Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 15, 2018 9:51 pm

Luciana ficou envergonhada, mas teve de concordar com ele:
- Só não sei se será fácil chamá-lo de outra maneira.
- Claro que será.
Pense que estamos iniciando uma boa amizade, e não faz sentido que você me trate por senhor todo o tempo.
O olhar dela ficou triste de repente:
- Mas eu estou aqui a trabalho, e o senhor é meu cliente.
Ele franziu a testa e a olhou com seriedade:
- É fato que a contratei para fazer um trabalho para mim, mas não sei em que isso impede que sejamos amigos.
Eu costumo fazer de meus funcionários bons colegas, além de colaboradores, e alguns de facto se tornam óptimos amigos.
- Nossa, isso é tão raro! Os patrões geralmente buscam manter distância dos empregados.
- Sei que muitos agem assim, e com certeza não obtêm bons resultados de suas equipes.
Os empresários deveriam valorizar mais os funcionários e perceber que um trabalhador satisfeito produz muito mais e com muito mais vontade.
O respeito aumenta a auto-estima de qualquer pessoa, e a faz sentir-se motivada a trabalhar cada vez mais e melhor.
Já existem empresas que entendem isso, e as minhas funcionam assim.
- O senhor... - José Américo fez um sinal negativo com a cabeça e riu.
Desculpe, você, está de parabéns.
Agora entendo que essa é uma das razões do seu sucesso.
- Fiz questão de que passássemos esses dias sozinhos para que você saiba mais a meu respeito e também para que eu a conheça melhor.
Viu! Já estamos no caminho.
Venha, vamos embarcar.
- Para onde iremos? - perguntou Luciana feliz com tanta novidade.
- Não temos destino certo.
Ficaremos navegando e passaremos por várias praias, mas não gostaria de ficar em terra nenhum desses dias.
Temos tudo de que precisamos aqui.
Está bom para você?
- Claro que sim.
Tudo será como você quiser.
Vamos, então.
Ao entrarem, Luciana não cabia em si de tanta admiração.
Tudo no interior da embarcação era grandioso e perfeito.
José Américo a levou até a suíte que ocuparia e ela jamais imaginou que pudesse ser tão grande.
- Minha querida - falou José Américo com autêntico carinho - fique à vontade para se acomodar e ajeitar suas coisas.
O copeiro trará algo refrescante para você beber e depois podemos nos encontrar no salão principal.
- Muito obrigada pela forma como está me tratando.
Não imagina o quanto isso está sendo importante para mim.
Ele nada disse e se retirou.
Instantes depois, o copeiro bateu à porta carregando uma jarra de suco e um jornal.
Luciana agradeceu e ele saiu.
Sentou-se à pequena mesa de dois lugares, serviu-se de suco e resolveu dar uma olhada nos jornais.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 15, 2018 9:51 pm

Folheava a publicação buscando alguma notícia interessante quando sentiu uma profunda onda de choque atingir-lhe de repente.
Em uma das páginas, em destaque, estava uma foto de Laís ao lado de Fabiano e Arthur.
A respiração de Luciana ficou ofegante e suas mãos começaram a tremer.
Com dificuldade, começou a ler a matéria que fazia referência à foto.
Dizia que Arthur, apesar de alguns pequenos contratempos que vinha enfrentando na empresa, viajara a negócios levando a família.
Após os compromissos de trabalho, iriam juntos para uma estação de esqui nos Estados Unidos para descansarem por alguns dias.
Ela apertou o papel entre suas mãos com toda a força e releu a notícia várias vezes sentindo em cada uma delas, seu ódio aumentar:
"Eles estão felizes, viajando e se divertindo!
Fizeram tanto mal a mim e a minha mãe e agem como se tivessem a consciência tranquila.
Que pessoas mesquinhas e egoístas!
Mas um dia essa alegria irá desaparecer, e eu estarei lá para fazê-los pagar por tudo o que fizeram."
Mas seu coração se enternecia ao olhar para a imagem de Fabiano.
O amor que sentia por ele era maior que tudo e por mais que desejasse não conseguia odiá-lo.
Quando saiu da suíte para encontrar com José Américo, carregava um ar triste e sombrio, que não passou desapercebido ao empresário:
- Você estava tão bem quando nos despedimos há pouco.
Mas agora percebo que está triste, parece até ter chorado.
O que aconteceu?
Luciana sentiu-se constrangida e tentou disfarçar:
- Não foi nada, apenas um mal-estar.
Deve ter sido porque é a primeira vez que ando de barco.
José Américo não se conteve e deu uma risada:
- Você é a primeira pessoa que ouço falar que tem enjoo antes mesmo de começar a navegar!
Luciana também conseguiu dar uma risada e falou:
- Bem, eu nunca soube mentir mesmo.
Mas agora me superei!
E obrigada por me fazer sorrir novamente.
- Venha, vamos nos sentar aqui.
Conte-me o que está acontecendo.
Ela sentiu que realmente podia confiar nele, e acabou relatando toda sua vida, até o dia em que se conheceram.
Em vários momentos não conteve o pranto, e José Américo lhe ofereceu um lenço.
Sentia-se penalizado com o sofrimento dela.
Ao término do relato, ele falou:
- Existem pessoas muito cruéis de facto, e incrivelmente preconceituosas.
Acham que o dinheiro e a riqueza lhes conferem credenciais de pessoas melhores e superiores aos demais.
Os que pensam assim, na verdade, estão em posição muito inferior a outros que têm muito menos bens materiais.
São pessoas arrogantes que, por não possuírem um brilho interior, usam o dinheiro como muleta e passaporte para serem aceitas na sociedade.
Não possuem um conteúdo interessante e nada têm para oferecer em sabedoria.
Muitas vezes, nem cultura.
Então, impõem-se por meio da única moeda que possuem:
o dinheiro.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 15, 2018 9:51 pm

Conheço muita gente assim, o que é lastimável.
- Mas a sociedade é movida pelo dinheiro.
Quanto menos você tiver, mais será excluído.
A verdade é que os pobres são sempre menosprezados.
- Não é bem assim.
Você já sabe que eu não penso dessa forma.
E existem muitas pessoas boas no mundo, pessoas que valorizam quem quer que seja, independente de posição social.
Pessoas que já entenderam que o dinheiro é sim, importante.
Ele nos traz conforto e facilita muito a vida.
Mas ele não traz boa educação nem felicidade.
Conheço muitos ricos grosseiros e infelizes.
Veja o caso de Laís.
Uma pessoa para agir dessa forma não deve ser feliz.
Deve sofrer dramas íntimos que ninguém jamais saberá.
Dramas que ela mesma deve renegar para não ter de deparar com sua verdadeira pobreza.
Luciana reagiu de forma ríspida:
- Pouco me importa o que ela sinta ou deixe de sentir.
Ela matou minha mãe, fez-me perder o amor da minha vida e nossa filhinha.
José Américo era só compreensão:
- Sei o quanto você sofreu e ainda sofre com tudo isso.
Você não teve como evitar que ela a humilhasse de todas as formas utilizando-se de seu poder e dinheiro.
Mas pode evitar que ela lhe faça um mal ainda maior, que é destruir o que há de bom em você, seu carácter e sua conduta voltada para o bem.
Ela pode lhe tirar tudo, mas não pode tirar a sua essência, a menos que você permita.
Luciana ficou calada analisando o que ouvira, e José Américo pediu licença um instante, retirando-se estrategicamente para deixá-la sozinha com seus pensamentos.
Pouco tempo depois, Luciana saiu atrás dele:
- José Américo, o que você quis dizer exactamente?
- Você entendeu.
Ela só lhe fará um mal maior se você permitir.
- Mas o que eu poderia ter feito naquela época?
- Você disse que nem você, nem sua mãe conseguiram falar com Arthur.
Não sei, mas tenho a vaga sensação de que toda essa história foi muito bem armada por essa mulher.
Talvez se vocês tivessem sido mais ousadas e falado com ele a todo custo...
- Mas ela nos disse que ele não queria mais nos ver.
- Ela disse; mas como vocês puderam ter certeza de que isso era verdade?
Luciana calou-se novamente.
Ele prosseguiu:
- Claro que ela se utilizou das armas de que dispunha para intimidá-las.
Sentia-se numa verdadeira guerra contra vocês e as atacou directamente.
Vocês se sentiram acuadas e cederam, caindo na armadilha preparada por ela.
O medo, entre outros tantos sentimentos, faz-nos perder a razão.
Por medo, vocês esqueceram toda a vida feliz que viveram naquela casa, ao lado de Arthur e Fabiano.
Por medo, esqueceram todo o bem que ele sempre lhes fez e julgaram que ele de uma hora para outra se tornara outra pessoa, alguém que seria capaz de fazer mal a quem sempre cuidou dele e do filho.
Veja, ela lançou o mal contra vocês, e vocês permitiram que as atingisse.
E agora, se você alimentar esse ódio, esse desejo de vingança, ela estará vencendo definitivamente essa guerra.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 15, 2018 9:51 pm

Entendeu?
- É verdade, nós aceitamos tudo o que ela falava sem questionamentos.
Nunca saberemos que tipo de intrigas ela fez.
- Da mesma forma que ela pode ter colocado palavras na boca do marido, pode ter feito a mesma coisa, dizendo a ele coisas sobre vocês que o magoaram.
Nenhuma de vocês procurou tirar a história a limpo.
Qualquer pessoa pode se voltar contra outra e procurar feri-la de alguma forma.
A maneira como será a reacção a esse ataque, fará toda a diferença.
Se um desconhecido lhe disser que você é burra e feia, o que você sentirá?
Ela franziu o cenho:
- Vou achar que ele é louco! - respondeu rindo.
- E se eu disser que você é burra e feia?
Ela não respondeu.
Mas, para ele, o silêncio foi uma boa resposta:
- Que bom que significo algo para você, porque se fosse eu a lhe dizer isso, você iria se magoar.
Isso não deve acontecer.
Você sabe que é inteligente e bonita, então, nada que outra pessoa disser ao contrário disso, deverá afectá-la.
Você deve ter consciência de seu valor, e dessa forma, será bem mais difícil alguém lhe causar algum mal.
Lembre-se sempre disso.
Você pode absorver uma agressão ou simplesmente ignorá-la.
Você tem o poder de evitar que a magoem.
A verdade e a força estão bem aí, no fundo de sua alma.
Luciana sentiu-se tão segura e tão grata, que não pensou antes de caminhar até ele e dar-lhe um abraço carregado de ternura, que foi igualmente retribuído.
Cada momento que passava ao lado de José Américo era para Luciana a descoberta de uma nova forma de olhar a vida.
Ele tinha a capacidade de fazer tudo parecer muito simples, e ela estava ávida por conhecer e aprender mais.
Ele, por sua vez, procurava com muita paciência sanar toda a curiosidade dela.
Ele contou como começou sua empresa, a forma como conduzia seus negócios, os problemas e dificuldades que teve no caminho.
E imaginou o que ela faria com o dinheiro que receberia pelo trabalho que estava fazendo:
- Luciana, você já tem em mente o que vai fazer quando conseguirmos atingir nosso objectivo e você encerrar seu trabalho para mim?
- Logo que você me falou o valor que iria me pagar, eu não consegui nem raciocinar direito, mas passado o primeiro impacto, tudo ficou claro.
Vou abrir minha empresa de design de moda.
Ele a olhou admirado:
- Você está colocando o carro na frente dos bois, como se dizia no meu tempo.
- Como assim?
- Você acha que realmente tem condições de abrir sua empresa daqui a alguns meses? - perguntou sorrindo.
Luciana sentiu-se uma tola.
Ele continuou:
- A impulsividade é a grande inimiga do bom empreendedor, jamais esqueça isso.
Você terá um excelente capital em muito pouco tempo, mas vai perdê-lo mais rápido ainda se não souber planear como utilizá-lo.
- Para falar a verdade, possuir tanto dinheiro me dá certo medo.
- Novamente o medo assombrando sua vida.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 15, 2018 9:51 pm

Você não tem de ter medo.
Esse dinheiro você vai ganhar de forma honesta, com o seu trabalho.
Você não o roubou nem prejudicou ninguém inocente para consegui-lo.
Então, por que ter medo?
Ela assentiu mostrando que afinal, ele estava certo.
Ele prosseguiu:
- Em primeiro lugar, você deve investir em sua formação profissional.
Muita coisa aconteceu com você nos últimos tempos, mas deve se voltar novamente aos estudos.
Só assim terá condições de realizar seu sonho de trabalhar com moda.
Sei que você ambiciona ser uma grande estilista, mas tem de se preparar.
Pegue seu dinheiro e faça uma excelente escola da área, leia, estude e procure se aprimorar também na área da administração.
Você comandará uma empresa, seu desejo será progredir e crescer, e é importante que você saiba conduzir sua administração, mesmo que tenha alguém especializado para cuidar disso.
Luciana o olhava atentamente, procurando absorver o máximo possível a experiência que ele lhe passava.
Ela sonhava em se tornar poderosa, muito rica, só assim poderia olhar em igualdade de condições para a família Gouveia Brandão.
José Américo lhe falou sobre investimentos, deu dicas de viagens e lugares que ela deveria conhecer, mostrou pontos importantes da economia e finalizou com o que ele achava fundamental:
- Sempre aja com honestidade.
O mundo dos negócios nem sempre é bonito.
Muitas vezes, precisamos tomar medidas difíceis, desprovidas de qualquer sentimentalismo, mas jamais medidas desonestas.
As tentações são inúmeras, e sempre surgirá alguém com uma proposta de dinheiro fácil e ilegal.
Jamais ceda e não abra mão de seus princípios.
Hoje sou um homem respeitado por agir assim.
Muita gente não gosta de mim, mas sinceramente, não faço questão de que esse tipo de pessoa faça parte da minha vida.
Veja o caso do meu genro.
Ele, com certeza, age acreditando na impunidade, mas todas as falcatruas que utiliza para se apoderar de meu dinheiro, devem ter lhe rendido momentos de muito stress.
E sua felicidade é ilusória, pois está prestes a acabar.
Não dê margem para que possam puxar o seu tapete.
Construa sua vida sobre fortes alicerces, de modo que possa sempre andar com a cabeça erguida.
- Mas a vida que tenho levado me deixa muito envergonhada!
- Essa sua situação é diferente.
Você não está armando golpes em cima de seus clientes para enriquecer de maneira ilícita.
Infelizmente, você encontrou essa como sendo a única porta aberta em determinado momento.
Tem sofrido com isso, mas está, de forma admirável, tentando aproveitar uma oportunidade que a vida está lhe dando.
Talvez você se envergonhe dessa passagem e queira enterrar esse passado.
É um direito seu, mas guarde sempre as lições que aprendeu durante esse tempo.
E, minha querida, esqueça essa história de vingança.
Cuide de sua vida e esqueça esse passado também.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 15, 2018 9:52 pm

Luciana contraiu os músculos da face:
- Minha mãe também dizia isso, para que eu esquecesse essa gente.
Mas você também quer se vingar de seu genro.
- Não, de modo algum.
Eu não quero me vingar.
Quero apenas recuperar o que ele me roubou e impedir
que continue aplicando seus golpes.
Imagino que eu não seja sua única vítima.
Alguém tem de fazer isso.
E acredite:
dizem que é doce o sabor da vingança, mas, na verdade, ela não tem sabor algum.
Ouça com atenção o que lhe digo.
- Como você pode saber?
Já se vingou de alguém?
- Não, nunca fiz absolutamente nada para me vingar.
Mas em duas ocasiões, pessoas que me prejudicaram muito, acabaram tendo em sua vida problemas tão sérios que eu poderia assistir de camarote a derrocada deles e aplaudir.
Mas quando tomei conhecimento dos sofrimentos que enfrentavam, percebi que eu não sentia nada.
Não fiquei feliz, não vibrei nem tampouco tive pena.
Surpreendi-me, mas descobri que a vingança não tem qualquer sabor.
Não vale a pena em nenhum sentido.
Você talvez não goste de ouvir isso, mas ela só tem sabor para almas e mentes pequenas.
Aquelas palavras tocaram fundo o coração de Luciana.
No íntimo, ela não queria alimentar aquele sentimento, mas era mais forte que ela.
José Américo sabia que, com o tempo, ela entenderia.
Aqueles dias passaram muito rápido, e quando voltaram ao Rio de Janeiro, estavam tão à vontade um com o outro que ninguém duvidaria que estivessem namorando.
Logo a notícia do novo romance de José Américo começou a se espalhar, e ele circulava pelos lugares mais conhecidos, sempre acompanhado de Luciana, alimentando a curiosidade alheia.
Muitos convites começaram a chegar diariamente, todos querendo conhecer a nova "felizarda" como a chamavam.
E foi muito fácil, em uma dessas ocasiões, Luciana conhecer a filha e o genro de José Américo.
E exactamente como ele havia previsto, não demorou para que o homem começasse a flertar com Luciana.
Devidamente orientada pelo empresário, ela deixou que o outro se aproximasse e acreditasse estar sendo bem-sucedido em suas investidas.
Até que o momento tão esperado chegou.
Acreditando ter Luciana totalmente atraída por ele, partiu para o ataque.
Em uma das festas, José Américo, percebendo que o genro já havia se excedido muito na bebida, viu que a hora havia chegado.
Alegando uma pequena indisposição, disse que iria se retirar, mas que queria que Luciana aproveitasse o restante da noite.
A filha, que estava muito irritada com a bebedeira do marido, ofereceu-se para acompanhá-lo.
Ele mostrou-se favorável à atitude dela e muito grato.
Era a oportunidade que esperavam.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 15, 2018 9:52 pm

Mal haviam saído e Luciana foi abordada da maneira mais grosseira:
- E então, minha mulher já saiu com o velho.
O homem estava tão bêbado que seu hálito causava ânsia em Luciana.
Ele nem deu tempo para que ela respondesse:
- Minha mulher é insuportável.
Você não imagina como sofro nas mãos dela - ele falava com a língua enrolada e fazendo cara de coitado -, é uma dondoca, filhinha de papai, mas quando preciso dela, sempre me deixa na mão.
E aquele velho!
Estou cansado de ser explorado por ele.
Mas olhe, vou lhe contar um segredinho:
logo vou me livrar de todos eles, e você pode vir comigo.
Vamos sumir no mundo e aproveitar tudo o que temos direito.
Somos jovens, você é linda, vai ficar aturando aquele velho por quê?
Luciana o olhava com asco, não só pelo seu jeito trôpego, mas também pela forma como se referia a José Américo.
Ela já nutria um carinho muito grande pelo amigo, e sua vontade era esbofetear aquele homem.
Mas tinha de seguir em frente e começou a achar que sentiria muito prazer em desmascará-lo.
Quase em silêncio todo o tempo, Luciana o acompanhou para o apartamento que havia sido citado e o estado do homem era tão deplorável, que pouco depois de chegarem, ele desabou no sofá e dormiu profundamente.
Era o que Luciana e José Américo imaginavam que aconteceria.
Assim, ela pôde vasculhar cada canto em busca das provas de que precisava.
Depois de quase uma hora, encontrou todos os documentos.
Sentiu um imenso alívio ao deixar o local e seguir para o hotel, não sem antes se certificar de que deixara tudo arrumado de modo que ele, ao acordar, não percebesse de imediato o que havia ocorrido.
Na manhã seguinte, logo cedo, José Américo chegou ansioso ao hotel.
Quando Luciana lhe apresentou o que havia conseguido, ele disse:
- Finalmente vou colocar esse bandido na cadeia, e agora que sei onde está meu dinheiro, conseguirei, por meio da justiça, que me seja restituído.
E devo isso a você.
Mas como lhe falei, embora eu saiba que estou agindo correctamente, não fico feliz com tudo isso.
Sei que minha filha vai sofrer ao confirmar que se casou com um canalha.
Mas um dia ela entenderá e acredito que vá me agradecer e me perdoar.
Luciana estava triste, e ele logo notou:
- O que houve? Ficou nervosa com tudo isso, não foi?
- Fiquei sim, não posso negar.
Mas estou triste realmente.
Você foi muito importante para mim e jamais esquecerei tudo o que me ensinou.
Os dias que passei ao seu lado valeram mais do que qualquer dinheiro no mundo.
E sei que agora não nos veremos mais.
Ele fez um carinho no rosto de Luciana:
- Provavelmente não nos veremos.
Tínhamos um negócio, um trabalho a realizar, e ele está concluído.
Por falar nisso - falou pegando um papel no bolso - aqui está o seu pagamento.
Abri uma conta em seu nome e o depósito já está feito.
Como o gerente da agência bancária é velho conhecido meu, avisei que você passaria lá depois para assinar os formulários necessários.
Luciana não pegou o papel.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 15, 2018 9:52 pm

Apenas olhou para ele com os olhos cheios d'água.
- Não fique assim, menina.
Você tem uma vida inteira para construir e nossos caminhos daqui para a frente tomam rumos opostos.
Se algum dia precisar de algo, você sabe onde me encontrar.
Mas tenho certeza de que será forte e suficientemente inteligente para fazer de sua vida um grande sucesso.
- Por que sempre acabamos perdendo as pessoas de quem gostamos? - falou Luciana sentindo que não aguentaria mais uma despedida.
- As pessoas de quem gostamos, que são importantes na nossa vida, sempre estarão presentes de uma forma ou de outra.
Muitas vezes, a presença física não é possível, mas isso não as elimina de nosso coração.
Eu, quando perdi minha esposa, achei que não iria suportar, que não conseguiria viver sem ela.
Ela foi o grande e único amor da minha vida.
Mas, com o tempo, aprendi que sobrevivemos, sim, e a melhor homenagem que eu podia fazer a ela, era ser o homem forte e determinado que ela conheceu e por quem se apaixonou.
Nunca fui um homem religioso, mas dizem que a vida continua.
Se isso for verdade, espero que ela continue a se orgulhar de mim.
E outra lição que aprendi ao lado dela foi que a felicidade de cada um está dentro de sua própria alma.
Eu sentirei falta dela até o último dos meus dias; faria qualquer coisa para tê-la de volta, mas tive de conhecer e buscar a felicidade dentro de mim mesmo, só assim eu poderia continuar vivendo.
Nunca devemos, por maior que seja o amor, depositar nossa felicidade nas mãos de ninguém.
Luciana também achou que morreria quando perdeu Fabiano, e agora estava ali, diante do homem que lhe deu a oportunidade de recomeçar e lhe ensinou tantas coisas.
Seria eternamente grata a ele, mas sabia que ele estava certo.
Apesar do carinho que surgiu entre ambos, era o momento de cada um seguir seu rumo.
Ela o abraçou.
Comovida, agradeceu-lhe por tudo e o deixou ir com lágrimas nos olhos, mas com muita coragem no coração.
Quando voltou ao bordel, Lourdes estava eufórica por ter recebido o restante do pagamento.
Deu a parte que cabia à Luciana, que aceitou sem fazer menção de que agora era uma mulher muito rica, pois prometera a José Américo que nada falaria sobre tudo o que acontecera.
A mulher se surpreendeu quando Luciana avisou que estava de partida.
Ela tentou convencê-la a ficar, argumentou que juntas chegariam longe e que depois desse cliente, era certo que outros do mesmo porte apareceriam.
Mas diante da determinação da moça, só lhe restou lamentar estar perdendo sua melhor garota.
Naquele mesmo dia, Luciana deixou a casa onde passou por momentos que jamais gostaria de voltar a se lembrar, mas também onde conheceu o homem que mudaria sua vida para sempre.
Não tinha destino certo, apenas a confiança e a esperança no futuro.
Só não teve coragem de admitir para José Américo que não desistira da ideia de se vingar daqueles que acreditava terem destruído sua vida.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 15, 2018 9:52 pm

dezanove - Uma vida bem-sucedida
A tempestade varria a cidade e seus raios e trovões eram assustadores, mas também fascinantes.
Da grande janela de sua ampla sala, Luciana observava uma Baía de Guanabara quase invisível, encoberta pela névoa provocada pela forte chuva.
O dia parecia triste, como triste estava também seu coração.
Pensava em José Américo.
Naquela manhã, recebera a notícia de que ele havia morrido.
Já estava muito idoso, havia passado muito tempo desde que se conheceram.
Vinte anos! Durante todo esse período nunca mais se viram, mas um sempre acabava tendo notícias do outro pela mídia ou por intermédio de pessoas conhecidas.
Luciana, quando deixou a casa de Lourdes, mudou-se para a Europa para se matricular na melhor escola de moda que conhecia, e em uma ocasião José Américo esteve na Itália, onde ela estava morando, mas apenas se falaram uma única vez por telefone.
Ela sabia que, mesmo longe, ele acompanhava sua vida, e sabia também que em qualquer emergência poderia contar com ele.
Era como se ele fosse um "anjo", assim como tantos que aparecem no nosso cotidiano e muitas vezes não entendemos que estão ali não para compartilhar nossa vida, mas para nos mostrar o caminho, nos encorajar, ou simplesmente nos estender a mão.
Eles surgem sem que seja preciso chamá-los, e devemos deixá-los partir para que continuem seu caminho.
E José Américo se fora para sempre, mas como ele disse uma vez, estaria definitivamente no coração de Luciana, um coração que se fechara para o amor e a felicidade.
Depois dos anos de estudo na Europa, Luciana viajou por vários países, sempre em busca de novidades e conhecimentos.
Seu dinheiro, seguindo os passos indicados por José Américo, havia sido bem investido e rendera bons lucros.
Ao voltar para o Brasil, possuía um capital generoso e suficiente para abrir sua empresa e viver uma vida muito confortável.
Em cinco anos de actividade, os lucros se multiplicaram rapidamente.
Ela tornou-se uma empresária conhecida em todo o mundo da moda.
Era muito respeitada e uma palavra sua provocava alvoroço em toda a mídia especializada, porque todos sabiam que logo em seguida uma nova tendência explodiria no mercado.
Era convidada a dar palestras e estava sempre presente como convidada de honra nos desfiles mais importantes e significativos no Brasil e no exterior.
Tornou-se uma mulher extremamente elegante, mas de uma beleza sóbria e clássica.
Sua postura era admirada e temida, pois todos sabiam que levava seus negócios de forma bastante austera e correta, e não admitia falhas nem deslizes de carácter em ninguém com quem mantivesse qualquer relação profissional.
Mas se no mundo empresarial Luciana era uma personalidade, sua vida pessoal era um grande mistério, e não faltavam curiosos tentando descobrir algo que valesse uma rentável capa de qualquer revista, cujo foco era nutrir o desejo irrequieto das pessoas sobre a vida de ricos e famosos.
Quando voltou ao Rio de Janeiro, Luciana comprou uma grande cobertura em frente ao mar de uma das praias mais conhecidas e charmosas da cidade.
Era um apartamento extravagante nas dimensões, principalmente para quem optara por viver sozinha.
Mas era nesse seu espaço que ela passava todas suas horas de folga e desfrutava uma intimidade à qual pouquíssimas pessoas tinham acesso.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

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Uma das raras pessoas a terem esse privilégio era Suzanne, sua melhor amiga e secretária.
Conheceram-se em Milão quando Luciana já estava lá havia alguns anos.
Suzanne era uma estudante dedicada, que sonhava em ser uma grande estilista.
Era de uma família sem muitos recursos, mas que dedicara todos os esforços para realizar o sonho da única filha.
Ela trabalhava como garçonete em uma cantina para poder custear sua permanência na cidade.
Seu bom carácter e sua trajectória de luta e coragem conquistaram Luciana, que viu na moça a imagem de si mesma em um passado não muito distante.
Logo descobriram muitos pontos em comum e a alegria de Suzanne e sua jovialidade eram um alento ao solitário coração de Luciana, que retribuía passando a ela sua experiência de vida e a apoiando em muitos momentos.
Quando estava para retornar ao Brasil, ela convidou Suzanne para vir junto e trabalhar com ela.
A partir daí, tornaram-se inseparáveis e confidentes uma da outra.
A moça era a única pessoa que sabia de todo seu passado e era com quem Luciana podia contar também nas horas ainda difíceis ao relembrar tudo o que havia sofrido.
Mas também era ao seu lado que vivia seus raros momentos de descontracção.
Além de Suzanne, também possuíam livre acesso à sua casa, Mário, fiel administrador de seus negócios, Augusto e Júlia.
Mário era um homem poucos anos mais velho que Luciana, solteirão, extremamente bonito e atraente, e não lhe faltavam candidatas a conquistar um lugar definitivo em seu coração, mas esse já estava ocupado por sua chefe.
Ele se apaixonara desde que a vira pela primeira vez, mas sabia que não teria nenhuma chance de ter seu amor correspondido.
Ela, por sua vez, desconfiava dos sentimentos dele, mas nunca o incentivou, e ele, para não perder a sua amizade e confiança, mantinha seu sentimento em segredo e sentia-se feliz por poder ser uma das poucas pessoas que partilhavam da sua vida íntima.
Augusto era seu advogado e quem cuidava de tudo o que ela precisasse, tanto pessoal como profissionalmente.
Era fiel a ela e tinha um carácter inatacável.
Formavam uma parceria de sucesso havia muitos anos.
Júlia, sua esposa, era a pessoa mais doce que Luciana havia conhecido na vida.
Estava sempre disposta a ajudar qualquer um que estivesse passando por dificuldades.
Era espírita convicta, e por várias vezes foi ela que levou tranquilidade ao seu conturbado mundo interior.
Mas, apesar de sentir grande alívio quando estava com a amiga, tinha dificuldade em aceitar as colocações que ela fazia sobre a doutrina espírita, achando que não havia como entender tantas injustiças nem como agir com bondade e compreensão com pessoas que só faziam o mal por onde passavam.
Luciana ouviu uma batida leve na porta e virou-se para receber Suzanne que lhe trazia o jornal do dia.
O escritório, àquela hora, já estava em plena actividade, mas nesse dia Luciana estava reservada e quieta em sua sala.
Contrariando tudo o que havia sido dito por sua mãe e por José Américo, ela jamais deixou de pensar nos Gouveia Brandão, e sempre, mesmo de longe, acompanhava todos os passos da família.
Dessa forma, pôde testemunhar cada episódio da queda do império de Arthur.
Seus negócios, desde o primeiro momento de dificuldade, nunca se recuperaram totalmente.
Ele lutava para manter a empresa forte, mas a cada nova crise ficava mais difícil.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 16, 2018 9:52 pm

E corria "à boca pequena" que Laís estava contribuindo para a ruína do marido.
Apesar dos problemas que atravessavam, ela continuava a gastar muito dinheiro de forma totalmente descontrolada.
Jamais admitiu para a sociedade que precisavam economizar, e como os boatos andavam rapidamente nas rodas que frequentava, parecia que gastava ainda mais para provar que sua vida continuava no mesmo padrão de sempre.
Arthur havia perdido totalmente a autoridade sobre a mulher, e com tantas preocupações, acabava não se envolvendo com o que ela fazia e desistira de cobrar-lhe responsabilidade.
Depois que Luciana se foi, Fabiano ficou transtornado com as dúvidas que lhe atormentavam a alma.
Nunca teve certeza se o filho que Luciana esperava era dele, mas e se fosse?
Com o tempo e a cabeça mais fria, começou a se questionar sobre a história contada por Laís, mas nunca teve como forçá-la a falar a verdade, e sem nenhuma prova, nada podia fazer.
Desiludido, voltou ao estilo de vida que levava antes de se apaixonar por Luciana, cada dia com uma mulher diferente, saindo todas as noites e voltando ao amanhecer do dia, sempre embriagado.
Quando Suzanne entrou com o jornal, sua expressão era tensa e ela pediu que Luciana se sentasse:
- Aconteceu uma coisa terrível, e eu preferia que você não soubesse, mas não teria como evitar por muito tempo que a notícia chegasse até você.
Luciana, que recebera a notícia da morte de José Américo logo nas primeiras horas do dia, não podia imaginar o que mais poderia lhe causar algum abalo.
Sentou-se à sua imponente mesa de trabalho e estendeu a mão para pegar o jornal, que Suzanne parecia relutar para entregar:
- Vamos Suzanne, mostre-me logo esse jornal.
O que pode tê-la deixado assim tão desconcertada?
A moça folheou algumas páginas, e entregou o exemplar aberto na manchete que ocupava quase meia página:
Filho do rico empresário paulista Arthur Gouveia Brandão comete tentativa de suicídio!...
A família ainda muito chocada com o ocorrido não quis falar com a imprensa, mas sabe-se que a situação dele é grave, mas tudo indica que ele não corre risco de morte.
De acordo com a direcção do hospital, Fabiano Gouveia Brandão ingeriu grande quantidade de tranquilizantes associados a alguma bebida alcoólica, e sua vida foi salva pelo rápido atendimento e socorro que lhe foi prestado, mas seu estado ainda inspira muitos cuidados...
Luciana ficou lívida e sentiu uma vertigem, não acreditando no que acabara de ler.
Suzanne apressou-se em dar-lhe um copo com água e um calmante, pois tinha exacta noção do impacto do acontecimento sobre Luciana.
- Calma, minha amiga, beba isso e respire fundo!
- Meu Deus, como Fabiano pôde cometer uma loucura dessas!
Como será que ele está?
Suzanne, veja que hospital é esse e ligue para lá.
Sabemos que as informações da imprensa às vezes são desencontradas.
Traga-me notícias, por favor, o mais rápido possível.
Suzanne saiu apressada e Luciana ficou com o impresso aberto sobre a mesa, onde fitava com lágrimas nos olhos a foto de Fabiano.
Pensava o que o teria levado a cometer um acto tão drástico!
Estava muito nervosa, não conseguia entender.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 16, 2018 9:52 pm

Pegou o interfone e chamou Augusto:
- Por favor, descubra como está a situação da empresa de Arthur Gouveia Brandão.
Preciso saber em que condições está a empresa hoje.
A família acaba de escapar de uma grande tragédia.
- O que aconteceu?
- O filho de Arthur acabou de tentar o suicídio.
Está hospitalizado, mas não sei seu real estado de saúde.
- Desculpe perguntar, Luciana, mas qual o seu interesse nos negócios de Arthur Gouveia Brandão?
O ramo dele não tem nenhuma relação com você ou seus investimentos.
Luciana levantou-se e caminhou até a janela.
Fez uma pequena pausa e falou:
- Digamos que meu interesse seja pessoal.
Conheci a família muitos anos atrás.
Não tenho amizade com eles, mas razões para achar que talvez eu possa ajudá-los de alguma forma.
Augusto ficou surpreso, mas sabia que Luciana não gostava de ser questionada em suas atitudes, então se limitou a se retirar sem mais perguntas e procurar as informações que ela queria.
*
O burburinho logo tomou conta do escritório.
Todos os funcionários perceberam uma grande tensão no ar, e Luciana deu ordens de não ser incomodada de forma alguma e por ninguém.
Apenas Suzanne e Augusto entravam e saíam a todo momento de sua sala.
Enquanto isso, num dos maiores e melhores hospitais da capital paulista, Arthur permanecia abatido, sentado na sala de espera, ansioso por novidades sobre a saúde do filho.
O empresário estava irreconhecível.
As grandes e sucessivas dificuldades financeiras haviam apagado todo seu vigor físico.
Agora ele aparentava muito mais idade do que tinha na realidade, e a atitude extrema do filho foi o ápice da sua ruína pessoal e profissional.
Laís, voluntariamente, encarregara-se de cuidar da imprensa e dos amigos que apareciam em busca de notícias.
Ela possuía um mecanismo de defesa muito utilizado por diversas pessoas:
ignorava qualquer situação que a ameaçava ou lhe desagradava.
Fechava-se numa crença virtual, onde as peças e factos aconteciam da forma como ela julgasse mais conveniente, fazendo disso sua realidade, na qual ela doentiamente de facto acreditava.
Agindo dessa maneira, os acontecimentos que atingiam tão duramente seu marido e enteado passavam por ela como um "imprevisto contornável", como ela mesma qualificava.
Sua soberba e arrogância permaneciam inalteradas, e isso já causava profundo desapontamento no coração de Arthur, que não conseguia mais nutrir o amor inicial pela esposa.
O médico se aproximou do pai aflito:
- Senhor Arthur, aconselho-o a ir para sua casa descansar.
Não há nada que o senhor possa fazer pelo seu filho neste momento.
- Obrigado por sua preocupação, mas quero estar perto de Fabiano quando ele acordar.
- Isso não vai acontecer dentro das próximas 24 horas.
Ele está medicado e seu quadro é estável.
Mas vai permanecer na UTI ainda pelo menos por mais dois dias.
Não é permitido que fique nenhum acompanhante, e o senhor pode voltar no horário de visita.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 16, 2018 9:52 pm

Assim, quando ele se recuperar e recobrar a consciência o terá ao seu lado bem-disposto e forte para poder ajudá-lo.
Arthur, que permanecia sentado sem forças para se erguer, apoiou lentamente os cotovelos nos joelhos, levou as mãos ao rosto e abaixou a cabeça, sentindo-se sem coragem de argumentar e concluindo que o médico estava com a razão. Voltou-se em voz baixa e concordou:
- Está bem, doutor, vou para casa.
Preciso de um banho quente e algumas horas de sono.
- Faça isso e verá que suas energias irão se recompor rapidamente.
- Por favor, qualquer alteração que ocorra me avise imediatamente.
- Claro! Mas posso lhe assegurar que Fabiano passará o dia e a noite bem.
Está dormindo tranquilo e nada de mal vai lhe acontecer.
- O senhor sabe onde está minha esposa?
- Ela estava no saguão principal terminando uma entrevista com a imprensa.
Quer que mande alguém chamá-la?
Arthur chegava a se envergonhar ultimamente das atitudes de Laís, e, desolado, apenas fez um sinal negativo com a cabeça e despediu-se do médico.
Ao passar pelo aglomerado de repórteres que cercavam sua mulher, estancou por alguns instantes para que ela o visse, e seu olhar denunciava sua reprovação ao comportamento dela.
Rapidamente, ela desvencilhou-se de todos e foi em sua direcção.
Ele a recebeu friamente:
- Meu Deus! Será que nem numa hora tão difícil você consegue deixar seu egocentrismo de lado?
- O que você está dizendo?
Eu estava apenas informando sobre a saúde de Fabiano.
Todos que gostam dele aguardam notícias.
- Será que você não percebe que são um bando de carniceiros querendo ver sangue?
Eles querem saber da nossa falência e da tragédia, que quanto pior terminar, mais eles venderão seus jornais e revistas.
E você está adorando aparecer na mídia, não adianta negar.
- Você está sendo injusto e cruel.
Estou apenas tentando ajudar e recebo essa ingratidão.
Arthur deu de ombros:
- Que me importa!
Estou indo para casa.
Você me acompanha?
Ela olhou em volta e o saguão estava vazio.
Não havia mais nada a fazer ali.
- Eu vou com você.
Também preciso descansar.
Voltaremos à noite?
- Não, o médico disse que até amanhã à tarde não teremos novidades.
Ela sentiu-se aliviada.
Aquele cheiro de hospital lhe causava náuseas e estava feliz em voltar para casa.
Saíram em silêncio rumo ao estacionamento.
*
Luciana pegou o telefone impaciente:
- E então, Suzanne?
Alguma novidade?
Não é possível que você não tenha conseguido nenhuma informação segura até agora sobre Fabiano!
Será que terei eu mesma de tomar as providências?
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 16, 2018 9:52 pm

Suzanne, do outro lado da linha, não se abalou.
Conhecia o jeito da amiga e a admirava da mesma forma, já sabia como lidar com seu temperamento difícil.
Luciana respeitava Suzanne, Mário, Augusto e Júlia e os tratava muito bem nunca deixando que nenhum problema da vida deles ficasse sem solução.
Partilhavam momentos de alguma descontracção quando iam jantar em sua casa, saíam raramente juntos, mas a forma como ela se colocava diante da vida ainda criava uma barreira que mantinha os quatro sempre atentos para não aborrecê-la.
Ela, mesmo com eles, sabia ser dura e inflexível em sua postura.
Júlia era quem mais prestava atenção no comportamento de Luciana, e sempre conversava muito com o marido a esse respeito.
- Ah, Júlia! Por que Luciana guarda tanto rancor em seu coração?
Não sabemos quase nada de seu passado, mas o que terá acontecido para deixá-la assim, tão reservada e sempre mantendo seus sentimentos sob tão rígido controle?
Júlia acariciava o cabelo do marido enquanto falava:
- Ela possui uma alma muito sofrida, e não sabemos por quê.
Mas ela criou uma espécie de "elo" com esse sofrimento e agora não consegue rompê-lo.
Augusto respeitava a crença da esposa e se interessava pelo assunto, mas ainda não havia começado a estudá-lo profundamente:
- Como assim, meu amor?
Você quer dizer que ela sofre porque quer?
Júlia sempre procurava palavras simples que transmitissem suas ideias de forma que qualquer pessoa pudesse compreendê-las:
- De certa forma sim.
- Mas ninguém gosta de sofrer nem vai optar por isso - disse Augusto bastante intrigado.
- Não é bem uma questão de opção.
As pessoas não saem por aí dizendo:
"eu quero ser um sofredor" - respondeu Júlia com um sorriso.
- Então, como é?
- Algumas pessoas não querem sofrer, mas passam a vida alimentando esse sofrimento, e depois acusam os outros, a falta de sorte, até Deus pela sua dor e por não conseguirem alcançar o que almejam.
Não sabemos que acontecimentos machucaram tanto o coração de nossa amiga, mas veja tudo o que ela construiu na vida.
É bonita, poderosa e rica, mas nunca a vimos apaixonada ou interessada por alguém.
- É verdade! Com certeza ficou assim por alguma desilusão amorosa.
- É provável, mas seja lá o que tenha acontecido, foi muito tempo atrás, e, apesar disso e de tudo o que ela possui, provavelmente não se libertou desse passado, e deve alimentar seus fantasmas diariamente.
Ela tem todas as condições de formar uma família, ser totalmente feliz, mas o que a impede é sua forma de pensar.
Sua energia não está focada no presente.
Está presa ao passado e, em seus momentos consigo mesma, tenho certeza de que em vez
de fazer planos para construir sua felicidade afectiva, fica remoendo factos que já deveriam estar enterrados.
Quando uma pessoa não perdoa nem se liberta do passado, ele volta com mais força, sofrimento e dor.
- Mas ela é tão inteligente, como não tem consciência de que poderia mudar isso?
- Isso não tem relação com inteligência, mas com aceitação e percepção de que tudo o que move a vida é a energia, e que nossa forma de pensamento é a energia mais poderosa que existe.
Se nos conectamos muito a uma determinada ideia, ela acaba atraindo uma energia equivalente e cria esse elo.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 16, 2018 9:53 pm

Quanto mais atenção você dá a alguma coisa, mais ela estará presente na sua vida.
O pensamento é uma energia viva e actuante, e é essa energia que move os acontecimentos em nossa vida.
Augusto coçou a testa e questionou:
- Uma vez um amigo me disse que a coisa que mais tinha medo era de ser assaltado.
Quando saía de casa estava sempre preocupado que algum bandido o abordasse no carro.
Não conseguia ter sossego.
Tomava todas as precauções e, mesmo assim, já havia sofrido três assaltos.
Graças a Deus, sem gravidade.
Não é engraçado isso?
- Exactamente.
Ele focou a energia dele nessa situação, e acabou atraindo exactamente o que ele queria repelir.
Existem inúmeros exemplos sobre isso, como pessoas que querem encontrar o companheiro ideal, mas sempre se envolvem com tipos completamente diferentes do que sonharam.
Apesar de idealizarem certo padrão, seus pensamentos estão focados em outras características que chegam na forma de companheiros diferentes do que haviam imaginado.
E aí, novamente culpam o destino.
Eu mesma tive uma amiga que sempre reclamava por só namorar homens mais fracos e sem iniciativa.
Com algumas conversas que tivemos, percebi que ela era uma pessoa extremamente independente, determinada e de alma muito livre.
Ela não havia se dado conta de que jamais conseguiria conviver com um homem poderoso e dominador.
O que ela idealizava não correspondia ao que o seu íntimo precisava.
Depois de algum tempo ela entendeu a situação e acabou encontrando um bom rapaz, companheiro e que atendia ao seu lado mulher, sem tolher seu jeito livre de ser.
Entendeu que era assim que seria feliz, e estão juntos até hoje.
- Ou seja, Luciana quer ser feliz, mas enquanto seu foco estiver no passado ela não conseguirá, é isso?
- Diga francamente, meu amor, você conhece algo na vida de Luciana que a impeça de encontrar um amor, de ser uma pessoa leve que goste de se divertir, de ter amigos?
Existe alguém ou alguma limitação na vida dela que a impeça de ser feliz?
Augusto pensou por alguns instantes:
- Realmente não.
Ela tem tudo o que qualquer pessoa precisaria para ser feliz.
- É o que digo.
A infelicidade dela não é nem culpa desse passado.
Se alguém a fez sofrer, sabe-se lá onde está essa pessoa agora e que tipo de vida leva, talvez nem se lembre mais dela.
E enquanto quem lhe fez mal segue em frente, ela parou no tempo e atribui ao passado sua infelicidade, quando tudo já está distante e não tem mais o poder de afectá-la.
O que a impede é o que está em sua mente e em seu coração.
Fora os erros do passado que precisamos expiar, nada mais pode nos causar mal, só o presente.
Conheço pessoas que sofrem antecipadamente imaginando coisas terríveis que podem acontecer e que no fim nunca acontecem.
Essas acabam sofrendo, desgastando-se por nada.
E outras que carregam o sofrimento que já passou, e que acaba acompanhando-as por toda a vida.
- Gostei disso, Júlia.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 16, 2018 9:53 pm

Vou guardar essa frase:
"Nada mais pode nos causar mal, só o presente".
Júlia deu um beijo no marido e concluiu:
- Sabemos que existem espíritos que desencarnaram com essa energia de sofrimento e a carregam por todos os lugares.
Quando percebem um canal aberto em alguém que mantém sintonia com essa energia, eles se aproximam e alimentam esses pensamentos de dor, de ódio.
E a pessoa vai ficando cada vez mais envolvida por esses sentimentos destrutivos.
Sinto que Luciana infelizmente possui espíritos ao seu lado que a incentivam, enviando vibrações que a fazem continuar ligada a esse passado que tanto a machucou.
Mas eles só conseguem atingi-la porque ela entrou em conexão com eles.
Os espíritos desencarnados se aproximam do que lhes chama a atenção, daquilo com que se identificam.
- Por tudo isso você sempre fala sobre a importância de orarmos e mantermos pensamentos de amor, elevados e voltados para a felicidade e o bem.
- Claro, se mantivermos nossos pensamentos vibrando de forma positiva e feliz, teremos sempre uma legião de amigos, tanto no plano terrestre como no plano espiritual para nos ajudar a superar as dificuldades e conquistar nossos objectivos e vitórias.
Augusto olhou para a esposa com um intenso brilho no olhar:
- Sabe que eu a amo demais! - e com um sorriso aproximou-se e deu-lhe um beijo apaixonado.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 16, 2018 9:53 pm

vinte - Revelações
Augusto entrou na sala de Luciana com todas as informações que ela havia pedido.
Foi directo ao assunto sem fazer perguntas:
- Luciana, a situação de Arthur Gouveia Brandão é realmente desesperadora.
A empresa está com dívidas enormes e são poucas as chances de recuperação.
Acredito que em questão de dias a falência deve ser decretada.
- Não imaginei que fosse tão sério.
Isso significa que ele pode perder tudo?
- Sim. Se acontecer o pedido de falência, até os bens pessoais dele podem ser vendidos judicialmente para quitar as dívidas.
Luciana mal acreditava no que estava ouvindo.
Lembrou-se da mansão onde vivera por tantos anos e reviu em seus pensamentos o grande e bem-sucedido empresário Arthur.
Não entendia como ele pôde chegar àquele ponto.
Augusto continuou:
- Recebi informações de que a tentativa de suicídio do filho dele teria estreita relação com esses factos.
Parece que ele não suportou a ideia de se tornarem pobres da noite para o dia.
- Então essa situação me parece irreversível...
- Exactamente!
Arthur Gouveia Brandão é um empresário falido e está em maus lençóis.
Parece também que a mulher dele dilapidou sua fortuna com gastos excessivos.
Talvez ele não tenha muito com o que recomeçar.
Já vi outros casos de empresários que passaram por essa situação e acabaram fazendo o mesmo que o filho de Arthur fez agora.
Só que muitos foram bem-sucedidos e deram fim à própria vida.
Tudo isso é lamentável.
Luciana estava inquieta e andava de um lado a outro quase sem falar.
Augusto sabia que quando ela agia assim era porque estava organizando as ideias e um plano de acção.
- Está certo, Augusto.
Acho que isso era tudo o que eu precisava saber.
Obrigada, e se precisar de mais alguma coisa eu o chamo.
Pode ir agora, preciso decidir o que fazer.
O advogado retirou-se deixando a chefe articulando seus próximos passos.
Em poucos minutos, ela abriu a porta e dirigiu-se até a mesa de Suzanne:
- Por favor, providencie uma passagem para hoje...
Ou melhor, para as próximas horas, para São Paulo.
Assim que estiver com ela em mãos, leve até minha sala.
Cancele todos os meus compromissos para os próximos dias.
Virou as costas e voltou para sua sala.
Suzanne levou alguns segundos para reagir.
Quando se deu conta das intenções de Luciana, foi atrás dela:
- Você não pode fazer isso!
Luciana a olhou de maneira muito séria:
- Não posso fazer o quê?
- Você sabe! Não pode ir atrás daquela gente.
Diante do silêncio da amiga, Suzanne concluiu:
- Você vai acabar se machucando.
O que aconteceu com eles, com Fabiano, não lhe diz respeito.
Você não pode ir vê-los.
Não vai ser bom para você.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 16, 2018 9:53 pm

- Eu preciso ver de perto como Fabiano está; e se para isso eu tiver de enfrentar Arthur e Laís, eu o farei!
Não há nada que eles possam fazer para me prejudicar.
- Você sabe que não é verdade.
Eles podem magoá-la sim.
Você ainda ama Fabiano e isso a deixa muito vulnerável.
Em um raro momento de fraqueza, Luciana ficou com os olhos marejados:
- Suzanne, você é a única pessoa que sabe tudo o que passei, e só você é capaz de me entender.
Por mais que eu tenha tentado todos esses anos, jamais consegui esquecer Fabiano, jamais consegui esquecer nossa filhinha, e essa dor me acompanha em todos os dias da minha vida.
Nunca consegui odiá-lo, embora tivesse todos os motivos para isso.
E agora ele está passando por uma situação terrível.
Preciso vê-lo.
- Sei que não vou conseguir fazê-la desistir da ideia, mas, por favor, preserve-se.
Não permita que Laís ou Arthur a machuquem.
Nem mesmo Fabiano.
Quer que eu a acompanhe?
- Não será necessário.
Estou segura e não tenho medo.
Tudo o que aquela gente podia tirar de mim, já tirou.
- Bem, vou marcar o voo para daqui a duas horas.
Acho que você não precisará de mais tempo que isso para se organizar.
- Está óptimo; vou directo daqui, nem preciso de bagagem.
Volto hoje mesmo, em qualquer horário, à noite.
- Você me liga assim que tiver saído do hospital?
Ficarei apreensiva aguardando notícias.
- Vou ficar bem, não se preocupe; mas eu ligo sim.
Agora por favor, deixe-me um pouco sozinha.
Preciso pensar.
Só avise ao motorista que esteja pronto para levar-me ao aeroporto dentro de uma hora.
Suzanne saiu chateada por não conseguir impedir Luciana de viajar.
Na UTI, ouviam-se apenas os sons dos equipamentos que mantinham cada paciente unido à vida por um laço, em muitos casos frágil e incerto.
Fabiano repousava em seu leito por meio de um coma induzido.
De hora em hora uma enfermeira ia checar seus sinais vitais e o soro que o mantinha alimentado e hidratado.
Enquanto o corpo físico de Fabiano permanecia imóvel, seu perispírito foi desprendido por uma intensa luz azul, mesclada de tons violeta, que preencheu o ambiente e o fez sentar-se na cama.
Ao olhar para o lado e ver que seu corpo permanecia deitado, sentiu certa confusão e não entendia como estava sentado e deitado ao mesmo tempo.
Antes que pudesse aprofundar seus questionamentos, virou-se novamente em direcção à luz e viu Olívia, sua mãe, que lhe estendia os braços e sorria para ele, transbordando de amor e ternura.
Fabiano estava completamente desnorteado, mas sentiu-se comovido ao reconhecer a mãe, que lhe falou com a voz que ele jamais esquecera:
- Fabiano, meu querido, venha comigo.
Chegou a hora de você conhecer seu passado para entender sua vida actual.
- Mãe! Minha querida mãe, sinto sua falta.
Não sei o que está acontecendo aqui, agora, mas leve-me com você.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 16, 2018 9:54 pm

O que preciso conhecer?
De que passado a senhora está falando?
- Não fique ansioso, meu filho, tenha calma e você entenderá tudo, inclusive as ligações com as pessoas nesta sua passagem terrena.
Dê-me sua mão.
Ele estendeu a mão para a mãe e juntos volitaram rumo ao despertar da consciência de Fabiano.
De repente, ele se viu em um belíssimo jardim cercado por uma grandiosa construção onde bem ao centro estava uma bela catedral.
Fabiano olhava tudo com curiosidade e sem compreender ainda o que estava acontecendo.
Sua mãe apenas esperava e o observava, pois sabia que as perguntas logo viriam.
E assim aconteceu:
- Mãe, que lugar é esse?
Por que me trouxe aqui?
Não sei onde estou, mas tenho uma sensação estranha, como se estivesse voltando para casa.
- De certa forma está, meu filho.
Aqui foi sua casa durante muito tempo.
- Eu morei aqui?
Neste castelo?
- Aqui não, mas nesta cidade.
Isso que você chama de castelo, é a fortaleza de Pedro e Paulo, e esta catedral leva o mesmo nome.
Estamos em São Petersburgo.
- Onde?
- Na Rússia, meu filho, lugar onde você nasceu e viveu por muitos anos.
Vamos caminhar e conversar sobre isso.
A sensação de familiaridade crescia em cada lugar em que eles passavam.
Mas o moço ainda estava confuso.
Ao chegarem diante de um belo palácio, Fabiano parou para ver um casal que passeava pelo jardim.
Estava atónito e disse:
- Eu os conheço.
São meu pai e Laís! Como pode?
- Vou contar-lhe tudo.
Você viveu aqui em São Petersburgo com seu pai, um duque muito conceituado e sua mãe, também de família tradicional da aristocracia russa.
Só que sua mãe desencarnou muito cedo e seu pai casou-se novamente com uma moça muito mais jovem.
- Essa moça era Laís?
- Nessa época ela se chamava Olga.
Venha, vamos entrar no palácio.
- Eles vão nos ver - disse Fabiano sentindo certa aflição.
- Não se preocupe com isso.
Ninguém nos verá.
Acompanhe-me.
Ao entrarem no imenso salão principal, lá estava Olga, só que desta vez sozinha.
Fabiano já não perguntava nada; sentia-se vidrado diante das imagens que transitavam na sua frente como um filme.
De repente, a mulher correu e entrou em uma pequena sala, que parecia um escritório.
Fabiano e Olívia a acompanharam.
Ela entrou na sala, fechou a porta e passou a chave.
Por outra porta lateral, entrou um homem, que fez Fabiano sentir uma vertigem.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 16, 2018 9:54 pm

- Mãe, sou eu!
Olívia segurou sua mão para acalmá-lo.
O homem entrou e Olga se atirou em seus braços e ambos começaram a se beijar e se abraçar, cheios de desejo.
Envolvidos pela volúpia dos amantes, Olga e Vladimir se entregaram ao prazer sem reservas e pudores.
Fabiano transpirava e olhava aquela cena aterrorizado.
- Mãe, aquele com Laís sou eu.
Eu era amante da mulher de meu pai?
- Seu nome era Vladimir, e vocês eram amantes.
Ela perseguiu você até conseguir conquistá-lo.
- Vamos sair daqui! Não quero mais ver isso.
Comovida ao ver a angústia do filho, Olívia o levou para um pátio ao ar livre, para que ele pudesse se acalmar.
Ele estava se sentindo envergonhado e não se conformava com a cena que presenciara.
- Como eu pude fazer isso com o meu próprio pai?
Eu o traí dentro de sua própria casa - disse levando as mãos à cabeça, desolado.
Olívia deixava que ele falasse tudo o que estava sentindo.
Ele ainda teria muitas revelações.
Vários empregados do palácio começaram a atravessar o pátio e novamente a movimentação chamou a atenção de Fabiano.
Eles iam e vinham sem pressa, como se estivessem em sua rotina diária.
Para ele tudo era intrigante, das roupas ao idioma.
Surpreso, entendia cada palavra.
As cenas passavam de maneira estranha, como se os dias mudassem sem amanhecer e sem anoitecer.
Via os mesmos rostos desfilarem diversas vezes à sua frente, mas com vestuários e comportamentos diferentes.
De repente, Vladimir surgiu correndo em direcção a uma moça que estava sentada perto de uma fonte.
Fabiano sentiu seu corpo ficar rijo de tensão e exclamou:
- Luciana!
Olívia interveio com suavidade:
- Aléxia! O nome de Luciana nesse período era Aléxia.
Fabiano não conseguia desgrudar os olhos dos dois, que ficaram sentados lado a lado, trocando olhares apaixonados.
- Não entendo.
Parece um casal enamorado.
- E eram.
Vladimir na verdade era apaixonado por Aléxia, mas como ela era filha de uma das costureiras do palácio, ele nunca assumiu seu amor.
Ele a seduziu e ela engravidou.
Como Vladimir jamais assumiu a paternidade da criança, e Aléxia não tinha condições de cuidar da filha, ela e a mãe deram a menina para adopção e fugiram com vergonha e medo da reacção do duque caso descobrisse tudo.
Em instantes, eles estavam novamente sozinhos no jardim em frente ao palácio.
Fabiano só sentia sua angústia aumentar:
- Meu Deus, como eu pude fazer tudo isso?
Traí meu pai, engravidei Luciana e a deixei desamparada, que vergonha, que tristeza!
- Calma, meu filho, você apenas está começando a conhecer os factos.
Não se precipite, nem julgue nada, nem ninguém.
Você precisa apenas entender o sábio mecanismo da vida.
Ele não conseguia se acalmar.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 16, 2018 9:54 pm

Seu coração estava pesado e sentia que ainda teria revelações mais terríveis pela frente.
- E o que aconteceu com Luciana e a mãe?
O que aconteceu comigo depois que elas fugiram?
Meu pai descobriu minha traição? - perguntava quase sem parar para esperar pelas respostas.
Mais uma vez, Olívia tentou aquietar o coração do filho:
- Você precisa estar mais calmo para compreender os factos.
Venha, suas respostas nos esperam.
E volitaram para outra parte da cidade, onde Fabiano ainda teria muitas surpresas.
*
A Rússia estava passando por um evento que mudaria o rumo de sua sociedade.
O czar Alexandre III havia falecido e seu filho, Nicolau II assumiu o governo, e a Rússia viu crescer os muitos investimentos na área industrial, principalmente em centros mais populosos como Moscou, São Petersburgo, Odessa e Kiev.
Nessas cidades começaram a se concentrar as populações de operários, que viviam em extrema pobreza, recebendo salários miseráveis e trabalhando de doze a dezasseis horas por dia, sem auxílio para alimentação, em lugares sem o mínimo de higiene e se sujeitando a contrair diversas doenças.
E foi em um desses bairros que Olívia e o filho fizeram a próxima parada.
Fabiano não entendia o que estavam fazendo ali e estava desolado por ver um povo tão sofrido vivendo em tamanha penúria.
Mas o choque maior veio quando deparou com Luciana, ou melhor, Aléxia vivendo naquele lugar.
Ela estava com uma aparência vulgar e desleixada, e aparentava muito sofrimento, reflectido em sua expressão envelhecida, apesar de ser ainda jovem.
Olívia sabia da angústia pela qual Fabiano estava passando, mas era necessário que ele soubesse de tudo:
- Você me perguntou o que aconteceu com Aléxia.
Aí está.
Ela, depois de fugir, perdeu a mãe, e como não tinha condições de se manter, acabou se prostituindo e planejando conseguir um marido rico que a tirasse dessa vida.
Antes que Fabiano pudesse fazer alguma pergunta, eles se dirigiram para um bairro elegante onde o tempo havia passado e operado grandes transformações na vida de Aléxia.
Ele olhou de forma inquisidora para a mãe e ela esclareceu:
- Aléxia alcançou seu objectivo e casou-se com um barão, já bastante idoso, e conseguiu ficar muito rica.
- Fico aliviado em saber que ela, apesar de tudo, reconstruiu sua vida.
- Mas ela cometeu um ato terrível.
Assassinou o próprio marido para poder se apoderar de sua fortuna.
Fabiano ficou arrasado.
Não sabia mais o que pensar.
Não tinha certeza se queria saber mais alguma coisa, porém a curiosidade e a culpa que estava sentindo o fizeram prosseguir:
- Depois de matá-lo, ela nunca mais se casou? - perguntou vacilante temendo o que ainda estava por vir.
Sem nada dizer, Olívia levou Fabiano novamente para o palácio do duque.
Lá encontraram Aléxia, Vladimir, Olga e Petrov, esse último, era Arthur.
Depois de se apoderar da fortuna do marido assassinado, Aléxia conseguiu voltar, reconquistar Vladimir, e eles acabaram se casando.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 16, 2018 9:54 pm

Olga jamais se conformou com a situação e não perdia uma única oportunidade de humilhar Aléxia, falando geralmente na frente de todos da corte, sobre a origem humilde e pobre da esposa de Vladimir.
Aléxia já não suportava mais a presença de Olga, e até mesmo o duque Petrov estava diferente, sendo constantemente instigado por Olga a ir contra a nora.
Cansada de tudo aquilo, e sem perspectivas de conseguir um pouco de paz em sua vida, ela tomou outra atitude: envenenou Olga e o duque Petrov e os eliminou definitivamente de sua vida.
Vladimir, que nem imaginava o que a esposa havia feito, consolou-se pela morte do pai nos braços da assassina, que se fez presente apoiando o marido em momento tão doloroso.
E, sem a influência insuportável de Olga, Aléxia e Vladimir foram felizes, tiveram outros filhos e ele nunca soube o destino da sua primeira filha com Aléxia.
Ficaram juntos até o fim da vida, até a passagem para este plano.
Mas em suas existências terrenas, jamais imaginaram que os seus sentimentos de raiva, vingança e as atitudes de descomedido egoísmo estavam se acumulando para formar a realidade que encontrariam após o desencarne.
Eles iriam deparar com os monstros que o coração e a mente de ambos alimentaram durante anos; e esse confronto seria doloroso, quase devastador para o espírito de Vladimir e o de Aléxia, ainda tão imperfeitos, que carregavam intensas paixões do mundo material, impregnando a atmosfera que os rodeava.
A beleza dos palácios na Rússia deu lugar a um mundo onde a noite era contínua, e o frio acompanhado de grande umidade, alternava-se com ondas insuportáveis de um calor intenso.
Fabiano assustou-se ao olhar ao redor e buscou imediatamente a segurança da presença de Olívia, que o amparou apenas com um olhar.
Gritos desesperados eram ouvidos por toda parte; criaturas quase monstruosas passavam bem diante dos olhos dos visitantes.
Homens e mulheres rasgados, sujos e feridos caminhavam sem rumo pelo umbral, esbarrando-se uns nos outros sem a menor noção do que estavam fazendo.
Fabiano olhou ao longe e viu uma cena que o deixou estarrecido:
dois homens amarrados a uma árvore eram violentamente agredidos e chicoteados por outras pessoas, que passavam e simplesmente se juntavam àquela sessão de tortura, sem sequer parecerem ter um motivo.
O rapaz sentiu o estômago se contorcendo de dor e pediu a Olívia que saíssem dali.
Ela lhe disse que nada os atingiria e que ele precisava ver como terminou aquela história.
Muito contrariado, ele assentiu, e logo em seguida se viu como Vladimir, chegando imundo ao lado de Aléxia, ambos atordoados e desesperados.
Ele sentiu uma grande angústia ao vê-los, mas o sentimento se transformou em tormento quando avistou indo em direcção a eles, com uma fúria animalesca, Olga, Petrov e o barão que havia sido marido de Aléxia.
Eles caminhavam quase se arrastando e gritavam para o casal:
- Enfim, vocês chegaram!
Que o tormento e a dor sejam seus companheiros para todo o sempre! - esbravejava Olga.
- Assassinos! Vocês vão pagar!
Assassinos! - vociferava o barão.
- Traidores! Assassinos!
Vocês agora são nossos!
Serão destruídos como fizeram connosco! - gritava Petrov.
Ao lado deles havia dois cães enormes, negros, com os olhos amarelados, babando e espumando com seus latidos potentes e raivosos.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 16, 2018 9:54 pm

A um sinal de Olga, eles avançaram com fúria para cima de Vladimir e Aléxia, jogando-os no chão e cravando suas afiadas presas em seus braços e pernas.
Eles urravam de desespero e dor enquanto se debatiam tentando se livrar dos animais.
Olga, Petrov e o barão foram se aproximando e gargalhavam diante do sofrimento daqueles que eles consideravam inimigos.
Quando já estavam ao lado deles, os cães se acalmaram e se afastaram, deixando os dois corpos banhados de sangue se contorcendo no chão.
Sem dizer nada, Olga se abaixou ao lado de Aléxia, deu uma cusparada em seu rosto, agarrou-a pelo cabelo e saiu arrastando-a por um caminho cheio de lama e pedras, que iam ralando todo o seu corpo.
Petrov e o barão fizeram o mesmo com Vladimir, cada qual segurando uma de suas pernas.
Seguiram Olga até um grande casarão abandonado, todo escuro e com janelas e portas quebradas.
Ao entrarem, havia um grande salão empoeirado, com várias tochas que iluminavam precariamente o ambiente, e apenas duas grandes mesas de madeira maciça no centro.
Colocaram Vladimir e Aléxia quase desfalecidos, um em cada mesa, e com um gesto apenas, um homem que entrou logo depois deles, lançou uma luz avermelhada em direcção ao corpo deles estendido, e essa energia materializou-se em tiras de couro que prenderam o peito, braços e pernas dos dois às mesas, de modo que não poderiam se mover por mais que tentassem.
Em seguida, outro homem de estatura muito baixa, com um andar curvado e manco, apareceu sorrindo com seus dentes amarronzados e quebrados:
- Vocês fizeram um bom trabalho.
Estava ansioso para recomeçar minhas experiências.
Olga, Petrov e o barão riram alto e aplaudiram aquele que lhes faria justiça.
O homem era um cientista que vivia nas trevas, jamais desistindo de dar continuidade a um trabalho que iniciou ainda encarnado, que era o de fazer experiências com seres humanos, geralmente prisioneiros de guerra.
Ele deu um grito e apareceram mais dois ajudantes, com objectos estranhos de vários tamanhos e tipos, parecidos com alicates cortantes e martelos.
Em seguida, começou a dissecar o perispírito de Vladimir e o de Aléxia, que se debatiam e gritavam loucamente alucinados de dor, enquanto o cientista transformava cada corpo em uma pasta de sangue e vísceras, diante dos três algozes que dançavam e cantavam sem parar.
Fora do casarão, onde ainda era possível ouvir os gritos a metros de distância, uma luz branca brilhava intensamente no meio da escuridão.
E envolta nessa luz estava Rita, que orava implorando a Deus misericórdia para com Vladimir e Aléxia.
Logo se juntaram a ela outros irmãos que vieram de um plano mais evoluído e uniram-se na prece pelo casal de amantes, que estava totalmente entregue à agonia e loucura daqueles que só desejavam vingança.
Não se sabe quanto tempo durou aquele tormento, mas de repente, o casarão inteiro estremeceu fazendo com que todos os que estavam de pé no seu interior caíssem no chão.
Naquele momento, a mesma luz branca surgiu e se posicionou sobre as duas mesas, envolvendo os corpos disformes e desfigurados dos dois, e mantendo uma barreira que impedia a aproximação daquelas criaturas repletas de maldade.
O casarão voltou a tremer, e, assustados, todos, incluindo o cientista, saíram correndo para o lado de fora, xingando e proferindo mais palavras de ameaças e vingança.
Os irmãos que estavam com Rita entraram, e logo depois trouxeram Vladimir e Aléxia enrolados em lençóis brancos, que logo ficaram encharcados das marcas de todo o sofrimento pelo qual passaram.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 16, 2018 9:55 pm

Rita os recebeu com lágrimas de agradecimento nos olhos, e todos partiram por uma ponte iluminada, deixando atrás deles, os gritos de Olga, que incansável ameaçava:
- Eles não merecem partir!
São assassinos!
Tem de ficar e sofrer.
Mas eu ainda vou encontrá-los!
Vou acabar com vocês!
Petrov e o barão já não gritavam mais.
Estavam sentados, desesperados e cansados, alternando momentos em que sentiam toda a força de seu ódio, com tristeza e amargura por não conseguirem deixar aquele lugar sombrio e por, em raros instantes, sentirem repúdio pelos próprios sentimentos nefastos.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 16, 2018 9:55 pm

vinte e um - No plano espiritual
De volta à fortaleza de Pedro e Paulo, Fabiano e Olívia sentaram-se em um banco no jardim, e ele, com a cabeça apoiada nas mãos, chorava inconformado com tudo o que vira.
A mãe o deixou extravasar toda sua angústia por alguns instantes e aguardou que ele falasse o que estava sentindo, o que não demorou a acontecer.
- Mãe, que coisas horríveis aconteceram com todos nós.
Como eu pude ser tão irresponsável e cruel com Luciana?
E, Laís?
Nunca a imaginei tão perversa e com tanto ódio no coração.
E como pude trair meu próprio pai?
Meu Deus, quanta vergonha sinto disso tudo.
- Meu querido, todos vocês agiram de acordo com o entendimento que tinham sobre a vida e alimentados por suas paixões e medos.
Cada um age dentro dos padrões de seu desenvolvimento moral e espiritual.
Não se martirize com isso.
- Como não me martirizar?
Eu que sempre me achei boa pessoa.
Admitir que fui capaz de tantas atitudes mesquinhas... isso me revolta.
Olívia acariciou os cabelos do filho e prosseguiu em sua tentativa de orientá-lo:
- O que está feito, está feito.
- Não aceito, não pode ser! - repetia Fabiano com as lágrimas lavando seu rosto.
- Pode, meu filho!
O que foi feito não pode ser alterado.
Não existe maneira de se desfazer o passado.
Ele permanecerá imutável, mas suas consequências, essas ainda podem ser salvas de alguma forma.
- Não compreendo.
- Todos vocês optaram por uma nova encarnação juntos e se encontraram nos dias de hoje para evoluírem e colocarem em prática o que aprenderam com aqueles erros e com o que sofreram e cresceram enquanto estavam ainda no plano espiritual.
A reencarnação é mais uma oportunidade para executarem o aprendizado adquirido na transição entre as várias passagens terrenas.
- Mas eu nem sabia dessa minha vida na Rússia, não sabia nada desse meu passado, como eu poderia corrigir alguma coisa?
- Você não poderia saber e Deus, como sempre, em sua infinita sabedoria, não permite que nos lembremos de factos passados para o nosso próprio bem.
Imagine se você soubesse, nessa encarnação, que traiu seu pai com a mulher dele?
Como você suportaria viver com Arthur sabendo isso?
Você não aguentaria a vergonha, e sem poderem compartilhar uma vida, não conseguiria evoluir e colocar em prática seu aprendizado.
- Isso é verdade.
Meu pobre pai, sempre tão meu amigo, companheiro, acho que nunca mais conseguirei olhar em seus olhos a partir de agora.
- Não se preocupe com isso, filho.
Quando você voltar, levará apenas uma impressão, uma sensação de tudo o que conversamos e de tudo o que você presenciou, mas não terá nenhuma lembrança.
No seu íntimo, sua alma saberá, mas você não terá do que se envergonhar porque sua vida seguirá como antes.
Ou melhor, tenho certeza de que muita coisa vai mudar.
Deixe que seu espírito e seu coração guiem-no.
- Eu novamente abandonei Luciana.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

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