NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 16, 2018 10:03 am

Súbito, dentre tantas entidades diáfanas, uma se adiantou sobraçando uma lira de rosas, encordoada de fios luminosos, semelhantes aos raios das estrelas.
Deslizando pelo solo, aproximava-se de mim para me ofertar o célico instrumento.
Em torno da fronte ideal lhe voejavam pétalas de flores, irisadas falenas e alvinitentes pombas, que bailavam nos ares com a graça das sílfides.
O ser angélico, que por esse modo de mim se avizinhou, era Jeanne.
Cumpria a promessa que fizera, de me inspirar fomentos de amargura.
Reconheci-a por uma intuição indefinível.
Era qual a contemplava em sonhos, quando minha alma se exteriorizava da matéria por influência poderosa e incontrastável.
Sim, era mesmo Jeanne.
Era esse ser familiar a quem amara em diversas existências e que, então, pertencendo àquela trupe de artistas siderais, me apareceu qual a própria Euterpe,43 para me incutir ideias grandiosas em relação à Arte excelsa, que ela simbolizava e eu sempre cultuara.
Fitava-me com insistência, como que para afirmar que não esquecera o que havia prometido e o que me pedira nos derradeiros momentos da sua agonia.
Fazia-o, também, decerto, para me animar a prosseguir na minha via crucis até alcançar a vitória definitiva.
Notei que, entre todos aqueles entes venturosos, era ela o único que se mostrava merencório.
Quando concluí a execução da magistral sonata (assim me posso exprimir, pois não me refiro a um trabalho meu, mas a uma composição de etéreos virtuoses), tinha o cérebro ofuscado, eclipsado.
Mas, lá nas profundezas da mente permaneceu indelével a preciosa reminiscência da música executada e das arcangélicas aparições, lá essa lembrança se impregnou como no cerne do sândalo o suavíssimo aroma de uma inebriante essência, que resiste à aniquiladora acção dos séculos.
Meu pai, que a princípio se revoltara contra mim, em poucos momentos se achou dominado pelas vibrações harmoniosas do violino.
Aquietou-se. Decorrido algum tempo, ficou embevecido, quase em êxtase.
Quando terminei, pediu que me acercasse do leito, abraçou-me ternamente e me osculou a fronte cálida, orvalhando-a de lágrimas.
Estivemos longos minutos assim unidos, enlaçados pela mesma dor, pelo mesma túrbida saudade, pelos mesmos esperançosos sonhos.
Compreendi que, naquele momento, em nossos espíritos acabava de se dar algo de extraordinário, de misterioso, de supremo, que para sempre os aliara, que nos encadeara para a eternidade as almas e as existências, tornando-as desde então inseparáveis.
Naquela hora soleníssima, fundiram-se, na forja do destino, os elos que as manteriam presas uma à outra, até a consumação dos séculos.
Nessa noite meu desventurado pai dormiu profundamente.

38 Ave fabulosa que era a única da sua espécie.
39 Rio da América do Norte, famoso por suas cataratas.
40 Personagem mitológico que atraía viajantes para a sua pousada.
Depois que adormeciam ele adequava o corpo da vítima ao tamanho do leito, cortando-o ou esticando-o com cordas e roldanas.
41 Na mitologia grega, gigante que possuía cem olhos, cinquenta dos quais
estavam sempre abertos. Símbolo da vigilância.
42 Deus da Medicina, entre os romanos e os gregos.
43 Musa da música (Mitologia grega).
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Ave sem Ninho

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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 16, 2018 10:03 am

CAPÍTULO IV
Por poucos dias tivemos as almas em paz.
Horas esquecidas levávamos então, meu pai e eu, a falar de Jeanne e de minha mãe, como se nos referíssemos a duas pessoas que andassem em excursão por longínqua e afortunada região, à qual iríamos ter em breve prazo para nunca mais nos separarmos.
Ansiosos, mas resignados, aguardávamos esse momento, consistindo toda a nossa ternura em pensar nele.
Éramos como dois grilhetas que, em deserta e soturna ilha, cumprissem uma sentença ao mesmo tempo severa e justa, ávidos pelo dia já próximo da libertação, sôfregos por voltarem à pátria distante, onde os esperam entes idolatrados.
Para nós, esses entes eram os que nos precederam no túmulo-pórtico do infinito.
Normalizara-se a nossa existência. Recomecei a trabalhar como trabalhava antes do passamento de Jeanne.
Geral, porém, foi a surpresa no auditório que costumava aplaudir-me, quando de novo perante eles apareci.
É que eu envelhecera.
Contando apenas dezoito anos, tornara-me excessivamente débil, de lividez marmórea.
Muitos amigos supuseram que eu houvesse estado doente.
Algumas noites de vigília e de contínuo labor bastaram para que meu estado se agravasse. Sintomas alarmantes se manifestaram.
Eram os pródromos do mesmo mal que levara minha irmã à sepultura.
Olhando-me através do seu coração extremoso, sempre a pressagiar inevitáveis infortúnios, maiores cuidados e temores inspirava eu a meu pai do que a quantos me viam.
Acabou ficando totalmente alarmado. Para o tranquilizar, fiz-me conduzir por Duchemont ao consultório de um médico e, pelas frases vagas que este proferiu depois de me examinar, percebi que jamais recuperaria a saúde.
Em pouco tempo a insidiosa moléstia se apoderou inteiramente do meu organismo, produzindo-me desânimo e sofrimento tão grandes, que se tornou impossível dissimulá-los.
Um dia, cheguei-me ao paralítico e lhe disse com a máxima placidez:
- Prevejo, meu pai, que não mais poderei sair à noite e já me vai inquietando a ideia de que venha a faltar de todo o pão necessário à nossa subsistência.
O que eu supunha ser apenas consequência das dores ultimamente curtidas, é um mal incurável, que já me avassalou os pulmões.
O que mais me affi-8e> porém, não é o meu padecimento físico, é a ideia de que em breve não possa mais exercer a minha profissão, sendo entretanto o meu maior desejo o de sempre amparar-vos.
Cumpre, pois, meu pai, sejamos previdentes e nessas condições vamos conversar calmamente acerca da nossa situação e do futuro.
Se daqui a pouco tempo me vir impossibilitado de trabalhar para nossa manutenção, providenciarei no sentido de sermos recolhidos a um hospital.
Como, porém são diferentes as nossas moléstias, teremos que ficar separados.
Não vos entristeçais com isso, pois tudo farei para vos dar coragem e vos mitigar os pesares.
Irei visitar-vos muitas vezes, todas as que os enfermeiros me permitirem enquanto puder manter-me de pé.
E quem sabe se consentirão que leve o meu violino? Se conseguir a satisfação deste desejo, não deixarei de executar as produções que tanto apreciais, do vosso François.
"E por que hão-de impedir que o meu querido instrumento me acompanhe à morada da dor e da agonia?
"Por que é que os opulentos e venturosos que, trajados a rigor e cobertos de jóias, percorrem as enfermarias dos hospitais, ostentando diante da miséria e do sofrimento o fausto e a felicidade, como se passeassem pelas ridentes aleias de um lindo parque, não se lembraram ainda de oferecer, em vez de moeda que sempre deixam cair nas mãos descarnadas, quase gélidas, de seres que só do que precisam é de uma campa e de preces, algumas flores aos pobres moribundos?
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 16, 2018 10:03 am

De que servem moedas aos infelizes que não têm mais lar, nem pátria; vizinhos que estão das fronteiras da pátria comum, o Espaço, onde não há balizas, plantadas por homens, nem cordilheiras ou rios que delimitem pátrias diversas?
Por que não se lembraram de levar aos que, nos leitos hospitalares, vestíbulos do túmulo, estão prestes a mergulhar no seio do Infinito, que, mais carinhosamente, acolhe o rude e probo calceteiro do que o monarca omnipotente e cruel, um instrumento musical, que, tocado por mãos de artista, certo suavizaria os estertores da morte?
"Haverá na Terra de pr'ofundis44 mais solene, deprecação mais vibrante do que o Requiem de Mozart?45
"Pois bem! quero ser o primeiro a praticar a caridade por essa forma, eu tão pobre que não posso agasalhar os que tiritam de frio, nem socorrer os torturados pela fome, que já nos ameaça.
Quero ser o primeiro a mostrar que não só os ricos, os ditosos, fazem jus à audição dos primores musicais dos afamados mestres, que também os desventurados e principalmente os que estão quase a abandonar a arena da vida, onde deixam entes idolatrados, podem ter uma agonia mais branda, suavizada pelas melodiosas notas de um violino, de uma flauta, de uma harpa, dedilhados com extrema delicadeza.
Será um lenitivo para as dores que os flagelam, para a febre que lhes requeima os corpos, para as pungentes saudades que experimentam, lembrando-se dos seres amados que vão ficar no mundo.
"O Omnipotente não deixará de abençoar tão meritória acção e sinto que é Jeanne, ou alguma entidade sideral, quem me sugere estas ideias.
Ideias desta natureza só do Céu nos vêm.
"Mas, perdoai-me, meu pai, essas divagações sobre assunto diverso daquele de que vim tratar.
Daqui me aproximei apenas para vos dizer:
sejamos fortes, sejamos heróis nas supremas batalhas da vida.
Não há motivo para consternação.
Não percebeis que se avizinha a hora da redenção eterna? que, dentro em pouco, nos teremos reunido à saudosa Jeanne?
"Por que então chorais? Coragem!
O Criador, que é a suma bondade, talvez haja comutado a nossa pena abreviando--nos os dias de cárcere terreno.
Devemos aguardar com os corações jubilosos a nossa próxima libertação".
- Ah! meu François! Como hei-de regozijar-me, temendo que partas antes de mim, temendo ficar só com a minha dor sem limites?
Quando Jeanne faleceu, julguei endoidecer.
Tornei-me de novo céptico e só não me suicidei por não ter mãos para empunhar uma arma.
Tu, me François, conseguiste dar ânimo à minha alma desolada Deste-me alento para viver.
Mas, se me precederes no túmulo, mergulharei em trevas, enlouquecerei de saudade e de tristeza.
- Pois bem, meu pai, não vos abandonarei jamais, nem agora, nem quando pertencer ao mundo espiritual, que co meço a divisar, uma vez que é por demais angustiosa par nós ambos qualquer separação, ainda que breve.
"Acabo de conceber uma ideia que submeto à vossa apreciação.
A vigília e o relento me prejudicam grandemente saúde.
Para evitá-lo, sairei durante o dia com o violino, tocarei nos lugares públicos as minhas mais preferidas com posições e estou certo de que poucos ouvintes deixarão d< me socorrer.
"Protestais? Tenho a certeza de que, mais do que nunca as entidades celestiais me inspirarão e, assim, colherei muitas moedas que repartirei convosco e com os nossos irmão - os cegos e os paralíticos.
"Não será para mim um sacrifício, meu pai, pois que implorarei a caridade pública, mas de dentro da treva em que vivo.
Assim, não vendo aqueles a quem peço a esmola, meu rosto não se cobrirá da púrpura do vexame, quando, estendendo-lhes a mão, me responderem com o sorriso de escárnio, que facilmente assoma aos lábios dos impiedosos ou dos felizes.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 16, 2018 10:04 am

Com os olhos vendados pelo negror da cegueira nada vejo e, portanto, agradecerei qualquer mesquinha dádiva e nenhum ressentimento guardarei dos que me recusem o seu óbolo."
Ele me interrompeu, surpreso e desorientado, dizendo-me:
- Mendigares uma esmola à caridade dos transeuntes, tu, meu amado François, um violinista exímio, uma glória francesa?
- Não é o artista, meu pai, nem a glória francesa quem irá suplicar um óbolo aos transeuntes.
É o cego enfermo, que tem de manter o seu querido pai inválido, para lhe poupar mais uma dor.
- Está bem, meu François, e para, por minha vez, te evitar mais uma amargura, estou resolvido a recolher-me a um hospital.
Nem mais um queixume proferiu, mas, enquanto isto disse, chorou abundantemente.

44 Das profundezas.
45 O Requiem é a última composição e uma das mais importantes obras de Mozart - compositor e músico austríaco (1756-1791).
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 16, 2018 10:04 am

CAPÍTULO V
Algum tempo depois dessa afectuosa palestra, já me sentia extremamente debilitado, necessitando de repousar e fortalecer o organismo, coisa de que a nossa desprovida bolsa não me permitia cogitar.
De dia para dia minguavam os nossos modestos recursos pecuniários.
A modelar Margot, de inexcedível desvelo para connosco, tanto nas horas de alegria, como nas de adversidade, frequentemente saía a oferecer à venda os poucos móveis e objectos que nos restavam e que até então julgáramos indispensáveis.
Mais o era, porém, o pão par o nosso sustento.
Eu por mim vivia numa quase completa imobilidade, tanto os meus sofrimentos físicos e morais.
A falta de meios me impossibilitava de me sujeitar a um tratamento médico conveniente.
Todavia, continuava a confortar a alma do meu companheiro de infortúnio, sempre que o desânimo o assaltava, ensinando-lhe a suportar todas as vicissitudes da existência sem se queixar, com valor espartano.
Quanto maior se tornava minha prostração, mais experimentava a benéfica influência dos protectores espirituais.
Eles me transmudavam.
Levantava-me, empunhava o violino e executava melodias de uma suavidade de luar a esbater-se por sobre um roseiral em flor.
O pobre paralítico, com a alma ungida de resignação, confessara-me julgar-se, então, quase venturoso.
Certo dia, mais prolongada foi do que de costume a ausência da bondosa Margot e vimo-la regressar trazendo estampado no rosto o desalento.
Nesse dia, tardou muito em nos dar um pouco de alimento.
Clara se nos fez a penosa situação em que nos encontrávamos.
Disse-me então meu pai:
- Está iminente a nossa separação, François.
É preciso que hoje mesmo providenciemos o nosso recolhimento a uma casa de caridade.
Logo conversaremos a esse respeito com o prezado Duchemont.
Margot, que se achava à pequena distância, ouviu o que disse meu pai e, com a familiaridade que a sua afeição maternal autorizava, exclamou, entrecortada de lágrimas a voz:
- Que é o que acabo de ouvir?
Pretendeis ir para um hospital e de nada prevenis a pobre Margot!
Supondes que não tenho coração e que, portanto, a nossa separação não me mortificará?
Pois me abandonais?
Já não vos sirvo a contento, Sr. Delavigne?
Já não tendes confiança na velha Margot, que vos viu pequenino?
- Tens sido, minha boa Margot, de uma santa dedicação para connosco e por isso te consideramos como da família.
Mas não devemos sacrificar-te por mais tempo.
Bem sabes que o nosso François já não pode trabalhar.
Havemos de condenar-te a mendigar para nós, ou a sucumbir de fome ao nosso lado?
Tens direito a uma existência melhor, mais isenta de cuidados do que a que passa nesta miserável mansarda.
- Mas eu não vos importuno exigindo o que não me p0 deis dar.
Sempre arranjo tudo como posso, de modo que ainda não ficastes sem uma refeição, pelo menos...
- Olha, Margot, as inquietações, em que todos nós vivemos, precisam ter um termo.
Foi por isso que deliberamos internar-nos num hospital.
- ...e deixar sem destino a infeliz Margot, já velha, sem parentes, sem poder mourejar, como antigamente, não é assim?
Pois bem, esperai ainda uns dias.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 16, 2018 10:04 am

Não façais coisa alguma antes que eu vos venha dizer:
"De nada mais posso dispor com que atenda às vossas necessidades".
Depois que vos houver falado desse modo, podereis ir para o hospital.
Comoveu-nos profundamente a nobreza de sentimentos daquela inculta mas abnegada criatura, que, enquanto nos dizia tais coisas, enxugava as lágrimas com o avental.
Seguiu-se longo silêncio. De súbito, porém, a nossa dedicada serva o quebrou, perguntando a meu pai:
- Que é feito do seu irmão Jaques, Sr. Delavigne?
- Bem sabes - respondeu meu pai - que, ainda jovem, emigrou para a América, temendo o serviço militar na Argélia. Há muito não recebo notícias suas.
Porque te lembraste dele agora?
- Porque hoje, tendo saído à pressa para umas compras, esbarrei com um homem quase da sua idade, muito parecido com o senhor, antes da sua enfermidade.
Espantada, estive para lhe perguntar o nome, mas me contive, receando alguma indelicadeza.
Trajava com apuro e caminhava devagar reparando nos transeuntes, o que me chamou a atenção.
Quem sabe se é mesmo o Sr. Jaques, que, tendo regressado da América, anda à procura do irmão que aqui deixou?
Pode bem ser que Deus o tenha enviado à França para vos socorrer.
_ Não nos devemos embalar nesses sonhos de felicidade, Margot.
Entretanto, vou tratar de verificar se meu irmão está de volta do Canadá, de onde me escreveu pela última vez há mais de dez anos.
À noite, como sucedia sempre, tivemos a visita de Duchemont.
Meu pai lhe referiu o que Margot nos contara e pediu fizesse algumas investigações para saber que fundamento poderia haver na ideia que lhe sugerira o encontro que tivera a nossa companheira de desdita.
Quando Duchemont se despediu, Margot o acompanhou até a porta e lá se demorou em longa e animada palestra com o nosso bom amigo, que dali por diante passou a visitar-nos com mais frequência.
Também na boa Margot se operou, a partir daquela noite, sensível transformação.
Mostrava-se satisfeita, quase alegre e, sem sair diariamente à rua, como dantes, todos os dias nos servia bons acepipes.
De uma feita, meu pai a interpelou:
- Achaste a galinha dos ovos de ouro, Margot?
Olha lá, não vás matá-la...
A boa criatura nada respondeu.
Guardou silêncio sobre a sua extrema dedicação para com os míseros enfermos.
Pensando no caso, não nos foi difícil descobrir que ela nenhum tesouro achara.
Nós, meu pai e eu, é que encontráramos alguma coisa de mais precioso do que um filão aurífero: a abnegação sublime de uma serva, aliada à piedade de in comparável amigo, objectivando ambos nos poupar a mais rude de todas as provas - uma dolorosa separação.
Vexava-nos, porém, semelhante situação.
Compreendemos não nos ser lícito aceitar por tempo indeterminado o sacrifício de uma e a generosidade do outro.
Mas, quando nos dispúnhamos a deixar definitivamente a nossa desconfortável morada, uma dita inesperada nos sorriu em meio de tanta desventura.
Não eram infundadas as suspeitas de Margot, relativamente ao regresso de meu tio Jaques.
Graças às informações que Duchemont obteve, pudemos abraçar ainda uma vez o parente que emigrara para o Canadá.
Foi uma cena enternecedora a do encontro dos dois irmãos.
Fizeram-se mútuas e íntimas confidências.
Meu tio se tornara opulento, por efeito de arriscados, mas sempre bem-sucedidos empreendimentos.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 16, 2018 10:04 am

Era chefe de numerosa família, de cujos membros nos ofereceu belas fotografias. Entre estas havia a de uma bela jovem loura e esbelta, extremamente parecida com a nossa Jeanne.
Meu pai, vivamente emocionado com essa semelhança, exclamou, dirigindo-se a meu tio:
- Por que não a trouxeste contigo, Jaques?
Que lenitivo seria, para as saudades que me pungem a alma, ver ressuscitada na tua filha, bela e sadia, a minha Jeannette!
Como me achasse melhor de saúde no dia que meu tio passou em nossa companhia, proporcionei-lhe ensejo de ouvir uma das minhas mais apreciadas composições.
Ficou maravilhado e logo firmou o projecto de me levar consigo para a América, contando que, com a mudança de clima, talvez minha enfermidade paralisasse.
Recusei aceder ao seu desejo para me não separar do entrevado, que não assentira em viajar estirado, como um cadáver.
Antes de voltar para Québec, onde residia, o que se verificou pouco tempo depois, meu tio encarregou um banqueiro, com quem fazia transacções, de entregar a meu pai uma pensão mensal, suficiente para nos mantermos com modéstia.
Regressou pesaroso ao Canadá, prometendo-nos voltar mais tarde com a família, que seria também a nossa.
Fora o coração, sensibilizado pelas nossas desventuras, que, decerto, num gesto de compaixão, lhe ditara aquelas generosas palavras.
Ante o estado valetudinário em que nos encontrávamos meu pai e eu, nenhuma dúvida poderia meu tio nutrir de que, quando novamente pisasse as plagas francesas, só lhe restaria procurar as nossas campas - campas humildes, anónimas, sem inscrição alguma, assinaladas apenas por uma cruz singela, que as mãos piedosas de Margot e de Duchemont sobre elas colocassem.
Podeis imaginar, meu amigo, qual tenha sido nossa alegria, reconhecendo, depois de haver estado iminente a nossa separação e exactamente quando mais necessitávamos de recíprocos carinhos, de uma íntima comunhão de pensamentos, de uma constante confidência de mágoas e de anelos, que só a morte, desde então, nos poderia separar os corpos mutilados.
Meu pai, cheio de intenso júbilo, me disse:
- Reconheço a intervenção divina neste sucesso, que nos tranquilizou os corações e nos faria ditosos se não fossem as nossas enfermidades.
* * *
A calma do espírito, algum conforto, dias de repouse absoluto e alimentação conveniente operavam, ao cabe de algum tempo, a tonificação do meu organismo, de modo a me ser possível estudar as composições dos mestres favoritos - Beethoven e Mozart.
Fui levado, assim, a aceitar convites para tocar nalguns concertos realizados eram magníficos solares.
Bastaram, porém, a vigília e a fadiga de algumas noites para que a saúde ficasse de todo irremediavelmente perdida.
Certa vez me comprometi a executar músicas clássicas em casa de opulento capitalista que festejava o aniversarie dos seus esponsais.
Nesse dia, porém, senti-me, como nunca, desalentado, febril, incapaz de qualquer esforço.
Chegada a hora do concerto, notei em mim alguma coisa de anormal Pela primeira vez me pareceu que a inspiração me abandonara.
Faltava-me o alento que os Invisíveis sempre me deram, alento que me aligeirava o arco e fazia tirar do violino indescritíveis harmonias.
Desprotegido, desamparado pelos meus celestiais inspiradores, não consegui interpretar as partituras com a maestria de outrora. Lancinante dor me constringiu o peito e estive prestes a desfalecer.
Teriam todos notado a minha perturbação? Ansiava finalizar a execução da música inicial da esplendorosa festa, pois que sobre-humanos eram os esforços que empregava para executá-la.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 16, 2018 10:04 am

Não lhe sabia, como dantes, dar a expressão a vida, as admiráveis cadências que os artistas siderais sempre me insuflavam.
Livre, com o vibrar do último acorde, dessa tortura inenarrável, recebendo frios aplausos, sentei-me extenuado numa cadeira. Gotas de glacial suor me orvalhavam a fronte, dando-lhe a algidez do mármore.
Tão desorientado, tão conturbado fiquei, que certamente tinha a fisionomia descomposta, alterada pela decepção, pela angústia, lívida como a dos moribundos.
Imerso nesse acabrunhamento, pressenti que alguém de mim se aproximava a passos leves.
Sei hoje de quem eram eles, porquanto daqui contemplo a graciosa criatura que, numa hora de árdua provação, compreendeu o meu suplício.
É uma dessas almas de querubim, um desses lírios humanos que despontam na Terra, sob a forma de cândidas donzelas, para desempenhar missão de paz e de carícias.
Esse alguém me observou meigamente:
- Precisa ter muito cuidado consigo, senhor Delavigne!
- O estado lastimável da minha saúde lhe mereceu atenção? - perguntei.
- Por que duvidar?
Aprecio tanto, tanto, as suas produções!
Hoje, porém, não parece o mesmo.
Antes que lhe dissesse qualquer coisa, ela, mudando de tema, me perguntou com afectuoso interesse, que me comoveu até às lágrimas:
- Que é daquela jovem, que diziam ser sua irmã e que o acompanhava aos saraus?
Era tão graciosa e parecia tão inteligente!
Quantas vezes, de volta a casa, lembrando dela, me senti comovida ao extremo!
E por que não lhe hei d dizer a verdade?
Compadeciam dela e desejara protegê-la se ela o quisesse.
Por que não a trouxe mais consigo?
- Obrigado! Quanto agradeço o vos terdes lembrado de minha pobre irmã!
Ela, porém, jamais tornará a acompanhar-me, pois não descerá do Céu, para onde se alou, a fim de me fazer companhia...
Deus vos cubra de bênçãos! Agradecido!
Sois infinitamente bondosa!
A recordação de Jeanne, naqueles instantes dolorosos, sensibilizou-me e entristeceu-me ainda mais.
Quis, num impulso sincero e profundo de reconhecimento, apertar a mão à meiga e piedosa donzela, que se me afigurava nimbada de luz.
Quis agradecer a quem se dignara de compadecer-se de mim.
Mas, ao erguer a mão na direcção do compassivo arcanjo que me falava, senti que outra mão repelia a minha com energia, ao mesmo tempo que uma voz áspera abalava todas as fibras do meu coração, arrojando-me de dentro do sonho fugaz em que me deleitava ao pélago estonteante da mais brutal realidade.
- Tenha consciência, senhor! - bradou-me essa voz.
Ignora por acaso estar afectado de uma moléstia contagiosa?
Aqui já não é mais o seu lugar.
Oh! como ainda me maceram a alma as mágoas recentes dessa última existência terrena, amigo!
Só os séculos, no seu incessante e vertiginoso perpassar, poderão atenuá-las, esvaecê-las, como se desfazem as espumas das vagas, quando o mar se toma bonançoso.
Naqueles tumultuosos segundos experimentei um súbito atordoamento, uma rápida vertigem e, logo após, a sensação de que o sangue afluíra celeremente ao meu tórax dolorido.
Tornou-se efervescente e começou a humedecer-me a boca em jactos tépidos e espumosos.
Levei o lenço aos lábios e pedi ao leal companheiro Duchemont que me conduzisse a casa, dizendo-lhe achar-me impossibilitado de continuar a tomar parte no concerto.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 16, 2018 10:05 am

Ele atendeu prontamente ao meu pedido e, em veloz carruagem, me acompanhou à lôbrega mansarda.
Minha brusca chegada causou indescritível aflição a meu pai, que sem demora mandou chamar um médico para me socorrer.
Achava-me quase exangue, em consequência de repetidas hemoptises.
Seguiram-se, para mim, horas infindáveis de agitação e delírio.
A cruel ofensa que sofrera me vergastava incessantemente a alma.
Atormentava-me também a ideia de que o meu protector invisível me desamparara.
Dirigi ao Eterno uma vibrante e sincera súplica e imediatamente benfazeja calma me invadiu o ser.
Adormeci e tive a ventura de ver em sonho a querida Jeanne, que estendia a nívea mão para me ajudar a atravessar impetuoso rio, sobre estreita e frágil Ponte, livrando-me de ser tragado pelo terrífico vórtice que ululava debaixo dos meus pés.
No dia seguinte, o ricaço em cujo palacete fora rudemente afrontado me remeteu elevada quantia em francos, muito acima da remuneração que podia ser devida.
Por me haver ^pulsado de sua casa, mandava-me, disfarçadamente, munificente esmola.
Fiquei perplexo, sem saber se deveria ou não recebê-la. Compreendendo, porém, que me cumpria ser atrozmente espezinhado, aceitei-a. Meu pai me perguntou:
- Por que não desististe de tocar, uma vez que, antes de principiar o concerto, te sentiste indisposto?
- Uma vez que agora não nos faltam os meios de subsistência, planeei adquirir um piano com o produto do me trabalho.
Eis por que não desisti de tocar naquela noite.
- Era uma bela aspiração, meu François, mas não valia grande inquietação que me estás causando.
- E me vai talvez custar o sacrifício da própria vida.
Quem sabe, porém, meu pai, se não estarei mais perto de a realizar?
Os desígnios de Deus são sempre sábios.
Ele não se conformou com o que eu lhe disse.
Lamentava a todos os momentos a minha imprevidência.
Imaginava que do esforço por mim feito com o braço direito, par executar uma acidentada composição wagneriana, resultara romper-se uma das veias do pulmão.
Para lhe poupar maiores desgostos, eu lhe ocultara a verdade.
Aquela foi a última vez que me apresentei diante de uma sociedade mundana, que se despediu de mim repelindo--me do seu seio, desde que, invalidado pela moléstia que me levava ao túmulo, não pude mais, como dantes, fazê-la deliciar-se por algumas horas, executando irrepreensivelmente composições dos grandes mestres.
Bem amarga despedida me fizeram os ditosos do mundo!
Abençoo, entretanto, aquele cruel momento em que me vi duramente humilhado, pois que a dor da humilhação é rutilante moeda com que adquirimos a ventura nos orbes redimidos.
Aplacado o sofrimento de minha alma, rendi graças ao Criador por me não haver revoltado contra quem me ferira em pleno coração, por haver podido sofrear até as lágrimas, recalcando para o íntimo tão aviltante ultraje, ocultando-o de todos, levando para o sepulcro a mágoa que, durante alguns dias, como áspide traiçoeira, me não deixou de pungir um só instante.
O artista, que tantas vezes recebera aplausos delirantes, fora vaiado da última vez que aparecera em público, para depois se recolher aos bastidores.
Empanando o brilho das horas de triunfo, ficara a recordação dolorosa da cena final.
Uma coisa, no entanto, me restara para suavizar a impressão penosíssima e indelével dessa noite de fecunda prova para o meu espírito.
Restara-me a lembrança da gentileza de uma piedosa donzela, que certamente percebera a nobreza do meu sacrifício e de mim se apiedara.
De quando em quando, um sorriso de júbilo me assomava aos lábios.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 16, 2018 10:05 am

Que eram os meus sofrimentos em comparação com a felicidade que me aguardava no Além?
Para que me afligir, se tanto maior seria essa felicidade quanto mais dura fosse a provação?
Afinal, com o tempo se esbateram as tristes reminiscências do facto que tanto me mortificara e, embora à custa de heróico esforço, consegui triunfar da prova que Deus me impusera para aquilatar da minha coragem moral.
* * *
Está quase terminada, meu amigo, a narrativa dessa existência em que, posso dizer, não tive infância nem juventude, pois vivi sepultado nas sombras, encarcerado em lúgubre masmorra; em que não conheci os brincos de uma nem os gozos de outra; em que as decepções e os reveses me flagiciaram constantemente o coração.
Mas, em compensação, inúmeras vezes tive o cérebro iluminado p0r uma lâmpada interior, semelhante às que oscilam à frente dos sacrários, enquanto aos meus ouvidos baixavam ondas sonoras, divinais melodias, que me faziam esquecer todas as dores tão de pronto quanto os raios solares fazem dissolver-se as brumas matinais, desnudando a Natureza até então oculta ao olhar dos condores que, ao impulso de leves asas, se elevam a alturas que o homem ainda não atingiu.
Que importa, porém, isto ao homem, se, acorrentado embora à superfície da Terra, pode ele, com as asas luminosas do pensamento, levar a alma a cindir o infinito do céu, através da poeira de astros coruscantes?!...
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 17, 2018 10:22 am

CAPÍTULO VI
Mais alguns meses vivemos sob o mesmo tecto, meu pai e eu, recordando o passado, lembrando-nos dos que haviam partido para o Além.
Às vezes, em íntimo colóquio, ele me dizia:
- A dor, François, é necessária à alma, não só para arroteá-la, a fim de que nela germine a sementeira dos sentimentos elevados, como também para que não nos esqueçamos do nosso Criador.
A felicidade é estéril e egoísta.
"Estou certo de que, se fora são de corpo, opulento, venturoso, faria da vida outro conceito, cometendo faltas que, certamente, me acarretariam severíssimas punições.
Seria ateu, indiferente ao sofrimento alheio, arbitrário, orgulhoso e, provavelmente, ao primeiro desgosto, poria termo à vida.
"Precisamente nos instantes de suprema angústia é quando reconhecemos que uma força incontrastável nos governa, que o nosso destino o traçou uma potestade divina, que esta, entretanto, não nos esmaga com o seu ilimitado poder, mas antes nos incute ideias de libertação, de justiça, de Piedade, de altruísmo.
Graças à sua bondade, a nossa mente entrevê como realidade, em mundos isentos de sombras prantos, as aspirações com que sonhamos na Terra.
"Quanto mais padecemos, tanto mais desejamos evolucionar, progredir moral e intelectualmente, marchar na senda do bem e da virtude, a fim de conquistarmos rapidamente o galardão reservado aos que triunfam do mal e das imperfeições que maculam as almas humanas.
"Bem dizes: estamos remindo dívidas desde muito acumuladas.
Compreendo agora que nossas vidas já estiveram entrelaçadas em existências anteriores.
Ficamos jungidos uns aos outros por crimes praticados em comum.
Reabilitamo--nos hoje, chorando juntos.
Horrendos devem ter sido os nossos delitos, para que tão cruciante seja a nossa expiação.
"Pela dor nos vamos libertando das sombras desse passado lúgubre.
Nossos crimes, como elos de bronze, nos encadearam os destinos através dos séculos.
Assim unidas têm as nossas almas que caminhar, permeando todas as adversidades, por uma vereda que se nos afigura intérmina, cheia de obstáculos que iremos transpondo com o olhar fito no céu.
"Quando houvermos atingido a meta de tão dolorosa peregrinação, todos os tormentos por que passamos, confrontados com a felicidade que então fruiremos, certo nos parecerão suavíssimos.
"Marchemos, pois, meu filho, com as mãos enlaçadas e com o pensamento alcandorado ao empíreo donde flui o inefável lenitivo que se chama - resignação -, o que muitas vezes temos sentido descer sobre os nossos Espíritos, como fúlgido orvalho.
"Incrédulo era eu na sobrevivência do ser, no seu destino ultra-terreno, e foste tu, François, quem me incutiu estas transcendentes ideias que acabo de expender e sem as quais seria o mais desgraçado dos seres.
"Sabes do que me lembro continuamente?
Do teu nascimento, da quase aversão que me inspiravas.
Culpava-te da morte daquela a quem adorava - tua mãe.
Quantas vezes te chamei de treval.
Achava-te inútil à pátria e à família.
Penso agora de modo diametralmente oposto.
Tens sido o nosso arrimo, serás uma glória da França, és o meu brilhante archote.
Praza a Deus que ele me alumie até ao derradeiro alento.
"Assim como a estrela de Belém guiou os magos ao berço do Nazareno, tu me tens guiado para o Céu e para o Eterno.
"Abençoo-te por esse benefício, com a alma inundada de dulcíssima ventura, sentindo-a como que imersa em subtilíssima e radiosa espuma.
Abençoo-te pelo bálsamo que tens espargido no meu coração tantas vezes flagelado pelos acúleos da dor!
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 17, 2018 10:22 am

A treva é quem faz abrolhar a luz no meu Espírito. Bendito sejas, François!".
Estes e outros pensamentos da mesma natureza meu bom pai mos externava num tom de infinita ternura, velado por uma tristeza que me emocionava e ao mesmo tempo me fazia exultar, por perceber que promissora evolução e benéfica metamorfose se estavam operando no seu espírito, encaminhando-o para a perfeição cujo corolário é a felicidade eterna!
Certa vez, assim me falou, com voz cariciosa e melancólica:
- Que união a nossa, François! somos dois inúteis, que, reunidos, não formamos um ente completo, pois que não nos podemos integrar para o trabalho.
Tens, como dizes, mortos os olhos, e eu poderia, com os meus, guiar-te os passos por entre as trevas em que vives.
"Mas tenho o corpo inanimado, um corpo cadáver, ao qual, demais, falta um dos braços.
Eis-me, pois, imprestável para a minha família para a minha pátria.
Sou exactamente o que eu, quando eras criança, dizia que havias de ser!
"Penitencio-me de ter dito tais coisas cruéis.
Peço-te perdão da mágoa que com elas te causei.
Vejo, hoje, que somos dois réprobos a cumprir, no mesmo cárcere, dolorosa mas remissora pena.
Quando obteremos o alvará da libertação?
Quando nos desvencilharemos destes despojos inúteis?
Oh! quando chegará para os dois sentenciados sem apelação o momento da liberdade?
Só a morte, a grande redentora universal, nos poderá libertar, descerrando a porta eril do nosso ergástulo.
Ah! então, as lágrimas que a dor nos faz verter se transformarão em róseas pérolas de ventura.
"Tenho, presentemente, inveja dos que partem para o Além.
Tão soldado me sinto ainda à Terra, que, prevejo, muito custará minha alma desprender-se da pétrea masmorra que a empareda!
"Estou, porém, conformado com a sorte.
Já sei abençoar cristãmente todas as adversidades.
Receio, entretanto, François, que se te fores, antes de mim, me venha a faltar a coragem que desde alguns meses tenho tido, pois me parece que o refrigério da paciência me vem das tuas palavras, das músicas que executas como se foras um enviado do paraíso, ser extraterreno, dotado da faculdade de aplacar as minas dores e recordações, como tinha Davi a de serenar, com a sua harpa celeste, a cólera de Saul!
Ai! que situação horrível será a minha, se vier a ficar só, com os meus pensamentos, com o corpo e a alma torturados tenazmente pelos sofrimentos físicos e morais!".
Ao ouvir essas palavras, verifiquei que me enganara supondo que a resignação se implantara naquele coração.
Então, querendo predispô-lo para a prova decisiva, disse-lhe:
- Preparai vosso coração, meu pai, para receber mais um tremendo golpe, que provavelmente será o último da vossa existência:
o de me ver desaparecer do cenário do mundo, ao cabo destes dias de amargura, que estão prestes a findar, pois já comecei a transpor o limiar da vida espiritual.
"Sinto que hora a hora o alento me vai faltando, que se adelgaçam os laços que me prendem o Espírito ao corpo, que em breve eles se romperão para sempre.
A ninfa está ultimando a obra de destruição dos liames que a mantêm encerrada no casulo, onde lhe falta a luz, e, dentro em pouco, se transformará na falena de asas ténues, ágeis, leves, diáfanas, que se elevará ao firmamento, em demanda da Pátria eterna".
* * *
- De nós dois, serei eu o que se libertará primeiro; mas Pressinto que me conservarei ao vosso lado.
Não deixarei, Portanto, para mais tarde um pedido que vos quero fazer e que, espero, será atendido.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 17, 2018 10:22 am

Quando, daqui a poucos dias, não me for dado consolar-vos, executando no meu violino as músicas que vos mitigam os pesares, não vos lamenteis nem vos desespereis por motivo da minha morte.
Sabe' quanto as nossas existências têm sido acidentadas, como os reveses e os sofrimentos se multiplicaram nelas; deveis portanto, compreender que será para mim uma dita alcançar a libertação do meu Espírito.
Figurai que concluí o meu tirocínio artístico e fui contratado para fazer parte de uma orquestra de profissionais, que esta irá tocar em longínquas terras e que, passado algum tempo, ireis ao meu encontro, com a saúde restaurada, com os passos firmes de um mancebo de dezoito anos.
"Imaginai ainda que, enquanto durar minha excursão, vos transmitirei constantemente meus pensamentos, que confabularemos amistosamente como agora, porquanto não ignorais que, livres da matéria, nossas almas podem confabular com os que lhes são caros no mundo, servindo--se de uma linguagem muda, mas inteligível.
"Rogo, pois, tenhais a maior e mais santa resignação, quando me virdes partir para o paraíso longínquo, de que vos falei, onde espero ser feliz, porque nesta vida só conheci o sofrimento e nunca me rebelei contra as Leis providenciais, não reincidi nos delitos que outrora cometi quase impunemente.
Humilhei-me quanto devia e, nos momentos das mais acerbas aflições, recebi a benéfica influência dos Mensageiros celestiais, que sobre a lápide da minha alma derramaram alegrias, como sobre um túmulo se espalham flores.
"Tive sempre o amor puro de Jeanne e o vosso amor de pai, os quais sinto que superarão o tempo e as distâncias.
Recebi do Céu alento nos instantes em que mais áspera era refrega moral, como recebi também as mais sublimes inspirações musicais, linguagem de numes, que escuto enlevado e mal posso interpretar nas cordas do violino, que, entretanto, exprime todos os sentimentos da alma humana.
"Não devemos temer a morte, uma vez que a consciência não nos acusa de haver transgredido as Leis Divinas.
Sabemos que o crime é sempre punido e a virtude galardoada.
Podemos, pois, sondar sem receio o futuro, que será o eco do presente.
Não maculamos as mãos na prática de nenhum crime, antes as enobrecemos pelo labor honesto.
Não profanamos os lábios com o perjúrio, a traição, o ateísmo.
Resta-nos, conseguintemente, esperar, com um estoicismo digno de Zenon,46 a hora extrema, serenamente.
"Assim, quando a minha vida, curta mas dolorosa a ponto de me parecer, às vezes, que já vivo há um século, for ceifada, porque o haja determinado o Criador, não deploreis o meu desaparecimento fugaz da vossa presença, certo de que mais tarde me encontrareis de novo, como a todos aqueles a quem consagrastes afeição imperecível e imaculada.
"Sede, portanto, intrépido e submisso às determinações do Alto.
46 Filósofo grego, fundador do estoicismo: doutrina que se caracteriza por uma ética em que a imperturbalidade, a extirpação das paixões, a aceitação resignada.
0 destino, são marcas fundamentais do homem sábio, único apto a experimentar a felicidade.
Gravai bem, no âmago do vosso ser, as minhas exortações.
É preciso que saibais sofrer nos momentos das provas definitivas.
Não imprequeis contra o destino.
Abençoai as vossas tribulações e dores, objectivando a felicidade que desfrutareis se souberdes cumprir a pena que vos foi imposta, pena aparentemente bárbara, mas de facto calcada no direito celestial, proferida por juízo absolutamente imparcial e justo."
Acabando de pronunciar essas palavras, ouvi soluços.
A palestra que entabuláramos, de cama para cama, cessou por instantes.
Fiz esforços ingentes para me levantar; não o logrei.
De mim se apoderara invencível languidez.
Invoquei o auxílio dos emissários divinos e só então me pude sentar.
Com tanta eloquência e persuasão lhe falei ainda da paciência necessária nos momentos aflitivos, que meu pai não articulou uma só queixa e me prometeu resignar-se à nossa próxima separação temporária.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 17, 2018 10:23 am

CAPÍTULO VII
Durante quase dois meses me pungiu um indizível pesar.
Supus haver perdido o estro musical, ter sido abandonado por meus queridos inspiradores.
Essa, de todas as minhas expiações, a mais dolorosa.
Muitas vezes chorei em silêncio, sem ter a quem transmitir minha tortura íntima.
Um dia, quase ao anoitecer, dirigi ao Criador uma súplica sincera e logo ouvi, numa linguagem muda mas enérgica, que se filtrava pelo meu cérebro, estas palavras:
- Empunha o violino.
Era uma ordem dos Invisíveis.
Para cumpri-la, ia chamar pela Margot, quando lhe ouvi os passos morosos no compartimento contíguo ao em que me achava.
Pedi-lhe me levasse o amado instrumento, que jazia no seu pequenino estojo, desde que a enfermidade se agravara.
Meu pai protestou, dizendo não consentir que, no lastimoso estado de fraqueza em que me encontrava, me fatigasse.
Temia uma funesta consequência.
Prometi-lhe ser moderado, executar só uma melodia e descansar longamente.
A custo sustive nas mãos o precioso instrumento quando das de Margot o tomei.
Faltava-me a força muscular necessária para com o braço esquerdo mantê-lo horizontalmente, assim como para premir as cordas e movimentar o arco Tal era a minha debilidade!
Pedi então à bondosa serva que me achegasse às espáduas as diversas almofadas, sobrepondo-as umas às outras.
Assim recostado, pude preludiar uma ária - a primeira que aprendera e com a qual sempre experimentava a afinação do violino.
Fazia-me, porém, sofrer o esforço que empregava para sustentá-lo nos meus braços esqueléticos e enfraquecidos pela febre.
Senti-o pesar tanto como se fora um alude colossal que, resvalando sobre eles, começasse a esmagá-los.
Meu pai, apreensivo, exclamou:
- Não faças um excesso que talvez te seja fatal, François!
Não agraves o teu estado, meu filho!
Por Deus, não te fatigues!
Não lhe atendi ao carinhoso apelo e continuei a dedilhar lentamente a ária, naquela santa relíquia com que Jeanne me presenteara, dominado pelo misterioso pressentimento de que nunca mais o faria de novo.
Tive ímpetos de abraçar o violino, de cobri-lo de beijos e lágrimas.
Cumpria-me, porém, ocultar o que em mim se passava.
Meu pobre pai me estava observando.
De repente, como se me houvesse transformado em barra imantada, um brando fluido magnético me percorreu da cabeça aos pés e meu corpo fremiu.
Experimentei, em seguida, agradável sensação de conforto e bem-estar.
Senti que sobre minha cabeça jorravam eflúvios benéficos, que se me infiltravam por todo o organismo, suavizando-lhe as dores, tonificando-o prodigiosamente.
De um só impulso me pus de pé, dentro de ampla camisa de dormir, que se assemelhava a uma veste talar, e que avultava na proporção do emagrecimento do corpo.
O violino, que pouco antes se me afigurava de bronze, mal podendo segurá-lo com o braço pendido, se tornou como que imponderável.
Com a mão direita comecei a impelir agilmente o arco, arrancando às cordas sons que pareciam desferidos por argentinas fibras.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 17, 2018 10:23 am

Inesperadamente sucedeu o que não acontecia havia dois meses precisos, desde aquela memorável noite em que adoeci gravemente:
entrei a escutar, num intraduzível arroubo, como se estivera com o ouvido no receptor de um telefone, cujos fios descessem do Infinito, maviosíssimas vibrações.
Eram dulcíssimas melodias, sonoridades incomparáveis, misto de luz e harmonias, que cascateavam do Alto, como se viessem de um festival seráfico fendendo o firmamento.
Fluíam de lá e se coavam em minh'alma, incendendo-a no seu cárcere sombrio.
Deixara de sofrer. Todas as minhas dores físicas desapareceram inteiramente.
Julgava-me elevado a uma região encantadora. Tinha os pés presos ao solo e a fronte mergulhada no espaço sideral.
Extático, principiei a divisar caracteres romanos, que, luminosos, iam surgindo um a um, formando uma legenda, ou uma epígrafe misteriosa.
Sem dúvida compunham o título daquela música deliciosa que eu, enlevado, executava. Formaram a curva de um arco-íris, destacadas todas as letras, como numa projecção eléctrica multicor, terminando o dístico por uma reticência de estrelas.
Li estas palavras:
La Dernière Larme***
* * *
Quanto tempo durou o êxtase?
Não o sei dizer...
Pouco a pouco me voltou a noção da realidade e pude compreender o que dizia o paralítico:
- É a tua mais bela produção, esta que acabas de executar, meu filho!
Jamais me esquecerei dessas volatas divinas, que me inebriaram por momento e que, julgo, ficaram insculpidas em minh'alma.
Porque se me não extinguiu a vida nestes instantes inefáveis?!
Morreria venturoso, se morrera ouvindo-as.
Tocaste uma serenata do céu, meu François!
- Sim, meu pai, também eu, sem imodéstia, a posso qualificar de sublime, porque ela, como aliás todas as composições que me atribuíram, é obra de virtuoses siderais.
Sempre as ouvi como se as modulassem nas mansões cintilantes os Espíritos purificados pela dor.
São eles os inspiradores dos artistas terrenos, aos quais, assim, dão a conhecer o regozijo que os aguarda no Além, se aqui não claudicarem, se conservarem impolutas as almas.
A composição que acabastes de ouvir, eu vo-la dedico.
É o meu canto de cisne.
E quem a mereceria mais do que o meu companheiro de cárcere?
Sabeis qual o nome que lhe deram?
- Se me competisse dar-lhe algum, escolheria o de Prantos fulgurantes, porque realmente, enquanto a apreciava, as lágrimas que me orvalhavam os olhos se tornavam brilhantes, se transformavam em gotas de luz, que me permitiram ver a nossa mísera alcova como que inundada da claridade de um luar que se difundia por toda ela.
Divisei, como se estivera alucinado, uma entidade vestida de luminosa neblina, com um dos braços alçado, fitando o céu, donde certamente desceu para mo apontar.
Imagina, François, que reconheci nessa aparição um ser que nos é muito caro, muito saudoso.
Vê quanto se deve achar refrigerado meu coração!
Ah! doravante, saberei ser digno da dor que me flagelar o peito e do céu que ma enviou, pois tenho quem me norteie para ele:
um dos mais pulcros arcanjos que lá decerto me aguarda para sermos ditosos.
Qual, porém, a epígrafe dessa melodiosa e célica produção?
- A derradeira lágrima.
- Antes o fosse para mim!
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 17, 2018 10:23 am

Ditas essas palavras, senti que me ia faltar o equilíbrio, que no meu íntimo algo de extraordinário se passara.
Senti-me novamente desamparado pelos Invisíveis.
Sofri violento abalo em todo o ser e, logo após, um desfalecimento invencível, a impressão de que fora arremessado da cúspide de uma torre a um abismo pavoroso.
As forças me abandonaram de chofre, como se houvessem isolado o dínamo - meu organismo - das baterias eléctricas.
Meus esguios braços ficaram inertes, frígidos.
Deles Pendeu o violino que outra vez se tornou pesado como se feito de bronze.
Resvalou até ao solo, foi cair junto do leito de meu pai, e, ressoando, como se soltara angustioso gemido, se espatifou.
Inutilizou-se o precioso instrumento, cujo tampo harmónico se espedaçara.
Meu pai deu um grito estridente de inenarrável pesar, como faria o desventurado Saul se visse em fragmentos a melodiosa harpa de Davi.
Percebi que se esforçava por apanhar do soalho o violino que afinal conseguiu.
Começou então a lhe passar pela fenda a única mão de que dispunha, como a passaria sobre uma chaga que desejasse ver cicatrizada.
Em outra ocasião teria compartilhado do desgosto paterno, mas, naquele momento, apenas uma fugitiva mágoa me aflorou à alma.
É que em mim se operava uma grave alteração.
Minha individualidade e meu corpo me pareciam diversos do que haviam sido até então.
Compreendi, por uma sensação indefinível, mas não inédita, que começara o afrouxamento dos laços fluídicos que me retinham o Espírito preso à argila humana e tive a lúcida certeza de que me não deveria afligir pelo violino amado, que já não tinha dono, pois minha existência se avizinhava do seu termo.
Um mundo, de que já não me lembrava mais, principiou a esboçar-se no meu íntimo.
Tinha a impressão de que meu crânio tomara proporções colossais.
Afigurou-se-me que minh'alma, depois de jazer em letargo por muito tempo, despertara aos acordes daquela sublime cavatina.
Comecei a distinguir, como em sonho, sombras, vultos femininos, envoltos em roçagantes clâmides de deslumbrante alvura, que desfilavam, ininterruptamente, a pouca distância do meu leito.
Tantas coisas fantásticas surgiam e desapareciam diante de mim, que meus sentidos físicos se embotaram. Tornei-me insensível aos padecimentos corporais.
Esqueci meu próximo fim, mergulhado num Letes profundíssimo, do qual me parecia que jamais havia de emergir.
Quase deixara de ter vida orgânica.
Sentia-me longe da Terra, próximo das paragens inatingidas pela dor e pelos seres que ainda se acham agrilhoados fortemente às vestes materiais.
Por fim distingui duas silhuetas graciosas, de túnicas nevadas, que se postaram uma aos pés, outra à cabeceira do meu catre, e não mais deixei de as ver senão quando se me romperam os últimos liames da vida.
Numa delas reconheci Jeanne e na outra um ente familiar também, meu protector bem-amado.
Não as enxergavam meus olhos feitos de luto, que nenhum milagre tornara perfeitos.
Era minh'alma, já quase exteriorizada do corpo físico, que as vislumbrava, ao clarão de suave radiosidade, que eu supunha descer, em bátegas de luz, do próprio Infinito.
Reconheci, por intuição, naquelas duas entidades, as adoradas atalaias que vigiavam todos os meus passos, que se desvelaram por mim durante toda a minha existência, enquanto lutei na arena terrestre, e que aguardavam meu regresso ao mundo em que habitavam, mundo das sombras para os precitos, mundo das luzes inextinguíveis para os justos ou regenerados.
Contemplava-as distintamente e por vezes as supunha tão achegadas ao leito, que estendia os braços, procurando segurá-las pelas vestes tenuíssimas, alvinitentes e intangíveis.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 17, 2018 10:23 am

Estava consumada a minha atroz provação - a cegueira.
Já não existia também, para mim, o mundo palpável, que eu apenas conhecera por intuição e pelos ensinamentos de Jeanne.
Um outro começara a se me patentear.
Era como se assistisse ao desenrolar de um filme cinematográfico, em que se sucedessem imagens de regiões extraterrenas de paisagens bizarras, crepúsculos de pérolas e de rosas alvoradas de ouro pulverizado, seres de beleza vestalina e andar alígero.
Compreendi o fenómeno que se dava comigo:
meu espírito já se libertara de muitos vínculos que o enclausuravam na prisão carnal, donde ansiava por se desvencilhar, qual falena que, ao se lhe dilatarem as asas de gaze, corrói os filamentos que a tolhem, para, librando-se nos ares, inebriar-se nos liriais em flor.
Já o sentia flutuante nos meus órgãos, qual bergantim que oscila sobre as vagas.
Ao passo que, aos poucos, se iam dilacerando os últimos elos fluídicos que ainda o ligavam à matéria, entrava eu na posse de uma faculdade potente, que reconhecia não pertencer à retina, mas à alma - a da visão.
* * *
Todas essas impressões que vos acabo de expor, querido amigo, experimentei-as nos breves segundos que se seguiram aos em que deixei cair das mãos o dilecto violino.
Meu pai, vendo-me quase desmaiado sobre as almofadas, deixou por sua vez cair de novo ao chão, com fragor, o pobre instrumento e se pôs a chamar-me reiteradas vezes, sem que me fosse possível atender às enternecedoras súplicas que me dirigia.
Chamou então a Margot, que não lhe respondeu, por se achar ausente naquele momento em que minh'alma se emancipava dos finais obstáculos que a prendiam à Terra.
Meu infortunado progenitor não cessava de implorar socorros para mim, delirando de aflição, no auge da angústia, até que, regressando, a dedicada serva acudiu, me acomodou na cama e entrou a fazer-me fricções na fronte e nos pulsos com um éter que não pude aspirar senão dificilmente.
Recobrei, porém, os sentidos.
À letargia sucedeu a exaltação febril.
Tinha sobre o tórax dorido um Etna47 em actividade.
A todos os instantes meu pai me interrogava, com a voz cheia de soluços e carícias:
- Que tens, que procuras, meu François?
Porque agitas assim os braços?
Quanto sofro por te não estar prestando auxílio algum!
Queres tomar o teu calmante?
Pude, pela última vez, balbuciar, num supremo esforço:
- Coragem, meu pai... chegou o momento de vos deixar... mas, não para sempre!
Soou a minha hora derradeira... já vejo seres incorpóreos, que a meu lado esperam minha partida...
É a morte que se aproxima, bem o sei, mas que não nos há-de separar... prometo mais uma vez... proteger-vos... amar-vos... não vos desamparar... jamais...
- Não me fales assim, François; é a febre que te faz tresvariar!
Acalma-te, meu filho, que ainda hás-de viver longamente para meu consolo!
Foi o excesso que fizeste, de tocar violino no estado de debilidade em que te achas, o que te pôs nesta agitação...
Foi...
Não pôde concluir a frase encetada:
apavorado, ele me viu soerguer o busto e golfar pela boca, numa onda espumosa e escaldante, todo o sangue que me restava no organismo, até a última gota.
Passei, então, por um esvaimento, uma tortura rápida e empolgante, ao mesmo tempo que branda anestesia me foi ganhando todo o corpo, paralisando-lhe os membros, tornando-os glaciais, dando-me a sensação de que os músculos se me fizeram de mármore, destacando-se os dos pés e dos braços por uma algidez extrema.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 17, 2018 10:23 am

Sobreviera-me, mais intensa, a dispneia e ligeira convulsão me abalou todo o corpo, contraindo as próprias vísceras.
O coração, que até ali palpitara precipite, começou a imobilizar-se, fremindo, por vezes, nas derradeiras sístoles e diástoles.
Afigurava-se-me estar prestes a adormecer profundamente, de um sono que me insensibilizaria por completo, distanciando-me do solo, fazendo-me ténue, leve, flutuante.
A calma aniquiladora em que me via era apenas perturbada pela voz de meu pobre pai a chamar pela Margot, dando-lhe instruções para me acudir e reanimar, prevendo o próximo fim.
Ouvindo-lhe as palavras de tribulação, de dor e de súplicas contínuas e inolvidáveis, com o pensamento alçado ao Criador do Universo, foi que deixei de viver nessa existência em que me chamei François Delavigne.
Lembro-me ainda, nitidamente, das comovedoras exclamações do meu desventurado companheiro de infortúnio ao notar que o alento vital se extinguia em mim. Foi ouvindo-as que expirei.
Exclamava ele:
- Deus meu! o que mais sinto é estar acorrentado ao leito, não me poder levantar para abraçá-lo pela derradeira vez!
É preciso que mo atirem sobre este corpo de pedra, para que lhe possa oscular a morta fronte inspirada!
Não me é dado prestar-lhe os últimos tributos de minha afeição!
Perdoa-me, François!
Meu adorado filho, cumpre o que me prometeste com tanta segurança: vem lenir as minhas amarguras para que eu não blasfeme até final cumprimento da minha cruel sentença - a de ver partirem para o sepulcro os entes que mais amei neste mundo!
Vai com Deus, meu François, roga-lhe por este infeliz ainda algemado ao corpo, para ser supliciado, e que acaba de perder o último ente idolatrado, que o confortava nas horas da desventura!
Por fim, deixei de ouvi-lo.
Meu corpo se enregelou inteiramente, fez-se rija estátua de gélido alabastro; minhas pálpebras cerraram-se fortemente numa última contracção, para todo o sempre - como a tela que desce sobre o derradeiro ato de um drama pungente, para ocultar aos espectadores um cenário desolado e sombrio - vendando meus olhos onde só trevas houvera.
Cessara o eclipse para minh'alma, que cumprira uma das suas mais acerbas provações.
Ela fora mondada de todas as urzes nocivas, sulcada pela charrua da dor, arroteada, enfim, para o cultivo de todas as virtudes, para que germinassem em seu seio, como searas divinas, todas as potências psíquicas, flores imortais que desabrocham nos paramos etéreos e que engrinaldam a fronte dos justos, dos habitantes siderais, flores cujas pétalas são feitas da mesma luz inextinguível que jorra do âmago das estrelas.
Findou-se assim a minha existência planetária, aos dezoito anos de idade, dez meses após o passamento de Jeanne.
É que, meu amigo, nossas almas não se adoravam menos que as de Castor e Pólux48 - um dos mais belos símbolos do amor fraterno - e, acendradas pelo sofrimento e pelas lágrimas em caudais fecundas, remidas dos trágicos delitos de suas precedentes encarnações, não mais precisavam das lapidações terrenas.
Aprouve por isso ao Omnipotente, sempre magnânimo, que a nossa separação não fosse longa e, com a sua misericórdia infinita, abençoou, afinal, a nossa inabalável e perpétua aliança!

47 Vulcão da Sicília ( Itália)
48 Heróis mitológicos.
Estes dois nomes são citados muitas vezes para simbolizar a amizade.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 17, 2018 10:24 am

LIVRO V - O homem astral

CAPÍTULO I

"Até hoje, vivi exilado da minha verdadeira pátria; volto para ela; não me choreis; recupero a morada celeste para onde cada um de nós seguirá por sua vez: lá está Deus."
HERMES
Eis-me de novo no Espaço, no pélago do éter e das constelações, de regresso de uma das mais penosas existências, em que minh'alma executou em surdina a sinfonia da dor e do pranto ignorados.
Logo que se quebraram as fêveras fluídicas que me retinham o Espírito preso aos tecidos corporais, ligeira perturbação me obumbrou as potências anímicas.
Em branda letargia imergiram todas as minhas faculdades intelectuais.
Esse estado, entretanto, não se podia comparar com o aniquilamento, com o torpor e a inquietação que me sobrevieram quando findou a vida planetária de Paulo Devarnier.
Desta última vez, parecia-me estar sob o império de um grato anestésico.
Embora um pouco aturdido, percebi que era transportado carinhosamente nos braços intangíveis de um ser que, conquanto vagamente, dava-me a impressão de não pertencer mais ao mundo cujos umbrais misteriosos acabava de transpor.
Umbrais misteriosos, digo bem, porque quer se trate de entrar na vida terrena, quer se trate de sair dela pela morte sempre os transpomos adormecidos, empolgados por um sonho aprazível ou doloroso.
Tive, depois, a sensação de estar cindindo os ares, ascendendo velozmente para uma região ignota.
Apesar de não me achar na posse plena das minhas faculdades, julgava-me venturoso e aguardava serenamente o julgamento de todos os actos que praticara durante a existência em que estive privado da vista, por sentença emanada do supremo tribunal divino.
Inigualável bonança, eflúvios de alegria e de paz me invadiram docemente o ser.
Não tinha a toldar-me a tranquilidade da consciência a mais ténue sombra de remorso pela transgressão dos deveres humanos e espirituais.
Regozijava--me por me haver submetido aos decretos do Omnipotente, por não haver conspurcado meus lábios com alguma blasfémia; por ter cumprido, quase austeramente, a minha pungentíssima missão terrena.
Era, pois, tranquilo que me recordava de quase todos os episódios da última encarnação, não tendo a vergastar-me a consciência o látego do remorso, parecendo-me que superara os óbices, nos momentos das lutas morais.
Tudo isso me passou pela mente, enquanto ia sendo conduzido por uma entidade protectora, como pelos tutelares braços maternos um infante adormecido, sem descerrar as pálpebras.
Estranha força me obrigava a conservá-las fechadas, como se ainda estivesse cego.
Depois, senti que me depositavam docemente sobre um solo relvado, macio, como que feito de pelúcia ou arminho.
Um estremecimento me agitou todo o ser.
Logo, pude erguer-me e abrir os olhos.
Amigo! Há impressões que jamais poderemos traduzir, por serem inexpressivos os vocábulos.
Falta-lhes o colorido sem o qual não logramos exprimir os sentimentos que nos tumultuam dentro d'alma, nas horas de emoções intensas!
Fácil, porém, vos é compreender o que comigo se passou!
Oh! poder, enfim, após quase quatro lustros em que tive os olhos sempre enlutados, contemplar a Natureza, num desabrochar radioso de manhã primaveril, em zona equatorial; poder mergulhar a vista na amplidão sidérea, pincelada de ouro e nácar diluídos nas fráguas do Criador do cosmos!
Depois da treva, da sombra, da penumbra, do eclipse, um arrebol! a Terra em flor, a luz volateando em jorros pelo Infinito, numa profusão digna do Senhor do Universo!
Cessara a cegueira que me obscurecia até a própria alma, porquanto esta, constrangida na tétrica prisão carnal, raras vezes vislumbrava efémeras alvoradas, rápidos crepúsculos, fugazes meteoros que passavam, deixando-a ofuscada e caliginosa.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 17, 2018 10:24 am

Saber que terminara, afinal, a acerba prova com que a Providência aferira a minha resignação e a minha humildade; recobrar um dos mais belos atributos espirituais - o da penetração visual; poder admirar a Natureza, as maravilhas que a embelezam, os astros irisados que fulgem no firmamento, formando uma gama portentosa de colorações, de cambiantes, que deslumbram as faculdades enfraquecidas daquele que apenas acordou do sono tormentoso que se chama vida terrena, oh! que ventura!
Considerai tudo isso e compreendereis, bom amigo, o júbilo que de mim se apoderou.
As horas decorriam com assombrosa rapidez e não me fatigava de fitar o que me circundava, de embriagar-me na contemplação das flores silvestres, dos vegetais, da amplidão azul, zimbório cinzelado num só bloco de turquês.
Pus-me a sondar tudo quanto a vista alcançava, desejando orientar-me a respeito do local a que me haviam levado.
Em que região do globo terrestre estava eu?
Sabia apenas que me encontrava no cimo de uma cordilheira gigantesca.
Era alvo condor feito de brumas e pousado no dorso de descomunal megatério, que os séculos petrificaram.
Apesar das névoas que a embuçavam, semelhantes a um cendal de gaze tenuíssima, de brancura açucenal, minha visão, decuplicada, varava uma extensão incomensurável.
Ao longe, descortinava um oceano undoso; singravam-no inúmeras embarcações, com as suas velas desfraldadas, banhadas de sol.
Assemelhavam-se a um bando de alcíones, brancos, aninhados nas vagas com as asas longamente espalmadas para o Além.
O nevoeiro que me cercava no cume da serrania, atravessado por farpas luminosas arremetidas do levante, se desfez aos poucos, desvendando o horizonte róseo, de um matiz incomparável de flores de macieira ou de eloendros desmaiados. Apolo49 inflamou, então, com espadanas douradas, toda a Natureza, que cintilou por entre fulgurações de diamantes em combustão, liquefeitos, ainda coruscantes.
Admirava-me de conservar latentes na memoria todos os conhecimentos e toda a nomenclatura das coisas, todo o acervo de recordações de passadas eras, em que não ignorava as formas, nem cores de quanto a Terra contém.
Surpreendia-me o verificar que subitamente se reavivaram todas essas percepções, como que ao mando de um condão mágico.
O tempo deslizava celeremente e eu não me saciava de admirar a Criação, que é amar o Arquitecto do Universo, é tributar-lhe uma homenagem sincera, tácita, inexprimível; é erguer-lhe, do dédalo do nosso ser, uma prece silenciosa que escala o Espaço, evolando-se do nosso imo como das corolas fragrantes se desprende o aroma que transpõe os ares em ondas de delicioso perfume, até atingir o próprio céu.
Começou a anoitecer lentamente.
O Ocidente, numa apoteose crepuscular, parecia incendiado por um Nero50 que, montando alado Pégaso,51 galopasse pelo Infinito, numa ânsia louca de Arte suprema.
Depois, como se potentes duchas invisíveis jorrassem sobre as rubras e áureas labaredas, ateadas havia poucos instantes, o fulgor do ocaso foi empalidecendo, desmaiando, até se extinguir de todo, tornando-se cinéreo, figurando colossal forja apagada.
Qual cortina que oculta um cenário infindo, as sombras velaram então, por alguns momentos, os píncaros da cordilheira em que me achava sem outro pensamento que o de explorar o que me rodeava.
Morosamente o céu principiou a porejar sóis, primeiramente isolados, depois em profusão maravilhosa.
Eram exércitos lúcidos mobilizados no firmamento, em marcha cerrada e vitoriosa para uma conflagração de nuvens, brandindo baionetas coruscantes.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 18, 2018 11:55 am

Do mesmo passo que iam surgindo, o solo também ficava salpicado de luz, porque os lampejos esvoaçavam sobre os vegetais como minúsculas e aladas estrelas de esmeralda, caídas do domo sideral, ensaiando graciosos volteios aéreos.
As constelações me fascinavam:
eram punhados de ouropéis disseminados copiosamente pela amplidão etére mais nalguns pontos do que noutros, e as argênteas nebulosas me davam a impressão de que miríades de astros haviam sido triturados numa ciclópica mó, reduzidos a poeira que, em seguida, um harmatão desenfreado espargira pela cúpula celeste, formando a via-láctea, que a cinge de um pólo a outro, qual Arco de Triunfo posto sobre a Terra, por onde as almas sonham ascender, supondo-o a estrada do ideado Paraíso.
Mirando os primores divinos, em minha mente irromperam ideais retrospectivas, de uma romaria prodigiosa através do empíreo.
Aos poucos, todas as recordações se aviventaram, todas as cenas de meu último avatar se desnudaram.
Então pensei longamente em meu pai, que ficara muito além, a carpir decerto a minha ausência.
Enterneci-me e as lágrimas gotejaram de meus olhos.
Se algum habitante planetário me ouvisse agora, talvez sorrisse. indagando desdenhosamente.
- Quê! Como pode existir a lágrima, quando os órgãos estão verminados no âmago do sepulcro?
Ai! é que esse ente ignora ainda que o sentimento não medra da matéria, que o pranto não se gera nos vasos lacrimais, que ele nasce na alma, que o expele gota a gota, quando emocionada ou entristecida.
O sentimento a acompanha, espaço em fora, porque ela é a sua sede.
Podemos assim chorar mais copiosamente depois de desmaterializados do que com o espírito encerrado no ataúde carnal.
As lágrimas são átomos da nossa própria alma, quando a dilacera a dor.
Comovido, pois, com a recordação do mísero paralítico, empolgado pela magnificência do firmamento, ajoelhei-me e, por muitas horas, na calada da noite, meus pensamentos se elevaram até ao sólio do Sempiterno, estabelecendo-se uma misteriosa comunhão entre eles e a vastidão cerúlea, como se um hífen os ligasse, ou como se galgassem um a um os degraus de luminosa escada.

49 Deus grego e romano dos oráculos , da medicina, das Artes, dos rebanhos, do dia e do Sol. Filho de Zeus.
50 Imperador romano de 54 a 68, a quem se atribui o incêndio de Roma, a que assistiu, declamando versos que compusera.
51 Cavalo alado que nasceu do sangue de Medusa.
É o símbolo da inspiração poética; supõe-se que leva os poetas pelo Espaço.
Montar o Pégaso ou cavalgar no Pégaso significa fazer versos.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 18, 2018 11:55 am

CAPÍTULO II
Após longas horas de meditação, no silêncio majestoso da noite, sob o esplendor da abóbada estrelada, foi-me surgindo nitidamente, no cenário da imaginação, o conhecimento exacto de toda a minha última existência.
Recordei meus raros contentamentos, meus grandes pesares, o pranto que vertera em momentos de amargura, os afagos de Jeanne, as lamentações e o sofrimento do nosso progenitor; meus arroubos musicais, os aplausos que obtivera em instantes de sublime inspiração.
Sentia-me venturoso, intimamente banhado de incomparável tranquilidade.
Verdadeiramente reconhecido ao Altíssimo, tornei a agradecer-lhe a magnanimidade de que usara para comigo, o auxílio espiritual que nunca me fora negado nos dias aflitivos.
Se tivesse ao meu alcance um instrumento sonoro, uma harpa, um violino, um piano, comporia ali uma sinfonia consagrada ao Sumo Artista, tributando-lhe assim, em ondas musicais, toda a gratidão que de mim transbordava pelos benefícios que dele recebera.
Ao conceber essa ideia, logo se me tornou visível um ente formosíssimo, de alvíssimas roupagens, postado à minha frente.
Reconheci nele, por um rápido despertar de reminiscências, o meu amado Guia, o meu Inspirador divino.
Certamente a ideia que acabara de corporificar-se na minha mente fora por ele sugerida.
Sua presença iluminava o local em que me achava.
Prosternei-me a seus pés, como o cristão ante um altar sagrado, sentindo-me vibrar de intenso reconhecimento.
Ele, porém, me ergueu suavemente, roçando-me a fronte com a sua destra radiosa, e logo, dadas as mãos e fitando o céu constelado, que começava a desmaiar aos primeiros albores do Oriente, fizemos juntos uma prece ao Incriado.
Em seguida ele disse, com um timbre de voz que me era familiar e infinitamente melodioso:
- Não foram inúteis, felizmente, os meus esforços por te suster a alma, que pendia para o vórtice do erro e do ateísmo, por alçá-la aos páramos sidéreos!
Atendeste fielmente às minhas inspirações, superaste intrepidamente os escolhos das árduas provas; nunca imprecaste contra as vicissitudes da sorte, nem contra o destino traçado por aquele a quem aprouve dar-te a luz da vida sem a das pupilas, de ti ocultando toda a Criação, como se a envolvera em lúrida cerração, a fim de que dentro do teu ser se patenteasse um mundo, que desconhecias, o mundo subjectivo.
"Soubeste lenir com o bálsamo da resignação todas as dores - físicas e morais - que te não faltaram, foste humilde e paciente nas horas das ríspidas mas profícuas lapidações psíquicas; amparaste e confortaste aquele que era o teu progenitor adorado e no qual não reconheceste o primo crudelíssimo, o adversário execrado em muitas encarnações e que, na penúltima, te assassinou impiedosamente, naquela em que foste Paulo Devarnier.
"Ainda te assustas, meu irmão?
Tremes, ao sondar o báratro do passado?
Serás capaz de adiá-lo novamente?
Não reconheceu o teu espírito, um momento sequer, nessa finda existência, o antigo e implacável inimigo que te causou tantos desgostos e cujo coração também feriste com incomparáveis ultrajes?
"Não imaginaste nunca que Carlos Koeler era o Delavigne, que tantas vezes osculaste?
Não, eis o que dizes e é o que eu esperava de ti.
"Compreendes agora por que no período mais agudo da enfermidade de Delavigne, ele parecia detestar-te e à tua irmã, quando íeis visitá-lo ao hospital onde jazia, vítima de heróico altruísmo? Lembras-te de como o teu coração se confrangia de terror ao ouvires dele palavras de maldição?
É que seu cérebro, incandescido pela febre, semelhante ao vulcão que, quando em actividade, arremessa longe as lavas mais profundas - arrojava de seus abismos interiores, dos verdadeiros subterrâneos do espírito, todas as reminiscências, as escórias de um passado de abominações, que ressurgia qual espectro pavoroso a erguer-se de um ossário funéreo.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 18, 2018 11:55 am

"Sentes, no recôndito de tua mente, algum átomo de aversão contra ele? - Não! - é o que me respondes na tua consciência íntegra e translúcida de ser evoluído, vejo que votas sacrossanta ternura àquele desditoso.
"Ao recordar o teu nobre espírito onde predominam os sentimentos generosos, todos os extremos que recebeste de quem, tendo-te ceifado a vida numa existência, te deu o ser em outra; ao te lembrares da afeição lídima e inextinguível daquele a quem chamaste - Pai! - e que trabalhou para a tua manutenção, quando eras desventurada criança cega; ao pensares no teu companheiro de lutas e infortúnios, que aumentaram e solidificaram o amor que lhe tinhas; ao te recordares de quem suportou a teu lado os mesmos golpes que te feriram o coração; daquele a quem consolaste nos momentos de amarguras inauditas; daquele a cujo espírito - torturado pelo cepticismo e pelo desalento - deste o refrigério da fé e da esperança; daquele a quem prometeste lenir as mágoas, cicatrizar as chagas que em seu coração abriu o punhal da dor, assim transpusesses o limiar do mundo em que já te encontras e ao qual regressamos finda cada uma das nossas missões terrenas, tu choraste, François!
"Bendito pranto o teu!
Choras ainda!
Ah! como são diversas as tuas lágrimas de hoje das que vertias quando ainda eras réprobo, quando tinhas a alma açoitada no abençoado pelourinho do remorso, que leva o delinquente a investigar os seus próprios crimes, a sentir horror das vilanias praticadas e o encaminha para o bem e para a virtude!
Essas gotas, que destilam de teus olhos, são aljofres de enternecimento e de saudade e não mais chispas de compunção, de desespero, de ódio e de dor!
"Meu irmão, eis-te com o espírito depurado pelo sofrimento, desbravado pelas provas ásperas mas benéficas, preparado, enfim, para os grandes surtos, os sublimes tirocínios de mensageiro divino, para os mais nobres cometimentos!
"Não tens mais a enegrecê-lo nenhum lodaçal de crimes, nenhum labéu de ódio, de perjúrio, de ateísmo, de traição, de vingança.
Está níveo e subtil.
Ele se enrijou, como aço, na forja da dor, adquirindo uma têmpera inquebrantável; não é mais idêntico ao que já foi; de diamante tosco e informe se tornou luminoso, semelhante a uma cintila de estrela, graças às torturas da lapidação.
Acha-se actualmente mais alvo e diáfano que um floco de bruma aureolando uma cordilheira, à hora do alvorecer, e já principia a inundar-se de um luar inextinguível.
"Conheces, agora, a omnisciência do Altíssimo; sabes quanto ele é compassivo, magnânimo, paternal para com os transviados, concedendo-lhes guias e instrutores dedicadíssimos, que os arranquem do sorvedouro do erro e os elevem às estâncias de luz.
Já não ignoras por que modo ele põe termo ao rancor dos adversários:
soldando-lhes os Espíritos pelo mais excelso amor, acorrentando-os para sempre com os vínculos dos mais dignos e nobres sentimentos!
"Pela afeição filial estás ligado àquele que viste padecer, Delavigne, cuja fronte marmorizada pela insónia e pela desventura beijaste muitas vezes, cuja mão estreitaste carinhosamente em horas tormentosas de acerbos reveses.
Já não mais podes esquecer e abandonar o infeliz que deixaste na França, sonhando com a felicidade de contemplar - finda a sua espinhosa jornada - os dois seres que, há muito, são por ele amados quanto foram, outrora, odiados; que lhe dulcificaram as amarguras da vida e aos quais ainda chama queridos filhos, completamente esquecido do tenebroso passado.
"Eis como se patenteiam a necessidade e a conveniência do esquecimento de todos os episódios de suas transcorridas existências para a criatura que se acha enclausurada no aljube carnal.
Só assim se opera, por alquimia divina, uma ^sombrosa metamorfose no escrínio da alma:
do ódio, larva repulsiva, que corrói todas as alegrias, todos os mais generosos sentimentos, todos os impulsos para o bem e para o perdão, despontam - após as expiações longas e flageladoras - as asas gráceis da borboleta gentil que é o amor, seja este filial, conjugal, paterno ou fraternal, capaz dos menos concebíveis sacrifícios remissores.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 18, 2018 11:56 am

"Explicam-se deste modo as tuas mais pungitivas provas, mormente a da cegueira e a da perda de entes estremecidos.
Aquela foi para que te humilhasses; para que melhor domasses os teus ímpetos de rebelião contra o destino, para que pudesses avaliar o poder do Criador, a quem não sabias venerar; para que te compenetrasses de que unicamente dele derivam todos os bens que desfrutamos, todos os nossos sentidos corpóreos, dos quais a falta de um só nos faz imperfeitos, desditosos, mutilados.
A outra, a da separação dos entes dilectos, serviu para que aprendesses a avaliar a dor que farpeia os corações, quando os ferimos com a deslealdade, com o menosprezo pela honra alheia; para que avaliasses a extensão e a pureza de teus próprios sentimentos.
Não é absolutamente justo que os seres a quem infelicitamos outrora não possam concorrer para a nossa ventura senão depois que lhes consagramos afeições extremas e imorredouras?
"Remiste, porém, pelo amor impoluto, pelo desvelo, pelo labor, pelo respeito às leis celestiais, todas as máculas do passado, da época em que levavas aos lares castos o vitupério, o luto, a lágrima, ficando impunes os teus delitos.
"Quando a justiça humana se mostra impotente e falha para reprimir os erros danosos e prejudiciais à colectividade ou a um de seus membros, a Témis Divina52 lavra irrevogável sentença, que tem de ser cumprida inflexivelmente
"Assim se opera a reabilitação decretada pelo Céu.
E do esforço próprio do antigo precito depende acelerar ele a sua redenção, obter o alvará da liberdade, depois de cumprida a pena, que sempre equivale à falta praticada.
"Na tua última encarnação conseguiste, com esponja embebida na lixívia das lágrimas, limpar as páginas em que se achavam exaradas todas as tuas transgressões, todos os flagícios que havias cometido.
Tens agora, no espírito acendrado pelas duras provas, a diafaneidade das gazes liriais, a alvura e a pureza da neve e o aroma delicado dos jasmins".
* * *
- Com relação a Jeanne, quero ainda perguntar-te:
Não reconheceste na irmã adorada a tua amante de outrora, ou a tua noiva dilecta, a encantadora Elisabet, por quem tanto sofreste?
Não - dizes tu.
Entretanto, as recordações do que já foste começam a abrolhar no teu intelecto, que ficou obumbrado pela matéria e só readquirirá toda a sua lucidez quando se dissipar o último laivo de perturbação.
"Quando amaste mais a essa criatura - como noiva ou como irmã?
Como irmã certamente, pois que Jeanne consubstanciava, para o teu espírito, todos os afectos humanos, sem o menor ressaibo de impureza.
Sentias por ela ternura, afeição fraternal, veneração, sem que, uma vez sequer, pudesses contemplar o seu perfil angélico.
Tu o trazias, porém, encarcerado no hostiário de tua alma, como a fragrância das violetas ocultas sob as folhas, que parecem verdes corações aconchegados, velando pelas flébeis florzinhas para que não as devassem profanos olhares, tal qual fazemos com os nossos mais cândidos sentimentos.
"Vais, enfim, após decénios de amarguras, que ressarciram as ignomínias de outras eras, poder unir-te perpetuamente àquela que foi a origem de tuas mais graves iniquidades, mas que também concorreu depois, eficazmente, para que te elevasses moral e intelectualmente, transformando em culto o afecto que lhe dedicas.
Sim, não é mais o amor humano que te alia à alma açucenal de Jeanne, mas a imorredoura afeição fraterna, a que sempre prevalece sobre todos os sentimentos afectivos, a única indestrutível, a que entrelaça os seres, redimidos pela dor, os nivela na mesma hierarquia espiritual, os agrilhoa eternamente, tornando-os irmãos que reciprocamente se buscam, que se congregam em esferas fulgidas, juntos executando missões nobilíssimas.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 18, 2018 11:56 am

"A fraternidade é o penúltimo elo da quase infinita cadeia das mais dignificadoras afeições; somente ela faz que se confundam e incorporem, numa única, duas ou muitas almas afins, que se tornam gémeas pelo mesmo grau de elevação moral, pela harmonia dos pensamentos, capazes desde então de executar sublimes cometimentos.
Acima do amor fraterno só há um outro, indefinível, forjado de luz, de aromas, de melodias:
é o amor dos amores, o amor supremo -o que consagramos ao Criador do Universo!
"Já tens, meu irmão, essas duas fagulhas deificas para te iluminarem o espírito e foram elas que te fizeram o coração invulnerável aos golpes do venábulo das paixões criminosas, das imperfeições de carácter, dos erros ignóbeis.
Saíste ileso das derradeiras pugnas morais em que entraste e p0r isso conquistaste o troféu, a que aspiras há mais de um século - a tua união com o ente adorável que, ultimamente conheceste com o nome de Jeanne.
"Previno-te, porém, de que não está finda a tua tarefa e jamais o estará.
Deixaste na Terra aquele que, em existências infrutíferas, como foram muitas das tuas, poluiu as mãos em crimes hediondos - homicídio e suicídio -, arrastado ao turbilhão das iniquidades por tua causa.
Já iniciaste a sua reabilitação e tens que erguer às paragens radiosas aquele Espírito, ao qual estás preso por liames indissolúveis, urdidos de carícias, de acatamento, de sacrifícios, de amizade recíproca, que se denominam amor paterno e filial.
"Não está, pois, consumada a tua missão no planeta a que te achas ainda ligado por compromissos sagrados e inalienáveis.
Vais repousar por algum tempo, numa das mansões venturosas da Criação, refazer a têmpera da tua alma, após os torneios arriscados do sofrimento, recordar o que já foste, receber imprescindíveis instruções.
Em seguida, aqui voltarás custodiado por mim, que te norteio há séculos, com um desvelo que não podes pôr em dúvida, empenhado pela tua definitiva regeneração.
"Lembra-te, sobretudo, de que prometeste mitigar os infortúnios, a acerba saudade de quem expia excruciantemente os seus desvios, supondo-se abandonado nos instantes de indizíveis tormentos íntimos!"
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Ave sem Ninho

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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

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