Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 03, 2018 10:05 am

A fúria dos vendavais que agitara os galhos das árvores — que se estorceram, entrelaçando-se como se fossem braços em mudas rogativas, fustigados pelos açoites invisíveis da procela, como para mútua defesa — abrandou ao alvorecer, e a Natureza, que parecia em funeral, tal nos corações daqueles apavorados seres humanos, asilados em frágil tugúrio, dir-se-ia exausta de pelejar com intangível adversário, e começou a inundar de suave radiosidade os campos e as florestas, esses primitivos templos dos druidas.
Cláudio Solano determinou que o enterro da infortunada campónia fosse efectuado às expensas suas.
No momento em que o féretro foi retirado do tablado em que ficara durante a noite, Dioneia fez vibrante prece a Jesus, em expressões que comoveram a todos.
Só então se retirou para o solar, onde, poucas horas após, foram abrigados os do lar de Helena.
Ao penetrar no alcáçar, sendo percebida pelo consorte, antes que lhe transmitisse as ocorrências da noite finda ouviu-o dizer-lhe:
— Nunca passei uma noite tão tétrica quanto a que terminou, Dioneia!
— E eu jamais passei uma noite tão luminosa, Cláudio! — respondeu-lhe a nobre castelã.
— Luminosa... por que, Dioneia? — perguntou ele, agastado.
Acaso sentiste prazer por estares longe de mim?
— Não, Cláudio, não interpretes assim mal os meus sentimentos.
Senti-me feliz porque tive ensejo de pôr em prática a piedade cristã, a caridade incomparável de confortar corações feridos pelas farpas do Destino, desalentados e desditosos, que se julgavam abandonados pela Humanidade, flagelados pela própria Natureza, em hora de amarguras e de apreensões; dessas que levam ao desespero as almas mal preparadas para as ríspidas batalhas da vida!
— E achas que exerceste maior caridade, ficando entre estranhos, deixando-me imerso em dupla escuridão, Dioneia, a cegueira e a tua ausência?
— Sim — exclamou ela, resolutamente.
É preciso desarraigares de teu coração o egoísmo, Cláudio!
Eu te agradeço o valor que dás à minha presença, mas a solidariedade humana, nos momentos de angústias, deve sobrepujar os impulsos de condenável egolatria!
— Sem a tua presença, sofro muito, sem o esplendor de tua bondade incomparável!
— Ainda não sabes que trouxe outro filhinho, para ser criado ao lado de Lúcio Taciano.
— Que loucura, Dioneia!
Vais com isso aumentar os teus labores, que crescem, assustadoramente, de dia para dia!
— São eles que me fazem esquecer as dores do passado, Cláudio!
Ele curvou a fronte com os olhos inundados de lágrimas.
Dioneia, aos poucos, com o auxílio dos Invisíveis amigos da humanidade delinquente, ia triunfando de todos os obstáculos na missão de paz e protecção aos desditosos.
A modesta família enlutada, constituída de rústicos, foi alojada em uma das dependências do Solar da Galileia.
Os seres que, então, encontraram conforto e acolhida fraternal, quase todos esqueléticos, esmaecidos e com roupagens andrajosas, reanimaram-se e adquiriram outro aspecto ao termo de alguns dias de permanência na senhoril habitação.
O recém-nascido, débil, de tez trigueira, olhos negros e expressivos, era o maior encanto de Lúcio Taciano.
Aos poucos, o olhar arguto de Dioneia observou a semelhança flagrante entre a fisionomia do orfãozinho e a do inesquecível e primeiro consorte, Marcelo Taciano!
— Deus! como se parece Ismael com o meu adorado Marcelo!
Não tive eu a intuição de que voltaria ele ao mundo em que me encontro, e seria entregue aos meus cuidados? — murmurou Dioneia, tendo nos braços o orfãozinho.
Tudo confirma a doutrina reencarnacionista, a pluralidade das existências terrenas.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 03, 2018 10:05 am

O mistério do destino humano:
a morte e a vida, em série contínua, o túmulo e o berço, a dor e a alegria, o Bem e o Mal, o labor e a inércia, e, após lutas profícuas, a recompensa divina, a isenção de culpas, a remissão de todas as transgressões às Leis Divinas e terrestres — eis em que consiste a nossa estada no plano material!
A infortunada mãe de Marcelo, cujo coração só sabe odiar, se não houvesse renegado o próprio netinho, e não tivesse usurpado o que, por lei, nos pertencia, teria agora inigualável conforto, nos derradeiros dias de sua atribulada existência:
ver ressuscitado o adorado filho, pois, a semelhança de Ismael com Marcelo é patente e, mesmo que eu esteja iludida em minhas conjecturas, a reprodução da fisionomia do querido extinto seria, para seu espírito torturado de saudades, inigualável lenitivo!
A ida da piedosa Dioneia para o Solar da Galileia foi o acontecimento mais notável para todos os que lá viviam.
Um hausto de serenidade bafejou todos os corações desiludidos:
os que residiam no Solar do Conde de Morato tiveram os lares reformados, recebiam rendimentos proporcionais aos trabalhos, tinham escolas para adultos e infantes, eram-lhes proporcionados ensinos evangélicos de subido valor moral que muito lhes reconfortavam os corações.
Uma era de paz cristã bafejou o ditoso castelo, que bem justificava a denominação escolhida por Dioneia.
A humilde família, constituída de cinco pessoas, Teodoro Guadiâni, seus velhos pais e dois irmãos, acolhida no andar térreo do Solar da Galileia, teve a impressão de haver sido transportada a outro planeta, bem diverso daquele em que, até então, estava lutando com escassez de recursos, sem conforto material e espiritual.
A alimentação conveniente, a tepidez do local em que foram instalados, a serenidade de espírito que lhes enflorava os corações, até então sempre angustiados, os remédios adquiridos para o tratamento dos que sé achavam desnutridos e propensos à héctica (1), mormente o pequeno Ismael, que nascera definhado, sem resistência física, tudo isso constituiu incessante preocupação para Dioneia, até que foi normalizada a situação dos que se tornaram dedicados amigos e deram demonstrações de profundo reconhecimento à generosa castelã.
Outras famílias foram alojadas no Solar da Galileia, exercendo diversos misteres, vivendo em perfeita e fraternal harmonia, e todos porfiavam entre si no desempenho dos encargos, que buscavam executar com irrepreensível desvelo. Dioneia, que tudo observava com olhar benévolo, estava intimamente jubilosa, e o seu coração, tantas vezes rudemente flagelado pelo Destino, encontrava conforto no Bem realizado, como o têm as almas esclarecidas pelo cumprimento de todos os deveres da consciência cristã.
Cláudio a tudo aquiescia, e, uma vez, falou à consorte:
— Dioneia, és uma criatura bem diversa das que tenho conhecido.
As mulheres geralmente são frívolas e belas, ou desprovidas de encantos físicos, desejam conquistar admiradores apenas pela formosura corporal, considerando-se triunfantes quando conseguem o objectivo culminado!
— Como pode fruir alegrias uma beldade, com o corpo envolto em brocado e ouropéis, e a alma enegrecida de remorsos, de vez que o coração venal não deixará, certamente, de condenar no íntimo os triunfos criminosos?
— Tens razão, Dioneia, mas as damas, com essas vitórias mundanas, por vezes se vangloriam.
— Bem o sei, Cláudio, que assim procedem; no entanto, deploro acima de tudo essas infortunadas mulheres vítimas dos homens que as compelem a proceder de forma condenável, e só acham meritória a formosura corporal.
Infelizes, porque têm de remir, com lágrimas de fogo, as vilanias cometidas, as efémeras venturas conquistadas, infelicitando lares honestos!
Houve um longo silêncio entre os consortes.
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 03, 2018 10:05 am

— Vejo — prosseguiu Dioneia, observando o enleio de seu interlocutor — em tudo o que me sucede a prova patente da intervenção divina em minha existência:
compreendo que as experiências, constituídas de dores que fustigam, nobilitando a alma, não podem ser arbitrárias e sim adquiridas com esforço individual, sacrifícios inauditos, resignação, labor, em diversas etapas terrenas!
Se eu já não houvesse ficado, por duas vezes, sem lar, desprovida de recursos para a manutenção dos seres mais queridos, não compreenderia talvez o sofrimento alheio, não me penalizaria ao se me depararem criaturas paupérrimas, em míseras choupanas, enfrentando a adversidade.
Quero, pois, viver rodeada dos humildes, aos quais possa proporcionar algum conforto material e moral.
Com a tua autorização, já contratei reformas gerais nos pavimentes térreos do solar, transformando-os em vasta sala onde se reunirão os habitantes dos arredores, para preces, e, durante o dia, será destinada à escola onde as crianças receberão condigna educação intelectual e evangélica.
— É curioso, Dioneia, que sendo tu de origem nobre, honesta, instruída e opulenta, niveles todos indistintamente para considerar, nobres e cativos, irmãos uns dos outros.
— Que valor têm, para Deus, a riqueza e os brasões heráldicos, maculados pela desonra e que se desvanecem no fundo dos sepulcros?
Que diferença há entre o cadáver de um potentado e o de humílimo jornaleiro?
Ambos não se desfazem em vermes e em pó nas covas?
— Sim, Dioneia; mas a Jesus, que era humilde e tratava a todos fraternalmente, não crucificaram cruelmente?
Quem, na Terra, lhe reconheceu o mérito espiritual?
— Quem reconhece o mérito dos bons e dos justos, além do Pai Celestial?
Não nos concedeu o Mestre a norma a seguir na trajectória terrena:
não buscar o ouro material, que a ferrugem do tempo consome, e sim o do Céu, que acompanha a alma às regiões fúlgidas do Universo e será eterno e indestrutível?
Cláudio emudeceu.
Volvidos alguns dias após esse diálogo, o castelão disse à esposa:
— Creio que poderás converter um bárbaro visigodo, um canibal, ao Cristianismo, Dioneia.
Por isso, quero que me digas:
nas condições em que me vês, sempre revoltado com a desdita que me não deixa fruir um instante de felicidade, como agir para alcançar o divino perdão?
— Como? Sendo humilde e compassivo; espiritualizando os teus sentimentos; enfim, sintetizando, pondo em prática o que está gravado no Decálogo:
Amar a Deus e a nosso semelhante!
— Muito te agradeço os conselhos cristãos, Dioneia; mas sinto que minha alma ainda está árida, sem arroubos de Fé, nem amor ao próximo.
Só me domina um sentimento forte, invencível, empolgante:
o amor que te consagro, Dioneia, a ti que alias à beleza do espírito a do corpo físico.
— Eu te agradeço as expressões, Cláudio; mas prefiro que me consideres irmã, empenhada em atenuar as tuas condições espirituais.
Poderás ser punido por esse amor material, que sobrepuja o divino.
Como? Sim! ficando eu, por exemplo, deformada por alguma enfermidade maligna, alguma queda... ou partindo para as regiões serenas do Universo, que constituem prémio, após todos os tormentos da existência planetária!
— Não me tortures, Dioneia!
Quero ouvir tua voz até ao derradeiro alento.
Deformada ou enferma, muito sofrerei com isso; mas me conformarei.
Formosa ou hedionda fisicamente, mas, viva a meu lado, a fim de que me ensines a ser bom.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 03, 2018 10:05 am

Sem ti, cairia fatalmente no caos do suicídio, do qual me tenho desvencilhado a custo, sempre com o pensamento fixo no único e verdadeiro fim de meus tormentos morais — a morte!
— Enganas-te, Cláudio! O suicídio não atenua, nem estingue as dores espirituais, antes, as intensifica e prolonga.
— Compreendo Dioneia. Formamos um casal destoante, desconexo: luz e trevas, e estas me apavoram, quando me lembro do futuro! Tenho, às vezes, receio de enlouquecer!
— Porque ainda estás rebelde à evidência dos fatos, Cláudio!
Foste criado e educado em Roma, e eu, em Atenas.
Lá te habituaste à vida de esplendor e corrupção, que perverte os jovens, predispondo-os exclusivamente aos deleites materiais.
Eu fui orientada por genitores austeros e espiritualistas, e, qual essência de flor rociada se irradia na atmosfera, jaz, ali, em Atenas, através dos séculos, a reminiscência de Platão e de Pitágoras, os dois luzeiros da espiritualidade que só foram excedidos pelo da Palestina, Jesus.
E, portanto, recebi em meu coração o suave influxo dos três maravilhosos Astros semi-divinos!
Teus progenitores, opulentos e indiferentes às questões espirituais, descuidaram-se da educação que deve sobrepujar a intelectual.
Os meus educaram-me na escola austera das virtudes cristãs, nos embates das lutas morais e das experiências profícuas, sem revoltas contra o Destino que, por vezes, nos pareceu impiedoso, quando fustigados pela adversidade.
Expulsos de um lar confortável, desde então começamos a peregrinar, quase sem rota.
Para auferir meios de subsistência, eu me fiz harpista!
Logo após a derrocada, minha mãe sucumbiu de desgosto.
Eu havia, nos áureos tempos, adquirido esmerada educação e conhecimentos que me puseram em contacto com os grandes mestres gregos.
Eu e Apeles embrenhamo-nos na filosofia pitagórica, e chegamos à convicção plena de que o Sumo Factor do Universo não nos concede a vida para o sofrimento, e sim para a remissão de débitos e transgressões às Leis Supremas; porém, findo o degredo no Planeta da Lágrima, Ele nos outorga um porvir esplendoroso:
partimos das trevas planetárias para as radiosidades siderais!
Somos, na Terra, os factores de nossa porvindoura felicidade, ou de nossa desdita, conforme o uso que fizermos de nossa liberdade individual, ou do nosso livre-arbítrio, da directriz de nosso proceder, da prática de acções, meritórias ou condenáveis, durante nossa trajectória neste mundo de sombras e de dores remissoras.
Houve um interregno no diálogo dos consortes, após a chegada de Lúcio, cuja alegria se manifestava no rostinho angélico, com a destra entrelaçada à do pequenino Ismael que, então, já contava três anos de idade, e, como descendente de napolitanos, era trigueiro, de cabelos negros, olhos expressivos, tristes e luminosos, sendo o seu organismo débil em demasia.
Apesar da diferença social que existia entre ambos, eram inseparáveis, consagrando-se mútua afeição.
Dioneia, ao vê-los, beijou-os com ternura maternal, e pela palestra estabelecida entre ela e as crianças, logo Cláudio percebeu a presença de ambos, que se haviam aproximado e, por determinação daquela, foram falar-lhe.
Notou ele, porém, tanta frieza na saudação das duas crianças, tanta falta de espontaneidade, que não se conteve, e disse, com indizível amargura:
— Como se elucidam as anomalias da existência humana, Dioneia:
Lúcio e Ismael, que não são parentes, estimam-se como se fossem irmãos, enquanto que eu, tratando-os sempre com dedicação paternal, só lhes inspiro aversão!
— Não esqueças Cláudio, que nas odiosidades e nas afeições espontâneas influem as reminiscências de uma vida anterior.
Pena é que não possas distinguir as feições do amiguinho inseparável de Lúcio...
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 03, 2018 10:06 am

— Já sei a que te referes, Dioneia — falou Cláudio, com visível desagrado —; já me disseram que...
Ismael muito se parece com o teu primeiro consorte.
Não é verdade?
— Sim! Não sei, porém, por que não quiseste pronunciar o nome de quem era teu mais sincero amigo — Marcelo!
Se eu houvesse notado de início essa manifesta semelhança fisionómica de Ismael com a do Marcelo, este seria o seu nome!
Cláudio empalideceu, e, defendendo-se de qualquer suspeita referente ao assassínio do amigo, respondeu, afectando serenidade de ânimo:
— Evito quanto posso pronunciar o nome dos que morreram.
Já observaste que raramente pronuncio o de meus próprios pais?
— Sim, mas não percebo a razão de omitires a designação dos seres amados! Eu procedo de modo contrário.
Cláudio ouvia a esposa, com manifesto interesse, e, por vezes, voltou para onde estava ela os seus apagados e inexpressivos olhos, como que desejando fazer esta pergunta:
— Por que, se o pequenino Ismael comprova a presença de Marcelo em nosso lar, tendo sido o meu melhor amigo, não tolera de bom grado a minha presença?
Ele o compreendeu, sem que falasse, decerto temendo alguma resposta elucidativa de Dioneia, sobre a causa da aversão que lhe votavam os dois infantes.
Reinou silêncio no recinto.
Cláudio, talvez para que a consorte não desvendasse totalmente o seu íntimo suplício, perguntou, com timidez:
— Como interpretas a repulsa de ambos contra mim?
— Tacteamos ainda as trevas dos arcanos da vida humana, Cláudio; estamos rodeados de enigmas — passados e futuros — e, lutando com as sombras que os envolvem, não podemos dar-lhes cabal interpretação.
Os esposos quedaram-se novamente em opressor silêncio.
Os pequeninos, que se aproximaram de Dioneia, beijaram-na, sorridentes, e um deles, Lúcio, falou:
— Mãezinha, nós queremos estudar na escola de Hélcio Sevérus!
— Tão pequeninos assim, e já querem estudar?
— Sim! — respondeu Lúcio, com firmeza, após breve meditação.
Escutando o pedido, Cláudio não deixou de sorrir.
Dioneia disse novamente a Lúcio e Ismael:
— Vocês ainda são muito pequeninos; mas, visto o desejo que têm de estudar, quero saber se a mãezinha pode ser a professora dos dois, e não Hélcio Sevérus.
— Sim, mãezinha, mas havemos de nos sentar com os outros meninos.
Eu quero aprender harpa, também! — concluiu Lúcio.
— Eles querem é a convivência com as outras crianças que aqui vêm estudar, Cláudio! — observou Dioneia, sorrindo.
O castelão tacteava para a frente, desejoso de encontrar as cabecinhas dos dois meninos.
— Aproximem-se do paizinho, meus queridos! — falou Dioneia, depois de acariciá-los ternamente.
Ambos, emudecidos, foram oferecer os rostos aos beijos de Cláudio, que teve uma crise de enternecimento, orvalhando-lhes as cabecinhas com lágrimas de intensa emoção.
As crianças fitaram-no, sem compreender o motivo daquela explosão de ternura, e, após, Lúcio disse:
— Vamos embora, Ismael!
— Eles me detestam, Dioneia! — exclamou Cláudio, ouvindo o rumor dos passos das duas crianças que se afastavam.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 04, 2018 10:10 am

— Meu amigo — respondeu Dioneia, entristecida — creio que te estimam bastante.
É a timidez que os torna um tanto retraídos contigo.
Assim terminando a palestra com o consorte, Dioneia foi ao encalço dos dois pequeninos e, apertando-os ao seio, falou ao filho:
— Lúcio, prometes à mãezinha que, de hoje em diante, serás amiguinho de Cláudio, que está em lugar de teu paizinho, que não conheceste?
Prometes dar-lhe um beijo?
Porque não gostas dele?
— Não sei — respondeu a criança, após ligeira reflexão.
— Qual o motivo por que não gostas de Cláudio, amorzinho?
— Porque... é feio e mau!
— Ele está doente, filhinho, e, por isso, não pode ser bonito;
mas, não devemos amar só os que têm beleza.
Se a mãezinha ficar horrível, deixarás de lhe ter amor?
— Não! Eu e Ismael não gostamos dele; mas da mãezinha gostamos muito e muito!
Ele era muito mau!
— Como sabes que Cláudio era mau?
— Eu sonhei que ele nos matou!
— Mas, não estás vivo novamente?
Não te lembres mais desse sonho, Lúcio!
Os dois devem ter compaixão de Cláudio, que não pode enxergar, como nós vemos as plantas, as flores, as aves e o Céu estrelado ou com o Sol.
Cláudio não enxerga mais, filhinho!
Compreende quanto ele sofre!
Ele é bom para os meus filhinhos e para a mamãezinha.
— Sim... agora... vamos ter pena de Cláudio mãezinha! — respondeu Lúcio.
Mas havemos de dar mais beijos na mãezinha, sim?
O Solar da Galileia ficou integralmente metamorfoseado, alindara-se, tornou-se verdadeiramente confortável e acolhedor.
As crianças mereciam os maiores desvelos da castelã.
Dois abalizados professores encetaram o ensino moral e primário, para a infância e adultos que desejavam estudar.
Lúcio e Ismael, sempre fraternalmente ligados por intensa afeição, um já com dez e outro com sete anos de idade, completos, frequentavam as aulas, contra a expectativa dos rústicos, ao lado de todos os modestos filhos dos que trabalhavam no castelo de Cláudio Solano.
Os dois revelaram, desde as primeiras aulas, inteligência incomum.
Transcorria serenamente o tempo no Solar da Galileia e, raramente, os seus habitantes eram perturbados por algum sucesso digno de registro.
Por vezes, porém, o proprietário do castelo que limitava com o do Conde de Morato, e que pertencera a Márcio Taciano, mandara agredir os serviçais do Solar da Galileia, perseguindo-os com referências desabonadoras e insultuosas.
Enfurecido, Cláudio Solano proibira, terminantemente, que qualquer de seus subordinados fosse ao Solar do Cisne; mas, um dos serviçais, de nome Dácio Patrício, mantinha relações secretas com alguns servos do castelo vizinho, e tudo relatava aos pretensos parentes, ou disfarçados comparsas para algum plano sinistro, agindo na penumbra, para a realização do que arquitectavam e não queriam jamais fosse desvendado.
Dioneia, com bondade cristã, não quisera despedir esse fâmulo infiel, que continuava a manter relações clandestinas com o gratuito adversário dos proprietários do Solar da Galileia.
Mas, o ódio secreto do ilegítimo senhor do castelo que pertencera a Márcio Taciano, um dia se manifestara, claramente.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 04, 2018 10:10 am

Dioneia, certa vez, ouvira de Cláudio, sempre mergulhado em invencível tristeza:
— Se encontrássemos quem adquirisse este castelo, eu disporia dele, pois não estou tranquilo com a proximidade de um gratuito adversário, qual o é o castelão vizinho.
— Já que essa é a tua vontade, tentaremos desfazer-nos deste remanso de paz, Cláudio; porém, se for nosso Destino, aqui ou alhures as inquietações nos hão-de assaltar.
Tenho nítida intuição de que não conseguiremos adquirente para este castelo, onde nos aguarda morte trágica.
— Que disseste Dioneia, morte trágica, aqui nos aguarda?
Vamos, então, partir para um centro populoso, mormente Zara que tanto apreciava nos áureos tempos da primeira juventude.
Quantas e gratas recordações nos trazem à mente aqueles ditosos tempos!
Não fora a fatalidade que ceifou a vida de meus pais, e lá teria fixado residência.
— Eu confesso Cláudio, que partirei daqui com intenso pesar, pois lá não terei oportunidade de espalhar os mesmos benefícios ao próximo.
No entanto, se te aprouver passar alguns dias em Zara, mormente para que Lúcio e Ismael desfrutem, pela primeira vez, alguns divertimentos, iremos, conforme desejas.
Posso afirmar-te, porém, que lá nos aguarda um sucesso inolvidável, que prejudicará nossos planos!
— Dioneia, tenho a secreta inspiração de que devemos ir, no início da Primavera, àquela cidade, embora, para mim, não haja diferença para meus olhos inundados de trevas!
— Quem sabe se serás beneficiado por algum cientista, em Zara?
— A esperança, para meu coração, é uma planta estiolada, na qual jamais abrolhará uma folha ou uma flor! — respondeu o castelão, com infinita amargura.
Certa tarde, ao término das aulas, surgiu Dioneia no salão, de braço entrelaçado ao de Cláudio, para demonstrar assim que ele estava ciente e de acordo com as suas resoluções, e falou aos encarregados das lições:
— Mestres, lembrei-me de auxiliar-vos, encetando o ensino de música, a maravilha de todas as Artes!
Podeis, contudo, contratar, com a nossa autorização, outro professor para a leccionar.
A música há-de concorrer para suavizar as tristezas da vida, inspirando elevados ideais.
— Senhora, as vossas ordens serão fielmente cumpridas — respondeu Hélcio Sevérus.
Permitireis, porém, que formule uma observação?
— Sim; usai da máxima franqueza.
— Senhora, eu mesmo poderei encarregar-me de transmitir esse ensino, pois fui aluno de competente musicista.
— A música espiritualiza os sentimentos, nobilita a alma, diverte e enleva o ser humano!
Tenho notado que, quando transmito lições de música aos meus dois filhinhos, várias crianças fixam, em ambos, olhares entristecidos, com secreta e incontida amargura ou inveja, talvez revolta muda, julgando-os talvez dois privilegiados por Deus.
E, depois, alteando a voz, Dioneia perguntou às crianças:
— Quem quer aprender música, como o fazem Lúcio e Ismael?
— Eu! eu! — exclamaram todas, erguendo alegremente as mãozinhas.
— Vamos, então, render graças ao Criador, a fim de que possamos pôr em prática as inspirações do Céu!
Antes que iniciasse a oração, Dioneia murmurou:
— A prece é a luminosa linguagem da alma, com a qual falamos ao Pai celestial.
Quem não reconhece o seu poderio e a sua magnanimidade não é digno de ser chamado filho de Deus.
Lúcio já completara doze e Ismael nove anos de idade.
Ambos possuíam notável lucidez mental, percepções psíquicas que ultrapassavam o normal das outras crianças da sua idade.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 04, 2018 10:10 am

Já sabiam ler e estavam aprendendo harpa, ora com a desvelada castelã, ora com Hélcio Sevérus.
A única criatura que, naquele remanso de paz espiritual, não se conformava com o Destino, nem se considerava ditoso, era Cláudio, embora bendissesse a presença da consórcia de existência, convívio que sempre lhe confortava o coração, com exortações salutares ou inspirações siderais.
Uma tarde, estando ele mergulhado em intensa meditação, Dioneia aproximou-se, e, como era hábito seu, colocando a destra sobre seu braço esquerdo, falou-lhe:
— Cláudio, necessito ir a Zara, a fim de adquirir artigos escolares, outros de uso doméstico e alguns instrumentos musicais, visto que diversas crianças revelam predicados artísticos, e eu desejo fornecer-lhes tudo quanto lhes possa favorecer a vocação.
Aproxima-se o Inverno, que promete ser rigoroso, e eu pretendo também adquirir cobertores e agasalhos para os que nos servem.
Suponho que os dispêndios não serão reduzidos; mas, algo me adverte de que, este ano, será a última estação hibernai que passarei no plano terreno!
— Por que me amarguras, Dioneia, com essas fúnebres previsões?
Acaso não percebes a desventura que me constringe incessantemente o coração?
— Devemos habituar-nos com a ideia da Morte, sem receios do Além, tendo apenas a precaução de cumprir os deveres com o máximo escrúpulo!
Somos eternos peregrinos, Cláudio, e não devemos arraigar-nos ao solo.
Não façamos ideia lúgubre da Morte, pois, às vezes, ela é a transição suave de uma vida de lutas e de decepções para outra serena e luminosa, na qual vamos encontrar muitos seres amados, que nos precederam no Além.
Algo de imperioso e grave me atrai, há dias, à capital da Dalmácia, e sei que não devo desobedecer às vozes insistentes dos Amigos invisíveis.
Além disso, teremos a oportunidade de levar connosco Lúcio e Ismael, a quem daremos ensejo de conhecer a primeira cidade do país, e de irem ao teatro apreciar excelente orquestra.
— Somente eu, o mísero condenado às trevas, não poderei fruir nenhuma ventura além da tua companhia.
— Faço novamente referência ao egoísmo, que tanto domínio tem sobre teu coração, Cláudio.
Acaso não poderás também apreciar a magnífica orquestra no teatro a que formos?
— Sim, mas a música muito me emociona e entristece, sendo esse o único entretenimento no qual posso tomar parte.
— É mister que te resignes, Cláudio.
Subitamente, Dioneia empalideceu, ergueu o braço direito,
e, com o timbre de voz metamorfoseado, assim falou:
— Irmão, podeis formular a interpelação que tendes em mente...
— Obrigado por haverdes penetrado o meu íntimo.
Não é propriamente uma interpelação, mas um anelo que desejo formular e ver realizado! — respondeu Solano, com tristeza.
— Ouvi-me: deveis perceber que, para mim, Dioneia é o único e mais precioso de todos os tesouros terrenos.
Ela teve intuição de que, em limitado tempo, vai desprender o nobre espírito, para certamente ascender às paragens estelares.
Ela é luz, eu sou trevas.
Desejo, pois, se possível, permutar a minha inútil vida pela de Dioneia, que representa uma lâmpada acesa em muitos lares, ditosos com a sua presença!
Quero que Deus — que todos afirmam ser a Bondade e a Justiça inigualáveis — permita que seja trocado um pouco de trevas, que vão desaparecer em sepulcro, por uma estrela fúlgida que conforta e ilumina muitos corações!
— É um voto digno de louvor o que acabais de formular aos Mensageiros siderais, irmão!
No entanto, amigo, quem sabe se, concebendo um nobre apelo, não tendes em mente apenas o término de vossas provas terrenas?
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 04, 2018 10:10 am

Não? Protestastes?
Tanto melhor para vós, irmão!
Vosso ato de abnegação será condignamente compensado e atendido!
Confiai, pois, na protecção dos invisíveis e celestes Mensageiros que inspiram à irmã Dioneia realizar uma excursão até Zara, para que se cumpram as determinações do Tribunal Supremo!
Houve um interregno na rápida exposição dos pensamentos do invisível amigo, que então se manifestava por intermédio da inspirada proprietária do Solar da Galileia.
Mais alguns instantes de profundo silêncio, e, após, prosseguiu:
— Meu irmão, escutai o que precisais saber:
há o perdão celeste, pois Deus não relega para o sofrimento eterno os filhos delinquentes, antes lhes faculta os meios de resgate de suas culpas.
Já deveis ter percebido como se exerce convosco a Justiça Celeste, irmão querido.
Assim, não vos revolteis contra os remissores sofrimentos da existência, porque a dor é a lixívia que saneia, embranquecendo a alma enodoada pelos mais hediondos crimes!
— Já me falta o ânimo preciso para suportar novos transes, amigo desconhecido, mormente se houver a separação da adorada companheira de existência!
— Aceitai os padecimentos, irmão, porque são o correctivo bendito aos erros perpetrados, às transgressões das Leis Divinas e terrestres, sem o que se prolongará, indefinidamente, vossa permanência no Planeta das Lágrimas.
— Tudo suportarei, com a resignação possível a meu temperamento exaltado, menos a separação da que se acha ante meus olhos, pois, por amor a esta criatura, fui e serei capaz de cometer todas as heroicidades ou todas as vilanias.
— Mal compreendido afecto, o vosso, irmão!
Pelos entes que vos são caros deveis sacrificar-vos, e nunca praticar acções desonrosas, porque as sequências serão sempre funestas, e muitas vezes a sentença consiste precisamente em apartar o criminoso, por tempo indeterminado, do ser querido.
— Então, que vale a eternidade ou a imortalidade consumida unicamente em árduas provas?
— Não proporciona o misericordioso Pai faculdades semidivinas, percepções portentosas à criatura humana, até aos que erradamente chamamos irracionais?
Não é da alçada humana reconhecer o Bem e o Mal como factores antagónicos do progresso anímico, seleccionados, lucidamente, pela consciência que julgamos a sede da partícula divina que existe em todo ser pensante?
Não sabe a Humanidade que o Bem é recompensado nas regiões ditosas do Universo, e que o Mal é sempre punido neste cárcere, que se chama Terra, ou no próprio Espaço, de vez que o delinquente arrasta consigo a desdita da compunção qual látego de fogo interior?
— Mas, o que causa confusão é ver, quase sempre, o bom sofrer intensamente, e o perverso desfrutar regalias sociais.
Após completo silêncio, que durou apenas alguns segundos, a Entidade continuou:
— Iludi-vos, irmão.
O bom e o justo da actualidade foram os bárbaros e cruéis dos tempos idos, e, por isso, nós os vemos em grandes aperturas e pungidos de infortúnios, como tem sucedido à própria irmã Dioneia, que ora vos transmite as minhas palavras.
Outrora, irmão, vaidosa de sua incomparável formosura, alheia à dor do próximo, coração empedernido qual o mármore das jazidas do Carrara, ou das lavas do Vesúvio, tendo vida faustosa, acarretou vários padecimentos, que ora ulceram sua alma.
Arrastou ela, em findos avatares, diversos desditosos à voragem do crime ou do suicídio, por não lhe haverem merecido um sorriso ou outra prova de afecto.
— Como desgraçadamente ainda sucedeu na actual encarnação, Mestre...
— Mas, agora, a Virtude já havia superado a vaidade e o desejo de conquistas condenáveis, e, por esse motivo, tem cumprido austeramente todos os seus deveres espirituais, humanos e sociais.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 04, 2018 10:11 am

Bruscamente, Dioneia despertou, e durante o dia esteve entristecida.
Quando, à noite, todos se reuniram no salão destinado às preces, após uma vibração de harpa, suavíssima qual gorjeio do rouxinol, a castelã empalideceu e, novamente inspirada por uma Entidade imaterial, qual as pitonisas de Delfos ou de Elêusis (1), dirigiu a palavra aos circunstantes:
— Meus queridos irmãos, não vos preocupeis, jamais, no transcurso de vossas existências com o destino dos seres amados, que inúmeras vezes estão ao lado dos que continuam a mourejar e a padecer sobre a Terra, embora não possais — pela imperfeição dos órgãos visuais — constatar a sua presença.
Tivestes ultimamente um período de relativa felicidade, que durou algum tempo consagrado à prática dos deveres cristãos.
Agora se aproximam novas procelas de amarguras; mas, todos vós estais aparelhados espiritualmente para as profícuas batalhas do Destino.
Dentro em poucos meses, dar-se-ão diversas transformações na vida de muitos irmãos presentes.
Nossa irmã Dioneia — e os que actualmente são satélites de sua alma — deverão transportar-se à capital da Dalmácia, onde os aguardam penosos acontecimentos imprescindíveis.
Esforçai-vos, todos vós que me ouvis, por sair vitoriosos, e não fracassados no plano terreno.
Quase todos os seres planetários se iludem em seus anelos:
almejam regalias sociais, quando justamente na obscuridade dos lares desguarnecidos, no cumprimento rigoroso dos encargos humildes é que se edificam os mais sólidos alicerces da felicidade futura.
Vereis em breve as consequências de um acto fraudulento, consumado com objectivo de prejudicar herdeiros legais; mas o arrependimento mais doloroso marejou de lágrimas os olhos dos que o cometeram, julgando que ficariam impunes pelas Leis sociais e divinas.
Todos vós, em idêntica situação, deveis curvar as frontes perante a Justiça Perfeita, que não fere inocentes, e sim, sempre e sempre, os delituosos.
Nossa irmã Dioneia, que ora recebe estas comunicações do Alto, será também atingida por mais uma prova rude, a derradeira neste planeta de lágrimas!
— Se eu ficar novamente só para lutar, baquearei, porque só o influxo desta criatura leva consolo e ventura a muitos infortunados! — exclamou Cláudio, com emoção e voz dolorosa.
— Aqui será substituída pelos filhinhos e por alguém, que se aproxima deste Solar.
Tudo ficará normalizado.
Os que já colheram os frutos de dolorosas expiações, continuarão a missão desta nossa irmã e seu consorte.
Reinou incomodativo silêncio no recinto, até que, momentos decorridos, novamente a Entidade imaterial prosseguiu, ainda por intermédio de Dioneia:
— Aquele que prejudicou o seu semelhante, que exterminou uma vida, sempre preciosa, poderá sentir uma compunção tenaz, avassaladora, ter um brado clamoroso da consciência, desperta bruscamente, e, voltando-se para o Firmamento, murmurar com veemência:
— Pai incomparável, que estais em todo o Universo, sou um mísero criminoso, um odioso pecador.
Compadecei-vos de meus tormentos morais e dai-me ensejo de remir os meus delitos nefastos, a fim de que sejam extintas as chamas vorazes do remorso que devastam o meu coração!
Quero lutar por minha salvação, ser útil ao próximo.
Eis, irmãos, por que me dirijo a todos os presentes para que melhor possais compreender por que vedes criaturas boníssimas cumprindo missões de altruísmo e de sacrifícios, receberem muitas vezes ingratidões e desconsiderações dos beneficiados.
É que, amparadas pelas forças irradiadas dos Cireneus siderais, tudo vencem, pois, no tribunal vivo de sua consciência, está arvorado o estandarte da Fé e da Esperança e de todas as virtudes cristãs, que são os degraus alcantilados pelos quais os redimidos se alçam às regiões benditas do Universo, às paragens celestiais!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 04, 2018 10:11 am

Para essas, nada há sobre a Terra que possa fazê-las transgredir mais as Leis Divinas ou sociais; não existe mais, para elas, seduções nem - suborno, porque visam um único objectivo:
suas vidas de sacrifícios pelo Bem! Deus, unicamente, é o alvo de todos os seus actos, inspirados sempre pelos celestes Mensageiros que transitam por toda a ilimitada Criação!
Quem proceder de modo contrário do que foi apresentado, e desfrutar as regalias sociais, fruir os frutos do crime perpetrado, menosprezar os direitos humanos, faz jus a sofrimentos indizíveis.
Por isso, vemos indivíduos padecerem golpes dolorosos, parecendo não haver cometido nenhum delito, tudo porque o praticou em transcorrida existência, já olvidada, mas, muitas vezes, ligados às próprias vítimas, passam por acerbas expiações!
— Que mérito há na caridade, Mestre, se esta anula as penas aplicadas aos infractores?
Não é justo que o órfão sofra a falta irreparável dos protectores naturais; que o mendigo fique faminto, tendo outrora negado o pão aos necessitados; que o homicida seja assassinado, para remir o crime de haver imolado uma vida?
— Assim deveria suceder ao delinquente a quem fizeste alusão; mas Deus não é inflexível; não tortura ninguém, impiedosamente, e sim com o objectivo de despertar sentimentos humanitários, dentro de situações indispensáveis ao progredir espiritual.
Há uma verdade dolorosa que não deveis esquecer em nenhum momento de vossas vidas: assim como tratardes o vosso semelhante, assim sucederá convosco em idêntica situação.
O Criador do Universo não está isolado no Infinito, e sim multi-presente em tudo quanto existe.
Se Ele nos envia a dor, não o faz qual um carrasco empedernido, mas, para correctivo, antídoto ao Mal, saneador da alma enferma, e, por isso, rejubila toda a vez que uma ovelha desgarrada do Celeste Aprisco o busca novamente.
A caridade, pois, sem anular as Leis Divinas, tem um duplo e inestimável mérito:
beneficia o necessitado e o benfeitor!
Alguém que esteja em um cárcere e tentar evadir-se, terá aumentada a sua penalidade ou a sua desdita; aquele que se humilhar, que souber dominar os maus pendores, que cumprir rigorosamente todos os preceitos legais, no término de algum tempo poderá obter comutação da pena e alcançar integralmente a sua liberdade ansiosamente aspirada!
O homem que se consagra ao bem da Humanidade, a curar os corpos ulcerados, por exemplo (e assim também os pegureiros da alma), está remindo débitos do passado pecaminoso e, por isso, não devem os discípulos de Asclepíades (1) exercer suas humanitárias funções com o fito exclusivo da recompensa material, e sim do perdão que lhes será concedido após penosos labores, missões de sacrifícios e de abnegações.
Deus não se compraz com a punição de seus filhos:
dá-lhes a dor para correctivo de faltas, tal qual o médico para o restabelecimento de uma saúde comprometida, ao indicar o remédio de sabor intragável.
Agora, adeus, caros irmãos.
Quando houver carência de algumas orientações fraternas, ter-me-eis ao vosso lado. Jesus, o Mestre, vos inspire nas vossas resoluções. Adeus!
O dia imediato a esse episódio, Dioneia passou-o entristecida, providenciando tudo, porém, com grande actividade, para a viagem à capital da Dalmácia.
Dir-se-ia que algo de imperioso e grave actuava em seu espírito, necessitado de cumprir mais uma determinação do Destino.
A presença de Dioneia era sempre saudada com alegria por todos os habitantes do solar.
Por isso, ao comunicar que dentro em poucos dias partiria para a metrópole da Dalmácia, causara apreensão a quantos haviam escutado a memorável mensagem da Entidade espiritual, vaticinando inolvidáveis acontecimentos para a castelã e seu companheiro de peregrinação terrena.
Suas ordens foram cabalmente cumpridas, e foi renovada uma carruagem que, embora pouco serviço tendo prestado, necessitava diversos reparos, dado o tempo que contava.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 04, 2018 10:11 am

Quando foi iniciada a excursão a Zara, anunciava-se um novo dia por um rubor de rosas fúlgidas, apoteose divina, à hora da ressurreição do Sol, parecendo uma tela vivida e deslumbrante, desenhada por egrégios artistas siderais, que houvessem concebido um painel deífico.
Era, então, o prelúdio de uma Primavera ansiosamente aguardada por todos os europeus, mormente os da região meridional, que haviam suportado os rigores do Inverno que se extinguia, lentamente.
As árvores, meio despidas de folhagem, muitas ainda toucadas de neve, já mostravam alguns rebentos de esmeralda, despindo-se das folhas mortas que, tombando sobre o solo, tinham a aparência de aves fulminadas por invisíveis caçadores.
Dioneia, seguida pelo consorte apreensivo e pelos filhinhos, lançou um olhar significativo a tudo que os rodeava, irradiou uma prece silenciosa, implorando protecção para os que a acompanhavam e os que lá permaneceriam, e, após algumas recomendações amistosas, ordenou a partida da sege pela estrada real.
O trajecto até à formosa Zara foi efectuado sem outros incidentes dignos de atenção.
Chegaram os itinerantes exaustos e sonolentos, ansiosos de repouso e de contemplar a famosa capital, rainha portuária do Adriático; mas, porque as trevas nocturnas já haviam baixado sobre o hemisfério Oriental, recolheram-se todos em modestos aposentos de uma hospedaria.
Antes de adormecer, com a voz alterada por súbita emoção, Dioneia falou, erguendo a destra, como o fazia sempre, quando era inspirada por bondosa Entidade sideral:
— Irmãos, que Jesus continue a proteger-vos conforme o fez durante a viagem desviando um temível sicário que pretendia assaltar-vos.
Quero avisar-vos apenas de que aqui vos aguarda triste surpresa!
Não vos impressioneis, porém, e, mais uma vez, vereis em execução a inigualável Justiça Perfeita.
— Não podeis melhor elucidar os vossos pensamentos, para nossa tranquilidade espiritual? — interrogou Cláudio, apreensivo, temeroso de algum sucesso nefasto.
— Hoje, não. Amanhã, porém, podereis cientificar-vos do que se trata, e, então, virei, à noite, aconselhar-vos. Estamos a postos, protegendo-vos!
Após este breve diálogo, Dioneia voltou à realidade, e dentro de poucos momentos todos adormeceram profundamente até o dia imediato.
Mais por intuição do que pelos primeiros rumores da metrópole da Dalmácia, Cláudio conjecturou que, então, a noite já havia terminado, e estava ansioso pelo decorrer do dia, a fim de inteirar-se dos acontecimentos augurados para aquela data, por intermédio do Emissário da região dos desencarnados.
Dioneia conservou-se, porém, mergulhada em indómito torpor, e foi mister que seu esposo a despertasse.
— O sono desta noite que findou (não sei se pela fadiga da viagem) me empolgou totalmente!
Dir-se-ia que não poderia despertar, por mais esforços que fizesse!
Estive em um local misérrimo e nele vi duas pessoas que custei a reconhecer, pois me pareceu que haviam envelhecido de um século!
— Quem eram essas criaturas? — interpelou Cláudio com incontida curiosidade.
— Meus primeiros sogros.
— Quem sabe se os encontrarás, hoje?
— Tudo é possível suceder, Cláudio. Soube, porém, que ambos estão residindo em Roma, onde têm parentes abastados.
O dia transcorreu alegremente.
Lúcio e Ismael estavam maravilhados com os edifícios de diversões, com os templos, que atraíam diariamente centenas de adeptos, e bem assim com as casas comerciais, que ambos nunca haviam visto.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 04, 2018 10:11 am

Os dois estavam ansiosos por ouvir uma orquestra dirigida por algum famoso maestro, e Dioneia, compreendendo-lhes os intuitos, prometeu que os levaria ao mais célebre teatro de Zara, o Apoio, cujo rendilhado frontispício era uma verdadeira e primorosa escultura de arquitectos gregos.
À noite, efectivamente, dirigiram-se os recém-chegados para o teatro onde seria representado um drama, por artistas florentinos.
Quando iam entrar na casa de espectáculo, observaram algumas criaturas de vestes humílimas, estendendo as descarnadas mãos à caridade dos que iam fruir emoções artísticas.
Subitamente, Dioneia notou a presença de um ancião, e quando dele se aproximou não pôde conter uma aflitiva exclamação:
acabava de reconhecer, entre os mendigos, Márcio Taciano, o genitor do seu inolvidável Marcelo.
Assustado com o grito de Dioneia, Cláudio, que se encontrava a seu lado, interrogou-a, com o coração vibrando de inaudita inquietação:
— Que tens? Estás sentindo alguma dor?
— Não! — respondeu ela, com a voz trémula, atenuando-a para evitar a curiosidade popular.
Parece-me haver reconhecido o ex-senhor do Solar do Cisne, implorando um óbolo à caridade pública!
Estou perplexa!
E, assim falando, premindo o braço esquerdo de Cláudio, contemplava um ancião, de compridas barbas de neve, tão brancas quanto os cabelos, mal coberto de farrapos.
A piedosa castelã, ao vê-lo, fixou o olhar e, após, quando já lhe tocava a mão esmaecida com a sua, para dar generoso óbolo, não pôde sustar novo grito de surpresa:
— Márcio Taciano!
— Dioneia Isócrates! — exclamou ele, também revelando nos olhos espanto indizível.
Paralisados, um em frente ao outro, ele andrajoso, ela com as vestes apuradas, a decrepitude e a mocidade, a opulência e a penúria; ambos, defrontando-se, dir-se-ia estavam transformados em duas estátuas marmóreas.
Os meninos, quedaram-se interditos, Cláudio Solano agitado por convulsivo tremor, que lhe paralisara o andar, ouvindo a dupla exclamação, perguntou à esposa, com a voz alterada por intensa emoção:
— Encontraste, de fato, Márcio Taciano?
— Sim, ei-lo, aqui, mendigando esmola dos que se aproximam do Teatro Apoio! — confirmou Dioneia, em voz baixa.
— Retiremo-nos deste local, Dioneia! — ordenou Cláudio, com energia.
— Não! Cláudio!
Meu coração nunca se fechará, à hora da penúria (que já sofri também), àqueles por quem fui socorrida.
— Acaso se comoveu ele com as tuas desventuras, quando morreram teus protectores — pai e irmão?
— Nunca me vingarei, Cláudio!
Não me vingarei de alguém que se encontre em horas de amargura, em instante de inaudito sofrimento!
Perdoo o mal recebido pelo bem que o antecedeu!
Quero inteirar-me da surpreendente e dolorosa realidade!
Assim dizendo, deixando por momentos de amparar o esposo, Dioneia abeirou-se de Márcio Taciano e lhe falou com emoção insofreável:
— Perdestes vossos haveres?
Qual o destino de vossa esposa, mãe do meu inesquecível Marcelo?
— Ainda te recorda dele, ligada a outro homem?
— Sim! — falou ela, em segredo, mas com energia.
Eu me aliei ao único ser que se compadeceu de meus infortúnios!
Foi Cláudio quem me estendeu a mão, em horas de inesquecíveis padecimentos!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 04, 2018 10:11 am

Se não houvesse ele me amparado, eu teria sido levada ao suicídio.
Além disso, tem sido desvelado pai para o meu adorado Lúcio!
— Lúcio! disseste?
Acaso não morreu ele, como me afirmaram, antes que tomasse a deliberação de dispor de nosso solar?
— Não! ei-lo! — disse Dioneia apontando com a destra o filhinho, e fazendo com que se aproximasse, e bem assim Ismael.
Ao observá-los à luz da iluminação externa do Teatro, não compreendeu o que seus olhos viam:
um quase formoso adolescente, louro e esbelto qual o era Dioneia, e outro, trigueiro e impressionantemente parecido a Marcelo, morto havia precisamente doze anos antes.
— Diz-me... Dioneia... se este é o filho de meu amado Marcelo? — perguntou o ancião, apoiando a destra sobre a fronte de Ismael e abalado por incoercível soluço.
— Não! Este é um filho adoptivo, um orfãozinho, que perdeu a genitora ao nascer, e encontrou guarida em nosso lar e em nossos corações!
Vamos afastar-nos deste local para evitar prováveis curiosidades, e podermos, então, falar livremente.
Retomando um dos braços de Cláudio Solano, Dioneia, seguida pelos dois meninos e pelo velho sogro, afastaram-se todos da resplandecente casa de diversões.

(1) Héctica — tuberculose pulmonar.
(1) Elêusis — Cidade de Ática (Grécia) a N.O. de Atenas, onde existia um templo de Ceres, em que se celebravam os mais famosos mistérios (sessões espiritas) da Grécia.
(1) Asclepíades — Célebre médico grego, 124-40 a.C.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 04, 2018 10:12 am

LIVRO OITAVO - LUTAS E CONQUISTAS ESPIRITUAIS
Márcio Taciano não cessava de contemplar, com olhos lacrimosos, o rosto de Ismael, cujos traços fisionómicos eram a semelhança dos do inolvidável filho, cujo dramático passamento trouxera em consequência tantos infortúnios morais e materiais.
— Precisamente ao que se parece com Marcelo não posso chamar de neto, Dioneia!
Quanto o Destino é impenetrável, Deus!
— A Natureza muitas vezes nos desnorteia, Márcio Taciano, para demonstrar uma verdade incontestável! — exclamou Dioneia.
Não devemos, pois, duvidar da lealdade dos que nos cercam, porque não raro pretensos criminosos são inocentes, e os que julgamos inculpados são os verdadeiros delinquentes!
Estas duas crianças, para mim queridas, Lúcio e Ismael, filhos de mães diferentes, são verdadeiramente irmãos pelo Destino, porque suas almas se aliaram por vínculos de luz.
Justamente o que não é filho de Marcelo lhe reproduz as feições, com absoluta fidelidade!
— E, no entanto, Dioneia, deves ter percebido que toda a nossa desventura teve origem na dissemelhança de Lúcio com Marcelo!
— murmurou Márcio, com os olhos sempre orvalhados de lágrimas.
— Tudo compreendi, Márcio, e muito sofri moralmente com a injustíssima suspeita.
Tudo, porém, entreguei às mãos luminosas de Jesus, implorando-lhe Justiça e para fazer que seja patenteada a verdade.
— Já foste, quase, plenamente atendida Dioneia! — exclamou o ancião, alçando o braço direito ao Céu.
Fui levado, contra a minha própria consciência, a pactuar com a difamação que a infortunada Geleira urdiu contra a tua fidelidade, e agora vou confessar a realidade condenável:
vendi, simuladamente, o Solar do Cisne, a um sobrinho de minha esposa, que apenas nos entregou uma parcela mínima do seu valor, ficando de dar-nos o restante dois anos após a posse do castelo, o que não fez, nem fará jamais!
Quando, feita a cessão completa dos nossos direitos de propriedade, confessando uma dívida inexistente, solicitei o restante do que me devia, ameaçou-me com o cárcere, porque estava de posse de uma escritura de propriedade, legalizada.
Em realidade, só me foi entregue menos da décima parte do que nos pertencia.
Não pude promover a anulação da venda do solar, porque seria patentear a minha falta de probidade.
Atribuo o desmoronar total de nossa prosperidade a esse acto indigno de almas nobres! Tudo quanto nos tem sucedido atribuo ao crime que cometi, levado por minha desditosa consorte, que, tardiamente o reconheci, havia muito estava com as faculdades mentais desequilibradas, desde a terrível tragédia que infelicitou o nosso lar outrora tão afortunado!
Antes de decidir a venda do Solar do Cisne, informaram-me de que Lúcio havia morrido subitamente, e foi essa notícia que me conduziu à condenável fraude.
Não necessitas ser vingada, Dioneia.
Temos curtido fome e frio, abaixo de cães sem dono! Compreendes o que temos padecido?
— Sim... e Jesus me inspire para que vos perdoe e auxilie a vencer a dolorosa batalha da vida, como se o fizesse a dois desventurados irmãos!
O pão que desejaram tirar-me e ao meu inocente Lúcio, nunca me faltou, por mercê do Alto, e ainda o temos tido de sobra para distribuir aos que o não possuem.
Percebo tudo quanto nos sucedeu: fomos atingidos pela engrenagem do Destino.
Foi isso que nos aconteceu.
Onde se encontra Geleira?
Quero vê-la, Márcio Taciano!
— Talvez não tenhas a precisa coragem de penetrar no sórdido pardieiro onde nos abrigamos, Dioneia!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 05, 2018 9:26 am

Ontem, ao virmos estender a mão à caridade, caiu ela inanimada, pois, havia muito que curtíamos fome e frio.
Levei-a a custo, quando recobrou os sentidos, auxiliado por um companheiro de infortúnio, para o desconfortável pardieiro onde nos acolhemos.
Desde então, está delirando e, por diversas vezes, pronuncia os nomes de Marcelo e Lúcio, ora pedindo-lhes perdão, ora implorando que se aproximem do seu leito, para que possa morrer tranquila, abençoando-os!
— Levai-nos, domine, ao local em que se encontra a infortunada Geleira!
Aprendi a amar os infelizes e desamparados.
— No instante em que acedi a uma infame proposta, dispondo do castelo, não devia ter olvidado que mesmo fosse Lúcio filho bastardo — dando crédito a uma indigna calúnia — era uma criança desprotegida, da qual devia ter-me compadecido.
Antes de atender ao teu generoso rogo, quero ouvir a palavra deste que se acha a teu lado, e que custei a reconhecer, ficando em dúvida se é ou não Cláudio Solano.
— Sim, sou como que o espectro do infortunado senhor do Solar da Galileia, e sem outro desejo que o de satisfazer às nobres aspirações de Dioneia — respondeu Cláudio, enxugando o pranto que lhe gotejava dos olhos apagados.
— Lamento muito a vossa desdita, senhor, disse-lhe Márcio; mas, não sei quem mais haja sofrido.
A cegueira é preferível à miséria em que me encontro há um decénio!
— Eu digo o contrário, senhor, pois a opulência, sem a visão, é semelhante a tornar-se miliardário na penumbra de um calabouço!
— Ambos têm razão no confronto de suas desditas; mas, esqueceram que há um lenitivo inigualável, um eterno bálsamo para todos os que sofrem: a Fé — falou a castelã fitando os dois interlocutores.
— Cláudio Solano deve ter padecido menos do que eu, Dioneia — repetiu Márcio, emocionado — porque tem um lar, e eu vivo em trevas compactas desde o passamento de meu extremoso filho, e perdi o Solar do Cisne.
— Deixemos o passado que morreu definitivamente para a condição humana.
Desejo que me leveis, sem detença, ao local onde se encontra Geleira! — disse a castelã, aproximando-se do sogro.
— O pardieiro em que nos abrigamos é indigno de visitantes! — respondeu o ancião, vexado.
— Enganai-vos, Márcio:
não há local onde não possa entrar quem tiver Jesus dentro da alma — falou Dioneia, com energia e bondade.
Depois, fitando Lúcio, murmurou, brandamente repreensiva:
— Ainda não abraçastes o filho de Marcelo, do qual estivestes longamente separado, Márcio!
0 ancião, comovido, enlaçou os braços trémulos nos ombros dos dois meninos, com grande e muda emoção.
Dioneia, dirigindo-se aos meninos, disse, com a ternura que lhe era peculiar:
— Meus queridos, não podemos hoje ir ao teatro.
Amanhã, sem falta, iremos.
— Está ameaçando chuva, Dioneia — falou Márcio, interrompendo-a — e onde me acolho é longe.
Amanhã, às oito horas, aqui vos esperarei para vos levar ao meu tugúrio.
Não priveis estas crianças de alguns momentos de felicidade, tão raros para eles.
— Não; resolvi ir, hoje, visitar Geleira.
Aprestai uma sege para nos conduzir.
Após uma hora de percurso, tendo-se afastado do centro populoso, em região sombria, perto das ruínas de uma habitação de proporções gigantescas da qual ainda existiam alguns compartimentos habitáveis, Márcio avisou os itinerantes de que haviam atingido o ponto culminado.
O palafreneiro ficou à espera dos que conduzira em modesto veículo, e, por solicitação de Dioneia, cedeu-lhe a lanterna dianteira da sege para que todos pudessem chegar ao pardieiro de Márcio.
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 05, 2018 9:26 am

— Estais residindo nestas ruínas, Márcio? — indagou Dioneia.
— Sim, nestes escombros, semelhantes aos de minha vida.
— Sim, Márcio.
O Destino representa a sabedoria e a Justiça de Deus.
— Só agora apreendo o valor das tuas palavras, nas horas de inspiração, no Solar do Cisne, pois vivem dentro de meu coração, qual indelével sonho.
Depois de alguns instantes de silêncio, tendo tomado a dianteira dos visitantes, voltando-se para Dioneia, disse o ancião:
— Vê a penúria a que chegamos.
E, assim falando, apontava os escombros, mal entrevistos à luz da lanterna.
Vencidas sérias dificuldades, mormente por Cláudio que, além de cego, caminhava sem segurança, tropeçando nas pedras do caminho, chegaram ao local desejado, a ouvirem uma voz incisiva, alterada pela dispneia.
Márcio entrou em escuro aposento e, empunhando a lanterna que os iluminara durante a viagem, com a voz triste e transtornada pela emoção, disse:
— Geleira, venho em companhia de Dioneia...
— Disseste Dioneia... Márcio?
Enlouqueceste acaso?
Não sabes que morreu num incêndio, com todos os parentes? — exclamou a anciã, com os olhos esgazeados de pavor e ansiedade.
— Esqueceste a realidade, Geleira!
Não foi Dioneia quem morreu, e sim seu pai e seu irmão!
— Não foi o que revelou meu sobrinho, quando se apoderou de nosso Solar.
Afirmou ele que todos haviam sido vítimas do incêndio!
Que vejo?! Márcio, onde encontraste Marcelo, para no-lo trazer ao leito mortuário?
Diz! diz! Quem são estes que vieram contigo?
— Acalma-te, Geleira — tornou Márcio, mal sustendo as lágrimas que lhe afluíram aos olhos e deslizavam pelas faces esmaecidas pelo sofrimento.
Tive a felicidade de reencontrar Dioneia, Cláudio Solano, hoje seu consorte, e seus filhinhos, que residem no Solar das Sereias.
— Disseste o Solar das Sereias? Não me lembro mais dele...
Ai! Sim, sei onde fica... foi perto que mataram nosso adorado Marcelo.
Como, agora, ele está aqui, novamente criança, junto do meu leito?
Deixa-me abraçá-lo!
Deixa-me apertá-lo nos braços!
Quanto tenho sofrido por ti, Marcelo!
Assim falando, a enferma fez esforços inauditos por movimentar-se e sentar-se no leito, mal coberto de farrapos; mas, não o conseguindo, ergueu os braços lívidos em direcção a Ismael.
— Aproxima-te da cama, Ismael — ordenou brandamente Dioneia — e abraça aquela mulher.
Uma crise de emoção abalou o íntimo da infortunada matrona que, repentinamente, caiu sobre a almofada do catre, e, como se unicamente aguardasse a chegada daqueles que ali se encontravam para render a alma ao Criador, esgazeou os olhos, fitos no pálido rosto de Ismael, e falou arquejante, sem conseguir abraçá-lo:
— Eu te esperava... há muito para que visses... quanto temos sofrido... por tua causa!
Vês a miséria a que chegamos, filho meu?
Tudo... Tudo... porque mataram... nosso querido Marcelo!
Vê... a penúria de nosso lar destruído...
Maldito... seja... eternamente... o teu assassino!
— Geleira! Geleira! — murmurou Dioneia, abeirando-se do tosco leito, desejosa de lhe mudar o curso das ideias.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 05, 2018 9:26 am

Não leves para uma vida melhor tanta odiosidade no coração! Perdoa.
Esquece o passado, lembrando-te do Criador e Pai!
— Que viestes... fazer... aqui? — tornou Geleira ofegante.
— Geleira — disse Márcio Taciano — aqui estão Dioneia, Cláudio Solano, o nosso netinho Lúcio e um amiguinho que vieram visitar-te!
Não os reconheces?
— Cláudio... Dionéid... não foram eles que nos fizeram... assim desgraçados?
Ali está o punhal maldito... ouviste, Márcio?
Nunca o abandones, nunca!
Quero que o tragas sempre contigo... até o dia... em que penetre ele no coração do maldito... assassino!
— Ela delira! — exclamou o ancião, tentando atenuar o efeito das palavras da sua agonizante companheira.
— Não! não! — repetiu ela, esforçando-se vãmente por soerguer-se no leito.
Quero morrer... na miséria... mas não... perdoar aos que nos desgraçaram!
Esperava... apenas Marcelo para mor...rer!
Eu... odei...o!
A derradeira expressão foi pronunciada com a voz completamente conturbada, e logo após rubra golfada lhe jorrou dos lábios, com um súbito inteiriçar dos membros extremos; abriu os lábios para pronunciar algo que desejava, com os olhos desmesuradamente descerrados e fixos em Ismael, não conseguindo mais manifestar os pensamentos, desprendeu esse profundo suspiro de quando se produz a separação total do espírito.
Então, imobilizou-se.
Acabava de expirar a infortunada Geleira.
Há nesses instantes inesquecíveis, na presença de um cadáver, a prova evidente de que um ser querido subitamente passa por uma verdadeira metamorfose, parecendo, aos que ficam no plano material, que se extinguiram todas as esperanças e ilusões da vida planetária.
No entanto, essa incerteza é motivada por um insuficiente conhecimento da vida extratumular, e, pode-se dizer, com plena convicção, estar alguém pronunciando esta verdade insofismável:
—"Aqui está consumada uma das páginas da infinita odisseia da alma, ou um capítulo da infinda novela da existência humana.
Aqui jaz apenas o despojo de uma das batalhas, vestes rotas que em breve se metamorfosearão, no sepulcro, em vermes repulsivos!
Aqui existe o que era imprescindível à campanha da vida material, um dínamo paralisado pela ausência do mecânico invisível que o impulsionava!
Tendo partido a encarcerada invisível — a Alma — que vivificava todo o organismo, que impelia o coração e o sangue, que fazia trepidar o cérebro — onde se centralizam todas as actividades pensantes, tudo está consumado para a matéria que vai dissolver-se, em contacto com a terra do solo, outro laboratório activo da triunfante Natureza!
Aqui estão intactos todos os órgãos e vísceras; mas, algo lhes falta, algo que, sem deixar vestígio, ocasionou a cessação de todos os fenómenos vitais.
Aqui está o nada que, por algum tempo, aprisionou uma fagulha divina; o espírito imperecível e eterno."
Sim, prosseguimos nós, o nada se consorcia com o perene, o corpo e o espírito!
Enquanto um tomba no sepulcro (tal a armadura de um cavaleiro cai no campo de batalha, ao finalizar o derradeiro golpe), o que era invisível e imperceptível durante a vida planetária — alma — o sopro divino se alia às falanges que o aguardam no plano etéreo, reconstitui sua individualidade, entra em outra fase da vida real de duração ilimitada.
É a hora da realidade inconfundível: o espírito, o peregrino do plano terrestre, revestido de ossos e de músculos, não pode mais ostentar a máscara da hipocrisia ou de uma farsa ilusória; apresenta-se perante quantos o vêem na sua plenitude moral: com as vestes tecidas por suas próprias acções, benéficas ou perversas, formando um conjunto de neblina alva, radiosa ou cheio de trevas, conforme foi um justo ou um verdugo!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 05, 2018 9:26 am

Outras vezes, algumas almas têm a contextura dos novelos de fumo negro expelido das crateras dos vulcões, e, outras, a diafaneidade das brumas das mais elevadas serranias, toucadas da fulguração das estrelas ou a do Apoio sideral — o Sol.
A desditosa Geleira, que passara por uma rude prova, não teve a precisa resignação, revoltou-se contra o Destino, e daí o fracasso, a penúria extrema a compeliu e ao companheiro à humilhante mendicância, que ambos consideravam dolorosa degradação! Houve dias em que, sentindo-se enferma, mas, obrigada a erguer-se do leito, para implorar a manutenção sua e do consorte, além dos mais plebeus misteres do lar, teve ímpetos de suicídio.
Não o fez, devido aos conselhos cristãos que lhe dera o esposo, a quem convidara para partirem juntos, rumo ao desconhecido, ou antes ao sepulcro, para remate de todas as penas.
— Cometerias uma segunda loucura, Geleira! — exclamara Márcio, em resposta à fúnebre proposta.
Vamos suportar, cristãmente, todos os tormentos morais que nos têm atingido, talvez por tentarmos fraudar os herdeiros do nosso solar.
— Não importa Márcio! Prefiro a miséria, as maiores desventuras, a permitir que o nosso castelo passe aos assassinos do nosso filho!
— Nada há que confirme as tuas injuriosas suspeitas, Geleira, e, mesmo que fossem reais as tuas suposições, não deveríamos ter lesado o nosso neto.
— Neto? Aquela criança confirmou o crime do adultério:
não viste que é louro, tal qual o infame Cláudio?
— Não sejas injusta, Geleira.
A criança se parece, insofismavelmente, com a própria mãe! Não há leis infalíveis para o atavismo ou hereditariedade, salvo os caracteres de duas raças diametralmente diferentes — a branca e a preta, ou a caucásica e a africana!
Os caucásicos são justamente os que apresentam a maior diversidade de tipos; alguns membros da mesma família, e muitas vezes os próprios irmãos, diferem completamente uns dos outros, têm aspectos vários, altura e inteligência diferentes!
Não podemos, pois, saber ao certo quais são os característicos físicos da mesma família:
às vezes, de ascendentes nobres, nascem criaturas que contrastam, integralmente, com a sua excelsa estirpe; são verdadeiros monstros, morais e corporais, que enodoam o nome de seus parentes ou vaidosos ancestrais.
— Pois bem, se não agimos de acordo com o Direito romano, vendendo simuladamente o solar, para que ela e o filho nada pudessem herdar, se algum dia for patenteada a verdade, sacrificarei a própria vida.
— Não quero enegrecer a minha alma com a responsabilidade dessa suspeita, sem provas esmagadoras. Isso será crime.
— Crime, disseste, Márcio? — prosseguiu a infeliz Geleira.
Muito maior não foi o dela, consentindo que fosse imolada a vida de nosso filho?
Começou para aqueles dois desolados anciãos uma verdadeira Via Crucis de decepções, de humilhações, chegando ao extremo da falta de recursos para a sua manutenção, sendo compelidos a recorrer à caridade pública, até que, na véspera da noite em que Dioneia e a família chegaram à capital da Dalmácia, caiu exânime a pouca distância de um antigo templo católico que, primitivamente, antes da era cristã, fora dedicado a Júpiter.
Voltemos, porém, às cenas do recinto onde ocorrera o desprendimento do atribulado espírito de Geleira.
Após as explosões de dor, que dominam sempre os seres amigos dos que se libertam da matéria, há o pungitivo silêncio que avassala os corações em funeral.
Márcio, à beira do humilde leito mortuário, fitava a infortunada companheira de lutas planetárias, sentindo um verdadeiro vácuo dentro de si, na própria alma afectiva.
Dioneia, com solicitude, dera as necessárias providências para o enterramento, que foi realizado com modéstia.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 05, 2018 9:27 am

Conveniente auxílio monetário foi dado a Márcio, que agradeceu, qual dádiva do Céu, o precioso socorro que lhe fora dispensado, e à falecida esposa, por Dioneia e Cláudio Solano.
O desolado castelão murmurou, em pranto, fitando os dois protectores:
— Foi Jesus quem, compadecendo-se de nosso intraduzível sofrimento, nos enviou ao lar os que podiam socorrer-nos, filialmente!
Se não fosse a presença e o auxílio que nos dispensastes, Cláudio e Dioneia, a pobre Geleira teria sido levada à vala comum, coberta de farrapos!
Se tal houvesse sucedido, amanhã, em vez de um cadáver, aqui encontrariam dois!
— Sirva-nos a lição para todo o sempre, Márcio! — falou Dioneia, comovida.
Jamais, em hipótese alguma, devemos entregar-nos ao desespero, à falta de coragem nos instantes de embates morais, por mais acerbos que sejam!
Jesus não abandona as suas ovelhas, mesmo as desgarradas do Redil Celeste.
— Acaso não fiquei mais abandonado ainda sobre a Terra, sem a companheira desta angustiosa existência, Dioneia?
— Não, Márcio; ireis connosco para o Solar da Galileia, que é antes um abrigo para os que desejam trabalhar ou viver fraternalmente, de acordo com os ensinamentos de Jesus!
— Não mereço tanta generosidade, Dioneia, pois, pelo meu proceder, não devo receber o teu perdão.
É preciso sofrer mais e morrer na miséria, ser atirado à vala comum, para remir o delito que pratiquei.
— Basta o arrependimento profundo do erro cometido.
— É preciso saber se teu esposo está de acordo contigo, Dioneia — tornou o ancião.
— Eu concordo em tudo que a mais generosa das criaturas humanas resolver, Márcio! — exclamou Cláudio.
O convite de Dioneia foi finalmente aceito por Márcio Taciano, sinceramente arrependido.
Assim decorreram alguns dias, consagrados à compra de tudo quanto Dioneia desejava dar aos habitantes do Solar da Galileia, isso depois de ter ido, com o consorte e os meninos, aos principais logradouros públicos, e deleitado o espírito com algumas audições musicais.
Afinal, foi deliberada a volta ao alcançar.
No dia em que resolveram regressar ao lar, Cláudio falou à consorte, entristecido:
— Dioneia, o doloroso e inesperado acontecimento que presenciamos, há poucos dias, sugeriu-me uma grave resolução a tomar; pensei, como nunca o fiz, na minha partida para o Mundo desconhecido... da Morte!...
— Onde nos aguarda a punição ou o prémio de nossas acções terrenas, Cláudio — concluiu Dioneia, com tristeza.
Que deliberaste, sugerido pelo que ocorreu?
— Aproveitarmos a nossa estada em Zara para regular tudo quanto possuímos no solar.
Quero dispor de tudo em teu benefício, de Lúcio e Ismael.
— Cláudio, mostras com esse proceder generosidade de sentimentos.
Mas, podes acaso prever o teu desprendimento espiritual antes de mim?
— Por inexplicável intuição.
— Não desejo, Cláudio, que julgues ter eu menos desprendimento das coisas materiais: faremos doação aos dois entes queridos que mencionaste; mas, não esqueçamos os que nos têm servido com dedicação, e também Márcio Taciano.
Assim, amigavelmente foi deliberado que, por morte dos cônjuges, tudo ficaria pertencendo legalmente a Lúcio e Ismael, sob a tutela de Márcio Taciano, na hipótese de este sobre existir.
Alguns dias transcorreram na famosa capital.
Dioneia comprou o que pretendia para seu lar, e estava prometido aos que mourejavam no castelo.
Ficou depois resolvido o regresso, que se fez normalmente.
Márcio Taciano mostrava--se apreensivo.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 05, 2018 9:27 am

Hora houve em que disse a Dioneia:
— Seria preferível morrer ao abandono, do que voltar àquele local: alquebrado e humilhado, é um suplício aproximar-me do indigno sobrinho de Geleira, Sertório Galeno, porque desejo reaver o que me pertencia, para restituir ao legítimo herdeiro tudo quanto foi usurpado.
— Não vos preocupeis mais com o que sucedeu Márcio — falou Cláudio, emocionado.
Quando eu e Dioneia baixarmos ao túmulo, ele e Ismael serão os proprietários do Solar da Galileia, sob vossa direcção!
— Há ocasiões em que me parece, tal como aconteceu a Geleira, vou também enlouquecer, contemplando as feições de Marcelo reproduzidas nas de Ismael.
Quão enigmático são os desígnios do Destino humano!
— Entreguemos às mãos do Mestre dos mestres a solução de todos os arcanos da existência, pois, melhor do que nenhum outro matemático, Ele os resolverá! — falou Dioneia.
Foi assim palestrando, amistosamente, que terminou a jornada de retorno.
Chegando ao Solar da Galileia, reformado e aformoseado sob a direcção de Dioneia, Márcio, ao ouvir as harmonias que se desprendiam da harpa e da lira, dedilhadas em sua intenção pelos dois meninos, exclamou emocionado:
— Meus filhinhos, sois dignos do meu eterno reconhecimento!
Não distingo o legítimo neto daquele que se tornou seu irmão e verdadeiro amigo, pelo Destino, sempre surpreendente!
Mas, é estranha a semelhança de Ismael com o nosso idolatrado Marcelo!
Como se reproduziram, em desconhecida família, os característicos físicos de outra, que supomos pertencentes à nossa?
Porque Lúcio não se assemelha ao extinto genitor?
— Domine — respondeu-lhe a castelã que se achava presente — tudo nos demonstra a verdade das Leis dos renascimentos, ou da Palingenesia:
o regresso da alma à vida carnal.
É a alma, e não a matéria, que atua na reconstituição dos organismos físicos.
Não se elucida de outra forma a semelhança de Ismael com o inolvidável Marcelo, assassinado três anos antes de seu nascimento, e que, saudoso do lar que fora seu, regressou ao nosso, para que se perpetue a nossa imorredoura afeição, que é recíproca!
— E por que não te lembraste de lhe dar o mesmo nome do adorado extinto?
— É que Ismael, logo ao nascer, não podia mostrar ainda a semelhança fisionómica que só mais tarde revelou.
A ignorância humana não permite que a verdade excelsa seja desvendada como que em um palco teatral à hora em que se ergue o velário.
Temos ainda vacilações que confundem a mente:
há percepções que escapam à nossa inteligência, ainda falha, ou indiferente, aos magnos enigmas que se relacionam com a nossa própria vida; mas, a verdade será patenteada ao escoar da Eternidade!
A ciência terrena os tem desprezado, e os que tentam dar-lhes uma condigna solução são apedrejados ou forçados a sorver o cálice de cicuta de atrozes padecimentos, como sucedeu a Sócrates, ou crucificados como fizeram a Jesus e a alguns de seus discípulos, Arautos da Fé, da Imortalidade e da Redenção de nosso próprio espírito!
"Os enigmas da vida humana, porém, mais tarde, terão lúcida interpretação:
há-de soar o momento em que será vibrado o clarim áureo da Verdade, em que hão-de ser desvendados, por meio de uma equação divina, o passado e o futuro de cada ente humano, e, então, um caso qual este que ora nos prende a atenção — o renascimento de Marcelo na pessoa de Ismael — será logo definido, se não o julgássemos já desvendado, observando a afeição, mais do que fraterna, existente entre estes dois seres queridos, que nossos olhos contemplam com amor infinito — Lúcio e Ismael!
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 05, 2018 9:27 am

"Dir-se-ia que nasceram no mesmo instante, sob o mesmo tecto!
Que digo eu, porém?
Às vezes os que nascem no mesmo local, filhos dos mesmos pais, se detestam e odeiam!
Como se elucida a aversão que Geleira votava a Cláudio, desde antes do homicídio de Marcelo, acusando-o, sempre, como se o tivesse visto romper-lhe o sagrado fio da vida?
Como se decifrará o motivo da repulsa de Lúcio e Ismael contra o infortunado castelão, cujo aspecto infunde comiseração, cego e acabrunhado por uma dor moral que lhe transparece no rosto definhado e nos olhos imersos em trevas?
— É bem verdade o que observaste, Dioneia!
Quedaram-se ambos, Dioneia e Márcio Taciano, em retrospectivas reflexões.
— Diz-me, pois, Dioneia:
estás convicta de que Marcelo e Ismael formam uma única individualidade espiritual?
— Sim! — respondeu, com firmeza, a castelã.
— Quanto conforto a desventurada Geleira poderia ter fruído, com a presença destas duas encantadoras crianças, se houvesse suportado, com a devida resignação ou sem revoltas, o tremendo golpe desferido em nossos corações.
— Obscurecia-lhe a razão um amor exagerado.
Seu coração enlouqueceu, domine!
A dor que sofreu foi muito acerba.
Dias de lenitivo e paz espiritual decorreram no Solar da Galileia.
Havia trabalho para todos os seus habitantes, excepto para o infortunado Cláudio, que lamentava a sua inércia improdutiva e a sua exclusão de todas as actividades do castelo, do qual era, no entanto, senhor.
— Dir-se-ia que estou morto, faltando-me a luz dos olhos!
Escuto o ruído, ouço a vibração dos instrumentos dos artífices e a dos musicistas, e lamento não os poder acompanhar.
Só, entre todos, permaneço inútil, desocupado, dando margem a que apenas o pensamento trabalhe, flagelando-me continuamente o coração!
Porque não fica cego também o próprio cérebro, de onde jorram incessantemente ideias absorventes, ora devassando o passado sombrio, ora o futuro mais tenebroso ainda?
— É necessário que te resignes, não me cansarei de to repetir.
Saber padecer é prova de perfeição humana, tal qual no-la deu Jesus!
Os bandidos não sabem suportar o mais leve transtorno às suas aspirações ou à realização de seus planos sinistros, e, por isso, por uma palavra que o justo profere, mesmo sem intenção malévola, embebem eles em um coração palpitante de vida utilíssima a lâmina perfurante de um punhal fratricida, que o esfacela barbaramente, tigrinamente!
A dor é o modo evidente de distinguir-se o bom do perverso pela resignação ou pela violência com que é suportada.
Julgas, então — continuou Dioneia — que se não houvesses contraído um débito ante as Leis Divinas, estarias privado da luz dos olhos, qual o nauta em alto mar, proceloso, da de um farol salvador?
Márcio Taciano, o venerável ancião andava seriamente preocupado, porque soubera, por um campónio, residente no castelo que lhe pertencera, estar o fraudulento parente de Geleira irritado com a sua presença no solar vizinho, e que ordenara a um fâmulo dizer a ele, Márcio Taciano:
— "Se tentar a reivindicação de qualquer direito, que julgue assistir-lhe, sua vida estará em perigo, e bem assim a de todos os que com ele convivem."
Márcio Tarciano comunicara o ocorrido a Dioneia e a Cláudio, que também ficaram apreensivos, porque sabiam que o falso senhor do Solar do Cisne tinha proceder pouco edificante, era despótico, sem probidade, e os que com ele tratavam viviam intranquilos, receosos sempre de lamentáveis sucessos.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 05, 2018 9:27 am

Um acontecimento, que poderia passar despercebido, aumentara as apreensões do ancião:
o punhal que Geleira lhe pedira jamais abandonasse, estava colocado em um móvel do aposento que ocupava, e, pela manhã daquele dia em que Dioneia e o esposo haviam palestrado longamente sobre temas transcendentais, notara ele sua falta.
Interrogou os fâmulos, prometeu gratificar a quem descobrisse o paradeiro da arma fatal; mas não logrou qualquer vestígio do desaparecido objecto.
— Foi até ventura a desaparição do fatídico punhal! — exclamou Dioneia, tentando desvanecer os desagradáveis pensamentos de Márcio Taciano.
A presença daquela arma homicida era lembrança constante de um crime que entenebreceu os nossos corações.
— Dizes isso para atenuar minhas apreensões, Dioneia, respondeu o ancião — mas, no íntimo, pensas igual a mim:
a desaparição do punhal maldito é prenuncio de novos dissabores!
— Esse realmente foi o primeiro pensamento que me ocorreu, domine, quando soube do sucedido; confio, porém, agora e sempre, na Justiça Celeste.
O próprio Jesus, à hora em que se lhe apresentou o cálice de amarguras, implorou que fosse afastado, pois o sabia repleto de angústias; mas, compreendendo que era preciso sorvê-lo, o esvaziou até à derradeira gota.
Nós temos de imitá-lo, porque não somos mais dignos da complacência suprema do que o fúlgido Mensageiro, padrão imortal pelo qual temos de guiar os nossos passos, os nossos ideais, as nossas aspirações, os nossos deveres, para triunfo espiritual definitivo!
Ninguém foge ao Destino, domine!
Entreguemo-nos às mãos luminosas de Jesus, suceda o que suceder.
Sem que ninguém pudesse elucidar o que se passava na penumbra do embuste e da aleivosia, todos os habitantes do Solar da Galileia começaram a viver em ambiente de intraduzíveis inquietações.
Já, então, havia decorrido mais de um ano depois que Márcio Taciano chegara da capital da Dalmácia, e sempre entristecido meditava sobre o passado doloroso.
A criatura humana tem, no transcurso de sua existência material, efémeros instantes de ventura e longos períodos de infortúnio, sendo a Dor quase incessantemente sua fiel companheira.
A criatura concebe projectos de felicidade futura, trabalha e esforça-se para conquistá-la; mas, o sofrimento supera as alegrias, que desaparecem no oceano profundo das amarguras, porque é na forja incandescente da Dor que se enrija a têm pera das almas, e no cadinho ardente das lágrimas se despojam elas dos detritos do Mal, a fim de que tenham a consistência e a pureza dos diamantes divinos, lapidados pelo buril mágico da Virtude, do Dever, do Labor.
A criatura humana aspira à serenidade espiritual, aos dias tranquilos, à harmonia dos lares; mas — ai dos pobres delinquentes ergastulados na masmorra terrena! — toda a ventura mundana é um estacionamento no progresso psíquico, enquanto que o sofrimento, nobremente suportado, é um impulso do espírito para as regiões ditosas do Universo, onde têm guarida os libertos do Mal, os conversos ao Bem definitivo e perene!
A alma, qual Legionário divino, carece de lutas e de labores, a fim de revelar a sua combatividade, as suas faculdades de resistência e os méritos adquiridos em centenas de pelejas morais.
Por isso, saber sofrer é a Ciência do Justo, do vitorioso do Mal, do redimido, enfim!
Sofrer é acelerar o progresso espiritual, é incentivar a alma para as batalhas renhidas que recobrem de glórias imarcescíveis os mais corajosos combatentes, e cujos triunfos consistem na Virtude, na mansuetude, no trabalho honesto, no sacrifício, na abnegação, no amor ao próximo!
Tempos de paz haviam decorrido no Solar da Galileia, até à chegada de Márcio Taciano, cuja presença gerara desinteligência alarmante entre os habitantes do castelo e os do que lhe ficava vizinho, e pertencera ao ancião.
O salão onde se realizavam as preces cristãs, instalado no andar térreo, mereceu especial dedicação de Dioneia, que o tornara digno da atenção dos habitantes do solar, não só pelo relativo conforto que lhes proporcionava, mas também pelo cunho artístico que revelava.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

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Uma noite, após as refregas do dia, entristecida, Dioneia dirigiu-se para ali, como era hábito.
Diversos assistentes já se encontravam reunidos, aguardando a palavra confortadora da inspirada castelã e a do professor ao qual estava afecta a educação dos camponeses e filhos.
Sob notável silêncio, ouviu-se a voz persuasiva da castelã, que, olhos cerrados e destra erguida, assim transmitiu a palavra de uma Entidade protectora.
— Meus amados irmãos da Seara de Jesus, orai e vigiai os próprios pensamentos.
É bem penosa a missão dos Enviados do Mestre que tomou sobre seus ombros todas as ovelhas do Mundo das Sombras e das Lágrimas!
Aproximam-se verdadeiras procelas espirituais para todos vós; mas não deveis curvar as frontes em desalento, e sim voltá-las para o Alto.
Que é a vida humana?
Apenas um átomo da Eternidade:
dura um segundo entre dois infinitos, dois oceanos incomensuráveis — o Passado e o Porvir, que se ligam por frágil e quase inexistente vínculo ao Presente, aliando-se os três, por influxo sideral, por toda a consumação dos milénios!
As trevas, neste Orbe, sobrepujam as claridades celestiais, porque, aqui, ainda se encontram os seres em início de suas trajectórias infindas, as almas imperfeitas que, aos poucos, vão dealbando, vão diluindo as caligens dos crimes perpetrados em diversas eras.
Os sofrimentos, as experiências purificadoras, os deveres nobremente cumpridos até que possam ascender aos planos siderais ou divinos!
O Emissário celeste — Jesus — nos veio patentear a Verdade deífica, e sua palavra ficou eternizada em um conjunto luminoso, que terá duração ilimitada: o EVANGELHO!
Rolarão os séculos no torvelinho da Eternidade, os homens continuarão a exterminar-se, a lutar contra os próprios irmãos, execrando-se mutuamente, porque um nasceu aquém ou além--mar ou separado por uma cordilheira, esquecendo-se de que o planeta em que vivem é seccionado apenas pelas fronteiras naturais — oceanos, rios e cordilheiras; mas, a cúpula que o encima é contínua, indivisível.
Aqui, os homens retalham os territórios, formando diversas nações; além, há somente uma Pátria para todos os redimidos, o Céu, a Pátria divina!
Há, porém, na Terra, uma região ocidental, assinalada por um Calvário de estrelas, ainda desconhecida deste hemisfério, onde se congregarão uma plêiade de Espíritos evoluídos, dos que já não se submetem às odiosidades de raças ou de castas, seres humanos amigos uns dos outros, não fazendo separações pelo local do nascimento, e sim pelos erros cometidos, procurando, contudo, conduzi-los para Deus.
Irmãos bem-amados, muito custa a vencer a batalha da vida!
Muitas vezes as armas tombam das mãos desfalecidas; mas é mister apanhá-las do solo ensanguentado, e prosseguir sempre e sempre, até que as possam entregar ao General Supremo, transformadas em gládios de luz!
Eu, que vos transmito os pensamentos por intermédio de uma nobre pitonisa, venci os mais rudes embates morais, cometi desatinos e crueldades, resolvi, depois de muitos séculos de dolorosas experiências, empunhar o gládio da Justiça, da Abnegação, do Dever e da Dor; mas confesso-vos lealmente que muitas vezes me senti esmagado por tremendas decepções, desilusões acerbas que me esfacelaram o coração.
Tenho a impressão de haver tomado parte em batalha que houvesse durado milénios.
Nem sempre, porém, empunhei armas mortíferas, e sim também as de defesa dos desditosos, dos espoliados pelos déspotas; e desde que compreendi que o Mal é o vírus que contamina a alma, e o Bem o saneador divino, não perpetrei mais qualquer falta que pudesse prejudicar o nosso próximo.
Sejamos doravante, irmãos, seguidores de Jesus, coesos pelo pensamento; não descuideis vossos deveres sociais e espirituais.
Sede defensores da Honra, da Justiça e do Dever, amigos uns dos outros, honestos e abnegados; estais laborando na Terra para receber no Céu o salário divino.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 05, 2018 9:28 am

O gozo material é a ideia dominante, a aspiração geral dos seres humanos, que desejam suplantar os adversários, cevando o ódio nas vinganças bárbaras, armando os braços dos bandidos para o extermínio dos desafectos.
E, desse modo, são ceifadas vidas preciosas, arruinando a saúde e enegrecendo as almas nas vigílias nocivas ou nos prazeres nefastos.
Esta é a norma seguida pelos que conquistam os cabedais da Terra, onde devem permanecer, e, enxovalhadas as almas, enegrecidas pelos delitos, estas se tornam conturbadas, infortunadas, misérrimas, impotentes e inúteis quais pedras de estradas desertas, águas que rolam em cachoeiras desconhecidas.
Não acuseis, pois, com severidade os vossos adversários, porque o Mal que cometem contra vós representa, às vezes, a remissão de um delito nefando, e, por isso, estais saldando, com lágrimas pungentes, uma transgressão às Leis Divinas ou humanas.
Abreviemos esse instante inestimável que soará para todos os seres humanos, uns mais depressa, outros mais demoradamente.
Todos terão, porém, a derradeira prova e a mesma vitória:
a isenção das dores, físicas e morais, a aliança eterna com os entes mais adorados, a co-participação com os arautos siderais, na consecução dos mais nobres ideais, a libertação da morte, que é um dos suplícios por que passam os Espíritos.
Dioneia calou-se por instantes, reiniciando, como se houvesse repousado, a lição do Alto:
— Porque uma criancinha, que apenas dura horas, parecendo isenta de todas as máculas, cai em um abismo, sendo, às vezes, arremessada a uma estrada deserta, pelos que deviam protegê-la, ampará-la e fazê-la feliz?
Porque um recém-vindo à Terra, inocente e cândido, nasce contorcido, cego, mutilado, deformado?
Ah! Caros irmãos, tudo isso sucede porque cada criatura possui um passado muitas vezes secular que lhe acarreta punições inevitáveis.
Porque nasce alguém sem o braço direito, parecendo decepado pelo certeiro golpe de gládio empunhado por um gigante, e assim vive infeliz, mutilado, sem poder trabalhar?
Porque outrora o teve robusto e ágil, e só o exercitou na prática de crimes, no extermínio de vidas valiosas, esquecido de que a Natureza lho havia proporcionado para o que é útil às colectividades e a si mesmo.
Porque há cegos de nascença?
Cada padecimento é o reflexo de um delito, de uma injustiça ou de uma arbitrariedade.
Todos os entes humanos anelam possuir opulência invejável.
Esta é a norma geralmente seguida pela impiedosa humanidade:
a expansão do egoísmo, a acumulação de tesouros excessivos, como se a vida fosse durar séculos no plano terreno, dando incremento à ostentação do orgulho e da vaidade.
Aqui, pois, deveis, ao mesmo tempo, ser úteis ao próximo e a vós próprios, porque assim estareis colaborando na Seara Celeste.
Agora, caros irmãos, finalizo os meus conselhos fraternos:
Preparai-vos para as ciladas dos que, faltando com os deveres de lealdade, urdem na penumbra represálias e emboscadas contra irmãos presentes.
Alguém, dentre vós, tem conivência com um autêntico adversário da Luz, e que, imbuído de ideias anti-humanitárias, ainda se compraz com a destruição dos lares, da felicidade e da vida de irmãos devotados ao altruísmo!
Preparai-vos para a defesa de vossos lares e de vossos seres queridos.
Deus vos inspirará e dará eficiente amparo.
Houve, subitamente, um rumor inesperado no recinto, frouxamente iluminado por uma lâmpada pendente do tecto, e quantos ali se encontravam reunidos ouviram a queda de dois corpos no pavimento, logo facilmente identificados:
o de um camponês e o de Dioneia.
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Re: Almas Crucificadas - Victor Hugo / Zilda Gama

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