebeu que os gritos vinham da pequena porta que ficava no fim do corredor, justamente aquela que Matilde se recusara a abrir para ela.
Chegou perto da porta e continuou a ouvir:
- Miseráveis, ordinários!
Matarei todos vocês, beberei o sangue.
Satanás! Satanás! Solte-me!
Sara sentiu um arrepio de terror.
Quem estaria ali dentro gritando daquela maneira?
Porque nem mesmo Cássio lhe dissera que havia uma pessoa louca e presa dentro daquele quarto?
Com coragem, girou a maçaneta, mas percebeu que a porta continuava fechada.
Surpresa, olhou para trás e percebeu que Aurélio e Cássio se aproximavam.
Ela, olhando para Cássio, indagou:
- O que significa isso?
Porque não me contou que existe uma pessoa aqui dentro em estado de loucura?
- Vamos descer.
Foi um erro ter ocultado isso de você, mas é hora de saber a verdade.
Olhando para Aurélio, tornou:
- Você já sabe o que fazer para ajudar minha mãe.
Abra a porta e entre, não a deixe sozinha aí.
Sara estava cada vez mais confusa.
Seria Matilde que estava naquele quarto gritando feito uma psicótica?
Cássio, com muito carinho, conduziu Sara até a sala e, quando se sentaram, ele começou:
- Eu nunca lhe disse nada por um pedido de minha mãe, mas morando aqui seria inevitável que você soubesse a verdade.
Cássio fez uma pequena pausa e, acariciando as mãos da amada, continuou:
- Naquele quarto vive minha tia Marta.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 19, 2018 9:32 pm

Faz muito tempo que está reclusa, desde que foi abandonada pela única filha, Fabíola, que foi embora para os Estados Unidos.
Minha tia, irmã de minha mãe, sempre foi uma mulher muito fechada, pouco dada a conversas.
Casou-se cedo e foi abandonada pelo marido anos depois.
Ele a trocou por outra.
Fabíola cresceu nesse ambiente doentio, mas, com a ajuda de meu pai e tio Mariano, pôde fazer seu curso de Psicologia em Cuiabá.
A doença dela se manifestou assim que Fabíola nasceu.
Ela começou a ficar estranha, dizia estar ouvindo vozes, passou a conversar e rir sozinha.
Em poucas semanas, já estava completamente louca, quebrando os móveis da casa, tirando a roupa em plena rua, dizendo impropérios, para logo depois entrar em uma fase de prostração total, em que nem se levantava da cama.
Minha mãe, que sempre amou muito a tia Marta e sofria com o que estava acontecendo, providenciou tudo e a levaram ao especialista.
Após alguns exames, ele disse que ela sofria de uma doença mental crónica e incurável chamada psicose maníaco-depressiva.
Disse também que ela poderia ficar relativamente bem, mas nunca mais iria se recuperar totalmente.
Desde esse dia, vivemos um tormento.
A medicação que o médico receitou parecia não fazer efeito algum, e Fabíola, depois de adulta, não se mostrava interessada em cuidar da mãe.
Na primeira oportunidade foi fazer especialização e trabalhar nos Estados Unidos, deixando-a connosco, sem dar mais notícias.
Minha mãe fechou a casa e a trouxe para cá, mas logo descobrimos que ela não poderia viver circulando pela fazenda, pois, nas crises de loucura, além de quebrar tudo, por vezes sumia pelos arredores sendo difícil encontrá-la.
Então, resolvemos mantê-la trancada no quarto.
Sara ouvia tudo atentamente, já percebendo que se tratava de mais um caso de obsessão severa.
Vendo que Cássio se calara, ela comentou:
- Posso imaginar o sofrimento da sua mãe vendo a irmã num estado desses.
Mas ela não tentou outros médicos, outras formas de cura?
- Minha mãe sempre que pode consulta médicos novos, mas o diagnóstico e a medicação é sempre a mesma.
Tanto que temos tudo guardado aqui em casa.
Quando ela entra em crises severas como esta, Aurélio aplica-lhe drogas fortes, que a fazem adormecer por algumas horas.
- Mas você disse que sua mãe estava no quarto sozinha.
Não é perigoso para ela?
- Desde cedo minha mãe percebeu que ela estava agitada, falando além do normal; por essa razão pediu que alguns trabalhadores da fazenda entrassem na casa para amarrá-la assim que todos se recolhessem.
- Amarrá-la? - Sara estava assustada.
- É preciso amarrá-la, pois, do contrário, Aurélio não consegue medicá-la.
Durante essas crises, ela se torna agressiva até mesmo com a mamãe, já chegou a bater nela algumas vezes.
Sara olhou para Cássio, levantou-se e pediu:
- Eu quero ver a sua tia.
- Eu peço que não faça isso.
Minha mãe iria se sentir muito mal.
Ela não gosta que a vejam nesse estado.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 19, 2018 9:32 pm

- Eu insisto, Cássio, leve-me até lá e faça dona Matilde abrir a porta.
Vencido pela insistência, Cássio pegou a mão de Sara e ambos se dirigiram até o quarto.
Ele bateu na porta dizendo:
- Mamãe, a Sara está aqui.
Ela já descobriu tudo e quer entrar para ver a tia Marta.
- Mande que saia daí, ela não tem nada a ver com minha irmã, peça que nos deixe em paz.
- Ela só quer ajudar.
- Ajudar em quê?
Por acaso é médica?
Diga que me respeite e não insista.
Ela jurou que houvesse o que houvesse nunca entraria neste quarto, que cumpra com a palavra dada.
Sara tentou convencê-la:
- Abra, dona Matilde, sei que dona Marta está calma, apenas quero orar por ela.
- Orar? Faça-me o favor, nunca a vi um dia sequer na igreja.
Dispenso suas orações e se você tiver algum amor a Deus vá dormir e me deixe em paz.
Sei que a casa é sua, mas desde já comunico que está proibida de entrar aqui.
Sara calou-se e resolveu se retirar.
Uma vez na sala ao lado de Cássio tornou:
- Sua mãe está sofrendo, vou respeitá-la.
Mas vou encontrar uma maneira de entrar naquele quarto para orar por sua tia, sinto que o que ela tem é obsessão.
- Obsessão?
O que é isso?
- A obsessão é uma influência persistente que um espírito ou vários espíritos maus exercem sobre uma pessoa.
Pode acontecer desde os casos mais simples até os de subjugação como o da sua tia.
- Você sabe que não acredito nisso.
- Ainda assim vou orar por ela.
Para se curar a obsessão é preciso oração e muita fé.
- Minha mãe não vai permitir que você entre lá para orar, muito menos sabendo que você é espírita, uma crença totalmente diferente da que ela professa.
Ana, que ouviu parte da conversa, entrou na sala dizendo:
- Pois eu acho que Sara deveria orar por tia Marta, sim.
Sou católica, mas sei que não importa de onde venha a oração, ela sempre faz bem e depois.
Ana pareceu não querer continuar a conversa ao que Cássio insistiu:
- Depois o quê?
- Até mamãe já está acreditando que é o demónio quem ataca tia Marta.
Inclusive, já pediu que o padre Sílvio viesse fazer uma sessão de exorcismo aqui.
Isso é segredo, espero que não comentem.
Sara tornou:
- E como sua mãe chegou à conclusão de que é o demónio quem persegue Marta?
- Ela sente coisas estranhas naquele quarto, diz ver vultos negros, risadas sinistras, arrepios.
E, depois, nenhum remédio que a tia usa faz efeito, eles só servem para dopá-la.
- Eu posso garantir que não é o demónio quem faz mal a sua tia, e sim espíritos obsessores, que por alguma razão a estão subjugando.
- Mas os espíritos malignos não são demónios?
A igreja diz que sim.
- Os espíritos obsessores não são demónios, e sim seres iguais a nós, que já viveram na Terra e deixaram esse mundo com sentimentos de ódio, raiva, violência e vingança.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 19, 2018 9:32 pm

Quando encontram aqueles pelos quais nutrem ódio, passam a envolvê-los na tentativa de desequilibrá-los, causando uma série de perturbações.
- Mas a Bíblia diz que quem morre não volta - disse Ana confusa.
- Outra hora conversaremos melhor sobre isso, e se você aceitar posso explicar-lhe o que sei dentro de minha crença.
O que importa, agora, é orarmos por sua tia, que está precisando e muito.
Sara fechou os olhos, no que foi acompanhada por Ana.
Iniciou sentida prece a Deus e aos espíritos protectores, rogando que eles amparassem aquela enferma da alma.
Apenas Cássio ficou indiferente, achando tudo aquilo patético.
Quando terminaram, ficaram em silêncio até notarem Matilde descendo as escadas com o rosto inchado de tanto chorar.
Naquele momento, Sara percebeu que se havia realmente alguma coisa que tocava as fibras mais íntimas daquela mulher, era o amor que tinha pela irmã.
Cássio correu a abraçá-la.
- Mamãe, eu já lhe disse para não ficar trancada a sós com tia Marta naquele quarto.
Não lhe faz bem.
Olhando para Sara de soslaio, ela comentou:
- Prefiro não falar sobre este assunto diante de estranhos.
- A senhora sabe muito bem que Sara não é nenhuma estranha, faz parte da família, será minha mulher e dona desta casa.
Nada mais justo que saiba a verdade, coisa que já tratei de revelar.
Engolindo o ódio que sentia daquela que julgava intrusa, Matilde deixou-se cair no sofá desalentada.
- Se eu pudesse daria minha vida para curar minha irmã - tornou chorosa.
- Mas a senhora sabe que não é possível, os médicos já disseram.
Sara aproximou-se:
- Apesar do que os médicos disseram, eu acredito que dona Marta pode ser curada.
- Que brincadeira é essa? - rebateu Matilde, com chispas de ódio no olhar.
Você não é médica, não tem formação alguma em nada, vivia de vender doces, como pode afirmar uma coisa como essa?
Não é hora para brincar com os sentimentos de uma irmã sofredora.
- Não sou médica, mas sou uma estudiosa da vida e da espiritualidade, e sei que o problema de sua irmã é espiritual.
São os espíritos que a deixam assim.
Matilde ficou estática.
Estaria ouvindo direito?
- Ora, não me venha com essa conversa de espíritos.
Não sabia que além de barraqueira, você também era macumbeira.
- Vou fingir que a senhora não está me ofendendo, pois o caso aqui é a saúde de uma pessoa, que nada tem a ver com nossas diferenças.
Acredite ou não, sua irmã está sendo alvo da perseguição de espíritos desencarnados, e só ficará boa quando eles forem afastados.
- Você nem viu minha irmã, no que se baseia para afirmar uma idiotice dessas?
Marta já passou pelas mãos dos melhores psiquiatras, e todos afirmam que ela tem uma doença mental.
- Sei que a senhora ignora, mas quase todo problema mental grave tem como causa uma obsessão.
Muitas vezes, até na chamada loucura clássica, em que se acha que o problema está apenas no corpo físico, a causa esconde-se atrás de uma perseguição espiritual, que só pode ser curada com os métodos certos.
Matilde estava impressionada.
Sara falava com desenvoltura, de maneira fácil, como se entendesse bem do assunto.
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 19, 2018 9:33 pm

Não conteve a pergunta:
- Como você pode saber tudo isso?
- Eu sou espírita, e essa filosofia estuda esses problemas à luz da razão, pesquisando-os e procurando meios para erradicá-los.
Um dos meios mais eficazes é a oração.
Por essa razão, peço sua permissão para todos os dias entrar no quarto de Marta e orar por ela, principalmente nas horas em que ela estiver agitada.
- Era só o que me faltava!
Uma espírita querendo fazer orações em minha casa.
Jamais permitirei.
Aqui somos todos católicos, a única religião verdadeira que existe.
Não acredito em espíritos.
- Quero lembrá-la de que a casa não é mais sua, e que eu vou entrar naquele quarto quer a senhora queira ou não.
Quer acredite em espíritos ou não.
Matilde percebeu que havia se excedido.
- Desculpe, sei que a casa é sua, mas você não pode se envolver num problema que é só meu e de minha família.
- Como Cássio disse, eu sou da família e, casando-me com ele, dona Marta passará a ser minha tia.
Por tudo isso volto a dizer:
a partir de amanhã, entrarei naquele quarto sempre que for necessário para orar.
Olhando-a com desprezo, Matilde rodou nos calcanhares e disse:
- Como quiser, dona Sara.
Cássio ainda tentou acompanhar a mãe até o quarto, mas Matilde rechaçou seu braço com violência e ele retornou à sala.
Olhou para Sara e pediu:
- Minha querida, por favor, não se envolva nesse assunto.
Minha mãe sofre muito.
- Eu estarei fazendo o bem, e se tudo melhorar dona Matilde ainda vai me agradecer.
- Você é teimosa, mesmo, já vi que saiu ao génio do meu tio. - Cássio sorriu beijando-a.
- Agora, vamos todos dormir.
Com as injecções aplicadas por Aurélio, tia Marta ficará quieta durante muito tempo.
Ana, ao ver o carinho com que o irmão tratava Sara, sentiu uma alegria imensa e pensou em como o amor era bonito.
Assim seria em breve entre ela e Aurélio.
Todos foram para seus quartos e quando Sara entrou no seu, percebeu que Leonora estava ainda acordada e angustiada, sem saber o que havia acontecido.
Sara colocou-a a par de toda a situação, deixando-a penalizada.
Ainda antes de dormir, ambas fizeram outra prece pela enferma.
Pela manhã, à hora do café, todos estavam calados, mergulhados em seus próprios pensamentos.
Notava-se que Matilde havia dormido muito pouco, pela face cansada e pelas grandes olheiras que lhe cobriam o rosto.
Ninguém ousava fazer nenhum comentário sobre o que havia ocorrido na madrugada.
De repente, Aurélio entrou no recinto dirigindo-se a Matilde:
- Senhora, já tenho a informação que me pediu. Consegui hoje cedo.
- Muito bem, aguarde-nos na sala de estar.
Aurélio saiu, e, enquanto Ana estava trémula pela sua presença, Cássio perguntou curioso:
- Que informação urgente foi essa que Aurélio conseguiu tão cedo?
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Re: Herdeiros de nós mesmos - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 19, 2018 9:33 pm

- Vamos terminar de nos alimentar e na sala discutiremos o assunto.
Assim que o café terminou, todos se reuniram na sala. Aurélio entregou um pequeno cartão a Matilde, que leu em voz alta:
- Doutor Rafael Sampaio, médico psiquiatra e psicoterapeuta.
- Quem é esse médico? - tornou Ana curiosa.
- Fiquei sabendo que a prefeitura contratou um psiquiatra que está atendendo no Posto de Saúde.
Depois da crise de sua tia, ontem à noite, pedi a Aurélio que fosse hoje cedo pegar mais informações.
Deve ser um médico iniciante para ter aceitado vir morar neste fim de mundo, mas será mais um a quem irei recorrer.
Você perguntou o preço da consulta, Aurélio?
- Sim, senhora.
Casos particulares ele atende por 300 reais.
- É muito caro - disse Ana.
Por que a senhora não inscreve a tia Marta no programa de saúde da prefeitura?
- E você acha que vou expor sua tia assim?
Não tem juízo, não?
Vou chamá-lo aqui e arcarei com todas as despesas, mesmo sabendo que o diagnóstico será o mesmo e a medicação também.
- Então não é necessário que a senhora gaste nada - disse Cássio, prevendo que teria de gastar com a saúde da tia.
- Apesar de tudo, eu sempre tenho alguma esperança.
Afinal, faz mais de cinco anos que Marta não é analisada por um psiquiatra, deve ter surgido alguma droga nova.
- Faça como quiser.
Não precisa tirar do dinheiro que lhe dou para pagar ao médico, é só falar comigo, que, como sempre, farei retiradas da empresa para esse fim - beijando Sara, despediu-se e saiu.
Quando o filho bateu a porta, Matilde olhou para a nora com amargura:
- Está vendo como ele é quando o assunto é dinheiro?
Vá se acostumando, ele só gosta de gastar para o luxo, no resto é mesquinho.
- Para com isso, mamãe!
O Cássio sempre ajudou de boa vontade.
- Deixe de ser fingida, todos viram como ele se portou com frieza.
Sara havia notado, e não gostou do que viu.
Saber que Cássio não era tão humano quanto ela imaginava, deixou-a um pouco frustrada, mas o amava assim mesmo e com o tempo o ensinaria os verdadeiros valores da vida.
Como Aurélio ainda continuava na sala, Matilde perguntou:
- Para que horas ficou marcada a consulta?
- Ele só poderá vir no fim da tarde.
Hoje é dia de atendimento e ele fica o dia inteiro ocupado.
- Muito obrigada, Aurélio.
Pode se retirar.
Ana não conseguia entender como a mãe, que era amante do mordomo, conseguia tratá-lo com tamanha frieza, como se nada se passasse entre os dois.
Matilde pediu licença e dirigiu-se à cozinha.
Ana e Sara começaram a conversar banalidades quando, minutos depois, os gritos fortes e estridentes de Marta passaram a ecoar por toda a casa.
Logo as mesmas frases ditas durante a noite começaram a ser repetidas.
Olhando para Ana, Sara pediu:
- Procure sua mãe e peça a chave do quarto.
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