Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 27, 2018 8:51 pm

- Com as roupas dela?
- Sim. O cocheiro a levará para a casa do seu amado e ninguém desconfiará de nada.
É comum escravos saírem às noites para dar recados de seus donos.
Se Bernadete desconfiar, fingirei um ataque do fígado e direi que mandei o cocheiro com Durvalina buscar umas ervas na casa de uma conhecida.
Fique tranquila.
Isabel e Durvalina trocaram as roupas com rapidez e logo ela estava indo em direcção à casa de Lúcio.
Ao ver a sobrinha partir, tia Elisa chorou emocionada por estar ajudando o que na sua visão era o amor, sem saber que estava auxiliando Isabel a cometer uma vil traição pela qual seria responsabilizada também diante das leis cósmicas que regem o universo.
Não foi difícil para Belarmina reconhecer Isabel, que desceu rapidamente da carruagem e seguiu em direcção ao palacete de Lúcio.
Ninguém àquela hora passava naquela rua e, à medida que Isabel se aproximava do portão, fácil lhe foi reconhecer o rosto.
Belarmina abriu o portão com rapidez dizendo:
- A moça é muito corajosa, daquelas que o sinhozinho Lúcio gosta.
Entre logo, ele a espera no quarto.
Já dentro da casa, Isabel seguiu as orientações da escrava, chegou à porta do quarto de Lúcio, girou a aldrava, abriu e entrou.
A visão de Lúcio deitado na cama, completamente nu a esperá-la, fez com que Isabel tremesse de emoção.
Embora a atracção física tivesse aumentado naquele momento, ela sentia que o amava profundamente e não tinha dúvidas de que aquele era o momento certo de se entregar.
Lúcio, observando sua emoção, fez um gesto convidando-a para a cama, ao que ela obedeceu prontamente.
Ambos se beijaram com muita emoção e naquele instante Isabel percebeu que jamais sentira algo parecido.
Os beijos de Pedro, apesar de carinhosos e sensuais, jamais despertaram nela a emoção que sentia naquele momento.
Lúcio foi tirando lentamente as roupas de Isabel e logo os dois estavam se amando.
O tempo foi passando e Isabel esqueceu-se de tudo.
Amaram-se por quase toda a noite e em seguida, exaustos, adormeceram.
Na casa de Bernadete, tia Elisa e Rosa Maria não conseguiam dormir.
Passava das quatro da manhã e Isabel não aparecia. O que diriam a Bernadete e João caso amanhecesse e Isabel não se encontrasse em casa?
Tia Elisa, naquele momento, já estava arrependida por ter ajudado a sobrinha naquela aventura.
Ela era uma mulher liberal, a favor do amor e do sexo livre, mas naquela época uma mulher assim era rara e bastante incompreendida, por isso não queria confusões com Bernadete, que a recebera com carinho e atenção.
Olhou para Rosa Maria e disse nervosa:
- Sua irmã é uma doida, tudo bem que fosse se encontrar com o homem amado, mas já deveria estar aqui.
Se o dia amanhecer e Isabel não descer para o café, Bernadete virá até o quarto dela e vai encontrar a escrava no lugar.
Não quero ser prejudicada por ter ajudado uma pessoa inconsequente e sem juízo igual Isabel.
- Acalme-se, tia, se Isabel não chegar até o dia amanhecer, diremos que ela amanheceu indisposta e não quer se alimentar.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 27, 2018 8:52 pm

Se Bernadete quiser entrar no quarto para vê-la, direi que Isabel não quer ver ninguém, e que quer ser cuidada por mim.
- Temo que isso não dê certo, Bernadete pode desconfiar e descobrir tudo.
O jeito é você ir lá, bater na porta e trazê-la de volta, custe o que custar.
- Ficou louca, tia Elisa?
O palacete de Lúcio é longe daqui e como a senhora mesmo disse, Lisboa está cheia de malfeitores.
Se sair daqui a uma hora dessas, é capaz de não voltar com vida.
Tia Elisa reflectiu um pouco e percebeu que a sobrinha tinha razão.
Tomou uma decisão e falou:
- Então, eu mesma irei lá.
Tenho 60 anos, retiro minhas jóias, vou com roupas simples.
Não creio que nenhum malfeitor se aproximará de mim.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 27, 2018 8:52 pm

CAPÍTULO 7
Rosa Maria não aprovou muito aquilo.
Tia Elisa podia ser velha, mas ainda era atraente, tinha formas exuberantes, era de boa família, podia sim ser vítima de um malfeitor, afinal, a capital estava realmente cheia de ladrões, salteadores, bêbados e viciados de todos os tipos, contudo não via alternativa.
Por isso concordou:
- Então, vá logo antes que o dia amanheça.
Tia Elisa trocou-se rapidamente e saiu pelas ruas em direcção ao palacete dos Alvarez.
Ao contrário das sobrinhas, ela conhecia muito bem a cidade e não foi difícil chegar lá.
Naquela madrugada as ruas estavam calmas e apenas alguns vultos humanos se esgueiravam pelas esquinas.
Aproximou-se do cocheiro que dormia e pediu:
- Levante-se e toque a sineta, preciso tirar Isabel urgente daí.
O cocheiro fez o que ela pediu, e após muita insistência, Belarmina apareceu na porta com rosto assustado.
- O que deseja?
- Vim buscar minha sobrinha que está aí.
Por favor, chame-a.
A escrava respondeu:
- Sinto muito, senhora, mas não posso incomodar o sinhozinho Lúcio.
São ordens dele.
- Eu preciso tirar minha sobrinha daí, o dia vai amanhecer e ela não pode estar fora de casa.
Por favor, acorde o seu dono.
- Eu não posso, senhora, ele me castigaria...
Tia Elisa, irritada e notando que a escrava possuía muita cumplicidade com o senhor, disse:
- Se você não fizer isso, faço um escândalo aqui na porta e acordarei os vizinhos.
Ou você chama minha sobrinha ou saberá do que sou capaz.
Belarmina, percebendo a determinação daquela senhora e sem coragem para acordar o sinhozinho Lúcio, deixou tia Elisa entrar e ela mesma ir ao quarto acordar a sobrinha, afinal, se era tia, tinha esse direito, e ela não sairia como culpada.
A escrava desceu a escadaria, passou pela grande alameda e abriu o portão dizendo:
- Vá a senhora mesma até o quarto dele.
Tia Elisa entrou e, seguindo as orientações de Belarmina, foi até a porta do quarto e bateu com força gritando pelo nome de Isabel.
Como ninguém abria, ela girou a aldrava e entrou.
A cena que viu chocaria qualquer outra mulher decente da sociedade lusitana, menos ela que estava acostumada com tudo.
Isabel e Lúcio estavam completamente nus, enroscados um no outro.
Ao lado e por cima da cama, várias garrafas de bebidas vazias levavam a crer que, além de sexo, eles tinham bebido muito.
Ela começou a sacudir Lúcio e Isabel, mas nenhum dos dois acordava por causa do sono pesado provocado pela actividade física e bebidas.
Então, ela pediu a Belarmina uma jarra com água fria, ao que a escrava atendeu prontamente.
Assim que tomou a jarra nas mãos, ela despejou o conteúdo nos dois, que acordaram assustados sem saber o que estava acontecendo.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 27, 2018 8:52 pm

Quando deram por si, Isabel gritou:
- Tia? O que está fazendo aqui?
Lúcio esbravejou:
- Quem é essa maluca e o que faz no meu quarto?
Como entrou aqui?
- Isso não importa.
O que importa mesmo é tirar Isabel daqui o mais rápido possível.
- Isabel agora é minha, e não precisa sair de minha casa.
- Isabel é noiva, tem boa família e um nome a zelar.
Foi loucura eu tê-la ajudado a vir aqui dormir com você - olhou para Isabel com energia e falou:
- Vamos logo, sua maluca, se sua irmã descobre onde você está ou caso Pedro desconfie do que aconteceu, nem sei o que será de você.
Tia Elisa percebeu que Isabel tremia de frio.
O inverno estava rigoroso em Portugal, e, temendo que ela adoecesse, tratou de enxugá-la com a primeira toalha que viu na frente.
Assim que a sobrinha estava arrumada, ela a pegou pela mão e olhando para Lúcio disse:
- Se você está gostando mesmo de minha sobrinha, deve esquecer encontros clandestinos como esse.
Isabel é noiva, tem um nome a zelar.
Se ela gosta de você, deve terminar o noivado com Pedro e só depois voltem a se encontrar.
Lúcio sabia que aquela senhora tinha razão.
Apesar de Isabel ter se entregado a ele com facilidade, era uma moça de família, não iria continuar se sujeitando àqueles encontros.
Também havia sua noiva, Rosalinda.
Se ela descobrisse o que havia acontecido, terminaria o noivado para sempre.
Naquele momento, Lúcio reflectiu que era aquilo que deveria fazer:
romper definitivamente com a noiva e pedir a Isabel que rompesse com Pedro.
Por isso disse:
- Isabel, sua tia tem toda razão.
Nós nos amamos e não podemos ficar nos encontrando assim.
Você precisa acabar com seu noivado e eu com o meu.
Só assim poderemos ficar juntos.
Isabel sabia de sua fama de boémio e leviano, mesmo amando não podia confiar.
- Não sei se tenho coragem para romper meu noivado com Pedro que me ama também e com sinceridade.
Toda a corte diz que você é um doidivanas que se envolve com todo tipo de mulher, mas no final acaba sempre voltando para Rosalinda.
Só termino tudo com Pedro após ter a comprovação de que você rompeu tudo com ela.
Vendo que Isabel era decidida, ele afirmou:
- Pois é isso que farei.
Depois dessa noite, tenho certeza de que você é a única mulher que amei na vida.
Não se preocupe, pois terá notícias minhas em breve.
Tia Elisa puxou Isabel pelo braço com mais força e logo estavam na carruagem.
Enquanto se dirigiam para casa, tia Elisa salientou:
- Vejo que o moço está realmente amando você.
Que sorte! Ele é muito bonito e sensual.
- E eu o amo, tia Elisa.
Sei que, a partir de hoje, não conseguirei mais viver longe dele, mas por outro lado, não posso terminar meu noivado sem garantias de que vou me casar com Lúcio.
Não nego que desejo ser riquíssima, ter vida de rainha.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jan 27, 2018 8:52 pm

Pedro é muito rico, mas Lúcio, pelo que vi, tem o dobro de sua riqueza.
Estarei unindo o amor aos meus interesses materiais.
- Acha que isso pode dar certo?
- Claro que sim!
Casarei com o homem da minha vida e ainda por cima serei rica.
- Quero dizer que o amor não deve ser misturado a interesses materiais, nunca dá certo.
Digo por experiência própria.
Se o Lúcio fosse um boémio pobre, você se casaria com ele do mesmo jeito?
Aquela pergunta apanhara Isabel de surpresa.
Ela não havia parado para pensar naquilo.
Reflectiu que, mesmo amando, se Lúcio fosse pobre, ela não seria sua esposa.
- Não sei, tia, não sei.
A senhora me deixou confusa - disse encerrando o assunto.
O resto do caminho elas percorreram em silêncio, cada uma imersa em seus pensamentos íntimos.
Ao chegarem em casa, o silêncio continuava, dando sinal de que não havia ninguém acordado.
Isabel banhou-se rápido e trocou de roupa novamente com a escrava.
Pela manhã, levantou-se novamente como se nada houvesse acontecido, embora Bernadete tivesse observado que fundas olheiras cobriam seu rosto.
Em seguida, as irmãs se arrumaram para voltar à quinta, e tia Elisa pediu para ir com elas.
Logo, o cocheiro estava partindo para levá-las ao destino.
Estava perto da meia-noite quando Lúcio chegou ao bordel de Madame Celina.
A cafetina já o esperava ansiosa, pois havia mais de quatro dias que seu amado não aparecia.
Vestida de vermelho carmim, cabelos lisos e soltos a escorrerem pelos ombros nus e morenos, flor no cabelo, maquiagem vermelha exagerada, unhas igualmente na cor vermelha, grandes e afiadas, junto com uma sombra negra nos olhos grandes e inquietos faziam seu visual.
Estava tamborilando as unhas afiadas sobre o balcão quando viu Lúcio entrar e se aproximar.
Foi beijá-la, mas ela se esquivou:
- Onde esteve todos esses dias? - perguntou raivosa.
- Resolvendo problemas de meu pai e cantando, oras!
Onde mais poderia estar?
A cafetina continuava desconfiada:
- Tem certeza de que não tem um rabo de saia metido nisso?
- Claro que não, meu amor - disse beijando-a finalmente.
Sou louco por você e sabe que só me casarei com Rosalinda por questões sociais.
- É que quando você não vem aqui às segundas-feiras, geralmente é porque apareceu algum rabo de saia.
Se eu souber que está me enganando novamente, nem saberei do que sou capaz.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 28, 2018 8:45 pm

CAPÍTULO 8
Celina era uma mulher de meia-idade, muito bonita e sensual.
Havia herdado o bordel da mãe e prosseguiu na tarefa da comercialização de corpos sem, contudo, prostituir-se.
Vestia-se daquela maneira para agradar aos clientes, mas só se relacionava mesmo com Lúcio.
Ele era um pouco mais jovem quando começou a frequentar a Casa da Perdição e logo ela se apaixonou, iniciando com ele um intenso caso de amor.
A partir daquele dia, Celina fazia de tudo para deixar o rapaz aos seus pés.
Enquanto as outras prostitutas divertiam-se em sonoras gargalhadas e dançavam ao som de estridente melodia, sendo aplaudidas pelos fregueses, Madame Celina pediu que Lola tomasse conta de tudo enquanto levava Lúcio ao quarto.
Amaram-se por mais de uma hora, mas não passou despercebido à cafetina que Lúcio estava distante e frio, longe daquele homem ardente e fogoso que ela bem conhecia.
Tinha certeza de que havia outra mulher na vida dele e faria tudo para descobrir e tirar de seu caminho.
Já a quinta estava bastante animada com a visita de tia Elisa.
Embora Margarida fosse uma mulher bastante conservadora e religiosa, acabava por se abrir às brincadeiras da velha cunhada que, por sua vez, procurava não exagerar, sabendo de seu temperamento moralista.
Isabel não parava de pensar em Lúcio um instante sequer e foi com satisfação e alívio que recebeu um dos mensageiros de Pedro dando-lhe o recado que havia viajado com o pai a negócios, regressando somente dali a duas semanas.
Por sua vez, Rosa Maria esperava com ansiedade que os dias passassem e logo chegasse o final da semana para receber a visita de Augusto.
As irmãs estavam entretidas
olhando o belo pôr do sol, debruçadas no balaústre, quando tia Elisa chegou comentando:
- Que lindo o pôr do sol!
Lembro-me dos belos finais de tarde em Paris quando o admirava ao lado dos meus amantes.
Grande Paris!
A Torre Eiffel, o Arco do Triunfo...
É o único lugar do mundo onde o sexo é livre!
Rosa Maria achou aquilo esquisito:
- Não estará a senhora enganada?
Sempre soube que as leis de Paris são muito rígidas no que diz respeito à moral.
Tia Elisa sorriu ao dizer:
- As leis podem ser rígidas, minha filha, mas a moral lá é meio mole, sabe?
As irmãs sorriam divertidas.
Tia Elisa perguntou:
- E você, querida Isabel?
O que resolveu fazer com seu noivo?
- Ainda não sei.
Já é quarta-feira e não tive sinal algum de Lúcio.
Ele ficou de terminar tudo com a noiva e vir me procurar, preciso esperar.
- Você está mesmo apaixonada - tornou Rosa Maria, suspirando.
- E pelo visto você também está.
Conheço bem esse suspiro - observou tia Elisa.
Quem é o escolhido?
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 28, 2018 8:45 pm

Ela corou:
- É Augusto Souza e Silva...
- O solteirão convicto?
Estarei ouvindo bem?
- É ele sim, tia, embora não tenhamos firmado nada, senti que mexi com ele.
Tanto que virá nos visitar no domingo.
Farei um almoço especial e espero que a senhora seja mais discreta possível.
- Nem precisa pedir.
Terei comportamento de freira.
Rosa Maria e tia Elisa continuaram a conversar sem notar que Isabel, perdida em pensamentos, acabava de ter uma ideia.
Saiu sem ser percebida pelas duas e foi ter com o escravo que servia de cocheiro:
- Tonho, prepare a carruagem, você levará um bilhete para mim até Lisboa.
- Para quem sinhazinha?
- Em breve saberá, vá preparando tudo que logo retorno.
Isabel foi para o quarto e escreveu para Lúcio:
"Amado Lúcio,
Espero que já tenha encontrado uma solução para o nosso problema.
Amo-o como nunca, e se me ama também, resolva tudo o mais rápido possível e venha passar o domingo na quinta com minha família.
Teremos visitas especiais, e me sentiria muito feliz com sua presença.
Da sempre sua, Isabel".
Colocou rapidamente o papel num envelope e na pressa esqueceu-se de lacrá-lo.
Voltou ao cocheiro e dando-lhe referências, enviou-o à procura de Lúcio.
Ao chegar à casa do jovem, não o encontrou, contudo, a escrava Belarmina, pensando ser algo importante ligado às suas serenatas, informou:
- Você poderá encontrá-lo na Casa da Perdição.
Basta dizer o nome que uma das meninas de Madame Celina vai chamar.
Tonho seguiu até o bordel e tocou a sineta.
Logo, uma prostituta apareceu e ele disse ter importante missiva para Lúcio.
Guilhermina procurou Celina que, interessada, foi pessoalmente receber o cocheiro.
- Sinhozinho Lúcio está dormindo.
Pode deixar o bilhete comigo que o entrego assim que ele acordar.
Tonho ainda pensou em desistir, mas se lembrou da urgência de Isabel pedindo que entregasse ainda naquele dia o bilhete e acabou passando-o às mãos da estranha mulher.
Assim que despediu o escravo, Madame Celina aproveitou que Lúcio estava adormecido, por ter passado a tarde inteira bebendo e fazendo sexo, e abriu o bilhete e leu.
Seu rosto ficou rubro à medida que leu o conteúdo.
Então, realmente existia uma mulher nova na vida dele.
Como ousou traí-la daquela maneira?
Possuída pela ira, Madame Celina pensou em rasgar o bilhete, mas auxiliada por espíritos inferiores, teve uma ideia.
- Lola, faça-me o favor.
A mulher aproximou-se solícita e ela prosseguiu:
- Fique com este bilhete que vou me recolher aos meus aposentos.
Fingirei dormir junto com Lúcio e assim que ele acordar, diga que acabou de recebê-lo e o entregue.
Ele não poderá saber que o li.
Existe uma tal de Isabel que está de ligação com ele.
Fingirei nada saber para poder agir com mais precisão.
Eles não sabem o que os aguarda.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 28, 2018 8:45 pm

CAPÍTULO 9
Lola pegou o bilhete e, enquanto via a patroa subir, guardou-o numa gaveta para fazer justamente como ela pedira.
Assim que Lúcio acordou, ainda tonto pelas muitas taças de vinho que havia tomado, levantou-se e começava a se vestir quando Madame Celina, que fingia acordar com seus movimentos, perguntou bocejando teatralmente:
- Já vai, amor? Ainda está cedo...
- Tenho de chegar em casa antes de meu pai.
Ele está cismado que continuo me encontrando com você.
Não é bom que veja meu estado.
- Seu pai precisa entender que um homem como você não pode ficar sem uma boa amante - tornou vaidosa.
- O que meu pai quer é evitar outro escândalo de Rosalinda e seus pais.
Meu casamento com ela é prioridade, não posso decepcioná-lo.
Aquela frase soou estranha para Celina.
Era facto que ele estava gostando de Isabel e pelas vestes do cocheiro, era uma moça de família.
Será que a estaria enganando também?
Ou será que teria coragem de romper realmente com Rosalinda?
Pensou em lhe fazer algumas perguntas, mas resolveu calar.
Seu plano não podia falhar.
- Então, não decepcione seu pai, vista-se e chegue rápido a sua casa.
Só quero lembrá-lo de que, mesmo casado, nosso caso continuará.
Não sei do que seria capaz se um dia você me deixasse.
Lúcio fez com que ela levantasse da cama, puxou-a para si e disse com ardor:
- Nunca a deixarei.
Nunca me senti tão realizado como homem, do jeito que me sinto a seu lado.
Beijaram-se e Celina sentiu-se a mulher mais feliz do mundo, naquele momento.
Desceu as escadarias de braços dados com ele, quando Lola, fingindo naturalidade olhou-o e disse:
- Sinhozinho Lúcio, perdoe-me tomar seu tempo, mas enquanto esteve no quarto com a madame, um escravo veio até aqui e pediu-me que lhe entregasse este bilhete.
Como a madame não gosta de ser interrompida quando está com o senhor, esperei que descesse.
Lúcio pegou o envelope das mãos de Lola, afastou-se de Celina e o abriu.
À medida que o lia, seu rosto se distendia e seus olhos brilhavam.
O bilhete era de sua amada Isabel e ela o convidava para passar o domingo a seu lado na quinta.
É claro que ele iria.
Tentou disfarçar o entusiasmo, virou-se para Celina e disse:
- Nada tão importante, um convite para uma serenata numa quinta.
- E você vai? - perguntou Celina, tentando disfarçar o ódio.
- Sim, querida, sabe como adoro cantar.
Agora dê-me licença que realmente preciso ir.
Assim que Lúcio fechou a porta, Madame Celina teve um ataque de fúria e saiu pela sala quebrando tudo o que achou pela frente.
Lola e as meninas tentaram acalmá-la, mas em vão.
Só quando tudo estava estragado foi que caiu em si, arriou-se no chão e chorou como nunca.
Tinha certeza de que Lúcio amava Isabel.
Sua expressão de amor ao ler o bilhete e seus olhos brilhantes de emoção não lhe deixavam dúvidas.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 28, 2018 8:46 pm

Mas ela faria tudo que estivesse ao seu alcance para separar os dois, e se não conseguisse, faria de tudo para que nunca fossem felizes.
Assim que Lúcio adentrou a sua casa, foi directo para o banho.
Caprichou no visual e uma hora depois estava sentado na sala tirando algumas notas no seu violão.
Sua mãe Tereza estava entretida em um bordado quando o marido Januário chegou, colocou a bengala e o chapéu no aparador e dirigiu-se directamente ao filho:
- Até quando você vai ser irresponsável? - sua voz era ríspida e arrogante.
- Está falando comigo? - perguntou Lúcio, sem olhar para o pai, continuando a dedilhar o violão.
O senhor Januário tirou-lhe o instrumento das mãos com violência jogando-o sobre o sofá dizendo:
Sei que passou toda a tarde com a rameira da Celina.
O que eu faço com você?
O que fiz para ter um filho pervertido desse jeito?
Tereza deixou o bordado e interveio:
- Não fale assim com nosso filho, Januário.
O Lúcio só faz o que todos os jovens da idade dele fazem.
- Quando não são noivos e nem têm um compromisso sério e honrado com uma moça honesta feito Rosalinda.
Honesta e de excelente família.
- Como disse mamãe, só faço o que é normal a todo homem fazer.
Rosalinda que se acostume. Passarei mais tarde na casa dela, ficarei alguns minutos e que se dê por satisfeita.
O senhor Januário não se conformava:
- Parece que você não gosta nem um pouco dessa pobre moça.
Ela morre de amores por você.
- Meu casamento com ela é de conveniência.
Não gosto mesmo de Rosalinda.
Ela não é mulher pra mim.
E se eu pensar melhor, acabo por desistir desse casamento.
Januário ficou rubro:
- Você só desiste de se casar com ela por cima de meu cadáver.
Eu já sou muito bondoso com você em deixá-lo cantar para ganhar um dinheirinho e não obrigá-lo a fazer uma faculdade.
Todos os seus amigos estudam, menos você.
Fiz isso em troca de você casar-se com a mulher que eu escolhesse.
Lembra do nosso acordo?
Você seria cantor com minha permissão, mas eu é que escolheria sua mulher.
- E por que foi escolher logo Rosalinda?
- Por causa do nome, fortuna e tradição de sua família.
Nós somos da aristocracia portuguesa, precisamos unir fortunas, nomes.
Quer uma pessoa melhor do que Rosalinda para isso?
- Pois eu me caso, mas não me obrigue a amá-la ou deixar de ter minhas amantes.
Sei que sou bonito, ardente e desejado.
Preciso aproveitar.
- Permito tudo isso, desde que não venha mais aborrecer sua futura mulher.
Não vou tolerar mais nenhum escândalo.
O senhor Januário saiu da sala, e Tereza pegou as mãos nervosas do filho com carinho:
- Não se preocupe, Lúcio, seu pai tem essas crises de nervos, mas logo volta ao normal.
Certamente, alguém o viu entrando no bordel e logo foi contar.
O que menos faltam são fofoqueiros em Lisboa.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 28, 2018 8:46 pm

Agora tome muito cuidado.
Rosalinda já sofreu muito com suas traições, terminou o noivado duas vezes.
Se acontecer novamente, tenho certeza de que ela não voltará atrás, e aí não poderei defendê-lo junto a seu pai.
Lúcio sentiu que não poderia levar o noivado com Rosalinda adiante, mas não sabia como fazer para terminar.
Ele vivia sustentado pelo dinheiro do pai que havia prometido ajudá-lo a manter o lar com riqueza e luxo após o casamento para que nada faltasse à Rosalinda.
O dinheiro que ganhava com as serenatas não dava para viver com dignidade  e ele não queria estudar.
O que fazer?
Sentindo-se sufocado, pegou o chapéu e saiu em direcção à casa da noiva.
Lá chegando, foi recebido com entusiasmo pela moça:
- Meu amor, como senti sua falta esses dias que não apareceu!
Ele a beijou discretamente no rosto e a conduziu para a sala de estar, onde estavam seus pais.
- Nem sempre dá para aparecer.
Meu pai chega tarde, às vezes, e fico fazendo companhia à minha mãe.
Quando isso não acontece, estou ensaiando com meus amigos ou compondo.
A senhora Brígida, mãe de Rosalinda, abraçou Lúcio com carinho dizendo:
- Já disse para minha filha se acostumar, afinal, está noiva de um músico, de um seresteiro.
- Está noiva de um boémio, isso sim - foi a voz de Modesto, pai da moça, com ar de crítica e reprovação.
Se o seu noivo fosse mais disciplinado, viria vê-la todas as noites.
Lúcio jamais apreciou o sogro que, a seu ver, era um homem antipático e sem carácter.
Cobrava perfeição nos outros, mas era também viciado em bebidas e mulheres da vida.
- Não se preocupe, meu sogro, esse boémio aqui sabe fazer sua filha feliz.
- Pare de implicar com o moço, Modesto - atalhou a senhora Brígida.
Não vê como nossa filha é completamente feliz quando está com ele?
Um casamento por amor é tudo quanto uma mulher precisa para se realizar.
- Minha filha ama Lúcio, isso bem sei.
Mas será que ele a ama? Tenho minhas dúvidas.
Rosalinda cortou:
- Tenho certeza de que Lúcio me ama e já que chegou cedo, venha jantar connosco.
Lúcio engoliu a contrariedade e foi para a mesa com os sogros e a noiva.
Mais tarde, na sala de estar, enquanto eram servidos os licores e a senhora Brígida tocava piano, Lúcio e Rosalinda falavam sobre suas vidas e ela demonstrava o quanto estava feliz com a proximidade do casamento.
Só o senhor Modesto ouvia tudo calado, meneando a cabeça negativamente como se não acreditasse em nada daquilo.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 28, 2018 8:46 pm

CAPÍTULO 10
Era sábado à tarde quando Rosalinda e sua mãe bordavam peças de seu enxoval.
A conversa entre as duas fluía fácil.
Uma contando como era a vida de mulher casada, a outra revelando seus sonhos de felicidade para o futuro.
Ouviu-se o característico som da sineta e, após alguns minutos, uma escrava entrou na sala e com a cabeça baixa disse:
- Um moleque de rua mandou entregar esta carta para a sinhá.
- Moleque de rua? - bradou a senhora Brígida com raiva.
- Como você recebe uma carta das mãos de uma pessoa dessas?
Merecia castigo.
A escrava começou a chorar com medo e implorou:
- Perdão, sinhá, é que não tive tempo de vir avisar.
O moleque colocou a carta em minhas mãos, disse que era para a sinhazinha Rosalinda e pôs-se a correr.
Não adiantou gritar.
- Está bem, Cícera.
Volte para seus afazeres e dê-me cá isto.
A escrava saiu a passos rápidos sumindo no longo corredor, enquanto Brígida observava o envelope.
- Está lacrado e sem remetente.
- Abra logo, mamãe, e leia.
O que será que essa pessoa quer me dizer?
A senhora abriu o envelope, retirou a carta de dentro e pôs-se a ler:
"Querida Rosalinda,
Como você já sabe, sou amante de seu noivo há muitos anos.
Sei que tiveram sérias brigas por minha causa, mas não é comigo que deve se preocupar, mas sim com Isabel, uma moça pela qual seu noivo está perdidamente apaixonado a ponto de pensar em deixá-la para sempre.
Se duvida de minhas palavras, vá amanhã até a quinta Santo António, às margens do Tejo, e terá a certeza do que digo.
Seu noivo ama outra e esta outra chama-se Isabel.
Como sou uma mulher da vida, não dou importância ao amor, mas me sinto penalizada em ver a senhorinha, uma verdadeira dama, sofrer esse tipo de traição.
Vá lá amanhã e resolva logo sua vida.
Você não pode viver para sempre humilhada.
Da grande admiradora,
Madame Celina".
Rosalinda, que foi ficando vermelha a cada frase lida pela mãe, caiu no sofá desabando num choro convulsivo, gritando entre dentes:
- Maldita seja essa Isabel, maldita seja!
Como ousa roubar meu Lúcio?
Isso não ficará assim, eu juro que a mato!
Brígida ficou preocupada com o estado da filha.
Sempre que descobria uma traição do noivo, Rosalinda perdia o controlo e não raro ficava doente, prostrada na cama por vários dias.
Por isso, tentou contemporizar:
- Acalme-se, filha, você não sabe se essa dona de bordel está falando a verdade.
Pode ser apenas na intenção de vê-la sofrer como está acontecendo agora.
Não se deixe levar por uma calúnia como esta.
Rosalinda, olhos vidrados de ódio, respondeu:
- Mas é claro que é verdade, mamãe.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 28, 2018 8:46 pm

A Madame Celina é apaixonada por ele, e não mandou esta carta por pena de mim, mas para que eu faça um escândalo e acabe com o romance entre o Lúcio e a Isabel.
E ela fez certo, pois é isso mesmo que farei amanhã.
Irei até essa quinta e mostrarei do que sou capaz.
Assim como terminei o romance entre ele e outras mulheres, acabarei com mais um.
Eu amo Lúcio e é só comigo que ele vai ficar.
- Com você e com Madame Celina - salientou Brígida, tentando trazer a filha de volta a razão.
Se ela sabe que ele estará amanhã com essa Isabel, é porque os dois ainda continuam se encontrando.
- Eu já não me importo com essa prostituta, todos os homens as têm.
O que não posso deixar é que ele termine o nosso noivado por causa de outra.
Se ela disse que ele pensa em romper comigo, é porque a outra também deve ser moça de família - fez pequena pausa e continuou.
A senhora já ouviu falar dessa quinta Santo António?
- Não. Sei que às margens do Tejo existem muitos sítios e quintas, mas dessa em particular nunca ouvi dizer, mas não será difícil descobrir.
Qualquer cocheiro de aluguel saberá nos conduzir.
- Então prepare-se, mamãe, amanhã iremos lá e acabaremos com essa festa.
- Mas procure se controlar, filhinha.
Lúcio virá aqui esta noite noivar com você, não é bom que a veja com esse semblante raivoso e sofrido.
- Não irei recebê-lo.
Quando ele chegar, diga-lhe que estou deitada com uma terrível dor de cabeça por conta das minhas regras.
A senhora enrubesceu:
- Ficou louca?
Um homem não deve saber quando as regras da noiva chegam.
- Então, invente que comi alguma coisa e passei mal.
O que não posso é deixar que me veja hoje.
Rosalinda saiu em direcção ao quarto chorando, e dona Brígida agradeceu aos céus o facto de o marido não estar em casa àquela hora.
Depois que a filha fizesse o escândalo, teria certeza de que ele não permitiria mais o casamento entre ela e Lúcio, seria a gota d’água para seu marido Modesto.
Daí ela teria de enfrentar o pior:
curar Rosalinda da tristeza aguda que seria o rompimento definitivo com o homem que amava.
Quando Lúcio chegou à noite, a senhora Brígida disse-lhe que a noiva estava mal do fígado e repousava.
Pediu desculpas pela filha não poder noivar aquela noite e o convidou para um chá, o que ele recusou de pronto.
Lúcio sentiu-se profundamente aliviado e dali foi directo para a Casa da Perdição, onde passou toda a noite nos braços de Madame Celina.
Apesar de ter passado quase toda a noite acordado, Lúcio levantou-se muito cedo no domingo, foi para casa, arrumou-se com esmero e disse aos pais que passaria o dia fora.
Por mais que o pai insistisse para ele dizer aonde iria, Lúcio simplesmente respondeu que não lhe pertencia e bateu a porta.
Revoltado com a atitude do filho, o senhor Januário esperou alguns instantes e pediu que o outro cocheiro da vivenda o seguisse e voltasse dizendo-lhe onde Lúcio se encontrava.
Na casa de Rosalinda, não foi difícil a senhora Brígida mentir para o marido dizendo que ela e a filha passariam o domingo no sítio de sua irmã Clarice.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 28, 2018 8:47 pm

O senhor Modesto percebeu o ar triste e abatido da filha, mas pensou que ainda era reflexo da comida que lhe havia feito mal no dia anterior e não deu mais importância.
Mãe e filha saíram com o cocheiro particular e no meio da rua abordaram outro que lhes indicou o caminho da quinta Santo António.
Já em viagem, Rosalinda tornou:
- Não podemos chegar agora, teremos de esperar.
Brígida estranhou:
- E vamos esperar o quê?
- Se chegarmos agora, ele pode nos mentir, dizendo que se trata de uma conhecida que o contratou para uma serenata.
Vamos nos aproximar e ficar escondidas nos arredores.
Pretendo flagrar os dois numa situação que não possam negar, sob hipótese alguma, que estão se envolvendo.
Daí mostrarei quem sou e acabarei com esse circo.
- Muito inteligente de sua parte.
Mas e se alguém nos descobrir?
- Ficaremos escondidas no mato, ninguém nos verá.
Rosalinda mostrava-se sempre arguta e inteligente quando via-se à frente de uma traição de Lúcio.
Nem parecia aquela moça loura, apagada e quieta que vivia a fazer bordados e a esperar pelo noivo.
Dona Brígida sempre se surpreendia naqueles momentos.
De qualquer forma, a filha tinha razão e elas seguiram adiante.
Não foi difícil para elas encontrarem um bom lugar para ficar de onde pudessem ver todo o movimento da casa grande.
Dentro da casa a alegria era muita.
Tia Elisa, como sempre, contava piadas e bebericava licores, enquanto Rosa Maria e Isabel, auxiliadas por escravas, preparavam um belo assado de carneiro.
Às dez horas, Carlinhos entrou na cozinha e as avisou que visitas importantes haviam acabado de chegar.
Coração aos saltos, as duas irmãs correram para a frente da casa.
Viram quando Lúcio e Augusto desceram das carruagens praticamente no mesmo momento e conversavam animados entre si.
As moças lhes estenderam as mãos, que eles beijaram com carinho, e foram conduzidos para o interior.
Foi com respeito que Lúcio e Augusto beijaram as mãos de Margarida e de tia Elisa e se puseram a conversar com elas.
Isabel havia dito à mãe que Lúcio era um grande amigo de Pedro que viria passar o dia com elas, e a senhora Margarida acreditou.
Foi com prazer que, ajudadas por Carlinhos, mostraram toda a quinta e como funcionavam os trabalhos de agricultura e pecuária.
Os jovens ficaram surpresos em saber como uma quinta poderia ser tão próspera sendo administrada apenas por mulheres.
Foi Isabel quem respondeu:
- Isso só é possível com a ajuda de Carlinhos.
Ele aprendeu todo o serviço com nosso pai e é quem faz praticamente tudo aqui.
O almoço transcorreu calmo e todos riam muito com as tiradas cómicas de tia Elisa.
Ao terminar, foram para a varanda apreciar a paisagem e tomar licores.
Num dado momento, tia Elisa chamou Margarida para dentro da casa, a fim de deixarem os jovens mais à vontade.
Os casais foram se distanciando e Rosa Maria e Augusto foram para o pomar enquanto Lúcio e Isabel continuaram na varanda.
Vendo-se a sós com a amada, ele lhe tomou as duas mãos e as beijou com paixão.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 28, 2018 8:47 pm

- Eu amo você, Isabel, mais do que tudo na vida, mas não resolvi ainda minha situação com Rosalinda.
Meu pai insiste que me case com ela para unir os nomes e as fortunas e eu não sei como dizer não a ele.
Pensei até em fugir com você, mas para onde iremos e do que viveremos?
Isabel olhou-o entristecida:
- Há-de existir algum jeito, Lúcio, o que não podemos é nos amar tanto e ficarmos assim, longe um do outro.
Não resistindo mais à paixão, Isabel puxou Lúcio para si e o beijou apaixonadamente nos lábios.
Adorando a ousadia dela, Lúcio retribuiu com mais ardor ainda.
Ficaram assim, envolvidos no clima de paixão, quando ouviram um grito agudo e estridente vindo do lado esquerdo da casa.
Foi com susto e preocupação que Lúcio viu Rosalinda surgir no terraço junto com a mãe, gritando histérica:
- Largue essa rameira, essa vagabunda!
Deixe-a agora, Lúcio, ou não respondo por mim.
Nervoso e sem saber o que fazer, ele apenas disse:
- Acalme-se, Rosalinda, vamos conversar.
Ela se aproximou dele estapeando-o no rosto, nos braços, no peito, enquanto a senhora Brígida puxava os cabelos de Isabel chamando-a de prostituta e outros nomes indignos.
Os gritos ecoaram por toda a quinta, e logo todos estavam presentes na varanda separando a briga.
Tia Elisa sacudiu Brígida com força jogando-a ao chão, enquanto Rosalinda era separada de Lúcio pelas mãos fortes de Augusto.
Quando a confusão se amainou, a senhora Margarida, indignada com o que viu, perguntou com voz severa:
- O que está acontecendo aqui?
Eu exijo uma explicação.
Era visível a vergonha no rosto de Isabel, e antes que Rosalinda começasse a gritar novamente, Lúcio se pronunciou:
- Eu explico tudo, senhora Margarida.
Acalme-se.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 28, 2018 8:47 pm

CAPÍTULO 11
Diante do tom grave que Lúcio imprimiu à voz, Rosalinda calou-se temerosa.
Se ele estava disposto a esclarecer tudo, era porque iria preferir Isabel.
Coração aos saltos, ouviu atenta:
- Senhora Margarida, eu deveria ter-lhe dito antes que estou interessado em sua filha Isabel e pretendo me casar com ela.
Vim como amigo para sua casa, mas na verdade amo sua filha e meu maior desejo é tê-la como minha esposa.
Rosalinda deixava que lágrimas sentidas caíssem sobre seu rosto, enquanto Isabel, olhos vibrantes e postura altiva, sorria alegre.
Margarida não conseguia entender:
- Eu nunca o vi antes.
Onde conheceu minha filha?
- Nos conhecemos numa festa de bodas onde meu grupo musical estava tocando.
Foi amor à primeira vista.
Devo dizer que nos encontramos algumas vezes e Isabel também me ama.
- E essa, aí, gritando e fazendo escândalo, quem é?
- É minha noiva Rosalinda.
Margarida assustou-se, mas antes que ela dissesse alguma coisa, ele prosseguiu:
- Nunca amei minha noiva.
Eu queria muito ser cantor, ter meu grupo de serenata, tocar nas festas da corte, mas meu pai, sempre muito severo, queria outro destino para mim.
O que ele desejava era que eu ingressasse numa faculdade e me tornasse médico ou advogado.
Mas não tenho vocação para nenhuma profissão que não seja a música.
Disse a ele que não iria estudar, então ele me propôs:
deixar-me-ia livre, mas eu teria de casar com a mulher que ele escolhesse.
No ímpeto de ser livre, aceitei.
Então, ele escolheu Rosalinda, que seria a mulher perfeita.
A senhora não sabe, mas meu pai é muito rico, um dos maiores milionários de Portugal, mas quer aumentar o património casando-me com ela, que é igualmente rica e goza de boa posição na sociedade.
Nunca amei Rosalinda e ela sabe disso.
Nosso noivado é de conveniência e nosso casamento também seria.
Por isso, aproveito o momento para lhe dizer, Rosalinda, que a partir de hoje não temos mais nada, nosso noivado acabou.
Quero Isabel e é com ela que quero ficar.
Naquele momento Rosalinda empalideceu, soltou um grito agudo e desmaiou.
Todas as atenções foram voltadas para ela.
Margarida chamou Carlinhos que a pegou no colo e a levou para uma das camas num grande e arejado quarto.
Rosalinda respirava fracamente e fino suor cobria sua testa.
Brígida lamentava:
- Meu Deus, minha filha é fraca e não aguentou.
Foi um erro termos vindo aqui.
Se Modesto descobre, estaremos perdidas.
- Acalme-se, senhora - tornou tia Elisa, solícita.
Tome esse chá de cidreira.
Vamos aguardar um pouco para ver se sua filha acorda.
Se não acordar, teremos de chamar seu marido de qualquer jeito.
A senhora foi ingerindo o chá, rezando a Deus para que Rosalinda despertasse e elas pudessem voltar logo para casa.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 28, 2018 8:48 pm

Enquanto isso na sala, Lúcio continuava a conversar com Margarida, na presença de Rosa Maria e Augusto.
- Eu peço mais uma vez desculpas à senhora pelo incidente.
Já tentei várias vezes interromper minha relação com Rosalinda, mas sempre cedi às insistências de meu pai e acabei voltando.
Mas agora é definitivo.
É a sua filha que amo e não descansarei enquanto não me casar com ela.
Os olhos de Isabel brilhavam de amor e contentamento.
Augusto aproveitou e disse:
- Senhora Margarida, talvez o momento também não seja oportuno, mas, enquanto estávamos no pomar, eu e Rosa Maria conversamos muito sobre a vida, sobre nós dois e decidimos namorar.
Peço a mão de sua filha em namoro e prometo fazê-la muito feliz.
Tia Elisa levantou-se e feliz, disse:
- Que maravilha!
Teremos na quinta Santo António dois casamentos!
Nada pode haver de maior felicidade.
Margarida fingiu não ouvir o comentário efusivo da cunhada, olhou para Augusto e tornou:
- Eu concedo a mão de Rosa Maria.
Vejo em você um moço bom, de carácter ilibado.
Tenho certeza de que minha filha será feliz ao seu lado.
Já você, Isabel, não tem minha aprovação para casar com Lúcio, e se fizer isso, eu a deserdo e mando ir embora desta casa.
Agiu como uma rameira e parece que esqueceu que é noiva de um rapaz bom e honrado feito Pedro.
A fala de Margarida surpreendeu a todos.
Isabel protestou:
- Mas, mamãe, o que pode haver de errado com Lúcio?
Não vê que nos amamos?
- Esse homem é desonesto, não é pra você, não a fará feliz.
Tia Elisa interveio:
- Margarida, pense bem.
Lúcio é honesto, ele se abriu para todos nós, revelou não amar a noiva e que simplesmente está com ela por imposição do pai.
Vejo que ele ama Isabel com o coração.
Por que impedir que sejam felizes?
- Não gostei do que presenciei aqui, e esse moço vive para cantar.
Como vai sustentar uma família?
Lúcio respondeu:
- Sou muito rico, tenho inúmeras posses em meu nome.
Podemos viver de renda.
Sei que a música não daria para oferecer a Isabel a vida de luxo que ela merece, mas com tudo o que tenho, sua filha será muito feliz.
O espírito de Raimundo, ao lado da esposa, dizia:
- Aceite, Margarida.
Esta união está no destino dos dois.
Não atrapalhe a marcha das coisas.
Margarida captou os pensamentos de Raimundo, mas em seguida, envolvida por um espírito inferior, não deu ouvidos e disparou:
- Mas não temos apenas esse problema, rapaz.
Isabel é noiva de Pedro, um excelente rapaz que a ama com todas as forças do coração.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 28, 2018 8:48 pm

Ela não sabe, mas é prometida a ele desde criança, e eu não posso desfazer esse compromisso.
- Mas é injusto que Isabel fique presa a um homem que não ama.
Não quer que sua filha seja feliz?
- Quero que ela seja honrada, como todos em nossa família.
Nessa hora, Carlinhos, que estava ouvindo a conversa no corredor, entrou e disse:
- A honra é uma virtude preciosa, mas em nome dela não podemos viver na infelicidade.
É mais honrado ser honesto e fazer o que o coração sente, do que viver em nome de um dever social sendo infeliz para o resto da vida.
Desculpe-me, dona Margarida, mas a senhorita Isabel nunca seria feliz ao lado de Pedro.
Que honra é essa que obriga duas pessoas a viverem infelizes?
Será que Deus aprova isso?
Margarida ia reclamar do atrevido escravo, mas Carlinhos tinha sido criado desde pequeno dentro de casa, aprendera a falar correctamente e o que ele acabava de dizer fazia sentido.
Lúcio perguntou:
- E então, senhora Margarida?
Concede a mão de sua filha a mim?
Ela permanecia inflexível:
- Não, e o melhor a fazer é tentar acordar sua noiva e tirá-la daqui.
Não quero confusões em minha família que sempre foi respeitada por ser honrada e digna.
Isabel ia protestar, mas tia Elisa, com um gesto a impediu.
Olhou para Margarida e pediu:
- Não dê resposta definitiva nenhuma a Lúcio.
Antes precisamos conversar.
Margarida olhou-a desconfiada.
- Não há nada que você possa me dizer que me convença a aceitar essa relação.
- Há algo muito importante sim, por isso peço que vocês nos esperem aqui enquanto converso em particular com minha cunhada.
Prometo que não demoraremos.
Mesmo sem querer, Margarida foi praticamente arrastada por tia Elisa que a levou ao seu quarto.
Lá chegando, as duas sentaram e Margarida apressou-se:
- Vamos logo, Elisa, diga o que tem a dizer, não podemos perder tempo.
Tenho certeza de que nada me fará mudar de ideia.
Tia Elisa fez um semblante sério, pegou nas mãos de Margarida e tornou:
- Você disse lá na varanda que nossa família é respeitada porque sempre foi digna e honrada, mas se você não permitir que Lúcio e Isabel se casem, a honra de nossa família irá por água abaixo no primeiro dia em que ela se casar com Pedro.
Tia Elisa falava sério, o que era raro, por isso Margarida sentiu o coração descompassar.
O que ela sabia de tão grave a ponto de manchar a honra de sua família?
Temerosa, perguntou:
- Posso saber o porquê?
- Simplesmente porque Isabel não é mais virgem.
Ela foi deflorada por Lúcio durante um dos finais de semana que passou na corte.
Margarida teria caído se estivesse de pé.
Empalideceu, sentiu a vista turvar e colocou as mãos na cabeça.
Vendo que a cunhada passava mal pela notícia, tia Elisa lhe afrouxou as roupas e começou a massagear seus pulsos.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 28, 2018 8:48 pm

Quando estava melhor, Margarida pediu:
- Conte-me tudo.
Como sabe que essa desgraça aconteceu?
- Isabel conheceu Lúcio numa festa de bodas em que foi com Bernadete e Rosa Maria.
Foi paixão à primeira vista.
Você sabe como sua filha é voluntariosa.
Logo conseguiu um jeito de se aproximar do rapaz e começaram a namorar.
Numa noite percebi que Isabel não estava na cama.
Era madrugada e fiquei muito preocupada.
Deduzi que Isabel só poderia estar em companhia de Lúcio.
Mesmo com medo, pedi que o cocheiro me levasse até lá, toquei a sineta e uma criada atendeu.
Consegui entrar na casa e fui até o quarto.
A porta estava aberta e eu mesma vi Isabel e Lúcio nus, dormindo abraçados.
Margarida não podia acreditar no que ouvia.
- Você está falando sério? - perguntou com a voz entrecortada pelo choro.
- Sim, minha querida.
Jamais iria brincar ou criar uma história dessas.
Isabel não é mais virgem e se ela se casar com Pedro, na noite de lua de mel ele vai descobrir, fazer um escândalo e trazê-la de volta.
Você sabe como os homens são orgulhosos.
Pedro ficará com muita raiva, e o nome de Isabel irá para a sarjeta, e com ela o seu nome e também o de toda a família.
Margarida tremia de nervoso.
Como aquilo pudera acontecer?
Sempre percebeu que Isabel e Rosa Maria eram diferentes, sempre com pensamentos de grandeza, dizendo coisas à frente do tempo em que viviam.
Mas daí a imaginar que Isabel tivesse coragem de se entregar a um homem antes do casamento era demais.
Naquele momento, fragilizada e sem saída, ela chorou muito.
Não adiantaria mais brigar com a filha, dar-lhe sermões, ela já estava perdida e a única maneira de salvá-la e à família era deixá-la que se casasse com Lúcio.
Seria uma situação difícil, mas ela teria de fazer aquilo.
Isabel era prometida de Pedro desde pequena.
Como faria para desfazer o compromisso?
- Você está bem? - perguntou tia Elisa, vendo que Margarida estava demasiadamente calada.
- Não posso estar bem com uma coisa como esta.
Mas preciso enxugar minhas lágrimas e fazer o que tem de ser feito.
Vamos para a varanda.
Margarida se recompôs com a ajuda de tia Elisa e quando voltou todos estavam ansiosos.
Ela olhou para Lúcio com raiva e disse:
- Tudo bem.
Depois do que acabei de saber, é impossível negar a mão de Isabel a você.
Que sejam noivos, casem e vivam felizes para sempre.
Isabel, mesmo sem saber o que tia Elisa havia dito, corou de felicidade e beijou Lúcio no rosto.
- A senhora pode ter a certeza de que Isabel será a mulher mais feliz do mundo.
Naquele momento, foram interrompidos pela senhora Brígida que bradou, colérica:
- Podem ter certeza de que isso não ficará assim.
- A senhora não poderá fazer nada.
Eu e Lúcio nos amamos - tornou Isabel provocativa.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 28, 2018 8:48 pm

- Eu não posso, mas meu marido pode.
É poderoso, influente e não vai aceitar esse acinte à nossa filha.
Ela até agora não acordou e mandarei o cocheiro buscar meu marido.
Rosalinda precisa de um médico.
Mas Lúcio terá de ficar aqui e esclarecer tudo com Modesto.
Se teve coragem de trair descaradamente minha filha, terá coragem de enfrentar meu marido.
Lúcio não queria enfrentar aquele homem severo e desagradável, mas não podia ser fraco naquele momento.
Amava Isabel e era com ela que iria ficar.
Se tinha de romper em definitivo com Rosalinda, aquele seria o momento.
Ficaria esperando o ex-sogro chegar, juntaria forças e o enfrentaria.
Não foi preciso o cocheiro andar nem cinco metros com a carruagem, pois logo ouviram trotar de cavalos e no outro extremo da estrada nova carruagem surgiu.
Lúcio gelou ao constatar que era seu pai quem vinha dentro dela.
Como ele descobrira que estava ali?
Lúcio ignorava que tinha sido seguido e seu pai, assim que soube onde ele estava e a confusão que estava acontecendo, correu para lá.
Não imaginava que o filho pudesse estar namorando outra moça de família, mas sabia que, para ele estar numa quinta àquele horário, certamente era por uma mulher.
Quando Lúcio disse que era seu pai, todos se puseram a esperar.
Dona Brígida estava alegre, pois iria forçar Januário a fazer com que o filho não abandonasse Rosalinda.
Por outro lado, Lúcio estava nervoso por ter de enfrentar o pai, mas como amava Isabel, sabia que isso aconteceria a qualquer momento.
Então, que fosse logo.
Assim que a carruagem chegou ao pátio, o senhor Januário desceu com rosto severo.
Deu boa tarde de maneira formal a todos, olhou para o filho e perguntou grosseiramente:
- Posso saber o que você faz aqui?
- Calma pai, posso explicar-lhe tudo.
- Acho bom que seja uma óptima explicação, ou então você se verá comigo.
Lúcio tremeu por dentro, mas continuou:
- O senhor teria mesmo de saber, então que seja agora.
Estou namorando Isabel, uma moça de família, e pretendo me casar com ela.
Rosalinda descobriu, veio aqui com a mãe e armou esse circo.
Mas, seja como for, não volto mais para ela.
Amo Isabel e espero que o senhor entenda isso.
Januário empalideceu de ódio pela ousadia do filho.
- E você pensa que irei permitir que se case com outra mulher que não seja Rosalinda?
Onde você está com a cabeça?
Saia já daí e venha comigo. Agora!
A voz de Januário era bastante imperativa, mas Lúcio, ganhando coragem, não cedeu:
- Não vou.
Tenho direito de fazer minhas escolhas e ser feliz do meu modo.
Sou livre e sou adulto.
- Você pode ser adulto, mas não é livre.
É meu filho e me deve obediência.
Como teve a coragem de namorar outra moça sendo que é noivo e prestes a se casar?
É um irresponsável.
A vontade que dá é mandar chicoteá-lo como faço com os escravos.
Você iludiu essa jovem, por isso agora terá de lhe dizer a verdade, que não vai desposá-la de forma alguma, pois sua mulher será Rosalinda.
- Não. Nem que o senhor me deserde e me jogue no olho da rua.
Jamais me casarei com Rosalinda, a quem não amo e faria infeliz para o resto da vida.
Por isso é o senhor quem decide: ou aceita meu casamento com Isabel, ou não ponho os pés naquela casa nunca mais e também não mais me considere seu filho.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jan 28, 2018 8:48 pm

CAPÍTULO 12
Januário não esperava ver tanta decisão nos olhos de Lúcio.
O rapaz sempre fora irresponsável, arrumando confusões, tendo caso com prostitutas e até mulheres casadas, mas sempre que algum problema acontecia, corria para os braços dele pedindo ajuda.
Agora não aparentava fraqueza nem medo, via diante de si um homem de verdade.
Aquilo fez com que se orgulhasse do filho.
Januário queria ser duro, impor sua vontade, mas a realidade era uma só:
amava o filho como nunca amara ninguém na vida e jamais suportaria perdê-lo.
Teria de ceder.
- Lúcio, meu filho, temos um compromisso com a família de Rosalinda.
O senhor Modesto é amigo de longa data de nossa família, não podemos desfazer uma coisa dessas.
Como quer que eu fique perante a sociedade?
Como um homem sem palavra?
Lúcio prosseguiu firme:
- Não vou mais discutir isso com o senhor.
Terá de me dar a resposta agora.
Ou permite que me case com Isabel ou não serei mais seu filho.
Januário percebeu que Lúcio falava com verdade.
Seus olhos encheram-se de lágrimas que procurou disfarçar, mas acabou dizendo:
- Tudo bem. Que seja feita a sua vontade.
Case-se com Isabel e terá minha bênção.
O que não posso é perdê-lo.
Lúcio correu para o pai abraçando-o com carinho e beijando-o na face.
Logo o abraço foi interrompido pelo grito agudo da senhora Brígida que, do mesmo modo que a filha, acabou desmaiando.
A cena foi patética.
Todos correndo para colocar a pesada mulher na primeira cama que encontrassem.
Januário sorriu ao dizer:
- Cuidem dessa histérica que de meu filho cuido eu.
Agora vamos, Lúcio.
Precisamos sentar em casa para decidir como faremos para conversar com o pai de Rosalinda - olhou para Isabel, apertou sua mão e completou.
Muito prazer, você é uma bonita moça, meu filho escolheu bem.
Que seja muito feliz com ele.
Isabel o abraçou com carinho e despediu-se dele, já que Lúcio disse que ficaria mais tempo.
Em seguida, o cocheiro da senhora Brígida saiu em busca do senhor Modesto, pois naquele momento eram mãe e filha precisando de médico.
A felicidade de Isabel era tão grande que não se importava com nada.
Foi a vez de Augusto se despedir e também partir para voltar no próximo final de semana.
As mulheres se dispuseram a esperar o pai de Rosalinda aparecer.
A respiração das duas continuava fraca, e pela testa da moça um fino suor teimava em sair.
Carlinhos entrou na sala e pediu:
- Posso ver as senhoras que desmaiaram?
- Para quê? - indagou Margarida.
Você já ousou muito por hoje, não acha?
- Desculpe-me, senhora, mas sei que posso ajudá-las.
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 29, 2018 9:05 pm

É melhor que estejam acordadas quando o senhor Modesto chegar, não acham?
- Sim, mas o que você pode fazer para acordá-las?
- Venham ver.
Elas seguiram para o quarto atrás dele.
Lá chegando, perceberam que Rosalinda e a mãe permaneciam desacordadas.
Carlinhos aproximou-se do leito de dona Brígida, colocou a mão direita sobre sua testa, fechou os olhos e pediu em voz alta:
- Volte ao seu corpo, senhora.
Não adianta tentar fugir dos factos da vida.
Ninguém foge do que precisa enfrentar, pois os problemas dos quais fugimos um dia voltam com mais intensidade e força.
Quanto mais rápido os enfrentamos, mais eles se resolvem.
Por isso, em nome de Jesus, volte ao corpo.
Dona Brígida começou a suar fino e de repente abriu os olhos indagando:
- Onde estou?
O que aconteceu?
- Calma, dona Brígida, a senhora desmaiou, mas agora acordou e está entre amigos.
Ela, de repente, lembrou-se de tudo:
- Meu Deus!
O rompimento definitivo de Lúcio com minha filha, o desgosto dela, o desgosto do pai.
Céus! O que será de nós?
Como ela fez menção de voltar a chorar, Carlinhos pediu:
- Não chore mais, vamos nos juntar e orar para que sua filha também acorde do desmaio.
Ela estranhou estar recebendo ordens de um negro, mas havia nele uma superioridade moral que fez com atendesse sem discutir.
Todos no quarto estavam impressionados com o que Carlinhos havia feito.
Ele chamou Brígida como se ela estivesse em algum lugar distante, e simplesmente ela acordou.
Que coisa fantástica era aquela?
Todos indagavam.
Carlinhos foi para a cama onde Rosalinda jazia desmaiada e fez o mesmo procedimento.
Com a mão direita em sua testa, pediu:
- Volte para seu corpo, senhorita.
A vida muitas vezes não é da maneira que queremos, as coisas nem sempre acontecem como gostaríamos, mas Deus é sábio e só faz o melhor.
Não seja covarde tentando fugir, volte agora e enfrente suas provações com coragem.
Rosalinda começou a respirar fundo e parecia não querer acordar.
Carlinhos, percebendo que seu espírito resistia em voltar para assumir o corpo, continuou com mais força e fé:
- Volte, senhorita Rosalinda, em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo!
Ela suou muito, remexeu-se inquieta na cama e finalmente abriu os olhos.
Demorou a recobrar a consciência, mas quando o fez, olhou todos em volta e sentiu vergonha, humilhação e medo.
Começou a chorar baixinho enquanto sua mãe a amparava.
Tia Elisa, percebendo que as duas estavam bem, sugeriu:
- Vamos sair e deixar que mãe e filha conversem, enquanto o senhor Modesto não chega.
Quando estavam na sala, Isabel e Rosa Maria não contiveram a curiosidade e perguntaram a Carlinhos:
- Como você fez para que elas acordassem?
Como tem esse poder de chamar as pessoas e elas voltarem de um desmaio?
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 29, 2018 9:05 pm

Carlinhos ficou calado, não gostava de falar daquele assunto na frente da senhora Margarida, que estava ali e também esperava uma explicação para o que tinha visto.
Vendo que ele não ia falar e permanecia de cabeça baixa, Isabel insistiu:
- Não tenha receio, Carlinhos, pode falar.
- Na verdade não fui eu que tive o poder, eu apenas fiz o que era certo, mas quem trouxe mãe e filha de volta foi Deus - falou embaraçado.
- Mas foi muito fantástico! - exclamou tia Elisa.
Nunca em minha tão bem vivida vida vi algo semelhante.
Conte logo como isso aconteceu, rapaz!
- Quando uma pessoa desmaia, na verdade é sua alma que sai do corpo e vai para outro lugar.
Por isso, a pessoa fica respirando fraco, pálida e parecendo morta.
- A alma sai? - indagou Isabel.
Como pode ser isso?
- Algumas vezes a pessoa desmaia porque a alma não suportou a situação e preferiu fugir.
Mas fugir de um problema só o coloca para frente, um dia ele volta e teremos de encará-lo inevitavelmente.
Quando alguém com fé chama a pessoa em nome de Jesus, seu espírito toma consciência e reage, daí volta a acordar.
- Que incrível, nunca havia pensado nisso.
Será que é verdade? Será que não foi coincidência? - questionou tia Elisa, curiosa.
- Mas a senhora não viu que foi verdade? - disse Rosa Maria.
- Eu também nunca acreditei nessas histórias do Carlinhos, mas depois de hoje começarei a pensar.
Carlinhos, percebendo que todos queriam saber mais sobre o que havia acontecido, continuou:
- Não é só na hora do desmaio que nossa alma sai do corpo.
Na hora que dormimos, todas as noites, ela sai também e vai passear pelo outro mundo.
Quase tudo que sonhamos foi aquilo que vimos e vivemos durante a noite.
- Que incrível! - disse Isabel, eufórica.
Um dia sonhei que eu e Lúcio estávamos caminhando por uma estrada coberta de grama molhada pelo orvalho.
Estávamos de mãos dadas e com os pés descalços, foi tão emocionante que acordei procurando-o e procurando aquele lugar.
Será que vivi isso durante a noite?
- Sim, senhorita - tornou Carlinhos, calmo.
As pessoas que se amam costumam se encontrar durante a noite e passeiam juntas pelo outro mundo.
- Se for verdade, como será este outro mundo?
- Podemos perguntar ao pai João e ele responderá.
- Quem é pai João? - tornou Isabel, curiosa.
- É o espírito com quem eu converso.
Ele me instrui muito, me ensina muitas coisas sobre a vida espiritual.
Margarida disse com altivez:
- Isso de conversar com as almas é pecado.
Não aceito isso dentro de minha casa.
- Pois, um dia nós vamos até a casa do Carlinhos e vamos conversar com esse pai João - tornou Isabel, curiosa e voluntariosa.
Alguém aqui tem medo?
Lúcio confessou:
- Eu tenho medo dessas coisas desde pequeno. Prefiro não ir.
- Já eu vou com Isabel - disse Rosa Maria, sempre cúmplice da irmã.
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 29, 2018 9:05 pm

Quero ver o que ele vai nos dizer.
Que dia podemos fazer isso?
- Vamos marcar para amanhã ao final da tarde.
Está bom para as senhoritas? - perguntou Carlinhos.
- Sim, amanhã ao final da tarde estaremos lá.
A conversa mudou de rumo, para alívio de Margarida, e todos se puseram a esperar por Modesto.
Modesto chegou meia hora depois e, informado de tudo o que havia acontecido, travou violenta discussão com Lúcio, só não chegou a agredi-lo porque Carlinhos e o cocheiro impediram.
Saiu da quinta prometendo vingança àquela família e também a Lúcio e a seu pai.
Já era noite quando Lúcio finalmente resolveu voltar para casa onde foi recebido com carinho pelos pais.
A segunda-feira amanheceu ensolarada e as irmãs, felizes, comentavam os últimos acontecimentos.
Isabel já sonhava, morando na mansão de Lúcio, sendo servida por escravas, vestindo roupas de luxo e frequentando a mais alta sociedade.
Já Rosa Maria imaginava-se casada com Augusto, mas resolvera que não iria deixar a quinta até sua mãe partir para o outro mundo.
Estavam tão entretidas na varanda que não perceberam um trotar de cavalo se aproximando.
Quando Isabel viu quem estava à sua frente, braços abertos e sorrindo, sentiu que ia desmaiar.
Mal conseguiu balbuciar:
- Pedro?!
- Sim, meu amor, eu mesmo.
Voltei para nosso amor!
Não está feliz?
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 29, 2018 9:05 pm

CAPÍTULO 13
Rosa Maria também empalidecera, mas Pedro, tão emocionado que estava não percebeu.
Correu a abraçar Isabel, sem nem observar que ela estava fria e sem emoção.
Beijando-lhe o rosto disse:
- Meu amor, que viagem longa fiz!
Se soubesse que iria passar tanto tempo longe de você, teria recusado o convite de meu pai.
Mas nossa viagem foi muito melhor do que supúnhamos, agora meu pai está ainda mais rico e poderemos marcar nosso casamento para breve.
Não aguentando mais a pressão, Isabel gritou:
- Chega! Não quero ouvir mais nada!
Pedro, assustado, tornou:
- O que houve, Isabel?
O que está acontecendo?
- Chega, Pedro, você precisa saber a verdade, não suportarei vê-lo enganado.
Rosa Maria interveio:
- Não faça isso agora, Isabel, não vê que Pedro acaba de chegar?
Pedro, então, já estava desconfiado.
- O que aconteceu com Isabel enquanto estive fora?
Posso saber?
- Acalme-se, Pedro, você... - Rosa Maria foi interrompida por Isabel.
- Eu vou falar tudo ao Pedro, agora.
Tia Elisa e Margarida que ouviram os gritos e estavam já chegando à grande varanda, estancaram perplexas ao ver que era Pedro que havia chegado e que Isabel já ia lhe contar a verdade.
Margarida tentou intervir, mas tia Elisa pediu:
- Deixe que ela fale, é melhor o moço saber o quanto antes e por ela.
Imagine se ele fica sabendo por alguém de Lisboa?
A essa hora muitos da sociedade já devem estar comentando.
Margarida conteve-se e permaneceu na antessala ouvindo o desenrolar da conversa.
Prosseguia Isabel:
- Nosso noivado foi um erro, Pedro.
Aliás, nosso namoro foi um erro e nunca deveríamos ter começado.
- Mas o que está acontecendo com você?
Acaso ficou demente?
Está louca?
- Não, nunca estive tão bem da cabeça como agora e você vai ouvir tudo.
Pedro estremeceu.
Sentiu que Isabel estava falando sério e só em imaginar que poderia perdê-la, sentia o coração oprimir-se de dor.
Ela continuou:
- Gosto de você como ser humano, mas nunca o amei de verdade.
Eu sempre quis subir na vida, ter status.
Por isso, quando o conheci, aceitei sua corte e começamos a namorar.
Não aceitei por interesse amoroso, mas social.
Desculpe-me, Pedro, você é bom, honesto, me ama e sei que não merecia isso, por isso estou sendo tão sincera.
Desde que conheci Lúcio de Alcântara na festa de bodas, minha vida mudou.
Foi amor à primeira vista e eu, mesmo noiva de você, entreguei-me a ele.
Pedro estava cada vez mais perplexo.
Como aquilo poderia estar acontecendo com ele? Como?
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Re: Almas Gémeas - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jan 29, 2018 9:06 pm

- Eu era pura, mas perdi minha honra com Lúcio, o homem a quem realmente amo e com o qual vou me casar.
Vendo que era verdade, Pedro, violento, pegou no braço de Isabel com força, trouxe-a junto a seu peito e com voz embargada pelo ódio disse:
- Você só se casa com esse boémio de merda por cima de meu cadáver!
Você me pertence, é minha noiva perante toda a sociedade lusitana.
Jamais deixarei que isso aconteça.
Sentindo-se desafiada, Isabel provocou:
- E vai casar com uma mulher que está desonrada e grávida de outro homem?
Ao ouvir aquilo, Pedro soltou-lhe o braço, jogou-a contra a parede e bradou:
- Grávida?
Não, não pode ser!
Isabel continuou, provocativa:
- Sim, estou grávida do homem que amo e não vou jamais me casar com você.
Tentei ser sincera e educada, mas você não está permitindo que eu tenha sensatez.
Acabou, Pedro, acabou!
Pedro começou a chorar convulsivamente abraçado ao mourão do balaústre.
Naquele instante, Margarida e tia Elisa apareceram.
Margarida aproximou-se do ex-genro que tanto amava, abraçou-o e o consolou:
- Infelizmente, meu querido, teve de ser assim.
Quero que saiba que não compactuo com esses actos indignos de Isabel e eu nem sabia que ela estava grávida.
Mas tenha dignidade.
Você é um jovem bonito e bom, não merece sofrer por Isabel que o traiu e não o ama.
Tenho certeza de que encontrará outra moça e será muito feliz com ela.
Pedro soltou-se dos braços da matriarca, olhou para Isabel com olhos faiscantes de ódio e bradou:
- Não a quero mais.
Além de desonrada, traz no ventre o filho de outro.
Mas eu juro, juro por este sol que me ilumina, que você irá casar, mas nunca a deixarei ser feliz.
Nunca! Prepare-se para viver infeliz do dia que se unir àquele boémio até o resto de sua vida.
Havia tanto ódio nas palavras de Pedro que Isabel tremeu por dentro.
O que será que ele iria fazer?
Sem se despedir, Pedro montou em seu cavalo e saiu em disparada.
Margarida olhou para a filha dizendo envergonhada:
- Nunca pensei que fosse viver para passar por um desgosto de ter uma filha desonrada dentro de casa e com um filho na barriga, sem estar casada.
Depois que você casar, não a quero mais aqui.
Deixará de ser minha filha.
Rosa Maria tentou contemporizar:
- Calma, mamãe, Isabel sempre foi assim e a senhora sabe disso.
- E você não me venha defender essa maluca, senão ficará de fora também.
Margarida entrou corredor adentro sem olhar para trás, deixando tia Elisa com elas.
- E, Isabel, embora eu ache que você tenha feito tudo certo, senti que você quis tripudiar sobre o coração de Pedro.
Isso não foi bom, despertou nele uma raiva que só Deus sabe onde vai parar.
E por que inventou que está grávida?
- Inventei para tirá-lo do meu caminho de vez.
Se não dissesse isso, era capaz dele querer se casar comigo mesmo na condição de moça sem honra.
Rosa Maria concordou:
- Foi melhor ela ter criado essa história, conheço Pedro e sei que ele iria insistir.
E ainda acho que, do jeito que é apaixonado por você, é capaz de querer casar mesmo com o suposto filho de outro em sua barriga.
Isabel corou ao dizer:
- Não me caso com Pedro nem depois de morta.
Dizendo isso saiu correndo para o quarto, onde se trancou sozinha e lá ficou por horas.
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