Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 01, 2018 9:23 pm

E estava certa.
Quando foi revelar a verdade, morreu.
Renato começou a chorar.
Parecia um pesadelo que sua tia tão querida tivesse morrido por causa de uma pessoa monstruosa que não queria ser descoberta.
Vendo o sofrimento do amado, Helena sentenciou:
- Eu sei que é um de vocês e quando eu tiver a prova, juro que terei o prazer em colocá-los na cadeia.
Agora já não é apenas por mim, mas por Vera, que sofreu a vida inteira e terminou morta desse jeito.
- Você está nos acusando seriamente pela segunda vez - disse Duílio com raiva.
Posso processá-la por calúnia.
Ela sorriu maliciosa:
- Duvido que tenha essa coragem.
Posso não ter provas de que foi você quem matou meu sogro, mas o que tenho em mãos sobre sua pessoa é o suficiente para deixá-lo na miséria e na cadeia.
Por isso não tente brincar comigo.
Aliás, nem você, nem Celina, nem Morgana, nem Bruno, nem Letícia. nem você Berenice, e seu marido Osvaldo.
Tenho provas contra vários delitos de vocês e caso eu morra, meus cinco advogados têm todos os originais e vocês estarão comprometidos para sempre.
Por isso, rezem muito para que eu não seja vítima de um arranhão sequer.
Todos se calaram, roendo-se de ódio de Helena.
Infelizmente, nada podiam fazer contra ela.
Vendo que o clima estava desagradável e pouco amistoso, visto que Renato estava claramente ao lado da mulher, um a um foi se retirando e Celina recolheu-se aos seus aposentos, assim como fizeram Berenice e Osvaldo.
Helena, sozinha na sala com Renato, disse:
- Não vamos deixar mais um crime passar em branco.
Vamos entregar todos eles à polícia.
O que tenho sobre cada um é suficiente para que o inquérito seja reaberto e a vida deles investigada.
- Não, Helena, pelo amor de Deus.
Esse assassino não é de brincadeira.
Minha querida tia está morta.
Infelizmente, ela falava a verdade.
Não quero pôr a vida de Fábio em risco.
- E vamos viver para sempre à mercê dele ou dela?
Nunca poderei me revelar como mãe de meus filhos por causa de um monstro que precisa ser detido e preso?
- Vamos aguardar.
Por agora não podemos arriscar a vida do nosso filho.
- Coitada de Vera!
Não queria que tivesse esse fim.
Lembrando da doçura e do amor de Vera, ambos recomeçaram a chorar baixinho.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 01, 2018 9:23 pm

Capítulo 30
O velório e enterro de Vera foram em clima de desespero para todos, principalmente para os sobrinhos e para Celina que, inconformada, acusava intimamente Helena, pois sua irmã havia sido assassinada quando ia a seu encontro.
A polícia começou a fazer as investigações, e Helena foi chamada a depor, mas omitiu o verdadeiro motivo da visita de Vera à sua casa àquela hora da noite.
Disse apenas que a futura cunhada gostava muito dela e queriam conversar mais à vontade, longe do ambiente da mansão.
Por fim, o crime foi considerado tentativa de assalto.
A polícia concluiu que Vera ia ser roubada, mas os bandidos viram Helena e Leonora à janela e, como não conseguiram o que queriam, mataram a vítima.
Um mês depois, o caso foi dado por encerrado.
A falta de Vera na mansão provocou em todos tristeza profunda que parecia não ter fim.
Andressa chorava muito e os rapazes, para fugir do clima melancólico que se instalara na casa, saíam o tempo inteiro e durante as noites iam para barzinhos ou festas diversificadas.
Durante uma daquelas noites solitárias, quando Celina e Andressa já haviam se recolhido, Helena e Renato se encontraram na sala, tomando delicioso vinho e ouvindo música relaxante.
- Nossa vida precisa mudar.
Não aguento mais o clima que se criou aqui.
Temo que Andressa, abalada como está, perca o bebé - clamou Renato buscando as mãos macias e carinhosas da mulher amada.
- Eu também acho que não podemos mais viver assim.
A perda de Vera foi lamentável, mas ficarmos desse jeito não vai trazê-la de volta.
Tenho aprendido que não devemos chorar muito por quem já se foi ou ficar lamentando em demasia sua morte.
Isso prejudica o espírito em sua nova estada no plano astral.
Por outro lado temo pelos meninos.
Outro dia o Fábio chegou bêbado.
- Estou temeroso pelo Fábio, ele tem bebido muito ultimamente.
Helena calou-se por instantes.
Ela sabia que Fábio estava apaixonado por ela e essa era a verdadeira causa de seu abuso no álcool.
Contudo, jamais poderia falar com Renato.
Aquilo a angustiava muito e não foram poucas as vezes que chorara sem saber como solucionar a questão.
Seu filho era um rapaz lindo, agradável, sensível, por que fora cometer o erro de se apaixonar por ela?
- Está calada por que, meu amor?
No que pensa? - Renato interrompeu seus pensamentos.
Ela disfarçou:
- Preocupada com nossos filhos.
Porque também considero Humberto meu filho.
Mas o estado de Andressa, deprimida, e Fábio bebendo demais é o que mais me angustia.
De repente Renato teve uma ideia:
- Que tal anteciparmos nosso casamento?
Só assim a alegria voltará a reinar aqui.
Em vez de uma cerimónia comum, daremos uma grande festa.
Agradaremos aos nossos filhos, traremos muita gente.
- Acho uma boa ideia, mas não corro o risco de ser reconhecida em meio a tantas pessoas?
- De jeito nenhum.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 01, 2018 9:23 pm

Você sabia como papai era reservado, você quase não foi vista por ninguém do nosso meio durante o tempo que ficou casada comigo.
Sempre fomos muito reservados, nunca demos festas em casa ou recebíamos os amigos.
Helena alegrou-se, beijando-o nos lábios:
- Então amanhã, durante o almoço, anunciaremos nosso casamento para daqui a quinze dias!
- Só isso?
- Creio ser o tempo necessário para agitar essa casa e banir para sempre a tristeza que Vera deixou.
Ela nos amava, queria nosso bem, ficará feliz de onde estiver, vendo nosso enlace.
E também é o tempo suficiente para que tudo fique regularizado perante a lei.
- Então faremos isso, amor!
Amanhã daremos a notícia.
Renato e Helena beijaram-se com ardor e ele foi levá-la
de volta para casa.
No dia seguinte, pela manhã, passava das 11h quando Helena chegou.
Cumprimentou Renato, abraçou Andressa e dirigiu-se à cozinha, pois queria falar em particular com Berenice.
Chamou a governanta à área de serviço e perguntou:
- E ontem?
Que horas Fábio e Humberto chegaram?
- Humberto chegou mais cedo, por volta das duas da manhã, mas Fábio chegou quando passava das cinco...
Vendo que Berenice relutava em falar algo mais, Helena encorajou-a:
- Novamente bêbado. Não minta!
- Sim, senhora! Novamente bêbado.
Os amigos o trouxeram dirigindo o carro dele.
Estou com pena do meu menino.
Eu o vi nascer, nunca imaginei que chegaria a esse ponto.
Helena encheu os olhos de lágrimas:
- Berenice, você é uma boa alma.
Desculpe se a acusei pelo crime naquela noite no jantar, mas sei que você é incapaz de matar alguém.
Só esse favor que está me fazendo, passando algumas noites acordada, esperando a hora dos meus filhos chegarem para ver o estado deles, nunca terei como pagá-la.
Berenice também ficou emocionada:
- Para mim eles também são meus filhos.
Não faço diferença entre eles e Duílio.
Helena aproveitou para fazer uma pergunta que a muito vinha incomodando, mas que não tivera coragem de fazer a Renato:
- Como foi a adopção de Humberto?
Como tudo aconteceu?
Berenice sentou-se num banco fazendo um gesto para que Helena a acompanhasse e começou a contar:
- Foi tudo muito estranho.
A chegada de Humberto aqui foi uma surpresa para todos nós.
Assim que você foi condenada e presa, Vera Lúcia e Celina resolveram fazer uma longa viagem pela Europa.
Todos nós estranhamos, pois as duas nunca se deram bem por serem muito diferentes.
Celina sempre foi o poço da arrogância e do esnobismo, enquanto Vera era o símbolo da gentileza e da simplicidade.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 01, 2018 9:23 pm

Elas sempre discordavam em tudo.
Sempre percebi que entre elas havia um grave segredo.
Na verdade, o segredo é de Celina.
Vera Lúcia com certeza descobriu algo muito grave que ela fez no passado e vivia ameaçando em contar quando Celina cometia alguma injustiça com alguém.
Vera sempre foi muito justa e não gostava quando Celina maltratava os empregados, brigava com Renato e até com o senhor Bernardo, como você cansou de ver enquanto morou aqui.
Então, de repente e sem justificativa, as duas foram viajar juntas para a Europa.
Passaram lá mais de um ano.
Um mês depois que regressaram, numa noite, Osvaldo estava no portão fazendo a vigilância quando ouviu que alguém, envolto em um manto escuro, se aproximou, deixou uma pequena caixa e saiu correndo.
Osvaldo ainda tentou seguir, mas estava muito escuro, nessa noite havia faltado energia aqui no bairro, e a luz da lanterna só fez meu marido ver que se tratava de uma mulher.
Ele colocou a luz na caixa de papelão e a abriu.
Teve uma surpresa ao ver um bebé rechonchudo e rosado que, com o efeito da luz, piscou os olhinhos e começou a chorar.
Trouxe-o para dentro de casa e todos se enterneceram com a criança.
Seu Renato a levou no dia seguinte para as autoridades e Vera Lúcia insistiu que ele deveria adoptar a criança como seu filho.
De tanto a tia falar, Renato pediu preferência de adopção à justiça, caso os pais do bebé não fossem encontrados.
Passou pouco tempo e a justiça concedeu a criança em adopção a Renato.
Foi uma alegria para todos.
Humberto veio trazer luz a esta mansão, tão sombria por sua prisão e pela morte do patriarca.
Ele o registrou como se fosse seu filho e fez com que todos nós nos calássemos.
Fez também com que ele adorasse a misteriosa mulher da pintura sobre a lareira, achando ser a mãe dele.
É tudo que sei.
Helena estava intrigada:
- Por que você associou a viagem das duas com a chegada de Humberto?
Acaso está querendo dizer que...
- É isso mesmo.
É uma desconfiança minha e de meu marido Osvaldo desde que essa criança apareceu aqui.
Tenho certeza que Celina ou Vera Lúcia ficou grávida e, para não ser mal falada na sociedade, viajou para ter essa criança fora e depois deixou aqui na porta.
Helena surpreendeu-se:
- Mas nenhuma das duas foi dada a namoros.
Sempre foram solteironas convictas!
- Isso é o que aparentavam.
Acredito que uma delas deve ter tido um relacionamento proibido e engravidou.
Por certo, deveria ser com um homem casado.
- Você afirma com tanta convicção!
- Observe bem o Humberto.
Ele tem todos os traços da família.
Desde pequenininho notei isso, não só eu como todos, mas ninguém tem coragem de dizer.
Sempre comentam entre si que não se parece com ninguém, porém parece muito com Renato.
Tem a mesma cor, os mesmos cabelos, olhos quase idênticos e lábios proeminentes iguais aos dele.
Claro que seu Renato não é o pai, seria impossível, mas uma das duas poderia ser a mãe.
Só naquele momento Helena viu a incrível semelhança de Humberto com Renato, parecia-se até mais que seu filho Fábio.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 01, 2018 9:24 pm

- É um mistério.
Mas quem você acha que, das duas, é a mais provável de ser a mãe?
- Pela insistência desesperada na adopção, tenho quase certeza de que seja Vera.
- Preciso fazer um exame de DNA para descobrir.
- Mas como? Vera está morta!
- Farei com Celina, se não for compatível, é porque Humberto é filho de Vera.
- Mas, sendo irmãs, não é difícil diferenciar pelo código genético? Desculpe-me, não entendo bem dessas coisas.
- Pelo que li sobre o assunto, o código genético da mãe é 99,9% compatível com o do filho.
Logo, se o de Celina não tiver essa percentagem, a mãe é Vera.
- Mas como a senhora vai fazer?
Celina jamais irá concordar em fazer o exame.
- Tenho meios para conseguir isso.
Até com um copo que ela beba água, podemos tirar a saliva e fazer o teste.
Quanto a Humberto, faremos do mesmo jeito, sem ninguém saber.
Isso será um segredo nosso!
- Que terei imensa alegria em guardar.
Quero descobrir de facto a origem do nosso menino.
- Vamos descobrir.
A voz de Renato chamando Helena se fez ouvir e as duas saíram da área de serviço, ficando Berenice na cozinha e Helena retornando à sala.
Já era mais de meio-dia e todos se encontravam na sala.
Renato, em tom solene, disse:
- Laura veio hoje almoçar connosco para fazer um comunicado.
- Do que se trata? - perguntou Celina fulminando-a com o olhar.
- Só depois do almoço.
Vamos? - chamou Renato.
- Não quero almoçar, perdi a fome.
- Ora, tia, deixe de birra, vamos todos comer juntos, conversar.
Vamos alegrar o ambiente.
- Impossível. Jamais superarei a morte de minha irmã.
- Não vamos falar sobre isso agora.
Vamos almoçar, e depois Laura dará seu comunicado.
Andressa e Humberto abraçaram Helena com carinho e junto com Fábio, visivelmente desgastado pelo abuso do álcool, seguiram para a sala de jantar.
Todos comeram alegremente, com Helena falando de coisas triviais e interessantes.
Até Celina, mesmo sem querer, acabou alegrando-se com a conversa e as boas energias do ambiente que ficaram mais leves.
Quando terminaram, já na sala de estar onde tomavam café, Renato tornou:
- Laura vai comunicar a vocês algo muito importante.
Por isso, fiz questão que até Berenice e Osvaldo estivessem aqui presentes.
Helena abraçou Renato e revelou:
- Vamos nos casar dentro de quinze dias e daremos uma grande festa nesta casa.
Andressa, muito feliz, começou a bater palmas, sendo seguida pelos outros.
Todos abraçaram o casal desejando boa sorte e felicidades, excepto Celina que, sentada numa das poltronas, não mexia um músculo da face.
Helena também notou a palidez e o constrangimento de Fábio ao abraçá-la, fingindo felicidade, mas fez que nada percebeu.
Olhou para Celina e perguntou:
- E você, Celina?
Não vai nos parabenizar?
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 02, 2018 9:13 pm

- Não sou falsa.
Sou contra esse casamento.
Acho que a mãe dos meninos é insubstituível.
- Não seja tão radical.
Você teme que eu domine esta casa e lhe tire a liberdade, mas não farei isso.
Você terá toda autonomia aqui e nada vai mudar.
Helena disse aquilo com tanta sinceridade que acabou por tocar um pouco o endurecido coração da tia do marido.
- Que seja feita a vontade de vocês, só não acho certo fazer uma festa aqui com apenas um mês da morte de minha irmã.
Além do mais, nossa família nunca abriu os portões desta casa para nenhum tipo de recepção.
Não é usual em nossa vida.
- Mas essas coisas precisam mudar, Celina - tornou Helena tranquila e carinhosa, dirigindo-se para a outra e pegando em seu braço.
A sinceridade de Helena era tanta que impediu que Celina a rechaçasse.
- Essa casa está mergulhada na tristeza, na amargura e na revolta.
Precisamos mudar, trazer a alegria de volta para cá.
Os filhos de Renato são jovens, precisam de um ambiente alegre para viver.
Você e o Renato também são jovens, precisam recuperar a alegria, encontrar a felicidade.
Vera morreu, infelizmente, mas não podemos passar o resto da vida tristes e amargurados por isso.
Onde quer que ela esteja ficará muito triste com nossa tristeza.
Sei que é católica, sei que acredita que sua irmã está viva em outro lugar.
Quer que ela fique ainda mais triste vendo todos nós aqui vivendo na infelicidade?
Lágrimas escorriam pelo rosto de Celina, vendo muita lógica em tudo que Helena dizia.
Mas não cedeu:
- Eu ainda acho errado, mas se querem fazer e são apoiados por todos, que façam! Com licença!
Disse isso e saiu em direcção ao jardim.
O clima começava a ficar pesado pelas palavras e pelo choro de Celina, mas Helena interveio:
- Vamos entender que a tia de vocês é assim mesmo e só com o tempo é que mudará.
Vamos aproveitar e nos abraçar, comemorando esse acontecimento feliz.
Todos se abraçaram emocionados e voltaram a conversar.
Helena começou a falar acerca da decoração e da pequena reforma que pretendia fazer em alguns cómodos da casa, pedindo opiniões de todos que logo estavam envolvidos.
Parecia que a alegria realmente estava voltando àquele lar.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 02, 2018 9:13 pm

Capítulo 31
A reforma começou e Andressa saía inúmeras vezes com Helena para escolher alguns móveis novos, cortinas diferentes, tapetes, objectos de decoração, quadros mais vivos, tudo para a casa ficar mais bela possível para o grande dia.
Durante essas saídas, Andressa fazia o possível para demonstrar alegria e felicidade, mas Helena notava no fundo dos seus olhos uma tristeza que ela não conseguia ocultar.
Numa tarde, quando terminaram as compras daquele dia, foram para a praça de alimentação do shopping e pediram deliciosos sorvetes.
Helena olhou a filha com muito carinho e tornou:
- Andressa, sei que está muito feliz com o meu casamento com seu pai, mas noto tristeza nos seus olhos.
Você tenta disfarçar, mas sei que algo a incomoda profundamente.
Tenho certeza que não é seu filho.
Os olhos dela encheram-se de lágrimas:
- Não, meu filho está óptimo.
Tenho feito os exames e ele cresce saudável e lindo!
Eu o amo, e como já disse, jamais o rejeitaria por nada deste mundo.
- Então, o que se passa com você?
A confiança de Andressa por aquela que não sabia ser sua mãe era tanta, que ela não teve como resistir e se abriu:
- É que estou apaixonada e não vejo como ficar ao lado de quem amo.
- Que lindo!
A paixão é muito bonita quando vivida com equilíbrio.
- Não no meu caso, que é uma paixão impossível.
- Por que é impossível?
Ele é casado, noivo, tem namorada?
- Não. Nada disso...
Vendo que ela estava com receio de se abrir mais, Helena a incentivou:
- Vamos, querida, se abra.
Quem sabe não possa ajudá-la?
- Estou apaixonada por Ricardo!
- É algum colega de faculdade?
- Não, não é ninguém de nosso meio.
Ricardo é o rapaz que estava no mesmo hotel que eu quando tudo aconteceu.
Foi ele quem fez a revisão em meu carro e foi até minha casa levá-lo de volta.
Desde que o vi pela primeira vez senti algo diferente.
Quando ele foi à minha casa, senti meu coração descompassar.
Ele me chamou ao jardim e declarou estar apaixonado por mim, pediu-me em namoro.
Mas eu estava completamente revoltada com o que havia me acontecido e vi naquele pedido um golpe, uma tentativa de um rapaz pobre em pertencer à alta sociedade às custas de uma moça estuprada.
Me revoltei e disse coisas a ele das quais me arrependo muito.
Ricardo reagiu com tanta dignidade que me tocou ainda mais e desde aquele dia não consigo esquecê-lo.
Estou apaixonada e sinto que o amo de verdade.
Helena sentiu-se tocada com a revelação da filha:
- Mas o que pode haver de impedimento nesta relação?
Vocês dois se amam, podem e devem ficar juntos.
- Como você, uma mulher tão rica e fina, pode aceitar com naturalidade uma união dessas?
Ele é um rapaz que não tem onde cair morto, sobrevive de uma oficina mecânica.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 02, 2018 9:14 pm

- Posso ser rica sim, mas não tenho nenhum preconceito social.
Soube que seu pai casou com sua mãe, mesmo ela sendo muito pobre.
E pelo que soube os dois se amavam muito.
Precisamos esquecer isso de “classe social”.
Todos nós somos filhos de um mesmo Pai que nos ama igualmente.
- Você é muito nobre, Laura!
Não canso de agradecer a Deus o facto de você ter surgido em nossas vidas.
Mas as outras pessoas não pensam como você.
Meu pai, minha tia e principalmente meus irmãos jamais aceitariam.
Já tive de impor essa criança que está em meu ventre, agora terei também de impor um pobretão?
- Você não impôs nada.
Seu filho foi aceite com muito amor e carinho por todos, até mesmo Celina não comentou mais nada desagradável.
Seus irmãos trazem presentes para ele e Renato só fala do neto que vai nascer.
Isso já foi superado e creio que ninguém será contra esse namoro e futuro casamento.
Se seu pai foi capaz de desposar uma moça pobre no passado, não é agora que será contra ao ver a filha casando com uma pessoa sem posses.
- Mas irão dizer que ele está me dando o golpe do baú.
Ninguém acreditará em nosso amor.
- E o que é mais importante?
O que você pensa e sabe que é verdade ou a opinião dos outros?
Andressa calou-se e Helena prosseguiu:
- Nunca dê importância ao que os outros dizem.
Isso é vaidade e orgulho.
Sempre terá alguém falando mal de nós, nos criticando, duvidando de nossas intenções, mas não podemos parar nossa vida por isso.
O que importa é o que somos por dentro, o nosso coração, as nossas atitudes perante a vida.
Se você quiser eu a ajudo e Ricardo será seu.
Um brilho de contentamento despontou dos olhos claros de Andressa, mas logo depois desapareceu e ela disse:
- Mesmo que todos aceitem, não acho possível que Ricardo me perdoe depois de tudo que disse a ele naquele dia.
Helena permaneceu calada por alguns segundos, e então teve uma ideia:
- Eu vou procurá-lo, basta que você me dê o endereço, você lembra?
- E como ia esquecer aquele lugar?
- Então, diga-me onde é.
Ainda é cedo, vou lá, falo com ele, digo dos seus sentimentos e o quanto está arrependida pelo que lhe disse.
Ela corou:
- Tenho medo de ser rejeitada.
- O medo é o nosso maior inimigo, nunca devemos nos guiar por ele.
Se você não tentar uma reaproximação, nem que seja através de mim, nunca saberá a reacção dele e viverá para sempre nessa dúvida.
Passe-me o endereço, deixo você em casa e sigo para lá.
- Só você mesmo para fazer isso por mim.
Amo-a como se fosse minha mãe!
Aquela frase foi demais para Helena que quase desequilibrou-se emocionalmente, mas rapidamente se recompôs e replicou em tom natural:
- E eu a amo como se fosse minha filha.
Ambas se abraçaram e em seguida foram para o carro.
Fizeram de acordo com o combinado e Helena, ao deixar Andressa em casa, seguiu para a oficina de Ricardo.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 02, 2018 9:14 pm

Capítulo 32
Helena dirigiu-se para o bairro onde Ricardo morava, mas Andressa dera-lhe o nome da rua do hotel e não da oficina onde ele trabalhava.
Contudo, não foi difícil descobrir, já que a oficina ficava perto e Ricardo era bastante conhecido ali.
Quando ela parou o carro em frente ao grande galpão que lhe servia de ambiente de trabalho, Ricardo saiu debaixo de uma camionete, limpou as mãos numa estopa, esfregou-as no já sujo macacão azul e, olhando-a, perguntou:
- Qual o problema, dona?
- Gostaria de conversar com você, Ricardo.
Ele a olhou desconfiado colocando as mãos nos bolsos do macacão.
- Como sabe meu nome?
Nunca a vi por aqui.
- Sou a futura madrasta de Andressa.
Ricardo tomou leve susto.
Logo, pensou que ela deveria estar ali para lhe pedir desculpas pelos impropérios ditos pela moça quase dois meses antes.
- Se veio pedir desculpas pelo que Andressa fez, não precisa.
Não guardo raiva alguma dela.
- Não vim pedir desculpas.
Vim falar sobre Andressa sim, mas gostaria que não fosse aqui fora, nem na presença de outras pessoas.
Tem algum lugar onde possamos conversar a sós?
Havia ali dois rapazes que trabalhavam com Ricardo e ele, vendo que aquela mulher tinha ido com boas intenções, convidou-a para uma saleta que servia de escritório.
Era um lugar pequeno, com um armário de aço, uma mesa e duas cadeiras.
Ele fez um gesto para que ela se sentasse na cadeira da frente, enquanto ele ocupou a outra.
- Pode dizer.
- Você está muito defensivo Ricardo.
Compreendo que o que Andressa fez não foi bom, mas não precisa ficar desse jeito.
Vim aqui porque desejo o melhor para vocês.
- Para nós? Como assim?
- Andressa, embora tenha feito o que fez com você, descobriu que o ama.
Ele empalideceu.
Não podia ser verdade.
- Não estou entendendo.
Andressa recusou o meu amor da pior forma possível.
Como descobriu que me ama?
- Ela fez aquilo porque estava vivendo momentos muito difíceis.
Tenho certeza que você entendeu a reacção dela.
- Não creio, senhora.
Andressa demonstrou naquele dia que é geniosa, tem um temperamento difícil e se acha melhor que todo mundo só porque é rica.
Por mais que eu a ame, não posso aceitar uma coisa dessas.
Compreendo que goste de sua futura enteada, mas ela não é o que aparenta.
É uma garota estúpida e eu diria que até má.
- Não diga isso, Ricardo.
Conheço Andressa muito bem.
Ela tem génio forte, personalidade dura, muitas vezes, mas não possui coração ruim, ao contrário, é uma menina muito boa.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 02, 2018 9:14 pm

As coisas que tem passado e o facto de ter descoberto que está grávida modificam muito a personalidade dela.
Garanto que hoje Andressa está melhor do que era antes.
Ricardo assustou-se:
- Ela está grávida?
Como assim?
- Isso mesmo. Infelizmente, aquele estupro resultou numa gravidez.
Mas saiba que ela já ama o filho e não vai abortá-lo.
Parecia um pesadelo.
Andressa grávida daquele homem asqueroso e ainda amando o filho.
- A senhora tem certeza que Andressa aceitou essa criança?
- Absoluta! Ela ama o filho e fará de tudo para que cresça sadio e feliz.
Ricardo pensou que se aquilo fosse verdade ela realmente estava mudada.
Contudo, não mudava nada entre eles.
- Mesmo que tenha mudado em nome do filho, não creio que me ame.
Como a senhora pode afirmar isso?
- Foi ela mesma quem me disse.
Percebi que Andressa andava muito triste ultimamente e acabei forçando-a a me dizer a razão.
Ela me confessou que ama você e que nunca o esqueceu desde a primeira vez que o viu.
O coração de Ricardo acelerou e uma onda de calor gostoso envolveu seu corpo.
Se aquilo fosse verdade passaria por cima da humilhação sofrida e ficaria com ela.
Mas havia outro problema e resolveu se abrir:
- Mesmo que seja verdade há a questão da diferença social que há entre nós.
Quando a pedi em namoro o fiz movido pela paixão, sem pensar em mais nada, mas depois do que ela me disse, passei a reflectir e cheguei à conclusão de que nossa diferença social é muito grande.
Jamais daria certo.
Helena enterneceu-se.
Via que aquele rapaz humilde e bondoso amava mesmo sua filha.
- Isso não é problema algum, Ricardo.
O pai de Andressa não tem preconceitos, e eu muito menos.
Em breve me casarei com Renato, serei a dona daquela casa.
Você lá será muito bem tratado, posso garantir.
- Mas ela tem irmãos.
São filhinhos de papai mimados e snobes.
Como reagirão diante disso?
- Você está julgando os rapazes sem conhecê-los.
Posso garantir que também não terá nenhum problema com eles.
Ricardo animou-se:
- Mas o que a senhora propõe?
Que eu vá lá e volte a falar com ela?
- Sim, é o que Andressa mais quer.
Mas lembre-se de que ela está grávida de outro.
Você vai amar esta criança como se fosse sua?
- Com certeza, senhora Laura.
Meu amor por Andressa é tão grande que passa por cima de todas as coisas.
Essa criança não pediu para vir ao mundo e deve ser muito amada por todos nós.
Parece que estou vivendo um sonho do qual não quero acordar.
Helena riu:
- Não é sonho, é a realidade.
Quero você lá hoje à noite.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 02, 2018 9:15 pm

Vou preparar tudo para que conversem à vontade e se acertem.
Ela se levantou e ele lhe deu a mão, apertando-a firme:
- A senhora não irá se arrepender de ter vindo me procurar.
Farei sua enteada a mais feliz das mulheres.
Ricardo sorria feliz e Helena entendeu por que a filha se apaixonara por ele.
Além de ser um rapaz lindo, fisicamente e de rosto, possuía beleza de alma, era um espírito nobre.
Quando saiu de lá não deixou de fazer uma prece, agradecendo a Deus por tudo ter corrido bem.
Assim que chegou à mansão, foi para o quarto com Andressa e contou-lhe tudo.
Ela sorria feliz e agradecia Helena.
- Agora, trate de ficar mais linda do que já é, pois seu príncipe logo estará aí.
- Ficarei sim.
Nem acredito que vou realizar este sonho.
Só fico com medo da reacção dos outros.
- Pode deixar.
Vou descer agora e falar com eles.
Estão todos aqui.
- Tenho medo.
- Não tenha, pois você é adulta e dona de sua vida.
Helena desceu e encontrou Celina juntamente com Renato na sala.
- Onde estão Fábio e Humberto? - perguntou em tom dissimuladamente autoritário.
- Fábio está tomando banho e Humberto estudando no escritório - respondeu Renato estranhando o tom de Helena.
- Mande chamar o Humberto e vamos esperar o Fábio terminar o banho.
Tenho um comunicado a fazer.
- Lá vem você de novo - reclamou Celina.
O que é dessa vez?
- Nada de mais, só devo lembrá-la que sou mãe deles e devem respeitar minhas decisões.
- Eles não sabem que você é a mãe.
Só fazem o que querem - zombou Celina.
- Pois farei valer minha autoridade de mãe, se for preciso.
Quem terá coragem de ir contra mim aqui?
- Não estou entendendo por que está tão agressiva, meu amor - disse Renato realmente sem entender.
- É que o que vou dizer talvez não seja aceito por algumas pessoas.
Mas é um comunicado, não é um pedido de opinião.
Caso você, Celina, fique contra, não terei alternativa a não ser contar o que sei sobre seu passado.
Ela enrubesceu.
- Você é uma chantagista perversa!
- Que seja, mas pelo bem e felicidade de minha filha faço qualquer coisa, até revelar seu segredo escabroso, que pode ter feito com que você tenha matado o próprio irmão, pois ele descobriu e a estava infernizando.
Celina engoliu o ódio.
Helena prosseguiu:
- Então é bom aceitar o que vou dizer, sem reclamar, ouviu?
- Mas você se refere à Andressa?
O que é? - perguntou Renato preocupado.
- Não é nada demais, apenas desejo a aprovação de você, que é o pai, de Celina, a única tia viva, e dos irmãos.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 02, 2018 9:15 pm

- Aprovação para quê? - perguntou Fábio descendo as escadas e já fascinado pela beleza de Helena.
- Logo todos irão saber.
Por favor, chame Humberto no escritório.
Fábio chamou o irmão e, quando todos estavam reunidos, Helena comunicou:
- Andressa está apaixonada e tudo indica que será correspondida.
Se ela e o rapaz se acertarem, coisa que torço muito, eles irão namorar, noivar e casar.
A notícia surpreendeu a todos.
Andressa era de namorar, mas não passava de encontros casuais durante as festas que ia ou nos passeios de fim de semana, mas nunca se apaixonara por ninguém.
Após os acontecimentos que deram outro rumo à sua vida, vivia mais em casa, só saindo para estudar, evitando até mesmo um contacto mais profundo com as amigas e colegas de curso, para evitar críticas sobre sua condição.
Como poderia estar apaixonada?
Essa foi a pergunta que Renato e os filhos fizeram a Helena, que respondeu calmamente:
- Andressa está apaixonada por Ricardo, o mecânico que fez a revisão de seu carro.
Ela o conheceu na fatídica noite que resolveu dormir naquela pensão.
- Mas isso é impossível! - disse Fábio contrariado.
Conheço bem minha irmã, ela jamais se apaixonaria por um pobre mecânico.
- Você está enganado a respeito de sua irmã, aliás, todos vocês aqui parecem conhecê-la pouco.
Andressa criou uma imagem para si e para os outros que não corresponde à sua verdadeira natureza.
Intimamente, ela não é essa pessoa preconceituosa e esnobe que sempre quis mostrar, mas sim uma pessoa simples e humilde.
Humberto zombou:
- A senhora é que não a conhece.
Logo Andressa, simples e humilde?
- Pois eu garanto que é.
Tanto que aceitou o filho e está apaixonada por um mecânico, disposta a viver esse amor.
Ela tem todo meu apoio.
Eu mesma fui procurar o rapaz hoje para conversar sobre os sentimentos dela.
Renato estava surpreso:
- Você foi procurar um homem para minha filha?
- Nossa! Porque, desde que fiquei sua noiva, considero Andressa minha filha também.
- Mas por que você foi procurar o rapaz?
Helena contou tudo que havia acontecido, a conversa que havia tido com a filha, em que ela expôs estar deprimida por sofrer de amor, e da decisão em ajudá-la.
Finalizou:
- Ricardo vem aqui hoje à noite conversar com ela e não quero que ninguém diga nada ou seja contra.
Entendeu bem, Celina?
Celina, que até aquele momento estava imóvel e calada, virou-se para ela e disse:
- Tudo bem, mas saiba que estará contribuindo ainda mais para a ruína de nossa família.
Deixar Andressa namorar e casar com uma pessoa sem nível, sem ter onde cair morto, além de estar grávida de um estuprador, é demais para nossa família.
Helena provocou:
- Mas por que o preconceito, hein?
Até onde sei, a mãe dos meninos, a primeira esposa de Renato, era muito pobre.
Celina calou-se, poderia ficar perigosa aquela conversa.
Não disse mais nada e começou a limpar lágrimas de ódio que escorriam por seu rosto.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 02, 2018 9:15 pm

Fábio foi em defesa de Helena:
- Laura está certa.
O que vale neste mundo é a felicidade e não o modo que ela aconteça.
Andressa terá meu apoio integral.
Torço para que esse Ricardo seja uma pessoa boa, que goste de conversar, que se torne nosso amigo.
Movido pelo altruísmo do irmão, Humberto também se manifestou:
- Se ela gosta dele também a apoio, afinal, o que Andressa mais precisa no momento é de um homem ao lado, dando-lhe forças nesse momento difícil.
- E você, Renato?
Não diz nada? - inquiriu Helena.
- Eu só posso apoiar também.
Nunca fui preconceituoso, e pelo que conheço do rapaz, parece ser uma pessoa honesta.
- Posso garantir que é.
Os anos que passei de dificuldades me fizeram conhecer muito a alma das pessoas, às vezes, num simples olhar.
Afirmo que Ricardo é um moço muito bom e merece nosso apoio.
Fábio, inebriado pela paixão, perguntou:
- Você passou por momentos de dificuldades?
O que aconteceu com você?
Celina estremeceu com medo de que Helena dissesse algo comprometedor, mas ela soube conduzir a conversa:
- Tive que passar uns anos fora, resolvendo problemas da empresa de meu pai.
Lidei com muita gente ruim e perversa, mas também conheci muitas pessoas boas e honestas.
Sei muito bem diferenciar.
O que posso dizer com certeza é que ninguém aqui vai se arrepender de dar uma chance a esse rapaz.
Fábio insistiu:
- Mas nos conte como foram esses anos.
- Em outro momento.
Um dia direi a todos o que passei.
Pelo tom de Helena a conversa estava encerrada.
Ela pediu a Renato:
- Gostaria que fosse comigo a minha casa, infelizmente não posso ficar para o jantar, mas depois Andressa me contará como foi - disse passando um olhar ameaçador para Celina.
Renato prontificou-se a ir para a casa de Helena e logo os sobrinhos ficaram a sós com a tia e perceberam que Andressa descia as escadas graciosamente arrumada.
Celina a interpelou:
- Como você pode cometer uma loucura dessas?
Esse rapaz é um aproveitador, é um delinquente, quer é ficar com seu dinheiro.
- Tia, por favor.
Deixe-me seguir minha vida.
Eu amo Ricardo.
- Não ama nada.
Está apaixonada por causa desse momento frágil pelo qual passa.
No futuro verá que escolher esse rapaz foi a pior coisa que fez na vida.
Desista! Não envergonhe mais o nome de nossa família.
Aquilo foi demais para Andressa que pegou fortemente no braço da tia, dizendo com raiva:
- Nunca mais diga isso.
Você é uma solteirona amarga e infeliz e quer me fazer infeliz junto com você, mas não vai conseguir.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 02, 2018 9:15 pm

Perdi todo o respeito que lhe tinha.
A partir de agora se disser mais alguma coisa contra Ricardo ou contra o meu filho, não pensarei duas vezes em lhe dar uma boa bofetada.
Suma da minha frente.
Celina, que jamais esperava aquilo da sobrinha, subiu as escadas chorando e trancou-se no quarto.
Jogou-se sobre a cama e pensava com ódio:
“Maldita Helena, mil vezes maldita!
É por causa dela que Andressa está assim e tudo de ruim está acontecendo em minha família.
Um dia a terei em minhas mãos e assim a matarei como deveria ter feito desde que se casou com Renato.”
Envolvida naqueles pensamentos tenebrosos, não conseguiu relaxar até tomar mais uma dose forte de seu calmante e dormir entorpecida.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 02, 2018 9:15 pm

Capítulo 33
Horas mais tarde, quando Ricardo chegou, muito bem arrumado e trazendo um lindo buquê de flores, Andressa sentiu o coração disparar e pensou estar vivendo um sonho.
Não havia ninguém na casa, a não ser ela, a tia que dormia e os irmãos.
Fábio e Humberto foram cordiais com Ricardo e os quatro foram jantar.
Ricardo mostrou-se falante, inteligente e até culto.
Nem parecia ser apenas um mecânico de subúrbio.
O papo franco, o sorriso sincero, agradaram os rapazes e deixaram Andressa ainda mais apaixonada.
Quando o jantar terminou, os rapazes saíram de casa e o casal pôde ficar a sós.
Andressa convidou:
- Vamos para o jardim de inverno.
Lá poderemos ficar mais à vontade.
Quando chegaram lá, Ricardo, sem conseguir se conter, tomou Andressa nos braços e a beijou com paixão, dizendo:
- Amo você, quero ficar ao seu lado para sempre.
- Eu também amo você.
Perdoe-me por tudo que lhe disse.
Jamais deveria ter feito aquilo.
- Vamos esquecer, o que importa é o momento presente.
Desde que a vi jamais consegui esquecer seu olhar.
- Nem eu, parece que o conheço há muitos e muitos anos.
Ele sorriu:
- Quem sabe não seja de outras encarnações?
Ela também sorriu:
- Pode ser!
Só sei que amo você mais que tudo!
Os dois foram se envolvendo cada vez mais até que Ricardo, com muito carinho, levou-a até o quarto e a amou por longas horas.
Andressa e Ricardo estavam muito felizes, mas havia a preocupação dele em ser pobre e não poder colaborar com praticamente nada.
Os dois pensavam em casar, mas ele resistia, pedindo um tempo para que pudesse juntar algum dinheiro que pudesse ajudar nas despesas.
Andressa percebeu que aquela forma de ser dele poderia atrapalhar a relação.
Contou a Helena que naquele momento estava compartilhando com Renato sua preocupação de mãe.
- Ela o ama muito, mas ele é orgulhoso.
Está difícil resolver isso.
- Talvez seja melhor eu mesmo resolver este problema - disse Renato.
- O que você pensa em fazer?
- Posso encaixar Ricardo como funcionário de nossa empresa.
Lá ele poderá ganhar bem e não se sentir tão inferior por não ter dinheiro suficiente.
- Mas o que ele poderá fazer por lá?
Será que irá aceitar?
- Não sei, mas há muitas funções que ele pode exercer.
Ricardo é inteligente e aprende fácil.
Farei a proposta e veremos como ele reage.
Helena enterneceu-se:
- Você não mudou nada, é o mesmo homem bom e generoso que conheci.
- Nem você!
Mesmo tendo vivido tanto tempo numa cadeia, parece que nem passou por lá.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 02, 2018 9:16 pm

- Foi difícil não me corromper, mas consegui.
Creio que foi uma grande lição pela qual meu espírito passou.
Hoje sou mais forte, mais experiente, conheço melhor o ser humano.
Embora toda tristeza em ter ficado longe de você e de meus filhos, em ter sido condenada por um crime que não cometi, sei que teve o lado bom: o da experiência.
- Só você mesmo para dizer isso!
Renato consultou o relógio e despediu-se de Helena:
- Preciso chegar a minha casa mais cedo hoje.
Estou gostando de participar da reforma, de poder ver como as coisas estão ficando, de fiscalizar tudo pessoalmente.
Quero chegar lá antes do entardecer.
- Vá sim! À noite você volta?
- Estava pensando em levá-la ao cinema.
Que tal?
Ela sorriu:
- Muito bom, parece que ainda somos aqueles adolescentes daqueles bons tempos.
- E somos!
Ambos sorriram e com um beijo se despediram.
Helena dirigiu-se ao quarto, tomou um banho e já ia procurar Leonora na cozinha quando ouviu a campainha soar.
Leonora estava cuidando de uma roseira e viu quando uma senhora, com ares de grande dama, chegou ao portão e apertou o botão.
Enquanto Leonora conversava com ela, Helena, pela vidraça da janela, sentiu o coração gelar.
Era Ester! Havia desaparecido por um bom tempo, mas voltara, precisava atendê-la.
Abriu a porta e foi recebê-la no portão.
Leonora disse:
- Essa senhora afirma conhecê-la, mas eu nunca a vi aqui.
- Pode abrir o portão.
Esta é Ester, uma grande amiga.
Ester sorriu e entrou abraçando-a ternamente.
- Como tem passado, Helena?
- Estou bem, dentro do possível.
Ainda não consegui superar a morte de Vera.
Os olhos de Ester tornaram-se melancólicos:
- Foi muito triste o que aconteceu.
Mas prefiro conversar com você a sós.
Você se importa, Leonora?
- Não, senhora, fique à vontade.
Leonora continuou cuidando da roseira, enquanto Helena adentrou a casa, junto com Ester.
Sentaram-se no sofá e Helena perguntou:
- Deseja tomar alguma coisa?
- Não, minha querida, muito obrigada.
- Sua presença me deixa nervosa e apreensiva.
A senhora me ajudou muito.
Sem seu apoio, sem suas revelações, eu não estaria dominando a situação naquela casa.
Mas o facto de não saber nada a seu respeito me dá medo.
- Não tenha medo, estou aqui só para ajudá-la e para me ajudar.
Como disse a você, trago na alma certa culpa pelo que lhe aconteceu.
Mas não insista, nada mais poderei dizer.
Vim aqui dizer que a morte de Vera foi o pior que poderia ter acontecido.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 02, 2018 9:16 pm

Ester dizia com tanta firmeza e profundidade, que Helena sentiu-se tonta.
Ester continuou:
- Não fique com medo.
Basta esquecer essa história de querer saber quem é e seu filho estará protegido.
Um dia esse criminoso se revelará por conta própria.
Nada neste mundo fica oculto para sempre.
Vim pedir que esqueça de verdade e entregue tudo nas mãos de Deus.
A partir de hoje não poderei mais falar com você, mas sei que minha parte fiz bem.
Você sabe de todos os segredos daquelas pessoas e pode prosseguir segura naquela mansão, sendo feliz com o homem que ama e reconquistando o amor de seus filhos.
Era isso que eu queria para redimir um pouco minha consciência.
- Mas como posso conquistar o amor de meus filhos sem que eles saibam a verdade?
Sem que eles saibam que sou a mãe deles?
- É só ter paciência e viver com eles como uma boa madrasta.
No tempo certo, o assassino se revelará, e finalmente você ficará livre para dizer que é a mãe deles e que nunca foi uma criminosa.
- Mas você disse que não poderá mais me ver.
O que vai fazer da vida?
- Vou fazer uma grande viagem.
Pela idade que tenho, creio que não terei tempo de regressar.
Helena encheu os olhos de lágrimas:
- Muito obrigada por tudo, Ester.
Sem sua ajuda eu não teria conseguido.
- Eu é que agradeço pela oportunidade que está me dando de me redimir.
Que Deus a abençoe.
Ester calou-se e dirigiu-se à porta.
Helena ia acompanhá-la até o portão, mas ela pediu:
- Não precisa, não é bom que nos vejam juntas. Adeus!
A porta fechou-se e com elegância e lentidão Ester passou pela alameda e chegou ao portão, abriu-o e saiu, fechando-o em seguida.
Helena inquietou-se.
Dentro dela imensa e incontrolável vontade de saber quem era aquela mulher brotou em seu peito e ela chamou Leonora.
- Vamos seguir aquela mulher, agora!
- Mas quem é ela?
- É a mulher misteriosa que me ajudou.
Leonora surpreendeu-se:
- Ela mesma? Tem certeza?
- Sim e preciso saber quem é, vamos tirar o carro e segui-la, antes que se perca de nossas vistas.
Rapidamente, as duas entraram no carro e ainda conseguiram ver Ester dobrando a esquina. Helena a foi seguindo disfarçadamente até que a viu parar num ponto de ônibus.
De longe observaram, e logo Ester entrou, o que fez Leonora dizer:
- Deve morar num bairro elegante.
Os ônibus para os bairros pobres demoram mais para passar.
- Vamos seguir aquele ônibus.
O coração das duas estava acelerado.
O ônibus fez algumas paradas, mas em nenhuma delas Ester desceu.
Já estavam rodando por quase uma hora até que o ônibus chegou ao Jardim América.
- Deve ser aqui.
Não disse que morava num bom bairro?
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 02, 2018 9:16 pm

Realmente, Ester desceu ali e seguiu por uma rua pouco movimentada.
Havia uma praça bonita onde crianças brincavam ao sabor do entardecer.
Ester passou por ali, parecendo não notar as crianças, e dobrou uma esquina.
Helena acelerou um pouco o carro e entraram numa rua repleta de casarões antigos e sobrados ricos e bem conservados.
Ester entrou numa mansão rica e muito bonita.
Abriu o portão e ambas a viram entrar pela porta principal e fechá-la em seguida.
Helena, coração aos saltos, disse:
- Ester que me desculpe.
Sei que não quer que eu descubra quem é e sua origem, mas tenho que fazer isso.
Essa mulher que nunca vi tem me ajudado desde que fui presa.
Quero saber de quem se trata.
- A senhora não conhece ninguém por aqui? - perguntou Leonora, curiosa.
- Não, eu vim do interior e pouco saía enquanto estive casada.
Nunca vim antes a esse bairro.
Vamos para a casa.
Ambas estacionaram o carro e tocaram a campainha.
Uma elegante criada veio atendê-las.
- Gostaria de falar com a dona da casa - disse Helena, sentindo o coração sair pela boca de tão nervosa.
- A dona Lúcia está amamentando o filhinho.
Quem devo anunciar?
Ela ia dizer seu verdadeiro nome, mas corrigiu a tempo:
- Diga que é Laura Miller, noiva de Renato Alcântara Machado.
- Um momento, volto em seguida.
A criada entrou novamente e voltou com um sorriso.
- Podem entrar, logo dona Lúcia as atenderá.
Elas entraram e perceberam que a mansão não era apenas sumptuosa por fora.
Por dentro tinha um luxo e um requinte fora do comum.
Ela viu um porta-retratos com a foto de Ester sobre um belíssimo console e perguntou à criada:
- Quem é esta senhora?
- É a dona Ester, avó do senhor Tarcísio, meu patrão e marido de dona Lúcia.
- Muito obrigada.
A criada saiu e elas se sentaram onde foi indicado e puseram-se a esperar.
- Por que você não disse logo que queria falar com Ester? - perguntou Leonora.
- Não! Se ela souber pela criada que estou aqui é capaz de se esconder.
Em poucos minutos uma jovem mulher, muito bem vestida, surgiu:
- Laura Miller, noiva de Renato?
- Isso mesmo, é um prazer.
- O prazer é todo meu.
A família do meu marido tem negócios com a empresa de seu noivo.
O que deseja?
Helena não sabia bem como começar, mas disse a que veio:
- Na verdade, eu vim aqui para falar com a senhora Ester.
Pode chamá-la?
A jovem mulher fez uma cara estranha:
- Você quer falar com quem?
- Com a dona Ester, aquela do porta-retratos, a avó de seu marido.
Lúcia pareceu se irritar:
- Mas que brincadeira mais boba é esta?
Vieram aqui para abusar de nossa paciência?
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 02, 2018 9:16 pm

- Acalme-se.
Vim aqui porque ela saiu de minha casa há pouco mais de uma hora e eu preciso terminar o que começamos a conversar.
- Ora, minha senhora, faça o favor de nos respeitar.
É louca por acaso?
Helena não estava entendendo aquela reacção:
- Custa chamar a dona Ester?
- Minha querida, como vou chamar a dona Ester se ela está morta há quase vinte anos?
Helena pareceu não ouvir direito:
- O que você disse?
- O que ouviu.
Dona Ester foi barbaramente assassinada há mais de vinte anos.
Ninguém nunca soube o que aconteceu.
O que você quer remexendo nosso passado?
Helena sentiu uma tontura e teria desmaiado se não fosse amparada por Leonora, que pediu:
- Por favor, peça que tragam um copo com água para ela.
Está muito nervosa.
- Ora, nervosa estou eu.
Como é que essa louca vem aqui dizer que dona Ester saiu de sua casa agora há pouco?
Ponham-se daqui para fora e ainda vou me queixar com meu marido por causa dessa brincadeira idiota.
Nessa hora, Tarcísio acabava de chegar.
Colocou a maleta sobre o sofá e perguntou o que estava acontecendo.
Lúcia contou-lhe tudo e ele, muito pálido, com feições coléricas bradou:
- Minha avó está morta, como tem coragem de vir aqui dizer uma loucura dessas?
Saiam daqui agora ou não responderei por mim.
Helena balbuciou apenas:
- Em que ano ela morreu?
- Ora, não faça perguntas, sua louca, saia daqui!
Praticamente expulsas, Leonora e Helena saíram da casa e entraram no carro.
Quando Helena se refez, deu partida e saiu.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 02, 2018 9:17 pm

Capítulo 34
Só quando chegaram a casa foi que Helena desabou no sofá, olhou para Leonora e disse:
- Como isso é possível?
- Acalme-se, Helena, creio haver uma boa explicação.
- Mesmo que tenha, como posso ter conversado durante tanto tempo com um espírito, sem perceber?
Isso parece loucura.
Será que é possível?
- Tanto é que eu mesma a vi aqui.
A Lúcia e o neto afirmaram que ela morreu há quase vinte anos.
Como duvidar?
- Mas é muito para minha cabeça.
Se eu contar a alguém dirão que estou louca.
Ainda bem que a tenho por testemunha.
- Mas você não deve contar isso a ninguém.
Ninguém entenderia.
- Você disse que há uma explicação.
Posso saber qual é?
Leonora sentou-se calmamente ao lado de Helena e disse:
- Os espíritos desencarnados podem se materializar na Terra, conversar com os encarnados, ajudá-los e até passar um tempo com eles, sem que ninguém perceba.
- Isso parece uma loucura.
- Mas não é. Ao contrário, é um facto comprovado por cientistas de renome que se dedicaram a estudar o assunto.
Sir William Crookes, um grande físico americano, estudou esses factos à luz da ciência e pôde, não só comprovar a imortalidade da alma, mas provar que os espíritos podem se materializar aqui na Terra.
O resultado desses estudos é um livro chamado “Factos Espíritas”, que é publicado pela Federação Espírita Brasileira.
O livro traz até a foto de um espírito materializado.
Helena abriu a boca e fechou-a novamente, tamanho o espanto.
Leonora prosseguiu:
- A senhora Ester deve ter uma estreita ligação com a família de Renato e com o crime que aconteceu.
Veio ajudá-la, se materializando aqui, para que você pudesse recuperar tudo o que perdeu.
Provavelmente, é um espírito que traz culpas na consciência, mas com profunda vontade de reparar e ser melhor.
Por isso recebeu ajuda do alto para se materializar e vir até você.
- Como isso pode acontecer?
Será que ela já era um espírito quando foi me visitar na cadeia?
- Provavelmente na primeira visita ainda estava encarnada, mas logo depois deve ter sido assassinada e, no plano espiritual, assim que se recuperou, recebeu essa concessão.
- Me explique como isso pode acontecer.
- Para um espírito se materializar aqui na Terra não é tão fácil.
É necessário que ele recolha uma substância chamada ectoplasma, que é uma mistura de fluidos materiais com fluidos astrais, e componha seu corpo por meio dela.
Geralmente, é necessário que médiuns doem essa substância, mas ela pode também ser encontrada nos animais, nas plantas e na água.
Acredito que Ester usou essa substância para conseguir o seu objectivo.
- Isto é incrível!
Eu senti o toque das mãos dela, seu calor, tudo!
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 03, 2018 9:12 pm

Era como se estivesse viva.
- A impressão é esta porque, ao se materializar, o espírito também materializa todos os órgãos do corpo físico e que também estão presentes no perispírito.
- O perispírito tem órgãos?
- Sim. O corpo astral, ou perispírito, possui todos os órgãos do corpo de carne e vai continuar a possuir até quando o espírito precisar reencarnar.
São esses órgãos, em estado fluídico, que proporcionam a reencarnação e mantêm vivas e sadias todas as funções do corpo humano.
- O que você está me dizendo é fantástico demais para ser verdade.
Pensei que os espíritos fossem como uma fumaça ou que não tivessem corpo, como algo etéreo.
- Está enganada.
Enquanto estiverem sujeitos à reencarnação, principalmente na Terra ou em mundos da mesma categoria, o corpo astral terá todos os órgãos.
Só os perde quando chegam ao grau de espíritos muito evoluídos ou espíritos puros, mas é um processo lento e que continua em outros planetas mais evoluídos.
Helena olhou para Leonora e era como se a estivesse vendo pela primeira vez.
Nunca poderia imaginar que uma moça simples como ela pudesse ter tanta sabedoria.
- Você aprendeu isso nos livros de Allan Kardec?
- Sim, principalmente no livro “A Génese”, contudo, o perispírito é melhor e mais profundamente explicado nas obras do espírito André Luiz, psicografadas pelo Chico Xavier, principalmente na primeira parte do livro “Evolução em Dois Mundos”.
Helena deu um longo suspiro:
- Depois dessa preciso ler ainda mais.
Tem muita coisa neste mundo que não sei e se não fosse você, eu estaria louca neste momento.
- Vamos prosseguir estudando juntas e você vai ver que neste mundo há mais coisas do que se possa imaginar.
- Você disse que um espírito materializado pode conviver com as pessoas.
Mas isso pode acontecer por muito tempo?
- Não. Como disse, não é fácil uma materialização, por isso, os espíritos que a conseguem são rápidos ao entrar em contacto com os encarnados.
Para que ficassem mais tempo teriam que usar mais ectoplasma e outros elementos que não são facilmente conseguidos.
Muitos cientistas prosseguem estudando esses fenómenos e um dia teremos respostas para todas as nossas dúvidas.
Helena pediu:
- Gostaria que fizéssemos uma prece para Ester.
Ela pode ter suas culpas, mas vou lhe ser eternamente grata por ter feito tanto esforço para me ajudar.
- Vamos orar e agradecer.
A gratidão eleva e comove nossa alma.
As duas elevaram os pensamentos e oraram com fervor a Deus por ter permitido que Ester tivesse ajudado, sem perceber que ela estava ali, em espírito, sorridente por ter cumprido sua missão.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 03, 2018 9:12 pm

Capítulo 35
Horas mais tarde, no plano espiritual, Bernardo e Ester estavam reunidos com outros espíritos numa sala simples conversando acerca de Helena:
- Sinto imensa gratidão por Deus ter me dado a concessão de poder me materializar no mundo terreno e ajudar Helena.
Só Ele sabe o quanto minha consciência ficou mais leve com isso - tornou Ester com sorriso alegre.
Bernardo, olhos melancólicos, disse:
- Você se culpa, mas tudo faz parte de um plano maior.
Helena teria que passar pela experiência de ser presa inocente, pois ainda não havia se libertado de sua culpa pelo que fez no passado.
- No final do século XVIII, no Rio de Janeiro, eu era um barão muito rico e com grande influência no governo.
Minha esposa era uma baronesa vaidosa, gostava de brilhar em sociedade e amava com paixão o nosso único filho Renato.
Pensava num casamento brilhante para ele, com uma moça linda e igualmente rica, de cultura refinada e que lhe fosse muito obediente, pois queria controlar o filho e os netos mesmo depois do casamento.
Foi quando conheceu a jovem Helena, filha de aristocratas franceses que haviam imigrado para o Brasil, onde expandiram os negócios com a indústria têxtil e eram vistos em alta conta na sociedade daquele tempo.
Para minha esposa, Helena representava tudo o que ela sempre sonhou.
Não foi difícil unir os dois jovens num namoro curto que logo culminou num noivado.
Ocorre que meu filho estava envolvido com uma de nossas criadas fazia tempo.
Quando descobrimos o envolvimento, ela estava grávida do primeiro filho, mesmo assim a expulsamos de casa.
Contudo, não adiantou.
Apaixonado, Renato procurou-a incessantemente até que a encontrou num cortiço.
Não adiantaram nossas rogativas para que ele acabasse com aquela relação, e muito mimado e já trabalhando para o governo, assumiu a criança e as outras duas que vieram depois.
Tirou a criada do cortiço e deu-lhe pequena e simples casa.
Renato nunca deixou de procurá-la, mesmo depois de noivo e com o casamento marcado com Helena.
Por sua vez, Helena era uma jovem possessiva e ciumenta, embora tivesse bom coração.
Começou a desconfiar que Renato a traía e, com ajuda de sua fiel criada, descobriu tudo.
Foi até a casa da amante do noivo muitas vezes ameaçando-a para que se separasse, mas a outra, altiva e corajosa, não desistia.
Até que Renato foi ficando cada vez mais interessado pela noiva e descobrindo que a amava.
Quando se deu conta do grande sentimento que o unia à Helena, foi até a casa da amante e terminou tudo com ela.
Desesperada e sem aceitar o fim da relação, a amante procurou Helena várias vezes ameaçando fazer um escândalo e impedir que se casasse.
Foi quando, inspirada por um espírito das trevas, Helena teve a ideia.
Iria matar a rival e ficar livre para sempre daquelas ameaças.
E assim fez.
Pegou escondido uma das armas do pai e, no meio de uma noite escura, foi procurá-la.
A outra mais uma vez a enfrentou e novamente ameaçou fazer um escândalo no dia do casamento.
Sem pensar em mais nada, Helena tirou a arma sob o manto que a cobria e deu três disparos.
Sua rival estava morta.
Logo as três crianças apareceram gritando pela mãe, mas Helena saiu sem olhar para trás.
Muito nervosa e já com remorso, chegou a casa e procurou por sua outra fiel criada Leonora e contou o que tinha feito.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 03, 2018 9:12 pm

Penalizada com a patroa, Leonora pediu que ela se entregasse dizendo que era assassina.
Não iria acontecer muita coisa.
Naquele tempo, uma moça rica e bem posicionada como Helena jamais pagaria pelo crime numa cadeia, mas mesmo assim, ela, temerosa que Renato a rejeitasse, nunca revelou nada.
O casamento aconteceu e depois que voltaram da lua de mel, novamente Helena procurou Leonora dizendo que estava com muito remorso e sentindo pena dos filhos da rival assassinada.
De tanto a criada insistir, ela acabou acatando a ideia:
iria procurar as crianças e criá-las como se fossem suas.
Quando foi até o bairro pobre onde sua ex-rival residia, descobriu que as crianças estavam sendo criadas pela vizinha.
Foi procurá-la e Celina, cheia de ódio, disse:
- Matou a mãe deles e agora veio matá-los também?
- Não, senhora, vim levá-los para que vivam com o pai.
- Pois eu não acredito em nada do que você diz.
Você é uma assassina e eu vou pessoalmente entregar as crianças ao pai contando tudo que você fez.
Helena ficou nervosa e suplicou:
- Não faça isso.
Se o fizer meu casamento terminará.
- Melhor! Assim minha amiga será vingada.
Quando a vi morta, jurei que me vingaria de você, pois ela era como se fosse minha irmã.
- Eu lhe dou quanto quiser, mas deixe-me levar essas crianças e não conte nada.
Celina ia responder quando a grossa voz de Renato se fez ouvir tomando-a de susto:
- Então, foi você quem a matou?
Como pôde, Helena?
Logo você, a mulher que amo, que é tão doce?
- Essa aí não presta, moço.
É uma assassina cruel e estúpida.
Nunca a perdoarei por ter matado minha amiga e deixado três crianças órfãs neste mundo odioso.
Helena ainda tentou enganar:
- Não acredite nela, meu amor, eu não fiz nada.
- Não adianta negar, Helena, ouvi tudo.
Estava ansioso para ver meus filhos e nunca poderia imaginar que a encontraria aqui e teria essa revelação.
Helena ajoelhou-se aos pés do marido suplicando:
- Perdoe-me, Renato, eu tinha muito medo de perder você.
Se eu o perdesse minha vida não mais teria sentido.
Renato pediu:
- Levante-se, eu a perdoo.
Mas você deverá realmente criar essas crianças como se fossem suas e nunca teremos filho algum.
Já bastam os três.
- Tudo bem, eu aceito.
Renato olhou para a mulher que cuidava de seus filhos e perguntou:
- Como é seu nome?
- Me chamo Celina e gostaria muito de lhe fazer um pedido.
Eu me afeiçoei muito a estas crianças e gostaria de ajudar a criá-las.
Sou viúva e sem filhos, pode me levar para sua casa?
Helena esperava ouvir um “não” do marido, mas ele a contrariou:
- Sim, você poderá ir.
Arrume suas coisas e nos siga.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 03, 2018 9:12 pm

Helena protestou:
- Não faça isso, Renato, essa mulher será um inferno em nossas vidas.
- É o mínimo que posso fazer depois do que ela fez, cuidando de meus filhos.
Helena calou-se temendo uma reacção intempestiva dele.
Depois daria um jeito naquela Celina.
Celina chamou as crianças que brincavam num campinho próximo e logo os três estavam contentes abraçando o pai.
Quando todos chegaram a casa, a reacção de minha esposa foi a pior possível.
Não tolerava a ideia de ter que viver com netos bastardos e uma lavadeira pobre do subúrbio.
Mas com o tempo as crianças a conquistaram e ela teve que aceitar o fato da nora ser uma assassina, não havendo alternativa a não ser tolerar aquela situação.
Aos poucos, as crianças foram se apegando em demasia à Helena, que os amou verdadeiramente como mãe, e eles como filhos.
Criaram laços que se perpetuariam pela eternidade.
Mas o remorso era grande.
Quase todos os dias lembrava-se de que havia tirado a vida da verdadeira mãe daqueles seres inocentes e aquele sentimento a atormentava.
As energias de culpa emanadas por ela acabaram por atrair o espírito da amante de Renato, que vagava pelo umbral, tomada de ódio.
A presença daquele espírito na casa mudou tudo.
Helena foi ficando triste, calada, e Renato, aos poucos, foi levado a procurar outras amantes para sentir alegria de viver.
Eu e minha esposa ficamos preocupados com o estado de nossa nora, procuramos médicos, mas eles não sabiam diagnosticar com precisão o que ela tinha.
Até que um dia, a criada contou-me que quem atormentava Helena era a babá das crianças, a viúva Celina que viera com eles.
Disse-me que Celina sempre acusava Helena, induzindo-a a sentimento de culpa, dizendo que um dia ela pagaria pelo crime de ter matado sua amiga.
Enraivecido, pensei numa forma de acabar com aquilo, mas tinha que ter cuidado, pois Renato gostava de Celina e lhe devia gratidão por ter cuidado de seus filhos quando a mãe deles morreu e ele estava em lua de mel.
Conversei com Celina que prometeu ceder, mas notei um brilho de malícia e falsidade em seu olhar.
Eu via dia a dia o casamento de meu filho desmoronar e até as crianças perderem a alegria.
Culpando Celina por tudo, resolvi que iria matá-la sem que ninguém percebesse.
Pedi a um ex-escravo que me era fiel, e ele me trouxe uma erva mortal, que matava sem deixar vestígios.
Com muita estratégia, misturei a erva à sua comida com ajuda de uma das cozinheiras e ela, assim que terminou a refeição, tombou morta.
Renato chamou o médico que diagnosticou um ataque do coração.
Celina foi enterrada com muita tristeza por meu filho, mas com o tempo e longe da influência perniciosa dela, Helena foi melhorando até que se curou de vez.
Todos nós vivemos muito felizes depois disso e morremos em idade avançada.
Contudo, quando chegamos do lado de cá, fomos aprisionados por espíritos de uma falange justiceira e vivemos os horrores do umbral.
Descobri que a melhora de Helena aconteceu porque um espírito trevoso, que se dizia justiceiro, aproximou-se da amante de Renato e de Celina convencendo-as a deixar a vingança de lado, pois logo poderiam chamar alguém para orar, evocar a Deus e elas seriam presas e afastadas do lar.
Convenceu as duas a dar um tempo e a esperar que todos desencarnassem para que aí pudessem me ter e ter Helena, tais quais escravos.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 03, 2018 9:12 pm

Foi aí que vivemos prisioneiros das duas por décadas.
O tempo passou e um dia, de tanto sofrer, chamamos pelo Criador.
Numa prece sincera e emocionada, pedimos perdão a Deus por tudo o que tínhamos feito e assim fomos resgatados.
A amante de Renato, Celina e todos nós estávamos reunidos um dia quando um mentor de alta hierarquia dissemos que precisaríamos reencarnar para apagar nossas culpas e resgatar o passado.
Tudo foi aceito por nós e programado.
Helena ainda cultivava a culpa e pediu para pagar por um crime que alguém cometesse, a fim de limpar sua consciência para sempre e conseguir a paz.
Eu também pedi para morrer de forma violenta para reparar em minha consciência pelo que fiz com Celina.
Os mentores disseram que havia outras formas de harmonizar o passado, através do bem e do amor, mas nosso remorso era tanto que não aceitamos.
Hoje sei que, se tivéssemos escolhido o caminho do amor, tudo seria mais fácil e esse drama na Terra não teria se repetido.
Precisamos aprender a perdoar a nós mesmos, porque é muito mais fácil perdoar ao semelhante, seja qual for o crime que ele tenha feito contra nós, do que perdoarmos a nós mesmos.
Aprendemos, ao longo das reencarnações, que podemos resgatar nossos erros sofrendo muito, expiando através de muita dor as nossas ignorâncias e falta de conhecimento do bem.
Mas esse não é o único caminho.
Deus é perdão e bondade, amor e compreensão.
Se quisermos mesmo, poderemos refazer todos os nossos erros com actos e sentimentos de bondade, espalhando o perfume do amor, da caridade, da generosidade e da gratidão.
Enquanto não aprendermos isso e não nos julgarmos merecedores da felicidade, não sairemos do círculo do sofrimento perfeitamente evitável.
Na verdade, ninguém perdoou nem a si nem ao próximo.
A amante reencarnou num corpo diferente, mas inconscientemente se vingou de Helena, tirando minha vida e fazendo com que ela pagasse pelo crime.
Celina guardou imenso ódio de Helena.
Eu também, com minhas atitudes terrenas, com meus pensamentos, com toda minha vida voltada para o lado material e sem me libertar da culpa pelo crime passado, atraí um assassinato e morri antes do tempo previsto.
Foi então que um dos presentes perguntou:
- E sua mulher? Por que morreu tão cedo?
- Minha esposa Eliete nunca foi feliz.
Desde a vida passada não desenvolveu a consciência, não se realizou como mulher e vivia para a sociedade.
No fundo, uma tristeza muito grande a acompanhava e ela renasceu assim.
Nesta vida continuou do mesmo jeito, cultivando preconceitos, sem realização interior, sem alegria, sem espiritualidade, e foram esses elementos que a levaram a ter a pneumonia grave que a levou em duas semanas quando Renato ainda era adolescente.
Hoje ainda prossegue em tratamento em outra colónia.
- E afinal, quem é esta amante hoje?
Quem tirou sua vida na Terra?
- Infelizmente, você ainda não deve saber.
Ester falou:
- Eu não fiz parte daquela reencarnação, mas nesta fui muito amiga de quem assassinou Bernardo.
De certa forma influenciei o crime.
Mas, graças a Deus, estou desfazendo esse laço.
O silêncio tomou conta do ambiente e minutos depois Bernardo sentenciou:
- Nunca se deve brincar com as leis divinas nem fazer mal ao semelhante.
Hoje aprendi isso e espero que todos um dia aprendam.
Vamos nos unir e mais uma vez fazer uma prece.
Todos começaram a orar fervorosamente.
As boas energias daquela prece atingiram os envolvidos e os deixaram com mais paz.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

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