NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Página 2 de 7 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7  Seguinte

Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 08, 2018 10:24 am

Encararam-me com desprezo e arrogância, deixando que pelos olhos chamejantes, a despedirem jactos de fogo diabólico, explodisse o ódio que me votam.
Carlos bradou, sacudindo os punhos, como costumava fazer para me ameaçar, quando eu era indefesa criança:
- Atreveu-se a vir a esta casa, vil traidor?
Como que electrizado, impelido por baterias poderosas, adiantei-me para quem pronunciara aquelas ignominiosas palavras, empunhando um revólver, quando vi a enferma levantar-se, e, interpondo-se aos dois, dizer ao ofensor, com uma energia que não admitia réplica:
- Não o insultes mais, Carlos!
Se me desobedeceres, amaldiçoar-te-ei, serás o responsável por minha morte e Deus não deixará de te punir severamente!
Depois, mudando de tom, me disse suplicante:
- Paulo, eu te rogo, em nome de Deus e no de tua mãe, que não repilas a afronta que acabas de receber e que te retires em paz da nossa casa, para que se evite uma irremediável desgraça.
- Defendeis um traidor, um francês, minha mãe? - rugiu Carlos, cujas pupilas dilatadas pareciam esguichar flamas infernais.
Fui tentado novamente a dar-lhe uma resposta equivalente à injúria, mas, de repente, vi minha infeliz tia cair desmaiada a meus pés, e Bet - a minha idolatrada noiva -precipitar-se sobre o corpo inanimado, tentando erguer-lhe a cabeça encanecida.
E assim, ajoelhada e soluçante como estava, me dirigiu um olhar inesquecível, através de lágrimas, como a me implorar piedade, protecção, ou para firmar comigo um eterno pacto de fidelidade e de amor.
Soube, então, conter-me a tempo de evitar um crime, apertei-lhe a destra para provar que lhe havia compreendido os pensamentos e, depois, fitando altivamente a Carlos, disse-lhe:
- A hora é imprópria para desafrontar a minha dignidade que ultrajaste vilmente, mas ainda saberei provar-te que a têmpera de uma espada francesa não é inferior à de uma prussiana... até a vista!
Elisabet continuava a soluçar convulsamente.
Sem ter podido dirigir-lhe sequer uma palavra de carinho ou conforto, saí precipitadamente e, sentindo desde aqueles momentos rugir no cérebro uma tempestade de ódio, de desespero, de revolta, não me foi mais possível olvidar a cena pungentíssima que presenciei.
Aquela alcova e aquelas criaturas ficaram, até hoje e para sempre, esculpidas na minha mente, como se nela tivessem sido pirogravadas, para meu constante suplício.
Parece-me estar a ouvir, incessantemente, a voz colérica de Mateus dizendo, na hora em que eu transpunha os umbrais do quarto com o coração apunhalado de dor:
- Malditos Devarnier!
Acabam com a nossa família! Têm um influxo nefasto e satânico que nos causa uma desgraça sempre que aparece algum deles.
Imaginais como fiz a viagem de regresso à França, caro amigo.
Não vos digo uma inverdade declarando que, a levar esta existência intranquila como a tenho, desde que fui a Berlim, fora preferível que, no instante em que me retirei da residência de Elisabet, o sabre de Carlos me houvesse atravessado o coração.
E vivo assim, meu amigo, há quase três anos, sem ter tido desfecho o drama da minha vida, sem ter recebido a mais ligeira notícia de minha noiva e sem ter podido ainda voltar a Berlim para cumprir o que prometi a Elisabet.
Que é que lhe sucedeu durante este lapso de tempo?
Que novos tormentos já lhe infligiram seus algozes?
Avaliai a inquietação e a agonia do meu viver desde então, esperando a todo o momento uma notícia alarmante vinda da Alemanha, onde não me é permitido ir agora, pelo governo francês.
Às vezes empalideço mais e sinto esvair-se-me o coração dentro do peito, numa inaudita angústia, ao ver algum estranho se aproximar de mim. Julgo que me vem apenas dizer:
- És Paulo Devarnier?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 08, 2018 10:24 am

Pois bem, venho informar-te que Elisabet Kceler morreu.
Compro, às vezes, algum diário tudesco e, instintivamente, procuro a seção do obituário, ou então o deixo cair das mãos, faltando-me ânimo para receber de chofre qualquer nova deplorável referente à minha noiva.
Eis como vivo amargurado.
E o que mais me conturba a consciência é pensar que a mãe de Bet - a única criatura que protegia a nossa afeição ilibada, compreendendo-lhe a intensidade e a nobreza - faleceu em consequência do abalo recebido naquela noite em que estive no seu lar.
Quer isso dizer que minha noiva, inerme, deve achar-se enferma, espezinhada, padecendo contínuos desgostos por minha causa.
Parece-me vê-la, sem cessar, genuflexa - semelhante a um marmóreo arcanjo de sepulcro - tal como a contemplei pela última vez, e um pesar inominável me devora o peito por não poder ir arrancá-la ao julgo mefistofélico de três verdugos empedernidos!
Sem o desejar, tenho sido, realmente, o causador da desventura de tantas almas puras e merecedoras dos melhores quinhões de felicidade terrena.
Às vezes, dou razão a meus adversários:
parece-me, efectivamente, que a fatalidade me assedia sem cessar, que nasci de uma união não abençoada pelo chamado Criador do Universo, e, por isso, ocasiono desditas àqueles a quem me afeiçoo ou que me honram com a sua amizade.
Previno-vos ainda a tempo, prezado amigo!
- Não, meu amigo - repliquei - laboras num erro absoluto:
o Eterno, a Justiça Suprema não pune a quem quer que seja, por nutrir o mais nobre dos sentimentos humanos - o amor ou a amizade!
Tens sido apenas vítima do orgulho indomável dos teus parentes, que, iníquos contigo, nunca te julgaram com imparcialidade.
"Teus primos foram e são teus inimigos rancorosos desde que te conheceram, sempre se consideraram teus superiores - apesar do íntimo parentesco que vos liga - por ódio ou por preconceito de raça, que os cega e que também nos separa, talvez eternamente, a nós franceses e prussianos, povos ambos de um mesmo continente.
"Não deves, pois, persistir nesses pensamentos lúgubres de pessimismo ou de fatalismo.
"Queres que te aconselhe paternalmente?"
-Sim!
- Aventuro, então, uma ideia, que submeto à tua apreciação:
porque não mandas um emissário à Alemanha para te trazer de lá notícias positivas de tua noiva?
"Não é preferível que as tenhas - sejam quais forem - a ficares padecendo o suplício desta incerteza?
É melhor saber a realidade - por mais penosa que seja - do que permanecer em aflitiva perplexidade."
- Aceito-a, meu amigo - exclamou ele - e vou pô-la em execução:
sou um náufrago e não devo repelir a tábua salvadora que me atiram vossas mãos generosas.
No dia seguinte ao em que tão longamente confabulamos, Devarnier pôs em prática a ideia que eu lhe sugerira:
um emissário partiu de Bruxelas para Berlim, levando instruções minuciosas a respeito do que desejávamos obter - notícias minuciosas e positivas de Elisabet.
Foi encarregado dessa delicada missão um prestimoso e inteligente conterrâneo nosso, que fez ingentes esforços por desempenhá-la satisfatoriamente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 08, 2018 10:25 am

CAPÍTULO VI
Transcorreram alguns dias sem que tivesse ensejo de estar com Paulo Devarnier.
Uma tarde, supondo-o enfermo, preocupado com a sua ausência, tomei a deliberação de ir procurá-lo na própria residência, onde me informaram que o meu confidente partira inopinadamente, havia apenas poucas horas, para a França, em cumprimento de um dever militar urgente, e que deixara alguém incumbido de me entregar um bilhete expresso em poucas palavras, traçadas de escantilhão e com visível nervosismo.
Ainda as conservo quase ilesas na memória e aqui as reproduzo:
Chamado inesperadamente à França, vou partir com o espírito opresso por inexprimível pesar, visto não ter ainda recebido as almejadas notícias da Prússia.
Prevendo este sucesso, pedi ao amigo F... que, na hipótese de me não encontrar mais aqui no seu regresso, vos relate tudo que houver ocorrido durante a missão que está desempenhando e, então, far-me-eis o inolvidável obséquio de me dar circunstanciados esclarecimentos acerca do que me interessa saber, não me ocultando a realidade, por mais sombria que seja.
Adeus! Não sei quando nos veremos outra vez, mas conjecturo que será em nossa pátria, onde continuaremos as nossas amistosas palestras.
Perdoai-me não ir abraçar-vos. Tenho estado enfermo de inquietação e parece-me que o mais leve abalo moral me dará o que tanto ambiciono - o repouso perpétuo!
Antes, porém, de me ser arrancada à alma a derradeira pétala de ilusão, desejo saber o que se passa em Berlim.
Insensata Humanidade!
Apega-se, à beira de uma hiante voragem, até a um farrapo de neblina, para conservar a vida, quando seria mais racional atirar-se, voluntariamente, ao fundo do abismo por mais pavoroso que fosse.
Deixo-vos o endereço do meu albergue em Paris.
Um saudoso amplexo de despedida do desventurado - Paulo.
Achava-me, poucos dias depois do recebimento desse aviso, agitado pelos sucessos que, inesperadamente, me infelicitaram em Bruxelas, ameaçado, ainda no exílio que me amargou a existência durante quase dois décimos de século, de ser repelido do solo belga, por haver oferecido asilo, no meu próprio lar, a compatrícios perseguidos, expatriados como eu, quando me foi procurar o medianeiro de Devarnier.
Fi-lo sentar-se e ele me disse:
- Senhor, não encontrei mais em Bruxelas o nosso comum amigo Paulo e foi melhor assim.
Os informes que colhi são quase todos desfavoráveis ao nosso conterrâneo.
Vou, agora, sucintamente, inteirar-vos de tudo que aconteceu com relação ao desempenho do meu encargo.
Chegado ao termo da V1agem, dirigi-me, segundo as instruções recebidas, à casa da noiva de Paulo, mas encontrei-a ocupada por outros moradores.
Após rigorosas pesquisas, soube que a Srta. Elisabet se acha reclusa numa residência isolada - e com maior severidade, depois que a mãe faleceu -, só podendo assomar a alguma janela acompanhada de um dos seus algozes.
Vive, actualmente, valetudinária e espionada, na companhia do velho pai que, às vezes, mostra não a querer contrariar mais na sua aspiração de se consorciar com o primo, temendo vê-la sucumbir aos desgostos, como já sucedeu à sua mulher.
Mas os irmãos da vítima, cada vez mais odiando a Devarnier, não afrouxam o rigor, não permitem que em casa entre material de escrita, para que a infeliz reclusa não possa transmitir seus pensamentos ao noivo distante.
"Há poucos meses agravou-se-lhe a situação, pois os irmãos querem obrigá-la a contrair matrimónio com um oficial do exército austríaco - que ignora, por completo, o compromisso que há entre a sua pretendida esposa e o primo.
Este enlace, porém, talvez não se realize, porque a Srta. Elisabet está seriamente enferma.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 08, 2018 10:25 am

Não lhe pude falar, mas consegui remeter-lhe (por intermédio de uma fâmula munificentemente remunerada para esse fim) longa missiva de Paulo a qual, certamente, foi lida às ocultas, entre prantos, alta noite, enquanto seus opressores dormiam profundamente.
"Designei, na missiva que juntei à de Paulo, a hora exacta em que passaria pela sua morada para receber a resposta que almejava, dando-lhe detalhes a meu respeito e dizendo como procederia para que ela não se enganasse.
Não sabia da dificuldade em que a infortunada prisioneira se via para escrever, sem o material indispensável, e, por isso, quase não obtive o que desejava.
Comuniquei-lhe que, unicamente a mim, confiasse a sua resposta, para que nenhuma dúvida pairasse na minha mente, quanto à sua identidade.
"No momento convencionado fiz um quase imperceptível sinal com a destra, à entrada do jardim - vedada por um portão e gradil férreos, que tornam inexpugnável o acesso à habitação, uma quase fortaleza de estilo medieval, localizada nos arredores de Berlim - e supliquei um óbolo, com voz lamentosa e estentórica, aos moradores que se achavam numa das amplas janelas ogivais, de descomunal espessura, reconhecendo neles Elisabet, seu pai e um de seus irmãos.
"Ela sabia, previamente avisada como se achava, do estratagema de que eu usaria e percebi sua comoção ao dirigir-se ao pai para lhe fazer um pedido, muito pálida, trajando veste ampla e nívea, que lhe dava a aparência de um ser imaterial, prestes a desferir o voo supremo.
"Compreendi, por sua ansiedade, que o irmão é quem queria descer para me repelir ou atirar uma insignificante esmola.
O pai, porém, acedeu ao pedido da enferma, que desapareceu por momentos no interior da vivenda, surgindo depois em companhia da serva, que eu remunerara para lhe entregar a carta já mencionada.
Aberto o portão, Elisabet, extremamente pálida, desceu alguns degraus da escada da frente e, em vez de me entregar uma dádiva, depôs no meu chapéu este bilhete, escrito na página em branco de um livrinho - talvez de preces - com tinta rubra semelhante a sangue, que suponho extraída de alguma flor purpurina do jardim do seu cárcere.
Ei-lo, senhor.
Eu vo-lo entrego para que o remetais ao nosso amigo Paulo Devarnier".
Li-o, em alguns instantes.
Era, mais ou menos, redigido nestes termos:
Está quase findo o meu tormento, Paulo!
A tua Bet morrerá fiel à nossa indissolúvel afeição, se não puderes, o mais breve possível, tirá-la deste ergástulo.
Fizeste-me feliz por alguns momentos com as notícias que um generoso desconhecido me transmitiu.
Obrigada! Já não posso mais lutar, meu Paulo, e, se não conseguires pôr termo ao nosso grande suplício, meus dias estão contados.
Salva-me! Até quando Deus nos quiser unir.
Saudades e toda a alma ansiosa da tua - Bet.
O intermediário de Paulo Devarnier acrescentou:
- Eis, senhor, como desempenhei minha missão.
Peço-vos, agora, transmitais ao nosso amigo ausente tudo que acabo de relatar.
Sinto-me pesaroso por não ter sido portador de notícias mais agradáveis ao nosso prezado Paulo.
Parece-me, pelo que disse a servidora de Elisabet, que os algozes da noiva de Devarnier lhe impõem, para a deixarem em paz, o matrimónio com um oficial austríaco, de elevada patente, já um pouco idoso.
"Poderá ela resistir por mais tempo à pressão em que vive?
Qual será o desfecho desse drama de vida real?
Que trama urdirão os adversários de Paulo para o tornarem desgraçado?
Tais as interrogações, senhor, que fiz a mim mesmo, durante esses dias em que desempenhava a minha missão, envidando esforços para colher informes que me pudessem esclarecer a verdadeira situação de Elisabet.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 08, 2018 10:25 am

Soube que a data da realização do seu enlace já está fixada para breve e é coisa decidida por seus verdugos.
Não vos esqueçais de dar este esclarecimento ao caro Devarnier.
Apresento-vos, agora, as minhas despedidas e os protestos de minha sincera admiração".
Agradeci, como se fora o próprio Devarnier, ao seu escrupuloso e inteligente emissário.
Infelizmente, não pude logo me exonerar da incumbência que recebera, devido à fase acidentada que a minha existência atravessava naquela ocasião, em que fui expulso do território belga.
Não me refiro a esse episódio dolorosíssimo da minha última peregrinação planetária senão para demonstrar as causas poderosas, ou as impossibilidades que me impediram desempenhar com presteza um dever para com um amigo dedicadíssimo.
Pouco depois de haver escrito minuciosamente a Paulo, relatando-lhe tudo quanto soubera por intermédio do seu emissário, estando já longe de Bruxelas, fui desagradavelmente surpreendido com a notícia de um duelo de morte, ocorrido na França, clandestinamente, entre um militar tudesco e Devarnier, sendo de todos ignorado o móvel desse encontro.
Fora ferido mortalmente o meu pobre amigo, por seu contendor que, após o duelo, se suicidara.
Fiquei, por alguns meses, consternado, julgando-me quase responsável pelo que sucedera, não remetendo logo a Devarnier as informações que o enviado obtivera.
Não teve ele, assim, tempo de agir eficazmente para libertar a noiva do guante de seus algozes, porque coincidira, infelizmente, a ocasião em que devia tê-las recebido com o desenlace de uma tragédia na qual, a contragosto, me achara implicado.
Tratei de averiguar a identidade do adversário do meu compatriota - pois o jornal parisiense em que li o relato delituoso sucesso apenas mencionava as iniciais dos beligerantes - e soube, por intermédio de um amigo residente na França, que se tratava de um dos seus primos, Carlos Kceler, que, acossado pelo remorso de haver assassinado um quase irmão, arrefecido o seu furor à vista do sangue de quem se deixara matar sem defesa - certamente sob o domínio de um dissabor insuportável -, suicidou-se após algumas horas de verdadeira compunção, ao saber que sua vítima já se achava no Père-Lachaise.10
Como, porém, ocorreu esse encontro bélico em Paris, e não em Berlim?
Qual a causa que precipitou o desenlace de uma tragédia que, por vezes, eu previra, mas não assim tão sanguinolenta?
Teria o inditoso Paulo tentado, judicialmente, emancipar a noiva de um
jugo nefário, sequestrada no próprio lar?
Teria, então, recebido a carta que eu lhe escrevera, antes do funesto duelo?
Que acontecera à desgraçada Elisabet?
Soube apenas que Paulo Devarnier, acometido de febre violenta, em consequência do ferimento recebido, feito a florete e que lhe ofendera os pulmões, sucumbiu quase louco, num delírio e num sofrimento indescritíveis.

10 Cemitério de Paris, onde está situado o dólmen de Allan Kardec.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 09, 2018 11:44 am

CAPÍTULO VII
Nunca mais obtive novas de Elisabet e, pouco a pouco, a tragédia, em que ela e Paulo figuraram como protagonistas e que me mortificara vivamente por alguns meses, se foi diluindo em meu cérebro, como no ocaso, prestes a ser invadido pelas trevas, se esvai o derradeiro e fugitivo lampejo crepuscular.
Quando dela me recordava, sentia uma efémera mágoa, que me dava tons de violeta ao coração:
era apenas a saudade, que sentia, do amigo desaparecido tragicamente.
Assim que pude, finalmente, regressar à pátria, uma das minhas primeiras ideias foi visitar o túmulo de Paulo e fazer investigações a seu respeito, por intermédio do tio, de quem possuía o endereço, idêntico ao do sobrinho, que mo deixara ao retirar-se da Bélgica.
Escrevi-lhe solicitando alguns momentos de atenção e manifestando o desejo de ir ao Père-Lachaise, onde sabia jazerem os despojos do meu amigo.
Respondeu-me solicitamente que aguardava minha visita em sua residência.
O coronel Félix Devarnier era insinuante e, embora um pouco idoso, apresentava notável semelhança com o falecido sobrinho.
Concedeu-me carinhoso acolhimento e longamente me falou do querido extinto, com os olhos húmidos de pranto, mostrando-se-me muito grato pela lembrança que tivera, de procurá-lo:
- Obrigado - disse-me, extremamente comovido - pelo amistoso interesse que vos inspira o infortunado Paulo, filho dilecto para mim, que tenho vivido isolado, sem qualquer outra amizade sincera, senão a que ele me consagrava, desde que perdi meu único irmão, seu progenitor, que mo confiara antes de exalar o último alento, razão por que só com muita relutância consenti que minha cunhada o levasse para a Alemanha, o que deu origem ao drama pungente que hoje lamentamos.
"Dediquei-me ao Paulo desde que voltou da Prússia, reconhecendo nele, sempre, uma rara nobreza de carácter e sentimentos elevadíssimos.
Podeis, pois, avaliar quanto me consternou a sua bárbara morte!
Se vísseis como se lhe extinguiu a vida, senhor, teríeis ficado compadecido:
morreu delirando, num desespero de fazer chorar um coração de pedra, porque, antes de ser ferido, soube que a desditosa noiva, enferma, compelida pelos irmãos a consorciar-se com um velho militar austríaco, se suicidara na noite nupcial, a fim de guardar fidelidade àquele que ela tanto adorava e digno era do seu amor!
"Um dos irmãos de Elisabet - o de nome Carlos - sabendo que a irmã sacrificara a própria existência para permanecer fiel ao primo e noivo querido, considerou-o responsável exclusivo por essa desdita, que açulou nele, ainda mais, o ódio a meu sobrinho.
Veio, então, especialmente à França, a fim de o afrontar e desafiar para um duelo - que ignorei- o completo, até o momento em que para aqui trouxeram irremediavelmente ferido, o meu pobre Paulo.
O que sei dizer-vos, senhor, é que o remorso obrigou o assassino de meu sobrinho a medir toda a extensão da iniquidade que praticara.
Saciado o ódio que votava ao primo, não resistiu aos acicates flamejantes de secreta exprobração, os quais, certamente, lhe pungiram a consciência.
Reflectiu nas injustiças infligidas às suas vítimas e fez como o próprio Iscariotes - suicidou-se, talvez supondo que, assim, se libertasse da evocação dos delitos que cometera por muitos anos, desumanamente.
"Achava-me ausente de Paris, no cumprimento de um dever militar, no dia em que meu saudoso sobrinho foi provocado por Carlos Kceler e por isso não pude impedir a realização daquele maldito duelo.
Só ao regressar é que dele tive conhecimento, vendo o meu pobre Paulo conduzido por suas testemunhas, com o peito varado por um profundo golpe de florete.
"Calculai a minha surpresa e a minha dor!
Ele, sempre obediente aos meus conselhos, praticou um ato gravíssimo sem o meu consentimento, porque, certamente, o dissabor que sofria dominava-o de todo, conturbando-lhe a razão, enlouquecendo-o quase.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 09, 2018 11:44 am

Ao certo, meu amigo, não sei o que se passou com meu sobrinho.
Sei, apenas, que findou um drama doloroso de rancores injustificáveis, ignorados de todas as pessoas de nossas relações.
A família da mãe de Paulo não perdoara nunca o crime que um patrício nosso cometera, desposando por amor um de seus membros, não se lembrando - os satânicos cérberos de Elisabet - de quanto fora venturosa minha cunhada enquanto teve a seu lado o extremoso consorte, que a adorava, e que o mesmo teria sucedido à sua sobrinha, se houvesse conseguido realizar suas aspirações louváveis e dignas, casando-se com o primo, que lhe tributava inigualável afeição".
- Lastimo tudo quanto aconteceu ao prezado Paulo e compartilho da vossa grande e justa dor!
- Obrigado! É sempre consolador encontrarmos um coração amigo que nos compreenda e participe dos nossos mais acerbos pesares.
Obrigado! Estou ao vosso dispor a fim de vos mostrar onde repousa para sempre o meu Paulo.
- Uma carruagem nos espera.
Podemos partir agora mesmo, se vos apraz.
- Sim, o vosso desejo é, para mim, uma ordem sagrada, que cumpro com o máximo reconhecimento.
- Antes de partirmos, caro senhor, quero fazer-vos mais uma pergunta:
Não recebeu o inditoso Paulo uma longa carta que lhe dirigi, enviando uma outra de Elisabet?
- Não, senhor; fui eu que as recebi, precisamente no dia em que meu sobrinho expirou:
e, como eram tardias todas as revelações que continham, coloquei-as no caixão mortuário, quase persuadido de que ele, assim, poderia inteirar-se do conteúdo delas.
Eram também flores, enviadas pelas longínquas mãos piedosas da noiva e de um amigo, a se confundirem com as que transbordavam de seu ataúde.
Sofro, lembrando-me da triste sorte de Paulo, mas quem é, neste mundo, capaz de quebrar os grilhões do destino ou da fatalidade, que nos prendem à desventura?
Depois silenciosos, eu e o grave coronel Devarnier fomos, em rápido veículo, à grande necrópole parisiense, onde estava inumado o corpo de Paulo e, dentro de poucos instantes, abeiramos do seu jazigo, recentemente construído de Ivo carrara, num formoso estilo renascença, encimado por um arcanjo súplice, lacrimoso, que poderia simbolizar a nossa pátria pranteando o prematuro passamento de um dos seus mais dignos filhos, como a visão que o torturara em vida - a da noiva dilecta, soluçante, genuflexa aos pés da sua genitora em delíquio, qual a contemplara pela última vez.
"Sim", pensei "este arcanjo é também Elisabet marmorizada, pranteando a sua malograda ventura!"
"O coração é profeta, pois que prenuncia o futuro."
Assim se expressam os supersticiosos; mas hoje, com o intelecto desofuscado pelos conhecimentos transcendentais que tenho adquirido, sei que não é o decantado órgão - considerado o escrínio de todos os sentimentos - e sim o nosso próprio espírito que, em cada uma de suas etapas planetárias, e de pleno acordo com as obras altruísticas ou nocivas, efectuadas na anterior encarnação, aloja, indelevelmente, nos seus refolhos, as sentenças divinas, concernentes ao seu destino.
Às vezes, em rápidos vislumbres, ele faz uma autoleitura e, assim, muitos segredos do porvir lhe são patenteados nitidamente, tal como um aroma suave denuncia a existência de uma flor, oculta à nossa vista, mas pouco distante do nosso olfacto.
Eis por que muitos presságios de Devarnier se realizaram. é que as páginas do seu futuro foram lidas por sua própria alma, antes que as virassem os dedos do tempo implacável, que as foi destruindo, lacerando uma a uma, cada dia, até chegar à última, realizando-se tudo quanto nelas estava escrito, todo o in-fólio do destino de Paulo.
* * *
Poucas emoções, na minha última romaria por esse planeta, me agitaram tão vivamente o coração, como quando descobri a fronte encanecida à beira daquele impassível mausoléu...
Uma indefinível mágoa me estuou no peito ao ver prosternar-se, de cabeça baixa, um lenço velando os olhos enevoados de lágrimas, o tio do meu inditoso amigo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 09, 2018 11:45 am

Não pude, igualmente, conter o pranto que, em ondas, me afluíra à face, como se estivesse junto ao túmulo de um filho amado, o que de fato me sucedeu no decurso da minha finda existência.
Quanto lastimo não ter então, como agora, a inabalável certeza de que a vida humana é uma intérmina cadeia,
uma corrente que se compõe de muitos elos, cada qual terminando no sepulcro, para de novo se soldar em ulterior encarnação até que o espírito adquira elevadas faculdades, ou atinja a perfeição.
Se, naquele dia, já me achasse esclarecido pelas verdades siderais, sentir-me-ia venturoso, não combalido, e teria dito ao consternado coronel Devarnier:
- Nós ainda o veremos, meu amigo!
"Aqui está apenas a crisálida perecível, uma das vestes de Paulo, uma das que os vermes têm corroído, ao passo que sua alma, a falena de luz, já está cindindo a amplidão cerúlea, onde nos encontraremos ainda, onde solidificaremos os liames de recíproca e fraternal afeição que nos vinculam os espíritos e se tornarão eternos e indestrutíveis!
Não devemos pois prantear a sua liberdade, pois que estamos ansiosos pelo momento de nos emanciparmos das dores e das decepções terrenas...".
Naquele dia, porém, estavam ainda insolúveis, para mim, muitos problemas relativos à sobrevivência da Inteligência imperecível - a alma - e, por isso, chorei na campa de Devarnier como se jamais houvesse de vê-lo e ela representasse a sua derradeira morada.
Curvei-me sensibilizado à borda de um sepulcro, quando devera ter erguido a fronte para o Infinito.
Abismei-me, por alguns instantes, num mutismo e desalento profundos, quando devera ter desprendido o Espírito, por meio de uma prece veemente dirigida ao Eterno.
Assim, naqueles magnos segundos, sentir-me-ia fortalecido e talvez lograsse alçar uma ponta do véu que me encobria os chamados mistérios de além-túmulo, inspirado por Osíris.11
Mas, nessa época, ainda sob o domínio das paixões humanas, soube apenas deplorar a morte de um dedicado mancebo.
Depois, entristecido, separei-me do coronel Devarnier, continuando, por algum tempo, a cobrir de flores o mausoléu de Paulo.
Hoje, porém, posso afirmar aos que à beira de uma campa ficam perplexos, anelando desvendar os arcanos que ela oculta no seu âmago:
Investigadores das verdades transcendentes:
nada se aniquila com a morte, nem mesmo a matéria, que se transmuda em miríades de seres rudimentares, dando origem aos vibriões e à seiva dos vegetais, que se engrinaldam de flores!
A morte não é, como dizem geralmente, o sono etern0 é, antes, o despertar da alma - que se acha em letargia enquanto constrangida no estojo carnal -, despertar que vezes, dura tempo bem limitado, porque lhe cumpre retornar à Terra, a desempenhar nova missão; não é o esvaimento de nenhum dos atributos anímicos; é o revigoramento e o ressurgimento de todos eles, pois é quando a inteligência se torna iluminada como por uma projecção eléctrica, para se lhe desvendarem todas as heroicidades e todos os delitos perpetrados no decorrer de uma existência.
Não é o repouso senão para o espírito impoluto, isento de crimes e cuja vida planetária foi fecunda em lágrimas e actos de abnegação.
A vida material é a asfixia da alma num túmulo putrescível, feito de músculos e ossos.
A morte é a dilatação de potências indestrutíveis, anestesiadas por alguns anos, mas que se intensificam de chofre e constituem as asas que impulsionam a cintila deifica ao Espaço, todas elas imprescindíveis à conquista da perfeição suprema!".
* * *
Escoaram-se mais alguns lustros após minha ida, peia primeira vez, à tumba de Paulo Devarnier, e também eu deixei de habitar esse orbe: concluíra uma das minhas mais árduas provações terrenas, pois, se algumas vezes a glória me roçagou a fronte com suas fúlgidas e níveas plumas, amarguras indescritíveis, decepções acerbas, reveses ignorados, me maceraram amiúde o coração.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 09, 2018 11:45 am

Calo-me, porém - quanto à adversidade com que lutei frequentemente, que me pungiu a alma, ferindo-a eficazmente na liça da dor, acerando-a como ao aço, dando-lhe mais rija têmpera, tornando- a apta para os prélios do dever, invulnerável ao mal – a fim de p0der reatar a urdidura de Paulo Devarnier.
Nos últimos anos da minha trajectória por este planeta, o drama familiar que conheceis me pareceu extinto, in totum.12
Entretanto, liberto da matéria, ele teve para mim um prosseguimento, e o epílogo só poderá ser traçado com o perpassar do tempo, que tudo consuma e esclarece.
A vida humana - da criatura que nos pareça mais humilde, destituída de interesse, boçal - é um romance perene, tem lances sensibilizadores, heroísmos e degradações em séries incessantes, e, se há para ele um - fim - somente o Sempiterno saberá marcá-lo, com caracteres rútilos.
Deixo, porém, de divagações filosóficas e finalizo a primeira estância desta narrativa para vos dar a conhecer o regozijo que experimentei ao deparar com o nobre Devarnier em pleno Espaço.
Como era natural, encontrando-o, fiz-lhe carinhosas arguições e as respostas que me deu constituem as páginas complementares da sua confidência, enfeixadas sob a epígrafe de Na sombra e na luz.
Vereis que nelas fulgura a sua linguagem vigorosa e enternecedora, emanada de um espírito lúcido e acrisolado nos ásperos combates morais.
Lendo-as, provavelmente haveis de meditar, leitores, nas consequências nefastas dessas desarmonias de família tão comuns, entretanto, na história dos povos - e evitareis, quanto puderdes, enjaular no vosso coração sentimentos condenáveis de ódio, vingança, traição, homicídio.
Sondar, aprender, evolver, atingir a meta espiritual - É o destino humano.
Quem delinquir, entrava a marcha da alma, tornando-a galé do sofrimento.
O que julgamos obscuro e ininteligível, durante a nossa vida corporal, afigura-se-nos de fácil compreensão, quando nos podemos librar no firmamento.
Assim, os enigmas insolúveis para a ninfa humana são singelas equações para borboleta espiritual.
Não vos admireis, pois, de que, outrora, eu tenha chorado a perda de um amigo, com a alma ansiosa por perquirir os arcanos tumulares, e de que, decorridos mais de quatro decénios, depois de haver reproduzido a fiel exposição de uma de suas existências mais prolíferas em lances patéticos, lhe possa acrescentar inúmeros episódios, pormenores ignorados de todos neste orbe.
Como em Bruxelas, deixei que ele expressasse, sem interrupção, seus pensamentos.
Cedo à sua segunda confissão as páginas desta novela, fazendo-me apenas o transmissor do que me referiu, como ocorrido desde o instante em que se consumou aquele nefando duelo, até a sua entrada num dos mundos que são paragens de paz e ventura para os heróis espirituais, depois de lutas que deixam a alma contundida, como que chagada, mas tendo em cada gilvaz produzido pelo gládio da dor um foco brilhante, de fulgor igual ao da estrelas mais rutilantes.
A existência orgânica de Paulo Devarnier, extinta e plena juventude, foi, pois, substituída pela psíquica - na qual se integram todos os atributos do Espírito - e, por isso, posso asseverar-vos que ele continuou a padecer, a instruir-se nas coisas imprevistas e referentes ao seu aprimoramento moral, para de novo regressar ao planeta a que se achava sirgado ainda pelo sofrimento, pelo ódio e por um sentimento imarcescível, sem lograr por muito tempo ver realizado o sonho dilecto, que nutriu debalde numa curta mas tumultuosa vida: a sua aliança com Elisabet.

11 Um dos deuses do Antigo Egipto, protector dos mortos.
12 Inteiramente
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 09, 2018 11:45 am

LIVRO II - Na escola do Infinito

CAPÍTULO I

Se ainda pertencesse ao planeta em que vivi no século pretérito - fértil em prodigiosos imprevistos e inolvidáveis acontecimentos -, esta sucinta mas comovedora novela estaria, leitores, de todo terminada, com o ponto final que, para muitos de vós, a morte coloca na derradeira página de uma existência, esculpindo-o na alvura imaculada dos sepulcros, que participam da gelidez e do indiferentismo que votais ao grande mistério do desaparecimento de uma criatura do proscénio da vida, para se ocultar na penumbra de um bastidor que, por parecer tenebroso, imperscrutável, quase nenhum de vós tenta desvendar.
Entretanto, eu vos afirmo que a vida espiritual é um suplemento muito ampliado da outra susceptível de se extinguir - a orgânica.
Os sentimentos, às vezes anónimos, se abalroam e conflagram na alma sofredora e indestrutível - sede e arena de todos eles -, e se mostram, não raro, mais ardorosos e violentos do que antes; as faculdades intelectuais adquirem maior lucidez.
Os seres recém-chegados da clâmide carnal compreendem a causa de infortúnios terrestres; lamentam não haver cumprido rigorosa e heroicamente as suas missões e os seus deveres sociais e divinos; vagueiam no Espaço e na floresta humana, disseminada pelos continentes, no seio da qual deixaram afeições estremas e indissolúveis, outras vezes paixões impuras, acorrentados, espíritos e homens, reciprocamente, pelo amor e pelo ódio.
O amor e o ódio são grilhões que os sentimentos forjam, um fundido de estilhas de astros, outro de bronze caliginoso, ambos algemando as almas através do galopar vertiginoso dos séculos, até que a luz triunfe da treva, como Hércules da Hidra de Lerna.1³
Mudam-se os cenários, mas os artistas continuam a ser os mesmos, até que lhes penetre a aspiração de aprimorar suas potências psíquicas, o anelo de progredir e ascender aos orbes rútilos.
Volvem, então, ao palco da vida planetária, onde vêm desempenhar encargos penosos, suportar dores incompreendidas ou praticar dedicações sublimes, sem que, por serem outras suas vestes corpóreas, os possais reconhecer, vós que desconheceis as vossas e o que fostes outrora.
Este magno problema, até bem pouco tempo insolúvel -do destino da humanidade post mortem - tem hoje solução evidente e incontestável, embora haja ainda uma falange de cépticos e obstinados que se desiludirão fatalmente ao transporem os umbrais que dão acesso à feral morada de Átropos¹4, onde apenas se guardam os despojos inanimados das turas.
Os que esperavam ansiosos o nada, ou o repouso ficam apavorados e perplexos, reconhecendo que há continuidade entre a vida orgânica e a psíquica.
Então, como relâmpagos ininterruptos, no recôndito céu que todos trazem em si mesmos - a mente - flamejam as arguições que, à medida da evolução do espírito, vão sendo esclarecidas.
Estabelece-se um confronto entre a vida planetária e a vida ultratumular, e as duas surgem a princípio, nos refolhos d'alma, como a primeira e a extrema guaridas da Humanidade, simbolizadas pelo berço e pelo sepulcro, parecendo este ser a antítese daquele.
Volvidos, porém, os anos, ambos se confundem:
são os pródromos de uma vida, o início de uma nova existência!
Que é, de facto, o berço?
Primeiro asilo que protege um minúsculo invólucro tangível da alma, vinda das paragens siderais, qual andorinha emigrada de longínqua região e que, depois de exaustiva jornada, pousa, cheia de fadiga, no primeiro ninho que se lhe depare.
A vida corporal não passa, pois, de um breve parêntesis aberto na Eternidade, da qual a campa é o preâmbulo, o começo de uma outra existência, a do Além, mais prolongada e integral que a interrompida pela morte.
É o regresso à pátria eterna, depois do inverno da dor e das provações, de que o Espírito se poderá eximir se sua missão terrena, curta ou dilatada, for um exemplo incessante de virtude, de abnegação, de deveres austeramente cumpridos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 09, 2018 11:45 am

O berço, portanto, simboliza o retorno de uma alma a Terra, onde, obumbradas as suas potências mais fúlgidas por um eclipse que às vezes dura decénios, fica entorpecida, como a crisálida aprisionada em espesso casulo.
O outro, o túmulo, que parece o término de todas as coisas perecíveis, é onde ela desperta do letargo que a conservava agrilhoada ao limo infecto - o corpo - que se metamorfoseia, no laboratório incomparável da Natureza, em vorazes e repulsivas larvas e em flores olorosas:
é o regresso à verdadeira pátria, de onde se achava exilada, depois de um momento de dor infinita, que se afigura durar milénios - a vida material.
E assim, após muitas considerações, ora no Espaço, ora na Terra, chega à conclusão de que o que parecia um antagonismo no espírito neófito não o é na realidade; há, apenas diversidade de nomes ou de locais.
Destarte, berço e sepulcro se confundem, porque um é o corolário do outro, sendo ambos emblemas do início de duas existências - a planetária e a espiritual.
Um é o volver da alma a um palco restrito, onde desempenha uma farsa, ou um drama, em que há lances burlescos, trágicos ou heróicos, de acordo com as potências psíquicas já desabrochadas e com o anelo que possua de evolver, de cumprir uma sentença divina, sem transgressão.
Pode, então, tornar-se obscura, tenebrosa, se praticar o que não é lícito; fúlgida e alvinitente, se executar o bem, exclusivamente.
O túmulo é a volta do Espírito à amplidão celeste, a libertação de um condor acorrentado num charco, sua entrada num proscénio, que tem o éter por ambiente e onde as estrelas perpetuamente cintilam.
Sombra e luz, berço e túmulo, ergástulo e liberdade eterna - eis definido o destino de cada alma, com períodos de lutas e intervalos de repouso, até que possa, um dia, desferir voo definitivo para o firmamento constelado, de onde não regressará jamais a este orbe, senão em cumprimento de missões excelsas.
* * *
Reato, agora, a trama da novela que me propus explanar nestas páginas.
Passara o tempo - analgésico para quase todos os sofrimentos, narcótico que anestesia todas as recordações, por mais empolgantes ou absorventes que tenham sido os sucessos que as gravaram na memória, por mais vibrantes que tenham sido os sentimentos que fulgiram na alma, deixando nela sulcos de fogo que pareciam inextinguíveis, como as irradiações dos astros, nos instantes em que a iluminaram e crestaram.
Transcorridos cerca de dez lustros, eu olvidara quase o drama familiar que teve por protagonista Paulo Devarnier, cuja vida procelosa permanecia na minha retentiva qual sonho fugaz, mas doloroso, quando, finda a existência em que fomos compatriotas e amigos, o reconheci num desses benévolos e desvelados protectores que aguardam a desmaterialização dos seres amados, para os iniciar nos austeros arcanos do Além, fazendo-os rememorar que já estiveram, por vezes, nas Paragens siderais.
Revendo o prezado amigo, cuja desencarnação se deu em Fáris, intensa foi a minha emoção e, mais do que nunca, me convenci de que a amizade, quando digna deste nome, cordial e lídima, não se esfacela nem pulveriza com o coração que a continha e que se desfaz na campa:
prolonga-se extra-túmulo, como as raízes de um cedro se internam pelo solo do Líbano, solidificando a árvore, tornando-a inabalável, secular, potente!
Reconhecemo-nos prontamente, graças à célebre transmissão de pensamentos que, nos desmaterializados, é admirável e indescritível.
Fizemo-nos mútuas e amistosas confidências; interroguei-o sobre o passado, desde que nos separamos em Bruxelas, e, então, com a sinceridade que é o apanágio dos entes nobres, ele me fez circunstanciada confissão, a qual cedo, em absoluto, às páginas desta sugestiva história, de que já conheceis o início, cônscio de que todos os leitores me aplaudirão a ideia, porque a linguagem de Paulo tem um encanto indizível, faz vibrar, enternece, sensibiliza os corações, é expressiva e convincente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 09, 2018 11:45 am

Ei-la:
- Meu caro e inolvidável amigo - disse-me ele, enquanto nossos Espíritos cindiam o Espaço, como se fôramos pássaros a fugir de uma região polar, perpetuamente vergastada pelas ásperas hibernias - a Terra - no encalço de uma eterna primavera de luz - o firmamento -, vou descrever-vos, serenamente, o que se tem passado comigo, desde o instante em que nos apartamos na Bélgica.
Usarei da mesma lealdade com que vos fiz, outrora, o relato de todos os episódios de uma existência sinistramente interrompida em Paris.
Bem sabeis que fui chamado inesperadamente à França, aonde regressei como grilheta que vai cumprir, em presídio insular, as exigências inexoráveis da pena a que o condenaram, levando o coração equimosado por inexprimível sofrimento.
Passados alguns dias, não tendo recebido as almejadas informações que mandara colher em Berlim, achava-me, uma tarde desalentado e apreensivo no meu gabinete de trabalho tentando desanuviar o cérebro - obscurecido por atrozes pensamentos - com alguma leitura proveitosa, sem conseguir, no entanto, compreender ou assimilar sequer uma só das ideias explanadas no livro, que mal sustinha nas mãos, apresentando-se-me todas quais indecifráveis enigmas egípcios, quando um fâmulo me anunciou a presença de um de meus primos, o de nome Carlos, na minha casa!
Fiz, em poucos segundos, inúmeras suposições, aflitivas arguições a mim mesmo, enquanto reparava a toalete para lhe ir ao encontro.
Procurar-me-ia como adversário, ou como amigo?
Dar-me-ia notícias de Elisabet?
Consentiria, afinal, na realização do nosso consórcio?
Saberia que eu enviara um intermediário a Berlim?
Teria a minha adorada noiva morrido?
Estremeço ainda, caro amigo, e padeço, ao lembrar-me daqueles instantes de inquietações e amarguras em que um sofrimento superlativo, como látego de chamas, me vergastou a alma até aos derradeiros instantes da acidentada existência em que nos conhecemos.
Cheguei à sala de visitas sem saber se deveria estender-lhe a mão.
Ao vê-lo, porém, compreendi, pelo olhar a dardejar sobre mim fagulhas de ódio, que me execrava mais do que nunca.
Suas primeiras exclamações confirmaram minhas dolorosas suspeitas:
-Venho, miserável, cobrar-te uma dívida de honra!
Quero arrancar a vida àquele que infelicitou e desgraçou minha família, da qual hoje poucos membros restam!
- Estás louco, certamente, Carlos!
Que fiz para assim me acusares injustamente?
- Fascinaste aquela desventurada Bet!
- Amar não é crime punível pelas leis sociais!
Por que te opões à realização da nossa ventura?
- Desgraçado!
Ela já era a esposa de outrem e, por tua causa, pôs termo à existência!
Ai! meu amigo!
Já se foram tantos anos - quisesse meio século - depois que ouvi essas palavras que me penetraram o coração como punhais envenenados; já volvo outra vez à Terra, a esse planeta de árduas expiações, onde a dor está semeada com a mesma profusão que as estrelas pelo Infinito, e, contudo, não posso ainda recordar sem um frémito de viva emoção tão atrozes vocábulos, que me puseram em delírio, que me açoitaram a alma sensível, afectuosa, ávida de notícias da minha adorada noiva.
Pareceu-me que um súbito terremoto, um cataclismo se produziu no meu espírito, ou que me sugavam vampiros de fogo!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 09, 2018 11:46 am

De que modo fora informado da morte daquele ser idolatrado, de Elisabet, do seu suicídio para me ser fiel!
Brutalmente, sicariamente!
Sei que, cego de ódio e de desespero, no apogeu do sofrimento, exclamei:
- Infame!
Se me vens arrancar a vida, que é o que esperas, pois que já me assassinaste com as tuas cruéis revelações?
"Por que retardas o momento de cevar no meu sangue o teu rancor?
Faz-me ao menos esse bem depois de teres destruído barbaramente, para sempre, a minha felicidade e a de tua pobre irmã, de quem nunca te compadeceste, pantera!".
Não quero tirar-te a vida como um carrasco ou um bandido.
Emprazo, porém, para amanhã, o nosso encontro, no local que escolheres, pois não conheço Paris.
Assim, nossas armas decidirão qual de nós dois tem a Justiça Divina a seu lado.
Aproxima-se a hora, ansiosamente esperada, de avaliarmos a têmpera das nossas espadas, como o disseste naquela noite fatal, quando foste ao meu lar, que já enlutaras uma vez, para ocasionar outra desgraça - a morte de minha mãe!
Pronunciadas estas palavras, atirou-me um cartão com o endereço do hotel onde se hospedara, voltou-me as costas e desapareceu.
Embora sob o domínio de um pesadelo asfixiante, satânico, dei todas as providências para que o duelo se realizasse ao alvorecer.
Meu tio Félix se achava ausente, no desempenho de um encargo militar.
Tão conturbado estava o meu espírito que tomei uma resolução gravíssima, qual a de expor a própria vida, sem o consultar, sem lhe ouvir os conselhos amigos, sem lhe dirigir, sequer, uma palavra de despedida ou de gratidão infinita por tudo quanto me fizera.
Encontrava-me, pois, inteiramente só, naquela noite intérmina de dor suprema!
Às vezes, como se houvesse perdido a noção da realidade, supunha ver o meu caro protector ao pé de mim e expunha-lhe então, com a voz alterada, toda a minha desdita; suplicava-lhe perdão pelos desgostos que lhe ia causar e os nomes de Elisabet e de sua mãe eram constantemente proferidos por meus lábios febris.
Não consegui repousar um só instante:
ora percorria os aposentos da nossa residência, sem consciência quase do que fazia, ora estacionava, com as ideias como que absorvidas por uma voragem íntima, sentindo o cérebro escaldante; às vezes me debruçava sobre os móveis, soluçando qual criança abandonada pelos pais e injustamente punida por bárbaros estranhos.
E, para minha maior tortura, a todos os segundos me surgia na mente alucinada a visão desoladora do meu pobre avô, como no último momento em que o vi, com a fronte veneranda premida sobre o tampo de um consolo, confundindo as suas cãs com a neve do mármore...
Houve uma hora em que o criado se ergueu do leito, espreitou-me apavorado, e, aflito, se ofereceu para chamar um médico, o que recusei, solicitando-lhe apenas água com um sedativo qualquer, que não actuou no meu organismo.
Julguei, amiúde, que enlouquecesse.
Abria a secretária, retirava dela um revólver para pôr termo ao meu martírio, mas, ao empunhá-lo, minhas mãos ficavam inertes, frígidas como se o gelo da morte começasse a invadi-las ou se algo de insuportável me forçasse a retroceder ante a perspectiva deste crime - o suicídio - que eu supunha, no entanto, o único meio de me libertar de um inquisitorial suplício, para cuja descrição não encontro vocábulos na linguagem humana!
A destruição voluntária da própria vida era o único desenlace racional que, então, se me antolhava para o drama angustioso da minha existência.
Estava, porém, resolvido:
se não fosse ferido mortalmente, suicidar-me-ia depois do duelo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 09, 2018 11:46 am

Não tentarei descrever o sofrimento que me azorragava a alma naqueles momentos tormentosos de uma infinda noite de amarguras, no meu horto de dores inconsoláveis e ignoradas.
O que vos posso dizer é que me sentia com as faculdades mentais anarquizadas, desnorteadas - qual bergantim desarvorado e sem roteiro à falta de bússola -, mas sempre concitado a realizar o combinado encontro bélico, pelo desejo de uma vingança, que nos atraía um para o outro fortemente.
Almejava, também, mostrar-lhe o valor das armas que eu manejava com perícia, além de não querer que me supusesse covarde.
Depois de ficar patenteado que não o temia, deixaria que ele decepasse o fio de minha vida, que se me apresentava árida, escura, sem um objectivo ao qual me pudesse ilaquear, após a derrocada de todos os meus sonhos, a hecatombe de todas as minhas ilusões, o fracasso de todas as minhas aspirações mais caras.
Aquelas horas, porém, de febre, de delírio, de desespero, me quebrantaram as forças orgânicas e psíquicas.
Ao amanhecer, aos primeiros fulgores da aurora - que julgava jantais seriam por mim contemplados - a insensibilidade, a inércia substituíram a exaltação em que estivera até então.
Deu-se, em todo o meu ser, a invasão da indiferença a tudo na Terra, um esvaimento nervoso, um brusco arrefecimento do ódio que me incendia o cérebro, uma cabal metamorfose de todos os sentimentos.
Achei-me outro indivíduo, diverso do que sempre fora, esmorecido, esmagado, indiferente a tudo - até mesmo a qualquer noção de dignidade pois me faltava o único incentivo que tinha para viver: Bet.
Para mim, tudo que não fosse Bet, na Terra ou no Infinito, não passava de coisa nula, imprestável, sem atractivo, desde o momento em que soube que ela jazia num sepulcro.
Pareceu-me ter envelhecido anos em pouco mais de doze horas; o recesso do meu eu sofrera perturbador abalo e, após os sentimentos ultores e vorazes que nele efervesceram, experimentei uma sensação de aniquilamento, de completa inanição, supus que ia me tornar um nada, para sempre.
Passara-se, no meu íntimo, algo de grave, fulminante ou transformador, um fenómeno inextricável.
Tive a impressão de haver encerrado no crânio um impetuoso Aconcágua, que, por espaço de algumas horas, experimentara violentas convulsões subterrâneas, arrojara longe chamas e lavas candentes, que, bruscamente, se aquietara, extinguindo-se toda a matéria ígnea que arremessava aos ares e que, sobre as bordas da cratera, até então escaldantes, começara a cair neve, formando avalanchas titânicas.
E foi assim - tomado de desalento, de prostração, de esgotamento nervoso - que vi aproximar-se o momento do duelo e que me deixei ferir mortalmente pelo meu adversário, sem absolutamente me defender.
Levaram-me ainda com vida para a casa de meu tio e protector Félix Devarnier - que já havia regressado a Paris, mas ignorava o epílogo do drama sangrento em que fui imolado e do qual só se inteirou no momento em que me viu exânime, golpeado a florete. Durei, porém, poucas horas.
O delírio me endoideceu constantemente, até quase ao extremo alento, parecendo-me, a todos os instantes, ver a minha infeliz e idolatrada Bet perpassar perto de mim, envolta em alva roupagem - qual a vira pela última vez em Berlim -, de uma palidez alabastrina, tentando falar-me sem o conseguir, e retirando-se depois, soluçante, quando comecei a sentir que me invadia a algidez cadavérica.
E o que se me afigurara ter sido apenas desvario febril, sei hoje que foi pungente realidade.
Quando, enfim, caro amigo, se romperam os últimos liames que prendiam minh'alma à matéria; quando findou a absorvente perturbação em que me encontrei por algum tempo - como que sob a acção de um narcótico poderoso, de que jamais pudesse despertar, compreendi que a outra vida estava terminada e a minha carreira militar, tão bem iniciada, interrompida para sempre.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 09, 2018 11:46 am

Ao principiarem minhas ideias a desanuviar-se, só me recordava de alguns factos mais recentes, esquecido inteiramente dos mais remotos, como se a memória estivesse fragmentada, qual livro de que restassem apenas algumas folhas, tendo sido as outras incineradas numa pira.
Comecei a atentar no que me circundava:
achava-me numa planície intérmina, num Saara por graça divina alfombrado de relva orvalhada.
Ao longe, à direita do lugar em que me encontrava, perfilavam-se serras embuçadas de névoas de alvura imácula, semelhando véus nupciais.
Não divisava nenhuma povoação. Era como se me visse desterrado num planeta desconhecido e fosse o seu único habitante.
Após o estuar das paixões violentas, das labaredas da dor, do desvairamento, do desespero, uma calma absoluta me envolvera o espírito.
Empolgava-o, suavemente, o insulamento.
Inebriava-me a paz inefável da Natureza que me cercava, causando-me invencível inércia.
Compreendi que não continuava mais no domínio de um sonho, mas que a morte me libertara dos últimos vínculos que me ligavam à vida corporal, e uma reparadora serenidade me invadiu toda a alma que, no entanto, não se sentia venturosa, antes imersa num pélago insondável de mágoas.
Estava na conjuntura de um menino, em extremo susceptível, que, depois de muito haver soluçado, adormece bruscamente, vencido pela fadiga, sentindo invencível entorpecimento, profunda anestesia de todas as suas faculdades intelectuais, mas cujo sono, devido às penosas impressões recebidas, se povoa de visões sinistras que o atemorizam.
Ao despertar, o que primeiro lhe acode ao cérebro torturado é a recordação do dissabor que o flagelava antes de buscar o leito.
Já sabeis, meu amigo, como se dá o despertar da alma quando, por uma recente desencarnação, imposta pelos desígnios divinos, se rompem os laços fluídicos que a prendiam à matéria.
Outra, porém, era a minha situação, que talvez desconheçais, por isso que, no meu caso, a existência fora, em plena pujança da juventude, interrompida violentamente.
Afigurava-se-me que teria de permanecer, por toda a eternidade, acorrentado àquela extensa e árida savana, desolado, entristecido, condenado perpetuamente a não ouvir jamais voz humana, nenhum som, privado de contemplar qualquer ser humano, sentenciado, enfim, à inércia, ao silêncio por todo o sempre!
Pouco a pouco, porém, fui recobrando a vontade de agir, apossando-me das minhas faculdades sensoriais e do meu livre-arbítrio.
Foram-se-me patenteando ao entendimento os últimos dias da minha vida planetária, como se em meu espírito começasse um alvorecer, iluminando-o um revérbero íntimo.
Pude, assim, com acuidade e lucidez, inteirar-me dos factos mais remotos ocorridos durante a minha estada na França, na Alemanha e na Bélgica, pensar detidamente em Elisabet, e, então, as reminiscências das últimas e acerbas dores adquiriram, na minha mente, a impetuosidade das lavas de um vulcão, que todos supusessem esgotadas e que, abruptamente, irrompessem de novo e jorrassem de ampla cratera ignívoma.
Todas as recordações da passada existência, que apenas se achavam em catalepsia, concentradas no mais profundo recesso do meu senso - onde jaziam soterradas todas as lembranças do passado e nenhuma intuição havia do futuro, os dois hiantes sorvedouros ligados por frágil ponte, o presente, que então parecia dominar-me exclusivamente - fluíram do meu íntimo com violência, produzindo-me agitação indizível, dando-me novas energias.
Ao cabo de alguns momentos, minha situação se apresentou na sua completa realidade.
É o que sucede, provavelmente, a um mísero galé que, ao ser precipitado em calabouço infecto, esquece a princípio o delito que serviu de base à sentença que o condenou por toda a vida, só lhe ficando a ideia do presente mortificante. Olhando as paredes sólidas, húmidas, lúgubres, da prisão, parece-lhe não só que lhe vedam a liberdade, mas que também lhe muram até os pensamentos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 10, 2018 1:03 pm

De súbito, porem, lhe afluem ao cérebro, em torrentes de fogo, as evocações de toda a sua acidentada existência, de todas as suas acções criminosas, e a seus olhos se desnuda o presente que o aterra, fazendo-lhe rilhar os dentes de pavor, porque lhe deixa entrever, soturnamente, o porvir, qual se fora ilimitado oceano de sombras.
Sente-se eriçarem-se-lhe no crânio incendiado os cabelos que eram da cor das trevas e que encanecem repentinamente, como que tornados em cinza.
* * *
Apesar de já se haver operado o despertar do meu entendimento, achava-me ainda na desoladora situação do aludido galé, sofrendo insanamente com as recordações do meu passado, sem coisa alguma vislumbrar do tempo porvindouro.
Mas inopinadamente - como se penetrassem venábulos de sol no calabouço, através de uma brecha produzida, à noite, pela metralha de um trovão - em minh'alma se focalizou um raio de esperança, balsâmica e animadora:
ter a eternidade por futuro, estar desvencilhado dos implacáveis adversários (ignorava ainda que o meu contendor Carlos estivesse também encerrado num sepulcro e, por certo, na mesma inquietadora emergência em que me encontrava), poder unir-me àquela que continuava a ser, para mim, a noiva dilecta, um ídolo sagrado! Senti-me, subitamente, quase venturoso.
A minha Bet se suicidara na noite nupcial, para não me ser perjura!
Pobre e adorada Bet!
A sua heroicidade era um novo elo que nos prenderia por todo o sempre as almas.
Não nos separaríamos jamais, jamais!
Voaríamos enlaçados pelo espaço em fora!
Mas onde poderia encontrar a minha idolatrada noiva7.
E quem me levara àquela intérmina charneca?
Estaria ainda no mesmo planeta onde vivêramos e fôramos tão bloqueados pelo infortúnio que, não podendo resistir aos seus derradeiros assaltos, dele fomos rechaçados pelo cruel sátrapa?
Ou estaria numa região de torturas mefistofélicas, das quais fazem descrições apavorantes Alighieri e os sacerdotes católicos?
Não cessava de pensar em Elisabet.
Como, porém, a encontraria, achando-me só num mundo extensíssimo, desconhecido, desabitado?
E se já estivesse irremediável e eternamente condenado àquele martírio inédito - ignorado pelo próprio Dante - de ficar desterrado em vastíssimo orbe, sem poder, nunca mais, ver alguém, tendo de permanecer naquela solidão, banido da sociedade, até a consumação dos séculos?!
E se estivesse privado para sempre de encontrar Elisabet?
Ai! tremia de inaudito pavor, julguei-me às bordas da loucura e comecei a bradar, com voz que acreditava atroadora, estentórica:
- Bet! Minha querida Bet!
Onde estás?
Vem! Diz-me: onde estás?
Desejava correr celeremente em demanda de algum ente humano ao qual pudesse transmitir, súplice, meus pensamentos, implorar informações preciosas a respeito da minha situação, do local em que me achava.
Estava ansioso, sôfrego por saber onde encontraria a fiel prometida, mas me sentia tolhido da cabeça aos pés, como por um arnês blindado, chumbado ao solo por um poder incontrastável, soldado ao planeta de que fazia parte integrante, ignorando se era o mesmo onde vivera e onde tantas amarguras tinha padecido.
Já não pertencia mais à Humanidade - era um mineral que sofria.
Apenas pude aprumar-me no local em que me conservava estirado, na posição de um adormecido ou de um sepulto, pus-me a meditar como deveria fazer para sair daquele suplício.
Quando mais intensa era a angústia, caro amigo, dulcíssima voz de timbre celestial se fez ouvir, como que respondendo às palavras que eu bradara no ermo da minha prisão.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 10, 2018 1:04 pm

Exultei, supondo fosse a de Elisabet, que atendia, enfim, à súplica que eu lhe dirigira, indo ao meu encontro.
Ergui o olhar, delirante de júbilo, na direcção da voz maviosa.
Mas, cheio de assombro, deparei com uma entidade de formosura incomparável.
Tanta nobreza, melancolia e austeridade lhe ressumbravam do semblante fúlgido, de traços esculturais, primorosos, que me senti dominado, fascinado e, ao mesmo tempo, ínfimo, humilhado, reconhecendo nela uma superioridade que me esmagava, como se eu fora naquele momento uma lagarta rasteira, um repulsivo réptil, pulverizado por um bloco de estrela.
Um frémito percorreu todo o meu ser e, como réprobo, baixei a fronte.
Então a entidade lúcida, aproximando-se, pousou a destra diáfana sobre o meu ombro direito e me disse, com energia e amarga censura:
- Já te lembraste de Deus, desventurado?
Já alçaste o olhar ao Céu, de onde, somente, poderá fluir o bálsamo para as tuas dores e decepções tremendas?
Sabes por que tanto sofreste na existência que te foi tirada há pouco, criminosamente?
A essas palavras imperiosas estremeci novamente, fitei a amplidão, que era toda luz e suavidade, e, em seguida, subjugado por uma vontade potente, caí genuflexo, soluçando.

13 Monstro fabuloso, com sete cabeças que nasciam à medida que eram decepadas.
Foi morta pelo heróico Hércules (semideus grego).
14 Aquela das três Parcas – deusas gregas – que cortava o fio da vida, que as outras teciam.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 10, 2018 1:04 pm

CAPÍTULO II
Infeliz! - tornou a mesma voz, que me parecia já ter ouvido algures, com uma lenidade inefável - acabas de transpor os umbrais da morte, deixando que te arrancassem barbaramente a vida, quando te achavas em plena juventude, com todos os elementos de resistência, quando devias ser forte para a luta, para combater contra o próprio coração, até o momento em que o eterno te chamasse ao Além, abençoado por Ele, triunfante dos próprios sentimentos.
É assim que, se possuísse verdadeira coragem moral, terias saído vitorioso da campanha.
E, terminada que fosse esta, teu peito não verias recoberto de insígnias gloriosas, mas em ti fulgiriam focos radiosos, semelhantes aos núcleos estelares.
Tua alma se tornaria, ao mesmo tempo, alva e fulgurante, porque a luz nela desabrocharia - como sucederá a todo espírito que saiba vencer os óbices de suas provas terrenas, abençoar as suas lágrimas de dor, pois que estas, e não os deleites mundanos, é que o purificarão de todas as máculas, de todos os delitos do passado, sulcando-0 de fecundos arroios cristalinos, facetando-o como faz o ano que afeiçoa um bloco de diamante para transformo em jóia de brilho incomparável.
"És, afinal, como toda a Humanidade - egoísta, aspirando a satisfazer a todos os anelos do coração exigente e insaciável, cuidando muito do fugitivo presente e olvidando sempre o infinito futuro da própria alma.
Nos momentos mais penosos da tua vida, não te lembraste nunca do Omnipotente, não lhe imploraste jamais um termo aos teus pesares, não lhe suplicaste resignação nos dias de maiores amarguras.
Só pensavas em obedecer ao impulso das tuas paixões, em abandonar covardemente a vida por meio de um crime abominável que é sempre punido severamente segundo as Leis Divinas, porque constitui afronta e revolta contra elas - o suicídio!
Compreendes, agora, que a existência humana tem um objectivo mais elevado e mais nobre a preencher que não a saciedade dos desejos, dos anelos mundanos, dos gozos que só interessam à criatura material e não à personalidade espiritual? Compreendes agora que esta se acolhe e restringe nas vestes carnais, para poder laborar pelo progresso e desenvolvimento psíquicos, para sofrer, resgatar faltas remotas e sinistras, aprimorar as faculdades anímicas, apenas esboçadas no início das encarnações, para evolver e conquistar a perfeição, alvo a ser atingido por todos os seres que o Omnisciente criou, porque só ela nos aproxima do Criador?
"Ignoras que todos os que sofrem têm faltas a resgatar, são delinquentes que o Sumo Árbitro condenou com a mais irrepreensível justiça e absoluta equidade?
"Não sabes que do modo por que cumprem a sentença depende ou o galardão - se desempenharem escrupulosamente seus deveres sociais e divinos - ou a agravação de seus padecimentos - se prevaricarem, se reincidirem nas culpas de que já foram julgados, se não progredirem moral e intelectualmente, se empregarem nocivamente o tempo precioso que lhes concedeu o Altíssimo para a remissão dos seus passados crimes, continuando a perpetuar o mal, a serem soberbos, egoístas, recalcitrantes ou obstinados no erro, iníquos, ateus, libertinos, hipócritas, perjuros, traidores?..."
Houve uma pausa, que não ousei profanar com palavra alguma e que me pareceu longuíssima.
Depois, estendendo o braço na direcção de uma região desconhecida, a fúlgida entidade prosseguiu:
- Quando te dedicaste, em Berlim, cheio de amor, à tua noiva, nunca te lembraste de que, mais do que a ela, devias cultuar o Criador do Universo, porque vós ambos vos originastes dele, e assim, vossos espíritos, por entre árduas mas merecidas provas, deviam elevar-se, constantemente, até ao Pai Celestial, pela escada de luz da prece; deviam ser pacientes, resignados, corajosos nos momentos em que as dores, como setas ervadas, vos ferissem acerbamente...
A mão invisível, adestrada e justiceira, que expedia essas setas, as apanhara uma a uma, ao longo da estrada das vossas transcorridas existências, trágicas e tenebrosas.
Eram as mesmas que arremessastes impiedosamente, para farpear corações sensíveis.
Devíeis, por isso, suportá-las com a mesma impavidez dos primitivos mártires do Cristianismo, que sucumbiam, flagelados por inauditos padecimentos, fitando o firmamento azul, onde sabiam que seus espíritos radiosos iriam aninhar-se gloriosamente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 10, 2018 1:04 pm

"Ignoráveis, porém, que os sofrimentos humanos se derivam das próprias faltas cometidas e as acompanham como a sombra ao corpo, quer este se detenha, quer corra velozmente.
Fostes vós, portanto, os causadores dos vossos dolorosos padecimentos, e quem assim não pensar, pratica outro delito, porque atribui ao Legislador Supremo uma sentença iníqua, o ter condenado alguém a sofrer injustamente o que não fez a outrem, como se Ele fora um magistrado sem probidade, que não fizesse de Têmis15 o símbolo da rectidão e do direito imparcial.
"Bem sei que tendes ambos, tu e Elisabet, atenuantes para os vossos desvios nesta última encarnação, porque fostes imolados ao orgulho e ao ódio dos parentes, que ainda diferençam a humanidade pelo país do nascimento, emprestando supremacia àquele que lhes parece ser a sua pátria definitiva.
Mas - desditosos que sois! - também fostes culpados para com esses que se tornaram vossos algozes.
Se já houvésseis percebido a origem dos vossos dissabores, o motivo por que tanto padecestes - o que tanto ignoráveis por efeito do esquecimento que ofusca as potências da alma em cada encarnação, ocultando todos um passado remoto e sombrio - não teríeis um átomo de revolta contra o destino.
Ao contrário, vossos corações se teriam submetido aos admiráveis e imparciais desígnios da Providência, a quem imploraríeis que vos tornasse invulneráveis às investidas da descrença e do desalento, fortes para a luta que se vos antolhava superior às vossas forças!
"Vou, sucintamente, explicar-te - pois que, enquanto se não romperem os cendais que te obscurecem as faculdades, consequência da perturbação causada por brusca e recente desmaterialização, não te lembrarás de todas as tuas peregrinações terrenas - a génese do rancor que inspiravas principalmente a um dos irmãos daquela a quem amas ainda mais do que ao próprio incognoscível - afronta que sempre fizeste ao afectuoso, magnânimo e incomparável fautor de todos os seres e de todos os prodígios profusamente disseminados pelo cosmos, olvidando que a nossa existência, dele emanada, deve ser-lhe um lausperene de gratidão e de amor quintessenciado.
"Escuta-me, pois, infortunado Paulo Devarnier, com o máximo interesse, e, quando concluir minha lição - que auxiliará a desanuviar-te a consciência momentaneamente eclipsada pelas sombras que ainda provêm da matéria - tu me dirás se não foram merecidas as provas aspérrimas por que passaste.
"Numa das tuas anteriores encarnações, Paulo, já amaras a mesma criatura a quem te consagraste na Prússia com todas as fibras de tua alma, porém não lhe dedicavas afeição elevada como agora a sentes, capaz de todos os mais nobres impulsos, de todos os mais dignificadores devotamentos e sacrifícios.
Amaste criminosamente, impuramente, a mulher de alguém que acaba de te tirar a vida!
Estremeces?
Começa a recordar-te do teu lúgubre passado?
Lembras-te desse Período tenebroso de uma das tuas existências, origem das tuas mais tormentosas expiações?
"Eras, então, Paulo, um jovem frívolo e conquistador de corações femininos, um desses destruidores da felicidade dos lares honestos, como ainda os há infestando o globo terráqueo.
Um dia, seduziste a formosa consorte de um teu companheiro de infância, de quem te dizias amigo.
Ele, o marido ultrajado, inteirando-se da extensão da tua infâmia e perfídia, exigiu reparasses a falta e tratou de reabilitar a honra por meio das armas, num duelo de morte - o que era comum e explicável nas eras cavaleirescas da Idade Média.
Aceito o desafio, foi ele a tua vítima, como foste agora a de Carlos Kceler.
Eis a origem da repulsa que causavas àquele que, na tua última encarnação, era teu primo, e que, na anterior, fora o esposo atraiçoado por Elisabet, que ele adorava e a quem não amaste com o afecto ilibado que devias votar à consorte de um condiscípulo e camarada de infância, de um quase irmão, ao qual roubaste a vida cruelmente, depois de lhe haveres rapinado a honra e a ventura.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 10, 2018 1:04 pm

"Cometido esse duplo e hediondo crime - traição e homicídio - nem sequer te apiedaste da outra vítima: a adúltera.
Abandonaste-a, depois de a teres impelido à prática de uma aleivosia contra o esposo que a idolatrava; deixaste-a em extrema penúria, que a arrastaria aos lupanares, se não a houvesse tirado do paul, em que começara a imergir, um ilustre e virtuoso cavalheiro que, vendo-a em tão desoladora situação, antes que a desditosa mercadejasse a beleza peregrina, soube consagrar-lhe um afecto puro e fraternal, esqueceu-lhe o passado poluto e a desposou, tornando-se ela, desde então, esposa modelar.
"Estremeces, novamente?
Horrorizam-te as indignidades de tuas passadas existências, Paulo?
E queres saber quem é esse varão magnânimo com o qual Elisabet tem ainda de saldar uma dívida sagrada de gratidão?
É aquele com quem tua noiva casou há poucos dias, suicidando-se em seguida, na própria noite nupcial.
Não devia tê-lo feito, pois o holocausto doloroso do seu amor profundo, que lhe fora imposto como expiação da insídia que praticara noutra vida, ficou anulado, ao passo que, se houvesse se conformado com o destino, de pouca duração seriam seu sacrifício e martírio, visto que sua existência estava prestes a extinguir-se.
"Agora - desgraçados que sois! - cavastes, novamente, um abismo que, por muito tempo ainda, vos separará um do outro, fizestes jus a outras punições.
A Providência Divina -sempre justa, imparcial, infalível, integérrima - visava aplacar o ódio a que se votavam os dois antigos rivais, fazendo-os nascer ligados, noutra encarnação, por um próximo parentesco, membros de uma mesma família, a fim de poderem olvidar o passado tenebroso e metamorfosear a recíproca aversão em laços indissolúveis de uma afeição fraternal, sentimento que alia, umas às outras, todas as almas já limpas das imperfeições que as denegriam enquanto praticavam o mal.
"Sofreste, pois, na última romaria à Terra, as consequências funestas de uma outra em que levaste a desonra e o opróbrio a um lar feliz e casto; padeceste atrozmente por causa daquela que seduziste e não devera ter esquecido a sua condição de esposa de outrem, que lhe dedicava afecto ardente e leal; que não devera, sobretudo, esquecer de que já era mãe e que, entretanto, não se compadeceu do pequenino ser que concebera e que, abandonado, sem os seus desvelos, entregue a fâmulos, veio a perecer, proferindo o seu nome enodoado.
Eis explicada a instintiva repulsão que teu primo Carlos sentia por ti, infortunado Paulo:
era ainda a presença do antigo émulo, do adversário odiado, daquele que, acintosamente, depois de lhe haver marcado a dignidade de esposo, lhe trespassou o coração magoado com um sabre, quando ele procurava vingar a sua honra ultrajada, facto que ainda mais lhe exacerbava o rancor.
"É verdade que o Direito divino reprova o duelo, que não passa de um assassínio com testemunhas impassíveis, de um homicídio premeditado, como o que comete o sicário que arranca de emboscada a vida do forasteiro, e que, para o conseguir, planeia todos os meios de executar o seu sinistro intento.
É um delito abominável, pois é praticado com reflexão, com calma, escolhendo-se de antemão as armas.
Dentro de alguns anos, os códigos penais, alguns dos quais já o condenam, não permitirão mais, sob punições severas aos infractores, que se efectue qualquer encontro bélico, auxiliando assim as Leis Divinas que o consideram prejudicialíssimo à sociedade.
Mas, em tempos idos, mormente na Idade Média, era o meio mais pronto de que dispunha quem, ferido na sua dignidade, procurava zelar por direitos sagrados e desafrontar a honra, que ficaria desdourada se não o aceitasse ou não provocasse o ofensor.
Foste, pois, um dos que hão cometido esse delito, assassinando uma vítima da tua doblez e libertinagem.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 10, 2018 1:04 pm

Porque ficaste impune ante a justiça humana, os papéis se inverteram e, há pouco, em Paris, foste sacrificado por aquele que exerceu contra o antigo contendor uma vindicta feroz.
"Ele, agora, é mais desditoso do que tu, porque na via crucis, que vens de percorrer, não praticaste nenhuma transgressão às leis sociais, foste probo, justiceiro, de sentimentos nobres, ao passo que ele, rancoroso e vingativo, desconheceu todos esses valiosos predicados morais que possuis.
Cegavam-no o orgulho e a inclemência.
Se não os alimentasse n'alma, se os soubesse repelir com energia, vós ambos teríeis, de modo mais humanitário e de conformidade com o Direito divino, terminado as vossas existências, porque, pobre Paulo, ignoras ainda que teu primo Carlos também jaz num sepulcro recentemente aberto ao lado do teu - por uma ironia do acaso, como dirão muitos - mas que afirmo ter sido por desígnio do Céu, que uniu assim, no seio da terra, onde se nivelam todos os seres, aqueles que, animados pelo mesmo princípio vital, se odiavam como tigres famulentos, sanguinários.
"Os mesmos vermes que corroem o teu envoltório carnal hão-de devorar o dele.
Eis como terminam o orgulho e a vaidade humanos!
Protestas pela primeira vez?
"Sim, tens razão. Não execravas a Carlos tanto quanto ele a ti, porque vieste do Espaço com intenções inabaláveis de ser humilde e só praticar o bem.
Tinhas o coração propenso ao perdão e ao que é generoso e elevado, enquanto que ele não cumpriu o que promete todo o Espírito quando reencarna, a saber:
não se vingar, esquecer o que sofreu noutra digressão planetária, perdoar aos adversários, voltar à justiça e à virtude.
"Carlos era inexorável:
tua presença lhe evocava as dores do passado, nutria por ti uma aversão indomável; considerava-te a estrige nefasta de sua família, atribuindo-te toda a responsabilidade do passamento do avô paterno, da sua genitora, do suicídio da irmã - olvidando, obcecado pelos sentimentos vingativos que alimentava contra ti, ser ele mais delinquente do que foste.
Na sua mente desatinada, imbuída do desejo de represália, um só pensamento germinou contumaz:
saciar o seu ódio, destruindo-te a vida numa peleja encarniçada, em que ambos combatessem como leões enlouquecidos e sedentos de sangue.
Quando, porém, te viu - na manhã do dia em que te feriu mortalmente -, tão evidente era o teu sofrimento moral, tão nua a tua dor infinita, tão lívido o teu semblante, onde a angústia mais profunda afivelara sua máscara de gesso, ele - mísero Carlos - se compadeceu de ti, do teu padecimento inaudito.
"Vi-o então enristar a arma contra ti e recuar, uma vez, quase tão pálido como tu mesmo, todo o organismo abalado por um tremor nervoso.
Compreendi, claramente, que não queria mais se bater.
Não o consentiu, porém, o orgulho que o dominava ainda, o orgulho do prussiano desejoso de humilhar um francês.
Pela vez primeira, desde que te conheceu, quando te expuseste ao certeiro golpe do seu florete, quando te viu golfando sangue, com o peito varado, levou ele as mãos aos olhos turvos, cambaleando como se estivesse ébrio.
Teve horror de si mesmo e, recuando sempre, sem poder desviar a vista do teu corpo inerte e ensanguentado, partiu em busca de uma carruagem que o arrebatasse daquele local sinistro.
Mas, antes de partir, ouviu alguém bradar com indignação:
- Cometeu um homicídio!
"Desde aquele momento lhe flagelou a consciência um remorso terrível e, ao saber que não existias mais, pôs termo à vida, perfurando o crânio com uma bala, num quarto do hotel.
"Foram indescritíveis seus derradeiros instantes de amargura ilimitada, de inenarrável compunção, de incomensurável arrependimento e - como é perfeita a Justiça Divina! - morreu apiedado de ti.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 10, 2018 1:05 pm

Se não houvesses sucumbido, a partir daqueles instantes de sofrimento e remorso, se teria tornado teu amigo, teu irmão pelo infortúnio, esfacelada para sempre a aversão que te votava.
"Não suponhas, pois, ter sido a Providência Divina quem o impeliu a assassinar-te, Paulo.
Não; o livre-arbítrio é predicado de toda alma humana.
Todas têm a liberdade de praticar qualquer ato, bom ou cruel, devendo, entretanto, seguir, sem tergiversação, a senda do amor ao próximo, do altruísmo, do dever, da virtude, de tudo quanto é digno e meritório, para que, ao abandonarem as vestes sepulcrais, a Justiça Celeste não lhes tenha de punir faltas e, sim, amercear pelo bem praticado.
Não deve nunca a alma incrementar suas tendências violentas e nocivas às colectividades, e sim repelir o mal com todas as veras do coração, porque o Eterno jamais permite que o pratiquem impunemente as criaturas atentando contra suas Leis imutáveis e perfeitas. Se assim procedera o desventurado Carlos, se soubera perdoar e amar ao próximo, esquecer o passado latente na sua alma, a tragédia que teve tão doloroso epílogo, em Paris, pudera ter tido um desfecho venturoso e todos vós seríeis abençoados pelo Criador.
Para a consecução desse desiderato, tu e ele, na noite amargurada que passaste em vigília, depois de combinado o duelo, estivestes sempre cercados por vossos Protectores que, sofrendo convosco por motivo dos vossos tétricos pensamentos, não cessaram de vos inspirar sentimentos humanitários, para que não cometêsseis um crime, para que vos perdoásseis mutuamente.
Tu, Paulo, atendeste, em parte, às minhas exortações, mas ele ainda se deixou dominar pelo desejo de uma vingança que, levada a efeito, perpetrada desumanamente, não o saciou, antes lhe fez sofrer satânico martírio moral.
Tentando fugir-lhe, como o Iscariotes, pôs termo à própria vida - outro crime abominável!
"Se nos tivésseis atendido, escutando as paternas advertências, em vez da vindicta - o amor teria triunfado de todos os óbices que impediram a vossa reconciliação e, em vez da desgraça que uma arma homicida consumou, os corações enlaçados indissoluvelmente, pelos liames de uma afeição bendita, teriam forjado o eterno grilhão de luz que prende, umas às outras, todas as almas evolvidas - o da fraternidade ou das dedicações sublimes!"
* * *
"Ergue-te, meu irmão, e ouve-me ainda.
Antes, porém, de prosseguir, quero rogar a Deus por ti, numa férvida prece, pois que ainda não sabes fazer a tua alma voejar para o Eterno Consolador!"

15 Deusa que representa a justiça.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 10, 2018 1:05 pm

CAPÍTULO III
Não julgues, portanto, Paulo - continuou o meu austero Protector - que terias de ser morto, fatalmente, por um de teus primos, não.
Tudo quanto estava ao alcance dos mensageiros celestiais foi feito para demovê-lo do plano funesto, mormente por tua causa, porque já não eras mais um ser frívolo ou rancoroso, antes um Espírito que trilhava o carreiro conducente à perfeição.
Tinhas louváveis resoluções de cumprir espartanamente todos os teus deveres sociais e o houveras conseguido, se não fosses arrastado pelo vórtice dos sentimentos impetuosos, que concorreram para a realização dos intuitos ilícitos do teu antagonista, que só aspirava a cevar em ti a sua cólera, extinguindo-te barbaramente a existência numa idade primaveril e anulando, assim, todas as nobres aspirações que desejavas realizar.
Foi ele quem, com extremado orgulho, supondo-se de uma raça superior à tua, tendo-te insopitável aversão, cujo fundamento já conheces, dominado por excessivo amor pátrio, te prejudicou e à própria irmã.
Pode dizer-se que foi o causador das vossas desventuras, embora possuísse também qualidades morais apreciáveis.
Dependia também de vós, de ti, e de Elisabet, o vencerdes no prélio, tal qual se vos apresentava, como verdadeiros heróis.
Se tivésseis mais resignação -a coragem moral superlativa - ou se houvésseis erguido o pensamento ao Céu, em busca de auxílio e protecção do Omnipotente, talvez todo esse drama sangrento - em que foste uma das vítimas sacrificadas à vingança cruel e premeditada - não se desenrolasse e as vossas existências planetárias tivessem um epílogo de suaves alegrias, de concórdia e perdão.
"Bem vês, Paulo, que todos vós fostes culpados!
Às vezes depende de uma súplica fervorosa, profunda, humilde, sincera, emanada de um coração que se transporta ao Infinito, conseguir a criatura colher as flores da ventura a que aspira e espargi-las no áspero caminho cheio de urzes que até então trilhava.
E, dado que o combate perdure, por indiscutível desígnio supremo, ela sairá triunfante um dia, porque seus adversários deixarão pender das mãos as armas ou estas não poderão atingi-la, por isso que as hostes de invisíveis siderais não consentem que os golpes injustos penetrem o coração daquele que possui o escudo áureo e refulgente da fé inabalável no Criador do Universo!
"Esse broquel mágico, invulnerável e maravilhoso, Paulo, é que nunca empunhaste, terçando armas sozinho, quase abandonado, com os teus inimigos, por teres o teu ideal acorrentado à Terra.
Agora bem sabes que o verdadeiro ideal da alma só o encontramos no Além, onde fulgem os arquipélagos de estrelas!
"Parece que formulo um paradoxo quando digo que, na existência que se te extinguiu há pouco, bruscamente, não foi o ódio, mas o amor, sim, o amor às pátrias diversas em que nascestes, tu e teus primos, o pomo de discórdia, a origem dos vossos pesares. Infelizes!
Em que erro estáveis todos vós!
Mais tarde a Humanidade compreenderá que a pátria a que um Espírito se acolhe para encarnar, animando uma estátua humana é, apenas, um novo cenário em que figurará como actor, em que representará um drama, uma ópera, uma farsa, conforme o seu desenvolvimento psíquico, conforme o anelo que aninhe no coração por cumprir os deveres sagrados.
Na campanha da vida, muitas vezes é mais glorioso um mísero operário que desde o alvorecer começa o insano labor, trémulo de frio e quase exânime por falta de agasalho ou de pão, do que um marechal cujo peito áureas insígnias constelem.
"O Omnipotente, quando houve por bem elaborar o cosmos, criando miríades de sóis e de planetas, fez as diversas mansões dos Espíritos e nenhum tem pátria fixa.
Não lhes pertence nem um pugilo de pó, nem um fragmento de pedra, nem mesmo a que lhes cobre os despojos funéreos, que se transformam em larvas asquerosas e em vegetais que florescem e aromatizam o ambiente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 10, 2018 1:05 pm

O Universo, o Infinito, eis a pátria de todos nós!
"Só pelo pouco preparo e desenvolvimento espiritual, pela rudeza e selvajaria da Humanidade, ainda há, nos países que se intitulam civilizados, exércitos formidáveis e poderosas esquadras - instrumentos de morte e destruição, adversários seculares da confraternização mundial!
Mais tarde, quando ela se aprimorar moralmente, se enobrecer de sentimentos humanitários, dispensará as legiões e as esquadras.
Todos os povos então se congraçarão fraternalmente, se irmanarão pelo amor que aliará todas as almas, fazendo de todos eles membros de uma única família, numerosa bastante para povoar todo o orbe, aspirando uns à ventura e à prosperidade dos outros, reciprocamente, sem invejas, sem rivalidades, sem dissensões de raças nem de crenças religiosas.
Essa transformação social não se operará, infelizmente, nos primeiros séculos vindouros, Paulo, mas se realizará antes de transcorrido um milénio.
Há de, enfim, chegar a era abençoada em que será realidade o que agora parece utopia, pois já começou para a Humanidade terrestre a grande evolução, o progresso espiritual que porá termo à crueldade dos habitantes planetários, os quais, nas guerras fratricidas, se transformam em lobos sanguinários, destruindo as obras do Criador - os nossos semelhantes -, orfanando lares, desvirtuando donzelas...
"Se teu espírito voltar a peregrinar novamente nas regiões terrenas, verá - daqui talvez a quinhentos anos - que os povos não mais precisam de esquadras nem de hostes aguerridas para lutas fratricidas; que um único exército, mais poderoso que todas as legiões contemporâneas coligadas, as substituirá com inconcussa supremacia:
o do operariado culto, constituído por artistas egrégios, profissionais em todos os ramos científicos.
Esse exército e todas as classes sociais só cuidarão da prosperidade intelectual e moral dos seus habitantes, considerando a Humanidade uma só família e a Terra uma só pátria, limítrofe apenas do Espaço!
"Por enquanto, o amor cívico é um elevado sentimento, mas daqui a alguns anos não o será mais, porque, no futuro Império da Confraternização Universal, todos o considerarão reprovável egoísmo.
É actualmente um sentimento nobre, porém, o amor pátrio dos indivíduos não deve consistir em odiar as plagas estrangeiras - porque as separam, daquelas em que nasceram, um lago, uma cordilheira, um rio, simples acidentes geográficos - e sim no trabalho em conjunto, para que se torne realidade o aformoseamento das urbes, o adiantamento das Ciências e das Artes, destacando-se das outras algumas nações unicamente pela culminância de melhoramentos realizados.
"Em futuro remoto todas rivalizarão, se confundirão, como pétalas de uma flor!
Que importa, pois, ao Espírito, a quem Deus consentiu se corporalizasse, pousar aqui ou além, vindo do Espaço qual pássaro nómada que paira de súbito por sobre alta serrania, escolhe uma árvore para se acolher, nela constrói o tépido ninho, sem indagar se aquele doce asilo pertence a país africano, europeu, australiano, asiático ou americano?
Que importa à ave errante, que cinde os ares, esteja o ninho que construiu na fronde verdejante de uma árvore, em território bárbaro ou civilizado, se em nenhum fica ela isenta de trabalhar para manter o seu pequenino lar, de sustentar a prole adorada, de temer o caçador, de se amedrontar com as borrascas, de fugir às invernias ou se livrar dos rigores da canícula?
Que lhe importa, pois, que o galho penda para o norte ou para o sul, para o ocidente ou para o levante, se sabe que tem um destino a preencher utilmente:
- mourejar, amar, sofrer - e que, um dia, quando menos o esperar, a caçadora eterna - a morte - a virá tirar do ninho e restituir o sudário da alma à Natureza, túmulo comum que alberga no seio, com a impassibilidade de quem cumpre um dever austero e imprescindível às criaturas, os cadáveres das águias, dos rouxinóis, dos proletários, dos monarcas, das flores, dos chacais, das borboletas?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 10, 2018 1:05 pm

"E o que acontece à ave erradia não sucede à criatura humana?
Em que país estará preservada da dor, dos tributos devidos à Natureza, do labor, da lágrima, quando, vinda do Espaço, a alma se aninha num escrínio carnal?
"O patriotismo, portanto, o civismo ideal do homem vindouro consistirá em trabalhar e esforçar-se por tornar invencível, grande, formidável, a nação em que nasceu, pelo cultivo moral e intelectual dos seus patrícios, pelo florescimento de todas as artes e ciência, pelo conforto, prosperidade e paz de que desfrute a colectividade e não pelos exércitos, que terão desaparecido de todos os países.
Ser generoso, hospitaleiro para com os que nasceram além da linha divisória de sua pátria, é acolher irmãos, tão irmãos como os que descendem do mesmo país; venerar as nações estrangeiras não é ser mau cidadão - é ampliar o sentimento cívico, é amar suas passadas ou futuras terras natais.
O Espírito não tem uma pátria, tem centenas de pátrias, e, em cada uma, lhe cumpre laborar um pouco, alijar de si uma imperfeição de carácter, ascendendo, assim, um grau na escala infinita da perfeição.
Só desse modo poderá elevar-se às mansões primorosas, às paragens de luz!
Alguns Espíritos há, contumazes no erro, que se encarnam em todas as tribos humanas deste globo, desde as dos bárbaros até as dos povos mais cultos, fazendo um longo e lento tirocínio psíquico.
"Ao despertarem no Além, momento em que a alma devassa o passado, banhada de imensa luz, como se nela despontasse um plenilúnio interior, até então velado pelas sombras da matéria, triste e dolorosa se patenteia a realidade para os que colocaram o seu torrão natal acima do trono do Altíssimo e morreram defendendo-o, cheios de ódio à pátria de outros irmãos.
Baixando à Terra numa nova encarnação, vêm nascer no país que tiveram por inimigo e chegam a amá-lo às vezes mais do que ao outro em cuja defesa sacrificaram anteriormente a vida, e do qual só voltam a recordar-se quando se libertam novamente da prisão carnal.
"É por essa forma que o Omnipotente coliga as nações e extingue ódios injustificáveis.
Fazendo que os Espíritos ocupem todas as classes sociais, nasçam nas diversas regiões do globo, percorram assim a cromática das encarnações.
Ele os força à compreensão de que a Humanidade constitui uma só família esparsa por toda a Terra e pelo Infinito e de que, portanto, os povos se devem amar mutuamente e confederar com um único objectivo:
o de se instruírem e progredirem moral, intelectual e materialmente, cultivando a religião, as artes e as ciências.
"Em todas as pátrias o Espírito deixa afeições sacrossantas, que perpetuamente ligarão as almas entre si.
Cada um, ao recordar-se, quando liberto da vida material, das suas existências anteriores, se sentirá suavemente algemado a outros Espíritos espalhados por todo o planeta:
aqui a pais carinhosos, ali a irmãos dilectos, além a esposos adorados, mais longe a filhos idolatrados.
A todos se reconhecerá preso pelos grilhões luminosos do amor fraterno.
"Cada um verá que em todas as terras gozou, sofreu, trabalhou, e a reminiscência dos afectos e lutas do passado fará nascer-lhe no íntimo o sentimento da compaixão para todas as criaturas, sejam quais forem as raças a que pertençam no mundo.
Desde então, o cardo das tribulações terrenas, que, macerado no cristalino cadinho da alma, chagou os corações sensíveis, começa a desprender um aroma inconfundível, uma fragrância deliciosa que se evola para o céu, só comparável à das flores ali cultivadas.
É a fragrância do Amor-essência, que, consagrado ao Criador do Universo e aos irmãos que sofrem, se difunde por toda a Humanidade, sempre e sempre intensificado pela crença inabalável na infinita bondade de Deus, sob os nomes de piedade, abnegação, caridade, altruísmo supremo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 79717
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 2 de 7 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7  Seguinte

Voltar ao Topo


 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum