Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

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Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 26, 2018 9:18 pm

Almas Gémeas
Maurício de Castro.

Espírito Hermes

Descrição da capa:
Apresenta a foto de um vale e montanhas verdes, sobre a qual do lado superior direito há uma igreja.
Na parte inferior há uma ponte de cimento e sobre ela um casal usando roupas antigas.
Estão se abraçando como fossem se beijar.
Ela usa um vestido longo cor de rosa com enfeites em verde claro e uma rosa prendendo a lateral dos cabelos castanhos.
Ele usa um terno antigo, cinza e uma blusa cheia de babados, cinza mais claro, é loiro de cabelos longos e seu cabelo está preso com uma fita preta em um rabo de cavalo grudado na nuca.

Uma dedicatória diferente
Minha mediunidade desenvolveu-se quando eu tinha 13 anos, de uma forma nada agradável.
Eu via e ouvia pessoas e vozes que ninguém mais via nem escutava.
Aquilo me deixava apavorado, pois além desses fenómenos, eu me sentia doente, cheio de sintomas no corpo físico, facto que fez com que minha mãe me levasse a vários médicos que me fizeram realizar todos os exames possíveis e imagináveis para a época.
O resultado era sempre o mesmo: minha saúde era perfeita, ninguém encontrava problema algum.
Minha mãe, bastante católica, sofreu muito até admitir, por intermédio de uma amiga espírita, que o meu problema era espiritual.
Fui levado ao Centro Espírita Jesus Nosso Mestre, onde recebi apoio, tratamento espiritual e pude estudar o Espiritismo e o fenómeno da mediunidade com pessoas experientes que me ensinaram muito.
Eu sempre gostei de ler e passei a mergulhar profundamente nos livros espíritas, em especial nas obras de Allan Kardec, André Luiz e Zibia Gasparetto.
Li e aprendi muito com esses mestres, além de ter sempre a companhia de um amigo espiritual que não se identificava, mas tínhamos enorme afinidade e ele me inspirava sempre, orientando em questões espirituais e do dia a dia.
Em momento algum, imaginei que um dia escreveria um livro.
Achei que minha mediunidade, depois de educada, seria canalizada a outras tarefas e passei mais de dez anos estudando o Espiritismo até que, no começo do ano de 2004, o mesmo espírito que sempre me orientava pediu que eu pegasse papel e caneta, pois ele iria dizer algumas coisas que eu deveria escrever.
Obedeci e passamos mais de uma hora nesse processo.
Eu ouvia as frases e as escrevia em seguida.
Como sou um médium totalmente consciente, logo percebi que era o início de um romance.
Quando o primeiro capítulo terminou, o amigo espiritual me propôs continuar a tarefa no dia seguinte e eu aceitei.
Foi assim por quatro meses, até que ele finalizou seu primeiro livro que se chamou O Amor Não Pode Esperar, revelou seu nome (Hermes), informou que era meu mentor e que havíamos combinado, no astral, de desenvolver aqui na Terra uma parceria mediúnica em que escreveríamos romances com ensinamentos espirituais.
Aceitei a tarefa e a estou desenvolvendo até hoje, com muito amor, embora nem sempre seja fácil, mas invariavelmente gratificante.
Quando acabei de psicografar o livro, não sabia o que fazer com aquele monte de papel.
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 26, 2018 9:18 pm

Perguntei a Hermes o que faria e ele me disse:
"Minha tarefa é passar a mensagem, a sua é divulgá-la aí na Terra".
Ou seja, colocou em minhas mãos a solução do problema.
Fui procurar informação e descobri que algumas editoras analisavam originais espíritas e, caso aprovassem, publicariam.
Para mim era algo muito difícil.
Eu teria de digitar o livro, imprimir e enviar para análise.
Não tenho receio de dizer que naquela época eu só tinha um computador bem velho em casa e também não tinha dinheiro para imprimir tantas páginas para enviar para as editoras.
Foi aí que entrou um dos meus grandes amigos, verdadeiro irmão espiritual, Jorge da Silva Sobral Júnior, que prometeu me ajudar.
Disse-me que eu poderia digitar que ele iria imprimir para mim.
Hoje em dia, essas coisas são muito mais fáceis, mas naquele tempo não era, pelo menos para mim.
Então, digitei e passei o texto ainda em disquete para ele, que, dois dias depois, chegou com o livro impresso nas mãos, feliz por estar me ajudando.
Enviei para a Editora Vida e Consciência e esperei.
Eu era, como sou até hoje, um grande fã e admirador do trabalho da médium Zibia Gasparetto.
Eu me senti ousado em enviar um livro para sua editora, achando que ela, com tantas coisas para fazer, não daria atenção a um livro meu.
Qual não foi minha surpresa quando, dois meses depois, a secretária de Zibia entrou em contacto comigo por telefone, dizendo que Zibia havia lido meu livro, que o considerava muito bom e iria publicar.
Além disso, Zibia queria falar comigo para tratar da produção do romance.
Minha felicidade foi enorme, pois pude lançar meu primeiro livro e ter amizade com essa escritora que eu tanto admiro.
Assim, em agosto de 2006 foi lançado meu primeiro romance em parceria com o espírito Hermes.
Até agora, com este, Almas Gémeas, já são 11 romances publicados, todos com grande aceitação por parte dos leitores.
Porém, grande parte de tudo isso devo ao meu amigo Jorge Sobral Júnior, que, com sua força, optimismo e boa vontade, se propôs a me ajudar.
Esperei o momento certo para lhe fazer uma singela homenagem e prestar-lhe agradecimento, e só agora, com essa história, foi que chegou o momento.
Por quê?
Durante a psicografia deste livro, eu me sentia estranho.
Desde o início, estranha melancolia me invadia sempre que, junto com Hermes, eu dava prosseguimento à história.
Minha mente parecia viajar no tempo e tudo aquilo era para mim bastante conhecido.
Somente na metade do romance, Hermes revelou que aquela era uma história de pessoas muito queridas de minha alma, todas elas reencarnadas actualmente, partilhando a vida comigo.
Eu também estava nessa história, e provavelmente o meu amigo Jorge Sobral Júnior estava lá.
Por isso, este é o momento de agradecer-lhe por tudo que fez por mim desde o início, por ser este meu amigo que torce por mim e pelo meu sucesso com sinceridade e lealdade.
Deixo aqui expressa a minha gratidão e meu desejo que sua vida seja sempre abençoada, rica em espiritualidade, cheia de alegria, paz, prosperidade e esperança.
A você, meu amigo Jorge da Silva Sobral Júnior, com imenso amor fraterno, dedico esta obra que, com certeza, traz pedaços de nosso passado, como grandes amigos que sempre fomos, e ficará para sempre imortalizada em nossas memórias.
Que Deus o guie sempre, em todos os seus caminhos...

Maurício de Castro 17 de agosto de 2015.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 26, 2018 9:19 pm

CAPÍTULO 1
A bela quinta de Santo António ficava quase às margens do Rio Tejo, não muito distante de Lisboa, na belíssima e requintada Portugal do século XVIII.
A coroa vivia seus grandes anos de prosperidade, não apenas pelas conquistas de colónias africanas e asiáticas, mas principalmente pela exploração do ouro e pedras preciosas vindas do Brasil, uma de suas colónias.
Na quinta, vivia uma numerosa família formada de doze filhos, o casal Raimundo e sua esposa Margarida, e alguns empregados que viviam com eles ajudando-os nos trabalhos de agricultura e pecuária.
O senhor Raimundo herdou as terras do pai e continuou com a criação de gado bovino e a comercialização de frutas, verduras e legumes.
A família vivia bem, tinha posses, mas não era rica.
Para o senhor Raimundo e a senhora Margarida, casar bem os filhos era uma obrigação.
Eles os educaram para o casamento e assim que ficaram adultos, um a um foi contraindo matrimónio.
Dos doze filhos do casal, oito eram homens e quatro eram mulheres.
Os rapazes foram se casando mais cedo porque eram mais velhos e receberam do pai terras e condições para construírem suas casas.
O tempo foi passando e quando Bernadete e Teresa se casaram, ficaram na quinta apenas as duas filhas mais novas, Rosa Maria e Isabel.
As duas irmãs caçulas eram diferentes das demais, muito unidas e amigas, pensavam da mesma maneira.
Queriam casar, ter família, mas elas mesmas é que escolheriam seus maridos, e eles deveriam ser homens ricos.
Rosa Maria e Isabel sonhavam em sair da quinta e morar em Lisboa, vivendo no luxo e na fartura, frequentando teatros, cafés, lugares famosos e requintados, os saraus da corte, tendo intensa vida social.
Rosa Maria gostava dos ares do campo, mas gostava muito mais de dinheiro.
Já Isabel sentia-se entediada com a quietude do lugar e foi com felicidade que soube que sua irmã mais velha, Bernadete, iria se casar com um homem rico e viver na capital.
Dizia para si mesma que seu futuro não seria diferente.
Aproveitando a moradia da irmã em Lisboa, passava dias por lá em sua companhia.
Quando chegava, trancava-se em um dos grandes quartos e contava todas as novidades à irmã.
Em uma segunda-feira, Isabel acabava de chegar à quinta, trazida pelo cocheiro em uma das carruagens da irmã, quando Rosa Maria foi recebê-la com semblante preocupado:
- Ainda bem que chegou, Isabel.
Estava ansiosa e com medo de que não viesse hoje.
- O que aconteceu?
Não precisa ficar ansiosa, sabe que só passo os finais de semana em Lisboa, na segunda sempre estou aqui.
- Pegue suas bagagens e entre logo.
Ajudada pelo cocheiro, Isabel levou seus pertences para dentro de casa, despediu-o e logo questionou a irmã:
- Diga-me o motivo de sua ansiedade, pelo seu rosto não é nada bom.
- Papai está doente.
Assim que você saiu na sexta-feira, começou a tossir de repente e logo apresentou febre.
De lá para cá quase não saiu da cama, e mamãe chora sem parar temendo sua morte.
Isabel empalideceu.
Amava o pai e o que menos queria era vê-lo morto.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 26, 2018 9:19 pm

- Mas por que não chamou o doutor Gumercindo?
Porque não mandou avisar os nossos irmãos?
- Porque ele diz que vai morrer e não quer que chame ninguém.
Proibiu-me e à mamãe de avisar a quem quer que fosse e até o Carlinhos, seu escravo mais fiel, fez jurar que o deixaria partir em paz.
Nossa única esperança é você.
Papai nunca negou a predilecção que lhe tem e com certeza a ouvirá.
Se você não viesse hoje, eu mandaria Carlinhos buscá-la.
Isabel soltou as mãos da irmã e correu até o quarto do pai que ficava no fundo de um grande corredor.
Ao entrar, foi abraçada pela mãe que enxugava as lágrimas com um lenço, olhou para ele e viu que seu estado realmente não era bom.
O senhor Raimundo estava pálido, havia emagrecido, sua testa cobria-se de fino suor e tossia sem parar.
Ao ver a filha predilecta, ele abriu mais os olhos e disse:
- Minha filha querida!
Que bom que chegou, só faltava vê-la para poder deixar este mundo.
- Não diga isso, papai, o senhor ainda é moço, vai viver muitos anos.
Porque não deixou que Rosa Maria chamasse o médico?
Se ele tivesse vindo, o senhor já estaria bom.
Vou chamá-lo imediatamente.
Ele segurou com firmeza o braço de Isabel que já se levantava e ordenou:
- Você vai me obedecer e não chamará ninguém.
Sei que vou morrer, não adianta médico.
- Mas por que diz isso, papai?
O senhor está com tosse forte, febre, mas não é nada que os remédios do doutor Gumercindo não resolvam.
O senhor Raimundo olhou para um canto do quarto e disse:
- Estou vendo seu avô, ele veio me buscar.
Isabel arrepiou-se.
E continuou:
- O senhor está tresvariando de febre.
Vovô já morreu faz muito tempo e quem morre não volta.
- A alma do seu avô está aqui, e desde o dia que adoeci, ele me apareceu e disse que eram meus últimos dias sobre a Terra.
Não gaste dinheiro com médicos.
Rosa Maria olhou para a irmã com tristeza:
- Desde que caiu doente diz isso.
E o pior é que mamãe acredita.
Você sabe que ela e o papai conversavam sobre as almas dos mortos com Carlinhos, que afirma que as vê e conversa com elas.
- Cruz credo, Rosa Maria.
Tudo isso é crendice.
Quem morre vai para o céu ou o inferno e de lá não sai nunca mais.
Não é assim que os padres ensinam?
Rosa Maria deu de ombros, nunca fora dada à religião.
Isabel continuou:
- Por mais que o senhor fique dizendo isso, vou chamar sim o médico.
Mandarei Carlinhos selar um cavalo e ir o mais rápido possível buscar o doutor Gumercindo.
O senhor Raimundo ainda protestou, mas Isabel era de temperamento forte e decidido, e logo Carlinhos estava na estrada em direcção à cidade.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 26, 2018 9:19 pm

Isabel olhou para a mãe, que estava sentada numa cadeira de balanço segurando as mãos do pai, e pediu:
- Venha comigo, mamãe.
A senhora não pode ficar aí chorando desse jeito.
Não ajuda em nada.
Se quer que papai fique bem, tem de permanecer firme.
A senhora Margarida falou triste:
- Meu velho vai embora mesmo.
Acredito que ele está vendo o pai e que ele veio do outro mundo para buscá-lo.
Isabel não queria ir contra às crenças da mãe, por isso disse:
- Mesmo que ele esteja vendo o vovô, vamos orar e pedir a Deus que Ele deixe o papai mais tempo connosco.
Os padres não dizem que tudo que pedimos a Deus com fé ele nos dá?
A velha senhora sacudiu a cabeça, com tristeza, concordando.
Isabel continuou:
- Então, deixemos Rosa Maria olhando o papai e vamos para o oratório rezar.
Ela obedeceu e foram para a grande sala do oratório.
Toda a família era devota de Santo António, com fervor, e assim as duas rezaram pedindo ao santo que intercedesse a Deus pela saúde do senhor Raimundo.
Quase uma hora depois, Carlinhos chegou com o doutor Gumercindo.
Apearam dos cavalos e logo o médico entrou no quarto começando rapidamente a examinar o paciente.
Minutos depois, olhou para as filhas e disse:
- O pai de vocês está com tuberculose.
Quando começou a ter os sintomas?
Rosa Maria, mesmo nervosa com o diagnóstico, respondeu:
- Começaram na sexta-feira por volta do meio-dia.
- E deixaram chegar a esse estado para me chamar?
- A princípio, pensei que fosse uma gripe forte e não me assustei, e também o papai proibiu-nos de chamá-lo ou de avisar qualquer um dos filhos.
- Fizeram muito mal - disse o médico sacudindo a cabeça.
Essa tuberculose do senhor Raimundo evoluiu muito rápido, não sei se haverá tempo para cura.
Rosa Maria, abraçada à mãe, começou a chorar.
Isabel tentou ser forte:
- Vamos fazer o que for possível.
Passe os medicamentos, mandarei Carlinhos buscar, e meu pai ficará bom.
- Não será necessário buscar na cidade.
Tenho medicamentos suficientes para esse problema aqui na minha valise, e como o empregado de vocês contou-me os sintomas, trouxe ventosas para aplicarmos nas costas.
Isabel assustou-se:
- Não é um tratamento muito agressivo?
Papai está magro, fraco, temo que não aguente.
- No caso dele, é preciso fazer.
As lesões nos pulmões devem estar bastante profundas, o tratamento aliviará o sofrimento.
O médico começou o procedimento imediatamente, o que foi fácil, pois devido à fraqueza, o senhor Raimundo havia dormido profundamente.
Quando terminou olhou para Isabel e disse:
- Vou deixar aqui os remédios e a prescrição de como tomá-los.
Devo avisar que devem seguir à risca os horários.
No final da tarde, passo aqui novamente para vê-lo.
No estado dele, é bom que avise os outros filhos também.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 26, 2018 9:20 pm

Rosa Maria pagou a consulta e, deixando a mãe com o pai no quarto, seguiu para a grande varanda com Isabel, que comentou:
- Pobre papai, logo agora que tenho uma óptima notícia para lhe dar, ele adoece.
- Óptima notícia?
O que é? - perguntou Rosa Maria, eufórica.
- O Pedro Menezes me pediu em casamento.
- Não posso crer! - exclamou a irmã com olhos brilhantes de alegria.
Quer dizer que as saídas nos finais de semana resultaram num namoro?
- Não saímos tanto assim, na verdade foram apenas três vezes e acompanhados pela Bernadete e João.
Você sabe que Pedro é filho de um dos homens mais ricos e influentes da corte, não sabe?
- Sei sim! O pai dele está ajudando o rei nas expedições de exploração.
A família está cada vez mais rica.
Mas como ele a pediu em casamento?
- Ele havia me dito, nas poucas vezes que ficamos a sós, que estava apaixonado por mim, que não conseguiu me esquecer desde que me viu pela primeira vez no sarau dos sábados no palácio real.
Rosa Maria não cabia em si de tamanha felicidade.
Adorava a irmã e tudo o que mais queria era vê-la feliz. Comentou:
- Pelo que você me diz, Pedro é rico, bonito, educado e elegante.
Você nasceu com uma estrela!
- Estou muito feliz.
Bernadete me disse que ele é um dos jovens mais cobiçados da corte.
Os pais das moças casadoiras não cansam de lhes oferecer as filhas, mas até agora ele não quis ninguém - falou Isabel, um tanto vaidosa.
- É a estrela da sorte.
- Sabe que eu não acredito em sorte?
Eu sempre gostei muito de mim mesma, acho-me bonita, atraente, culta, refinada, merecedora de todas as coisas boas da vida.
Acho que por isso Deus me deu o Pedro.
- Pode ser...
Rosa Maria ia continuar quando foi interrompida por Carlinhos:
- A senhora vai mandar avisar os seus irmãos?
Tenho muitos homens aqui que podem levar o recado.
Isabel tomou a frente:
- Vamos avisar sim, Carlinhos.
Mande os homens avisarem os meus irmãos que moram pelas redondezas e vá você mesmo avisar os que moram em Lisboa.
- Estou indo. Com a vossa licença.
Carlinhos retirou-se, e Isabel comentou entristecida:
- A chegada de Carlinhos me fez lembrar que, apesar de minha felicidade, nosso pai está preso numa cama, com uma doença grave, não sabendo se vai viver.
- Não podemos ficar desanimadas.
Logo você, que é a rainha do optimismo?
Isabel retorquiu:
- No caso de nosso pai, não sei se o optimismo vai ajudar.
Quero ser realista e estar preparada para tudo.
Rosa Maria a abraçou com carinho e disse:
- Vamos entrar, você não comeu nada desde que chegou.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 26, 2018 9:20 pm

CAPÍTULO 2
Embevecida pelo carinho da irmã, Isabel entrou, dirigindo-se para a copa.
Apesar do esforço do médico, dos filhos e da mulher, o senhor Raimundo desencarnou na quarta-feira pela manhã.
A família ficou consternada, os filhos choraram muito e todos os vizinhos e conhecidos de Lisboa compareceram ao sepultamento no velho cemitério da quinta.
A senhora Margarida entrou em melancolia profunda por perder o companheiro de mais de 50 anos, e como os demais irmãos tinham suas vidas para cuidar, restaram à Rosa Maria e à Isabel os cuidados para com a mãe.
Pedro, que esteve presente no enterro, junto com os pais, acabou por conquistar a simpatia de toda a família.
Era um rapaz bonito, alto, olhos amendoados, forte e era nítida sua paixão por Isabel que, por sua vez, parecia também se derreter de amores por ele.
Não foi fácil para as duas irmãs cuidarem da mãe que, a todo momento, chorava chamando pelo marido.
Em um fim de tarde, Isabel encontrava-se recostada no balaústre em frente à casa, olhando o pôr do sol, deixando que lágrimas de tristeza e saudade banhassem seu belo rosto.
Tristeza por ter perdido o pai a quem tanto amava, por saber que nunca mais o veria, e por ter a mãe doente.
Bernadete a havia convidado para passar alguns dias em Lisboa, mas ela não podia deixar a mãe sozinha com Rosa Maria.
Adorava a capital, mas não cometeria essa injustiça.
Carlinhos aproximou-se dela silencioso e perguntou com educação:
- Posso saber por que a senhorita chora tanto?
- Ainda pergunta, Carlinhos?
Há uma semana perdi meu pai, minha mãe está doente, estamos sozinhas aqui, eu e minha irmã.
Pode haver outro motivo?
Havia um tom de raiva nas palavras dela que não passou despercebido ao escravo.
- Não fique zangada comigo, senhorita.
Gostaria de ajudá-la.
Carlinhos falava bem, nascera ali e era filho de uma das escravas predilectas de Margarida.
Desde cedo aprendeu a ler e escrever, por isso Isabel o admirava.
- Desculpe-me, Carlinhos, mas é que não consegui me conter.
Não quis ser ríspida com você.
Sei que foi a pessoa que meu pai mais confiava e gostava.
Mas no que pretende me ajudar?
- Se a senhorita me permitir, gostaria de acompanhá-la até as margens do rio.
Lá é mais calmo e o contacto com a natureza sempre nos harmoniza.
Ela resolveu segui-lo.
Conhecia Carlinhos desde criança e sabia que era um homem de inteira confiança.
Avisou Rosa Maria que iria dar um passeio e saíram juntos.
O Rio Tejo era belíssimo.
Suas águas límpidas, abundantes e cristalinas corriam velozmente, e ambos sentaram-se numa pedra próxima.
Ficaram observando a beleza da correnteza em silêncio até que Carlinhos começou:
- Queria pedir uma coisa à senhorita.
- O quê? - perguntou Isabel, curiosa.
- Quero que pare de chorar pela morte de seu pai.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 26, 2018 9:20 pm

- Como pode me pedir isso?
É impossível, amava-o demais e perdê-lo foi a pior coisa que aconteceu em minha vida - dizendo isso, Isabel recomeçou a chorar.
- Meu pai era um homem trabalhador, criou-nos a todos com dignidade, e ainda era jovem para morrer, não me conformo com isso.
Carlinhos pensou um pouco e disse:
- A morte não tem remédio, só nos resta aceitar.
- Eu não aceito!
- A sua rebeldia contra os acontecimentos não vai trazer seu pai de volta e ainda poderá prejudicá-lo no outro mundo.
- Não acredito em nada disso.
Quem morre está dormindo, não vê e nem sente nada.
- Pois, eu garanto à senhorita que está enganada.
Quem morre continua vivo em outro lugar, vendo, sentindo, amando, odiando, tudo como era na Terra.
Seu pai era um homem bondoso, queria o bem de todos, não é justo agora que ele morreu, que venha a sofrer por causa dos filhos.
Isabel sentiu firmeza nas palavras de Carlinhos.
Percebendo que era escutado com atenção, ele continuou:
- Quem morre precisa seguir um novo caminho.
É difícil para quem partiu deixar aqueles que ama aqui na Terra e, se os entes queridos ficam chorando e lamentando
o tempo inteiro, a alma de quem vai sofre muito mais e não consegue se desapegar deste mundo.
Por isso, pelo amor que a senhorita teve pelo seu pai, peço que, em vez de chorar, pense numa luz muito bonita o envolvendo.
Quando estiver no quarto, feche os olhos, imagine que ele está à sua frente e despeça-se dele.
Diga o quanto foi bom viverem tanto tempo juntos, mas que agora você o liberta para que possa seguir adiante.
Aproveite e ensine sua mãe e irmã a fazerem a mesma coisa.
Tenho certeza de que, além de vocês se sentirem melhor, o senhor Raimundo vai ter mais coragem para enfrentar a nova vida.
- Você está certo, Carlinhos, farei isso. Eu preciso aceitar que a morte o levou.
- Exactamente.
A aceitação das coisas que não podemos mudar é o único caminho para encontrar a paz.
Quanto mais você se rebela pelas coisas que não consegue e que não são possíveis, mais você sofre, mas na exacta hora em que aceita, todo o sofrimento desaparece.
Isabel olhou para o escravo de tantos anos e parecia estar vendo-o pela primeira vez.
- Carlinhos, onde você aprendeu tanto?
Vejo que sabe falar com profundidade.
- Sua mãe ensinou-me a ler e escrever e, apesar de nunca ter tido oportunidade de estudar, sempre gostei de ler.
Dona Margarida sempre me empresta seus livros, e eu entro fundo nos conhecimentos.
- Por que meu pai morreu? - perguntou Isabel novamente, com tristeza na voz.
Deus não o devia ter levado enquanto deixa tantas pessoas ruins e criminosas no mundo.
Dizem que Deus é justo, mas confesso não entender sua justiça.
- A morte é um fenómeno natural de transformação, todos estamos sujeitos a ela.
Morrer é tão natural quanto nascer, mas as pessoas fazem uma tragédia com a morte, como se ela fosse o fim de tudo, mas isso não é verdade.
Deus não mata ninguém, Ele criou leis que regulam o universo e essas leis são perfeitas.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 26, 2018 9:20 pm

A morte, assim também o nascimento e os outros factos da vida são uma escolha feita por cada um, não é Deus que determina como as pessoas dizem por aí.
Isabel não conseguia acreditar no que ouvia:
- A morte é uma escolha de cada um?
Como assim?
Deus é quem chama as pessoas.
- Não, não é Deus que chama ninguém.
A morte é uma escolha nossa, algumas vezes consciente, mas na maioria das vezes inconsciente.
Nossa alma é quem dita o momento que vamos partir da Terra, e isso ocorre por vários motivos.
Quando sentimos que estamos sem objectivo na vida, sem algo nobre para fazer, quando cultivamos a tristeza, o desencanto de viver, estamos nos candidatando a morrer mais cedo.
Quem procura abafar seus vazios interiores por meio dos vícios também está escolhendo inconscientemente a morte.
Quando nossa alma sente que nosso progresso não está mais na Terra, ela provoca o fenómeno a qual chamamos de morte.
- Mas meu pai tinha muitos objectivos aqui, não tinha vícios, não vivia triste.
Por que escolheu morrer?
- Porque não é só sentimento negativo que leva à morte, mas também a sensação plena do dever cumprido.
Foi isso o que aconteceu com o senhor Raimundo.
Ele já havia trabalhado muito, criado todos os filhos, restam só você e a Rosa Maria, mas como moças formosas que são, logo estarão casadas, amparadas e bem de vida.
A alma dele já havia realizado tudo o que veio realizar, então achou melhor ir embora, viver outras experiências.
Isabel estava assustada com aquelas informações.
Aquilo mudava tudo o que ela pensava sobre a vida e a morte.
Tinha muitas dúvidas:
- Mas há pessoas sem objectivos que vivem chorando, lamentando, fazendo coisas ruins e, no entanto, morrem idosas.
- É que, para elas, permanecer nesse estado é temporariamente benéfico, pois é através dele que reagirão, ganharão forças e mudarão suas vidas para melhor.
Mas se insistirem em se manter assim, sem chance de progresso, logo morrerão.
Isabel permaneceu muda.
Conseguiu entender a explicação de Carlinhos, mas aquilo tudo era assustador e ela não queria se aprofundar.
O que mais desejava era viver a vida com tudo de bom que ela lhe pudesse oferecer.
Não queria viver pensando em morte, vida no outro mundo, espíritos.
Por isso, disse:
- Agradeço pela ajuda, Carlinhos, mas não quero mais falar sobre isso.
O que mais importou foi você ter me ensinado a lição do desapego.
Falarei com Rosa Maria e minha mãe para que façam o mesmo que eu.
Conversando com você já me senti melhor.
Carlinhos ia dizer que Isabel ainda precisaria muito do conhecimento da espiritualidade para enfrentar as adversidades da vida, mas diante da postura firme da moça em não querer mais falar no assunto, ele se calou.
O sol começou a esquentar, e eles resolveram voltar para casa.
Isabel comentou com a mãe a conversa com o empregado, e dona Margarida ficou bastante emocionada.
Somente Rosa Maria não deu muita atenção, não acreditava naquelas coisas e sua religiosidade era só aparente, por uma convenção da família.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 26, 2018 9:20 pm

Naquela mesma noite, Isabel e a mãe, reunidas no quarto, seguiram as orientações de Carlinhos.
Imaginaram Raimundo à frente delas, disseram quanto o amavam, mas que o libertavam para a nova vida.
Sem que elas pudessem ver, Raimundo realmente estava ali, amparado por duas enfermeiras.
A força e a verdade que mãe e filha colocaram no ato foi tão grande que luzes brancas foram projectadas por todo o ambiente, beneficiando o espírito de Raimundo e todos da casa.
A partir daquele dia, a situação na quinta começou a melhorar, a senhora Margarida foi, aos poucos, se recuperando da perda, e Isabel também se sentia mais fortificada.
Duas semanas haviam se passado quando, num domingo pela manhã, Isabel ouviu um trotar de cavalos aproximando-se.
Foi à frente da casa, debruçou-se no balaústre e viu que uma carruagem vinha em sua direcção.
O cocheiro parou, abriu a porta e dela surgiu Pedro, com terno sorriso nos lábios e um ramalhete imenso de rosas vermelhas nas mãos.
Isabel correu e, emocionada, abraçou-o chorando.
- Não sabe como senti sua falta esses dias todos.
Não podia passar os finais de semana na corte e você também desapareceu, nem sequer um bilhete mandou-me.
Pedro abraçou-a ainda mais dizendo:
- Perdoe-me, querida, mas meu pai precisou muito de mim esses dias.
Serei seu continuador nas explorações, estamos ficando cada vez mais ricos.
Quero que você tenha uma vida de rainha.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 26, 2018 9:25 pm

CAPÍTULO 3
Isabel, sorrindo, beijava-o nos lábios e no rosto amorosamente.
Rosa Maria surgiu na varanda, abraçou o cunhado e o convidou a entrar.
Pedro tinha conversa agradável e logo todos estavam entretidos com seus assuntos.
A senhora Margarida estava contente, pois nenhum dos seus genros a tratava com tanta deferência.
O almoço foi servido, e durante a tarde Pedro e Isabel passearam pela quinta.
Entraram no belo pomar e Pedro a convidou a se sentar com ele na grama verde debaixo de um pessegueiro.
- Isabel, eu a amo loucamente - disse com paixão.
Não sei o que faria se a perdesse.
Prometa que nunca vai me deixar.
Ela se enterneceu:
- Como posso deixá-lo, Pedro?
Amo-o como nunca amei ninguém, você é o homem dos meus sonhos.
- Não sei... Sinto um medo grande de perdê-la.
É como se algo ou alguém me avisasse que não vamos ficar juntos.
Ela sorriu.
- Isso é bobagem, é insegurança por estar namorando uma verdadeira beldade como eu.
- Não estou brincando, Isabel.
Nunca fui dado a essas coisas, mas desde que a conheci e me apaixonei, sinto uma mistura de felicidade e medo dentro de meu coração.
Isabel arrepiou-se e lembrou-se de Carlinhos.
Ele dizia que algumas pessoas podiam prever o que ia lhes acontecer.
Será que Pedro não estava sentindo que eles não iriam ficar juntos?
Procurou ocultar aqueles pensamentos dizendo:
- Deixe esse medo de lado, meu amor. Nada pode nos separar.
Isabel beijou-o com muito ardor, ao que ele correspondeu.
Depois se levantaram, ele olhou para o tronco do pessegueiro, tirou um pequeno canivete do bolso e começou a desenhar um coração na árvore.
- Que está fazendo? - indagou Isabel, curiosa.
- Registrando aqui que nosso amor durará pela eternidade.
Pedro terminou de desenhar o coração e escreveu dentro dele o seu nome e o de Isabel.
Embaixo fez outra escrita: "Amor eterno".
O casal emocionado continuou o passeio às margens do rio.
Pedro não sabia, mas era sua intuição que se manifestava avisando que aquele amor poderia não ser possível naquela reencarnação.
Isabel tinha laços espirituais com outro homem, era alma gémea de outro, e a prova que Pedro escolhera antes de renascer estaria chegando:
ou ele aceitaria as coisas como elas aconteceriam ou daria um rumo negativo para a própria vida.
Mais dias se passaram e Isabel só falava em Pedro e no grande amor que ele sentia por ela, mas naquele dia ela estava particularmente irritada com a irmã.
As duas discutiam:
- Como você teve a coragem de rejeitar o Francisco Silveira? - bradava Isabel com revolta.
Desse jeito vai ficar sozinha para o resto da vida.
- Eu sei o que faço de minha vida, deixe-me em paz.
- Mas, Rosa, Francisco é rico, herdou a fazenda Santa Tereza e está cada dia mais próspero.
E se você não encontrar alguém com mais posses que ele?
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 26, 2018 9:25 pm

Rosa Maria fulminou-a com o olhar enquanto disse:
- Pensa que é só você que tem capacidade para fisgar um milionário?
Eu também passarei a frequentar Lisboa, irei aos mesmos eventos que você vai com Bernadete e logo estarei muito bem casada.
- Deus queira, minha irmã.
- Sei como comandar minha vida.
No próximo final de semana, quando você for para se encontrar com Pedro, irei também.
Mamãe está muito bem, tanto que concedeu facilmente sua mão em casamento quando Pedro pediu.
Nós a deixaremos aqui aos cuidados de Benedita e Carlinhos e só voltaremos na segunda-feira.
Você verá se não encontrarei o homem dos meus sonhos.
Isabel olhou a irmã com admiração.
Rejeitar um rapaz de vida promissora tal qual Francisco foi um ato de coragem, daqueles que só as pessoas que sabem exactamente o que querem são capazes de fazer.
- Tudo bem, minha irmã.
Peço-lhe desculpas, mas é que não consegui entender suas razões no momento.
Torço para que seja feliz, e se acha pouco o que Francisco teria a lhe oferecer, tem todo direito de procurar outro homem.
As irmãs se abraçaram e Rosa Maria disse:
- Eu não sonho tanto com o casamento quanto você.
O meu desejo mesmo é ter muito dinheiro, muitas terras, condições de conhecer o resto da Europa com requinte e luxo.
Sonho em viajar num navio luxuoso, de proporções gigantescas, acompanhada por um belo homem, mas quando penso em casar e ter de aturar o mesmo homem pelo resto da vida, sinto-me desanimada.
- Sei muito bem como você é, mas eu penso que o casamento seja a melhor maneira para sermos felizes.
Uma mulher que levar uma vida como essa que você quer, será chamada de prostituta.
Rosa Maria sorriu:
- E você pensa que eu dou importância aos mexericos da corte?
Uma mulher, com o dinheiro que pretendo ter, pode ser chamada do que quiser, mas impõe respeito por onde passa.
Se tivesse nascido homem, a essa hora estaria por aí fazendo fortuna e não enfurnada nessa quinta.
- Mas você sempre adorou o campo.
- Adoro, mas embora nossa quinta dê dinheiro suficiente para nos mantermos, essa terra aqui nunca me dará fortuna.
Muito pior agora que nosso pai morreu e tudo está sendo administrado pelo Carlinhos.
- E devemos dar graças a Deus por termos ele.
Senão estaríamos correndo o risco de perdermos tudo.
Nenhum dos nossos irmãos liga para esta casa.
Rosa Maria olhou para Isabel com ternura:
- Nossos irmãos sempre foram desunidos, nós duas é que mais nos amamos.
- Sim, eu amo você, minha irmã.
Ambas se abraçaram novamente e começaram a fazer planos para a viagem à corte.
A sexta-feira chegou e pela manhã, antes do meio-dia, as irmãs partiram com destino a Lisboa.
A família possuía bela carruagem e um cocheiro para as viagens necessárias, de modo que em pouco tempo estavam na capital.
Foram recebidas pela irmã Bernadete que as fez sentar, e enquanto os criados arrumavam as malas nos quartos, conversavam sobre a saúde da mãe e a situação da quinta.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 26, 2018 9:25 pm

Bernadete havia se tornado milionária quando se casou com João e era com requinte que vivia na cidade.
Sabia que as irmãs estavam ansiosas pelas festas da corte, por isso disse:
- Amanhã iremos para uma bela serenata em homenagem ao casal Souza e Silva.
Estão fazendo bodas de ouro e abrirão as portas de seu palacete.
Toda a sociedade portuguesa estará presente.
Eles são ricos e os filhos estão bem encaminhados na vida.
Felipe é médico e Augusto é advogado.
Os olhos de Rosa Maria brilharam quando perguntou:
- São solteiros?
- Felipe já é casado, mas Augusto é solteirão.
Passa já dos 30 anos e nunca quis casar.
- Será que terei chances com ele? - tornou Rosa Maria, interessada.
- Não sei. Dizem que ele teve um amor frustrado na juventude e por isso nunca mais quis ninguém.
Pode ser que se encante por você que é uma verdadeira beldade.
Foi com ansiedade que Isabel e Rosa Maria esperaram a noite do sábado chegar.
Isabel estava louca para desfilar com Pedro e com certeza o reencontraria por lá, já Rosa Maria não via a hora de encantar Augusto e levá-lo ao casamento.
Ela não tinha tendência a ser uma dona de casa, por isso pensava em se casar, tirar o que pudesse do marido e depois pedir a separação.
Com esses pensamentos, as irmãs chegaram ao palacete.
Os portões estavam abertos de par em par e antes de chegarem à bela vivenda, os convidados percorriam belíssima alameda florida que dava um tom ainda mais mágico ao ambiente.
Bernadete e João apresentaram as moças ao casal, que as recebeu com simpatia.
Logo, Isabel estava de braços dados com Pedro circulando pelo salão, enquanto Rosa Maria, angustiada, perguntava a Bernadete:
- Onde está Augusto?
Não vai aparecer?
- Dizem que é reservado e não gosta de festas, mas garantiu que nas bodas dos pais estaria presente.
Ele mora aqui com eles.
Contenha a ansiedade, logo aparecerá sua vítima - disse Bernadete, sorrindo.
Não demorou muito e Felipe apareceu de braços dados com sua esposa Helena.
Cumprimentou a todos e foi sentar-se ao lado dos pais.
Rosa Maria não deixou de observar:
- Felipe é um homem lindo, espero que Augusto seja mais lindo ainda.
- Como pode estar tão certa de que vai conquistá-lo? - perguntou a irmã, curiosa.
- Tenho meus encantos.
Quem eu quero nunca me escapa - Rosa Maria lançou um sorriso enigmático ao dizer aquelas palavras, que não passou despercebido à irmã.
Depois de quase duas horas, foi anunciado que a serenata iria começar.
- Os seresteiros são boémios, párias da sociedade.
Por que um casal tão distinto como esse foi logo escolher uma serenata para comemorar suas bodas? - perguntou Rosa Maria, sem entender.
- É que esses seresteiros não são homens vagabundos, apesar de um pouco boémios.
É um grupo que faz serenatas, composto de filhos de casais abastados, da alta sociedade.
Foi um problema para eles conseguirem fazer essas apresentações, os pais não queriam, mas só concordaram após a promessa de que não abandonariam os estudos.
Naquele momento, enquanto os músicos se preparavam num pequeno palco improvisado, Isabel e Pedro chegavam e sentavam-se com os demais.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 26, 2018 9:26 pm

Os instrumentos foram afinados e logo surgiu um belo rapaz, loiro-claro, estatura mediana, olhos cor-de-mel, barba rala levemente aparada, que começou a cantar:
O Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer; é um andar solitário entre a gente; é nunca contentar-se de contente; é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade; é servir a quem vence, o vencedor; é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo Amor?
A belíssima letra do poema de Luiz Vaz de Camões, aliada à melodia enternecedora e à voz calma e doce do cantor, elevou a todos.
Isabel, ao ver o rapaz que começava a cantar, sentiu o coração acelerar, passou a tremer, e quando ele a olhou profundamente, sentiu-se presa no magnetismo daquele
olhar.
Onde o teria visto antes?
Aqueles olhos eram-lhe por demais familiares e Isabel deixou-se entregar àquele sentimento.
A serenata prosseguiu com o grupo tocando e cantando outras músicas, sempre letras dos poemas de poetas lusitanos.
Mas Isabel não mais conseguiu se conter.
Sentiu que arrebatadora e proibida paixão tomava de assalto o seu coração.
Precisava saber quem era tão belo jovem.
Enquanto isso, Rosa Maria finalmente era apresentada a Augusto:
- É um prazer conhecê-lo - disse, estendendo-lhe a mão que ele beijou com delicadeza, e concluindo que o rapaz era mais bonito e charmoso do que o irmão.
- O prazer é todo meu, senhorita.
- Seu palacete é lindo, e mais linda ainda é essa festa de bodas.
Sonho ter em minha vida um amor que dure eternamente - mentiu.
- Amores...
Às vezes, duvido que eles existam de fato - balbuciou Augusto, com melancolia na voz.
- Podemos conversar no jardim?
A noite está tão agradável...
- Vamos sim - ele lhe deu o braço e ambos foram para o maravilhoso jardim de inverno, em uma das laterais do palacete.
- Apesar de apreciar o estilo de música que estão tocando, confesso não gostar muito de casa cheia.
Acostumei-me ao silêncio. - tornou Augusto.
Ela, sabendo de seu temperamento reservado, disse para agradá-lo:
- Eu também não gosto muito do barulho.
Sou daquelas que gostam de apreciar a natureza, viver na calma.
Muitas pessoas num ambiente deixam o ar viciado, e eu adoro ar puro.
Sabia que moro numa quinta?
Augusto surpreendeu-se:
- Não, senhorita.
Onde fica?
- Não muito longe daqui, quase às margens do Tejo.
Qualquer dia o senhor poderá ir lá nos visitar.
Claro que não tem o requinte de seu palacete, mas nossa casa é grande, bem arrumada e vivemos em paz - eu, minha irmã Isabel e minha mãe Margarida.
Infelizmente, nosso pai morreu faz dois meses.
Augusto estava encantado com Rosa Maria sem ao menos saber o porquê.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jan 26, 2018 9:26 pm

Depois que se desiludiu do amor, após ter sofrido terrível traição da mulher amada, jurou para si mesmo que jamais deixaria se levar novamente por ninguém.
Contudo, Rosa Maria tinha um jeito sedutor sem ser vulgar, uma personalidade interessante, via sinceridade
em seu olhar.
Involuntariamente, estava se envolvendo e gostando daquilo.
Mal sabia que estava frente a frente com sua alma gémea, aquela com quem havia vivido inúmeras reencarnações, perdidas no tempo.
- Posso visitá-la no próximo final de semana?
Ela corou:
- Pode sim, ficarei muito feliz.
Os dois continuaram em animada conversa, até que ele a convidou para entrar e dar-lhe o prazer de uma dança.
Rosa Maria deixou-se levar e entregou-se totalmente àquele momento.
Sabia que o que tinha feito para conseguir a atenção de Augusto não era tão certo, mas funcionara.
O homem caíra em seus encantos mais fácil do que poderia imaginar.
Durante a dança, ela já imaginava a vida que teria ao lado dele e sorria feliz.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 27, 2018 8:49 pm

CAPÍTULO 4
Assim que a festa terminou, Bernadete, João e Rosa Maria entraram na carruagem e seguiram para casa, enquanto Pedro e Isabel vinham logo atrás em outro veículo.
Pedro questionava:
- Por que você ficou tão estranha de repente?
- Eu? Ora essa, Pedro.
Estou como sempre.
- Não está, Isabel.
Eu a conheço muito para perceber que está nervosa, angustiada.
O que está acontecendo com você?
- Não é nada.
Confesso que estou ligeiramente indisposta, com sono, louca para dormir.
- Tudo bem - disse Pedro com doçura, enquanto acariciava seus cabelos cacheados e volumosos.
Descanse bem para que possamos aproveitar melhor o domingo.
Amanhã quero levá-la, junto com sua irmã, para um piquenique na chácara de nossa família.
Isabel queria dizer que não estava nem um pouco a fim de ir, mas não podia dizer um não.
- Tudo bem, meu amor.
Amanhã estarei mais disposta e teremos um belíssimo domingo.
Assim que chegaram em casa e após ouvir os gracejos de Bernadete, felicitando a irmã por ter conquistado o homem mais difícil da corte, Isabel e Rosa Maria foram dormir.
Em seu quarto, virando-se na cama, Isabel não conseguia parar de pensar um instante sequer no seresteiro que havia cantado tantas músicas lindas e a olhado com paixão.
Cada vez que seu rosto vinha-lhe a mente, ela sentia o coração descompassar e um brando calor invadia seu corpo.
Gostava de Pedro, mas jamais sentira tais sensações com ele.
Estaria apaixonada por um homem que tinha visto apenas uma vez?
Não conseguindo conciliar o sono, levantou-se e foi bater na porta do quarto da irmã, que, por sua vez, também não conseguia dormir, pensando em Augusto.
Quando Rosa Maria abriu a porta, Isabel entrou, puxou a irmã pelo braço e a conduziu de volta à cama dizendo:
- Sei que você está nas nuvens por causa do Augusto, mas preciso contar-lhe algo.
Se não me abrir com alguém, não conseguirei dormir, nem saberei como agir.
- O que aconteceu?
Por que está tão nervosa?
- Acho que estou apaixonada por outro homem.
Rosa Maria pareceu não ter escutado direito:
- Como é que é?
Você, apaixonada por outro?
- Isso mesmo.
Lembra o cantor do grupo de seresteiros?
A outra fez que sim com a cabeça e ela continuou:
- Assim que o vi entrar e começar a cantar, senti uma emoção nunca antes experimentada na vida.
Meu coração bateu acelerado, senti um calor por dentro e quase fui ao chão quando ele me olhou pela primeira vez.
Tenho certeza de que aquele olhar foi de paixão e aconteceu durante toda a noite.
Pedro não percebeu nada, mas acabei por lhe retribuir os olhares.
- Você enlouqueceu, Isabel?
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 27, 2018 8:49 pm

Pedro é rico, bonito, elegante, ama você.
Como pôde fazer uma coisa dessas?
- Eu não quero trair ninguém, minha irmã, mas foi mais forte que eu.
Sinto que encontrei o homem de minha vida.
Isabel falava com tanta convicção que Rosa Maria acabou por acreditar:
- Parece loucura, mas vejo que está mesmo apaixonada.
Pensei que amores à primeira vista só aconteciam nos romances, mas estou vendo um na realidade.
O que você pretende fazer?
- Não sei ao certo.
Mas você vai me ajudar.
- Eu? - assustou-se Rosa Maria.
O que você quer que eu faça?
- Primeiro, amanhã você vai mentir, e quando Pedro chegar aqui à tarde nos convidando para um piquenique na sua chácara, você vai dizer que passei mal a noite
inteira, tive febre e não poderei ir.
- Mas por que vai fazer isso?
Não custa nada irmos a um passeio tão gostoso.
- Pedro perdeu a importância para mim no exacto momento que vi aquele rapaz.
Quero ficar distante dele o máximo possível.
Rosa Maria estava incrédula:
- O que diz é sério?
Até ontem você amava o Pedro.
- Eu nunca o amei, gosto dele apenas e pensava na fortuna que teria se o tivesse como marido, mas agora quero aquele rapaz.
Mesmo sem saber seu nome, ouvi comentários que os rapazes daquele grupo são filhos dos homens mais ricos de Lisboa.
- Você pretende terminar tudo com Pedro para se aventurar?
- Sim, é isso o que quero.
- Mas, minha irmã - disse Rosa Maria apelando para o bom senso.
Um rapaz como aquele pode já estar de compromisso com alguma moça ou mesmo estando solteiro poderá lhe rejeitar.
Esses seresteiros são assim, não podemos confiar.
Isabel pensou um pouco e viu que a irmã tinha razão.
- Está certa.
Mesmo ele tendo me olhado com amor, vou continuar com Pedro até descobrir tudo sobre o outro e nisso também você vai me ajudar.
Amanhã, à hora do café, pergunte à nossa irmã ou ao nosso cunhado quem é ele.
Você é solteira, eles não irão desconfiar.
- Farei isso.
Mas trate de ir também ao piquenique, senão Pedro poderá desconfiar.
- Terei de fazer esse esforço.
- Sim, e fingindo muito bem.
- Agora conte-me de você e Augusto.
Todos estavam comentando sobre vocês.
Empolgada, Rosa Maria se esqueceu de tudo e começou a narrar como tinha se aproximado de Augusto e até do seu pedido de ir visitá-la na chácara.
As duas irmãs conversaram tanto que nem perceberam o adiantado da hora.
Só quando o dia começou a clarear é que foram para a cama.
Na manhã seguinte, à hora do café, Rosa Maria, aproveitando o diálogo animado que se iniciara entre a irmã e o cunhado, perguntou como que por acaso:
- Os senhores conhecem o cantor do grupo de seresteiros da festa de ontem?
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 27, 2018 8:50 pm

Bernadete sorriu:
- Conhecemos muito.
É um boémio inveterado.
Chama-se Lúcio de Alvarez.
Isabel corou levemente, mas disfarçou bem.
Rosa Maria continuou:
- Ouvi dizer durante a festa que aqueles rapazes são filhos das melhores famílias de Lisboa. É verdade?
Foi João quem respondeu:
- Sim, todos eles têm berço, mas resolveram levar essa vida boémia.
Os pais têm muito desgosto.
- Mas a música que eles cantam é muito bonita.
Eles recebem pelo que fazem?
- Sim. Agem iguais a profissionais, o que mais dá desgosto às famílias.
Imaginem, filhos criados em berço de ouro cantando por bagatelas.
Foi a vez de Isabel se pronunciar:
- Já eu acho isso dignidade.
Se eles trabalham, é justo que recebam.
- Seria dignidade se eles não fossem tão ricos - tornou João.
Rosa Maria continuou como quem não queria nada.
- E Lúcio? Tem noiva, já é casado?
- Lúcio é noivo de Rosalinda, uma moça muito respeitada em nossa sociedade.
Os pais têm colónias de exploração em vários países.
Dizem que é um traidor.
Chega em casa altas horas, envolvido com as prostitutas da Casa da Perdição.
Isabel sentiu-se decepcionar.
Ele, assim como ela, era comprometido.
Aquilo dificultava muito.
Rosa Maria prosseguiu o interrogatório:
- E os pais dele?
Aprovam esse noivado?
Estão noivos há quanto tempo?
Bernadete riu:
- Vejo que, apesar de ter quase fisgado Augusto, você está é de olho em outro.
Ela fingiu:
- Achei Lúcio muito bonito.
Confesso que, se ele me fizesse a corte e não fosse já comprometido, eu aceitaria.
- Lúcio já é noivo há mais de um ano.
Seus pais, a senhora Tereza e o senhor Januário de Alvarez, são totalmente favoráveis ao noivado e ao casamento do filho.
Tanto que, devido aos escândalos dele com as prostitutas, a senhora Tereza teve de interceder muitas vezes para que a moça Rosalinda não terminasse de vez a relação.
O interesse é unir as fortunas.
Após os esclarecimentos de João, Rosa Maria calou-se, não queria mais levantar suspeitas, percebeu que Isabel havia ficado completamente perdida com aquelas informações.
A manhã custou a passar e as irmãs não conseguiram mais ficar a sós, pois a todo momento eram requisitadas pela irmã que lhes mostrava as tapeçarias e pinturas em tecido que estava aprendendo a fazer.
O almoço transcorreu tranquilo, e quando Pedro surgiu para levá-las ao piquenique, Isabel sentiu grande repulsa por ele.
Como pôde aguentá-lo por tanto tempo?
A chácara da família de Pedro era linda e harmoniosa.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 27, 2018 8:50 pm

Os três se dirigiram para uma grande tamareira e estenderam pequena esteira, onde se sentaram e dispuseram as iguarias.
Para desespero de Isabel, Pedro estava ainda mais meloso e lhe fazendo juras de amor ininterruptas.
Cada vez que ele a abraçava, ela sentia vontade de sair correndo e de gritar.
Foi a custo que deixou que a beijasse, sendo correspondido por um beijo fingido e sem sentimento.
Quando voltaram para casa, passava das cinco horas, e após as despedidas, Isabel e Rosa Maria foram tomar banho.
Enquanto trocavam-se Isabel comentou:
- Não sei por quanto tempo mais aguentarei essa situação.
Pedro está insuportável.
- Não sei como ele não percebeu sua repulsa - tornou Rosa Maria.
Era nítido que você o evitava todo o tempo.
- Preciso logo terminar esse noivado, mas para isso preciso encontrar-me com Lúcio, declarar-me e ver o que ele diz.
Rosa Maria corou de vergonha.
- Você tem coragem de se oferecer a um homem?
Esse comportamento ficou para as prostitutas.
Com certeza, se você fizer isso, ele vai tomá-la como amante.
Isabel pensou um pouco:
- É o que vamos ver - disse resoluta.
Ele me olhou com amor.
Tenho certeza de que vai querer casar comigo.
- Você só pode mesmo ser louca.
Pelo amor de Deus, não termine nada com Pedro antes de saber ao certo o que Lúcio quer com você.
Imagine você ficar sem nenhum dos dois?
- Calma, Rosa Maria, isso não vai acontecer.
Serei esperta e continuarei com Pedro até conquistar Lúcio em definitivo.
Quando tiver a certeza de que ele será meu e que serei sua esposa, aí termino tudo com Pedro.
Rosa Maria sentiu uma sensação ruim apoderar-se de seu peito:
- Você está brincando com os sentimentos de uma pessoa.
Não tem medo que isso se volte para você?
- Voltar? Como assim?
- Tem gente que acredita que Deus dá o retorno de todas as nossas acções, boas ou más.
- Não estou preocupada com isso no momento e me admira muito você estar também.
Nunca foi religiosa.
Só eu que dou ouvido às conversas do Carlinhos e até acredito em muita coisa, mas nesse instante não quero ficar preocupada com Deus.
Ele é bom e com certeza me perdoará.
Rosa Maria calou-se.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 27, 2018 8:50 pm

CAPÍTULO 5
Na segunda-feira pela manhã, Isabel e Rosa Maria saíram cedo pretendendo comprar tecidos.
Ficaram na praça central observando as pessoas, até que um negrinho escravo
apareceu-lhes pedindo moedas.
Isabel abriu seu saquinho de seda, retirou algumas e lhe deu.
Aproveitou e perguntou:
- Você é escravo de que família?
- Dos Albuquerque, senhorita.
- Você conhece o Lúcio de Alvarez, cantor do grupo de seresteiros?
- Não, senhorita.
O negrinho se foi e Isabel sentiu-se impotente.
- Preciso falar com o Lúcio ainda hoje.
Amanhã teremos de voltar para a quinta e preciso declarar-me antes disso.
Rosa Maria mal podia acreditar em tamanha impetuosidade.
- Acalme-se, Isabel.
Viremos no próximo final de semana e conseguiremos descobrir onde ele mora.
Acho uma loucura o procurarmos em sua casa, mas se é isso o que você quer, iremos, contudo, bem que poderíamos esperar pela semana que vem.
Isabel estava extremamente ansiosa e não podia esperar, por isso disse:
- Falarei com ele ainda hoje, nem que passemos o dia inteiro na rua.
Vendo que a irmã não iria desistir, Rosa Maria pôs-se a esperar.
Abordaram mais algumas pessoas, até que um casal finalmente deu-lhes a resposta:
- A família Alvarez reside à Rua Santa Maria do Castelo.
- É muito longe daqui? - indagou Isabel, ansiosa.
- Não muito - o senhor explicou-lhe o lugar, dando-lhe referências e por fim, olhando-as curioso, perguntou:
- Posso saber o que duas senhoritas querem com os Alvarez?
- Queremos falar com o filho dele, o senhor Lúcio.
O casal estava curioso.
Notando o embaraço, Rosa Maria prosseguiu tentando ser natural:
- É que moramos na quinta Santo António, muito próxima daqui, às margens do Tejo.
Fomos ontem às bodas do casal Souza e Silva e nos encantamos com a apresentação do grupo.
Nossa mãe ficou viúva, vive entristecida e pretendemos contratá-los para uma serenata lá.
Ela ficaria muito feliz.
O homem ainda permanecia desconfiado:
- Mas esse não é assunto para ser tratado por mulheres, principalmente por duas senhoritas.
Vocês não têm irmãos?
- Nossos irmãos estão todos no campo, estamos aqui na casa de uma irmã, mas seu marido trabalha todo o dia e não podemos contar com ele.
Pela nossa mãe fazemos tudo, até quebrar os costumes e irmos nós mesmas conversar com o seresteiro.
- Quero que saibam que correm sérios riscos de ficarem com má fama.
O Lúcio tem péssima reputação e dizem que Madame Celina é louca por ele.
Tomem cuidado.
- Quem é Madame Celina? - indagou Isabel, irritada.
- É a dona do mais famoso bordel de Lisboa: a Casa da Perdição.
É lá que Lúcio vive metido todas as noites.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 27, 2018 8:50 pm

Dizem que é uma mulher cruel, perigosa e vingativa.
Isabel agradeceu, e o casal, vendo que não tinha mais o que conversar, saiu.
Elas foram andando seguindo as indicações do senhor e no meio do caminho conversavam:
- Você está fazendo uma loucura - disse Rosa Maria.
Esse Lúcio não serve para você, é perdulário, boémio, viciado em bebidas, metido com uma prostituta vingativa e ainda noivo.
- O coração não escolhe a quem amar.
Eu irei até o fim.
Quero esse homem a todo custo.
- E Madame Celina?
Parece ser uma mulher perigosa.
Não tem medo?
- O que uma prostituta poderá fazer com uma dama de respeito feito eu?
Se ele me quiser, estarei protegida.
Finalmente, chegaram à belíssima vivenda da família Alvarez.
Isabel e Rosa Maria notaram que, pela imponente aparência da construção, eles eram mais ricos do que poderiam supor.
Tocaram a sineta e uma criada veio atender:
- O que desejam?
- Gostaríamos de falar com o senhor Lúcio de Alvarez.
Ele se encontra?
- O sinhozinho acabou de acordar e está fazendo o desjejum.
Em nome de quem as anuncio?
- Diga-lhe que é em nome do senhor João Mendonça.
A escrava entrou e Rosa Maria apertou o braço da irmã com força:
- Você enlouqueceu?
Como ousou usar o nome de nosso cunhado?
- E você acha que alguém iria receber a nós?
Nossos nomes não significam nada.
Rosa Maria ia retrucar quando a belíssima figura de Lúcio surgiu à porta de entrada.
- O que as senhorinhas querem comigo?
- Precisamos lhe falar, podemos entrar? - disse Isabel, com o coração aos saltos.
- Com toda certeza.
A escrava que o acompanhava abriu o portão de ferro ricamente adornado e logo as duas irmãs estavam dentro da casa.
Notaram que por dentro a beleza era ainda maior.
Tudo era luxo e riqueza como elas nunca haviam visto na vida.
Imediatamente, Lúcio reconheceu a dama que o havia olhado durante toda a noite do sábado e sentiu o coração descompassar.
O que ela queria ali?
Rosa Maria, percebendo que Isabel estava nervosa demais para falar, tomou a iniciativa:
- Nós viemos aqui para contratá-lo junto com seus amigos para uma serenata em nossa quinta.
- Que prazer! - disse Lúcio, dando belíssimo sorriso.
Adoramos o que fazemos.
Onde é a quinta?
- Trata-se da quinta Santo António de Pádua, às margens do Tejo.
- Já ouvi falar, mas não conheço.
- É muito fácil de chegar.
Basta perguntar a qualquer cocheiro de aluguel.
Olhando profundamente nos olhos de Isabel que o fitava fascinada, ele disse:
- Nada é difícil para um seresteiro.
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 27, 2018 8:51 pm

A propósito, vocês não se apresentaram.
- Desculpe-nos a falha.
Chamo-me Rosa Maria e ela é Isabel, minha irmã caçula.
Lúcio beijou as mãos de Rosa e quando foi beijar as de Isabel tornou:
- Lindas mãos, assim como a dona delas.
É um prazer.
Lúcio deu um beijo carinhoso e demorado que quase fez Isabel desmaiar.
Ele, percebendo sua reacção, continuou:
- Como eu disse, nada é difícil para um seresteiro, nem mesmo conquistar o coração da mais bela dama de Lisboa.
Rosa Maria cortou-o:
- É melhor o senhor parar com isso, seus pais estão em casa e podem chegar a qualquer momento.
- Engana-se. Meus pais estão em viagem, estou só em casa.
Não querem me fazer uma visita à noite?
Rosa Maria, horrorizada com o atrevimento, deu-lhe uma bofetada dizendo:
- Calhorda! Vamos embora daqui.
E não queremos mais a sua serenata, não passa de um patife!
As duas saíram rápido, enquanto Lúcio passava a mão no rosto sorrindo malicioso.
- A irmã quis dar uma de santa, mas sei que Isabel está apaixonada por mim.
Tenho certeza que não dormirei só esta noite.
- Falando sozinho, sinhozinho?
- Ah, é você que está aí, Belarmina? Aproxime-se.
A escrava aproximou-se alegre.
Era tratada naquela casa como uma amiga, e Lúcio tinha com ela muita cumplicidade.
- Sei que estava escutando atrás da porta.
Viu como é duro ser bonito?
Ela riu:
- Mas o sinhozinho é lindo demais, parece um anjinho do céu.
- E anjinho do céu faz safadeza, Belarmina?
- Claro que não. Credo Cruz!
O senhor está mais para diabo mesmo.
- Deixe de bobagens.
Você hoje fique atenta e não durma cedo.
À noite vou me recolher mais cedo, mas você ficará de vigília até Isabel aparecer.
Fique atenta, olhando pela janela ou no jardim, se vir um vulto de mulher se aproximar, vá até ela e a convide a entrar.
- Com certeza, sinhozinho.
Lúcio levantou a escrava do chão, beijou-a na face e cantando foi para o quarto.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 27, 2018 8:51 pm

CAPÍTULO 6
Na rua, Isabel e Rosa Maria andavam aturdidas e nervosas.
Isabel retrucava:
- Por que você foi esbofeteá-lo e dizendo que não queremos mais a serenata?
Ficou louca?
- Não. É você quem está maluca, Isabel.
Ele nos tratou como se fôssemos prostitutas.
Convidou-nos a dormir com ele.
- Ele não convidou você, mas a mim.
- Ainda assim.
Você não é nenhuma prostituta para dormir com ele naquela casa enquanto os pais estão fora.
Rosa Maria parou de andar e um pensamento sinistro lhe passou pela cabeça:
- Não me diga que você terá a coragem de dormir lá com ele.
Isabel, olhos brilhantes de paixão, disse:
- É isso o que farei.
- Se você fizer isso, contarei à nossa irmã.
- O que é isso, Rosa Maria?
Nós sempre fomos cúmplices e confidentes uma da outra.
Está querendo dar uma de moralista agora?
- Não é isso, minha irmã.
Tenho medo de que ele só a veja como uma prostituta, a use e depois a descarte.
Imagina se isso acontecer?
- Eu vou arriscar.
Tenho certeza de que amo e sou amada, mas se ele me rejeitar depois, saberei como fazer.
- Você irá trair o Pedro.
Não tem pena dele?
- Eu preciso pensar em mim e na minha vida.
Viu o luxo daquela casa?
Lúcio é três vezes mais rico que Pedro.
Se eu conseguir tirá-lo da noiva e casar-me com ele, serei duplamente feliz.
Rosa Maria concordou:
- Se é pelo seu bem e pela sua riqueza futura, eu aceito.
Mas como você fará para sair à noite sem que nossa irmã e cunhado desconfiem?
- Não sei.
É isso que precisamos pensar e decidir daqui para a noite.
As duas continuaram a andar, dessa vez mais devagar, até que chegaram à casa da irmã, que já as aguardava com preocupação.
- Onde estiveram esse tempo todo? - indagou Bernadete, visivelmente nervosa.
- Estávamos escolhendo tecidos, mas nenhum nos agradou - explicou Rosa Maria.
- Demoraram demais, passou da hora do almoço.
João saiu para o trabalho preocupado.
E além dele, a tia Elisa está fazendo aquela tempestade de sempre.
- Tia Elisa está aí? - indagou Rosa Maria, surpresa.
- Sim, chegou assim que vocês saíram.
Veio passar uma temporada connosco.
Josefa acompanhou o marido numa viagem ao Brasil e ela não quis ficar na mansão sem a filha.
Sabe como é tia Elisa, detesta solidão.
As duas entraram e logo viram a tia sentada em uma das poltronas tomando chá.
Era uma senhora idosa, mas muito viva, excessivamente arrumada e principalmente activa.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 27, 2018 8:51 pm

Muito lúcida, conversava sobre todos os assuntos, gostava de dar palpites em tudo e tinha um senso de humor único.
Tudo para ela era motivo de piada.
Fingiu assombro quando viu as sobrinhas entrarem:
- Minhas belas!
O que lhes aconteceu?
Algum malfeitor as atacou?
- Não, tia - respondeu Isabel.
Fomos comprar fazendas, mas nenhuma nos agradou.
- Todos estávamos muitos nervosos aqui.
Já tomei duas chaleiras de cidreira e ainda não consegui me acalmar.
- Que exagero, tia Elisa.
Lisboa é tranquila.
- Você é que pensa, minha filha.
Lisboa está uma coisa horrorosa, sujeira por toda parte, o povo passando fome, está perto de estourar uma coisa aí de matar todo mundo.
Quero estar longe daqui quando esse império ruir.
As duas riram. Já estavam habituadas ao exagero da tia.
- Não creio que Lisboa esteja assim. Acabamos de sair, e a cidade está linda.
- Então, vocês não foram comprar tecidos, foram a bairros ricos.
Porque no centro comercial é ladrão por toda parte.
Desde que o Rei João I assumiu o trono, isso aqui virou uma desgraça.
Nunca se ouviu falar de tanto estupro quanto agora.
Os homens estão atirando para todos os lados - Elisa parou de falar por alguns instantes e continuou curiosa.
Mas foram comprar tecidos e nenhum as agradou?
O que mais tem em Lisboa é loja de fazendas.
Aonde é que vocês foram realmente?
A pergunta directa e rápida de tia Elisa as fez ficar sem resposta.
Rosa Maria raciocinou rápido e respondeu:
- Na verdade, eram tecidos para mamãe.
Sabe que está de luto, e não veste qualquer coisa.
- Ah, sei - tia Elisa fingiu acreditar.
Coitada da Margarida!
A propósito, como ela está?
- Muito triste - tornou Isabel.
Apesar de ter melhorado muito, ainda não se recuperou da perda do papai.
Foram muitos anos de casamento.
A senhora sabe como é difícil.
- Eu não sei nada - disse tia Elisa, com vigor.
Eu nem de luto fiquei quando o falecido se foi.
Luto para quê? Não vai trazer a pessoa de volta, nem chorar adianta.
Em uma semana já estava num baile de máscaras.
Todos riam, pois foi exactamente aquilo que tinha acontecido.
Tia Elisa era excêntrica e todos já estavam acostumados.
As duas se retiraram para almoçar, e tia Elisa comentou com Bernadete:
- Essas duas não me enganam.
Sou mulher vivida, sei que não foram a loja alguma, foram atrás de homem.
Bernadete horrorizou-se:
- A senhora está enganada.
Isabel é noiva de Pedro e Rosa Maria começou a ser cortejada por Augusto, um excelente partido.
Aonde elas iriam a uma hora dessas?
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 27, 2018 8:51 pm

- Eu não sei, mas que elas foram atrás de homem, foram, e é bom que você fique atenta se não quiser ter duas perdidas na família.
Bernadete percebeu que o que tia Elisa falava poderia ser verdade.
As duas haviam levantado muito cedo dizendo que não regressariam à quinta naquele dia e que iriam às compras.
Voltaram tarde, nervosas e sem nada nas mãos.
Mas aquilo não fazia muito sentido.
Rosa Maria não ousaria procurar Augusto uma hora daquelas e não havia motivo para Isabel mentir que iria comprar fazendas.
Se quisesse ver o noivo, era só falar.
Mas, de qualquer forma, ela iria averiguar melhor.
A tarde passou rapidamente, pois a presença de tia Elisa alegrava a todos com suas tiradas cómicas.
A noite chegou e enquanto se preparavam para o jantar, Isabel tornou:
- Chegou a noite e ainda não temos ideia de como vou sair daqui para dormir com Lúcio.
- Eu pensei muito e também não cheguei a nenhuma conclusão.
- Pois eu posso ajudá-las - era a voz de tia Elisa que acabava de entrar no quarto.
Desculpem, mas ouvi toda a conversa.
Sei que Isabel quer dormir com um homem e não sabe como sair desta casa, pois eu as ajudarei.
As duas ficaram nervosas.
Tia Elisa era uma mulher à frente de seu tempo, mas não sabiam até que ponto podiam confiar.
- Percebo que não estão confiando em mim.
Realmente, desconfiei que tinham feito alguma coisa errada, até comentei com Bernadete para ficar de olho em vocês, mas fiz isso só para ludibriá-la.
Percebi que uma das duas está amando e sou sempre a favor do amor, o amor é lindo!
Isabel sorriu embaraçada:
- Não tive culpa, tia.
Sou noiva, mas me apaixonei por outro.
Não foi intencional.
A velha senhora aproximou-se mais, encarou-a e disse:
- Nada no amor é intencional, até que se prove o contrário -riu gostosamente.
Seus olhos brilharam parecendo perdidos num ponto indefinido quando prosseguiu:
- Eu amei muito nesta vida, todo mundo sabe que não tenho certeza de quem Josefa é filha.
Sempre traí meu marido que era um homem insípido, sem graça.
Quem mandou me casarem com quem não queria?
Traí muito, tive muitos amores e amantes.
Por isso, sou a favor de tudo.
Se você quer se encontrar com outro homem, que vá.
Na hora certa as ajudarei.
Isabel e Rosa Maria agradeceram e foram jantar como se nada houvesse acontecido.
Em seguida, enquanto todos saboreavam os licores, tia Elisa chamou Isabel a um canto dizendo:
- Quando for para o quarto, não feche a porta.
Fique atenta e assim que eu entrar, não faça barulho.
Quando a sessão de música acabou, todos foram se recolher.
Isabel estava nervosa e não conseguia ficar quieta na cama.
Perto da meia-noite, a porta abriu-se e tia Elisa entrou no quarto com uma escrava.
- Fique calada.
Durvalina vai dormir em sua cama, enquanto você sairá com as roupas dela.
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