Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 01, 2018 11:23 am

Se Dioneia aproximar-se deles, será acintosamente expulsa!
Quem, pois, lhe estenderá mão fraterna, tendo ela agora um caviloso enamorado, causador da penúria e desamparo, a fim de que aceite o afecto violento que inspirou o crime do incêndio, amparando-a em tão dolorosa conjuntura?
Quem a acolherá, sem interesses inconfessáveis, e ao pequenino Lúcio?
Quereis rolar no abismo do suicídio, à hora precisa em que mais necessária se vos torna a vida terrena?
— Não depende exclusivamente de mim a execução do que me aconselhais...
— Tereis o patrocínio do Céu para que se cumpra a reparação, embora a vossa aliança com a irmã Dioneia pareça justificar a perfídia forjada contra ela; mas a verdade surgirá qual astro radioso em pleno azul celeste, à hora precisa, principalmente nos derradeiros instantes de vida planetária de ambos!
"As mulheres aspiram à beleza física, tal qual as abelhas o néctar das flores; mas a formosura constitui uma das mais arriscadas provas terrenas, e raras são as que saem vitoriosas das verdadeiras ciladas em que são envolvidas, no trama cerrado do orgulho, da vaidade e do desejo de sedução.
Os olhares de todos os homens as contemplam enlevados, com lampejos de cobiça, que, muitas vezes, lhes causam inquietações, olhares envenenadores, de eflúvios tão subtis quanto dominadores, de irradiações às vezes abrasadoras que levam ao desvario as suas vítimas, impondo desejos impuros às que eram, até então, castas e fiéis.
Dioneia, porém, com o tirocínio espiritual que já adquiriu, tendo falido por diversas vezes e já severamente punida, tornou-se invulnerável à sedução, apesar de vítima da calúnia."
Silêncio reinou depois na rústica residência em que se encontravam Dioneia e Cláudio, corpos inertes sobre desconfortáveis leitos e almas crucificadas no Espaço, elevadas das trevas planetárias, semimortos momentaneamente.
A voz suavíssima da Entidade protectora retomou o fio da exposição que, então, consagrava aos desditosos aliados por vínculos solenes:
— Agora, apresenta-se o ensejo do definitivo resgate de penoso débito, aliando-vos e transformando o Solar das Sereias (ao qual deveis dar uma denominação cristã) em remanso de paz, acolhimento fraterno, preces, instrução e virtudes evangélicas.
Pensastes já, irmã Dioneia, em retornar ao Solar do Cisne, onde vos aguardaria a mais cruel das decepções: estar ele em poder ilegal de um indivíduo sem escrúpulo e capaz de todos os crimes para não o perder; mas, não deveis fazê-lo, porque já pertence ao caluniador parente de Geleira, ilicitamente constituído verdadeiro proprietário do que, mais tarde, seria vosso ou de vosso filho.
Durante vossa ausência houve a trama odiosa urdida:
ficastes sendo a responsável pelo assassínio de Marcelo, tendo ele afirmado que, inúmeras vezes, vos viu em colóquios amorosos com Cláudio Solano, no extremo do extenso parque que limita a ala direita do castelo que pertencia aos pais do vosso esposo, sempre que este se ausentasse com o genitor para compra de mantimentos, em Zara, o que sucedia com frequência.
Portanto, não deveis repelir a proposta de consórcio de Cláudio Solano, na intenção de vos tirar da difícil contingência em que vos encontrais.
Essa aliança será quase fraterna, a fim de que possa ser restituído a Lúcio Taciano o que lhe foi usurpado outrora, e ainda ultimamente com a morte de seu pai.
Cláudio dentro em pouco tempo perderá a vista totalmente, e Deus permitiu que se efectue um enlace que a muitos parecerá originado pela cobiça de opulência, mas, em verdade, uma prova máxima, um sacrifício indizível, a fim de salvar uma alma do suicídio.
Já foi metamorfoseado o criminoso amor de Cláudio Solano em afeição pura; doravante, ele substituirá vosso extremoso pai e o desvelado Apeles.
— Como hei-de olvidar ter sido ele quem ceifou a minha inigualável ventura? — murmurou Dioneia, numa linguagem somente perceptível aos ouvidos quintessenciados.
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 01, 2018 11:23 am

— Como pôde Jesus perdoar seus algozes, filha minha?
Não sois cristã?
Não tendes no espírito, consagrado ao Bem e à Virtude, toda a lúcida percepção de vossos deveres terrenos e siderais?
Não recebestes a partícula fúlgida de uma faculdade extraplanetária, que demonstra aliança da criatura humana com a Divindade, igual à das pitonisas do Templo de Héstia e de muitos outros seres humanos?
"O sacrifício redime todos os crimes, saneia a alma, iluminando-a com a bênção divina que recai sobre quem o pratica.
Compreendemos a pureza de vossos sentimentos de repulsa contra o falso amigo, que causou a vossa ruína e a destruição de vossa ventura.
E se eu vos disser que essa tremenda expiação produziu refulgências inextinguíveis em vossa alma? Irmã, a predominante aspiração de todos os seres planetários é a da conquista da felicidade sobre a Terra; no entanto, nesses períodos áureos da existência terrena, o Espírito fica estacionado, qual corcel que, tendo de empreender longuíssima trajectória, imobilizasse o galope e fosse indiferente aos acidentes do cavaleiro."
— Então, Mestre — balbuciou Dioneia — a ventura terrena prejudica a alma humana?
— Sim, minha irmã, quando, na fase afortunada da vida, a criatura não se lembra dos que se encontram em condições opostas, não se compadece dos que sofrem, tornando-se egoísta, olvida seus deveres cristãos, ou morais; aquela, porém, que, apesar de desditosa, não é indiferente ao sofrimento alheio, buscando atenuar a dor do próximo, auxilia a aligeirar o peso do madeiro das provas que curva o desditoso para o solo, tal criatura marcha definitivamente para o Infinito.
Aquele, porém, que tudo entesoura, acumulando haveres (muitas vezes mal adquiridos) e se torna arrogante, no desejo de esmagar os direitos dos que não se acham em idênticas condições, tornando-se despótico e injusto, tudo confiando nos cabedais que possui, esse enegrece o espírito e faz jus a dolorosas punições.
"Os bens materiais podem ser causadores de felicidades ou desditas, tal o destino que lhes dêem os seus possuidores.
As moedas não são sempre fontes do Mal, pois com elas podem os seus detentores socorrer infelizes, suavizar padecimentos.
Infelizmente, cara irmã, a opulência quase sempre forja egoístas e prepotentes, que se consideram acima da Humanidade e dos desígnios do próprio Criador do Universo!
Raros os seres que dão destino útil ao empréstimo que o Destino lhes outorga (beleza e bens de fortuna) e se lembram dos que não os têm, e que, sendo seres humanos, vivos, sujeitos às misérias orgânicas, devem merecer o amparo e a protecção dos que podem dispensá-los sem as apreensões do dia imediato, que tanto supliciam os pobres e desditosos.
Os que na opulência se mantêm dignos no proceder, simples, piedosos e compassivos, galgam muitos graus na hierarquia espiritual; enquanto que os que têm inversa conduta, julgando-se acima dos que não têm nenhum cabedal monetário, fazem jus às mais angustiosas penalidades.
Abençoai, pois, os períodos aflitivos da existência em que, no lar desprovido de recursos monetários, vistes vossa mãe em prantos e vosso pai humilhado, carecendo da quantia necessária à mantença do modesto domicílio.
A repulsa que sentis por aquele que, a despeito de todos os desvarios cometidos, é vosso comparsa de outrora, e actualmente companheiro de infortúnios, levá-lo-á ao suicídio, se o abandonardes; com o vosso apoio e o vosso prestígio moral, alçar-se-á às luzes divinas da virtude. Estais em pleno oceano proceloso da existência planetária, e tendes apenas, para salvação, uma cruz pétrea — imersa nas vagas revoltas das paixões e dos infortúnios — a da imorredoura Fé, e, segura em seus braços inquebrantáveis, podeis alçar-vos ao triunfo perene:
o da Redenção!
Apegai-vos, pois, ao Calvário da dor, dos sacrifícios e das imolações redentoras, que eleva o ser humano acima das borrascas da vida, às venturas eternas do Infinito!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 01, 2018 11:23 am

— Mas, se a alma é imortal — murmurou Dioneia — aliando-me ao homicida de Marcelo, este terá motivos de mágoas e até de odiar-me, o que para mim seria o supremo suplício moral!
— E quem vos afirma irmã querida, que haveis de perder a afeição de Marcelo?
Já não sabeis que este e os três imolados no recente incêndio foram coniventes em igual crime?
Buscai, na trama do Destino ou do próprio karma, a razão das aparentes injustiças que vos têm afligido:
a vítima de agora foi o algoz do passado sombrio.
"Não choreis, cara irmã.
Enfrentai, com ânimo sereno, os sucessos presentes e porvindouros, o nobre Marcelo já foi elucidado de todas as verdades referentes às suas peregrinações terrenas, e, espírito grandemente evoluído e prestes a alçar-se definitivamente às mansões siderais, não se revoltou com o que lhe foi revelado, relativamente às urdiduras do destino de ambos.
Ele, dilecta irmã, já se encontra em preparo para retornar à arena material, desejando seguir-vos as pegadas, aliando-se à vossa missão excelsa de amparar os aflitos e infortunados, disseminando o Bem em profusão pelos que vão ser companheiros de existência planetária, e perpétua será a coesão de vossas almas amigas.
Ele não ignora que, no passado, cometeu um homicídio e que remiu um débito execrando; está quite para com o Tribunal Perfeito.
"Aceitai, pois, o cálice de amargura presente, e, assim procedendo, fareis jus a sorver, também, a felicidade infinita nos séculos porvindouros!
Enviareis um emissário ao Solar do Cisne, para vos cientificardes de toda a desilusão que vos aguarda.
A trama urdida nas trevas, contra a irmã, por um desditoso e perverso embusteiro, vai ter consequências gravíssimas para os genitores do piedoso Marcelo.
Não julgueis o infortunado Cláudio um temível adversário, e sim um enfermo espiritual que necessita ser amparado.
Assim, transformareis aquele solar, agora fechado, em guarida de desditosos, em asilo dos desamparados, em refúgio dos perseguidos pela crueldade humana, em educandário para os filhos dos humildes agricultores, em recolhimento para os desventurados cristãos e todos os que o buscarem em aflitivos instantes!
Será a vossa penúltima prova grave, e ao mesmo tempo uma restituição que nosso irmão Cláudio tem a efectuar para com o pequenino Lúcio, o antigo possuidor de um solar deslumbrante! — sito no extremo da Grécia meridional.
Fareis, antes de aceder às propostas de Cláudio Solano, um apelo aos que deixastes, há trinta e seis meses precisamente, no Solar do Cisne, e somente então, após a resposta, poreis em vigor os conselhos que ora vos transmito.
Lembro que, enquanto aqui estiverdes, todas as precauções serão poucas, porque neste local, sem que houvésseis suspeitado, há adversários ocultos.
Compreendo o que ocorre em vosso íntimo:
a dor de vos encontrardes só para a batalha da vida, sem vossos protectores naturais que o Céu concede às criaturas humanas, e, além disso, desprovida de recursos pecuniários, sem o amparo de um braço amigo para vos defender e a vosso filhinho, derradeiro e maior tesouro sobre a Terra!
"Se bem cumprirdes os desígnios do Destino ser-vos-á comutada dolorosa pena, e concedida inesperada alegria.
Aquele por quem chorais tão sentidamente, aguarda o vosso retorno ao mesmo local onde ambos sofreram e também foram ditosos."
— Será crível que o amado Marcelo queira buscar outro lar no castelo maldito de quem lhe exterminou a vida e a felicidade?
Parece-me que não percebo a realidade... e vou enlouquecer!
— Deveis, antes, irmã querida, bendizer as Leis sacrossantas do Destino!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 01, 2018 11:24 am

Tudo, já vos disse, estava previsto:
o incêndio de vosso lar como outrora foi destruído o de outrem, crime no qual fostes conivente.
— Amigo desconhecido, assegurais que, obedecendo a quanto dizeis, continuarei aliada aos meus seres queridos... mormente a meus pais, a Marcelo e a Apeles?
— Sim, eternamente!
Quanto a Marcelo, tê-lo-eis ao alcance de vossos braços.
Soluço profundo ressoou no recinto, pela actuação do Espírito Dioneia no corpo inerte sobre o leito, e, debilmente, pôde ela murmurar de modo audível apenas para a Entidade que lhe falara:
— Obedecerei.
Todos os sacrifícios serão aceitos e consumados!
— Espero que sejais fiel à promessa que acabais de proferir, irmã Dioneia!
Jesus que vos abençoe e aos que continuam ao vosso lado.
Já vos revelei o que necessitáveis saber, pois merecestes estas orientações, por terdes sabido cumprir escrupulosamente os deveres morais e espirituais.
Estais apta para os surtos pelo Infinito.
Eia, pois, à luta, irmã Dioneia!
"Mais alguns segundos, e terei concluído o que careceis gravar em vossos corações:
as derradeiras e remissoras conquistas dependem de vossos esforços e do cabal desempenho de vossas lutas terrenas!
Agora, caros irmãos, é mister o devotamento e a imolação de vossos desejos para que seja culminado o exclusivo objectivo da vida humana:
a Redenção espiritual!
Saberemos, irmã querida, atenuar a vossa repulsa pelo desditoso que assassinou vosso fiel consorte, cometendo o mesmo acto condenável que aquele, em idêntica emergência, assim também fez, igualmente por vossa causa!
"Ninguém se alça do plano terreno, odiando a quem quer que seja, a nenhum ente humano, por mais abjecto que lhe pareça, por mais perverso que seja!
Se, pelos sentimentos que já possuis, não tiverdes a precisa coragem de amar o que vos fez infortunada, esforçai-vos por lhe conceder o mais sublime de todos os afectos, o que mais nobilita o ser pensante: a compaixão.
A imolação de vossos nobres sentimentos, que ides fazer, irmã, será dignamente recompensada."
— E, haverá maior mérito em unir-me ao assassino do meu adorado Marcelo, do que ficar em penúria, padecendo e trabalhando honestamente para a manutenção de meu filhinho?
— indagou Dioneia, tristemente, soluçando.
— Irmã, é louvável a vossa abnegação, desejando assumir a responsabilidade da manutenção do pequenino Lúcio; mas, não avaliais ainda as vilanias dos que pretendem desviar-vos do carreiro bendito da Virtude, todo eriçado com os acúleos da perversidade, das seduções falazes, das hipocrisias.
Saireis triunfante ou vencida?
Sois formosa em demasia, e os homens, de sentimentos corruptos, não estendem mãos protectoras à desventura com piedosas intenções, e sim com o desejo de desviar da vereda honesta, do caminho recto do Dever e da Virtude, atirando as vítimas ao lodaçal do meretrício.
Ides experimentar a realidade, infortunada irmã, ao despertardes na procelosa manhã que vai despontar no Levante.
Já relatei a dolorosa verdade:
o incêndio, no qual pereceram entes bem-amados, foi provocado por um desses vossos apaixonados, que, já tendo responsabilidades de família, planeou reduzir-vos à extrema penúria para vos render a seus impuros desejos, estirando para vós as garras de abutre da honra de muitas desventuradas vítimas de seus desvarios e de seus lúbricos instintos.
"Aqui, nesta região, só tendes um valioso amigo, embora humilde:
é o dono deste lar, a quem podeis confiar a mensagem que pretendeis enviar ao Solar do Cisne, já abandonado pelos pais de Marcelo! Ides experimentar a realidade.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 01, 2018 11:24 am

Enviá-lo-eis ao castelo de Márcio Taciano, e, após o seu regresso, haveis de capacitar-vos da lealdade das palavras que ora vos dirijo.
Nosso irmão Cláudio, por seu turno, também expedirá outro emissário ao Solar das Sereias, de onde virão dois fâmulos trazendo uma sege e recursos pecuniários para seu retorno ao domicílio."
— Meu maior desejo é deixar o mundo vil, e partir ao encalço de meus entes bem-amados!
— Não almejeis a Morte, antes do momento determinado pelo Destino, irmã querida!
Essa aspiração, contrária às leis do Céu, implica em revolta contra as Leis Divinas, e a mais acerba de todas as punições seria a separação prolongada de todos os seres que adorais com veemência!
"— Que delito comete aquele que deseja o termo de um rude sofrimento?
Reinou silêncio, durante o qual a radiosa Entidade espargiu sobre o corpo imóvel de Dioneia fluidos vitalizantes e saneadores.
Após, prosseguiu, respondendo à inconsolável adormecida:
— A vida é outorgada aos seres humanos para resgate integral de suas transgressões às Leis sociais e siderais.
Como, pois, antes de ressarcir suas culpas, poderá alguém ingressar no Mundo espiritual, deixando incompleta sua missão terrena?
Que mérito há para um general que, em pleno campo de batalha, em vez de lutar com heroicidade, para a defesa da Pátria e da família,
debandasse com os seus combatentes, sob pretexto de poupar vidas e sofrimentos aos possíveis feridos?
Que mérito alcançaria ante a Pátria, que o havia incumbido da arriscada, porém valiosa missão, confiando em seus esforços e actos de bravura?
Não consideraria pusilânime tal guerreiro?
Não seria ele punido severamente pelo governo que o enviara à luta?
— Mas não há mérito em fugir às batalhas, em vez de arriscar incontáveis vidas, de parte a parte?
— Podeis conceber a ideia de que haja maior heroicidade em poupar a vida aos invasores vitoriosos nos campos dos vencidos, do que em defender alguém o pátrio solo, o lar em que nasceu?
— Não há mérito na abnegação?
Eu não desejo entregar-me aos vencedores, e sim partir ao encalço dos que muito amo, no plano espiritual, até que possamos aliar-nos, perpetuamente, nas Mansões Superiores.
— Há valor inestimável na abnegação, na imolação da vida corporal, culminando um nobre objectivo — salvar náufragos ou retirados de um incêndio, sendo útil ao próximo, e não para evitar os próprios sofrimentos.
Neste caso, a morte voluntária representa covardia moral, deserção das fileiras, egoísmo pessoal.
Se partirdes, irmã, antes do desfecho determinado pelo Destino, sofrereis quando vos lembrardes do pequenino Lúcio, saudoso de vossos afagos, chorando em mãos hostis; verificando que havíeis feito a entrega do mais precioso dos tesouros que Deus concede às esposas — um filhinho, frágil criaturinha, aos azares da vida incerta, ao léu da sorte, em habitação estranha, talvez curtindo fome e maus-tratos.
Então, passaríeis por verdadeira tortura, inqualificável martírio moral!
— Não! Ele voltaria ao Solar do Cisne, onde seria tratado com carinho pelo avô paterno, que é boníssimo e compassivo...
— Já vos afirmei que ele e a esposa dispuseram do solar, e estão em lugar distante.
— O Solar do Cisne não pertence, legalmente, aos herdeiros?
— Tudo está consumado.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 01, 2018 11:24 am

Além disso, querida irmã, sem o vosso amparo maternal, insubstituível no plano material, o pequenino Lúcio seria vítima, como o foi seu nobilíssimo progenitor, de algum desumano delinquente, empenhado na posse do que lhe restaria e à desditosa Dioneia:
uma jeira de terra...
— Quanto são severas as Leis Divinas!
— Se assim não fora, cara irmã, os atentados à vida e à propriedade alheia seriam mais numerosos.
No planeta em que vos encontrais, não há propriamente seres perversos, e sim pouco experientes, que, no início dos ciclos planetários, cometem desatinos e arbitrariedades.
— Deus, Pai clementíssimo, não se comove com os sofrimentos de seus inditosos filhos?
Houve, por instantes, novo e gélido silêncio, que penetrou as almas aprisionadas naquele modesto recinto, que parecia repleto de luar, provindo da Entidade orientadora de Dioneia nesse difícil e crucial instante.
Poucos momentos decorridos, com extrema suavidade, o Emissário celeste respondeu à mal-afortunada ouvinte:
— Deus sofre com os desvios criminosos de seus filhos, e não os abandona às próprias forças; ampara-os, por intermédio de seus Emissários, como sabeis que os há, em falanges numerosas, pelo Universo todo, para incitarem os desditosos à prática do Dever, da Honra e da Virtude!
A punição é necessária a todos os seres humanos, sem a qual os crimes seriam incentivados pela ausência de Justiça; a punição merecida é qual acicate que impele o corcel à marcha vencedora, que o fará atingir o extremo da viagem, a fim de que possa repousar após as fadigas de longa trajectória a que fora submetido, aquilatando-se assim a sua resistência e a sua agilidade!
Desventuradamente, os habitantes da Terra ainda não prescindem dos rigores da Justiça.
Este planeta é um centro de expiação, um sanatório espiritual onde convergem os Espíritos inexperientes, com predisposições a todos os crimes, sujeitos a todas as paixões condenáveis.
Portanto, só lentamente vai cada um despojando-se dos defeitos predominantes e realizando, através dos milénios, sua própria redenção.
Imaginai, cara irmã, se não houvesse repressão ao Mal; se todos os delinquentes fossem perdoados sem uma justa punição; aqueles que se apoderassem indevidamente do alheio, dos sacrifícios de nossos semelhantes, e exterminassem entes laboriosos e dignos, serviriam de exemplo e incentivo funesto para os que vissem prosperar com o fruto do labor alheio, e almejariam imitá-los.
É, pois, a Justiça, a Témis divina, quem há-de triunfar sobre a Terra, no galopar vertiginoso dos séculos, quando todos seguirem a doutrina do Nazareno, tornando-se incapazes de transgredir os Códigos Celestes ou terrestres!
O perdão, sem a justa reparação do crime perpetrado, representa uma injustiça clamorosa para os prejudicados.
Todos querem Justiça, a começar pela criança que, ao primeiro motivo, corre aos braços maternos, queixando-se do que alguém lhe causou de maléfico, a fim de que a genitora aja em seu benefício, ávida de protecção, baseada nesse direito absoluto, almejado por todas as criaturas de recta consciência!
É mister, pois, que a Justiça comece no lar, estendendo-se à sociedade em geral e finalize nos planos etéreos, nas regiões siderais, até que os Espíritos, despojados de todas as máculas e de todos os delitos, possam agir com a missão de Enviados deíficos.
O perdão, sem que haja o resgate do delito cometido, predispõe logicamente o indivíduo à reincidência, pois sabe que nada lhe sucederá de desagradável, e, desde então, solta as rédeas do livre-arbítrio, transgredindo todas as Leis Divinas e humanas, acobertado por essa imunidade.
Toda a misericórdia celeste, porém, consiste em não castigar eternamente o delinquente, não sendo insensível à dor dos criminosos, ao azorrague do remorso, que os leva ao arrependimento, ao Direito e à Virtude.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 01, 2018 11:24 am

Para a Justiça Suprema, não há precito, crime irremissível; ela não abandona os delinquentes ao impulso desordenado das paixões; a todos proporciona um desvelado amigo (do berço ao túmulo), um guardião que lhes sugere conselhos paternais.
— Como, pois, poderei olvidar o agravo que meu coração recebeu, e perdoar a quem aniquilou uma vida que, para mim, representava um dos maiores tesouros que Deus me concedeu?
Não revelaria esse esquecimento uma injustiça a tantos corações feridos, agravada com a odiosa aliança nupcial que me foi indicada?
— Não, cara irmã, o que vos aconselhamos é o modo de conseguirmos melhorar a vossa actual condição material.
Não guardeis rancores contra quem se tornou delinquente por vosso amor menosprezado; amortecei o desejo de vingança, certa de que Deus não deixará de exercer sua infalível Justiça.
"Vossos espíritos constituem falanges inseparáveis, há muito ligados por acções meritórias e várias arbitrariedades.
Após inúmeras transgressões, no escoar dos evos, chegastes, todos vós, à era bendita das reparações colectivas, dos sacrifícios redentores, das abnegações sublimes.
Fostes elucidada sobre diversas tramas do passado sombrio.
Tendes conhecimento integral dos crimes perpetrados antigamente, com repercussão no presente.
Estais, agora, no limiar de uma estrada que teve uma de suas origens na Trácia (1) e se bifurca, podendo conduzir-vos a duas regiões diferentes:
à dos sofrimentos superlativos ou à das reparações perenes, que vos darão o direito de remir vossos desvios morais e reunir-vos a todos os vossos entes bem-amados..."
— Quero resgatar todos os meus crimes — murmurou flebilmente, Dioneia, e, com grande surpresa, a mesma expressão dolorosa foi emitida por Cláudio Solano, no aposento contíguo.
— Irmã querida, a dor é o escopro que afeiçoa e alinda o mármore divino da alma.
Se ficásseis no Solar do Cisne, vivendo acarinhada pelo esposo, ao abrigo de qualquer penúria, vosso espírito ficaria em completa letargia, paralisado o progresso da alma, porque as venturas não impulsionam a criatura para a Luz e para Deus!
Deveis, por isso, agradecer ao Criador e Pai o ter permitido que houvesse ensejo para aquisição de eternas experiências, que facetaram o diamante celeste de vossa alma, dando-lhe ensejo de poder alçar-se às maravilhosas regiões onde se congregam os conversos ao Bem, os triunfantes das provas planetárias, os remidos e purificados pela Dor!
Tendes que volver à Dalmácia onde muitos dissabores vos aguardam, provindos do Solar do Cisne.
Sem embargo, irmã Dioneia, tendes de compadecer-vos cristãmente de todos os que agiram nas trevas, todos os que foram detractores e companheiros de romagem terrena, de todos os que tentarem prejudicar-vos e ao vosso filhinho.
Irmã, aceitai o cálice de amaritudes redentoras!
Finalizo minha longa dissertação, dirigindo veemente apelo em benefício do infortunado irmão que se encontra neste lar, à espera da sentença que será proferida por vossos lábios; compreendereis, mais tarde, que ele é uma alma isolada e incontentável, que, durante o defluir dos séculos, tem nutrido vários ideais, que se desfazem qual neblina nos píncaros das serranias, e consagrado em diversas existências profunda e menosprezada afeição à cara irmã, que, agora e finalmente, deverá auxiliá-lo a galgar o cimo do Calvário que termina nas paragens siderais!
Meu apelo é dirigido à nobre irmã, para que o leve na devida consideração:
estendei a vossa mão tutelar a este desditoso irmão, salvando-o do sorvedouro do suicídio, encaminhando-o para o carreiro áspero e bendito da Redenção, e bem assim a todos os outros peregrinos que se vos apresentarem no decorrer de vossa actual romagem planetária, e compreendereis quão infinita é a misericórdia celeste.
Haveis, quando obtiverdes o triunfo definitivo, de abençoar todas as vossas amarguras.
O carreiro do Bem é cheio de escolhos e de víboras que ferem os pés dos que o transitam.
No entanto, as almas valorosas não recuam nos instantes de árduas mortificações, não voltam ao ponto de partida depois de encetar a peregrinação dolorosa, e, apesar de todos os percalços, de todos os abismos que for mister transpor, vencerão toda a sorte de obstáculos e de decepções!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

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Subitamente aquele laço espiritual que entrelaçava os corpos etéreos de Dioneia Isócrates e Cláudio Solano esfacelou-se, e ambos se apartaram, reentrando nos organismos materiais dos que pareciam adormecidos, ou, antes, desfalecidos sobre os leitos humílimos.
Já, então, os alvores matinais penetravam nos interstícios das janelas do modesto abrigo.
Dioneia, instintivamente, alongando o braço direito, procurou o filhinho.
Despertou então bruscamente, elevou o pensamento ao Criador, e murmurou, debilmente:
— És o meu derradeiro tesouro sobre a Terra.
Estou só para a batalha da vida, sem um arrimo familiar, tendo por único esteio a Fé em Jesus, a protecção do Céu.
Basta-me, no mundo material, apenas tu, meu filhinho adorado, e, no Infinito, uma falange de amigos.
Incoercível soluço lhe arfou o seio opresso.
De tudo quanto ouvira enquanto sua alma se exteriorizara da matéria, apenas lhe restava uma vaga intuição, uma indefinível reminiscência de que novos pesares, outras adversidades a aguardavam.
Lúcio despertara e, percebendo que sua mãe soluçava, apertou-a nos débeis bracinhos, contornando-lhe o alvo pescoço, chorando, assustado.
— Mãezinha! — pôde ele dizer, naquela linguagem balbuciada que, para os corações maternos, vale mais do que inspirado poema de alguma celebridade mundial.
Dioneia retribuiu-lhe a caricia angelical e, ainda com os olhos enevoados de pranto, murmurou com o pensamento elevado para o Alto:
— Jesus, compadecei-vos desta desventurada mãe.
Aumentai-me as dores, mas poupai esta cândida criancinha das desventuras terrenas!
Tomai-a sob a Vossa protecção.
Encaminhai, para Vós, os seus passos ainda vacilantes.
Tomai este adorado entezinho para discípulo e eterno protegido!
Abençoai-o, dirigi-lhe os pensamentos, a fim de que estes sejam nobres e puros.
Seu pálido rosto tinha a aparência de uma efigie marmórea, aljofrado de lágrimas ardentes.
Soluçou, ainda por momentos, presa de grande emoção; aos poucos, porém, fitando o filhinho, embora com os olhos lacrimosos, ergueu-se do leito, tendo a impressão de haver tomado parte em renhida batalha, durante a noite trágica do incêndio.
Após cuidada a higiene, foi à procura do dono daquele lar que a abrigara, e, encontrando-o, assim lhe falou, em tom que revelava a emoção total da alma:
— Senhor, muito vos agradeço a acolhida que me destes, na hora mais sinistra de minha existência.
Estou aniquilada, senhor, mas, necessito agir, em benefício de meu filhinho!
— Senhora, somos cristãos, e temos o dever fraterno de socorrer-nos mutuamente nos instantes penosos — murmurou Clodoveu de Xerxes, que era o bondoso habitante da choupana a que Dioneia fora transportada.
Julgávamos que houvésseis desprendido o último alento, senhora, tal a vossa aparência.
Por duas vezes, minha companheira recuou de vosso dormitório, supondo-vos já inanimada.
Dir-se-ia que ressuscitastes.
— Para prolongar o meu martírio, senhor!
— Se tal suceder, será a vontade suprema, senhora, e a ela deveis submeter-vos, sendo grata à protecção do Céu!
Dioneia, com os olhos sempre enevoados de pranto, depois de expressar de novo o seu reconhecimento pela acolhida que lhe fora dispensada, interrogou-o, com a voz entristecida:
— Já fostes ao local do sinistro, senhor?
— Sim. Tudo está destruído, totalmente.
Suspeitei, até, que houve intuito criminoso no incêndio que devastou vosso lar.
— Terei acaso secretos e malfazejos adversários? Porque tivestes semelhante pensamento?
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 01, 2018 11:24 am

— Porque, em todos os crimes, há sempre um vestígio denunciador.
Pouco distante dos escombros, encontrei uma bilha com indícios de nafta que, julgo eu, deve ter sido despejada no local mais propício para provocar o incêndio:
o alpendre próximo ao vosso dormitório, onde havia uma lâmpada acesa, segundo dissestes ontem...
— Deus fará justiça, senhor, pois não há quem O iluda.
Dos que lá perderam a vida ficou algum vestígio?
— Senhora, é sumamente doloroso o que vos possa dizer.
— Desejo saber a verdade por mais cruel que seja!
— Eu e minha mulher, que muito já vos admira, estivemos nos escombros, e, após a comunicação que fizemos às autoridades de Tessália, foram retirados alguns ossos, conduzidos ao cemitério e ali sepultados em humilde cova, esses únicos despojos não identificados das abnegadas vítimas.
Dioneia, depois da expansão do intenso sofrimento moral que a oprimia, disse com emoção:
— Estou a braços com a penúria, senhor.
Resta-me, de tudo quanto eu e os que me eram caros possuíamos, o terreno onde estava construído o humilde lar paterno, isso porque suponho que um cofre de valores, de meu filhinho, tenha desaparecido no incêndio.
— Nenhum indício foi encontrado de tal cofre.
— Peço-vos perdão do muito que vos incomodei, senhor, e, se algum dia melhorar de condições financeiras, não sereis esquecido!
— Senhora, estou ao vosso dispor, e de todos quantos possa ajudar em momentos angustiosos:
o dever de verdadeiro cristão está acima de qualquer recompensa; tudo quanto faz é em nome do Mestre.
— Ele que vos recompense, generosamente, senhor!
Tenho, porém, que concluir o que vos disse:
resta-me, apenas, o local onde existiu o meu lar destruído, que ficará pertencendo-vos, se conseguirdes um emissário para ir ao Solar do Cisne, onde residem meus sogros, e ali pedir que me enviem recursos para meu regresso ao castelo.
— Não é preciso que façais tão grande sacrifício, senhora, dispondo da derradeira propriedade que vos pertence.
Cláudio Solano, nosso hóspede agora, já enviou um mensageiro ao local a que vos referistes.
Aguardemos, pois, o resultado das providências que foram solicitadas, e que aqui deveremos saber até final desta semana.
— Perdoai-me, senhor: quem é o enviado à Dalmácia?
— Um de meus cunhados, digno jovem merecedor de todo crédito:
o que vos disser será a expressão da verdade!
— Bem, senhor, eu agradeço tudo quanto tendes feito.
O mensageiro que foi ao Solar do Cisne trará a única solução que tenho a tomar.
— Não vos mortifiqueis em demasia, senhora, pois estivestes em estado bem grave.
Agora, ides ficar na presença do infeliz cego, que deseja expressar-vos sentimentos pelo infortúnio que vos atingiu!
— Ele que me perdoe a escusa momentânea, senhor, e aguarde para mais tarde agradecer-lhe a prova de compaixão!
Decorreram alguns dias após o catastrófico infortúnio de Dioneia, cujo esmorecimento era patente, sentindo-se incapaz de reagir contra o Destino adverso, indiferente a tudo quanto ocorria no lar onde se encontrava.
Certa noite, após muitas horas de graves apreensões, foi ela chamada à presença de Cláudio Solano, que já estava no conhecimento do que soubera o emissário expedido aos solares.
— Senhora — falou ele, visivelmente emocionado — deveis ser forte para receber mais uma decepção, pois não vos faltará, em hipótese alguma, o auxílio fraterno de que necessitais presentemente...
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 01, 2018 11:25 am

— Vossas palavras me apavoram, domine.
— Tende ânimo sereno, senhora, pois tudo quanto vos sucede será remediado.
— Estou ansiosa por saber a verdade.
Estou preparada para todos os infortúnios.
Não temais apunhalar meu coração.
— Concentrai a vossa energia moral, senhora!
Os progenitores daquele que foi vosso esposo dispuseram do Solar do Cisne, e desapareceram, afastando-se para local ignorado.
O mensageiro, que enviamos, foi tratado com rispidez pelo actual proprietário do castelo, e até ouviu referências desabonadoras.
— Valei-me, Pai do Céu!
Parece que vou enlouquecer!
Será crível que Márcio Taciano, que sempre julguei alma nobilíssima, espoliasse o netinho?
— Por mais acerba que seja, a revelação é real...
— Senhor, estou em lastimável contingência.
O derradeiro haver que possuo é constituído por umas jeiras de terra, onde esteve edificado o meu lar...
Pertencer-lhe-á, desde que eu possa indemnizar ao generoso Clodoveu de Xerxes a acolhida, e conseguir o suficiente para ir em busca de um tio materno, que espero não me expulsará de sua presença, compadecido de meus infortúnios e os do meu pequenino Lúcio.
— São dignos os vossos projectos; mas, senhora, lembrai-vos de que, em situação próspera, possuidor de incalculável opulência, eu me encontro também em dolorosa conjuntura, pois estou quase totalmente cego, prestes a resvalar no abismo do suicídio.
Bem vedes, senhora, que sou mais infortunado do que vós, e estou sem destino, sem futuro sobre a superfície terrestre!
Dioneia soluçava convulsivamente.
Decorridos alguns momentos, quando ela recobrou algum domínio sobre si mesma, após uma prece veemente e angustiosa, formulada no recôndito de sua alma, ouviu a interrogação aflitiva de Cláudio Solano:
— Estais mais conformada com o destino, sempre hostil, senhora?
— Sim, embora perceba que morri para o mundo... em que vivemos!
— Assim sucede a muitos seres humanos, senhora, quando os flagela uma grande dor moral, alguma catástrofe irreparável; mas, os que têm o radioso arnês da Fé, ou um afecto confortador, ainda recobrem os corações contra as lanças do desespero, do desalento, da revolta.
Quem neste orbe de trevas não sofre um desses terremotos morais, não sabe avaliar o que se passa com seu semelhante em igual adversidade.
Meu sofrimento, senhora, bem o compreendeis, é maior do que o vosso...
— Que padecimento poderá superar o de um coração materno, que não possui tecto onde abrigar seu filho?
— E avaliais, senhora, o de quem, possuindo haveres incalculáveis, não pode adquirir uma gota de luz para seus olhos amortecidos, imersos na escuridão, que só deve existir no fundo das crateras de extintos vulcões, sentindo que as trevas invadem o seu íntimo, a sua própria alma?
Prolongado silêncio envolveu o recinto.
Subitamente, tendo ouvido o diálogo de Dioneia com o senhor do Solar das Sereias, Clodoveu de Xerxes falou, timidamente:
— Perdoai-me... se vos ofendo com um conselho cristão, que ora me ocorre à mente:
por que não vos aliais sobre a Terra para mútuo conforto às vossas angústias?
A dor, quando existe em um coração isolado e sensível, sem um lenitivo sequer, é mais pungente do que a de quem padece rude prova rodeado de criaturas amigas.
A dor, por mais violenta, quando compartilhada, diminui de intensidade!
Não está patente a vontade do Céu, no que ora vos sucede, colocando-vos no mesmo carreiro isolado, na mesma Via Crucis da existência, cada qual mais excruciado, sedento de consolações, para, em conjunto, levarem o seu madeiro de expiações redentoras ao Gólgota da salvação das almas?
Cláudio Solano e Dioneia escutavam-no, emocionados, sem que pudessem murmurar um vocábulo sequer.
Durante a noite, retirados nos seus desguarnecidos aposentos, agradeceram ao anfitrião as palavras fraternas que lhes dirigiu, sem que houvesse, contudo, sido solucionado o que mais os preocupava, então, na extrema conjuntura em que se encontravam ambos.

(1) Zara — Porto do Adriático, capital da Dalmácia.
(1) Trácia — Região da Europa oriental, hoje dividida entre a Grécia (Trácia ocidental), a Turquia (Trácia oriental) e a Bulgária (Trácia do Norte ou Romélia oriental).
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 02, 2018 10:34 am

LIVRO SÉTIMO - QUANDO O DESTINO IMPERA
As horas trágicas repercutem no âmago das almas com intensidade igual à dos cataclismos nas crostas terrestres, que, como os temporais africanos, nos instantes de violência meteorológica, ficam devastadas pelos tigres aéreos dos vendavais; assim sucede à criatura atingida pelo furor dos infortúnios, parecendo-lhe que torna em poeira todos os sonhos de ventura, todas as esperanças e ilusões.
E, no entanto, a Fénix celeste que se oculta no organismo tangível — a Alma — se ergue, rediviva das próprias cinzas das desventuras, carbonizada pela dor que lhe infligiram as vergastas de chamas, e retorna à vida, mal termina a fase aguda da desdita, embora sinta, no íntimo, uma devastação que lembra as ruínas da Pompeia de seus sonhos fanados.
Quanto mais sensível é o temperamento, ou, antes, mais subtil é o Espírito já acendrado pelas pugnas terrenas, maior é o reflexo da dor no âmago do ser, com a mesma diferença que não permite confundir o som argentino com o de um carrilhão de ferro espesso.
Dioneia, no curto espaço de trinta e seis meses, sentiu as mais tremendas decepções, os infortúnios mais acerbos, as dores mais excruciantes, humilhações superlativas, que deixaram sulcos indeléveis em seu espírito, como se fossem produzidos por látegos de fogo.
— Não tenho mais serenidade espiritual para prosseguir a jornada nas condições penosas em que me encontro — murmurou ela, ao recordar as palavras amigas de Clodoveu.
Abraçada ao filho que lhe acariciava o rosto, seu pensamento continuava a irromper do cérebro, com impetuosidade, meditando:
— Querer a Morte, o aniquilamento da matéria, a liberdade integral da alma, a isenção das lutas terrenas, e ser compelida a buscar alimento para si própria e para um filho!
Viver fisicamente, sentindo a Morte, a algidez do sepulcro dentro do coração ou no próprio espírito!
Naquele instante, porém, uma voz suavíssima insinuou--se-lhe reconditamente:
— Minha cara irmã, sabeis amar os bons, os justos, os impolutos, bem o sei; mas, muito maior mérito há em amar os delinquentes, os monstros morais ou físicos.
Muitas vezes o próprio crime elabora a redenção dessa alma criminosa.
Faço-me compreender:
Cláudio Solano, que vos tem consagrado, em diversas existências, invencível afeição, veemente afecto, fracassou, eliminando o seu melhor amigo.
Ele, porém, não é uma consciência falida, indiferente à dor do próximo, nem um coração empedernido.
Por isso, o azorrague do remorso lhe fustiga a alma, tenazmente, flagelando-a com violência.
Graças a essa vibração do açoite empunhado pela Témis celeste, suas faculdades morais melhoraram sensivelmente.
Ficou-lhe a herança paterna, mal adquirida; mas, segundo vos revelei, o Solar das Sereias pertenceu outrora a vosso esposo.
Ides voltar ao que já vos pertenceu, em tempos idos, e aos que sucumbiram no incêndio há poucos dias...
Tendes ao alcance de vossas mãos o futuro de dois seres humanos:
um deles adorado, Lúcio; outro, indesejável, Cláudio Solano.
Escolhei, irmã (que percebeis minha voz silenciosa no âmago de vosso coração), o que tendes a fazer:
o triunfo integral de vossa alma, ou outra etapa terrena mais dolorosa do que a actual...
Retrocedeis de pavor, pela antevisão de novas e mais tremendas catástrofes porvindouras?
Não temeis as consequências de uma insubmissão às Leis Divinas?
— Compreendo as vossas palavras — respondeu mentalmente Dioneia.
Sinto o peso das responsabilidades premindo o meu espírito, como se estivesse sob o Himalaia.
Estendei vossa mão radiosa, para que eu tenha a precisa coragem.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 02, 2018 10:34 am

— Vossa rogativa, humilde e fervorosa, será atendida, cara irmã!
Dioneia despertou bruscamente, compreendendo que algo de muito grave ocorrera consigo.
Por momentos, soluçou amargamente, abraçada ao filho que adormecera profundamente.
Durante o dia, tendo-se conservado no aposento que ocupava, recebeu um recado de Cláudio, rogando que o atendesse com urgência.
Dioneia foi à sua presença.
Ele estava pálido até à lividez.
Ela também parecia de alabastro.
Suas feições esculturais tinham uma pureza de traços que a faziam digna de ser reproduzida por algum artista da famosa Hélade.
Percebendo sua aproximação, Cláudio Solano, profundamente emocionado, disse, com a voz insegura:
— Tenho assunto grave a transmitir-vos, senhora!
Estamos em um momento decisivo da vida, pois não podemos eternizar uma situação, senão desesperadora, pelo menos de extrema delicadeza!...
Compreendo o que se passa em vosso nobilíssimo coração.
Porém, essa penosíssima contingência não poderá prolongar-se indefinidamente, salvo se tendes algum projecto assentado.
Sois muito culta e nobre para unir o vosso destino ao de um campónio que vos pretenda para consorte; muito débil para pesados labores; bela em demasia para inspirar protecção fraterna, pura, dos homens que a contemplem.
Compreendo, assim, senhora, a angústia infinita que vos assalta e da qual compartilho, pois mais ríspida é a prova por que estou passando, sentindo me dia a dia mergulhar nas trevas, no ocaso ilimitado da cegueira.
A vida, desde tão fatal enfermidade, perdeu, para mim, todos os atractivos; estou alheio à opulência, ao amor, à felicidade!
— Vós, porém, senhor — obtemperou Dioneia comovida — estais em diversa condição da que ora me oprime!
Necessito tomar uma deliberação definitiva, e não a encontro.
Sou cristã, responsável moral por todos os actos conscientes da vida, devendo velar por um arcanjo terrestre, que Deus colocou em meus braços.
Bem vedes que sofro duplamente, mais do que vós, porque não tenho o direito de me refugiar num túmulo...
— Pois bem, senhora, eu o tenho, e por isso haveis de permitir que mande vir à vossa presença uma autoridade para dispor de meus haveres, revertendo a metade do que for apurado a meus fiéis servidores, e a outra metade à que... foi consorte do meu melhor amigo — Marcelo Taciano!
Assim terminando minha inútil existência em proveito de alguns entes nobilíssimos e dignos de uma sina menos dolorosa, talvez encontre o perdão do meu passado...
— Senhor, são dignos talvez de admiração os planos que concebestes e acabastes de expor.
Deus levará em conta o que deliberastes!
No entanto, senhor, o Destino ora se me apresenta tão tenebroso que não me é permitido aceitar o vosso legado, por dois motivos de suma importância:
consentir que leveis a cabo um crime contra as Leis Supremas — o suicídio — que fere a Justiça Divina.
Se consentisse na vossa imolação, toda a responsabilidade desse ato trágico passaria a pesar sobre os meus ombros, e também para evitar a minha própria desonra aos olhos dos pais de meu adorado Marcelo, que me julgam conivente em seu assassínio.
Diriam eles que a fortuna revertida em meu benefício seria a plena confirmação de suas odiosas suspeitas!
— Será crível que hajam feito tão deprimente conjectura?
Julgam-me então assassino de um quase irmão?
Estou apavorado pelo que acabais de me revelar!...
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 02, 2018 10:34 am

— Márcio Taciano não formulou a odiosa suspeita, mas foi dominado pela esposa, que passou a odiar-me e ao inocente netinho...
— Tão condenável proceder, agravado agora pelo desaparecimento, no intuito de vos lesar e ao neto, ainda merece o vosso sacrifício, senhora?
Que vos importa que vos julguem a melhor ou pior das mulheres, se vos abandonaram justamente quando mais carecíeis de sua protecção? — falou Cláudio, trémulo de indignação.
— Senhor, posso imolar tudo na vida, excepto a honra, não em homenagem àqueles que tiveram condenável proceder para comigo, e sim por este meu único tesouro sobre a Terra, meu filhinho, ao qual não temo sacrificar a própria vida!
— Sois nobre e digna, senhora; mas, assim revolveis em meu coração o envenenado punhal da desdita! — murmurou Cláudio.
Após alguns momentos de reflexão, erguendo a destra vacilante qual trémula asa de alguma ave ferida, falando, com solenidade, o castelão concluiu:
— Estou dolorosamente só.
Ouvi-me, pois, senhora, pela derradeira vez:
apesar de vosso orgulho, oriundo da nobreza espiritual que possuis, talvez em demasia, eu me compadeço de vossas tristes condições.
Acabo de receber do mordomo do Solar das Sereias considerável quantia em moeda corrente, que eu desejava aplicar no supremo consolo desta existência, nossa aliança esponsalícia, se assim o permitísseis, senhora...
Compreendo, porém, que isso jamais sucederá, pois, parece-me que também destes crédito à deplorável suspeita.
Não repelistes a falsidade de vossos sogros, acreditando na perfídia e na vilania contra o meu melhor amigo.
Percebo a repulsa que, desde então, tendes por mim.
É-me intolerável continuar a viver com uma inútil opulência, que não pôde suster a desdita que, dia a dia, mais agrava a minha situação.
Hoje morrerei, legando a vosso filhinho esses valores.
Não mais voltando ao Solar do Cisne, ninguém ficará ciente do sucedido e, desse modo, permanecerá a vossa honra ilesa.
Podereis, desde então, viver tranquilamente, onde vos aprouver, sendo ditosa com o vosso filhinho...
Haveis apenas de encarregar-vos de enviar um mensageiro ao Solar das Sereias, relatando que fui vítima de lamentável acidente.
Quanto às disposições testamentárias, estão no cofre do castelo, conforme o sabe o fiel servidor Felipe Valdomiro...
As lágrimas fluíam dos olhos em trevas do abatido castelão; Dioneia, apiedada, sentiu estranha vibração repercutir em seu imo:
— "Se não o sustiverdes à beira do abismo, sereis responsabilizada pelo crime que premedita..."
De onde partira tão incisiva intervenção?
Não estaria ela prestes a resvalar na voragem da loucura?
Subitamente, pálida e comovida, ela se ergueu, e, estendendo-lhe a mão, com a atitude de nobreza que lhe era peculiar, disse:
— Senhor, não sou insensível à dor alheia.
Não posso aquiescer ao sacrifício, ou à imolação de vossa vida em benefício de minha ventura terrena.
Eu me sentiria eternamente maldita!
Cláudio, emocionado e em pranto, murmurou, com a voz entrecortada:
— Quem sou eu para o mundo, senhora?
Um farrapo humano, um mísero condenado ao sofrimento e à exclusão da batalha da vida: não mereço, pois, a vossa compaixão excessiva...
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 02, 2018 10:34 am

Terei supremo conforto nesta misérrima existência, se conseguir a vossa tranquilidade e a ventura de vosso estremecido filhinho.
Basta me prometais que não me esquecereis em vossas preces cristãs, que, certamente, serão ouvidas no Céu de onde viestes, senhora!
— Seria indigna a meus próprios olhos, se não correspondesse à prova de solicitude fraterna, de abnegação nobilíssima que acabais de dar.
Desejo suavizar as agruras de vossa existência terrena, velar por vós, qual desvelada irmã, suster-vos à borda do abismo do suicídio.
Seguir-vos-ei de retorno ao Solar das Sereias.
— Que dissestes, senhora?
Acaso não estou alucinado: ouvi bem as vossas boas palavras?
Ainda não enlouqueci?
Quereis ser a irmã que o Destino não me proporcionou?
— Sim. Para retribuir vosso fraterno interesse por mim e pelo meu querido Lúcio, devo proporcionar-vos o conforto moral de que necessitais, para vencer o acerbo embate que vos excrucia o coração e enche de trevas os vossos olhos. Entrego às mãos de Jesus o julgamento de nossos actos.
— Quanta felicidade vós me proporcionais, Dioneia, vencendo a repulsa que sentíeis por mim, e que eu percebia até nas palavras de simples cortesia social.
Depois de legalizada a nossa aliança esponsalícia, ireis ao Solar das Sereias ser irmã ou enfermeira de um desventurado, até que o túmulo finalize os meus tormentos morais e físicos.
Muito vos agradeço a compaixão que tivestes por mim, revelando a excelsitude de vossa alma.
Propondo uma aliança nupcial, viso colocar-vos acima de qualquer calúnia ou referências deprimentes.
— Olvidemos o doloroso passado!
Façamos esforços para pôr em execução o que Jesus ensinou à Humanidade:
considerar todas as criaturas humanas filhas do mesmo Pai Celeste, não classificando uns de perversos e outros de virtuosos, e sim todos merecedores de nossa comiseração, de nosso auxílio e de nosso amor fraternal!
— Senhora, aqui não se acha mais o altivo Cláudio Solano, Conde de Morato, e sim um autómato, uma sombra humana que continua a viver e a sofrer porque tem o coração pulsando, os pensamentos integrais, - a vida, enfim!
Sede, pois, a mão que ampare, o guia dos olhos mortos, apagados eternamente.
Faço ardente apelo à vossa compaixão para que sejais, no meu desolado lar, um arcanjo dos afortunados que lá se encontram sedentos de conforto e piedade!
Tereis ampla liberdade de agir — como vos inspirar o nobilíssimo coração junto do qual deponho a própria vida!
À vibrante rogativa de Cláudio Solano, Dioneia deu resposta muda: lágrimas ardentes.
O silêncio reinou no recinto.
Dir-se-ia que era apenas perceptível o ruído ritmado do coração de ambos, agitados prisioneiros de um cárcere vivo e palpitante!
— Senhora, quero ouvir repetida a sentença de vossos lábios!
— murmurou Cláudio, com inexprimível amargura.
Houve novo silêncio.
Repentinamente, inspirada pela Entidade tutelar que lhe sugeria intuições, recebidas no recôndito da alma, Dioneia respondeu:
— Senhor, reconheço a generosidade de vossa proposta, pois me encontrei em angustiosa contingência, na qual o ser humano se sente enfraquecido para lutar, e, para se libertar dessa dolorosa emergência, só nutre um pensamento: o suicídio!
Este teria sido o meu proceder... se não temesse arrastar à desdita indefeso filhinho.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 02, 2018 10:34 am

Professo o Cristianismo, e devo por isso submeter-me, e não me revoltar contra as Leis Supremas!
Já não possuo sentimentos propriamente meus, e sim deveres ligados ao Mundo invisível e ao pequenino e idolatrado orfãozinho.
Para bem cumprir as determinações do Céu, serei capaz de praticar todas as abnegações, não medindo sacrifícios!
— Por que, pois, relutastes em atender o meu fraternal apelo...
se vos encontrais na mesma desesperadora situação em que me acho?
— Porque sinto que morri para o mundo.
Já não sou a mesma criatura em cujo coração fremiam belas esperanças e ilusões fagueiras no futuro.
— Deveis, então, compreender o que se passa em meu íntimo; a um náufrago não se deve recusar, em alto mar tempestuoso, um socorro, um batei salvador!
— Não reluto mais em aceitar o vosso compassivo apelo, e desejo minorar não só as dores de vossa rude sina, mas, também, a de todos os que padecem!
Se morri para a ventura terrena, e não aspiro mais a opulências e regalias sociais, ainda resta um derradeiro Ideal:
ter incorrupta a consciência, praticar o altruísmo que estiver a meu alcance, redimir o meu espírito de todas as máculas.
Entrego-me, pois, à Suma Justiça, confiante na sua misericórdia.
Soluço profundo lhe abalou o seio ofegante, e, estendendo uma das gélidas mãos a quem lhe rogara ser companheira de existência, pareceu-lhe ouvir ressoando no íntimo um doloroso hino de triunfo.
Cláudio apertou-lhe a destra de neve, e falou com veemência:
— Cumpra-se o nosso destino, Dioneia! Suavizarei todas as vossas angústias, quando puder fazê-lo, e seguirei os vossos nobres impulsos, sem os tolher, jamais!
O que me pertence, doravante será vosso e de vosso filhinho.
Agora, desejo ir à presença das autoridades do Epiro para legalizar a nossa situação, antes de regressarmos ao Solar das Sereias!
Decorridos alguns dias, foram realizados os desejos de Cláudio Solano, Conde de Morato, efectuando-se o consórcio na mesma penumbra da habitação campestre, onde compareceram as autoridades constituídas, testemunhas e um sacerdote.
No dia imediato aos esponsais, os consortes partiram para o Solar das Sereias, tendo, antes, gratificado os que os acolheram em horas trágicas.
Clodoveu de Xerxes agradeceu a generosa dádiva recebida, e agiu com segurança absoluta, para que os desposados partissem em hora imprevista, evitando desse modo alguma perfídia projectada pelos dois campónios que, havia muito, se manifestavam enamorados de Dioneia, e sobre os quais recaíam as suspeitas do incêndio.
Efectuou-se a viagem de retorno à Dalmácia, em modesta carruagem.
Dioneia, sempre mergulhada nas pungentes recordações do recente passado, pouco falava, correspondendo com ternura apenas aos carinhos do filho.
Quando chegaram ao castelo, os recém-casados foram recebidos com surpresa e retraimento por alguns campónios, que já se consideravam legítimos proprietários do solar, principalmente o que ficara encarregado da administração e chefia.
No transcurso de poucos dias, um hausto de intensa vida reanimou o castelo com as actividades de Dioneia, infatigável em realizações benéficas para os seus habitantes e para os camponeses dos arredores.
Ela observou, logo após à sua chegada, a escassez de conforto ou de recursos pecuniários à manutenção das famílias dos residentes na majestosa habitação e em suas proximidades, oferecendo um verdadeiro contraste entre a vida dos senhores e a de seus subalternos.
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 02, 2018 10:35 am

Tão logo completou os minuciosos informes a respeito da vida de todos quantos residiam no solar e em suas cercanias, dirigiu-se a Cláudio Solano, falando-lhe em linguagem franca:
— Cláudio, conheceste o nobre Joel, alma cheia de luz, que revelava a excelsitude de sua hierarquia espiritual, destacando-se dentre todos os que o cercavam.
Lembras-te de que recomendou amparar a todos os deserdados da fortuna, extinguindo assim a luta hostil desses contra os abastados.
— Assim está constituída a sociedade, Dioneia! — exclamou Cláudio.
Há pobres e ricos, adversários irreconciliáveis uns dos outros, e assim sucederá eternamente!
— Não tenho ambições descabidas sobre os haveres que, efemeramente, o Destino me tem concedido; desejo, apenas, o indispensável para a manutenção de um modesto lar.
Compreendo o suplício que reina nas habitações desprovidas do que é indispensável à conservação da vida.
— Que pretendes, então?
Amparar acaso a Humanidade toda?
— Não tenho pretensões insensatas, Cláudio; desejo apenas atenuar a penúria nos lares humildes.
— Aprovo a tua ideia, embora não tenha, infelizmente, tão intensa quanto a tens, a chama da Fé cristã! — respondeu-lhe Cláudio, sorrindo.
Só tenho um ideal:
satisfazer todos os desejos teus que estiverem em meu alcance, entregando-me às tuas mãos tutelares.
Minha ventura se resume neste lar.
— Jesus te recompensará, Cláudio! — murmurou Dioneia, com os olhos fulgurantes de emoção — todos os esforços que fizermos em benefício dos que padecem.
Vou reunir os campónios e suas famílias, para lhes dizer que pretendo interessar-me pela educação das criancinhas que, até a era presente, vivem semi-selvagens, e ensinar-lhes a confortadora doutrina do Mestre de Nazaré.
— Enxergaste mais em um mês do que eu em seis lustros, e, talvez por haver tão pouco vislumbrado o clarão divino, é que me invadiram as trevas da cegueira, que tanto me apavoram!
— Não te mortifiques tanto com as sombras dos órgãos visuais, porque serão substituídas pelas irradiações do altruísmo e da Redenção de tua própria alma, Cláudio!
— Ah! Dioneia, ver é a maior maravilha do organismo humano; é desvendar os portentos da Natureza por intermédio, de duas minúsculas ogivas de cristal vivo.
Por mais infortunado que seja um ser humano, desde que possa abrir os olhos ao dia e à noite, renovar aspectos de paisagens e criaturas, metamorfosear os pensamentos, poderá encontrar algum conforto espiritual.
Tendo mortos os órgãos visuais, o ser não varia de ideias, só pensa na sua desdita, terminam, para esse infortunado, todas as regalias sociais, todas as seduções da vida, todos os encantos das crianças e dos rostos femininos!
Compreendes, acaso, o suplício de um cego, Dioneia?
— Sim; mas, tem as suas compensações:
lucra espiritualmente o que perde materialmente!
Estás adquirindo o lume de que necessita tua alma, com as trevas de teus olhos, Cláudio!
Deves bendizer, e não te revoltares contra a sentença celeste; não és de todo infeliz, porque tens um lar confortável e honesto; estás rodeado de seres dedicados; tens mais do que o necessário, o supérfluo, qual se foras um príncipe, e, assim, privado da visão, não careces estender a mão à caridade alheia...
— Mas, não te enxergo mais, Dioneia, e só este suplício desvanece todas as venturas que poderias apontar!
— Deves, então, bendizer duplamente a desdita, porque já não sou a mesma criatura, no físico, tal me conheceste outrora.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 02, 2018 10:35 am

Assim, não vês a lividez de meu rosto, não enxergas a neve que começa a invadir a minha fronte...
— Perdeste, então, a formosura helénica e impressionante que a todos os mortais seduzia e deslumbrava?
— Sim, Cláudio, e também tal qual os meus, os teus louros cabelos embranqueceram, tingiram-se da nevasca da dor e do infortúnio.
Por isso, acaso ficarás arrependido, por haver aliado o teu destino ao espectro da que conheceste no esplendor da beleza da juventude, Cláudio?
— Não! não, Dioneia!
Que esperamos mais da vida?
Teremos de caminhar assim para o túmulo, derradeiro e insofismável abrigo dos desgraçados! — falou Cláudio, quase soluçante.
— Cláudio, é preciso esquecermos as vaidades mundanas, as efémeras felicidades da Terra, pelas eternas conquistas do Céu.
Lembremo-nos do futuro de nossas almas.
Sejamos, agora e sempre, abnegados, honestos, olvidando desditas, para nos lembrarmos de que todos os seres terrestres deixam na escuridão e no lodo dos sepulcros os míseros corpos carnais, enquanto que o espírito, cumpridas todas as penas planetárias, se arroja pelo Espaço em fora, deixa de ser réptil para se metamorfosear em águia divina, ébria de amplidão e de luz, em busca do fulgor do Astro portentoso que sobrepuja o de todos do Universo — Deus!
— Eu quisera possuir a tua prodigiosa Fé!
Se a tivesse, não sofreria tanto com a escuridão deste cárcere de sombras onde fui aprisionado, sem esperança de me libertar jamais!
— E quem te impede de que tenhas Fé igual à minha, Cláudio?
— interpelou Dioneia, com veemência.
— Como poderei dar-te uma exacta resposta?
Por que temos ou deixamos de possuir um Ideal consolador?
Por que duvidamos ou somos crentes?
— Tudo depende da lógica e do esforço próprio, Cláudio, para que tenhamos a certeza absoluta no Destino e na intervenção suprema!
O Universo não é irreal: existe, porque todos os sentidos confirmam a sua realidade.
Tudo quanto nossos olhos contemplam, nossas mãos tacteiam, nossos ouvidos escutam, todo o som que percebemos ou tudo que o paladar constata, revelam coisas materiais no domínio das sensações e da existência real; como, pois, duvidar da autoria do que fitamos, e não foi criação do homem?
Não podemos chegar, facilmente, à conclusão lógica de que existe Alguém cujo poder, sapiência e bondade ultrapassam os de todos os seres conhecidos e poderosos; que não nos abandona ao Acaso, e nos deixa sob a protecção de Entidades excelsas?
Quem desconhece a vinda do Emissário celeste, que surgiu na Palestina, há pouco mais de doze séculos, e cujas palavras ficaram gravadas nas almas dos crentes?
— Não tenho tua elevação moral, e talvez por isso, pensando em Joel Sarajevo, pergunto a mim mesmo onde a decantada protecção celeste, que faltou a Jesus e a esse seu digno seguidor, esse Joel a quem me refiro?!
— Porque imaginas que a ventura está na mísera Terra e não no Céu, Cláudio!
Todos os Espíritos missionários têm árduas provas para demonstrar as suas faculdades psíquicas, por meio das quais os seres humanos podem exteriorizar o fulgor da Fé que lhes inunda os corações!
O triunfo que alcançam, após todos os martírios purificadores, compensa, regiamente, tudo quanto padeceram na Terra!
— Não percebo bem o alcance integral de tuas palavras, Dioneia:
para que e por que os Espíritos missionários, possuidores de todas as virtudes e aparelhados para todas as batalhas morais, ainda necessitam demonstrar faculdades já constatadas pelo próprio Juiz universal?
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 02, 2018 10:35 am

— Nas provas por que passam servem de excelsos modelos aos incrédulos, levando-lhes a Fé e a confiança nos desígnios divinos.
Conquistam triunfos próprios e para os delinquentes.
Se Jesus houvesse reagido contra os seus perseguidores, lutado contra seus adversários e algozes, salvaria talvez o corpo, mas perderia o fulgor da vitória espiritual!
— Belíssima e confortadora filosofia a tua, Dioneia!
Resta saber quem provará categoricamente tudo quanto disseste...
— Jesus, humilde na aparência, nascido no desconforto, pouco tempo após não provou ser um autêntico Emissário das Alturas, pelo proceder irrepreensível e pelos ensinamentos que ultrapassavam os de todos os seres conhecidos?
Quem era Pitágoras, cujos ensinamentos científicos e morais sobrepujaram os da Humanidade de sua época?
Onde aprenderam tudo quanto revelaram na Terra ou nos Mundos siderais?
Eles e outros luminares da Humanidade não vêm a este planeta demonstrar a imortalidade da alma, e as consequências do proceder de cada um na arena da vida planetária?
Não aconselham a fraternidade, a submissão às Leis celestes e terrestres, o perdão, a prática do Bem e da Virtude, que dão direito aos triunfos espirituais?
Não é a dor a moeda luminosa com que todos neste orbe podem conseguir a salvação perene da alma, o resgate de todos os delitos?
Onde estarão eles neste instante em que transmitimos, um ao outro, os pensamentos?
Ouvindo-nos, talvez, tendo deixado em algum astro radioso o seu lar celeste, eterno e ditoso, enquanto nós estamos apreensivos com as coisas da Terra, sofrendo porque a beleza física vai declinando, os cabelos vão tornando-se de neve.
— Tens algo de luz que difere dos outros mortais, Dioneia, que me abala as convicções, os mais sólidos alicerces do pessimismo e da descrença!
Não posso duvidar de que falas a verdade, porque és uma demonstração evidente, vivida, do que deve ser uma realidade nas paragens estelares!
A diversidade moral das criaturas comprova a diferença de mérito, de idade, de proceder...
Mas...
— Eu creio firmemente que, sendo Deus a suprema Justiça, não nos supliciaria sem uma causa fundamentada no Direito infalível que deve predominar no Universo.
Quem muito sofre, muito pecou!
— Não professo a tua crença, Dioneia:
acredito em uma só peregrinação terrena, e acho que é suficiente para o martírio de uma alma ou de um corpo.
Seria cruel que tivéssemos o martírio em séries...
— Eis como se manifesta a Justiça suprema:
punir todas as transgressões, não com o intuito de supliciar o delinquente, e sim o de lhe purificar a alma, destruindo todos os gérmens do Mal e implantando nela a bendita sementeira do Bem e da Virtude!
— Merecias tu, acaso, todas as acerbas amarguras por que passaste, sendo fiel observadora de virtudes cristãs?
— Conheces o que sou nesta existência terrena, e não o que fui em outras...
Por minha própria culpa, decerto, é que tenho sofrido grandes dores: os inocentes não são punidos por Deus, e sim glorificados por Ele!
Cláudio ouvia a esposa com a fronte pendida; ela o fitava compadecida.
— Eu percebo que sou detestado.
Depois de alguns instantes de penoso silêncio, falou, com emoção:
— O sofrimento acovarda o ser humano; sinto-me dia a dia mais debilitado na alma e no corpo, sem ideais, sem aspirações...
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 02, 2018 10:35 am

Depois dessas palavras de Cláudio, Dioneia retirou-se.
Cláudio Solano mergulhou-se em intérminas cogitações.
Desde quando teve a certeza absoluta de que o seu destino ia ligar-se ao de Dioneia (triunfo para obtenção do qual não hesitara em imolar a vida preciosa e sagrada de um verdadeiro amigo), dir-se-ia que não estava mais no domínio da realidade.
Os pensamentos de fogo que lhe crestavam a mente antes de perpetrar o homicídio revoltante na pessoa de um quase irmão, estiolaram-se como que por efeito de magia hindu, e deixando-lhe a alma repleta de cinza e de escombros, como os há após um abalo sísmico, tendo a sensação de que, no seu íntimo, todos os sonhos, todas as aspirações fagueiras, todas as esperanças áureas do porvir, se transformaram em ruínas profundas, em uma infinda necrópole ou vasta Pompeia destruída pelo Vesúvio da desventura.
Até aquele momento, longamente premeditado, ele se considerava desditoso; mas, após o crime cometido, perdera quase a noção da realidade, dir-se-ia que os próprios pensamentos se metamorfosearam, e só então percebeu a avalancha da desventura premir-lhe o peito, vergando-o para o solo, onde caíra semimorto, despertando na correnteza de lodo que descia das colinas circunvizinhas, prestes a invadir lhe a boca, a asfixiá-lo em lamaçal pútrido.
Depois do acolhimento na choupana de Sérvulo Sarajevo, da fuga para Eubeia, com o perpassar dos meses, não mais tivera a sensação de repouso, da paz de outrora, de antes da consumação do crime, e tarde compreendeu que, na Terra, a ventura que possuíra — aquela paz espiritual — jamais a reconquistaria!
Convenceu-se de que teria sido feliz (mesmo com a dor do fracasso de sua afeição não correspondida) com a felicidade de ter isenta de máculas a consciência, e a havia perdido por todo o sempre!
Percebeu que a verdadeira ventura é a íntima tranquilidade espiritual, a serenidade da alma, e só então interpretou a excelsitude da resposta de Sócrates encarcerado, quando Xantipa, sua esposa, em lágrimas, dissera:
— Ser condenado inocente!
Não me conformo com essa grande injustiça!
— E quererias, acaso, que eu fosse condenado por haver praticado algum delito, Xantipa?
A hipótese de haver perpetrado uma transgressão às Leis celestes ou terrestres seria, para sua alma de iluminado apóstolo da Virtude e da espiritualidade, o verdadeiro infortúnio:
ser inocente de uma vil suspeita, ser inculpado de todos os delitos, era o conforto que lhe suavizava a dor da prisão e da próxima sentença de morte que o imortalizaria, através dos milénios!
Se assim procedesse, ainda no plano material, teria atenuante para o delito perpetrado, crime para o qual não achava defesa na própria consciência!
Sensível metamorfose se operou no íntimo de Cláudio Solano.
Nos meses anteriores à união com Dioneia havia nele grandes amarguras, desesperos e revoltas recônditas, com a ideia fixa no suicídio, que julgava o único meio para exterminar tais pensamentos atormentadoramente depressivos.
Compreendera ele, muito tarde, que, buscando a ventura no amor criminoso, sacrificara a que existia em seu íntimo:
a serenidade de consciência, e que, perdendo-a, jamais conseguiria o verdadeiro afecto da esposa, mas, apenas compaixão.
Após angústias e decepções inauditas, conseguira tê-la a seu lado, ouvir-lhe a voz suave e meiga, receber seus conselhos sadios, sempre inspirados no Bem e na Justiça.
Existiam, porém, para ele, duas crucificações:
a cegueira, quase total, e a inexplicável aversão do pequeno Lúcio Taciano por ele.
Era patente a repulsa que a criança lhe votava:
nunca lhe dirigira a palavra, evitava-o, e, por vezes, tentando abraçá-lo, não o conseguira, porque o pequenino se debatia corajosamente em seus braços e corria, apavorado.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 02, 2018 10:35 am

— Não gosto de Cláudio, mãezinha!
Ele não é meu papaizinho que morreu! — tartamudeava o pequenino que, então, contava pouco mais de trinta e seis meses de idade.
— Ele, agora, é quem está em lugar de seu papaizinho, Lúcio — disse-lhe Dioneia, experimentando indefinível amargura.
— Não! ele também não gosta de Cláudio!
Ouvindo-o o castelão, inexprimível agonia lhe oprimiu o ânimo.
Desde então, evitava aproximar-se da criança, não podendo crer que a própria mãe lhe houvesse insinuado algo contra ele.
Dioneia, aturdida, compreendeu a situação, presa de grande inquietude e mágoa irreprimíveis.
Receberia o menino inspiração do espírito paterno, sentimento consequente do que ocorrera no Solar do Cisne?
Como explicar de outro modo tal animosidade contra Cláudio que o tratava com todo carinho possível?
Desde que chegara ela ao solar, onde outrora fora algumas vezes em companhia de Marcelo, sentia-se engolfada em intensa melancolia, empolgada pela recordação dos entes amados, desaparecidos em curto espaço de tempo.
Por vezes, sentia-se dominada por irreprimível angustia, e, à noite, observava Entidades intangíveis a espreitá-la, identificando dentre elas a de Joel Sarajevo, sempre envolto por uma alva e resplandecente túnica, com a fronte aureolada de luz opalina, com o braço direito erguido para o Firmamento, como que a concitá-la a aguardar a Justiça e a protecção do Céu.
Seus genitores também lhe eram visíveis algumas vezes, parecendo ditosos e serenos, enquanto que em Apeles transparecia notável melancolia.
— Só não me aparece o meu amado Marcelo! — exclamava ela então, no seu íntimo.
Certamente não aprovou o meu consórcio com o seu provável verdugo!
Como, porém, poderia eu, fraca e indefesa, opor-me ao poderio esmagador do Destino?
Tenho receio de enlouquecer flagelada por este inconsolável pesar.
Certa noite, caíra ela em letargia, e, pela primeira vez desde que se instalara no solar, ouviu a voz balsâmica de uma Entidade afectuosa:
— "Irmã, é preciso reagir contra o desalento, que devasta e extingue a Fé e a Esperança que devem existir sempre vivas na alma cristã, a fim de que não se interrompa tua valiosa e redentora missão terrena.
Suporta serenamente as dores morais, profícuas e purificadoras, para que possas colher o fruto luminoso de todas as provações.
Dentro de pouco tempo vais levantar uma ponta do véu de Ísis no mistério do Destino!
Aquele, cuja ausência tanto lamentas, entrará em contacto contigo.
Vê-lo-ás em teus braços carinhosos!"
Emudeceu a voz celeste, com a qual Dioneia experimentou inigualável dulçor espiritual, e a fez adormecer placidamente, o que não lhe sucedera desde quando fora atingida pelas acerbas mortificações.
Dioneia, passional e sensível, não podia olvidar o passado intensamente gravado no recesso de sua mente, por mais esforços que fizesse:
parecia-lhe estar, incessantemente, em um teatro, assistindo com fidelidade às tragédias de sua própria vida, e um desejo incontido de rever os entes bem-amados lhe supliciava o coração, quando não os revia sob os aspectos de sombras fugasses.
Seus sogros, Márcio e Geleira, continuavam desaparecidos.
Os novos proprietários do Solar do Cisne não os visitaram, e costumavam hostilizar os campónios domiciliados nos domínios de Cláudio Solano.
Via ela, ao longe, as terras do castelo onde fora feliz, e inexprimível dor lhe contundia o emotivo coração.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 03, 2018 10:04 am

— É preciso reagir contra tétricos pensamentos! — exclamou ela, um dia.
Necessito preencher o vácuo que a desdita cavou em minha alma.
Devo suavizar a existência dos campónios e de todos os servidores que vivem a nosso lado.
É tarefa abençoada.
Uma tarde, após intensas cogitações, Dioneia falou ao consorte:
— Ainda não providenciaste para as modificações imprescindíveis no solar...
É-me intolerável a vida nesta inércia, sem um alvo a colimar!
— E o alvo de tua existência não é duplo:
criar aquele que Deus te confiou, Lúcio, e velar por um cego?
— Sim; mas ainda me sobeja tempo suficiente para outro labor:
minorar o sofrimento alheio!
— Tens razão, Dioneia, mas, receio que a tua permanência a meu lado seja efémera, para maior suplício de meu coração!
— Devemos, Cláudio, enquanto estivermos no mundo de trevas, procurar, por todos os meios que estiverem a nosso alcance, elevar a nossa própria alma, fazendo maior empenho na aquisição do que é do Céu e não do que é da Terra, pois ela, a
alma, e não o nosso corpo, é a responsável por todos os delitos que cometermos.
Nosso espírito é que tem de comparecer no Tribunal Divino, enquanto que o corpo físico se desfaz em vibriões no fundo dos sepulcros!
— Há momentos em que cuido ouvir, novamente, o inspirado Joel Sarajevo falar, o qual, por vezes, parecia estar repetindo palavras de Entidades invisíveis.
— Falo por intuição, Cláudio muitas vezes, nas palavras que fluem de meus lábios ( sem co-participação da minha mente) falam Entidades que desejam o cinzelamento espiritual da Humanidade!
— Contigo sucederá isso, Dioneia, que tens os dons de Joel; pertences à mesma categoria espiritual. Bem conheço que ainda sou um ente inferior.
— Quem adquire a própria superioridade é quem a ela aspira, trabalhando tenazmente pela conquistar.
— Bem quisera que assim fosse Dioneia; mas, é tarde.
De há muito deveria ter desperta para a vida psíquica, e não agora, que percebo não estar age o sepulcro.
— Julgas, acaso, que Joel conquistou a invulgar superioridade que transparecia em suas nobres feições que, por vezes, se iluminavam de fulgor recôndito, no curto espaço de tempo de uma etapa terrena, em que tivemos a alegria de conhecê-lo? Não, por certo.
— Mas, como triunfarmos em uma existência, em limitado tempo, do acervo dos instintos e das imperfeições que nos dominaram nos séculos escoados?
— Não nos preocupemos com os séculos que morreram, e sim com o presente e o futuro de nossa alma, Cláudio!
Trabalhemos, não para acumular tesouros corruptíveis, mas, o verdadeiro ouro que tem valor no Céu: a Virtude.
— E com o que é da Terra poderemos alcançar o que é do Céu, Dioneia?
— Sim, quando os tesouros da Terra servirem para mitigar as amarguras dos infortunados.
— E quem envia à Terra esses infortúnios que flagelam a Humanidade?
Não é o próprio Criador — segundo a interpretação de todas as crenças religiosas?
Devemos ir de encontro à vontade Suprema que no-los envia, derrogando o a que chamas — Leis Divinas?
— Toda dor revela uma transgressão anterior; mas, Deus, Pai Clementíssimo, envia o sofrimento para correctivo do Mal praticado, apresentando a oportunidade dos bons e dos justos exercitarem os seus sentimentos altruísticos e fraternos!
— Sempre tens lógica em tuas explicações e argumentos, Dioneia!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 03, 2018 10:04 am

Depois desse diálogo, radical transição se operou no alcáçar, modificação material, moral e espiritual; um hausto de felicidade bafejou os que se encontravam sob a égide protectora da piedosa castelã.
Ela própria administrava os serviços da reforma interna e externa do solar, amenizando também as modestas habitações dos agricultores.
As humildes e desguarnecidas moradias circunvizinhas foram beneficiadas, antes que se aproximasse o Inverno, sempre rigoroso naquela região.
Foram contratados dois professores para instrução dos filhos dos campónios, e ela muitas vezes os auxiliava nos labores do magistério primário, organizando também um conjunto de estudantes de música, matéria predilecta que ela já havia leccionado nos primeiros tempos de sua juventude, harpista consumada que era.
No andar térreo, havia um salão abandonado, no qual, depois de cabal reforma, reunia duas vezes por semana os serviçais do castelo, ouvindo-lhes as reclamações, atendendo-as quando lhes pareciam justas, providenciando para o tratamento dos enfermos, auxiliando pecuniariamente os necessitados, dirigindo palavras confortadoras a todos, tornando-se dentro em pouco a providência de todos os lares, a orientadora de todos os que eram, como costumava asseverar, companheiros de jornada que o Céu lhe havia concedido para compartilharem das mesmas lutas e dos mesmos e raros triunfos!
Cláudio estava, dia a dia, mais enlevado com os predicados de alma da consorte, e tudo lhe facilitava para realização do que ela projectava.
Muitas vezes, à noite, congregava os habitantes do solar para lhes falar sobre o Cristianismo, que, por aquela época, ainda tinha tenazes perseguidores.
Nesses momentos, ela mostrava recursos de oratória que arrebatavam a humilde assistência, surtos de inspiração que penetravam nas almas dos que lhe ouviam a palavra persuasiva.
Certa noite, ao terminar uma de suas eloquentes dissertações sobre a Fé e o cumprimento dos deveres sociais, foi avisada de que a esposa de um campónio (a qual dias antes tivera laboriosa de livrança e para a qual já providenciara tratamento) se encontrava em estado grave ou desesperador.
— Quero vê-la! — exclamou ela, resolutamente, pois, devido ao mau tempo reinante, ainda não fora à choupana da parturiente.
— É longe a moradia de Teodoro Guadiâni, senhora! — explicou um dos servos presentes.
— Manda aprestar a sege! — ordenou Dioneia.
Não há tempo a perder!
Decorridos poucos momentos, Dioneia e o filhinho (este insistira em não se separar da progenitora), acompanhados pelo administrador do solar, Felipe Valdomiro, sempre taciturno e incompreensível, dirigiram-se ao local onde estava agonizante uma camponesa, que havia dado à luz da vida um entezinho que se iniciava nas trevas da orfandade.
Durante a viagem, tendo o filhinho aconchegado ao seio, Dioneia aproveitou o ensejo da ausência do esposo para lhe dizer:
— Meu filhinho, quero que trates com bondade a quem está substituindo o teu paizinho, que morreu, antes de teu nascimento!
Cláudio ficou triste, porque não quiseste fazer-lhe companhia, hoje, quando precisei sair do castelo.
— Não gosto dele, mãezinha!
Tenho medo de ficar sozinho com ele!
— Ele é bom para o meu querido Lucinho!
— Ele é mau, mamãezinha!
— Como o sabes, filhinho? Não o viste fazer nenhuma perversidade...
— Mas sei que ele já me matou!
— Pois não estás vivo, filhinho? — perguntou Dioneia, com um doloroso sorriso, ao notar que Felipe Valdomiro estava atento às suas palavras.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 03, 2018 10:04 am

— Agora estou mãezinha; mas foi há muito tempo!
— Mas, agora, ele já não te fará nenhum mal; eu quero que meu filhinho seja bom para ele! — respondeu-lhe a castelã.
Reinou silêncio entre os que se dirigiam para o extremo leste do castelo, já em plenas trevas nocturnas.
Após uma hora de percurso, Lúcio adormecera nos braços maternos.
O temporal, que havia amainado no início da jornada, recrudescera com violência.
Dioneia, atemorizada por causa do precioso fardo que carregava, abraçara-o e transida de receios, alçou o pensamento a Jesus, implorando-lhe auxílio e protecção para ela e para os que lhe eram companheiros de viagem.
Por vezes, observara estranha luz sinistra no olhar de Felipe Valdomiro.
O ribombar dos trovões dir-se-ia que abalava a própria Natureza coriscos rubros serpeavam na amplidão enegrecida, aclarando, por vezes, os matagais e as serranias circunvizinhas do Solar da Galileia.
Quando Dioneia chegou, inesperadamente, à choupana de um dos mais laboriosos agricultores, grande foi a surpresa de todos
quantos lá se encontravam para confortar os que se achavam em perspectiva de doloroso transe.
A habitação, coberta de colmo, com as portas e as janelas danificadas, não oferecia abrigo seguro aos que lá residiam.
Dioneia, impavidamente, encaminhou-se ao desolado esposo, e com este se encaminhou para o leito da parturiente, e, comovida, a interrogou, com bondade:
— Como te achas, Helena? Melhor?
— Não... Vou morrer... senhora Condessa... e deixar. .. meu filhinho! — murmurou a enferma, a custo, com as palavras entrecortadas.
Senhora... eu...
— Não te mortifiques, Helena, para que recobres a saúde. Eu me encarrego de auxiliar a criar teu filhinho, desde hoje, até que possas amamentá-lo!
Um profundo suspiro de alívio desprendeu-se do seio opresso da desditosa que, dir-se-ia, aguardava a presença da piedosa castelã para exalar o derradeiro alento.
Gritos angustiosos repercutiam então ante o doloroso desfecho de tão humilde quanto laboriosa existência, toda consagrada a um honestíssimo lar.
Emocionada e grave, Dioneia aproveitou o ensejo para dirigir a palavra consoladora aos circunstantes:
— Meu amigos, sofrei resignadamente a separação temporária de uma alma que se alçou à presença do Criador do Universo, e podeis estar crentes de que os que se amam e os que se odeiam, não se separam nunca, até que seus espíritos purificados, redimidos, alcancem o supremo triunfo:
a isenção de dores, o ingresso nas regiões celestes.
Nossa irmã Helena partiu, cheia de pesar, deste triste refúgio humano, onde certamente tantas lágrimas, em horas amarguradas, deveria ter vertido, e por muito tempo ficará isenta das pesadas tarefas e mortificações domésticas; mas, não esquecerá jamais os que aqui ficaram, mormente o filhinho, pedaço da sua própria alma, dádiva do Céu que teve de deixar na Terra!
— Ah! Senhora Condessa, por que morre uma extremosa mãe, que tanta falta faz aos entes queridos, e ficam os perversos, que infelicitam a Humanidade? — interpelou, chorando, um irmão da extinta, dentre os que a rodeavam, soluçantes.
— Porque estamos em um mundo de provas, temos a dor para companheira, do berço ao túmulo!
Os flagelos dos povos, os potentados, os que galgam posições imerecidas à custa do sofrimento de nossos semelhantes podem ficar temporariamente isentos de qualquer sanção; decorrido, porém, o tempo, às vezes séculos, voltam à Terra, tal qual todos nós que aqui nos encontramos, suportando penosamente as consequências de erros, ou de crimes desse passado de culpas!
— Pois será crível, senhora Condessa, que vivamos mais de uma existência, quando basta uma para que tantos sofrimentos tenhamos de suportar?!
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 03, 2018 10:04 am

Não haverá Inferno para os maus e Céu para os justos e bons?
— O Inferno existe, sim, no coração dos perversos e dos que têm remorsos, meus amigos!
Céu existe, realmente, na alma do que cumpre todos os seus deveres morais e tem a consciência limpa!
— Mas, eu nunca pratiquei um crime, e fui ferido rudemente, vendo morrer uma esposa honesta e boa, que deixa neste mundo um inocente com algumas horas de vida! — falou o esposo da desditosa Helena.
— Podeis ficar tranquilos, amigos, quanto ao pequenino Ismael, que acaba de ingressar tão dolorosamente na arena deste planeta.
Eu o levarei comigo, como se fora um outro filhinho que o Destino me presenteou, generosamente!
Houve um rumor de surpresa na resumida e humilde assistência, e uma campónia, desgrenhada e em pranto, ajoelhou-se aos pés de Dioneia, querendo beijá-los.
A castelã ergueu-a, falando-lhe emocionada:
— Não posso permitir que sejam beijados os meus pés, amiga, porque não merecemos os aplausos da Terra, e sim os do Céu, quando cumprimos os nossos deveres cristãos!
Dioneia, que não repousara durante aquela inolvidável noite, reanimou os parentes de Helena, confortou-lhes os corações com palavras fraternas, falando-lhes do Cristianismo, ligado à Lei das Reencarnações ou da Palingenesia, que tanta esperança incute nos espíritos atribulados e decepcionados pelas mais duras contingências humanas; cuidou do orfãozinho, deitando-o ao lado de Lúcio, que havia dito, tão logo soube que o pequeno Ismael seria levado para o Solar da Galileia:
— Que bom, mãezinha!
Agora vou ter com quem brincar!
— Sim, meu filho, ele será um irmãozinho, que Deus te enviou, inesperadamente.
O temporal continuava a fustigar a Natureza.
Por vezes, os pobres seres humanos, reunidos sob o colmo da rústica habitação, sentiam-se transidos de pavor, invadindo-lhes os corações amargurados os presságios de novos dissabores.
Súbitos clarões dos relâmpagos que, dir-se-ia, se arrojavam do Firmamento enegrecido sobre a Terra convulsionada e em trevas, feitos víboras de fogo, amedrontavam quantos os contemplassem, fazendo-os estremecer em secreto augúrio.
Hora houve em que a porta da humilde cabana, abalada pela violência do temporal, escancarou-se, como que impulsionada por mãos de gigantes invisíveis.
— Quanto sofre a criatura humana! — exclamou alguém, que fora tentar fechar a frágil porta de madeira tosca.
— Sofre mais quem maior número de crimes cometeu, meu amigo! — respondeu-lhe Dioneia.
— Que crime, então, deve ter cometido a bondosa Helena, que perdeu a vida ao conceber o primeiro filho, justamente quando mais necessária seria sua existência?
— Quem sabe, meu amigo, se em uma de suas findas existências (falou a castelã, fechando os olhos e com a voz um tanto alterada) a nossa pobre Helena, não possuindo ainda as virtudes reveladas nesta que terminou há poucas horas, era o inverso do que a conhecemos, isto é, leviana, frívola, de existência pouco airosa?
Para ocultar uma falta de ordem moral, condenada pela sociedade, talvez haja cometido um crime, e se tornou matricida (por certo o mais horripilante delito perpetrado por um ser humano!).
Quiçá, em noite igual a esta, de temporal violento, ordenou a um conivente na perversidade cometida, que expusesse o fruto de amor delituoso em deserta estrada, sendo atirado afinal em lamacenta correnteza.
O crime se consumou, porém, a culpa exigiu punição futura!
— Senhora — respondeu o camponês — a ninguém teria ocorrido supor o que ora nos expusestes!
— Deus é o Sumo Juiz Universal e Pai Compassivo, meus irmãos, e não nos inflige dores sem causa justa e razoável.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 03, 2018 10:05 am

A nossa irmã Helena deve, hoje, ter resgatado, com a vida preciosa, o delito de outrora, quando não sabia cumprir os seus deveres morais.
Remido o crime, Deus abre os luminosos braços para apertar ao seio estelar o pecador arrependido, como nos fez crer Jesus, o pegureiro celeste de todas as ovelhas transviadas do redil sideral ou da Virtude!
Nossa irmã Helena, doravante, será ditosa, pois, certamente, ressarciu o seu maior delito.
Aqui, neste cadáver rígido, não está mais o alento vital, ou divino, e, por isso, tornou-se de mármore humano, putrescível!
O que fazia vibrar, estremecer, movimentar este corpo agora morto, partiu ao anoitecer, e não mais sentirá as agruras da separação; terá, aliás, grande conforto, ao verificar que seu filhinho não está abandonado ao léu do Destino, e que tem, em vez de uma, diversas mães piedosas!
Todos ouviam, com crescente admiração, o que a castelã lhes falava, e momento houve em que um deles exclamou:
— Não se deve duvidar da bondade celeste!
Dela temos prova na compassiva senhora que deixa o conforto de seu solar principesco, para passar horas de tristeza ao lado de pobres campónios.
— Meus amigos — respondeu ela — Jesus aconselhou:
Amai-vos uns aos outros, para que cessassem as guerras fratricidas, odiosidades e as consequências dos sentimentos malsãos.
— Senhora, somos cristãos; mas, vós falais em mais de uma existência terrena, e ainda há pouco fizestes compreender por que a pobre Helena, que nos parecia impecável, foi sacrificada.
Sois cristã ou reencarnacionista, senhora Condessa?
— Esta resposta, creio, elucidará a todos:
A doutrina dos renascimentos é milenária e a única que demonstra a Justiça Divina em toda a sua plenitude.
Não há crime impune; mas, também não existe castigo eterno, pois, se tal sucedesse, seria derrogada a imortalidade!
Sim, de que nos valeria a perpetuidade do espírito, se num momento, que é a vida terrena, perpetrado um delito, fosse condenado por TODA A CONSUMAÇÃO DOS MILÊNIOS o mísero delinquente?
Eis por que os povos mais antigos concebem a Palingenesia (a Lei dos renascimentos sucessivos) pela qual é facultada ao delinquente a liberdade de acção, a aquisição de preciosas experiências, o resgate de todas as transgressões às leis terrestres e celestes, sendo aplicada a sentença de acordo com o delito.
Jesus, o mais lúcido dos Emissários siderais, demonstrou cabalmente que não estamos abandonados ao acaso, e sim cumprindo o Código Celeste, em cujas páginas está claramente exarada a Lei dos Renascimentos seriados.
É provável que, desde agora, os Espíritos de Helena e Ismael sejam ligados pelos elos afectivos, e mais tarde, ressarcidas todas as infracções às Leis Divinas, ambos ascendam às regiões ditosas do Universo, àquelas que Pitágoras denominava de hiperbóreas, e a que os cristãos chamam celestes!
É assim que se exerce a infalível Justiça, não havendo necessidade de encurralar um desditoso delinquente nos antros infernais, perpétuos, criação essa que, se existisse, derrogaria toda a misericórdia e todo o perdão celestes...
— Mal sabíamos nós, murmurou o compungido pai da finada Helena, que nesta noite, tão triste para tantos corações, havíamos de receber uma inesquecível lição!
— Que Jesus vos conserve a vida, senhora, falou outro assistente, para conforto dos que vos possam ouvir os ensinamentos!
E assim dizendo, o reconhecido agricultor alçou os braços para o Céu que, fora do humilde abrigo, devia estar imerso em trevas.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

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