Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

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Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 07, 2018 9:07 pm

Ninguém Domina o Coração
Maurício de Castro

Pelo espírito Saulo

Dedico este livro ao amigo Fabiano.

Sumário
Prefácio
- Apresentando um novo amigo

1 Os Gouveia Brandão
2 Transformações
3 A Festa
4 Flores vermelhas
5 Felicidade
6 Encontro romântico
7 Uma noite maravilhosa
8 Decepção
9 A Revolta de Fabiano
10 Um plano
11 A mentira
12 Ideias maldosas
13 Um grande engano
14 Mudanças
15 Uma decisão dolorosa
16 Iniciando uma nova vida
17 Óptimas notícias
18 Um abraço de ternura
19 Uma vida bem-sucedida
20 Revelações
21 No plano espiritual
22 A Proposta
23 Conselhos mediúnicos
24 Ensinamentos espíritas
25 Intrigas
26 Uma luz
27 Trágicos acontecimentos
28 Na delegacia
29 Uma esperança
30 Chantagem
31 O encontro
32 Desespero
33 Rumo a espiritualidade
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Ave sem Ninho

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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 07, 2018 9:08 pm

Prefácio
Apresentando o novo amigo
Em janeiro de 2011, em meu horário habitual de psicografia, o amigo Hermes chegou acompanhado de um espírito até então desconhecido.
Notei que em sua última encarnação ele havia sido cigano, pois vestia uma calça de linho preta, camisa de mangas vermelhas e um lenço de seda vermelho amarrado à cabeça, bem comum aos ciganos turcos.
Sua energia era suave e prazerosa.
Ele me olhou com profundidade, mas manteve-se calado.
Emocionei-me com sua presença e, em seguida, Hermes disse-me que aquele amigo era também escritor e gostaria de escrever um romance espírita por meu intermédio.
Apresentou-me, dizendo-me que seu nome era Saulo e que em sua última vida na Terra vivera como cigano.
Hermes perguntou se eu aceitaria a parceria e eu respondi positivamente.
Desde aquele mês comecei a psicografar este livro e me envolvi bastante com a história.
O estilo de Saulo é diferente do de Hermes, mas sua proposta é a mesma:
divulgar o Espiritismo por meio de romances com fundo moral.
O tempo em que passamos escrevendo esta obra foi gratificante.
Agora, apresento-a ao público.
Espero que vocês, queridos leitores, que já apreciam meu trabalho com o mentor espiritual Hermes, possam também apreciar o trabalho do amigo Saulo, que, com muita simplicidade no coração, escreveu esta bonita, envolvente e instrutiva história de amor, mostrando que ninguém domina o coração e que devemos sempre nos colocar em posição de humildade sincera para que o mundo gire a nosso favor, proporcionando-nos muita paz, luz e felicidade.
Estes são os meus votos.

Maurício de Castro
13 DE FEVEREIRO DE 2012
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 07, 2018 9:08 pm

um - Os Gouveia Brandão
O sol já estava se pondo naquele primeiro dia de primavera quando Luciana decidiu ir até o jardim da grande mansão da família Gouveia Brandão para aproveitar o frescor do fim de tarde.
Era esse o momento em que ela mais gostava de estar a sós com seus pensamentos e suas emoções mais profundas, e o jardim, com sua natureza exuberante, era um convite sempre irresistível.
Luciana era uma bela jovem de 17 anos, alegre, cheia de vida e sonhos, mas ao mesmo tempo recatada e discreta, fruto da boa educação que recebeu de sua mãe Rita, que, embora de origem simples e sem muitos recursos, sempre primou por dar uma orientação à filha baseada nos bons costumes, na firmeza de carácter e na solidariedade.
Rita trabalhava para a família Gouveia Brandão havia muitos anos e quando chegou à mansão a filha ainda era um bebé rechonchudo de pele rosada.
Agora, Luciana já estava moça, e sua beleza, como haviam previsto, manifestava-se de forma mais evidente.
Sua altura era acima da média das meninas de sua idade, tinha o corpo esguio, cabelos compridos cor de mel e expressivos e brilhantes olhos castanho-esverdeados.
Era uma aluna aplicada, dedicada e estava se preparando para seguir o caminho profissional que escolhera desde menina: ser uma estilista.
Sempre estava com as revistas mais badaladas e conhecia com detalhes os trabalhos dos mais famosos estilistas do Brasil e do mundo.
A mãe teve o cuidado de economizar boa parte do dinheiro recebido por seu trabalho para investir em sua educação; sendo assim, conseguiu também colocá-la para cursar inglês.
Mas Luciana queria mais e, nas horas de folga, decidiu dedicar-se ao idioma francês, que aprendia de forma autodidacta, pois as economias não tinham sido suficientes para arcar com as despesas de dois cursos.
Luciana e Rita moravam em uma casa pequena, mas confortável, que ficava nos fundos da mansão, no bairro de classe média Campos Elísios.
A vida de Luciana era calma e tranquila e resumia-se aos estudos, a ajudar a mãe quando necessário e aos passeios que gostava de fazer com as amigas da escola, um grupo pequeno, mas bastante unido.
Só uma coisa inquietava o sereno coração de Luciana:
seu amor por Fabiano, filho de Arthur Gouveia Brandão, patrão de sua mãe.
Arthur perdera a esposa de forma trágica em um assalto quando Fabiano ainda era garotinho.
Para compensar a ausência da esposa e nutrindo certa culpa por não ter conseguido salvá-la do ataque do bandido, Arthur seguiu seus dias de viúvo se dividindo entre o trabalho e a dedicação total ao filho, suprindo-lhe todas as necessidades e atendendo a todas as suas vontades e desejos, não havendo nada que ele quisesse que não fosse prontamente providenciado pelo pai amoroso.
Isso acabou por fazer de Fabiano um menino muito mimado.
Agora, com dezanove anos, ele era rico, bonito, mas um tanto irresponsável.
Gostava de estar em todos os salões da alta sociedade, frequentava a Sociedade Hípica, onde praticava equitação e jogava ténis, mas seu estilo não era desportista, ele preferia as grandes noitadas com os amigos sempre acompanhadas de muita bebida e muitas mulheres.
Arthur era um grande empresário do ramo automotivo, possuía uma próspera montadora de automóveis que seria passada para seu único herdeiro no momento certo.
Quando o filho já estava na adolescência, Arthur, que era ainda jovem quando perdera a esposa, começou a se sentir sozinho.
Cada vez mais a ausência de uma companheira se fazia sentir em seu quotidiano.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 07, 2018 9:08 pm

Mas ele relutava ao pensar em colocar uma nova pessoa na vida deles.
Em razão de seus inúmeros negócios, Arthur viajava constantemente e, para prestar o auxílio necessário, contratara Rita, que acabou se tornando uma pessoa de sua inteira confiança.
Era ela quem cuidava de Fabiano nos períodos de ausência do pai.
Foi numa viagem que Arthur viu aquela mulher interessante pela primeira vez.
O saguão estava lotado, os voos atrasados devido ao mau tempo e o aeroporto fechado para pousos e decolagens por tempo indeterminado, restando apenas aos passageiros aguardarem.
Arthur então se dirigiu para o bar da sala VIP e assim que entrou a imagem daquela mulher magnífica lhe chamou a atenção.
Ela era alta, magra, vestia-se elegantemente com um tailleur azul-marinho com delicados detalhes brancos na gola e nos punhos do paletó; os sapatos eram da mesma cor e tinham saltos altos e finos.
Seus longos cabelos louros e lisos lhe emolduravam o rosto como raios de sol.
Usava jóias belíssimas e de muito bom gosto, o que lhe conferia um ar nobre e requintado.
Arthur ficou muito impressionado com sua beleza e, sem pensar ou premeditar seus actos, sentou-se ao seu lado e deu início a uma conversa, aproveitando-se da agora providencial confusão iniciada pela chuva.
Além de muito bonita, Laís também possuía uma boa conversa e sorriso avassalador.
Era dez anos mais jovem que Arthur e demonstrava possuir boa cultura e conhecer muitos países.
Não se aprofundaram nos detalhes da vida, porém ela logo lhe contou que havia cursado Direito para agradar aos pais, mas jamais exercera a profissão, preferindo viver com o dinheiro que ganhava de mesada e sob uma suposta vida de relações públicas, pois estava sempre em ambientes festivos e igualmente ricos.
Sua ânsia por aventuras fez com que ela jamais tivesse pensado em se casar e construir uma família.
Isso, a princípio, deixou Arthur um pouco decepcionado.
Mas o magnetismo de Laís fez com que o detalhe fosse rapidamente esquecido.
Por coincidência, ambos embarcariam no mesmo voo e para o mesmo destino.
Como o encontro havia sido muito agradável, no desembarque ambos trocaram números de telefone e combinaram um jantar depois dos compromissos daquele dia.
E os jantares se repetiram ao longo dos três dias que permaneceram na cidade.
Frequentavam sempre restaurantes caros e sofisticados porque Arthur de imediato captou as preferências de Laís.
No último dia ela sugeriu que ele trocasse a passagem para que também voltassem no mesmo avião, sugestão que ele atendeu prontamente.
Na véspera da viagem, tarde da noite, ele estava sozinho em sua suíte admirando pelas imensas janelas de vidro o parque à sua frente.
Pensava que depois de tantos anos de vida solitária voltava a sentir atracção por uma mulher; mas sabia que não devia apressar os acontecimentos, principalmente por causa de Fabiano e também porque, apesar dos bons momentos, não havia percebido o mesmo interesse da parte de Laís.
Ainda divagava sobre sua vida quando ouviu leves batidas à porta.
Ao abrir, ele ficou estático diante da deslumbrante figura de Laís, em um vestido branco leve e longo, quase transparente, com um grande decote, uma expressão convidativa no olhar e uma garrafa do melhor champanhe na mão direita.
Com a proposta de um brinde de despedida pelos dias agradáveis que passaram, ela se convidou a entrar, deixando Arthur quase sem acção.
Mas, levado pelos anos solitários, pela beleza estonteante da moça e por alguns goles da bebida, logo tinha Laís nos braços.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 07, 2018 9:08 pm

Trocaram beijos ardentes, correspondidos por ela sem a menor resistência, e iniciaram uma noite de amor intensamente perfeita e, sem dúvida, a primeira de muitas.
Ao retornarem a São Paulo, continuaram se encontrando diariamente, mas Arthur mantinha seu romance em segredo.
Fabiano estava sempre envolvido em suas festas e pouco parava em casa, não dava atenção ao que o pai fazia.
Rita havia percebido a mudança de hábitos do patrão, mas se mantinha numa distância discreta e nada comentou.
Só depois de algum tempo juntos, Arthur marcou um jantar em sua casa para finalmente apresentá-la ao filho e falar dos planos já traçados para o casamento.
Rita sentiu-se pouco à vontade com a novidade, e teve a intuição de que novos tempos não tão agradáveis estavam se aproximando; e seu pressentimento se confirmou na noite em que viu Laís pela primeira vez.
Ela estava usando um vestido curto e vermelho, os cabelos louros presos em um coque, um espectacular colar de pérolas e brincos formavam o jogo de jóias.
Ao passar por Rita, olhou-a com indiferença e mal a cumprimentou, indo directo para os braços de Arthur.
Rita pediu que Luciana fosse até o quarto de Fabiano apressá-lo para descer.
A moça estremeceu como sempre acontecia quando se aproximava do rapaz.
Subiu e bateu na porta do quarto e do interior ouviu a voz animada de Fabiano convidando-a a entrar.
Com timidez, ela abriu a porta, colocou a cabeça para dentro o suficiente para conseguir avistá-lo e deu o recado da mãe.
Ele a olhou, aproximou-se, segurou seu queixo e disse com muita calma:
- Oi, bonitinha, tudo bem?
Diga à Rita que já estou descendo, mas para o evento que me espera não tenho tanta pressa.
É uma boa ocasião para testar se minha futura madrasta é uma pessoa paciente - falou dando risada.
Ele realmente não estava levando a situação a sério.
Luciana virou as costas e se apressou em descer, sentindo o coração acelerado e as mãos transpirando.
Fabiano ficou na porta entreaberta observando-a e pensando:
"Hum, essa menina realmente cresceu e está muito bonita; como não reparei nisso antes?".
Assim, fechou a porta atrás de si e voltou para o quarto.
Quando Fabiano resolveu aparecer no living, Arthur já estava ficando impaciente e aborrecido com o que considerou uma indelicadeza do filho.
Quando Laís o viu, suas pupilas se dilataram, sua boca ficou levemente entreaberta e ela discretamente o examinou dos pés à cabeça.
Ele ainda estava com o cabelo molhado do banho que acabara de tomar e seu perfume envolveu toda a sala de forma suave; a roupa que ele usava, embora social, deixava seu belo físico em destaque, os ombros eram largos e os braços fortes, mas sem muitos músculos.
Fabiano e Arthur não perceberam a forma como ela reagiu diante do garoto, e a noite seguiu tranquila, sem nenhum incidente.
Apenas Rita continuou com a estranha sensação oprimindo seu peito.
A mesa do café da manhã já estava posta e Luciana ajudava a mãe a ajeitar os últimos detalhes quando ouviu Arthur e Fabiano descerem as escadas.
Luciana tentou se apressar para sair, mas eles entraram na sala de jantar e o patrão logo lhe dirigiu a palavra:
- Bom dia, Luciana!
Passou bem a noite?
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 07, 2018 9:09 pm

- Bom dia, sr. Arthur.
Passei sim, obrigada - respondeu timidamente com um sorriso.
Fabiano também a cumprimentou em seguida:
- Bom dia, Luciana.
Que bom que está aqui; por que não se senta connosco e nos acompanha no café?
Arthur olhou intrigado para o filho, surpreso diante da atitude dele.
Fabiano jamais tivera uma aproximação maior com Luciana e essa súbita demonstração de simpatia deixou o pai perplexo.
Criou-se um clima de certo constrangimento por parte de todos por alguns instantes, mas Arthur interveio rapidamente:
- Isso mesmo, Luciana, boa ideia.
Venha, acompanhe-nos no café; faz tempo que não conversamos um pouco.
Como vão os estudos?
- Não sei se devo - respondeu Luciana tentando disfarçar o nervosismo.
- Venha, menina - disse Arthur com um sorriso sincero, puxando uma cadeira e estendendo a mão para Luciana.
Ela se aproximou com passos hesitantes, agradeceu e se sentou no exacto momento em que Rita entrava com uma bandeja de frutas, que quase caiu quando ela viu o patrão sentado ao lado da filha.
Ao contrário de Fabiano, que agia de forma educada, mas indiferente com Luciana, Arthur sempre a tratou com muito respeito e carinho, pensando muitas vezes que ela era a filha que poderia ter caso sua mulher não tivesse partido tão cedo.
Procurava acompanhar o crescimento dela e sempre se prontificava a ajudá-la quando necessário, mas Rita costumava dizer que ele já fazia muito por elas e raramente aceitava que ele desse alguma ajuda, principalmente financeira.
Naquela manhã Arthur estava particularmente animado:
- E então, meu filho, Laís não é exactamente como lhe falei?
- Realmente, pai, ela é espectacular; inteligente, simpática, uma pessoa muito agradável.
É, claro, muito bonita - concluiu dando uma piscadinha para o pai.
Mas me diga, depois de tantos anos vivendo sua vida sem compromisso, o senhor vai mesmo se adaptar novamente à vida de casado?
- Meu filho, ainda sou jovem - respondeu com uma risada -, o tempo vai passar e logo você estará cuidando de sua vida, quem sabe até morando em outro lugar, quem sabe até casado...
Fabiano engasgou com o café e respondeu com uma careta:
- Pai, nem pense nisso!
Definitivamente casamento não está nos meus planos; olhe para mim!
Se o senhor é jovem eu sou um menino - e ambos riram deixando Luciana envergonhada por estar participando daquela conversa.
Arthur então se virou para ela e perguntou:
- E você, Luciana, sei que ainda é pouco mais que uma menina, mas já tem planos para sua vida como todas as jovens da sua idade?
- Não, sr. Arthur, nem penso nisso - respondeu tão baixinho que mal conseguiram ouvi-la.
Quero terminar meus estudos, conseguir um bom trabalho e só depois pensar nessas coisas.
- E se o príncipe encantado aparecer de repente? - interrompeu Fabiano com um tom malicioso na voz.
Luciana foi salva pela entrada de Rita que carregava o telefone para Fabiano atender uma ligação.
Ele se levantou deixando a sala de jantar e seguiu para outro aposento onde poderia falar com mais privacidade.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 07, 2018 9:09 pm

Arthur percebeu o desconcerto de Luciana e disse:
- Não se incomode, não dê importância para o que Fabiano fala e faz.
Você sabe como ele gosta de provocar e não leva nada a sério.
Desculpe, menina, vou ter de deixá-la agora.
Foi um prazer ter sua companhia durante o café, mas o trabalho me aguarda.
Ele se levantou, vestiu o paletó e pegou sua pasta, que Rita já havia levado até ele.
Quando estava saindo da sala, voltou-se para Rita e Luciana, que começavam a tirar a louça da mesa, e disse:
- E você, Rita?
Gostou de Laís?
- Claro que sim, doutor.
Ela já é muito especial por fazê-lo tão feliz!
E quando será o casamento, se me permite perguntar?
- Em breve, Rita, muito em breve.
- Acredito que teremos de fazer algumas mudanças na rotina da casa... - disse Rita com certo desânimo, que passou despercebido.
- Não se preocupe com isso agora; quando Laís estiver aqui tudo vai se ajeitando aos poucos conforme as directrizes dela - ele respondeu animado.
Fico feliz que tenha gostado dela.
Tenho certeza de que se darão muito bem.
Ela é um verdadeiro encanto.
Assim se despediu e saiu apressado, deixando Rita pensativa e apreensiva com o futuro.
Percebendo a tensão no rosto da mãe, Luciana falou preocupada:
- O que houve, mamãe?
Percebo que a ideia do casamento do sr. Arthur a deixa inquieta.
- Não é nada, minha filha, nada com que tenhamos de nos preocupar de facto.
Apenas tenho a impressão de que talvez essa dona Laís não seja exactamente o que mostra.
- Mas o que a faz pensar assim? - perguntou Luciana com a curiosidade aguçada.
- Nada de concreto, apenas a minha intuição e anos de experiência com a vida.
Mas vamos deixar esse assunto de lado, na verdade isso não nos diz respeito.
- Eu sei, mamãe, mas também sei que a senhora gosta muito do sr. Arthur e acho que está também preocupada com ele e Fabiano.
- Na verdade estou um pouco sim - comentou Rita com um olhar distante - mas como eu disse, isso não nos diz respeito.
Venha, ajude-me a tirar a mesa e, por favor, depois você pode verificar para mim se o jardineiro arrumou aqueles vasos perto do portão de entrada?
- Claro, mamãe, vejo sim; deixe que a ajudo a levar tudo isso para a cozinha e depois vou lá fora.
A senhora viu se o Fabiano saiu?
- Minha filha, já lhe falei para esquecer esse rapaz.
- Mas, mãe, só perguntei por perguntar, eu não...
Rita a interrompeu:
- Você nunca me confirmou nada, mas acho que não conheço minha única filha?
Acha que não percebo o brilho nos seus olhos quando Fabiano aparece?
Luciana corou diante da mãe e ficou sem argumentos.
Rita prosseguiu:
- Eu a amo muito e não quero vê-la sofrer.
Se você sente alguma coisa por esse rapaz, trate de voltar sua atenção para outras coisas, ou quem sabe, até mesmo um colega seu da escola, mas não alimente nenhum sentimento por Fabiano.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 07, 2018 9:09 pm

Eu gosto muito dele, cuidei desse menino como se fosse meu filho, mas você sabe que ele não tem lá muito juízo... sem falar das diferenças que existem entre vocês.
Luciana a olhou com um olhar doce e ingénuo:
- Como assim, mamãe? Diferenças?
Ele só é dois anos mais velho que eu.
Rita segurou as mãos da filha, olhou-a profundamente nos olhos e disse contendo a emoção:
- Meu amor, ele é filho do patrão e você, da empregada.
Não vamos mais falar disso.
Venha comigo.
Luciana suspirou fundo e seguiu para a cozinha atrás da mãe.
Quando tudo estava organizado, saiu para o jardim a fim de falar com o jardineiro.
Quando caminhava em meio às árvores, sentiu alguém segurar seu braço com firmeza e levou um susto.
Girou a cabeça de forma brusca, e Fabiano deu um pulo para trás simulando medo.
- Calma, Luciana, sou eu - falou rindo do olhar de espanto dela.
- Fabiano, você me assustou - respondeu passando as mãos pelos cabelos.
O rapaz ficou sério e se desculpou sinceramente por chegar até ela daquela maneira.
- Aonde está indo?
Vai sair? - questionou mais relaxado.
- Não, estou indo apenas verificar uma coisa com o jardineiro.
Está precisando de algo?
- Não. Apenas queria conversar um pouco.
Eu a acompanho e depois que você falar com ele podemos nos sentar aqui ou perto da piscina.
O que você acha?
Era a primeira vez que Fabiano a chamava para conversarem assim, e ela ficou em dúvida se deveria aceitar.
- Não sei se vai dar, preciso sair e passar na escola para resolver um trabalho que tenho de fazer e...
- Isso não é verdade, você está apenas se esquivando.
Antes de vir procurá-la falei com Rita e ela disse que você ficaria em casa a manhã toda - e apertou os olhos para ela indicando que a havia deixado sem alternativa.
Luciana deu um sorriso pensando que não poderia desperdiçar aquele momento com ele e disse:
- Está bem, você me pegou!
Vamos então e depois nos sentamos lá na piscina para conversar.
Ela estava exultante e se controlando para não demonstrar seus verdadeiros sentimentos, mas embora parecesse pouco, o facto de o moço lhe dar atenção já era motivo de felicidade.
Logo depois, sentaram-se na borda da piscina e Luciana disfarçou sua inibição brincando com a mão na água.
Foi ele quem puxou a conversa:
- Você chegou a ver a Laís? - perguntou tentando fazer com que ela se sentisse à vontade.
- Só a vi de longe, no jantar.
É muito bonita.
Você gostou dela?
- Na verdade gostei, mas nada em especial.
O importante é que papai goste dela e ela o faça feliz.
Se ele está bem, então tudo está bem.
Como ele disse hoje pela manhã... logo estarei seguindo meu caminho e é bom que ele tenha uma companheira.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 07, 2018 9:09 pm

- Você tem planos de se mudar daqui? - perguntou Luciana já temendo pela resposta.
- Não, claro que não.
Pelo menos por enquanto.
Dou-me bem com meu pai, tenho tudo e não preciso me preocupar com nada; por que iria querer sair de casa, não é?
- É verdade, não existe motivo para você deixar de morar aqui, a menos que queira se casar.
Aí vai querer ter sua própria casa, formar sua família...
Fabiano soltou uma estrondosa gargalhada e, levantando-se, respondeu:
- Você parece meu pai falando em casamento!
Eu não tenho o casamento como prioridade na minha vida.
Tenho muito ainda o que aproveitar, muitas garotas ainda para conhecer e namorar - e voltou a rir caminhando em volta da piscina - eu tenho o mundo inteiro para conquistar - gritou de braços abertos e dando um giro com o corpo, que quase o fez cair na água.
Luciana olhou para o céu como se quisesse descobrir onde estava esse mundo ao qual ele se referia, mas nada falou.
Ele voltou a sentar-se ao lado dela e continuou:
- Acho que um dia vou me apaixonar sim; mas penso que vai demorar muito ainda para que apareça alguém que desperte esse sentimento em mim. E você?
- Eu? Bem, você sabe, também tenho outras prioridades antes de pensar em me casar, mas que são bem diferentes das suas - concluiu olhando-o profundamente.
- Por que você é sempre assim tão séria, menina?
Tem de aprender a relaxar.
- Eu não sou séria, não assim como está falando.
Apenas acho que a vida nos cobra responsabilidades e que não podemos nem devemos fugir delas.
Ele não estava interessado em dar a ela a chance de começar a querer passar-lhe algum tipo de lição de moral, então se levantou novamente, estendeu as mãos para que ela se levantasse também, e disse:
- Tudo bem que temos responsabilidades, mas isso não nos impede de nos divertirmos.
E antes que ela pudesse esboçar qualquer reacção, ele a pegou no colo e pulou com ela para dentro da piscina.
Submergiram até o fundo e só então ele a soltou deixando que ela nadasse apressadamente em busca do ar, subindo em seguida logo atrás.
Quando já estavam na superfície, os dois caíram na risada, ela o considerando um doido, mas um doido maravilhoso.
E foi nesse momento que seus olhares realmente se cruzaram pela primeira vez... e que eles sentiram...
e souberam que algo mágico acabara de acontecer.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 07, 2018 9:09 pm

dois - Transformações
Com os preparativos para o casamento, a rotina na mansão da família Gouveia Brandão passou por uma grande transformação.
A todo o momento chegavam presentes para o casal.
Arthur combinou com Laís que ela levaria o que quisesse para a mansão, desde objectos pessoais até algumas peças de decoração que ela gostava e queria manter na sua nova residência.
Sendo assim, Rita fora instruída a permitir que Laís entrasse na mansão a qualquer momento para levar e organizar seus pertences.
Rita deveria estar sempre disponível para ajudá-la no que fosse necessário.
Arthur ainda frisou que dera carta branca à noiva para mudar algumas coisas se sentisse vontade; afinal, ela agora seria a nova dona da casa e tinha esse direito.
Laís rapidamente assumiu seu novo posto.
Ela aparecia na mansão quase todos os dias, em horários totalmente diversos e sem avisar.
Às vezes, chegava sozinha e em outras acompanhada de diversos carregadores com caixas dos mais variados tamanhos e conteúdos.
Mas, em nenhuma dessas visitas, ela se propusera a tratar Rita de forma mais cordial.
Dirigia-lhe a palavra muito raramente e evitava pedir-lhe opinião sobre o que quer que fosse, mostrando que todas as decisões seriam tomadas unicamente por ela sem interferência de ninguém.
Rita procurava manter-se em seus aposentos ou na cozinha sempre que a nova patroa estava na casa.
Evitava ter de se esforçar para disfarçar o quanto aquela presença a incomodava.
Luciana, desde que estivera com Fabiano na piscina, parecia que vivia no mundo das nuvens, e mesmo não tendo, após aquele dia, nenhum outro momento ao lado dele, sentia-se feliz e sonhava mais do que nunca.
Uma tarde ela passava distraída pela sala quando deparou com Laís na porta de entrada.
Luciana tentou recuar, mas não teve tempo; Laís a chamou:
- Garota, venha até aqui!
Luciana dirigiu-se até Laís e tentou cumprimentá-la de maneira gentil e amigável, mas esta a ignorou:
- Você é a filha da empregada, não é? - questionou de forma arrogante.
- Rita... o nome de minha mãe é Rita... - e antes que pudesse continuar, Laís deu de ombros e continuou:
- Ah! Isso não faz a menor diferença.
Preciso que você pegue umas bolsas para mim no meu carro.
Esses carregadores que contratei são uns incompetentes e fogem do trabalho.
Uma cambada de imprestáveis.
- Senhora, eu...
- Vamos, garota, mexa-se.
Pensa que tenho o dia todo? - e entrou na casa em direcção à escada.
Quando estava começando a subir, voltou-se para a porta e acrescentou:
- E veja se não demora; leve tudo para o quarto de hóspedes que depois eu ajeito.
Não admito que ninguém mexa em minhas coisas.
E assim que terminar me traga algo gelado para beber... esse calor está me matando!
Vá... ande! - continuou subindo sem mais olhar para trás até desaparecer no hall dos aposentos íntimos.
Luciana ficou em pé na porta, ainda atónita com a atitude da mulher.
Até aquele momento elas pouco haviam se visto e o que aconteceu deixou-a em choque.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 07, 2018 9:10 pm

Ficou por alguns instantes sem saber o que fazer, mas ponderou e achou melhor fazer exactamente o que Laís havia pedido.
Deixou as bolsas no quarto, foi até a cozinha, pegou uma bandeja com uma jarra de suco de laranja e um copo e subiu.
Quando bateu à porta do quarto onde Laís estava, ouviu sua voz denotando impaciência:
- Entre logo; demorou muito.
Coloque tudo aí na mesinha e pode ir.
E só volte aqui se eu chamar.
E avise o mesmo para a empregada - e fez um aceno com a mão para que ela saísse, sem agradecer.
Quando Luciana entrou em sua casa, a mãe estava no quarto arrumando a cama.
Quando Rita olhou para a filha e a viu pálida, foi abraçá-la e perguntou:
- O que aconteceu?
Você está com os olhos húmidos, com vontade de chorar.
- Mãe, essa noiva do sr. Arthur é horrível... - e caiu em prantos.
- O que ela lhe fez, meu amor? - perguntou Rita sentindo uma raiva imensa brotar dentro de si.
Luciana ficou abraçada à mãe por alguns instantes e depois, um pouco mais calma, retorquiu:
- Mãe, ela é arrogante e mal-educada.
Humilhou-me; tratou-me como se eu não fosse nada, e deixou claro que a senhora também é um nada!
Estou assustada, mamãe; como será nossa vida com essa mulher morando aqui?
O sr. Arthur sempre foi tão bacana!
Até Fabiano está se tornando mais meu amigo...
Como vamos suportar a presença dela?
Rita acariciou o cabelo da filha e falou tentando acalmá-la:
- Não se impressione; ela deve estar nervosa com tantas providências a tomar para a festa.
Não leve em consideração sua atitude nesse momento.
Se conquistou o sr. Arthur, deve ser boa pessoa.
Vá lavar o rosto e esqueça o que passou.
Quando Luciana foi para o banheiro, Rita parou diante do espelho e seu olhar lhe confirmou que ela mesma não tinha convicção do que havia dito instantes atrás.
Naquele dia, Laís ficou na casa até o anoitecer, aguardando Arthur para tomarem um drink; depois sairiam para jantar.
Ambos estavam na varanda onde Rita os serviu com uma bebida e alguns canapés, quando Fabiano chegou animado:
- Boa noite a todos - falou alegremente dirigindo-se também à Rita, que estava em pé ajeitando alguns guardanapos.
Ela respondeu com um aceno de cabeça e um sorriso, e continuou seu trabalho.
Estava em um canto da varanda e era realmente como se fosse invisível para Laís.
Aproveitando-se disso, ficou por ali mais um pouco tentando observar a cena da família reunida.
Sabia que isso era feio, mas precisava tentar confirmar ou não sua primeira impressão sobre aquela mulher.
Laís disse correspondendo à alegria do enteado:
- Que bom que chegou, Fabiano!
Venha, junte-se a nós e beba alguma coisa.
Esse era um convite que ele jamais recusava, e logo Rita já estava lhe entregando um copo.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 07, 2018 9:10 pm

- E então, o que fazer nesta noite tão agradável? -
Fabiano perguntou já planejando receber um convite interessante.
- Nós vamos sair para jantar em um restaurante maravilhoso que seu pai adora.
Porque não nos acompanha?
Arthur, que até então não havia se manifestado, virou-se para Laís com um sorriso e disse:
- Ora, meu bem, com certeza Fabiano tem algo mais interessante para fazer do que sair em nossa companhia.
- É mesmo, que cabeça a minha!
Sair e ficar segurando vela não é definitivamente a melhor opção, não é?
Fabiano contestou:
- De forma alguma; eu teria imenso prazer em estar com vocês, mas realmente já assumi um compromisso com alguns amigos - mentiu sem o menor pudor.
Mas sair para jantar com os dois definitivamente não era o convite que ele esperava.
Se fosse alguma boa festa aí sim ele aceitaria com prazer.
- Ah, que pena - lamentou Laís com uma expressão decepcionada -, mas aproveitando que está aqui, gostaria de pedir-lhe um favor, Fabiano.
- Se estiver ao meu alcance farei com prazer.
- Quase todas as tardes tenho vindo para cá para trazer meus objectos pessoais.
Será que de vez em quando você poderia passar algumas dessas tardes comigo?
Às vezes preciso de alguma ajuda para tomar uma decisão e não gosto de incomodar seu pai no trabalho.
Com você aqui ficaria mais fácil.
O que acha?
- Bem, geralmente durante o dia eu passo muito tempo na Hípica e tenho meus treinos...
O pai o olhou arqueando a sobrancelha.
No mesmo instante, Fabiano completou:
- Mas claro que posso adaptar meus horários para poder ajudá-la e não interromper o ritmo da minha preparação para o próximo campeonato - concluiu, piscando para Arthur que retribuiu com um sorriso.
Embora Fabiano fosse um rapaz até certo ponto inconsequente e mimado, tinha verdadeira adoração pelo pai e ambos sempre foram muito companheiros e amigos.
E fazer algo maçante, mas que deixaria o pai feliz, para ele deixava de ser um sacrifício.
Passar algumas tardes em casa com Laís era no mínimo entediante, mas depois ele se deu conta de que Luciana costumava passar as tardes em casa, e até que a oportunidade de estar com ela outras vezes começara a lhe agradar mais do que ele esperava.
Laís, a todo o momento, voltava-se para Arthur com o olhar lânguido, acariciava seus cabelos e enviava-lhe beijinhos.
Falava com tanta doçura quando se dirigia a ele e com tanto bom humor e educação quando se voltava para Fabiano que custava a Rita acreditar que ela fora capaz de uma atitude tão desprezível quando encontrou Luciana mais cedo.
Foi então que se deu conta de que Laís era a pessoa mais dissimulada que ela já havia encontrado na vida.
Essa constatação a deixou ainda mais preocupada.
Mais tarde, quando o casal já havia saído, Rita fechou tudo e se recolheu.
Luciana ficou na frente de sua casa admirando a noite, que estava maravilhosa, com um manto prateado de luar recobrindo todo o jardim.
Ouviu passos suaves trilhando o caminho de pedras que ligava a mansão à sua casa nos fundos e quando se virou na direcção daquele som, deparou com Fabiano se aproximando.
Dessa vez, ela não ficou nervosa, mas sim calma e feliz em vê-lo.
- Oi, Fabiano, pensei que você havia saído também.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 07, 2018 9:10 pm

- Não, não tive vontade - respondeu quase num suspiro.
Ela olhou para o céu e ele acompanhou seu olhar dizendo:
- Uma noite assim deve ser aproveitada e seria desperdício estar fechado em alguma festa barulhenta e repleta de gente.
- Concordo.
Essa quietude e esse luar transmitem tanta paz, tanta tranquilidade...
- Vamos nos sentar um pouco aqui fora, Luciana?
Ainda é cedo.
Prometo que hoje não vamos tomar nenhum banho de piscina - falou pegando na mão dela e a levando até um banco do jardim.
Sentaram-se lado a lado, bem próximos, e ele continuou a falar:
- Não sei o que está acontecendo comigo; de um momento para o outro não tenho mais sentido vontade de sair todas as noites.
Ela respondeu tentando descobrir se ele estava com algum problema que quisesse dividir com ela:
- Aconteceu alguma coisa?
Algum facto o aborreceu?
- Não, nada aconteceu.
- Talvez você esteja se sentindo cansado apenas.
Ele ficou com o olhar meio vago, cruzou os braços e deu uma leve mordida nos próprios lábios como se nem ele mesmo soubesse o motivo do desinteresse pela vida que adorava.
- Tenho achado a minha turma chata.
Sempre os mesmo assuntos, as mesmas brincadeiras, os mesmos lugares...
tudo é um tédio.
Ela o olhou, ajeitou-se para ficar de frente para ele, e disse suavemente:
- Acho que você está ficando mais maduro.
Ele a olhou de lado:
- Só falta você dizer que estou virando um homenzinho - e riu da bobagem que dissera.
Ela deu um leve beliscão no braço dele e falou fingindo estar zangada:
- É sério! Você achou que ia passar a vida toda só aproveitando as festas, as mulheres, achou que sua vida ia se resumir a isso?
Ele balançou a cabeça afirmativamente de forma vigorosa.
Naquele momento ela não se conteve, deu um leve tapa no braço dele e uma risada.
- Você não tem jeito mesmo.
Estou aqui bancando a boba e tentando ajudá-lo e você fica zombando da minha cara.
Mas, acredite, você não conseguiria passar a vida toda só na farra.
Pela sua formação, pela maneira como foi educado, um dia iria se cansar. E parece que esse dia chegou mais cedo do que se imaginava.
- Não estou certo se é isso - disse ficando em pé e começando a andar de um lado para o outro.
É verdade que já estou um pouco enjoado de tudo, como lhe falei, mas não sei se é só isso... sinto que tem algo mais que está me deixando inquieto, como um animal enjaulado, sabe como é?
- Sim, imagino!
Mas com certeza você está passando por alguma profunda transformação interior e como ainda não entendeu a mensagem sente-se assim.
Ele sentou-se novamente, olhou para ela e perguntou intrigado:
- Você ainda é uma menina, mais nova do que eu, como pode entender dessas coisas?
- É que em vez de desperdiçar meu tempo em festas, cresci lendo muito, aprendendo muitas coisas com a experiência de vida de minha mãe e de outras pessoas mais velhas, por quem sempre tenho muito respeito.
Você Ninguém domina o coração está diante de uma menina com alma de gente grande - e dessa vez foi ela quem se levantou como se quisesse demonstrar um ar de superioridade.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 07, 2018 9:10 pm

Fabiano a olhou intrigado, sem saber o que dizer.
Ela então continuou:
- Pode ter certeza de que você vai descobrir novos caminhos e tenha certeza: eles são inevitáveis.
Falando isso, ela olhou para o relógio de pulso e achou que era hora de entrar.
- Vou dormir.
Você ainda vai ficar aqui fora?
- Ainda é cedo, podemos ficar mais.
Contudo, como Luciana estava decidida, ele não teve opção a não ser acompanhá-la até a porta da casa dela.
Quando ela ia desejar-lhe boa-noite, ele a segurou pela mão, aproximou-se e lhe deu um beijo no rosto.
- Boa noite, Luciana, durma bem e obrigado pela companhia.
Ele virou-se e caminhou lentamente de volta para casa, chutando displicentemente pequenas pedrinhas no chão e sem olhar para trás.
Luciana entrou em casa acariciando o rosto e naquela noite demorou a pegar no sono.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 07, 2018 9:10 pm

três - A festa
O dia do casamento finalmente chegou.
A cerimónia civil e a recepção seriam realizadas no imenso jardim da mansão, e o dia mal havia amanhecido quando começaram a chegar o serviço de buffet e a equipe responsável pela decoração.
Arthur resolvera sair e só voltar no fim da tarde porque não tinha muita habilidade para ajudar nos preparativos.
Laís só chegaria na hora da festa, pois teria o dia inteiro voltado para seus cuidados pessoais no salão de beleza.
Fabiano também se levantou cedo e saiu sorrateiramente para a Hípica antes que alguém tratasse de lhe incumbir de alguma tarefa.
Como sempre, a dedicada e organizada Rita ficou responsável por organizar tudo, contando sempre com a ajuda de Luciana.
Quando os convidados começaram a chegar, a equipe de serviço já estava lá com Arthur pronto para receber os amigos.
Laís havia chegado no começo da noite e estava trancada no quarto com sua costureira e o cabeleireiro que a haviam acompanhado para dar os retoques finais; ela só desceria na hora da cerimónia.
Logo que chegou, dirigiu-se a Rita em um tom imperativo e frio:
- Em hipótese alguma quero ser incomodada até a hora de descer para a festa.
Por esse motivo, leve imediatamente água e suco para a suíte e alguns biscoitinhos caso meus assistentes sintam fome.
Preciso relaxar e estar maravilhosa como nunca nesta noite.
Rita a olhava respeitosamente, mas nada dizia.
Limitou-se a assentir com um gesto de cabeça que cumpriria o determinado.
Como não disse nada, a outra se irritou:
- Eu achei que você era capaz de se expressar melhor; não fique me olhando com essa cara de tonta.
Quero ficar em paz até o momento da festa.
Ficou claro?
Você é capaz de me responder verbalmente como as pessoas inteligentes ou vai ficar só balançando a cabeça? - perguntou elevando um pouco o tom da voz.
Rita tremia por dentro, mas, sem demonstrar, respondeu com a voz firme:
- Sim, senhora, entendi perfeitamente que não deseja ser incomodada em hipótese nenhuma até a hora da festa.
Não se preocupe, assim será feito.
- Melhor que tenha entendido e que não me aborreça.
De agora em diante muita coisa vai mudar aqui e cada um terá de entender de uma vez por todas onde é seu verdadeiro lugar - falou olhando para o cabeleireiro que estava ao seu lado assistindo a tudo com os olhos arregalados e segurando a respiração, e continuou:
- Sabe, Jean, existem pessoas que não podem ser bem tratadas, pois começam a tomar ares de donas da casa!
Mas sei como dar um fim nisso sem muito esforço - e olhou novamente para Rita com um sorriso irónico.
Retirou-se com o acompanhante e Rita ficou em pé sem sair do lugar até se recuperar do mal-estar que Laís havia lhe causado.
Rita ficou imaginando por que Laís tratava a ela e à filha com tanta falta de respeito e maldade.
O que Rita ainda não sabia, é que quando Arthur e Laís se conheceram, ele falou muito bem dela e da filha, e o quanto Rita tinha sido importante e fundamental para o crescimento saudável de Fabiano.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 08, 2018 9:14 pm

Com a morte da esposa, Rita fez tudo não só pelo menino, mas também pelo pai.
Ela cuidava de ambos com muita dedicação, respeito e muito carinho.
Sentia o coração partido quando via um homem tão jovem e bonito como Arthur dedicando sua vida apenas ao trabalho e ao filho.
Rita adorava fazer as comidas que eles mais apreciavam, deixava as roupas de Arthur sempre do jeito que ele gostava, arrumava a casa de modo que eles sentissem que havia alguém que se importava muito com o bem-estar deles.
E os dois reconheciam isso e também nutriam por Rita um grande carinho e gratidão.
Quando Arthur contou tudo isso para Laís, ela comentou o quanto era bonita a dedicação de Rita e disse que ficava feliz em saber que eles haviam tido alguém que cuidasse de tudo por todos aqueles anos.
Arthur ficou comovido com as palavras da namorada.
Mas em seu íntimo Laís foi imediatamente tomada por um imenso desprezo pela mãe e pela filha, e naquele momento decidiu que elas não ficariam nessa posição privilegiada dentro daquela casa.
Rita era apenas uma serviçal e não fizera nada além de sua obrigação; afinal, recebia para isso.
E a garota era a filha da empregada, já era uma moça e estava na hora de começar a servir a família também; estava na hora de acabar com a ilusão de que ela era uma menininha rica, apenas estudando e não trabalhando.
Mas ela trataria de colocar tudo em ordem e mostrar quem mandava na casa e decidia o que era melhor para Arthur e Fabiano.
Quando o Juiz de Paz chegou, Rita, para não ter de subir até a suíte onde Laís estava, pediu que o copeiro do buffet fosse avisá-la.
Pouco tempo depois, ao som da orquestra contratada por Arthur, Laís surgiu no topo da escada sob os olhares extasiados de Arthur, Fabiano e todos os convidados.
Ela estava sumptuosamente vestida com um longo de musselina de seda pura rosa-bebé, corte recto, que alongava ainda mais sua silhueta e conferia um ar ainda mais altivo, com pequenos bordados em um tom de rosa mais escuro.
O cabelo repousava impecavelmente em seu ombro direito com uma longa trança loura onde podiam ser vistos vários pequenos brilhantes que acompanhavam o entrelaçado de cada mecha.
Arthur estava orgulhoso da mulher que escolhera e convicto de que não poderia estar mais feliz.
Foi recebê-la ao pé da escada, beijou-lhe a face e juntos caminharam até onde o juiz os aguardava.
Como não podia ser diferente, a festa foi perfeita e um sucesso.
A comemoração foi até o meio da madrugada, quando os noivos partiram para uma curta e rápida lua de mel por conta dos compromissos de Arthur na empresa.
Fabiano passou a noite se empenhando em atrair a atenção da filha de um empresário amigo de seu pai, e, claro, conseguira e também saíra com ela sem saber a que horas voltaria.
Só quando a casa estava envolta totalmente no acolhedor silêncio da noite, é que Rita deixou o corpo cair em uma poltrona da sala.
Estava exausta não apenas por todo o trabalho que tivera, mas também pela diversidade de emoções que sentira desde que Laís passou a fazer parte de seus dias.
Luciana também estava cansada e sentou-se no chão, ao lado da mãe, apoiando os braços e a cabeça nas pernas de Rita, que logo começou a acariciar-lhe os cabelos.
- Pensei que essa festa não terminaria nunca, mãe - disse Luciana com as palavras entrecortadas por um preguiçoso bocejo.
- É, minha filha, todos estavam aproveitando tanto que ninguém queria ir embora - acrescentou Rita com um sorriso.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 08, 2018 9:14 pm

- Mas agora precisamos descansar e com certeza teremos um bom período para isso com a viagem do sr. Arthur e da bruxa - Luciana não conteve o riso.
Rita tentou, mas também riu das palavras da filha, não deixando de repreendê-la:
- Luciana, você não deve falar assim, embora eu ache que ela até mereça - e riu novamente -, mas a partir de agora é a ela que teremos de atender e obedecer, e temos de lembrar o quanto o sr. Arthur está feliz.
Não seremos nós que criaremos problemas para ele, certo?
É nosso dever manter o ambiente tranquilo e colaborarmos com isso da forma que estiver a nosso alcance.
- Está certo, mãe.
Farei tudo certinho por ele... mas ela é mesmo uma bruxa!
Ambas saíram da sala abraçadas ainda rindo da situação.
Rita levava em seu coração a esperança de dias repletos de harmonia e paz para todos.
Apenas cinco dias se passaram até o primeiro café da manhã do casal na nova vida em casa.
Rita, dedicada como sempre, havia preparado uma espectacular mesa de boas-vindas com diversos tipos de queijos e frutas, croissants recheados e quentinhos, brioches e geleias, além de leite, café e torradas.
Enfeitou a mesa com delicadas flores brancas colhidas no jardim, deixou o jornal que Arthur gostava de ler na mesinha próxima ao lugar onde ele se sentava e quando eles desceram, Arthur ficou feliz em ver tudo preparado com tanto cuidado e delicadeza:
- Rita, que belo desjejum!
Muito obrigado, está um espectáculo e eu estou faminto.
Não está uma beleza, querida? - disse animado voltando-se para Laís.
Ela esboçou um sorriso e respondeu sem nem olhar para onde Rita estava:
- Está sim, meu amor!
- Então venha, vamos desfrutar desses últimos minutos de tranquilidade saboreando essas delícias que Rita providenciou para nós.
Você sabe que hoje preciso voltar para o escritório e checar como as coisas ficaram na minha ausência.
- Ah, querido, que pena!
Pensei que você ainda passaria o dia de hoje em casa.
Como vou aguentar ficar longe de você até a noite? - disse Laís de forma dengosa e se aproximando do pescoço do marido.
Arthur ficou sem graça com a presença de Rita, deu uma pigarreada e respondeu:
- O dia vai passar rápido e você com certeza nem sentirá.
Sei que não sairá hoje, então por que não aproveita e toma um banho de sol?
A água da piscina está com uma temperatura óptima.
Assim você se distrai e quando se der conta, já estarei de volta.
Ela assentiu com a cabeça mostrando conformismo, tomaram o café conversando sobre a viagem e, em seguida, ele foi para a empresa.
Fabiano ainda estava dormindo.
Laís não se levantou da mesa assim que o marido saiu.
Tocou a sineta usada para chamar Rita, que a atendeu prontamente.
- Pois não, senhora?
Laís ficou calada observando Rita atentamente por alguns instantes e só depois de algum tempo falou secamente:
- Essa sua roupa está horrorosa!
Bem se vê que nunca ninguém desta casa se preocupou em orientá-la sobre como uma empregada de uma família rica deve se vestir.
Você está um lixo e nessas condições não pode nem atender à porta para receber algumas de minhas amigas.
Rita sentiu as pernas bambas e teve de se apoiar discretamente no encosto de uma cadeira para recuperar o equilíbrio.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 08, 2018 9:14 pm

Laís continuou:
- Sei que no ambiente onde você deve ter nascido e se criado esse trapo que está vestindo parece roupa de festa - e soltou uma gargalhada baixa - festa... fiquei imaginando uma festa para seus amigos, você deve servir muita coxinha, empada e brigadeiro, não é?
Rita não conseguiu responder.
Laís insistiu:
- Diga-me, não são assim as festinhas cafonas que você frequenta com seus amigos?
Quando eu fizer uma pergunta exijo que responda!
Rita falou sentindo um nó apertando-lhe a garganta:
- Senhora, eu não costumo frequentar festas.
Minha vida é meu trabalho e minha filha.
Dessa vez, Laís riu mais alto e falou:
- Previsível!
Mas sua vida social - riu novamente - não me interessa nem um pouco para falar a verdade.
Só quero avisá-la que irei pessoalmente comprar uniformes para você usar, vários diferentes e específicos para cada ocasião e não vou admitir que você os use de forma inadequada e diferente da que eu determinar, entendeu direitinho?
- Claro, senhora!
Como quiser.
- Como eu quiser!
Exactamente isso, você até que aprende rápido para alguém do seu nível.
Como eu quiser e como eu mandar.
- O sr. Arthur nunca...
Laís franziu a testa, deu um tapa na mesa e a olhou com olhos de fúria:
- Nem uma palavra mais.
Meu marido tem de se ocupar com o trabalho dele, nossa empresa e nosso património, não pode perder tempo com as orientações da casa.
Quem determina tudo aqui a partir de agora sou eu, sua patroa e dona desta casa.
Nunca se atreva a me contestar ou descumprir uma ordem minha que coloco você e aquela encostada da sua filha no olho da rua!
E pode ter certeza de que sei direitinho como fazer para que Arthur acate minha decisão.
Rita estava começando a sentir-se mal, estava pálida e não acreditava em tanta agressividade gratuita.
Mas a munição de Laís ainda não tinha acabado:
- Ah, e por falar na encostada da sua filha... a boa vida acabou!
Ela não vai mais se aproveitar do bom coração de meu marido.
A partir de hoje ela vai trabalhar na faxina, vai cuidar da cozinha e da lavandaria!
Nesse momento Rita não se conteve e falou quase em prantos:
- Mas, senhora, ela estuda muito, e o sr. Arthur sempre disse que ela precisava priorizar os estudos e...
- Eu não disse?
Uma aproveitadora!
Ela que estude à noite, que passe as madrugadas estudando se é tão dedicada, não me interessa; a partir de hoje ela é uma empregada como você e as outras desta casa.
E cale a boca que o assunto está encerrado!
E mais uma coisa: os croissants não estavam na temperatura adequada e as torradas não estavam suficientemente crocantes.
Não sei como Arthur e Fabiano viveram cercados de tanta incompetência.
Ou você começa a fazer as coisas como devem ser ou arrumo logo outra pessoa mais inteligente e gabaritada, com conhecimentos para substituí-la.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 08, 2018 9:14 pm

E falta muito pouco para isso.
Não preciso de muitas evidências mais para ter certeza de que você não possui nível suficiente para atender a pessoas de classe como nós.
Minhas amigas têm empregadas fantásticas, educadas e cientes da função que exercem e será fácil pegar uma indicação.
Por tudo isso, ou você anda na linha ou estará logo fora desta casa e voltando para o subúrbio de onde deve ter saído.
Levantou-se, jogou o guardanapo em cima da mesa e saiu sem dar chance a Rita de dizer qualquer coisa.
Quando Rita achou que estava livre, Laís voltou:
- Minha mesa de refeições não é um velório; muito mal gosto o seu colocar essas flores brancas.
Jogue tudo isso no lixo e substitua por flores vermelhas.
Quero sempre flores vermelhas, por toda a casa, frescas e bem cuidadas.
E se não encontrar no jardim, vire-se para consegui-las!
Flores vermelhas sempre; nunca esqueça.
E saiu novamente, desta vez deixando a sala definitivamente.
Rita correu para sua casa, entrou apressada no banheiro e vomitou!
*
Era a primeira vez em tantos anos servindo a família Gouveia Brandão que Rita sentia-se incapaz de ter forças para cumprir suas tarefas.
Ao sair do banheiro, prostrou-se na cama sem coragem sequer de falar.
O corpo todo lhe doía, resultado da contracção muscular ocasionada por tanta tensão.
Por sorte Luciana estava na escola e não a veria naquelas condições.
Ainda tinha bastante tempo até a hora do almoço e decidiu descansar um pouco rezando para que Laís não fosse procurá-la.
Rita era ainda jovem, estava chegando aos quarenta anos, mas a vida sofrida que tivera antes de ser admitida por Arthur lhe conferira sempre uma aparência mais velha.
Ela jamais conheceu sua mãe, que abandonara a família fugindo com um trapezista de um circo que havia parado na cidade.
O pai era um bom homem, de bom coração e trabalhador, mas após a fuga da mulher, perdeu o encanto pela vida e entregou-se ao álcool.
Continuava tratando os dois filhos, Rita e seu único irmão mais velho, com carinho e atenção, mas vivia encostado pelos cantos, destruindo-se pela bebida.
O irmão de Rita, apesar de mais velho, não havia amadurecido no tempo certo, e, aos poucos, foi-se revoltando com a situação na qual vivia, achando que a vida estava sendo injusta demais com eles.
Acabou se envolvendo com uma turma de sua cidade que usava drogas e não trabalhava.
Um dia, Rita foi chamada à delegacia porque ele havia sido preso por furto.
Como não houve violência no delito, a fiança foi pequena e ela conseguiu levá-lo para casa.
Mas esse foi só o início de uma vida de crimes, cada vez maiores e mais violentos, que culminou na morte dele em uma troca de tiros com a polícia.
Ela então, já uma adolescente, começou a fazer pequenos trabalhos para garantir seu sustento e do pai.
Trabalhava como diarista, fazia biscoitos para vender nas pequenas lojas de rua, consertos em roupas e recebia encomendas como lavadeira.
Sua vida era difícil e cansativa.
Muitas vezes em sua cama, à noite, chorava muito e rezava pedindo a Deus que tivesse forças para continuar.
Sentia a revolta envolver-lhe a mente e o coração, mas lembrava-se do rumo tomado pelo irmão, guiado pela revolta, e rezava ainda mais para livrar-se desse sentimento.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 08, 2018 9:14 pm

Uma noite, quando chegava exausta do trabalho, encontrou seu pai morto no chão da pequena e escura sala de sua casa.
Ele estava deitado de barriga para cima, com um copo caído ao lado do corpo, e com uma expressão facial tão serena que parecia estar dormindo. Rita concluiu que não houve sofrimento no momento final.
Ela nunca soube a causa da morte dele; os pobres quando morriam não despertavam interesse de nenhuma autoridade para saber a causa mortis e ele rapidamente foi enterrado numa cova rasa, em um caixão que mais parecia um caixote.
Completamente sozinha no mundo, Rita continuou sua luta, agora mais do que nunca precisando encontrar um caminho para adquirir um mínimo de segurança e condições de se manter.
E foi nessa época que conheceu Moacir, um homem já na casa dos cinquenta anos, mas ainda muito bonito e sedutor.
Ela logo se encantou, e embora não soubesse que profissão ele tinha exactamente, observou que vivia usando grossas pulseiras e grandes cordões de ouro; possuía um bom carro e uma casa confortável.
Começaram a namorar.
A vida mais tranquila e os passeios que faziam conquistaram o coração da jovem, que se apaixonou verdadeiramente por ele.
Um dia ele a chamou para sair e disse:
- Você me cativou logo que a vi, minha paixãozinha!
Sei que não estamos juntos há muito tempo, mas é o suficiente para eu ter certeza de que quero realizar com você o maior sonho de minha vida!
Naquele momento, Rita teve certeza de que ouviria o pedido de casamento tão esperado, mas o que ouviu de Moacir a seguir a deixou totalmente perplexa:
- O maior sonho de um homem é ter alguém que seja seu herdeiro de nome e de bens.
Eu sempre quis ter um filho, mas estava esperando a mulher certa, aquela que eu amaria para sempre e que seria a melhor mãe do mundo para meus filhos.
E eu a encontrei em você.
Rita o olhou com os olhos marejados:
- Meu querido, essa foi a declaração de amor mais linda que já existiu.
Ele segurou seu rosto, beijou seus olhos para conter as lágrimas, e prosseguiu:
- Por razões pessoais e muito íntimas, não desejo me casar; factos do meu passado me causaram um trauma que não gosto de mencionar - disse franzindo a testa como se a lembrança lhe causasse profunda dor.
Mas gostaria que você parasse de trabalhar e fosse viver comigo, com todo o conforto e que tentássemos ter nosso filho.
Você aceita?
A questão sobre o casamento não importava para Rita, e, em respeito a dor dele, não perguntou sobre seu passado.
O que importava é que eles se amavam, viveriam juntos e ela teria uma vida segura e tranquila como sempre sonhara.
Logo nas primeiras tentativas, Rita engravidou.
Estava radiante e com o pretexto de resguardar sua saúde, Moacir pedia que ela não saísse muito.
Quando ela pedia para saírem e comprar o enxoval do bebé, ele argumentava que o melhor era esperá-lo nascer, providenciar somente o básico e depois comprar o que combinasse com a linda carinha dele.
Rita estava exultante de tanta felicidade e de tanto carinho por parte dele.
Seria de facto um pai maravilhoso.
O dia do parto chegou e Rita foi calmamente para a maternidade escolhida por Moacir.
Todo o pré-natal havia sido feito correctamente, com um bom médico que garantiu a saúde e integridade física de mãe e filha.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 08, 2018 9:15 pm

Moacir estava se mostrando o mais zeloso dos pais e muito companheiro.
Ele insistiu que fosse marcada uma cesariana explicando que o parto normal, apesar de natural, era mais sofrido para mãe e para o bebé.
Rita como fazia sempre, acatou a sugestão.
A menina nasceu linda e forte e recebeu o nome de Luciana.
Por medo de infecções hospitalares tornara-se um hábito, já naquela época, as mães permanecerem o menor tempo possível internadas após o parto.
No dia seguinte ao nascimento, Moacir levou-a para casa com a filha.
Sempre demonstrando muito cuidado com a família, contratou também uma enfermeira para que lhes desse toda a assistência necessária.
Levaria aproximadamente uma semana até que Rita voltasse ao médico para retirar os pontos da cirurgia.
Nesse período, ela sentiu alguns desconfortos e um pouco de dor, mas a enfermeira, muito prestativa, logo a atendia com analgésicos e tranquilizantes.
A tarde já havia chegado quando Rita acordou.
Ainda muito sonolenta, foi tentando sair da cama para ir ao banheiro, mas seu corpo pesava como chumbo.
Com muito esforço ficou em pé e chamou pela enfermeira.
Ninguém respondeu.
Chamou novamente... nada!
Caminhou devagar até o berço da filha e viu que ele estava vazio.
Ainda cambaleante, conseguiu chegar ao corredor imaginando que a criança estivesse na sala ou na cozinha com a enfermeira.
Quando nada encontrou, seu corpo começou a despertar como se uma centelha de pavor o tivesse atingido.
Recuperou os movimentos mais ágeis e percorreu toda a casa em busca da filha.
Quando o desespero já tomava conta de sua alma, ela se deu conta de que todos os pertences da filha, da enfermeira e de Moacir haviam sumido.
Naquele momento, o pânico se instalou; não havia dor, não havia sono.
Ela mudou de roupa sem se preocupar com o que ia vestir, pegou algum dinheiro, não muito, que havia sido deixado em cima da mesa da sala, e saiu em busca de ajuda.
Foi até a delegacia de polícia mais próxima, narrou a situação e o delegado, familiarizado com aqueles acontecimentos, accionou imediatamente uma equipe de busca.
Rita ficou na delegacia, não queria sair dali antes de ter notícias da filha e até mesmo porque não saberia para onde ir.
As horas foram passando, e o coração de Rita estava cada vez mais oprimido pela dor.
Ela em alguns momentos chorava, sem entender o que estava acontecendo, e apenas rezava.
A madrugada já havia chegado e a mãe inconsolável permanecia sentada no corredor da delegacia, apática e sozinha.
Vez ou outra um policial se aproximava e lhe oferecia um café e uma água, que ela aceitava, mas recusava-se a comer qualquer coisa.
De repente, ouviu-se um ruído agitado de vozes que vinham da entrada da delegacia e reconheceu a voz de Moacir, que se expressava de forma agressiva e ameaçadora.
Caminhou correndo na direcção do som e estancou diante da policial que carregava a pequena Luciana nos braços, dormindo tranquila, alheia à confusão.
Rita não conteve as lágrimas, não ouviu mais nada; apenas pegou a menina nos braços e agradeceu a Deus por ela estar bem.
Moacir passou por ela algemado e ela o olhou com uma expressão de terror e dúvida, que ele retribuiu com um olhar indiferente.
Logo atrás, vinha a enfermeira, também algemada e gritando feito louca que ela era vítima de tudo.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 08, 2018 9:15 pm

O delegado pediu que Rita o acompanhasse até sua sala e revelou a ela a história de Moacir, a história mais repugnante que ela já ouvira.
Ele era foragido da justiça havia muitos anos, e a enfermeira era sua amante e cúmplice.
Sempre mudavam de cidade e identidade para aplicar golpes.
Ele, com seu jeito sedutor, abordava mulheres pobres, solitárias, mas bonitas e com boa saúde, e as iludia com a promessa de uma vida de conforto e muito amor.
Conseguia engravidá-las e depois que o bebé nascia, sumia com a criança para vendê-la aos seus comparsas, uma quadrilha de tráfico de crianças.
Os partos eram sempre cesarianas para que pudessem ter data marcada e o esquema seguia o cronograma sem surpresas.
Os recém-nascidos valiam mais e sequestro era muito complicado e arriscado.
Então ele arquitectara aquele plano que lhe rendia óptimos resultados e pouca vulnerabilidade.
As mulheres, em geral, apenas sofriam por terem sido abandonadas, por perderem o filho recém-nascido, mas sem recursos e acostumadas ao sofrimento, seguiam sua vida, muitas sequer sem fazer um boletim de ocorrência.
O choque que Rita levou foi tão grande que ela nem chorou, nem se desesperou.
Apenas sentiu um imenso vazio na alma.
Como pode um homem colocar filhos no mundo só para vendê-los?
Eram verdadeiramente filhos dele, e sabe-se lá quantos já estavam espalhados mundo afora.
Aquele homem com quem ela dividiu a vida durante certo tempo era um monstro!
Ela saiu da delegacia e foi buscar abrigo em um colégio de freiras indicado pelos policiais.
Lá, seria abrigada até decidir que rumo tomaria.
Luciana estava em seus braços sã e salva, e isso era o maior presente de Deus.
Poucos dias depois, a madre superiora avisou a Rita que havia encontrado um belo emprego para ela na casa Ninguém domina o coração de uma família muito boa, onde ela poderia morar e ficar com a menina.
Quando a conheceu, Arthur logo sentiu pena dela e da filha, e as levou para a casa dele.
A partir daquele momento, Rita jurou que viveria para cuidar daquelas pessoas tão bondosas e para dar à filha a melhor educação que pudesse.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 08, 2018 9:15 pm

quatro - Flores vermelhas
Após a conversa que teve com Rita no café da manhã, Laís subiu sentindo-se grandiosa e vitoriosa.
Já começara a colocar ordem na casa e aquela insuportável empregada e a filha iam aprender que com ela não se brincava.
Ainda estava em dúvida sobre o que fazer do seu dia quando ouviu que alguém nadava na piscina.
Caminhou até a varanda de sua suíte, apertou os olhos se protegendo da claridade e viu Fabiano se exercitando na água.
Ele percorria toda a extensão da grande piscina indo e voltando várias vezes, até que deu um mergulho, emergiu com velocidade e se apoiou na borda para sair da piscina.
Ao ficar em pé nas pedras que cercavam toda a piscina, pegou a toalha que estava em cima da mesa, balançou a cabeça jogando os cabelos castanho-escuros e lisos para trás, secou levemente o corpo e deitou-se na espreguiçadeira protegida por um guarda-sol.
Fabiano era branco, tinha a pele bem clara e sempre tomava cuidado para não se expor excessivamente ao sol.
Percebeu que a madrasta o observava e acenou para ela.
Ela retribuiu e entrou novamente na suíte pensando que a sugestão do marido para que ela tomasse um banho de sol não era má ideia.
Em poucos minutos, preparou-se para sentar-se ao lado de Fabiano.
- Muito bom o seu desempenho na água; você pratica natação todos os dias? - perguntou Laís enquanto tirava o fino vestido que lhe cobria o corpo, com um gesto teatral e sensual, exibindo uma forma escultural e um biquíni preto de duas peças consideravelmente pequenas.
Antes de responder, Fabiano não conseguiu evitar o olhar de admiração pela mulher incrivelmente bela que estava parada diante dele.
Justo ele, que jamais deixara de aproveitar bons momentos ao lado de lindas garotas.
E ela percebeu que ele ficara admirado, mas não demonstrou a vaidade que lhe aflorava por todos os poros.
- Sempre que estou em casa sem nenhum compromisso venho para a piscina.
Gosto muito de nadar nas noites quentes de verão.
- Ah, nadar à noite é muito bom, eu também gosto.
Aliás, reparei que temos bastante coisas em comum.
- É mesmo? Que bom!
Mais o que por exemplo? - perguntou ele na tentativa de fazer a conversa fluir.
- Por exemplo, o gosto pelas boas coisas da vida, o bom humor, a leveza de alma... a vida é para ser aproveitada e vivida com intensidade.
Eu sempre digo que vim para a vida para ser feliz.
- Nisso você tem razão!
Pensamos exactamente da mesma forma.
Não entendo por que se casou.
Era livre, tinha aventuras, viajava...
E tenho de admitir que papai não segue o seu estilo.
- Tem razão.
Arthur, embora seja alegre e divertido é mais caseiro e pensa muito no trabalho.
Mas temos de levar em conta os anos que ele passou sozinho, coitadinho.
Adquiriu hábitos solitários.
Foram muitos anos, é compreensível.
- É verdade - respondeu Fabiano olhando para o infinito como se buscasse cenas de toda sua vida ao lado do pai.
Mas, agora, cabe a você, Laís, preencher os dias dele com mais animação, levá-lo para viajar, sair e frequentar festas.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 08, 2018 9:15 pm

- Não tenha dúvida de que farei isso; ele merece relaxar e aproveitar seus dias.
- Tenho certeza de que você conseguirá; há tempo não via o papai tão feliz e animado.
amos dar um mergulho? - concluiu levantando-se e estendendo a mão para ela.
Laís aceitou o convite e mergulhou com Fabiano.
Em vez de continuarem a conversa, Fabiano começou a provocá-la como uma criança, ao que ela revidou jogando água nele.
Em poucos minutos, estavam fazendo uma algazarra na piscina como dois adolescentes, rindo sem parar.
Laís não acreditava que estava se comportando daquela maneira, mas o importante é que estava relaxada e feliz.
Luciana chegou da escola e, como sempre fazia, em vez de entrar e seguir o caminho mais curto para os fundos da mansão, deu a volta e passou pela piscina.
Quando a viu, Fabiano gritou e acenou:
- Ei, Luciana, venha aproveitar um pouco a piscina!
Laís sentiu o rosto arder de ódio e toda a descontracção sentida pouco antes desapareceu por completo.
Luciana se aproximou e falou:
- Oi, bom dia, sra. Laís; bom dia, Fabiano.
Agradeço muito o convite, mas preciso entrar.
Quero almoçar cedo porque tenho muito o que estudar hoje à tarde.
Fabiano brincou:
- Luciana, relaxe; deixe um pouco esse negócio de estudar para lá e venha aproveitar.
Nesse momento, Laís, sem que Fabiano percebesse, dirigiu-se até a escada e saiu da piscina em silêncio.
Luciana continuou:
- Realmente já estou ficando tentada a aceitar seu convite, mas agora não dá mesmo.
Vamos fazer uma coisa:
se eu terminar cedo os estudos eu o aviso e damos um mergulho mais tarde, o que acha?
- Acho uma óptima ideia; vou até a Hípica, mas volto antes do entardecer.
Vai dar certinho.
Virou-se, mergulhou novamente, e Luciana retomou seu caminho.
Nenhum dos dois havia reparado que Laís já fora embora.
Quando Luciana estava quase chegando ao portão de sua casa, Laís apareceu e parou bem na sua frente.
Sem hesitar, agarrou Luciana brutalmente pelo braço, imprimindo uma força que quase fez Luciana gritar.
Encarou a menina e disse:
- Nunca mais ouse passear pela piscina! - e sacudiu o corpo de Luciana que a olhava aterrorizada.
Você entendeu? Nunca mais!
Pelo visto você ainda não sabe das novidades que a empregada, sua mãe, tem para lhe contar.
Tudo bem, vou lhe dar um pequeno desconto para você ver o quanto sei ser compreensiva.
Depois voltaremos a conversar! - concluiu soltando o braço de Luciana.
Sentindo o braço livre e no ímpeto inerente da adolescência aliado à raiva que já sentia de Laís, ergueu a cabeça em posição de afronta e falou sem titubear:
- O sr. Arthur nunca me proibiu de nada aqui e a senhora mesma viu que Fabiano me convidou para estar com ele mais tarde na piscina, e é o que vou fazer.
O sr. Arthur é o dono desta casa! - dizendo isso, não percebeu de imediato que cometera o maior de seus erros.
Luciana mal teve tempo de concluir e como um flash sentiu a pesada mão de Laís atingir-lhe o rosto com tanta força que ela chegou a cair, mas antes que pudesse ter alguma reacção, a mulher agarrou sua blusa próximo à gola e a colocou novamente de pé aos trancos.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 08, 2018 9:16 pm

Desferiu-lhe outro tapa, ainda segurando-a e disse:
- Você não tem noção do que acabou de fazer.
Nunca ninguém teve coragem de me afrontar dessa maneira, e pode ter certeza, vou transformar sua vida num verdadeiro inferno!
Não vou jogar você e sua mãe na sarjeta, que é o lugar de gente como vocês, pelo menos por enquanto.
Quero ter o prazer de mostrar a você quem é a dona desta casa.
As lágrimas escorriam descontroladamente pelo rosto de Luciana.
- E tem mais:
se eu desconfiar que você ou a outra empregada fizeram algum tipo de queixa com Arthur, eu acabo com vocês num só golpe.
Eu posso dar ao meu marido coisas que vocês nem sonham... adivinhe só do lado de quem ele vai ficar se vocês me afrontarem...
Soltou a roupa de Luciana, limpou a mão nervosamente dizendo:
- Que nojo!
Suma da minha frente, criaturinha asquerosa.
Vá, fora daqui! Suma!
Luciana virou-se e saiu apressada para sua casa soluçando e tremendo.
Fabiano sequer percebeu o que acontecera.
Ao entrar em casa, Luciana correu para os braços da mãe, que já se sentia um pouco melhor, e narrou com detalhes o que havia acontecido.
Rita ficou confusa e aflita.
Queria consolar a filha e ao mesmo tempo sua cabeça transbordava de pensamentos desordenados; não sabia o que fazer.
Ficaram um tempo abraçadas, em silêncio, até que Luciana falou:
- Mãe, não vamos suportar isso.
Essa mulher é completamente louca.
Temos de fazer alguma coisa.
- Minha filha, nada podemos fazer agora.
Ela acabou de se casar com nosso patrão; ele está apaixonado, e ela tem razão, claro que sempre ficará ao lado dela.
- Mas, mãe, o sr. Arthur é um bom homem e sempre gostou de nós, ele vai nos apoiar...
- Meu amor, um homem apaixonado segue seu coração e raramente ouve sua razão.
Acredite em mim, não teríamos chance.
- E o que vamos fazer então, mãe?
Ela é violenta e má, não vamos aguentar! - e voltou a chorar copiosamente.
Rita respirou fundo e olhou ao redor, buscando uma resposta.
- Acho que ela está apenas querendo mostrar que possui todos os poderes e que é melhor e mais forte que nós.
Ela sabia que tínhamos uma situação privilegiada nesta casa e para pessoas como ela, nós, pobres, não merecemos respeito nem atenção; estamos no mundo apenas para servir aos ricos.
Luciana a olhou e enxugou as lágrimas.
- Então não vamos fazer nada?
- Vamos dar tempo ao tempo e seguir as normas que ela está nos impondo a partir de agora.
Inclusive, filha, ela quer que você comece a trabalhar na casa, como eu e os outros empregados.
Luciana ficou estarrecida:
- Mas e meus estudos, mãe?
A senhora sabe que mal tenho tempo para me dedicar como devo à escola, ao inglês e ainda tem o francês, que me esforço muito para aprender sozinha.
- Será só por um tempo, acalme-se.
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