Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 05, 2018 9:52 pm

Ambos riram e a conversa foi interrompida por Isabel que acabava de entrar no terraço:
- Sinto interromper esse colóquio tão agradável, mas já passa do meio-dia e Denise precisa se arrumar.
Só para vestir o vestido, leva mais de uma hora.
Vamos, Denise, siga-me, quero que esteja mais linda do que nunca hoje à noite.
Denise seguiu a tia com desagrado.
Gostava de se arrumar, mas aquelas coisas muito demoradas e cheias de adereços ela detestava, preferia vestir coisas mais simples, mas Isabel insistia que as mulheres deveriam andar sempre no mais alto luxo.
Maurício ficou sozinho por um tempo, depois se retirou para o quarto a fim de reler novamente a continuação da história que o espírito estava escrevendo.
A noite chegou e Portugal vivia um agradável tempo de verão.
Os portões do castelo estavam abertos de par em par, e a mais fina sociedade começava a aparecer.
Ao som de afiados violinos, o clima era de extrema elegância, luxo e requinte.
O tempo passara, mas Isabel e Lúcio continuavam tão lindos quanto antes.
O mesmo poderia se dizer de Rosa Maria e tia Elisa.
Enquanto Rosa se manteve bonita e conservada, tia Elisa, apesar de já estar com 75 anos, parecia haver remoçado.
Emagrecera, estava elegante, com olhos muito vívidos, sendo abanada por um grande leque nas mãos de António, que agora morava com ela.
Rosa Maria se sentia uma deusa sendo cumprimentada pelas pessoas que a odiavam e falavam mal de sua quinta.
Isabel era riquíssima e influente, e todos teriam de obedecer ao protocolo e beijar a mão de Rosa Maria, como a dona do castelo ordenava.
A um sinal de Isabel, os violinos pararam e ela elevou um pouco a voz:
- Agora, vocês conhecerão Denise de Alcântara, minha sobrinha, filha de Madame Rosa Maria, minha filha do coração.
Eu que a eduquei e agora a apresento à nossa bela sociedade.
Eu e Lúcio estamos oferecendo um dote cinco vezes maior do que o maior dote já dado por uma família de Portugal, ao homem que encantar seu coração.
Notem bem, não é o homem quem a escolherá, mas será minha sobrinha quem o vai escolher conforme sua preferência.
Que desça Denise de Alcântara.
Os violinos recomeçaram a tocar, e Denise, auxiliada por quatro serviçais, desceu majestosamente a longa escadaria.
Todos comentavam que nunca viram beleza tão majestosa na vida.
Denise realmente era o que se podia chamar de beleza rara.
No pé da escada, estava Lúcio, belíssimo, a esperá-la.
Ao som clássico dos violinos, um a um, os casais mais tradicionais e ricos de Portugal eram apresentados à moça, que estava extasiada com tanto requinte e beleza.
Era Bóris quem os apresentava:
- Este é o casal Gumercindo e Betânia de Souza Moraes, trazem com eles seus lindos filhos, Henrique de Souza Moraes e Verónica de Souza Moraes.
- Prazer e parabéns, minha cara senhorita - disse Gumercindo, sendo seguido pela mulher e filhos.
Seguiram-se outros casais, sem que Denise se empolgasse com nenhum dos rapazes que aparecia.
Maurício a olhava de lado, e ela percebia que ele se divertia com suas recusas.
Um novo casal aproximou-se e Denise estava distraída olhando para Maurício que lhe fazia sinais engraçados.
- Este é o casal Gilberto de Menezes, sua esposa Elvira de Menezes e suas duas lindas filhas, Paloma de Menezes e Lúcia de Menezes.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 05, 2018 9:53 pm

Denise não estava prestando atenção até que Bóris a apertou de leve no braço:
- Senhorita, mais um casal.
Assim que Denise virou o rosto e olhou para Gilberto, sentiu uma emoção tão forte que quase desmaiou.
Seu coração acelerou, seu rosto cobriu-se de rubor e ela trémula estendeu-lhe a mão.
Gilberto, com o coração descompassado por ver tão linda criatura, sentiu seu coração ser mexido até as fibras mais íntimas, percebeu que ela sentira o mesmo, mas procurou disfarçar, beijando sua mão com delicadeza:
- Prazer e parabéns, senhorita!
- O prazer é meu - disse Denise pela primeira vez a um convidado.
Em seguida, quando a família ia saindo, Denise, dominada por intensa emoção, sentiu grande tontura.
Vendo que a moça ia desmaiar, Gilberto a pegou nos braços e a conduziu a uma cadeira próxima.
Isabel e Rosa Maria correram para perto, enquanto Bóris a abanava com um leque.
- O que foi, minha querida?
Que sente? - tornou Isabel, preocupada.
- Que tem, minha filha?
Não nos deixe preocupadas - tornou Rosa Maria, pálida, achando que a filha tivesse adoecido de repente.
Denise abriu os olhos e viu Gilberto à sua frente.
Aos poucos, foi recobrando mais os sentidos e disse:
- Acho que foi um pequeno mal-estar por ficar de pé tanto tempo.
Preciso me recompor.
- Mas, tem uma fila ainda grande esperando para conhecê-la, filha - tornou Isabel, preocupada com as etiquetas sociais.
- Não, agora não, preciso me recompor.
Maurício, venha comigo até meus aposentos.
O primo a seguiu escada acima enquanto Isabel desculpava-se pedindo que esperassem a aniversariante.
Todos começaram a comentar, pois além de Isabel ter tido a ousadia de dizer que era sua sobrinha quem iria escolher um homem, ainda a viram subir para o quarto acompanhada de um rapaz, mesmo que fossem primos.
Era falta de decoro, pois segundo as normas, era o homem quem escolhia a mulher, e uma moça jamais poderia ficar sozinha em seu quarto com outro homem que não fosse seu legítimo esposo.
Mas Isabel era rica e famosa, e ninguém se atrevia a dizer nada.
Muitos ali tinham negócios com Lúcio, que, naqueles anos havia se transformado em agiota, emprestando dinheiro a juros altíssimos a famílias tradicionais e famosas, que estavam na ruína financeira.
Lúcio e Isabel mandavam e desmandavam porque tinham muito dinheiro, e todos teriam de aceitar.
No quarto com Maurício, Denise estava à beira da loucura:
- Maurício, ele é lindo!
É o homem mais lindo que já vi na vida!
É ele que quero.
- Mas, Denise, você só pode ter enlouquecido.
Gilberto é mais velho que você, é casado e tem duas filhas da sua idade.
Não é você que vive chamando Wladimir de velhote?
- Mas é diferente, Gilberto é belo, e meu coração já lhe pertence.
- Mas ele é casado.
- Não importa!
Tia Isabel é muito poderosa e vai encontrar um jeito de separá-lo da esposa - olhou para o primo e pegou em suas mãos.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 05, 2018 9:53 pm

Eu tenho certeza de que ele também se apaixonou por mim, eu vi.
Esse homem tem de ser meu.
Maurício estava assustado, nunca tinha visto Denise agir daquela maneira.
- De qualquer forma, você precisa agora se acalmar e voltar à festa, vamos, vou chamar uma maquiadora e um dos arrumadores para recompô-la.
Ela percebeu que não havia outro jeito a não ser concordar.
- Eu desço, mas a valsa dançarei com ele.
-Você está louca?
Será um escândalo!
- Não me importo. Mande chamar a maquiadora e a costureira.
Ou danço com ele, ou não me chamo Denise.
Maurício não tinha mais como argumentar e saiu.
Meia hora depois, Denise já estava de volta ao salão, recebendo o restante dos convidados com muito enfado.
Quando chegou a hora da valsa, Isabel tomou a frente e, chamando Denise para junto de si, disse:
- Minha sobrinha vai escolher um rapaz para valsar com ela, quem sabe não é esse o dono de seu coração?
E então, querida? Quem escolhe?
Muito altiva e dona de si, Denise disse em voz mais alta que o habitual:
- Eu escolho Gilberto.
Isabel não entendeu:
- Mas quem é Gilberto?
Não há nenhum rapaz aqui com esse nome, minha querida.
Não está enganada?
- Não, minha querida tia.
Eu escolho o Gilberto de Menezes.
Dizendo isso, tirou os braços do braço da tia e ela mesma aproximou-se de Gilberto tirando-o, com um gesto de mão, para dançar.
Aquela atitude causou um reboliço entre os convidados, e Gilberto não sabia se ia ou não.
Elvira, sua esposa, vendo o embaraço do marido e vendo em Denise uma atitude adolescente de insistência, disse com calma:
- Vá, querido, não deixe a moça esperando.
Não teve alternativa para Gilberto a não ser ir com Denise para o centro do salão e dançar toda a valsa.
Em meio à música, ela tomou uma atitude ousada.
Puxou-o para mais perto de si e disse com suavidade:
- Quero-o para mim.
A partir desta noite, tudo farei para que seja meu.
Ele, ruborizado pela ousadia da moça, rebateu:
- Não diga isso, Denise, você é jovem e eu um homem mais velho e casado.
- Não importa, Gilberto.
Não vê que o amei desde a primeira vez que o vi?
- Eu também senti a mesma coisa, Denise, mas nosso amor é proibido e só traria sofrimentos.
- Pois, eu o tornarei possível. Você verá.
A dança terminou, e Gilberto voltou para perto da família.
Paloma comentou:
- Que honra para o senhor dançar com a aniversariante!
- Ela é linda! - disse Lúcia, empolgada.
Elvira tornou rindo:
- Olha só como são essas adolescentes, vão logo se encantar por um homem mais velho.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 05, 2018 9:53 pm

- A senhora não sente ciúmes, mamãe? - tornou Paloma, maliciosa.
Elvira riu e respondeu:
- Confio em seu pai e sei que Denise nada sentiu por ele a não ser carinho fraternal.
Sei de sua história. Denise foi abandonada pelo pai ainda na barriga da mãe.
É natural que nessa idade tão bonita, uma moça queira dançar sua valsa com o pai.
Na falta dele, ela chamou o Gilberto, tudo muito natural.
As meninas concordaram e logo viram Denise se aproximar, pegando nas mãos de Elvira:
- Obrigada, senhora, por ter permitido que seu marido dançasse comigo.
- Não foi nada, Denise, compreendo você.
As duas se abraçaram, e ela piscou o olho para Gilberto, que tentava conter o receio de que uma das filhas percebesse o que Denise queria de verdade.
O baile prosseguiu até que, altas horas da madrugada, tudo se encerrou.
Naquele resto de noite, Denise não conseguiu dormir, muito menos Gilberto.
Um pensava no outro com intensidade.
Ela, louca pela aventura, ele, a desejando mais que tudo, mas com muito medo do futuro.
Denise acordou tarde no dia seguinte e todos já tinham almoçado.
Assim que ela fez sua lauta refeição na cama, arrumou-se com esmero e foi procurar por Maurício.
- Está na cozinha conversando com as cozinheiras - respondeu uma serva.
- Conversando o quê?
- Não sei, senhora, mas todas elas estão muito distraídas ao redor dele.
Só podia ser o que Denise estava pensando.
Maurício não tomava mesmo jeito.
Foi para a cozinha e lá estava ele sentado em uma mesa grande com uma das servas à sua frente e um baralho aberto sobre a mesa.
Ele olhava a serva e dizia:
- Seu marido realmente está com outra.
Ela é morena como você, mas é mais velha e casada.
Ele vai lhe deixar por ela, pois está grávida e terá um menino.
A serva começou a chorar em desespero:
- É só isso que vê para mim?
Ele olhou para o baralho mais uma vez e disse:
- Esta outra carta mostra que um nobre velho vai se interessar por você aqui no castelo em uma das festas.
Se quiser poderá refazer sua vida com ele.
Mas, a serva, chorosa e indignada, saiu do recinto enxugando as lágrimas.
Outra ia se sentar quando a voz de Denise fez-se ouvir:
- Pare com isso, Maurício!
Agora!
Ele se virou assustado, recolheu as cartas e saiu rapidamente da cozinha, pegando Denise pelo braço:
- Como ousa fazer isso?
-Você sabe que não pode ficar por aí adivinhando o futuro.
O espírito de luz que o protege disse que é prejudicial para você, que sua função é escrever as histórias que ele dita.
- Não é você mesma que diz que esse espírito deve ser velho e arcaico?
- Digo isso por brincadeira, tenho medo de que algo ruim aconteça com você.
- O que pode acontecer comigo?
- Sei lá, o Wladimir disse que, se não obedecermos aos seres da luz, poderemos ser atacados pelos espíritos maus que rondam por aí.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 05, 2018 9:53 pm

- Não tenho medo disso e vou continuar lendo o futuro com esse baralho cigano que Tia Elisa me deu.
Denise percebeu que não adiantaria tentar, por isso mudou de assunto e foi logo ao que lhe interessava:
- Quero que você procure o tio Lúcio e peça a ele o endereço do Gilberto para mim.
- Não farei isso. Papai é muito bravo e não vai me dar.
- Ora, pois diga que é porque está interessado em Paloma.
- Ele não vai acreditar, todo mundo sabe que eu vivo a sonhar com a Fabiana Coutinho.
- Mas, um homem pode gostar de muitas mulheres, vá lá e diga que quer fazer a corte à Paloma.
- Mas, o que você quer fazer na casa de Gilberto?
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 05, 2018 9:55 pm

CAPÍTULO 40
Denise, girando delicada bolsinha que tinha nas mãos, combinando com seu lindo vestido de brocado, disse com malícia:
- Vou lá a pretexto de fazer amizade com Paloma e Lúcia, mas na verdade pretendo deixar nas mãos de Gilberto um bilhete marcando um encontro para a noite no jardim das tílias, perto do Tejo.
Tenho certeza de que ele irá e cederá aos meus encantos.
-Você enlouqueceu, minha prima - disse Maurício, assustado com a ousadia da prima.
- Enlouqueci de amor, e se você não conseguir esse endereço o mais rápido possível, conto ao tio Lúcio que você anda lendo a sorte das pessoas do castelo.
Quero ver o castigo que ele vai te dar.
Temendo que a prima realmente cumprisse a promessa, Maurício foi, demorou quase meia hora e depois chegou encontrando-a impaciente:
- Pensei que não fosse mais voltar.
- Sabe como é papai, me fez um monte de perguntas.
Aqui está o endereço.
Denise pegou o papel e nem mesmo se despediu do primo, saiu rápida, procurou Isabel e pediu que ela liberasse um cocheiro e uma carruagem para que ela desse um passeio pelas cercanias do castelo.
Em pouco tempo, Denise estava chegando em frente ao palacete dos Menezes.
Tocou o sino e uma criada veio atender.
- Diga à senhora Elvira que é Denise de Alcântara, gostaria de falar com Paloma e Lúcia.
A criada entrou e em poucos minutos, Elvira surgiu na porta junto com as duas filhas.
- Mas que surpresa, Denise.
O que a trouxe aqui? - perguntou Elvira, amorosa e feliz com a visita.
- Oh, perdoe-me não ter avisado antes como de praxe, mas hoje é domingo e me senti muito solitária naquele castelo.
Gostei de suas filhas e queria muito fazer amizade com moças jovens e saudáveis como elas.
Paloma e Lúcia, que estavam próximas, sorriram felizes.
- Entre e fique à vontade.
Denise entrou e se emocionou ao estar dentro da casa onde o homem que amava vivia há tantos anos.
Foi-lhe duro ver retratos da família feliz pendurados na parede, mas ela disfarçou bem.
Após ser oferecido um lanche, ocasião em que as quatro conversavam animadamente, Denise perguntou como que por acaso:
para caçar?
- Não! Gilberto não gosta de caçar, é um homem muito caseiro e aprecia estar com a família.
Passa a semana tomando conta da fazenda do pai, mas aos sábados e domingos fica connosco no recesso do lar - explicou Elvira, com calma.
Agora está fazendo a cesta, logo acordará e poderá conversar connosco.
A conversa se estendeu sobre banalidades, até que Paloma resolveu abrir o piano e tocar algumas músicas para a visitante e nova amiga.
Assim que a música soou no ambiente, Gilberto apareceu muito bem vestido, cabelos penteados para trás e um belo sorriso no rosto.
Ao ver Denise, tomou grande susto que foi percebido pela esposa:
- Não estranhe a Denise aqui, ela se sentiu solitária no castelo e resolveu nos fazer uma visita a fim de criar amizade com nossas filhas.
Veja como estão felizes.
Gilberto beijou a mão de Denise, que corou levemente, mas disfarçou bem:
- Obrigado pela visita, senhorita, seja bem-vinda à nossa casa.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 05, 2018 9:55 pm

- Muito obrigada.
Gilberto sentou-se próximo a ela e passou a ouvir as canções que Paloma tirava do piano, com maestria.
Sem que ninguém percebesse, Denise tirou pequeno pedaço de papel por baixo dos panos de seu vestido e foi encostando-o nas mãos de Gilberto, que logo percebeu o que estava acontecendo.
Pegou o bilhete com rapidez e escondeu no bolso.
Passava das cinco quando ela finalmente foi embora, acenando com alegria para todos de dentro de sua carruagem.
Assim que pôde ficar sozinho, Gilberto abriu o bilhete e leu:
"Meu amor, estarei esperando-o às dezanove horas, sem falta, no jardim das tílias, perto do Tejo.
Não falte.
Da sua amada: Denise".
- Onde está o senhor Gilberto?
Acaso aproveitou o domingo
Gilberto sentiu o sangue ferver.
Era uma loucura tudo aquilo, mas ele não podia mais negar que amava aquela moça mais que tudo na vida e não poderia resistir a ela.
Mil questionamentos passavam por sua cabeça:
"Por que não a conhecera antes"?, "Por que viera conhecer logo agora que estava casado com uma mulher maravilhosa e possuía duas filhas lindas que o amavam tanto"?
Gilberto concluiu que não teria respostas para aquelas perguntas.
O que sabia realmente era que queria Denise em seus braços e nada importaria para tê-la.
Naquele momento, Gilberto e Denise cometiam grave erro que só o futuro se encarregaria de corrigir.
Ele, como homem casado, deveria resistir à tentação e, antes de iniciar uma nova relação, terminar a primeira com dignidade.
Mas, só deveria terminar o casamento se tivesse a certeza viva de que não amava mais a esposa e de que não poderia lhe dar mais felicidade.
Muitos são os que terminam relações sinceras e verdadeiras para ir em busca das ilusões, representadas por rostos bonitos, corpos jovens e esculturais que despertam paixões, mas não trazem a verdadeira felicidade.
Fazem isso baseados em crises conjugais banais e passageiras, sem perceber que o tempo daria a solução para os problemas sem a necessidade de terminar uma família.
A separação conjugal só é aceita por Deus quando não existe mais afecto sincero, nem amor suficiente para se manter uma relação dentro do respeito que ela exige.
Nesses casos, a separação é legítima, pois só separa o que na verdade nunca foi unido.
Mas, as leis divinas cobram sempre aqueles que se separam com base nas futilidades da matéria, mesmo tendo sentimento pela família e ainda condições de melhorar a vida conjugal.
Gilberto nunca amara Elvira de verdade, casou-se por imposição da família no intuito de unir fortunas, então reencontrara o amor de vidas passadas, podendo separar-se da esposa e unir-se a ela com as bênçãos divinas, mas sem jamais trair ou abandonar a família para sempre, como muitos fazem.
Com esta separação, Elvira teria a chance de perceber que poderia reconstruir a própria vida, viver por si mesma, descobrindo potenciais que ignorava, depois que casou e assumiu o papel de esposa.
Paloma e Lúcia teriam a chance de rever conceitos sobre posse, entendendo que, por estar separado, Gilberto não deixaria de amá-las e protegê-las, como sempre fez.
Entenderia que um casamento só deve acontecer quando existe amor verdadeiro e, compreendendo isso, fugiriam da hipocrisia e do falso moralismo da sociedade.
Mas, Gilberto estava caindo nas malhas da traição e, movido pela paixão, se envolveria com Denise, mesmo na condição de casado.
Ao chegar ao castelo, Denise procurou a tia para conversar e ambas foram para o terraço.
-Tia, pela demora dá para perceber que não fiz um simples passeio pelas cercanias.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 05, 2018 9:55 pm

- Era isso mesmo que ia perguntar quando chegou.
Aonde foi?
- Não posso negar nada à senhora que amo tanto quanto a minha mãe.
Estou perdidamente apaixonada por Gilberto de Menezes e quero ter esse homem para mim, custe o que custar.
Isabel corou:
- Mas como isso foi acontecer?
Esse homem tem idade para ser seu pai.
Não é a pessoa que sonhei para você, e ainda por cima é casado.
Jamais aceitarei que se relacione com ele.
Denise ficou com receio de que a tia interferisse em sua relação, mas sabia que Isabel era compreensiva e iria entender seus sentimentos e argumentou:
- Por favor, tia, não me deixe viver infeliz com outro homem.
Deve ser horrível ter de se deitar todas as noites com um homem que a gente não ama nem sente nada.
Não me encantei por nenhum jovem, só Gilberto fez vibrar meu coração.
Isabel sabia que Denise estava realmente apaixonada, mas não podia concordar com aquilo.
- Não, você não vai mais sair do castelo.
Está proibida!
- Escute, tia, hoje à tarde fui à casa dele e deixei-lhe um bilhete marcando um encontro para as dezanove horas no jardim das tílias.
Deixe-me ir ou voltarei a viver com minha mãe no bordel.
Denise dissera aquilo com voz grave, e Isabel teve medo:
- Está me desafiando, menina?
- Não, tia, estou simplesmente dizendo que se a senhora não me deixar viver esse amor, saio daqui e vou viver com minha mãe novamente.
Ela certamente me entenderá e me dará toda liberdade.
Era bem possível que Rosa Maria apoiasse aquela relação, pois sendo cafetina e vivendo influenciada pelos pensamentos licenciosos de tia Elisa, tudo para ela se tornara extremamente normal.
O que fazer?
Isabel entrou em conflito íntimo.
Se contasse a Lúcio, seria pior, pois ele tomaria atitudes drásticas e Isabel não gostaria de ver sua sobrinha sofrer, mas por outro lado, sabia que Gilberto a faria sofrer muito mais, pois jamais abandonaria esposa e filhas para ficar com Denise, que acabaria falada em toda corte.
- Eu não posso deixar que vá a esse encontro.
O que você pensa que vai conseguir com Gilberto?
Ele é casado, nunca abandonará a família por você.
- Eu tenho certeza de que, se a senhora me ajudar, ele abandona sim.
- Como assim? - perguntou Isabel, curiosa.
- Eu traço um plano e a senhora me ajuda, agora deixe-me ir, preciso me encontrar com ele.
Não havia jeito.
Isabel conhecia Denise desde criança e não havia como fazê-la desistir do seu intento.
Além de tudo, ela era rica e havia oferecido um portentoso dote a qualquer rapaz que quisesse casar-se com a sobrinha.
Com aquele dinheiro, não faltariam pretendentes, mesmo tendo Denise sido desonrada e amante de um homem casado.
Passou a ver a sobrinha como ela havia sido no passado:
uma moça jovem, linda, sedenta pelas aventuras da vida. Mudou de pensamento e disse:
- Tudo bem, mas tome cuidado e não se entregue com facilidade.
Se Gilberto a amar de verdade, darei um jeito para que se separe da família e viva com você.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 05, 2018 9:56 pm

CAPÍTULO 41
Denise deu vários saltos de felicidade e beijou a tia várias vezes no rosto saindo em seguida para se arrumar.
Isabel sabia que tempestades viriam, mas ela, com o dinheiro e a posição que possuía, com certeza daria um jeito em tudo.
Quem não gostou nada de tudo o que ouviu foi Wladimir, que, por detrás de uma das colunas de mármore, ouvira a conversa na íntegra.
Seu corpo todo se roía de ciúmes e ele não sabia mais o que fazer.
Tentara conquistar Denise através da magia, mas seus guias o haviam avisado que ele nada conseguiria, pois a moça estava imbuída pela chama do amor verdadeiro, e ele não alcançaria seu intento, por mais práticas mágicas que utilizasse.
Contudo, ele não poderia ficar sem ela, teria de possuí-la.
Naquele momento, lhe veio uma ideia e ele resolveu segui-la.
Antes das dezanove horas, Gilberto já se encontrava no jardim.
Dissera à esposa e às filhas que iria visitar um amigo doente e que não teria horas para voltar.
Intimamente, Gilberto sentia um pouco de remorso por estar cometendo uma traição, mas ele nunca tinha sido tão fiel assim.
Vez por outra saía com uma prostituta.
Mas agora era sério, estava apaixonado por Denise, apesar de tê-la visto apenas duas vezes, e aquela paixão havia tomado conta de todo o seu ser.
Foi com ansiedade que a esperou chegar.
Denise foi surgindo no meio do jardim escuro com um pequeno lampião à mão e quando o encontrou, jogou-se nos seus braços com paixão e amor.
Um beijo ardente e carregado de sentimento selou a união de ambos.
Não havia palavras para traduzir o que ambos sentiam naquele momento, mas procuraram não pensar em mais nada.
Jogaram-se na relva e amaram-se o máximo que puderam.
Quando saíram dali, horas mais tarde, tinham a certeza de que tudo fariam para ficarem juntos, ainda que fossem ferir ou machucar outras pessoas.
O tempo foi passando e a amizade entre Paloma, Lúcia, Elvira e Denise foi se estreitando.
A pretexto de averiguar como estava a vida do casal, Denise sempre ia à casa da rival especular como andavam as coisas.
Uma tarde, enquanto Paloma dedilhava uma bela canção ao piano e Lúcia cantava acompanhando, Elvira disse a Denise:
- Estou me sentindo muito infeliz, querida.
- Por que, senhora Elvira?
Tem um marido óptimo, filhas inteligentes e lindas.
Não há motivos para estar infeliz.
- Sei que é jovem e não entende muito dessas coisas, mas meu marido, que tanto amo, já não é mais o mesmo comigo.
Não tem mais carinho, anda frio e distante.
Denise exultou, era isso mesmo que queria.
Quanto mais Gilberto ficava frio com Elvira, mais sabia que ele a amava.
Tentou ajudar, sendo falsa:
- Não se preocupe.
Tenho apenas quinze anos, mas sei de muitas coisas.
Minha tia me conta que há fases em que o marido esfria com a mulher, é normal.
Logo, ele estará com a senhora como antes.
- Sei não, minha querida, acho que ele está com uma amante.
Ela fingiu surpresa:
- Amante? Mas o senhor Gilberto é tão discreto!
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 05, 2018 9:56 pm

Não creio que seja isso.
- Mas é a única explicação para toda essa frieza.
- E se for mesmo verdade, o que a senhora fará? - perguntou Denise, na tentativa de se precaver.
- Nada farei. Eu me sentirei muito magoada porque ele não teve a coragem de ser sincero e me dizer a verdade.
- Quer dizer que a senhora aceitaria naturalmente uma traição se seu marido lhe contasse?
Denise sentiu-se preocupada, pois Elvira parecia ser uma mulher diferente, daquelas que aceitavam tudo com passividade.
Naqueles tempos em que viviam, a sociedade estava passando por algumas mudanças.
As mulheres estavam, aos poucos, deixando de ser submissas para assumir a própria vida.
Contava que Elvira fosse uma dessas e deixaria seu caminho livre quando soubesse que estava sendo traída.
- Não aceito naturalmente.
Acho que em um casamento, para ser verdadeiro, deve existir fidelidade total entre os cônjuges, uma traição revela que o amor acabou e não há mais motivos para continuarem juntos.
Denise alegrou-se ao ouvir aquilo.
Mas, queria saber até que ponto iria aquele pensamento:
- Quer dizer que a senhora se separa de seu marido se descobrir que ele a trai?
Não acha um desperdício jogar seu casamento fora por uma aventureira?
- Eu não disse que vou me separar, tenho obrigações sociais, minhas filhas são novas, não têm idade para casar.
Não posso desfazer um lar assim, e se meu marido estiver com outra, tudo farei para que ele não nos abandone como muitos têm feito.
Preciso preservar nossa imagem e o futuro de minhas filhas.
O que quero dizer é que um marido deve sempre ser sincero com a esposa e dizer que não a ama mais.
- Mas, isso é impossível.
Nós mulheres é que temos de tomar essa atitude, pois minha tia Isabel diz que os homens são covardes e nunca terminam uma relação.
A conversa encerrou quando perceberam que a música havia terminado e as meninas se aproximaram.
Paloma convidou Denise para ir ao seu quarto a fim de mostrar alguns livros que seu pai havia lhe dado, e Lúcia foi com elas.
Sozinha na sala, Elvira continuou cabisbaixa pensando em seus problemas.
Denise voltou ao castelo animada e preocupada ao mesmo tempo.
Ficou feliz em saber que Gilberto não estava mais tendo boa vida conjugal com a esposa, mas por outro lado, Elvira mostrou-se forte e não estava disposta a facilitar uma separação.
Àquela hora não havia ninguém no castelo e certamente Maurício estaria fazendo a corte à Fabiana Coutinho, filha de uma viúva, cujo marido havia falido e deixado as duas cheias de dívidas.
Maurício a conheceu numa das festas do castelo e se apaixonou perdidamente.
Mas, Fabiana era volúvel e dormia com quem aparecia, via nos homens uma forma de conseguir dinheiro e com certeza só via em Maurício sua boa fortuna.
Ainda assim, ele estava apaixonado e não era ela quem iria lhe tirar a felicidade.
Sentindo-se cansada, Denise chamou sua aia e pediu que lhe trouxesse um lanche leve, pois queria logo dormir.
Foi tirando a roupa e quando estava praticamente despida, percebeu que alguém entrou no quarto.
Assustou-se quando concluiu tratar-se de Wladimir.
- O que quer aqui?
Fora! Eu o odeio!
- Calma, Denise, quero apenas abraçá-la.
- Saia daqui, seu ser asqueroso!
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 05, 2018 9:56 pm

CAPÍTULO 42
Wladimir, estimulado pelo insulto que recebera, partiu para cima dela com violência.
Retirou um lenço que estava no bolso, embebido de substância sonífera, e tapou com ele o nariz de Denise.
Logo, a moça estava desmaiada. Wladimir pegou-a no colo, colocou-a em cima da cama e ficou admirando seu belo corpo.
Uma excitação sexual fora do comum tomou conta de seu ser e ele foi tirando as peças de roupa que restavam na moça e em seguida despiu-se também.
- Hoje será minha!
Wladimir partiu para cima dela quando ouviu a voz grave de Lúcio:
- Mais um passo e eu o mato como a um cão.
Ele estremeceu e percebeu que estava perdido.
- Perdoe-me, Lúcio!
Perdoe-me esse acto de impulsividade.
A paixão por sua sobrinha tomou conta de meu ser e de meus pensamentos.
Logo atrás, vinham a aia de Denise e Isabel, com feições coléricas:
- Você ia abusar de minha sobrinha se não fosse Felisberta correr a me avisar que o vira entrar no quarto.
Bem que ela já havia me dito que você a perseguia pelo castelo!
Como não pude ver isso antes?
Será punido com a morte no lago dos crocodilos.
Wladimir estremeceu, não queria morrer daquele jeito.
Pediu clemência:
- Senhor Lúcio, não deixe que a senhora Isabel mate-me desse jeito.
Servi a sua tia durante toda minha vida, sempre quis o bem de vocês, salvei a vida de Isabel quando ela estava sendo perseguida pelo espírito de Pedro.
Em nome desse acto, deixem-me livre.
Sei que me deixei levar por uma paixão doentia, mas se me deixar livre da morte, prometo ir embora para sempre e nunca mais verão meu rosto.
Lúcio abaixou a arma e disse:
- Em nome de ter servido à minha tia com tanto desvelo durante tantos anos e, principalmente, por ter salvado minha mulher da morte, não posso matá-lo, mas arrume todas as suas coisas e vá embora ainda esta madrugada.
E nunca mais apareça aqui, nunca mais!
Wladimir saiu de cabeça baixa segurando as roupas com as mãos, e logo Felisberta correu para cobrir Denise.
Minutos depois, ela acordou gritando:
- Saia daqui, seu monstro! Socorro!
- Calma, Denise!
Ele não está mais aqui, foi embora para sempre - disse Isabel, alisando seus cabelos com carinho.
Ela foi se acalmando e, vendo que Lúcio e Felisberta também estavam lá, acalmou-se completamente.
- Foi horrível, tia.
Ele queria abusar de mim, por favor, mande-o embora.
- Fique tranquila, Denise - disse Lúcio, com calma.
Isabel queria matá-lo jogando-o para os crocodilos, mas ele implorou pela vida, lembrou dos anos em que serviu à minha tia Helena e de ter salvado a vida de Isabel quando ela estava obsidiada por Pedro.
Eu não podia matar um homem que salvou a vida de minha mulher, por isso dei-lhe a vida em troca de sua partida do castelo para sempre.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 05, 2018 9:56 pm

Ele possui muitos recursos, viverá muito bem longe daqui.
Fundo suspiro de alívio partiu do peito de Denise.
- Obrigada, tio.
Vendo que ela precisava comer alguma coisa e dormir, Isabel e Lúcio saíram do quarto deixando-a a sós com a aia.
Estava encerrada ali mais uma etapa na vida de Denise, mas um dia Wladimir ainda voltaria para cobrar seu amor.
Uma noite Denise passou mal e Isabel, preocupada, mandou chamar o Doutor Venceslau.
Assim que o velho médico chegou, foi perguntando:
- O que a menina sentiu?
- Estávamos todos jantando quando, de repente, ela sentiu uma tontura forte e desmaiou.
Quando acordou continuou tonta e sentindo náuseas.
Olhe como está pálida.
O médico experiente a observou e começou a examiná-la.
O pulso estava normal, a respiração também.
Apalpou o ventre de Denise demorando-se mais que o habitual e, dando por encerrado o exame, disse para Isabel:
- Meus parabéns, sua sobrinha está grávida.
Isabel teria caído se Lúcio não a tivesse segurado, tamanho susto que sentiu.
Perguntou trémula:
- Grávida?
O senhor tem certeza?
- Sim, senhora, e pelo que pude observar, já está com quase dois meses de gestação.
Como a senhora nunca percebeu?
- Não vi nada, nem Denise me disse que estava sentindo algo diferente.
- Bem, ela não tem doença alguma, o que precisa é se alimentar melhor agora e tomar algumas vitaminas.
Tenho alguns frascos comigo.
Vou receitar para que ela tome nos horários certos - ele fez a prescrição e enquanto escrevia, disse contente.
Como é bom dar uma notícia dessas, aposto que o marido ainda nem sabe.
Isabel nada disse.
Doutor Venceslau era médico de província e pouco ou nada sabia da vida dos moradores de castelos.
Não disse nada e assim que pagou a receita e viu o médico sair, olhou para Lúcio, que tinha os olhos em brasa, e disse:
- Perdoe-me, meu amor, mas escondi um facto grave que vinha acontecendo com nossa querida Denise.
- Não vá me dizer que ela está grávida de Wladimir.
Isabel, eu não perdoo você se isso for verdade.
Ela estremeceu, a última coisa que queria era ficar mal com Lúcio.
- Não, felizmente não é de Wladimir, é de... é de...
Vendo que a tia sentia medo de falar, Denise adiantou-se:
- Estou grávida do homem que amo:
Gilberto de Menezes.
Lúcio empalideceu:
- Como? Será que ouvi bem?
Você está grávida do meu amigo Gilberto de Menezes?
- Ele mesmo, casado com Elvira e pai de Paloma e Lúcia.
- Você é uma doidivanas mesmo!
Vai apanhar agora para ver o que é bom.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 05, 2018 9:56 pm

Não adiantou Isabel pedir.
Lúcio tirou grosso cinto de couro da cintura e partiu para cima de Denise batendo-lhe com força, deixando vários vincos em sua pele branca.
Contudo, algo inusitado aconteceu.
Quanto mais apanhava do tio, mais Denise ria.
Vendo o cinismo da sobrinha, Lúcio se encolerizou ainda mais:
- Quer que eu bata com a fivela em seu rosto e a deixe marcada para sempre?
Como ousa me desafiar desse jeito?
- Calma, Lúcio, perdoe Denise, ela é uma moça inconsequente como nós fomos um dia - pediu Isabel, em lágrimas.
- E a culpa é sua que a criou com toda liberdade, não venha pedir por ela agora, cale-se ou apanha também.
Isabel irritou-se:
- Homem nenhum põe a mão em mim, nem você.
Quero ver se tem coragem.
Isabel foi para frente de Denise e disse:
- Bata agora, quero ver se vai ter coragem. Vamos!
Isabel dominava Lúcio com facilidade e ele, vencido, abaixou o cinto.
- Por que você foi fazer isso connosco, Denise? Tanto rapaz jovem para você se relacionar, tantos homens bons e livres e você foi ter caso logo com Gilberto?
- Tio, ninguém manda no coração.
Apaixonei-me por Gilberto assim que o vi em minha festa de quinze primaveras.
Que culpa tenho se é casado?
- Tem culpa de ter se deixado levar por uma paixão adolescente.
Ele não é homem para você, tem idade para ser seu pai.
- Não importa, é ele que amo.
E eu estava sorrindo não era do senhor, mas da felicidade em saber que terei um filho do homem que mais amo no mundo.
Lúcio olhou para Isabel e disse:
- Não vou me envolver com isso, resolva você, a sobrinha é sua.
Retirou-se do quarto deixando as duas a sós.
- E agora?
Temos de abortar essa criança - disse Isabel, com senso prático.
- Nunca!
A senhora enlouqueceu?
Essa é a chance que tenho de tirar Gilberto para sempre dos braços daquela infeliz da Elvira.
Não perderei por nada essa oportunidade.
Além de tudo, é um filho dele comigo, já o amo muito, tanto a ponto de jamais ter coragem de tirá-lo de dentro de mim.
Isabel balançou a cabeça negativamente.
O que faria com Denise?
Seria uma vergonha para a família dela.
Mesmo tendo dinheiro e riqueza, não poderia deixar que ninguém soubesse o que estava acontecendo.
Temia que o futuro de suas duas filhas, Alda e Zélia, fosse comprometido.
Pensou um pouco e disse:
- Vou falar com Gilberto e verei a melhor maneira de fazê-los ir embora daqui.
Não poderão ficar em Portugal.
- Mas por quê?
É aqui, onde nasci, que desejo viver com ele.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 05, 2018 9:56 pm

- Isso será impossível - disse Isabel, determinada.
Você foi desonrada por um homem casado e está grávida dele.
Tenho-a como filha, mas se der guarida a vocês dois em meu castelo ou em qualquer outro lugar de Portugal, a nossa reputação está perdida.
Os costumes estão se abrindo, mas muita coisa ainda permanece igual.
Eu criei você junto com minhas filhas, tenho certeza de que, se ficar aqui, nenhuma delas terá bom futuro.
Desejo para Alda e Zélia excelentes casamentos, e se eu e Lúcio dermos apoio a uma situação dessas, elas terminarão solteironas.
Por isso, resolverei tudo com Gilberto e providenciarei para que deixem Portugal e vivam suas vidas felizes em outro lugar.
- Mas, tia...
- Nem um mas!
Você pensa que viver aqui tendo causado a destruição de um lar, grávida de um homem casado, será fácil?
Sua situação já é difícil, mas você foi abandonada pelo seu pai quando estava ainda na barriga de sua mãe, o que ameniza as coisas, mas ninguém vai querer unir seus filhos aos filhos que vocês vão ter, frutos de um adultério e da destruição de um lar.
Acorde para a vida, Denise!
Vou providenciar um lugar onde poderão viver felizes para sempre sem a sombra negra do preconceito.
Enquanto isso, fique aí com Felisberta e não saia desse quarto.
Muito feliz, Denise abraçou e beijou a aia com alegria.
Logo, Maurício entrou no quarto dizendo:
- Ouvi tudo atrás da porta, que bom que tudo está acontecendo para lhe favorecer.
- Isso é óptimo, Maurício.
Quero que você jogue as cartas para mim, vou ver até onde vai tudo isso.
-Já as trouxe, vamos lá.
Maurício tirou um volumoso maço de cartas de dentro de pequena sacola e as separou.
Em seguida, deu à Denise e pediu que ela embaralhasse pensando no que queria saber.
Quando ela terminou, cortou em três partes e Maurício tirou sete cartas.
O rapaz pareceu entrar em transe, foi falando as coisas que já haviam acontecido até que, em determinada carta, deu uma pequena pausa e prosseguiu:
- Você vai embora daqui para sempre e será muito feliz.
Irá além-mar, viverá no meio da natureza e dos brilhantes e terá um lindo menino.
Denise emocionou-se:
- Para onde vou?
- Não sei, só sei que é um lugar muito bonito, próspero, onde Deus abençoou com a natureza.
Maurício saiu do transe e leu as últimas cartas, dizendo que o que ela iria fazer certamente magoaria muitas pessoas que ficariam com ódio dela por muitos e muitos séculos.
Denise estremeceu com um pouco de medo, mas depois pensou:
- Azar de quem ficar com raiva, o que importa é que serei feliz.
O jogo havia terminado e eles, alegres, foram comentar o conteúdo das cartas e falar de Fabiana, cuja mãe havia aceitado seu pedido de casamento e dado a mão da filha.
Quando a conversa pareceu se encerrar, Denise, com olhos diabólicos, pediu:
- Amanhã preciso ir à casa do Gilberto e você irá comigo.
- Fazer o que lá?
Não acha que está na hora de acabar com essa amizade?
Quando elas souberem o quanto você é falsa, nunca a perdoarão.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 05, 2018 9:57 pm

Ela, fingindo, disse:
- É isso mesmo que farei.
Eu me afeiçoei muito à Paloma e à Lúcia, amanhã irei me despedir, dizendo que farei longa viagem e provavelmente nunca mais as verei.
- Está louca?
Logo elas saberão que o pai irá partir com você.
- Não! Elas não saberão de nada.
Tia Isabel não vai deixar que nossa sociedade saiba que fui embora após ter destruído um lar.
Com certeza, encontrará um meio de fazer com que Gilberto abandone a família sem dizer nada sobre mim.
Maurício acreditou naquilo e concordou:
- Nesse caso vou com você.
- Agradeço muito, meu primo, pois não me deixariam sair sozinha e com você diremos que vamos à casa de Fabiana.
- Não gosto de mentir para meus pais.
- Não precisa se preocupar, ninguém vai saber.
Combinados, os dois primos continuaram a conversar acerca de suas vidas.
Isabel chegou ao quarto e encontrou Lúcio deitado, olhos fixos no tecto, e falou:
- Não adianta ficar aí remoendo os problemas, precisamos dar uma solução para eles e é já!
- É nisso que estou pensando e não encontro saída.
Não podemos falar isso para Rosa Maria, pois ela e tia Elisa, além de acharem maravilhosa a gravidez, ainda espalharão para todos os homens que frequentam aquela quinta maldita.
- Não pensei em falar com elas, estou pensando em obrigar Gilberto a abandonar a família e ir embora com Denise para outro lugar.
Aqui é que ela não pode ficar, pois comprometerá a reputação das nossas filhas que estão ficando mocinhas.
Lúcio sentou-se na cama e olhou a mulher fixamente:
-O que você acha que devo fazer?
-Sei que o Gilberto pediu-lhe altos empréstimos para resolver problemas da fazenda do pai.
Como anda esse negócio?
Ele já os pagou?
-Qual nada, pediu-me outro recente.
Se eu soubesse que estava aliciando minha sobrinha, o tinha expulsado daqui a pontapés.
- Nada disso, foi muito bom você emprestar mais.
Deixe-me ver onde estão as promissórias.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 06, 2018 9:52 pm

CAPÍTULO 43
Lúcio, sem entender bem o que a mulher iria fazer, foi com ela para o gabinete, abriu uma das gavetas e mostrou as promissórias de Gilberto a Isabel.
Ela as olhou por um tempo e seus olhos brilharam ao dizer:
-Você acha mesmo que Gilberto terá condições de pagar tudo isso um dia?
São valores exorbitantes, se você protestar, ele ficará totalmente na ruína.
- É verdade, mas os bons juros que ele me paga todo mês já são uma fortuna.
- Mas ele não paga o capital que é altíssimo. Nem que ele venda tudo que tem, conseguirá pagar isso aqui - jogou o calhamaço sobre a mesa com violência.
- Por que ele pediu tanto dinheiro?
- O velho Cordeiro de Menezes já devia a muitos agiotas.
É viciado em jogo e devia uma fortuna.
Foi por isso que ele começou a me pedir dinheiro.
Um dos jogadores estava jurando o pai de morte.
Depois disso, vieram os problemas da fazenda e a doença da mãe, a senhora Amélia.
Tudo isso somando dá essa pequena fortuna.
Os olhos de Isabel brilharam.
Tudo estava resolvido.
Disse ao marido:
- Você vai chamar Gilberto aqui amanhã e vai dizer que, se ele não abandonar toda a família e partir para longe com Denise, você irá protestar a dívida e ele ficará na ruína total, pois se vender tudo o que possui, mesmo assim ainda ficará devendo.
- Mas isso é muita maldade, Isabel.
Você está usando de coerção, destruindo um lar através do dinheiro.
Não tem medo da justiça divina?
- Ora, não me venha com essa!
Desde quando?
Não tenho medo de nada!
O que importa é que amo Denise como se fosse minha filha e tudo farei para vê-la feliz, não importa os outros.
Se você não fizer isso, eu mesma farei.
Lúcio conhecia Isabel o suficiente para saber que ela só ficaria satisfeita quando fizesse o que pretendia.
Mas ele era digno, não achava justo agir daquele jeito, por isso disse:
- Deixo isso com você.
Amanhã eu mando chamar Gilberto aqui e você mesma conversa com ele.
Quero ficar longe dessa sujeira.
Lúcio saiu deixando Isabel sozinha com seus pensamentos, sem perceber que era auxiliada por espíritos inferiores que a conduziam em cada acto.
Depois de muito pensar, voltou para o quarto e, ao ver o marido, esqueceu-se de tudo o mais e mergulhou numa intensa noite de amor.
Pela manhã, enquanto Gilberto aprontava-se para ir ao Castelo de Vianna, atender a um chamado de Lúcio, Denise, toda vestida de preto, saía de carruagem com Maurício dizendo à tia que iam visitar Fabiana.
Isabel, de tão preocupada em resolver logo aquela situação, não pestanejou em permitir a saída dos jovens, até porque não queria arriscar que Denise e Gilberto se encontrassem ali.
Dentro da carruagem, Maurício comentou:
- Não sei para que se vestir toda de preto.
Parece que vai a um velório.
- Mas é isso que essa visita significa para mim:
a morte de uma linda amizade - fingiu Denise.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 06, 2018 9:52 pm

Ambos não falaram mais nada durante o trajecto, e quando entraram em Lisboa, Denise pediu que o cocheiro fosse até uma banca de flores no meio de uma praça.
Lá chegando, ela desceu e comprou o maior e mais bonito buquê de rosas que encontrou.
Voltando à carruagem, Maurício indagou:
- Para que essas flores?
- Quero deixá-las como prova de minha amizade.
Maurício estava estranhando tudo aquilo, mas nada disse.
Algo lhe dizia que Denise iria aprontar alguma e ele já estava arrependido de ter ido com ela.
Mas era tarde, teria de ir até o fim.
Quando chegaram, ela fez questão de que o primo entrasse.
Abraçou Elvira, Paloma e Lúcia e em seguida disse:
- Trouxe essas flores para vocês, como prova de meu amor e amizade.
- Oh! Que rosas mais graciosas! - emocionou-se Elvira.
Mandarei Arminda colocá-las no vaso agora.
A aia veio em seguida, pegando o buquê e colocando num dos vasos da cristaleira.
- Vamos sentar, Denise, fico feliz que tenha trazido seu primo.
- A felicidade é toda minha, senhora - disse Maurício, sentindo que Denise estava ali para afrontar aquela família.
- Não vamos sentar, senhora Elvira, na verdade vim aqui me despedir de vocês e lhes dar uma óptima notícia.
- Despedir? - disse Paloma triste.
Logo agora que já estamos tão amigas?
- Você não pode ir embora, Denise, nós gostamos muito de você - tornou Lúcia, inocente.
- Eu preciso ir embora de Portugal, mas a notícia boa é que estou grávida.
O coração de Maurício acelerou naquele momento e se ele pudesse, partiria para cima da prima fazendo-a se calar, mas sabia que não havia jeito.
A destruição estava feita.
Elvira exultou:
- Mas que bom que está grávida!
Por que não nos contou que estava namorando e cometeu o erro de se entregar antes do casamento?
Eu iria entender e minhas filhas também, afinal ensino-as a serem compreensivas com os erros dos outros.
Denise fingiu não ouvir aquilo e disparou:
- Eu estou grávida de Gilberto.
Elvira não entendeu:
- Como assim? Grávida de Gilberto?
Seu namorado também se chama Gilberto?
- Estou grávida de seu marido - disse com voz sibilante de ironia.
Elvira riu:
- Mas que brincadeira é essa, Denise?
Não sabia que tinha tanto senso de humor.
- Pensa que estou brincando, velha nojenta?
Este filho que está no meu ventre é fruto do amor apaixonado e profundo que tenho por seu marido.
Aliás, seu por pouco tempo, porque em breve ele abandonará você e suas filhas esquisitas para ficar só comigo, a única mulher que ele ama de verdade.
Não sei como um dia Gilberto conseguiu se deitar com uma mulher tão horrorosa como você.
- Pare com isso, Denise, você foi longe demais - pediu Maurício, segurando-a pelo braço.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 06, 2018 9:52 pm

Denise prosseguiu enquanto Elvira, chocada e tendo Lúcia e Paloma ao seu lado, ouvia sem querer acreditar:
- Diga para elas, Maurício, diga se estou mentindo.
Faz mais de um ano que eu e Gilberto nos amamos.
Tive de me sujeitar a me encontrar com ele, às escondidas, em vários lugares indignos para uma moça feito eu,-só para proteger vocês.
Mas agora acabou, o papaizinho de vocês será pai de meu filho!
Meu filho, entendeu?
Vendo que elas nada diziam, apenas choravam, Denise prosseguiu:
- Se ainda duvidam, esperem até ele chegar e perguntem.
Perguntem tudo, inclusive para onde ele ia quando saía às quartas e sextas-feiras à noite dizendo estar fazendo parte de uma associação rural.
Só umas dementadas quanto vocês para acreditarem mesmo nisso.
Paloma estava indignada e, entre soluços de choro, perguntou:
- Por que usou nossa amizade?
Por que nos enganou dessa forma?
Você é um monstro, Denise, e enquanto eu viver, guardarei ódio de você.
Nunca a perdoarei e tudo farei para que meu pai, que tanto amo, nunca seja feliz com você.
Denise zombou:
- E você acha que pode fazer o quê?
Nós vamos embora daqui para sempre, para um lugar que sequer você imagina que exista.
E olhe, não vou mais perder tempo com vocês.
Morram afogadas em suas próprias lágrimas! Adeus!
Denise ia saindo, quando Paloma bradou:
- Maldito seja esse ser que carrega no ventre!
Denise voltou com muito ódio e deu-lhe uma tapa tão violento no rosto que a moça caiu com força no chão.
Saiu com Maurício em direcção à carruagem, e sob protestos do primo foram embora, deixando para trás pessoas magoadas e machucadas que carregariam, por séculos, muitas feridas na alma.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 06, 2018 9:52 pm

CAPÍTULO 44
Enquanto isso no castelo, Gilberto era conduzido por Bóris ao gabinete onde Isabel se encontrava sentada feito uma rainha.
Depois de pequena reverência, ela fez com que ele se sentasse à frente.
- Já sei de tudo, Gilberto.
Sei que envolveu e deflorou minha sobrinha Denise.
Agora terá de reparar o erro cometido.
- Não foi bem assim, Denise quis tudo quanto eu.
- Não quero ouvir suas desculpas.
Vou ser clara.
Denise te ama, está grávida de você e você terá de abandonar sua esposa e ir embora deste país para viver com ela para sempre.
O coração de Gilberto acelerou-se gostosamente ao ouvir que Denise estava grávida dele.
Que emoção!
Ele a amava mais que tudo e naquele momento muito mais ao saber que lhe daria um filho.
Ficou tão emocionado com a notícia da gravidez que nem ouviu o restante da conversa:
- Perdão, senhora, não ouvi o resto.
- Notei que gostou de saber que Denise está grávida, então repetirei com prazer:
você terá de abandonar sua família e ir embora de Portugal com Denise.
Ele se assustou:
- Mas não posso fazer isso, senhora.
Amo Denise mais que tudo na vida, mas como homem de sociedade, jamais poderei abandonar minha família.
- Ah, e você pensava que iria viver para sempre tendo minha sobrinha como concubina?
Será mesmo que passou pela sua cabeça que eu, Isabel de Alcântara, iria permitir?
- Eu não pensava em tê-la para sempre como concubina.
Já não tenho mais nada com minha mulher, nunca a amei, mas amo minhas filhas.
Por elas eu pretendia viver com Denise, tendo ela um lar onde pudesse viver dando assistência às duas.
Assim que minhas filhas encontrassem um bom casamento, eu me separaria de Elvira e viveria com Denise definitivamente.
- Pois, essa gravidez de Denise só veio adiantar as coisas.
Você não mais poderá esperar suas filhas se casarem, terá de ir embora o mais urgente possível.
- Mas a senhora há-de convir que não posso...
Isabel interrompeu com rispidez:
- Cale-se, você não está em condições de dizer nada, olhe isso aqui - dizendo isso, atirou as promissórias em seu rosto, e ele as pegou assustado.
Olhou para elas durante algum tempo e disse:
- Mas eu vou pagar tudo isso, é uma questão de tempo, o Lúcio compreende e...
Mais uma vez ela interrompeu:
- Meu marido compreende, mas eu não, e ele deixou esse caso para eu resolver.
Sei que pela rapidez com que olhou esse calhamaço não deu tempo de somar, mas eu já somei e sei que, mesmo que venda todas as suas propriedades, não conseguirá pagar nem a metade.
Gilberto sentiu que estava nas mãos daquela mulher.
Por isso disse:
- Diga o que devo fazer.
- Inteligente você, já entendeu!
Se não deixar tudo e for embora com Denise, mandarei Lúcio protestar todas essas promissórias de vez e você perderá tudo e ainda será preso.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 06, 2018 9:53 pm

Caso me obedeça, Lúcio venderá suas propriedades e lhe dará o dinheiro para que comece sua vida com Denise fora daqui.
- E onde ficarão meus pais, minha mulher e minhas filhas?
- Pensasse nisso antes de cometer a loucura de engravidar minha sobrinha.
- Mas, por que o Lúcio não compra minhas propriedades e permite que eles vivam nelas?
- Simplesmente porque não quero nosso nome envolvido nisso.
Não quero que saiam por aí dizendo que Lúcio comprou o que era seu, o ajudou a fugir com minha sobrinha e por remorso ainda ajuda sua família.
Não quero nosso nome envolvido nessa situação imoral, tenho brios e duas filhas para casar, entendeu?
- Então, prometa vender a uma pessoa rica como vocês que os deixem morar lá e viver da terra.
- Não prometo nada, venderemos a um desconhecido.
Agora assine aqui essa procuração.
Gilberto tremia todo, mas o olhar inquisidor de Isabel fez com que ele assinasse.
- Está tudo como a senhora quer.
Agora já posso ir?
- Ir? Ir para onde? - perguntou Isabel, zombeteira.
Daqui você só sai para outro país.
Guardas, prendam esse homem na masmorra.
Dois homens fortes e musculosos invadiram o recinto e levaram Gilberto embora.
Desceram várias escadas e o jogaram numa cela.
Gilberto, vendo-se naquele lugar, sozinho e coagido, começou a chorar sentidamente.
Não gostava da esposa, mas amava as filhas e não queria partir assim, sem ao menos se despedir, entretanto, seria forçado.
Lembrou-se dos velhos pais, sozinhos e no meio da rua.
O que seria deles?
Chorou muito e por muito tempo, mas depois de um período, começou a pensar que seria bom para ele sair dali para sempre.
Amava Denise e era com ela que pretendia viver o resto de seus dias.
Suas filhas já estavam grandes e logo
teriam seus maridos, e Elvira teria de se virar e refazer a vida.
Mas onde? Para onde elas iriam quando a casa e as propriedades fossem vendidas?
Pensando nisso, Gilberto voltou a chorar baixinho.
Quando Denise chegou ao castelo, foi chamada por Isabel no gabinete, que foi logo dizendo:
- Sua vida já está resolvida.
Partirá amanhã daqui com Gilberto para sempre.
Será muito feliz.
Abraçou a sobrinha com carinho, enquanto Denise enchia os olhos de lágrimas.
- Obrigada, tia!
Não sei o que seria de mim sem a senhora.
Mas como resolveu tudo tão rápido?
Isabel fez com que ela se sentasse em seu colo e alisando seus cabelos, foi contando tudo.
Denise muito se alegrou pela astúcia da tia.
Sentia Gilberto muito reticente quando falava em separação e ela temia que pudesse ser sua amante para sempre.
Claro que faria muitas armações para separá-lo da família, mas reconhecia que só uma jogava pesada como a de Isabel é que faria com que se separasse definitivamente.
Ao final, beijou a tia:
- Tudo o que a senhora fez foi perfeito, menos colocá-lo na masmorra.
- Mas ele pode sair e voltar para casa.
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 06, 2018 9:53 pm

- Como ele vai sair desse castelo?
É impossível e a senhora sabe disso.
- É impossível a ele sair, mas pode se esconder por essa imensa propriedade e nos dar trabalho.
Noto que Gilberto quer fazer de tudo para se despedir da família e isso não podemos permitir.
É o nosso nome familiar que está em jogo.
Deixe-o preso lá.
É só até amanhã no final da tarde.
Denise estava curiosa:
- Posso saber para onde está nos mandando?
- Para uma de nossas colónias, o Brasil.
Lúcio ganhou um lote de terras na capitania de Minas Gerais em troca de uma grande dívida.
Lá tem uma imensa fazenda, cercada por natureza virgem e muitos locais de mineração.
Além do dinheiro das propriedades que Lúcio vai vender, terão muito para começar uma vida digna, rica e próspera.
Lá serão senhores de minas de ouro, pedras preciosas e muitos escravos.
Denise era só sorrisos de felicidade.
Em seu profundo egoísmo, não queria nem saber qual seria o fim de Elvira, Paloma e Lúcia, muito menos dos velhos Cordeiro e Amélia.
Para ela, seria um alívio se livrar de todos eles e viver feliz em meio à natureza, ao lado do filho amado e do futuro marido que amava mais que tudo na vida.
Isabel prosseguiu:
- Lá vocês se casarão com a bênção do primeiro padre que aparecer e ninguém saberá que são adúlteros.
Agora, vá rápido cuidar de arrumar sua bagagem, o navio sairá amanhã às cinco em ponto e não é bom que se atrase ou esqueça nada.
Denise saiu saltitante de alegria e logo chamou Maurício para ajudá-la.
Era muita coisa que iria levar, inúmeros vestidos, sapatos, jóias, livros, dentre outros objectos que ela fazia questão de ter consigo.
Era tanta coisa que Belarmina e Maurício não estavam conseguindo dar conta.
Quando fizeram uma pausa, Maurício perguntou:
- E sua mãe? Não vai se despedir dela?
Só naquele momento foi que Denise lembrou-se de Rosa Maria.
Estava tão louca de felicidade que se esqueceu de tudo o mais.
Fez um rosto triste:
- Amo minha mãe demais, mas creio que não dará tempo de me despedir.
Deixar-lhe-ei uma carta contando tudo e pedirei à tia Isabel que, assim que for possível, mande minha mãe e tia Elisa me visitarem.
Maurício fez um ar triste:
- O castelo não será o mesmo sem você.
Não sinto a mesma afinidade com minhas irmãs Alda e Zélia.
- Mas não se preocupe, sei que logo estará casado com seu grande amor e será muito feliz.
Ele sorriu:
- Sim, ela já aceitou meu pedido.
- Então, saio eu e entra a Fabiana.
Os dois primos sorriram e se abraçaram com carinho, enquanto Belarmina os chamava para continuarem a arrumar as bagagens.
Com ajuda de Maurício, Denise conseguiu chegar a prisão onde estava Gilberto.
Ao vê-lo deitado, chorando e agarrado às grades, uma sensação de pena a acometeu.
Correu a abraçá-lo e beijaram-se longamente por entre as grades.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 06, 2018 9:53 pm

- Tenha paciência, amor.
Logo sairá daqui e iremos embora.
Vamos para o Brasil.
- Brasil? Onde é?
- É uma das colónias de Portugal, é do outro lado do Atlântico - Denise contou tudo que esperava por eles naquelas terras e, aos poucos, Gilberto foi se animando.
Era a vida que ele queria para si, não tinha dúvidas.
Mas havia ainda o pai, a mãe, a mulher e as filhas, não queria deixá-los ao desamparo e à mendicância. Isso o estava deixando com o coração arrasado.
Denise se irritou ao perceber que ele pensava na família:
- Se for para continuar assim, prefiro que fique aqui com elas.
Não quero um homem ao meu lado sofrendo por causa de outra.
-Você não entende, Denise.
Eu iria embora tranquilo sabendo que eles ficariam amparados, mas dói meu coração saber que ficarão largados feito mendigos.
- Seu coração dói porque é de manteiga - disse Denise, irritada.
Eles que se virem.
Garanto que de fome eles não morrem.
Maurício horrorizou-se com a fala da prima:
- Será que você não sente mesmo nenhuma pena deles?
- Ah, Maurício, quem tem pena é galinha...
- Não estou de brincadeiras, Denise, o assunto é sério.
- Pois, se é seriedade que você quer, aqui terá: pouco me importa o que aconteça com eles, o que importa para mim é exclusivamente minha felicidade e a felicidade de meu filho.
Ora, você acha mesmo que vou permitir que meu filho viva à margem da sociedade enquanto aquelas três ficam bem e tranquilas?
- Você é muito egoísta!
- Não, eu sou igual à minha tia: prática.
Ou elas ou eu.
Maurício, penalizado pela situação de Gilberto, prometeu:
- Vá em paz, Gilberto.
Sei que o que mais quer é ser feliz com Denise, mas ninguém pode ser feliz deixando para trás destruições.
Por isso, eu prometo que vou amparar toda a sua família.
Tenho muito dinheiro e em breve estarei casado.
Garanto que seus pais não passarão por nenhuma dificuldade e nem sua ex-mulher e suas filhas.
Fique tranquilo.
Gilberto, chorando, agradeceu:
- Deus te pague, Maurício.
- Pois eu acho você um insensato!
Deixe esse povo para lá -disse Denise encolerizada.
- Não posso fazer isso, vai contra minha consciência.
Se você não está se importando, eu estou.
Agora vamos, antes que mamãe nos pegue aqui.
Denise e Gilberto beijaram-se ardentemente e se despediram.
Gilberto acalmou-se, pois após a promessa de Maurício, tinha certeza de que poderia partir com a consciência tranquila.
Orou a Deus e agradeceu pela ajuda.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 06, 2018 9:53 pm

CAPÍTULO 45
As horas passaram rápidas e o final da tarde do outro dia chegou.
Gilberto e Denise, muito bem vestidos com algumas características que não os identificavam, entraram no navio e partiram rumo ao Brasil.
Ao longe, Isabel e Maurício choravam enquanto eles acenavam dando o adeus.
Começava para Denise e Gilberto uma nova etapa em suas vidas, marcadas pelos muitos desafios que a existência lhes proporcionaria.
Desafios estes que fariam dela uma pessoa menos egoísta e dele um homem mais centrado, que saberia bem mais o que fazer da própria vida.
Assim que o navio distanciou-se, Maurício tomou seu coche e avisou aos pais que iria ver Fabiana.
Eles concordaram, mas Maurício tomou outro rumo e foi até a casa de Gilberto.
Lá chegando, tocou a sineta e foi a própria Elvira quem abriu a porta.
Reconhecendo Maurício, ela perguntou mal-humorada:
- O que deseja aqui além do que já fez ontem?
- Vim em paz, senhora, e não concordei com o que minha prima fez.
Quero que me deixe entrar, tenho algo muito grave a lhes falar.
Elvira empalideceu:
-Você veio trazer notícias de meu marido?
Há dois dias ninguém sabe dele. As meninas não param de chorar.
- Vim trazer notícias, embora não sejam boas, mas também vim oferecer ajuda.
Elvira abriu o portão e o fez entrar.
Quando Maurício surgiu na sala, viu Paloma e Lúcia abraçadas, deitadas num grande divã, deixando que lágrimas de tristeza lhes banhassem os olhos.
Elvira se adiantou:
- Ele veio trazer notícias de seu pai.
- O que veio dizer?
Só pode ser coisa ruim - disse Paloma, levantando-se do divã e ficando frente a frente com Maurício numa atitude desafiadora.
- Acalme-se, Paloma, eu não lhe desejo nenhum mal, vim trazer notícias de seu pai e lhes oferecer ajuda.
A um sinal da mãe pedindo calma, Paloma voltou a sentar e pôs-se a ouvir:
- Gilberto foi embora com Denise para destino ignorado.
O choque não podia ser maior.
- Não diga uma coisa dessas nem de brincadeira, por favor, diga-nos a verdade - pediu Elvira, sem querer acreditar no que ouvia.
- Mas é verdade, senhora.
Gilberto devia muito a meu pai, e minha mãe o obrigou a ir embora com Denise para nunca mais voltar.
Paloma e Lúcia começaram a chorar vencidas pelos acontecimentos, pois perdiam para sempre o pai que tanto amavam, que as havia ensinado a andar, a falar, a ver as belezas do mundo.
Como um homem tão bom como aquele havia caído nas garras de uma mulher sem moral, capaz de destruir um lar honrado e feliz?
Maurício prosseguiu contando como Isabel havia feito tudo de uma forma que, praticamente, obrigava Gilberto a fugir.
Mas não havia como livrar a culpa dele, e por isso Elvira disse:
- Deixem de chorar, minhas filhas.
Vamos levantar nossa cabeça e seguir adiante.
Denise e Isabel fizeram tudo isso, mas o pai de vocês foi fraco de carácter e de vontade.
Se ele não quisesse realmente partir com ela, teria ficado e enfrentado tudo:
a miséria, a fome, os trabalhos pesados, as doenças.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 06, 2018 9:53 pm

Ele foi porque quis e nós só temos de aceitar.
Ninguém pode dar além do que possui.
Se o coração de Gilberto não estava mais connosco, nem nesta casa, nada mais justo que refizesse a vida.
O que ele não poderia ter feito, de forma alguma, e é o que a vida um dia vai lhe cobrar com rigor, é ter-nos abandonado dessa forma.
Mas não o julgo.
Só Deus sabe o que vai no coração das pessoas e é só Ele quem pode aplicar a Sua Justiça com acerto.
Cabe a nós aceitar e perdoar.
Paloma partiu para cima de Maurício esbofeteando-o e gritando:
- Eu jamais perdoarei, nunca!
Por mais tempo que viva, nunca hei-de perdoar essas duas mulheres que nos tiraram tudo.
Malditas sejam!
Maurício foi obrigado a colocar toda sua força para conter as tapas que Paloma desferia sobre sua face.
Finalmente, quando a conteve, a moça foi ao chão, chorando muito, sendo acompanhada pela irmã que, igualmente sentida e triste, chorava baixinho.
Quando percebeu que elas estavam mais calmas, Maurício tornou:
- Não vim aqui apenas para isso, vim oferecer minha ajuda.
Prometi a Gilberto que nada havia de faltar a vocês e aos velhos Cordeiro e Amélia.
Não sei quem comprará as propriedades de vocês, mas eu possuo uma propriedade muito boa, presente de meu pai, no sul do nosso país, e posso dar para que vocês vivam bem e com dignidade.
Os pais do senhor Gilberto são idosos, a dona Amélia doente, precisam de um tecto e condições para viver.
Ódio surdo apossou-se do peito de Paloma que se levantou novamente, limpou as lágrimas e disse com altivez:
- Pois, não precisamos da sua esmola.
Vá embora daqui e não volte nunca mais.
Preferimos morrer de fome a aceitar algo que venha de sua família.
- Não diga isso, minha filha - tornou Elvira, humilde.
Nós não temos para onde ir e seus avós precisam de amparo na velhice.
Não seja orgulhosa e nem egoísta, não pense só em você, nem dê valor demais à sua dor.
- Peça-me tudo, minha mãe, menos isso.
Eu e Lúcia não queremos nada disso.
- Lúcia é apenas uma criança, não tem condições de escolher, não fale por ela.
- Lúcia tem quinze anos, e irá comigo para onde eu for.
Se a senhora quiser receber ajuda desse homem, receba, mas nunca mais nos terá como filhas.
Elvira estava em meio a uma situação difícil.
Sentia-se magoada, ferida, humilhada, mas seu coração era bom e sabia perdoar.
O que fazer?
Suas filhas eram novas, tinham tudo pela frente, não podia deixar que Cordeiro e Amélia, idosos e doentes, passassem a viver na sarjeta.
Olhou para as filhas e não conseguia entender como elas eram tão insensíveis àquele ponto.
- Então, vocês preferem ver os avós de vocês mortos por causa de orgulho?
Paloma foi fria:
- Sim, prefiro que morramos todas nós a aceitar um centavo que seja dessa gente.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 06, 2018 9:54 pm

Algo dentro de Elvira se rebelou contra todo aquele egoísmo e ela decidiu:
- Pois eu aceito ir para onde você me levar, Maurício.
Tenho consciência e não posso deixar duas pessoas idosas e dependentes morrerem só por causa de meu sofrimento.
Aprendi que meu sofrimento não deve fazer ninguém sofrer, que meu egoísmo não pode fazer ninguém egoísta, nem minha mágoa deve servir de ponte para magoar ninguém.
Se vocês duas querem ficar na rua da amargura, podem ficar.
Eu já as criei, já as eduquei, sigam o caminho que quiserem.
Paloma empalideceu:
- É a senhora agora que vai nos abandonar?
Já não basta o papai?
Prefere os nossos avós a nós?
Que tipo de mãe a senhora é?
- Sou realista.
Vou para onde Maurício me levar, levarei comigo os meus sogros e cuidarei deles até a morte.
Quero ter minha consciência tranquila e se vocês, com seus egoísmos em alto grau, não quiserem vir, podem ficar aqui e tratem de cuidar de suas vidas.
Para pessoas idosas iguais a seus avós, a vida não dá mais chance, mas para vocês duas, tenho certeza de que muitas portas irão se abrir.
Adeus.
Elvira, chorando muito, abraçou as duas filhas e seguiu com Maurício para o coche.
Maurício virou-se e ainda viu as duas olhando-os pela janela. Perguntou:
-Têm certeza de que não querem vir?
Dessa vez foi Lúcia quem respondeu:
- Preferimos a morte.
Elvira olhou para Maurício e disse:
- Vamos seguir, tenho certeza de que se quiserem me encontrar, saberão me procurar.
- Não acha precipitado sair assim e deixar suas duas filhas sozinhas?
- Não, não posso ser egoísta nem trair minha consciência.
Paloma e Lúcia são pessoas de coração duro e terão de aprender a perdoar com as lições duras que a vida lhes oferecerá.
- Nunca vi uma mãe agir desse modo.
Parece que a senhora não tem amor por elas.
- Amar não significa se dobrar aos orgulhos e caprichos dos outros, ainda que sejam filhos.
Amar não significa baixar a cabeça para o egoísmo. Amo as minhas filhas e é justamente por amá-las que as deixarei entregues a si mesmas para que aprendam com a vida o que é verdadeiramente importante.
Depois não me preocupo.
Paloma sabe muito bem como agir e tenho certeza de que nenhuma das duas morrerá por isso.
Toca esse coche.
Maurício saiu dali sem entender bem as palavras daquela mãe, mas fez como prometera.
Deixou Elvira numa hospedaria, depois foi buscar Cordeiro e Amélia e os colocou juntos.
Tempos depois, sem que os pais soubessem, os levou para sua propriedade, garantindo o sustento de cada um para o resto de seus dias.
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