NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 11, 2018 11:53 am

"Esse o processo pelo qual, na sucessão dos séculos, se formam os abençoados apóstolos do bem, os missionários da mais sublime caridade, cujo protótipo encontramos em Vicente de Paulo, que tanto se ajoelharia para pensar as úlceras de um prussiano como a de um cossaco, as de um africano como as de um francês patrício; que estendia a mão luminosa e diáfana aos transeuntes implorando o óbolo com que fosse mitigar a fome ou substituir por tépidas roupas os farrapos de um orfãozinho, de um desvalido, de um enfermo, sem indagar se o mísero nascera na Inglaterra, na Suíça, na Núbia, na Arábia ou em Jerusalém!
"Semelhante proceder significará, porventura, ausência de amor cívico? Não!
Quem assim procede amplia esse sentimento a todo o género humano; dilata-o indefinidamente para muito além das raias de um império ou de uma república; abrange nele todos os povos, considerando-os membros de uma só família, parte de uma colectividade indivisível.
"A alma acrisolada pela dor, virtuosa, purificada, vitoriosa nos prélios do sofrimento através dos séculos, ora no orbe terráqueo, ora no Além, cria asas de luz que a fazem voar para o Infinito, não lhe permitindo acorrentar-se pelo afecto a um pedaço de terra qualquer.
À medida que galga os cumes da espiritualidade, seus sentimentos nobres se expandem, não se restringem.
Compreendendo, cada vez melhor, que todos os seres humanos são irmãos, ela a todos dispensa auxílio e patrocínio, pois que do mesmo passo reconhece que nem o amor aos nossos semelhantes, nem a dor, nem o pranto têm pátria determinada, ou seleccionam, aquém ou além-fronteiras marcadas por mares, serranias, cursos d'água.
"O planeta onde há pouco acabaste de viver é apenas um dos muitos degraus de que se compõe a escada que vai dos mundos de treva aos orbes radiosos, que iremos escalando aos poucos, gradativamente, à proporção que evoluirmos sob os pontos de vista moral e intelectual.
"Assim, o espírito que se libertou do materialismo, das convenções rotineiras e das imperfeições humanas, em vez de fazer de uma fracção do globo terreno o objecto do seu amor, votá-lo-á indistintamente a todas as outras fracções que completam essa unidade que se chama Terra.
Em vez de restringir sua afeição a um só país, amará igualmente todas as nações, certo de que mais tarde todas formarão uma só pátria, regida por um monarca supremo, o Omnipotente, síntese de todas as perfeições, com um só pavilhão, onde se lerá, escrita em caracteres luminosos, a legenda:
'Deus e amor ao próximo'.
Em torno desse pavilhão virão agrupar-se as diversas raças que ainda hoje se odeiam, e fundir-se todas as nações formando uma só, grande e poderosa, pelo fulgor de suas virtudes.
Os elevados sentimentos que, até aqui, os Espíritos que na Terra encarnam têm consagrado, nas suas múltiplas encarnações, de cada vez a um dos países que cobrem a superfície desse planeta, acabarão por constituir um foco único do qual irradiará o amor puro, feito de altruísmo, de compaixão, de humildade.
"Exemplos de um tal amor já os homens têm diante dos olhos nessas criaturas que sacrificam a beleza e a juventude, que abandonam os deleites mundanos, para se dedicarem à caridade ilimitada, passando a existência nas enfermarias dos hospitais - onde se nivelam todas as castas, onde terminam os mais pungentes dramas de ódio, onde se pulverizam o orgulho e a soberba ao sopro da adversidade - ajoelhadas à cabeceira dos agonizantes, curando pútridas chagas, espalhando consolações, tendo sempre estampadas na retina as imagens da morte, da miséria, da impotência humana, vendo na dor a grande niveladora da Humanidade.
"No futuro, este papel caberá ao amor.
Então, desde que a sua centelha divina se produza num coração, abrasará todos os outros, sem que nenhum indague a que nação pertence o primeiro, se é de fidalgo ou de plebeu, de nababo ou de pobre calceteiro.
É o amor, eis tudo!
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Ave sem Ninho

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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 11, 2018 11:53 am

"Assim será quando houver passado o turbilhão dos séculos que hão-de vir, quando, tendo por lema - Deus e amor ao próximo -, o lábaro da fraternidade for arvorado por todas as nações, o que significará que elas se tornaram verdadeiramente irmãs, que se ligaram indissoluvelmente, que as suas fronteiras se dilataram indefinidamente até aos oceanos, que estes são os seus únicos exércitos.
"Chegará, enfim, a era bendita, em que as hostes aguerridas abandonarão as espadas e as carabinas; em que todos, tornados paladinos da paz, empunharão o alvião, o buril, o pincel, a pena, os instrumentos agrícolas, os de cirurgia, os da arte dos sons; em que as somas fantásticas, até então despendidas com armamentos e munições, reverterão para a obra do conforto social, do embelezamento artístico das cidades.
Fundido, o bronze de todas as metralhadoras, de todos os fuzis, de todas as baionetas, de todos os canhões, de todos os obuses servirá para perpetuar a mais bela vitória do mundo numa outra coluna Vendôme,16 num outro Arco de Triunfo.
Servirá, em suma, para com ele se erigir, neste planeta, o mais glorioso dos monumentos, cujo ápice tocará quase as nuvens, consagrado à divina Paxl17
"A sociedade desse porvir bonançoso não mais consentirá que dois jovens esperançosos cevem ódios abomináveis, destruindo um, cruelmente, a vida do outro, como jaguares ávidos de carniça, sedentos de sangue.
"A Humanidade futura não se verá mais enlutada por uma tragédia como a que se consumou em Paris, a cidade da luz, e cujo prólogo se desenrolou em Berlim.
"Agora, Paulo, os três entes, um dos quais és tu, que já atravessaram muitas existências jungidos pelo ódio e pelo amor, vão encontrar-se de novo, em ulteriores encarnações ainda mais dolorosas, agrilhoados exclusivamente pelos vínculos de sacrossantas afeições.
"Tremes? Não te julgas bastante forte para encetar esse temeroso prélio, em que terás de afrontar com denodo as armas constantemente enristadas para o teu coração sensível - as dores lancinantes das provas redentoras - empunhando apenas o lábaro da fé, da resignação e da coragem moral?
Amas ainda a Elisabet?
Queres que a sua existência se una a tua por laços ainda mais estreitos do que já o foram em tempos idos?
Sentes-te com o ânimo espartano e a intrepidez suprema de perdoar e amar teu inimigo Carlos Kceler - aquele que te trespassou o coração com o florete, depois de o ter golpeado mais dolorosamente quando, qual impiedoso verdugo, te fez conhecer do suicídio da tua prima, impelida à prática desse crime por ele próprio, que nunca se compadeceu do sofrimento de suas vítimas senão ao vê-las exânimes?
"Se te sentes com essa energia heróica, tua nova existência, daqui a alguns lustros, será algemada à daquela por quem chamaste ainda há poucas horas - esquecido, como sempre sucedeu em todos os teus transes mais dolorosos, do Criador das almas e das constelações, de tudo quanto ignoras.
"Mas é mister que o seja também à de Carlos, porque os vossos espíritos estão indissoluvelmente ligados um ao outro pelo rancor e por delitos praticados em comum.
Depois sê-lo-ão, unicamente, pelos sentimentos mais nobres e sublimes. Se, porém, não perdoares ao desditoso delinquente, por milénios te verás separado daquela a quem amas e por quem ainda sofres loucamente.
Reflecte, Paulo, e acabarás aquiescendo aos meus rogos.
"Tens diante de ti uma frágil ponte levadiça, que, lançada sobre o imensurável abismo com que defrontas, te dará acesso à terra firme.
Preferirás desprezá-la e precipitares-te na voragem?
És nobre, possuis uma alma arroteada para a semeadura de excelsas virtudes.
Conto, pois, que firmes comigo um pacto.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 11, 2018 11:54 am

Eu, teu protector de muitos séculos, que te tenho inspirado aversão ao mal e culto ao que é meritório; eu, que te hei insuflado ideias elevadas, muitas das quais puseste em prática; eu, que só almejo repares tuas transgressões às Leis Divinas, a fim de que, no futuro, fiques isento da dor; eu, que tenho sofrido com os teus desvios e lenido, inúmeras vezes, as tuas amarguras, apelo para a nobreza do teu carácter e quero que firmes comigo este pacto sagrado:
doravante só praticarás actos dignos e louváveis; adorarás, muito mais do que à tua noiva, ao Eterno.
Colimando esse ideal, que acaricio há longo tempo, vou mostrar-te seus domínios siderais, seus Impérios de Luz, para que assim germine no teu íntimo a admiração pela sapiência, pela perfeição, pela glória e bondade de quem os espargiu no Universo!"


16 Praça monumental de Paris no meio da qual se localiza uma coluna célebre, feita com 1.200 canhões tomados ao inimigo por Napoleão I, em 1805.
17 Paz.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 11, 2018 11:54 am

CAPÍTULO IV
Começamos, então, impelidos pela vontade potente daquela luminosa entidade, a cortar celeremente os ares.
Eu que, pouco antes, me sentia chumbado ao solo, tive a sensação de me haver libertado da gravitação terrestre e de estar sob o império exclusivo da força centrífuga, a qual me arrojaria por certo ao firmamento, que me atraía, encantava, alucinava.
Escoados alguns momentos, contemplei o espectáculo mais maravilhoso de quantos pudera ter fantasiado em horas de sonho ou de êxtase:
o desfile, por assim dizer, dos astros de que nos aproximávamos, em nosso voo cada vez mais veloz, mais vertiginoso.
Passamos além da atmosfera do globo terráqueo, deixamos de lhe sentir a atracção, penetramos no éter e experimentei uma sensação que me pareceu inédita, delicada, subtil, incomparável:
a de que ele se me impregnava no perispírito, se identificava com a minha natureza fluídica.
Tive, enfim, uma impressão de calma, de serenidade, de entorpecimento, como igual jamais desfrutara na Terra.
A meu lado o Guia, fulgente e silencioso, parecia não atentar no que nos circundava, habituado, certo, à esplêndida apoteose divina das constelações cambiantes.
De súbito, porém, me chamou a atenção, apontando as estrelas de que nos avizinhávamos e que se apresentavam como que ampliadas por mágico telescópio.
- Hoje, caro amigo, após a vossa última desmaterialização, já sabeis, pelo deslumbramento que sentistes, quais a estupefacção, o pasmo, o quase delírio que se apodera de um Espírito neófito, quando - depois de uma esfera radiosa, em pleno Infinito; quando, ao sair das trevas planetárias - mergulha neste oceano de éter pontilhado de pérolas, onde gravitam as nebulosas.
"Sensação idêntica experimentaria talvez um tímido campónio gaulês, criado em mísera choupana, que penetrasse de improviso na Ópera de Paris, no momento de uma apoteose fantástica, maravilhosamente iluminada, tocando em surdina uma orquestra encantada."
Foi assombroso o que experimentei bruscamente, ao atingir o decantado céu.
Aqueles sóis que, até então, só me fora dado contemplar como pomos de luz pendentes de gigantesca fronde azul, mas limitada pela vista, tomaram para mim, abruptamente, outro aspecto.
Aumentaram de volume e de irradiação, tornaram-se ciclópicos, mostraram-se-me em posições graciosas, desmembrados uns dos outros.
Pude considerar quanto é falha a percepção humana, pois, a visão de quem ainda se acha na geena terrestre, as estrelas se auguram engastadas na concavidade de um único zimbório turquesino, como que pregadas a camartelo sem distinção apreciável, constituindo as constelações apenas núcleos fosforescentes.
Vi-as então desligadas, colossais, resplandecentes, ígneas, de matizes diversos, inigualáveis, indescritíveis no idioma dos seres terrenos.
Lembrei-me, naqueles momentos de inenarrável enlevo, de que a Terra - por uma liberalidade do nababo celeste -encerra em seu seio pequeninas constelações - com certeza fragmentos de estrelas, que com ela se amalgamaram, quando o Arquitecto Divino, elaborando o Universo, lhe manipulava os elementos componentes ainda em difusão, em caos.
Daí vem talvez que, ao formar-se-lhe a crosta, nela se incrustaram cintilas de sóis, moléculas de esferas luminosas, de diferentes colorações, indo alojar-se nas suas entranhas, onde formaram as mais esplêndidas jazidas de diamantes, esmeraldas, rubis, topázios, turmalinas.
Assim, esses primores da natureza terrestre nada mais são que aparas de astros rolados do Além, quando o excelso artista cinzelava os corpos siderais.
Eis por que o orbe terráqueo se tornou o escrínio de jóias policrómicas, de fagulhas irisadas caídas do firmamento nos instantes em que o cinzel do Lapidário eterno trabalhava as fúlgidas gemas, que depois constituiriam as constelações.
Passamos, a surtos velozes, pelas mais deslumbrantes, portentosas e titânicas gotas de luz, de uma suavidade crepuscular, de todas as gradações, na infinita cromática das cores.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 11, 2018 11:54 am

E não saberia dizer, se alguém mo perguntasse, qual a mais admirável das camândulas lúcidas que o Criador espalhou pela amplidão, pois que eram todas incomparavelmente belas.
Havia-as de todos os matizes:
lilás, violeta, amaranto, roxo, ametista, róseo, nacarado, carmesim, ocre, cerúleo, turquesa, cobalto, ultramar, verde-claro, esmeralda.
Não me deterei, porém, na descrição minuciosa desses lavores do cosmos, pois que já os conheceis cabalmente.
Se às vezes pormenorizo a narrativa, é porque desejo, caro amigo, transmitir-vos com fidelidade os meus secretos pensamentos.
Assim, não poderia omitir a emoção que experimentei ao contemplá-los de perto pela vez primeira, ao entrar na erraticidade onde passei mais de vinte anos em aprendizagens imprescindíveis à evolução de minh'alma, instruindo-me na incomparável Escola do Infinito, apreciando, de vzsu,18 as estâncias dos Espíritos de luz, já lapidados como diamantes raros.
Ainda não me era permitido ficar em comunhão com eles, a cujas mansões ascendia apenas para colher um exemplo que me servisse de norma de proceder em nova encarnação; que servisse ao cumprimento dos meus deveres para com o próximo e para com o Incriado, único meio de conseguir a perfeição psíquica.
Lá ia, sobretudo, para aprender a venerar o Criador de todos esses ninhos luminosos - paragens onde laboram os libertos dos erros -, mundos que outrora me fascinavam e hoje me assombram.
Eu e o meu preclaro Guia nos assemelhávamos a dois peixes alvinitentes - ele, porém, revestido de um fulgor permanente, que o fazia translúcido.
Bem diverso do meu era o seu corpo astral.
Nadávamos ascensionalmente num oceano de irradiações, nunca por mim entrevisto em sonhos.
Às vezes, a formosura do meu fulgurante companheiro me deslumbrava. Era quando passávamos pelas fotosferas coloridas que afluem do âmago das estrelas, verdadeiros nimbos de luz suave e veludosa.
Ele se metamorfoseava, se transfigurava e, absorvendo-lhes as cores mais belas, os matizes mais delicados, tornava-se de uma beleza ideal, surpreendente.
Seu mediador plástico, de essência mais pura que o meu, saturava-se, impregnava-se mais facilmente daquelas projecções luminosas.
Súbito, despertando-me do enlevo em que me achava mergulhado, retomou a palavra, ou antes, começou de novo a falar-me na linguagem do pensamento, a mais perfeita e rápida que há no Universo, dizendo:
- Eis, Paulo, alguns astros que te desvairam, algumas pérolas de luz do colar divino, esparsas pelo Infinito, constituindo as diversas mansões dos Espíritos adiantados.
Podes, agora, fazer ideia aproximada do poder e da omnisciência daquele a quem na tua última encarnação não soubeste amar nem prezar como devias.
Foi mister penetrasses na Escola sublime da amplidão para que aprendesses a venerá-lo!
- Será crível - observei-lhe, com o senso ainda um pouco obliterado pelo assombro - que aqui possam vir domiciliar-se as criaturas que, na Terra, sofreram e delinquiram?
Posso nutrir a esperança de vir a ser um de seus habitantes, futuramente?
Não são estes de uma contextura mais quintessenciada, como a do nosso perispírito, de uma perfeição inatingível para os seres terrestres?
- Hoje a têm, mas já foram impuros, caliginosos e hediondos.
Que somos, eu e eles, senão almas redimidas no Jordão da dor, remotos delinquentes planetários, que nos despojamos das fraquezas e dos erros humanos, para que a luz - a essência que nos identifica com o Criador - fluísse do nosso eu?
Que surpresa seria a tua se soubesses a que longitude já estamos do minúsculo planeta onde sofreste árduas provas, sem que deixasses ainda de lhe pertencer, e para o qual terás de voltar a tempo breve!
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 11, 2018 11:54 am

Sabes, porventura, que distância nos separa de Paris, onde se acha o teu invólucro mortuário, devorado pelos vibriões enquanto o teu Espírito voeja pela amplidão celeste?
- Estou sob o domínio de um sonho fascinador.
Como posso comparar os meus conhecimentos, mesquinhos e finitos, com os vossos, ilimitados, quais soem ser os das entidades siderais?
Que sei, senão alguns rudimentos científicos, adquiridos nas Academias do sombrio globo terrestre; senão que ignorava justamente o que me poderia conduzir à felicidade, se o tivesse aprendido!
Haverá, na matemática humana, algum cálculo com que se possa avaliar, precisamente, a distância que separa os corpos celestes uns dos outros, logaritmos que estimem a grandeza incomensurável da Criação?
- Pois bem, reflecte, Paulo, como é falha a Ciência que exclui o factor primordial de todas as coisas portentosas - Deus, o matemático incomparável, que dá solução aos problemas mextricáveis para os homens mais eruditos.
Nota o vácuo tremendo que havia em tua alma e que só poderia ser preenchido pelo pensamento sublime que, hoje, começou nela a desabrochar - o do amor divino - que todos os entes lhe devem tributar.
Avalia quanto é poderoso, omnisciente, misericordioso aquele que nos pune, pelas expiações aflitivas, dos delitos cometidos; que, depois da reparação de todos os crimes, nos estende por sobre a fronte a destra protectora, e nos dá sua bênção de luz, recompensando-nos a coragem moral com uma indescritível e perpétua ventura.
É o Pai extremoso que corrige, compassivo, os desvios dos filhos dilectos, mas não os abandona, facultando-lhes sempre todos os meios de se tornarem ditosos no futuro.
Compreendes agora que, desse instante, desse átomo do tempo - que se chama a vida material - depende, todavia, a nossa felicidade perene!
Sofrer é, pois, burilar a alma, é, como faz o escultor com um bloco informe de Paros,19 que se transforma em obra-prima de irrepreensível estética, modelá-la para que, despojada dos erros e das imperfeições, facetada como o diamante sem jaça, fulgurante qual fragmento de Vésper,20 depois de ter sido sombra, fuligem, treva, ascenda na escala espiritual e venha habitar uma destas moradas resplandecentes, que te causam delírio.
"Se houveras sabido desempenhar a tua última missão, suportando cristãmente as dolorosas provas, cultivando os sentimentos generosos que já possuis, abominando o mal, que não praticaste nessa extinta existência; se tivesses venerado o Omnipotente mais do que veneraste uma criatura humana a quem te dedicaste sem restrições e que não era mais do que uma das inúmeras chispas que se desprendem continuamente daquele foco inextinguível - tu e ela, uni dos pela afeição que mutuamente vos consagrais, poderíeis viver ditosos, depois de desmaterializados, num destes orbes que parecem desfilar diante de nós, como cortejo de vassalos radiosos, em direcção ao Monarca Absoluto.
"Delinquistes, porém, e, agora, ides ambos cumprir novas sentenças, mais pungentes ainda do que as que merecestes nas vossas anteriores existências.
Tens, Paulo, que recomeçar outra missão e do seu desempenho depende o granjeares nova pena ou a absolvição.
Refaze, pois, as potências da tua alma; haure no éter as forças novas que te hão-de faltar muitas vezes na Terra, para onde regressarás; recobra a energia combalida pelas adversidades de tuas encarnações acidentadas; contempla e admira o Império da Luz por que tua alma suspira; reflecte na sabedoria, no poder, na longanimidade daquele de quem sempre te esqueceste nos momentos de angústia.
"Não te lembraste nunca de lhe suplicar auxílio para a realização de teus anelos; só aspiravas a ser venturoso no instante, no relâmpago fugitivo de uma vida planetária, em que o homem, quando atinge meio século, começa a declinar visivelmente, cobrindo-lhe a fronte de neve e pendendo para o túmulo, ao passo que, no firmamento, transcorrem os milénios; e os Espíritos, invulneráveis à acção do tempo, se tornam mais belos, perspicazes, fulgurantes, na posse plena de todos os seus atributos anímicos.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 11, 2018 11:54 am

A Humanidade insana, porém, só dá valor ao instante em que pisa o solo terreno, ao momento que, no infinito do tempo, exprime a duração de uma existência, e despreza o porvir que se desdobra sem limites em miríades de séculos!
"Compreendes agora que há um Ser Soberano presidindo aos nossos destinos e a quem devemos amar acima de tudo, superlativamente, porque a sua perfeição é inconcebível, a sua bondade ilimitada, o seu poder imensurável.
Eu, que aqui estou a teu lado, que te instruo nas verdades celestiais, não sou uma prova da generosidade divina?
Poderias ter permanecido acorrentado, durante séculos, àquela planície árida onde te achavas, supliciado pelo silêncio e pela inércia eternos, escravo de ti mesmo, devorado pelos teus próprios pensamentos - como Prometeu21 pelo corvo cruel e voraz - abandonado de toda a Humanidade, flagelado pelas saudades de tua noiva e pelo ódio do teu adversário, sem divisar um ente amigo.
"Entretanto, todo esse martírio inquisitorial te foi poupado!
Deus não quer nem permite que nenhum dos seres por ele criado deixe de progredir.
Eis por que te inicio no noviciado sublime em que aprenderás o que é o Infinito, o que é o Eterno, quais as suas Leis irrevogáveis.
É para que em tua alma penetre o desejo de o amar e servir lealmente, por gratidão, submissão, veneração sincera e não por covardia, pelo receio de uma punição despótica!
Seu poder infinito não esmaga; ao contrário, ergue - do abismo dos delitos abomináveis aos paramos etéreos onde gravitam os sóis -as almas dos réprobos já redimidos, dando-lhes a desfrutar os esplêndidos tesouros que a sua munificência disseminou pelo Universo - o sumo prodígio!
"Agora que já viste tantos portentos siderais, que tens a alma em bonança, após dias de verdadeira procela íntima, é preciso tomes uma grave e magna deliberação:
abroqueles-te na resistência aos sentimentos que se nutrem no mal.
"Queres, Paulo, desempenhar um proveitoso, mas arriscado encargo, que dará incomparável mérito ao teu espírito, proporcionando-te ensejo de expurgá-lo das suas últimas imperfeições, de escoimá-lo dos erros em que laboravas não há muito, fazendo-te galgar um degrau da escada da evolução psíquica?
Tens ânimo de enfrentar a tua vítima de outrora, teu assassino de há pouco, sem repulsa e sem lhe desejares nenhum mal?
Queres viver ao lado de Carlos e de Elisabet sem poder vê-los, sacrificar-lhes tua saúde e mocidade, heroicamente, esquecido das faltas de um e amando o outro com um sentimento menos sensual, mais fraternal e mais puro?
"Escolhe:
ou os séculos a te separarem daquela a quem adoras, se persistires no erro, ou a recompensa, após o desempenho de uma árdua missão de sacrifício e de devotamente.
Para conseguires levá-lo a cabo, farás na erraticidade um tirocínio de mais de quatro lustros, a fim de que tuas faculdades morais se avigorem com os salutares ensinos que vais colher nas etéreas regiões e não te consintam fraquejar nos prélios da dor, na batalha espiritual que terás de travar, nas provas por que passará teu coração extremoso.
Bem sabes que mais sofre quem mais apurados sentimentos possui."
* * *
Encontrava-me, assim, num momento decisivo:
sentia o veemente desejo de progredir espiritualmente, a fim de poder desfrutar as maravilhas celestiais que já conhecia, a insopitável ânsia de aliar minha existência à da idolatrada Elisabet, mas ainda não me era possível pensar sem constrangimento ou rancor em seu irmão; perdoar-lhe sem que em minh'alma restasse vestígio dos pesares com que me supliciara.
Essa luta secreta, porém, não se prolongou muito, pois que nos báratros do meu espírito se elaboravam pensamentos de paz e concórdia, operava-se uma completa revolução.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

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Pus-me a analisar o próprio eu e verifiquei que até no sentimento que sempre consagrara a Elisabet se produzira sensível mutação.
Principiara a dedicar-lhe afecto bem diverso do que lhe consagrava na Terra - menos humano e mais célico, amálgama de sofrimento, de sacrifício, de saudade, de ternura, capaz de me alentar a suportar todas as adversidades martirizantes. Num como horizonte íntimo se debuxava o alvorecer de outro amor supremo.
Algo de imáculo, de redentor, de deífico, penetrara em mim pela fenda que na alma abrira a linguagem nobre e convincente do meu preclaro Instrutor.
Volatizara-se o cepticismo que a ensombrara por muito tempo; esvaíra-se como floco de neve diluído pelo sol dos trópicos; invadira o santuário do meu ser a luz suavíssima, cálida, acariciadora, inextinguível do amor ao Sumo Árbitro de todas as criaturas!
Ansiava por manifestar submissão e reconhecimento ao meu generoso Protector.
De repente, cercado de constelações, admirando a magia divina, a magnificência das esferas coruscantes, firmei com ele o pacto de honra de só praticar o bem; de suportar cristãmente todos os reveses da vida terrena que o Criador me concedesse; de perdoar a Carlos todas as amarguras que me infligira, em represália às que lhe fiz sofrer outrora.
Ao formular este último item, um tremor me abalou profundamente:
alguma coisa de nebuloso, de éreo se rompeu e se fez em estilhas dentro em mim.
Perdoar! Teria enlouquecido em pleno Espaço? Talvez.
Perdoara, de facto, a Carlos?
Ser-me-ia possível esquecer as lágrimas que me jorravam dos olhos até magoá-los; olvidar as dores infernais com que me flagelara o coração, fazendo-me ranger os dentes de desespero, de demência, de cólera, de furor; comprometer-me a amar aquele que nunca se compadecera de mim?
Perdoar é, sem dúvida, estar inspirado pelo próprio Deus, é passar de humano e imperfeito a semidivino!
Seria crível que eu deixasse de execrar o meu cruel antagonista?
Que é que de estupendo se passara no meu íntimo?
Deixei de ser sombra, noite, caligem, para me tornar luminoso como as estrelas! De que modo?
E que o amor consagrado ao Omnipotente dissolve, até ao derradeiro átomo, o ódio que se aloje no mais oculto subterrâneo da alma, como febo espanca as trevas nocturnas, como as invernias afugentam as andorinhas, como a espada do arcanjo põe em fuga o dragão simbólico.
Só então compreendi que o ódio entenebrece o espírito, ao mesmo tempo que o faz de chumbo e desventurado, pois que - desde que pronunciara o sublime vocábulo perdão me senti diáfano, subtil, de uma serenidade indizível, como jamais gozara.
Pela primeira vez, pude extasiar-me com as vibrações harmoniosas da Criação, como se todas aquelas cintilantes esferas fossem harpas esparsas pelo empíreo, que, juntas, tocassem uma sinfonia maravilhosa, tangidas pelo próprio Artista Supremo!
Julgava sonhar... delirar!
Subitamente, tudo cessou.
Envolveu-me de novo o mesmo silêncio de antes.
Mas em minh'alma se cristalizara uma estria de luz, que só se extinguiu quando encetei a nova existência planetária.
Durante esta, porém, aquela luz muitas vezes brilhou como fugaz crepúsculo dentro de mim, nos momentos em que mais viva era a minha tortura moral.

18 Por tê-lo visto
19 Ilha grega no Egeu.
Famosa na Antiguidade clássica por seu mármore branco.
20 O planeta Vénus.
21 Titã grego que roubou o fogo divino de Zeus para dá-lo aos homens, que assim puderam evoluir e distinguir-se dos outros animais.
Em castigo, foi acorrentado no cume do Cáucaso, onde um corvo lhe devorava o fígado.
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Ave sem Ninho

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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 11, 2018 11:55 am

CAPÍTULO V
Por algum tempo ainda, ao lado do meu insigne Protector, vagueei pelo Universo, cada vez mais deslumbrado ante espectáculos inéditos, que, continuamente, me era dado contemplar no mesmo cenário magnífico que nos circunda agora.
Uma vez - sem saber ao certo desde quantos anos estava desmaterializado, pois perdera a noção do tempo, conforme o apreciam os habitantes do globo terrestre - ao passarmos pelas fotosferas de orbes fulgurantes que, contemplados de dentro das vestes carnais, nos aparecem quais gemas rutilantes, avizinhamo-nos de um dos de mais prodigiosa contextura, semelhante a uma turquesa fosforescente.
Dele fluía, ininterruptamente, uma luminosidade, um luar azul, suavíssimo, veludoso.
Era, qual o sonham os crentes, verdadeiro céu em que desejáramos penetrar para dulcificar a alma ansiosa, amainar os sentimentos impetuosos, banhando-a nas ondas opalinas de uma paz e serenidade incomparáveis.
Surpreendeu-me, então, pela segunda vez, mas com maior precisão, a harmonia inenarrável dos acordes de uma orquestra sideral invisível.
Imaginai o meu encantamento ao ouvir em concerto vozes de timbre celeste combinadas com os sons de flautas, cítaras, estradivários tocados por seres etéreos e cujas notas se evolavam da corola daquela estrela maravilhosa, como da pulcra açucena se exala deliciosa fragrância nas noites de plenilúnio.
Verifiquei que também os sóis possuem inebriantes aromas, que se desprendem, constantemente, dos seus núcleos radiosos.
São as vibrações canoras que deles se alam em direcção ao Eterno!
Nunca me permitira o meu formoso Guia abeirar-me assim de um dos mais portentosos mundos da Criação.
Sentia-me, por isso, extasiado, ouvindo os acordes daquela música inefável.
Uma sinfonia em pleno Infinito!
Eram cânticos dulcíssimos e instrumentos maviosos dedilhados no éter por entidades certamente diáfanas, de primorosos contornos!
Um coral de arcanjos ouvido por um Espírito bisonho que se iniciava nos segredos da divindade.
Podeis imaginar qual o meu enlevo, o meu arrebatamento!
Deploro não haver expressões na linguagem humana com que possa dar a conhecer o que se passou no recôndito de minh'alma.
Não há vocábulo que exprima o impossível, nem que traduza os nossos mais secretos sentimentos.
Desejaria - se me fora permitido por Deus - permanecer assim fascinado, extático, paralisado na amplidão, equilibrado no éter - qual colibri embriagado de mel e perfume, imóvel sobre uma rosa sedutora - ouvindo perpetuamente os arpejos desferidos pelos silfos siderais, que não tive permissão de contemplar, mas que forçosamente são ideais, sublimes, de beleza indescritível!
Expressei meu desejo ao querido Instrutor, que o não desconhecia.
Repentinamente, tendo com ele aprendido a admirar o cosmos em nossa trajectória através das constelações - com as ideias iluminadas por um relâmpago interior, alcei o pensamento ao Altíssimo, dirigindo-lhe vibrante súplica, um hino que a alma, reconhecida e deslumbrada, improvisou.
Pela segunda vez senti que, para todo o sempre, se esfacelara no meu íntimo o que quer que fosse, sombrio ou pesado, ficando-lhe no lugar uma réstia de luz, que incendeu todo o meu corpo fluídico.
Deu-se o que sucede às vezes aos nimbos que, esfarrapados pelo vendaval, deixam a descoberto, no fundo da abóbada celeste, ligeira fímbria azul, onde lampeja uma estrela, de diamantino fulgor.
Terminada a prece, murmurei, como se me estivesse ouvindo o próprio Omnipotente:
- Senhor, por que não nos concedeis a graça de aqui permanecermos até a consumação dos evos?
Porque não me permitis penetrar nesse orbe cujos habitantes, certo, desfrutam ideais felicidades?
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 11, 2018 11:55 am

Meu Instrutor se conservou silencioso, entristecido.
Naqueles momentos de ventura, caro amigo, esquecera-me um pouco de Elisabet.
Dava-se comigo o que nos acontece quando, mergulhados em sono letárgico, sonhos encantadores nos povoam a mente, fazendo-nos olvidar as pungentes mágoas, os mais intensos pesares, os mais vivos sofrimentos.
Achava-me num estado normal, em que se esmaeciam as recordações que levara da Terra, ao mesmo tempo que se produzia em minh'alma a eclosão de um outro sentimento incoercível, inexplicável - misto de gratidão, de suavidade, de admiração, síntese de todos os afectos nobres e acendrados, objectivados em ondas de luz e de harmonias:
o amor excelso ao Criador!
Amesquinhara-se porventura a afeição que me prendia a Elisabet?
Dar-se-ia que o me lembrar dela no céu toldava a minha ventura, fazia-me entristecer?
Não. Apenas no meu espírito se verificou uma transposição:
o amor humano descera alguns graus abaixo do outro, que ascendera ao Infinito.
Ambos, porém, já haviam transposto as raias da Terra e atingido a culminância do firmamento estrelado.
Seguiam-me como as espumas acompanham a gôndola que sulca um lago azul, faziam parte integrante do meu ser, estavam-me vinculados n'alma por elos que jamais se dessoldarão.
Operara-se em mim grande metamorfose, a mesma por que passa o sirgo, a lagarta, ao tornar-se borboleta:
deixa de se rojar pelo caule dos vegetais e pelas relvas e se libra nos ares, a sugar o néctar das flores, rufiando asa irisadas e brilhantes, invejadas pelas próprias rosas que dela se enamoram.
O amor à criatura, se bem que profundo e eterno, baixara a segundo plano, feito que era de sofrimentos, de esperanças fenecidas, de anos de angústia, de dores inauditas, de recordações sagradas; o outro, o amor ao Incognoscível, se compunha de luminosidades, de melodias, de fragrâncias, de pureza, de suavidade, tinha a alvura e a leveza do arminho.
Um ao outro, todavia, desde então se vincularam de tal forma, que impossível se tornara, para sempre, desligá-los.
Parecia-me que, se um deles se extinguisse, deixaria em mim tão profundo e insondável vácuo que nem as águas de todos os oceanos bastariam para enchê-lo.
* * *
Minha admiração pela magnificência do Universo ia em progressão crescente.
Interroguei meu generoso Guia sobre quanto tempo decorrera desde que vagueávamos pelo Espaço, com raros intervalos de repouso.
Ao que, respondeu-me:
- Há quatro lustros - como os contam no mundo donde viemos - deixamos a Terra e, no entanto, com esta digressão que temos feito pelo firmamento imensurável, não ficaste conhecendo sequer uma parte mínima dos seus portentos.
Muitos mais te serão patenteados quando teu Espírito se houver despojado da última partícula de imperfeição.
Cheio de surpresa, exclamei:
- Ó Deus, sois bem a síntese incomparável do poder, da sapiência, da bondade, da magnanimidade superlativos!
Como pude eu, mísero precito, que na Terra nunca elevei o pensamento ao Ilimitado que criastes pelo poder da vossa vontade; que jamais pronunciei o vosso nome com veneração; que nunca estudei as vossas Leis imutáveis, plenas de sabedoria e justiça; que me enchi tantas vezes, nos momentos de tortura moral, de revolta contra os vossos desígnios e contra o destino; que sempre fui um desventurado ateu, merecedor de severa punição pelas ideias sinistras que amiúde deixei explodissem no meu cérebro alucinado; como pude merecer a vossa misericórdia, a vossa generosidade?
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 12, 2018 10:49 am

"Como pude merecer que um dos vossos mais esclarecidos emissários me instruísse nas grandes e eternas verdades divinas, me iniciasse nos arcanos siderais, me elucidasse sobre os deveres que nos impusestes, visando ao aperfeiçoamento das vossas criaturas, para que desfrutem, depois de redimidas pela dor, as maravilhas que me têm assombrado o espírito inexperiente?!
"Sois infinitamente bom, pois com paternal desvelo consentistes que este egrégio mensageiro me ensinasse a adorar-vos, mostrando-me os vossos domínios cintilantes, que atestam a vossa longanimidade, por isso que os reservais em galardão dos que se esforçam, dos que desempenham valorosamente suas missões e cumprem religiosamente suas obrigações para convosco e para com os seus semelhantes"
Continuei, com intensa vibração de todo o meu ser, a externar pensamentos que, repassados de gratidão ao Criador, agradaram ao meu augusto companheiro, que murmurou:
- Ainda não há muito, Paulo, exprimiste um pensamento que ressumbrava egoísmo.
Agora, tua prece foi mais humilde e mais veemente.
Isso me faz jubiloso, porquanto demonstra o grande triunfo que já alcançaste.
Libertaste a alma do ateísmo sombrio que a ofuscava, que a imergia em trevas espessas.
Conseguiste fazê-la alar-se ao Altíssimo, que há-de cobri-la de bênçãos e de luz.
"Devo agora dizer-te que o anelo há pouco por ti formulado - o de ficarmos perenemente fruindo os encantos deste mundo maravilhoso - nunca se realizará, porque, do contrário, te condenarias à inércia, que constitui a negação do progresso anímico.
O trabalho é o ascensor que nos leva o Espírito aos páramos luminosos.
Só poderemos alcançar a felicidade suprema - isentar-nos das dores, realizar a evolução espiritual, atingir a perfeição, enfim - trabalhando e sofrendo séculos a fio.
Só lograrás, pois, ingressar nesta esfera azul, da qual se evola tão surpreendente sinfonia, após as novas e escabrosas provações, que vais suportar na Terra, para onde é mister voltes em breve".
Experimentei, às últimas palavras do meu Protector, um pavor inexprimível.
Depois de contemplar tão deslumbrantes espectáculos, depois de me haver deliciado com aquela incomparável música sideral, a ideia de regressar ao mísero planeta onde padecera me era extremamente penosa.
Todavia, não me revoltei contra o destino, não senti o menor movimento de insubmissão agitar-me o espírito, que se manteve sereno, resignado a tudo suportar por gratidão ao Omnipotente e, ainda e sempre, por amor a Elisabet, a cujo lado desejava rever-me, a fim de lhe provar e ao meu digno Mentor a grandeza da minha dedicação.
Perguntei:
- Tenho então de voltar à Terra?
- Não foi lá que delinquiste, infringindo as Leis Divinas e sociais?
Amortizaste apenas, com um proceder digno e com os teus últimos sofrimentos, as dívidas que contraíras no passado.
Tens agora que as resgatar até ao derradeiro ceitil.
O passado! como esquecê-lo, um momento sequer?
Ele se nos apresenta, a todos os instantes, enquanto nos achamos na erraticidade, como numa série ininterrupta de fotografias, ora iluminadas intensamente, ora obscuras e caliginosas como os pensamentos dos celerados.
Faz-nos algumas vezes ter horror de nós mesmos, pelo que já praticamos; e, outras, soluçar, sofrer, revendo amarguras transcorridas.
É desse modo que aquilatamos a perfeição da Justiça Divina.
De quando em quando há um interregno, em que o espírito como que vai adormecer.
Ele, então, possuído de intrepidez moral, protesta só praticar acções meritórias, roga ao Omnipotente a concessão de provas dolorosas, para que menos durem seus padecimentos e mais depressa possa encontrar guarida nos mundos dos redimidos e ditosos.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 12, 2018 10:49 am

Pude esquecê-lo, por algum tempo, devido àquela música indizível que fizera um súbito staccato22 em meus pensamentos, paralisando-os, tornando apáticos todos os meus sentimentos, dando-me a sensação de uma anestesia invencível, ou a impressão de só existir, na minha memória, o presente.
Bruscamente, porém, as palavras do austero Guia me chamaram à realidade; houve, de novo, em minh'alma, o recrudescer do afecto que consagrava à adorada criatura, que tanto padecera por mim, e isso me incutiu novo alento, gerando em meu ser uma heroicidade desconhecida para suportar as mais penosas provações morais.
Dispus-me, assim, resolutamente, a satisfazer à deliberação do Protector, que me dominava brandamente.
Achava-me, então, caro amigo, prisioneiro feliz de uma entidade superior, que dispunha de poder ilimitado sobre mim e a quem eu dedicava infinita e imorredoura gratidão.
Sentia-lhe o cativante e benfazejo influxo e, com veemência, aspirava a mostrar-me digno da sua protecção e desvelo, fazendo-lhe conhecer que lhe compreendera as magistrais lições, que uma só coisa me poderia amedrontar:
a nossa separação, o seu desamparo.
Expus-lhe, lealmente, meus receios e ele me orientou, com bondade extrema:
- Eu te sigo e velo por ti há séculos, Paulo.
Sofri atrozmente todas as vezes que transgrediste alguma das leis sacras da Providência, quando eras réprobo.
Exulto agora, porque te vejo submisso e dócil aos meus ensinamentos.
Não temas, pois, te abandone no momento da vitória definitiva.
Em todas as tuas desencarnações - deves ainda estar lembrado do que te afirmo - te norteei para o bem, como agora o faço.
Mas teu Espírito, muito mais imperfeito do que actualmente, não me compreendia como hoje.
Jamais te deixarei entregue a ti mesmo, enquanto necessitares dos meus conselhos e do meu patrocínio.
"Há pouco, quando pela primeira vez fizeste voejar o teu pensamento para o Eterno, lamentei não houvesses traduzido somente um transporte de reconhecimento sincero, deplorei que expressasses um anseio de ventura perpétua.
Ainda revelaste egoísmo.
Deves apenas desejar a tua evolução psíquica que é o que libera a alma das dores quase sempre imprescindíveis ao seu acrisolamento.
Vais regressar à Terra - onde o teu último invólucro material já se desfez em pó - e comigo verás os túmulos dos que sofreram por tua causa; conhecerás, também, um lar tranquilo que, em breve, será o teu.
Prepara-te, pois, Paulo, mais do que nunca, para saldar as tuas culpas do passado, cumprindo impavidamente uma lacerante missão".
Ao saber que, não por alguns instantes somente, como supunha, estava afastado do globo terrestre, porém que os anos já tinham galopado velozmente, que mais de um quinto de século havia desaparecido do sorvedouro infinito do tempo; indaguei do destino daquela que continuava a ser a minha preocupação incessante - Elisabet - e daquele que fora meu algoz, mas sem cólera, porquanto já lhe perdoara todos os suplícios que me infligira.
Meu Protector, entretanto, se conservou silencioso.
Compreendi, pela serenidade reinante em minh'alma, que nenhum sentimento humano, cruel ou malfazejo, restava no meu íntimo.
O ódio, que me flagelara longamente, já se havia desfeito qual iceberg atirado a uma cratera chamejante.
Poderes desconhecidos em mim desabrocharam.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 12, 2018 10:50 am

Minh'alma se assemelhava a um arbusto de hastes espinhosas, que, nascido numa escarpa, se conservara por muitos anos estéril e vergara açoitado pelos vendavais que lhe arrancaram os acúleos e as raras folhas vírides; mas que, aos primeiros sorrisos da primavera, com a fronde já esmeraldina, se cobriu de flores róseas, de pétalas odoríferas e velutíneas, de contacto delicioso para a própria planta em que se abriram.
Essas flores ideais eram os sentimentos generosos que nela despontaram, substituindo os abrolhos - os preconceitos nocivos ao meu aperfeiçoamento moral - que caíram por ilapso dos conselhos salutares do meu ínclito Mentor e da radiante primavera que reina nos paramos estelíferos.
* * *
Vou abreviar a narrativa que vos tenho feito, da minha trajectória pela amplidão sideral.
Dir-vos-ei apenas, prezado amigo, que por momentos inesquecíveis penetramos no aludido orbe de luminosidade azul, ameníssima; presenciamos, por instantes, a ventura dos seres gráceis e airosos que o povoam, sentindo-me vexado de mim mesmo, ante o contraste que notava entre o meu corpo astral e a correcção escultural, a candidez e a radiosidade dos que, extático, eu contemplava, passando aos pares, enlaçados castamente.
Eram almas gémeas pelos sentimentos de uma afinidade perene, libertas das imperfeições do carácter, da hipocrisia, só cogitando de cometimentos grandiosos, tendo por escopo unicamente o Bem, as Artes e as Ciências, compondo hinos ou salmos consagrados ao Omnipotente e aos sentimentos mais puros e dignificadores.
Pairamos a pouca distância de um solar (ou antes, de uma catedral primorosa), que parece cinzelado numa só mole de topázio com incrustações luminosas, ostentando esguios e rendilhados minaretes, coruscantes à luz que incessantemente lhe jorra do interior, e que julgo fazer parte integrante da sua contextura.
Adejavam-lhe em torno as sonoridades maviosas de uma orquestra admirável, a vibrar os últimos acordes de uma música celestial.
Quisera Permanecer assim, por milénios, estacionado no Espaço, ouvindo-a com transporte, esquecido de todos os tormentos que me haviam farpeado a alma.
Subitamente, porém, mi arrancado ao êxtase pelo preclaro Instrutor:
- Eis um dos templos onde verdadeiramente se adora o Soberano do Universo!
Contempla, mais uma vez, Paulo, a colossal urbe onde a escultura impera em toda a plenitude e a arte dos sons é cultivada por artistas realmente geniais.
Observa a felicidade que te aguarda se cumprires a tua próxima e pungentíssima missão terrena.
- Sim, confesso-vos que anseio pelas mais rigorosas provas, para que possa merecer a Misericórdia Divina, o resgate dos delitos cometidos outrora, a fim de conquistar com Elisabet o galardão que ambiciono:
vivermos em região como esta, que me fascina, eternamente unidos!
- Confio nas tuas nobres aspirações e folgo de que assim exprimas os teus pensamentos.
"Refaz mais uma vez, antes que tua alma retome o casulo da carne perecível, as potências anímicas de que necessitas para o cumprimento de uma proveitosa missão.
"Breve estaremos de regresso ao planeta da lágrima e do sofrimento."
Imenso terror se me apoderou da alma, que eu temia viesse a desfalecer nos momentos das grandes amarguras.
Tornei a elevar o pensamento ao Altíssimo e repentina tranquilidade me invadiu todo o ser, despertando-me novas energias espirituais.
Tive a impressão de que fragmentos daquela fotosfera azul, daquele ambiente seráfico se me impregnaram no espírito e, assim, foi com verdadeira convicção que disse a meu Mentor:
- Estou preparado para os prélios do infortúnio:
o Omnipotente me inundou o ser com um oceano de luz e de melodias avigorou-me os sentimentos, dando-me a contemplar as sublimidades da Criação.
"Acho-me instruído por vós nas verdades celestiais e só o que vos imploro é que me não abandoneis nos momentos das provas supremas!
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 12, 2018 10:50 am

Tendo a vossa assistência, conseguirei triunfar de todos os reveses!
Já sei onde buscar conforto moral nos instantes de tortura e expiação: farei que meu Espírito se eleve ao sólio do Eterno, por meio de preces fervorosas."
- Rejubilo-me com as tuas louváveis resoluções, Paulo, e espero sejam inabaláveis.
Previno-te de que, decorridos alguns meses, estarás aliado àquele que execraste e àquela que adoraste mais do que ao próprio Criador.
Não te apavora a ideia de ligares à de Carlos a tua existência?
- Não; sinto-me quase venturoso, pois no meu íntimo não há mais vestígio de ódio, e ardo no desejo de pôr em prática os vossos sábios ensinamentos.
Foi esse o formal compromisso que contraiu o mísero Paulo Devarnier quando, após aquela estupenda digressão pelo Infinito, onde gravitam arquipélagos de nebulosas, pôde exprimir seus pensamentos à excelsa entidade que o acompanhava paternalmente.
Esse o almejado e indissolúvel pacto que, naqueles magnos instantes, fizemos eu e o meu Guia.
* * *
Caro amigo, ao proferir o último vocábulo do nosso 0rivênio espiritual, firmado em nome do Altíssimo, senti que começara a descer.
A força centrípeta, que havia muito deixara de existir para mim, entrou novamente a impelir-me vertiginosamente para o planeta da dor e do pranto, com rapidez indescritível.
Uma energia incontrastável me atraía para a Terra, como se fosse arrebatado por um ciclone irresistível, por um torvelinho estonteante, para um abismo tétrico, insondável, infinito...

22 Designa um tipo de fraseio ou de articulação no qual as notas e os motivos das frases musicais devem ser executados com suspensão entre eles.
Sentido figurado:
pausa; expectativa.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 12, 2018 10:50 am

LIVRO III - O inspirado

CAPÍTULO I

Quando recobrei as faculdades intelectuais, que uma recente encarnação obscurecera - eclipse da alma, que a matéria obumbra - status morbidus23 em que se dá a paralisia temporária de quase todas elas, noite cujo lento alvorecer só é completo quando o Espírito se liberta novamente do ceno carnal; quando recobrei as minhas faculdades, algum tempo depois daquela romaria maravilhosa, instrutiva e moral, através do Espaço insondável, depois de me ter inebriado com as refulgências multicores de miríades de astros deslumbrantes e com os acordes melodiosos que se evolavam de uma das mais esplêndidas estrelas engastadas na amplidão celeste - achava-me na Terra, o mísero planeta da expiação, onde eu tanto sofrera e para onde voltara a cumprir um aresto divino!
Sabia que pertencia de novo à Humanidade, mas não me era possível divisar os seres nem os objectos que me circundavam, como se 0 deslumbramento que experimentara no empíreo fora tão intenso que me houvesse absorvido a faculdade visual.
Talvez para que, depois de ter me deliciado com o belo incomparável, com a arte superlativa, com a estética sideral enfim, não o profanasse na contemplação de espectáculos de ordem inferior, ou para que me não sentisse nostálgico do Infinito, saudoso do que, embevecido, vira e, assim, não tentasse voltar aos paramos celestes, na ansiedade de revê-los.
Encontrava-me na conjuntura de alguém que houvesse encerrado em urna de bronze, como relíquia sagrada, um punhado de pétalas de rosas, ofertadas por idolatrado ente na sua hora extrema, e que, transcorridos anos, temesse descerrá-las para não ver as pétalas reduzidas a pó, que a aragem mais branda poderia levar para sempre.
As rosas sempre foram o símbolo da quimera, do ilusório:
têm duração efémera.
As flores ideais colhi-as eu no próprio azul onde cintilam as esferas multicores e era mister que as conservasse intactas no sacrário da alma, a fim de que, na Terra, não as visse pulverizadas pelas decepções da vida, arremessadas longe pelos turbilhões da adversidade.
Quem está com os pés atolados num pântano deletério, mais sofre se tem o pensamento preso às estrelas.
Bem faz, pois, o Soberano do Universo, em cativar as recordações de todas as suas obras portentosas nos mais escuros escaninhos do Espírito, para que este se conforme com o seu destino - que é o de viver aprisionado nas sombras, não se lembrando dos jorros de luz das constelações!
Que mais poderia contemplar que me maravilhasse, depois da excursão prodigiosa de que me ficara vaga reminiscência nos escrínios da alma, que também guardava pálida lembrança de ter ouvido alhures uma sonoridade dulcíssima, impressão que nela se incrustara, como da fragrância dos lilases se impregna um pedaço de alvo linho da Irlanda?
Que mais me poderia atrair no orbe terráqueo?
Nada, por certo.
Era um degredado nostálgico, desejoso apenas de cumprir rigorosamente uma sentença íntegra, a fim de poder regressar à pátria querida.
Jazia no fundo do meu "eu" um misto de dor e de ânimo varonil que de mim fazia uma criança incompreendida, insatisfeita, de emotividade apurada, cismadora e desventurada.
Ai! caro amigo, nascera cego!
Compreendeis toda a extensão da minha desdita?
Uma flor a que se roube o perfume e o colorido; um astro que, extinta de súbito a sua luminosidade, arraste pela amplidão, eternamente, seu cadáver carbonizado - são coisas menos pungentes do que nascer sem vista um ente humano!
De que lhe vale a existência, se não pode orientar-se, saber onde se acha - se é sombrio ou radioso o país em que lhe deram o ser, se não pode ver as criaturas que o rodeiam, se tem que ficar sempre na ignorância do que seja uma ave, uma camélia, um céu azul; se não lhe é dado conhecer um irmãozinho adorado, um pai laborioso, uma extremosa mãe, que o aconchegou ao seio, cobrindo-lhe as róseas faces de lágrimas e beijos?
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 12, 2018 10:50 am

Viver encarcerado em soturna caverna, sem um archote para espantar a escuridão em torno; ter no cérebro o negror de uma noite perpétua, sem o menor vislumbre de dúculo; descerrar as pálpebras e só deparar com o luto da cegueira, que parece provir da profundeza de um sepulcro e penetrar, pelas pupilas fendidas, até a alma, entenebrecendo-a permanentemente:
eis o que é ser cego, eis 0 que comigo se passava, bom amigo!
Quando começou a se me desnudar o senso, soube que renascera na França; que minha mãe morrera ao dar-me a vida; que meu progenitor me olhava com infinita mágoa, talvez desejando que a minha existência, a seu ver, inútil, se extinguisse como o lume dos meus olhos; que ele muitas vezes se referia à minha desventura, revelando, na dolorosa inflexão da voz, prantos mal contidos.
Minha impressão constante era de estar com a alma amortalhada nas sombras da geena, ou de ser mirrada planta que germinara sob uma cripta umbrosa, onde nunca a mais pequenina seta de estrela penetrara.
Desde tenra idade compreendi o infortúnio de meu pai - probo mecânico, algum tanto ríspido - que não deplorava só a minha imperfeição física, mas a perda da esposa idolatrada, que já lhe dera uma encantadora filhinha, uma dessas graciosas e louras bonecas vivas, que parecem a toda gente importadas directamente do paraíso.
Não me quis oscular a fronte quando nasci, entregou-me aos cuidados de uma dedicada e antiga criada, que já o tinha sido também de meus avós paternos.
Afagos só os recebia de minha irmãzinha Jeanne mais velha do que eu um lustro.
Dizia ela sempre que eu fora a sua primeira e única marionete e que, por isso, se afeiçoara imenso ao formoso ceguinho, como as crianças, que amam as nacaradas efígies de biscuit representativas de belos bambinos, concentrando nelas todos os seus pensamentos e sonhos, sem o saberem, para a sementeira dos mais puros afectos que futuramente consagrarão aos entes que o Altíssimo lhes confiar.
Sabia que minha irmã era débil, de cabelos áureos como os meus, merencória e gentil.
Tão perfeitamente a conhecia, como se a contemplara alguma vez com olhar de lince.
Ideava-a com feições de querubim; sentia-lhe o contacto das cetinosas mãozinhas que me cariciavam e que, de tanto segurarem as minhas para me guiar em nossa casa e nas ruas, já supunha inseparáveis destas, algemadas por grilhões de luz tépida e suave, que irradiasse de alma para alma.
Inebriava-me o timbre melífluo da sua voz, que me ia até ao mais profundo recesso do espírito, lá onde dormitavam as reminiscências do sublime e da harmonia suprema.
Distinguiria até os seus beijos dos de outrem, se alguém por piedade mos desse.
Só ela sabia tornar floridos alguns instantes da minha infância.
Fazia-lhe interrogações curiosas sobre tudo que nos cercava e ela jamais se recusou a dar-me qualquer informe, com uma solicitude maternal e angélica ao mesmo tempo, porque entre mãe e anjo há um traço de união:
a nobilíssima tarefa de ambos, que se resume nestes vocábulos - velar, proteger, amar!
Jeanne, para mim, realizava aqueles dois ideais e muito mais ainda:
era a mãe que a morte me roubara, o anjo tutelar a quem estava confiado, o mundo que me não era dado ver!
Despertava-me com meiguice; tirava-me do pequenino leito, mal podendo suster-me ao colo, alimentava-me, custodiava-me o dia todo; passeava comigo pelos arredores da nossa humilde habitação, esclarecia-me a respeito de tudo que nos rodeava e, ao crepúsculo, antes de me aninhar, ensinava-me a escalar com o pensamento o Céu, onde dizia estar a nossa desventurada mãe, de quem não me podia lembrar sem intensa amargura, porque meu pai repetia sempre que fora eu o causador da sua morte.
Nosso genitor - muito jovem ainda, robusto, talentoso e culto, pois iniciara o curso de Engenharia Civil, que não pudera concluir devido a uma brusca mudança da fortuna e à morte de meus avós - passava os dias ausente do lar, só estando a nosso lado à noite.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 12, 2018 10:51 am

Deslizava assim a nossa existência de proletários, num casebre dos arredores de Paris, onde não faltava a côdea de pão, mas não existia a ternura materna - o alimento de luz da alma das criancinhas.
Já me havia habituado a estar perto de Jeanne, a acompanhá-la como satélite ao astro.
Ela não se impacientava nunca e me prodigalizava lições profícuas sobre as coisas imprescindíveis à vida, regozijando-se por me ver aprendê-las com avidez e perspicácia pouco comuns.
Desde os primeiros albores da minha puerícia eu lhe manifestara desejo de saber música e fazia projectos tão maravilhosos sobre a arrebatadora arte do célebre Paganini,24 que causava pasmo à querida professorinha e à nossa fiel servidora.
Esta, na qualidade de pessoa mais judiciosa da casa, me aparteava como a experiência lhe sugerisse.
Com o correr do tempo, meu pai se foi acostumando à minha desventura e tornando-se menos áspero para comigo.
Já me ameigava, apertando-me nos braços vigorosos, e, muitas vezes, senti umedecida de pranto a minha fronte aureolada de caracóis dourados.
- Tão belo, tão inteligente - murmurava ele, deixando transparecer na voz soluços insofridos - e, no entanto, perdido para mim, para a família e para a pátria!
Assim transcorreu minha infância, entre os afagos de Jeannette e as apreensões de nosso pai, supliciado por dupla infelicidade, que o levava a falar-me, repetidas vezes, nestes termos:
- Que és afinal, meu filho?
Uma treva que causou a extinção da luz mais preciosa do nosso lar!
Pobre filho!
Que será de ti, quando eu deixar de existir?
Deus que vele por ti, meu François, que não tens mais do que um futuro sombrio, que não poderás amparar tua irmã, nem defender a nossa terra!
Escutava-o em silêncio, cabisbaixo, consternado, mal sofreando as lágrimas e desejoso intimamente (não ignorais que as crianças sabem devanear e conceber planos) de poder, algum dia, desvanecer-lhe os temores, fazê-lo pensar de modo diverso a meu respeito.
Para realizar esse intento, arquitectava obter, por meio de uma arte qualquer, uma posição de destaque, que me garantisse a manutenção e a dos que me eram caros.
Ao completar oito anos de idade comecei a frequentar as aulas de um Instituto de Cegos e era minha compassiva e formosa irmã quem, como eu outrora, exultante, acompanhava a gentil Elisabet a um dos colégios de Berlim - me levava aos estudos, diariamente, cheia de inexcedível solicitude.
Muitas vezes parávamos em caminho para que ela me orientasse sobre o local onde nos achávamos, apanhava do chão alguma flor arremessada pela viração e me fazia aspirar-lhe o perfume, dedilhar as pétalas cetinosas, dizendo-me a cor que possuíam.
Deste modo, consegui distinguir diversas flores, pelo aroma ou pelo simples contacto, pela conformação ou dimensão das pétalas, dando a cada uma o respectivo nome.
Não me eram estranhas também as ruas de Paris, por uma sensação que experimentava quando as percorria, sensação que não podia definir.
Hoje, sei que se originava das recordações latentes no meu íntimo, acumuladas desde o tempo em que por elas transitara noutras existências.
Que vinha a ser, porém, a cor, para mim?
Não saberia exprimir os meus pensamentos, se alguém me interrogasse sobre esse tema.
Entretanto, a experiência própria me demonstrou que os desprovidos da faculdade visual sabem fantasiar inúmeros matizes, possuem noções incalculáveis sobre tudo que os circunda, faltando-lhes somente os vocábulos precisos com que traduzam suas ideias.
A mim me sucedia ver em sonho o que minha irmã me ensinava durante o dia.
Divulgava tudo, imerso num clarão intenso.
Armazenava provisões de conhecimentos sobre pessoas e coisas, que se me tornavam familiares, e, ao despertar, descrevia a natureza com admirável exactidão.
Como menino, era dócil, tímido, estudioso, perspicaz e belo - ao que todos me afirmavam.
Tinha, por isso, o dom de me insinuar agradavelmente no ânimo dos que comigo privavam.
No Instituto, cujas aulas frequentava, tornei-me o alvo da simpatia de todos os docentes, com especialidade do professor de música, porque revelara, desde os primeiros rudimentos que aprendera da sublime arte de Mozart, uma percepção fácil, uma vocação digna de apreço.

23 Estado de morte
24 Violinista italiano (1782-1840), célebre por sua virtuosidade prodigiosa.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 12, 2018 10:51 am

CAPÍTULO II
E chegada a ocasião de confirmar,
distinto amigo, o que, certamente, já descobristes:
que Jeanne, a irmã modelar, era a mesma criatura de Berlim, a noiva infortunada; que, de facto, as nossas existências se fundiram de novo como as águas de dois regatos que, nascidos em fontes longínquas, vão sulcando as terras até fazerem junção, tornando-se um só riacho, sereno e cristalino; que ambas se entrelaçaram como se entrelaçam os pâmpanos de duas videiras sobre o mesmo gradil que as sustém, formando um só estendal de vicejantes folhas.
Eu, porém, naquela época - com as ideias enubladas pelo esquecimento, que narcotiza as potências espirituais, a cada existência - ignorava que Jeanne fosse a noiva de outrora.
Só sabia que era a mais extremosa das irmãs; que o Criador piedosamente ma concedera para meu lenitivo constante; que não lamentava nunca a minha imperfeição física, concorrendo em tudo que estivesse a seu alcance para minorar minha desdita.
Transmitia-me quanto ia aprendendo; punha-me a par das notícias cotidianas, lendo, para que eu ouvisse, jornais e revistas que nosso pai nos ofertava.
Ao anoitecer, passávamos as horas em efusivos colóquios e ela aproveitava o ensejo para me leccionar.
Certa vez estava a ler, num compêndio de História Natural, o capítulo referente aos batráquios.
Comoveu-me a notícia de que nos lagos subterrâneos da Dalmácia e da Carníola se encontravam (como ainda hoje) misérrimos seres, os proteus, desprovidos de visão.
Interrompi-lhe a leitura, para exclamar:
- Quanto lastimo o destino desses desgraçados animalejos, filhos das trevas, Jeanne!
Que vida de suplício a deles, encerrados em dupla escuridão - a da cegueira e a subterrânea!
Compreendo bem quanto são infelizes, minha irmã, porque sou um proteu humano.
Jeanne sensibilizou-se, beijou-me a face e disse:
- Não quero mais que te expresses assim, François!
Eles são incomparavelmente mais desditosos do que tu, porque não têm uma Jeanne para adorá-los.
Senti-me vexado e arrependido de haver pronunciado aquelas irreflectidas palavras.
Éramos inseparáveis:
vivíamos unidos um ao outro, como dois afamados siameses, porque Deus nos criara, não com os corpos, mas como espíritos gémeos, ligados pelas fúlgidas e eternas algemas do amor fraterno.
Meu pai nos contemplava embevecido, mas, ao notar a debilidade dos nossos organismos, se entristecia e, algumas vezes, à hora da nossa ceia frugal - Jeanne é quem mo dizia em segredo - se punha a fitar-nos, com os olhos nevoados de pranto, e, debruçando-se sobre a borda da mesa, soluçava.
O conhecimento dessas cenas tocantes me comovia, e, tentando dissipar-lhe os desgostos, narrava-lhe, com entusiasmo infantil, os meus triunfos escolares.
Ele, porém, me ouvia sempre taciturno, dando ensejo a que, comparado o seu retraimento com as demonstrações de carinho e incitamento de Jeanne, me visse forçado a confessar a mim mesmo que, incomparavelmente mais do que àquele que me dera o ser, adorava eu a minha irmã, pois que só ela me tratava sempre com desvelos inexcedíveis.
Sua inigualável dedicação chegava ao ponto de vendar os límpidos e magníficos olhos azuis - para identificar as nossas condições orgânicas - e se punha a tactear os caracteres em relevo nos quais estudam os que carecem de lume nas pupilas, os desventurados que, vivos, têm, incrustados nas órbitas, órgãos visuais de cadáveres, inanimados e inúteis.
Não se descuidava também do meu preparo espiritual, pois era fervorosa cristã.
Aos domingos, enquanto o pai se deixava ficar em casa, repousando das fadigas de uma semana de labor, ela me guiava a um templo católico, proporcionando-me ensejo de ouvir, com enternecimento e enlevo, músicas sacras que me acordavam no íntimo recordações inexprimíveis.
Fazia-me ajoelhar e erguer o pensamento ao Céu, sentindo eu, naqueles magnos instantes, que as minhas preces eram sinceras e vibrantes, que meus lábios se moviam por uma força alheia à minha vontade.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 12, 2018 10:51 am

Depois, no caminho de volta ao nosso modesto domicílio, me descrevia tudo quanto estava a ver, tentando, abnegada criatura, substituir o precioso dom físico que a natureza sabiamente me negara.
Aos poucos, ia eu adquirindo conhecimentos não comuns na minha idade - doze anos - porque minha inteligência facilmente apreendia as prelecções dos professores e os ensinamentos de Jeanne, como os vegetais sedentos sugam avidamente as gotas de orvalho, aljofradas do Alto.
Mesmo depois que se fez moça, que se tornou uma graciosa jovem, continuou minha irmã a me conduzir às aulas e exultava ao saber que eu progredia nos estudos, que me distinguia nos cursos de violino e de piano.
Um dia obtive permissão do director do Instituto para que ela me acompanhasse até um dos seus salões, a fim de me ouvir executar uma formosa rêverie que, por mim elogiada, lhe despertara interesse e desejo de apreciá-la.
Jeanne sentou-se, timidamente, a pouca distância de um Pleyel,25 dirigindo-me algumas palavras de animação.
Venturoso por tê-la a meu lado, comecei a preludiar uma sonora cromática, quando, repentinamente, sem que soubesse definir o que então se passou comigo, perdi a noção da realidade, esqueci-me por completo da música estudada, caí em êxtase e entrei a dedilhar um desconhecido nocturno harpeado, de beleza, melancolia e maviosidade surpreendentes, com uma agilidade e técnica irrepreensíveis.
Acercaram-se de mim algumas pessoas, julgando, talvez, que um estranho houvesse penetrado no Instituto, sem prévia autorização.
Deparando com o ceguinho que, naqueles instantes, tinha a alma em apoteose, ou aclarada por singular crepúsculo, ao lado de uma airosa donzela de olhos azuis, marejados de lágrimas de felicidade, ficaram surpresas.
Terminada a execução da minha primeira produção musical, considerada primorosa para a minha idade infantil - fui despertado do meu sonho por muitos aplausos, estreitado em muitos braços amigos, mas eu, submerso de novo em atro nevoeiro - só procurava a mão gélida e fremente da dilecta Jeanne.
Compreendi que aquele nocturno me fora inspirado por um influxo extraterreno e pela gratidão que de minh'alma transbordava.
Assim como outrora o óbolo da piedosa Isabel, a rainha santa, se metamorfoseara em odorantes rosas - também minh'alma, a fim de poder exprimir seu profundo reconhecimento para com a generosa e angélica criatura que me dispensava extremos maternais, se transformara momentaneamente em centro de vibrações harmoniosas.
O Céu me concedera a faculdade de transfundir o meu agradecimento em ondas melodiosas - o mais belo idioma do coração enternecido, aquele em que, certamente, as entidades luminosas manifestam seus pensamentos ao Criador do Universo.

25 Marca famosa de piano.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 12, 2018 10:51 am

CAPÍTULO III
A partir desse inesquecível dia em que minh'alma teve a inflamá-la a primeira centelha da Inspiração - momentos de sonho em que dedilhei um instrumento sentindo que minhas pequeninas mãos se tornaram quase imateriais, leves como delicadas plumas, ora suspensas do teclado, ora por ele correndo quais asas de passarinhos em revoada - conquistei uma situação de destaque no Instituto.
Meu estro musical deu tema a vivos comentários, e um dos professores sentenciou com entusiasmo:
François Delavigne é um artista em perspectiva!
Meu pai, ao ter conhecimento dos meus triunfos escolares, exultou; mas logo a habitual tristeza o empolgou de novo. Deplorou mais do que nunca o meu infortúnio:
- Que vale ser um artista o meu François?
Jamais poderá desfrutar a vida; há de sempre precisar de mãos alheias para guiá-lo.
É quase um ramo que só poderá vicejar preso ao caule em que desabrochou.
Que é que sucederá se lhe faltar o caule protector - o meu amparo, a minha dedicação paternal?
Eu o ouvia sem pesar, tanto já me afizera às suas amargas reflexões.
Um dia, porém, não pude deixar de dizer-lhe:
- Não deploreis mais a minha sina, meu pai, pois que, apesar de cego, não me julgo desgraçado!
Há momentos em que me considero tão ditoso que sinto minh'alma entoar hinos de reconhecimento ao Eterno.
Não me consolam, acaso, a vossa afeição inexcedível, o amor incomparável de Jeanne e a minha arte excelsa?
Bem vedes:
sou um sentenciado que vai cumprindo serenamente a pena que lhe impôs o destino.
Que importa me haja o Omnipotente negado lume aos olhos, se me iluminou o espírito com estelíferos clarões, radiosas carícias, melodias inefáveis - mais valiosas, para mim, do que a própria vista? Deslumbra-me, às vezes, um como luar interior.
Parece-me estar exilado em região luminosa, a que faltam, para ser real, mobilidade, criaturas e plantas.
"Tenho a iniludível certeza de que minh'alma é fúlgida ninfa encerrada em espesso casulo, que lhe veda o esplendor solar e lhe tolhe as asas.
Sei também que, quando dele se desligar, quando o casulo de carne for atirado ao fundo de um sepulcro, ela, liberta, cindirá o Espaço constelado, transformada em falena de luz.
Lastimais a minha sorte, como se eu assim houvera de ficar eternamente.
Entretanto, talvez o Criador me tenha degredado, para aqui, por tempo bem limitado.
Não mais lamenteis, pois, meu pai, a condição em que me vejo neste planeta, ao vosso lado, no curso de uma vida que não passa de um átomo, comparada à existência eterna".
Ele, estupefacto, absorto ante a linguagem incisiva com que lhe falara e a certeza inabalável que manifestara numa vida porvindoura, repleta de ventura, após as provas terrenas, deixou por algum tempo de aludir à minha imperfeição física, evitando que de seus lábios escapasse um só queixume contra a Providência, por me ter feito nascer cego.
Vivemos alguns anos uma existência plácida, despida de incidentes dignos de menção - qual um mar em calmaria, antes que o convulsionem as rugidoras procelas, que já estão iminentes sobre as nossas frontes.
Jeanne, segundo ma descreviam, era formosa como um arcanjo de Rafael.
Disseram-me certa vez ter um rosto que parecia esculturado em nácar ou em neve rósea; olhos de diamantes azuis, luminosos, melancólicos, ressumbrando inteligência e candidez; cabelos fulvos, com reflexos de ouro liquefeito; corpo esguio e esbelto, de contornos suaves; porte donairoso que, sem arrogância, revelava distinção, ou antes, a superioridade dos seres divinizados pela nobreza dos sentimentos, que lhes transparecem nos semblantes de entes imaculados, como a luz de uma lâmpada através do cristal fosco.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 13, 2018 11:14 am

Apesar, porém, da sua formosura, de seduzir a quem a visse, pela graça e pureza, pelo conjunto harmonioso de predicados físicos e intelectuais com que a dotara a Natureza, que a fariam destacar-se entre todas as donzelas nos dias festivos, mesmo se, se cobrisse de andrajos - qual princesa disfarçada em campónia, Jeanne não era feliz, por ter ideais irrealizáveis na Terra.
Nem vaidosa, nem desejosa de conquistar corações, sofria por não poder cultivar o espírito quanto almejava.
Por uma intuição que nunca ilude a alma em que desabrocha, pressentia que a vida terrena lhe seria um meteoro fugaz em firmamento borrascoso.
Ainda na flor da juventude, já se sentia definhar lentamente e, para não inquietar os que a amavam, ocultava de todos o seu estado mórbido.
Muitas vezes eu a ouvia tossir, tapando a boca com as mãozinhas mimosas.
Impelido pela afeição e pelo interesse que me inspirava a querida Jeannette, fui levado a manifestar meus receios a meu pai, que se alarmou ainda mais do que eu.
Levou-a imediatamente a um excelente médico, que lhe aconselhou cuidados extremos para com a filha adorada, declarando que o tratamento e incessantes desvelos poderiam estacionar a moléstia que começara a invadir aquele organismo juvenil, mas sem robustez.
Proibiu terminantemente à enferma fatigar-se com qualquer labor manual, porém nenhuma esperança deu de lhe restabelecer a saúde alterada, Jeanne, entretanto, sorria da nossa aflição, tentando dissipá-la com meiguices e uma resignação celeste.
Apesar de secretamente torturado, por motivo da sua insidiosa enfermidade, não interrompi meus estudos, revelando cada vez mais decidida vocação para a música -a mais sublime de todas as artes terrenas porque arroja a alma ao Infinito, mergulhando-a em delicioso transporte, fazendo-a olvidar suas penas ou as dulcificando, aproximando-a, enfim, do próprio Omnipotente, o Inspirador fecundo e inesgotável!
Minha existência apresentava então duas faces distintas:
na escola, onde entesourava todos os conhecimentos artísticos e literários que me prodigalizavam os professores, era ditoso; no obscuro lar, as vicissitudes e mágoas me faziam desventurado aos dezasseis anos de idade.
Tinha o pensamento sempre fixo em Jeanne, chorando às ocultas, inquieto, apenas dela me separava por algumas horas, temeroso sempre de ficar, talvez dentro de pouco tempo mais, sem as suas blandícias fraternais.
Apavorava-me o pensar na falta impreenchível que ela me faria, se deixasse de existir.
Certamente minh'alma se cobriria de crepe e conheceria o anoitecer dentro de si mesma.
Seria, para mim, cegueira do próprio coração alanceado de dor imensurável.
Ela, no entanto, a irmã querida, se esforçava de todos os modos por me tornar venturoso.
Entristecia-se ao notar que me achava taciturno e bem assim o nosso progenitor.
Tentando dissipar lúgubres apreensões, entregava-me com frenesi aos estudos no Instituto, mas, de regresso ao lar, passava horas a meditar, desalentado, só despertando, às vezes, com os gracejos de Jeanne.
Não esmiuçarei, porém, meu amigo, todas as tribulações por que passei nessa existência em que me não conhecestes e na qual meu espírito se despojou de muitas máculas, ressarciu faltas graves cometidas em prístinas eras, em vidas de prazeres, de ignávia ou de crimes.
Uma tarde que, para mim, jamais se apagará na caligem do esquecimento, eu e Jeanne aguardávamos a chegada de nosso pai para fazermos a nossa frugal refeição.
Eram momentos esses ansiosamente esperados, pois que, reunidos em torno de uma mesa circular, se estabelecia entre nós uma verdadeira troca de ideias.
Relatávamos aí os episódios do dia, nossas lutas, alegrias e esperanças.
Naquela noite, porém, notamos que ele tardava muito em regressar dos seus labores, o que não lhe era habitual.
As horas se escoaram em letal inquietação, parecendo-nos intérminas e ninguém mais se lembrava de que a ceia não fora servida.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 13, 2018 11:15 am

Depois de muitas suposições, emudecemos, transidos de mortificantes receios.
Quedo, meditativo, assaltou-me doloroso presságio, que é a antevisão das coisas do futuro:
começara para nós uma via crucis pungentíssima!
Permaneci, porém, silencioso à espera do ausente, implorando ao Altíssimo fossem infundados meus temores.
Quando já tocava ao auge a nossa inquietação, percebemos distintamente que uma carruagem parava à porta de casa e, logo após, ouvimos rumor de passos desconhecidos na escada que dava acesso à sala de visitas, como se diversas pessoas andassem dificultosamente, conduzindo alguém inanimado.
Julgamo-nos, por momentos, sob o domínio de um pesadelo opressor, mas o ruído do bater enérgico de mão à porta da entrada - onde, como atalaia muda, se postara a nossa bondosa serva Margot - nos chamou à realidade.
Aberta a porta bruscamente, alanceou-me o coração um grito agoniado de Jeanne:
- Nosso pai vem ferido mortalmente, François!
Senti no peito, ao ouvir aquele brado de aflição e desespero, o despertar de emoções nunca experimentadas.
Naquele momento de dor inexprimível me pareceu que devera ter amado mais e com maior ardor a meu pai.
Uma ternura e uma compaixão indizíveis transbordaram do meu coração tremente, brotando dos mais profundos refolhos do meu espírito, como vagas arrojadas, em horas de preamar, sobre longínqua e ignorada praia.
Afigurava-se-me ter a alma revolta, enriçada, como desgrenhada fronde de uma árvore nascida na solidão de escalvada savana, exposta constantemente aos azorragues inclementes dos furacões do norte ou dos sirocos violentos.
Desde então um sentimento forte e sincero despontou no meu coração e se foi avigorando com o fluir do tempo, rivalizando com uma outra afeição que supusera única e inigualável - a que consagrava a Jeanne!
Tive a impressão de que súbita e radical transformação se operara na minha existência, até então serena e ditosa.
Foi como se de uma gôndola veneziana, embalado pelos acordes de suave barcarola, houvesse caído repentinamente ao mar, tornado tempestuoso.
Julguei, por instantes, estar a debater-me como náufrago, nas ondas encolerizadas e bramidoras de um pélago revolto.
Aturdia-me o troar dos vagalhões quebrando-se de encontro a ciclópicos penhascos.
Imaginei que, além de cego, estivesse com os olhos vendados por fitas de ferro ou pelo crepe do horror.
Senti-me desfalecer:
quis gritar como Jeanne, mas perdera a voz.
Tudo isso, porém, que vos descrevo imperfeitamente, teve, em meu cérebro, a duração de um corisco, quando traça a fogo sinuosa linha, na ardósia plúmbea das nuvens.
Novamente fui chamado à realidade pela fala de um companheiro de meu pai, que nos dava informações precisas a respeito do acidente ocorrido durante o dia nas oficinas em que trabalhavam:
- O Sr. Delavigne se achava calmamente entregue aos seus afazeres, quando notou que um maquinismo, de que se aproximara, funcionava desordenadamente, estando prestes a se inutilizar e a vitimar diversos operários.
Procurou detê-lo e o conseguiu.
Mas, a emoção que experimentou foi tão violenta, que lhe causou súbita vertigem, sendo então apanhado por uma engrenagem na fronte e num dos braços.
Para evitar grande catástrofe, expusera a vida heroicamente.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 13, 2018 11:15 am

"Um médico o socorreu sem demora, porém as contusões que recebeu foram consideradas gravíssimas.
Todavia, confiamos na bondade divina; temos esperanças de que se salvará, a fim de ser recompensado do ato de coragem e abnegação que praticou!
Esteve desmaiado até há pouco tempo e só quando recobrou os sentidos foi que, a conselho do doutor que lhe fez os curativos, resolvemos trazê-lo para aqui, até que a família delibere sobre a conveniência de interná-lo num hospital".
Jeanne, a soluçar, agradeceu aos bondosos operários o serviço relevante que nos acabavam de prestar, e um deles - certamente um coração leal e compassivo - se ofereceu para passar a noite connosco, o que não aceitamos.
Ficamos sós, Jeanne e eu, com o nosso pobre pai, no qual já se manifestavam os primeiros sintomas do traumatismo. Minha irmã me descreveu o seu desolador aspecto:
tinha um dos braços quase esmagado, a cabeça contundida, envolta em compressas de linho que já não eram brancas de tão ensanguentadas que estavam, o rosto lívido e transfigurado, como se lho houvessem substituído por outro, exumado de algum túmulo.
Passamos uma noite de indizíveis sobressaltos, dispensando ao ferido todos os cuidados prescritos pelo médico e os que a nossa dedicação filial sugeria, de momento a momento.
Mudo, absorto, naquelas infindas horas de tormenta percebi que nasciam do meu íntimo sentimentos de altruísmo, energias benéficas e, sobrelevando a tudo, um afeição imensa pelo infeliz que, a delirar, pronunciava de contínuo palavras incoerentes, que lugubremente ressoavam na calada da noite.
Senti que, aos primeiros embate do sofrimento, meu ser despertara para outro amor.
Imagine-se um bloco de pedra que, depois de permanecer inerte por muitos séculos no alto de abrupto penedo, um dia de lá resvalasse, batido pelo tufão e se tornasse, na queda, luminoso, tépido, foco de brilhantes fagulhas.
Assim sucede ao coração que se conserva indiferente às lágrimas alheias; que sempre resistiu aos impulsos dados pela mão potente do destino; que estaciona em repouso, sem que os reveses da vida o atinjam senão superficialmente; que se queda indiferente aos sentimentos mais elevados.
Lá vem dia em que, subitamente sacudido pelo tufão das desventuras, batido na bigorna da dor, ferido pelo atrito das decepções terrenas, impelido do cimo alcantilado das desilusões ao vórtice insondável das amarguras da existência, começa pouco a pouco a desprender chispas inextinguíveis, que vão atear, noutras almas, imperecíveis afeições, fundir os elos dos amores quintessenciados que encadeiam os corações, pondo-os, como Saturno - o mais maravilhoso planeta do sistema solar - engrinaldados por fulgentes anéis.
* * *
Quando Jeanne me comunicou que a manhã já havia despontado - percebendo eu que entravam, pelas janelas descerradas, haustos de frescura matinal - e me levou o primeiro alimento, tive a impressão de me haver tornado um ente diverso do que fora até a véspera.
Alguma coisa em mim se profundara ou volatilizara; os pensamentos sombrios ou pouco elevados foram soterrados nos subsolos da alma; desabrochou nesta e floriu de repente toda uma seara de nobilíssimos sentimentos, capazes de me levarem a dedicações extremas, não só para com aqueles que comigo viviam debaixo do mesmo tecto, como também para com todos os que passassem privações ou me implorassem amparo.
A eclosão de um desejo ardente de ser útil aos que me eram caros pôs remate à luta que se travara no meu íntimo, durante uma noite de angústias, que julguei durasse uma eternidade.
* * *
Passaram-se dias intermináveis para os nossos corações aflitos e um pesar indizível nos assaltou:
o adorado enfermo não podia ficar em domicílio, porque seu melindroso estado requeria despesas que excederiam nossos parcos recursos.
Assim, a conselho do médico assistente - enviado cotidianamente pelo proprietário das oficinas de fundição onde meu pai trabalhava - foi este removido para um hospital, onde íamos vê-lo frequentemente.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 13, 2018 11:15 am

O traumatismo resultante do choque no frontal lhe perturbara as faculdades mentais, fazendo-o proferir frases desconexas, revelar episódios de uma existência que seus filhos desconheciam; mostrar-se, algumas vezes, atormentado por lancinantes remorsos; outras, sofrendo acerbamente por causa de adversários inexoráveis, cujas vidas desejaria tirar, se pudesse.
Atribuímos à febre o delírio que o enlouquecia.
Entretanto, o estado anormal do enfermo querido, em certos momentos, nos atemorizava.
Teve, afinal, que amputar o braço direito que fracturara quando travou repentinamente a máquina em grande velocidade, para evitar a morte a muitos obreiros.
Visitávamo-lo sempre e grande tortura experimentávamos ao ouvi-lo pronunciar palavras que nos apavoravam, por não percebermos a quem se referiam.
Durante todo o delírio, não só não nos reconhecia, a mim e a Jeanne, como até parecia odiar-nos.
Enquanto ele sofria num hospital, em nosso casebre a penúria se instalou soberanamente.
O que mais me amargurava era a supressão completa do tratamento de que necessitava Jeanne, cuja saúde delicada muito se ressentiu dos nossos desgostos.
Pungia-me o coração ver que ela não podia gozar do menor conforto e fora forçada a trabalhar de novo na confecção de flores e bordados, para dar a Margot o necessário aos modestos dispêndios domésticos.
Foi nessa situação que, após algumas horas de dolorosas cogitações, deliberei pôr em prática o que imaginara naquela noite de martírio moral em que se produziu no hostiário de minh'alma o despertar de novas faculdades psíquicas; em que, por celestial influência, nela começaram a desabrochar pensamentos generosos que me impeliam a agir de um modo que nada tinha de infantil; em que me enchi de uma energia nova que não suspeitava, então, provir de amigos invisíveis, por ignorar que eles baixam do Além, para sustentar as criaturas nas suas provas árduas, a fim de que não desanimem.
Soara para mim o momento do combate espiritual decisivo.
Cheguei até a entrever, na imaginação, um cronómetro fantástico, em cujo colossal mostrador um índex gigantesco indicava determinada hora, que ouvi soar vibrantemente num tímpano argentino.
Compreendi nitidamente o que significava o estranho símbolo.
Aprestei-me para a pugna, lealmente, desejando sair dela vitorioso e não vencido.
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Ave sem Ninho

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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 13, 2018 11:15 am

CAPÍTULO IV
Efectivamente, na noite em que meu pai entrou carregado em nossa humilde vivenda, começou a nossa angústia doméstica:
ele internado num hospital, sem poder ganhar o necessário para a manutenção da família; eu e Jeanne, abatidos pelos desgostos, a fazermos prodígios de economia, para não nos faltar o pão.
Já chegávamos a privar-nos de artigos que supúnhamos imprescindíveis.
Corriam-nos assim, penosamente, os dias.
A moléstia de nosso pai continuava a retê-lo indefinidamente no leito.
Ficara sem o braço direito, amputado a fim de se lhe evitar a morte pela gangrena, e as faculdades mentais continuavam desequilibradas.
De uma feita, indo visitá-lo, aproximamo-nos do pobre enfermo e ele não nos conheceu.
Mostrou-se indiferente ao ósculo que lhe depusemos na mão afogueada pela febre.
Subitamente com os olhos a fuzilar - ao que me disse Jeanne, completando o que senti com tanta verdade que julguei estar a vê-lo - soergueu-se no leito, deixando descoberto o lado direito, com o braço decepado, e, agitando o esquerdo convulsivamente, exclamou com voz alterada pela demência:
- Sois os causadores de todo o sofrimento que me enlouquece, miseráveis!
Eu vos detesto ainda e sempre!
E sabeis porquê?
Sois os meus adversários malditos; já me causastes muitas dores e não vo-las perdoarei jamais!
Ide-vos da minha presença; não mais vos quero ver!
Odeio-vos! Odeio-vos!
Recuamos soluçantes, aterrorizados ante tão cruéis exclamações, considerando irremediavelmente louco o nosso querido pai.
Um dos médicos do hospital, porém, nos tranquilizou, dizendo que a febre, causadora do delírio, já principiara a declinar; que, assim que cedesse, os sintomas alarmantes parariam; que estava submetendo o doente a um tratamento rigoroso, findo o qual esperava confiante que ele ficaria sem nenhuma alienação mental.
Retiramo-nos, todavia, cabisbaixos, desagradavelmente impressionados, rememorando as sinistras palavras proferidas pelo nosso progenitor, que parecia execrar-nos desde que enfermara.
Por quê? Não fora razoável que, mesmo nos momentos de alucinação, se mostrasse apreensivo ante o nosso destino e manifestasse a ternura de um pai que sempre mostrara idolatrar os filhos?
Porque nos considerava, havia muitos dias, seus adversários irreconciliáveis?
Essas interrogações, eu, triste, atormentado por dolorosos pensamentos, as fazia a mim mesmo.
Elas, porém, mergulhando no mar misterioso que cada alma contém dentro de si, ficaram sem resposta - até que, novamente desencarnado, me recordei do que meu pai e eu fôramos, em anteriores existências criminosas.
Todos os arcanos da vida se desvendam ao Espírito, quando ele se liberta da condição de galé, de expatriado do Espaço, a cumprir na Terra uma sentença divina.
Reabilitado por esta forma, adquire faculdades admiráveis, conquista a ventura a que sempre aspirara e que só se torna realidade nas estâncias siderais.
* * *
Naqueles dias de suplício, de desolação e de angústias, motivados pela moléstia do meu pobre pai, comecei a perceber claramente que tinha uma missão a desempenhar no mundo; a compreender que a dor física ou moral é tão necessária à alma delinquente como as pelejas o são a um militar para poder a sua bravura ser aquilatada e galardoada.
Finda a nossa campanha espiritual, o general supremo - Deus - não nos coloca ao peito insígnias coruscantes, mas nos engrinalda de luminosos lauréis a fronte, se vencemos!
Entrevi, pois, o objectivo dignificador que me cumpria atingir durante a minha estada no planeta terrestre e não me revoltei um só instante contra os desígnios do Alto.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

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