Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

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Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 22, 2018 9:55 am

Almas Crucificadas
Zilda Gama

Victor Hugo (ESPÍRITO)

Romance que apresenta o drama de um jovem que se apaixona pela esposa do melhor amigo e o mata na esperança de ficar com o objecto de sua paixão.
Demonstra que a Justiça Divina dá "a cada um segundo suas obras", mas não deixa nunca de dar também, ao coração arrependido, o amparo necessário à sua luta redentora.

ÍNDICE
LIVRO PRIMEIRO
NA PISTA DA VERDADE
LIVRO SEGUNDO
SONHOS FUNESTOS E REALIDADES PUNGHTVAS
LIVRO TERCEIRO
DESENGANOS E REPARAÇÕES
LIVRO QUARTO
OS IMPULSOS DO DESTINO
LIVRO QUINTO
TRAMA DO DESTINO
LIVRO SEXTO
A EXECUÇÃO DAS LEIS SUPREMAS
LIVRO SÉTIMO
QUANDO O DESTINO IMPERA
LIVRO OITAVO
LUTAS E CONQUISTAS ESPIRITUAIS
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 22, 2018 9:55 am

LIVRO PRIMEIRO - NA PISTA DA VERDADE
Remontemos ao passado, esse oceano infindo, que parece extinto, e, no entanto, se reúne a outro, também imensurável — a Eternidade porvindoura, e subsiste alhures, gravado no bronze divino e imortal da alma humana...
Sondar o passado é descer, lentamente, com o escafandro mágico do pensamento, ao abismo desse profundo oceano, para trazer à tona das vagas revoltas, que as contêm, as lúcidas pérolas das recordações milenárias.
Façamos, pois, qual audaz pescador de preciosidades, e aprofundemos, no confuso Mediterrâneo do passado, o próprio pensamento, essa fagulha estelar, prova insofismável do átomo celeste que existe em nosso âmago, lucificando o negror das paixões e das amarguras terrenas, dando-nos a certeza de que somos realmente herdeiros siderais, confiantes de que o Universo pertence às centelhas divinas, de igual modo que os mais quantiosos erários dos potentados passam aos legítimos sucessores...
Penetremos no vetusto solar de um denodado titular, o Conde de Morato, Tasso Solano, nos términos das Cruzadas, dos lances cavalheirescos, das heroicidades bélicas... cujas façanhas estão em antítese às Leis Divinas, e, no entanto, receberam o aplauso de quase todos os que deles tiveram conhecimento...
Era esse alcáçar uma sólida construção de alvenaria, que já pertencera a diversos senhores e desafiava os séculos, tendo já então origem remota e obscura.
Pertencia, na época a que nos reportamos, a uma família de heráldicos descendentes de famosos romanos, que ali se aninharam, em busca de serenidade espiritual, já que as águias altaneiras, batidas pelas devastadoras borrascas, se recolhem nos ápices das cordilheiras, ansiosas de ar livre, de luz, e, principalmente, de liberdade... temendo os seus mais cruéis e invencíveis adversários — os audazes caçadores.
Possuíam os Condes de Morato, nobres de estirpe e regiamente abastados, um único descendente, Cláudio Solano, de génio indecifrável e instintos de aventureiro.
Ali se localizaram, em tempos idos, almejando paz, mas vivendo agitados, em incessantes refregas com os naturais da Dalmácia (1) os progenitores de Cláudio Solano, procedentes de notáveis servidores da Pátria, decaídos do fastígio real, por discórdias políticas.
Temerosos de prováveis represálias, buscaram abrigo em acidentada região pouco distante do Adriático.
Uma tarde, fitando a névoa que provinha da praia, no início do Inverno, com os olhos turvos pela bruma da saudade, pela neblina da nostalgia — embora exilado voluntariamente da Pátria bem-amada, que não convinha rever — o velho Conde de Morato murmurou:
— Estou apartado da terra idolatrada, sim, mas o Adriático não cessa de me trazer os seus soluços... que ecoam dentro de meu saudoso coração!
Morto tragicamente a mando de desafecto antagonista político, por um campónio assalariado, o infortunado titular acarretou a morte de sua dedicada esposa que, não resistindo à dor desse infausto acontecimento, buscou a proximidade do mencionado mar e atirou-se às vagas que o inesquecível companheiro de existência tanto amava...
Ficou o unigénito do infortunado casal, Cláudio Solano, à mercê das refregas das paixões desnorteantes, que sempre assaltam quantos, inexperientes da vida social, se vêem na posse de consideráveis haveres, desprovidos da mágica bússola do amor paterno para os nortear em horas de borrascas morais.
Ainda muito jovem, começou ele a percorrer longínquas paragens e, só depois de haver despendido vultosa fortuna, retornou ao Solar das Sereias, que herdara de seus maiores, fatigado das longas jornadas e das pelejas sangrentas, após o imprevisto desaparecimento de S. Luís — sob cujas ordens servira —, o qual foi completamente vencido pelos sarracenos. (1)
De temperamento impetuoso e arbitrário, sabia ele, contudo, dominar os impulsos agressivos à custa de muito esforço e do apuro mental em que fora criado, pois seus progenitores lhe haviam dado primorosa instrução.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 22, 2018 9:55 am

Regressara saudoso de seu mais fiel amigo, companheiro de infância e de armas, o jovem Marcelo Taciano, filho dos proprietários do castelo próximo ao seu, consorciado com uma encantadora tessaliana, Dioneia Isócrates, possuidora de peregrinas virtudes cristãs. Não havia quem, ao vê-la, não sentisse um deslumbramento inevitável:
de mediana estatura; tez alva qual a neve dos Alpes, com um tom de alvorada primaveril nas faces esculturais; opulenta e veludosa cabeleira, ondulada, cor de topázios, com a mesma tonalidade dos maravilhosos olhos, sempre melancólicos, que não revelavam a arrogância das Vénus terrenas, e sim a candura irradiada das almas imaculadas, tão belos e sonhadores quanto os das mais formosas vestais e que pareciam ter por missão alimentar o fogo sagrado no altar da pureza e do amor incorruptível nos corações que abrigam os mais excelsos sentimentos...
Pouco tempo havia decorrido após o regresso de Cláudio Solano, quando um outro trágico sucesso abalou os habitantes dos dois solares:
aparecera, com o coração atravessado por um punhal envenenado, o piedoso Marcelo Taciano!
Ninguém pudera suspeitar sequer, por muito tempo, qual o móvel do crime, pois a vítima era de índole pacífica e não contava inimigo ostensivo...
Nenhum adversário conhecido possuía o assassinado, geralmente benquisto, não sendo de prever tal epílogo sangrento, que fora consumado, não em horas tardias, de trevas e silêncio, em noite sinistra e procelosa, iluminada apenas pelas serpentes celestes — os coriscos — e sim ao crepúsculo de um dia primaveril...
Tanto Marcelo quanto Cláudio eram, como dissemos, de origem napolitana, e, embora afastados das injunções governamentais, já haviam prestado o tributo bélico, além do Mediterrâneo — na Palestina.
Eram, pois, ambos hábeis guerreiros, adestrados nas pugnas mortíferas, manejando as armas brancas com admirável perícia, sendo dificílimo a qualquer contendor evitar os certeiros golpes de tais adversários...
Haviam sido amigos e contemporâneos desde os estudos iniciais.
As famílias de ambos sempre mantiveram perfeita cordialidade, fraternalmente, nas terras que se limitavam.
Marcelo Taciano era de compleição delicada, trigueiro, ainda que de elevada estatura, olhos negros e fúlgidos, revelando intensa melancolia ou a previsão do fim que o aguardava naquela existência; pois, precisamente quando conquistara a almejada ventura (ditosa aliança com a fascinante e nobre jovem que seus tristes olhos tinham contemplado com amor), teve interceptada, por ignorado sicário, a vida preciosa, em pleno sonho da juventude.
Cláudio Solano, em antítese do companheiro de armas, era claro, de olhos glaucos, com reflexos de aço polido, revelando a ascendência materna, que provinha de antigos gauleses transalpinos, já mesclados com os germanos.
Estavam ambos
intensamente vinculados pelo Destino, desde que saíram da primeira infância, embora os temperamentos fossem antagónicos:
Marcelo era de génio calmo, ponderado, generoso e compassivo; Cláudio, arbitrário, destemido, capaz de actos heróicos ou degradantes — conforme os impulsos vulcânicos de seus indomáveis sentimentos!
Viveram, contudo, ambos, na mais estreita cordialidade, tolerando-se mutuamente, e jamais houve dissensões entre os dois, até que Marcelo apareceu com o coração fendido por mortífero punhal corso...
Seus abastados progenitores para ali haviam dirigido os passos, na persuasão de viver em harmonia com os naturais da Dalmácia, adquirindo dois solares de majestosa beleza arquitectónica, quase nas fronteiras do Epiro. (1)
Para a construção das duas senhoriais habitações foram contratados famosos artífices atenienses, que as fizeram um primor de arquitectura greco-romana, recebendo as designações de Solar do Cisne e das Sereias, das famílias de Marcelo Taciano e Cláudio Solano, respectivamente.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 22, 2018 9:56 am

Na fachada da primeira havia uma pintura simbólica, representando um lago cor de turquesa, onde vogava a ave sonhadora e nívea que, antes de cerrar os olhos à luz da vida, vibra, pela derradeira vez, a canção de despedida do mundo que vai deixar, às vezes com incontido pesar...
Dominavam os dois castelos o cimo de uma colina, semelhando ambos formosas magnólias de mármore alvinitente, desabrochadas nos régios e extensos jardins que os rodeavam, unindo-se às árvores dos pomares, ora repletas de flores, ora de frutos dulçorosos...
Por uma tarde de nevasca, em plena estação hibernai, foram acolhidos modestos viandantes, exaustos de longa jornada com rumo à Tessália (1), e que chegaram ao Solar do Cisne sem recursos pecuniários, desprovidos de víveres, desalentados pelos embates da adversidade. Compunha-se a aludida família de quatro pessoas:
um casal, aparentando mais de nove lustros de existência; um rapaz, de vinte anos de idade, Apeles; e sua irmã, Dioneia Isócrates, mais jovem e dotada de indefinível formosura pela inexcedível e divina estatuária — a Natureza.
Alva qual o jaspe da Morávia (2), cabelos ondulados e olhos de topázio refulgente, tez aveludada e rósea, lábios de rubro coral da Sicília (3), parecendo uma viva e celeste escultura de Cleomenes (4) que houvesse produzido sua obra--prima.
Havia uma dúlcida melancolia em seu olhar, mais sedutor do que um lampejo de alegria, porque reveladora de sigilo pungente do coração, que antevia, por intuição supranormal, um porvir de amarguras, insondáveis por aquela época...
Os progenitores de Marcelo Taciano, compadecidos da situação angustiosa em que se encontravam os infortunados romeiros — que afirmavam ter já possuído vultosa opulência e, então, arruinados, se dirigiam para a Tessália, onde lhes restavam alguns imóveis e parentes — ofereceram-lhes acolhedora hospedagem.
Exausta da longa viagem que empreendera, em péssima caleça, a mãe da encantadora Dioneia adoecera gravemente, e, tendo-se agravado subitamente a enfermidade cardíaca que, havia muito, a torturava, desprendeu a alma compungida, no Solar do Cisne, despertando a comiseração de todos.
Márcio Taciano, o nobre senhor do castelo, para não vexar os abrigados com suas generosidades de verdadeiro cristão, durante a enfermidade da desditosa extinta — segundo o julgar humano — propôs a permanência de Túlio Isócrates em suas terras, nomeando o jovem Apeles administrador das propriedades, pois, precisamente por aquela época, havia falecido quem por muito tempo desempenhara o referido cargo, dando isso margem a que se instalasse no Solar do Cisne, definitivamente, a enlutada família.
Honestos e laboriosos, os três restantes passaram a viver, em plena harmonia, com aqueles que os haviam socorrido em horas de penúria desalentadora...
Marcelo que, então, já contava cinco lustros de idade, não pôde ser insensível à helénica formosura de Dioneia, que correspondeu, com afecto leal e gratidão indefinível, à indómita paixão que havia inspirado, e, assim, o bronze estelar do amor esponsalício ligou por todo o sempre dois corações repletos de esperanças e sonhos de venturas ilimitadas...
Apeles e Dioneia eram cultos e revelavam apuro social, sendo exímios harpistas.
Uma brusca perda de fortuna fê-los lançar mão do que haviam aprendido e davam audições públicas, que enlevavam os assistentes, tal a magistral interpretação com que executavam as mais famosas partituras daquela época.
Na penosa decadência de fortuna em que estiveram, foi mister a venda dos amados instrumentos que dedilhavam com maestria; mas, por uma compensadora magnanimidade do Destino, encontraram, no solar que os abrigou, as harpas que haviam perdido — como que ressuscitadas — em um de seus vastos salões!
Foi assim que, inesperadamente, após alguns meses do passamento da adorada progenitora, puderam ambos deleitar os que tiveram a felicidade de os escutar, executando um dos mais célebres instrumentos dos israelitas, dentre os quais deixou luminoso sulco o famoso David, o rei-profeta, que deveu grande parte de seus triunfos à harpa inolvidável, a qual possuía — como todas as outras congéneres — a graciosa forma da asa decepada de alguma águia sideral, ferida em pleno infinito e caída aos pés do famoso intérprete das inspirações celestes...
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 22, 2018 9:56 am

Da convivência das duas famílias — embora de raças diferentes — resultou a centelha divina do amor que, desde logo, ligou os corações de Marcelo e Dioneia, que fantasiaram uma imarcescível ventura, longa e tranquila existência, abrigados na quietude daquele castelo, que lhes pareceu haver sido edificado para os isolar do bulício dos grandes centros populosos, ilhando-os do mundo vário, para que infinita fosse a felicidade de ambos em plena idade das fantasias e das áureas ilusões! Os progenitores dos enamorados aprovaram, com demonstrações de júbilo, a veemente afeição daquelas almas leais, deliberando que os nubentes permanecessem no Solar do Cisne, pois lhes faltava ânimo para deixar partirem aqueles seres bem-amados — verdadeiros fragmentos dos corações paternos — que anteviam incalculáveis encantos para ambos, no transcurso da vida.
Somente Geleira, a consorte de Márcio Taciano, não manifestou o mesmo entusiasmo de todos do alcáçar, porque algo de secreto, de desolador, de inexprimível presságio lançou uma gota de fel no âmago do seu seio de mãe extremosa, sem que pudesse explicar quem lho tinha vertido no mais precioso dos órgãos — o coração — que desvenda, às vezes, os arcanos do porvir caliginoso.
Tudo, porém, transcorreu em paz, e em alegria foi efectuado o enlace matrimonial da formosa Dioneia com o unigénito dos senhores do Solar do Cisne, parecendo que um halo de felicidade pairava na fronte de quantos assistiram às pomposas núpeias.
Uma tarde, inesperadamente, chegou ao belo alcáçar outra personagem, Cláudio Solano, a que já nos referimos, após prolongada excursão pelo Egipto e pela Etiópia, saudoso de rever o inesquecível amigo e companheiro de infância, recém consorciado, o qual, um lustro antes, juntamente com outros conterrâneos co-participara das últimas Cruzadas, que fracassaram, no reinado de Carlos d'Anjou, rei da França, irmão do desditoso Luís IX, denominado S. Luís.
Cláudio Solano, depois dos trágicos sucessos ocorridos na família, dos labores bélicos e de longas peregrinações pelo Oriente, regressou ao Solar das Sereias, com o coração desolado, oprimido pelas penosas recordações de seus desditosos progenitores...
Sendo ambos, ele e Marcelo, filhos únicos de casais opulentos, viviam sem preocupações de ordem financeira, e aliaram-se mais intimamente durante as refregas das Cruzadas, ligados por estreita afeição fraternal.
O retorno de Cláudio Solano foi recebido por Marcelo com demonstrações de intenso contentamento, pois estava ansioso por lhe apresentar a encantadora consorte, cuja beleza helénica era o alvo irresistível de todos os que tinham oportunidade de a conhecer, confessando que jamais lhes fora dado contemplar uma estátua humana que a excedesse nos traços primorosos, ultrapassando os das concepções de Fídias, que jamais pôde suplantar a divina escultora — a Natureza!
Cláudio Solano era mais alto e robusto do que o amigo e consócio de armas.
Tendo realizado prolongadas e dispendiosas excursões por longínquas paragens do antigo e único dos continentes de antanho, adquirira hercúlea robustez e invulgar cultura a respeito dos hábitos, literatura e filosofia de vários povos, excitando a admiração dos que tinham ocasião de lhe ouvir as proveitosas narrativas.
Inteligência lúcida e multiforme, empolgava pela palavra, parecendo inspirado pelos Numes (1) siderais.
Era alvo, embora tisnado pelos sóis das longas jornadas, cabelos acentuadamente louros, com reflexos de labaredas.
Dir-se-ia ser um atleta, invencível, do Coliseu Romano.
O retorno ao castelo onde viveram seus maiores e que todos julgavam abandonado pelo único herdeiro, causou regozijo no próprio solar, tanto quanto no de seu amigo Marcelo Taciano.
Por vezes, os afeiçoados e conhecidos que o visitavam, maravilhados com as suas digressões históricas ou filosóficas, aplaudiam-no com incontido entusiasmo.
Insensivelmente, porém, depois de alguns meses de permanência no seu alcáçar, artisticamente reconstruído, visível metamorfose se operou no proceder do erudito castelão; por alguns dias tornou-se incomunicável, permanecendo no Solar das Sereias, atendendo somente ao administrador, quando urgia alguma solução referente aos serviços dos campónios, tratados com rispidez.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 22, 2018 9:56 am

A transformação radical operada no proceder de Cláudio não podia deixar de causar reparos e comentários dos que lhe conheciam a verbosidade e o génio folgazão.
Ele se escusava a todos que o interrogavam, afirmando estar enfermo, causando-lhe os sofrimentos que o acometeram grande depressão moral...
que, talvez, o levasse ao túmulo.
Foi chamado ao castelo um ervanário grego, que lhe prescreveu diversos infusos vegetais e várias precauções alimentares, pois havia verdadeiro desequilíbrio circulatório, que podia ser-lhe fatal.
À indefinível alegria causada com o retorno de Cláudio Solano ao alcáçar, sucedeu incontida tristeza...
Foram suspensas as ruidosas reuniões no Solar das Sereias, onde grande se tornou a preocupação motivada pela precária saúde de seu temido senhor.
Raramente saía ele, fazendo apenas algumas excursões a pé, parecendo estar pesquisando os arredores do castelo, demorando-se em pequena propriedade que ficava nos limites de suas terras com as do Solar do Cisne, onde, raramente, aparecia, proferindo, então, limitadas palavras.
Raro era o dia em que recebia um amigo, sendo notável a mudança operada na indumentária, excepto quando ia retribuir as visitas de Marcelo Taciano, caso em que observava desusado apuro no trajar e até na linguagem de poliglota.
Em vão, o amigo de infância o interrogou sobre a causa de sua estranha transformação:
a todas as arguições amistosas respondia com evasivas que deixavam em dúvida incessante os mais íntimos.
Certa noite, bruscamente, dissera ele a Marcelo haver falecido, em Nápoles, sua prometida esposa...
Marcelo tentou confortar-lhe o amargurado coração, até então invulnerável às invisíveis setas dardejadas por Eros. (1)
Às vezes ficavam Marcelo e a formosa consorte, no salão nobre ou no parque do solar, tentando lenir a mágoa do desditoso amigo.
Dioneia, sempre solícita e compassiva, proporcionava-lhe conselhos que eram acolhidos em silêncio, porém, com reconhecimento, pelo malogrado noivo.
Ela, que era exímia harpista, em conjunto com Apeles enlevavam os assistentes com as mais suaves harmonias.
Uma noite, estando apenas os dois cônjuges e Cláudio no varandim do castelo, os progenitores de Marcelo mandaram chamá-lo para lhe comunicar certa ocorrência com um dos campónios, vítima de um acidente de trabalho, no qual teve decepado o dedo indicador da mão esquerda.
Indómita tristeza empolgava o então taciturno Cláudio, naquela tarde.
Marcelo havia tentado, vãmente, confortar-lhe as mágoas.
Ficando a sós, por momentos, com a formosa consorte do amigo, seus olhos lampejaram semelhantes coriscos em céu proceloso, ou como se o cérebro, incendiado por chamejante pensamento, transmitisse labaredas pelas órbitas.
Notável mutação se operou na fisionomia de Solano que, com vulcânico fulgor no olhar, fitou a aturdida Dioneia, interpelando-a com angústia:
— Domina, conheceis a causa real do invencível pesar que me apunhala o coração?
— Sim... a morte prematura de vossa adorada noiva — respondeu, empalidecendo de emoção e surpresa.
— Não percebestes ainda, com a lúcida inteligência que possuis, domina, que sois a causadora de meu padecer, cujo desenlace, certamente, será trágico?
— Não, domine!
Vossas palavras apavoram-me!...
Eu, que tenho procurado suavizar-vos a dor moral, que julgava sincera, como posso ser a sua causadora?
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 22, 2018 9:56 am

— Porque... sois a mais perfeita arte viva que conheço e que, infelizmente, já pertence a outrem!...
— Como, domine?
É assim que retribuis o afecto do mais digno de todos os homens que conheço — Marcelo Taciano?
— Não há tempo para digressões filosóficas...
Depende de vossa resposta... o futuro de muitas criaturas...
Sabeis que sou muito mais opulento que... vosso esposo?
— Não o amo pelo que ele possui nos cofres, e sim pelas nobres qualidades morais, domine!
Mesmo que não o amasse... ser-lhe-ia eternamente grata pelo acolhimento que me dispensou e aos que constituem minha família!
Entorpecente silêncio reinou no ambiente.
Ouvia-se o rumor dos corações frementes.
Às súbitas, Cláudio, envolvendo o pálido rosto de Dioneia com o olhar em fogo, murmurou, vagarosamente:
— Domina, preciso obter a certeza do que se passa em vosso íntimo, pois já não posso sufocar o que ocorre no meu coração louco... e desatinado!
— Serei, sempre e sempre, fiel a meu esposo.
Além do afecto que lhe consagro e a seus dignos genitores, sinto por todos perene gratidão!
Nunca me esquecerei do que fizeram por mim e por meus parentes, em horas aflitivas!...
— O que ele fez por vós... não foi por magnanimidade, e sim fascinado pela vossa incomparável formosura; qualquer homem teria feito o mesmo de bom grado... apenas por um olhar vosso...
que eu julgo filtro enlouquecedor!
Achais, por acaso, menos nobre o amor do que o reconhecimento?
— Sim, porque é cego! Porque faz esquecer o amigo de ontem...
para tentar seduzir-lhe a esposa leal e casta! — exclamou Dioneia, purpureando-se, aumentando, infinitamente, o fulgor dos olhos indefiníveis e a beleza de que era dotada.
Amo e sou grata a Marcelo e a seus pais pelo que fizeram por mim e pelos que me são caros, em horas angustiosas...
Por eles sacrificarei, sem pesar, a própria vida, se assim for mister!
— A sorte está lançada! Alea jacta est! (1)
Assim, não posso mais prolongar o meu martírio...
Antes jamais houvesse voltado a esta região, que ora se me afigura maldita...
Sofri, nos primeiros tempos da adolescência, dois golpes profundos com a morte trágica de meus pais, e agora, que vim tangido pelas desilusões e amarguras da existência, busco conforto em um lar fraterno, porém, mais do que outrora o punhal da dor me vibra outro mortífero golpe.
Não tendes uma palavra de compaixão, e sim de censura, para a minha desdita...
Estou fascinado por vossa dupla formosura — moral e física — pois reconheço a vossa virtude, que me flagela com indescritível tortura!
Percorri a metade do planeta, e em parte alguma encontrei perfeição igual à vossa, porque, além de formosa, sois artista e inteligente!
— Tudo isso, domine, a meu ver, não tem o merecimento que possui a virtude.
Esta, sim, sobrepuja todos os predicados que enumerastes!
Um ente, para mim, belo, talentoso, abastado, mas sem moral, não vale tanto quanto um humilde ser, de feições imperfeitas ou mesmo monstruosas, porém, que saiba cumprir os seus deveres terrenos, seja honesto e incapaz de uma perfídia ou de uma falta de lisura...
— Compreendo a altivez de vossas expressões, domina, e sempre havia pensado de igual forma, até ao dia em que, embevecido, fitei o vosso vulto sedutor...
Fui atingido, em pleno coração, pela seta ensalmada de Eros, que transformou os meus próprios sentimentos de honorabilidade, sendo, agora, capaz de perpetrar as maiores heroicidades ou degradações para ouvir, de vossos lábios, uma palavra animadora...
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 22, 2018 9:56 am

Eu compreendia todos os deveres morais — pois fui criado na escola da honra e da probidade — mas fiquei alucinado desde que percebi que, na Terra, não posso, jamais, encontrar uma criatura que tenha o vosso porte, vossa formosura e vossa castidade.
Como pude olvidar a lealdade consagrada a um amigo de infância e irmão de lutas guerreiras?
Como pude esquecer esse irmão que o Destino me concedeu, tornando-me seu indigno rival?
— E as vozes da consciência não bradam em vosso íntimo, aconselhando não pretender aviltar e destruir o lar de um irmão, pois somente por meio de um crime, ou de traição — que é um dos mais hediondos delitos morais — podereis conseguir o que ora confessastes à fiel esposa desse irmão de quem fostes amigo?!
— Estou desvairado, e não retrocederei, sejam quais forem as consequências resultantes!
— É lamentável o vosso proceder, domine!
Pronunciadas estas palavras pela nobre Dioneia, apareceu um servo, levando, em salva de prata fosca, falemos e doces deliciosos.
Logo após, chegou o generoso Marcelo.
Cláudio estava visivelmente soturno e contrariado, recusando tudo quanto lhe foi oferecido pelo servo e pelo amigo.
Ao retirar-se, com voz grave, o senhor do Solar das Sereias, falou:
— Marcelo, fui hoje chamado ao leste da Grécia, onde tenho negócios a realizar.
É provável que, por algum tempo — cuja duração é impossível precisar — eu me ausente desta região.
Tenho, pois, forçosamente, de abandonar o conforto deste abençoado lar.
Devo, porém, agir, consultando os meus interesses do momento actual.
Se eu não partir, grande será meu prejuízo!
Embora a vida não me seduza mais, opino que os nossos direitos só se devem renegar com a morte...
Vou lutar com aspérrimos adversários, e talvez seja vencido...
Que interesse tenho, porém, em viver ou morrer, se a minha desdita jamais terá um termo senão no abismo de um túmulo?
— Por que chamas de desventura o que foi determinado por Deus — o Juiz Supremo?
Quem sabe se a desdita de hoje seria real desgraça, no futuro insondável?
Devemos, pois, ser sempre resignados com os desígnios divinos, conformando-nos com os sucessos que connosco se relacionam.
— Tu tens uma crença que te conforta em todos os instantes de amargor, e eu não a possuo, embora tenha pelejado no exército de S. Luís.
Não lutei pela Fé, e sim por amor à peleja.
Não sei, agora, se serei vencido pela fatalidade, ou se poderei exterminá-la qual se fora dragão enfurecido!...
Talvez seja esta a derradeira vez em que nos vejamos.
Não me conformo com as leis despóticas do Destino, às quais não me entrego sem restrições, nem desejo ser por elas exterminado!
Desculpai-me o ter vindo entristecer-vos, perturbando a felicidade mais completa que vi neste planeta repleto de lágrimas e desilusões tremendas!
Adeus! Não choreis por minha causa...
Não sou digno de vossos prantos...
Um ambiente de apreensões e penosas conjecturas pairava no Solar do Cisne, até então invejavelmente o abrigo da intensa ventura desfrutada por todos que o habitavam.
Dioneia retirou-se da sala por momentos.
Marcelo fitou o amigo, à hora de sua partida para local ignorado, e, com os olhos fulgurantes de lágrimas, falou-lhe:
— Meu amigo, há muito suspeitava que uma grande dor ou um veemente pesar tortura o teu coração sensível, e esperava que me revelasses o que ora percebo claramente... para poder confortar os dissabores que te excruciam o nobilíssimo coração.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 22, 2018 9:57 am

Tens, porém, guardado impenetrável segredo que ora compreendo:
disseste haver perdido uma noiva adorada, que eu ignorava tivesses!
A mudança que se operou em teu físico, e principalmente no teu proceder, tudo me revelava o domínio de avassaladora angústia.
Porque, porém, não me desvendas a verdade, por mais dolorosa que seja?
Em qual outro coração amigo poderás melhor expandir os teus mortificantes pesares?
— É bem certo, Marcelo, o que me disseste; mas, não devo patentear o que me aflige, para que não se perturbe a lídima felicidade que existe no teu lar bendito.
Sempre fomos amigos extremosos.
Ligou-nos o Destino indecifrável, na infância e no vigor da juventude.
Terçamos armas no mesmo contingente.
Nunca nos desunimos por motivos frívolos.
Nossos desejos sempre foram idênticos.
Há, porém, em nossas existências situações especialíssimas, que constituem sigilos impenetráveis, que somente no túmulo podem ser desvendados ou terminar.
Tenho pensado, seriamente, em exterminar a vida, que se me tornou insuportável.
Estive no Egipto, e de lá trouxe diversos tóxicos letais que, em poucos instantes, podem aniquilar o martírio de uma inútil existência!
Para que continuar a viver, se não terá fim, jamais, o meu martírio moral?
Sou o único sobrevivente de três irmãos, mais idosos do que eu.
Meus pais tiveram um desfecho dramático da vida terrena.
Se há destino traçado por um Ser superior às misérias deste mundo, foi bem cruel quem delineou o meu e o de minha família.
Parece que somos uns falidos, malditos pelos deuses... do Céu ou da Terra!
O fracasso de meu noivado, no qual punha toda a esperança de umas migalhas de ventura... desnorteou-me!
Devo desaparecer do cenário do mundo.
— Não deves nutrir esses pensamentos desconsoladores que destroem as energias e as venturas porvindouras, Cláudio! — redarguiu Marcelo, empalidecendo mais do que o era normalmente.
Bem sabes que temos uma alma imortal, e esta é a responsável pelos crimes que cometermos.
Pensas encontrar a inércia absoluta no fundo do sepulcro; mas só a tem o corpo físico, pois nossa alma sobreviverá, e assim o será por toda a consumação dos séculos!
Tu te libertas de uma dor terrena, necessária à purificação de teu espírito... e vais cair no vórtice, na cratera de outros sofrimentos inomináveis!
— Quem prova, categoricamente, quanto acabas de dizer, Marcelo?
Quem está iludido, eu ou os que pensam da forma por que expressaste?
Quais os utopistas, eu ou os sonhadores?
Quem poderá provar, matematicamente, que Platão e Jesus estavam com a verdade, quando afirmaram que a alma é imortal e indestrutível?
Hipóteses e absurdos não podem ser realidades insofismáveis!
Só creio no real, no que se comprova pelos sentidos, e não em fantasias filosóficas...
A vida, já que é nossa, pertence-nos legalmente e ninguém tem o direito de intervir nela:
podemos conservá-la, ou destruí-la, a nosso bel-prazer!
Eis a minha teoria...
— Teoria nefasta, a que professas, Cláudio!
Se assim conjecturas, também não deves considerar a vida humana digna de acatamento, pois, se não crês na sobrevivência da alma, sabendo que a trajectória humana, neste mundo, é um relâmpago entre duas eternidades — o Passado e o Porvir — tendo o desejo ardente de realizar algum anelo, tu o conseguirás com a violência de um ateu, não acatando os direitos alheios para que o possas satisfazer.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 22, 2018 9:57 am

Por que hás-de ser probo e leal, se tens a certeza de que a virtude não ultrapassa os limites de um túmulo?
— Dou cabimento às tuas ponderações, e também já pensei como acabas de expor; mas, agora, que a mais cruel desilusão me oprime o infortunado coração, entendo que não se deve deixar para o amanhã — sempre obscuro e incerto — o que se pode efectuar hoje, que é o único tempo real que se conhece:
quem encontrar um tropeço na estrada da vida, deverá retirá-lo, sem escrúpulos, de qualquer forma, e passar avante!
Os obstáculos existem para que sejam vencidos e não respeitados! — concluiu Cláudio Solano, empalidecendo visivelmente.
— Apavoram-me as tuas palavras, Cláudio! — respondeu Marcelo, tornando-se lívido.
Sempre te conheci leal e respeitoso às Leis supremas que, incontestavelmente, regem a vida humana!
Jamais um crime deixa de repercutir no íntimo, qual látego de fogo vibrado por mãos invisíveis:
quem é delinquente não pode fruir tranquilidade, havendo no âmago um auto-castigo, um tribunal divino que se chama Consciência!
Se não fora isso, ninguém poderia tolerar outrem, abastado e feliz, ao passo que ele estivesse em penúria e infortunado.
As mulheres belas seriam conquistadas a punhal e violências.
— És psicólogo, meu amigo! — murmurou Cláudio, ficando marmóreo, bruscamente.
Sempre agi dentro do direito e da justiça; sempre fui probo e ponderado; bem conheces o meu carácter, ao qual fizeste referências inúmeras vezes; mas, ultimamente, parece-me que houve um cataclismo destruidor dentro de mim, demolindo os meus mais nobres ideais, tudo quanto de mais sacrossanto existia no meu Ego, deixando-me desarvorado e com o coração em estilhaços!
Estou, realmente, em situação desesperadora:
não recuarei perante um obstáculo, mesmo precisando praticar tenebroso crime — se tal for mister para diminuir minha desdita...
— É horrível o que dizes Cláudio!
Tudo isso provém do insucesso de teus amores?!
Não sabes que o futuro é indistinto, e, talvez, a realização de teu sonho esponsalício resultasse, no porvir, em verdadeiro fracasso da tua aspiração de felicidade, podendo ser traído ou desventurado com a eleita de tua alma, indigna da afeição que lhe consagras-te?
Disseste que tinhas suspeita de seu afecto, e mulher perjura, que não agia com lealdade, não merece tantas demonstrações de pesar, nem uma lágrima sequer!
Estás enlouquecido, só porque era linda a tua eleita?
Raras são as mulheres formosas que têm a inteireza de carácter como a possui a minha querida Dioneia, que, felizmente, é bela na alma, no físico e no moral!
Ouve-me, pois, Cláudio:
tens necessidade de esquecer a pérfida e, mais tarde, perdoá-la, por preceito cristão, que urge pores em execução cabal:
o amor só deve existir quando partilhado e, em hipótese nenhuma, quando repelido ou desprezado.
— É o que ignoras, Marcelo, porque encontraste uma companheira de existência, tão casta quanto formosa.
Ela, porém, que te abandonasse, ou fosse infiel, e não poderias esquecê-la, por mais esforços que fizesses, e, apesar da repulsa e da perfídia, continuarias a consagrar-lhe afecto, que aumenta na razão directa da afronta recebida!
Teu coração, apunhalado de dor, continuaria a palpitar pela traidora e tirana.
Saberias, então, no caso vertente, o abismo de sofrimentos que existe no meu, que, por vezes, tenho tentado esfacelar com um acerado punhal...
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 23, 2018 11:55 am

— Compreendo, amigo, toda a vastidão do sofrimento que te empolga a alma; porém, em idêntica situação (o que imploro a Jesus jamais aconteça!) eu faria o possível por expulsar de minha mente a imagem da traidora, por indigna da afeição ilibada que eu lhe dedicara, e iria empregar o meu amor em outras criaturas mais merecedoras do meu afecto, consagrando-o, tal qual Jesus, aos desventurados, aos que têm sede de Justiça, de carinho e protecção.
Houve uma pausa na palavra das duas personagens.
Às súbitas, interrompeu-a Cláudio:
— Tens uma crença, que não existe no meu íntimo!
E se não encontrasses, jamais, a quem consagrar a tua afeição?
E se fracassasse o teu mais belo ideal terreno?
— E onde faltam desditosos, nos quais possamos, protegendo os e amparando-os, encontrar inestimável conforto para o torturado coração, Cláudio?
Que mais belo ideal poderá conceber alguém do que o da felicidade eterna, conquistando-a por meio da dor, do cinzelamento moral, do bem praticado, do amor ao próximo e a Jesus?
Quem poderá destruir essa aspiração, que é a do próprio e divino Emissário?
Pensas, acaso, que eu, sendo traído no amor, buscaria outra mulher?
Não, absolutamente não!
Dedicaria o meu mais puro afecto a meus pais, o meu fervoroso amor fraterno aos infortunados, que só não descobres onde se encontram porque não entras nas choupanas humildes, nos tugúrios misérrimos, não enxergas as mãos contraídas pelo frio e pela falta de alimentos, as crianças que soluçam por um pedaço de pão que os pais, às vezes enfermos ou desempregados, não lhes podem fornecer...
Buscaria, pois, crianças desvalidas, velhos em penúria, e, assim, na execução do bem, da Seara de Luz do Mestre amado, encontraria o repouso para meu coração, pois, para mim, só há uma ventura completa sobre a Terra:
a paz de nossa alma, a conquista da felicidade eterna, que se refugia no Céu, por meio de acções nobres, do dever cumprido rigorosamente, dos actos meritórios!
A ventura... conseguida por intermédio de um crime não é ventura:
chama-se remorso, déspota incessante!
— Assim desejava proceder, Marcelo — respondeu o interlocutor, empalidecendo novamente.
Mas, desde quando me capacitei de que não se respeitam direitos alheios, havendo os que defraudam os cofres públicos, fazem pilhagens após os
triunfos bélicos, os que desonram os lares, e justamente quem assim procede é afortunado, desfruta regalias sociais, conquista as mais formosas mulheres; por que hei-de continuar recalcando sentimentos que desejam expansão, acatar o alheio, cultuar a amizade e amar sem ver correspondido meu intenso afecto?
Não é o Mal o soberano do mundo?
Para que a loucura da bondade?...
Para ser esmagado pelos maus, como aconteceu ao insano galileu... Jesus?!
— Cláudio, meu desditoso amigo, não estás reflectindo com acerto:
os perversos vencem para o mundo material, mas perdem a batalha divina; gozam na Terra, porém, padecem depois tanto quanto mal fizeram aos nossos semelhantes!
Que valem, para mim, todos os efémeros tesouros da Terra, sem serenidade na minha consciência?
Que me vale o aplauso momentâneo das multidões que, no íntimo, odeiam os tiranos por elas ovacionados, se não conseguir o louvor mais valioso, o único que poderá tornar-me ditoso:
o da própria consciência, norteada pelo Bem e por Jesus?
— Então — interrompeu Cláudio com os olhos fulgurantes de perversa alegria, vendo Dioneia que se aproximava — terias tu resignação... se perdesses o incomparável amor de tua modelar consorte?
— Se eu a visse morrer... choraria o seu desaparecimento do plano material, no restante de minha existência terrena, embora a considerasse viva sempre e a meu lado; se ela, porém, me fosse infiel — o maior tormento da vida que transcorre! — pesar esse que ultrapassaria ao de vê-la desaparecer em um túmulo... não a execraria, pois, teria certeza insofismável de que ela viveria mortificada de remorso, fazendo jus a muitas dores futuras, porque são infalíveis as Leis Supremas, e ninguém deixará de remir o mal perpetrado conscientemente...
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 23, 2018 11:55 am

Eu, que adoro minha esposa, não lhe oculto os meus mais secretos pensamentos...
Portanto, ela sabe que, se cometer um desvario... não a matarei, mas deixá-la-ei entregue à alçada do Juiz Supremo!
Ela compreende, tanto quanto eu, o modo de agir neste mundo:
sabe que não existe felicidade sem a lisura de proceder!
Somente somos desgraçados... quando temos a consciência remordida pela víbora da culpa!
O Mal está triunfante no mundo terreal; mas, não será vencedor até a consumação dos milénios.
— Não tenho a tua vocação filosófica, Marcelo — respondeu Cláudio, sorrindo enigmaticamente —; não nasci para imitar Sócrates, nem para ser mártir!
Falas assim, com invejável serenidade, porque és loucamente feliz e não alcanças o íntimo dos que padecem quanto eu sofro presentemente, envolto no manto sombrio da Fatalidade...
Vês a vida sob outro aspecto...
bem diverso daquele dos desventurados!
Não me apraz ser vítima... e, sim, algoz, se tal for mister!
— Acaso duvidas da sinceridade de minhas palavras e do meu afecto fraternal? — interrogou Marcelo, exaltando-se.
Achas que sou cruel... apontando-te o caminho recto, embora escabroso e eriçado de espinhos e obstáculos, da vida humana?
Querias, acaso, que aplaudisse e incentivasse o mal, em teu coração sem o farol radioso da fé, tendo sido eu criado nos preceitos cristãos e humanitários, desde o berço?
— Compreendo-te, Marcelo; mas, as tuas divagações filosóficas não me convencem de que não sejamos o produto da Fatalidade, a que chamamos Destino; que haja mérito no sofrimento e recompensa ao bem praticado, após a vida material, que me parece a única existente, digna de nossa atenção e de nosso desvelo!
Quem, do Infinito, veio em socorro do chamado Emissário Divino — Jesus?
Quem poderá afirmar que teve Ele condigna recompensa aos seus cruéis padecimentos?
Não serão todas as religiões terrenas verdadeiras utopias, quimeras às quais os adultos se apegam tal qual as crianças aos contos de fadas?
— Ah! Meu amigo, estás realmente desviado do único objectivo da vida humana — o aprimoramento do diamante divino — a Alma, imortal e responsável por todos os actos, bons e maus, perpetrados no plano material!
Não é possível que o Criador de todas as maravilhas do Universo — que nossos olhos distinguem e nosso pensamento concebe — haja enviado à Palestina um Emissário, cuja superioridade moral ultrapassa a de todos os mortais — para confirmar fantasias, que já eram realidades nos espíritos eruditos de Pitágoras e de Platão:
a sobrevivência da alma, essa fagulha divina!
Mesmo que fosse pura ficção tudo quanto os filósofos têm revelado, nossa consciência repele a injustiça, o mal, a traição, a perfídia, o dolo, o homicídio — o que comprova que, em nosso âmago, existe uma entidade superior à matéria, diluída que é esta no lodo dos sepulcros.
Que é a saudade? Que é o amor?
Que é o ódio? Produtos da matéria, unicamente?
E por que nenhum vestígio deixam no cérebro, nem em qualquer outro órgão do corpo material?
Por que sentimos que a afeição consagrada aos entes bem-amados ultrapassa esta efémera existência corporal?
Por que a nossa consciência não aprova os actos indignos?
Falaste há pouco sobre o excelso Nazareno, que julgas ter fracassado neste orbe de trevas...
Ignoras acaso que o corpo encerrado em um sepulcro, sob os olhares vigilantes de alguns guardas ferozes, desapareceu dali, alando-se ao Céu, às regiões benditas do Universo, após haver ainda, revelado aos Apóstolos as verdades transcendentes e maravilhosas, que lhes deram a precisa coragem para arrostar todos os obstáculos e o próprio martírio?
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 23, 2018 11:55 am

Não sabes que Ele apareceu, já divinizado, ao descrente S. Paulo, no caminho de Damasco, transformando-o em poucos instantes, tornando-o um dos mais ardorosos propagandistas da Fé?
Será fantástica a sua aparição a S. Pedro, quando tentava fugir de Roma, aos massacres dos cristãos?
Não? Pois bem, estou convicto de que temos uma Entidade intangível, imortal e eterna, incrustada na carne que forma o nosso corpo físico, mas que pela chamada morte (que é uma libertação) se desprende integralmente e, livre de todos os grilhões materiais, será julgada num tribunal incorruptível, que lavra a sentença de acordo com o mérito ou os crimes da consumada existência terrena.
— Não sei, Marcelo, qual de nós dois enlouqueceu... tu ou eu... — murmurou Cláudio, motejando.
— Não existe a loucura do Bem, infelizmente, meu amigo, porque todos os alucinados só se lembram de cometer perversidades! — respondeu o piedoso Marcelo.
Eis por que Jesus não era louco, pois tinha em mira beneficiar a Humanidade e não fazê-la sofrer, Cláudio!
— Não me julgues um perverso, Marcelo, pois, como sabes, fui criado e educado por genitores honestos, que me aconselharam sempre a respeitar o alheio; mas a adversidade e a pungente experiência desta vida, única em que acredito, capacitaram-me de que, em um mundo repleto de ambiciosos e malvados, o bom é um louco escarnecido, apedrejado, tal qual sucedeu ao célebre Nazareno Jesus...
Os maus triunfam, esmagando os melhores e os mais puros ideais humanos.
Eis a pungente verdade, que os séculos confirmam!
— Não deixas de ter razão, em parte, Cláudio, e convencer-me-ias de tudo, se houvesse unicamente o relâmpago da vida terrena e não uma eternidade porvindoura, seriada em diversas existências.
— Aí é que divergimos totalmente, Marcelo!
Quem poderá garantir que existe mais de uma peregrinação terrena para o mesmo Espírito?
Utopias filosóficas apenas!
Estamos, na Terra, à mercê das tentações, das seduções, dos adversários, e só do acaso depende o podermos, ou não, defender-nos dos maus!
— Enganaste, Cláudio!
Já viajei, há tempos, nas índias, estive em contacto com os brâmanes (1), os quais estão capacitados de que as almas não se perdem no Nirvana (2), e sim que, constantemente, entram na batalha da vida e ressurgem das cinzas, isto é, revivem qual a Fénix (3) para que possam adquirir méritos, tomar parte em novas pelejas, e, assim, no transcorrer dos evos, ficarem diáfanas, deixando, então, o plano físico, podendo alçar-se às paragens siderais!
Esta é a lenda da Fénix, que se renova nas próprias cinzas, constituindo essa fantasia uma das mais belas adaptações às realidades de nossa individualidade, que não desaparece no abismo das sepulturas...
Eis aí por que a alma, e não o corpo tangível, é quem assume a responsabilidade dos actos, porque só ela subsiste à destruição da matéria, porque as vestes não fazem parte integrante do organismo, podendo ser renovadas inúmeras vezes!
O futuro é o reflexo do passado!
Eis por que muitas vezes sofremos injustiças, perseguições, enfermidades, perfídias...
porque tudo isso faz parte de nosso karma ou destino; já praticamos injustiças, perseguimos, ferimos corpos que eram sãos, inutilizando-os para os labores da existência; fomos desleais para com os nossos entes queridos, cravando-lhes nos corações o envenenado punhal da traição...
"Sei (por intuição que não desvendo presentemente) que minha felicidade conjugai vai ser interceptada bruscamente, porque eu a destruí outrora, no lar de um amigo...
Não te mortifiques, querida Dioneia, que vejo empalidecer, fulgindo lágrimas nos belos olhos azuis:
haja o que houver, nossas almas serão sempre aliadas por uma afeição que vencerá os milénios!...
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 23, 2018 11:55 am

Não julgueis que enlouqueci; não, estou em plena lucidez espiritual, Cláudio e Dioneia...
Compreendo, plenamente, que o torturado de hoje foi o crudelíssimo déspota do passado; a vítima do presente foi o algoz dos tempos idos...
O caminho da nossa redenção é sorver o cálice das amarguras da vida sem revoltas, aceitando os sucessos por factos indiscutíveis, sofrendo, com inabalável resignação, todos os tormentos, sem odiar os adversários, sabendo perdoá-los, tal qual Jesus o fez a seus perseguidores."
— Estás, incontestavelmente, mais evoluído do que eu, Marcelo, pois ainda prefiro ser algoz... do que vítima! — falou Cláudio, com ironia.
Houve um penoso silêncio no recinto.
Bruscamente, Marcelo retrucou:
— Pois eu, Cláudio, prefiro ser imolado a causar qualquer mágoa ao meu semelhante!
Quero suportar o martírio da calúnia, dos maiores sofrimentos — morais e físicos — as injustiças e as ingratidões... a ter o coração flagelado pelo câncer do remorso, por haver praticado algum ato condenável!
Quantos padecimentos, quantos suplícios devem estar passando os algozes de Jesus, enquanto que Ele — um dos astros espirituais que têm baixado à Terra cheia de trevas — está isento da mais leve mortificação, salvo a piedade pelos que sofrem e recorrem à sua protecção, não podendo atender a todos na medida do que imploram ao seu boníssimo e radioso coração!
— Que importa um triunfo ignorado, como o é o espiritual, Marcelo?
Eu o quero aqui, à face da Terra, onde me encontro, e não alhures... onde ninguém me conhece!
— Ilusão, Cláudio!
Nós, aqui, na superfície terrestre, mourejamos em comum, temos verdadeiras refregas morais e materiais, e esses mesmos combatentes, além, contemplarão a nossa vitória!
Que importa à minha alma o aplauso das multidões, se a lídima felicidade existe no nosso eu, onde se deve processar o perfeito julgamento de nossos actos nobilíssimos, e só essa secreta aprovação poderá constituir a nossa eterna ventura, aqui ou além?
Quem a conquista exteriormente, não a merecendo por direito — divino ou humano — pode obter o aplauso de todos, do mundo inteiro, mas no íntimo de nosso espírito, quando não existe a sanção dos meios legais, por intermédio dos quais a conquistamos, surgirá o remorso, látego espiritual que vergasta a consciência dos delinquentes!
Chamas a isso... felicidade terrena, Cláudio?
Penoso, intenso silêncio dominou as três personagens, que durante ele, dir-se-ia, ouviam o rumor da própria respiração e o do encarcerado coração, pulsando acelerado, imperceptível nos momentos de palestra amistosa.
Foi Cláudio que, empalidecendo mais, murmurou:
— Marcelo, eu louvo os teus sentimentos dignificadores, que também já foram os meus.
Nada, porém, comprova, de modo indiscutível, a imortalidade da alma.
Para que, pois, restringir, recalcar os nossos impulsos e sentimentos, passar uma existência de sofrimentos, para conquistar uma utópica ventura espiritual, quando tudo se há-de consumar no interior de um sepulcro, com a exclusiva e vencedora heroína universal — a Morte?
Pressinto que não deixarei de executar o que tenho em mente:
fugir à vida, ao local do fracasso do meu futuro...
Esta, deve ser a derradeira vez que nos vemos.
Vou partir, ao amanhecer, para longínqua paragem... nos confins do Oriente...
Estou desnorteado, sem bússola (1), sem directriz, dentro de desarvorada caravela...
Vós, que acreditais em Jesus, Marcelo e Dioneia, lembrai-vos de mim, à hora de vossas preces...
Eu permaneço como estou, e acabarei louco ou rasgando o coração, para que emudeça eternamente dominado pela lei da fatalidade — única que conheço...
Marcelo, a noite vai alta, e vê-la-íamos findar, se aqui ficássemos opondo ideia contra ideia...
Vou partir para o desconhecido, na ânsia de encontrar uma só migalha de alento e de tranquilidade para o coração enlouquecido...
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 23, 2018 11:56 am

Fujo ao convívio de meus melhores amigos, qual maldito Ahasvero, sem um instante de repouso!
Sei, porém, que encontrarei a única ventura, que não é negada a nenhum vivente: a morte!
— Dir-se-ia, Cláudio, que praticaste um crime, ou que o projectas, tendo a reprovação de tua própria consciência, e não possuis a precisa coragem de no-lo revelar! — exclamou Marcelo, compungido e inspirado por um clarão astral em seu subconsciente.
Depois de um novo penoso silêncio, foi Cláudio quem murmurou, tornando-se mais lívido:
— Talvez estejas perto da realidade, Marcelo!
Perdoa e esquece estas palavras de dor e revolta...
Quem sabe se jamais nos veremos?
— Julgo o contrário: mortos ou vivos, vestidos de carne ou despidos da matéria, nossos destinos estão jungidos perpetuamente, Cláudio!
— Quisera ter a tua fé, Marcelo! — falou o amigo, com voz trémula, olhos rorejados de lágrimas.
E, erguendo-se subitamente, a custo:
— Se eu não for aniquilado, voltarei a esta região, decorrido algum tempo...
Quero isolar-me do mundo, fugir aos que mais amo.
Se tal não conseguir, meu coração maldito será varado por um golpe... certamente menos cruel do que a dor que de há muito o mortifica...
— Não sejas insensato, Cláudio!
Nossa vida não nos pertence, nem a de nosso próximo, e sim a Quem tudo criou — Deus — Eterno Benfeitor, Sumo Juiz Universal!
— Marcelo, a minha resolução é inabalável.
Se algo nos dirigir na vida... a Fatalidade, talvez então regressarei a estas paragens com ideias diferentes...
— Que Jesus te proteja, Cláudio, na penosíssima situação em que te encontras!
Cláudio Solano fitou o amigo e a esposa com um olhar de alucinado, onde brilhavam prantos ardentes, abraçou-os e desapareceu na treva da noite.
— Marcelo — murmurou Dioneia, ouvindo os ladridos e uivos de Plutão — lamento a dolorosa situação de Cláudio; mas, desejo, de toda minha alma, que se afaste, por todo o sempre, de nosso lar!
— Compreendo os teus receios, querida, julgando-o capaz de cometer algum crime... até contra nós próprios...
Mas, vendo-o no beirai dos mais nefandos delitos, desejo ser-lhe útil, salvá-lo...
pobre ovelha desgarrada do rebanho do Cristo.
Vamos orar por ele, com todo o fervor, querida!
Cláudio, enquanto os dois consortes procuravam o repouso, àquela hora tardia da noite, estando o castelo mergulhado em silêncio, saiu com precipitação; mas, tendo despertado a atenção do vigilante Plutão — o inteligente galgo que Márcio Taciano adquirira de um amigo do Epiro, e que, desde o anoitecer, por diversas vezes, uivava desoladamente — teve que retroceder, até que um servo acorrentou o fiel canino, para que o visitante pudesse retirar-se incólume.
Aquele doloroso uivo, porém, seguiu-o através das trevas espessas da noite, que ameaçava procela.
Cláudio, livre daquele obstáculo, tomou a direcção do Solar das Sereias, sentindo-se desnorteado, voltando o olhar, por vezes, para o castelo que havia deixado, até que se extinguiu a derradeira luz...
Ele o contemplou, com angústia, e experimentou indefinível esmorecimento...
Sentou-se, então, em uma lájea, em uma das colinas que serviam de baliza entre os dois castelos, e, quase soluçante, murmurou mais no íntimo da alma do que com os lábios:
— Covarde e indigno amigo que sou!
Porque, se há um dirigente supremo para todos os nossos actos, não me fulmina essa desconhecida potestade, neste instante?
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 23, 2018 11:56 am

Sim, é mister que eu seja exterminado antes que pratique o mais degradante dos crimes:
o assassínio de um verdadeiro amigo, sempre leal, um companheiro de infância e da juventude, para me apoderar do seu maior tesouro, a esposa, que eu devera considerar irmã, para lhe consagrar uma pura e fraternal afeição!
Por que este torvo pensamento, qual vampiro voraz, se apoderou do meu cérebro, destruindo os nobres intuitos, sugerindo-me o desejo indómito de sacrificar uma preciosa e sagrada vida?
Eu desejava ser fiel a Marcelo; mas a fatalidade está de permeio entre nós dois, fazendo-nos adorar a mesma formosa mulher!
Para poder possuir o seu amor... só há um recurso:
eliminar Marcelo dentre os vivos...
Fatalidade! Fatalidade!
Eu evoco as forças que nos regem, se é que existem, para que me ceifem a vida durante esta noite inesquecível, a fim de que, amanhecendo um novo dia, não pratique eu o revoltante delito, que me tornará um eterno e execrável Caim!
Incoercível soluço lhe abalou o tórax.
Nenhum ruído percebeu.
Somente o uivo longínquo de Plutão lhe vibrou recôndito, causando-lhe indefinível sensação...
A Natureza, envolta em treva nocturna, parecia compreender o martírio moral do desditoso Cláudio Solano, algemado por infinita angústia!
A custo, quase ao alvorecer, chegou ao alcáçar em que habitava.
Entrou, vacilante, por secreta porta que somente ele sabia franquear, penetrando no interior sem ser pressentido.
Não procurou alimento.
Impressionante silêncio típico das tardias horas nas habitações campestres, reinava no Solar das Sereias.
Ao transpor, porém, os primeiros degraus de acesso ao dormitório, pareceu-lhe ouvir prolongado gemido, ou choro abafado por violência.
— Quem chora aí? — perguntou ele, aterrorizado subitamente, recordando-se de quando fora assassinado seu progenitor haver escutado sua mãe chorando de modo igual ao que ouvia naquele tétrico momento!
Nenhuma resposta lhe foi dada; no seu íntimo, porém, penetrou involuntariamente um pensamento dominante:
sua genitora, a infortunada suicida, estava ali e chorava, dolorosamente, não só por sua penosa situação, mas também pelo nefando crime por ele projectado contra um quase irmão, do qual recebera os mais nobres e fraternais conselhos...
— Será possível — monologou ele — que a alma sobreviva à matéria?
Que somos nós afinal (os seres deste planeta... onde predomina a dor)?
Eternos ou perecíveis?
Poeira que se dissolve no sepulcro, ou centelha divina que se torna indestrutível e ascende ao Infinito?
Depois, com voz grave e compungida, falou ao invisível:
— Se sois minha mãe, tão honesta e compassiva, dai-me, nestes enlouquecedores instantes, uma absoluta certeza de que há realmente a sobrevivência do espírito sobre a matéria, a fim de que eu não faça desaparecer deste mundo uma vida preciosíssima, que deveis saber de quem é...
Não me podeis atender?
Vede a gravidade da situação em que me encontro:
se nenhum ser imaterial responder à minha aflitiva interpelação, executarei o crime que tenho em mente, à luz do dia que já se aproxima...
Após alguns momentos de atenta observação, pareceu-lhe que a janela mais próxima se abrira com violência, qual se fora impulsionada por mão invisível.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 23, 2018 11:56 am

Foi verificar se, de facto, algum batente estava aberto, pois ouvira o estrépito de murro violento sobre o peitoril, e, logo após, tudo se aquietara.
Constatou que todas as janelas estavam fechadas...
Exausto, com as pálpebras intensamente contraídas, julgou estar ainda no Solar do Cisne, vendo Marcelo, sempre pálido, e a consorte, com as mãos entrelaçadas, felizes, envoltos na luminosidade de luar tropical, aguardando o nascimento do primogénito que iria aumentar a ventura daquele abençoado lar...
Estremecendo, como que ferido por uma víbora irritada, a víbora do zelo exacerbado e indómito, sentou-se no leito e murmurou meio alucinado:
— Que importa a imortalidade da alma, se, extinguindo uma vida, posso apoderar-me da felicidade que pertence a outrem?
Que importa a consciência, se esta não anula os meios de alcançar a sonhada ventura?
Nada afugentará do meu cérebro o plano concebido e que, em breve, vou pôr em execução.
Detesto tudo quanto se opõe à minha pretensão; quem me aconselhar o contrário do que desejo e premedito, é porque almeja ver-me vencido pela desdita e desventurado por toda a vida!
Mal pensara estas últimas palavras houve a vibração de uma estridente gargalhada no recinto silencioso...
— Quem ousa zombar da minha dor com semelhante risada?
— interrogou Cláudio às trevas que o rodeavam, estremecendo involuntariamente.
Ninguém se interponha nos meus projectos, porque estou resolvido a lutar contra a própria Fatalidade, o Destino, o Inferno, o próprio Deus — se assim for mister — para conseguir a posse da criatura que me despreza, e talvez me odeie!
Se houver algum poder contra minha pretensão, que se manifeste agora, antes que amanheça o dia!
Nenhum ruído mais foi por ele observado.
Cláudio deitou-se sem poder tranquilizar o espírito, pois desconhecia o conforto da prece, embora já houvesse pelejado pela fé cristã com as legiões dos Cruzados.
Teve a impressão de estar em uma pira ardente, onde se revolvia incessantemente, parecendo-lhe que o sangue se transformara em chamas que lhe devoravam o próprio coração dolorido, cremando-o como se fossem víboras em fogo...
— Intolerável a minha situação! — exclamou, soerguendo-se no leito.
Bruscamente foi invadido por um amortecimento geral que lhe avassalou o organismo, parecendo-lhe que fora invadido por mortal torpor.
Julgou distinguir um vulto alvinitente, vestindo alva túnica, o qual, aproximando-se-lhe do leito, murmurou, tristemente:
— Todo o supliciante tormento por que estás passando provém de tentares derrogar as leis divinas e aniquilar uma vida utilíssima!
Modera os impulsos violentos de tua alma delinquente, desditoso irmão!
Estás sob o império de condenável paixão, que data de anterior existência e não correspondida.
"E, porque estás com os olhos vendados pela cegueira de criminoso amor, não compreendeste ainda a lúcida verdade:
não devias, jamais, ter cobiçado a consorte de um irmão, de um amigo sem igual neste planeta que habitas.
Devias, sim, ter repelido o nefasto sentimento que ora te empolga e alucina!
Louca Humanidade! onde seres humanos lutam pelo amor, outros pelo ouro, outros pela ventura!
Não percebem que o ouro gerador da felicidade é o da Virtude, do Bem praticado com desinteresse, a isenção de remorsos.
Todo prazer conquistado à custa de lágrimas e sangue, tem de ser arrebatado ao usurpador, que se torna um entre os mais míseros da Terra, porque lhe falta a suprema ventura:
a serenidade de alma, a paz de consciência, denegridas pelos delitos contra as Leis Celestes e sociais.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 23, 2018 11:56 am

Recua, pois, infortunado irmão, ante a perspectiva de abominável crime, que te transformará em galé, no foro íntimo de teu próprio ser, de teu coração devorado de compunção e de auto revolta.
Não avermelhes as mãos no sangue generoso de um amigo leal.
"Não sejas outro exemplo nefasto de Caim, e sim o de discípulo de Jesus; já foste soldado do Exército que vencerá sobre a Terra a derradeira batalha:
o da cruzada sacrossanta da Paz, do Bem e da Fraternidade!
Foge ao local de teu martírio; procura longínqua região, onde terás abençoada tranquilidade espiritual, que te compensará todas as angústias nobremente suportadas...
"Encontrarás uma companheira de existência, formosa e digna, que fará tua ventura, igual à que desfruta o nobre Marcelo.
Não insistas em um desarrazoado projecto que te tornará odioso, execrável a teus próprios olhos, em teu próprio coração! Repele de tua alma insanas conjecturas, porque não conseguirás vencer o Juiz Supremo — Deus, cujas leis regem o Universo!
Se não atenderes a estes fraternos avisos, serás punido severamente, e terás agudo arrependimento pelo ato vil que premeditas.
Quem trocar pelo crime a paz de seu coração, ainda que conquiste todos os impérios deste planeta, a fortuna de todos os Cresos, todas as regalias sociais, o amor da mais encantadora Helena, jamais conseguirá ser ditoso, em vigília ou adormecido, porque terá a flagelar lhe a consciência a recordação do delito perpetrado, presa de incessante pelourinho interior.
Mais vale a felicidade de um pária, de um mendigo honesto, tendo por leito as pedras das estradas desertas, famintos e sedentos, porém, com a paz de espírito como a possuem o justo, o verdadeiro homem honrado, os laboriosos, incapazes de praticar vilanias!
"O fruto do crime é sempre amargo, fel não para a boca, mas para o coração:
chama-se arrependimento ou remorso!
O remorso é o látego de Deus vibrado na consciência do delinquente, o qual não poderá jamais fruir a felicidade a que aspira, se a conquistar esmagando sagrados direitos.
Ninguém tem permissão de se apoderar indevidamente da taça empunhada por ou trem, pois, se tal fizer, a almejada ambrosia que julgava sorver se transformará em travo de cicuta...
"Se te julgas infortunado, Cláudio, mais o serás após a execução do crime que premeditas:
serás, desde então, um novo Caim maldito por muito tempo, até quando possas remir os teus atentados às leis humanas e celestiais.
A vida terrena é um relâmpago que brilha por momentos no ambiente proceloso deste orbe, e logo se extingue para se reacender perenemente nas paragens siderais.
Engano deplorável o de quem deseja conquistar venturas duradouras no fulgor desse corisco que o é a vida terrena, por isso que pode ter número infinito de relâmpagos, porque não surge uma vez somente no firmamento da vida; tem o mesmo fulgor das centelhas celestes que não se eclipsam eternamente, conservadas que são nos escrínios do Céu, tal qual a vida no escrínio da alma — luz imperecível — que reaparece tantas vezes quantas forem mister, no cenário terrestre ou no sideral!
A vida é uma luminosidade inextinguível, que se poderia denominar oxigénio divino, ainda desconhecido dos homens ou das ciências terrenas, um dos componentes do ar, que activa a combustão e não se destrói, jamais, inextinguível, comburente e incombustível!
"No ser humano, activa a circulação, penetra os tecidos, produz a combustão contínua nos órgãos internos, e, quando sobrevém a morte, que é a separação da fagulha celeste, ofuscada na túnica inconsútil da matéria, persiste incombustível e perpétua!
Estremeces? Duvidas, acaso, dessa verdade que, em quase todas as almas, constitui um axioma?
Olha tudo quanto te cerca, desde o musgo rasteiro ao esplendor de um astro engastado na concha azul do firmamento: tudo obedece a leis harmónicas, perfeitas; durante a vida vegetativa reproduz sempre os mesmos fenómenos, desaparece depois de haver plasmado outros seres semelhantes na conformação, na cor, na consistência, nos característicos físicos!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 23, 2018 11:56 am

Cada vivente — animal ou vegetal — segue uma finalidade que não transgride as leis da Natureza, sempre imutáveis, desde o início ao limite de sua existência.
A estrela tem luz inextinguível, sem que possamos mencionar o elemento que nutre essa luminosidade; conserva-se equilibrada no espaço, por meio de possantes forças de atracção e de repulsão, de gravitação, sem discrepar um instante, seguindo os traços divinos que são as órbitas, mariposa de luz, librando asas no Infinito, seguindo uma directriz delineada por Aquele cujo nome imperfeitamente o define:
Deus!
Se Deus é síntese de todas as perfeições, cria corpos colossais, de luminosidade eterna, como havia de errar, deixando sem leis a criatura humana que, na Terra, culmina todos os seres em inteligência, em atributos morais e psíquicos? Duvidas desta verdade que, em muitas almas, constitui um axioma indiscutível?
Há leis divinas que punem os crimes na alma.
Não transgridas, pois, essas Leis Supremas!
Não almejes conquistar ventura destruindo a de ou trem, pois terás um futuro turbado pelo remorso, que é o açoite vibrado pelos Mensageiros executores do Código celeste, para despertar a consciência entorpecida dos delinquentes!
"Atenta bem nas minhas palavras, grava no recesso de tua alma tudo quanto te disse; desiste desse intento funesto, desse projecto sinistro!
Foge ao local de teu suplício e, muito além, recobrarás a serenidade de teu espírito, ora intensamente conturbado.
Encontrarás, em longínqua paragem, o repouso que ora te falta.
Evita um bárbaro e monstruoso crime, e grande será a vitória espiritual que conseguirás nesta dolorosa existência, fugindo assim a outros inomináveis sofrimentos e inauditas torturas morais!"
Prolongado gemido vibrou no recinto em que se achava Cláudio.
Este não soube afinal se emitido por ele ou por algum ser invisível com quem confabulara e cujas afirmações lhe ficaram qual brumas de sonho na mente.
Ergueu-se no leito, com os olhos desmesuradamente dilatados, sondando a treva reinante no dormitório...
Os primeiros albores do dia penetraram, pouco depois, pelas ogivas laterais da câmara, veladas pelas cortinas de renda síria.
Cláudio, porém, mal compreendeu a realidade do que se passara, e, desobedecendo aos ditames da própria consciência, murmurou, em concentrado tom de resolução:
— Não desisto do meu intento, haja o que houver!
Persistirei em minha deliberação, suceda o que suceder!
Sempre fui obstinado nas minhas aspirações.
Não quero prolongar meu martírio, deixando em mãos alheias o tesouro que ambiciono, porque isso me arrastará à loucura!
Que importa a imortalidade futura, se o presente é de dúvidas e sofrimentos inomináveis?
Prefiro um instante de ventura a um século de imortalidade desditosa!
Levantou-se, definitivamente resolvido a pôr em execução o sinistro projecto.
Um camareiro aguardava ordens no limiar da porta, e, ouvindo a vibração de uma campanha no interior do dormitório, apresentou-se logo para preparar o bani e tratar da indumentária do opulento castelão.
O fâmulo, observando a palidez do macerado rosto de seu senhor, de ordinário corado qual o falerno da Campânia (1), perguntou, respeitoso e piedosamente:
— Quer que chame um herbanário, domine?
— Não. Dispenso-o. Tenho que viajar, hoje, para longínquos países do mundo.
— Não temeis piorar em viagem, domine?
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 23, 2018 11:57 am

— Não posso adiar o que tenho em mente projectado.
Terminando o teu trabalho de agora, dize ao administrador do solar que convoque uma reunião de todos os encarregados dos serviços do castelo, para as 12 horas, porque desejo transmitir ordens directas de interesse geral...
O dedicado fâmulo, que se chamava Patrício, retirou-se apreensivo, a fim de dar cumprimento imediato às determinações de Cláudio Solano.
Ao meio-dia estavam reunidos todos os servidores do Solar das Sereias, no pátio principal, convocados pelo administrador-geral, o ambicioso Felipe Valdomiro.
Ali se achavam não só os que trabalhavam no campo, na conservação do castelo, na lavoura, mas, também, os dos serviços domésticos.
A essa hora predeterminada, apareceu Cláudio Solano, que, com visível emoção, lhes dirigiu a palavra:
— Fiéis servidores, em benefício de minha própria saúde, necessito ausentar-me longamente deste solar e da própria Dalmácia, rumo ao Oriente, em busca de um célebre esculápio de cujas curas dizem prodígios.
Não sabendo ao certo quando voltarei a estas paragens, nem se conseguirei regressar a este castelo, todos quantos aqui se encontram e tão fielmente me serviram, podem tomar o destino que lhes aprouver.
Apenas conservarei a meu serviço Patrício e Felipe Valdomiro, que continuarão a velar pelo prédio, podendo conservar alguns jornaleiros e outros necessários ao cultivo das terras...
"Além do que lhes é devido, darei a cada um pequena gratificação, para que possam, sem penúrias, procurar outro emprego.
A todos os meus sinceros agradecimentos pelo desvelo com que me serviram."
Ouvido em significativo silêncio, quando terminou, Patrício, o mais idoso dos servidores, destacando-se, respondeu, comovido e com os olhos brilhantes de lágrimas:
— Senhor Conde de Morato, nós vos servimos com dedicação, porque bem o mereceis; sois escrupuloso e pontual no pagamento, e a todos tratais com grande bondade.
Eu, o mais humilde dentre todos os presentes, representando os sentimentos dos que aqui se encontram, compungidos, e também sendo um dos mais experientes na prática da vida, proponho o seguinte:
permaneceremos aqui nos mesmos serviços, contanto que tenhamos garantido o pão.
O pagamento do que nos couber e a prometida gratificação permanecerão com o vosso honrado mordomo, para fazermos as retiradas mais urgentes.
Garantidos tecto e pão, preferimos ficar aqui, embora sem lucros, nem ordenado exigido, a aventurarmos a sorte em outros solares, onde não haja talvez a vossa generosidade!
Aqui nos conservaremos, pois, até o vosso regresso.
As palavras do velho servidor foram aplaudidas por todos os que as ouviram em religioso silêncio.
Cláudio Solano abraçou-o emocionado, e, após, respondeu:
— Agradeço a vossa dedicação.
Neste momento, vossas palavras tocam o íntimo do meu coração.
Podeis voltar aos vossos labores; jamais olvidarei a prova de apreço que acabais de dar!
Todos os serviçais, cabisbaixos, inclusive o senhor do Solar das Sereias, estavam deveras comovidos.
Silêncio tumular pairou por momentos no local onde se haviam reunido aqueles seres humanos.
Foi Cláudio Solano quem retomou a palavra, terminando os seus pensamentos:
— Meus fiéis servidores, aqui deverei estar ao término de um ano, a partir de hoje, precisamente, salvo algum sucesso ainda imprevisto.
Se, por acaso, a sina for adversa, nessa hipótese deixarei, em lugar seguro, o documento com o qual podereis tomar posse deste castelo e seus domínios, onde espero e desejo que continuarão vivendo em harmonia uns com os outros, qual se todos constituíssem uma só família.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 24, 2018 12:11 pm

Perderá o direito do que lhes outorgarei aquele que quebrar essa solidariedade.
Quero que vivam em acordo pleno, como se fossem verdadeiros irmãos!
Essas palavras, ouvidas com crescente interesse, provocaram soluços emocionados dos leais camponeses.
O mordomo, não menos emocionado, disse então:
— Vós, domine, não sois senhor, e sim um pai generoso para aqueles que vos servem de bom grado. Gratos por vossas expressões confortadoras!
Após estas carinhosas manifestações, dissolveu-se a reunião.
Cada um buscou seu modesto lar, comentando o ocorrido com pressentimentos de sucessos futuros.
Cláudio fez verbalmente diversas determinações para que fossem cumpridas durante sua ausência, quer continuasse vivo, quer perecesse.
Ao entardecer desse dia, depois de se haver despedido de todos, partiu Cláudio Solano pela estrada real que rumava para o Oriente, montando negro corcel, seu predilecto para longas peregrinações, desaparecendo enfim, na ondulação de uma colina, que ficava na linha divisória do Solar do Cisne, pertencente a Márcio Taciano e sua família.
As trevas nocturnas empolgaram a Natureza, qual longo manto de crepe que descesse do firmamento sobre a Terra — desolada viúva — após a morte honrosa de seu esposo — o Sol — que se abismara no Ocaso como se este fosse um sepulcro no Infinito...
Quem atentamente seguisse o cavaleiro, após três horas de marcha acelerada, tê-lo-ia visto retroceder, e depois aproximar-se de um demolido alcáçar semioculto por uma das ramificações dos Alpes, a leste da Dalmácia.
Havia nesses escombros alguns compartimentos, do lado anterior, já invadidos por intonsos vegetais que lhes davam aparência selvática de cárcere abandonado!
Cláudio atou as rédeas do corcel, tirou-lhe o freio, para que pudesse utilizar-se das ervas abundantes no chão, e, após alguns momentos de imobilidade, para concatenar as ideias que o torturavam, esperou que decorressem as horas (que lhe pareceram séculos).
Caminhou cautelosamente, ora pela estrada real, ora por dentro da floresta que a margeava; avizinhou-se das terras de seu próprio castelo, na linha divisória com o de Márcio Taciano, e ocultou-se em uma choupana abandonada havia muito pelos seus derradeiros habitantes.
Antes de se esconder lançou furtivo olhar para o Solar do Cisne, que, alvo e calmo, ficava a cavaleiro de verdejante colina.
Inexprimível dor lhe constringiu o coração, e fez que rilhasse os dentes, monologando:
— Lanço a consciência ao Averno!
Haja o que houver, libertar-me-ei deste pesadelo que me enlouquece!
Bruscamente emocionado e trémulo, distinguiu um vulto de homem, que, pelo trajar, reconheceu imediatamente descendo a encosta do alcáçar, Marcelo, seguido de fiel amigo — que jamais trai o ser humano — um cão, que o acompanhava sempre quando saía para empreender ligeiras excursões.
Era o denodado Plutão que seguia Marcelo, ansioso este por notícias do desventurado Cláudio...
Ao sair, zelosa pelo consorte adorado, disse-lhe Dioneia:
— Meu amigo, por que não vais acompanhado por Apeles?
— Nada receies querida!
Estou habituado a sair sozinho, desde a infância! Felizmente não tenho, nem fiz inimigos desde que aqui passei a residir!
Beijou a esposa e partiu em direcção do Solar das Sereias.

(1) Dalmácia — Região da Iugoslávia, à beira do Adriático, na parte oriental muito acidentada.
(1) Sarraceno — Nome dos muçulmanos da Europa e da África, na Idade Média; árabe, moirisco.
(1) Epiro — Região da antiga Grécia, ao sul da Macedónia, onde vivera o célebre oráculo de Dodona, uma de suas mais afamadas cidades.
(1) Tessália — Região leste da antiga Grécia.
(2) Morávia — Província da Checoslováquia, ex-Boêmia, cap. Brunn.
(3) Sicília — Ilha do Mediterrâneo, actualmente pertencente à Itália.
(4) Cleomenes — Estatuário ateniense (220 A.C).
(1) Numes — Génios ou deuses do Paganismo.
(1) Eros — Deus do Amor, na Grécia.
(1) Alea jacta est! — São palavras atribuídas a César, quando se preparava para passar o Rubicon, que é um pequeno rio que separava a Itália da Gália cisalpina.
(1) Brâmanes — Sacerdotes hindus que constituem a primeira das castas hereditárias da sociedade bramânica.
Acreditavam na Palingenesia ou Lei das Reencarnações.
(2) Nirvana é a destruição, a inércia, o Nada.
(3) Fénix -7— Ave fabulosa que renascia das próprias cinzas,
(1) A bússola, conhecida pelos chineses desde mais de dez séculos antes do Cristo, foi introduzida na Europa durante as Cruzadas.
(1) Campânia — Província da Itália meridional, capital Cápua.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 24, 2018 12:11 pm

LIVRO SEGUNDO - SONHOS FUNESTOS E REALIDADES PUNGITIVAS
Cláudio Solano, com o olhar sempre dirigido para o castelo do companheiro de infância, viu o vulto, seguido por seu fiel Plutão, aproximar-se do local em que se achava.
Uma onda de sangue lhe turvou a mente, e sob grande tensão nervosa que lhe eclipsava o raciocínio, empunhou um punhal corso que, desde muito, trazia à cinta, com precauções excessivas para que ninguém o descobrisse, nem lhe suspeitasse as intenções sinistras, e avançou alguns passos...
Marcelo, que ia em busca de notícias daquele que considerava amigo, ao abeirar-se do local onde estava escondido o tresloucado Cláudio Solano, teve um estremecimento inexplicável, advertido pelo rosnar de Plutão, de que algo perigoso estava iminente.
De súbito, sem que o suspeitasse, foi atingido por uma descomunal pedra, que lhe caiu às costas.
Cambaleou e, ainda sob a dor e na semiobscuridade, distinguiu um vulto de homem com o rosto velado por um lenço.
Por efeito, talvez, de mãos invisíveis, o lenço com que o criminoso buscava mascarar o semblante foi arrancado por brusca rajada do vendaval que então começava a cair e quando bem próximo se encontrava o agressor do inditoso Marcelo, a este pareceu-lhe reconhecer o seu mais leal amigo.
A dor moral daquela imprevista descoberta causou-lhe abalo tão intenso, que preferiu a morte a sobreviver a esse doloroso sucesso.
Logo após, sentiu a penetração do punhal, cravado
pelas costas, do lado esquerdo, atingindo em cheio o coração.
Por terra, estertorando, a golfar sangue e sob indizível impressão murmurou a custo, parecendo mais um prolongado soluço o que pronunciaria, pela derradeira vez, naquela existência:
— Cláu...dio por...que me fe...ris...te?!
A desditosa vítima, sem compreender a causa de tão brutal atentado, entrou em agonia, enquanto enfurecido, alucinado de dor, voltou Plutão ao Solar do Cisne, em vertiginosa carreira, com a cabeça ensanguentada...
Cláudio não teve ânimo de arrancar o punhal que cravara em Marcelo.
Depois de fitar, com desvairado olhar, o cadáver do desditoso castelão, pôs-se a correr em direcção aos escombros onde deixara o corcel em que iniciara a sangrenta viagem.
Fugia ele, com inexprimível pavor do local do desumano fratricídio; mas levava consigo o peso de bronze, de densidade inapreciável, de um remorso voraz que lhe havia de corroer todas as alegrias da funesta existência.
A impressão indefinível que lhe causara o traiçoeiro golpe, vibrado no incauto Marcelo, ficou-lhe gravada indelevelmente no íntimo, como se o seu próprio coração houvesse sido apunhalado.
Não lhe sairia mais da mente aquele trágico instante que se tornou eterno!
Momento dramático e funesto que não o deixaria jamais fruir a maior de todas as venturas, que ele tarde compreenderia: a paz espiritual!
Houve outro detalhe que, desde então, nunca mais se lhe desvaneceu do íntimo, e lhe fustigava a alma incessantemente.
Quando o desventurado Marcelo e Plutão se aproximaram do fatídico local onde ele se ocultara, o homem não o descobrira; mas, o cão, com a argúcia com que fora dotado pela Natureza, o pressentira, rosnando significativamente antes que o enxergasse...
Queria ferir o antigo companheiro sem ser percebido nem reconhecido, mas, misteriosa força lhe arrancou do rosto o lenço albanês, com que o velara, patenteando-o, totalmente, ao que fora sacrificado à sua insânia...
Quem o havia feito?
Ignorava-o. Havia muito, notara ele a aversão que lhe votava o cão.
Marcelo, bom e perspicaz, considerava-o desvelado amigo, porém, não sabia definir a hostilidade demonstrada pelo fiel irracional.
Este manifestava incontidos impulsos de ferocidade ao perceber a presença de Cláudio Solano; mas, naquele instante trágico, fitou-o de outra forma: havia verdadeira angústia naquele olhar límpido e sincero!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 24, 2018 12:11 pm

Fitou-o com verdadeira dor, percebendo que o perverso e desleal amigo estava à espera do bondoso senhor que o amimava como se fosse um verdadeiro afeiçoado, cuja amizade enchia-o de contentamento.
O homem — o chamado rei da Criação — ainda não havia notado nenhuma anormalidade no proceder de Cláudio; o cão, o irracional, pois, foi o primeiro ser vivo a constatar, através do olfacto psíquico, a presença do criminoso oculto na cabana em ruínas.
Encontraram-se, por momentos, no mesmo local, em atitudes opostas, o homem e o cão; o chamado irracional mostrava-se desvelado e leal; o ser pensante, bárbaro e impiedoso!
O quadrúpede manifestava generosidade e nobreza de sentimentos,
e o homem, hipocrisia e crueldade. Onde havia, pois, a superioridade do homem sobre o animal domesticado?
Ali, pois, naqueles indefiníveis instantes, desventuradamente estavam em confronto a meditada crueldade do homem e a comovedora afeição do animal.
Eclipsara-se a fagulha celeste na alma do mísero homicida, que já havia terçado armas em defesa do túmulo de Jesus (embora no grau de aventureiro e não de crente), tendo, porém, proferido um sagrado juramento em nome de Deus, de S. Miguel e de S. Jorge:
— "Prometo ser piedoso, valente e leal!" (1)
Ele que jurara ser fiel ao Mestre da Galileia, procedera tão indignamente quanto o Iscariotes, armando o braço para cravar em um coração afeiçoado e sincero um punhal de dupla criminalidade — moral e material — pois ceifara uma vida generosa e premeditara a posse de uma esposa tão fiel e nobre quanto Sita. (2)
Como elucidar a maravilhosa intuição que possuía Plutão, percebendo, antes que tal pensamento germinasse em um cérebro humano, a presença do adversário Cláudio Solano?
Como pudera ele penetrar-lhe o íntimo, devassando no recôndito do coração a premeditada perfídia, antes que fosse ela exteriorizada?
Por que se enfurecia o cão ao vê-lo ingressar no Solar do Cisne, pacificamente, antes que se patenteassem os seus pérfidos sentimentos, os seus sinistros projectos?
Que desconhecida faculdade psíquica possuía ele — ignorada da ciência terrena — desvendando no amigo de ontem o desalmado adversário de amanhã?
Quantos enigmas, ainda insolúveis, a serem elucidados pelo envaidecido rei da Criação que, no transcurso dos séculos, vai erguendo não o decantado véu de Isis (3), mas uma espessa e quase impenetrável cortina que intercepta a claridade deslumbrante do sol da realidade!
O irracional e o homem, por mais que combatam essa asseveração os orgulhosos do mundo científico, têm uma alma imortal, que progride, no decurso dos séculos, através de penosos estágios.
O cão, pois, possui faculdades apreciáveis, sentimentos afectivos, nobres, predominando o da fidelidade que, infelizmente, é o menos desenvolvido nos seres humanos primitivos ou pouco evoluídos.
Ser fiel ao nosso próximo, é possuir uma das mais excelsas virtudes, a que faltou até em alguns dos discípulos do Mestre dos mestres — Jesus!
Ter lealdade é ser amigo dedicado a outro ente, incapaz de o ludibriar; é ser infenso à traição — um dos mais condenáveis delitos morais.
Jamais um cão trai o seu senhor; antes, é capaz de se arrojar sobre um malfeitor e imolar a vida para defendê-lo!
No entanto, o homem, o racional consciente, muitas vezes é infiel à consorte, aos amigos, aos próprios irmãos e pais que lhe insuflaram a vida, educaram e alimentaram, que por ele se sacrificaram com heroicidade ignorada e inexcedível.
Revela-nos o cão notáveis virtudes:
lealdade, submissão, denodo na defesa do amo, abnegação no cumprimento de seus humildes misteres, no sacrifício da vida em prol da do que o criou e alimentou.
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 24, 2018 12:11 pm

Não patenteia servilismo, e sim reconhecimento e fidelidade que não se podem confundir com aquele: um é treva, outro luz.
Plutão, à semelhança da maioria dos animais de sua raça, tinha faculdades anímicas dignas de reparo, sobressaindo a da vidência e a da percepção sensitiva.
O cão enxerga nas trevas, nos abismos da Terra e das almas, e, quase sempre, em vez de fixar a vista para devassar o ser humano, utiliza o olfacto, que pressente as irradiações de quem se lhe aproxima, percebendo se são maléficas ou benéficas, as de um amigo ou adversário, pois, para ele, há como que o suave aroma de uma rosa ou a exalação nauseante do perverso que concebe espantosos delitos!
O olfacto para ele é, assim, uma segunda visão, uma percepção psíquica de grande potência, um verdadeiro por tento com o qual foi dotado pela Natureza.
A sagacidade do cão é às vezes superior à do homem.
Eis a triste conclusão a que chegamos:
ultrapassa a dos mais famosos dos investigadores racionais.
Essa emanação psíquica, pressentida pelo cão, constitui a chamada intuição que atua também a distância, nos vegetais e em todos os seres, afectando-os, causando-lhes, em numerosos casos, o aniquilamento da vida orgânica, fenómeno esse constatado há muitos séculos, pelos romanos, que lhe deram o nome de jetatura.
Plutão, após a heróica e fracassada defesa que fizera do amo, voltou, também ferido, ao Solar do Cisne, onde sua chegada, com a cabeça contundida e em sangue, sozinho, causou enorme apreensão a todos os habitantes do alcáçar!
Cláudio, desatinado, mas, no veemente desejo de dissimular o seu abominável fratricídio, mal ouvira as derradeiras palavras pronunciadas pelo desventurado agonizante, pôs-se a correr, desviando-se da estrada real, emaranhando-se, por vezes, nos caules das árvores em busca do local onde deixara atado o cavalo, sem, contudo, atinar com o paradeiro.
Um aturdimento de embriaguez lhe obscurecia a mente: dir-se-ia que suas pernas vergavam mal firmes sobre o solo, dificultando-lhe a fuga que desejava encetar em direcção leste, da Ilíria (1), que conhecia minuciosamente.
Súbito, irrompeu um vendaval, sacudindo com violência as árvores. Empurrado quase pelo tremendo furacão, aumentou sua velocidade na fuga, vencendo incalculável distância do local do crime, até que, exausto, tombou sem sentidos no solo, inundado, sob o ribombar dos trovões, que, dir-se-ia, o amaldiçoavam e com açoites líquidos o atingiam quais bombardadas aéreas, arrojadas do Infinito desejoso de punir o hediondo delito.
Assim permaneceu inconsciente até ao amanhecer, com as vestes encharcadas, a boca desmesuradamente aberta, tendo certamente sorvido tragos da enxurrada.
Sentia dolorido o corpo e, embora estivesse com as roupas embebidas de água e lama, era presa de sede intensa e de incoercível tremor da cabeça aos pés; dor compressiva, na cabeça, dava-lhe a sensação de um arrocho de ferro esmagando-lhe a fronte:
julgou que fosse enlouquecer!
As ideias estavam confusas; mas, julgava ouvir uma velada voz, não com os órgãos auditivos, e sim percebendo, pela vez primeira, a existência de algo em seu organismo que possuía aquela faculdade — a de entender o que não vinha do mundo material dos sons, mas, certamente, da sua própria alma — da qual duvidara até à véspera daquele dia fatídico.
E assim esteve longas horas, qual acontece sempre aos transgressores das leis divinas e sociais.
Afinal, um lenheiro, tendo-lhe percebido os gemidos, desviou-se da estrada principal e encontrou-o, escaldante de febre, semimorto, sobre a relva alagada naquela região, distante do Solar das Sereias cinco milhas marítimas, mais ou menos.
Compadecido do desconhecido viajante, aquele agreste morador de rústica choupana, pouco afastada do local, providenciou para que fosse Cláudio conduzido para um improvisado leito, onde esteve por muito tempo, quase inconsciente, delirante, e, por vezes, enfurecido, parecendo prestes a perder a razão, escorraçando, em brados, um inexistente animal.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 24, 2018 12:11 pm

Marcelo, desde a confissão de Cláudio Solano, em noite inolvidável para ele e sua estremecida companheira de existência, percebeu que secreto dissabor o dominava, desvairando-o, pois nunca lhe ouvira blasfemar e patentear tanto menoscabo pelos deveres morais.
Dioneia compartilhava de tais temores, maiores do que os de seu consorte, sabedora que era da causa secreta dos cruciantes padecimentos do senhor do fatídico Solar das Sereias.
Por vezes, durante a noite de vigília, desejara confessar ao esposo:
— Marcelo, não te penalizes tanto pelo revoltado Cláudio, porque não merece a tua compaixão.
Afasta-te daquele hipócrita, que deve estar projectando alguma vilania contra o seu melhor amigo!
Um tremor, porém, a detinha:
Marcelo exigiria decerto a confissão integral do que o traidor lhe havia dito, e, embora sabendo-o compassivo e justiceiro, temia, contudo, um violento impulso de dignidade ferida, um desforço — aliás merecido — contra quem atentava assim contra a honra do seu lar.
Perplexa e insone, optou pelo silêncio, esperando o afastamento de Cláudio para revelar a verdade ao marido.
Aguardou, pois, com receios bem fundados, o escoar do tempo com seus consequentes sucessos.
Esperaria o nascimento do primogénito, já previsto para breve, e, tão logo se verificasse a partida de Cláudio Solano, contando com o natural arrefecimento da indignação do consorte, confessaria a verdade, sem subterfúgios.
Na tarde em que vira o esposo partir em direcção ao Solar das Sereias, quis seguir-lhe os passos; mas ele a isso se opôs, mesmo que fosse na sege, pois a região em que residiam era bastante acidentada e receava um abalo prejudicial ao estado em que ela se encontrava.
Dioneia viu-o sair do lar acompanhado pelo vigilante e inseparável Plutão.
Marcelo preferiu fazer o trajecto a pé, como sucedia sempre que se dirigia à residência do amigo de infância.
Dioneia, apreensiva, antes que dele se apartasse, aconselhou-o:
— Marcelo, se Cláudio quiser reproduzir as loucuras que anteontem aqui proferiu, não faças comentários, e retira-te logo, pois temo que ele esteja com as faculdades mentais desequilibradas...
— Tens razão, minha Dioneia; mas, não o temas, porque sempre fomos amigos dedicados, e não posso conceber o pensamento de que ele, mesmo desatinado, me cause algum dano...
— Jesus que te proteja e ao desventurado Cláudio! — exclamou ela em lágrimas, tomada de inexplicável e súbita emoção.
Marcelo beijou-a na fronte e partiu, ansioso por saber notícias daquele a quem considerava amigo, tendo dito à consorte, para tranquilizá-la:
— É provável que Cláudio já esteja em viagem desde o alvorecer.
Quero que faças uma prece fervorosa a Jesus em sua intenção, minha querida!
Havia muito que Dioneia fizera reparo na atitude suspeita de Cláudio; porém, guardava disso verdadeiro sigilo, para não desgostar Marcelo.
Ela, que pertencia a uma família essencialmente cristã, sentia indizível conforto após as preces ao Redentor; mas, naquela tarde em declínio, sem atinar com a origem, sentia-se invadida por um desconsolo que lhe trazia pranto aos olhos. Ansiosa aguardava o regresso do adorado esposo, suspeitando, sem saber por que, que talvez jamais essa ventura lhe seria concedida!
Assim, com os olhos aljofrados de lágrimas, foi ao encontro do seu progenitor e de Apeles, dizendo-lhes:
— Não estou tranquila, desde que Marcelo partiu para o Solar das Sereias!
O trajecto não deixa de ser longo, está ameaçando temporal, e eu receio que lhe suceda algum acidente.
Túlio Isócrates tentou dissipar-lhe a inquietação; porém, não o conseguindo, comunicou a Márcio Taciano as apreensões da filha e prometeu que ele e Apeles iriam ao encalço do genro, decorridos alguns momentos.
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