NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 13, 2018 11:15 am

Mantive-me calmo, resignado a tudo suportar corajosamente e tratei de resolver o problema que, então, mais me preocupava:
o da falta de meios de subsistência para minha irmã e para a bondosa Margot.
Ainda cursava, com sacrifício extremo, as aulas do Instituto de cegos.
Estava prestes a concluir meus estudos, mas tive que os interromper, para poder trabalhar.
Pedi a um dos professores - o de música, que sempre mostrou mais interesse por mim - que me protegesse e obtivesse algum trabalho concernente à arte a que me dedicara, a fim de me ser possível sustentar a família.
Compadecido de meus infortúnios, dos quais o inteirei, atendeu à minha súplica, e me apresentou a diversas pessoas de suas relações, que me contrataram para executar, ao piano ou ao violino, músicas clássicas e músicas apropriadas à dança.
Não podendo, devido à minha imperfeição orgânica, apresentar-me sozinho nos salões engalanados, minha irmã me conduzia, afectuosamente, às residências festivas.
Começamos assim a frequentar os palacetes de alguns abastados burgueses.
Mas, desde a primeira vez que assistimos a uma dessas festas mundanas, onde imperavam o júbilo, o conforto e o apuro dos toaletes, compreendi que Jeanne se estava sujeitando a martírio superior à sua coragem moral!
Ela, tão formosa que parecia, pela distinção, pelos predicados físicos, uma princesa encantada, possuidora de lúcida e surpreendente inteligência, não lograva, por se apresentar com singelos e desbotados vestuários, a honra de ser introduzida nas salas faustosas.
Aguardava, num vestíbulo, que a festa acabasse para me conduzir ao nosso tugúrio, humilhada e retraída, assistindo ao perpassar constante dos pares venturosos, trajados com requinte, sorridentes, a olharem--na com indiferença ou desdém ao lado de fâmulos, transida de vexame.
Sua amargura não tinha limites ao confessar-me o que - naquelas horas em que eu, ao piano ou fazendo parte de uma orquestra, trabalhava pela nossa subsistência - se passava consigo, o suplício que lhe atormentava a alma impressionável, ao contemplar a mocidade feliz, garrida, rutilante de atavios, de pedras preciosas, a desfilar por diante dela, insensível à sua dor.
Não podia sofrear as lágrimas, lembrando-se de que era a mísera filha de proletário enfermo e que aguardava a saída de um irmão cego.
Quando voltávamos para casa, a pé ou em modesto veículo, eu a sentia álgida, trémula e chorosa.
Dentro de pouco tempo, convenci-me de que não devia mais mortificá-la assim, pois que a tortura que experimentava, quase todos os dias, começou a influir maleficamente no seu frágil organismo - presídio de uma alma de névoas, de carinhos e de sensibilidade apurada, que se contraía, qual "mimosa pudica", ao contacto da crueldade humana.
Deliberei não mais consentir que me acompanhasse às festas sumptuosas, em que fosse tocar.
Jeanne protestou energicamente, dizendo que jamais deixaria de me guiar como fazia desde o meu nascimento, e que, se se apartasse de mim por algumas horas, não ficaria tranquila em nosso lar deserto.
Felizmente, não foi mister que o sacrifício se consumasse.
Nosso pai, já em vias de restabelecimento completo, recuperara integralmente as faculdades mentais.
Enquanto não lhe foi possível me acompanhar aos concertos e aos bailes para que me contratavam, recorri aos préstimos de um bom amigo, Duchemont, companheiro de orquestra, admirador do meu estro musical e, ao que parecia, sinceramente enamorado de minha graciosa irmã.
Contava ela a esse tempo pouco mais de quatro lustros, tendo eu dezassete anos.
Entretanto, parecíamos gémeos.
Duchemont a viu, formosa e humilhada, nos vestíbulos dos palacetes, à minha espera, e compreendeu a sublimidade do seu sacrifício.
Depois, indo buscar-me fraternalmente ao nosso triste domicílio, teve ensejo de com ela conversar, de lhe apreciar os predicados intelectuais e desejou desposá-la.
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Ave sem Ninho

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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 13, 2018 11:16 am

Jeanne, porém, relutou por alguns meses em lhe dar uma resposta positiva, porque ainda não o amava.
Sentia-se apenas reconhecida ao meu generoso amigo que, naquelas noites de regozijo para os abastados e de tormento para o seu coração, foi a única pessoa que lhe notou a presença, que lhe dirigiu palavras compassivas e afectuosas, que se me ofereceu para substituí-la, ponderando que o seu melindroso organismo de flor humana se ressentiria, que sua saúde provavelmente se alteraria com a fadiga, a vigília ou o relento.
Também para mim eram penosas as horas daqueles saraus magnificentes, em que a chamada alta classe social alardeava arrogantemente a sua felicidade, calcando os corações dos que não possuíam fortuna, sedas, diamantes.
Para a minha acrisolada emotividade de idealista, eram horas de inenarrável amargura, porém, quanto mais a dor me ciliciava o espírito, mais o sentia eu inspirado, exteriorizado do seu invólucro material, como que eterizado.
Assim, num quase êxtase é que compunha melodias arrebatadoras e tinha surtos de elevada inspiração artística que, muitas vezes, não sabia interpretar, por isso que, para o conseguir, precisaria de instrumentos mais perfeitos do que o piano e o violino.
O sofrimento, pois, era fecundo para minh'alma de artista porque, quando me feriam os seus acicates, eu improvisava sonatas dolorosas, reverles dulcíssimas, nas quais a era noção em mim dominante se manifestava vivaz, nunca traduzindo revolta, mas ternura e submissão.
A mágoa se metamorfoseava em catadupas de harmonias, em arpejos maviosos que provavelmente me faziam passar, aos olhos da turba que me cercava, por um ser privilegiado.
Escutava--lhe os aplausos que troavam aos ares e, temendo-os como se fossem vagalhões prestes a atingir-me, desejava fugir-lhes, mas, ao mesmo tempo, me sentia magnetizado, incitado para a luta.
Nessas ocasiões, os pesares me desertavam o peito, como procelarias que abandonassem precipitadamente os cálidos ninhos para roçar com as asas sedosas as espumas dos escarcéus, num oceano em borrasca.
Quem era eu, porém, para aqueles afortunados do mundo, absorvidos por estonteantes prazeres, inebriados com as seduções e as delícias que o ouro, a vaidade, o amor, as vestes principescas soem proporcionar?
Não era, para quase todos, mais do que um aparelho que se movia por si mesmo, que não podia participar dos gozos que os encantavam, tendo por única utilidade deleitá-los com a execução de melodias que nenhum dentre eles suspeitava fossem insufladas por entidades siderais, numa alma torturada, mas submissa aos desígnios providenciais.
Era, enfim, para muitos, um instrumento humano, que sabia arrancar rítmicas vibrações a um outro, construído de madeira e de fibras sonoras.
Não me era dado observar o que ocorria ao meu derredor, porque trazia a fronte cingida sempre por um elmo de negro bronze.
Mas as minhas lágrimas ignoradas se transmudavam em brandos arpejos e uma claridade fosforescente de santelmo me iluminava o cérebro.
Produzia-se então na minha mente um fenómeno extraordinário:
estendia-se diante de mim uma região infinita, como que aclarada pelas projecções do poderoso farol matutino, a devassar um nevoeiro prateado, que se transformava em pulverização de luz.
Algumas vezes, a multidão que me cercava surgia bruscamente dentro daquela bruma luminosa.
Não a compunham, porém, criaturas cultas, magnificamente trajadas.
Era antes uma hoste de duendes, em hórrido Sabbat,26 vestindo flutuantes túnicas, todas a rodopiarem vertiginosamente, numa valsa macabra e apavorante, que me congelava o sangue nas artérias - transformando-as em tubos de gelo através dos músculos - e me inteiriçava as mãos sobre o teclado, arrancando-lhe brados de loucura ou de horror.
Dessa espécie de delírio me vinha despertar quase sempre alguma voz feminina, instigando-me a prosseguir meus estudos e a publicar as minhas originais produções.
Verificava, então, que sabia sensibilizar fortemente os corações, ora lhes cravando dardos dolorosos, ora lhes levando haustos de gozo, frémitos de arte, jactos de alegria de que eu não partilhava.
Minha situação podia comparar-se à de um homem que, cultivando rara e preciosa árvore produtora de frutos deliciosos, se visse privado de colher um único que fosse para si, só lhe sendo permitido fazê-lo para quem os quisesse adquirir.
Desvaneciam-me as apreciações que a meu respeito faziam pessoas ilustres, desejosas de possuir composições minhas; a todas, porém, confessava lealmente serem improvisadas e, de pronto, esquecidas para sempre.

26 Celebração da Natureza em que os bruxos dançam, cantam, deleitam-se com alimentos e honram deidades da religião antiga.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 13, 2018 11:16 am

CAPÍTULO V
Durante alguns meses Jeanne e eu fizemos rigorosas economias para que não faltasse o indispensável à nossa manutenção.
Províamos a todas as necessidades, exclusivamente com o que eu auferia do meu trabalho, que constituía, para mim, motivo de prazer e ufania.
Nosso genitor obteve, enfim, alta do hospital.
Fomos buscá-lo para o lar, onde a sua falta era impreenchível.
Imaginai, bom amigo, o quadro patético que então apresentava a nossa família:
ele com o braço direito decepado, ainda trôpego, devido à longa enfermidade que o debilitara em extremo; Jeanne enfraquecida, pálida, descorada, com a aparência de um arcanjo diáfano ao qual só faltassem as asas para desferir o voo supremo; eu, cego, guiado por suas mãos frágeis, que temia não me amparassem por muito tempo, sempre grave e melancólico.
Não era a minha desventura o que me entenebrecia a alma cismadora, mas os sofrimentos daqueles a quem adorava, e aos quais não podia prestar senão insignificante auxílio.
Afligia-me, sobretudo, saber que minha querida irmã, às primeiras rajadas impetuosas da dor, perdera parte da sua beleza helénica e que o seu estado se agravara.
Estava como se fora uma neblina prestes a esvair-se no cimo da serrania, ao surgir o primeiro fio de luz, tecido pelo Sol.
Meu pai, depois que saíra do hospital, taciturno e alquebrado, sem poder labutar como outrora, deplorava a todo o instante a desventura que lhe sucedera.
Não cessava também de me agradecer o socorro pecuniário que dispensara aos entes que nos eram caros, durante o tempo em que esteve enfermo.
Falava-me carinhosamente e, relembrando o passado, a época da minha meninice, dizia:
- Que cautela devemos ter com as nossas palavras, meu François!
Eu, que vivia sempre a dizer que eras inútil à pátria e à família, sou forçado a reconhecer que já prestaste inestimável assistência àqueles a quem amamos e prevejo que poderás tornar ainda mais gloriosa a nossa França, enriquecendo-a com as tuas formosas produções, que, infelizmente, ainda não tive ocasião de aplaudir.
Aproveitava, então, o ensejo para lhe lenir as mágoas dizendo-lhe que sofresse resignado as suas provas terrenas, afirmando, por intuição celeste que o Omnipotente não nos feria injustamente e que, por maiores que fossem as nossas dores, não seriam eternas, teriam limite e uma recompensa equivalente à nossa coragem moral.
A Providência Divina, dizia-lhe ainda sinceramente convencido das minhas ideias, vindas do Alto - é qual magnânimo Creso:27
para aquilatar da perspicácia e da intrepidez de um emissário seu, incumbe-o da execução de arriscada empresa.
Se o desempenho for satisfatório, dar-lhe-á valor real ao mérito, aos esforços e, premiando-o regiamente, lhe outorgará a posse de tesouros, como não os há no mundo, porque os deste são todos perecíveis, ao passo que são perpétuos os que o Céu concede.
Que custa passar este momento, que o é a vida humana, em lágrimas, quando há a esperança de uma outra existência livre de cuidados, calma, ditosa, acenando-nos com um lenço alvíssimo à alma flagelada, incitando-a a caminhar por sobre espinhos na Terra, a fim de colher no empíreo as flores imorredouras da ventura?
Surpreendia-o ouvir-me falar assim, ouvir tais coisas de mim que não conhecia nenhuma alegria mundana.
Ele não concebia que alguém desfrutasse um instante de prazer, vivendo condenado à geena da cegueira.
Reputava este infortúnio pior do que aquele que constantemente o afligia, o de ter sido mutilado.
Replicava-me, às vezes, exprimindo o afecto paternal que me votava, com veemência igual à de que usara quando, no seu leito hospitalar, declarava odiar-me.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 13, 2018 11:16 am

- Admiro-te a coragem e a resignação, meu François!
Continuas a considerar magnânima a Providência Divina que tão mal te aquinhoou, que negou uma gota de luz aos teus olhos imprestáveis, uma migalha de lume às tuas pupilas que parecem vazadas por agudo punhal, ao passo que disseminou prodigamente pelo Universo milhões de sóis inúteis!
- É que mereci, meu pai, esta sentença que se vos afigura iníqua e a que me submeto sem revolta, osculando a mão que a lavrou imparcialmente, mão de juiz austero, íntegro, incorrupto!
O Altíssimo não é déspota inclemente e não me condenou certamente sem provas e sem causas.
"Pois bem!
Sofrerei todas as tribulações e asperezas da existência, todas as mágoas que me ensombrarem a alma, bendizendo sempre aquele que negou uma centelha de luz aos meus olhos e os inundou de lágrimas, que são o orvalho da desventura, porque nutro a convicção inabalável de que a vida humana equivale em duração às rosas de Malherbe28 e porque sei que há um galardão para os heróis, para os que sabem triunfar das suas imperfeições de carácter e do próprio coração.
"Esses os únicos adversários que precisamos combater a todos os instantes, com denodo e tenacidade de estóicos, a fim de alcançarmos a vitória definitiva e com ela a felicidade, vãmente sonhada neste orbe:
a nossa reabilitação espiritual, que traz como corolário o desaparecimento de todas as dores!"
Meu pai - inteligente e sagaz - percebeu que minhas ideias estavam de acordo com as dos psiquistas, cujos preceitos filosóficos vinham sendo, na época a que me refiro, propagados na França e em quase todos os países cultos, coordenados pelo preclaro e inesquecível mestre - Allan Kardec.
Eu tivera a ventura de conhecer, lidos por Jeanne, os livros do eminente Codificador do Espiritismo,29 e não relutei um momento sequer, em aceitar a Doutrina, plena de moral e de verdades inconcussas, neles explanada.
O Espiritismo, pois, aliado às instruções salutares do meu protector sideral - que ficaram insculpidas no meu Espírito, como estrias feitas a escopro no mármore - foi o bálsamo que me refrigerou o coração nos angustiosos instantes das provas acerbas, porque me deu a solução exacta do grande enigma do destino humano.
Graças a ele se me aclarou a génese do sofrimento dos seres que, sem praticarem o mal, lutam com a adversidade até ao extremo alento, numa existência de abnegados e justos.
Já florescera no Espaço a seara da luz e as suas sementes, rutilantes quais o cristalino orvalho que aljofra as corolas das flores e reflecte o fulgor dos astros, caíram sobre as almas sofredoras como uma tempestade de estrelas. Foi como se a Terra toda ficasse coberta de chamas ateadas em arminho.
E nada mais poderá deter essas labaredas, que não são vorazes, que não incineram, mas purificam acendrando os Espíritos flagiciosos ou desventurados, dealbando-os, por entre as sombras da vida planetária, para que trilhem unicamente o caminho alcantilado do bem e da virtude, que termina nos mundos perfeitos, isentos da lágrima.
Jamais se extinguirão no orbe terráqueo, porque foram ateadas pelos emissários do Criador do Universo, e porque é preciso que lavre nas almas conturbadas um incêndio bendito e redentor!
Meu querido genitor se quedava silencioso, padecendo sem mais queixume, para me não causar desgosto.
Nas oficinas em que mourejava antes do acidente que lhe ocasionara a perda de um dos braços, cruel decepção o aguardava.
Apresentando-se novamente ao proprietário da fundição, este o recebeu com demonstrações de carinho, mas não o reintegrou no cargo que anteriormente ocupava.
Encarregou-o de outro mister, insignificante em resultados pecuniários, mais por piedade do que por gratidão.
Entretanto, infinito devera ser o seu reconhecimento para com o bravo artífice, que lhe evitara consideráveis prejuízos materiais, bem como a morte a dezenas de operários.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 13, 2018 11:16 am

- Admiro-te a coragem e a resignação, meu François!
Continuas a considerar magnânima a Providência Divina que tão mal te aquinhoou, que negou uma gota de luz aos teus olhos imprestáveis, uma migalha de lume às tuas pupilas que parecem vazadas por agudo punhal, ao passo que disseminou prodigamente pelo Universo milhões de sóis inúteis!
- É que mereci, meu pai, esta sentença que se vos afigura iníqua e a que me submeto sem revolta, osculando a mão que a lavrou imparcialmente, mão de juiz austero, íntegro, incorrupto!
O Altíssimo não é déspota inclemente e não me condenou certamente sem provas e sem causas.
"Pois bem!
Sofrerei todas as tribulações e asperezas da existência, todas as mágoas que me ensombrarem a alma, bendizendo sempre aquele que negou uma centelha de luz aos meus olhos e os inundou de lágrimas, que são o orvalho da desventura, porque nutro a convicção inabalável de que a vida humana equivale em duração às rosas de Malherbe28 e porque sei que há um galardão para os heróis, para os que sabem triunfar das suas imperfeições de carácter e do próprio coração.
"Esses os únicos adversários que precisamos combater a todos os instantes, com denodo e tenacidade de estóicos, a fim de alcançarmos a vitória definitiva e com ela a felicidade, vãmente sonhada neste orbe:
a nossa reabilitação espiritual, que traz como corolário o desaparecimento de todas as dores!"
Meu pai - inteligente e sagaz - percebeu que minhas ideias estavam de acordo com as dos psiquistas, cujos preceitos filosóficos vinham sendo, na época a que me refiro, propagados na França e em quase todos os países cultos, coordenados pelo preclaro e inesquecível mestre - Allan Kardec.
Eu tivera a ventura de conhecer, lidos por Jeanne, os livros do eminente Codificador do Espiritismo,29 e não relutei um momento sequer, em aceitar a Doutrina, plena de moral e de verdades inconcussas, neles explanada.
O Espiritismo, pois, aliado às instruções salutares do meu protector sideral - que ficaram insculpidas no meu Espírito, como estrias feitas a escopro no mármore - foi o bálsamo que me refrigerou o coração nos angustiosos instantes das provas acerbas, porque me deu a solução exacta do grande enigma do destino humano.
Graças a ele se me aclarou a génese do sofrimento dos seres que, sem praticarem o mal, lutam com a adversidade até ao extremo alento, numa existência de abnegados e justos.
Já florescera no Espaço a seara da luz e as suas sementes, rutilantes quais o cristalino orvalho que aljofra as corolas das flores e reflecte o fulgor dos astros, caíram sobre as almas sofredoras como uma tempestade de estrelas. Foi como se a Terra toda ficasse coberta de chamas ateadas em arminho.
E nada mais poderá deter essas labaredas, que não são vorazes, que não incineram, mas purificam acendrando os Espíritos flagiciosos ou desventurados, dealbando-os, por entre as sombras da vida planetária, para que trilhem unicamente o caminho alcantilado do bem e da virtude, que termina nos mundos perfeitos, isentos da lágrima.
Jamais se extinguirão no orbe terráqueo, porque foram ateadas pelos emissários do Criador do Universo, e porque é preciso que lavre nas almas conturbadas um incêndio bendito e redentor!
Meu querido genitor se quedava silencioso, padecendo sem mais queixume, para me não causar desgosto.
Nas oficinas em que mourejava antes do acidente que lhe ocasionara a perda de um dos braços, cruel decepção o aguardava.
Apresentando-se novamente ao proprietário da fundição, este o recebeu com demonstrações de carinho, mas não o reintegrou no cargo que anteriormente ocupava.
Encarregou-o de outro mister, insignificante em resultados pecuniários, mais por piedade do que por gratidão.
Entretanto, infinito devera ser o seu reconhecimento para com o bravo artífice, que lhe evitara consideráveis prejuízos materiais, bem como a morte a dezenas de operários.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 14, 2018 10:53 am

- Está comovido e entusiasmado por ouvir o filho executar essa formosíssima composição que tanto apreciamos.
E todos, sensibilizados, formando uma coroa humana ao redor de nós ambos - testemunhas daquele amplexo de um só braço enlaçando o corpo débil e gracioso de um artista cego - prorromperam em aplausos, que duraram segundos.
* * *
O resto da noite meu pai, com os olhos ainda nublados de pranto, o coração pulsando aceleradamente, fatigado dos labores diurnos, passou-o no saguão, à minha espera.
Diversas pessoas generosas subtilmente lhe deitaram no bolso moedas que, por ele encontradas quando regressamos a casa, o puseram perplexo, pois não havia levado sequer um cêntimo.

27 Ultimo rei da Lídia (Anatólia), actual Turquia. Famoso pela sua riqueza, atribuída a exploração das areias auríferas do Pactolo, rio onde, segundo a lenda, se banhara o rei Midas (que transformava em ouro tudo que tocava).
28 Poeta lírico francês (1555 -1628).
29 Essas oras podem, actualmente, ser lidas pelos cegos, na biblioteca pública da Federação Espírita Brasileira.
30 Peça musical de andamento rápido.
31 Trecho musical de estilo ligeiro e gracioso, e andamento vivo.
32 Nota, passagem ou trecho executado com intensidade sonora além do forte, ou máxima.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 14, 2018 10:54 am

CAPITULO VI
Esses triunfos musicais foram os últimos revérbeos de alegria que me iluminaram a alma e que penetraram em nosso lar, onde, contudo, nunca faltou o clarão perene de uma felicidade incomparável no planeta terrestre:
a da união de três entes desditosos, mas que se amavam carinhosamente, que compreendiam estarem as suas existências ligadas para o resgate de culpas remotas e talvez hediondas; que se resignavam com o destino que lhes outorgara a Providência, que desprezavam os gozos sociais e aguardavam, confiantes em Deus, uma vida plácida e ditosa, nalgum orbe venturoso, onde não há mais a separação dos seres que se idolatram, nem dores cruciantes a flagelarem os corações sensíveis.
Vai começar agora, meu amigo, a vénia final da minha última encarnação, que, se transcorreu isenta do tumultuar das paixões que agitaram a precedente, teve, contudo, lances pungentes, os quais, rememorados neste momento, como que me fazem vir as lágrimas aos olhos, que se fatigaram de vertê-las. Entretanto, hoje as abençoo, pois foram a caudal que me saneou a alma de suas faltas passadas, que a purificou, por um baptismo redentor, num Jordão cristalino onde mergulhara para, tornando-a alva e luminosa, conseguir ingresso em qualquer das cintilantes mansões dos redimidos.
Certa noite em que nevava extraordinariamente, fui convidado a tomar parte num concerto a realizar-se no palacete de um burguês, que festejava o seu natalício...
Acompanhou-me meu pai, que, lá chegando, se sentou, fatigado e sonolento, perto de um bom fogo.
Pela madrugada, terminado o sarau, teve de sair, repentinamente, pouco resguardado contra o frio.
Sentiu convulsivo calafrio; sobreveio-lhe, em casa, febre violenta e dor lancinante por todo o corpo.
Ao cabo de alguns dias, estava paralítico.
Novamente a penúria nos bateu à porta com a violência de um déspota e se alojou em nosso tugúrio para jamais dele sair.
Abreviarei, meu amigo, o rosário dos tormentos que então me supliciaram.
Ainda hoje, ao recordá-los, me sinto reconhecido aos dedicados Protectores, que me dulcificaram todos os pesares, envolvendo-me em eflúvios balsâmicos, animando-me a suportar as refregas da adversidade, auxiliando-me a sair vitorioso de todas as provas.
Sofria, mas lutava com denodo, porque minh'alma sonhava, a todos os instantes, com a sua emancipação eterna, qual rouxinol engaiolado que, lembrando-se constantemente do tépido ninho muito longe deixado na haste de uma macieira em flor, tenta heroicamente quebrar as grades do pequenino ergástulo, aspirando a libertar-se dele para sempre, a rufiar as asas pelo infinito em fora.
Ao fim de pouco tempo, sem o auxílio pecuniário que provinha do labor paterno, nosso lar se tornou o esconderijo do sofrimento e da pobreza.
Das sessões musicais em que tomava parte, eu percebia apenas o suficiente para não passarmos sem pão e para o aluguel da nossa choupana.
A querida Jeanne, porém, sem conforto algum, enfraquecida pelas privações que nos atormentavam, embora ocultasse o seu estado mórbido, não resistiu à tuberculose que, até então latente, minou seu frágil organismo.
Sem a ver, eu não julgava fosse tão assustadora a enfermidade; mas um dia, com dolorosa surpresa, verifiquei que seus pulmões já se achavam devastados.
Após uma semana de chuva incessante, saíramos a passeio matinal e, dando-me ela o braço, senti-o abrasado por alta febre; percebi que andava a passos lentos, parando de instante a instante para tossir convulsivamente.
Quase não conversava comigo, talvez para que não lhe notasse a alteração da voz, que já perdera o argentino.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 14, 2018 10:54 am

Fiquei aflito. Tratei de regressar a casa e transmiti meus receios ao nosso progenitor, que, entrevado no leito de dor, vendo a filha amada apenas na penumbra da alcova em que jazia, não notara ainda a mudança que se operara nela.
Ouvindo, porém, o que lhe relatei, pediu-me, tomado de aflição, que, ajudado por Margot - a nossa modelar servidora -, o transportasse numa velha espreguiçadeira para a saleta das refeições, mais bem iluminada, embora o fosse tenuemente por uma janela, através da qual a luz solar, em pleno inverno, custosamente se filtrava.
Chamou Jeanne e, ao vê-la, se pôs a clamar, meio alucinado:
- Como está a nossa pobre Jeanne transformada, meu François!
Que é que sentes, minha filha?
Já não és a mesma que meus olhos viam antes de adoecer, formosa como um querubim.
E eu sem poder trabalhar para te dar o conforto de que precisas!
"Puni-me severamente, ó Deus meu, mas poupai do sofrimento a minha querida Jeannette, que é um anjo de bondade, como os que vos rodeiam".
Minha irmã, sem se amedrontar, sorrindo e gracejando, lhe disse:
- Fiquei assustada, papai!
Então julgáveis que a Jeannette nunca adoeceria?
"Isto nada vale: inquietei-me com a vossa moléstia, passei algumas noites em claro, mas, ao ver-vos um pouco melhor, a tranquilidade volve ao meu coração.
Recobrarei a saúde em poucos dias, certamente, meu pai!
Não vos sentis melhor hoje?
"Pois bem! vereis como dentro de uma semana a vossa Jeannette estará robusta e rosada qual camponesa!".
Meu pai fez um sacrifício supremo:
dispôs da última jóia que lhe restava - inestimável relíquia para o seu coração de viúvo saudoso -, a sua aliança nupcial, a fim de comprar um reconstituinte para Jeanne, que, apesar do seu inalterável bom humor, continuava a emagrecer assustadoramente.
Suas mãozinhas, que sempre me acariciavam, constantemente febris, se tornaram tão pequenas como as minúsculas asas de um beija-flor.
Afigurava-se-me poder escondê-las sem esforço dentro de uma das minhas, que, no entanto, nada tinham de rudes nem de grandes: eram mãos de artista, de dedos delgados, que somente se exercitavam no marfim dos teclados ou nas cordas dos violinos.
Ferido no imo d'alma pela enfermidade de Jeanne, nosso pai entrou novamente a imprecar contra o destino, dizendo-me, com indescritível mágoa:
- Tudo suportaria com serenidade heróica, menos presenciar o sofrimento da minha adorada filha - meu consolo, toda a minha esperança, o génio protector de nossa família - impossibilitado de mourejar, a fim de lhe dar o conforto de que precisa para recuperar a preciosíssima saúde!
Não me fale mais em resignação, François!
* * *
Para podermos fazer face às despesas domésticas e ao tratamento de Jeanne, era-me preciso trabalhar sem repouso.
Em breve, porém, a fadiga - resultante dos esforços que fazia, estudando violino ou piano durante o dia, horas seguidas, e me expondo à noite ao relento e à chuva, só regressando a casa pela madrugada - começou a manifestar-se no meu débil organismo.
Mas, imitando a querida irmã, ocultei a todos o meu abatimento, almejando ardentemente que a minha partida do orbe terráqueo coincidisse com a de Jeanne.
Não é que aspirasse à morte para fugir à luta, para deixar de padecer, ou que a buscasse.
Acreditava estar nos desígnios da Providência a nossa união em paragens mais ditosas, libertos ambos das cadeias do sofrimento, ao mesmo tempo que da vida planetária.
Não haveria nisso egoísmo?
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Ave sem Ninho

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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 14, 2018 10:54 am

Como poderíamos ser venturosos em qualquer estância sideral, deixando na Terra, corpo petrificado e espírito enlutado, o mísero paralítico?
Que lhe sucederia, sem os filhos idolatrados? Em que desespero ou desalento não imergiria sua alma, tão propensa a revoltar-se contra a dor, se um duplo golpe a atingisse?
Estas e outras interrogações fazia eu a mim mesmo.
Não podendo responder a elas, quedava-me silencioso e apreensivo.
Certa vez, absorvido pelos próprios pensamentos, senti na fronte o contacto suave da mão delicada de Jeanne, que murmurou com a voz já velada pela afecção que a minava:
- Como andas cismático, François!
Dar-se-á o caso que estejas enamorado de alguma deidade, cuja voz te seduziu, ou que andes a compor mais uma bela fantasia musical?
"Ai! há tanto tempo já que não ouço as tuas expressivas sonatas!
Chego a ter saudades daquelas noites de suplício, em que te acompanhava aos bailes, porque pressinto que te não poderei mais guiar como outrora, o que, portanto, me privará de apreciar as tuas famosas produções, meu François!
"Se tivesses um violino, estudarias a meu lado, a felicidade volveria ao nosso lar, o prazer espantaria daqui a tristeza e até o nosso pobre pai se sentiria mais calmo e paciente.
Sempre, porém, te utilizas de instrumentos alheios, o que te força a passar longe de mim muitas horas.
Se pudesses trazê-los para a nossa mansarda...
Possuis um tesouro inestimável, François, que somente aos estranhos é dado apreciar".
- Ainda não me foi possível adquirir o meu instrumento predilecto, Jeanne; mas prometo-te que, logo à noite, trarei o violino de Duchemont e nele hei-de tocar as minhas mais recentes composições, ou antes, as que executo ouvindo outras ao longe, em surdina, tocadas talvez no Céu.
Antes, porém, que cumprisse o que prometera, tivemos de nos mudar para outra casa mais humilde do que a em que residíramos por alguns anos.
Tão contristado se mostrou com isso o nosso progenitor, que resolvi adiar por alguns dias a realização do meu projecto.
Duchemont, vendo-nos em tão penosa situação, falou em efectuar sem mais demora o seu casamento com Jeanne.
Era um modo generoso de ampará-la e beneficiar-nos sem nos vexar.
Não pôde, porém, realizar o seu intento, porque ela se opôs, declarando-lhe que se achava gravemente enferma.
Ele insistiu ainda para lhe obter o assentimento, não aceitando a escusa que ela apresentara e prometendo que, logo depois de casados, a levaria para o sul do continente, a fim de, com a mudança de clima, lhe revigorar o organismo debilitado.
Jeanne, sensibilizada, declarou que não era indiferente a tantas demonstrações de magnânimo afecto, mas que a sua consciência lhe impunha não pensar mais num sonho que, realizado, o faria desditoso.
E, tentando sorrir, mas tendo os olhos banhados de lágrimas, concluiu com estas palavras:
- Não me é permitido desposar alguém neste mundo, senhor Duchemont, pois que o meu noivado seria fúnebre.
Já se aproxima o instante em que transporei as fronteiras da Eternidade!
Aceitai a minha afeição fraternal e continuai a dar-me, como até hoje, as provas de vossa dedicação sublime.
Assim, atenuareis minhas mágoas e me fareis venturosa até ao extremo alento.
Duchemont, emocionado, lhe tomou as mãos e as beijou castamente, orvalhando-as de pranto.
Tornaram-se, assim, noivos, sem que pudessem aspirar à realização de seus esponsais.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 14, 2018 10:54 am

Jeanne começou desde então a produzir comovedoras poesias, que me confrangiam o coração, quando mas declamava, entrecortadas pela tosse, comprimindo, às vezes, os meus dedos com os seus, escaldantes ou álgidos - como os dos que já se abeiram do túmulo.
Mais do que nunca, sentia eu, nos últimos dias que passamos juntos, estarem nossas almas presas pelos vínculos imateriais e perenes de um afecto imorredouro.
Tinha a certeza, que me vinha de iniludível presságio, de que Jeanne não tardaria a baixar ao túmulo e que eu não lhe sobreviveria à libertação.
Na Terra, nossos corpos repousariam em duas campas, ao lado uma da outra; no Espaço, nossos Espíritos se uniriam para sempre.
Animado por essa convicção, reagia contra o desalento que tentava empolgar-me.
Afligia-me a ideia de estar iminente a nossa separação momentânea.
Ao pensar, porém, que ela teria efémera duração, minha dor abrandava, novo alento ganhava a minha coragem moral, mais submisso me tornava à vontade divina.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 14, 2018 10:54 am

CAPÍTULO VII
Grande era a impetuosidade da tormenta que me convulsionava a alma, à espera de que lhe fosse arremessado o dardo agudo que a trespassaria, dilacerando-a.
Que benefício me fez o bálsamo refrigerante que o meu desvelado Guia espiritual espargiu em cada uma das doridas chagas do meu coração!
Às vezes, receava não suportar, como devia, a mais rude prova daquela minha existência planetária e implorava com fervor o conforto e a resignação, que o Céu não nega jamais a quem o suplica.
Meus rogos foram atendidos.
O sentimento nobilíssimo que se alojara no meu íntimo - qual centelha de sol em urna de diamante -, o da fé naquele que nos cria, julga, pune e perdoa; que preside aos nossos destinos, certamente me daria ânimo para não desfalecer no instante decisivo em que me visse privado dos afagos daquela que sintetizava todos os amores terrenos, sendo para mim, ao mesmo tempo, mãe extremosa, irmã incomparável, noiva ideal; daquela cuja voz era a única que descia ao santuário do meu coração, afogando-o em meiguices, iluminando-o de um luar opalino.
Meu pai, que quase já não externava seus pensamentos, tão amargurado vivia, aproveitando, em dada ocasião, a momentânea ausência de Jeanne, falou-me do seu leito de angústias:
- És bem venturoso, François!
Já não lamento, invejo-te a cegueira.
Que felicidade, meu filho, não poderes presenciar o que meus olhos contemplam: a nossa miséria e Jeannette quase a nos deixar para sempre!
"Aqui, morto para o trabalho, com um dos braços já sepultado, com o corpo imóvel como o de um cadáver, petrificado qual bloco de mármore, tenho, a aumentar-me a desdita, o espectáculo da derrocada do nosso lar, sem poder detê-la.
"Muito mais do que antes de adoecer, se acha intensificada a minha sensibilidade: meu coração palpita e sofre com mais veemência.
"Afigura-se-me que nele se centralizou toda a minha visão orgânica; meus olhos adquiriram mais lume, parecendo-me que minha vista poderá mesmo atravessar uma muralha; em meu cérebro germinam percepções mágicas, fazendo-me cogitar, perquirir, imaginar numa hora o que não poderia registrar em um ano, se tentasse reproduzir turbilhões de ideias que por ele passam, deixando-me às vezes quase louco!
"Não podes ver, meu François, dentro da treva em que vives imerso, que os nossos poucos móveis já desapareceram e, sobretudo, o esmaecimento, a transformação operada em Jeanne.
“ Só eu, para maior suplício, observo a sua consumação.
Vai-se-lhe extinguindo e fanando dia a dia a beleza angélica, que era o meu encanto e me fazia recordar tua mãe.
É evidente que pouco falta para nos deixar.
Tua irmã está a despedir-se de mim e de ti:
em breve irá reunir-se à morta querida, e que será de nós, François, com a nossa penúria e a nossa dor inconsolável, sem o nosso anjo tutelar?".
Tentei lenir a dor do pobre pai, sentindo, embora, os olhos trevosos túmidos de pranto:
- Não, meu pai, a nossa Jeanne ficará connosco, enquanto vivermos.
A morte, que apenas aniquila a matéria, não nos separará jamais: ao contrário, dar-lhe-á repouso, fará cessar seus padecimentos físicos e lhe outorgará a felicidade de que é digna uma alma pura de querubim, que, liberta da prisão terrena, velará melhor por nós.
"Que faremos, depois que ela não estiver mais incorporada em nosso lar?
Submeter-nos-emos à vontade divina. Deveremos ser impávidos e valorosos nas horas da peleja e esperar serenamente que também chegue a hora da nossa felicidade.
Deus não há-de tardar em no-la conceder!".
- Ah! meu filho, quisera ter a sua resignação sublime.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 14, 2018 10:55 am

Se não fora o miserando estado de minha saúde, a minha invalidez para tudo, poria termo à vida antes de receber o golpe tremendo que nos aguarda.
- Não vedes, meu pobre pai, que, sem uma causa justa e forte, sem havermos praticado um delito horrendo, nossos destinos não se teriam entrelaçado para passarmos em comum pelos tormentos que nos excruciam os peitos, como se, juntos, estivéssemos cumprindo uma sentença lavrada pelo mesmo recto juiz?
- Assim pensas porque acreditas que todos os seres humanos contam várias existências, interrompidas pela morte e logo após recomeçadas; porque acreditas na pluralidade das vidas, como dizem os espiritualistas, explicando a génese dos nossos sofrimentos, cujas causas situam em anteriores vidas criminosas.
Eu, porém, não compartilho dessa crença, meu filho; e, além disso, confesso-te que, após as decepções formidáveis por que temos passado, considero o nada, o aniquilamento absoluto do nosso eu no seio do sepulcro, uma ventura ideal.
Para que continuar, depois da batalha dolorosa da vida, a lutar e a sofrer?
- Não vos sentireis jubiloso, meu pai, se pudermos reunir-nos para sempre - eu, o senhor e Jeanne - em um mundo mais perfeito do que este, numa verdadeira mansão de repouso de gozos imateriais, depois de todas as nossas dores nobremente suportadas?
- Belo sonho irrealizável é o teu, François, no qual não posso crer.
Influenciado, então, pelos Instrutores celestiais, exaltei-me e com tanta eloquência e entusiasmo discorri sobre o mérito que conquistamos, submetendo-nos cristãmente às provas ásperas que nos manda o Omnipotente para resgatarmos faltas praticadas em caliginosas existências anteriores; com tanta convicção explanei minhas ideias, incitando-o a sofrer com humildade, que ele, por algum tempo, não se referiu mais à nossa desdita, quedando-se num mutismo profundo.
* * *
Um dia, a pretexto de comprar um objecto de que necessitava, Jeanne se ausentou da nossa residência que, sem ela, ficava escura de tristeza, qual caverna sem um raio de sol.
Muitas horas estivemos à sua espera.
Que fora feito da adorada Jeannette?
Por que não nos avisara de que pretendia demorar-se?
Teria piorado a ponto de não poder mais regressar a casa?
Teria sido recolhida a algum estabelecimento pio, encontrada exânime em qualquer logradouro público? Céus!
Quanto padecíamos, eu e o desditoso paralítico por não podermos ir-lhe no encalço, descobrir-lhe o paradeiro!
Por fim, ao cair da tarde, ouvimos-lhe a tosse, o rumor dos alígeros passos, percebemos que empurrava brandamente a porta e entrava.
Ao chegar perto de mim, notei que depositara alguma coisa pesada sobre a mesa onde tomávamos as nossas parcas refeições.
A tosse constante a impediu por muito tempo de nos esclarecer a respeito da sua prolongada ausência de mais de quatro horas.
Certamente, naqueles instantes, seu rosto escultural apresentava a lividez de jaspe e a beleza imácula dos seres santificados pelo martírio.
Afinal, aproximando-se, indagou dos meus estudos e de como passara o dia o nosso genitor.
Vendo meus olhos inundados de pranto, osculou-me a fronte e pediu perdão de me haver afligido e ao caro enfermo, dizendo-me por fim:
- Não tarda muito, François, que me veja forçada a abandonar o nosso tugúrio, não por algumas horas, mas por tempo ilimitado...
até que nos possamos congregar em outras paragens, mais ditosas do que estas.
Quando eu partir, meu irmão, todos os teus esforços devem tender para confortar nosso pobre pai.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 14, 2018 10:55 am

Esquece a tua dor, para te lembrares da dele, que não tem a alma lapidada como a tua!
"Agora vou explicar-te a causa da minha ausência, que te causou estranheza e pesar.
Não ignoro que estudas em instrumentos que não te pertencem; sei que desejas possuir um violino e, anelando ouvir ainda as tuas belas produções, uma vez que já te não posso acompanhar aos concertos e festins, como outrora, quis fazer-te uma surpresa e deixar--te uma suprema lembrança, que será lenitivo para a tua alma e para a de nosso querido pai, nestes próximos dias... quando minhas pálpebras se cerrarem para sempre!
"Desde criança possuía um pendentif33 cordiforme, incrustado de diamantes, que pertencera à nossa querida mãe, presente de núpcias que o nosso genitor lhe fizera.
Guardei-o zelosamente, como se fora uma relíquia sacrossanta, um fragmento da minha própria alma.
Dele não me podia separar, porque me parecia fazer parte do meu próprio ser.
Há dias, porém, compreendi que não o conservaria mais por muito tempo e, assim, o vendi para adquirir outra preciosidade, este instrumento que canta com as vozes dos sentimentos, que sofre ou exulta connosco, que será o meu consolo nos derradeiros instantes de vida e dos que aqui ficarem depois da minha partida em demanda do Além.
'Troquei um silencioso coração de ouro e brilhantes por um de madeira, mas tem fibras sensíveis das quais se desprendem divinas sonoridades, interpretando as procelas e as bonanças do nosso espírito.
Enfim, meu François, trouxe um magnífico violino, quase um estradivários, que te ofereço!
"Não suponhas que fiz desmedido sacrifício, dispondo de uma inutilidade preciosa, que, para mim, filha saudosa, só tinha o valor inestimável de haver pertencido àquela que ma legou.
Não é certo que em breve estarei ao lado da nossa idolatrada mãe?
"Que vale uma migalha de ouro encerrada num escrínio de pelúcia, que o tempo destrói e que se esquece na Terra - onde fica o estojo da alma, que os vermes corroem - em comparação com o infindo regozijo que me aguarda no Céu, quando me encontrar com a jóia de maior preço da Humanidade - uma extremosa mãe?
Sim, ela me perdoará o me haver desfeito da sua prenda de noivado que, certamente, muito amava, a fim de adquirir outra, mais valiosa ainda, para o filho em cuja face nunca pôde depor um beijo e que, talvez por isso, tenha ficado cego!
"Custei muito a tomar essa deliberação, mas agora me felicito pelo que fiz, necessariamente inspirada pela morta querida!
Ainda me restam alguns francos, com os quais compraremos qualquer coisa para a nossa ceia, e poderás descansar por alguns dias!
Trago, pois, a alegria hoje comigo!
Por que choras assim, meu François?".
Falava sem cessar, com brandura e carícia, colocando--me nos braços o ataúde esguio de um violino, enquanto eu, silencioso, enternecido, não sabia o que lhe dissesse, diante daquela prova comovedora da sua dedicação fraternal.
Ela, porém, me compreendia, pois que lhe expressava todo o meu reconhecimento na linguagem muda das lágrimas, gotas que se desprendem, uma a uma, de nossa alma nas horas de amargura ou de enternecimento, orvalho que nos humedece as pupilas na noite do sofrimento e nos redime os passados delitos pavorosos, bálsamo que, pelos vasos lacrimais, vem do seio que padece - sua fonte perene - e forma caudal, como os minúsculos veios hialinos que fluem do coração das serras, para fertilizar e refrigerar as regiões por onde serpeiam, quais artérias de líquido cristal.
Quando pude falar, repreendi-a, brandamente, por se haver fatigado.
Ao que a bondosa Jeanne, rindo, me retrucou:
- Quero me faças ouvir, neste instante, uma das tuas rêveriesl.
Antes música... do que censuras!
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 14, 2018 10:55 am

Quero me agradeças por intermédio deste instrumento, que sem dúvida maneja, muito melhor que os lábios, o idioma dos sentimentos.
Esqueçamos nossos dissabores, nossas moléstias, nossas lutas; abafemo-la em onda de harmonia, fazendo como os cépticos das coisas transcendentais que procuram afogá-los em champanhe ou absinto.
Transformemos em zéfiros as tempestades que nos agitam os cérebros torturados!
Chorar por quê? Trazendo para aqui uma estilha do paraíso, quis que esta desguarnecida mansarda se transformasse em mágico solar de fadas!
"Empunha o violino, François, porquanto desejo ouvi-lo agora e morrer embalada nas suas vibrações maviosas, que mitigarão a dor que me causa o ter que te deixar, assim como ao nosso infeliz pai... e ao noivo dilecto!
Creio bem que, depois que meu corpo estiver encerrado no sepulcro, meu Espírito volverá frequentemente à Terra, para ouvir as tuas sublimes sonatas, que tanto aprecio, e das quais não poderei me esquecer, mesmo no empíreo".
Com o peito oprimido, pois as palavras de Jeanne me demonstravam claramente que ela não ignorava o seu próximo fim, que sabia já estar a caminho para o Céu - única pátria de que era digna - ao tomar-lhe das mãozinhas quase intangíveis a dádiva que me fizera, estreitei-as fortemente e osculei-as reiteradas vezes, afirmando-lhe, ao mesmo tempo, que a morte não interromperia a nossa afeição, que, ao contrário, soldaria os nossos destinos até a consumação dos séculos!
Em seguida, abri o estojo, retirei o mimo e logo, por entre exclamações de surpresa e de agridoce júbilo do entrevado, nossa mesquinha e lôbrega habitação, abrigo da penúria e do sofrimento de três desventurados entes em ríspidas provações, se encheu de ondas sonoras, que a tornaram como que ampla e luminosa.
E os sons do dulçoroso instrumento, anestesiando, como o Lete34 mitológico, não a nossa nostalgia, mas os nossos pesares, amorteceram e mitigaram os padecimentos físicos e morais.
A música é o mais belo idioma do Universo.
Falam-no na Terra e no firmamento, tanto traduz a lágrima como o sorriso!
Tal é o poder feiticeiro da arte sublimada de Rossini e Wagner35 que, naquele dia, ninguém se lembrou de suas tribulações.
Mais do que das outras vezes me senti influenciado por entidades etéreas a me banharem a fronte de eflúvios radiosos, que me penetravam o cérebro, accionavam os dedos, transmitiam ao arco uma agilidade de asas cindindo os ares, e arrancavam às fêveras do violino torrentes de modulações suavíssimas.
Dedilhei, assim, por algumas horas, sinfonias originais e arrebatadoras, como se as estivesse lendo gravadas no Infinito, em pautas, notas e claves fulgurantes, feitas de faíscas estelares e que, terminada a execução, desapareceram de súbito, sumindo-se no Espaço, de onde tinham vindo.
Não seria capaz de reproduzi-las se o quisesse, e poderia dar-lhe por título Soluços de um coração enternecido.
Tinha, às vezes, a impressão de estar passando o arco nas fibras de um coração humano, que se tornassem sonoras e deixassem escapar gritos rápidos, preces em surdina, monólogos quérulos, flébeis gemidos, que voavam para a amplidão celeste. Quando cessaram as vibrações do último acorde e a nossa mansarda imergiu de novo em funéreo silêncio, Jeanne sussurrou, como num íntimo solilóquio:
- Fui portadora da ventura para o nosso triste lar.
A música é um bálsamo divino que ameniza todas as dores da alma, tornando-a ditosa, deslembrada da Terra e nostálgica do Céu.
"Hás de, agora, François, tocar tudo quanto lês nas páginas do Infinito, para que me possa esquecer do que me magoa e de que tenho de me separar, embora por tempo limitado, de alguns seres extremosamente queridos.
Desejo exalar o derradeiro alento ouvindo o que executas nesses instantes de sonho ou encantamento.
Exulto por haver concorrido para a felicidade dos que amo. Posso agora Partir para sempre".

33 Pingente
34 Rio do inferno.
35 Rossini - célebre compositor italiano (1792-1868); Wagner - célebre compositor alemão (1813-1883).
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 14, 2018 10:56 am

LIVRO IV - A aliança

CAPÍTULO I

O desejo de Jeanne, expresso no momento em que me ofereceu o magnífico violino, foi prontamente satisfeito.
Nos últimos tempos que viveu connosco, para minorar-lhe a dispneia e as dores que a supliciavam, fiz-lhe ouvir alguns nocturnos e romances de uma plangência comovedora.
Ela, porém, premindo-me levemente um dos braços com os dedos subtis - a cujo contacto mais sensível era minh'alma, que um íntimo tremor abalava, do que o meu sistema nervoso - murmurava palavras como estas, reveladoras de uma nobreza celestial que, por certo, lhe transfigurava o pulcro semblante, de mim apenas entrevisto em sonhos ou no sacrário do espírito:
- São muito melancólicas as tuas músicas, François!
Executa outras que exprimam contentamento ou ventura.
Acaso te entristeces por estar eu para deixar de padecer em breve?
Não mais crês que nos encontraremos em regiões incomparavelmente melhores do que estas em que vivemos, onde o pranto e a dor se acham disseminados com a mesma profusão que as nebulosas no espaço?
"Não acreditas que nos reuniremos novamente, quando não mais estivermos acorrentados ao mundo onde delinquimos e onde nos reabilitamos, cumprindo severa mas remissora pena?
Acaso o afecto puro que nos votamos um ao outro poderá extinguir-se com a matéria perecível que vai ficar encerrada na campa?
"Não, François, um dia irás no meu encalço, como eu partirei em busca da nossa inolvidável mãe, que anseia por nos ver libertos.
"Aguardemos, pois, com o sorriso nos lábios, com a alma florida de esperanças, que o Eterno nos livre das teias do sofrimento e nos reúna em estância onde imperem a paz, as artes, o amor, enfim, as felicidades irrealizáveis aqui.
Não, a afeição que consagro a ti, a nosso pai e a Duchemont, jamais perecerá.
Uma só coisa me aflige:
o saber que andas enfermo.
Dada a invalidez do nosso velho, temo vos venha a faltar o pão de cada dia.
"Sei, porém, que isso não deve me inquietar, porque a magnanimidade de Deus é inexcedível e Ele vela por todos os seres da Criação.
Em breve, meu irmão, serás célebre em toda a França, como extraordinário compositor e, em futuro não remoto, terás a fronte engrinaldada pelos louros da glória.
Então, sê carinhoso, ainda mais que até hoje, com aquele que nos deu o ser e procura mitigar-lhe todas as amarguras.
"Quero vivas mais alguns anos - embora isso retarde a realização daquilo a que aspiramos, a nossa união em paragens ditosas - para que possas consolar o infeliz paralítico!".
- Ai! Jeanne! a tua bondade angélica e a tua fantasia de verdadeira ideóloga fazem que tudo entrevejas por um prispia radioso, quando na Terra se me antolha um porvir nebuloso, obscurecido o horizonte da minha existência por nimbos lutuosos.
"Creio, sim, na mansão etérea onde se congregam os que se amam, como nós, com um afecto imáculo, mas, no planeta em que peregrinamos, cerrar-se-á para mim a porta da felicidade, quando se cavar no solo para o teu corpo um túmulo, porque nele serão também sepultados o meu coração, os meus desvelos de artista, os meus anelos de glória, os sonhos em que me embalava desde a infância!
Ai! penso que até o meu estro musical morrerá, pois me parece que, além dos Invisíveis, tu me tens inspirado as mais belas produções.
"É que, Jeanne, és uma exilada do empíreo, porquanto só um arcanjo poderia ter substituído a mãe que não conheci, a noiva que jamais conhecerei, sendo a irmã modelar que velou por mim desde a puerícia até a mocidade.
Foste única, porque és perfeita.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 15, 2018 9:58 am

"Assim, concretizo em ti todos os meus mais elevados sentimentos.
Como queres, então, que o meu violino cante jubiloso, quando minh'alma pranteia, temendo o nosso apartamento, mesmo temporário?
Não é mais natural que as cordas deste instrumento solucem, exprimindo a dor inaudita que me avassala, vendo-te padecer?
Posso dizer que passei pelo mundo sem o conhecer, tendo apenas para me guiar, através do nevoeiro em que vivo, o teu amor, e, quando vou ficar privado dele, me queres ver a sofrer, Jeanne?"
- Mas não te abandonarei, François!
Não sabes que existo' sem nunca teus olhos terem me contemplado?
Quando eu morrer, deixarás de me ouvir, do mesmo modo que agora não me enxergas, mas estarei a teu lado, como neste instante!
- Obrigado! Eram estas as palavras que eu almejava ouvir dos teus lábios, Jeanne!
Quem me dera, como tu, minha irmã, já vislumbrar o mesmo resplandecente fanal, posto nas raias da Terra com o Infinito, cujas estâncias começas a divisar, desejosa de aportar a elas com a ansiedade do marujo nostálgico que, ausente da pátria alguns anos, avista perto as plagas natais e se impacienta por pisar o solo amado e nele adormecer o sono eterno!
- Afugenta esses pensamentos do teu cérebro, François!
É mister que vivas para lenitivo de nosso pobre pai!
- Sim, tudo farei por satisfazer aos teus desejos.
A vida não nos pertence, bem o sei:
é-nos concedida ou extinta quando apraz à Providência; corre-nos, porém, o dever de conservá-la, enquanto jungidos à matéria, como preciosidade confiada à nossa guarda, submissos a todos os desígnios divinos.
Conformo-me, pois, com os reveses que...
- Deixemo-nos de assuntos tristes!
Vamos fazer um pacto.
Não quero que deixes de ser artista e, como disseste que possuo o dom de Euterpe - a mais apreciável das musas - virei do Além inspirar-te, mas com a condição de que nunca abandonarás teus estudos!
Queres comigo formar esse pacto?
Não me respondes?
O silêncio é igualmente afirmativo.
Está feito!
Agora, prefiro confabular com o teu violino, que, no entanto, às vezes também chora.
Não o faças, porém, chorar hoje por minha causa, pois me apraz ouvi-lo de harmonia com o meu coração:
contrito e esperançoso!
Amainado o temporal que rugia no meu íntimo, tomei do mágico instrumento e me pus a executar árias graciosas, nocturnos e romanzas36 que nada tinham de melancólicas.
Eram como que o diálogo misterioso de duas almas de noivos que se adorassem, e que, após anos de doloroso apartamento, degredadas em longínquas e inóspitas regiões, conseguissem unir-se no Espaço, e, delirantes de contentamento, se fizessem mútuas confidências, referindo uma à outra, dadas as mãos, todos os tormentos por que passaram, todas as saudades e recordações, os inauditos sofrimentos que curtiram ou as ridentes esperanças que alimentaram.
Ouvindo-os, Jeanne se considerava ditosa e o meu contínuo pesar quase de todo cessava, só me ficando, naquele momento, o de não lhe poder contemplar o semblante, que imaginava feito de jaspe e luz, como o de uma entidade paradisíaca.
Ah! que acerba foi a minha provação nessa última existência - a da cegueira!
Quantas vezes me turvou os raros instantes de alegria que me foram concedidos!
Nunca pude ter um gozo sem jaça.
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Ave sem Ninho

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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 15, 2018 9:58 am

Na ocasião dos meus triunfos artísticos, quando, ouvindo o reboar dos aplausos ao finalizar a execução de uma página musical ou recebendo as demonstrações de carinho da irmã idolatrada, parecia que um clarão de aurora boreal me iluminava a mente, logo sentia que, de novo, em minha fronte passavam uma venda negra.
A claridade que me banhara se esvaía, como se eu penetrara de repente em extrema e lôbrega furna ou atravessasse o globo terrestre de pólo a pólo, apagando-se-me o facho que empunhava para me guiar na longa travessia.
De onde vinha essa claridade efémera, que, às vezes, relampeava em meu íntimo?
Vinha da inspiração, que do Infinito jorrava em minh'alma, qual cascata de sons e de luar; vinha da afeição pura de Jeanne - lâmpada de minha vida - parecendo-me ser uma a sequência da outra.
Afigurava-se-me que, se uma se apagasse, também a outra se apagaria.
E essa ideia me garroteava o cérebro, na horas de profunda meditação, fazendo-me rilhar os dentes de pavor.
Imagine-se que um mineiro, atravessando infinda galeria subterrânea, se transviasse em inextrincável labirinto, quando já bruxuleava a chama da lanterna que lhe bailava na mão enregelada e convulsivamente agitada pelo terror de ficar sepultado em vida.
Imagine-se ainda que, quando mais intensa era a sua tortura, sentia o mísero premir-lhe o braço uma diáfana mão amiga, que depois de guiá-lo até a borda de um vórtice cujo estrepitoso rumorejo lhe chegava aos ouvidos, de chofre o desamparava e desaparecia na amplidão celeste, deixando luminoso sulco nas sombras que o envolviam e que se tornavam trevas asfixiantes.
Era o que eu temia me viesse suceder.
A lâmpada maravilhosa que me iluminava a alma tinha a lhe alimentar a chama o estro musical, os carinhos de Jeanne e a esperança numa existência venturosa, uma vez aniquiladas em mim as funções vitais.
Faltando-lhe um desses elementos, ela começaria a bruxulear.
E quem ousara afirmar que se não apagaria de todo?
Amedrontava-me, assim, a prova pela qual seria aquilatado o meu valor moral, prova das mais rudes que dilaceram o coração humano - a da morte de um ente amado.
Receava eu que, no momento preciso, me faltasse ânimo para a suportar cristãmente, que viesse a fraquejar como o timoneiro que, na hora da tormenta, visse em estilhaços a bússola que o nortearia às terras patrícias.
Esperava-a qual enfermo que se enche de terror ao pensar que lhe vão decepar um membro, em operação cirúrgica dolorosíssima.
Tremia por mim mesmo, suspeitando que minha crença, até então profunda e inabalável na Providência, aluísse.
Momentos houve em que me parecia estar à borda de um abismo - de um vulcão, úlcera de chamas que cancera a crosta terrestre, verrumando-a até ao centro; que ia ser atraído, tragado bruscamente, sentindo faltar-me o solo, gretado em pavoroso terremoto.
Nessas horas de angústia, porém, uma força misteriosa e potente me invadia, percorria-me o organismo uma corrente magnética formidável e, às vezes, em segundos, me transmudava noutro homem, completamente diverso daquele que, pouco antes, estava prestes a desfalecer.
Ficava calmo, resignado, quase sorridente, alma jovial, ouvindo distintamente esta advertência amiga:
- É mister que vivas porque claudicaste outrora.
Estás reparando crimes gravíssimos e depende de ti também a remissão do infeliz inválido!
Tão forte era a luta que se travava no meu íntimo, que sentia a fronte completamente frígida, rociada de gélido suor.
Chamava então por Jeanne e a convidava para irmos em busca de nosso pai, a fim de que, acercando-nos do seu leito de torturas, esquecesse as minhas e me enchesse de intrepidez para suportar as lufadas da dor.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 15, 2018 9:58 am

Um dia, ao sentarmo-nos infantilmente a seu lado, ele nos disse, entre repreensivo e carinhoso:
- Pelo que observo, há uma verdadeira conspiração contra mim ou a combinação firme entre vocês ambos para me deixarem somente com a Margot, não é exacto?
Muitas vezes vos tenho ouvido a conjecturar como devem ser invejáveis os mundos habitados pelos justos ou pelos que já se reabilitaram perante o tribunal divino, esquecidos de que o vosso pobre pai enfermo, inutilizado para a vida e para o trabalho, está a escutar o que dizeis e almeja seguir-vos.
"Não é generoso o que fazeis ou não sabeis avaliar a afeição que vos consagro.
Ainda agora, quando aqui entrastes, pensava eu na morte, desejando que ela me viesse libertar dos meus padecimentos; mas, ao ver-vos, logo quis continuar a viver, assim mesmo desditoso, para vos amar e vos ter a meu lado.
É o egoísmo de um infeliz a quem certamente o Omnipotente perdoará.
Agora, porém, não falemos mais de coisas pungentes, para não nos entristecermos.
Olvidemos as nossas tribulações!
"Vai, Jeanne, buscar o violino de François e daqui nenhum dos dois sairá, sem meu prévio consentimento.
Quero, François, apreciar longamente, bem próximo de ti, as músicas que, ainda há pouco, tocaste em surdina, só para Jeanne".
Logo que minha irmã voltou, satisfiz o pedido do entrevado e, instantes após, o ouvi murmurar como em íntimo solilóquio:
- Para um desgraçado como sou, o Criador foi magnânimo, concedendo a companhia de um anjo tutelar - Jeanne, que o é para mim, e a de um protector generoso - François, que trabalha, com os olhos enegrecidos pela caligem da cegueira, para que não me falte o pão de cada dia.
Inverteram-se os nossos papéis:
ele deixou de ser meu filho para se tornar meu jovem e extremoso progenitor.
Ambos mitigam meus dissabores com as suas carícias, ungem as chagas que em meu coração abriram as farpas corrosivas da desventura, proporcionando-me, como nesta hora, instantes de felicidade no meu catre de supliciado.
"Deus é realmente misericordioso, como dizeis, caros filhos, porque eu não merecia ter dado o ser a duas criaturas tão dignas quanto sois!
Não temais por mim, que não sou mais o céptico de outrora:
a dor me acepilhou a alma e nela esculpiu sentimentos de submissão aos desígnios divinos, de esperança numa existência louçã, após as ríspidas rajadas da adversidade.
Com o corpo empedernido, qual se o houvera varado o olhar fatídico de Medusa, reconheço agora que uma espécie de aurora, alguma coisa indestrutível e imortal sobrevive à matéria.
"Saberei conduzir minha cruz ao Gólgota, aguardando a derradeira sentença que o Altíssimo decretar para cumprida fielmente, sem tergiversações.
E, se é verdade que os entes amados não nos abandonam nunca, no caso de serdes chamados ao Além antes de mim, não desampareis o vosso infortunado pai, que ficará sozinho na Terra, qual Prometeu, não com o fígado, mas com o coração incessantemente dilacerado pelos corvos da saudade das ideias flageladoras!".

36 Composição musical, para canto, sobre um assunto terno e sentimental.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 15, 2018 9:59 am

CAPÍTULO II
Jeanne ainda viveu connosco alguns dias mais, depois da cena que acabo de descrever, revelando sempre inalterável alacridade, compondo enternecedoras estrofes que declamava quase afónica, a voz entrecortada pela tosse.
Já me considerava feliz por não ter vista.
A cegueira me poupava a aflição de ver esquelético e devorado pela febre o seu corpo mignon.
Uma vez - a última naquela sua breve penosa existência - ela nos recitou uma quadra, que ainda conservo na memória:
Ei-la:
"A alma, ao baixar do Além, prende-se à argila...
Geme em seu cárcere, luta, mas, de chofre, Rompem-se-lhe os grilhões.
Então, tranquila, Liberta, cinde o Espaço e não mais sofre!"
Foi este o seu canto de cisne.
Compreendi-lhe o pensamento:
desejava, macerada por longo padecer, quebrar os elos que a retinham presa à Terra e, Espírito acendrado nas pugnas tenazes do sofrimento, prelibava as delícias de uma vida futura, enflorada de inextinguíveis gozos.
Era toda uma confissão enfeixada em poucos versos, em quatro estiletes de fogo que me trespassaram o coração, como as espadas da dor o seio da pulcra Mãe do Nazareno.
Duchemont, que se achava presente, sentiu-se tão emocionado que a interpelou assim:
_ É verdade que poderás ser ditosa, longe dos que te idolatram?
- Não, certamente, caro Duchemont; mas já fiz um pacto com François:
não partirei definitivamente, enquanto permanecerem encarcerados no ergástulo terreno aqueles a quem amo infinitamente.
Pouco tempo depois deste diálogo, uma noite, Duchemont ofereceu à noiva deliciosos frutos, que ela recebeu com demonstrações de reconhecimento, mas sem se mostrar para com ele tão afável quanto o era habitualmente.
Conservou-se reclinada num antiquado canapé e, no decorrer da amistosa palestra que entabulamos, manifestou grande preocupação de espírito, invencível melancolia.
Quando viu que o bondoso Duchemont ia retirar-se, disse, apertando-lhe a mão:
- Vou fazer-te um pedido, Duchemont.
- Um pedido, Jeanne?
Porque te expressas assim?
Diz antes que me vais dar uma ordem.
-Agradecida. Amanhã, em vez de frutas, traz-me flores... muitas rosas...
- Flores? Deus meu!
Bem sabes que algumas vezes te tenho Merecido flores, por que mas pedes para amanhã?
Estás pior? Diz, Jeanne!
- Parece-me que já não respiro como nos outros dias.
- Vou buscar um médico!
- Não, obrigada.
Amanhã cedo poderás trazê-lo, se quiseres.
Agora não, vou repousar.
Duchemont, apreensivo, despediu-se da noiva, prometendo-lhe voltar em hora matinal, acompanhado de um médico.
Apertei nas minhas as mãos de Jeanne e as achei enregeladas.
Perguntei se desejava ir deitar-se e ela respondeu por uma negativa.
Meu pai, muito aflito, me ordenou que, ajudado por Margot, transportasse o canapé em que se achava a adorada enferma para junto do seu grabato.
Jeanne já se tornava quase imponderável:
pesava mais, naquele cruel momento, a minha consternação do que seu frágil organismo de mariposa.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 15, 2018 9:59 am

Aplicamos todos os meios que estavam ao nosso alcance para lhe minorar os sofrimentos.
Ministrei-lhe, por diversas vezes, sedativos, mas a sua respiração, depois da meia-noite, se tornou sibilante.
Ela se esforçava por se mostrar plácida, a fim de tranquilizar o pai que, ferido em pleno coração por uma dor inaudita, não cessava de falar, de nos dar ordens com relação ao tratamento da filha bem-amada, parecendo, às vezes, que a aflição o enlouquecera.
Mudo, ao contrário dos filhos de Saturno37 que o próprio pai triturava, sentia eu o cérebro devorado por torturantes pensamentos.
Precipitou-se o desfecho do drama pungente que, havia muito, aguardávamos com pavor.
Foi talvez para que Jeanne deixasse de ser flagelada mais depressa do que supúnhamos.
Certamente seu espírito cândido e redimido não precisava mais do tormento das provas terrenas, do mesmo modo que o diamante já facetado dispensa o buril do lapidário.
Eu me ajoelhava quase ao lado dela e, embora não a pudesse ver, afagava-lhe a fronte, sentindo os seus veludosos cabelos umedecidos por gélido suor.
Quanto lamentava não enxergar aquelas madeixas preciosas, que tanto desejara contemplar ao menos uma vez na minha dolorosa existência, por me dizerem que eram belas, que tinham a cor do ouro líquido, luminoso e, sobretudo, por pertencerem à dilecta criatura a que nenhuma outra, pensava eu, se podia comparar no globo terrestre!
Afinal, em dado momento, ela deixou de gemer e me disse, tão debilmente que sua voz parecia o ciciar do zéfiro perpassando pela fronde de um álamo solitário:
- Meu François, chegou a ocasião de fazeres o que te implorei, há meses.
Penso, neste instante, em Deus e quero exalar o último alento ouvindo a melodia que executaste... naquele faustoso e torturante sarau... em que conheci o querido Duchemont... teu generoso amigo... ao qual desejo que, amanhã, exprimas a minha perene... indelével gratidão...
Procurei eximir-me de lhe satisfazer o desejo que, então, não me parecia razoável.
Aleguei que esquecera a música indicada e não a enganava assim falando, porque a minha dor era tão profunda que me fizera deslembrado da própria arte amada.
Tinha a impressão de que todas as ideias se me haviam dissolvido na mente, ficando apenas uma:
a da nossa separação, embora temporária!
Ela, porém, não aceitou nenhuma escusa.
Impelindo-me docemente para me obrigar a ir buscar o violino, disse flébil e sutilmente:
- Sê corajoso, François. Pressinto que vou agora ser venturosa.
Parece-me que, tendo cometido outrora um deliro hediondo, acabei hoje de cumprir a sentença proferida contra mim, a fim de que me reabilitasse pelo sofrimento e me libertasse para sempre.
Da vida breve e penosa que teve, a mísera Jeanne leva na alma - qual aroma dulcíssimo de violetas maceradas - a lembrança da tua afeição ilibada, a de meu noivo, de nosso pai e da Margot.
Não lamentes, pois, François, tenha soado a hora da minha redenção. Se soubesses o que estou vendo neste instante... se visses o que me circunda... julgar-me-ias muito feliz.
"Cuido reconhecer nossa mãe... num dos seres que ajudam minha libertação... para me conduzir ao Além...
São muitos, todos belos, sorridentes, parecendo venturosos...
Dir-se-ia que esta humilde alcova... onde tanto tenho padecido tomou proporções ilimitadas...
que as paredes se afastara muito... permitindo-me descortinar, ao longe, paisagens e entes formosíssimos... que não mais pertencem à Terra...
Não vos mortifiqueis por mim, amado François, querido pai.
Tenho a convicção inabalável de que, em futuro não remoto nos havemos de reunir, como hoje, num outro mundo mais ditoso que este...
Apressa-te, porém, meu irmão... atende a supremo rogo da tua Jeanne... pois que minha vida bruxuleia qual lâmpada a que só resta uma gota de óleo".
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 15, 2018 9:59 am

Ergui-me, então, infinitamente magoado e combalido, mas amparado sem dúvida pelos Invisíveis que, nas horas da amargura, infundem coragem e resignação sublimes aos espíritos torturados - espargindo neles um bálsamo que mitiga a dor mais intensa.
Pude, assim, atender ao pedido da agonizante.
De súbito, como se não obedecesse mais à minha própria vontade e sim à de outrem, que actuasse vigorosamente sobre mim, que me empolgasse e fascinasse, empunhei o violino e, enquanto este soluçava, o inundei de pranto.
Meus lábios não proferiram um único queixume naquele instante de tremenda prova.
Meu pensamento se alheou da matéria, cindiu o Espaço, implorando ao Criador do Universo a energia de que necessitasse o meu espírito para não baquear, para não fraquejar na hora da suma expiação.
Perdera a noção exacta do local em que me achava e do que fazia.
Não sabia mais se estava sob o guante de um sonho opressor ou sob o de uma realidade esmagadora; continuava, porém, a executar quérulas cavatinas, trémulos gemidos, que se evolavam do arco e das fibras sonoras do instrumento, como se as exalasse um coração premido sob alta montanha.
De repente, houve um staccato e, pela última vez, ouvimos a voz de Jeanne, com um timbre diverso do que conhecíamos, revelando um esforço extraterreno e formulando uma súplica veemente:
- François...
Consola nosso pobre pai!
Estas palavras, que repercutiam no mais escuso recesso do meu ser, paralisaram-me o braço. Fez-se um silêncio tumular na alcova funérea.
Meu coração tremeu e, logo após, me senti aturdido, como que dominado pelo fantástico, possuído de incoercível desolação.
Ao mesmo tempo experimentava a analgesia de todos os meus pensamentos, o olvido de tudo que me cercava, o adormecimento completo de todas as minhas faculdades mentais.
Parecia-me carecer não só da vista como da audição e da voz.
De novo, porém, meu braço se movimentou impelido por uma força alheia à minha vontade e modulei em surdina, no instrumento, um maviosíssimo hino sacro, uma elegia canora, um salmo doloroso, uma volata de lágrimas, ou, antes, uma prece de harmonias desconhecidas na Terra.
Ungia, balsamizava assim a agonia daquele ente querido que, à semelhança do pássaro baleado que, não podendo mais gorjear, se contenta com ouvir o chilrear das outras avezinhas quando saúdam a alvorada, se aprestava para contemplar no Além a aurora de uma nova vida, encaminhando-se para o Céu e para a felicidade verdadeira que aguarda os Espíritos depurados pelo sofrimento, desconhecida neste planeta de expiação.
Por fim, o violino cessou de soluçar; deixei-o cair das mãos que se me tornaram inertes, rijas e enregeladas, e desfaleci a poucos passos do corpo inanimado de Jeanne.
* * *
Foi assim, meu amigo, que se extinguiu a lâmpada da minha vida.
Não me permitiu o destino contemplar, como desejava, o cadáver do ente adorado.
Apenas o osculei lacrimoso, coração fendido pelo gládio da dor.
Jeanne, o meu sonho fagueiro, o único ideal da minha existência agoniada, que ela enflorava às vezes de rosas luminosas, feneceu como se dissipa na amplidão o acorde de uma harpa, o último trinado de um rouxinol moribundo.
Nos primeiros dias que se seguiram à nossa separação foi que verifiquei que realmente tacteava nas trevas, sentindo que elas me asfixiavam, que se me embrenhavam pelas órbitas, faziam parte integrante do meu próprio ser e me amortalhavam a alma de crepe!

37 Na mitologia romana, Saturno era equivalente do antigo titã Cronos, deus do tempo.
Governava o mundo dos deuses e dos homens devorando seus filhos ao nascerem para que não o destronassem.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 15, 2018 9:59 am

CAPÍTULO III
Desde que Jeanne foi sepultada, fiquei sem poder trabalhar, num estado de desânimo insuperável, sem, contudo, me lamentar uma só vez.
Parecia-me que algo de impreenchível desaparecera do meu ser, onde se cavara insondável abismo, apavorante vácuo, capaz de conter o oceano.
Um silêncio de Campo Santo imperava em nosso lar, desde que nele ecoara o derradeiro grito súplice de Jeanne.
Era como se ninguém mais se atrevesse a falar, para conservar, eternamente intacta, nos escrínios dos corações transidos de dor sagrada, aquela lembrança da morta inolvidável.
Julguei que não mais pudesse exercer minha profissão.
Tão profundo era o pesar, que supunha haver esquecido os rudimentos da música.
Também não desejava profanar o instrumento que acompanhou, soluçante, a agonia de Jeanne, executando nele peças dançantes, em saraus alegres, onde volteavam criaturas talvez indiferentes ao sofrimento humano.
Só então me considerei cego de todo:
faltou-me o lume que vislumbrei ao nascer - a afeição incomparável da irmã idolatrada.
Tive a impressão de me haverem arrojado do Infinito a uma cratera que atravessasse o globo terrestre até ao báratro onde se conflagram e crepitam as labaredas e as lavas incandescidas.
Senti a alma qual galera desarvorada em mar alto, sobre ondas enfurecidas, envolta por lúrida cerração.
Experimentei tudo isso, meu amigo, prostrado numa cama da qual supus jamais me levantasse.
Ao cabo, porém, de alguns dias após o infausto sucesso, desabrocharam em mim novas energias; forças ignoradas renasceram como das próprias cinzas renascia a Fênix38 legendária.
Senti-me com ânimo de lutar, de viver, sem que meus lábios se descerrassem para murmurar qualquer imprecação contra o destino, obra do mesmo artista egrégio que forjou as estrelas e as flores.
Compreendi, de modo categórico, que minha existência tinha por fim reparar o que quer que fosse de hórrido, que ela me fora dada para o desempenho de uma arriscada missão, e que era forçoso concluí-la impavidamente, a despeito de todos os óbices que surgissem, a fim de fazer jus ao galardão dos vencedores.
Um dia, depois de haver dormido longas horas, ergui-me do grabato onde, desde o passamento de minha irmã, estivera presa de invencível prostração física e moral, insensível às demonstrações carinhosas de Margot e de Duchemont, o incomparável amigo, que me visitava cotidianamente, que compartilhou da minha mágoa infinita, que custeou os funerais de Jeanne e a acompanhou até a campa e que se afligia por me ver imerso em tão grande apatia - e procurou um dos meus vestuários, apalpando os móveis mais próximos.
Margot, que não cessava de me espreitar, solícita me levou um deles, perguntando com bondoso interesse:
- Quer a sua roupa preta, Sr. François?
Não vai pôr luto?
- Trago-o na alma e nos olhos, Margot!
Não é o bastante?
Que importa que os outros o vejam?
Dê-me uma roupa qualquer e pode retirar-se, pois desejo ficar só.
Ela atendeu ao pedido e, em seguida, ouvi que cerrava a porta da alcova.
Sem uma lágrima, ajoelhei-me no soalho, mãos enclavinhadas, fronte alçada ao céu - na postura e que me ensinara a orar a dilecta Jeanne quando eu era ainda a sua primeira boneca - e implorei com fervor e humildade ao Omnipotente o valor de que precisava para triunfar das minhas árduas provas.
Quanto tempo estive assim genuflexo, em súplica ardente, não vos posso dizer, porque, impossibilitado de contemplar a alvorada e o crepúsculo, de distinguir o dia da noite, o tempo era para mim sempre uniforme, contínuo, indiviso.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 15, 2018 9:59 am

Não diferençava as horas senão quando as escutava badaladas nalgum relógio.
O que, porém, vos posso afirmar é que, à medida que do meu coração se elevavam as preces, uma corrente magnética se ia estabelecendo entre o meu cérebro e o empíreo, donde descia uma cascata de luminosa espuma, transportando eflúvios balsâmicos à minha alma, que de repente se iluminou, como se a banhara um Niágara2 radioso.
Levantei-me ainda aturdido, como se despertasse de um sonho anestésico, sentindo-me leve, quase levitado.
Ouvindo do aposento contíguo os meus passos, o pobre paralítico, que gemia, falando como se delirasse, murmurou com voz lamentosa:
- Vem para junto de teu pai, François; és o único lenitivo que me resta no meu leito de Procusto!40
Já te sentes melhor, querido filho?
Julguei que também fosses morrer... deixar-me só!
Com o andar vacilante, a destra elevada, tacteando as trevas que novamente me inundaram o cérebro, não tendo mais quem me norteasse dentro ou fora do lar, aproximei-me do inválido, que me disse, cheio de amargura, enlaçando-me o busto com o seu único braço:
- Estou cego, como tu, François, porque já não vejo também a nossa Jeannette, o raio de luz que clareava a nossa mansarda desditosa e despovoada!
Agora está tudo consumado. Que é o que nos resta senão a nossa saudade, a nossa dor e a nossa miséria?
Ah! supunha-me preparado para o grande golpe, mas me sinto outra vez céptico, pusilânime, covarde, desalentado.
Fomos rudemente feridos, meu filho.
A Providência tem sido cruel para connosco e só não nos olvida Para nos supliciar!
Queres ainda que me resigne?
Ia dizer alguma coisa que lhe pudesse minorar a mágoa imensa, mas ele não mo permitiu, exclamando dolorosamente:
- Há dez dias, meu filho, que o nosso lar se acha envolto em crepe e, durante esse tempo, tens estado imerso num sono quase cataléptico, ao passo que eu ainda não consegui adormecer um só momento, vivendo numa vigília ininterrupta! Todos repousam, todos têm períodos de olvido para os seus pesares, só eu me vejo condenado a velar sempre e sempre, para meu maior suplício!
"Tens sofrido, bem o sei, mas reconheço que entidades extraterrenas te amparam.
Elas como que te arrebataram a alma desde que Jeanne morreu, enquanto que eu me sinto abandonado por todos, até pelo sono!
Chego quase a enlouquecer, imaginando que o meu martírio dantesco ainda pode durar muito!
Os inquisidores eram menos desumanos do que quem nos tortura a alma com a saudade - o mais tremendo de todos os tormentos!
Quem criou a saudade, fazendo-a germinar no coração ulcerado pela separação de um ente idolatrado?
"Deus! É Ele, pois, quem, depois de ceifar o precioso lírio que aromatizava o nosso tugúrio, ainda revolve em nossos peitos o punhal intoxicado da saudade, quando devia fazer que esquecêssemos o passado, murando-nos o pensamento, como fazem os obreiros ao construírem as represas que desviam o curso dos rios.
"Protestas? Tapas os ouvidos com as mãos?
Ai! É porque não viste, como eu, roubarem a minha Jeannette para sempre.
Não presenciaste, como eu, levarem o seu alvo ataúde coberto de rosas, o seu pequenino esquife, dentro do qual também foi encerrado o meu coração dorido e lacrimejante!".
Depois, com voz trémula, entrecortada de suspiros, denunciando lágrimas ou temor do que me ia sugerir, disse:
- Que propícia ocasião para pormos termo ao nosso martírio...
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 15, 2018 10:00 am

Em poucos momentos, se o quisesses, poderíamos ir juntar-nos à querida morta...
Compreendi o alcance de tais palavras e o seu lúgubre alvitre.
Estremeci, tomado de convulsivo calafrio, à ideia do suicídio que acabava de me ser sugerida.
Levantei-me de um salto, desprendendo-me impetuosamente do braço paterno.
Embora enternecido e apiedado dos seus padecimentos, meu espírito se revoltou, repelindo a insinuação criminosa.
Tive de novo um íntimo deslumbramento.
Repentino clarão se produziu dentro do meu cérebro, como se o incendiasse um dilúculo de ouro, ou o pincelassem com tintas de luz.
Pela primeira vez, naquela angustiada existência, vi tudo que me circundava mergulhado numa luminosidade intensa, aclarado por um arrebol multicor.
Voltou-me a inspiração, que julgara extinta.
Senti que alguém me tocara muito de leve no ombro, depois de me haver roçado docemente a fronte, donde, a esse contacto, me pareceu borbulhar uma luz que a tornava fulgurante.
E fui compelido a dizer ao pobre enfermo, com inusitada eloquência:
- É mister olvidemos essa lutuosa página da nossa atribulada existência, meu querido pai!
Que é, afinal, uma vida humana?
Microscópico fragmento, minúscula faísca, mesquinho átomo da Eternidade, fracção infinitesimal do tempo, ante a grandeza imensurável da vida espiritual, que vivemos na Imensidade ilimitada, por milénios sem-fim valem os minutos da vida actual?
E por fugirmos a b instantes da dor, havemos de retardar a ventura cm aguarda, na sucessão indefinida dos evos, em outros orbes donde foi desterrada a lágrima, onde as almas que se amam vivem
num júbilo inexprimível, sem jamais se afastarem cumprindo, juntas, missões sublimes?
Sejamos heróis, meu pai, nos momentos da luta, e não soldados covardes do exército dos torturados da Humanidade delituosa.
"Creio na justiça infalível do Sumo Legislador e na imortalidade da alma.
Sei que as provações por que passamos são lapidações necessárias ao nosso aperfeiçoamento anímico.
Combatamos, pois, até ao derradeiro instante, nesta cruzada bendita da verdadeira felicidade.
Pugnemos sempre, eu sem vista, vós sem um braço, como dois paladinos estropiados, como dois guerreiros incompletos, sim, mas que têm, dentro das suas mutiladas armaduras de lodo, uma centelha deifica, cujo fulgor se há-de confundir com o das estrelas e das alvoradas!
"Pelejemos, sob o arnês da coragem moral, empunhando as armas da paciência, da resignação silenciosa, da submissão, da virtude, e esperemos tranquilos a vida futura incomparavelmente mais longa do que esta que não dura mais do que um meteoro, que, confrontada com a do Além, é uma gota d'água em face do oceano.
Se triunfarmos na peleja, vencendo as nossas imperfeições morais, nossa vida passará a ser um incessante hino de vitória, um interminável cântico de alegria, um hosana perene, sem mescla de tristeza ou de infortúnio.
"Aqui me acho ao vosso lado; meditemos em nossa sorte.
Tendes o corpo inteiriçado e uma vista de Argos;41 eu me mover à vontade e tenho baças as pupilas, os olhos inválidos por atras sombras.
Assim, cada um de nós é o comento do outro.
Eis aí como a Providência nos aparelhou para, unidos, desempenharmos a missão pungentíssima.
O que falta a um sobeja no outro.
Não é patente a intervenção do Céu nas nossas existências?
Porventura, teria sido o cego acaso quem assim nos fez e reuniu?
"Não, meu pai, foi o Incriado.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 15, 2018 10:00 am

A Ele, pois, devemos dirigir uma prece, agradecendo-lhe todas as nossas decepções, todas as nossas amarguras, manifestando-lhe o reconhecimento que testemunharíamos ao discípulo de Asclépio42 que nos houvesse sujeitado às torturas de uma operação dolorosíssima para nos salvar da gangrena o organismo que, sem isso, estaria, em breve, todo contaminado pelo vírus letal, donde mais prolongados sofrimentos e finalmente a perda da vida por entre dores lancinantes.
Ah! meu desditoso pai, sem dúvida delinquimos no passado; somos galés que ainda cumprimos penas a que fomos condenados em existências, cujo prolongamento vemos nesta; penas resultantes de uma sentença rigorosa, mas remissora.
Se não reincidirmos nas culpas que a determinaram, próxima estará a libertação.
E o dia em que nos abrirem as portas da masmorra será mais belo, mais esplendoroso do que o é, para um príncipe, aquele em que, no apogeu da glória, o sagram soberano de grande e poderoso império!
Corre-nos, portanto, o dever de na actual encarnação, lutar com denodo, meio único de resgatarmos faltas de priscas eras, erros sinistros.
Lutemos até ao último alento e seja a morte involuntária quem no liberte das nossas tribulações".
Tomei-lhe depois a mão e, elevando o pensamento a sólio do Incognoscível, com a voz emocionada, mas firme por efeito de uma força de vontade inquebrantável, formulei fervorosa súplica por mim e pelo triste paralítico.
Dirigi-me em seguida ao lugar onde costumava guardar o violino.
Meu pai, ao ver-me empunhá-lo, julgou-me alucinado e entrou a exclamar:
- Não, François, não me martirizes!
Não mais quer ouvir esse instrumento que me lembra a idolatrada morta.
Seus sons me virão ferir o coração mais doridamente d que um acerado punhal.
Piedade! piedade!
Já me não era, porém, possível obedecer-lhe.
Um poder formidável me dominava.
Preludiei formosíssima rêverie, a cuja maviosidade se misturava a voz gemente e alterada d paralítico, a dizer:
- Deus meu! Como sou desgraçado! nem ao menos posso tapar os ouvidos, pois que de uma só mão disponho e essa quase morta!
Tenho assim que ser flagelado por estes sons que não desejara mais ouvir.
François já me não atende, enlouqueceu decerto!
De dia para dia aumenta a minha infelicidade!
Que hediondo crime terei cometido, Senhor, para merecer tão bárbara sentença?
Também eu vou enlouquecer.
Dar-se-á que, por ser demente, a Natureza me haja manietado, a fim de que ninguém me temesse, impedido, como me acho, de praticar o mal?
Se ficar louco, que serei senão um despojo humano, um miserando cadáver acorrentado a uma alma igualmente morta, pois que a razão é a vida do espírito?
Pouco a pouco, entretanto, foi serenando.
Deixou de imprecar contra o destino e por fim se calou, enquanto eu, sentindo mais do que nunca a fronte iluminada pelo estro musical, continuava a modular sinfonias incomparáveis.
Cedendo ao influxo de uma potência misteriosa, a mão movia o arco com inigualável maestria, arrancando às cordas frases musicais de incomparável beleza, de harmonia com os acordes que, perto de mim, se evolavam de uma orquestra portentosa, constituída de dezenas de flautas, cítaras, alaúdes e harpas tocadas por artistas imateriais, que, comigo, realizavam maravilhoso concerto.
Procurando imitá-los, meio desvairado, eu os via ao redor de mim, em semicírculo gracioso, com seus corpos intangíveis airosos, entrajados de alvas roupagens vaporosas, como que feitas de nevada escumilha.
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Re: NA SOMBRA E NA LUZ - Victor Hugo / Zilda Gama

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