Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 24, 2018 8:49 pm

Capítulo 8
Naquela noite, Vera Lúcia custou a dormir.
Pensava em Helena e em como estava bonita, apesar de tantos anos presa, pensava em como Renato seria feliz se pudesse voltar a conviver com ela e por fim pensava nos sobrinhos que teriam a mãe de volta e poderiam ser felizes de verdade.
Por mais que ela, Celina e Berenice tivessem dado a eles todo carinho possível, ela sabia que no fundo sentiam carência da mãe.
Como lhe doía o remorso por todos aqueles anos de saber a verdade e não ter dito.
Ficou horas rolando na cama e, quando finalmente dormiu, sonhou que estava andando por uma estrada lamacenta, e uma mulher de aspecto sujo e feio, com os cabelos desgrenhados, a alcançou, pegou em seu braço e disse:
- Que bom que pude encontrá-la hoje, Vera.
Quero aproveitar o encontro para lhe mostrar a casa que você vai morar depois que morrer.
Vera, ansiosa e com medo, tornou:
- Não quero ver, por favor, deixe-me sair daqui.
A estranha mulher pareceu não se importar com o que ela disse e continuou a puxá-la pelo braço:
- Está pertinho, basta andar alguns passos.
Elas andaram mais um pouco e pararam de frente a uma choupana onde se podia ver cobras de diversos tipos entrando e saindo pelas frestas, bem como outros insectos que Vera nunca havia visto na Terra e que possuíam aspectos monstruosos.
Ela gritou:
- Não! Jamais morarei aí!
Quero sair daqui agora.
A mulher ria sem parar e rodopiava em torno de Vera.
Ao sentir que ia desmaiar, sentiu que duas mãos masculinas a ampararam e em questão de segundos já estavam num pequeno jardim iluminado, sentados em um banco.
Vera abriu os olhos e chorou muito ao reconhecer à sua frente a figura do irmão.
Abraçou-o comovida:
- Meu irmão querido!
Como pode ter me perdoado por não ter contado a verdade desde o início?
Bernardo, com semblante amoroso, disse:
- Já perdoei você há muito tempo, minha irmã.
O que quero agora é que você conte a verdade sobre quem me tirou a vida na Terra.
Se você não fizer isso, quando desencarnar, seu remorso será tanto que só terá aquela casa por morada.
Vera estava desesperada:
- Você, mais do que ninguém sabe que, se eu fizer isso as consequências serão as piores possíveis.
- Sempre existe uma maneira das coisas se resolverem.
Acaso não acredita em Deus?
Ele tem o poder de fazer todo o mal se reverter em bem e, se tivermos fé, o sofrimento pode ser banido de nossas vidas.
- Deus? Você sabe que nunca fui dada à religião, vivo colada ao padre Honório como passatempo e que eu saiba você também nunca foi religioso.
Sempre se disse ateu.
O que deu em você para ter mudado agora?
- O facto de durante a vida não ter acreditado em Deus, na força da espiritualidade, no poder da prece, foram alguns factores que fizeram com que eu atraísse aquele assassinato para minha vida.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 24, 2018 8:49 pm

Estou há 20 anos no mundo espiritual e aqui aprendi muitas coisas, algumas delas é que toda pessoa que deseja ter uma vida melhor na Terra ou em qualquer lugar do universo precisa cultivar a espiritualidade, desenvolver o hábito da prece, praticar o bem e procurar amar a si mesmo, a tudo e a todos sem distinção.
Quando cheguei aqui assassinado fiquei perdido pelo umbral por mais de 5 anos, revoltado e querendo vingança.
Eu não sabia que a única coisa que pode libertar o ser humano das amarras do sofrimento é o perdão.
Só quando vi que era inútil viver como eu estava foi que me lembrei de Deus e pedi sua ajuda.
Fui levado a uma colónia de luz e lá recebi tratamento, mas continuava me sentindo injustiçado pelo que tinha acontecido.
Quando fui me recuperando passei a fazer cursos para entender como a vida funciona e descobri que ninguém é vítima de nada.
Tudo que nos acontece é o resultado das nossas acções e pensamentos.
Vera Lúcia olhava-o intrigada:
- Mas você foi um homem muito bom enquanto vivo, embora tivesse suas desavenças com Helena, nunca lhe fez mal maior, por isso não merecia uma morte daquelas.
- Você fala que fui bom enquanto vivi, mas você está vendo apenas a última vida que tive.
E antes? Será que fui bom nas vidas anteriores?
Se o mal me atingiu foi porque eu certamente fiz o mal em vidas passadas e trazia pesados compromissos na consciência.
Foi pela necessidade de harmonizá-los que atraí o assassinato.
Vera perguntou:
- Quer dizer, então, que o assassino teve razão em matá-lo?
- O assassino foi um instrumento das Leis Divinas para que a justiça fosse feita, embora ele tivesse livre-arbítrio e pudesse ter escolhido não cometer esse crime.
Mas já que o fez, a lei de justiça aproveitou sua tendência ao crime para fazer com que eu me livrasse da culpa que carregava.
- E Helena?
Por que foi presa inocente?
- Esse é outro assunto que conversarei com você em outra oportunidade.
Vera ia fazer outra pergunta quando Bernardo levantou-se do banco, abraçou-a e tornou:
- Vamos voltar.
Em pouco tempo estavam no quarto dela.
Bernardo colocou Vera de volta ao corpo que, sobressaltada, acordou.
- Que sonho estranho tive!
Sonhei que o Bernardo me salvava de um lugar sinistro, lamacento...
Ela tentava em vão se lembrar do sonho em sua totalidade, mas não conseguia.
Só podia se lembrar que o irmão dissera que a havia perdoado por não ter revelado a identidade do assassino.
Doce harmonia penetrou em seu coração, mas o resquício de culpa que ainda mantinha na alma a fez, pela primeira vez, recorrer à prece para que Deus pudesse ajudá-la.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 24, 2018 8:49 pm

Capítulo 9
De acordo com o combinado com Dr. Américo, Leonora chegou à casa de Helena pontualmente às 16h.
Como ela ainda não tinha empregados, foi pessoalmente receber a moça no portão, e de imediato sentiu grande simpatia por ela.
Leonora era jovem, negra, com os cabelos encaracolados presos por gracioso laço de fita.
Vestia-se com um vestido simples de algodão com motivos floridos e trazia nos pés uma sandália de couro igualmente simples.
Após os cumprimentos, Helena pediu que ela entrasse.
Depois que se acomodaram no sofá, Leonora começou:
- Vim por recomendação do Dr. Américo.
Minha irmã Áurea trabalha na casa dele há mais de 20 anos.
No interior, eu cuidava de minha mãe que estava muito doente, mas ela morreu e eu decidi vir para São Paulo procurar trabalho.
- Você não tem mais irmãos em sua terra natal? - perguntou Helena, gostando da forma simples e sincera com que a moça se expressava.
- Sim, tenho mais duas irmãs e um irmão, mas vivem em dificuldades financeiras, não queria ser mais um peso para eles.
Gosto de trabalhar, valorizo muito uma ocupação onde possa ganhar dignamente meu dinheiro.
Antes de mamãe adoecer eu trabalhava na função de doméstica, mas não pude continuar.
Devido à doença dela e ao facto de ser a única solteira da família, me coube cuidá-la.
- Você fez certo.
É um dever sagrado cuidar de nossos pais tanto na velhice quanto na doença.
- Sim, concordo, mas, mais que um dever, é uma oportunidade de retribuir todo amor, carinho e dedicação que eles tiveram connosco durante tantos anos.
Helena percebia que estava falando com uma pessoa diferente.
Aquela moça, apesar de bastante jovem, possuía sabedoria, olhar firme, penetrante, era muito segura ao se expressar e transmitia muita confiança.
- Leonora, eu quero que você me ajude a cuidar desta casa e cozinhe para nós duas.
Acha que sozinha tem condições de fazer a limpeza e cozinhar?
- Pelo que estou vendo é uma casa grande, mas não tão grande a ponto da senhora contratar mais pessoas.
Posso fazer o almoço durante a manhã, à tarde cuido da limpeza e no final do dia faço o jantar.
Sei que sou capaz de dar conta de todo esse serviço sozinha.
- Muito bem, está contratada.
Você sabe que deverá dormir no serviço?
- Sei sim e agradeço muito.
Gostava da casa do Dr. Américo, mas lá me sentia inútil, embora ajudasse muito minha irmã, mas sabe como é casa de rico, tem empregado para tudo.
Gostei dessa casa e...
De repente, Leonora parou de falar e seu rosto foi atraído pela figura de Cristina que, encostada no mesmo canto de sempre, observava as duas conversando.
Leonora sentiu energia negativa muito grande vindo daquele espírito, mas não se deixou abalar.
Em segundos, elevou o pensamento ao alto e pediu protecção.
Logo estava se sentindo bem, tanto que Helena não notou:
- Como estava dizendo, gostei muito desta casa, mas acho que a senhora deveria cuidar do jardim e deixá-lo muito verde e florido.
A natureza ajuda a vivermos melhor.
Helena perguntou curiosa:
- Você segue alguma religião? Desde que entrou senti uma sensação muito boa que não sei explicar.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 24, 2018 8:50 pm

- Sou espírita há muitos anos.
- Espírita?
- Sim. É uma doutrina que fala de reencarnação, vida após a morte, mediunidade, dentre outras coisas.
- Conheço muito pouco.
Antes de ser presa, tinha algumas amigas que seguiam esta religião, mas depois do que me aconteceu sumiram.
Elas iam a terreiros e faziam despachos.
- Desculpe-me, dona Helena, mas isso não é Espiritismo.
- Não? Mas elas diziam que era.
- A ignorância existe ainda sobre este aspecto.
Há várias religiões que, a depender do carácter dos médiuns, fazem trabalhos de magia, dentre elas a Umbanda e o Candomblé, embora essas duas religiões não tenham por objectivo apenas esses trabalhos, mas, ainda assim, não têm nada a ver com o Espiritismo.
- Você deu um nó na minha cabeça.
Leonora riu:
- É comum isso acontecer com quem não conhece a Doutrina Espírita.
Mas posso garantir que no Espiritismo não há trabalhos de magia, despachos, leituras de cartas, jogos de búzios, nem trabalho algum de adivinhação.
Mas outra hora eu explico isso melhor.
A senhora me disse que foi presa.
O que aconteceu?
Os olhos de Helena brilharam emotivos.
Sentia tanta confiança em Leonora, embora a tivesse conhecido há menos de uma hora, que resolveu abrir toda a sua vida.
Contou como conhecera Renato, falou acerca do casamento, da chegada dos filhos e da morte do Dr. Bernardo, a causa de sua infelicidade.
Narrou tudo o que lhe havia acontecido na prisão e até falou de Ester, a mulher misteriosa que prometera lhe ajudar.
Ao final estava chorando muito, principalmente com saudade de Andressa e de Fábio.
- É muito difícil para uma mãe passar por tudo o que passei, mas tenho um plano e com certeza voltarei a conviver com eles.
Como Leonora ouvia com muita atenção, Helena foi contando tudo o que Ester havia lhe proposto e finalizou:
- Não acha uma ideia genial?
- Muito! Acredito mesmo que seja a única maneira da senhora conviver com seus filhos e reconquistar o amor de seu marido até que o assassino seja descoberto.
- Sabe, Leonora, eu não consigo entender por que tudo isso me aconteceu.
Nunca fiz mal a ninguém, estava tão feliz com minha família, com meu casamento...
Sei que vocês espíritas acreditam na reencarnação.
Será que existe uma explicação para tudo que passei?
- Sempre há explicação para tudo neste mundo.
As Leis de Deus nunca erram.
Se a senhora passou por tudo isso sem nunca ter feito mal a ninguém nesta vida, a causa está em outra.
A senhora pode ter cometido um crime em sua vida passada que ficou impune, e outra pessoa inocente pagou em seu lugar, agora recebeu o resultado de sua acção.
- Mas isso é muito injusto - disse Helena revoltada.
Se eu fiz o mal não me lembro mais.
É justo ser cobrada por uma coisa que a gente não se lembra?
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 24, 2018 8:50 pm

- A justiça divina é perfeita.
A senhora pode ter esquecido, mas o crime ficou em sua consciência pedindo reajuste.
Seu espírito só voltaria a se sentir bem depois que tivesse resgatado seu erro.
E também há outra coisa que devemos considerar.
O resgate de um erro do passado não é apenas para que possamos pagar pelo que fizemos.
O resgate visa principalmente ao aprendizado e à evolução na vida presente.
Tenho certeza que a senhora aprendeu muitas coisas nesses anos em que ficou presa e longe de sua família.
Posso garantir que hoje é uma nova pessoa.
Helena, por cerca de um minuto, meditou profundamente no que Leonora dissera e percebeu que ela falava a verdade.
Ela desenvolvera a paciência, a resignação, conhecera histórias de pessoas que haviam sofrido muito mais que ela e aprendera a valorizar muito mais a família.
Seria essa a lição que a vida queria lhe ensinar?
- Realmente aprendi muitas coisas, mas será que só sofrendo é que aprendemos a evoluir?
- Não, senhora.
Antes que a dor chegue, a vida coloca em nosso caminho muitas oportunidades de aprendizado pelo amor.
Tenho certeza que em sua vida não foi diferente.
Se a senhora tivesse aprendido antes a lição que precisava aprender, tenho certeza que Deus a teria poupado desse sofrimento.
- Então, tudo só depende de nós?
- Sim, nossa vida está em nossas mãos.
Por isso, devemos procurar aprender com todos os sinais que Deus nos manda todos os dias.
Uma frase bonita que ouvimos, uma história tocante de alguém que errou e se arrependeu, as leituras evangélicas em que é ensinado o amor, o perdão, a paciência, um livro interessante que nos toca a alma, uma palestra edificante, tudo isso é Deus nos chamando para evoluir pelo amor.
Muitos seguem o que escutam e lêem e por isso são poupados de muitos sofrimentos.
- Quero conhecer o Espiritismo, você me ajuda?
- Tenho alguns livros que ajudarão muito a senhora, lhe farão muito bem.
A conversa seguiu animada por mais alguns minutos até que Leonora despediu-se para voltar mais tarde com sua bagagem.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 25, 2018 9:01 pm

Capítulo 10
Quando Leonora voltou, Helena a ajudou a armar suas roupas e seus outros pertences no quarto, depois foram para a cozinha e, enquanto da uma deliciosa sopa, Helena perguntava sobre o Espiritismo, ao que a moça respondia com alegria e muita sabedoria.
Era tarde quando se recolheram.
Helena dormiu rápido e sonhou.
Estava numa sala de uma casa pobre e sem nenhum adorno, esperando ansiosamente por alguém.
De repente uma moça jovem e bonita, vestida modestamente, surgiu de um pequeno corredor e, olhando para ela, assustou-se:
- Senhorita Helena? O que deseja aqui?
- Vim dizer que você extrapolou todos os limites.
Não terei mais paciência com você.
Você sabe que amo Renato e que ele me ama.
Por que teima em atrapalhar nossa relação?
A outra, refeita do susto, então a olhava com altivez:
- Mas eu o amo mais que você e mais do que qualquer pessoa neste mundo.
Pensa que só porque sou pobre e fui empregada da família dele, irei me conformar em perdê-lo?
Lutarei até o fim, vocês nunca serão felizes juntos.
Pensa que a felicidade foi feita só para você?
E meus três filhos que tenho com Renato?
Viverão para sempre à margem da sociedade?
Farei o maior escândalo no dia de seu casamento e impedirei que se unam.
Helena estava impaciente e com raiva.
Amava Renato, estava prometida a ele desde criança.
Por que Renato fora se envolver com aquela criadinha e ainda teve três filhos com ela?
Se a sua criada Berenice não a tivesse avisado, aquela mulherzinha infeliz iria impedir seu casamento.
Mas isso ela não iria permitir.
Olhou para a rival e disse:
- Estou lhe dando a última chance.
Trouxe comigo esse saco de ouro que te permitirá ir embora daqui para sempre e criar seus filhos com conforto para o resto da vida.
Aceite e me deixe ser feliz.
A outra desdenhou:
- Meus filhos têm pai, mas ele os abandonou à própria sorte desde que noivou com você.
Não quero seu dinheiro sujo.
Quero reparação do que Renato me fez, quero que ele assuma os filhos e a mim.
Helena gargalhou maldosamente:
- E você acha que o senhor Bernardo vai permitir que ele se case com uma criada pobre e miserável feito você?
Faz-me rir.
Muito menos vai deixar que o filho assuma filhos bastardos, gerado em relações imorais.
A outra a desafiou:
- Quer pagar para ver?
- Não, realmente não quero.
Por isso, seu fim chegou.
Rapidamente, Helena sacou uma arma que trazia por baixo do manto negro e deu três tiros na jovem que tombou morta na hora.
Cobriu-se com um capuz ainda a tempo de ver três crianças chegarem à sala chorando e chamando a mãe que não respondia.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 25, 2018 9:02 pm

Escondida no escuro da noite, Helena foi se esgueirando até que saiu do bairro pobre e foi andando nervosa até que entrou num palacete.
Foi à ala dos empregados e bateu em uma das portas.
Leonora atendeu:
- O que aconteceu, senhora?
- Leonora, você é minha única amiga.
Estou desesperada.
Acabei de cometer um crime.
A criada assustou-se:
- Crime? Logo a senhora que é a pessoa mais bondosa que conheço?
- Não sou tão bondosa assim, Leonora.
Acabei de matar uma pessoa.
Leonora ouviu tudo que a sua senhora contava e se horrorizou.
Ao final disse:
- A senhora precisa confessar o que fez.
É a única maneira de ser perdoada.
- Não posso, não tenho coragem.
Posso perder Renato.
- É melhor perdê-lo do que macular sua alma e ter que um dia voltar para pagar seu erro.
- Você acredita mesmo que as almas voltam para viver de novo na Terra?
- Acredito e se a senhora não pagar pelo seu crime agora, certamente pagará em outra vida, de maneira muito pior.
Helena pensou um pouco e disse:
- Não posso arriscar perder o homem que amo.
- Então, senhora, só tenho a lamentar e orar pela sua alma.
Mas uma coisa a senhora terá que fazer.
Deverá voltar lá e buscar aquelas crianças e criá-las como se fossem seus filhos.
- E por que faria isso?
- Para começar a se redimir do mal que fez.
Se não fizer isso nunca será feliz com Renato.
Helena sentiu um arrepio.
Não sabia por que, mas sentia que o que Leonora dizia era verdade.
- Mas como fazer para voltar lá?
Vão suspeitar de mim.
- Não sei como a senhora fará isso, mas encontre uma maneira.
A senhora deve isso a eles.
Helena abraçou a criada e foi para seu quarto luxuoso, mas não conseguiu dormir.
Helena sentiu o coração disparar e acordou gritando assustada.
Acendeu a luz do abajur, levantou-se da cama e foi bater no quarto de Leonora que acordou igualmente assustada.
- O que aconteceu, senhora?
- Tive o sonho mais real de minha vida.
Tenho certeza que sonhei com minha reencarnação passada.
- Não estará influenciada por tudo o que conversamos
- Não, não estou.
Foi tão real que já sei por que fui presa nesta vida.
Eu fui uma assassina na vida passada.
Matei uma jovem que tinha caso com Renato.
Eu era a noiva dele e ela ameaçava não deixar meu casamento acontecer.
Ela tinha três filhos com ele.
- E quem foi a jovem que a senhora matou?
- Você não vai acreditar.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 25, 2018 9:02 pm

Mudou de corpo com a reencarnação, mas com certeza foi...
Helena contou quem ela havia matado e Leonora ficou estarrecida.
Teria sido essa pessoa que, agora, num novo corpo, havia matado Bernardo para incriminar Helena?
Mas era muito improvável.
Helena disse nervosa:
- Se foi essa pessoa quem hoje matou o senhor Bernardo eu não quero mais me vingar, vou deixar que viva sua vida livre e feliz.
Colocarei meu plano em prática, mas não mais entregarei ninguém à polícia.
Leonora ponderou:
- Mesmo que a senhora tenha tido essa revelação, deve entregar a pessoa à polícia sim.
O que essa pessoa deveria ter feito hoje é tê-la perdoado pelo mal causado.
As Leis Divinas encontrariam uma maneira da senhora reajustar seu crime perante elas sem a necessidade de que alguém matasse para incriminá-la.
Essa pessoa precisa aprender a respeitar a vida e a perdoar.
- Não sei o que farei, estou confusa.
- Vamos orar e pedir a Deus que nos ajude e conforte.
Quando estamos indecisos com algo, o melhor a fazer é ficarmos quietos.
Na hora melhor, o caminho se abre e sabemos qual decisão tomar.
Helena abraçou-se a Leonora e chorou sentidamente.
Quando estava mais calma, após ter tomado delicioso chá de cidreira que Leonora preparara, foi se deitar.
Rapidamente adormeceu, dessa vez sem sonhos.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 25, 2018 9:02 pm

Capítulo 11
Celina estava sentada no sofá da sala, extremamente pálida.
Aquilo não podia estar acontecendo.
Para se certificar de que não estava sendo vítima de uma ilusão, abriu novamente a carta que tinha nas mãos e releu:
“Querida Celina,
O motivo desta carta é muito simples de explicar.
Depois de vinte anos presa, sem nenhum recurso que me ajudasse a ter saído mais cedo, finalmente volto à vida e exijo também voltar a conviver com meus filhos.
Sei que essa minha ideia deve desagradá-la, como a todos desta casa, mas não vou desistir.
Quero que você, Renato, Vera Lúcia, Berenice, Duílio, Osvaldo, Letícia, Bruno e Morgana compareçam à minha casa hoje à noite para um jantar especial.
Quero que todos compareçam, não aceito recusas.
Devo revelar que já sei quem é o assassino do Dr. Bernardo.
Estou chamando vocês a esse jantar para um acordo.
Caso não venham ou não aceitem o que eu determinar, revelarei o verdadeiro assassino à polícia, pois tenho provas.
Estejam todos em minha nova casa pontualmente às 21h.
Segue abaixo o endereço.
Abraços
Helena”
Celina ficou rubra com a leitura da carta.
Como aquela mulherzinha ousava desafiá-los daquela maneira?
Pretendia embolar a carta em suas mãos quando pensou melhor.
E se ela realmente tivesse descoberto o assassino?
Se o revelasse à polícia?
Tudo naquela casa mudaria e ela voltaria a reinar absoluta.
Aquilo não poderia acontecer.
Não depois de todo esforço que todos ali fizeram para mantê-la presa durante aqueles anos.
Teriam que entrar em acordo com aquela mulher, mas como?
Quando decidiu ir ao escritório mostrar a carta a Renato, viu Vera Lúcia descendo as escadas.
- Venha cá, rápido.
Olhe só o que sua amiguinha está querendo fazer.
Vera pegou a carta e leu.
Seus olhos mostraram um misto de preocupação e alegria ao mesmo tempo:
- Fico muito feliz que Helena tenha descoberto a verdade.
Agora tudo ficará esclarecido e ela poderá viver ao lado dos meninos e de Renato.
- Como ousa dizer isso?
Enlouqueceu de vez?
Helena nesta casa nunca mais.
É isso que ela está querendo, tentar um acordo para voltar a viver aqui.
Vera Lúcia ponderou:
- Mas você não vê que é o melhor que pode acontecer?
Eu jamais acreditei que Helena tivesse tirado a vida de meu irmão.
Torço para que a justiça seja feita, e o assassino seja descoberto e pague pelo seu crime, a não ser que tenha sido você.
Celina bradou:
- Como ousa insinuar que eu tenha matado meu próprio irmão?
- Sei o que estou dizendo, pode ser mesmo você.
Quem sabe você pensou que se Helena fosse presa você teria a liberdade para realizar seu sonho asqueroso?
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 25, 2018 9:02 pm

- Eu posso ter esse sonho asqueroso, como você costuma chamar, mas jamais mataria meu irmão para realizá-lo.
Sou incapaz de matar. Já você...
- Que tem eu?
- Sempre se portando de boazinha, de compreensiva, de amiguinha de Helena...
Não será remorso porque você mesma foi a assassina e ela pagou pelo seu crime?
Vera Lúcia riu:
- Só você mesmo para imaginar uma coisa dessas.
Não tenho nenhum motivo para ter matado Bernardo, ao contrário, sua morte me chocou muito, pois muito o amava e, por ter a certeza que não foi Helena, estou torcendo para que o culpado apareça e seja punido.
Nem que esse culpado seja você.
Celina resolveu se calar.
O que havia dito fora um disparate.
Vera realmente não tinha motivos para matar o irmão.
Era boa demais para cometer um ato daqueles sem motivo algum.
Mas o assassino não poderia aparecer.
Aquilo frustraria todos os seus planos.
Olhou para a irmã dizendo:
- Acompanhe-me até o escritório de Renato.
Ele vai saber o conteúdo desta carta e decidir o que fazer.
Foram até lá, bateram e entraram.
Como sempre, naquele horário, Renato estava ouvindo as músicas que marcaram seu tempo de casado com Helena.
Quando as tias entraram, desligou rapidamente o aparelho e perguntou:
- Aconteceu algum problema com as crianças?
- Não, as crianças estão bem.
O problema é este.
Celina passou a carta para as mãos do sobrinho que leu e à medida que se inteirava do conteúdo empalidecia.
Renato tinha medo daquele reencontro.
Temia não conseguir conter seus impulsos, tomar Helena nos braços e dizer que a amava, como sempre.
Mas, pelo que ele via, era irreversível aquele instante.
- Vocês querem uma solução?
Pois eu dou.
Vamos todos a esse jantar.
- Mas não vê que ela está nos chantageando? - gritou Celina de forma histérica.
O que essa mulherzinha quer é nos atormentar, tirar nossa paz, principalmente a sua.
Nunca gostei dela, desde que a vi pela primeira vez.
Sabia que traria desgraça para nossa família, como realmente aconteceu.
Por fingir que gostava dela e tê-la apoiado, contribuí para que o mal entrasse em nossas vidas.
- Acalme-se, tia - disse Renato tentando conter o nervosismo.
Precisamos ir lá.
E se ela não estiver blefando?
Se estiver dizendo a verdade quando fala que descobriu o assassino?
Não será pior para nós?
Vera Lúcia interveio:
- Eu não acho pior, meu sobrinho.
Acho que esse crime deve logo ser desvendado para o bem de todos.
- Você não sabe o que diz, Vera - tornou Celina, indignada.
Como vamos dizer aos nossos sobrinhos que mentimos para eles a vida inteira dizendo que a mãe morreu?
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 25, 2018 9:02 pm

Como justificar aquele retrato pintado a óleo, única imagem que sobrou da mãe deles e que eles veneram como se fosse uma santa?
Depois ela diz na carta que o assassino é um de nós, um dos membros da família.
Se esse criminoso for descoberto, será nosso fim.
Renato começou a andar de um lado a outro do escritório, passando as mãos pelos cabelos num gesto nervoso:
- Por isso digo que é melhor ir e ver o que ela quer.
Celina estava desesperada:
- Essa mulher é perigosa, ela quer destruir nossa paz, destruir a vida dos próprios filhos que são adolescentes de bem com a vida, resolvidos.
- Mas eles vivem numa mentira, minha irmã - tornou Vera Lúcia, encostando-se na irmã e alisando seu braço com carinho.
Nossos sobrinhos estão bem, mas ninguém pode estar realmente bem convivendo com a mentira.
Tenho tanta pena deles...
Também tenho pena de você, Renato, que passou vinte anos na solidão, chorando a saudade da mulher que ama.
Não estará na hora de ser feliz?
Celina se calou com ódio da irmã.
Renato disse nervoso:
- Eu não posso amar essa mulher nem ser feliz com ela.
Vou me casar com Letícia, todos aqui sabem disso.
- Nem Letícia mais acredita nisso.
Você é frio e indiferente com ela.
Já a conhecia antes de conhecer Helena, deixou-a para se casar com ela e mesmo depois de vinte anos, após terem marcado e remarcado a data, esse casamento nunca aconteceu.
Pare de se enganar, meu sobrinho.
É Helena quem você ama de verdade.
- Cale-se, tia Vera!
Vamos chamar Berenice e Osvaldo, comunicar-lhes do jantar, pedir que se preparem e que avisem a Duílio.
Eu mesmo ligarei para o Bruno e pedirei que ele avise a Morgana e a Letícia.
Iremos entrar em acordo com ela, um dia isso teria que acontecer.
Ao ouvir aquilo Celina soltou um grito histérico e saiu correndo, batendo a porta do escritório.
Ao ficar sozinha com o sobrinho, Vera disse:
- É melhor que se acerte com Helena, traga-a para esta casa e tente conviver bem com ela.
Esqueça esse assassino.
- A senhora não vai mesmo me dizer quem é?
- Não posso! - tornou Vera Lúcia trémula.
Já lhe disse que eu e seu filho corremos perigo de vida caso eu revele sua identidade.
Renato esmurrou a mesa:
- Mas quem é esse ser tão poderoso, detentor da vida de dois seres humanos?
Vamos entregá-lo à polícia que o deterá e tudo ficará resolvido.
- Não podemos.
Eu posso até arriscar minha vida, mas não posso de jeito algum pôr a vida de Fábio em risco.
Meu Deus, para que fui presenciar aquela cena? - Vera sentou-se e começou a chorar sentidamente.
Renato, vendo que a tia estava realmente angustiada e com medo, disse:
- Acalme-se, tia Vera, a senhora não pode ficar nervosa.
Para que fui dizer isso?
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 25, 2018 9:03 pm

Vera continuava a chorar dizendo entre soluços:
- Deus é testemunha que o que mais desejo é dizer a verdade, desde que Helena foi presa e nada pude fazer para salvar uma inocente.
Não ligo mais para minha vida, estou velha, posso morrer que não farei falta, mas não posso expor a vida de meu sobrinho, tão lindo, tão jovem, com toda uma vida pela frente.
- Compreendo, tia, e posso avaliar sua angústia.
Mas infelizmente não posso fazer o que me pede.
Colocar Helena aqui novamente será um transtorno.
Não viu como Celina saiu daqui?
O que direi a meus filhos?
O que direi para Letícia?
- Para tudo há uma solução.
Só quero que você ajude Helena a recuperar a convivência com os filhos, recuperar o seu amor.
- Não quero falar sobre isso agora.
Faça-me o favor de chamar a Berenice aqui, quero conversar com ela.
Vera Lúcia, mais calma, saiu e em poucos minutos Berenice entrou.
Quando ouviu todo o conteúdo da carta lido por Renato, concordou imediatamente em ir ao jantar com o marido, só restava ligar para o filho Duílio.
Mas a aparente calma demonstrada no escritório acabou completamente assim que ela saiu de lá e entrou na cozinha.
As cozinheiras não perceberam seu nervosismo.
Ela tomou um copo com água e foi ao jardim ligar para o filho.
Quando Duílio atendeu o celular ela disse:
- Meu filho, o pior aconteceu!
- O que foi, mãe? Assim me assusta.
- Helena está convocando todos nós para um jantar na casa dela.
Mandou uma carta para Celina dizendo saber quem é o assassino, e se não fizermos um acordo com ela o entregará à polícia, pois possui provas.
Duílio ficou calado durante alguns segundos, demonstrando nervosismo com a notícia.
Logo se recompôs e disse:
- Não acredito que essa mulher tenha descoberto nada. Está blefando.
- Você quer pagar para ver? - disse Berenice nervosa.
- Não, não quero.
Mas eu não sou assassino, nunca matei ninguém e a senhora sabe muito bem disso.
- Não tenho tanta certeza.
Conheço-o, meu filho, e sei que sempre foi ambicioso.
O Dr. Bernardo impedia seu crescimento na empresa.
Com sua morte você ficou rico.
Tinha tudo para matá-lo.
Duílio, irritado e ofendido, revidou:
- Nunca matei ninguém, mas pelo seu nervosismo pode perfeitamente ter sido a senhora ou papai para ter me favorecido na empresa.
Berenice irritou-se:
- Como tem coragem de dizer que sua mãe seja uma assassina?
Perdeu o respeito?
- Não a estou desrespeitando ou ao papai, mas isso pode ter acontecido e não a condenarei.
- Mas não fui eu nem seu pai quem matou o Dr. Bernardo, e vamos encerrar esse assunto.
Esteja na casa dela às 20h em ponto e, por favor, não leve Pamela nem Zelí, a mãe dela.
Não foram convidadas.
- Você não gosta mesmo de minha mulher, não é?
- Não, adoro sua mulher.
Quem não suporto nem um pouco é Zelí, sua sogra.
Coitada de Pamela, não merece a mãe que tem.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 25, 2018 9:03 pm

- Tudo bem, estarei lá na hora certa, não tenho o que temer.
Passe-me o endereço.
Duílio chegou a seu luxuoso apartamento muito nervoso.
Zelí e Pamela estavam entretidas na sala assistindo a um programa de TV, mas Zelí não deixou de notar:
- Seu marido passou pela sala e nem nos deu boa noite.
O que será que aconteceu?
Terá brigado com a amante?
Pamela irritou-se:
- Por que a senhora sempre tem que me pôr para baixo?
- Não quero colocá-la para baixo, mas todo homem casado tem uma amante.
Por que só o seu não haveria de ter?
- Não compare meu marido ao papai que vivia lhe traindo e a senhora sempre fazendo escândalos.
Duílio é fiel e há muitos homens fiéis nesse mundo.
Zelí soltou sonora gargalhada:
- Como é ingénua, nem parece minha filha.
- Não pareço e nem quero parecer.
Vou ao quarto ver o que meu marido tem.
Zelí deu de ombros, levantou-se e foi se olhar no grande espelho da sala em formato esferográfico.
Era uma senhora de mais de cinquenta anos, morena, de pele muito bem cuidada, de forma a não parecer ter aquela idade.
Cabelos cortados muito curtos, “na ponta da orelha” como ela costumava dizer, possuía olhos negros, cínicos e indagadores.
A única coisa que revelava um pouco sua idade era o corpo um tanto fora de forma.
Zelí vivia com a filha e Duílio desde que o marido finalmente e após muito apanhar, resolveu ir embora para sempre de São Paulo.
Fazia quatro anos que ela se instalara no apartamento tirando muito a privacidade do casal.
Fazia confusão com os vizinhos, reclamava de tudo, metia-se em confusões na portaria, caluniava a vida alheia e estava, naquele momento, respondendo a dois processos.
De súbito, percebeu que estava perdendo tempo mirando-se no espelho e correu para a porta do quarto da filha, colocando fixamente o ouvido na fechadura para ouvir o que diziam.
No quarto Duílio tirou a camisa e a calça, enquanto Pamela massageava suas costas.
- Até quando a sombra desse crime vai rondar nossas vidas?
- Não sei - tornou ele, em tom grave.
Nunca matei uma mosca, mas podem querer me incriminar.
- Principalmente porque você...
Pamela ia falar algo comprometedor quando Duílio tapou sua boca rapidamente:
- Não fale nada agora.
Com certeza sua mãe está com o ouvido atrás da porta ouvindo tudo.
Termine essa massagem, pois quero estar muito relaxado.
Não sei o que ouvirei neste jantar.
Pamela prosseguiu tentando relaxar o marido, enquanto Zelí, que nada de concreto conseguira escutar, irritada, voltou para a sala onde continuou assistindo a seu programa predilecto.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 25, 2018 9:03 pm

Capítulo 12
O clima na casa de Bruno não era diferente do clima existente na casa de Duílio.
Sua esposa Morgana, excessivamente arrumada, esperava a filha Letícia que ainda estava no quarto, para seguirem para casa de Helena.
- Você acha realmente que ela descobriu a verdade?
Estou com medo, não quero que minha filha seja presa.
Não poderei suportar ver minha menina atrás das grades de uma prisão - exasperou-se Morgana, torcendo as mãos cheias de anéis.
- Se alguém ouve você dizer isso, vai achar que foi nossa filha quem matou o Dr. Bernardo, e nós sabemos que não foi - ponderou Bruno.
- Eu sei, mas naquela noite aconteceu aquele facto que pode incriminá-la.
Se Helena descobriu, nossa filha está perdida.
Bruno sentiu seu nervosismo aumentar.
Era verdade.
Letícia podia ser incriminada por algo que havia acontecido vinte anos antes e que poderia colocá-la como principal suspeita, caso fosse descoberto.
A conversa foi interrompida pela chegada de Letícia que apareceu na sala.
Pelo rosto, os pais notaram que ela estava igualmente nervosa e preocupada.
Letícia havia sido noiva de Renato na juventude, mas ele terminara o noivado para se casar com Helena.
Ela sentiu muito ódio e, num gesto tresloucado, quase fez uma grande bobagem que, se fosse hoje descoberta, a colocaria como uma das principais suspeitas do crime.
- Melhor abrir mais esse rosto.
Está visivelmente preocupada, e caso Helena tenha descoberto seu segredo, terá que fingir ao máximo para tentar enganá-la.
Com essa cara mostra logo que tem culpa no cartório - disse Morgana, preocupada.
- Não consigo.
Se ela descobriu mesmo o assassino, estamos todos perdidos, principalmente eu.
- Mas nós não fizemos nada.
- Mas podemos ser acusados de cúmplices.
E depois, não sei até que ponto posso confiar na inocência de vocês.
Você, papai, vivia sonhando com a morte do seu sócio para poder comandar com mais liberdade a empresa e mamãe o estimulava muito.
Lembro-me das várias vezes que ela o estimulou a matá-lo.
Morgana ruborizou:
- Não repita isso nem em pensamento!
Quer nos colocar numa situação sem saída?
Depois, nós é que não podemos confiar em sua total inocência.
Você nos afirmou que não fez nada do que pensava fazer, mas com o ódio mortal que tinha por Helena, pode ter cometido o crime só para vê-la longe de Renato.
Letícia começou a chorar dizendo:
- Como podem duvidar de mim?
Sou inocente!
Vocês sabem que não seria capaz de matar ninguém.
- Sei como são as mulheres quando feridas no orgulho.
São capazes de tudo.
Como Letícia não parava de chorar, borrando toda a maquiagem, Bruno irritou-se ainda mais:
- Agora mais essa.
Uma mulherona de quase quarenta anos que não passa de uma criança mimada.
Faça-me o favor de parar de chorar, lave esse rosto e retoque sua maquiagem em menos de cinco minutos.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 25, 2018 9:03 pm

Não podemos e nem quero chegar atrasado a esse maldito jantar.
O tom áspero e imperativo do pai fez com que Letícia levantasse e se dirigisse ao toalete.
Enquanto lavava o rosto e retocava a maquiagem, admirava sua face que ainda era bela, apesar da idade.
Era uma mulher branca, alta e magra.
Na adolescência, pensou em seguir carreira de modelo, mas o noivado com Renato a fez desistir do sonho.
Amava-o muito e o sonho de ser sua mulher, dona de seu lar, mãe de seus filhos era maior do que qualquer carreira.
Mas seu sonho frustrado a fazia sofrer desde então.
Cinco anos após a prisão de Helena, Renato a procurou, querendo retomar a relação.
A felicidade tomou conta de seu coração e ela viu a oportunidade de voltar a ser feliz e realizar tudo que sempre sonhou.
Mas aquele sonho parecia ficar a cada dia mais distante.
Renato e ela voltaram a se encontrar, amaram-se inúmeras vezes, mas ele nunca levara adiante a ideia de casar novamente.
Pouco a pouco, Letícia descobriu que Renato continuava a amar a esposa.
Mas seu amor falou mais alto e, mesmo sabendo ser preterida, ela continuava com seus encontros, sujeitando-se a fazer o que ele queria.
Não havia se envolvido com mais ninguém e dedicava-se inteiramente a ele.
Mas a saída de Helena da prisão a deixou temerosa.
E se Renato a perdoasse e voltasse para ela?
Aquele pensamento dava-lhe náuseas e ela jurou para si que tudo faria para que eles não ficassem juntos outra vez, ainda que fosse preciso matar.
Acabou de retocar a maquiagem e voltou para a sala onde os pais já a esperavam com ansiedade.
Entraram no carro e partiram.
Após Helena ter mandado a carta para Celina, ansiedade grande tomou conta de seu ser.
Estava seguindo a sugestão da misteriosa mulher que nem sabia quem era, mas tinha tudo para dar certo.
As ideias que ela lhe dera eram sensacionais, e tudo o que ela tinha contado naquela tarde representava a única forma de voltar a conviver com os filhos.
Pensava no amor de Renato.
Ainda o amava, como no primeiro dia.
A iminência de revê-lo vinte anos depois deixava seu coração muito feliz, mas ao mesmo tempo oprimido, dividido e ansioso.
Como ele a olharia?
Vendo-a como a assassina cruel de seu pai, teria conseguido perdoá-la?
Faltava meia hora para as 21h e tudo já estava pronto.
Leonora, percebendo sua angústia, aproximou-se:
- Procure se conter.
A senhora precisará representar, fazer o papel da mulher dura e segura de si.
Se continuar nessa fragilidade não convencerá ninguém.
Lembre-se de que uma das pessoas que aqui estiver é o assassino e que esse assassino é perigoso e está pondo em risco a vida de outras pessoas.
- Tem razão, Leonora, é que a proximidade de rever Renato tantos anos depois me deixa profundamente abalada.
- A senhora ama muito seu marido, não é?
- Sim, não nego!
O sofrimento de ter ficado longe dele e dos meus filhos foi para mim o pior castigo.
Tenho certeza que foi por causa de minha encarnação passada, quando fui criminosa, por isso procurei me resignar.
- Na verdade, a senhora sempre foi resignada.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 25, 2018 9:03 pm

Notou que sempre lidou bem com a aparente injustiça que lhe aconteceu?
- Sim, embora tenha sofrido muito, nunca me revoltei ou blasfemei contra Deus. É estranho...
- Não é estranho.
Algumas vezes, quando o sofrimento não provoca desespero nem descrença em quem o vive, mostra que ele foi escolhido pela própria pessoa antes de reencarnar para apagar seus erros do passado.
- Mas como uma pessoa em sã consciência pode escolher o sofrimento?
- Pensamos assim por estarmos encarnados na Terra, vivendo dentro das ilusões deste mundo, presos a um corpo de carne limitado, contudo, no mundo espiritual nossa visão se dilata e vemos na condição de espíritos eternos.
As dores, as provações e as amarguras da vida, em vez de serem encaradas como coisas ruins, são vistas como oportunidades abençoadas de libertação da nossa alma imortal.
Aquele que carrega grande culpa, como foi o caso da senhora, sente a necessidade de mergulhar novamente num corpo de carne a fim de sofrer aquilo que fez sofrer.
Só assim estará liberto das amarras do remorso.
O sofrimento aqui na Terra é visto como algo ruim, de que se deve fugir o tempo inteiro, mas no mundo dos espíritos, que é o mundo da verdade, ele é visto tal qual alavanca da evolução, do equilíbrio e do bem-estar espirituais.
É por isso que vemos muitas pessoas sofrerem, padecerem de doenças penosas e cruéis sem esboçarem uma única palavra sequer de queixa, blasfémia ou revolta.
É a aceitação do espírito, porque no íntimo ele sabe que aquele sofrimento lhe será benéfico.
- Mas a dor é muito cruel.
Não haverá outra forma de evoluir?
- Sempre há, e é através do amor e da sabedoria.
Muitos espíritos, antes de optarem pelo sofrimento, têm a possibilidade de escolher apagar suas culpas pelo bem, pelo amor, seguindo o caminho da sabedoria de Jesus.
Mas como a culpa é muito grande, alguns optam por sofrer ou são obrigados a isso por continuarem renitentes no mal.
Os mentores aceitam porque sabem que, de uma forma ou de outra, ambos os caminhos levarão a Deus, embora Deus jamais queira o sofrimento de ninguém.
- Mas uma vez feita a escolha, não há mais como voltar atrás?
- Sempre há, mesmo aqui na Terra.
Toda vez que você muda de conduta, acredita no bem maior, faz o bem a si mesma e ao semelhante; quando muda os pensamentos para melhor, quando acredita que nasceu para ser feliz e vitoriosa, quando alimenta seu espírito com as energias da alta espiritualidade, seu destino pode ser mudado e aquele sofrimento que estava programado não mais acontece.
- Mas eu fui boa a vida inteira, sempre fiz o bem, acreditei na espiritualidade, embora nunca tenha sido espírita.
Por que meu destino não foi modificado?
Leonora parecia estar inspirada por um espírito de elevada sabedoria quando disse:
- Você nunca fez o bem a si mesma.
Apesar de casada com o homem que amava, sentia-se inferior a ele e à sua família por ser de origem humilde.
Sempre se colocava abaixo das pessoas que convivia e mesmo quando enfrentava o Dr. Bernardo era com medo, achando-se inferior.
No fundo, carregava uma culpa que não sabia de onde vinha, mas decorria do facto de você não ter se perdoado pelo passado, e esse foi um dos motivos que atraiu todo o sofrimento em sua vida.
Helena estava impressionada.
Leonora, com poucas palavras, descrevia tudo o que ela sempre sentiu a vida inteira.
- Quer dizer que fui eu que atraí o que vivi?
- Com certeza.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 25, 2018 9:04 pm

Embora eu acredite que o facto de ser presa inocente pudesse estar programado para ocorrer em sua vida na Terra, o nosso destino sempre esteve e estará em nossas mãos, nós temos a oportunidade de modificá-lo por meio de nossa reforma íntima.
Jesus disse que “um simples acto de amor cobre uma multidão de pecados”.
- Cada vez que você fala desses conceitos aumenta mais em mim a vontade de conhecer mais a doutrina espírita.
Depois desse jantar, e depois que as coisas se acalmarem e eu estiver novamente convivendo com meus filhos, quero lhe pedir que me ensine tudo o que sabe.
Sinto que só essa doutrina seja capaz de responder aos nossos problemas e nos dar conforto e paz.
Leonora, vendo que aquela conversa se encerrara, mudou de assunto perguntando:
- A senhora já decorou mesmo tudo o que vai dizer a cada um deles?
Estou preocupada, temo que algo saia errado.
Helena esfregou um pouco as mãos demonstrando nervosismo:
- Sei perfeitamente o que dizer a cada um deles.
Aquela senhora me instruiu perfeitamente.
O que mais está me deixando nervosa e aflita é o reencontro com Renato.
Preciso ser o mais forte possível.
- A senhora será.
Está linda com este penteado e este vestido longo verde-água.
Seu porte é de dama da alta sociedade.
Nem parece que esteve presa por tantos anos.
Espero que seu amor por Renato não ponha a perder todo o plano.
- Vou me controlar ao máximo.
Agora vamos à cozinha ultimar os preparativos.
O doutor Américo recomendou-me esse bufê dizendo ser um dos melhores de São Paulo, mas a gente nunca sabe, temos que ficar de olho para que nada saia fora do planeado.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 25, 2018 9:04 pm

Capítulo 13
Pouco antes das 21h os convidados foram chegando e sendo recepcionados por Leonora que dizia:
- A senhora Helena pediu que fossem logo para a sala de jantar, diz que não quer perder tempo e por isso não haverá aperitivos antes.
Por favor, entrem.
O tom de Leonora era suficiente imperativo e formal para que eles dissessem alguma coisa.
Um a um foi chegando e sendo conduzido a uma grande, rica e bem-adornada mesa, pela própria Leonora, que os colocava nos lugares indicados por Helena.
Após alguns minutos da hora marcada todos eles já se encontravam lá:
Duílio com o coração descompassado, Renato nervoso com a expectativa de rever a mulher que amava, Celina com muito temor e ódio ao mesmo tempo, Vera Lúcia apreensiva, Bruno e Morgana temendo que tivessem sidos descobertos pelo que fizeram na noite do crime e finalmente Letícia, cujo nervosismo fazia com que sua testa se cobrisse de fino suor.
Leonora, vendo que todos estavam ali, inclusive Berenice e Osvaldo que não disfarçavam o medo e a apreensão estampados no olhar, olhou para eles e, desligando todas as luzes da sala, deixando-a iluminada apenas pelas velas postadas nos castiçais sobre a mesa, disse:
- A senhora Helena vai se apresentar a vocês.
- Mas que brincadeira é esta? - perguntou Celina com rispidez.
Que negócio é esse de apagar as luzes?
A resposta não veio e o silêncio aterrador tomou conta da sala.
Demorou mais de cinco minutos para que a voz de Helena se fizesse ouvir em meio ao escuro:
- Eu respondo, Celina.
Esse escuro é para aumentar ainda mais a escuridão que há na alma de cada um de vocês.
E também para aumentar o medo.
Espero que esse jantar seja decisivo para todos nós.
Depois de dizer isso, Helena acendeu as luzes e todos se admiraram.
Quase ninguém, além de Vera, esperava vê-la tão bonita e conservada.
Os anos praticamente não pesaram sobre Helena que continuava a ser a mulher linda e encantadora de sempre.
O coração de Renato disparou de emoção ao fitar seus lindos olhos verdes.
Ali estava a mulher que amou a vida inteira e que o destino cruelmente separou.
Cada um ali estava, ao seu modo, admirando a beleza e a postura fina daquela mulher.
Helena prosseguiu demonstrando grande segurança que, intimamente, estava longe de sentir.
No entanto, procurou agir tão naturalmente que ninguém percebeu:
- Antes de qualquer coisa, vamos esperar que seja servido o jantar e depois teremos muito a conversar.
Foi Celina quem mais uma vez se manifestou:
- E você acha que alguém aqui vai conseguir comer alguma coisa olhando para a sua cara de assassina?
- Calma, Celina - disse Helena sorrindo naturalmente.
Se vocês não quiserem comer, pelo menos esperem os garçons servirem a comida, assim vocês verão o bom gosto que tive ao escolher o prato da noite.
Os garçons foram dispondo os pratos em frente a cada um.
Em seguida, uma grande e rica bandeja de prata coberta foi colocada ao centro da mesa.
- Faço questão que um de vocês se disponha a descobrir a bandeja. - como ninguém disse nada ou se moveu, Helena, tentando demonstrar cinismo e sarcasmo, disse:
- Bem, já que ninguém se habilita, eu mesma farei isso com todo prazer.
Com muita elegância, Helena tirou a tampa da bandeja e todos fizeram rostos de assombro e soltaram alguns suspiros de horror.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 25, 2018 9:04 pm

Dessa vez foi Renato quem falou exasperado:
- Mas o que significa isto?
Helena continuou com extremo cinismo:
- Este é o prato preferido do doutor Bernardo:
pato com laranja, ou estão esquecidos?
Fiz de propósito, pois esse jantar na verdade é uma homenagem a ele, um homem bom, honesto e honrado, assassinado cruelmente por um de vocês que covardemente me deixou pagar pelo crime.
Gostaram da surpresa?
Silêncio se fez, e logo Renato se manifestou:
- O que quer de nós?
Fale de uma vez.
- Calma, Renato, quero saber se você e os demais gostaram de como decorei o prato.
Notaram que todos os pedaços do pato estão espetados por facas banhadas em sangue?
O cinismo e a crueldade que Helena demonstrava eram tão reais que ninguém a estava reconhecendo naquela nova personalidade.
Helena sempre fora uma mulher sensível, maleável, cordata.
As discussões que tinha com Bernardo era porque chegava ao limite de humilhação que nenhum ser humano podia aguentar.
Mas mesmo quando discutia, jamais demonstrava crueldade e cinismo que naquele momento se viam em seu rosto.
Como ninguém respondeu nada, ela delicadamente cobriu a bandeja e pediu que os garçons se retirassem.
Sentou-se na ponta da mesa, bebeu um pouco do vinho branco disposto numa bela taça à sua direita e olhou cada um profundamente.
Após alguns minutos levantou-se e, começando pelo lado direito da mesa aproximou-se de Celina, tendo em mente todo o texto que a estranha mulher lhe passara:
- Celina, Celina...
Pensa que não sei que você pode ser a assassina?
Você tinha um motivo muito forte para matar seu próprio irmão.
Esqueceu que ele havia descoberto há pouco tempo seu terrível segredo e a estava forçando a revelá-lo para toda a família?
Celina empalideceu.
Como Helena poderia saber?
Aquele segredo estava guardado como num túmulo, e só ela e o irmão sabiam naquela época.
Tinha certeza que ele não havia contado à nora.
Defendeu-se, mesmo demonstrando muito nervosismo em seu rosto pálido:
- Não há segredo algum, sua assassina.
Você está querendo me jogar contra minha família, mas minha vida sempre foi um livro aberto.
Não tenho nada a esconder, nem Bernardo sabia nada a meu respeito.
- Não queira mentir para mim, eu sei de tudo...
- Cale-se! Você matou meu irmão, pagou pelo seu crime.
Por que não nos deixa em paz?
- Você, aliás todos vocês, sabem que eu nunca matei ninguém, muito menos meu sogro.
São todos hipócritas!
Sei muito bem quem é o assassino e posso garantir que é um de vocês.
Renato fez menção de falar, mas ela fez com se calasse com um gesto e, prosseguindo sua tortura psicológica, aproximou-se de Vera Lúcia dizendo:
- E você hein, Vera?
Sempre tão boa, tão compreensiva, tão minha amiga.
Poderia dizer que, de todos que aqui estão, seria a única que não tinha motivos para matar o irmão, mas sei que teve motivos de sobra para cometer o crime.
Profundamente exaltada e vermelha pela acusação, Vera levantou-se, pegou no braço de Helena e disse com voz que o choro entrecortava:
- Como você pode dizer uma coisa dessas de mim?
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 25, 2018 9:05 pm

Amava meu irmão.
Fui a única a acreditar em sua inocência.
Desafiei a todos e fui recebê-la quando saiu da prisão, incentivei-a a reconquistar Renato, recuperar a convivência com seus filhos.
Sou sua amiga, como pode desconfiar de mim?
Mesmo diante do choro de Vera, Helena fingiu não se comover e prosseguiu:
- Essa sua postura pode ser uma farsa para nunca passar por suspeita.
Já pensou nisso?
Já pensou que se fazer de santa pode ter justamente o efeito contrário?
Vera voltou a se sentar, debulhando em lágrimas.
Renato disse com raiva:
- Como pode torturar uma criatura tão bondosa feito tia Vera?
Os anos de cadeia não a ensinaram a ter o mínimo de piedade?
- Essa mulher pode não ser tão boa como aparenta - encostando os lábios no ouvido esquerdo de Vera, disse em bom tom:
- E aquela temporada que você passou em Paris em 1974?
Acaso pensa que ninguém descobriu o que você fez por lá?
Pois eu sei que o Dr. Bernardo descobriu e você pode tê-lo matado para que não dissesse a verdade.
O clima de desconfiança começou a surgir entre os membros daquela família.
Helena parecia muito segura de si no que dizia, e as reacções de Celina e de Vera Lúcia mostravam que o que ela dizia era verdade.
Em seguida, Helena aproximou-se de Berenice e Osvaldo dizendo com prazer:
- Vocês dois... Tão bons, tão fiéis aos patrões.
Têm uma dívida enorme com essa família.
Foi o Dr. Bernardo quem deu todo bom estudo a Duílio e o introduziu na mais alta sociedade, mas a ambição de vocês era muito maior.
Duílio tornou-se, após se preparar tanto, apenas um empregadinho da empresa.
Com a morte do patrão teria todo o poder de subir, como realmente aconteceu.
Não teria sido um de vocês quem deu aqueles malditos tiros que me levaram a passar 20 anos na prisão?
Berenice tremia muito e Osvaldo, embora não deixasse transparecer, sentia muito medo.
Como eles nada disseram, Helena andou mais um pouco e se aproximou de Renato:
- Você... O homem que mais amei na vida.
Na verdade o único.
Como sofri longe de sua presença e de meus filhos...
Sei que você me amava muito e odiava a forma como seu pai me tratava.
Um dia flagrei uma discussão entre vocês, lembra?
Você estava tão exaltado que disse ao Dr. Bernardo que, se não parasse de me humilhar, iria matá-lo.
Será que não foi o próprio filho quem matou o papai amado?
- Chega! - gritou Renato levantando encolerizado.
Não aguento mais ver você fazer todos nós de bonecos.
Diga logo o que quer para que possamos ir embora daqui para sempre e nunca mais olharmos em seu rosto.
- Eu ainda não terminei - disse Helena encarando-o firmemente.
Há ainda o Duílio, o Bruno, a Morgana e a Letícia.
Todos vão me ouvir e saber que sei exactamente quem é o criminoso ou a criminosa.
Aproximando-se de Duílio, tornou:
- Você pode ter matado pelo simples motivo de querer, junto com Bruno, dominar todo o património da família.
Não é isso que fazem hoje?
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 26, 2018 10:10 pm

Você era um rapaz bastante jovem na época, mas sempre muito ambicioso.
Daqueles capazes de tudo pelo dinheiro e pelo poder.
A quem pensa que engana com essa cara de bom moço?
- Ora, Helena, faça-me o favor...
Duílio foi interrompido por Renato:
- Por favor, não alimente discussões.
Não vê que é justamente isso que ela quer?
Semear a discórdia entre nós e acabar de vez com nossa família?
Renato olhou para os outros e continuou:
- Peço que a deixem falar o que quiser.
Deixem essa víbora despejar todo seu veneno e não dêem a ela a ousadia de responder.
Vamos acabar logo com isso.
- Muito bem - disse Helena, aparentando muita segurança.
Que não respondam, mas irei até o fim.
Aproximou-se de Bruno e Morgana:
- Querido Bruno...
Tão querido por todos.
Tanto que hoje em dia a empresa está totalmente em suas mãos.
Quanto será que você desvia por mês para suas contas particulares na Europa?
Juro que gostaria de saber...
Bruno gritou:
- Sua estúpida!
Não acreditem nisso, não tenho nenhuma conta no exterior.
- E se eu disser que tenho como provar que você desvia altas somas da empresa todos os meses?
Quer pagar para ver?
- Eu mato você, Helena.
Ela sorriu simplesmente:
- Estão vendo? Ele disse que me mata.
Se quer me matar é sinal que pode já ter matado um dia.
Afinal, a morte de Dr. Bernardo foi a escada que faltava para você subir na vida e ser o milionário que é hoje.
Só não sei quem apertou o gatilho:
se você ou sua mulher Morgana.
Morgana também tremia e não ousou abrir a boca.
Finalmente, Helena chegou perto de Letícia que, àquela altura, estava mais branca do que já era.
- E você, queridinha?
Nunca se conformou em ter sido trocada por mim.
Você pode muito bem ter cometido o crime, pois sabia que a suspeita mais óbvia seria eu, por causa das constantes discussões que tinha com meu sogro.
Renato ficaria livre para você, como realmente ficou.
Mas pelo que vejo, nunca conseguiu realizar o sonho de ser sua esposa.
Letícia não disse nada, e Helena prosseguiu inclemente:
- Tenho prova contra você que, se entregar à polícia, esse caso voltará a ser investigado e o inquérito reaberto - propositalmente, Helena encostou seus lábios nos ouvidos de Letícia e disse alto para que todos ouvissem:
- Na noite do crime eu sei onde e com quem você estava.
Quer que eu revele aqui?
Letícia, sem conseguir mais conter o nervosismo, desmaiou.
Morgana gritou, pedindo socorro, e logo Celina e Vera estavam abanando a moça e massageando seus pulsos.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 26, 2018 10:10 pm

Era a hora de Helena rir e ela o fez com muita realidade.
- Acordem logo essa dondoca, pois finalmente vou dizer tudo o que quero.
Gostaria de frisar que, se não for atendida em tudo que pedir, vou à polícia agora e revelo o criminoso.
Renato, extremamente angustiado com tudo aquilo, disse:
- Pelo amor dos seus filhos, Helena, diga logo o que quer.
Ninguém aguenta mais.
Vendo que Letícia já estava acordada, tentando se acomodar novamente na cadeira, ela recomeçou:
- Quero voltar a morar naquela casa e conviver com meus filhos.
- Nunca! Jamais permitirei - disse Celina enfurecida.
Helena fez ar de riso:
- Alguém aqui tem coragem suficiente para me enfrentar?
- Não tem medo de ser morta? - questionou Celina, arrogante e ameaçadora.
Helena olhou para o tecto e para as paredes da sala e disse:
- Creio que vocês não repararam bem nesta casa.
É uma boa casa, não acham?
Silêncio.
- Nunca se perguntaram como uma detenta, sem um centavo, pode morar numa casa como esta?
Silêncio.
- Estou muito bem assessorada.
Fiz grandes amigos durante o tempo que estive presa.
Uma prisão é uma coisa horrível, não desejo nem mesmo para o verdadeiro assassino, mas lá também pode ter coisas boas.
Foi lá que obtive todas essas informações sobre vocês, aliás, não apenas informações, mas provas.
Tenho um grande amigo, um homem rico que me protege.
Se eu for assassinada, imediatamente cinco advogados entregarão todas as provas que tenho contra vocês.
Naturalmente que vocês jamais saberão quem são esses advogados - fez pequena pausa e concluiu:
- Como vêem, estão todos em minhas lindas mãos.
E agora, farão o que eu quero ou não?
Celina abaixou a cabeça e, como ninguém ousasse a dizer uma só palavra, Helena finalizou:
- Quero voltar a viver naquela casa na condição de esposa de Renato, reinando absoluta.
Quero reconquistar meus filhos, um a um, e só depois que eles me amarem muito vou revelar quem sou e tudo que aconteceu comigo.
Prometo não revelar o assassino, nem mostrar essas provas para ninguém.
Só quero que me deixem em paz para reconstruir minha vida.
Renato, vendo o brilho nos olhos dela quando falava dos filhos, emocionou-se.
Amava-a ainda com todas as forças de seu coração.
Mas seria muito difícil Helena voltar a viver lá.
Por isso disse:
- Você não pode viver lá novamente, Helena.
Como vou apresentá-la a nossos filhos?
- Criei uma identidade falsa para mim, isso não é difícil.
E quanto a apresentar, invente uma história.
Diga que conheceu Laura Miller numa reunião com amigos, sei lá...
- Laura Miller?
- Sim, esse é o meu novo nome.
Em breve terei os documentos que preciso em mãos.
Já sei que na sala da mansão existe um retrato pintado a óleo de uma mulher que meus filhos veneram como se fosse a mãe.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 26, 2018 10:10 pm

Mas não tem problema.
No futuro eles entenderão tudo.
- Você pretende recomeçar sua vida com uma mentira? - questionou Renato.
- Essa mentira não é nada perto da que vocês criaram dizendo que morri, escondendo todas as minhas fotos, colocando um retrato de uma mulher inexistente para que meus filhos adorassem.
Não têm remorsos por serem tão hipócritas e mentirosos?
Aquela verdade, dita com tanta crueldade, calou a todos.
Ela continuou:
- Agora podem ir.
Tratem de ir inventando que Laura Miller está para chegar.
Criem uma personalidade para mim.
Na arte da mentira não sou tão boa quanto vocês.
Criem tudo e me avisem.
O prazo que dou é de apenas quinze dias.
Não tolero um minuto a mais.
Agora podem se retirar.
Helena virou as costas e sumiu rapidamente.
Todos foram saindo de cabeça baixa e desnorteados.
Uns com muita raiva e ódio no coração, outros com muito medo, e a pessoa que cometeu o crime, temerosa e curiosa para saber como Helena havia obtido tantas informações.
Daquele dia em diante, nada na vida deles seria como antes.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 26, 2018 10:11 pm

Capítulo 14
Assim que todos saíram, Leonora pediu que os serviçais retirassem a mesa e fossem embora.
Foi até o quarto de Helena, entrou e viu a patroa deitada de bruços chorando sentidamente.
Aproximou-se e, com carinho, alisou seus cabelos:
- Sei como deve ter sido duro para a senhora toda aquela encenação, por isso desabafe.
Chorar pode fazer bem ao espírito, pois, sem desespero, alivia a alma e limpa das energias negativas.
Ficaram em silêncio, até que, aos poucos, o pranto serenou e Helena, virando-se para a amiga, disse, enxugando os olhos:
- Foi terrível para mim tudo aquilo, principalmente porque tenho certeza que Renato está sofrendo muito neste momento.
Ele descobriu que sua família está longe de ser o que parece, e a decepção toma seu coração.
Leonora pensou um pouco e ponderou:
- Realmente é triste ver sofrer a pessoa que amamos, mas a verdade é sempre melhor que a ilusão e a mentira.
O que a senhora fez hoje, embora tenha causado sofrimento ao senhor Renato, vai levá-lo a encarar a vida com mais realismo.
Ele verá que as pessoas que tanto ama são simplesmente seres humanos comuns, cheios de erros e acertos, iguais a todo mundo.
Irá reflectir e perdoar.
Aprenderá que cada um só pode dar o que possui e, a partir daí, se tornará mais humano e compreensivo.
Afinal, quem de nós não tem fraquezas?
- Pensando desse jeito percebo que o que fiz foi um bem.
- Sim, senhora Helena.
A verdade sempre faz bem, ainda que faça sofrer, pois sempre conduz tudo para o melhor caminho.
- Ainda assim, ver a tristeza nos olhos dele me fez sangrar por dentro.
- Entendo. Notei que senhor Renato é um ser humano muito bom, mas é ingénuo.
Descobrir a verdade a respeito das tias e de quem convive com ele o ajudará a ter mais malícia.
Tenho certeza que a senhora o ajudou muito.
- Mas não é ruim ser malicioso?
- A malícia exagerada é que faz mal, pois acabamos vendo maldade em tudo, cometemos muitos erros de julgamento e, consequentemente, muitas injustiças, mas a malícia na dose certa é necessária a todas as criaturas.
Não me refiro à malícia de fazer o mal, mas à perspicácia em olhar as coisas além do que se vê.
Vivemos num mundo muito belo e cheio de alegria, mas também composto de pessoas muito primitivas, ruins, desonestas, desumanas e até cruéis.
Muitas delas nos iludem com aparência de bondade, mas no fundo querem nosso mal.
Ter malícia nesse momento é fundamental para sabermos nos afastar dessas pessoas e preservar nossa paz.
O ingénuo se deixa levar com facilidade pelos desonestos e mentirosos e sempre acaba mal.
Por isso, quanto mais lúcido e observadores formos, melhor viveremos neste mundo.
- Você é sábia, Leonora.
Depois de tanto sofrimento que eu passei, sei que é um anjo que Deus mandou para me recompensar.
- Não pense assim, não sou anjo, aliás, estou muito longe da perfeição.
Acredito que nosso reencontro tenha sido programado pela espiritualidade para que pudéssemos ajudar uma a outra nos apoiando mutuamente.
Eu agradeço muito poder trabalhar para a senhora.
Helena, emocionada, abraçou Leonora.
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Re: Estava escrito - Hermes / Maurício de Castro

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 26, 2018 10:11 pm

Em seguida, tornou:
- Quero que pare de me chamar de senhora. Somos amigas.
Se realmente existe reencarnação, acredito que fomos muito unidas em outra vida, pois você me passa segurança e muita confiança, embora a nossa pouca convivência - fez pequena pausa e, com os olhos perdidos num ponto indefinido, lembrou:
- Depois do que me aconteceu, jurei que nunca mais confiaria em ninguém, até que conheci Cristina e mudei de opinião.
- Cristina foi quem lhe deu essa casa.
Você me contou essa parte, mas quem foi realmente ela?
Helena começou a narrar toda a história que viveu com a colega de presídio, e Leonora foi se emocionando, aos poucos.
O teor da conversa atraiu o espírito de Cristina que, curvada num canto do quarto, levantou-se e se aproximou para ouvir melhor.
Helena foi falando dela com muito amor, e aquilo a comoveu.
Naquele momento Cristina chorou muito.
Por que foi se matar?
Por que não resistiu àquele impulso infeliz que a levara àquela condição de tanto sofrimento?
Quando Helena terminou a história, Leonora sentiu arrepio e captou imediatamente a presença de Cristina.
- Helena, você pode não acreditar, mas sua amiga, em espírito, está aqui connosco.
Helena arrepiou-se:
- Pare de brincar com algo tão sério. Não sabia que você era dada a esse tipo de brincadeira.
Leonora disse séria:
- Não brinco com as questões espirituais. Sua amiga está aqui, no mesmo recinto que nós.
Leonora viu claramente Cristina e a detalhou para Helena que, abismada com a realidade que não podia negar, disse:
- É ela mesma! Cristina é exactamente como você descreveu.
Meu Deus! Existe mesmo vida após a morte.
Mas por que ela está aqui?
Cristina se matou, deveria estar no inferno.
- Não é assim que acontece.
Não existe inferno, existem diversos ambientes no mundo espiritual que chamamos de astral inferior ou umbral.
Embora na prática possa parecer o mesmo que inferno, existem algumas diferenças.
Os espíritos que habitam esses locais estão lá, não por uma condenação de Deus, mas por condenação da própria consciência.
Enquanto que no inferno pregado pelas religiões, nenhuma alma pode sair, nesses ambientes astrais todos os espíritos podem ser libertos e habitar regiões mais elevadas, mas para isso basta que se arrependam sinceramente, desejem mudar e reconheçam o amor de Deus.
- Mas, então, Cristina deveria estar num desses lugares e não aqui, afinal ela é uma suicida.
- Nem todo suicida vai para o vale ou para outras regiões umbralinas.
Muitos ficam no mesmo local do suicídio revivendo por anos e anos a cena criminosa que cometeram contra si mesmos.
Outros vagam pela Terra e são atraídos para locais onde encontram afinidade.
Embora tenha cometido suicídio, Cristina tem alguns créditos de vidas passadas.
Tenho certeza que ela foi atraída para esta casa por causa de sua presença.
Mas a permanência dela aqui não é boa, pois só aumenta o sofrimento que ela já sente, e pode passar para nós energias depressivas.
- O que fazer, então, para ajudá-la?
Cristina errou muito, mas tinha um bom coração, não merece sofrer assim.
- Só ela é quem pode se ajudar quando se arrepender dos erros que cometeu e pedir ajuda do Alto.
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