Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 17, 2018 8:47 pm

Eu a amava verdadeiramente, mas movido pelos preconceitos ainda alimentados por Laís, eu a deixei sofrendo, e grávida de um filho meu.
Repeti o erro do passado.
Não aprendi nada!
E, agora, vejo que Laís ainda hoje tentava me seduzir.
Que horror!
- Ela também teria de viver essa situação para ter a oportunidade de agir diferente, e dessa forma comprovar que o aprendizado valeu e que ela havia dado mais um passo em sua evolução.
Mas também não soube aproveitar a chance e seus erros se repetiram da mesma maneira.
Laís reencontrou Petrov na figura de Arthur, um homem bom, apaixonado por ela e em condições de lhe oferecer uma boa vida.
Ela podia escolher por viver feliz ao lado dele e fazê-lo feliz também.
Ela veio para essa passagem terrena com muitas qualidades e deveria utilizá-las para a construção de uma vida voltada para o bem, mas em vez disso usou seu livre-arbítrio para seguir o caminho do egoísmo, da vaidade e do preconceito.
Agindo dessa forma, ela acabou abrindo um canal para que espíritos inferiores e perturbados se aproximassem para lhe sugerir que seguisse o caminho da discórdia e da mentira.
Eu estive na casa de vocês algumas vezes e vi a ligação de Laís com esses pobres irmãos.
Tentei aconselhá-los, fazê-los partirem em busca de auxílio, orei, mas eles se divertiam vendo a facilidade com que conseguiam direccioná-la para o mal.
Ela permitia isso aceitando as sugestões, caso contrário, eles iriam embora frustrados por não terem poder algum sobre ela.
Fabiano ouvia tudo atentamente.
Curioso e ávido por mais informações, perguntou:
- Mas Luciana sofreu muito como Aléxia, e Laís, como Olga, foi muito perversa.
Porque então Luciana voltou como filha da empregada e Laís rica?
Isso não é injusto?
- Se Laís voltasse em posição, digamos, de inferioridade social, ela não teria meios de mostrar de forma tão clara sua evolução.
Uma das maiores provas que um espírito pode encontrar em sua passagem terrena, é a riqueza.
Ela é útil para o bem nas mãos de pessoas cujos espíritos já estão em um grau mais elevado de evolução.
Mas nas mãos de espíritos levianos, a riqueza pode fazer muito mal sobre a Terra...
Com toda a riqueza na qual vivia, Laís mostrou que não usou nada do que aprendeu e continuou usando seus bens materiais e sua posição para prejudicar outras pessoas e satisfazer sua vaidade.
- Mas se Laís não tinha evolução, fatalmente usaria a riqueza para o mal.
Sabendo disso, por que Deus permitiu?
- Quando Deus permite uma prova a um espírito é porque sabe que ele pode sair vencedor.
Laís tem evolução para agir melhor, mas por livre-arbítrio se permitiu voltar a agir na maldade.
Na Terra existem muitas pessoas agindo fora de seu nível espiritual, por isso sofrem.
- E isso é possível? - perguntou Fabiano confuso.
- Como pode alguém agir fora do nível de evolução que possui?
- É muito fácil perceber.
Quantas vezes você sente que deve ir por determinado caminho e ignora seu sentir, indo por outro?
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 17, 2018 8:47 pm

Sempre que despreza a intuição, o bom senso está indo contra seu nível de evolução espiritual.
A intuição é a mais perfeita forma de conhecer a verdade.
Quem age sempre por ela é feliz, próspero, vive harmonizado consigo mesmo e com os outros.
O grande problema é que fomos ensinados erroneamente a sempre agir na razão materialista e baseados nos valores sociais.
- Mas, mãe, quem pode viver sempre agindo pelos sentimentos?
Os sentimentos fazem sofrer, levam-nos a caminhos de amargura e desilusão.
- Não, Fabiano, não são os sentimentos que fazem isso.
É o excesso de sentimentalismo e paixão que causam sofrimento.
Os sentimentos vêm do coração e tudo o que vem do coração é bom, faz feliz, eleva e comove.
Quem vive pelo coração é muito mais feliz do que quem vive pela razão do mundo terreno.
O raciocínio, a lógica e a razão são funcionais e boas em muitas ocasiões, mas em demasia endurecem o espírito, despertam a frieza dos sentimentos, a secura da alma.
E não há nada pior do que uma pessoa que não sente a vida vibrando dentro de si com intensidade.
Fabiano parou para pensar e percebeu que a mãe tinha toda razão.
Se ele tivesse seguido seus sentimentos desde o começo não estaria tão infeliz como agora. Lembrou-se da amada.
- E Luciana? Por que ela sofre tanto?
- O maior problema dela foi o medo, a insegurança e o sentimento de vingança.
Ela precisa aprender a perdoar e a enfrentar a vida com coragem e determinação.
As provas se repetiram, geralmente são assim, recorrentes até que alguma mudança muito drástica seja necessária.
E Luciana novamente se acovardou, teve medo, e o desejo de vingança ainda move seus actos e alimenta seus pensamentos.
- Estamos todos perdidos, mãe!
Como o ser humano desperdiça sua vida com sentimentos que só o leva e aos outros, ao sofrimento, ao desamor.
Eu sempre ouço dizer que a vida é difícil, mas não é verdade.
A vida em si é simples; as pessoas é que criam seus problemas baseados em ilusões.
A inveja, o rancor, o egoísmo... são armas muito destrutivas e que, infelizmente, propagam-se facilmente.
- É verdade, meu filho.
Mas existem muitos espíritos bons encarnados levando palavras enriquecedoras pela Terra.
Vejo uma grande preocupação no ser humano em melhorar o ambiente em que vive.
Muitos já se questionam sobre os valores morais e percebem o prejuízo emocional que estão sofrendo no decorrer dos anos com a demasiada valorização do materialismo.
Observe como cada vez mais as pessoas buscam ajuda na religião, no esoterismo, no Espiritismo, na metafísica e todo tipo de crença que os faça se sentir mais perto de Deus, da essência do ser humano, dos verdadeiros valores morais.
Existem missionários que na Terra deixaram um legado de amor à humanidade, e muito são os que estão procurando e mudando sua vida para melhor.
Chico Xavier, Yvonne Pereira e Divaldo Franco são nomes que no trabalho com a espiritualidade superior têm deixado obras que, se lidas e aproveitadas como se deve, mudam nossa vida para melhor.
Mas infelizmente a maioria ainda caminha no rumo das ilusões.
- Mãe, tudo isso me assusta!
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 17, 2018 8:48 pm

As pessoas chegaram a um ponto que não conseguem mais valorizar o que são, se é que muitas ao menos sabem quem são.
Hoje se valoriza o que elas têm, o poder financeiro, o status.
Conheço pessoas muito ricas que não saberiam o que fazer se perdessem sua fortuna.
Elas não saberiam dizer do que realmente gostam, porque vivem pelo que o dinheiro lhes proporciona.
Quantas pessoas são muito ricas e vivem sozinhas, sofrem em um silêncio angustiante camuflado pela vida social.
- Não há mal nenhum em se desejar adquirir bens materiais e dinheiro enquanto estamos na Terra; ele é necessário e, como eu disse, se bem utilizado, só faz o bem e espalha alegrias.
Mas pessoas como Laís ainda não entendem isso e vão continuar sofrendo até que enxerguem a verdade e a aceitem.
- E agora?
O que devo fazer?
Como posso consertar todo o mal que fiz?
- Tenha coragem, meu filho.
Coragem para enfrentar a vida.
Essa sua tentativa de suicídio só veio mostrar que você precisa se reformular intimamente.
Você estava falando sobre dinheiro e poder, e quando se viu na iminência de perder tudo, acovardou-se e achou que tirando sua própria vida estaria solucionando seus problemas.
Agora você sabe que não é assim.
Graças a Deus, sua atitude em suicidar-se foi impulsiva e não um desejo real de morrer.
Isso permitiu que pudéssemos estar aqui agora conversando e em paz.
Fabiano abraçou a mãe e voltou a soluçar, envolvido por sensações de medo e vergonha.
- Não foi só pela constatação de que perdemos tudo que tomei essa atitude.
Nunca consegui superar a perda de Luciana.
Sentia-me traído por ela. Laís sempre falou que ela fugiu com outro homem.
A dúvida, o ciúme e a culpa sempre me atormentaram.
- E você Fabiano, em vez de ouvir seu coração e lutar para esclarecer tudo, envolveu-se na bebida e na futilidade cada vez mais fundo, até culminar seu desvario nessa tentativa de suicídio.
Continuou em uma vida ociosa, vendo seu pai se afundar em problemas financeiros, Laís dilapidar a fortuna de vocês e não agiu para evitar toda essa tragédia.
Você deveria ter se dedicado ao trabalho para ajudar seu pai a salvar os negócios, deveria ter intercedido para que Laís tomasse consciência da situação.
Deveria ter lutado pelo seu amor por Luciana.
Você se acovardou, buscou identificar culpados, lamentou-se e só não fez o que deveria:
trabalhar com um objectivo útil.
- Mas se eu tinha de passar por tudo isso... - questionou novamente tentando justificar suas atitudes.
- Entenda, meu filho:
não existe destino, você não tinha de passar por isso.
Tudo o que nos acontece quando encarnados, visa ao nosso aprimoramento.
Os problemas, as contingências da vida servem para o melhoramento progressivo do homem.
A forma como ele irá se comportar diante delas, selará seu destino.
Você já imaginou como estaria se tivesse agido diferente durante todos esses anos?
Como estaria sua vida hoje?
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 17, 2018 8:48 pm

Será que o suicídio era seu destino?
Fabiano perguntou assustado:
- Se eu tivesse conseguido me matar, se eu de facto quisesse morrer, onde estaria agora?
- Quem se suicida volta ao plano espiritual com um baixo padrão energético e é atraído para os abismos trevosos, para o umbral ou para o Vale dos Suicidas.
Nesses locais há muita dor e sofrimento.
O suicida é um falso corajoso, que, pensando terminar com suas dores, acaba agravando-as e sofrendo muito mais.
Aqui deste lado, todos os sentidos são ampliados, ganhando uma dimensão gigantesca.
Imagine um suicida tendo de enfrentar a si mesmo, sofrendo suas dores, decepções e amarguras com o triplo de intensidade?
- Isso é horrível.
Parece que Deus não tem piedade deles.
- Deus é só piedade e amor.
Mas quem não tem piedade dos suicidas são eles mesmos.
Deus deu a cada um a liberdade de agir, e cada escolha que fazemos determina um resultado que fatalmente colheremos.
O suicida deixa-se levar pelos problemas achando que eles são superiores e invencíveis.
Mas isso não é verdade.
Todo problema tem solução quando temos fé em Deus e na vida.
A falta de fé provoca o desespero que, por sua vez, faz com que nos julguemos fracos e incapazes.
Mas o ser humano é a centelha divina e tem dentro de si toda a força do mundo.
Não há problema que ele não possa vencer.
Fabiano calou-se envergonhado, demonstrando finalmente ter entendido.
Olívia prosseguiu:
- Está na hora de irmos.
Você precisa voltar e seguir seu caminho.
- Será que vou conseguir? - questionou, desanimado e repleto de dúvidas.
- Em alguns momentos você vai sentir-se inseguro, sentirá ímpetos de agir de forma leviana, mas estarei aqui orando por você.
Em seus momentos de angústia, faça orações, combata qualquer má influência, mantenha-se firme em seu propósito de construir e trabalhar por uma vida digna e voltada para o bem.
O caminho vai se abrir bem na sua frente, naturalmente.
- Eu queria muito continuar aqui com você - disse Fabiano dando um forte abraço na mãe.
- Por enquanto ainda não é possível.
Ambos temos muito o que fazer antes de podermos estar juntos novamente.
Seja forte, meu filho.
Vá em paz.
*
O alarme tocou estridente na UTI, indicando agitação no leito de Fabiano.
A enfermeira entrou e verificou que fora apenas uma pequena alteração no ritmo cardíaco do paciente, que rapidamente se normalizou.
Do lado de fora, Luciana aguardava inquieta a autorização para entrar e visitar o doente.
Quando a enfermeira saiu e deu permissão para que ela entrasse, apenas por quinze minutos, suas pernas não lhe obedeceram de imediato.
Ela achou que não conseguiria sair do lugar.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 17, 2018 8:48 pm

Reunindo todas as suas forças, passou pela porta e, ao avistar Fabiano, sentiu toda a energia do amor que ainda sentia por ele.
Apesar do triste cenário hospitalar, ele descansava tranquilo. Luciana aproximou-se e seus olhos brilharam de emoção.
Ele estava com as feições mais maduras; o cabelo já apresentava vários fios grisalhos, mas ele era um homem ainda muito bonito e dava para perceber que durante todos aqueles anos, ele jamais se descuidara da aparência.
Ela segurou em sua mão com firmeza, como se quisesse acordá-lo para poder dizer tudo o que estava sentindo.
Como ela ainda desejava aquele homem, como ela ainda o amava intensamente!
Sem saber se ele podia ouvi-la, disse baixinho:
- Meu amor, você vai se recuperar dessa atitude louca que tomou, e nós ficaremos finalmente juntos.
Eu já sei o que vou fazer e desta vez nada vai me impedir de tê-lo ao meu lado.
Eu jamais consegui odiá-lo pelo que fez comigo e não seria capaz de fazer-lhe nenhum mal.
Não sei o que você pensa sobre tudo o que aconteceu, mas seja o que for, não me importa.
Eu sei o que fazer para convencê-lo a ficar ao meu lado.
Respirou fundo e saiu da UTI decidida a procurar Arthur.
Tinha uma proposta a lhe fazer.
Ficara muito decepcionada com ele, mas também não conseguia odiá-lo.
Já com relação a Laís, finalmente ela teria a oportunidade de se vingar por todo o mal que esta lhe causara.
Saiu do hospital e foi para o hotel.
Ligaria para Suzanne avisando que ficaria mais um dia em São Paulo e para Arthur, marcando um encontro para o dia seguinte.
*
- O que você está dizendo, Luciana?
Vai se encontrar com Arthur amanhã? - indagou Suzanne, surpresa e preocupada.
- Não entendo por que o espanto.
Isso era até previsto - respondeu Luciana sem mostrar qualquer alteração de humor.
- Não, não era previsto!
Sabíamos que você poderia encontrá-lo casualmente no hospital, e você sabe que eu temia por você caso isso acontecesse.
Mas procurá-lo premeditadamente?
É como se jogar na cova dos leões!
Pense bem no que vai fazer!
Houve um rápido silêncio do outro lado da linha e, em seguida, Luciana encerrou a conversa como sempre fazia quando se sentia prestes a ser contrariada enfaticamente em suas decisões.
- Não creio que isso seja motivo para discussão.
O que está decidido será feito e ponto.
Você e seu péssimo hábito de sempre querer decidir as coisas por mim.
Isso me irrita e você sabe.
As duas se gostavam como irmãs e, por essa razão, aprenderam a se respeitar e a compreender os limites de cada uma.
Jamais se ofenderam nem sequer se magoaram.
Conheciam-se demais para que isso acontecesse.
- Está bem. Você sempre faz as coisas do jeito que quer mesmo! - respondeu Suzanne, sabendo que isso não era verdade.
Luciana muitas vezes seguiu os conselhos da amiga, até mesmo de Júlia, mas sempre procurava passar a impressão de que a última palavra havia sido sua.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 17, 2018 8:48 pm

De certa forma, os amigos verdadeiros achavam essa característica de Luciana engraçada.
Assim que desligou o telefone, ligou para a recepção do hotel e solicitou que uma funcionária do sector administrativo fosse até sua suíte prestar-lhe um serviço.
Quando a moça se apresentou, Luciana foi directo ao assunto:
- Preciso marcar uma reunião muito importante para amanhã aqui mesmo no hotel e, como não pude trazer minha assistente, necessito que você faça esse trabalho para mim.
Algum problema?
- De modo algum, senhora; aqui no hotel estamos preparados para essas eventualidades de nossos hóspedes.
O que deseja que eu faça?
- Por favor, anote porque não quero enganos.
Ligue para o senhor Arthur Gouveia Brandão.
Neste cartão estão todos os números dele.
Diga-lhe que venha aqui no hotel amanhã, às 9 horas para uma reunião com Luciana Sampaio Costa.
Peça que chegue pontualmente no horário marcado, pois não vou tolerar atrasos de nenhuma espécie, e que o assunto é de interesse dele.
E o mais importante:
é absolutamente imprescindível que ele venha sozinho.
Caso chegue aqui acompanhado de quem quer que seja, cancelo a reunião na hora.
A moça pegou o cartão com os dados de Arthur, recapitulou as coordenadas e despediu-se de Luciana garantindo que tudo seria feito como ela desejava.
Quando o telefone tocou na casa de Arthur, ele sobressaltou-se, achando ser alguma má notícia do hospital.
Correu para atender e, após ouvir tudo o que a outra pessoa falou, confirmou sua presença, mas sua reacção era de total surpresa.
Sentou-se na sua poltrona predilecta e ficou imaginando o quanto essa situação era inusitada.
Ele logo reconheceu o nome de Luciana, mas não imaginava ser possível que ela quisesse reunir-se com ele.
Por quê? Com que objectivos?
Ele não costumava acompanhar o noticiário do mundo fashion e não tinha noção de que Luciana era a famosa estilista de quem já ouvira falar rapidamente sem dar muita atenção ao assunto.
Laís entrou em seu escritório querendo saber se a ligação havia sido do hospital.
Arthur a olhou por cima das lentes de seus óculos, sem muita paciência para iniciar uma conversa e em dúvida se contaria sobre a ligação.
Decidiu contar o que se passara.
- Amanhã terei uma reunião logo pela manhã.
Não poderei ir ao hospital.
É bom que você, se quiser, vá até lá para ver como Fabiano está.
- Reunião? De quê?
Que eu saiba ultimamente ninguém anda querendo fazer negócios com você.
Ou será algum credor querendo acertar o pagamento de uma das suas muitas dívidas? - falou Laís da forma sarcástica que lhe era peculiar.
Arthur suspirou fundo, mas até que estava ansioso para ver o impacto que a notícia causaria em sua mulher.
Falou tentando mostrar certo descaso:
- Não, você não acertou em nenhuma das opções.
Minha reunião será com uma grande empresária, ao que tudo indica.
- É mesmo? Empresária? - retrucou Laís com desconfiança.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 17, 2018 8:48 pm

- Sim, mas não sei o objectivo da conversa.
Só saberei amanhã.
- E quem é ela?
- Luciana Sampaio Costa!
Laís o olhou atónita.
Queria pilheriar sobre o que ouvira, mas não conseguiu.
Apenas continuou olhando para ele como se estivesse esperando que ele dissesse ser uma brincadeira de mau gosto.
Ele a olhou até se divertindo intimamente:
- O que houve? Surpresa?
Ela já estava se refazendo do susto quando falou contendo a raiva:
- O que você está me dizendo?
A Luciana? A empregadinha?
Agora o sarcasmo partiu dele:
- Talvez você deva medir melhor suas palavras.
A empregadinha pelo jeito tornou-se uma mulher poderosa e muito bem-sucedida - concluiu com um risinho.
Laís saiu apressada e voltou em seguida com uma famosa revista de moda nas mãos.
A edição era um pouco antiga, talvez de um ano atrás, quando Laís ainda gastava dinheiro com isso.
Abriu nervosamente algumas páginas e parou abruptamente em uma delas.
Fixou o olhar nas imagens por alguns instantes e, em seguida, atirou a revista no colo de Arthur.
- Não é possível!
Essa é a Luciana, a filha da empregada?
Eu já havia escutado falar dessa estilista, mas como você há muito tempo me proibiu de frequentar os desfiles e as lojas, procurei não acompanhar o que estava acontecendo no meio da moda e na sociedade.
Não pode ser ela.
Veja a foto!
Arthur segurou a revista, e, apesar do estilo mais maduro e clássico, ele a reconheceu na hora:
- Nossa! Aquela menina se tornou uma bela mulher!
Que elegância e que charme.
Ao que parece fez uma grande fortuna.
Eu sabia que ela iria longe com sua inteligência.
Laís estava para ter uma síncope de tanto ódio:
- Não acredito que esteja dizendo isso!
Com certeza o cavalariço com quem ela fugiu não a fez chegar até aí.
Deve ter se cansado dele e aplicado algum grande golpe em alguém... ou quem sabe, em vários idiotas que como você, acreditaram nela de alguma forma.
- Você não leu a matéria?
Não me parece ter acontecido nada disso.
Aqui diz que ela se formou na Europa, mais precisamente em Milão, e quando voltou ao Brasil abriu sua casa de moda.
Parece que é muito respeitada, um ícone no mundo da moda.
- Você deve estar brincando ou enlouqueceu! - gritou Laís se descontrolando.
Arthur, que no início estava se divertindo, assustou-se com a reacção da mulher.
Havia muito tempo que seu conceito sobre ela estava mudado, mas lembrava-se da forma sempre compreensiva e doce com que Laís falava de Rita e Luciana, inclusive no episódio da partida delas.
Suspeitou de que algo estava muito errado.
- Laís, o que é isso?
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 17, 2018 8:49 pm

Você sempre a tratou tão bem, pelo menos era o que queria que eu pensasse.
Mas esse seu ataque de fúria me faz pensar que existe algo que desconheço em seus sentimentos.
Sem graça, por ter delatado toda a raiva que sentia por Luciana, Laís tentou dissimular e contornar a situação reassumindo uma postura mais contida.
- Não é isso, meu bem!
Apenas me preocupo com você e com Fabiano.
Depois de tudo o que essa garota e a mãe dela fizeram com vocês, toda a ingratidão delas, não sei o que ela pode estar querendo agora.
Por certo vai lhe pedir alguma coisa; sabe o empresário influente que você é.
Arthur meneou a cabeça negativamente e olhou abismado para a mulher:
- Laís! Acorde!
Em que mundo você ainda vive?
Se ela é uma empresária, já sabe, como todo o mundo dos negócios, que eu estou quebrado, falido.
O que ela pode querer de mim?
- Não repita essas expressões; sabe que não gosto que fale assim.
- Falido sim.
Não temos mais nada e você teima em não querer enxergar a realidade.
Se já o tivesse feito há mais tempo, talvez não tivesse contribuído tanto para nossa derrocada.
- Ah sei!
Agora a culpa é minha! Sabia!
- Há anos estou lhe avisando que estamos em dificuldades e você continuou levando sua vida do mesmo jeito.
Eu lhe pedia para economizar e você, para não deixar suas amigas saberem de nossas dificuldades, gastava cada vez mais.
- Você está sendo ingrato.
O que eu fazia era com o intuito de preservar sua imagem de empresário.
O que as pessoas diriam se soubessem que você não estava dando conta de gerir seus próprios negócios?
Se você já estava indo mal, queimando sua imagem ficaria pior.
Eu o estava apoiando, apesar de você mesmo estar destruindo nossa vida por causa da sua incompetência e ingenuidade!
- O que você está dizendo?
O que sabe sobre gerir uma empresa?
O que entende de negócios?
- Não grite comigo!
Arthur, que sempre fora um homem educado, recuperou o equilíbrio, mas manteve a amargura:
- Você não sabe nada.
Antes de casarmos vivia da mesada de seus pais, fingia que era uma mulher de negócios, brincava de trabalhar.
Mas sempre foi fútil, e eu, que verdadeiramente me apaixonei por você no início, fechava os olhos achando que com a maturidade você mudaria, ou com o meu amor.
Mas você foi ficando cada vez mais superficial e perdulária.
Sempre critiquei suas amigas, você deve se lembrar.
Você deveria ter sido uma companheira de luta na nossa fase difícil.
- Não vou nem responder às suas acusações!
Você é um ingrato! - finalizou Laís, saindo e batendo a porta.
Arthur sentou-se novamente sentindo-se muito cansado, mas voltou a pensar na reunião do dia seguinte.
A lembrança de que encontraria Luciana, acalmou seu coração.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 17, 2018 8:49 pm

Em um canto da sala, Olívia e Saulo, seu companheiro de caminhada espiritual, unidos a um espírito benevolente que os ajudava sempre na protecção aos irmãos encarnados, presenciaram toda a discussão do casal.
Olívia ponderou com uma certa tristeza:
- Meu amigo, porque as pessoas costumam agir dessa forma?
Fico entristecida em presenciar tanta agressividade desnecessária.
- É verdade, minha irmã!
Os homens, quando se sentem ameaçados, usam o ataque como arma de defesa e não percebem que agindo dessa forma alimentam mais e mais o ódio em seu coração.
- No que se transformou essa família.
Essa e tantas outras que já vimos.
Quando tudo está bem, quando há estabilidade, todos são maravilhosos e dividem o amor e a admiração.
Mas quando alguma tragédia acontece, a primeira reacção das pessoas é culpar uns aos outros, tentando se isentar de qualquer participação no ocorrido.
Acusam-se, agridem-se, buscando aí a solução para suas aflições e ninguém quer assumir a responsabilidade de nada.
- Buscam seu próprio sofrimento esquecendo-se da caridade e da compreensão.
Se em vez de agressão, buscassem a união para poderem, todos juntos, encontrar a solução por meio do amor e do trabalho, muitos desfechos tristes poderiam ser evitados.
- Você está certo.
E o que os leva a buscar no outro sempre um culpado é a vaidade humana.
É a falta de humildade para aceitar que todos somos aprendizes, sujeitos a erros que deveriam ser analisados para o crescimento e engrandecimento do carácter.
- Quanto sofrimento poderiam evitar se procurassem estudar mais, ler e trabalhar no caminho do bem.
Ambos se olharam com carinho e esperança, acreditando que um dia o ser humano vai conseguir colocar de facto o amor e a fraternidade à frente de todas as suas acções e sentimentos.
Partiram suavemente.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 17, 2018 8:49 pm

vinte e dois - A proposta
Pontualmente, Arthur chegou ao hotel no horário marcado.
Luciana já o aguardava na sala reservada para o encontro.
Ao vê-lo, quase não conteve a emoção.
Ele continuava um homem de porte elegante, mas o sofrimento estava estampado em seu semblante cansado.
Ele, por sua vez, não fez questão de disfarçar a satisfação em vê-la, embora estivesse muito ansioso devido ao que ocorrera no passado, e curioso com relação ao presente.
Ao se aproximar, Arthur falou sinceramente:
- Você está maravilhosa!
Não imagina o quanto fico feliz em reencontrá-la tão bem.
Luciana procurou manter-se firme em sua postura um pouco distante e formal:
- Obrigada por ter vindo sr. Arthur.
Imagino o quanto deve estar surpreso.
- Estou. Mas por outro lado, você deve se lembrar, eu sempre disse que você era muito inteligente e que chegaria aonde quisesse.
E estava certo.
- A vida não foi fácil, e tudo o que consegui foi por meio de muito trabalho e sofrimento.
Mas não foi para falarmos de mim que o chamei.
Antes que ela continuasse, ele perguntou:
- E como está Rita?
Tenho tanta coisa para perguntar e esclarecer...
Luciana sentiu os olhos húmidos ao ouvir o nome da mãe, mas ao lembrar de tudo o que passaram por causa deles, seu coração se endureceu novamente:
- Minha mãe faleceu!
Pouco tempo depois que deixamos sua casa.
- Meu Deus! Pobre Rita!
Luciana, tem muita coisa que queria lhe perguntar, muita coisa do passado que não compreendo até hoje.
Havia secura na voz dela:
- Também não entendo muitas coisas que aconteceram, mas fazem parte do passado e o assunto aqui é o presente.
- Mas precisamos esclarecer alguns factos...
- Senhor Arthur, se realmente tiver algo a ser esclarecido, isso acontecerá com o tempo.
No momento, temos coisas mais importantes para tratar.
Na verdade, Luciana estava impaciente para dar sua cartada inicial em seu plano de vingança.
Ela faria com que passassem por toda a humilhação e vergonha que ela e a mãe passaram.
Prosseguiu, indo directo ao assunto:
- Estou a par de suas dificuldades na empresa, e sei que a situação é muito séria.
- É verdade!
Todos já sabem dos problemas que estou enfrentando.
Não é segredo para mais ninguém.
Estou falido e tenho um prazo pequeno, inclusive para deixar minha casa.
Luciana se emocionou com o que ouviu.
Aquela casa era o lugar onde ela havia crescido, onde conhecera o amor de Fabiano, de onde guardava doces lembranças... e algumas cruéis também.
- A casa está à venda?
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 17, 2018 8:49 pm

- Ela vai a leilão para quitar algumas dívidas.
Meu prazo está se esgotando e tenho de deixá-la.
Ainda não sei o que vou fazer.
O que me restou é muito pouco para adquirir outro imóvel, estou perdido.
- E Fabiano?
- Com certeza você já viu o que aconteceu com ele.
Coitado; não suportou tantos escândalos e a queda de nosso padrão de vida.
- Ele deveria tê-lo ajudado nos negócios, principalmente quando a situação se complicou.
- Isso é algo que me entristece muito.
A partir de uma determinada fase da vida, perdi meu filho de alguma forma, e não consegui perceber o que estava acontecendo com ele.
Sinto que algo o transtornava muito.
Ele vivia perturbado, muitas vezes o vi triste, mas nunca soube os reais motivos.
Ele não se abria, e Laís, que se ofereceu para tentar ajudar, também nunca soube me dizer nada de concreto.
Luciana trincou os dentes ao ouvi-lo mencionar Laís, mas respirou e continuou:
- Senhor Arthur, estou aqui para oferecer-lhe ajuda.
Tenho uma proposta a fazer.
Ele a olhou intrigado ajeitando-se na cadeira denotando extrema atenção ao que ela dizia:
- Sempre fomos, eu e minha mãe, muito gratas a tudo o que o senhor nos ofereceu.
Tive uma infância tranquila e feliz graças ao senhor, que nos acolheu tão bem.
- O que é isso, Luciana!
Se eu fiz algum bem a vocês, sua mãe retribuiu em dobro, cuidando sempre de mim e principalmente de meu filho.
- Pois agora eu quero fazer também minha parte e estender-lhe a mão com uma oportunidade para que o senhor consiga se reequilibrar com tranquilidade, pelo menos, na medida do possível.
- Diga, minha filha, diga o que pretende.
- Eu ofereço minha casa para que o senhor e Fabiano venham morar comigo até que possam organizar a vida novamente.
Não tenho dúvidas de que o senhor vai recuperar tudo o que está perdendo agora, e quero ajudá-lo de alguma forma.
Arthur não conteve a emoção:
- Luciana, eu lhe agradeço do fundo do meu coração.
A vida, muitas vezes é dura, e os amigos, quando estamos em dificuldades, geralmente desaparecem.
Existe um ditado que diz mais ou menos o seguinte:
se você quiser saber quantos amigos tem, basta viver em festas e com uma vida social bem activa.
Mas se quiser saber a qualidade deles, perca dinheiro e posição.
O que você está fazendo por mim, sei que ninguém mais faria.
Luciana sentiu-se constrangida e evitou que ele prosseguisse em muitos elogios.
- Por favor, sr. Arthur, deixe isso para lá.
O senhor aceita?
Mas ainda tenho uma condição.
- O que eu posso fazer para retribuir?
Que condição é essa?
- Sua mulher vai junto com o senhor, e enquanto o senhor busca recomeçar os negócios, ela terá de arrumar um trabalho e agir conforme as normas de minha casa.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 17, 2018 8:49 pm

Vivo sozinha há muitos anos, e tenho regras que não gostaria que fossem rompidas.
O senhor se encarrega de fazê-la entender isso?
Caso contrário, ela pode buscar outro lugar para viver, mas para o senhor e Fabiano as portas estarão sempre abertas.
Ele pigarreou, mas foi incisivo:
- Ela aceitará seus termos, com certeza, nada mais justo.
Não quero atrapalhar sua vida de forma alguma.
Ela assentiu com a cabeça:
- Melhor assim.
Vamos ver se ela cumpre o determinado.
Mas agora, tem o mais importante:
quero que o senhor apoie meu casamento com Fabiano.
Arthur deixou o corpo cair para trás:
- O que está dizendo?
Quer se casar com Fabiano?
- Porque o espanto?
Nós fomos namorados, o senhor sabia disso e parece que não aprovava.
- O que você está dizendo, Luciana?
Eu nunca soube de nenhum namoro de vocês.
Ela o examinou por alguns instantes e percebeu que ele estava sendo honesto, o que a deixou bastante desconcertada.
- Fomos muito apaixonados na adolescência, e achei que ele acabaria lhe contando.
Não ficamos juntos porque ele se envergonhava de nossa diferença social, e dizia que jamais daria certo.
Laís, diga-se de passagem, o apoiava.
O senhor sabia?
Arthur levou as mãos ao rosto envergonhado:
- Não, minha filha, eu não sabia de nada disso.
E o que a leva a crer que hoje, Fabiano se recuperando, queira se casar?
Vocês não deveriam ter uma conversa?
- Com certeza teremos muito a conversar.
Mas se o problema dele era o facto de eu ser pobre, esse problema não existe mais.
E, além disso, só irei permitir que venham para minha casa se estivermos casados.
É a chance que ele vai ter também de se recuperar do trauma de passar para o outro lado, de ter se tornado pobre também.
O senhor acha mesmo que ele vai recusar?
Arthur levantou-se e deu uma volta pela sala analisando o que ela dissera.
Ele era um homem vivido, maduro, íntegro e sempre agiu correctamente e com honestidade.
Do alto de sua experiência de vida, num despertar repentino, percebeu o rancor no coração de Luciana.
Não iria questionar nada naquele momento sobre as razões desse sentimento, mas sentiu por ela a mesma afeição que sentia no passado e não hesitou em perguntar:
- Você quer comprar o amor de Fabiano?
Ela não esperava essa atitude dele.
Sentia-se em posição muito superior a ele agora, mas essa iniciativa de afrontá-la directamente de forma franca e sem agressividade quase a deixara sem acção.
- Pense o que quiser, mas a condição é essa - respondeu rapidamente desviando o olhar.
Arthur viu diante de si a mesma menina de sempre, e toda a ansiedade que antecedeu o encontro desapareceu.
Constatou que Luciana, por trás daquela aparência forte e determinada, escondia uma alma ainda frágil, um bom carácter, muito sofrimento e raiva.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 17, 2018 8:50 pm

Toda sua percepção com relação àquele momento mudou instantaneamente.
Luciana iria ajudá-lo, com certeza, mas ele estaria ao lado dela, porque ela podia negar, mas precisava de tanta ajuda quanto ele.
Ele faria isso em memória de Rita.
Devia isso a ela.
Falou suavemente:
- Menina, eu a vi nascer e crescer.
Sei quem você é, mas infelizmente, não a reconheço nessa nova personalidade que me apresentou hoje.
Mas também sei que em algum lugar aí dentro, encontra-se a mesma Luciana de sempre.
Não vou lhe fazer perguntas nem questionar suas atitudes.
Mas diante de sua ousadia, só posso crer que você ainda ama muito meu filho.
Luciana lutava para não se deixar abater.
Ele continuou:
- Você diz que ele também a amava, e eu acredito nisso.
Você não teria por que mentir.
Como falei antes, existe muita coisa obscura em nosso passado, mas agora também acho que não é o momento de falarmos nisso.
Preciso de sua ajuda e do que me ofereceu com urgência, não posso negar.
Farei o que quiser e pode contar com meu apoio para que se case com Fabiano.
Mas saiba que as circunstâncias que você está criando para esse reencontro de vocês podem ser letais para um amor que um dia tenha existido verdadeiramente.
Ela estava sufocando um coração que começava a fervilhar de emoção e carinho por aquele homem, e por alguns instantes parecia que nada de ruim havia acontecido.
Ela permanecia calada ouvindo respeitosamente tudo o que ele dizia.
- Luciana, tudo vai ser como você planeou.
Estou respondendo por mim, mas terá de conversar com Fabiano.
Só quero dizer mais uma coisa antes de encerrarmos essa reunião na qual acredito que tudo tenha sido dito:
o amor não se compra nem se cobra.
O amor existe para ser ofertado e retribuído espontaneamente.
Nenhuma relação sobrevive e se sustenta quando se negocia sentimentos.
Veja quantos casos conhecemos de pessoas que tentaram subjugar o outro por meio de chantagens, ameaças e todo tipo de artimanha para prender alguém que não podia mais oferecer o amor que o outro esperava.
Pode até ter tido sucesso em manter a pessoa ao seu lado, mas jamais terá o amor que deseja.
Pense nisso.
Toda a fortaleza que apresentara no início do encontro se esvaíra sem que Luciana pudesse manter qualquer controle sobre a situação.
Ela nada conseguiu falar e Arthur simplesmente se despediu:
- Assim que Fabiano se recuperar terei uma conversa com ele para prepará-lo para o encontro de vocês.
Agradeço muito o que está fazendo e lhe asseguro que não ficarei em sua casa mais que o necessário. Logo nos veremos novamente.
Com licença!
Quando já ia saindo sem esperar qualquer resposta de Luciana, voltou-se novamente para ela e concluiu:
- Cuide-se bem e pense em tudo o que lhe falei.
Quando se viu novamente sozinha, Luciana estava perplexa, e com a sensação de que mesmo com essa sua cartada, não havia vencido a partida.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 17, 2018 8:50 pm

vinte e três - Conselhos mediúnicos
Quando Arthur informou a esposa que dentro em breve se mudariam para a casa de Luciana, Laís teve um acesso de raiva que o deixou definitivamente aturdido e chocado.
Já muito cansado de tantos problemas e da falta de compostura que a mulher demonstrava havia algum tempo, ele apenas a avisou que se quisesse ir, teria de aceitar as condições de Luciana, a única pessoa que lhes estendia a mão naquela fase difícil; caso contrário, podia arrumar suas coisas que ele tomaria as providências para o divórcio.
Ao pensar que iria se afastar dessa forma de Fabiano, Laís pensou rapidamente e mudou de ares com o marido.
Pediu desculpas justificando o extremo nervosismo diante da situação e prometeu que faria tudo para colaborar.
Para Arthur, a conversa estava encerrada e a decisão tomada.
Depois do encontro com Arthur, Luciana retornou ao Rio de Janeiro.
Sabia que Fabiano ainda levaria alguns dias internado e estava pacientemente, agora, aguardando o reencontro.
Tinha certeza de que, apesar de deixar bem clara sua opinião sobre sua atitude, Arthur tudo faria para que ela e Fabiano se casassem o mais rápido possível.
Foi directo para casa e, ainda do aeroporto, em São Paulo, ligou para Suzanne pedindo que fosse encontrá-la.
Quando estavam frente a frente, Suzanne foi bastante directa:
- Você está com uma aparência muito melhor do que eu imaginava.
Luciana, fugindo de sua postura habitual, jogou-se no sofá da sala e ficou admirando o mar pelas amplas janelas.
Suzanne estava muito curiosa:
- Vai ficar calada sem me contar o que aconteceu?
- Vou me casar! - respondeu Luciana sem olhar para a amiga.
Suzanne perdeu o fôlego:
- O que você está me dizendo?
Como vai se casar?
Você só pode estar brincando!
- Eu jamais faria esse tipo de brincadeira e você sabe disso.
Não sou dada a piadinhas.
É sério, vou me casar com Fabiano assim que ele sair do hospital - completou e tratou de relatar todo o ocorrido para Suzanne, que cada vez estava mais surpresa.
E concluiu:
- E é isso!
Finalmente terei Fabiano comigo e Arthur e Laís vão sentir o que é viver subjugado e humilhado.
- Minha amiga, sinto tanto por você...
- Você deveria estar feliz.
Finalmente cheguei aonde queria e vou fazer tudo exactamente como planeei.
- Arthur não me parece que mereça esse seu rancor.
Afinal, hoje você descobriu que ele não sabia de nada.
- Não me interessa!
Sei que ele e Fabiano não são da mesma laia daquela mulher, mas se Arthur não pecou por acção, pecou por omissão, o que para mim dá no mesmo.
- Tenho muito receio por você.
Acho que pode sair ainda mais ferida de tudo isso.
E se Fabiano não aceitar se casar?
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 17, 2018 8:50 pm

- Ele vai aceitar.
Ou isso, ou a miséria e a pobreza.
- Você sempre me disse que queria se vingar, que tudo o que fazia na vida era com esse objectivo, mas mal a reconheço.
Você está me assustando.
Seu olhar parece que vai fulminar quem estiver na sua frente.
- Deixe de ser boba, Suzanne.
Esperei e sofri anos da minha vida imaginando como poderia acertar as contas com eles, principalmente com aquela mulher, e agora estou apenas saboreando o que o destino jogou no meu colo sem que eu fizesse nenhum esforço.
E vamos deixar essa conversa de lado.
Gostaria que você convidasse Mário, Augusto e Júlia para virem aqui hoje à noite.
Poderemos conversar, beber alguma coisa e depois jantarmos.
Há muito tempo não me sentia tão animada, e quero comemorar.
Além do que, em muito pouco tempo já não viverei mais sozinha aqui, e quero aproveitar esses últimos momentos de total privacidade.
- Está bem.
Vou ligar para eles.
Já sei que não adianta falar mais nada! - disse Suzanne desanimada, mas achando uma boa oportunidade para Luciana estar com Júlia, que sempre tinha a capacidade de colocar a amiga numa postura mais equilibrada e serena.
À noite, Luciana os recebeu muito animada e até descontraída demais, o que não passou despercebido para nenhum deles.
Suzanne tentava dissimular sua preocupação até que se convenceu de que o melhor a fazer era aproveitar mais aquele encontro dos amigos, que eram sempre agradáveis e tinham boa conversa.
Passaram a noite falando sobre amenidades, e tudo parecia correr naturalmente.
Menos para Júlia.
Ela era aquela amiga doce, confiável e que sempre tinha uma palavra justa ou de conforto que era dita na hora certa.
Sua presença sempre fazia um bem muito grande à Luciana que, mesmo discordando de muita coisa, aceitava o carinho da amiga em todos os momentos.
Júlia frequentava um Centro Espírita próximo à sua casa e era médium intuitiva.
Sua mediunidade lhe permitia receber a comunicação do plano espiritual, apenas com a transmissão de pensamento, mais ou menos aquilo que as pessoas costumam chamar de inspiração.
E, naquela noite, ao entrar no apartamento de Luciana, ela sentiu que havia algo no ar.
Um de seus amigos da espiritualidade estava ali para lhe indicar que algo muito errado acontecia.
Júlia se divertiu e aproveitou a companhia agradável de todos, mas certa de que Luciana precisava dela.
Depois do jantar, todos se reuniram na varanda para degustar um saboroso digestivo, e, por alguns instantes, Luciana se afastou e ficou observando a noite e o mar.
Júlia aproximou-se:
- Esse mar com o luar forma uma das paisagens mais lindas do mundo, você não acha?
Luciana apenas assentiu com a cabeça.
Júlia insistiu:
- Somos amigas há bastante tempo, mas sei que existem coisas sobre as quais nunca falamos.
- Desculpe, Júlia, mas acho que certas coisas devem mesmo ficar guardadas, não existe razão para falar sobre elas.
- Mas sinto que você carrega um sofrimento oculto cuidadosamente em seu coração.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 18, 2018 9:13 pm

E eu gostaria muito de ajudá-la.
A empresária se irritava com intromissões em sua vida.
Não estava gostando da conversa, mas não seria indelicada com Júlia.
Mesmo assim, tentou desvencilhar-se do assunto:
- Eu não estou precisando de nada, mas obrigada assim mesmo.
E como você poderia saber o que trago em meu coração?
Por que cisma com isso?
- Minha querida, você tem muitos amigos e muitas pessoas que querem seu bem além de mim.
E nossa intenção é apenas ajudá-la.
Eu não sei o que se passa em seu coração, mas sei que ele sofre.
E você é a única pessoa que pode acabar com esse sofrimento.
- Que amigos? - falou Luciana um tanto exasperada - andam comentando algo sobre mim?
Isso me deixa furiosa!
O que andam falando?
Júlia não se conteve e deu um sorriso que deixou a outra sem entender o motivo do gracejo, e depois continuou:
- Não me refiro a esses amigos que você está pensando, mas a outros que têm como missão olhar por você.
- Júlia, desculpe, mas você está falando de espíritos, não é?
Sabe o que penso a respeito.
- Sei, mas não posso me omitir vendo que você está prestes a cometer um grande erro.
Você tem amor dentro de si, mas o está maltratando, e pode até destruí-lo se continuar alimentando sentimentos ruins de revolta e vingança.
Nesse momento, Luciana estancou surpresa com o que ouvira.
Nunca havia tocado naquele assunto com Júlia e tinha plena confiança em Suzanne.
Como então a amiga poderia saber exactamente o que estava se passando com ela?
Júlia prosseguiu com a voz suave e calma de sempre sem ser interrompida:
- Existe um amigo muito especial que está sempre ao seu lado.
Ele vê seu sofrimento e tenta aconselhá-la, inspirando o amor em seu coração.
Mas existem também outros irmãos, que resistem em prosseguir em sua evolução espiritual, que guardam ressentimentos e paixões que adquiriram em suas passagens pela vida terrena.
Eles se satisfazem quando alguém alimenta sentimentos negativos e quanto mais a pessoa se envolve nos maus pensamentos, mais se aproximam.
Isso os fortalece, pois o prazer deles é ver que outros são tão infelizes quanto eles.
Pobres almas que se recusam a aceitar o auxílio divino.
Júlia sabia que estava sendo inspirada por seu mentor a levar aquele recado à amiga.
Luciana mostrava-se confusa, parecia que não era Júlia quem estava falando, embora fosse ela mesma ali na sua frente, o mesmo jeito, a mesma voz, tudo igualzinho.
Diante do desconhecido e do que ainda não compreendia, Luciana tentou ironizar:
- E porque então esse meu grande amigo não espanta esses fantasmas ruins de perto de mim?
Ele não quer me proteger?
- Claro que quer, e está sempre ao seu lado.
É seu mentor, cuida de você.
Mas só pode fazer algo se você permitir.
A vontade de mudar os sentimentos tem de partir de você.
- Mas eu não quero mudar nada.
Estou muito bem assim, aliás, essa é a melhor fase da minha vida.
E se é assim, por que eu deveria querer mudar algo?
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 18, 2018 9:14 pm

- Tem razão!
Você é a única que tem de achar e decidir mudar.
O que fazemos é tentar ajudá-la.
Juntos podemos muito, mas apenas se você quiser.
Mas enquanto alimentar sua fraqueza e orgulho estará dando forças aos outros que querem apenas desviá-la do caminho do bem.
Luciana estava se irritando cada vez mais, e, ao seu lado, espíritos inferiores sopravam em seus ouvidos palavras de baixo calão sugerindo a ela que Júlia era uma tola.
E Luciana estava mais uma vez contribuindo para o fortalecimento deles.
Em tom mais áspero falou:
- Tudo isso é muito bonito, mas na prática não funciona.
O mal está aqui mesmo, entre nós e bem vivo, e deve ser combatido com as armas que temos.
Se uma pessoa prejudica outra, é aqui que terá de pagar e levar o troco.
É para isso que estamos aqui, para que a justiça seja feita.
- No giro das encarnações não existem culpados ou inocentes.
Todos nós temos activa participação em tudo o que nos acontece.
O nosso aprendizado é exactamente evoluir em nossas atitudes para não repetirmos os mesmos erros.
Só assim existe a evolução e o amadurecimento do espírito.
- Júlia, desculpe, mas você não sabe de nada.
Não sabe as coisas pelas quais passei na vida, o que sofri e o que perdi.
E quer saber a verdade?
Realmente tem muitas coisas que me magoam, mas não vou ficar por aí me lamentando.
Sei o que tenho de fazer e vou fazer.
Existem débitos, e os devedores não ficarão impunes; vou resgatá-los a qualquer custo.
Isso é justiça.
Tenho o direito de fazer com que paguem por todo o sofrimento que têm me causado.
Direito, entende?
- Pense bem, minha amiga; o ódio é veneno mortal que atinge principalmente quem o sente.
É como se você o bebesse desejando a morte do outro, mas você morre primeiro e com muito mais sofrimento.
Talvez quando você se der conta disso, será muito tarde e seu sofrimento será maior.
- Você agora está parecendo Suzanne.
Júlia, tenho muito carinho e respeito por você, e quem sabe um dia você venha a saber de tudo.
Mas sabe que não gosto de interferências em minha vida.
Sempre fui capaz de tomar minhas decisões.
Tudo o que conquistei foi com minha luta, nunca dependi de outra pessoa para me dizer o que fazer.
E se você pensa que sofro, está enganada.
Tudo o que podia, já sofri no passado.
Agora eu apenas tenho um objectivo:
colocar as coisas e pessoas em seus devidos lugares.
E hoje, em vez de sofrimento, sinto-me cada vez mais próxima da felicidade plena.
Não quero mais falar sobre isso, está certo?
- Claro, minha intenção não é ser invasiva e causar-lhe constrangimentos.
Contudo, quero que saiba que estarei sempre pronta para apoiá-la se um dia precisar.
- Eu não vou precisar, fique tranquila.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 18, 2018 9:14 pm

Agora, precisamos nos reunir aos outros; não é delicado ficarmos em uma conversa paralela.
Assim, voltaram para perto do grupo.
Luciana, após a conversa, sentiu-se mais forte, com mais certeza dos passos que daria.
Júlia não conseguiu demovê-la.
Apenas rezou para que Luciana enxergasse o mal que estava para cometer, principalmente a ela mesma.
E esse mal estava cada vez mais próximo da vida dela.
Muito mais perto do que imaginava.
*
Luciana, naquela manhã, estava tensa e agitada.
Arthur havia ligado dois dias antes, dizendo que Fabiano estava pronto para conversar.
A moça quis saber como ele havia reagido, e Arthur não omitiu a revolta do filho diante de uma situação que ele definiu como absurda.
Arthur disse que, a princípio, Fabiano se recusou terminantemente a entrar no que ele chamou de jogo; disse que se um dia tivesse de reencontrá-la seria naturalmente e não por meio de chantagem da pior espécie.
Contudo, aos poucos, diante dos argumentos do pai, ele foi cedendo até concordar em, ao menos, conversar com ela.
Mas Luciana foi prevenida de que a recepção do ex-namorado não seria nada acolhedora.
Ela estava a caminho do aeroporto para seguir novamente para São Paulo, e sua mente revia a todo instante vários momentos de sua vida.
Seus olhos mal continham as lágrimas que a toda hora teimavam em brotar, demonstrando o quanto estava abalada com a perspectiva do reencontro.
Sua luta interior foi a maior já travada, pois jamais poderia perder o foco do seu objectivo:
fazê-los pagar e sofrer tudo o que ela sofreu.
Estava decidida e determinada, e saberia enfrentar a situação de maneira altiva e vitoriosa.
O encontro foi marcado no mesmo hotel onde Luciana se encontrou com Arthur.
Dessa vez, ela esperaria Fabiano em sua suíte, atitude que foi apoiada por Arthur pela necessidade de total privacidade aos dois.
Não seria uma conversa fácil.
O hotel dispunha de um mordomo particular para cada uma das principais suítes, e Luciana pediu a ele que quando seu convidado chegasse, o fizesse entrar e depois poderia se retirar, pois não precisaria mais dos seus serviços.
Ela se arrumou primorosamente. Estava esplêndida, talvez linda como nunca.
Mas sua expressão estava fechada, a musculatura contraída e o olhar perdido.
Em silêncio, sentada em uma confortável poltrona no amplo quarto, aguardava quieta, como o ar que antecede uma grande tempestade.
O mordomo avisou-a da chegada do convidado e se despediu.
Luciana se levantou, olhou-se no espelho, ajeitou a postura e foi em direcção à porta.
Seus gestos eram lentos e delicados.
Quando entrou na sala, Fabiano estava de costas, em pé, olhando através da janela o céu nublado e com nuvens pesadas, prenúncio de mais uma chuva.
Um trovão ecoou ainda distante, e nesse momento ele virou-se, e, depois de vinte anos, estavam ali:
Fabiano e Luciana, novamente frente a frente.
Fabiano ficou admirado ao ver que Luciana conseguira ficar ainda mais bonita do que ele se lembrava.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 18, 2018 9:14 pm

Ela já havia notado no hospital que, apesar da idade, ele havia se cuidado muito bem e estava ainda mais elegante e atraente com a maturidade e a chegada dos fios grisalhos.
Diante da presença dele, sua vontade foi correr para seus braços, dizer o quanto o amava ainda, relembrar com ele todos os belos momentos que passaram juntos.
Diante do amor da sua vida, ela se sentiu frágil e tudo o que queria era ser aconchegada por ele, descansar em seu colo por tantos anos de luta e sofrimento.
Mas havia um clima hostil no ar, que quebrava qualquer encantamento.
Foi ele quem começou a falar de maneira educada, como sempre fora, mas extremamente ácida:
- Concordei com esse encontro por muita insistência de meu pai.
Não sinto nenhum prazer em estar aqui!
Luciana quase não conseguia manter as ideias em ordem e estava difícil se colocar de maneira firme:
- Venha, Fabiano, sente-se aqui.
Temos muito o que conversar.
A resposta dele causou-lhe muita surpresa:
- Acho que agora não temos não.
Tínhamos quando você fugiu de mim há vinte anos para se amigar com um quase desconhecido.
Acho que está um pouco atrasada!
- Não sei o que está dizendo; eu não fugi com ninguém e não sei de onde tirou essa ideia.
- Claro, lógico que agora você não vai falar nada sobre isso.
Você é uma empresária bem-sucedida, milionária, jamais vai admitir que no passado foi viver com um cavalariço pobre, sem eira nem beira.
Mas pelo rumo que tomou sua vida, deve tê-lo descartado logo, assim como fez comigo.
Sumiu sem uma satisfação.
E ainda grávida dele e querendo me enganar dizendo que o filho era meu.
Como você pôde?
Luciana o olhou com um sentimento que era um misto de indignação pelo que ouvira e de desespero por constatar que o homem que amava pensava coisas horríveis e falsas sobre seu carácter.
Tudo o que ela havia premeditado para aquele momento foi por água abaixo, e ela começou a falar não como um script, mas com palavras que vinham da alma:
- Fabiano!
Não quero ficar remexendo no passado, mas você está se baseando em informações totalmente falsas sobre tudo o que aconteceu.
- Ah é? Então por que você fugiu?
- Quando lhe falei da minha gravidez, você se lembra como reagiu?
O que queria que eu fizesse após ser desprezada por você daquela maneira?
- Eu não a desprezei.
Apenas fui honesto dizendo que era impossível ficarmos juntos naquele momento.
E fiz muito bem em agir assim.
Você foi a maior decepção que tive na vida.
Querendo aplicar o golpe da barriga em mim.
Como não deu certo, fugiu com seu amante - disse Fabiano alterando muito a voz.
- Que amante?
Você fica o tempo todo falando coisas desconexas, insistindo na mesma tecla, quando a traída fui eu.
Por que você repete isso?
É sua maneira de inverter a situação para livrar-se da culpa?
- Laís os viu juntos!
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 18, 2018 9:14 pm

O impacto daquelas palavras fizeram com que um denso e repentino silêncio tomasse conta de todo o ambiente.
O semblante de Luciana foi transformado pela ira e, após alguns segundos, ela perguntou quase sem voz:
- O que você está dizendo? Laís?
- Agora não tem mais como negar, não é?
Agora sabe que ela os viu juntos na Hípica, agarrando-se em meio aos estábulos da maneira mais vulgar.
Todo mundo sabia que vocês iam para a cama, mas quando engravidou, combinou com ele de levarem uma grana do otário rico.
Com certeza, ficaria com meu nome, mas com a cama dele.
Eu tenho nojo disso tudo!
Luciana engolia em seco, suas pernas tremiam e não conseguiu reagir de imediato.
Agora estava entendendo toda a trama que Laís teceu para separá-los.
Então tudo o que ela falara sobre a posição de Arthur e Fabiano era mentira.
Ela criara duas situações diferentes e deu um jeito de que nenhum deles conseguisse ou tivesse coragem de colocar a história a limpo.
Foi tudo muito bem calculado.
Luciana sentia seus olhos agitados nas órbitas, tentando organizar todas as informações que vinham em sua cabeça ao mesmo tempo, sentindo como se estivesse diante de uma bomba-relógio, cujo contador acabara de disparar seus números acelerados, aproximando o momento da explosão.
Olhou para Fabiano com um imenso terror e não aguentando mais, caiu sentada no sofá e desabou num pranto convulsivo e incontrolável.
Fabiano, que até então a vira de forma desafiadora, chocou-se com a reacção dela e não sabia o que fazer.
Embora achasse que ela chorava pela vergonha de ter sido descoberta em sua armação, não esperava ficar tão desconcertado.
Sem tomar nenhuma atitude, apenas ficou observando constrangido por alguns minutos.
Luciana, enquanto externava toda sua dor e desespero, pensava que todos foram vítimas da crueldade de Laís, mas não perdoava Fabiano e Arthur por terem acreditado naquela mulher sabendo que ela sempre fora uma moça de boa índole e boa educação.
Eles a julgaram à revelia, não lhe deram direito de defesa e a condenaram, orquestrados pela criatura mais repugnante que Luciana já tivera a infelicidade de conhecer.
Quando conseguiu se recompor um pouco, olhou para Fabiano falando com dificuldade:
- Você não tem ideia do quanto o amei!
Você não imagina o quanto ainda o amo!
Você sempre foi a razão da minha vida, do meu empenho em melhorar cada vez mais para que sentisse orgulho de mim.
- Bela maneira de demonstrar seu amor, chantageando-me e aproveitando o momento difícil que meu pai está vivendo.
Meu pai, que a tratava como uma filha.
- Você não vai entender, mas tenho razões muito fortes para agir dessa forma.
Ajudo vocês com a condição de que nos casemos, e que todos venham morar comigo no Rio.
- Se você diz que me ama, e se for verdade, o que pretende?
Reconquistar meu amor?
Saiba desde já, que isso jamais acontecerá.
Eu a amei muito sim, meu sentimento era verdadeiro e profundo.
Sei que não agi certo me baseando em preconceitos arcaicos e errados.
Mas eu era muito jovem, ainda não tinha meu carácter totalmente formado.
De qualquer maneira, você, com suas atitudes, destruiu o amor que eu tinha por você.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 18, 2018 9:14 pm

Se com essa chantagem espera resgatar esse sentimento, desista.
Luciana sentia-se cansada.
Mas não ia se desviar de seu caminho.
Iria fazer com que Arthur e Fabiano amargassem toda a humilhação que a fizeram passar com suas desconfianças, e iria destruir Laís!
- Você já sabe minhas condições.
Se casarmos, poderão viver dentro dos padrões aos quais estão acostumados e seu pai terá tranquilidade para recuperar sua fortuna.
Caso contrário, terão de sair dessa situação sem minha ajuda, e posso lhe garantir que você não está nem um pouco preparado para o que terá de enfrentar.
E se não quiserem minha ajuda, usarei toda a influência que possuo para que ninguém lhes estenda a mão e para que acabem na mais absoluta miséria.
Fabiano chegou a pensar que conseguiria fazê-la mudar de ideia, mas diante da convicção da moça e da possibilidade da miséria, voltou a se irritar:
- Então é isso mesmo?
Vai prosseguir em mais uma armação para conseguir o que quer?
Pois que seja assim.
Meu pai merece uma oportunidade de se reestruturar com um pouco mais de calma.
Faço isso por ele e, agora, analisando tudo o que aconteceu aqui, faço por mim também.
Vai ser a forma de você me ressarcir das mentiras nas quais tentou me envolver no passado.
Mas não se esqueça:
você terá meu nome e minha presença ao seu lado, mas nunca terá novamente meu coração e meu respeito.
Apesar de se sentir arrasada por tudo o que soube, ela ficou satisfeita com o desfecho da história.
Finalmente teria seu amor todos os dias ao seu lado e teria a vida de todos eles em suas mãos.
Em pé, ao seu lado, estava Rita, que estendia as mãos sobre a cabeça da filha, enviando uma energia de amor e implorando a intervenção Divina para que a filha não cedesse ainda mais ao desejo de vingança e ódio.
Ela orava sozinha, solicitando socorro ao plano espiritual, quando sentiu um perfume maravilhoso bem ao seu lado e, ao virar-se, deparou com Olívia que veio em seu auxílio.
Mães unidas, buscando orientar e proteger seus filhos tão perdidos e envolvidos pelas ilusões do mundo, na sua pior acepção, ilusões voltadas à vaidade, à ganância, à violência e às mentiras.
Naquela luta insana, nada tinha valor.
Ambos estavam voltados apenas para o que lhes causava dor ou prazer.
E essas paixões funcionavam como um furacão, que chega com uma brisa e cresce de repente e de forma descontrolada, avançando e devastando tudo ao redor.
E quando o furacão passa, resta apenas uma imensa sensação de vazio, um nada sem fim.
E o nada enlouquece, angustia e sufoca.
É quando se percebe que muitas pessoas morrem, matam, brigam, mentem, roubam e lutam, muitas vezes, de forma totalmente reprovável, tudo por nada, pois a consciência só encontra a paz na essência da vida.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 18, 2018 9:15 pm

vinte e quatro - Ensinamentos espíritas
O casamento de Luciana e Fabiano aconteceu em um cartório no Rio de Janeiro apenas com a presença de Suzanne, Júlia, Mário e Augusto, que serviram também de testemunhas.
Arthur e Laís também compareceram, e ficariam em um hotel por três dias para depois se mudarem para a casa de Luciana.
O clima na cerimónia foi constrangedor, todos perceberam a tensão entre o casal e não havia emoção nem risos.
Os amigos de Luciana, que desconheciam o enredo de vida dos envolvidos, estavam se sentindo pouco à vontade, mas procuravam disfarçar seus sentimentos para não tornar a situação ainda pior.
O encontro das duas mulheres foi o momento mais esperado por Luciana e mais temido por Suzanne, que não imaginava qual seria a reacção da amiga.
Mas, para sua surpresa, Luciana foi muito contida, o que a fez pensar que o pior ainda estava por vir.
Quando Luciana se voltou e viu Laís, teve noção exacta da dimensão do ódio que sentia.
Arthur, receoso, aproximou-se de Luciana.
- Você está muito bem.
Enfim, tudo se resolveu como você queria.
- Tudo está começando a se resolver.
É hora de colher os frutos - disse Luciana deixando Arthur intrigado e se dirigindo na direcção de Laís.
Ao se aproximar da inimiga, a moça olhou-a dos pés à cabeça examinando cada detalhe, não fazendo questão de disfarçar seu olhar analítico.
Depois, apenas disse em meio tom:
- Sinto muito!
Parece que você tem vivido tempos difíceis.
- Como?
E Luciana respondeu cheia de prazer:
- Já a vi em melhor forma.
Mas é assim mesmo.
Quando a vida é difícil, as marcas ficam para sempre no rosto.
Nossa! Você era tão bonita e exuberante! - dizendo isso, virou as costas e foi falar com o juiz.
Suzanne, que estava perto, não pôde deixar de ouvir o comentário, e teve vontade de rir, impulso que controlou porque, na verdade, a situação não era engraçada.
Laís, que percebeu sua presença, mas nem sabia de quem se tratava, ficou com o sorriso mais sem graça do mundo, para logo em seguida sentir o sangue ferver em suas veias.
Para alívio de todos, o juiz não demorou a finalizar as formalidades.
Arthur acertou com Luciana que em três dias iria para sua casa; até lá ele ficaria à vontade para cuidar de seus negócios.
Fabiano e sua agora esposa, seguiram de carro para a casa de Luciana.
Os amigos foram para o escritório todos no mesmo carro, e os comentários foram inevitáveis.
Suzanne procurava se esquivar de mais explicações.
Mário foi o primeiro a falar:
- Jamais pensei que fosse ver esse dia chegar.
Luciana se casando!
Não senti que ela estivesse feliz.
E de onde saiu esse Fabiano?
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 18, 2018 9:15 pm

De uma hora para outra aparece e se casam?
Augusto respondeu:
- Luciana me pediu para investigar os negócios do pai de Fabiano.
Parece que são velhos conhecidos.
Como sempre, ela não me falou nada a respeito.
Suzanne apenas ouvia quieta.
Júlia interveio:
- Também não sei detalhes, mas acho que isso é um amor do passado de Luciana.
Alguma história que ficou pendente e agora que se reencontraram, é natural que tudo ocorra sem maiores demoras.
Mário opinou:
- Nada que presenciei ali me pareceu nem de longe com as histórias dos grandes amores.
Achei tudo muito estranho.
Augusto provocou o amigo:
- Qualquer envolvimento de Luciana você acharia estranho.
O nome disso é dor de cotovelo, ciúme.
Todos nós sabemos que você é apaixonado por ela.
Júlia repreendeu o marido.
Mário se incomodou com o comentário:
- Você não sabe o que está falando.
Luciana é uma amiga e óptima chefe, apenas isso.
Augusto riu e colocou fim às provocações.
Ao chegarem ao escritório, Suzanne levou um café até a sala de Mário.
Ela sabia que ele deveria estar muito magoado, perdendo definitivamente qualquer vaga esperança de um dia conquistar Luciana.
- Um café quentinho e fresquinho sempre é bem-vindo - disse Suzanne com um sorriso.
Mário agradeceu sem muito entusiasmo.
A moça se sensibilizou:
- O que você acha de irmos ao teatro amanhã?
Depois, podíamos jantar, aliviar as tensões e distrair a cabeça.
- Não sei, ando um pouco cansado.
- O lazer relaxa e descansa também.
Vamos, Mário!
Eu vou adorar sua companhia.
Ele acabou cedendo com um sorriso e Suzanne ficou feliz em poder ajudar o amigo.
Ao voltar para sua sala, encontrou Júlia, que a aguardava.
- Oi, Júlia, desculpe.
Não sabia que estava à minha espera.
- Não tem problema.
Estou aguardando Augusto, vamos para casa e tomei a liberdade de esperar aqui.
- Fico feliz que tenha vindo.
Depois dos acontecimentos de hoje não estou muito disposta para trabalhar - falou Suzanne sem pensar.
- O que deveria ser um momento magnífico na vida de uma mulher, tornou-se uma situação estranha, diria até mesmo triste.
Suzanne teve de admitir:
- Pois é, chato isso.
Mas nem tinha como disfarçar aquele clima.
- O que acontece com Luciana?
Ela não me parecia feliz, muito menos o noivo.
Que circunstâncias a levaram a tomar essa atitude?
- Júlia, eu não tenho o direito de falar sobre a vida de Luciana, mas posso lhe dizer que ela tem suas razões para tomar a atitude que tomou.
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 18, 2018 9:15 pm

- Mas me parece que você não concorda muito com elas.
- Cada um tem uma forma de enxergar a vida.
Eu não faria o que Luciana está fazendo.
Ela e Fabiano foram namorados na adolescência.
Tiveram de se separar e agora que se reencontraram, pronto, casaram - disse Suzanne tomando o cuidado de não falar mais do que podia.
- Assim? Tantos anos depois e tão rápido?
Por que aquela tensão no ar?
- Quando eu disse que não agiria da mesma forma é porque ela e Fabiano se separaram em circunstâncias não muito agradáveis, digamos assim.
Ficaram todos esses anos sem ter notícias um do outro, e acho que foi precipitado o que fizeram.
Deveriam voltar à relação aos poucos, ver se de facto conseguiriam esquecer as mágoas do passado e se o amor ainda existiria de verdade.
- Bem, a verdade é que todos nós de modo geral, temos o hábito de achar que temos a solução para os problemas dos outros.
Já notou isso?
- É mesmo!
Sempre é fácil indicarmos para outras pessoas qual o melhor caminho.
Mas na hora de descobrirmos o nosso, é mais difícil - disse Suzanne rindo.
- As pessoas julgam-se umas as outras com uma incrível facilidade.
Analisam a vida de todos superficialmente, e disparam conclusões, conselhos e críticas sem o menor pudor e sempre se sentindo repletas de razão.
Somos juízes implacáveis quando nos referimos à vida alheia.
Suzanne ficou pensativa.
Ela mesma já havia sido julgada várias vezes em suas atitudes, por pessoas que nada sabiam para poderem dar consistência às suas opiniões.
Júlia continuou, percebendo que a amiga se interessava em ouvir:
- As pessoas não sabem, mas tudo o que elas criticam e julgam na vida dos outros vão passar igual ou pior para aprenderem que nunca se deve julgar o semelhante.
Por essa razão, acredito que Luciana tenha motivos muito fortes para fazer o que está fazendo.
No último jantar na casa dela, tentei conversar, gostaria de ajudar, mas ela não se abriu comigo.
Tenho certeza de que essa situação toda está muito mais baseada em mágoas do que em amor.
Isso me preocupa.
Mas como disse, não posso julgar as atitudes dela.
- Isso é tão raro, Júlia!
- O quê?
- Alguém se dispor a ajudar o próximo sem julgamentos nem cobranças.
- O ser humano ainda tem muito o que evoluir.
A caridade despretensiosa ainda é uma coisa rara, infelizmente.
- Sabe que isso é uma coisa que me aborrece e entristece muito?
Se eu tenho alguém próximo de mim que precisa de minha ajuda, sou incapaz de cobrar por isso depois.
- Ainda existe entre as pessoas um sentimento muito forte de vaidade, e todos querem demonstrar poder e força.
Muitas vezes, os erros que apontamos no outro, nós os cometemos da mesma forma, com uma roupagem diferente.
- Ah, isso existe sim, e muito.
Por esse motivo a expressão "telhado de vidro", não é?
- Claro. Pense em quantas pessoas existem que têm coragem de julgar suas próprias atitudes e pensamentos, com o mesmo rigor com que julgam o próximo?
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Re: Ninguém Domina o Coração - Saulo / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 18, 2018 9:15 pm

Será que se elas pudessem se ver fora do corpo, ver seu íntimo como num espelho, aprovariam sua conduta?
O que elas pensariam se vissem alguém fazendo o que elas mesmas fazem?
- Isso sim seria uma experiência interessante.
- Mas não há nada de muito extraordinário nisso, e pode ser feito diariamente.
Se cada pessoa, no fim do dia, se colocasse em silêncio para analisar suas atitudes e o fizesse de forma franca e sem subterfúgios, muitos problemas seriam solucionados.
Temos de aprender a ouvir, ajudar o próximo, apenas visando o bem.
Temos de aprender a perdoar e compreender que o mundo não gira orbitando individualmente cada ser da face da Terra.
O mundo é um só, tudo está relacionado com tudo, e o bem que fazemos vai reflectir e dar frutos por onde passar.
- O mundo seria um sonho se todos pensassem assim! - disse Suzanne concluindo a conversa que foi interrompida com a entrada de Augusto.
- Acredite:
um sonho possível! - completou Júlia com um carinhoso sorriso, despedindo-se em seguida e saindo com o marido.
*
Quando chegaram a casa, Luciana e Fabiano sentiam-se muito pouco à vontade.
Ele foi para o banho enquanto ela ficou na varanda pensando na situação que criara.
Só de pensar que o homem que amara a vida toda estava ali, tão perto, seu coração se enchia de amor e seu corpo de desejo.
Ela o queria, queria sentir seu corpo, seu calor, como vinte anos atrás.
Levada por esses pensamentos foi até o quarto, entrou no banheiro e, sem pensar, entrou no box onde estava o marido.
Quando ele a viu, não conseguiu manter-se indiferente àquela mulher linda que estava ali sem pudores, pronta para entregar-se.
A chama do desejo se apoderou dele, que a pegou pela cintura e a beijou ardentemente.
Ela não impôs nenhuma resistência.
Por alguns instantes, ele pensou que tinha nos braços a mulher que o forçara a tomar uma atitude que não queria, e o desejo misturou-se à raiva, mas ainda assim ele a queria e iria tê-la.
O corpo de ambos se envolveu com pressa, com ânsia, instintivamente.
Quando estavam saciados e exaustos, Fabiano, sem dizer uma só palavra, entrou embaixo da ducha e depois saiu do banheiro, deixando Luciana cansada e desorientada.
Ela permaneceu muito tempo aproveitando a água morna enquanto colocava suas ideias em ordem.
Ela o havia tido em seus braços, mas não houve amor, não houve romance, ele a possuiu sem qualquer sentimento.
Isso a deixou furiosa, mas se ele queria medir forças, iria se arrepender.
Quando ela saiu do quarto e foi para a sala, ele estava sentado, bebendo um vinho e ouvindo música.
Ela, muito calma, entrou no ambiente, serviu-se de uma taça de vinho e falou:
- Amanhã cedo vou para o escritório e quero que você me acompanhe.
- Não tenho o que fazer lá.
Prefiro ficar aqui, acho que vou à praia.
Ela deu um gole na bebida, olhou para ele com ar de superioridade e disse:
- Quero que esteja pronto às oito horas.
- Você não entendeu.
Não vou a lugar nenhum com você.
- Quem não está entendendo é você.
Vai sair comigo porque eu estou dizendo que será assim.
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